  DICIONRIO DO
PENSAMENTO SOCIAL
  DO SCULO XX


                 EDITADO POR

       William Outhwaite
        Tom Bottomore


          COM A CONSULTORIA DE
              Ernest Gellner
              Robert Nisbet
              Alain Touraine



    EDITORIA DA VERSO BRASILEIRA
                Renato Lessa
        Professor e diretor-executivo/Iuperj
      Professor-titular de cincia poltica/UFF

  Wanderley Guilherme dos Santos
           Professor e pesquisador/Iuperj
       Pesquisador do Laboratrio de Estudos
  Experimentais (LEEX/Faculdades Candido Mendes)
Ttulo original:
The Blackwell Dictionary of
Twentieth-Century Social Thought

Traduo autorizada da primeira edio inglesa
publicada em 1993 por Blackwell Publishers,
de Oxford, Inglaterra

Copyright  1993, Basil Blackwell
Organizao editorial  1993, William Outhwaite e Tom Bottomore

Copyright da edio em lngua portuguesa  1996:
Jorge Zahar Editor Ltda.
rua Mxico 31 sobreloja
20031-144 Rio de Janeiro, RJ
tel.: (21) 2108-0808 / fax: (21) 2108-0800
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www.zahar.com.br

Todos os direitos reservados.
A reproduo no-autorizada desta publicao, no todo
ou em parte, constitui violao de direitos autorais. (Lei 9.610/98)

Todos os direitos reservados. Este e-book foi publicado com a permisso
de John Wiley & Sons, Ltd.

Traduo:
lvaro Cabral e
Eduardo Francisco Alves

Capa:
Carol S e Srgio Campante




                      CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
                Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

  D546            Dicionrio do pensamento social do Sculo XX / editado por
            William Outhwaite, Tom Bottomore; com a consultoria de Ernest
            Gellner, Robert Nisbet, Alain Touraine; editoria da verso brasileira,
            Renato Lessa, Wanderley Guilherme dos Santos; traduo de Eduar-
            do Francisco Alves, lvaro Cabral. -- Rio de Janeiro: Jorge Zahar
            Ed., 1996
                 Traduo de: The Blackwell dictionary of Twentieth-Century
            social thought
                 Inclui apndice e bibliografia
                 ISBN: 978-85-7110-345-0
                 1. Cincias Sociais  Dicionrios. 2. Sociologia  Dicionrios.
            I. Outhwaite, William. II. Bottomore, Tom, 1920-1992.
                                                                   CDD 300.3
  96-1102                                                          CDU 3(038)
                        SUMRIO


Prefcio..................................................vii
Prefcio  edio brasileira ................... viii
Introduo..............................................ix
Colaboradores........................................xiii
VERBETES A-Z ...................................1
Apndice biogrfico .............................. 807
Bibliografia geral...................................821
ndice de nomes e assuntos ................... 933
                                       PREFCIO


UM DICIONRIO do pensamento social do sculo XX deve necessariamente cobrir um amplo
espectro, das cincias sociais  filosofia, s teorias e doutrinas polticas, s idias e aos
movimentos culturais alm de considerar a influncia das cincias naturais. Foi esse vasto
domnio que procuramos abranger ao convidar especialistas de diversas reas para elaborar os
verbetes da presente obra: em primeiro lugar, os conceitos fundamentais representados no
pensamento social; em segundo, as principais escolas e movimentos; e, em terceiro, aquelas
instituies e organizaes que se revelaram objetos privilegiados da anlise social ou que
forjaram doutrinas e idias significativas.
        Boa parte do dicionrio  dedicada a determinados universos conceituais que exerceram
influncia neste sculo: cincias sociais especficas, escolas filosficas, doutrinas polticas,
estilos marcantes na arte e literatura. Em cada um desses casos, um extenso verbete geral 
complementado por outros verbetes que desenvolvem certos aspectos das idias e teorias
envolvidas; assim, por exemplo, o verbete sobre cincia econmica desdobra-se em verbetes
sobre as diversas concepes e escolas que se destacaram no pensamento econmico e,
analogamente, o verbete sobre marxismo  complementado por verbetes sobre as vrias formas
que esse corpus terico e doutrinrio assumiu. Na verdade, todas as principais esferas do
pensamento social desenvolveram-se e proliferaram ao longo do tempo, e foi nossa pretenso
incorporar  obra esse aspecto histrico, remontando em muitos casos s concepes de sculos
anteriores.
        Isolamos do corpo principal do dicionrio informaes biogrficas relativas aos grandes
tericos do pensamento social -- j que cobririam, com freqncia, o mesmo terreno explorado
nos verbetes sobre conceitos e teorias --, mas acrescentamos em apndice uma seo de sucintas
biografias sobre aqueles que deram importante contribuio ao pensamento social, ou que sobre
ele tiveram influncia duradoura. Encerrando o volume, encontra-se um ndice geral para auxi-
liar o leitor a localizar conceitos, escolas e pensadores especficos.
        Cada verbete deste dicionrio  seguido de uma lista de leituras sugeridas, e alm disso,
no final da obra, h uma bibliografia geral compilando todos os livros e artigos mencionados no
texto. As referncias bibliogrficas (autor-data) no texto referem-se geralmente s primeiras
edies das obras em questo; as datas de edies subseqentes so assinaladas entre parnteses,
em itlico, sempre que oportuno.
        Embora intrinsecamente cada verbete se pretenda auto-suficiente, as remisses a outros
verbetes capazes de enriquecer o assunto em exame so assinaladas em VERSALETES no texto.

                                                                          WILLIAM OUTHWAITE
                                                                             TOM BOTTOMORE




                                               vii
                  PREFCIO  EDIO BRASILEIRA


TOM BOTTOMORE faleceu subitamente em 9 de dezembro de 1992 aos 72 anos de idade, justo no
momento em que a impresso da edio inglesa deste dicionrio estava sendo concluda; no
pde ver o resultado final desse projeto no qual viramos trabalhando anos a fio. Pouco antes
de morrer, comeara a escrever um livro h muito planejado sobre democracia socialista, mas
este dicionrio, para todos os efeitos,  sua ltima obra concluda durante quarenta anos de uma
fecunda carreira como escritor.
       Os inmeros livros e artigos de Tom serviram, e ainda servem, como um guia de con-
fiabilidade mpar para sucessivas geraes de estudantes e professores de sociologia e das demais
cincias sociais, sua clara e convincente concepo da sociologia e do marxismo, e da relao
entre ambos,  um marco na sociologia da segunda metade do sculo XX. Como editor deste
dicionrio, Tom acabou contribuindo com mais verbetes do que o planejado  medida que a obra
se aproximava da concluso. A meu ver, e espero que os leitores concordem comigo, os verbetes
assinados por Tom constituem um dos slidos esteios deste dicionrio, revelando em microcos-
mo a rarssima combinao de alcance intelectual, clareza, racionalidade e bom senso que
caracterizou toda sua obra.

                                                                                           W.O.

WILLIAM OUTHWATE leciona sociologia na School of European Studies, Universidade de Sussex,
Inglaterra.  autor de Understanding Social Life: the Method Called "Verstehen" (2a ed., 1986),
Concept Formation in Social Science (1983), New Philosophies of Social Science: Realism,
Hermeneutics and Critical Theory (1987) e Habermas: a Critical Introduction (1994). Organi-
zou, com Michael Mulkey, o livro Social Theory and Social Criticism: Essays for Tom Bottomore
(1987).

TOM BOTTOMORE (1920-92) foi autor de vasta e importante obra, sendo mais conhecido do leitor
brasileiro pelas diversas edies publicadas pela Zahar a partir da dcada de 60: Introduo 
sociologia; As classes na sociedade moderna; Crticos da sociedade moderna: o pensamento
radical na Amrica Latina; As elites e a sociedade; Karl Marx (org.); A sociologia como crtica
social; Sociologia poltica; Histria da anlise sociolgica (org.). Grande sucesso editorial
desfruta hoje o seu Dicionrio do pensamento marxista, publicado no Brasil pela mesma editora.
Bottomore lecionou na London School of Economics, nas Universidades Simon Fraser e
Dalhousie, ambas no Canad, e na Universidade de Sussex, Inglaterra, de 1968 a 1985, quando
deixou o magistrio.




                                              viii
                                INTRODUO



NO FINAL DO SCULO XIX, o termo "social" ainda era relativamente recente, assim
como o era, de modo geral, a noo de "cincias sociais" distintas. As primeiras
associaes e publicaes profissionais estavam apenas despontando e, enquanto
novas cincias sociais, como a sociologia, vinham conquistando reconhecimento, a
cincia econmica, como disciplina mais antiga, passava por um intenso desenvolvi-
mento, tanto sob a forma neoclssica que lhe conferiram Carl Menger, Lon Walras,
Alfred Marshall e outros, como na vertente que dava peculiar nfase aos trabalhos da
escola histrica alem. Todas as cincias sociais sentiam-se no direito de reivindicar
precursores nos sculos XVIII e XIX, ou ainda mais remotos no caso da cincia
poltica e da histria, e as idias de alguns desses pioneiros permaneceram influentes.
No sculo XX, contudo, as cincias sociais adquiriram maior consistncia e autono-
mia, exercendo maior impacto sobre o pensamento social como um todo. As doutrinas
polticas em geral e a crtica social em particular tornaram-se mais tributrias das
teorias da sociedade, e muitas idias do sculo XIX vieram a encontrar um substrato
institucional. O positivismo, de forma ligeiramente distinta da verso comtiana
original, consolidou-se como uma filosofia da cincia com notvel influncia entre os
cientistas sociais. O evolucionismo sobreviveu a todo tipo de ataques e assegurou seu
lugar no pensamento social, assumindo novas formas depois da II Guerra Mundial,
tanto no que diz respeito a concepes de modernizao, subdesenvolvimento e
desenvolvimento, quanto, mais recentemente, em relao a teorias sobre a evoluo
da condio moral e do pensamento humano como um todo. A influncia do marxismo
-- como uma crtica da economia poltica, uma teoria da sociedade e uma doutrina
poltica -- intensificou-se com regularidade durante a maior parte do sculo, embora
por caminhos cada vez mais ramificados, isso se refletiu, depois da Revoluo Russa
e mais ainda depois de 1945, na acentuada diviso entre o marxismo-leninismo e o
que veio a ser designado como marxismo ocidental, este ltimo extremamente
diversificado em si mesmo. Os dramticos acontecimentos de 1989 puseram fim s
ditaduras comunistas da Europa oriental e  influncia mundial do leninismo mas,
embora o marxismo e, em certa medida, o socialismo encontrem-se atualmente em
declnio na Europa ps-comunista, a questo no  assim to evidente em outras
regies do mundo.
      Por toda a parte, entretanto, observa-se uma grande tendncia a repensar as
doutrinas sociais e polticas que tiveram suas origens nos sculos XVIII e XIX,
florescendo no sculo atual em meio a um fundo de drsticas e bruscas mudanas na
estrutura e na cultura das sociedades humanas. A Revoluo Industrial e as revolues
polticas na Frana e nos Estados Unidos haviam iniciado essa transformao ao
inaugurar o movimento democrtico e, mais tarde, o socialismo e as contradoutrinas
do conservadorismo e do liberalismo, mas as novas sociedades capitalistas industriais
tambm se caracterizaram pelo nacionalismo e pela expanso imperialista. Por
conseguinte, o sculo XX, ao contrrio das expectativas de Auguste Comte e Herbert

                                          ix
Spencer, revelou-se como um dos mais violentos da histria humana, com duas guerras
mundiais extremamente destrutivas e brbaras, e inmeros conflitos menores porm
no menos brutais, como perseguies e genocdios em grande escala. Surgiram novas
formas de expansionismo agressivo com os regimes fascistas na Europa, que alm
disso instauraram ditaduras totalitrias de uma nova espcie (embora tivessem um
paralelo, ou mesmo um precursor, na Rssia stalinista) e, num estilo distinto, mais
militarista, no Japo.
      Subjacente  destrutividade da guerra moderna deu-se o avano sem prece-
dentes, durante o sculo passado, das cincias naturais e da tecnologia, que transformou
as condies e as formas de vida social. Incessantes inovaes tecnolgicas nos pases
industrializados constituram fator determinante no crescimento econmico e aspecto
importante ao surgimento de gigantescas empresas (corporations), entre elas as
multinacionais que cada vez mais dominam a economia mundial, sobretudo nas
ltimas quatro dcadas. Ao mesmo tempo, inovao e crescimento possuem um efeito
desintegrador que no opera de maneira uniforme, mas num ciclo de expanso e
depresso, marcado por perodos de desemprego em larga escala, como na dcada de
1930 e, novamente, na de 1980. Tais circunstncias colocaram em pauta o debate sobre
mtodos de regulamentao da economia para fins sociais, um debate que at 1989
envolveu, com freqncia, o contraste entre economias capitalistas de (relativamente)
livre comrcio e as economias centralmente planejadas, o que ainda suscita inter-
rogaes sobre o papel do planejamento parcial, prescritivo, na gesto do sistema
econmico.
      O prprio desenvolvimento econmico gerou novas questes para os pensa-
dores sociais: em primeiro lugar, o contraste entre a crescente riqueza dos pases
industrializados, no interior dos quais persistem, contudo, densas reas empobrecidas,
e a misria absoluta -- em certos casos crescente, como em vastas regies da frica
-- de grande parte do Terceiro Mundo; em segundo lugar, o impacto ambiental
causado pelo prprio desenvolvimento. No tocante  primeira questo, no se mediram
esforos no sentido de formular modelos de desenvolvimento para os pases mais
pobres, alm de planos de ao prtica que superassem a diviso Norte/Sul, mas as
polticas efetivamente implementadas at agora no lograram o xito esperado e, no
final da dcada de 1980, a transferncia de recursos de pases ricos para pobres, atravs
de programas de auxlio e outros meios, havia se convertido, em virtude da dvida
acumulada, num fluxo inverso dos pobres para os ricos. Por conseguinte, um contin-
gente cada vez maior de pensadores sociais vem confluindo para um debate crtico
sobre como avaliar o desenvolvimento num contexto mundial, ou para a concepo
de uma "nova ordem econmica internacional", o que em grande parte permanece por
ora um mero esteretipo. Esse debate estendeu-se a uma rea suplementar, cuja
ateno est voltada para o meio ambiente. De fato,  a essa questo, e aos movimentos
ecolgicos em franca expanso, que uma considervel parcela do pensamento social
tem se dedicado em dcadas recentes. A poluio e a destruio do habitat humano,
resultado da produo industrial e da demanda aparentemente insacivel de matrias-
primas, afetaram no s as prprias sociedades industriais, mas tambm os pases do
Terceiro Mundo, onde so, frequentemente, ainda mais devastadoras, podendo ainda ser
agravadas pelos efeitos da exploso demogrfica.

                                            x
       contra um pano de fundo de convulses sociais, conflitos, rupturas e dos novos
problemas do sculo XX que o pensamento social -- seja o produzido pelos prprios
ativistas sociais e polticos, seja pelo crescente exrcito de scholars profissionais --
deve ser entendido. Entretanto, muitos de seus temas centrais permanecem os mesmos
do incio do sculo: a natureza do trabalho, o papel da nao-estado, a relao entre
indivduo e sociedade, o efeito do dinheiro sobre as relaes sociais, o contraste entre
Gemeinschaft (comunidade) e Geselschaft (sociedade, associao), estratificao e
igualdade, a tenso entre sectarismo e liberdade de valores nas cincias sociais, e at
mesmo alguns rtulos como o prprio fin de sicle. As mais recentes anlises sobre a
ps-modernidade ou sobre o ps-industrialismo assemelham-se incrivelmente s
primeiras descries da modernidade e do industrialismo, e a moderna futurologia,
apesar da disponibilidade dos modelos informatizados, no difere muito das previses
dos pensadores sociais do sculo XIX e do incio do atual.
      Entretanto, esses antigos temas adquiriram, em muitos casos, um novo conte-
do. A natureza e o significado do trabalho tm agora de ser examinados no contexto
de uma estrutura ocupacional radicalmente alterada em funo da reduo das horas
de trabalho e da expanso do tempo disponvel para atividades livremente escolhidas.
O estado tornou-se, de forma mais direta, o provedor de servios sociais vitais e da
infra-estrutura econmica essencial, mas a experincia do fascismo e do stalinismo
mostrou que o seu poder, em certas circunstncias, pode ser usado para instaurar um
sistema totalitrio. A democracia, que no incio do sculo era um produto relativamente
recente e limitado, vigorando em apenas uma escassa minoria de pases -- em alguns
deles para logo ser derrubada --, tornou-se (ao menos em teoria) um parmetro
poltico quase universal, embora seu efetivo campo de ao ainda seja ferrenhamente
discutido entre os defensores da democracia liberal ou participativa, e no contexto dos
recentes debates em torno do significado de cidadania. Estratificao e igualdade,
temas que ocuparam lugar central nos conflitos polticos entre esquerda e direita ao
longo de todo este sculo, tornaram-se questes mais complexas nas ltimas dcadas,
quando outras formas de desigualdade -- de gnero, raa e nacionalidade -- passaram
a merecer nfase mais forte por parte de novos movimentos sociais, e quando as
alegaes das sociedades comunistas de que haviam eliminado as desigualdades de
classe foram mais incisivamente contestadas por crticos, internos e externos, de suas
rgidas estruturas hierrquicas.
      Este dicionrio pretende fornecer uma viso abalizada e abrangente dos princi-
pais temas do pensamento social e de seu desenvolvimento -- desde o incio do sculo
(ou mesmo antes) at bem perto de seu fim --  luz do vasto e instvel panorama
social desta turbulenta era. Provar ser, assim esperamos, uma valiosa fonte de
referncia para todos aqueles que, de diferentes modos, preocupam-se com o desen-
volvimento futuro da sociedade humana quando nos preparamos para ingressar num
nove sculo e num novo milnio.

                                                                                   W.O.
                                                                                   T.B.




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                                 COLABORADORES


Philip Abbott                                       D.J. Bartholomew
Wayne State University                              London School of Economics
Nicholas Abercrombie                                Kaushik Basu
Universidade de Lancaster                           Delhi School of Economics
Hugh G.J. Aitken                                    Patrick Bateson
Amherst College                                     Universidade de Cambridge

Martin Albrow                                       James A. Beckford
Roechampton Institute, Londres                      Universidade de Warwick

David E. Apter                                      Leonard Beeghley
Universidade Yale                                   Universidade da Flrida

Anthony Arblaster                                   Reinhard Bendix
Universidade de Sheffield                           Geoffrey Bennington
David Armstrong                                     School of European Studies,
Guy's Hospital, Universidade de Londres             Universidade de Sussex

Giovani Arrighi                                     Ted Benton
State University of New York at Binghamton          Universidade de Essex
                                                    Henry Bernstein
Michael Bacharach
                                                    Institute for Development Policy and
Christ Church, Oxford
                                                    Management, Universidade de Manchester
Peter Baehr                                         Christopher J. Berry
Memorial University of Newfoundland                 Universidade de Glasgow
Paul Bailey                                         Roy Bhaskar
Universidade de Edimburgo                           Linacre College, Oxford
E. Digby Baltzell                                   Michael Billig
Universidade da Pensilvnia                         Loughborough University
Lorraime F. Baric                                   Ken Binmore
Information Technology Institute,                   Universidade de Michigan
Universidade de Salford
                                                    Mildred Blaxter
Clive Barker                                        School of Economic and Social Studies,
Universidade de Warwick                             Universidade de East Anglia
Rodney Barker                                       Josef Bleicher
London School of Economics                          Queen's University, Glasgow
Alan Barnard                                        J. Blondel
Universidade de Edimburgo                           European University Institute, Florena
Michle Barrett                                     Stephan Boehm
City University, Londres                            Universidade de Graz

                                             xiii
Peter J. Boettke                                      Terrell Carver
New York University                                   Universidade de Bristol
Tom Bottomore                                         Alan Cawson
                                                      School of Social Sciences,
Gerhard Botz                                          Universidade de Sussex
Institut fr Geschichte, Universitt Salzburg
                                                      Grard Chaliand
Raymond Boudon                                        Paris
Groupe d'tude des Mthodes de l'Analyse
Sociologique, Universidade de                         Simon Clarke
Paris-Sorbonne                                        Universidade de Warwick
Margaret M. Braungart                                 Ira J. Cohen
State University of New York                          Rutgers University

Richard G. Braungart                                  Selma Jeanne Cohen
Syracuse University                                   Nova York

E.A. Brett                                            David E. Cooper
Institute of Development Studies,                     Universidade de Durham
Universidade de Sussex                                Lewis A. Coser
Asa Briggs                                            Cambridge, Massachussetts
Sussex                                                Bernard Crick
George W. Brown                                       Birkbeck College, Universidade de Londres
Royal Holloway and Bedford New College                Roger Crisp
                                                      St. Anne's College, Oxford
Rogers Brubaker
Universidade da Califrnia Los Angeles                Ian Crowther
                                                      Editor literrio, The Salisbury Review
Hauke Brunkhorst
Institut fr Grundlagen der Politik,                  Fred D'Agostino
Freie Universitt Berlin                              Universidade da Nova Inglaterra
W. Brus                                               R.W. Davies
Wolfson College, Oxford                               Centre for Russian and East European
                                                      Studies, Universidade de Birmingham
Alan Bryman
Loughborough University                               Meghnad J. Desai
                                                      London School of Economics
Tom Burden
Leeds Polytechnic                                     Torcuato S. Di Tella
                                                      Buenos Aires
Colin Campbell
Universidade de York                                  Marco Diani
                                                      Centre d'Analyse et d'Intervention
Tom D. Campbell                                       Sociologiques, Paris
Australian National University
                                                      James Donald
Julius Carlebach                                      Media Studies, Universidade de Sussex
Hochschule fr Jdische Studien, Heidelberg
                                                      Franois Dubet
Allan C. Carlson                                      cole des Hautes tudes em
Rockford Institute, Illinois                          Science Sociale, Paris
Elwood Carlson                                        Bohdan Dziemidok
Universidade da Carolina do Sul                       Universidade de Gdansk

                                                xiv
Andrew Edgar                                          Naomi R. Gerstel
College of Cardiff, Universidade do                   Department of Sociology, and Social and
Pas de Gales                                         Demographic Research Unit,
                                                      Universidade de Amherst
S. Eilon
Imperial College of Science                           Margaret Gilbert
and Technology, Londres                               Universidade de Connecticut, Storrs
Peter P. Ekeh                                         Hannes H. Gissurarson
Universidade de Buffalo                               Universidade de Reykjavik
Pascal Engel                                          Peter E. Glasner
Centre de Recherche en pistmologie, Paris           University of the West of England
Helen Fein                                            Frank Gloversmith
Institute for the Study of Genocide, Nova York        Universidade de Sussex
Joseph V. Femia                                       Jack A. Goldstone
School of Politics and Communication                  Center for Comparative Research in History,
Studies, Universidade de Liverpool                    Society and Culture,
Zsuzsa Ferge                                          Universidade da Califrnia, Davis
Instituto de Sociologia e Poltica Social,            Stanislaw Gomulka
Universidade Etvos Lornd, Budapeste                 London School of Economics
Rubem Csar Fernandes                                 Peter Goodrich
Instituto de Estudos da Religio,                     Birkbeck College, Universidade de Londres
Rio de Janeiro
                                                      Robert Grant
Robert A. Foley                                       Universidade de Glasgow
Universidade de Cambridge
                                                      S.J.D. Green
Tom Forester
                                                      School of History, Universidade de Leeds
School of Computing and Information
Technology, Griffith University, Queensland           Roger Griffin
Murray F. Foss                                        Brooke University, Oxford
American Enterprise Institute for Public              David B. Grusky
Policy Research, Washington DC                        Stanford University
Lawrence Freedman                                     Anne-Marie Guillemard
King's College, Londres                               Universidade de Paris IV
Christopher Freeman                                   (Panthon-Sorbonne)
Science Policy Research Unit,                         Peter Gurney
Universidade de Sussex                                Universidade de Glamorgan
R.G. Frey                                             Peter Halfpenny
Bowling Green State University                        Universidade de Manchester
Diego Gambetta
                                                      John A. Hall
Universidade de Oxford                                McGill University, Montreal
David Garland
Universidade de Edimburgo                             Charles Hallisey
                                                      Committee on The Study of Religion,
Ernest Gellner                                        Universidade Harvard
Norman Geras                                          Norman Hampson
Universidade de Manchester                            Professor Emeritus, Universidade de York

                                                 xv
Shaun P. Hargreaves Heap                          Hans Joas
Universidade de East Anglia                       John F. Kennedy Institut,
                                                  Freie Universitt Berlin
Gwyn Harries-Jenkins
Universidade de Hull                              Terry Johnson
                                                  Universidade de Leicester
Laurence Harris
School of Oriental and African Studies,           Kay Junge
Universidade de Londres                           Instituto de Sociologia,
                                                  Justus-Liebig-Universitt Giessen
David M. Heer
Universidade da Califrnia do Sul                 Mary Kaldor
Arnold Heertje                                    Graduate Institute for Contemporary
Universiteit van Amsterdam                        European Studies, Universidade de Sussex

Andrs Hegeds                                    Haider Ali Khan
Budapeste                                         Graduate School of International Studies,
                                                  Universidade de Denver
Adrian Henri
Liverpool                                         V.G. Kiernan
                                                  Professor Emeritus,
John Heritage                                     Universidade de Edimburgo
Universidade da Califrnia, Los Angeles
                                                  Richard Kilminster
J.H. Hexter                                       Universidade de Leeds
John M. Olin Professor Emeritus of the
History of Freedom, Washington University         Alden S. Klovdahl
                                                  Australian National University
Susan Himmelweit
Open University                                   I.S. Kon
                                                  Instituto de Etnografia e Antropologia,
Barry Hindess                                     Academia da Rssia, Moscou
Australian National University
                                                  Krishan Kumar
Paul Quentin Hirst                                Universidade de Kent, Canterbury
Birkbeck College, Universidade de Londres
                                                  Jorge Larrain
Barry Holden
                                                  Universidade de Birmingham
Universidade de Reading
Martin Hollis                                     Gerhard Lenski
Universidade de East Anglia                       Universidade da Carolina do Norte

Axel Honneth                                      Charles T. Lindholm
Universitt Konstanz                              Universidade de Boston

Leo Howe                                          Alain Lipietz
Universidade de Cambridge                         Centre d'tudes Prospectives d'conomie
                                                  Mathmatique Appliques  la Planification,
T.W. Hutchison                                    Paris
Professor Emeritus,
Universidade de Birmingham                        Peter Lloyd
                                                  Universidade de Sussex
Richard Hyman
Industrial Relations Research Unit,               Eero Loone
Universidade de Warwick                           Universidade de Tartu, Estnia
Marie Jahoda                                      Alfred Louch
Sussex                                            Claremont Graduate School, Califrnia

                                            xvi
Terry Lovell                                        Raymond A. Morrow
Universidade de Warwick                             Universidade de Alberta
Steven Lukes                                        Michael Mulkay
European University Institute, Florena             Universidade de York
Francis P. McHugh                                   Elcanor M. Nesbitt
St. Edmund's College,                               Religious Education and Community Project,
Universidade de Cambridge                           Universidade de Warwick
John Spencer Madden                                 Robert Nisbet
The Countess of Chester Hospital, Chester           Albert Schweitzer Professor Emeritus,
                                                    Columbia University
Michel Maffesoli
Universidade de Paris V (Ren Descartes)            Peter Nolan
                                                    School of Business and Economic Studies,
Peter T. Manicas                                    Universidade de Leeds
Universidade do Hava, Manoa
                                                    Roderick C. Ogley
Patrice Mann                                        Emeritus Reader, Universidade de Sussex
Universidade de Bordeaux
                                                    John O'Neill
Peter Marsh
                                                    School of Social Sciences,
MCM Research                                        Universidade de Sussex
David A. Martin
                                                    Geoffrey Ostergaard
London School of Economics
                                                    William Outhwaite
Ali A. Mazrui
                                                    School of European Studies,
State University of New York at Binghamton
                                                    Universidade de Sussex
Ulrike Meinhof
                                                    John E. Owens
Universidade de Manchester
                                                    School of Social and Policy Sciences,
Volker Meja                                         Universidade de Westminster
Memorial University of Newfoundland
                                                    Trevor Pateman
Jos Guilherme Merquior                             Institute of Continuing and Professional
                                                    Education, Universidade de Sussex
Ian Miles
Programme of Policy Research in                     Geoff Payne
Engineering, Science and Technology,                Universidade de Plymouth
Universidade de Manchester
                                                    Donald Peterson
David Miller                                        Cognitive, Science,
Nuffield College, Oxford                            Universidade de Birmingham
Enzo Mingione                                       Tony Pinkney
Universidade de Messina, Milo                      Universidade de Lancaster
Kenneth R. Minogue                                  Jennifer Platt
London School of Economics                          School of Social Sciences,
                                                    Universidade de Sussex
Simon Mohum
Queen Mary and Westfield College,                   Ken Plummer
Universidade de Londres                             Universidade de Essex
Maxime Molyneux                                     Jonathan Powis
Birkbeck College, Universidade de Londres           Balliol College, Oxford

                                             xvii
Vernon Pratt                                            Teodor Shanin
School of Independent Studies,                          Universidade de Manchester
Universidade de Lancaster
                                                        A.M. Sharakiya
Allan Pred                                              State University of New York at Binghamton
Universidade da Califrnia
                                                        Andrew Sherratt
David L. Prychitko                                      Ashmolean Museum, Universidade de Oxford
State University of New York, Oswego
                                                        Cris Shore
Derek Pugh                                              Goldsmiths'College,
School of Management, The Open University               Universidade de Londres
Terence H. Qualter                                      Kazimierz M. Slomczynski
Universidade de Waterloo, Ontrio                       Instituto de Sociologia,
                                                        Universidade de Varsvia
Ali Rattansi
City University, Londres                                Peter Sluglett
                                                        Universidade de Durham
L.J. Ray
Universidade de Lancaster                               Andrew Spencer
                                                        Universidade de Essex
Gavin C. Reid
Universidade de St. Andrews                             Patricia M. Springborg
                                                        Universidade de Sydney
Karin Renon
Centre d'Analyse et d'Intervention                      Nico Stehr
Sociologiques, Paris                                    Universidade de Alberta
John Rex                                                Herbert Stein
Professor Emeritus, Universidade de Warwick             American Enterprise Institute for Public
                                                        Policy Research, Washington DC
Adrian D. Rifkin
Universidade de Leeds                                   Rudi Supek
                                                        Zagreb
Paul Rock
London School of Economics                              Gyrgy Szll
                                                        Fachbereich Sozialwissenschaften,
C.A. Rootes                                             Universitt Osnabrck
Universidade de Kent, Canterbury
                                                        Steve Taylor
Steven P.R. Rose                                        London School of Economics
The Open University
                                                        John B. Thompson
W.D. Rubinstein                                         Jesus College, Cambridge
School of Social Sciences, Deakin University
                                                        J.K.J. Thomson
Anne Showstack Sassoon                                  School of Social Sciences,
School of Social Science, Kingston University           Universidade de Sussex
Werner Sauer                                            Alan Tomlinson
Instituto de Filosofia,                                 Universidade de Brighton
Karl-Franzens-Universitt Graz
                                                        Alain Touraine
Johann F. Schneider                                     Centre d'Analyse et d'Intervention
Universitt des Saarlandes                              Sociologiques, Paris
John Scott                                              Peter Townsend
Universidade de Leicester                               Universidade de Bristol

                                                xviii
Keith Tribe                                         Wlodzimierz Wesolowski
Keele University                                    Instituto de Filosofia e Sociologia,
                                                    Academia Polonesa de Cincias, Varsvia
Sylvaine Trinh
Centre d'Analyse et d'Intervention                  Michel Wievorka
Sociologiques, Paris                                Centre d'Analyse et d'Intervention
Bryan S. Turner                                     Sociologiques, Paris
Universidade de Essex
                                                    Aaron Wildavsky
Jonathan H. Turner                                  Survey Research Center,
Universidade da Califrnia, Riverside               Universidade da Califrnia, Berkeley
Ernest Tuveson                                      R.A. Wilford
Universidade da Califrnia, Berkeley                The Queen's University of Belfast
John Urry
Universidade de Lancaster                           Robin M. Williams Jr.
                                                    Cornell University
Ivan Varga
Kingston, Ontrio                                   Christopher Wilson
                                                    London School of Economics
Loic J.D. Wacquant
Society of Fellows, Universidade Harvard            Charles R.M. Wilson
Sylvia Walby                                        Portsmouth Polytechnic
London School of Economics
                                                    H.T. Wilson
Nigel Walker                                        York University, Toronto
Professor Emeritus, Instituto de
Criminologia, Universidade de Cambridge             Peter Worskey
                                                    Londres
Immanuel Wallerstein
State University of New York at Binghamton,         Dennis H. Wrong
e Maison des Sciences de l'Homme, Paris             New York University
J.W.N. Watkins
London School of Economics                          Lucia Zedner
                                                    London School of Economics
Carolyn Webber
Survey Research Center,                             Sami Zubaida
Universidade da Califrnia. Berkeley                Birkbeck College, Universidade de Londres




                                              xix
                                             A
aberta, sociedade Ver SOCIEDADE ABERTA.                importante estudo The Affluent Worker (Gold-
                                                       thorpe, Lockwood, Bechhofer e Platt, 1969).
aburguesamento A expresso refere-se ao                Goldthorpe e seus companheiros resolveram
suposto processo segundo o qual setores da             pr  prova a alegao de que,  medida que os
classe operria so incorporados  classe mdia        padres de vida de muitos trabalhadores ma-
(ou burguesia). O aburguesamento representa,           nuais melhoravam, estes iam adotando cada vez
na verdade, um conjunto de idias e pode ser           mais hbitos e estilos de vida de classe mdia.
avaliado comparando-se as situaes da classe          De um modo geral, os autores no detectaram
operria com as da baixa classe mdia, de acor-
                                                       exatamente tal processo, mas sim importantes
do com as trs seguintes dimenses:
                                                       reas de experincia social em comum, que
   1. Situao de mercado. Como operam com-            eram caracteristicamente operrias. No obs-
        parativamente nveis de pagamento, horas       tante, o estudo tambm revelou um processo
        de trabalho, perspectivas de promoo,         de convergncia normativa entre certos grupos
        bem como direitos de penso e frias?          manuais e no-manuais, que significava para os
   2. Situao de trabalho. Por exemplo, os            primeiros um desvio de uma forma de vida
        trabalhores manuais dispem de um              social orientada para a comunidade, conferindo
        grau de autonomia semelhante ao de que         maior importncia  famlia conjugal, uma de-
        desfrutam, digamos, os empregados de           finio do trabalho em termos de recompensa
        escritrio?                                    material e uma certa retrao da conscincia de
   3. Aspiraes, status, poltica e costumes.         classe.
        Os membros da classe operria esto ado-           Apesar de o conceito de aburguesamento refe-
        tando valores da classe mdia, por exem-       rir-se especificamente  eroso dos limites entre
        plo?                                           os estratos superiores da classe operria e os ele-
   Historicamente, a ltima dessas dimenses           mentos inferiores da classe mdia, ele tambm 
 que tem despertado maior interesse. Engels,          parte ntida de um debate mais amplo sobre o
por exemplo, referiu-se ao modo pelo qual os           significado das fronteiras e da luta de classes nas
operrios ingleses aspiravam  respeitabilidade        sociedades avanadas. Dessa forma, o debate so-
e pensavam politicamente da mesma forma que            bre aburguesamento est relacionado com o argu-
a burguesia. Mais tarde, nos anos 30, Max Adler        mento paralelo, que diz respeito  suposta prole-
deplorou a presena de ideais pequeno-bur-             tarizao de certas profisses de classe mdia, tais
gueses que faziam com que os operrios aban-           como os trabalhos de escritrio e de vendas no
donassem a perspectiva da transformao revo-          varejo. Ironicamente, alguns socilogos marxis-
lucionria, preferindo uma melhoria social gra-        tas, ao afirmarem que a situao dos funcionrios
dual. Nesse mesmo sentido, Theodor Geiger              dos escritrios est se tornando mais semelhante
sustentou que a estrutura de classes do sculo          da classe operria, esto na verdade dizendo que
XX estava mudando, na medida em que os                 as fronteiras de classe comeam a se tornar menos
operrios se tornavam cada vez mais pequeno-
                                                       bem definidas.
burgueses em seus hbitos.
                                                           Ver tambm CLASSE.
   Mais recentemente, a idia de aburguesa-
mento foi discutida de modo amplo pela socio-          Leitura sugerida: Goldthorpe, J.H., Lockwood, D.,
logia britnica, no perodo posterior  Segunda        Bechhofer, F. e Platt, J. 1969: The Affluent Worker in
Guerra Mundial, sobretudo sob a influncia do          the Class Structure  Marshall, G., Newby, H., Rose,


                                                   1
2   ao coletiva

D. e Vogler, C. 1988: Social Class in Modern Britain        Vrios requintes e aperfeioamentos tm
Wright, E.O. 1985: Classes.                             sido acrescentados s afirmaes um tanto in-
                          NICHOLAS ABERCROMBIE          gnuas de Olson. Primeiro, muitas organiza-
                                                        es existentes so de fato de natureza altrusta
ao coletiva A literatura especializada pre-           e no se baseiam absolutamente num interesse
ocupou-se em determinar sob que condies               prprio to bvio. Em segundo lugar,  duvido-
indivduos isolados admitem engajar-se numa             so que "benefcios seletivos", como os propor-
ao conjunta para fortalecer ou defender sua           cionados por sindicatos a membros isolados,
situao. Apesar de muitos cientistas sociais           possam explicar a enorme diversidade e escala
terem discutido esta questo -- especialmente           de organizaes nas quais as pessoas ingressam
Karl Marx e Max Weber --, a referncia bsica           na maioria das sociedades industrializadas. Em
no debate moderno  o texto de Olson (1965) e           terceiro lugar, a vida social deveria ser encarada
o conceito do "aproveitador" (free rider). Em           como interativa. Em conseqncia, indivduos
conexo com essa obra, inmeras outras contri-          que racionalmente deveriam no cooperar, po-
buies tm examinado como  possvel chegar a          dem vir a aprender que existem benefcios co-
resultados subtimos, assumindo como ponto de           letivos que resultaro da busca de situaes que
partida indivduos que buscam seus prprios inte-       aparecem como solues no-racionais do pon-
resses, e no o que seria do interesse coletivo.        to de vista estritamente individual. Atravs da
    Olson emprega o jogo do dilema do prisio-           interao contnua, em determinados contextos
neiro, com a finalidade de analisar a natureza          as pessoas podem vir a se envolver e estar
da ao coletiva. A contradio do jogo  que,          informadas umas sobre as outras, transforman-
se cada prisioneiro busca seu auto-interesse            do seus padres de preferncia. Em quarto lu-
isolado, ento todos terminam com um resulta-           gar,  preciso dar ateno s ideologias pre-
do menos satisfatrio do que se lhes tivesse sido       sentes em diferentes sociedades ou em partes de
possvel colaborar uns com os outros e sacrifi-         uma mesma sociedade. Onde estas enfatizam o
car esses interesses individuais. Olson genera-         INDIVIDUALISMO, como nos Estados Unidos, o
liza essa situao para toda e qualquer organi-         problema do "aproveitador" tem probabilidade
zao que tente mobilizar um grande nmero              de ser mais agudo. Por fim, devem ser desen-
de indivduos movidos por interesse prprio.            volvidas anlises sobre como diferentes po-
Em situaes nas quais o grupo a ser organizado         sies estruturais, tais como capital e trabalho
 amplo e os benefcios so coletivos ou pbli-         assalariado, tm distintas possibilidades de
cos, no podendo ser limitados a indivduos             ao coletiva com um sentido prprio a cada
especficos, no haver unio ou cooperao             uma delas. O mundo social no compreende
entre os indivduos, a no ser que benefcios           apenas indivduos isolados, mas tambm es-
no-coletivos sejam proporcionados. Sem esses           truturas e recursos, lnguas e discursos, e estes
benefcios seletivos, os indivduos podem "apro-        tambm so relevantes para as possibilidades
veitar-se", obtendo vantagens coletivas da or-          de ao coletiva, contrabalanando ou trans-
ganizao, caso alguma se concretize, mas no           cendendo o problema do "aproveitador".
incorrendo em nenhum dos custos de filiao             Leitura sugerida: Barry, B. e Hardin, R., orgs. 1982:
ou engajamento.                                         Rational Man and Irrational Society  Elster, J. 1978:
    Grandes grupos, tais como SINDICATOS ou             Logic and Society  Harding, R. 1982: Collective Ac-
partidos polticos, so mais vulnerveis ao             tion  Lasch, S. e Urry, J. 1984: "The new Marxism of
"aproveitador". Neles, a contribuio de cada           collective action: a critical analysis". Sociology 18,
indivduo faz pouca diferena para o resultado,         33-50  Offe, C. e Wiesenthal, H. 1980: "Two logics of
                                                        collective action: theoretical notes on social class and
e as intensas presses que operam nos pequenos          organizational form". Political Power and Social Theo-
grupos -- que com probabilidade induzem o               ry 1, 67-115  Olson, M. 1965: The Logic of Collective
compromisso de seus membros -- esto au-                Action.
sentes. Olson afirma que os membros de uma                                                         JOHN URRY
classe social esto particularmente propensos a
"tirar proveito", uma vez que se beneficiaro           ao e mediao Algum executa uma ao
com as aes da classe, quer ou no participem          quando o que faz pode ser descrito como inten-
de maneira efetiva. Segundo Olson,  perfeita-          cional (ver Davidson, 1977). Aes so con-
mente racional furtar-se a essas aes.                 cluses prticas derivadas de intenes e cren-
                                                                               ao e mediao    3


as; "ao" e "racionalidade" so, portanto,       tomar certas decises, mas sim se  possvel
conceitos inter-relacionados. As teorias socio-    generalizar os fins e deixar claro para todos por
lgicas da ao, desde o tempo de Max Weber,       que eles deveriam seguir normas particulares
basearam-se nessa relao para analisar a ao,    (ver NORMA). O que Hegel (Lgica) chamou de
seus componentes e seus tipos. Aes sociais       "concluso do bom", em que meios e fim so
so sempre parte de sistemas mais amplos e de      idnticos e a ao  boa em si mesma,  uma
processos de compreenso intersubjetiva, o que     questo a respeito do que  legtimo e jus-
introduz a questo do papel do agente ("media-     tificvel,  luz de princpios compartilhados e
o humana") nos processos atravs dos quais       livremente aceitos (Wellmer, 1979, p.25ss).
as aes so coordenadas.
                                                   Conseqncias das aes
Racionalidade da ao                                  A concluso de uma inferncia prtica  uma
    Aristteles, em sua tica a Nicmaco, ob-      ao. Do ponto de vista do observador, a esco-
servou que a racionalidade de uma ao residia     lha de meios disponveis para determinados fins
na concluso oriunda de intenes ou normas,       explica a ao. Essa explicao tem tambm
e de avaliaes tanto da situao quanto dos       relevncia prospectiva, uma vez que contextos
meios disponveis, para conseqncias imedia-      institucionais e normativos garantem que inten-
tas em termos de ao. A ao  racional na        es e crenas permaneam estveis e sejam
medida em que segue premissas que sustentam        regularmente reproduzidas (cf. Wright, 1971).
e justificam sua realizao. Uma racionalidade     Mas, desde que jamais se pode excluir a pos-
mnima, portanto, deve ser pressuposta em qual-    sibilidade de os agentes mudarem suas inten-
quer ao, em qualquer movimento corporal          es, esquecendo o melhor meio de fazer as
que se enquadre nessa definio. Aristteles       coisas ou encontrando inesperadamente novos
enfatizou que at mesmo aes indisciplinadas,     meios de resolver um problema, a ligao entre
que escapam ao controle racional, tais como o      intenes, crenas e comportamento futuro 
consumo excessivo de doces, podem ser pelo         contingente. S podemos, porm, identificar
menos formalmente encaixadas no modelo da          um dado comportamento como uma ao es-
justificativa racional (cf. Davidson, 1980;        pecfica se conseguirmos interpret-lo, com a
Wright, 1971).                                     perspectiva de um participante, como a conse-
                                                   qncia de intenes e crenas racionalmente
Formao da vontade                                compreensveis. "Interpretar um comporta-
    Um exemplo simples de formao intencio-       mento como uma ao intencional  compreen-
nal-racional da vontade  fornecido pelo impe-     d-lo  luz de uma inteno" (Wellmer, 1979,
rativo tcnico de Kant, o "imperativo de capa-     p.13).
citao", em que as intenes se estendem dos          A perspectiva do participante, e somente ela,
fins aos meios (cf. Wright, 1971). Algum que      revela uma relao lgico-semntica semelhan-
deseja fazer algo e sabe como isso pode ser        te entre intenes e aes. Para o agente, a
obtido deve querer obt-lo atravs desses          concluso prtica significa uma obrigao de
meios. Mesmo os processos complexos de for-        executar uma ao futura. No h garantia em-
mao da vontade social, que chegam a uma          prica de que algum que promete chegar na
deciso como conseqncia de deliberao co-       hora o far de fato, mas algum que assumiu es-
letiva, podem ser descritos como um processo       se compromisso precisar apresentar uma des-
de inferncia prtica. Isso implica a unio de     culpa caso no venha a ser pontual. A expecta-
muitos (pelo menos dois e no mximo todos)         tiva de que em circunstncias normais algum
agentes envolvidos com um propsito ou pro-        que prometeu chegar na hora muito provavel-
blema comum. Se essa unio no for promovida       mente o far no  apenas apoiada indutivamen-
atravs de fora, ameaa ou propaganda, deve       te por regularidades comportamentais observa-
s-lo atravs da livre compulso da inferncia     das. Essa expectativa baseia-se ainda mais no
argumentativa, ou seja, atravs de razes con-     fato de que geralmente podemos confiar uns
vincentes (cf. Habermas, 1971; Apel, 1973,         nos outros. O Outro provavelmente chegar na
1979). Discursos prticos no dizem respeito ao    hora porque o acordo tem validade recproca
alcance das intenes, dos fins para os meios,     (cf. Apel, 1979). Essa no  uma relao em-
explicando ao agente por que  racional para ele   prica e contigente entre intenes e atividades,
4   ao e mediao


mas uma relao lgico-pragmtica. Reconhe-        comportamento social que  plenamente cons-
cemos a seriedade da inteno atravs de suas      ciente e baseado apenas em razes que o agente
conseqncias para a ao. A pessoa que no        considere vlidas e conclusivas. Isso correspon-
faz aquilo que quer, podendo faz-lo, chama-       de aos tipos ideais de ao racional referida a
mos de inconsistente. Isso no  diferente do      intenes e ao racional referida a valores.
caso de algum que afirma que a neve  toda        Com essa distino, Weber remonta, atravs do
branca e toda preta. Assim como suspeitamos        NEOKANTISMO,  teoria aristotlica da ao. En-
de fraqueza de vontade como sendo a causa de       quanto uma ao racional referida a valores
uma ao inconsistente, podemos inferir que        segue aquilo que Hegel chamou de "concluso
uma pessoa que de modo involuntrio expressa       do bom", identificando meios e fins no "valor
contradies  cognitivamente dbil. Tal como      em si mesmo, no condicionado, de um com-
as afirmaes evidentemente contraditrias, a      portamento especfico", na ao racional refe-
ao evidentemente inconsistente tem em si         rida a intenes s o que conta  a eficcia dos
"algo irracional em sua essncia", de forma que    meios para um determinado fim. Na concepo
tais agentes podem achar difcil reconhecerem      de Weber, apenas esse tipo de ao pode ser
a si mesmos em suas aes (cf. Davidson, 1980).    plenamente racionalizado. , portanto, o verda-
                                                   deiro tipo ideal de comportamento significati-
Tipos de ao                                      vamente orientado que expressa a "concluso
    Os transtornos da ao, atravs de inconsis-   de ao" de Hegel. Somente aqui  possvel
tncias to possantes que no conseguimos          dizer "que se algum fosse agir de maneira
compreender nossa prpria ao ("No sei co-       rigidamente racional referida a intenes, pode-
mo pude fazer isso"), coloca-nos diante da co-     ria faz-lo apenas dessa maneira, e de nenhuma
nexo interna entre ao e auto-entendimento.      outra" (Weber, 1921-22).
Max Weber e Sigmund Freud tiraram conclu-              Para Weber, o entendimento racional (ver
ses opostas dessa relao. Enquanto Freud se      VERSTEHEN) da ao avana metodicamente a
interessa pelas causas inconscientes do auto-en-   partir dessa pressuposio de racionalidade uni-
gano, Weber baseia sua sociologia em um TIPO       versal e contrafactual. Isso torna possvel expli-
IDEAL de ao significativamente orientada, in-    car as aes concretas como um desvio de um
teligvel para o agente. Sua conhecida tipologia   padro ideal. O interesse de Freud em explicar
da ao fundamenta-se nessa relao de auto-       a ao irracional  portanto complementar ao
evidncia.                                         interesse de Weber em compreender a raciona-
    A ao social  um "comportamento signi-       lidade da ao consistente. Em um mundo for-
ficativamente voltado para o comportamento         mado pelo raciocnio causal, a ao racional
de outros" (Weber, 1921-22). Um caso limite        desse tipo s  possvel quando os motivos do
de ao social  a linha de ao tradicional       agente para uma ao em particular so causal-
completamente auto-evidente, convencional,         mente eficazes como intenes e causam a ao
habitual e quase mecnica, baseada no "hbito      (cf. Davidson, 1980). Se uma ao real deve ser
internalizado". Essa "ao cotidiana tediosa-      compreendida como a conseqncia de uma
mente habitual", adaptada de modo plcido ao       inferncia racional (por exemplo, a argumenta-
ambiente normativo do mundo da vida,  levada      o racional), os motivos devem ter uma fora
 condio de reao emocional quando o am-        causal, isto , racionalmente motivadora, en-
biente convencionalmente significativo da ao     quanto causas da ao-evento. A fora causal
cotidiana desaba de sbito e confronta o agente    que uma vontade fundamentada, transforman-
com exigncias, problemas e conflitos excep-       do razes em intenes, d a nossas aes ,
cionais com os quais no est familiarizado.       evidentemente, conforme Davidson (1980) e
Esse  o outro caso limite de ao social. Falar   Apel (1979, p.189) demonstraram em suas cr-
de ao que  governada por "afetos e emoes      ticas de C.G. Hempel, uma causalidade sem leis
presentes" significa que, mesmo em reao de-      causais. O que Kant chamou de "causalidade da
sinibida a um estmulo excepcional, o agente       liberdade", na qual a vontade ou inteno que
conserva um mbito de deciso sobre como           causa a ao conta com uma justificativa vlida
reagir, ou sobre se no deve reagir em absoluto    para ela, no envolve leis causais, mas princ-
e engolir sua emoo. Mas Weber reserva a          pios de racionalidade normativo-universais
descrio "racionalmente inteligvel" para o       (Apel, 1979). O caso do auto-engano incons-
                                                                                              agresso    5


ciente, de que Freud se ocupa,  aquele no qual       dessa complexidade monstruosa e, em princ-
uma ao, ou um ato verbal,  causada como            pio, incompreensvel de aes significativa-
um evento sem ser justificada por suas causas         mente orientadas, e sem mecanismos que inte-
(cf. Lw-Beer, 1990). Nesse caso, a ao ou ato       grem de modo funcional as aes individuais,
verbal no  racionalmente motivada, por uma          independentemente da vontade e da conscin-
seqncia vlida de smbolos, mas apenas em-          cia dos sujeitos, a ordem social parece impos-
piricamente por meio de "smbolos fendidos"           svel (cf. Luhmann, 1970-90, vol.2, p.204ss;
(cf. Habermas, 1968, p.246ss; 1981, p.8ss).           1981, p.195ss). A questo , ento, saber se a
Mas, como essa explicao em termos de mo-            ordem social pode ser concebida inteiramente
tivos apenas empiricamente efetivos pressupe         sem a formao de vontade coletiva, e se aes
a possibilidade de ao racional, Freud conse-        sociais podem ser separadas de uma noo de
gue reunir seu interesse metodolgico a um            mediao produzida pelos prprios sujeitos,
interesse teraputico na emancipao e na cr-        por meio de razes aceitveis.
tica da ao que no  provocada por razes.
                                                      Leitura sugerida: Brubaker, Rogers 1984: The Limits
    Esse interesse,  claro, est longe de satisfa-   of Rationality: an Essay on the Social and Moral
zer os critrios de Weber a respeito de uma           Thought of Max Weber  Davidson, D. 1980: Essays on
racionalidade intencional ideal. A ao irracio-      Actions and Events  Parsons, T. 1937: The Structure of
nal de que Freud se ocupa  causada pela fora        Social Action.
latente de uma comunicao distorcida, com-                                          HAUKE BRUNKHORST
pulsivamente integrada. Explic-la como uma
ao que j no  mais inteligvel para o agente      administrao, cincia da Ver            CINCIA DA
no basta nem para postular um tipo ideal de          ADMINISTRAO.
ao racional referida a intenes, nem para
medir sua divergncia. O que se deve pressupor        administrao cientfica Ver    FORDISMO E
 antes um critrio ideal de comunicao no-         PS-FORDISMO; RELAES INDUSTRIAIS.
distorcida (cf. Habermas, 1968; Apel, 1979).
                                                      afluente, sociedade Ver SOCIEDADE AFLUENTE.
O que o agente necessitado da ajuda de um
terapeuta acha ininteligvel a respeito de sua        agresso Enquanto quase todas as teorias em
prpria ao so as rupturas no sistema de ra-        vigor sobre a agresso se desenvolveram no
zes que pareceriam aceitveis a uma comuni-          sculo XX, as questes conceituais bsicas e os
dade de sujeitos autnomos. Os motivos que            debates importantes tm razes bem mais anti-
causam a ao e a fala do neurtico, sem jus-         gas. Discusses recentes sobre at que ponto a
tific-la nem fundament-la, so causas que no       agresso est biologicamente enraizada na na-
podem contar como razes, pois uma comuni-            tureza humana fazem reviver temas do Leviat,
dade de comunicao livre no poderia aceit-         de Thomas Hobbes, e da filosofia liberal de
las como tal.                                         Jean-Jacques Rousseau. Freud (1920), por
                                                      exemplo, restaura muitas das idias originais de
Ao, sistema e sujeito                               Hobbes sobre a brutalidade inerente do homem
    A teoria da ao de Weber parece inadequa-        para com seus companheiros, em uma moldura
da num outro aspecto bastante diferente. Ela          psicanaltica, fornecendo um modelo posterior-
subestima desde o princpio a complexidade da         mente emulado em um campo bastante distinto
dupla contingncia (cf. Parsons e Shils, 1951,        -- o da etologia -- por Konrad Lorenz (1966)
p.14ss) nas perspectivas recprocas significati-      e os neodarwinistas.
vamente orientadas de ego e alter, bem como a            Essas abordagens, concentrando-se em
hipercomplexidade de qualquer orientao sig-         pressuposies bastante simplistas sobre meca-
nificativa. A improbabilidade de um ato signi-        nismos instintivos, ao mesmo tempo em que so
ficativamente guiado, relacionado a uma mul-          extensamente revistas em obras didticas mais
tiplicidade ilimitada e inconcebvel de possibi-      importantes, esto amplamente excludas das
lidades alternativas que podiam ter sido ma-          tentativas correntes de exlicar a agresso. O
terializadas, aumenta mais ainda com a impro-         aspecto da obra de Freud que se concentra na
babilidade de que, em ao social, cada um            agresso  encarado, com a vantagem do exame
saiba que pode agir ou no agir conforme o            em retrospectiva, como uma tentativa um tanto
esperado. Sem mecanismos para a reduo               apressada de preencher lacunas evidentes em
6   agresso


sua abordagem terica, que se apoiava exces-        meza a falsa presuno de um determinante
sivamente no princpio do prazer para explicar      gentico. Essas tentativas foram, de modo ge-
os processos psicolgicos e o comportamento         ral, inconvincentes. De fato, conforme destacou
humano. A catstrofe sangrenta da Primeira          Fox (1968), as vises ingnuas dos bosqu-
Guerra Mundial exigia um modelo bastante            manos do Kalahari como um povo livre de
diferente, e assim surgiu thanatos, ou o instinto   agresso erraram o alvo, uma vez que foi pro-
de morte: "Como resultado de um pouco de            vado que eles tinham uma taxa de homicdios
especulao, viemos a supor que esse instinto       mais elevada que a de Chicago.
est em ao dentro de cada criatura viva, lutan-       At certo ponto, a rejeio das teorias biol-
do para lev-la  runa e para reduzir a vida      gicas da agresso deve-se no apenas  manifes-
sua condio original de matria inanimada".        ta inadequao dessa teorias, mas tambm 
    Uma dificuldade particular com essas anti-      gradual introduo do conceito de "politica-
gas teorias do instinto era a idia central de      mente correto" nos debates acadmicos e nas
"espontaneidade". A agresso no apenas seria       cincias sociais. No se pode dizer que as pes-
geneticamente pr-programada, e portanto            soas so naturalmente agressivas porque isso
inerradicvel, como tambm assumiria a forma        significaria assumir que a violncia e a des-
de um impulso que devia ser consumado, cana-        truio jamais poderiam ser erradicadas. Isso,
lizado ou deslocado. Expresses de agresso,        ao contrrio do que acontecia nas primeiras
quer na forma de VIOLNCIA interpessoal ou em       dcadas do sculo, no se enquadra absoluta-
alguma forma menos direta, eram portanto ine-       mente no Zeitgeist intelectual contemporneo.
vitveis. O que se enfatizava era a necessidade         Essa nova polarizao, e o acalorado debate
de direcionar essa fora hidrulica, em vez dos     natureza-educao que ocupou a maior parte do
meios de reduzi-la. Esportes vigorosos e com-       sculo, provavelmente depreciou, mais do que
petio fsica eram encarados como ingredien-       qualquer outra coisa, uma compreenso "sen-
tes essenciais no controle da agresso mscula      sata" da agresso. Marsh (1978, 1982) susten-
(natural), fornecendo boa parte das bases racio-    tou que a discusso sobre se a agresso tem uma
nais do sistema de ensino pblico britnico.        raiz biolgica ou  aprendida  eminentemente
    Embora essas perspectivas, tal como aspec-      irrelevante, uma vez que (a) ela  indubitavel-
tos de muitas das primeiras teorias psicolgicas,   mente ambas as coisas e (b) os prognsticos de
tenham sido incorporadas a "representaes so-      modificao de comportamento no so muito
ciais" leigas da agresso e da violncia, as        diferentes em ambos os casos. Pode-se fazer
modernas explicaes da agresso nas cincias       aqui uma analogia com o comportamento se-
sociais evitam praticamente todas as noes de      xual. Seria tolice supor que a sexualidade hu-
fatores genticos e substratos biolgicos. A am-    mana no tem bases genticas, biolgicas e
pla maioria dos trabalhos publicados a partir       hormonais. Mas o comportamento sexual , em
dos anos 50 d nfase ao papel do aprendizado,      grande parte, controlado por meio de quadros
das condies sociais e da privao. O que se       de regras culturais e sociais. As pessoas, no
presume essencialmente  que a agresso seja        geral, no consumam seus impulsos sexuais de
uma forma de comportamento, em vez de uma           forma aleatria e espontnea -- so obrigadas
fora psicolgica primria, e que, como qual-       a seguir convenes sociais e a observar exign-
quer outro comportamento, pode ser modifi-          cias rituais. Todas as culturas desenvolvem "so-
cada, controlada e at mesmo erradicada. Isso       lues" que maximizam as vantagens da sexua-
tambm fica patente na obra, com base em            lidade e inibem suas conseqncias potencial-
trabalhos de laboratrio, de psiclogos como        mente negativas.
Bandura (1973) e nas abordagens sociolgicas            Tornou-se cada vez mais fora de moda nas
de autores to variados quanto Wolfgang e Wei-      cincias sociais sugerir que a agresso tenha
ner (1982) e Downes e Rock (1979). Encon-           qualquer valor positivo. De fato, muitas defini-
tramos semelhante nfase na compreenso "li-        es correntes da agresso excluem tal pos-
beral" da agresso na antropologia social do        sibilidade. Em psicologia, a definio predomi-
ps-guerra, com um grande esforo sendo de-         nante  a de "comportamento intencional des-
dicado  descoberta de sociedades totalmente        tinado a ferir outra pessoa que est motivada a
pacficas em que a agresso no existe, ou no      evit-lo". Em outros campos das cincias so-
existiu -- desse modo desmascarando com fir-        ciais, a agresso  com maior freqncia enca-
                                                                                            alienao     7


rada como um comportamento "inadaptado",            quer essas metas sejam causar dano a outrem ou
ou como uma reao infeliz a condies sociais      desenvolver prestgio e status social.
patolgicas (ver tambm CRIME E TRANSGRES-
                                                    Leitura sugerida: Berkowitz, L. 1962: Aggression: a
SO). Somente em campos como a sociologia
                                                    Social Psychological Analysis  Fromm, Erich 1973:
marxista podemos encontrar o ponto de vista de      The Anatomy of Human Destructiveness  Geen, R.G.
que a agresso  uma forma de conduta racional      e Donnerstein, E.I., orgs. 1983: Aggression: Theoretical
e justificada.                                      and Empirical Reviews, vol.2: Issues in Research
                                                     Sian, G. 1985: Accounting for Aggression.
    No discurso ordinrio, no entanto, fica claro
que a agresso  encarada como tendo cono-                                                  PETER MARSH
taes tanto positivas quanto pejorativas. No
mundo dos esportes,  comum elogiarmos o            alienao Nos textos de Marx,  o processo
atleta por fazer uma corrida agressiva, ou ter-     histrico por meio do qual os seres humanos
mos em grande estima o zagueiro valente e           vieram sucessivamente a se afastar da Natureza
agressivo. Nessas arenas, a agresso no  ape-     e dos produtos de sua atividade (bens e capital,
nas permissvel. Ela  um ingrediente essencial     instituies sociais e cultura), que a partir de
para a distino. Da mesma forma, no mundo          ento se impem s geraes posteriores como
dos negcios a agresso  a marca do empreen-       uma fora independente, coisificada, ou seja,
dedor altamente considerado, sem o qual tanto       como uma realidade alienada. Marx concen-
a Gr-Bretanha ps-Thatcher quanto o Estilo         trou-se particularmente nos efeitos deletrios
Americano do sculo XX poderiam definhar e          do trabalho alienado na produo industrial
morrer.                                             capitalista (ver TRABALHO, PROCESSO DE). Em
    No surpreende que autores como Bandura         segundo lugar, o termo refere-se a uma sensa-
(1973) tenham classificado o campo da agres-        o de estranhamento da sociedade, grupo, cul-
so como uma "selva semntica". Com muitas          tura ou do eu individual, que as pessoas comu-
                                                    mente experimentam quando vivem em socie-
centenas de definies da agresso permeando
                                                    dades industriais complexas, em particular nas
as cincias sociais,  inevitvel que reine a
                                                    grandes cidades. A alienao evoca experin-
confuso e que discusses desnecessrias do-
                                                    cias como a despersonalizao diante da buro-
minem o debate. As abordagens mais promis-          cracia, sensaes de impotncia para influir nos
soras so as que deixaram para trs o debate        eventos e processos sociais e um senso de falta
natureza-educao e se concentraram na com-         de coeso nas vidas pessoais. O fato de a alie-
preenso de formas especficas de comporta-         nao nesse sentido geral constituir um proble-
mento agressivo e nos fatores que o influen-        ma recorrente nas sociedades contemporneas,
ciam. A anlise dos quadros sociais que es-         como a nossa prpria,  tema proeminente na
timulam ou inibem exibies de agresso tam-        sociologia da moderna experincia urbana (ver
bm se mostrou frtil na explicao de fen-        SOCIEDADE DE MASSA; URBANISMO; ANOMIA).
menos sociais como o vandalismo das torcidas            Na Europa do entre-guerras, a dilemtica
de futebol (Marsh, 1978), a violncia feminina      situao da humanidade nas modernas socie-
(Campbell, 1982), a violncia poltica extre-       dades seculares foi amplamente discutida por
mista (Billig, 1978) etc. Trabalhos voltados        filsofos existencialistas, psicanalistas, telo-
para o papel de mecanismos fisiolgicos es-         gos e marxistas, como sendo o problema da
pecficos (como Brain, 1986) tambm tm con-        alienao. O debate foi ainda mais estimulado
tribudo para um debate mais racional, em que       pela publicao, em 1932, da anlise de Marx
existem bem menos obstculos para se exami-         sobre a alienao, em seus Manuscritos (de
nar a interao complexa entre fatores biolgi-     Paris) econmicos e filosficos (1844). A pala-
cos e sociais. Quer encaremos a agresso como       vra est geralmente ligada a REIFICAO, que
uma patologia evitvel ou como um compo-            no foi usada por Marx, mas pelo autor marxista
nente inevitvel da condio humana, nossa          Gyrgy Lukcs, em seu influente Histria e
compreenso dos fenmenos s ir aumentar se        conscincia de classe (1923), que antecipava o
o foco se concentrar em tentar saber por que        tema da "coisificao" humana discutida nos
certos indivduos em certos contextos sociais       Manuscritos. Para Lukcs, a reificao  o pon-
demonstram extrema antipatia uns para com os        to extremo de alienao dos seres humanos de
outros a fim de atingirem metas especficas,        seus produtos, que surge do fetichismo da mer-
8   alienao


cadoria (ver MERCADORIA, FETICHISMO DA) nas        relaes (formas) numa srie de modos his-
sociedades capitalistas desenvolvidas.             tricos de produo, como realizao desse pro-
    Na Gr-Bretanha, o conceito de alienao       cesso. Com a formao social do capitalismo,
tornou-se, atravs do marxismo, corrente na        "a pr-histria da sociedade humana, congruen-
sociologia e em campos adjacentes nos anos 60      temente, se encerra" (Marx, 1859). A teoria
e 70. Posteriormente se difundiu uma contro-       social-cientfica de Marx sobre a gnese his-
vrsia a respeito do significado dos primeiros     trica da alienao e sua superao prtica via-
textos de Marx sobre esse tema para a nossa        se ento sob o peso da mesma teleologia que
compreenso de sua obra como um todo. Al-          pesava sobre a teoria metafsica que ela tentava
guns marxistas como Louis Althusser (1965),        suplantar.
afirmaram que Marx abandonou o conceito hu-            Em comum com Feuerbach e com ecos de
manista de alienao, de seus primeiros textos,    Jean-Jacques Rousseau, Marx assume que a
em favor de uma anlise cientfica dos modos       essncia ou "gnero de ser" da humanidade 
de produo, enquanto outros, como Istvn          -- ao contrrio do que acontece com os ani-
Mszros (1970) e David McLellan (1980),           mais -- inerentemente socivel e cooperativa.
sustentavam que o conceito era integral a todas    E, alm disso, sustenta que o trabalho tambm
as suas obras, tanto as primeiras quanto as        deveria ter um carter comunal, como a vida
tardias.                                           produtiva e criativa da espcie como um todo,
    Em Marx, o processo histrico de alienao     em sua necessria apropriao da Natureza. O
transformou cada vez mais os seres humanos de      trabalho no apenas cria riqueza, mas  tambm
sujeitos criativos em objetos passivos de pro-     sua prpria recompensa e o meio pelo qual a
cessos sociais. Hegel j havia descrito, dentro    humanidade se ergueu acima do mundo animal
de uma moldura metafsica, semelhante proces-      e criou a histria humana. Para Marx, portanto,
so, mas Marx insistia em que o fim da alienao    a organizao da produo de bens em grande
devia ser alcanado na prtica por pessoas reais   escala e o contrato de trabalho assalariado in-
e no apenas de modo aparente no reino da          dividualista das primeiras fbricas capitalistas
conscincia ou da autopercepo, tal como em       de sua poca constituam uma pardia grotesca
Hegel (ver PRAXIS). O humanismo secular de         do carter do gnero humano que o trabalho
Marx apoiava-se fortemente na teoria mate-         deveria ter se fosse organizado de modo real-
rialista da religio, de Ludwig Feuerbach, na      mente congruente com a assumida natureza do
qual este alegava que os seres humanos haviam      homem. A alienao , assim, um conceito "cr-
projetado sua prpria essncia e suas potencia-    tico", usado como um instrumento de men-
lidades em Deus, que em seguida os confronta       surao para aferir os custos humanos da civi-
em uma forma alienada. Nos Manuscritos,            lizao capitalista.
Marx sustentava que a alienao religiosa             O trabalho alienado alienava os operrios de
apenas um aspecto da propenso dos seres hu-       (1) seu produto, que no lhes pertencia; (2) do
manos a se alienarem em seus prprios pro-         prprio trabalho, pois que passava a ser apenas
dutos, todos eles explicveis como aspectos da     um meio de sobrevivncia, algo que lhes era
alienao econmica.                               forado a fim de poderem viver; (3) de si pr-
    Essa anlise fundiu-se em seguida com a        prios, pois que sua atividade no era deles mes-
poltica do comunismo, em cuja sociedade fu-       mos, resultando em sentimentos de auto-in-
tura Marx projetou o "retorno completo do          compatibilidade; (4) das outras pessoas da f-
prprio homem como um ser social (isto ,          brica, pois que cada uma estava l vendendo
humano) -- um retorno tornado consciente e         isoladamente sua fora de trabalho como uma
alcanado dentro de toda a riqueza do desenvol-    mercadoria. Para Marx, o egosmo humano era
vimento anterior" (Marx, 1844). A histria ,      produto do trabalho alienado, tal como tambm
assim, a simultnea perda dos seres humanos        o era a propriedade privada, que no se fun-
em seus prprios produtos e sua posterior re-      damentava numa relao coletiva dos seres hu-
cuperao de si prprios. Um processo real que     manos com a natureza. Da, nenhum dos dois
Hegel havia simplesmente percebido de manei-       representava caractersticas duradouras dos se-
ra mistificada. Na teoria de Marx sobre a his-     res humanos e de suas vidas em comum, sendo
tria, as foras de produo em desenvolvimen-     produtos apenas de sociedades de classe na fase
to (contedo) superam progressivamente suas        capitalista. A abolio do trabalho alienado sig-
                                                                                               alienao    9


nificaria que o trabalho iria adquirir seu autn-      jamais se tornar caador, pescador, pastor ou
tico carter humano.                                   crtico" (Marx e Engels, 1845-46). Mais tarde,
    Duas ordens de problemas tm dominado as           nos Grundrisse e no Capital, de forma mais
discusses sobre alienao. Em primeiro lugar,         cautelosa, Marx afirma que em qualquer socie-
o status do modelo de seres humanos no cerne           dade, mesmo numa sociedade socialista, a na-
da teoria. Na terminologia contempornea, a            tureza como "reino da necessidade" no pode
anlise de Marx  um exemplo de antropologia           ser eliminada, nem tampouco a superintendn-
filosfica, pois ele postula, a priori, uma ima-       cia, a coordenao e a regulamentao do traba-
gem atemporal da NATUREZA HUMANA. Seu mo-              lho. Em suma, h que existir algum tipo de
delo de Homo laborans isola o trabalho da              diviso do trabalho e, portanto, de alienao.
experincia da atividade fabril dominante de               Para mile Durkheim (1858-1917), em Da
sua poca e o coloca como a caracterstica             diviso do trabalho social e outros textos, os
humana definidora universal. Em torno dessa            aspectos negativos, alienantes da diviso do
idia, colocam-se ento inmeras outras pres-          trabalho so compensados, em certo grau, pelas
suposies a respeito da sociabilidade, liber-         crescentes oportunidades de auto-realizao in-
dade e controle humanos, da auto-realizao e          dividual que sua extenso torna possveis. Ele
do trabalho coletivo como sua prpria recom-
                                                       defendeu o desenvolvimento de associaes
pensa. Como todos os modelos do seu tipo, este
                                                       ocupacionais para promover a solidariedade e
est aberto  acusao de arbitrariedade.
                                                       uma nova moralidade, que reconhecesse a cres-
    Em segundo lugar, no cessou a contro-
                                                       cente interdependncia das pessoas, tambm
vrsia sobre a viabilidade da desalienao. Os
                                                       presente nesse processo. Robert Blauner (1964)
existencialistas apontaram que, se a alienao
                                                       dividiu o conceito de alienao em quatro di-
podia ser exacerbada sob a produo capitalista,
ela era basicamente sintomtica de algo perene         menses, possveis de serem testadas: impo-
na condio social-natural humana. Marx pen-           tncia, falta de sentido, isolamento e auto-in-
sou que a alienao econmica era a base de            compatibilidade no local de trabalho. Em um
todos os outros aspectos, de forma que a supres-       estudo de vrios estabelecimentos industriais
so da propriedade privada marcaria o fim da           nos Estados Unidos, ele descobriu que alie-
expropriao pelos capitalistas, e da o fim de        nao e liberdade eram distribudas desigual-
todas as alienaes. Mas, como diz Axelos,             mente no moderno processo produtivo. A
"Marx no foi capaz de reconhecer a vontade            alienao atingiu seu mximo na produo
de poder" (1976, p.305), e por isso no previu         em massa e seu mnimo na produo artesa-
o surgimento de novas formas de expropriao,          nal. Alguns tm argumentado que a esse tipo
a explorao das pessoas umas pelas outras e,          de abordagem emprica falta a inteno crti-
da, mais alienao. A existncia de poderosos         co-filosfica do conceito de Marx, enquanto
sistemas comunistas nas sociedades socialistas         outros tm dito que esse  o nico meio de dar
da Europa Oriental e da ex-Unio Sovitica,            algum tipo de preciso a um conceito que 
onde a propriedade privada foi efetivamente            quase metafsico e inerentemente indetermi-
abolida, parecia corroborar isso. E tambm eli-        nado. O interesse por esse conceito, tal como
minar a alienao na ponta da produo, atravs        utilizado por Marx, tem decado nos ltimos
da autogesto operria (como na ex-Iugoslvia)         anos.
deixa intocadas as esferas da distribuio e da
troca como novas fontes de alienao.                  Leitura sugerida: Althusser, Louis 1965 (1969): Pour
    A questo de at que ponto a alienao pode        Marx  Axelos, K. 1976: Alienation, Praxis and Techne
                                                       in the Thought of Karl Marx  Blauner, Robert 1964:
ser, em ltima anlise, eliminada depende da           Alienation and Freedom  Durkheim, mile 1893
viabilidade de se abolir a DIVISO DO TRABALHO         (1984): The Division of Labour in Society  Elster, John
numa sociedade complexa. Em A Ideologia                1985: Making Sense of Marx  Karl Marx: an Introduc-
alem, Marx prev sua abolio utpica sob o           tion  Gianotti, Jos Artur Origens da dialtica do
comunismo, que tambm elimina a distino              trabalho  Lukcs, Gyrgy 1923 (1971): History and
entre trabalho fsico e mental. Dessa forma,           Class Consciousness  McLellan, David 1980: The
surgiria o ser humano universal, capaz de "caar       Thought of Karl Marx, 2ed.  Mszros, Istvn 1970:
de manh, pescar de tarde, cuidar do gado antes        Marx's Theory of Alienation.
do anoitecer e fazer crtica aps o jantar (...) sem                                  RICHARD KILMINSTER
10   ambientalismo


ambientalismo Em seu sentido mais amplo,            contra o conceito de "instintos", afirmando vi-
ambientalismo pode ser definido como qual-          gorosamente o papel do aprendizado e do am-
quer perspectiva que enfatize ou valorize o         biente no desenvolvimento individual, enquan-
papel das condies e foras externas, em opo-      to os antroplogos culturais escolhiam proces-
sio a processos e estruturas internos, no cres-   sos especificamente scio-culturais como o fo-
cimento, no desenvolvimento, nas capacidades        co de interesse ambiental pertinente na forma-
e nas atividades dos seres -- especialmente dos     o de crenas, valores e personalidade.
seres humanos. As teorias biolgicas da evolu-          Apesar de essas controvrsias terem persis-
o, por exemplo, podem ser divididas entre as      tido durante todo o decorrer de nosso sculo, a
que representam o surgimento histrico de no-       palavra "ambientalismo" adquiriu conotaes
vas espcies como um desdobrar de potenciais        mais especficas a partir da Segunda Guerra
j presentes nas formas mais primitivas de vida,    Mundial. Nesse sentido, "ambientalismo" co-
em oposio s que (como a de Darwin) expli-        bre todo um mbito de movimentos sociais e
cam a formao de novas espcies como um            polticos e de perspectivas de valor que parti-
efeito de condies externas de vida sobre po-      lham da preocupao em proteger ou melhorar
pulaes de organismos. A histria da embrio-       a qualidade dos contextos rural, urbano, doms-
logia marcou-se por uma oposio relacionada        tico ou de trabalho da moderna vida social. A
entre as teorias pr-formacionistas e epigenti-    moderna angstia com a deteriorao do meio
cas. A preocupao ps-darwiniana com o me-         ambiente pode ser relacionada aos processos
canismo de herana biolgica levou, nas dca-       histricos de industrializao e urbanizao, e,
das em torno da virada do sculo atual, a um        em particular, a sucessivas ondas de repug-
intenso debate entre os defensores da "nature-      nncia cultural romntica pelos seus efeitos.
za" e os da "educao" na formao dos atribu-      Afirma-se com freqncia que o fluxo e refluxo
tos individuais humanos. Os pontos de vista         do apoio popular aos movimentos ambientalis-
hereditrios, defendidos por Francis Galton e       tas est estreitamente ligado a padres de ex-
Karl Pearson na Gr-Bretanha e por C.B. Da-         panso econmica. Com nveis relativamente
venport nos Estados Unidos, foram fortalecidos      elevados de riqueza material, a ateno volta-se
pelo surgimento da moderna teoria gentica da       para questes -- tais como a preservao dos
herana e rapidamente transformados em mo-          ambientes selvagens, o apelo esttico do campo
vimento popular em favor de programas eug-         e a sordidez fsica do meio ambiente urbano --
nicos de "melhoria da raa". Desigualdades          que refletem nosso interesse pela qualidade de
econmicas e sociais que causavam muita con-        vida. Essa hierarquia de prioridades polticas,
trovrsia eram explicadas e implicitamente jus-     segundo a qual a riqueza material, a segurana
tificadas em termos da inferioridade biolgica      racional e assim por diante devem ser garanti-
das classes baixas, das mulheres e das raas        das, antes que questes no-prioritrias de po-
no-europias, enquanto os talentos e o gnio       ltica ambiental possam entrar na agenda p-
das elites dominantes eram de modo idntico         blica, est ela prpria ligada de modo estreito a
atribudos  superioridade hereditria. Medidas     uma viso bastante disseminada das necessi-
para aumentar as taxas de reproduo da melhor      dades humanas como algo que tambm segue
cepa humana, e reduzir as da inferior, junto com    uma ordem hierrquica. Somente quando as
um apoio aberto ao genocdio, foram defen-          necessidades fsicas, e em seguida as emocio-
didas por muitos desses hereditaristas do incio    nais ou de relacionamento, so satisfeitas  que
do sculo XX.                                       se busca a auto-realizao atravs da esttica e
    Manifestos ambientalistas mais ou menos         da experincia espiritual.
simultneos surgiram na antropologia, na psi-           A valorizao esttica e espiritual da natu-
cologia e na filosofia, na forma da antropologia    reza e a preferncia por uma vida rural arcadia-
cultural de Franz Boas, G.H. Mead, R.H. Lowie       na em harmonia com o campo informou boa
e A.L. Kroeber, do behaviorismo de W.B. Wat-        parte do ambientalismo do sculo XX. Pelo
son e da filosofia pragmtica de John Dewey. A      menos at os anos 60, isso determinou um
filosofia de Dewey d continuidade, em sua          abismo profundo entre os conservacionistas
nfase na maleabilidade humana,  ampla tra-        ambientais, por um lado, e um amplo espectro
dio ocidental oriunda do Iluminismo. Watson       de opinio favorvel ao "progresso", que advo-
e os behavioristas concentraram suas baterias       gava o avano tecnolgico, o crescimento e
                                                                                  ambientalismo    11


desenvolvimento econmico e uma abordagem             partidos polticos dominantes; a de partidos
cientfico-racional da poltica, por outro. O am-     polticos por sua prpria conta, dando um papel
bientalismo era encarado por muitos como uma          fundamental  regulamentao e preservao
tentativa de proteger tanto um estilo de vida         ambiental atravs de todo o mbito das questes
privilegiado quanto um conjunto de valores            polticas; e como grupos de presso no-ali-
culturais elitistas. Mas, contra esse ponto de        nhados politicamente. Estes ltimos so muito
vista unilateral, foi necessrio estabelecer a con-   diversificados, alguns concentrando-se em
tribuio de um ambientalismo "progressista", o       aes que chamam muito a ateno, para des-
qual, desde o sculo XIX, denunciava a degrada-       pertar conscincias e mobilizar oposio aos
o ambiental das reas residenciais da classe        abusos ambientais, alguns buscando posies
operria, destacava as ligaes entre poluio am-    "privilegiadas" como conselheiros abalizados e
biental, pobreza e falta de sade, e pugnava por      "especialistas" em processos de planejamento
abordagens ambientalmente informadas para a           oficial, outros tentando impor uma perspectiva
arquitetura e o planejamento urbano.                  ambientalista a todo o espectro da atividade
    A partir dos anos 60 os termos do debate          poltica, como a agricultura, a alimentao, a
sobre o meio ambiente tm sido radicalmente           sade, a energia, o transporte e o desenvolvi-
transformados por dois desdobramentos princi-         mento industrial, e alguns concentrando-se em
pais: a integrao da ECOLOGIA cientfica ao          "questes isoladas", tais como os problemas de
pensamento social e poltico e o reconheci-           acesso ao campo, a preservao da vida selva-
mento do impacto global da atividade econmi-         gem ou a sade ambiental.
ca e social humana como ameaa  sobrevivn-              Essa continuada presena do ambientalismo
cia. Vrios textos altamente influentes do incio     na agenda poltica vem sendo sustentada por
dos anos 70 fizeram com que essas questes            trs condies principais. Primeiro, uma srie
ocupassem um lugar proeminente na agenda do           de desastres ambientais especficos extrema-
debate pblico. Tentou-se mostrar que as taxas        mente conspcuos -- nas usinas de Bhopal e
atualmente predominantes de esgotamento de            Seveso, nos reatores nucleares de 3-Mile Island
recursos, o impacto da poluio e o crescimento       e Chernobil, bem como no vazamento do petro-
da populao eram insustentveis a longo pra-         leiro Valdez da Exxon --, ao lado de uma
zo, dada a finitude da capacidade de sustento         crescente compreenso ambientalista de desas-
global. A "saturao" econmica e populacio-          tres "naturais" tais como fome e inundaes
nal em todo o mundo e a conseqente catstrofe        ligadas  desertificao e ao desmatamento.
seriam, mais cedo ou mais tarde, inevitveis, a       Segundo, o efeito sobre a qualidade de vida,
no ser que fossem urgentemente implementa-           sentido por setores influentes, cultos e arti-
das mudanas radicais. "Ambientalismo" pas-           culados da populao nas sociedades ociden-
sara a significar no apenas a preocupao com        tais, do impacto de um desenvolvimento indus-
a perda das cercas vivas ou da tranqilidade          trial rpido e desregulado (industrializao e
rural, mas um pnico generalizado diante da           urbanizao do "idlio rural", adulterao, con-
perspectiva da aniquilao global.                    taminao e envenenamento qumico dos ali-
    Apesar da crtica metodolgica a respeito         mentos, barulho, poluio e congestionamento
dessa onda de tratados ambientalistas e de uma        pelo uso generalizado do carro particular; e
certa reafirmao de uma f otimista em "re-          assim por diante). A distribuio espacial e
mdios" tecnolgicos para os efeitos colaterais       social desses custos  tal que eles no podem
do contnuo crescimento econmico global so-          ser facilmente evitados com subterfgios pelos
bre o meio ambiente, as questes ambientais           ricos ou influentes, tal como podia acontecer
no andam longe das manchetes desde o incio          com subprodutos de fases anteriores do desen-
dos anos 70, e os protestos ambientais e os           volvimento econmico. Terceiro, indcios cada
grupos de presso continuaram a crescer em            vez mais divulgados de impactos ambientais
tamanho, influncia e diversidade por todo o          globais da atividade humana presente ou pre-
mundo.                                                visvel -- o "inverno nuclear", o buraco de
    Como fora social organizada, o ambienta-         oznio, o aquecimento global e a chuva cida.
lismo assumiu trs formas principais: a de ten-       Essas condies em geral no so percebidas
dncias ou grupos de presso pugnando por             por experincia direta, mas so cada vez mais
reformas ambientais dentro de um ou outro dos         inteligveis para pblicos cultos.
12   amostra social


    Pode-se estabelecer um elo entre todas essas        em um ponto nico do tempo, a Segunda Guerra
formas de ambientalismo no seu reconheci-               Mundial pode ser tratada, em termos prticos,
mento comum da dependncia dos seres huma-              como a linha divisria.
nos, para sua realizao pessoal, seu desenvol-             De incio a amostra social era parte integran-
vimento fsico, moral, intelectual e esttico,          te de movimentos anglo-americanos por refor-
bem como sua mera sobrevivncia, de uma rede            mas sociais. Nos Estados Unidos, era parte do
complexa de condies e processos sociais,              movimento progressista e do evangelho social,
econmicos e biofsicos inter-relacionados. Os          enquanto na Gr-Bretanha alimentava a discus-
ambientalistas, no sentido mais especfico e            so sobre "o estado da questo inglesa". As
recente do termo, vm-se concentrando na ne-            contribuies britnicas mais importantes fo-
cessidade de, conscientemente, regulamentar a           ram feitas pelos grandes estudos sobre a po-
atividade humana, tendo em vista a sustentao          breza: o macio Life and Labour of the People
de suas condies de existncia, com nfase nas         of London (1892-97), de Charles Booth, e os
condies biofsicas. Dependendo das outras             estudos de York (1901, 1941), de B.S. Rown-
perspectivas morais e polticas s quais o am-          tree. A.L. Bowley, especialista em estatstica
bientalismo se associa, a percepo dessa ne-           social, tambm realizou um trabalho impor-
cessidade pode estar relacionada tanto a uma            tante na aplicao da teoria da amostragem s
anlise de condies para a mera sobrevivncia          pesquisas, e demonstrando que informaes so-
quanto ao objetivo de se levar uma vida reali-          bre um nmero menor de pessoas, se fossem
zada, emancipada e de convvio comunitrio,             escolhidas sistematicamente de acordo com um
ou a um engajamento "ecolgico profundo"                mtodo apropriado, poderiam dar uma boa es-
com o bem-estar da biosfera como um valor em            timativa dos nmeros para toda uma populao
si mesmo.                                               (Bowley e Bennet-Hurst, 1915). Nos Estados
    Ver tambm MOVIMENTO ECOLGICO.                     Unidos, desenvolveu-se um "movimento de
                                                        amostra social" no qual o modelo prescrevia
Leitura sugerida: Carson, R. 1972: Silent Spring
 Cotgrove, S. 1982: Catastrophe or Cornucopia: the
                                                        que as comunidades estudassem a si prprias, a
Environment, Politics and the Future  Harrison, R.P.    fim de elaborar um plano de melhorias muni-
1992: Forests: The Shadow of Civilization  Meadows,     cipais coletivas (ver Elmer, 1917). Nos anos 30,
D.H. et al. 1972: Limits to Growth  Nash, R. Wil-       esse movimento perde a importncia, apesar de
derness and the American Mind  The Rights of Nature     socilogos rurais das universidades subvencio-
 O'Riordan, T. 1981: Environmentalism, 2ed.  Pas-
                                                        nadas pelo governo federal, de acordo com a
smore, J. 1974: Man's Responsability for Nature  Pep-
per, D. 1986: The Roots of Modern Environmentalism
                                                        Lei Morrill, e do Ministrio da Agricultura da-
 Rose, S., Kumin, L.J. e Lewontin, R.C. 1984: Not in
                                                        quele pas ainda continuarem a levar a efeito
Our Genes  Stocking, G.W. 1968: Race, Culture and       estudos semelhantes em reas rurais.
Evolution.                                                  quela altura, porm, esse j se havia torna-
                                       TED BENTON       do um dos elementos em desenvolvimento que
                                                        acabariam por se combinar para produzir a
amostra social Na primeira metade do scu-              amostra moderna. Entre esses elementos in-
lo XX, essa expresso referia-se a um levanta-          cluam-se pesquisas polticas, pesquisas de
mento de dados sociais em grande escala, por            mercado, o censo e outros levantamentos de
vrios meios, geralmente a respeito de uma              dados pelo governo (Converse, 1987). Come-
comunidade isolada, tratada como uma uni-               aram a surgir os institutos de pesquisas por
dade. Estava especialmente ligada a estudos             amostragem, dispostos a executar essas pes-
sobre os pobres e ao desejo de melhorar as              quisas para quem quer que pudesse pag-las.
condies sociais. Hoje em dia, a expresso             Como quer que se chamasse, a amostra estava
passou a significar a coletnea de dados padro-         assim se profissionalizando. Durante a Segunda
nizados sobre um nmero relativamente amplo             Guerra Mundial, os governos britnico e norte-
de casos, atravs de perguntas, seja em entrevis-       americano acharam oportuno coletar dados de
tas diretas, ou por meio de um questionrio que         amostra sobre suas populaes civis, a respeito
o entrevistado preenche. Em geral, no incide           de tpicos como a reao ao racionamento. Nos
mais sobre uma comunidade, e o mtodo no               Estados Unidos, houve tambm estudos em
est mais associado a qualquer tpico particu-          grande escala das foras armadas, e alguns re-
lar. Se por um lado essa mudana no ocorreu            sultados desses estudos foram mais tarde publi-
                                                                               anarco-sindicalismo       13


cados nos famosos volumes de The American                O mtodo tem sido muito criticado. Uma
Soldier (Stouffer et al., 1949-50).                  crtica fundamental  que a maioria das amos-
    Como resultado de toda essa atividade, obti-     tras fornece relatrios sobre o comportamento,
veram-se significativos avanos tcnicos, mui-       em vez de uma observao direta desse com-
tos deles ligados ao programa de desenvolvi-         portamento. No entanto no  provvel que esse
mento e codificao de mtodos de Paul La-           fato crie problemas srios para todos os tpicos.
zarsfeld. A expanso das cincias sociais no         Deve-se ter em mente tambm que um relatrio
ps-guerra significou que a amostra podia tor-       pode ser melhor do que nenhuma informao,
nar-se, como de fato se tornou, institucionali-      e que a observao direta -- especialmente de
zada nas universidades, onde  usada na maioria      uma amostragem ampla -- , em geral, impra-
das disciplinas ligadas s cincias sociais, assim   ticvel. As amostras tambm tm sido criticadas
como a governo e comrcio.O esteretipo da           como "positivistas", muitas vezes como parte
amostra social moderna baseia-se numa amos-          de um ataque geral, de um tipo que entrou em
tragem grande e representativa de indivduos e       moda no final dos anos 60, a todo e qualquer
coleta seus dados atravs de questionrio com        tipo de quantificao. Marsh (1982, cap.3) res-
umas poucas perguntas "em aberto" (que os            pondeu a essas crticas. Registre-se aqui apenas
entrevistados respondem com suas prprias pa-        que as amostras diferem to consideravelmente
lavras) e outras mais restritas (com um elenco       umas das outras que no  til trat-las todas
fixo de alternativas entre as quais escolher).       como iguais. Alm disso, foram feitos avanos
O questionrio  completado por um entrevis-         tcnicos enormes em aspectos que vo das tc-
                                                     nicas de estatstica s nuanas qualitativas do
tador, que ter recebido algum treinamento na
                                                     enunciado das perguntas. Em geral, os crticos
tcnica das entrevistas. As respostas sero
                                                     do mtodo raramente tm levado em conta esse
quantificadas, com as que foram dadas s per-
                                                     mbito ou demonstrado estar familiarizados
guntas "em aberto" sendo "codificadas" (clas-
                                                     com os padres recentes de boa prtica da
sificadas em categorias) para tornar isso pos-
                                                     amostra.
svel, e analisadas em computador. Na prtica,
                                                         Ver tambm ESTATSTICA SOCIAL.
existem muitas variaes desse esteretipo.
Uma populao inteira pode ser estudada, e           Leitura sugerida: Converse, J.M. 1987: Survey Re-
freqentemente as amostras no se destinam a         search in the United States: Roots and Emergence,
ser representativas de reas. As unidades podem      1890-1960  Marsh, C. 1982: The Survey Method: The
                                                     Contribution of Surveys to Sociological Explanation
ser organizaes ou famlias, em vez de in-           Moser, C.A. e Kalton, G. 1971: Survey Methods in
divduos. O "questionrio" pode ter tantas per-      Social Investigation  Rossi, P., Wright, J. e Andersen,
guntas em aberto, a ponto de fazer com que           A., orgs. 1983: Handbook of Survey Research.
resulte em uma entrevista intensa e no es-                                               JENNIFER PLATT
truturada. O questionrio pode ser preenchido
inteiramente pelo entrevistado, com ou sem           analtica, filosofia Ver       FILOSOFIA; FILOSOFIA
ajuda, e a entrevista por telefone est se tornan-   DA LINGUAGEM.
do mais comum.                                       anarco-sindicalismo Conforme o prefixo
    No existe,  claro, resposta certa para a       sugere, trata-se da variante anarquista do sin-
pergunta a respeito de onde a "amostra" termina      dicalismo -- o sindicalismo revolucionrio. A
e outros tipos de pesquisa comeam. C. Marsh         idia central deste  que as organizaes desen-
(1982, p.6) redefiniu "amostra", como qualquer       volvidas por operrios, para defender seus in-
investigao social em que se tomam medidas          teresses vis--vis seus empregadores, deveriam
sistemticas num conjunto de casos e se analisa      tornar-se os instrumentos para a derrubada do
a co-variao atravs dos casos, em busca de         capitalismo e, em seguida, constituir as uni-
padres. A funo dessa redefinio  dirigir a      dades bsicas da sociedade socialista. Atravs
ateno para a estrutura dos dados e o modo          de "ao direta", principalmente na forma de
pelo qual estes podem ser analisados, e afast-la    greves culminando na greve geral social, os
dos meios pelos quais foram coletados, que so       sindicatos assumiriam o controle dos meios de
encarados como menos importantes. Isso es-           produo e de todas as outras funes sociais
timula a eficcia do pensamento, mas  pouco         necessrias, expropriariam os proprietrios ca-
convencional.                                        pitalistas e destituiriam todas as instituies
14   anarquismo


burguesas, estabelecendo dessa forma o autn-      ques na Rssia, em 1917, o que levou muitos
tico "socialismo da classe operria". No movi-     sindicalistas a abandonar sua concepo de re-
mento trabalhista francs, em que essas idias     voluo centrada nos sindicatos em favor do
tiveram ampla aceitao no perodo 1895-1914,      modelo leninista, com sua nfase no papel de
os anarquistas, em especial Fernand Pelloutier     "vanguarda" dos partidos comunistas. Os sin-
(1867-1901), foram os pioneiros na sua propa-      dicatos e grupos com orientao sindicalista
gao. Mas na Frana e em outros pases, como      que se recusaram a seguir o caminho comunista
Itlia, Rssia, Estados Unidos, Reino Unido,       formaram ento, em 1922, a Associao Inter-
Sucia e Argentina, onde o sindicalismo se         nacional dos Trabalhadores, na qual a CNT
tornou uma ativa tendncia dos movimentos          espanhola, at 1939, era a maior seo nacional.
trabalhistas, nem todos os sindicalistas aceita-   Suas 14 sees nacionais (incluindo uma CNT
ram as idias anarquistas -- a abolio do es-     renascida, porm fraca e dividida) continuam a
tado e uma organizao radicalmente descen-        ser, nos anos 90, os veculos para a promoo
tralizada baseada no "princpio federativo". Os    das idias anarco-sindicalistas -- mas expres-
sindicalistas "puros" encaravam seu movimen-       sas agora somente  margem de movimentos
to como suficiente em si mesmo, viam o anar-       trabalhistas que so esmagadoramente refor-
quismo como uma das vrias ideologias polti-      mistas.
cas concorrentes e deixavam em aberto a ques-          Ver tambm ANARQUISMO e SINDICALISMO.
to sobre se uma sociedade sindicalista deveria
                                                   Leitura sugerida: Brenan, G. 1950: The Spanish La-
ser organizada como uma entidade poltica. Por     byrinth, 2ed.  Richards, V. 1983: Lessons of the Spa-
outro lado, os anarquistas adotaram uma das        nish Revolution, 3ed.  Rocker, R. 1989: Anarcho-
trs atitudes seguintes com relao ao sindi-      Syndicalism.
calismo. Alguns encaravam as concepes sin-                                  GEOFFREY OSTERGAARD
dicalistas como excessivamente limitadas ou
equivocadas, e portanto se mantiveram  parte.     anarquismo O repdio aos governantes  o
Outros, encarando o sindicalismo como essen-       cerne do anarquismo. Ao desenvolver essa no-
cialmente um meio de atingir uma sociedade         o negativa, os anarquistas modernos, clas-
anarquista, estimularam a participao no mo-      sificveis de modo mais amplo como indivi-
vimento, embora prevenindo contra a possibi-       dualistas ou socialistas, rejeitam o Estado, afir-
lidade de se identificar o anarquismo com ele.     mam que a ordem social  possvel na ausncia
Outros ainda -- os anarco-sindicalistas -- as-     deste e advogam a passagem direta para a "so-
sumiram o ponto de vista de que o sindicalismo     ciedade sem Estado". O primeiro a elaborar
era essencialmente a expresso de um anarquis-     uma teoria do anarquismo foi Godwin (1793),
mo maduro na sociedade capitalista contempo-       mas Proudhon (1840) foi o primeiro a se intitu-
rnea. Foi na Espanha, com sua forte tradio      lar, desafiadoramente, anarquista. Como movi-
anarquista, que o anarco-sindicalismo se tornou    mento social, o anarquismo, numa forma revo-
uma fora significativa na formao da CNT         lucionria, cristalizou-se em oposio ao mar-
(Confederacin Nacional de Trabajo), organi-       xismo, no perodo da Primeira Internacional
zao que em 1936 reunia 1 milho de membros       (1864-72), em parte no que diz respeito  ques-
e na qual militantes da FAI (Federacin Anar-      to de se os socialistas deveriam buscar a ime-
quista Ibrica) exerciam influncia preponde-      diata "abolio do estado". No sculo XX, com
rante. Foi na Espanha tambm, na regio da         o socialismo tornando-se cada vez mais estatis-
Catalunha, que anarco-sindicalistas, durante os    ta, o movimento anarquista declinou. Mas suas
primeiros meses da guerra civil de 1936-39,        idias influenciaram outros movimentos e con-
tentaram, com algum sucesso inicial, mas de        triburam para a crtica das teorias e prticas
curta durao, estabelecer um sistema de           estatizantes. O anarquismo tambm continuou
"controle dos operrios" sobre a indstria.        a ter interesse porque levanta questes fun-
    Com exceo da Espanha, as tendncias sin-     damentais para a teoria social e poltica.
dicalistas nos movimentos trabalhistas ociden-         Uma dessas questes diz respeito  autori-
tais foram enfraquecidas pelo fervor nacionalis-   dade. O "anarquismo filosfico", componente
ta desencadeado com a deflagrao da guerra        especfico da vertente individualista, rejeita a
em 1914. Enfraqueceram-se de forma ainda           idia de autoridade legtima, particularmente o
mais sria em seguida ao sucesso dos bolchevi-     direito que qualquer um tem (funcionrio do
                                                                                  anarquismo     15


Estado ou no) de exigir a obedincia de outro.        Ao rejeitar o estado, os anarquistas negam o
A autonomia individual, concebida moralmen-        ponto de vista amplamente aceito, e classica-
te, como o foi por Godwin e por Wolf (1970)        mente expresso por Thomas Hobbes (1651), de
exige que os indivduos ajam de acordo com         que na ausncia de estado no h sociedade e a
seus prprios juzos. Concebida de forma egos-    vida  solitria, medocre, desagradvel, brutal
ta, como por Stirner (1845), essa idia implica    e curta. Os seres humanos, acreditam eles, so
que "o ser nico" que realmente " dono de si      naturalmente sociais e no associais. At os
mesmo" no reconhece nenhum dever para com         primeiros estados se desenvolverem, cerca de 5
outros. Dentro dos limites de seu poder, ele faz   mil anos atrs, todos os seres humanos viviam
o que  certo para ele mesmo.                      em sociedades sem estado. Os anarquistas as-
    Uma vez que o "anarquismo filosfico" tor-     sumem o ponto de vista de John Locke de que
na problemticas a colaborao e a organizao     "a condio natural da humanidade" na qual
formal, os anarquistas so, com freqncia, me-    todos so livres e iguais, ningum tendo o di-
nos radicais. Apesar de geralmente desconfia-      reito de exigir obedincia dos outros, constitui
dos da autoridade, podem reconhecer a autori-      de fato uma sociedade. Mas no aceitam a
dade racional de especialistas dentro de seus      justificativa de Locke da aceitao do estado
campos de competncia e a autoridade moral de      limitado como um artifcio para a proteo dos
normas sociais bsicas, tais como "contratos       direitos naturais -- especialmente o direito 
devem ser honrados". E no sentido em que a         propriedade --, uma viso do estado como
"poltica" ocorre em todos os grupos organi-       sentinela associada a um liberalismo de laissez-
zados,  falta de unanimidade podem reco-          faire que ressurge na obra libertria de Nozick
nhecer at mesmo a autoridade poltica (mas        (1974). Mas, apesar disso, endossam o ponto de
no de estado). Assim, decises tomadas de         vista de Locke, vividamente expresso mais tar-
modo participativo por membros de uma co-          de por Paine (1791-2, parte 2, cap.1) e recente-
muna ou cooperativa de trabalhadores podem         mente reafirmado por Hayek (1973, cap.2), de
ser consideradas moralmente impositivas. Mas       que a ordem social existe independentemente
eles rejeitam a autoridade apoiada na fora co-    do estado -- uma ordem gerada de forma es-
ercitiva -- institucionalizada, de modo pro-       pontnea, um produto da sociabilidade huma-
eminente, mas no exclusivo no ESTADO.             na. O que distingue os anarquistas desses libe-
    Os anarquistas rejeitam o estado moderno       rais  sua crena de que essa ordem natural no
porque, dentro de seu territrio, ele divide as    necessita ser suplementada por qualquer tipo de
pessoas em governantes e governados, mono-         ordem imposta a partir de cima. Na linguagem
poliza os principais meios de coero fsica,      da teoria da escolha racional, apesar de a ordem
reivindica soberania sobre todas as pessoas e      social ser um "bem pblico", um bem caracte-
toda a propriedade, promulga leis visando su-      rizado pela indivisibilidade e pela no-exclu-
primir todas as outras leis e costumes, pune os    so, as pessoas -- nas condies previstas pelos
que infrigem suas leis e apropria-se  fora,      anarquistas -- colaboraro voluntariamente pa-
atravs de impostos e de outras maneiras, da-      ra a proviso desse bem (Taylor, 1982). Para os
quilo que  propriedade de seus subordinados.      anarquistas, ao contrrio dos liberais clssicos,
Mais ainda: com outros estados, divide a socie-    o estado no  um mal "necessrio", mas sim
dade humana contra si mesma em sociedades          um mal "positivo" -- uma grande fonte, como
nacionais e periodicamente trava a guerra, auto-   na guerra, de desordem na sociedade huma-
rizando com isso o assassinato em massa. Para      na. Eles defendem, portanto, a idia de "socie-
os anarquistas, nem mesmo um estado demo-          dade natural", uma sociedade auto-regulada,
crtico tem legitimidade, uma vez que no se       pluralista, na qual poder e autoridade esto
baseia em nenhum sentido rigoroso de consen-       radicalmente descentralizados.
so, e o relacionamento governante-governado           Ao estabelecer uma distino ntida entre
apenas disfarado. Os anarquistas podem admi-      sociedade e estado, o anarquismo -- tanto in-
tir que s vezes o estado exera funes teis,    dividualista quanto socialista -- apia-se em
tais como proteger -- mas tambm violar --         fundamentos liberais. O anarquismo individua-
os direitos humanos, mas afirmam que essas         lista pode ser encarado como um liberalismo
funes poderiam e deveriam ser executadas         elevado a uma concluso extrema, ou lgica. O
por organizaes voluntrias.                      indivduo  a unidade bsica, "sociedade" 
16   anarquismo


uma palavra coletiva para um agregado de in-        e Peter A. Kropotkin, na Rssia, substituram o
divduos, a LIBERDADE  definida negativamente      "mutualismo" de Proudhon primeiro pelo "co-
como ausncia de coero e o objetivo  maxi-       letivismo", e depois pelo "comunismo:" -- este
mizar a liberdade individual de modos compa-        ltimo implicando o "tudo pertence a todos" e
tveis com a igual liberdade de outros. Contra a    a distribuio de acordo com as necessidades.
reivindicao de soberania do estado, opem             Tambm, sob a inspirao de Bakunin, os
o princpio da "soberania do indivduo". Do         anarquistas adotaram a estratgia de estimular
lado econmico, a vertente individualista geral-    insurreies populares, no decorrer das quais,
mente insiste na importncia da propriedade ou      previa-se, a propriedade capitalista e fundiria
posse privada, favorece a produo individual,      seria expropriada e coletivizada, e o estado,
condena todos os monoplios e louva o livre         abolido. Em seu lugar surgiriam comunas au-
mercado. Na crena de que suas propostas ga-        tnomas, porm unidas federativamente: uma
rantiriam s pessoas os frutos de seu prprio       sociedade socialista organizada de baixo para
trabalho e no levariam  acumulao de posses      cima, e no ao contrrio. Para fomentar o es-
atravs da explorao do trabalho alheio, os        prito de revolta entre os oprimidos, os anar-
anarquistas individualistas do sculo XIX s        quistas adotaram a ttica de "propaganda atra-
vezes se consideraram socialistas. Mas seus         vs de aes", na forma de, primeiro, insur-
sucessores atuais, como Murray Rothbard             reies locais exemplares e, depois, atos de
(1973), tendo abandonado a teoria do valor-         assassinato e terrorismo. Defrontados com a
trabalho descrevem-se como "anarco-capitalis-       conseqente represso a seu movimento, outros
tas". Seu programa implica a privatizao com-      anarquistas adotaram uma estratgia alternativa
pleta. Afirmam que o livre mercado  capaz de       associada ao SINDICALISMO. A idia era transfor-
fornecer todos os bens e servios, inclusive a      mar os sindicatos em instrumentos revolucio-
proteo de pessoas e da propriedade, ora su-       nrios da luta de classes e fazer deles, em vez
postamente fornecidos pelo monoplio poltico       das comunas, as unidades bsicas de uma nova
chamado estado.                                     sociedade. Foi atravs do sindicalismo que os
    O anarquismo socialista pode ser visto como     anarquistas exerceram sua maior influncia so-
uma fuso de liberalismo e socialismo. Um           bre os movimentos socialistas no perodo 1895-
valor muito grande  atribudo  liberdade in-      1920. Essa influncia durou mais tempo na
dividual, mas esta  definida no apenas nega-      Espanha, onde, durante a guerra civil de 1936-
tivamente, mas tambm como a capacidade de          9, os anarco-sindicalistas, com algum sucesso,
satisfazer as necessidades. Insistindo na igual-    embora de pouca durao, tentaram levar a
dade social e econmica como condio neces-        termo sua concepo de revoluo.
sria para a liberdade mxima de todos, o anar-         Na Espanha, como antes na Rssia revo-
quismo socialista rejeita a propriedade privada     lucionria, o anarquismo manteve sua rixa com
capitalista junto com o estado. A solidariedade     o marxismo, ainda que os anarquistas geral-
social, expressa em aes de auxlio mtuo,        mente aceitassem boa parte da anlise eco-
enfatizada. A sociedade  considerada uma rede      nmica de Marx, enquanto os marxistas con-
de associaes voluntrias, mas, o que  mais       cordavam em que a iminente sociedade co-
importante, composta de comunidades locais.         munista sem classes seria desprovida de estado.
A individualidade comunal  o ideal.                As diferenas diziam respeito, em parte, aos
    O anarquismo socialista foi em grande parte     meios para se chegar a esse fim. Os anarquistas
moldado pelas idias de Proudhon: a liberdade       opunham-se  idia marxista de que os ope-
 a me, e no filha, da ordem; todos os partidos   rrios deveriam organizar-se em um partido
polticos so variedades de despotismo; o poder     poltico especfico a fim de conseguir conces-
do estado e o do capital so sinnimos; o pro-      ses do estado burgus como um preldio  sua
letariado, portanto, no tem como se emancipar      derrubada. E opunham-se  idia de um estado
atravs do uso do poder de estado, apenas atra-     dos operrios -- "a ditadura do proletariado"
vs de ao direta (pacfica); a sociedade de-      -- que, supostamente, se "dissolveria"  me-
veria ser organizada na forma de comunidades        dida que as relaes de propriedade capitalistas
locais autnomas e de associaes de produ-         fossem sendo abolidas. Os anarquistas afirma-
tores, unidas pelo "princpio federativo". No      vam que a primeira idia levaria  degenerao
obstante, seus sucessores, Michael A. Bakunin       do movimento dos trabalhadores e  sua co-
                                                                                         Annales     17


optao pelo estado burgus, e que, ainda que      Sua influncia ainda pode ser observada hoje,
isso no acontecesse, a segunda idia levaria a    em especial nos movimentos pela paz, pelo
uma ditadura sobre o proletariado e, da, a uma    feminismo, pela libertao lsbica e gay, pela
nova forma de domnio de classe. Mas, subja-       ecologia social radical, pela libertao animal e
centes a essas diferenas, existem outras, es-     pelo autogerenciamento dos trabalhadores. A
pecialmente quanto  natureza do estado. Se,       ao direta, a alternativa anarquista clssica 
por um lado, os anarquistas concordam em que       ao poltica convencional, tambm se tornou
as classes econmicas dominantes usam o es-        popular. No outro extremo do espectro poltico,
tado para manter seu domnio, por outro lado       o anarquismo individualista, renascido como
acham que o estado incorpora um poder poltico     anarco-capitalismo,  uma tendncia significa-
que no pode ser reduzido, mesmo "em ltima        tiva na Nova Direita libertria.
anlise", a poder econmico. Como o poder              O anarquismo que sobrevive e fertiliza ou-
poltico tem razes independentes, o estado       tros movimentos no pede, como fez Bakunin,
uma organizao com sua prpria dinmica e         a abolio imediata do estado. Pede, em vez
"lgica". A no ser que sofra resistncia, essa    disso, "anarquia em ao", aqui e agora, e mu-
lgica leva ao domnio completo da sociedade       danas que promovam a "anarquizao" e no
pelo estado: o TOTALITARISMO.                      a "estatizao" da sociedade humana. Alm
    Em agudo contraste com o anarquismo re-        disso, ele sobrevive como um protesto perma-
volucionrio em seus mtodos, mas no em sua       nente contra todos os relacionamentos de poder
viso de uma nova sociedade socialista, en-        coercitivos, por mais disfarados que sejam, e
contra-se o anarquismo que deriva da tradi-        contra todas as teorias que neguem a percepo
o pacifista (ver PACIFISMO). "A lei do amor",    fundamental do liberalismo: os seres humanos
expressa no Sermo da Montanha, levou Leon         so naturalmente livres e iguais.
Tolstoi, o romancista russo, a denunciar o es-         Ver tambm LIBERTARIANISMO.
tado como "violncia organizada" e a concla-
mar as pessoas a desobedecerem suas exign-        Leitura sugerida: Apter, D.E. e Joll, J., orgs. 1971:
                                                   Anarchism Today  Bookchin, M. 1982: The Ecology of
cias imorais. Esse apelo influenciou Gandhi no     Freedom  Gurin, D. 1970: Anarchism  Miller, D.
desenvolvimento de sua filosofia de no-vio-       1984: Anarchism  Pennock, J.R. e Chapman, J.W.,
lncia na ndia. Ele popularizou a tcnica da      orgs. 1978: Anarchism  Ritter, A. 1980: Anarchism
resistncia no-violenta de massa e deu origem      Ward, C. 1982: Anarchy in Action  Woodcock, G.

 idia-chave do anarco-pacifismo: a "revolu-      1963 (1986): Anarchism, 2ed.
o no-violenta", descrita como um programa                                  GEOFFREY OSTERGAARD
no para a tomada do poder, mas para a trans-
formao dos relacionamentos. Para ele, a in-      Annales Esta "escola" de historiografia, se
dependncia nacional era apenas o primeiro         de escola puder ser chamada, pode com justia
passo de tal revoluo, que Vinoba Bhave, em       reivindicar ser a mais destacada contribuio do
campanha por um aldeamento voluntrio da           sculo XX  historiografia. Considera-se em
terra, continuou em um esforo no sentido de       geral que suas origens remontam  fundao da
concretizar o sonho de Gandhi de uma ndia         Revue de Synthse Historique, por Henri Berr
composta de repblicas-aldeias auto-suficien-      em 1900. Surgiu como resultado de um descon-
tes e autogovernadas (Ostergaard, 1982).           forto com -- na verdade, um protesto contra --
    Em um sculo que testemunhou por toda          o impulso ideogrfico que veio a dominar a
parte um vasto aumento do poder do estado, sua     historiografia europia desde a "revoluo"
militarizao ainda maior e sua aceitao geral    rankeana -- o apelo a se escrever a histria
como a organizao poltica normal das so-         empiricamente, "como ela de fato aconteceu",
ciedades nacionais, o anarquismo esteve nitida-    com base em fontes primrias -- e que em
mente "contra a corrente". Mas ainda existe e      particular se institucionalizou na Frana, mais
demonstra uma notvel capacidade de sobre-         especificamente na Sorbonne e na Revue His-
viver a movimentos anarquistas especficos.        torique (fundada na dcada de 1870). Bem mais
Uma gerao depois do eclipse do ANARCO-SIN-       tarde, em 1953, Lucien Febvre sugeriria que
DICALISMO, as idias anarquistas ressurgiram, s   essa historiografia francesa, tal como exempli-
vezes de forma espetacular, no contexto dos        ficada por figuras como Gabriel Monod e mile
movimentos da Nova Esquerda dos anos 60.           Bourgeois, era "a histria tal como escrita pelos
18   Annales


derrotados em 1870". Ele afirmava que a nfase     panso institucional. Bloch fora assassinado
na histria diplomtica era sustentada por um      pelos nazistas, mas Febvre continuou a liderar
tipo de subtexto que dizia: "Ah, se a tivssemos   o movimento at morrer em 1956. Febvre as-
estudado mais atentamente, no estaramos on-      sociou-se, no entanto, a um historiador mais
de estamos hoje" (Febvre, 1953, p.VII).            jovem, Fernand Braudel, que viria a simbolizar
    No que houvesse objeo  busca de dados      a chamada "segunda gerao" do movimento.
empricos nas chamadas fontes primrias. O         Febvre iria derramar-se em louvores  grande
que se afirmava era a noo de que no havia       obra de Braudel, publicada em 1949, La Mdi-
histria que valesse a pena ser escrita se no     terrane et le monde mditerranen  l'poque
fosse "sinttica" -- da o ttulo da publicao    de Philippe II. Chamou-a de a "imagem da
de Berr -- ou, na formulao posterior de Fe-      histria", exatamente como o movimento vinha
bvre, se no fosse histoire pense ou histoire-    pleiteando, e disse que ela marcava a "alvorada
problme, em oposio a histoire historisante.     de uma nova era" (Febvre, 1950, p.24).
    Henri Berr buscou romper os limites es-            Apesar de Braudel ter sido recusado pela
treitos de uma suposta "disciplina" abrindo seu    Sorbonne, foi indicado para o Collge de Fran-
peridico a outras "disciplinas", especialmente    ce, tal como j havia acontecido com Febvre, o
as novas cincias sociais. Essa tradio foi re-   que, na poltica do sistema universitrio fran-
novada, reenfatizada e aprofundada quando, em      cs, era honroso mas no significava real poder.
1929, Lucien Febvre e Marc Bloch se juntaram       Febvre e Braudel estavam determinados a criar
para fundar a publicao que deu nome ao           uma base alternativa de poder e, com a ajuda de
grupo. Existem duas coisas principais a obser-     um funcionrio pblico de alto escalo, Gaston
var quanto a essa publicao. Antes de tudo, o     Berger, puderam incrementar uma idia da d-
nome. Chamava-se Annales d'histoire cono-         cada de 1870, a criao de uma VIe Section (6
mique et sociale, uma traduo direta (e de-       Seo: de cincias econmicas e sociais) da
liberada) do ttulo da revista alem que en-       cole Pratique des Hautes tudes. A cole era
carnava a escola de histria "institucional" de    uma instituio peculiar, inventada no sculo
Schmoller, a Vierteljahrschrift fr Sozial- und    XIX para oferecer "educao adulta" fora do
Wirtschaftsgeschichte. (Ver tambm METHO-          sistema universitrio. Mas, com bastante ra-
DENSTREIT.) O ttulo no era apenas um meio de     pidez, Febvre e Braudel conseguiram transfor-
identificao com uma corrente antiidiogrfica     mar a VIe Section em um vibrante centro de
paralela na Alemanha; era tambm um progra-        estudos de ps-graduao e de pesquisa erudita
ma. Esse ttulo evidenciava que aquela publica-    sobre histria e cincias sociais. A revista tam-
o enfatizaria o econmico e o social, implici-   bm foi revitalizada em 1946, sob novo nome,
tamente por serem mais duradouros, mais im-        Annales: Economies, socits, civilisations.
portantes e mais fundamentais que o poltico e         Foi Braudel quem desenvolveu mais expl-
o diplomtico, foco normal da maior parte dos      cita e teoricamente a posio do movimento dos
textos histricos.                                 Annales na construo social do tempo e das
    O segundo aspecto a observar quanto  re-      temporalidades. Ele dividiu seu livro sobre o
vista  sua localizao, bem como a de seus        Mediterrneo em trs partes, correspondentes
autores e leitores. Ela no ficava em Paris, mas   ao que considerava os trs tempos sociais de
em Estrasburgo, onde Febvre e Bloch estavam        structure, conjoncture e vnement. Em La M-
ento ensinando. Isso simbolizava sua margina-     diterrane, ele fez sua famosa boutade: "Even-
lidade institucional, que continuou mesmo          tos so poeira" (Braudel, 1949, [1973] vol.1,
quando Febvre foi nomeado para o Collge de        p.901). Em 1958 publicou o que  provavel-
France e Bloch, para a Sorbonne. O nmero de       mente a pea terica central do movimento dos
assinantes era pequeno, apenas umas poucas         Annales, "A histria e as cincias sociais". Foi
centenas. Mas os autores e leitores eram inter-    nesse artigo que se fez a exposio do terceiro
nacionais desde o princpio, da mesma forma        grande tema que caracterizou o movimento dos
que os temas da revista. Havia fortes laos,       Annales. Alm de "sntese" e de "histria eco-
particularmente, com a Itlia e a Espanha.         nmica e social", existe a nfase na longue
    Depois da Segunda Guerra Mundial, a in-        dure, o tempo das estruturas em lenta evoluo
fluncia do movimento dos Annales cresceu de       da vida social. Braudel, no entanto, tem o cui-
forma impressionante, com uma importante ex-       dado de deixar bem claro nesse ensaio que a
                                                                                       Annales    19


longue dure no  o eterno e o universal imu-      a consecuo da mesma esperana de sntese
tvel. Ele chama esse ltimo tempo de "muito        que inspirara Henri Berr em 1900.
longue dure" e diz a respeito dele: "Se existe,        Os acontecimentos de 1968 abriram novos
s pode ser o tempo dos sbios (...)" (Braudel,     horizontes intelectuais por toda a parte. Em
1958).                                              alguns pontos do mundo, esses eventos fizeram
   Repentinamente, isto , entre 1945 e 1970,       com que eruditos (e estudantes) se mostrassem
poca da segunda gerao, o movimento dos           pela primeira vez receptivos  via media dos
Annales saiu dos bastidores e ocupou o centro       Annales, lutando simultaneamente contra o m-
do palco, e no apenas na Frana. Em 1975,          todo idiogrfico (ver IDIOGRFICO, MTODO) na
quando a VIe Section foi rebatizada como cole      histria e a cincia social universalizante. Por
des Hautes tudes en Sciences Sociales, j era      outro lado, foi precisamente nas partes do mun-
motivo de maior prestgio ser nomeado para l       do nas quais a influncia de Annales j havia
do que para as agora mltiplas universidades        sido forte que a comunidade erudita estava
parisienses. Annales ESC transformara-se em         entrando em um estado de esprito "ps-marxis-
uma das mais importantes publicaes eruditas       ta", mostrando-se a partir de ento um tanto
em todo o mundo. Parecia que quase todos os         reticente com relao  grande nfase atribuda
eruditos, ou pelo menos um nmero muito gran-        histria econmica pela "segunda gerao".
de deles, estavam se proclamando Annalistes.            A "terceira gerao" mudou claramente a
   Para o movimento dos Annales, como para          nfase do econmico para o social (chegando a
tantas outras correntes de pensamento, 1968 foi     incluir neste ltimo a cultura poltica). Isso
um momento decisivo. S depois de 1968  que        traduziu-se em uma preocupao renovada com
a influncia do movimento dos Annales ul-           as mentalits, uma extraordinria expanso da
trapassou o que poderia ser chamado de zona         pesquisa emprica sobre um vasto mbito de
cultural francesa "ampliada" -- Europa latina,      fenmenos scio-culturais e uma importante
Qubec, Polnia, Hungria e Turquia. (Para uma       fuso de interesses com os antroplogos que
anlise desse fenmeno, ver o nmero especial       estavam, por sua vez, dando nova nfase 
de Review, 1978, que tambm inclui artigos          esfera simblica.
explicando igualmente por que a Gr-Bretanha            O movimento dos Annales, em sua "terceira
demonstrou certa receptividade precoce.) O          gerao", buscou o esprito de "inclusividade",
movimento comeou a exercer uma influncia          do estudo de todo e qualquer aspecto da reali-
importante em zonas que se vinham mostrando         dade social, o que era parte central do ethos dos
at ento resistentes -- os Estados Unidos, a       Annales desde o princpio. A terceira gerao
Alemanha e finalmente a Unio Sovitica. (Du-       usou o social para expandir o econmico, da
rante muitos anos a posio oficial sovitica foi   mesma forma que a gerao anterior havia usa-
de condenao ao movimento dos Annales. Ha-         do o econmico para expandir o poltico. Mas
via, no entanto, muitos annalistes enrustidos na    se, por um lado, est claro que foram mais
Unio Sovitica. Foi somente em 1989, com a         "inclusivos",  menos seguro que tenham sido
glasnost, que o Instituto Universal da Academia     to holsticos, to "sintticos".
de Cincias pde promover um colquio inter-            A terceira gerao tentou recuperar a im-
nacional sobre "Les Annales -- hier et au-          portncia da arena poltica, encarando-a como
jourd'hui".)                                        parte central das mentalits. Ao faz-lo, tiveram
   Em 1972, Braudel aposentou-se tanto como         de se aproximar mais de uma considerao de
editor de Annales ESC quanto como presidente        "evento", ainda que sob o disfarce de ocor-
da VIe Section, para ser substitudo pela cha-      rncias simblicas.
mada "terceira gerao". O ano de 1970 marcou           Na medida em que a "terceira gerao" pas-
o lanamento oficial da ltima grande cons-         sou a ocupar cada vez mais espao no mundo
truo institucional do movimento dos Annales,      do conhecimento -- no duplo sentido de ser
a Maison des Sciences de l'Homme, da qual           mais numerosa e de se preocupar com ques-
Braudel seria administrador at morrer, em          tes mais empricas --, inevitavelmente come-
1985. A Maison tinha como sua raison d'tre a       ou a perder o sentido de movimento. A maior
colaborao intelectual de eruditos franceses       parte dos annalistes recusa hoje, inteiramente,
com eruditos de todas as partes do mundo, para      a expresso "a escola dos Annales".
20   anomia


    Existir ento um esprito dos annales que           mensurao foram criadas vrias escalas. Pos-
tenha permanecido? Parece que sim, no sentido            teriormente seu significado foi se tornando ca-
de que os extremos da narrativa ideogrfica e            da vez mais indeterminado, conforme o uso
da generalizao a-histrica ainda so rejeita-          se expandia entre os socilogos ou se estendia
dos. O que se poderia dizer  que enquanto, para         aos psiclogos. Nesse processo, anomia tornou-
a primeira e a segunda geraes, a via media era         se uma palavra "psicologizada" e afastada de
uma passagem muito estreita entre duas alta-             qualquer teoria mais ampla da sociedade. A
mente ameaadoras e muito amplas escolas de              histria de sua transmutao, do uso inicial de
Cila e Caribdes, para a terceira a via media             Durkheim quele feito por Merton e seus suces-
tornou-se uma passagem larga entre duas po-              sores,  interessante. Conforme observa Bes-
sies extremistas grandemente reduzidas.               nard, anomia, que para Durkheim "caracteriza-
a diferena entre ter a auto-imagem de Davi              va uma condio do sistema social, foi mais
contra Golias e ter a sensao de que aquilo que         tarde aplicada  situao do agente individual,
se faz  no apenas normal e respeitvel, mas            ou at mesmo s suas atitudes, a seu estado de
encarado como tal.                                       esprito". Alm disso, o "conceito [de Durk-
    Vir realmente a existir uma "quarta gera-           heim] crtico da sociedade industrial foi trans-
o" do movimento Annales? A questo perma-              formado numa noo conservadora, designan-
nece em aberto.                                          do desadaptao  ordem social" (Besnard,
                                                         1987, p.13).
Leitura sugerida: Braudel, Fernand 1958 (1972):
                                                             Em Da diviso do trabalho social, de Durk-
"Histoire et sciences sociales: la longue dure". In
Annales ESC  Review 1978: "The annales school and        heim, a "forma anmica" da diviso do trabalho
the social sciences". Nmero especial, 1.3-4 (inverno-    "anormal". Isso consistia na ausncia de um
primavera)  Wallerstein, Immanuel 1991: "Beyond          corpo de regras governando as relaes entre as
Annales?". Radical History Review 49, 7-15.              funes sociais, podendo ser detectado nas cri-
                          IMMANUEL WALLERSTEIN           ses industriais e comerciais e no conflito entre
                                                         trabalho e capital. Sua causa principal estava na
anomia Esta palavra deriva do grego ano-                 rapidez com que ocorria a INDUSTRIALIZAO,
mia, que significa sem lei e conota iniqidade,          rapidez tal que "os interesses em conflito no
impiedade, injustia e desordem (Orru, 1987).            tiveram tempo de atingir um ponto de equi-
Ressurgiu em ingls (anomie) no sculo XVI e             lbrio".  medida que o mercado se amplia e
foi usada no sculo XVII para significar des-            surge a indstria de grande escala, o efeito 
considerao pela lei divina. Reapareceu em              "transformar o relacionamento entre emprega-
francs, nos textos de Jean-Marie Guyau (1854-           dores e empregados". A urbanizao provocou
1888), que lhe deu conotao positiva. Antikan-          "um aumento nas necessidades dos trabalha-
tiano, Guyau tinha a esperana de um futuro              dores". Com a mecanizao e a substituio de
ideal de anomia moral -- isto , a ausncia de           pequenas oficinas pelo trabalho de manufatura,
regras absolutas, fixas, universais -- e anomia          "o operrio  arregimentado" e afastado tanto
religiosa, libertando o julgamento individual de         de sua famlia quanto de seu empregador. Final-
qualquer f dogmtica.                                   mente, o trabalho torna-se menos significativo,
    A carreira sociolgica da anomia comeou             reduzindo o operrio "ao papel de mquina",
com mile Durkheim, que criticou as idias de            ignorante "quanto a onde as operaes dele
Guyau, mas se apropriou da palavra, dando-lhe            exigidas esto levando" (Durkheim, 1893
mais uma vez conotao negativa, primeiro em             [1984], p.305-6).
Da diviso do trabalho social (1893) e depois                Em O suicdio, a anomia constitui uma das
em O suicdio (1897). Foi posteriormente reco-           causas sociais do suicdio, uma condio do
lhida por Robert Merton, nos anos 30, depois             ambiente social em funo da qual aumentam
do que alcanou sua mxima difuso nos anos              as taxas de suicdio.  uma situao de desre-
50 e 60 entre socilogos norte-americanos que            gulao, que deixa "as paixes individuais (...)
estudavam o SUICDIO, a delinqncia e a trans-          sem um freio para disciplin-las". Durkheim
gresso (ver CRIME E TRANSGRESSO). A partir             distinguiu dois tipos de anomia, a econmica e
da, anomia passou a significar um trao de              a conjugal. A primeira consistia no colapso de
personalidade ou conjunto de atitudes (cada vez          um quadro normativo consagrado que estabili-
mais indistinguvel de ALIENAO), para cuja             zava as expectativas e se manifestava em crises
                                                                                          anti-semitismo      21


econmicas, fossem estas exploses de cresci-                gabundos, bbados crnicos e viciados em drogas)
mento repentino ou quedas bruscas. Mas tam-                  recuam da "corrida competitiva", abandonando tanto
bm sustentava que essa anomia era crnica nas               os objetivos quanto os meios. Os rebeldes (por exem-
                                                             plo, membros de movimentos revolucionrios) ne-
sociedades contemporneas, no mundo indus-                   gam obedincia a um sistema cultural e social que
trial e comercial, resultando do declnio dos                julgam injusto e buscam reconstituir a sociedade de
controles religioso, poltico e profissional, bem            forma totalmente nova, com um novo conjunto de
como do crescimento do mercado e de ideo-                    objetivos e de prescries para atingi-los (Cohen,
logias que promovem a sede de aquisio, uma                 1966, p.77).
doena de aspirao infinita, "pregada diaria-               Essa nfase nas normas e objetivos culturais
mente como marco de distino moral", ele-                compartilhados e nas possibilidades bloquea-
vando " condio de regra a falta de regra de            das de realiz-los de forma legtima estabeleceu
que sofrem [suas vtimas]" (Durkheim, 1897                uma agenda para a pesquisa da transgresso que
[1963], p.258, 256, 257). A anomia conjugal,              durou vrias dcadas. Porm, como observou
em sua opinio, era tambm crnica, consistin-            Besnard, foi na verdade uma inverso da idia
do em um "enfraquecimento da regra matrimo-               de Durkheim, pois "onde Durkheim descreveu
nial" de um quadro normativo consagrado que               indivduos inseguros quanto ao que deviam
freava o desejo e controlava as paixes, do qual          fazer,  medida que o horizonte de possibilida-
o divrcio era ao mesmo tempo expresso e                 des se expandia, Merton prope agentes segu-
poderosa causa contributiva (ibid., p.271).               ros quanto aos objetivos a serem atingidos, mas
    A anomia de Robert Merton no comparti-               cujas aspiraes so bloqueadas por uma situa-
lha nem da viso de Durkheim da natureza                  o de fechamento com respeito s possibili-
humana, nem seu projeto de diagnosticar os                dades de sucesso" (1987, p.262).
males sociais e, em conseqncia, pessoais de
                                                          Leitura sugerida: Besnard, P. 1987: L'anomie: ses
um capitalismo em rpido processo de indus-               usages et ses fonctions dans la discipline sociologique
trializao. Merton concebia a anomia "como               depuis Durkheim  Durkheim, mile 1897 (1969): Le
um colapso na estrutura cultural, ocorrendo               suicide, tude de sociologie  Merton, R.K. 1949
particularmente onde h uma bifurcao aguda              (1968): Social Theory and Social Structure, ed. rev.,
entre as normas e objetivos culturais e as capa-          caps.4 e 5.
cidades, socialmente estruturadas, dos mem-                                                    STEVENS LUKES
bros do grupo de agir de acordo com essas
normas e objetivos" (1949, p.162). Merton                 anti-semitismo Originalmente populariza-
achava que as aspiraes a "vencer" (principal,           da por movimentos polticos na Alemanha nas
mas no inteiramente, em termos materiais)                dcadas de 1870 e 1880, que faziam campanha
eram recomendadas a absolutamente todos na                pela revogao da recm-alcanada emancipa-
sociedade norte-americana contempornea.                  o social e poltica dos judeus, essa expresso
Uma distoro, ou anomia, socialmente estru-              , rigorosamente falando, imprecisa, pois no
turada resultaria sempre que os meios insti-              diz respeito a uma oposio aos "semitas", li-
tucionalmente admitidos para vencer no es-               mitando-se a todas as formas de hostilidade aos
tivessem disponveis. Havia quatro meios de se            judeus. Como tal, tem uma longa histria que
adaptar  essa disjuno, fora o conformismo              remonta  era pr-crist, quando o monotesmo
tanto com os objetivos quanto com os meios                e o exclusivismo judaicos levavam a suspeitas
institucionalizados -- todos eles formas de               e desconfianas. Com o advento do cristia-
                                                          nismo, os judeus tornaram-se um "problema",
transgresso:
                                                          no sentido de que a continuao de sua exis-
   Os inovadores (por exemplo, ladres profissionais,     tncia parecia desmentir os conceitos cristos
   criminosos de colarinho branco, os que colam em        de uma "nova aliana" e da rejeio dos judeus
   provas) aceitam os objetivos, mas rejeitam os meios
                                                          por Deus. No decorrer da histria da Europa, 
   normativamente prescritos. Os ritualistas (por exem-
   plo, burocratas que seguem servilmente as regras,
                                                          medida que o cristianismo se disseminou, os
   sem considerao pelos fins para os quais elas foram   judeus foram segregados, convertidos  fora
   criadas) transformam em virtude o ultraconformis-      ou expulsos. No correr do tempo, foram sendo
   mo com as normas institucionalizadas, ao preo de      cada vez mais restringidos a atividades comer-
   um subconformismo com os objetivos culturalmen-        ciais e de emprstimo de dinheiro, o que acres-
   te recomendados. Os desistentes (por exemplo, va-      centou o medo do usurrio s imagens j bem
22   antropologia


firmadas de deicdio e outros crimes contra o       polticos israelenses. A literatura sobre o anti-
cristianismo.  medida que o poder do "estado       semitismo  extensa e continua a crescer, em
cristo" foi declinando, a hostilidade econmi-     paralelo ao desenvolvimento de literaturas
ca contra os judeus tornou-se a preocupao         substanciais sobre o holocausto e o estado de
maior e, com a ascenso da filosofia idealista      Israel. Um ponto de partida til poderia ser a
alem, foi associada  "essncia" (Wesen) do        bibliografia da Encyclopedia Judaica (1971,
judasmo, que se dizia ser inimiga dos interes-     coluna 160). Para um levantamento histri-
ses dos estados europeus. Do conceito de uma        co detalhado, ver Leon Poliakov (1965-85).
"essncia"  idia dos judeus como "raa" foi       Uma histria conceitual  proposta por Jacob
apenas um passo. Enquanto Christian Wilhelm         Katz (1980) e uma anlise poltica, por Paul W.
Dohm abria o debate (em 1781) sobre a eman-         Massing (1967). Dois estudos recentes so An-
cipao dos judeus, argumentando que suas           tisemitism in the Contemporary World (Curtis,
caractersticas "ruins" eram resultado da perse-    1986) e Because they were Jews (Weinberg,
guio, seus contemporneos assumiam o pon-         1986).
to de vista de que o contrrio seria bem mais           Ver tambm JUDASMO; NACIONAL-SOCIA-
provvel -- as caractersticas judaicas eram as     LISMO; RAA; RACISMO.
"causas" da perseguio que sofriam. Nem
                                                    Leitura sugerida: Arendt, H. 1958 (1966): The Ori-
Dohm nem os filsofos aprovavam a persegui-         gins of Totalitarianism  Curtis, Michael, org. 1986:
o aos judeus, mas suas conceituaes lana-       Antisemitism in the Contemporary World. Encyclope-
ram as bases para um debate sobre, e na maior       dia Judaica, 1971  Katz, Jacob 1980: From Prejudice
parte contra, eles, concentrado nas razes da       to Destruction: Antisemitism 1700-1933  Massing,
hostilidade aos judeus, elevando-o assim  con-     Paul W. 1967: Rehearsal for Destruction  Poliakov,
dio de questo racional. Isso levou  identifi-   Leon 1965-85: History of Antisemitism, 4 vols.  Wein-
                                                    berg, Meyer 1986: Because They Were Jews: a History
cao de diferentes formas de anti-semitismo        of Antisemitism  Wistrich, Robert 1991: Antisemitism:
-- social, econmico, religioso e racial, de        The Longest Hatred.
acordo com as idias dos que o exerciam. Todas                                      JULIUS CARLEBACH
se unem, no entanto, nos fundamentos bsicos
do anti-semitismo, que prope "teorias" sobre       antropologia Considerada de maneira am-
uma permanente tentativa judaica de domina-         pla como o estudo cientfico do homem, esta
o do mundo e sobre a culpa coletiva dos           definio ortodoxa destaca inmeros proble-
judeus.                                             mas que ajudam a ilustrar tanto a diversidade
    As imoderadas expresses de hostilidade         da antropologia hoje quanto seus aspectos uni-
aos judeus que marcaram as primeiras dcadas        ficadores. O primeiro deses problemas  que, se
deste sculo levaram a uma aceitao delibera-      as origens da antropologia como disciplina coe-
da ou contida das doutrinas sociais do NACIO-       rente encontram-se na revoluo darwiniana de
NAL-SOCIALISMO na Alemanha, e culminaram no         meados do sculo XIX, e em conseqncia
aniquilamento sistemtico de 6 milhes de ju-       eram parte do interesse geral pela EVOLUO,
deus durante a Segunda Guerra Mundial. Esse         boa parte do seu desenvolvimento posterior foi
"holocausto" foi seguido por uma considervel       uma reao s idias evolucionistas e, em par-
reduo na "perseguio aos judeus", mas foi        ticular, "progressionistas" sobre sociedade e
ele prprio trazido ao debate a respeito dos        comportamento humanos. A fragmentao da
judeus pelos que desejam minimizar a extenso       antropologia em ramos diferenciadamente so-
desse crime, ou pelos que negam que o crime         ciais e biolgicos reflete no apenas diferen-
tenha sequer ocorrido. A questo mais des-          tes reaes ao desenvolvimento das idias evo-
tacada do perodo do ps-guerra, no entanto, foi    lucionistas, mas tambm uma rejeio, por
o surgimento do estado de Israel e, com ele, do     grande parte da antropologia social em particu-
lobby "anti-sionista", que insiste numa ntida      lar,  viabilidade de uma abordagem puramente
diviso entre anti-semitismo e anti-sionismo.       cientfica dos problemas inerentes ao estudo
No obstante, a verdadeira diviso no campo         dos seres humanos. Em segundo lugar, o surgi-
anti-sionista, tal como no campo anti-semita, se    mento de crticas feministas levou a uma pre-
d entre os que se opem aos judeus e ao estado     cauo com o uso da palavra "homem" para
de Israel per se e os que se opem a aes e        designar a espcie humana como um todo -- se
polticas especficas de alguns judeus e alguns     no a uma rejeio total desse termo. Apesar de
                                                                                   antropologia   23


ser possvel encarar a palavra "homem" como         -- o modo como as sociedades humanas tm
uma referncia abrangente da espcie como um        variado atravs da pr-histria e da histria. Na
todo, isso serve pelo menos para lembrar que a      base de todos os ramos da antropologia existe
maior parte da reconstruo da evoluo e da        essa preocupao com o mapeamento da cria-
diversidade dos seres humanos vem sendo his-        o humana -- biolgica, comportamental e
toricamente encarada a partir de uma perspec-       cultural -- e com a tentativa de explicar, inter-
tiva predominantemente masculina.                   pretar e compreender os padres de maneiras
    Dada essa fragmentao em elementos so-         que no faam qualquer pressuposio injus-
ciais e biolgicos, para no mencionar ainda        tificada sobre direes de desenvolvimento ou
outras subdivises,  questionvel se ainda resta   sobre uma singularidade do ser humano. O
alguma coerncia na palavra antropologia, e,        projeto antropolgico caracteriza-se, em ltima
mais ainda, se o crescimento de todo um mbito      anlise, por essas perspectivas globais.
de cincias da vida, humanas e sociais, sem             Esse quadro comparativo forneceu as bases
falar em abordagens mais humanistas, no teria      para o impacto da antropologia sobre o pensa-
levado a uma redundncia, na qual no existe        mento do sculo XX.
um lugar ntido para a antropologia, nem um
carter especfico da abordagem antropolgica.      Sociedades primitivas
 possvel dar uma resposta positiva, consi-            A descoberta pelos europeus da enorme va-
derando-se o que  mpar ou predominante nas        riao nas sociedades humanas ocorreu basica-
investigaes antropolgicas. Mais que qual-        mente durante o perodo de 1500 a 1900, e
quer outra parte das cincias humanas ou so-        acarretou a necessidade de compreender como
ciais, a antropologia se caracteriza por uma        e por que essa diversidade ocorreu. A adoo de
nfase nas abordagens comparativas, nas va-         perspectivas evolucionistas (apesar de no ne-
riaes mais do que nas normas do comporta-         cessariamente darwinianas) durante o final do
mento das sociedades, e numa rejeio das so-       sculo XIX forneceu a primeira base coerente
ciedades ou populaes ocidentais como mo-          para tal perspectiva. A evoluo foi encarada,
delo para a humanidade. Esse quadro compara-        por muitos pensadores que haviam sofrido a
tivo  de importncia capital. Tradicionalmente,    influncia de Darwin, como Herbert Spencer,
os antroplogos sociais concentravam-se nas         como uma progressiva escalada de mudanas,
sociedades no-ocidentais e, apesar de ter havi-    de organismos primitivos at os seres humanos
do um aumento de interesse pela aplicao de        (ver DARWINISMO SOCIAL). Outras espcies re-
mtodos e conceitos semelhantes a sociedades        presentavam casos de desenvolvimento inter-
que se encontram dentro da esfera europia, o       rompido em uma scala naturae. Num esprito
que sempre se considerou  que a experincia        semelhante, as sociedades humanas poderiam
social humana  mais bem encarada como uma          ser classificadas numa escalada de progresso,
srie de variaes, cada qual com sua prpria       do primitivo ao avanado. A sociedade euro-
lgica cultural, e em particular que a sociedade    pia, ou particularmente a industrial, ficava no
ocidental no representa um padro de compa-        patamar mais elevado. As sociedades primi-
rao pelo qual essas outras culturas devam ser     tivas, portanto, podiam ser encaradas tanto co-
avaliadas. O mbito de variaes culturais for-     mo estgios atravs dos quais os seres humanos
nece esse quadro nitidamente comparativo para       e suas sociedades haviam passado quanto como
os antroplogos sociais.                            exemplos da falta de progresso evolutivo. As
    Da mesma forma, os antroplogos biol-          primeiras snteses antropolgicas, como as de-
gicos, ou antroplogos fsicos, como eram antes     senvolvidas por E.B. Tylor e L.H. Morgan,
conhecidos, utilizam princpios e mtodos bio-      forneceram esse modelo, com vrios estgios
lgicos para fornecer outro quadro compara-         de desenvolvimentos identificados -- hordas
tivo. Este pode ser explicitamente evolucionis-     primitivas, barbarismo, civilizao, por exem-
ta, comparando os seres humanos com outros          plo, ou matriarcado e patriarcado, ou atravs de
primatas, ou pode ser um exame da extenso e        conceitos econmicos como caar e lavrar a
natureza da variao biolgica do homem hoje.       terra.
Se, seguindo o uso norte-americano da palavra           Apesar de esse paradigma evolucionista ter
antropologia, nela se inclui a arqueologia, ento   fornecido a base da antropologia moderna, a
o quadro comparativo  fornecido pelo tempo         contribuio essencial dos antroplogos s
24   antropologia


idias do sculo XX originaram-se, paradoxal-       mudana s pela mudana e em uma ateno
mente, na rejeio desse ponto de vista. Por        para com os perigos da mudana econmica
inmeros motivos, que variam da busca do            independente de consideraes culturais. A
extico  necessidade de dar conta de imprios,     idia revolucionou tambm as opinies a res-
a antropologia preparou o caminho para a ob-        peito da esttica e da arte, o que se tornou
servao direta e para a interao entre os ob-     patente no intercmbio de cones entre a arte
servadores europeus e as sociedades envolvi-        ocidental e outras formas artsticas.
das. Foi esse contato direto e ntimo, levando
ao desenvolvimento dos mtodos de observa-          Cultura
o participante, por antroplogos como B. Ma-         O conceito antropolgico crucial na base
linowski, A. R. Radcliffe-Brown e E.E. Evans-       dessas mudanas foi o de CULTURA. Essa palavra
Pritchard, que derrubou a perspectiva evolucio-     compe-se ela prpria de mltiplas camadas e
nista e levou a uma rejeio das idias de pro-     tem mudado de significado no decorrer dos
gresso nas sociedades humanas. A experincia        anos. Em um nvel, refere-se s caractersticas
com o funcionamento detalhado das sociedades        de comportamento que so exclusivas dos seres
no-europias mostrou pela primeira vez que         humanos, em relao a outras espcies. Tam-
elas estavam longe de ser simples e no podiam      bm traz consigo a noo de comportamento
ser corretamente classificadas em termos evo-       aprendido e ensinado, em vez de instintivo. Os
lucionistas. Por exemplo, apesar de economica-      desenvolvimentos da ETOLOGIA, de certa forma,
mente simples, as sociedades aborgenes aus-        minaram esse aspecto, e ficou claro que a dico-
tralianas possuam alguns dos sistemas de pa-       tomia aprendizado/instinto no comportamento
rentesco e cosmologias mais complexos de que        animal no  vlida e que outras espcies parti-
se tem conhecimento entre os seres humanos.         lham de caractersticas que antes se achava
Mais ainda, ao substituir os conceitos evolucio-    serem unicamente humanas (tais como a fabri-
nistas por conceitos funcionais, ficou claro que    cao de ferramentas). Um outro nvel  o da
as sociedades no-europias no eram tentati-       capacidade humana para gerar comportamento.
vas primitivas de organizao econmica e es-       Apesar de comportamentos especficos pode-
trutura social, mas funcionavam bem como sis-       rem no ser exclusivos dos seres humanos,
temas integrados em formaes sociais e am-         mesmo assim a capacidade da mente humana
bientais particulares. Por exemplo, a sociedade     de gerar uma quase infinita flexibilidade de
acfala dos Nuer do sul do Sudo, estudada por      reaes, atravs de seu potencial simblico e
Evans-Pritchard, longe de ser um sistema pri-       lingstico, os coloca numa categoria  parte.
mitivo e anrquico, era uma sociedade orga-         Recentes interpretaes de cultura enfatizam
nizada em camadas mltiplas, na qual as ins-        a fonte cognitiva do comportamento humano.
tituies das linhagens de parentesco, dos pa-      Em outro nvel, encontra-se o ponto de vista
dres de casamento e da criao do gado se          de que tal comportamento est profundamen-
encaixavam num ajuste perfeito.                     te enraizado nas relaes sociais e em outras
    Embora muitos dogmas do FUNCIONALISMO           caractersticas da sociedade. E finalmente o
tenham sido abandonados desde ento, a idia        resultado de todos esses processos  o fenme-
de que a variedade da organizao social e          no, empiricamente observvel, das culturas hu-
econmica humana deveria ser encarada em            manas -- as identidades isoladas de sociedades
termos de circunstncias ecolgicas e tradies     humanas distintas, caracterizadas por tradies
culturais especficas, assim como reaes alter-    culturais especficas.
nativas a condies singulares, continua a ser         O reconhecimento da diversidade de cultu-
de importncia capital. Alm do mbito da an-       ras e subculturas humanas  um importante
tropologia, a idia conduziu ao abandono das        passo conceitual surgido da prtica da antropo-
noes de hierarquia evolucionista entre as so-     logia social -- o estudo detalhado de socie-
ciedades humanas. Em seu lugar, passou a exis-      dades especficas (etnografia). Entre tudo que
tir uma sensibilidade maior para com tradies      os estudos dos povos em unidades e contextos
culturais independentes e estratgias sociais al-   culturais implica, o principal  o reconheci-
ternativas. Isso teve conseqncias prticas nas    mento de que eles se encontram unidos, no por
atitudes a respeito do desenvolvimento, resul-      identidade gentica ou biolgica, mas por tra-
tando em menos disposio para se impor a           dies sociais, e que a ETNICIDADE  um fator de
                                                                                   antropologia   25


grande importncia nos relacionamentos entre         argumentos fortemente seletivistas (ver SELE-
povos e sociedade.                                   O NATURAL)     prognosticavam a diversidade
    Mais ainda, cultura no  apenas a acumu-        adaptativa em vez da mudana unilinear. De
lao de tradies sociais. Ela est to profun-     fato, foi por esse motivo que a maioria dos
damente entrelaada com todo o sistema cogni-        evolucionistas do final do sculo XIX e incio
tivo que a viso do mundo, em cada indivduo,        do sculo XX abandonaram a teoria da seleo,
 construda pela experincia cultural e a ela       ao mesmo tempo em que mantinham uma pers-
est sujeita. Dada a independncia das tradies     pectiva evolucionista. No entanto o conceito
culturais, isso teve imensas implicaes para a      evolucionista capital de Darwin -- descendn-
intercomunicao de conceitos e valores entre        cia com modificao -- fornecia de fato uma
as sociedades.                                       soluo simples para um problema complexo,
                                                     o da monogenia ou poligenia. A descoberta de
Relativismo cultural                                 diversos povos nas Amricas e em outras partes
    O problema da incomensurabilidade das            do mundo levantou a questo, para os cientistas
culturas levou, numa determinada direo, ao         pr-darwinianos, de esses povos todos terem
relativismo cultural. Em certo sentido, trata-se     uma nica origem ou criao ou serem o pro-
de uma reao extrema s noes de progresso         duto de vrios atos diferentes de criao. A
das abordagens evolucionistas, segundo as            monogenia implicava uma unidade de todos os
quais sociedades e culturas podiam ser clas-         seres humanos, a poligenia abria a possibilidade
sificadas das primitivas s avanadas. O relati-     de algumas formas humanas no fazerem real-
vismo cultural desenvolveu-se na antropologia        mente parte da criao especificamente humana
social como um meio de enfatizar tanto a difi-       ou da histria bblica. A fundamentao do fato
culdade de se fazer comparaes entre culturas       da evoluo, independente do mecanismo de
quanto a ausncia de quaisquer critrios in-         mudana, significou que os antroplogos es-
dependentes para se formar juzos sobre os           tavam capacitados a demonstrar que todos os
mritos relativos de diferentes tradies sociais.   seres humanos descendiam de um nico ances-
Em seu ponto mais extremo, o relativismo cul-        tral comum, e de que todos eles pertenciam a
tural adota o ponto de vista de que uma cultura      uma nica espcie. O trabalho biolgico pos-
s pode ser considerada dentro do contexto de        terior demonstrou a interfertilidade de todos os
suas prprias tradies e lgicas culturais. Num     seres humanos. Assim, as abordagens biol-
plano prtico, isso teve conseqncias impor-        gicas da antropologia abriram caminho para a
tantes e positivas para o modo pelo qual os          viso, predominante neste sculo, de que a hu-
problemas raciais e tnicos passaram a ser con-      manidade  unificada, unida por uma herana
siderados, e levou tambm a uma compreenso          biolgica, imensamente maior do que qualquer
muito mais profunda de valores, sistemas de          uma das diferenas. A aceitao da unidade da
conhecimento e cosmologias por todo o mundo.         espcie humana  hoje um consenso fundamen-
Efeitos mais negativos foram o abandono das          tal, formando a base de muitas idias que vo
abordagens comparativas que servem de base          alm do estritamente biolgico.
antropologia, uma tendncia ao particularismo
histrico e uma ambigidade quanto  univer-         A diversidade humana
salidade dos direitos humanos.                           Do mesmo modo que os antroplogos so-
                                                     ciais se concentraram na diversidade das for-
A unidade da espcie humana                          mas culturais humanas, os antroplogos bio-
   Se a antropologia social rejeitou as aborda-      lgicos tambm se voltaram para a diversidade
gens evolucionistas que se baseiam numa viso        biolgica. Uma implicao da estrutura da r-
progressiva da sociedade humana, uma ten-            vore do processo evolutivo, quando se encaram
dncia bem diferente pode ser encontrada na          os seres humanos, era que as populaes huma-
antropologia biolgica. Obras recentes sobre a       nas podiam ser divididas em unidades distintas,
histria do darwinismo tm revelado que, ao          representando ou exemplares geogrficos iso-
mesmo tempo em que muitos dos seguidores de          lados ou estgios de evoluo. A diversidade de
Darwin se mostravam ansiosos por encontrar           aparncia dos seres humanos, particularmente
um elemento de progresso, ele prprio estava         em aspectos como a cor da pele e a forma do
consciente de no ser esse o caso, e que seus        rosto, deram crdito a esse ponto de vista e se
26   antropologia


tornaram a base da anlise da variao humana        funcional e adaptativa (doena, clima, ecolo-
em termos de RAA. Durante a maior parte do          gia) da variao humana.
sculo XIX e incio do sculo XX, raa foi o
conceito central no estudo da diversidade bio-       A evoluo humana
lgica humana. A maior parte dos antroplogos            O desenvolvimento da gentica moderna
assumiu o ponto de vista de que as raas hu-         tem revelado acima de tudo que a espcie hu-
manas apresentavam divises antigas dentro da        mana  extremamente jovem, que todos os seres
humanidade, que podiam ser encaradas tam-            humanos modernos tm um ancestral recente e
bm como estgios de desenvolvimento, e de           comum, e portanto que nenhum padro geo-
que a raa biolgica estava ligada a outras          grfico que se possa encontrar significa uma
caractersticas sociais e culturais. As raas for-   diviso profunda entre eles, mas sim o produto
neceram uma categorizao dos seres humanos          recente e superficial da migrao e da adaptao
tanto horizontal (ou seja, geogrfica) quanto        local. A contribuio da antropologia s idias
vertical (ou seja, atravs do tempo). Um dos         deste sculo, assim, retorna a sua preocupao
objetivos mais importantes foi, portanto, do-        original com a evoluo, mas dentro de uma
cumentar esse processo historicamente, atravs       nfase bastante diferente. A evoluo no mos-
do estudo de amostras arqueolgicas e de fs-        tra uma escalada de progresso, mas uma fonte
seis. Mais ainda, o conceito de raa foi usado       de diversidade; em vez de fazer com que os
tambm como explicao para as diferenas em         humanos remontem cada vez mais no tempo,
termos de padres de desenvolvimento. Na pri-        ela enfatiza o quanto nossa espcie  jovem
meira parte deste sculo, a antropologia fsi-       e, assim, a unidade das populaes huma-
ca conferiu um fundamento biolgico a idias         nas. Contra esse pano de fundo, porm, os es-
mais difundidas a respeito de raa, e serviu de      pecialistas em evoluo humana tambm tm
base s teorias da cincia da eugenia (ver EU-       documentado a antigidade (mais de 5 milhes
GENIA, CINCIA DA) e do NACIONAL-SOCIALISMO.         de anos) e a complexidade das diversas li-
At a Segunda Guerra Mundial, raa foi con-          nhagens que levaram ao surgimento dos seres
ceito capital no estudo da biologia humana,          humanos modernos nos ltimos 100 mil anos.
a partir de uma perspectiva antropolgica e
evolucionista.                                       A antropologia moderna
    Essa situao transformou-se por completo            Com o crescimento da antropologia no de-
depois da guerra. Mesmo antes dela, bilogos         correr do sculo e o afastamento de um pro-
como A.C. Haddon e Julian Huxley j se ha-           grama de documentao de padres histricos,
viam mostrado fortemente crticos. Na antropo-       os antroplogos voltaram-se para questes de
logia recente, raa foi completamente rejeitada      abrangncia muito maior e com aplicaes pr-
como noo biolgica e analtica de alguma           ticas crescentes. Entre os antroplogos sociais,
utilidade. Parte do motivo disso foi, sem d-        houve maior concentrao nos laos entre pro-
vida, uma reao ao modo como a biologia foi         cessos culturais e processos econmicos, po-
usada para justificar aes polticas. Igualmente    lticos ou sociolgicos, conduzindo a uma cres-
importante foi o desenvolvimento do NEODAR-          cente nfase nos aspectos culturais da cognio.
WINISMO, que demonstrou no haver base bio-          Alm disso, as mudanas marcantes nas socie-
lgica para se tratar a variao dentro de uma       dades tradicionais estudadas pelos antroplo-
espcie como estgios evolutivos ou como ca-         gos levaram-nos a se envolver de forma cada
tegorias distintas. Alm disso, o crescente es-      vez mais profunda com os problemas do desen-
tudo direto da gentica, em lugar da variao        volvimento e da sobrevivncia, dessas mesmas
fsica, revelou que a variao geogrfica era        sociedades. A antropologia, assim, contribuiu
contnua e extremamente complexa, demons-            para uma ateno bem maior para com os elos
trando assim que aspectos seletivos, tais como       indivisveis que operam entre a cultura e outros
a pigmentao, no forneciam critrios para se       aspectos do desenvolvimento. Da mesma for-
diferenciar as raas. Como resultado, trabalhos      ma, os antroplogos biolgicos vm trabalhan-
recentes de antropologia biolgica tm mos-          do cada vez mais com os problemas de doena
trado que raa no  um conceito biolgico til.     e nutrio no Terceiro Mundo, e fornecendo
Os antroplogos biolgicos voltaram-se, em           especialmente uma compreenso maior dos as-
vez disso, para o problema de elucidar a base        pectos populacionais que revestem os proble-
                                                                          arqueologia e pr-histria     27


mas ecolgicos com os quais se defrontam vas-           criao de riqueza proliferem to rapidamente
tos setores da populao humana.                        que uma elite hereditria perca a sua capacidade
    Ver tambm OBSERVAO PARTICIPANTE.                 de influncia econmica decisiva. Estudiosos
                                                        do desenvolvimento comercial ou industrial da
Leitura sugerida: Bowler, P.J. 1987: Theories of Hu-
man Evolution: Century of Debate  Gould, S.J. 1980:
                                                        Europa, no obstante, forneceram surpreenden-
Ever since Darwin  Harris, M. 1968: The Rise of         tes indcios da adaptao aristocrtica lado a
Anthropological Theory: a History of Theories of Cul-   lado com as classes comerciais ou fabris emer-
ture  Harrison, G.A., Tanner, J.M., Pilbeam, D.R. e     gentes. Uma adaptao geralmente facilitada
Baker, P.T. 1988: Human Biology: an Introduction to     por ligaes financeiras (familiares) entre a ri-
Human Evolution, Variation, Growth and Adaptability     queza nova e a antiga. Nas sociedades tradicio-
 Kuper, A. 1982: Anthropology and Anthropologists
                                                        nais, mais uma vez, o papel poltico da aristo-
 Leach, E.R. 1982: Social Anthropology  Spencer,
F., org. 1982: A History of American Physical Anthro-   cracia tornou-a mais ou menos coextensiva da
pology.                                                 classe governante, ou pelo menos da classe da
                                  ROBERT A. FOLEY       qual os lderes civis e militares eram mais ou
                                                        menos exclusivamente retirados. Sistemas mais
aristocracia Em seu sentido mais antigo, a              complexos e impessoais contriburam de algu-
palavra aristocracia denotava um sistema pol-          ma forma para deslocar esse relacionamento
tico. Os gregos antigos usavam essa palavra             entre a autoridade pblica e uma elite gover-
para identificar um regime em que poder e               nante hereditria, com o poder sendo exercido
mrito andavam juntos. Esse uso predominou              cada vez mais em nome do rei, do estado ou do
no Ocidente durante dois milnios. Mas na               povo. Aqui mais uma vez, porm, a adaptao
poca da Revoluo Francesa a palavra aris-             aristocrtica mostrou-se inaudita e surpreenden-
tocracia e uma outra recm-cunhada, "aristo-            temente duradoura. Fosse como ministros do rei,
crata", passaram para o reino da anlise social         agentes parlamentares ou poderosos locais.
(e da polmica). Agora o foco se concentrava                Alguns cientistas sociais so de opinio que
na aristocracia como uma elite dentro da comu-          as elites no mundo contemporneo exibem ain-
nidade: uma elite em que se concentrava o               da novos estgios na evoluo dessas caracte-
acmulo de riqueza e de autoridade poltica,            rsticas aristocrticas: a nomenklatura da Eu-
marcada pelo privilgio e transmitida por here-         ropa Oriental, por exemplo, ou os bostonianos
ditariedade.  nesses termos que "aristocracia"         ilustres da Nova Inglaterra. Aqui, poder e in-
tem hoje maiores probabilidades de ser usada            teresses familiares so, com toda certeza, en-
por historiadores e cientistas sociais.                 contrados de forma concentrada e reveladora: o
    O estudo de um vasto mbito de contextos e          privilgio campeia. Mas o privilgio das aris-
de problemas levou essencialmente a uma com-            tocracias tradicionais foi definido e proclamado
preenso mais precisa desses aspectos caracte-          como um status distintivo, em geral formal-
rsticos da aristocracia. A transmisso heredi-         mente "nobre"; e essas pretenses foram, em
tria da posio social aristocrtica raramente         certo sentido, reconhecidas pela comunidade
esteve sequer perto da total excluso de recm-         em geral. Onde podemos traduzir "privilgio"
chegados devido, entre outras coisas, aos aca-          meramente como "vantagem", a podemos di-
sos da extino natural. A escala e o carter do        zer que a aristocracia j no existe mais.
recrutamento para o status de aristocrata j per-           Ver tambm ELITES, TEORIA DAS; DIFERENCIA-
mitem perceber os valores e condies ma-               O SOCIAL.
teriais de uma sociedade. Nas sociedades tra-           Leitura sugerida: Bo ttomore, To m 1964 (1966):
dicionais, a riqueza aristocrtica baseava-se,          Elites and Society  Bush, Michael 1983: Noble Privi-
com maior probabilidade, na posse de recursos           lege  1988: Rich Noble, Poor Noble  Powis, Jonathan
fundirios, e analistas marxistas em particular         1984: Aristocracy.
relacionaram a transio de uma economia                                                  JONATHAN POWIS
agrria a um concomitante enfraquecimento do
poder aristocrtico. Mas a fonte da riqueza pode        arqueologia e pr-histria Essas duas dis-
ter sido menos importante do que o lazer que            ciplinas -- o estudo do passado humano atravs
isso permitia para o exerccio de uma preemi-           de suas runas materiais e a parte da matria que
nncia geral na comunidade.  possvel, de fato,        diz respeito ao perodo anterior aos registros
haver circunstncias nas quais novas formas de          escritos -- so relativamente recentes. A pala-
28   arqueologia e pr-histria


vra "arqueologia" entrou em uso no sculo          "pr-histria", com expresses equivalentes em
XVIII para descrever o estudo da cultura mate-     outras lnguas europias (prehistory; prhis-
rial do mundo antigo, especialmente o da Gr-      toire; Vorgeschichte). Do ponto de vista da
cia e o de Roma. Denotava uma forma de             aplicao, seus mtodos eram potencialmente
erudio artstico-histrica que estava intima-    globais, mas a matria encontrava-se dominada
mente ligada  especializao e  prtica de       por evidncias europias.
colecionar, e dependia em grande parte da exis-        No entanto, a interpretao liberal da his-
tncia de provas textuais para esclarecimento e    tria humana antiga, com base em premissas
interpretao. A extenso do tempo coberto pe-     cientficas e evolucionistas deu lugar no incio
la cronologia bblica deixava muito pouco es-      do sculo XX a uma renovada nfase nacio-
pao para um perodo extenso anterior aos re-      nalista, acompanhada por um divrcio entre os
gistros escritos. Apesar de os filsofos do Ilu-   pensamentos arqueolgico e antropolgico. A
minismo discutirem questes mais amplas a          pr-histria (em alemo geralmente chamada
respeito do passado remoto, tais como a origem     Urgeschichte, para enfatizar sua continuidade
da agricultura e da civilizao, faziam-no em      com os povos histricos) era interpretada em
grande parte com base na etnografia compara-       termos das migraes de povos em particular
tiva e sem referncia  arqueologia. Foi s com    ou da diviso da cultura a partir de centros como
o movimento romntico que as runas das cul-       o Egito. A antropologia voltou-se da recons-
turas pr-letradas passaram a despertar interes-   truo histrica para a observao e descrio
se por si mesmas, em geral no contexto de          em primeira mo, com um interesse pelas inter-
preocupaes nacionalistas com as origens das      pretaes funcionalistas. Apesar de a explo-
naes do Norte europeu. O acmulo de ind-        rao arqueolgica de outros continentes ter
cios materiais permitiu que estudiosos da Anti-    produzido grande riqueza de novas evidncias,
gidade escandinavos postulassem uma suces-        o estudo de cada rea isolada tendia a se desen-
so de estgios tecnolgicos caracterizados pe-    volver como especializao introvertida. Um
lo uso de ferramentas de pedra, bronze e ferro     dos poucos arquelogos a manter uma viso
-- embora se acreditasse que essas "trs idades"   mais ampla foi o pr-historiador V. Gordon
fossem, em grande parte, contemporneas das        Childe (1892-1957), cujos estudos sobre a pr-
civilizaes cultas do Mediterrneo.               histria europia e do Oriente Prximo foram
    O mbito da arqueologia tornou-se bvio no     motivados pelo desejo de fugir  nfase nacio-
final do sculo XIX, com o desenvolvimento da      nalista de boa parte da erudio alem con-
geologia e a rejeio da cronologia bblica, e     tempornea, atravs da explorao de modelos
com a respeitabilidade das idias evolucionistas   marxistas. Ele reviveu o interesse do sculo
em biologia (ver EVOLUO). A idia de pr-his-    XIX (e, na verdade, do Iluminismo) pelas ori-
tria , portanto, um desdobramento relativa-      gens da agricultura e da civilizao, que enca-
mente recente e ligado de forma estreita ao        rava como revolues econmicas compar-
crescimento da ANTROPOLOGIA. A arqueologia         veis em importncia  Revoluo Industrial, e
clssica continuou como uma disciplina, no         que chamou respectivamente de Neoltico e
geral, distinta, apesar de escavaes na Grcia    Revoluo Urbana. Essas idias foram expostas
e na Turquia (em stios arqueolgicos como         em duas obras clssicas, Man Makes Himself
Micenas e Tria, famosas na mitologia antiga)      (em 1936) e What Happened in History (em
revelarem a existncia de antecessoras da Idade    1941), que foram alguns dos poucos livros que
do Bronze para as civilizaes clssicas daque-    conseguiram chamar a ateno dos tericos
la regio. A Idade da Pedra era reconhecida        sociais fora da matria nessa ocasio para as
como um perodo de durao considervel, cor-      evidncias arqueolgicas.
respondendo s fases mais antigas da evoluo          Apesar do engajamento poltico de Childe
humana, durante a qual a humanidade fora de-       com o marxismo e de sua nfase no materia-
pendente da caa (o paleoltico, ou Idade da       lismo histrico, suas teorias diferiam das dos
Pedra Lascada), e aos primeiros estgios da        historiadores marxistas britnicos contempor-
agricultura (o neoltico, ou Idade da Pedra Po-    neos em sua interpretao mais consensual do
lida). A etnografia comparativa podia agora ser    que conflitual desses acontecimentos. Childe
relacionada ao registro material, e a nova ma-     concebeu um papel de gerenciamento para as
tria foi chamada (com alguma infelicidade) de     primeiras elites seculares, com a religio como
                                                                      arqueologia e pr-histria     29


fora maior impedindo o progresso tecnol-          sim, em grande parte, um fenmeno norte-ame-
gico. Ele combinou uma viso hegeliana dos          ricano e britnico, com ecos em outras partes
papis sucessivos das civilizaes oriental,        do mundo de lngua inglesa e do Norte da
clssica e ocidental com uma viso difusionista     Europa, apesar de conspicuamente ausente na
da histria da tecnologia para produzir um mo-      Alemanha (e no Japo), onde as aventuras inte-
delo social sofisticado, no qual as inovaes       lectuais estavam inibidas pela experincia da
que produziram as primeiras sociedades urba-        guerra; e mal se refletiu, durante pelo menos
nas eram sufocadas pela centralizao poltica      uma dcada, na arqueologia clssica. Algumas
nelas prprias, mas apesar disso serviram de        inovaes semelhantes ocorreram na Unio So-
base para novos desenvolvimentos em socie-          vitica, ainda que restringidas pelas necessidades
dades que adquiriram essas tcnicas sem que         sempre cambiantes da ortodoxia poltica; e um
incorressem no mesmo custo social. Esse mo-         novo pensamento comparvel na Frana assumiu
delo (que foi influenciado por exemplos mais        forma bastante diversa, inicialmente menos sim-
recentes, como a industrializao do Japo)         ptica para com o movimento mais amplo.
explicava para Childe as caractersticas mpares        A nova arqueologia caracterizava-se por
das sociedades europias ocidentais. A diver-       uma abertura a um maior mbito de interesses
gncia entre cultura "ocidental" e "oriental"       oriundos de disciplinas vizinhas e por uma nsia
passa a remontar  Idade do Bronze. Apesar de       de participar de seus debates internos. Se por
muitos aspectos dessas idias terem um sabor        um lado estava ligada a importantes avanos
de sculo passado, elas representaram no obs-      metodolgicos (geralmente vindos de reas de
tante um grande avano nas explicaes ineren-      nova tecnologia exteriores  disciplina, como
temente metafsicas do talento nacional ou ra-      foi o caso da datao por meio de radiocarbono
cial, que abundavam no discurso arqueolgico        e da fsica nuclear), por outro tendia a absorver
da poca. Alm disso, foram uma realizao          e reproduzir teorias, em vez de gerar as suas
notvel por parte do nico intelectual voltado      prprias. Alm disso, repartia muitos de seus
para esse tema.                                     entusiasmos com movimentos contemporneos
    Um fator que inibiu a arqueologia de explo-     na histria e na economia -- por exemplo, sua
rar o potencial de suas evidncias contriburem     preocupao com a ECOLOGIA e a DEMOGRAFIA.
com corpos mais amplos da teoria social foi a       Os computadores e a teoria de sistemas (ver
sua posio marginal nas universidades. A           SISTEMAS, TEORIA DE) forneciam sua lingua fran-
maior parte dos praticantes dessa matria na        ca. Tal como a histria braudeliana (ver AN-
primeira metade do sculo era ou de elementos       NALES), concentrava-se mais no processo que
ligados a museus e organismos que se ocupa-         no evento -- da o nome alternativo de arqueo-
vam com monumentos antigos ou de escava-            logia processual. Evitando o singular e o parti-
dores independentes tentando levantar recursos      cular (e especialmente a produo de "pseudo-
para suas expedies. A expanso da educao        histria"), sustentava que mtodos mais rigoro-
superior a partir da Segunda Guerra Mundial,        sos -- e especialmente quantitativos -- eram
portanto, teve um efeito decisivo sobre a na-       capazes de reconstruir tanto as informaes
tureza do discurso arqueolgico, o qual, pela       sociais quanto as simplesmente tecnolgicas ou
primeira vez, incluiu um substancial compo-         estilsticas, a respeito da pr-histria. Entre suas
nente metodolgico e terico, alm dos rela-        inovaes metodolgicas e conceituais esta-
trios sobre escavaes e das discusses sobre      vam as idias de taxonomia numrica para clas-
o material primrio. Uma vez que a arqueologia      sificao de artefatos; a amostragem espacial
daquelas reas e perodos, para os quais havia      para reconstituir padres de povoamento a par-
disponibilidade de evidncia textual, era am-       tir de um levantamento de campo de disperso
plamente conduzida a partir de departamentos        de material de superfcie; a reconstituio do
de histria e de estudos clssicos ou orientais,    meio ambiente e da dieta a partir de restos
o mpeto maior para a anlise comparativa veio      animais e vegetais; padres de troca e comrcio
inicialmente da pr-histria, que era em geral (e   a partir da identificao de matrias-primas; e
nos Estados Unidos quase que inteiramente)          estruturas sociais a partir dos diferentes tipos de
conduzida sob a gide da antropologia. O mo-        artefatos depositados em tmulos.
vimento do final dos anos 60 que veio a ser             Embora cada um desses esforos produzisse
conhecido como a "nova arqueologia" foi, as-        novas e copiosas informaes, sua interpre-
30   arqueologia e pr-histria


tao era geralmente ingnua e fortemente cir-       vilizadas" e "brbaras" formavam partes do
cunscrita pelos paradigmas predominantes da          mesmo sistema econmico. Feudos, at mesmo
antropologia neo-evolucionista, que devia mui-       tribos, podiam ser fenmenos de contacto, em
to a Herbert Spencer (1820-1903). Era tpico         vez de estgios na evoluo.
que as explicaes enfatizassem a presso de-            Mais fundamentalmente, a prpria cultura
mogrfica e a intensificao da agricultura (fa-     material passou a ser vista, durante os anos 80,
zendo eco s idias de Esther Boserup sobre          como importante em si mesma, em vez de
economia de desenvolvimento), colonizao e          simplesmente refletir diferenas ecolgicas
expanso de povoamentos, especializao eco-         subjacentes e estruturas sociais abstratas. O
nmica e a formao de hierarquias sociais e o       desejo de possuir bens pode ser uma motivao
surgimento de locais centrais (ecoando temas         de mudana to forte quanto a presso de-
da "nova geografia" -- ver tambm GEOGRAFIA          mogrfica ou a deteriorao do solo. Os "bens
HUMANA). Esses temas comuns foram descober-          de prestgio", de origem europia, que circu-
tos na base do surgimento de estabelecimentos        lavam na frica subsaariana eram um compo-
agrcolas e cidades e do desenvolvimento geral       nente ativo do poder dos chefes nativos que
de sociedades humanas por todo o mundo --            monopolizavam seu estoque e os usavam para
uma sucesso evolucionista de bandos a tribos,       legitimar sua autoridade. Assim, talvez a in-
feudos e estados.                                    tensificao da produo agrria na Europa pr-
    Apesar de sua alta tecnologia, das novidades     histrica tardia tambm possa ter sido estimu-
em matria de sofisticao estatstica e da rique-   lada pela disponibilidade de artigos comerciais
za de novas informaes, essas interpretaes        mediterrneos. Longe de serem provedores be-
mostram grande semelhana com os pontos de           nevolentes ou gerentes econmicos, os chefes
vista de autores do Iluminismo, tais como Adam       podiam ser encarados como exploradores e mo-
Smith (que absolutamente no conhecia ar-            nopolizadores. E no apenas em situao de
queologia). Ao esposar um modelo compara-            contato, mas na gnese de ofcios como a me-
tivo, baseado na idia da evoluo, esse esforo     talurgia, que envolve o suprimento de materiais
produziu uma srie de anlises de casos iso-         raros e custosos. No entanto, se as estruturas
lados que assumiram uma autonomia de desen-          sociais no so hierarquias abstratas, consistem
volvimento local e se mostraram insensveis a        em vrios tipos de iluses que minorias conse-
estruturas mais amplas do tipo postulado por         guem convencer seus seguidores a aceitar, co-
Gordon Childe. O difusionismo, dentro desse          mo  possvel um estudo comparativo?  certo
quadro, estava efetivamente banido, uma vez          que cada "estrutura" seja nica, tanto em seus
que era difcil de quantificar e no tinha lugar     relacionamentos, quanto em seus smbolos e
no paradigma. Nesse particular, a nova arqueo-       materiais? Se as interpretaes so to transi-
logia parecia-se muito com a economia de de-         trias e contextualmente dependentes, que cer-
senvolvimento dos anos 60. Durante a dcada          teza  possvel? As teorias arqueolgicas dizem
de 70 esse trabalho foi criticado de modo seme-      mais a respeito do presente do que do passado?
lhante quele em que a teoria da modernizao        Assim, a arqueologia percorreu o ciclo das cin-
foi desafiada pelas teorias marxistas do subde-      cias sociais, do comparativismo e determinis-
senvolvimento e dos sistemas mundiais, ligadas       mo confiantes dos anos 60 ao relativismo e 
aos nomes de Andre Gunder Frank e Immanuel           desconstruda introverso ps-modernista do
Wallerstein (ver DESENVOLVIMENTO E SUBDESEN-         final dos anos 80 (ver MODERNISMO E PS-MO-
VOLVIMENTO). Apesar de o conceito de subde-          DERNISMO).
senvolvimento mostrar-se inaplicvel a contex-           Tal Angst no  de forma alguma universal.
tos mais antigos, a idia de centro e periferia      Em todo o mundo, homens e mulheres enfiam-
deu nova vida ao estudo dos relacionamentos          se em escavaes, registrando estratigrafias e
entre as populaes urbanas e suas hinterln-        recuperando artefatos e evidncias ambientais
dias incultas, e especialmente das relaes co-      para exames de laboratrio, aprimorando data-
merciais assimtricas entre elas -- por exem-        es, observando correlaes, tendo idias para
plo, o comrcio de vinho entre Roma e seus           ajudar a dar sentido quilo que encontram. Al-
vizinhos celtas. O prprio conceito de "pr-his-     gumas dessas idias so novas, algumas so
tria" era visto como enganoso para as idades        velhas: os arquelogos clssicos agora desco-
de metal tardias, de vez que as sociedades "ci-      briram a teoria do lugar central e esto jogando
                                                                                    austromarxismo     31


os mesmos jogos dos pr-historiadores nos anos           palmente por Adler, que concebia o marxismo
60. Se no pode haver uma compreenso defi-              como "um sistema de conhecimento sociol-
nitiva do presente, com toda certeza no pode            gico (...) a cincia das leis da vida social e de
haver uma compreenso definitiva do passado.             seu desenvolvimento causal" (1925, p.136).
Leitura sugerida: Binford, L.R. 1983: In Pursuit of
                                                         Em sua primeira obra importante (1904) ele
the Past  Daniel, G. e Renfrew, A.C. 1988: The Idea      analisou a relao entre causalidade e teleolo-
of Prehistory  Hodder, I. 1990: Reading the Past         gia, enfatizando que so formas diversas de
Scarre, C., org. 1988: Past Worlds: the Times Atlas of   causalidade e que a relao causal na vida social
World Archaeology  Sherratt, A.G., org. 1980: The        no  mecnica, mas mediada pela conscincia.
Cambridge Encyclopedia of Archaeology  Wenke, R.         Este foi um ponto de vista que Adler expressou
1989: Pattern of the Past.
                                                         posteriormente, afirmando que mesmo "os pr-
                              ANDREW G. SHERRATT
                                                         prios fenmenos econmicos nunca so `mate-
arte, sociologia da Ver SOCIOLOGIA DA ARTE.              riais' no sentido materialista, mas tm precisa-
                                                         mente um carter `mental'" (1930, p.118).
artes dramticas Ver CINEMA; DANA; MSI-                Adler encarava como conceito bsico na teoria
CA; TEATRO.                                              da sociedade de Marx o de "humanidade socia-
austraca, escola de economia Ver ESCOLA                 lizada" ou "associao social" e o considerou,
AUSTRACA DE ECONOMIA.                                   de forma neokantiana, como sendo "dado trans-
                                                         cendentalmente como categoria de conheci-
austromarxismo Uma das primeiras esco-                   mento" (1925). Ou seja, como um conceito
las independentes de pensamento marxista, de-            fornecido pela razo, e no derivado da expe-
senvolvida a partir do trabalho de um grupo de           rincia, o que  um pr-requisito de uma cincia
pensadores em Viena no final do sculo XIX,              emprica.
sendo os mais destacados Max Adler, Otto                     Essa concepo do marxismo como sistema
Bauer, Rudolf Hilferding e Karl Renner. Essa             sociolgico forneceu o quadro de idias que
nova modalidade de MARXISMO, segundo Bauer               direcionou os estudos de toda a escola aus-
(1927), foi uma reao a novas doutrinas filo-           tromarxista, o que fica particularmente claro
sficas (neokantianismo e positivismo), a de-            nas anlises econmicas de Hilferding. Em sua
senvolvimentos na teoria econmica (margina-             crtica da teoria econmica marginalista (1904),
lismo austraco) e s questes levantadas pelo
                                                         Hilferding contraps  individualista "escola
problema das nacionalidades no imprio mul-
                                                         psicolgica de economia poltica" a teoria mar-
tinacional dos Habsburgo. Mas foi igualmente
                                                         xista do valor, que se baseia em uma composi-
influenciada pela controvrsia revisionista na
                                                         o de "sociedade" e "relaes sociais", j que
Alemanha (ver REVISIONISMO) e pelo extraordi-
                                                         a teoria marxista como um todo "busca revelar
nrio florescer da vida cultural e intelectual
vienense na virada do sculo. Como resultado             o determinismo social dos fenmenos econ-
dessa combinao, a escola foi inovadora em              micos", sendo o seu ponto de partida "a socie-
muitos campos diferentes.                                dade e no o indivduo". Em outro texto, o
    A primeira manifestao pblica da nova              prefcio a Finance Capital (1910), Hilferding
escola de pensamento foi a criao, em 1904,             referiu-se diretamente a Adler, afirmando que
dos Marx-Studien, uma coletnea de mono-                 "o nico objetivo de qualquer indagao [mar-
grafias organizada por Adler e Hilferding e              xista] -- mesmo em questes de poltica --  a
publicada irregularmente at 1923. Foi sucedi-           descoberta de relaes causais", e prosseguiu
da pela publicao, a partir de 1907, de um              com uma investigao dos principais fatores
peridico terico, Der Kampf, que logo veio a            causais no mais recente estgio do desenvolvi-
rivalizar com Die Neue Zeit, de Kautsky, como            mento capitalista, concluindo com uma anlise
a principal revista marxista europia. Os aus-           do imperialismo que serviu de base a estudos
tromarxistas eram todos ativos na liderana do           posteriores de Bukharin e Lenin.
crescente Partido Social-Democrata (SP) e se                Outro campo de grande importncia para a
dedicavam particularmente a promover a edu-              investigao sociolgica foi o da nacionalidade
cao dos operrios.                                     e do nacionalismo. O estudo clssico de Bauer
    Os fundamentos filosficos e tericos do             (1907) buscou fornecer uma anlise terica e
austromarxismo foram desenvolvidos princi-               histrica abrangente, a partir da qual concluiu:
32     austromarxismo

     Para mim, a histria j no mais reflete as lutas das     (1916), ao escrever sobre os efeitos do desen-
     naes. Em vez disso, a prpria nao surge como o        volvimento capitalista do pr-guerra e a "eco-
     reflexo de lutas histricas. Pois a nao s se ma-       nomia de guerra", observou "a penetrao da
     nifesta no carter nacional, na nacionalidade do in-
                                                               economia privada pelo estado, at as suas clu-
     divduo (...) [a qual] (...)  apenas um aspecto da sua
     determinao pela histria da sociedade, pelo desen-      las mais elementares: no a nacionalizao de
     volvimento das condies e tcnicas do trabalho.          umas poucas fbricas, mas o controle de todo o
                                                               setor privado da economia por uma regulamen-
    A partir de uma perspectiva distinta, con-                 tao deliberada e consciente", e continuou: "o
centrando-se nos problemas jurdicos e consti-                 poder do estado e a economia comeam a se
tucionais das diferentes nacionalidades do im-                 fundir (...) a economia nacional  concebida
prio dos Habsburgo, Renner (1899, 1902) tam-                  como um meio de poder de estado, e o poder de
bm contribuiu com estudos importantes, no                     estado como um meio de fortalecer a economia
decorrer dos quais props a idia -- original na               nacional (...).  a poca do imperialismo." De
poca e no sem relevncia para o atual desen-                 forma semelhante, em ensaios publicados entre
volvimento da Europa -- de uma transforma-                     1915 e 1924, Hilferding desenvolveu, com base
o do Imprio Austro-Hngaro em um "estado                    em sua anlise constante de Finance Capital,
de nacionalidades" que poderia tornar-se o mo-                 uma teoria do "capitalismo organizado", em
delo da organizao socialista de uma futura                   que a ao do estado comea a assumir o carter
comunidade mundial.                                            de uma estruturao consciente e racional da
    Renner  mais conhecido, contudo, por sua                  sociedade como um todo (ver SOCIALIZAO DA
contribuio pioneira a uma sociologia marxis-                 ECONOMIA). A partir dessa situao, duas linhas
ta do direito. Em seu estudo (1904) sobre as                   de desenvolvimento se tornam possveis: rumo
funes sociais do direito, ele buscou demons-                 ao socialismo, se a classe operria viesse a
trar como as normas jurdicas existentes mu-                   conquistar o poder de estado, ou rumo ao estado
dam suas funes reagindo a mudanas na so-                    corporativo, se os monoplios capitalistas man-
ciedade e, mais particularmente, a transforma-                 tivessem o domnio poltico. Na Itlia e na
es em sua estrutura econmica. Em seguida                    Alemanha, essa ltima possibilidade concreti-
sugeriu, como problemas de importncia capi-                   zou-se na forma do FASCISMO, e Bauer (1936)
tal para uma sociologia do direito, questes a                 nos proporcionou uma das mais sistemticas
respeito de como mudam as normas jurdicas                     explicaes marxistas das condies econmi-
e das causas fundamentais de tais mudanas.                    cas e sociais nas quais os movimentos fascistas
Nessa discusso, como em outros textos,  evi-                 eram capazes de surgir e triunfar. Posterior-
dente que Renner atribui um papel ativo ao                     mente Hilferding (1941) deu incio a uma revi-
direito na manuteno ou modificao das re-                   so radical da teoria marxista da historia, na
laes sociais, e de forma alguma o trata sim-                 qual atribuiu ao estado-nao moderno um pa-
plesmente como uma ideologia que reflete con-                  pel mais independente na formao da socie-
dies econmicas, mencionando como com-                       dade, afirmando que no sculo XX houvera
patveis com esse ponto de vista os comentrios                uma profunda "mudana na relao do estado
de Marx sobre o direito na introduo aos                      com a sociedade, provocada pela subordinao
Grundrisse. Outra importante contribuio pa-                  da economia ao poder coercitivo do estado", e
ra a formulao de princpios de uma sociologia                que "o estado se transforma num estado totali-
marxista do direito foi feita por Adler (1922), o              trio na medida em que ocorre essa subordina-
que no decorrer de sua crtica  "teoria pura do               o" (ver TOTALITARISMO).
direito" de Hans Kelsen, a qual exclui qualquer                    As mudanas na estrutra de classes e suas
indagao sobre a base tica do direito ou sobre               conseqncias polticas foram outros temas a
seu contexto social, examinou em detalhes as                   que os austromarxistas dedicaram muita aten-
diferenas entre uma teoria formal e uma teoria                o. Bauer fez uma contribuio importante em
sociolgica do direito.                                        sua explicao comparativa da situao de ope-
    Os austromarxistas tambm se dedicaram a                   rrios e camponeses nas revolues russa e
estudos de importncia em outros campos. Fo-                   alem, em sua detalhada anlise (1923) da re-
ram dos primeiros marxistas a examinar sis-                    voluo austraca, e em seus textos crticos
tematicamente o envolvimento crescente do                      sobre o surgimento de uma nova classe do-
"estado intervencionista" na economia. Renner                  minante na Unio Sovitica, na medida em que
                                                                                        autogesto      33


a ditadura do proletariado fora transformada na        A "idade de ouro" do austromarxismo foi o
ditadura de um aparato partidrio onipotente       perodo do final do sculo XIX at 1914, quan-
(ver especialmente Bauer, 1936). Adler (1933),     do foram publicados os textos mais fecundos
escrevendo no contexto da derrota e destruio     desses pensadores e a obra da escola como um
do movimento operrio na Alemanha, analisou        todo exerceu ampla influncia no movimento
as mudanas na composio da classe operria       socialista europeu. Depois da Revoluo Russa,
na sociedade capitalista. Ao mesmo tempo em        porm, ela foi eclipsada, primeiro pela verso
que observava que "j na obra de Marx o con-       leninista e em seguida pela verso stalinista do
ceito de proletariado demonstra certa diferen-     marxismo. O caminho que ela seguiu "entre o
ciao", afirmou que mudanas mais recentes        reformismo e o bolchevismo", expondo um
haviam sido to extensas a ponto de produzirem     marxismo no-dogmtico, aberto  reviso e ao
um "novo fenmeno", de forma que " duvi-          desenvolvimento, em resposta a novas expe-
doso podermos falar de uma nica classe". Nes-     rincias histricas e a questes crticas coloca-
se novo proletariado havia vrios estratos dis-    das por outras abordagens da anlise social,
tintos que fizeram surgir trs orientaes po-     teve pouca influncia internacional. Mas em
lticas bsicas, geralmente conflitantes: a da     Viena, onde a SP esteve continuamente no
aristocracia do trabalho, compreendendo os         poder de 1918 a 1934, o austromarxismo ainda
operrios especializados e os empregados de        fornecia um quadro coerente de idias para uma
escritrio; a dos operrios organizados na ci-     poltica ambiciosa e eficaz de reforma social,
dade e no campo; e a dos desempregados per-        at ser finalmente derrubado pela ascenso do
                                                   fascismo austraco e pela incorporao da us-
manentes em longo prazo. Mas ele afirmou (de
                                                   tria ao Terceiro Reich. A partir do final dos anos
uma forma que faz lembrar a explicao de
                                                   60 houve uma notvel renovao de interesse
Roberto Michels sobre OLIGARQUIA), que mes-
                                                   pelos austromarxistas, no somente na ustria,
mo no segmento principal do movimento ope-         onde suas idias ainda exercem significativa
rrio o desenvolvimento de organizaes parti-     influncia no desenvolvimento do socialis-
drias e sindicais criou uma diviso fatal entre   mo, mas tambm em outros pases europeus.
o estrato crescente de representantes e funcio-    Nas condies criadas pela desintegrao do
nrios assalariados e o quadro de associados,      "marxismo oficial" em toda a Europa Orien-
em grande parte passivo. A fraqueza da classe      tal,  possvel que essas idias, assim como
operria diante dos movimentos fascistas de-       novas elaboraes a partir delas, venham a
veu-se em grande parte, concluiu ele, a essa       exercer um impacto ainda maior na organiza-
diferenciao das condies socio-econmicas       o da economia, na construo de institui-
e das atitudes polticas (ver CLASSE OPERRIA).    es democrticas e em atitudes diante do
Depois da Segunda Guerra Mundial, como a           persistente problema das nacionalidades em
estrutura de classes continuasse a mudar de        um novo sistema europeu.
forma ainda mais rpida, Renner (1953) con-
centrou sua ateno no crescimento de um novo      Leitura sugerida: Bottomore, Tom 1989: "Austro-
                                                   Marxist conceptions of the transition from capitalism to
estrato social -- os funcionrios pblicos e       socialism". International Journal of Comparative So-
empregados particulares -- a que se referiu        ciology 30, 1-2  Bottomore, Tom e Goode, Patrick,
como compondo coletivamente uma "classe de         orgs. 1978: Austro-Marxism  Kolakowski, L. 1978:
servios", de empregados remunerados cujos         Main Currents of Marxism, vol.2, cap.12  Leser, Nor-
contratos de emprego no criavam "um relacio-      bert 1966: "Austro-Marxism: a reappraisal". Journal of
namento de trabalho assalariado". Muitos mar-      Contemporary History, 1, 2  1968 (1985): Zwischen
                                                   Reformismus und Bolchewismus. Der Austromarxismus
xistas, segundo Renner, haviam adotado uma         als Theorie und Praxis, 2ed. resumida  Mosetic, Ge-
abordagem superficial do "real estudo da for-      rald 1987: Die Gesellschaftstheorie des Austro-
mao de classes na sociedade e acima de tudo      marxismus.
da contnua reestruturao das classes". Em                                            TOM BOTTOMORE
particular, haviam deixado de reconhecer que
"a classe operria, conforme se apresenta (e       autogesto Equivalente ao alemo Selbst-
cientificamente no poderia deixar de se apre-     verwaltung e ao ingls self-management, trata-
sentar) em O capital, de Marx, j no existe       se de uma forma de autodeterminao dos seres
mais".                                             humanos como seres autnomos e conscientes,
34   autogesto


dependentes de condies sociais concretas.                dos operrios. Em oposio ao tayloris-
Entre tais condies incluem-se uma dada es-               mo e ao fordismo, as teorias democrti-
trutura de produo, a diviso social e tecnol-           cas e socialistas enfatizam o crescimen-
gica do trabalho, instituies polticas, o nvel          to da personalidade, o desenvolvimento
de cultura e as tradies e hbitos de comporta-           do potencial e da eficincia individuais
mento humano predominantes. A autogesto                   e a sade mental no contexto de uma
deveria ser considerada, do ponto de vista filo-           comunidade de trabalho.
sfico, como um processo que vise superar a
alienao das capacidades humanas no contex-        Participao e democracia industrial
to das relaes sociais.                                Na literatura sociolgica e poltica recente,
    Autogesto  uma idia capital para a teoria    a expresso "democracia industrial" passou a
e a prxis da "democracia econmica", ou DE-        ser usada como padro para todas as formas de
MOCRACIA INDUSTRIAL. Aplicada de forma mais         gerenciamento de empresa nas quais os empre-
ampla a uma sociedade em seu conjunto, a            gados conferem maior importncia a "relaes
autogesto  a base da "democracia participati-     humanas", "clima social" ou "gerenciamento
va" (ver PARTICIPAO) ou do "socialismo auto-      humano", ainda que, em geral, sem afetar o
gerido". No primeiro caso, estamos falando          sistema de relaes baseado na hierarquia e na
usualmente de autogesto operria; no segun-        distribuio de poder. A expresso diz respeito
do, de autogesto social. Mas em ambas as           essencialmente a um comportamento mais de-
esferas, a produtiva e a poltica, existe uma       mocrtico em uma dada estrutura organizacio-
crescente demanda popular por mais controle e       nal formal. Porm, usada com maior preciso,
poder dentro de organizaes sociais, principal-    abrange muitas formas diferentes de participa-
mente sob a forma de CONSELHO DE TRABALHA-          o de operrios e empregados em tomadas de
DORES ou conselho de cidados.                      deciso dentro da firma.
                                                        Em 1967 uma comisso do Gabinete Inter-
Autogesto operria                                 nacional do Trabalho, em Genebra, observou
   Significa a plena participao dos produ-        que era extremamente difcil chegar a uma de-
tores (operrios e empregados) na gesto de         finio de participao que fosse universalmen-
todas as funes essenciais do processo de pro-     te aceitvel. De modo objetivo, essa idia torna
duo dentro da empresa (planejamento, exe-         possvel avaliar:
cuo, controle e disposio dos produtos). As
                                                       a influncia dos operrios na preparao, tomada e
idias bsicas da autogesto operria foram ela-       acompanhamento de decises produzidos no plano
boradas pelos socialistas utpicos (Robert             da execuo sobre vrias questes (tais como (...)
Owen, Franois-Charles Fourier, Pierre-Joseph          salrios e condies de trabalho, disciplina e empre-
Proudhon), por Karl Marx, por anarquistas, so-         go, treinamento vocacional (...) mudana tecnolgi-
cialistas das guildas, os "comunistas de conse-        ca e organizao de produo, bem como suas conse-
lho" e outros, concentrando-se nos seguintes           qncias sociais, investimento e planejamento etc.),
temas:                                                 atravs de mtodos to diversos quanto reunies e
                                                       comunicaes entre as partes, negociao coletiva,
   1. a idia da dissoluo do estado e sua            representao dos operrios nos organismos admi-
        substituio por uma "livre associao         nistrativos e autogesto dos operrios (...) (GIT,
        dos produtores"; donde, descentraliza-         1981, p.6).
        o das organizaes produtivas e pol-
        ticas;                                         Muitas tipologias foram elaboradas, dizen-
   2. a idia da "expropriao dos expropria-       do respeito a diferentes sistemas de participa-
        dores", os detentores dos meios de pro-     o, levando particularmente em conta:
        duo (proprietrios particulares bem          1. o mecanismo de decises (a preparao,
        como capitalismo de estado), e o                    tomada e implementao de decises);
        controle direto dos conselhos de traba-        2. os arranjos organizacionais (nos nveis
        lhadores sobre o trabalho excedente ou              do trabalho individual, da oficina, da
        a mais-valia produzida;                             firma, do setor industrial e da econo-
   3. a idia de abolio da diviso tecnolgi-             mia);
        ca do trabalho, ou "trabalho fragmenta-        3. as relaes de produo (questes ge-
        do", e da destituio da personalidade              rais, questes sociais, assuntos organiza-
                                                                                      autogesto    35


        cionais e tcnicos, assuntos econmicos      propriedade privada  uma causa de organi-
        etc.);                                       zao hierarquizada, mas a nacionalizao dos
    4. a dimenso jurdica (contratos coletivos,     meios de produo nem sempre est ligada 
        leis, constituio). Por exemplo, a co-de-   abolio de uma ordem hierrquica. Ao con-
        terminao (Mitbestimmung) alem foi         trrio, pode fortalec-la, como  o caso da pro-
        estabelecida legalmente na cons-             priedade estatal no socialismo de estado, alta-
        tituio, mas em geral existem leis es-      mente centralizado e hierrquico. A naciona-
        peciais ou acordos coletivos.                lizao dos meios de produo pelo estado,
     importante compreender que todas as ti-        burgus ou proletrio, significa apenas a trans-
pologias fundamentam-se num processo his-            formao deste em um "estado geral capitalis-
trico que vai da participao parcial  plena.      ta" e, como observou Engels em carta a August
Em outras palavras, ao pleno controle do pro-        Bebel em 1891, ainda pior, a concentrao da
cesso produtivo pelos conselhos de trabalha-         "represso poltica e da explorao econmica
dores. Mas, do ponto de vista de pensadores          dos operrios nas mesmas mos". Conseqen-
radicais ou reformistas, o prprio processo         temente, os tericos da autogesto operria en-
controvertido. Os radicais afirmam que qual-         fatizam a socializao dos meios de produo,
quer sorte de "participao"  uma forma de          e no a sua nacionalizao. A propriedade par-
conciliao com a classe inimiga e propem sua       ticular ou estatal seria substituda pela proprie-
substituio pela expresso "controle oper-         dade social, o que significa que os meios de
rio", mais de acordo com o sentido de luta de        produo pertencem  sociedade como um to-
classe. Na prtica, contudo, no propem a           do, a todos e a ningum. A comunidade operria
abolio dos nveis de participao j alcana-      e o conselho de trabalhadores esto obrigados
dos. Parece que o novo sindicalismo (Coates e        a gerir a produo como "bons gerentes", des-
Topham, 1975) se adequa de forma melhor ao           frutando do direito de uso e de apropriao dos
movimento geral da classe operria quando fala       benefcios, mas no do direito de abuso (ius
de meios reformistas com um objetivo radical,        abutendi). A propriedade social representa um
alcanando a autogesto atravs de diferentes        tipo especial de propriedade, com distintas ca-
formas de participao, ou por meio de um            ractersticas legais, sociais e econmicas, des-
"reformismo revolucionrio" (Gorz, 1980).            tinadas a tornar impossvel a explorao, mas,
     possvel haver alguma confuso no uso da        luz da experincia na ex-Iugoslvia, vem sen-
expresso "democracia industrial", se ela for        do amplamente discutida como ambgua e in-
interpretada no sentido de co-determinao, de       suficientemente precisa em termos legais.
direitos iguais para os diferentes partidos orga-
nizados ou fatores produtivos -- empregado-          Democracia participativa
res, operrios e o estado -- e no como direitos         A democracia industrial, como qualquer ou-
iguais de cada indivduo envolvido no processo       tro tipo de democracia,  uma forma cons-
produtivo. S ento -- quando o direito de           titucional de garantia dos direitos humanos.
deciso se estende a todos que esto compro-         Nesse caso, os direitos daquele que produz. A
metidos na produo, como um de seus direitos        constituio, ao conferir um direito ao indiv-
humanos bsicos, e no simplesmente em resul-        duo, protege-o do abuso de outrem, mas no
tado da luta de classes entre trabalho e capital     garante a ningum,  claro, a capacidade de
-- se pode falar de autogesto. Portanto, G.D.       exercer esse direito. Ela estabelece padres for-
H. Cole (1917) estava certo quando insistia que      mais e ideais de comportamento, mas fica ads-
a democracia industrial  uma forma de demo-         trito  esfera de liberdade dos prprios indi-
cracia direta com participao ativa de todos os     vduos transformar isso em realidade. Os in-
membros de uma comunidade social na tomada           divduos devem, de alguma forma, ser educa-
de decises, enquanto a democracia indireta         dos para a democracia, e essa  a tarefa da de-
apenas mais uma forma de escravido.                 mocracia participativa. Trata-se de um conceito
                                                     mais amplo, enraizado em um mbito maior de
Nacionalizao e socializao                        correntes e tradies intelectuais que incluem a
   A descentralizao  um meio de alcanar a        democratizao de pequenos grupos, os con-
democracia direta e substituir a hierarquia de       ceitos de terapia grupal e de participao e au-
controle por uma hierarquia na coordenao. A        to-educao individual, movimentos religiosos
36   automao


(como o dos quacres), movimentos inspirados                6. um meio de captar (identificar e medir)
por Gandhi e diversos movimentos socialistas,                  e reportar as qualidades do que est sendo
libertrios e anarquistas.  uma idia a ser                   processado, como tamanho, propriedades
implementada atravs da participao grupal ou                 pticas, peso e calor;
comunitria de indivduos autnomos, e de for-             7. elementos de tomadas de deciso, que
ma espontnea. A motivao para projetos co-                   cotejam informaes fornecidas com
letivos deve ser endgena, significando, pois,                 uma condio desejada e fazem as cor-
uma identificao livre e um envolvimento pes-                 rees adequadas nos desvios.
soal. Assim, essa forma de participao trans-
cende qualquer tipo de organizao particular,             Esses aspectos, operando de modo combi-
uma vez que organizao e instituies tendem          nado, formam um sistema de feedback capaz de
a fomentar relaes funcionais e despersonali-         ser operado com um mnimo de interveno
zadas. A democracia participativa poderia ser          humana.
considerada como um mtodo e uma base mais                 A automao  adotada para aumentar a
profunda de comportamento democrtico.                produo e a produtividade, padronizar produ-
um ideal e uma doutrina que visa preparar os           tos, aumentar a eficincia, liberar os seres hu-
indivduos para um modo de vida democrtico,           manos de tarefas desagradveis ou perigosas,
sem limitaes ou represses exgenas.                 reduzir custos operacionais e executar procedi-
Leitura sugerida: Horvat, B., Markovic, M. e Supek,    mentos que esto acima das capacidades huma-
R. 1975: Self-Governing Socialism  Szell, Gyrgy       nas.
1988: Participation, Workers' Control and Self-Mana-       Os primeiros sistemas industriais automati-
gement  Unesco 1986: Participate in Development.       zados comearam a surgir nos anos 50. Nas
                                       RUDI SUPEK      dcadas de 60 e 70, a previso de expanso
                                                       desses sistemas suscitou especulaes quanto
automao Ao descrever um sistema no
qual mquinas so usadas para controlar pro-           s suas provveis conseqncias econmicas,
cessos e realizar seqncias de tarefas que antes      sociais e culturais para as sociedades industriais
exigiam a ateno, a atividade e a interveno         e a natureza do trabalho industrial em particular.
humanas, a palavra no se refere meramente ao          Algumas concluses sobre tendncias foram
emprego de artefatos para executar tarefas sim-        extradas do precursor da automao na produ-
ples (mecanizao), capacidade de que os hu-           o industrial -- a mecanizao de linhas de
manos h muito dispem, mas aos mtodos de             produo -- no qual o processo de produo era
utilizar mecanismos eletrnicos, sensoriais e de       dividido em subprocessos, cada qual com a
controle a fim de reproduzir e substituir os           ajuda de uma mquina. Uma vez que os oper-
sentidos, mentes e mos humanas em uma ope-            rios eram tratados como acessrios da mquina,
rao repetida.                                        o efeito foi degradar e limitar suas qualifi-
    Todos os sistemas automatizados tm as-            caes. No que diz respeito ao plano do operrio
pectos caractersticos:                                individual, previa-se a sua desqualificao, en-
    1. ao, por exemplo: perfurao, aqueci-          volvendo uma reduo de conhecimento do
        mento, borrifao, tratamento com pro-         ofcio e uma perda da liberdade, como grave
        dutos qumicos;                                conseqncia direta da automao. No plano da
    2. posicionamento, o que pode implicar             organizao, imaginava-se que surgiriam ope-
        mover, virar, alinhar, transferir, passar      rrios com novas qualificaes, como projetis-
        de um lugar para outro;                        tas, fabricantes de ferramentas, assim como
    3. controle, a respeito dos meios de execu-        construtores de mquinas, tcnicos de manu-
        tar decises -- por exemplo, uma vl-          teno e novos tipos de operadores e supervi-
        vula que pode ser aberta e fechada;            sores de mquinas. As organizaes industriais,
    4. um programa de computao com ins-               medida que fossem aumentando em tamanho
        trues para execuo de um processo,          e complexidade, exigiriam novas habilidades
        como em (1) a (3) acima;                       gerenciais, enfatizando a informao e o con-
    5. um programa de computao no coman-             trole. No plano da sociedade e da economia,
        do de toda a operao, isto , da seqn-      esperava-se que a desigualdade e o desemprego
        cia de processos;                              crescessem, e se previu a mudana geral da
                                                                                          autoridade      37


produo industrial de bens para as indstrias        pelo bom senso, que percebiam os efeitos b-
de servios.                                          vios da substituio de operrios por robs,
    Dois fatores tornaram difcil prever as con-      levaram a concluses simplistas sobre o desa-
seqncias com algum nvel de preciso: a falta       parecimento de empregos em geral e de empre-
de uma estreita relao causal entre a tecnologia     gos industriais em particular. Apesar da evi-
e a natureza das sociedades e organizaes; e o       dente destruio de empregos tradicionais, de-
fato de a automao no ser apenas um processo        vastadora para velhas comunidades industriais,
mais complexo que a mecanizao, mas um               houve um aumento em novos tipos de empregos
processo qualitativamente diferente.                  no-repetitivos e especializados. Se as tendn-
    A noo de desqualificao  demasiado            cias no desemprego se devem  automao
rudimentar para se aplicar  automao, partin-       como tal, ou se refletem o deslocamento de
do do pressuposto de que os indivduos tm            mercados de trabalho cambiantes em uma eco-
qualificaes fixas especficas, quando na ver-       nomia mundial igualmente cambiante,  ques-
dade o seu reconhecimento  social e cultural-        to aberta ao debate.
mente determinado, sendo pois sensvel a si-             Atualmente a palavra "automao"  menos
tuaes cambiantes. Mais ainda, a rotatividade        usada na indstria do que algumas expresses
de operrios que supostamente acompanharia a          mais precisas, como CIM (computer-integra-
desqualificao foi de menor importncia na           ted manufacturing/fabricao integrada por
automao, uma vez que lidar com sistemas             computadores), AMT (advanced manufac-
automatizados em geral exige mais habilidade          toring technology/tecnologia fabril avanada)
e treinamento, e no menos.                           e CDCAM (computer-aided design, computer-
    O impacto da automao na passagem das            aided manufacture/desenho industrial com aju-
indstrias fabris para as de servios tampouco        da de computador, fabricao com ajuda de
foi muito claro. Duas coisas esto implicadas:        computador). A palavra "robtica" refere-se ao
a mudana nos dimensionamentos da produo            estudo cada vez mais sofisticado de complexas
e/ou a mudana na proporo da fora de traba-        mquinas automatizadas, capazes de sentir, de-
lho empregada no processo fabril. A produo          cidir e manipular de um modo reconhecivel-
fabril sofreu enorme expanso nos pases com          mente semelhante ao humano.
indstrias altamente automatizadas. Mesmo em             Ver tambm TEORIA E TECNOLOGIA DA INFOR-
pases em aparente declnio, a atividade fabril,      MAO; MUDANA TECNOLGICA; TRABALHO.
ligada como est ao crescimento das indstrias
                                                      Leitura sugerida: Adler, F. et al., orgs. 1986: Automa-
de servios, bem como  demanda de expor-             tion and Industrial Workers: a Fifteen Nation Study,
taes, sofre uma flutuao, de forma que a           vol.2  Braverman, H. 1974: Labor and Monopoly Ca-
ligao entre a passagem fabril/servios e a          pital: the Degradation of Work in the Twentieth Century
automao no fica demonstrada. De qualquer            Forester, Tom, org. 1985: The Information Technolo-

forma, essa alterao foi determinada antes de        gy Revolution  Forslin, J., Sarapata, A. e Whitehill,
a automao assumir sua forma moderna. Ain-           A.M., orgs. 1979: Automation and Industrial Workers:
                                                      a Fifteen Nation Study, vol.1  Granovetter, M. e Tilly,
da mais, apesar de a automao ter afetado            C. 1988: "Inequality and labor process". In Handbook
primeiro as indstrias fabris, ela est exercendo     of Sociology, org. por N. Smelser  Handy, C.B. 1984:
impactos disseminados por todas as atividades,        The Future of Work: a Guide to Changing Society 
incluindo os servios de escritrios, comuni-         Hyman, R. e Streeck W., orgs. 1988: New Technology
caes, transportes, distribuio, trabalho se-       and Industrial Relations.
cretarial e administrativo, bancos e servios                                           LORRAINE F. BARIC
financeiros, vendas a varejo, impresso e edi-
o, sade e servios pblicos, desenho indus-        autoridade Embora autoridade possa ser
trial e a prpria indstria de tecnologia de infor-   convenientemente definida como o direito,
mao.  medida que o uso de sistemas "inte-          quase sempre por reconhecimento mtuo, de
ligentes", com base no conhecimento, se dis-          exigir e receber submisso, h um desacordo
seminar pela atividade profissional, a automa-        endmico entre os tericos sociais a respeito de
o afetar o trabalho e a tomada de decises         sua natureza. Isso no surpreende, j que as
em praticamente todas as ocupaes no-fabris.        diferentes concepes de autoridade tendem
    A correlao entre automao e desemprego         a refletir distintas vises de mundo e teorias
 igualmente complexa. Os argumentos ditados          sociais e polticas. No obstante, as diversas
38   autoridade


concepes de autoridade parecem ter dois           para que possam coagir os demais. Isso seria
componentes em comum. Um deles  o no-             poder sobre todos por meio de autoridade sobre
exerccio do juzo privado. O outro  a identifi-   uma parte, ou um estado autoritrio.  um
cao das autoridades a serem reconhecidas.         equvoco, acredita Jouvenel, opor autoridade a
    Isso conduz a algumas distines teis. Se      liberdade, pois a autoridade termina onde o
algum se submete ao julgamento das auto-           consentimento voluntrio tambm termina: a
ridades por referncia a um conjunto de re-         dissoluo de agregados humanos  o pior de
gras predominante em uma sociedade, falamos         todos os males, diz ele, e os regimes policiais
de uma autoridade de jure. No entanto, se al-       entram em cena quando o prestgio se esvai.
gum se submete ao julgamento de outros por-            Em segundo lugar, como  que as pessoas
que aceita as pretenses desses outros a serem      no exerccio da autoridade chegam a obt-la?
as autoridades legtimas, trata-se de um caso de    Max Weber (1921-2) estabeleceu uma diferen-
autoridade de facto. Os pais, como  tpico, tm    a entre trs tipos de autoridade, ou "dominao
tanto autoridade de jure quanto de facto sobre      legtima". A autoridade legal, apoiada numa
os filhos.  concebvel, porm, que tenham o        crena na legalidade de regras decretadas e no
primeiro tipo de autoridade sem terem o segun-      direito daqueles elevados  autoridade, sob es-
do, e vice-versa. Se a autoridade  identificada    sas regras, de emitirem ordens. Os policiais so
e reconhecida em termos de confiana, falamos       obedecidos porque a autoridade que lhes foi
de uma autoridade per se (como no caso de um        conferida pela ordem jurdica e poltica  acei-
mdico aconselhando um paciente). Se, por           ta. A autoridade tradicional  baseada numa
outro lado, ela  identificada e reconhecida com    crena estabelecida na inviolabilidade de tra-
relao  conduta, trata-se ento de um caso de     dies imemoriais e na legitimidade daqueles
algum que est em (no exerccio da) autoridade     que exercem autoridade sob elas. Esse tipo de
(como um policial conduzindo o trfego).            autoridade  tambm definido em termos de um
    Talvez a melhor maneira de elucidar o con-      conjunto de regras, mas as regras so, na maior
ceito de autoridade seja descrever diferentes       parte, expressas em tradies e costumes. Final-
solues para trs problemas que ela apresenta.     mente, a autoridade carismtica  baseada na
    Em primeiro lugar, por que h necessidade       devoo ao carter exemplar, herosmo ou san-
desse conceito? Se Hannah Arendt e Bertrand         tidade excepcionais de uma pessoa isolada, e
de Jouvenel, por um lado, do explicaes di-       das ordens ou padres normativos revelados ou
ferentes da autoridade, por outro concordam (e      ordenados por essa pessoa (ver CARISMA). O
com a maioria dos outros tericos sociais) em       melhor exemplo  Jesus, que falou "com auto-
que a coeso e a continuidade da vida social no    ridade" no Templo, apesar de ter apenas 12 anos
podem ser adequadamente explicadas em ter-          de idade, e cujas elocues tinham a forma "est
mos de coero, LIDERANA ou discusso racio-       escrito (...) mas eu vos digo".
nal. Arendt (1960) acredita que autoridade im-          Segundo Weber, esses trs tipos de autori-
plica uma obedincia na qual as pessoas conser-     dade so "tipos ideais". Eles quase sempre exis-
vam sua liberdade, distinguindo-a de PODER,         tem de forma mista. Peter Winch (1967) des-
fora e violncia, e tambm de persuaso, pois      tacou que, em ltima anlise, todos os trs
nesta as pessoas so iguais. A ascenso do tota-    apiam-se na tradio. At mesmo a autoridade
litarismo no sculo XX foi precedida, segundo       carismtica pressupe tradio, de vez que o
Hannah Arendt, da perda de autoridade: a mul-       lder carismtico sempre reforma uma tradio
tido solitria busca conforto em movimentos        existente e suas aes no so inteligveis iso-
polticos de massa e sente a necessidade de         ladas disso. De fato, Jesus disse que viera, no
lderes.                                            para infringir a lei, mas para cumpri-la. Tam-
    De acordo com Jouvenel (1947) autoridade        bm se deveria destacar que a diferena entre
 a capacidade de algum fazer com que suas         autoridade legal e tradicional, por um lado,
propostas sejam aceitas.  diferente de poder,      e autoridade carismtica, por outro, na teoria de
pois  exercida apenas sobre os que voluntaria-     Weber,  de algum modo semelhante  diferen-
mente a aceitam. No entanto as pessoas em           a, descrita por Jouvenel, entre o rbitro de
exerccio da autoridade, ou governantes, podem      pretenses e objetivos existentes e conflitantes,
ter autoridade apenas sobre uma parte de seus       o rex, e o lder ou originador de novas polticas,
governados, mas sobre um nmero suficiente          o dux.
                                                                                      avant-garde      39


    A terceira questo  por que as pessoas        dades situadas, parcialmente constitudas por
deveriam acatar a autoridade. Os pensadores        seus papis, prticas, locais e tempos sociais. O
polticos radicais, especialmente os anarquistas   motivo pelo qual aceitamos a autoridade, con-
e os marxistas, acreditam que no deveriam. Os     trapem esses tericos "comunitrios",  que
marxistas objetam que a autoridade  assimtri-    ela expressa nossa vontade comum, ou reflete
ca, mascarando a natureza de classe do estado      nossa identidade comum, nossos valores e cren-
capitalista e a imposio de uma ideologia le-     as compartilhados. Ao mesmo tempo em que
gitimadora. Jrgen Habermas (1973) acredita,       alguns argumentos comunitrios contra o libe-
por exemplo, que o estado no "capitalismo tar-     ralismo so semelhantes aos apresentados por
dio" enfrenta uma crise de legitimidade. Os        conservadores (especialmente os Tris britni-
anarquistas modernos, como Robert Paul Wolff       cos) no incio do sculo XIX, eles comumente
(1970), fixam os olhos no que vem como um         conduzem a polticas mais igualitrias. Mas
conflito entre autonomia individual e autori-      quando as individualidades esto situadas em
dade. Segundo eles, a autoridade necessaria-       uma cultura individualista os comunitrios po-
mente implica a capitulao do juzo.              dem tornar-se bastante libertrios, sendo Oa-
    Conservadores e liberais replicam que uma      keshott um exemplo.
extensa diviso intelectual do trabalho  neces-       Finalmente, os "realistas" polticos acredi-
sria na complexa ordem social contempor-         tam que a autoridade no passa a existir por
nea. Destacam tambm que um certo tipo de lei      meio de crenas compartilhadas ou por conven-
estrutura, em vez de restringir, a liberdade in-   o, mas por imposio. Vilfredo Pareto descre-
dividual, e que portanto serve como uma con-       veu a poltica como a competio entre as elites
dio, e no restrio, da autonomia.              que buscam seus prprios objetivos atravs da
    Os liberais modernos, como lhes  comum,       manipulao do apoio da massa: "Todos os
diferenciam entre a autoridade da lei, que enca-   governos usam a fora e todos afirmam que se
ram como necessria para facilitar a cooperao    fundamentam na razo" (Pareto, 1916-19, se-
social, e o poder dos indivduos, no qual tendem   o 2.183). De acordo com Gaetano Mosca
a no confiar. Divergem, porm, a respeito de      (1896), a classe governante dominou a maioria
como derivar a autoridade da lei. Para John        desorganizada, legitimando seu poder atravs
Rawls (1971) e James M. Buchanan (1975), ela       de uma "frmula poltica". Marxistas e anar-
deriva de um CONTRATO SOCIAL. As pessoas aca-      quistas concordam em certa medida com os
tam a autoridade porque isso  de seu interesse.   realistas polticos no que diz respeito  natureza
Elas escolheriam (certo tipo de) autoridade caso   da autoridade, apesar de dois grupos, ao contr-
munidas da informao relevante ou colocadas       rio dos realistas, acharem-na inaceitvel e dese-
no cenrio apropriado. Para Friedrich A. Hayek     jarem substitu-la por alguma outra coisa a res-
(1979), a autoridade surge de um longo pro-        peito de cuja natureza, porm, no entram em
cesso histrico de adaptao mtua de indiv-      acordo. Mas a maioria tanto dos filsofos pol-
duos, conforme expresso em estatutos, tradi-       ticos quanto dos sociolgos polticos acredita
es, convenes e costumes. Exceto onde a         que a autoridade  um aspecto inevitvel e
unidade poltica  criada por conquista, afirma    inerradicvel da vida social.
ele, as pessoas se submetem  autoridade, no
                                                   Leitura sugerida: Arendt, Hannah 1960: "What is au-
para permitir que ela faa o que lhe agrada, mas   thority?". In Between Past and Future: Eight Exercises
porque confiam em que algum aja em confor-        in Political Thought  Jouvenel, Bertrand de 1947:
midade com certas concepes comuns sobre o        De la souverainet:  la recherche du bien pratique
que  justo. Para Robert Nozick (1974), a auto-     Lukes, S. 1978: "Power and authority". In A History

ridade do estado repousa em sua no-violao       of Sociological Analysis, org. por T. Bottomore e R.
dos direitos individuais.                          Nisbet  Peters, R. 1967: "Authority". In Political Phi-
                                                   losophy, org. por A. Quinton  Weber, Max 1921-2
    Por outro lado, alguns pensadores moder-       (1978): Economy and Society: an Outline of Interpre-
nos, Michael Oakeshott (1962), Hannah Arendt       tative Sociology, org. por Gnther Roth e Claus Wittich
e outros, com inspirao em Aristteles, Rous-      Winch, P. 1967: "Authority". In Political Philosophy,
seau e Hegel, no se referem a interesses ou       org. por A. Quinton.
direitos, mas a identidades sociais. Substituem                               HANNES H. GISSURARSON
as individualidades desimpedidas (e, para eles,
debilitadas) da teoria liberal por individuali-    avant-garde Ver VANGUARDA.
                                                 B
base e superestrutura Estas so metforas                      2. H uma relao de feedback entre base e
marxistas para descrever as relaes entre a               superestrutura. A palavra "feedback" foi usada
economia (relaes de produo) e o governo,               pela primeira vez de forma sistemtica, e neste
a poltica e a ideologia. Marx e Engels nunca              contexto, por um filsofo alemo, Georg Klaus,
desenvolveram suas idias a respeito da base e             depois de 1960. A idia est implcita nos textos
da superestrutura em um tratado especfico,                de Marx e explcita nos de Engels. Feedback
nem de maneira sistemtica, mas  possvel                 explica o aspecto de funcionalidade de uma
discernir pelo menos trs caractersticas bsicas          superestrutura com relao a sua base. Afir-
de seu pensamento a esse respeito: compatibi-              maes a respeito das funes do governo ou
lidade, feedback e no-reducionismo.                       das idias podem ser traduzidas em frases con-
    1. Uma sociedade existe se houver compa-               dicionais aceitveis dentro do modo cientfico
tibilidade entre seu governo (poltica, leis), suas        de explicao. A tese do feedback  compatvel
idias e suas estruturas econmicas. Nem tudo              com as interpretaes tanto forte quanto fraca
 possvel: se a economia muda, o governo e as             da tese da compatibilidade.
idias tero de mudar. Marx provavelmente                      3. Nem todas as propriedades da superes-
pensou que poderia haver um, e apenas um, tipo             trutura so dependentes de algumas proprie-
de superestrutura compatvel com uma dada                  dades da base. H dimenses e propriedades das
base. G.V. Plekhanov, Lenin e Stalin, com toda             esferas do governo e do pensamento que no
certeza, assumiram ponto de vista semelhante.              podem ser explicadas recorrendo-se a afirma-
A compatibilidade tambm foi interpretada co-              es a respeito da base (suas descries no
mo indicando a inevitabilidade de mudana na               podem ser reduzidas s descries da base).
superestrutura em seguida a uma transformao              Uma superestrutura desenvolve-se a partir de
da base. Essa  a interpretao forte de compa-            outra que a antecedeu e resulta de uma livre
tibilidade. De acordo com a interpretao fraca,           escolha ou de aes ao acaso dentro das res-
o nmero de superestruturas compatveis tem                tries estruturais impostas pelas condies de
de ser menor que o nmero de todas as (pos-                compatibilidade e feedback. A superestrutura
sveis) superestruturas. A correspondncia  de             considerada um componente necessrio de
uma para muitas. Assim, afirmaes a respeito              qualquer sociedade humana. No  puramente
da superestrutura ainda podem ser explicadas               uma serva ou escrava da base.
recorrendo-se a afirmaes a respeito da base,                 Feedback e no-reducionismo so abrangi-
mas sua descrio no tem como ser inferida a              dos pelo rtulo composto de "autonomia relati-
partir da descrio da base. A tese da inevitabi-          va da superestrutura". O conceito de base e
lidade tambm pode ser reduzida  tese com-                superestrutura, assim, torna-se um conceito de
posta de que, (a) se uma base muda, ento ou a             restries e condies de capacitao de aes
superestrutura muda para restaurar a compati-              e atividades humanas. Nos textos marxistas,
bilidade ou a base retorna ao tipo anterior, para          no se encontra um mtodo geral para se afir-
que a sociedade no seja destruda por um                  mar ante factum que propriedades e entidades
conflito interno; e (b) se uma superestrutura              dentro de algumas instituies superestruturais
muda, ento ou a base muda para restaurar a                so dependentes da base e que outras no so.
compatibilidade ou a superestrutura retorna ao             Dessa forma, no temos uma teoria sociolgica
tipo anterior, para que a sociedade no seja               geral, apesar de efetivamente dispormos de um
destruda.                                                 til esboo de teoria que destaca algumas im-

                                                      40
                                                                          base e superestrutura   41


portantes relaes na sociedade que podem ser       modo de produo e nele baseada. Seu ponto de
usadas como ncleo de um programa de pesqui-        vista predominante passou a ser que, apesar de
sa em histria, sociologia, antropologia social,    as relaes de produo serem o fator determi-
direito e cincia poltica.                         nante mais importante para a superestrutura,
    A expresso "base e superestrutura"  am-       tambm podem existir relaes determinantes
plamente aplicada s relaes entre instituies    diretas dos meios de produo para a superes-
da sociedade.  tambm aplicvel s relaes        trutura. Afirma-se que uma formao scio-
entre os nveis no interior das instituies com-   econmica combina um modo de produo e
postas (famlias, bandos de caa e coleta, uni-     uma superestrutura. Esse uso sovitico (e euro-
dades tnicas e assim por diante).                  peu oriental) difere do de alguns autores ociden-
    As palavras "base e superestrutura" foram       tais influenciados por uma tradio marxista
introduzidas por Marx (1859). Ele afirmava que      francesa, segundo a qual a palavra "base" 
estado, poltica e formas ideolgicas compu-        usada para indicar tanto os meios quanto as
nham uma superestrutura construda sobre a          relaes de produo. O uso padro sovitico
base de relaes de produo, sendo esta ltima     entrava em bom acordo com Marx (1859) e
compatvel com um nvel definido dos meios          parecia, do ponto de vista da exegese, mais
de produo. Assim, a superestrutura no foi        prximo do corpo completo dos textos de Marx
descrita por Marx como diretamente depen-           e Engels. J. Plamenatz afirmou que Marx inter-
dente da tecnologia. A dependncia era media-       pretava as relaes de produo como relaes
da pelas estruturas econmicas. J em 1844          de propriedade jurdica. Esse ponto de vista foi
Marx escreveu nos manuscritos parisienses que       rejeitado por G.A. Cohen, que tambm forne-
alguns valores humanos eram dependentes de          ceu anlises das microfundaes das relaes
condies econmicas (em particular, atitudes       base-superestrutura. Os pontos de vista de Co-
alienadas para com o trabalho e a liberdade         hen apoiavam-se em boas evidncias textuais
foram descritas como dependentes da presena        (Marx, 1859).
de alienao na economia). A afirmao de que           H uma tendncia nos textos ocidentais mo-
pensamento e governo baseiam-se no MODO DE
                                                    dernos sobre MARXISMO a encarar as idias a
PRODUO permeia todo o texto de A ideologia
                                                    respeito de base e superestrutura como princ-
alem (Marx e Engels, 1845-6). Engels discutiu
                                                    pios explanatrios. G.A. Cohen insiste em que
as relaes entre base e superestrutura em in-
                                                    as relaes entre superestrutura e base so fun-
meras cartas escritas entre 1890 e 1895. Ele
                                                    cionais, e em que essa explicao funcional 
introduziu a descrio de feedback dos relacio-
namentos entre base e superestrutura, destacan-     uma forma vlida de explanao. Isso levou a
do que as instituies pertencentes  superes-      controvrsias nos estudos analticos do marxis-
trutura tm algumas caractersticas no-deter-      mo sobre a natureza das relaes funcionais e o
minadas por sua base. s vezes ele usou a           papel das explicaes funcionais. Na cincia
palavra base de forma um tanto indefinida para      social do sculo XIX, EXPLICAO ainda no
incluir o ambiente natural e todo o modo de         se havia tornado uma palavra em voga. Marx
produo (Engels, 1894).                            e Engels estavam essencialmente interessados
    Nos anos 20 alguns autores soviticos come-     em descobrir o que julgavam ser relacionamen-
aram a fazer distines entre a base tecnolgi-    tos reais entre entidades reais. Apesar de terem
ca (partes dos meios de produo) e a base          desenvolvido conceitos e terminologias para
econmica. Esta ltima consistia nas relaes       fins de compreenso e explicao, seu interesse
de produo, cmbio e distribuio. Os autores      no se centrava nos conceitos, mas na realidade
econmicos ocidentais desde 1870 eram pra-          social e em revolucionar essa realidade.
ticamente desconhecidos dos filsofos e eco-            O uso simplista e no-metafrico dos con-
nomistas soviticos. Assim, no h investiga-       ceitos "base e superestrutura" por alguns mar-
es detalhadas das relaes de produo por        xistas e antimarxistas  essencialmente uma
parte da maioria dos marxistas. No obstante, a     realizao do sculo XX. O marxismo foi trans-
expresso "base" (ou "base econmica") no         formado num sistema terico fechado e irrefu-
usada por autores soviticos para indicar o con-    tvel, que tudo abrange, por alguns pensadores
junto do modo de produo. Eles tambm en-          da Segunda Internacional, por Lenin e pelos
caram a superestrutura como sendo exterior ao       intrpretes stalinistas de Marx.
42   behaviorismo

Leitura sugerida: Cohen, G.A. 1978: Karl Marx's         ticadas para classificar as condies sociais.
Theory of History: a Defence  Collins, H. 1982: Mar-    Um trabalho fecundo nesse sentido foi um en-
xism and Law  Elster, J. 1985: Making Sense of Marx
 Newman, K.S. 1983: Law and Economic Organiza-
                                                        saio publicado por Abram Bergson (1938) e
tion: a Comparative Study of Preindustrial Societies    mais tarde desenvolvido por Paul Samuelson
 Plamenatz, J. 1954: German Marxism and Russiam         (1947). A abordagem Bergson-Samuelson exi-
Communism  Plekhanov, G.V. 1895 (1975): "The de-        ge que o bem-estar social de uma sociedade seja
velopment of the monist view of history". In Selected   funo do nvel de proveito desfrutado por cada
Philosophical Works in Five Volumes, vol.1  Ther-       indivduo dentro dela. Dependendo de nossas
born, G. 1980: What Does the Ruling Class Do When It    inclinaes normativas, poderamos insistir em
Rules? State Apparatuses and State Power under Feu-
dalism, Capitalism and Socialism.                       dizer que a funo satisfaz certas propriedades.
                                                        Por exemplo, poderamos exigir dela que fosse
                                       EERO LOONE
                                                        de Pareto-inclusiva. Isto , se o proveito de
                                                        algum aumenta e o de ningum cai, o nvel de
behaviorismo Ver COMPORTAMENTALISMO.                    bem-estar social deve registrar um aumento.
bem-estar, estado de Ver ESTADO DE BEM-ES-              Poder-se-ia ser mais exigente e fazer questo de
TAR; QUALIDADE DE VIDA.                                 que o bem-estar social fosse a soma do nvel de
                                                        proveito de cada indivduo. Isso seria equiva-
bem-estar, teoria econmica do No pro-                  lente ao utilitarismo defendido no sculo XVIII
cesso de escolha entre opes polticas mutua-          por Jeremy Bentham.
mente excludentes, os juzos de valor so ines-             Uma linha intermediria, defendida por
capveis. A teoria econmica do bem-estar  a           John Hicks, Nicholas Kaldor e outros, descreve
anlise dos juzos de valor no contexto de to-          uma mudana como melhora caso seus benefi-
madas de deciso econmicas.                            cirios sejam capazes de compensar os perde-
    Na gesto de uma economia,  preciso fazer          dores e ainda conservar alguns benefcios posi-
escolhas o tempo todo.  natural, portanto, tentar      tivos. Essa regra foi amplamente usada para
garantir que essas escolhas se originem do mesmo        comparaes de renda real nacional e anlises
e consistente conjunto de juzos a respeito de          de custos-benefcios, mas sua base conceitual
VALORES ou critrios de BEM-ESTAR SOCIAL. Du-           tem sofrido srios ataques. Se os beneficirios,
rante a maior parte deste sculo o critrio de          conforme se argumentou, no vierem a com-
bem-estar a que a economia deu preferncia foi          pensar de fato os perdedores, em que ajuda
o ligado ao nome de Vilfredo Pareto (Pareto,            saber, nesse caso, que eles podem faz-lo? E se
1897). Para a sociedade, uma melhora de Pare-           de fato os compensam, o prprio critrio de
to  uma mudana que deixa todo mundo pelo              Pareto descrever a mudana como desejvel.
menos to bem quanto antes e uma ou mais                Por que motivo precisaramos de outra regra?
pessoas na verdade em melhor situao. Uma                  Em tempos mais recentes a teoria econmi-
condio Pareto-tima  aquela a partir da qual         ca do bem-estar recebeu grande impulso com a
no h mais melhoras de Pareto possveis.               descoberta de um teorema de propores gigan-
    Uma vantagem do critrio de Pareto  que            tescas -- o teorema da impossibilidade geral
ele no depende de comparaes interpessoais.           (1951) de Kenneth Arrow (ver ESCOLHA SO-
De acordo com esse critrio, nenhum julgamen-           CIAL). Em vez de fixar uma funo de bem-estar
to depende de o ganho da pessoa A ser maior ou          social, particular, Arrow anotou alguns axiomas
menor que o ganho da pessoa B. Essa vantagem            que parecem extremamente razoveis, que po-
, no entanto, conseguida  custa de uma reti-          deramos desejar que uma funo social satisfi-
cncia amplamente difundida. Uma medida po-             zesse. O teorema da impossibilidade geral afir-
ltica que d 100 dlares a um carente e deixe          ma que esses axiomas no podem ser satisfeitos
um milionrio um dlar mais pobre no  algo            simultaneamente.
que possa ser recomendado ou rejeitado em                   Uma ampla literatura surgiu para "resolver"
bases paretianas (presumindo-se que o milion-          o problema. Mas, no momento mesmo em que
rio de fato perceba a perda de um dlar, no            essa literatura vinha aparecendo, outros teore-
importa com que exatido).                              mas de impossibilidade, tais como o influente
    No surpreende, portanto, que grande parte          teorema do paradoxo da liberdade (1970) de
da teoria econmica do bem-estar se tenha ocu-          Amartya Sen, continuavam a surgir. Ainda mais
pado em desenvolver abordagens mais sofis-              importante, a teoria econmica do bem-estar
                                                                                    bem-estar social   43


ps-arrowiana tornou-se um ponto de encontro            , um indivduo cujas preferncias estritas fos-
para a economia e a filosofia moral. Questes           sem impostas  sociedade.
de direitos e liberdades individuais podiam ser             Vrios esforos para transcender o chamado
tratadas agora pela economia. A obra de Amar-           "teorema da impossibilidade" de Arrow leva-
tya Sen, por exemplo, vacilava entre o quadro           ram  moderna disciplina da teoria da escolha
formal usado pelos tericos econmicos do               social, ou a busca de um fundamento racional
bem-estar e o outro, conceitual, dos filsofos          normativo das decises sociais em sociedades
morais, como John Rawls e Robert Nozick. A              nas quais os indivduos tm preferncias dife-
teoria econmica do bem-estar tambm enri-              rentes quanto ao uso dos recursos disponveis.
queceu atividades mais terra-a-terra, como a            Com esse fim, tal disciplina ocupa-se da agre-
anlise de custos-benefcios, a mensurao da           gao de interesses, preferncias ou bem-estar
pobreza e da desigualdade e a elaborao de             individual em agregados nacionais de interesse,
polticas pblicas.                                     preferncia ou bem-estar social. E isso levou a
                                                        que se desenvolvessem pelo menos mtodos
Leitura sugerida: Atkinson, A.B. 1983: Social Justice
and Public Policy  Graaf, J. de V. 1957: Theoretical    tericos de mensurao e comparao, cuja su-
Welfare Economics  Nozick, R. 1974: Anarchy, State      tileza e engenhosidade so dignas de serem
and Utopia  Rawls, J. 1971: A Theory of Justice  Sen,   admiradas; eles no podem sequer ser resumi-
A. 1982: Choice, Welfare and Measurement.               dos aqui (para uma breve exposio, ver Sen,
                                     KAUSHIK BASU       1987; ver tambm ESCOLHA SOCIAL). No entan-
                                                        to, apesar de toda a sua indubitvel sofisticao,
bem-estar social A expresso define o bem-              a teoria da escolha social permanece imobiliza-
estar da sociedade como um todo. Como tal,              da pela possibilidade lgica de diferentes exer-
 um conceito que assume (ainda que fragil-             ccios de agregao, dependendo do que exata-
mente) a possibilidade de se medir o bem-estar          mente  agregado (interesse, preferncias, bem-
pessoal, de se compararem escalas individuais           estar, ou mesmo julgamento moral a respeito
de bem-estar e de se estabelecerem as relaes          desses trs), e do que se considera ser uma
entre essas escalas individuais (comparveis) e         concluso adequada do exerccio em si mesmo,
a soma de bem-estar da sociedade como um                se uma simples mensurao ou uma alterao
todo. Em sua forma mais ambiciosa, assumiu a            ativa (por exemplo, no sentido de uma igual-
capa de uma funo de bem-estar social, idia           dade de bem-estar), como resultado desse exer-
mais estreitamente associada a dois economis-           ccio (ver Sen, 1977 e 1986).
tas, Bergson (1938) e Samuelson (1947). Seu                 De forma semelhante, os modelos de esco-
modelo -- na verdade um exerccio de trans-             lha social, como modelos axiomticos de pre-
posio das chamadas "escalas de prefern-              ferncia e alocao de recursos, tendem a as-
cia individual" para uma "escala de preferncia         sumir (na maior parte) a possibilidade de infor-
social" (que se presume ser a soma das prefe-           mao completa, mas no implicando intruso,
rncias individuais) -- buscava definir o bem-          em benefcio daquele que toma as decises, e a
estar total da sociedade como uma funo de             legitimidade de mtodos ditatoriais de tomada
sua alocao de recursos. Esse modelo foi cri-          de deciso, na busca da maximizao do bem-
ticado por Arrow, o qual afirmou que qualquer           estar social, como um resultado de todos esses
funo ou regra que procurasse levantar orde-           clculos. A esse respeito, talvez os desenvolvi-
naes de preferncia individual para formar            mentos mais instigantes nessa disciplina te-
uma escala de preferncia social, e que obede-          nham resultado do estudo sistemtico dos pro-
cesse a condies mnimas de Aplicabilidade             cedimentos de votao, no apenas como mo-
Universal (que todas as variaes logicamente           delos para o clculo terico de preferncias
possveis de preferncias individuais fossem            sociais agregadas, mas como indicadores da
conciliadas), de Independncia de Alternativas          possibilidade de seu clculo prtico em algum
Irrelevantes (que no exigisse nenhuma infor-           momento futuro. Alternativamente, talvez haja
mao desnecessariamente detalhada violando             algo que se possa dizer em favor do apelo de
a privacidade pessoal) e de um Princpio Pareto         Barry (1991) para se retirar por completo a
Fraco (que pelo menos algum se sasse melhor           noo de bem-estar social (e individual) do
e ningum ficasse pior; ver BEM-ESTAR, TEORIA           pressuposto de proviso coletiva.
ECONMICA DO), tinha de admitir um ditador, isto            Ver tambm ESTADO DE BEM-ESTAR.
44   Bloomsbury, grupo de

Leitura sugerida: Arrow, K.J. 1951: Social Choice        com ela, da Hogarth Press). A influncia do
and Individual Values  Barry, Norman 1991: Welfare       grupo perdurou pelos anos 50 e mais alm, em
 Bergson, A. 1938: "A reformulation of certain aspects
of welfare economics". Quarterly Journal of Econo-
                                                         parte atravs de seus filhos, mas tambm de
mics 52, 310-34  Samuelson, P.A. 1947: Foundations       recrutas mais jovens como o crtico de jornal
of Economic Analysis  Sen, A.K. 1977: "Social choice     dominical Raymond Mortimer (de quem se diz
theory: a re-examination". Econometrica 45, 58-89        ter sido modelo para o depravado prncipe Da-
 1986: "Social choice theory". In Handbook of Mathe-     niyal na mais vigorosa de todas as stiras sobre
matical Economics, vol.3, org. por K.J. Arrow e M.       Bloomsbury, o romance The Root and the Flo-
Intriligator  1987: "Social choice". In The New Pal-     wer, 1935, de L.H. Myers).
grave: Dictionary of Economics, vol.4, org. por John
Eatwell, Murray Milgate e Peter Newman.                      Bloomsbury foi essencialmente o fruto bo-
                                        S.J.D. GREEN
                                                         mio de uma Cambridge esclarecida, de classe
                                                         mdia alta e vitorianamente tardia. De Cam-
Bloomsbury, grupo de Essa expresso h                   bridge, o grupo tirou o racionalismo, o ceticis-
muito  usada para indicar um vnculo informal           mo e o agnosticismo religioso, mas rejeitou, de
de estetas e INTELECTUAIS influentes, ou pelo            seus antecessores, o UTILITARISMO, o puritanis-
menos proeminentes, na primeira metade deste             mo e o esprito pblico (exemplificado pelos
sculo e, ainda, por conta de suas opinies e            cls Stephen e Strachey, que se gabavam, alm
(especialmente) vidas sexuais pouco conven-              de antigas ligaes evanglicas, da presena de
cionais, de interesse ao que tudo indica inesgo-         inmeras figuras de destaque, jurdicas, mi-
tvel para os bigrafos populares. A expresso           litares e administrativas, entre seus membros).
deriva da circunstncia de que, por ocasio da           A perspectiva de Bloomsbury era epicurista,
morte do homem de letras vitoriano e primeiro            hedonista, pacifista, subjetivista e (exceto no
editor do Dictionary of National Biography, sir          que dizia respeito a artes e "relaes pessoais")
Leslie Stephen (1832-1904), suas quatro filhas,          um tanto monotonamente irreverente. "Nada
entre as quais se incluam a pintora Vanessa             importava", observou Keynes numa famosa
(Bell) e a romancista Virginia (Woolf), muda-            Memoir (1949), "exceto estados de esprito, os
ram-se de Hyde Park Gate para o nmero 46 da             nossos prprios e os de outras pessoas,  claro,
Gordon Square, no bairro ento altamente fora            mas principalmente os nossos prprios.(...) Re-
de moda de Bloomsbury, no centro de Londres.             pudivamos inteiramente a moral e as con-
L, elas e seus amigos se reuniam regularmente           venes habituais e a sabedoria tradicional."
para soires e discusses, e da se desenvolveu              A nica dvida de Bloomsbury para com
um ncleo de pessoas com interesses seme-                Oxford foi em ESTTICA. Nesse campo, o grupo
lhantes que sobreviveu por muito tempo  dis-            seguiu a influncia de Fry, que por sua vez havia
soluo do ncleo familiar original.                     sido influenciado pelo FORMALISMO e por uma
   O grupo nunca teve uma identidade oficial,            averso ao NATURALISMO do movimento dos
apesar de muitos de seus membros terem per-              estetas, do qual so exemplos Walter Pater e
tencido  elitista Society of Apostles, da Uni-          Oscar Wilde. Para Fry, como para J.A. McNeill
versidade de Cambridge. O grupo de Blooms-               Whistler, o valor de uma pintura se localizava
bury, na verdade, era quase que exclusivamente           nos "estados estticos" abstratos, desinteres-
composto por pessoas educadas em Cambridge               sados, supostamente induzidos no espectador
e (mais tarde) de outras que tinham em Cam-              sensvel apenas por sua forma, textura e cor
bridge a sua base de atividades: os filsofos G.         independente de qualquer contedo descritivo.
E. Moore e (perifericamente) Bertrand Russell            Fry foi encontrar essas qualidades da Forma
(ambos do Trinity College), o historiador G.             Significativa (como Bell a chamava) exempli-
Lowes Dickinson, o crtico de arte Roger Fry,            ficadas com destaque na obra de Paul Czanne,
o bigrafo e crtico literrio Lytton Strachey, o        a quem introduziu no mundo anglo-saxo, atra-
romancista E.M. Forster e o economista J.M.              vs de duas exposies "ps-impressionistas"
Keynes (todos graduados por ou Fellows do                que organizou em Londres em 1910 e 1912.
King's College). Entre os membros menos im-                  Essa idia -- em si mesma longe de ser
portantes estavam o crtico Clive Bell (marido           novidade -- de que o valor era essencialmente
de Vanessa), o pintor Duncan Grant e o admi-             sui generis encontrava eco substancial, se no
nistrador colonial e pensador fabiano Leonard            efetiva inspirao, na viso da vida moral de
Woolf (marido de Virginia e tambm fundador,             G.E. Moore, tal como exposta em seus Princi-
                                                                                     bonapartismo       45


pia Ethica (1903), obra que foi chamada "a           ca da mera "sensao" esttica tm uma pers-
Bblia de Bloomsbury". Pois o Bem era igual-         pectiva voltada apenas para o "curto prazo".
mente irredutvel, exceto para os "estados de        Mas hoje se sabe que (por publicao dele
esprito" subjetivos provocados pelos estmu-        prprio) Keynes estava fazendo recomenda-
los estticos, por um lado, e pela amizade (ou       es principalmente para as condies pecu-
"relaes pessoais"), por outro.                     liares dos anos 30, ainda que ele tambm tenha
    A metafsica de Moore, como ele prprio o        dito, de forma suficientemente incontroversa,
disse, era a do "senso comum". As coisas ti-         que "a longo prazo estaremos todos mortos".
nham uma existncia real independente da nos-            Sem dvida, elementos de segunda ou ter-
sa percepo a seu respeito, ponto de vista          ceira linha, como Strachey e Bell, s sobrevi-
rejeitado com desprezo pela gerao anterior de      veram porque o grupo de Bloomsbury, como
idealistas, contra os quais Moore reagia. No        um todo, conquistou a imaginao do pblico
osbtante, a perspectiva de Bloomsbury fazia          (apesar de uma obra da juventude de Strachey,
poucas concesses a qualquer mundo objetivo,         Landmarks in French Literature, e uma obra
ou externo, no sentido vulgar. Era essencial-        pstuma, Books and Characters, ainda serem
mente uma "torre de marfim". Os valores po-          dignas da ateno de qualquer pessoa culta, ao
diam, teoricamente, ser "objetivos", mas na          contrrio do esnobe e pretensioso Civilization
prtica o indivduo era livre para criar os seus     de Bell). Mas pessoas como Keynes, Russell e
prprios, uma vez que, sendo personificados          mesmo Moore com toda certeza teriam sido
apenas em sensaes particulares inefveis,          notveis em qualquer perodo ou meio, enquan-
eram opacos  inspeo ou  crtica pblica.         to escritores como Forster e (acima de todos)
(Nisso, estranhamente, assemelhavam-se  des-        Virginia Woolf exibem no apenas inventivi-
prezada "conscincia" puritana.) Resumiam-           dade tcnica, mas uma espiritualidade delicada,
se, no final, a pouco mais que gostos ou prefe-      preciosa e genuna que nenhuma poca poderia
rncias para os quais no se achava que qual-        ou pode dar-se ao luxo de dispensar.
quer desculpa fosse necessria alm do tradi-
                                                     Leitura sugerida: Bell, Quentin 1972: Virginia Woolf:
cional apelo liberal  soberania do indivduo        a Biography, 2 vols.  Forster, E.M. 1947: Howards
(ver LIBERALISMO; INDIVIDUALISMO).                   End  Fry, Roger 1920: Vision and Design  Harrod,
    Em conformidade com isso, a maioria dos          R.F. 1951: The Life of John Maynard Keynes  Johns-
crticos do grupo de Bloomsbury (incluindo um        tone, J.K. 1954: The Bloomsbury Group  Keynes, J.M.
dos mais ferozes, o escritor D.H. Lawrence, ele      1949: Two Memoirs  Moore, G.E. 1903b: Principia
prprio extraordinariamente excntrico) o acu-       Ethica  Myers, L.H. 1935 (1984): The Root and the
                                                     Flower  Strachey, G. Lyttom 1948: Eminent Victo-
sava de uma mentalidade trivial e amoral, pos-       rians  Woolf, Virginia 1966: Collected Essays, 4 vols.
svel apenas pela independncia financeira com        1927 (1977): To the Lighthouse.
que a maioria deles nascera, e que lhes permitia                                          ROBERT GRANT
um insulamento das presses do cotidiano, que
o trabalho e a vida social ordinria e indesejvel   bolchevismo Ver LENINISMO.
impem aos menos afortunados.
    H alguma verdade nessas restries. Na          bonapartismo Tipo de governo, que tem co-
maior parte do pensamento de Bloomsbury              mo eptomes os regimes de Napoleo I e III, no
ocorre de fato uma "fragilidade" difusa, at         qual a SOCIEDADE CIVIL e as instituies polti-
mesmo certa complacncia paroquial autocon-          cas representativas se encontram subordinadas
gratulatria. Mas  evidentemente extravagn-        ao poder policial-militar. O regime bonapartista
cia, e at mesmo obscurantismo, responsabili-         instalado por meio de golpe de estado, como
zar (como j foi feito) pela crise inflacionria     conseqncia de anterior deteriorao das ins-
dos anos 70, anos economicamente keynesia-           tituies republicanas e de tumulto social. O
nos, o homossexualismo de Keynes e, de ma-           lder  frente de tal governo pretende expres-
neira geral, os mores de Bloomsbury. A suposta       sar diretamente a vontade indivisvel do Povo
ligao  que a economia keynesiana (conforme        soberano e tenta, mas no consegue, fundar
exemplificada pelo aumento da demanda atra-          uma dinastia. Medidas de exceo legitimam-
vs dos aumentos dos meios circulantes e pelas       se atravs de plebiscitos de massa. Essa defini-
concesses de emprstimos colossais para fi-         o elementar, porm, no consegue transmitir
nanciar governos), o homossexualismo e a bus-        toda a gama de inflexes da palavra, nem tam-
46   bonapartismo


pouco a sofisticao conceitual que ela j rece-     Papen-Schleicher (Trotsky, 1932; ver tambm
beu, em particular no pensamento marxista.           Kitchen, 1974, sobre Talheimer). Neses casos,
    O termo bonapartismo j estava em uso por        o bonapartismo assume variadas nuanas de
volta de 1815-16 (OED, 1971, p.245; Robert,          significado, mas a idia de relativa autonomia
1966, p.510), mas sua familiaridade nos crcu-       do estado, surgindo de um equilbrio, ou impas-
los cultos europeus foi em grande parte um           se, nas classes sociais, permanece fundamental,
fenmeno das dcadas de 1850 e 1860. Nesse           da mesma forma que o oprbrio que acompanha
perodo a palavra descrevia, criticava ou louva-     a palavra. Estudos marxistas mais recentes so-
va o governo de Lus Bonaparte. Seu comando,         bre o bonapartismo reenfatizaram seu carter
primeiro como presidente, depois como impe-          militar (Hobsbawn, 1977, p.177-91), suas se-
rador (1852-70) da Frana, era encarado co-          melhanas e diferenas com relao ao FASCIS-
mo a encarnao de uma mutao poltica in-         MO (Kitchen, 1976, p.71-82), sua existncia
dita: simultaneamente populista (ver POPULIS-        como forma de regime (entre outras, incluem-se
MO), autoritria, patritica e aventureira em ter-   o bismarckismo, o fascismo e as juntas mili-
mos militares. A palavra era geralmente usada        tares) que o "estado capitalista de exceo" 
como sinnimo de CESARISMO, apesar da pol-          capaz de assumir (Poulantzas, 1974, p.313-30:
mica de alguns autores contra essa equipara-         cf. Engels, 1884).
o, acusando-a de anacronismo (Marx, 1852;              A segunda utilizao do conceito localiza-o
Mommsen, 1901, p.325), ou at mesmo de               convencionalmente em sua prpria poca: "bo-
irreverncia (Mommsen, p.326-7).                     napartismo" torna-se um meio de interpretar e
    Sua utilizao no sculo XX pode ser divi-       reconstruir elementos da histria europia do
dida, grosso modo, em duas categorias que se         sculo XIX. Com freqncia esse uso avanou
sobrepem. A primeira oferece uma explica-           ele prprio dentro de um quadro de influncia
o scio-poltica, marxista, do bonapartismo e      marxista: descrevendo por exemplo o "bona-
busca aplicar a palavra a condies "moder-          partismo" do Segundo Imprio francs como
nas". Segundo a anlise multifacetada (nem           uma "ditadura modernizante" (Magraw, 1983,
sempre consistente: ver Rubel, 1960; Wipper-         p.159-205), ou como um regime "burocrtico
mann, 1983) de Marx e Engels, o regime de            autoritrio" (Perez-Diaz, 1978), ou ampliando
Napoleo III tornou-se possvel tanto pela bu-       o conceito para abranger a "revoluo pelo
rocratizao disseminada por toda a sociedade        alto", de Bismarck, na Prssia do sculo XIX
francesa quanto por uma conjuntura especfica:       (Wehler, 1970, e 1985, p.55-62; mas ver tam-
o equilbrio das foras de classe, que proporcio-    bm Mitchell, 1977, e Eley, 1984, p.149-53).
nou ao Executivo um espao substancial para          No entanto autores no-marxistas tambm tm
manobras polticas. A significao histrica do      encontrado utilizao para o conceito. Alguns
bonapartismo reside em sua capacidade de pro-        o tm empregado para indicar os paralelos e
mover um vigoroso desenvolvimento capitalis-         contrastes entre os regimes de Napoleo I e III
ta em condies nas quais a burguesia exigiu         (por exemplo, Fischer, 1928). Outros tm uti-
interveno macia do estado em seu favor            lizado a palavra para mapear a complexidade
(Marx, 1852 e 1871; Engels, 1871).                   histrica do fenmeno que ela denota: por
    O prprio Marx raramente empregou a pa-          exemplo, a qualidade evolutiva do governo de
lavra bonapartismo, provavelmente por relutar        Napoleo III, a distribuio geogrfica desigual
em promover a experincia napolenica  con-         de sua base de massa, seus laos com o orlea-
dio de categoria poltica geral -- algo que o      nismo -- o movimento poltico que defendia a
sufixo "ismo", do grego ismos, passou a signi-       idia e a instituio de uma monarquia cons-
ficar (Koeber e Schmidt, 1965, p.XIV). Marxis-       titucional -- e com o republicanismo, sua rela-
tas posteriores mostraram-se menos cautelosos.       o com a populaa rural e urbana, as origens e
Assim, alegou-se haver bonapartismo evidente         variedades de seu apoio de direita -- digamos,
no governo provisrio de Kerensky (Lenin, "O         por parte dos notveis e do clero (Zeldin, 1979,
incio do bonapartismo" e "Eles confundem a          p.140-205: Rmond, 1966, p.125-65, 366-84,
floresta com as rvores", in Obras completas,        que tambm compara o gaulismo na Frana do
vol.25; Trotsky, 1932, p.663-8), no "regime de       sculo XX ao bonapartismo; Bluch, 1980).
Stalin" (Trotsky, 1937, p.277-9) e nas adminis-      Finalmente, o bonapartismo despertou interes-
traes pr-nazistas de Brning e Hindenburg-        se como uma palavra do discurso poltico do
                                                                                               budismo     47


sculo XIX e foi estudado como pertencendo a               retrata o surgimento dos elementos bsicos da
uma famlia de conceitos -- que inclui o des-              vida social, como a famlia, como reao 
potismo, a tirania, a usurpao, o cesarismo e a           imoralidade e  ambio. Mais ainda, as es-
DITADURA -- que denotam formas cambiantes                  truturas sociais institucionalizadas eram retra-
de "dominao ilegtima" (Richter, 1982 e                  tadas como inerentemente desacreditadas e mo-
1988).                                                     ralmente suspeitas, pois em geral abrigavam, e
                                                           s vezes favoreciam, as propenses para o mal
Leitura sugerida: Draper, H. 1977: Karl Marx's Theo-
ry of Revolution, 2 vols. Vol.1: State and Bureaucracy     encontradas nos seres humanos. Outras des-
 Groh, D. 1972: "Csarismus, Napoleanismus, Bona-          cries autorizadas retratam a vida social como
partismus, Fhrer, Chef, Imperialismus". In Geschicht-     fonte inevitvel de sofrimento, por causa da
liche Grundbegriffe, 7 vols. Vol.1, org. por O. Brunner,   natural inconstncia das relaes entre os seres
W. Conze e R. Koselleck, p.726-71  Hammer, K.              humanos, nas quais a conduta ambgua chega a
e Hartmann, P.C. 1977: Der Bonapartismus: His-             ser lugar-comum. A vida social efetiva fornecia
torisches Phnomen und politischer Mythos  Wehler,
H-U. 1985: The German Empire 1871-1918  Zeldin,            abundantes confirmaes dessa viso sombria.
T. 1958: The Political System of Napoleon III  1979:       Em contraste, a vida budista ideal tinha a inten-
France 1848-1945: Politics and Anger.                      o de arrancar pela raiz a inclinao para o mal
                                        PETER BAEHR        e pr fim ao sofrimento. Era retratada com
                                                           freqncia como altamente individualizada, li-
budismo No decorrer de 25 sculos o budis-                 vre de responsabilidades sociais, com a intera-
mo evoluiu no sentido de uma civilizao e uma             o social limitada a relaes consensuais entre
tradio religiosa pan-asiticas caractersticas,          seres diferenciados apenas pelo nvel espiritual
mas ao mesmo tempo sempre se acomodou                      atingido. Esse ideal era institucionalizado na
prontamente s variaes locais. Tal foi es-               ordem monstica budista (sangha), na qual se
pecialmente o caso das formas de vida social               rejeitavam os padres de dependncia e hierar-
aceitas pelos budistas. A vida social budista na           quia tpicos de todas as comunidades humanas.
China tinha mais em comum com os valores                   Em suma, os pensadores budistas normalmente
confucianos (ver CONFUCIONISMO) do que com                 encaravam a vida em sociedade como irredim-
os esposados pelos budistas do Sul da sia, que            vel e concluam que o melhor que um indivduo
partilhavam muitos dos valores sociais com os              podia fazer era deixar de participar de suas
hindus (ver HINDUSMO E TEORIA SOCIAL HINDU).              preocupaes e expectativas. Essa atitude nega-
Como resultado, as configuraes e prticas                tiva diante da vida social foi uma fonte da crtica
sociais da tradio budista foram, historica-              e do desprezo dirigidos contra o budismo por
mente, de uma diversidade extraordinria, em               pensadores de comunidades rivais na ndia e na
uma dimenso tal que os primeiros observa-                 China.
dores ocidentais do budismo acharam difcil                    Embora o pensamento tradicional budista
reconhecer que a religio que encontraram no               veja poucas possibilidades de autntica reforma
Japo tinha alguma relao com a que havia                 na sociedade humana, certas virtudes sociais
sido encontrada na Tailndia. Ao mesmo tem-                eram recomendadas como meios de minimizar
po, os pensadores budistas geralmente despen-              as crueldades habituais da vida social. Entre
diam muito pouco esforo em tentativas de dar              elas se incluam a devoo filial, a generosi-
sentido a essa diversidade, atravs de uma de-             dade, a gratido, a pacincia e um senso de
finio da natureza da sociedade ideal, especial-          proporo. A definio exata de tais virtudes e
mente em comparao com intelectuais de ou-                a especificao de outras virtudes sociais varia-
tras tradies religiosas, como o isl e o hin-            vam de sociedade para sociedade no mundo
dusmo. Isso mudou no sculo XX, e o interesse             budista. De forma semelhante, o ensino budis-
em articular conhecimento e valores sociais que            ta tradicional recomendava a monarquia como
so caracteristicamente budistas  um aspecto              uma estrutura poltica aceitvel. Na teoria pol-
notvel do budismo contemporneo em todo o                 tica budista tradicional, era responsabilidade do
mundo.                                                     rei fazer cumprir a lei e promover o bem-estar
    Tradicionalmente, o pensamento normativo               geral, embora mais uma vez no houvesse acor-
budista era bastante ambivalente a respeito da             do no mundo budista a respeito do que constitui
vida social. Por exemplo, o Aggaa Sutta,                 a lei ou a boa sociedade que um rei devia
mito cannico sobre as origens da comunidade,              promover.
48   budismo


    Alguns aspectos do pensamento budista fo-      a representao idealizada da ordem monstica
ram freqentemente usados para legitimar es-       nas estruturas budistas como um modelo de
truturas sociais existentes. Um aspecto central    inspirao para uma sociedade perfeita. Essa
do pensamento budista  a doutrina do carma,       sociedade voluntria baseia-se em esprito na
que explica como certos aspectos da existncia     rejeio de males bsicos, tais como a autogra-
atual so o resultado de aes anteriores, es-     tificao e a cobia, conforme indicado pela
pecialmente aes em uma vida prvia. No           proibio do uso de dinheiro pelos monges, e
pensamento budista tradicional, os efeitos do      na afirmao de virtudes como a humildade e a
carma estavam relacionados com a hierarquia        disciplina, que controlam os perigos do indi-
existencial encontrada na cosmologia budista,      vidualismo. Suas estruturas de governo do
que inclua uma variedade de cus e infernos,      preferncia ao consenso, visto pelos budistas
bem como de seres humanos, animais e fantas-       contemporneos como uma forma perfeita de
mas. O futuro nascimento de algum em um           democracia. Ao mesmo tempo sua orientao
desses reinos era determinado pelo bem ou pelo     econmica seria socialista, com os recursos
mal que agora praticava, tal como as atuais        divididos em comum, de acordo com a tica de
condies de uma pessoa eram o resultado de        suficincia. A sociedade organiza-se em torno
aes anteriores. A hierarquia social existente    do interesse comum na promoo do avano
entre os seres humanos numa dada comunidade        espiritual, de acordo com o esquema da soterio-
situava-se no interior dessa hierarquia csmica,   logia budista, e todos os seus membros obtm
e as desigualdades sociais eram ento justifica-   benefcios por sua participao. Houve alguns
das como conseqncias justas de aes morais      passos preliminares no sentido de efetivamente
ou imorais. O impulso bsico dessa viso de        implementar esse modelo, tal como o programa
mundo religioso era conservador. Os indiv-        de U Nu para o socialismo budista na Birmnia,
duos podiam ser capazes de mudar sua prpria       mas essas tentativas no se mostraram promis-
posio dentro da hierarquia social e csmica,     soras.
mas a hierarquia em si mesma era fixa.                 Outra tendncia importante no budismo
    No sculo XX cosmologia, renascimento e        contemporneo foi o surgimento de uma nova
carma geralmente no se encontram mais no          nfase no ativismo social. Quando surgiu pela
centro do pensamento budista, em grande parte      primeira vez, no incio deste sculo, essa nova
porque essas idias muita vezes parecem sus-       orientao em geral no era motivada direta-
peitas  luz do conhecimento cientfico moder-     mente pelos valores sociais ou ticos encontra-
no. Outros aspectos do pensamento budista tm      dos na tradio budista, mas era antes uma
recebido, em conseqencia, maior nfase do         tentativa de garantir que o budismo no se
que tradicionalmente, ainda que esse repensar      tornasse irrelevante no mundo moderno e, com
em geral tenha assumido o disfarce de um re-       isso, desaparecesse. A nfase no ativismo social
torno aos pensamentos originais do Buda, o         inspirou uma reconsiderao dos recursos ti-
mestre indiano do sculo V a.C. que foi o fun-     cos da tradio budista, na busca de garantias
dador do budismo. Nesse repensar, o indivduo,     caracteristicamente budistas para tal comporta-
em vez da comunidade, ainda ocupa o centro da      mento. Essas atividades, assim, so agora es-
cena, mas no lugar da explicao tradicional do    timuladas como meios efetivos de cultivar e
carma se d uma nfase especial  capacidade       expressar virtudes budistas tradicionais, como
humana para o pensamento crtico, para a auto-     a compaixo e a generosidade. Os monges so
disciplina mental e moral, para mudar  luz da     hoje comumente estimulados a suplementar
melhor compreenso da natureza humana e do         suas prticas tradicionais -- se no efetiva-
mundo natural. Esse repensar tambm indicava       mente substitu-las -- com servios sociais,
a possibilidade de reformar, se no mudar, as      como meio de abordar o sofrimento causado
estruturas da sociedade  luz de um conheci-       pelas rpidas mudanas tpicas da vida moderna
mento melhorado, em vez de aceit-las como         em termos globais. De modo semelhante, leigos
um dado cosmolgico.                               em todo o mundo budista tm apoiado a fun-
    A possibilidade de mudana social inspirou     dao de escolas, hospitais e outras instituies
os budistas a reconsiderar as solues de sua      de caridade. Dada a magnitude dos problemas
tradio, em busca de novos modelos para so-       que essas atividades abordam, os budistas fre-
ciedades melhores. Alguns budistas encararam       qentemente se descobrem como parte de uma
                                                                                            burguesia    49


comunidade que transcende os grupos indivi-                e Brgertum) indicava originalmente uma cate-
duais de que eles normalmente participam.                  goria de habitantes das cidades da Europa me-
    Na busca de uma base sistemtica para o                dieval, particularmente mercadores e artesos,
pensamento social distintamente budista, mui-              que desfrutavam de status e de direitos especiais
tos pensadores budistas tm-se voltado para                dentro da sociedade feudal. Com o desenvolvi-
a doutrina central da "origem co-dependente"               mento do capitalismo, e especialmente a partir
(pratocca samuppada), que articula a interco-              do sculo XVIII, o significado da palavra mu-
nexo fundamental de toda a realidade. Essa                dou de forma gradual, passando a se referir de
doutrina define o mundo como um lugar onde                 modo mais especfico aos ricos empregadores
nada pode existir de forma independente, com               que exerciam atividades na manufatura, no co-
cada ente ocorrendo necessariamente em um                  mrcio e nas finanas -- uso que se reflete
relacionamento causal com outros entes. A dou-             parcialmente na concepo hegeliana de br-
trina da interdependncia demonstra a ligao              gerliche Gesellschaft (sociedade civil) como
de um indivduo com toda a raa humana e                   a esfera dos interesses econmicos privados.
restabelece as bases da responsabilidade moral             Marx, principal responsvel por dar  palavra
para com os demais. Essa responsabilidade mo-              sua ampla difuso no pensamento social pos-
ral existe ao mesmo tempo em um nvel pessoal              terior, partiu da distino de Hegel entre bur-
e em um plano social, obrigando cada indivduo             gus e cidado, mas logo desenvolveu, a partir
ou grupo a trabalhar na busca da soluo dos               de seu estudo crtico da filosofia de Hegel e
problemas globais, tais como o desarmamento                mais ainda de sua leitura voraz da economia
nuclear e a crise ambiental.  claro que essa              poltica, uma concepo inteiramente diferen-
mudana em direo a um bem comum mais                     te da burguesia como a classe dominante em
inclusivo no se limita  humanidade, mas abran-           um modo especfico (capitalista) de produo.
ge tambm o mundo natural, uma vez que este                Conforme Engels (1847) resumiu esse ponto de
e os seres humanos no se distinguem nos ter-              vista, a burguesia " a classe dos grandes capi-
mos da doutrina da origem co-dependente. As-               talistas que, em todos os pases desenvolvi-
sim, ironicamente, mais um tipo de ambivaln-              dos, esto hoje quase que exclusivamente na
cia a respeito da sociedade surgiu no pensamen-            posse de todos os meios de consumo, e das
to budista do sculo XX. Mesmo com os pen-                 matrias-primas e instrumentos (mquinas, f-
sadores budistas modernos preocupando-se mais              bricas) necessrios para sua produo". Mais
em especificar a natureza de uma boa socie-                tarde (1888), Engels diria que a burguesia  "a
dade, e com budistas contemporneos tentando               classe dos capitalistas modernos, donos dos
melhorar as condies sociais e propiciar a                meios de produo social e empregadores do
existncia de sociedades mais morais, os aspectos          trabalho assalariado".
do pensamento budista para os quais se voltaram                A concepo de Marx (e de marxistas pos-
na busca de justificar suas preocupaes e aes           teriores) abrigou vrios aspectos prprios. Fa-
tenderam a minar a legitimidade de se dividir a            zia parte de uma teoria geral da histria que a
humanidade em sociedades distintas, com es-                percebia como sucesso de modos de produo
truturas particulares, ou mesmo de pensar a res-           e formas de sociedade, cada qual caracterizado
peito da comunidade humana em isolamento do                por um determinado nvel de desenvolvimento
mundo mais amplo e interdependente.                        das foras produtivas (basicamente tecnologia)
                                                           e uma estrutura de classe particular (ou relaes
Leitura sugerida: Dharmasiri, Guanapala 1989: Fun-
damentals of Buddhist Ethics  Dumoulin, Heinrich,
                                                           de produo) dentro da qual h um conflito
org. 1976: Buddhism in the Modern World  Keyes,            endmico. Na sociedade capitalista, que surgiu,
Charles F. 1989: "Buddhist politics and their revolutio-   de acordo com o ponto de vista marxista, do
nary origins in Thailand". International Political         crescimento de novas foras produtivas e da
Science Review 10, 121-42  Swearer, Donald K. 1981:        luta de classe da burguesia contra o sistema
Buddhism and Society in Southeast Asia  Welch,             feudal, a mudana histrica  mais rpida do
Holmes 1968: The Buddhist Revival in China.
                                                           que jamais havia sido: "A burguesia, durante
                                  CHARLES HALLISEY         seu domnio que mal alcana 100 anos, criou
                                                           foras produtivas mais impressionantes e colos-
burguesia Palavra que data do sculo XIII e                sais do que todas as geraes precedentes jun-
que (tal como os termos equivalentes burgueses             tas" (Marx e Engels, 1848). Mas, ao mesmo
50   burocracia


tempo, promoveu a existncia de uma nova               Diversos pensadores sociais sempre enfati-
classe, o proletariado, que com ela trava um       zaram outros aspectos do papel social da bur-
conflito cada vez mais difundido e intenso.        guesia. Tais aspectos tornaram-se mais destaca-
    Dois processos distintos, portanto, esto em   dos em debates recentes. Max Weber (1904-5)
curso na sociedade capitalista. A burguesia con-   associava o esprito capitalista  tica protes-
tinua a revolucionar o sistema de produo,        tante, e percebia a burguesia como animada por
provocando uma crescente centralizao do ca-      idias de racionalidade e empreendimento, li-
pital em grandes empresas, facilitado pela ex-     berdade individual e responsabilidade, o que a
panso do crdito fornecido pelos bancos (Hil-     capacitava para a liderana exigida para manter
ferding, 1910) e, particularmente no sculo XX,    uma sociedade dinmica e democrtica. J.A.
pela macia internacionalizao do capital         Schumpeter (1942) enfatizou de forma seme-
(Mandel, 1975). Mas o domnio burgus tam-         lhante a importncia do empreendimento e rela-
bm se v cada vez mais desafiado pelo prole-      cionou o desenvolvimento da democracia mo-
tariado industrial (ver CLASSE OPERRIA), cuja     derna  ascenso do capitalismo. Mas, ao con-
luta, segundo Marx, acabaria fazendo surgir        trrio de Weber, Schumpeter via no socialismo
uma sociedade nova, socialista e sem classes.      uma continuao da perspectiva burguesa: "A
As expectativas de Marx dependiam em parte         ideologia do socialismo clssico  um rebento
de sua viso de que a sociedade deveria polari-    da ideologia burguesa. Em particular, partilha
zar-se cada vez mais entre as duas classes prin-   com esta ltima a formao racionalista e
cipais -- uma burguesia reduzida, formada em       utilitarista e muitas das idias e ideais que in-
                                                   gressaram na doutrina clssica da democracia"
resultado da "expropriao de muitos capitalis-
                                                   (p.298-9). Um historiador, Henri Pirenne, tam-
tas por poucos", e um amplo proletariado, cons-
                                                   bm achou que a burguesia (ou classe mdia,
tituindo a "imensa maioria" da populao. Ape-
                                                   como as vezes a chama), nas cidades medievais,
sar disso, Marx tambm reconheceu que havia
                                                   "difunde amplamente a idia de liberdade"
estratos intermedirios significativos, os quais
                                                   (1925, p.154), apesar de muitas cidades do me-
incluam a pequena burguesia, composta de          dievo tardio terem sido na verdade dominadas
pequenos produtores independentes, comerci-        por um pequeno nmero de famlias aristo-
antes e profissionais, tendo chegado mesmo a       crticas (Holton, 1986, p.79-83). Mais recente-
esperar que a classe mdia, como um todo,          mente, nos textos de Hayek (1973-9) e de al-
crescesse em tamanho (a julgar por duas pas-       guns pensadores da NOVA DIREITA, a existncia
sagens nos originais de Teorias da mais-valia).    de uma sociedade livre e democrtica est rigo-
    Marxistas posteriores, no sculo XX, tive-     rosamente relacionada  propriedade privada
ram de enfrentar problemas mais complexos          dos recursos produtivos (apesar de o conceito
que surgiam do rpido crescimento da "nova         de burguesia em geral no ser usado) e a mer-
classe mdia" de funcionrios de escritrio,       cados livres que, associados  propriedade pri-
empregados tcnicos e profissionais e pessoal      vada, so considerados promotores de um alto
de servios de todos os tipos (ver CLASSE M-      nvel de eficincia na economia.
DIA), padres de vida mais elevados e bem-estar
social mais extenso -- fatores que, quase por      Leitura sugerida: Bottomore, Tom e Brym, Robert J.,
                                                   orgs. 1989: The Capitalist Class: International Study
toda parte, diminuram a intensidade do conflito
                                                    Holton, R.J. 1986: Cities, Capitalism and Civilization
de classes em tempos recentes. A burguesia dos      Pirenne, Henri 1925: Medieval Cities  Riedel, M.
tempos atuais, ainda imensamente rica e contro-    1975: "Brger, Staatsbrger, Brgertum". In Geschicht-
lando empresas gigantescas est, no obstante,     liche Grundbegriffe, org. por O. Brunner et al., vol.1.
mais contida em vrios aspectos do que seus         Sombart, Werner 1913 (1967): Der Bourgeois, tradu-

predecessores do sculo XIX, por meio de graus     zido em ingls como The Quintessence of Capitalism.
variados de propriedade pblica e planejamento                                        TOM BOTTOMORE
econmico por parte dos governos, e por uma
limitada redistribuio do lucro e da riqueza.     burocracia Uma das categorias centrais da
Dessa forma, seu estilo de vida e seu prestgio    cincia social moderna, referindo-se a um tipo
social j no representam um contraste to gri-    de administrao no qual o poder de tomar
tante com os de parte substancial do restante da   decises est concentrado em um gabinete ou
sociedade.                                         funo, mais do que em um indivduo em par-
                                                                                    burocracia   51


ticular. No decorrer da histria a burocracia       sen, 1974) referem-se a uma total burocratiza-
surge em formaes sociais e econmicas ex-         o da vida.
tremamente diferentes, mas ao mesmo tempo               As diferentes escolas de cincia social tm
exibe vrios aspectos em comum, dos quais os        abordagens variadas para o problema da buro-
mais importantes so os que se seguem.              cracia. A abordagem terica dos marxistas cls-
    A burocracia separa-se da sociedade, tanto      sicos  incoerente em muitos aspectos. Na obra
da classe governante quanto das massas. Orga-       de juventude de Marx, est evidente uma pos-
niza-se dentro de um sistema institucional par-     tura definidamente antiburocrtica. Sua expe-
ticular, no qual se desenvolvem variados proce-     rincia com a crise de fome coletiva no distrito
dimentos formais, um ethos e uma ideologia          de Moselle o fez compreender que, alm da
especiais. Tudo isso mostra-se como uma es-         classe governante e dos grupos sociais subordi-
pcie de subcultura. A fonte de seu poder reside    nados, existia uma burocracia de estado com
no fato de terem surgido funes de orientao      seus prprios interesses particulares, represen-
e controle que as classes bsicas da sociedade      tados por esses aparatos como interesses de
no podem preencher. Geralmente, porm, a           estado ou sociais gerais. O esprito especial da
burocracia acrescenta novas tarefas s funes      burocracia  o segredo e o mistrio que prote-
historicamente necessrias (por exemplo, ir-        gem os seus interesses particulares contra a
rigao nas sociedades antigas), o que garante      sociedade externa e interpretam todas as ques-
o aumento de seu poder sobre a sociedade.           tes internas como um segredo de estado. Mas
     um aspecto caracterstico da burocracia       nas obras posteriores de Marx e Engels o pro-
que a administrao seja exercida no por lei-      blema da burocracia foi relegado ao pano de
gos, mas por especialistas que encaram esse         fundo e a luta entre operrios e capitalistas
trabalho como suas carreiras de vida, e no         assumiu o proscnio. Eles deixaram de prever
como uma atividade temporria exercida du-          duas circunstncias. A primeira foi a expanso
rante certos perodos. No sistema burocrtico       da burocracia para a economia e outras reas da
institucional, passa a existir um conjunto padro-   sociedade. No previram que a liderana da
nizado de exigncias, tais como os exames para      indstria e da economia em geral passaria para
os funcionrios pblicos chineses de antiga-        as mos de certos organismos separados dos
mente, e os de todos os estados modernos. Tais      proprietrios e que exerciam diretamente o po-
exames, a um s tempo, so uma das bases da         der sobre os operrios, apesar de sua existncia
estabilidade do poder burocrtico e envolvem        continuar a depender desses proprietrios que,
alguma exclusividade.                               como acionistas ou como donos em famlia,
    A palavra burocracia, tal como definida nas     esperavam que trabalhassem com eficincia e
cincias sociais, difere de seu uso cotidiano. Em   aumentassem o lucro. Tambm nesse caso, o
muitas lnguas, esta ltima utilizao funde-se     sistema burocrtico de instituies luta para
com o chamado burocratismo de funcionrios          expandir seu poder e, assim, o lucro torna-se
incompetentes, cujo trabalho se caracteriza por     motivao secundria em suas decises.
um formalismo ineficaz, desanimado, lento e             Na poca do capitalismo clssico, a burocra-
geralmente irracional. Em contraste com isso, a     tizao da economia ainda estava in statu nas-
administrao burocrtica, tal como Max We-         cendi. O gerenciamento das empresas ainda era,
ber (1921-22, parte 3, cap.6) asseverou, mos-       em grande parte, executado pelos prprios do-
trou-se mais eficiente, rpida e competente do      nos. Quanto a isto, uma transformao impor-
que outras formas histricas de administrao.      tante ocorreu na virada do sculo, tal como
Isso explica por que nas sociedades modernas        analisada com maior clareza por vrios pensa-
a administrao burocrtica est se expandindo,     dores, com destaque especial para Max Weber,
no apenas em organizaes estatais, mas em         cuja obra demonstra sua atitude antiburocrtica
praticamente todos os campos da vida social. O      especfica e sua abordagem cientfica peculiar
fenmeno  especialmente visvel no campo           -- esta ltima no esprito de uma sociologia
econmico, onde o gerenciamento de mdias e         verstehende (interpretativa).
grandes empresas est sendo totalmente buro-            Desde o incio do sculo, a vida econmica
cratizado (ver os comentrios de Schumpeter,        e outras reas da sociedade foram ficando cada
1942, p.205-7). Confrontados com essa tendn-       vez mais burocratizadas. Nesse processo, um
cia, muitos cientistas sociais (como W. Momm-       aspecto particularmente importante foi a bu-
52   burocracia


rocratizao dos partidos polticos, com influ-      penhavam uma funo de integrao entre v-
ncia sempre crescente sobre toda a socieda-         rias instituies burocrticas (industrial, econ-
de devido ao surgimento do parlamentarismo           mica, militar, cultural) e exerciam o controle
democrtico ocidental, processo analisado por        sobre as organizaes de massa (sindicatos,
Robert Michels (1911).                               movimentos de juventude, movimentos oficiais
    Os sindicatos, cuja formao era dominada        de paz e assim por diante) e sobre os mass media
por tendncias anticapitalistas, enfrentavam um      organizados de modo vertical. O rgido controle
novo "inimigo" -- a burocracia industrial --,        partidrio sobre as instituies democrticas
ao mesmo tempo em que tambm produziam               debilitou as formas de existncia da SOCIEDADE
seus prprios rgos burocrticos. O conflito de     CIVIL, incluindo movimentos polticos e cultu-
interesses entre operrios e capitalistas passou     rais e organizaes tnicas e religiosas. Esse
a assumir a forma de confronto e consenso entre      mundo burocratizado no apenas caracterizou
burocracias industriais e sindicais, processo        o socialismo de gesto estatal, o chamado sta-
descrito por Sidney e Beatrice Webb.                 linismo, mas tambm o sistema de autogesto
    Nas sociedades ocidentais, o processo de         iugoslavo, em que, na prtica, vrios rgos
burocratizao continuou pelos perodos ps-         burocrticos preservaram seu papel dominante.
capitalista e ps-industrial, tendo vrios de seus   A atividade social, porm, afirmou-se cada vez
aspectos caractersticos alterados. Na econo-        mais contra a burocratizao da administrao,
mia, os aparelhos de estado desempenham um           e se desenvolveram aspiraes por um mundo
papel sempre crescente, mas no controlam a          no qual a burocracia, como tal, j no existisse
vida econmica de forma independente, como           mais e o poder estivesse diretamente nas mos
no perodo do feudalismo tardio e do incio do       do povo.
capitalismo, mas sim em associao com as                O mundo moderno no consegue passar sem
burocracias industriais, financeiras e sindicais.    as instituies burocrticas. Uma realista meta
Isso produziu uma tessitura de poder econmi-        antiburocrtica s pode ser o controle do poder
co altamente intricada, que J.K. Galbraith cha-      burocrtico pela sociedade civil. Isso sublinha
ma de tecnoestrutura (ver tambm TECNOCRA-           a importncia das reformas dos sistemas polti-
CIA). Principalmente na economia, mas tam-           cos institucionais na Europa Oriental e na ex-
bm em outras reas, as burocracias nos pa-         Unio Sovitica, precisamente pelas razes se-
ses ocidentais ultrapassam as fronteiras na-         guintes: como resultado das reformas, o sistema
cionais e assumem um carter internacional.          monoltico foi transformado num sistema plu-
Em certos aspectos, isso torna a luta por in-        ralista e isso destruiu a hegemonia da burocra-
dependncia que caracteriza os estados na-           cia dominada pelo sistema de partido nico. No
cionais uma coisa ilusria. Pode-se afirmar          decorrer das reformas, a sociedade civil foi
que o significado de anticapitalismo foi exa-        como que ressuscitada. Surgiram partidos po-
gerado por Marx e Engels, em prejuzo do de          lticos, organizaes e movimentos sobre os
antiburocracia. Na prtica atual, est bastante      quais a burocracia j no tinha mais controle
claro que a emancipao da humanidade no             algum, ao mesmo tempo em que o objetivo
mundo moderno exige mais antiburocratismo            principal da sociedade civil era controlar essa
do que anticapitalismo.                              prpria burocracia.
    O segundo erro dos autores marxistas cls-           O socialismo reformista (ou SOCIAL-DEMO-
sicos  que, em sua viso socialista, deixaram       CRACIA), em contraste com o sistema de gesto
de perceber o perigo da burocratizao da so-        estatal,  uma formao scio-econmica na
ciedade. Postularam a rpida "dissoluo" do         qual, apesar de vrias instituies burocrticas
estado e a socializao de todos os tipos de         sobreviverem, seu domnio monoltico deixa de
administrao. Mas as experincias da ex-            existir e elas operam sob efetivo controle da
Unio Sovitica e dos pases da Europa Oriental      sociedade civil. Assim, tambm se podem ob-
mostraram que toda uma srie de instituies         servar movimentos antiburocrticos em socie-
burocrticas entrelaadas passa a existir para       dades ocidentais, que podem ser chamados de
executar as funes administrativas, e que no        movimentos alternativos. Especialmente signi-
centro dessa rede institucional se encontrava o      ficativos entre estes so a formulao e a intro-
sistema do partido nico, monoliticamente do-        duo de uma estrutura designada como de
minante, e seus rgos principais. Estes desem-      empresa alternativa, no governada por uma
                                                                                     burocracia    53


burocracia hierrquica, mas por cooperao en-     Leitura sugerida: Galbraith, J.K. 1967: The New In-
tre vrias associaes de trabalhadores (ver MO-   dustrial State  Hegeds, A. 1976: Socialism and Bu-
VIMENTO COOPERATIVO; MOVIMENTO SOCIAL). Se
                                                   reaucracy  Michels, Robert 1911 (1962): Political
                                                   Parties  Mommsen, Wolfgang J. 1974: The Age of
os movimentos antiburocrticos tambm so          Bureaucracy  Mouzelis, N.P. 1967: Organization
capazes de produzir sua prpria burocracia,        and Bureaucracy  Rizzi, B. 1985: The Bureaucratiza-
conforme experincias histricas tm revelado,     tion of the World  Webb, Sidney e Webb, Beatrice
j  outra questo. Apesar disso, o mundo dos      1897: Industrial Democracy  Weber, M. 1921-2
fenmenos burocrticos e a luta contra ele esto   (1967, 1978): Economy and Society, parte 3, cap.6.
entre os aspectos mais importantes da nossa        Tambm in Weber, M. 1920 (1946, 1970): From Max
poca.                                             Weber, org. por H. Gerth e C.W. Mills.
    Ver tambm DIVISO DO TRABALHO.                                                ANDRS HEGEDS
                                               C
campesinato A atitude para com os campo-                 o mundo um rpido desenvolvimento dos estu-
neses no mundo pr-industrial combinava hos-             dos sobre o campesinato, introduzindo a ques-
tilidade e silncio. A palavra "campons" signi-         to das caractersticas e da delimitao analtica
fica "homem do campo" (do latim campus).                 desse grupo social. Esse esforo analtico teve
Mas ela sempre teve uma conotao negativa,              um significado mais amplo onde tpicos como
ainda mais forte em outras lnguas europias,            economias "informais", histria ecolgica, cultu-
como o ingls e o francs. Servindo de sinni-           ra oral e sociedade civil so de grande interesse.
mo para rusticidade, era geralmente usada co-                Como primeira aproximao, podemos des-
mo palavra ofensiva. No ingls do sculo XVI,            crever os camponeses como pequenos produ-
o verbo to peasant significava "subjugar", e             tores agrcolas que, com a ajuda de equipamen-
essa palavra, tal como "paisano", encontrada             tos simples e o trabalho de suas famlias, pro-
em portugus, espanhol e italiano, tem origem            duzem na maior parte para seu prprio consu-
no francs paysan ("campons", mas com os                mo, direto ou indireto, e para o cumprimento de
mesmos significados de rude e grosseiro), en-            obrigaes com detentores do poder poltico e
quanto em outras lnguas europias a mensa-              econmico. Um tipo geral mais desenvolvido
gem tcita da palavra era semelhante (em russo,          deveria incluir quatro facetas interdependentes:
smerd, do verbo "feder"; em polons, cham,
presumindo para todos os camponeses as ori-              A roa da famlia camponesa como a unidade
                                                         multidimensional bsica da organizao social.
gens raciais inferiores atribudas na Bblia aos
"filhos de Cam" etc.). O Declinatio Rustico da            a famlia, principalmente, que realiza o traba-
Europa medieval definia "seis declinaes da             lho na roa. Esta  que fornece a maior parte das
palavra campons", como "patife, rstico, men-           necessidades de consumo da famlia e o paga-
                                                         mento de suas dvidas. Tais unidades no so
digo, ladro, bandido e saqueador". Mas, como
                                                         autrquicas; os camponeses, universalmente,
regra geral, as crnicas simplesmente no os
                                                         esto envolvidos no intercmbio dirio de bens
mencionavam. Mais tarde, no mundo moderno
                                                         e nos mercados de trabalho. Sua ao econmi-
da industrializao e da cincia, os camponeses
                                                         ca, contudo, est estreitamente entrelaada a
passaram a ser tratados como um anacronismo
                                                         relaes sociais extramercado. A diviso fami-
em todos os sentidos bsicos dessa palavra e,
                                                         liar do trabalho e as necessidades de consumo
portanto, uma irrelevncia. Com a importante
                                                         da famlia fizeram surgir estratgias particu-
exceo da Europa Oriental, os camponeses
                                                         lares de sobrevivncia e de uso de recursos. A
ficaram quase que completamente ausentes do
                                                         roa da famlia funciona como a unidade mais
discurso erudito.                                        importante de propriedade, produo, consu-
    Isso tudo mudou de forma significativa com           mo, reproduo social, identidade, prestgio,
a descolonizao dos anos 50 e a conscin-               sociabilidade e bem-estar dos camponeses. Ne-
cia das "sociedades em desenvolvimento" nas              la, o indivduo tende a se submeter a um com-
quais os camponeses formavam a parte maior               portamento-desempenho familiar formalizado
da populao (ver tambm DESENVOLVIMENTO E               e  autoridade patriarcal.
SUBDESENVOLVIMENTO). Os problemas de plane-
jamento do desenvolvimento, o reconhecimen-              O trato da terra como principal meio de vida.
to das crescentes crises sociais e a fome coloca-        O trabalho campons na lavoura inclui uma
ram a questo do campesinato no centro das               combinao especfica, tradicionalmente defi-
atenes. A partir dos anos 60 ocorreu por todo          nida, de tarefas em um nvel relativamente bai-

                                                    54
                                                                                   campesinato    55


xo de especializao. O que em outras partes        sa pelo uso extensivo das "armas dos fracos",
seria considerado como ocupaes diferentes,        como sabotagem econmica, absentesmo, boi-
nas atividades produtivas camponesas se com-        cote etc. E, em certas condies, de revoltas
bina. Relacionado a isso existe um treinamento      macias que transformaram os camponeses nu-
vocacional informal e com base na famlia. O        ma das mais importantes foras revolucionrias
impacto da natureza  particularmente impor-        de nosso sculo.
tante para a vida de pequenas unidades de pro-          As quatro "facetas" indicadas devem ser
duo com recursos limitados, definindo seu         tratadas como uma Gestalt cujos elementos se
ritmo: os ciclos sazonais influenciam profun-       reforam mutuamente. Quando alguma dessas
damente a vida da famlia e os acontecimentos       caractersticas principais  removida do conjun-
familiares refletem-se na dinmica da lavoura.      to, a natureza de cada um de seus outros com-
Das foras/fatores de produo, terra e trabalho    ponentes se altera. Diferentes escolas de pensa-
familiar so fundamentais -- uma "licena"          mento com respeito ao campesinato geralmente
para entrar nesse trabalho e um meio importan-      tm manifestado sua diversidade de viso atra-
tssimo com que se define o status local das        vs da acentuao de uma das caractersticas
famlias.                                           sugeridas -- tratando-a como o aspecto decisivo
                                                    da definio. Na viso deste autor, a roa da
Padres culturais especficos ligados ao modo de
                                                    famlia  a caracterstica mais significativa do
vida de uma pequena comunidade/vizinhana ru-
                                                    campesinato como entidade social e econmica.
ral. O contexto caracterstico  uma comuni-
dade pequena e localizada, dentro da qual a             O prximo passo na evoluo do conceito
maior parte das necessidades camponesas de          seria considerar suas "margens" analticas, isto
vida social e reproduo social pode ser aten-      , examinar os grupos sociais que tm em co-
dida. Particularidades de residncia, envolvi-      mum com os camponeses "de verdade" a maior
mento social e conscincia social so coisas        parte de suas caractersticas principais, mas no
ligadas e interdependentes. Os aspectos cultu-      todas. A marginalidade analtica no implica
rais do campesinato, no sentido de normas e         aqui insignificncia numrica ou "instabilida-
cognies socialmente determinadas, mostram         de" particular. Alm disso, esses grupos divi-
algumas tendncias caractersticas, tais como a     dem os ambientes rurais com os camponeses
importncia das atitudes tradicionais dos con-      "de verdade" e podem estar suplementando-os,
formistas (como a justificao de uma ao em       ou sendo suplementados por eles, no interior de
termos da experincia passada e dos pontos de       um processo histrico. Muitos deles so colo-
vista da comunidade), normas particulares de        quialmente chamados de camponeses.
herana, de solidariedade, de excluso etc. (ver        Os mais significativos desses grupos (em
tambm TRADIO E TRADICIONALISMO). A cul-          ordem do tipo de caracterstica que no com-
tura camponesa tanto reflete quanto refora as      partilham com os camponeses "de verdade")
caractersticas e a experincia de vida de uma      so:
pequena comunidade de aldeia, com sua falta             1. Trabalhadores agrcolas assalariados (e
de anonimato e suas relaes cara a cara estando            tambm camponeses-operrios que
relacionadas a fortes controles normativos, e a             adotam uma diviso de trabalho do tipo
experincia comum de crescer em um ambiente                 "o homem na cidade, o resto da famlia
fsico e social semelhante influenciando as ati-            na terra").
tudes para com "os de fora".                            2. Famlias camponesas que fazem inves-
A posio de "subalterno" -- o domnio do                   timento intensivo em capital e equipa-
campesinato por elementos de fora. Os campo-                mento, transformando com isso a natu-
neses, como regra, vm sendo mantidos afas-                 reza da agricultura a que se dedicam.
tados das fontes sociais do poder. Sua subjuga-             Logo voltaremos a essa categoria.
o poltica est interligada  subordinao cul-       3. Camponeses sem aldeia -- como, por
tural e a uma explorao econmica atravs de               exemplo, alguns favelados das frontei-
imposto, arrendamento, corvia, juros e rela-               ras agrcolas latino-americanas e os
es comerciais a eles desfavorveis. A subor-              "gachos".
dinao tambm tem acarretado repetidas ten-            4. Camponeses "no-incorporados", co-
tativas, por parte dos camponeses, de autodefe-             munidades camponesas penetradas e
56   campesinato


        controladas apenas em grau limitado pe-               agricultura, estruturando-a em amplas
        los sistemas "nacionais" do estado, do                unidades de produo sob controle go-
        mercado e da aculturao (no passado,                 vernamental. (No se deve exagerar
        geralmente um "campesinato das fron-                  aqui o carter excepcional dessa forma
        teiras", armado e independente).                      de organizao rural. A diferena entre
    Como toda entidade social, o campesinato                  a coletivizao em um pas e o monop-
existe apenas como um processo. A tipologia                   lio de juntas comerciais controladas pe-
indicada deve ser usada como padro de com-                   lo estado sobre a produo dos pequenos
parao em anlise histrica, por exemplo, para               proprietrios em outro  geralmente
"medir" a extenso de campesinagem ou des-                    apenas de grau.)
campesinagem.  preciso ter cuidado, no entan-            5. Campesinagem atravs de uma reforma
to, para no forar mudanas multidirecionais                 agrria igualitria, e s vezes recampe-
em esquemas que pressupem um desenvolvi-                     sinagem, na medida em que os filhos dos
mento necessrio em uma via nica. Diferenas                 camponeses retornam  terra devido a
considerveis entre camponeses, tanto ecolgi-                induo do estado, presso poltica, ou,
cas quanto histricas, refletem-se em diversos                alternativamente, a novas oportuni-
campesinatos regionais.                                       dades de faz-lo de forma lucrativa. A
    No que diz respeito  dinmica social,                   atual privatizao e rediviso de terra
preciso ter em mente os ritmos cclicos que no               "coletivizada" na ex-Unio Sovitica
levam a mudanas de estrutura social, mas antes               etc., tambm se encaixaria aqui.
reforam sua estabilidade. Quanto a mudanas              Os camponeses formam parte de sociedades
estruturais, estas podem ser relacionadas em          mais amplas e de suas histrias. A rpida exten-
cinco categorias analticas que, na vida social       so desses laos durante as ltimas dcadas
efetiva, podem ser paralelas ou inter-relaciona-      tornou essa questo crucial para qualquer esfor-
das. So elas:                                        o de compreenso do campesinato.  freqen-
    1. Diferenciao scio-econmica, como            temente mencionado como uma questo de "in-
        a polarizao de riqueza rural seguida da     sero" ou de "subsuno" dos camponeses. No
        transformao de alguns camponeses            entanto a particularidade camponesa no reside
        em agricultores capitalistas ou traba-        simplesmente no que eles "so", em oposio
        lhadores assalariados.                        a presses transformadoras de "mudana" ou
    2. Pauperizao, quando o crescimento da          "sociedade", "capitalismo" ou "plano de desen-
        populao rural em relao  terra, sem       volvimento". Expressa-se tambm nos modos
        fontes alternativas de renda, leva a um       como os camponeses reagem a essas foras.
        declnio econmico coletivo da massa          Tais reaes caractersticas refletem-se na par-
        de camponeses.                                ticularidade dos mtodos de anlise expressos
    3. "Afazendamento", quando o trabalho             nos estudos camponeses contemporneos. E
        da famlia continua a ser a principal         tambm a experincia e a agenda camponesas
        unidade de produo agrcola, ao mes-         particulares ligam-se claramente a diversos mo-
        mo tempo em que seu carter altera.           vimentos polticos e sociais, como o narodni-
        Essa evoluo de "campons para               chestvo (o movimento "para o povo" da Rs-
        fazendeiro" est ligada a investimentos       sia), as estratgias de guerrilha do MAOSMO,
        macios, o que amarra a agricultura em        movimentos cooperativos e organizaes no-
        famlia a uma economia capitalista,           governamentais contemporneas.
        atravs de crdito, implementos e ven-            Finalmente, as muitas definies de campe-
        das, em geral organizados por empresas        sinato que o encaram como representando um
        agrcolas. Esse "afazendamento" tambm        aspecto do passado e do presente so vlidas,
        est relacionado  especializao e ao "es-   mas devem ser tratadas com cautela. Mesmo em
        treitamento" do perfil ocupacional dos        nossa poca "dinmica", vivemos em um pre-
        agricultores, tornando-os mais afins com      sente que est enraizado no passado, e  a que
        as populaes urbanas.                        o nosso futuro se forma. Portanto, vale a pena
    4. Coletivizao/estatizao, quando o es-        lembrar que -- assim no passado, como no
        tado assume a responsabilidade pela           presente -- os camponeses e sua descendncia
                                                                                       capitalismo   57


so a maioria da humanidade e continuaro a             teriores. Max Weber, ao mesmo tempo em que
s-lo ainda pelo sculo XXI adentro.                    rejeitava a teoria de Marx como um todo e
                                                        construa um modelo bem diferente, ou "tipo
Leitura sugerida: Chyanov, A.V., 1987: The Theory of
Peasant Economy  1991: The Theory of Peasant Co-
                                                        ideal" de capitalismo, no obstante incorporou
operatives  Galeski, B. 1972: Basic Concepts of Rural   a ele importantes elementos derivados do pen-
Sociology  Harris, J., org. 1982: Rural Development     samento marxista. Em particular, especificou,
 Kautsky, K. 1899 (1987): The Agrarian Question         entre as condies bsicas de uma economia
 Ladurie, E. Le Roy, 1980: "Peasants". In The Cam-      capitalista, a "apropriao de todos os meios
bridge Modern History, vol.13  Scott, J. 1986: The      fsicos de produo (...) como propriedade dis-
Weapons of the Weak  Sen, A. 1981: Poverty and Fa-
mines  Shanin, T. 1990: Defining Peasants  org.
                                                        ponvel de empresas industriais, autnomas e
1987: Peasants and Peasant Societies, 2ed.  Sorokin,   privadas", e a existncia de "trabalhadores li-
P.A., Zimerman, E.F. e Golpin, C.J., orgs. 1965: Sys-   vres", isto , pessoas "que se encontram no
tematic Source Book in Rural Sociology  Wolf, E.R.      apenas legalmente na posio de, mas se vem
1966: Peasants.                                         tambm economicamente levadas a vender seu
                                  THEODOR SHANIN        trabalho no mercado sem restrio". Ao mesmo
                                                        tempo, introduziu outros elementos; o "mtodo
capitalismo Tipo de economia e de socie-                empresarial" como caracterstica bsica e ou-
dade que, em sua forma desenvolvida, surgiu a           tros pr-requisitos como "liberdade do merca-
partir da Revoluo Industrial do sculo XVIII          do", "contas de capital racionais", "tecnologia
na Europa Ocidental, o capitalismo foi pos-             racional (...) o que implica mecanizao", "leis
teriormente conceituado de variadas maneiras            confiveis" e a "comercializao da vida eco-
por economistas, historiadores e socilogos (a          nmica" (1923, p.207-9).
palavra em si mesma s veio a ser amplamente                Mas o interesse de Weber como historiador
utilizada no final do sculo XIX, particular-           dirigiu-se mais  questo das origens do capita-
mente por pensadores marxistas). Marx (O ca-            lismo, que ele explicou por meio de fatores
pital, 1867, vol.1) definiu-a como uma "socie-          tanto sociolgicos quanto econmicos -- a in-
dade produtora de mercadorias", na qual os              fluncia de uma nova tica religiosa (Weber,
principais meios de produo esto nas mos de          1904-5), o crescimento das cidades e a forma-
uma classe particular, a BURGUESIA, e a fora de        o de uma "classe nacional de cidados" no
trabalho tambm se torna uma mercadoria que             moderno estado-nao (Weber, 1923, p.249)
 comprada e vendida. Essa concepo foi ela-           --, do que aos aspectos dinmicos do capi-
borada no quadro da teoria de Marx sobre a              talismo e seu contnuo desenvolvimento, que
histria -- sua "interpretao econmica" -- e          preocupam os pensadores marxistas e tambm
o capitalismo encarado como o mais recente              Schumpeter. Este ltimo dedicou seus textos
estgio em um novo processo de evoluo dos             mais importantes  exposio de uma teoria
modos de produo e formas de sociedade hu-             do desenvolvimento econmico (Schumpeter,
manos. Seus aspectos caractersticos, segundo           1911), analisando as flutuaes da economia
Marx, eram a capacidade de auto-expanso                capitalista no ciclo econmico (1939) e exami-
atravs da acumulao incessante (a centraliza-         nando as tendncias no desenvolvimento do
o e a concentrao de capital), a revoluo           capitalismo que, consideradas, levariam  su-
contnua dos mtodos de produo (fortemente            perao da ordem social capitalista pelo SOCIA-
enfatizada em O manifesto comunista), intima-           LISMO (1942). No primeiro desses livros, ele
mente ligada ao avano da cincia e da tecno-           enfatizou o papel do empreendedor como o
logia como uma fora produtiva de importncia           inovador que continuamente empurra a econo-
maior, e ainda o carter cclico de seu processo        mia em novos rumos, num turbulento processo
de desenvolvimento, marcado por fases de                de transformao e expanso. O segundo livro
prosperidade e depresso, e tambm uma divi-            analisava em detalhes as fases de crescimento
so mais claramente articulada, ao lado de cres-        econmico e de posterior recesso nesse pro-
cente conflito entre as duas classes mais impor-        cesso, dando destaque particular aos CICLOS DE
tantes (ver CLASSE) -- a burguesia e o proleta-         LONGO PRAZO de aproximadamente 50 anos de
riado (ver CLASSE OPERRIA).                            durao. Finalmente, ao discutir capitalismo e
    A teoria marxista exerceu uma influncia            socialismo, atribuiu importncia fundamental 
profunda sobre a maior parte dos estudos pos-           SOCIALIZAO DA ECONOMIA, por meio da qual
58   capitalismo


grandes corporaes passaram a dominar o sis-      dades no apenas com a idia de Schumpeter
tema econmico em um novo perodo de capi-         (1950) de uma "experincia intermediria" en-
talismo "cartelizado", que ele contrastou com      tre capitalismo e socialismo, mas tambm com
um anterior capitalismo "competitivo".             anlises mais recentes, por alguns tericos so-
    Grande parte da argumentao de Schumpe-       ciais ocidentais, do capitalismo de bem-estar,
ter aproxima-se muito da de tericos marxis-       da economia mista, da economia de mercado
tas posteriores, e em particular dos austromar-    social e do CORPORATIVISMO. Uma importante
xistas (ver AUSTROMARXISMO), que tambm per-       contribuio ao conceito de capitalismo de
ceberam uma nova fase de capitalismo que           bem-estar foi dada antes por Keynes (1936), o
surgira claramente por volta do incio do sculo   qual, ainda que no se tenha dedicado a uma
XX, caracterizada pela formao de trustes e       anlise do sistema capitalista como um todo,
cartis, protecionismo e expanso imperialista     rejeitou o ponto de vista da corrente principal
(ver IMPERIALISMO). Ao mesmo tempo, enfatiza-      dos economistas neoclssicos de que o capita-
ram o papel dos bancos na formao de grandes      lismo, atravs da operao de mecanismos de
corporaes e cartis (Hilferding, 1910), e essa   MERCADO, tendia espontaneamente a um equil-
concepo tambm foi incorporada, ainda que        brio e a um crescimento constante e uniforme.
de forma mais estreita,  definio posterior de   Ao contrrio, escrevendo durante a depresso
capitalismo dada por Schumpeter (1946), co-        dos anos 30, ele afirmou que polticas governa-
mo envolvendo no apenas a propriedade par-        mentais especficas em variados campos --
ticular dos meios de produo e a produo         taxao, meio circulante, taxas de juros, obras
para o lucro particular, mas tambm o forneci-     pblicas, dficits oramentrios -- eram es-
mento de crdito bancrio como um aspecto          senciais para se conseguir o pleno emprego e o
essencial. Os austromarxistas, e Hilferding em     crescimento econmico. A obra de Keynes e
especial (Bottomore, 1985, p.66-7), foram          seus seguidores, dessa forma, estimulou a inter-
mais alm, no entanto, percebendo um novo          veno governamental na economia e a regula-
estgio de "capitalismo organizado" depois da      mentao, se no o planejamento econmico
Segunda Guerra Mundial, caracterizado pelo         num sentido mais amplo, e exerceu influncia
crescimento contnuo de grandes corporaes        significativa sobre as polticas econmicas du-
e, alm disso, pela crescente interveno do       rante trs dcadas depois da guerra.
estado na economia e pela introduo do "pla-          As mudanas econmicas foram acompa-
nejamento parcial".                                nhadas por importantes transformaes sociais,
    Essas concepes so importantes na anlise    especialmente na estrutura ocupacional e de
da evoluo mais recente do capitalismo a partir   classe, com o declnio da atividade fabril tradi-
de 1945. Nesse perodo do ps-guerra, a es-        cional, a expanso dos trabalhos de escritrio,
trutura da sociedade capitalista mais uma vez      tcnicos e de servios, e, de maneira mais geral,
mudou de forma significativa, com o novo cres-     o movimento no sentido de uma economia ba-
cimento das corporaes gigantes, cada vez         seada no conhecimento, em que a tecnologia
mais transnacionais em suas operaes, e um        da informao desempenha um papel cada vez
envolvimento ainda maior no estado e na eco-       mais importante (ver INFORMAO, TEORIA E
nomia (particularmente na Europa Ocidental),       TECNOLOGIA DA). Ocorreu tambm uma mudan-
atravs da ampliao dos servios de bem-estar,    a significativa nas atitudes sociais, em compa-
da propriedade pblica de alguns setores da        rao com o perodo do pr-guerra, evidente na
economia e de um papel mais destacado para o       ampla difuso do engajamento nas polticas
planejamento econmico e social, de tal forma      sociais do estado de bem-estar e na propriedade
que os gastos pblicos atingiram novos nveis,     pblica na esfera de servios bsicos de infra-
de cerca de 40% ou at mais em alguns pases,      estrutura, apesar de haver diferenas impor-
do produto interno bruto (PIB). Esse novo tipo     tantes entre pases a esse respeito.
de capitalismo foi conceituado por marxistas-          No obstante, essa experincia intermedi-
leninistas ortodoxos como CAPITALISMO MONO-        ria, ou capitalismo do bem-estar, no parece ter
POLISTA, e posteriormente como "capitalismo        a estabilidade de longo prazo que lhe foi atri-
monopolista de estado", mas a exposio de         buda por alguns tericos sociais nos anos 60 e
Hilferding sobre o "capitalismo organizado"        70. Em primeiro lugar, ainda era predominan-
continua sendo mais esclarecedora, tendo afini-    temente capitalista e, da, sujeito s flutuaes
                                                                       capitalismo monopolista       59


do ciclo econmico, apesar das polticas antic-   ainda, o sucesso a longo prazo do capitalismo
clicas governamentais, como ficou claro com o      na promoo do crescimento econmico teve
comeo de recesso em meados dos anos 70 e,        seu lado sombrio de instabilidade econmica,
depois de uma modesta recuperao, uma re-         injustia social, desemprego e pobreza, de for-
cesso renovada e mais profunda no final dos       ma que, como um sistema social, e no simples-
anos 80. Taxas bem mais baixas de crescimento      mente econmico, ele vem sendo continua-
econmico, desemprego crescente e popula-          mente criticado por pensadores e movimentos
es cada vez mais idosas, ento, criaram pro-     sociais que defendem um tipo alternativo de
blemas fiscais para o estado de bem-estar e        sociedade.
geraram crescentes tenses sociais. Ao mesmo           Deveria ser observado ainda, neste contexto,
tempo, o crescimento econmico em si mesmo,        que o perodo mais bem-sucedido de desenvol-
em alguns de seus aspectos mais importantes,       vimento econmico capitalista, nos anos 50 e
passou a ser mais amplamente questionado em        60, esteve associado a uma grande expanso das
termos de seus efeitos sobre o meio ambiente       atividades econmicas do estado, envolvendo
global, e isso estimulou a discusso de uma        em muitos pases a ampliao da propriedade
"economia alternativa".                            pblica e do planejamento econmico, visando
    Uma resposta aos problemas com que se          mitigar as conseqncias danosas -- tanto eco-
defrontou o capitalismo de bem-estar foi uma       nmicas quanto sociais -- de uma economia de
retomada da economia neoclssica em sua ver-       livre empresa e livre mercado inadequadamente
so austraca (ver ESCOLA AUSTRACA DE ECONO-      regulamentada. A experincia de recesso nos
MIA). A partir desse ponto de vista, o estado de   anos 90 pode, portanto, acabar levando a um
bem-estar  criticado por criar uma "cultura da    abandono dessas polticas econmicas e sociais
dependncia", em contraposio a uma "cultura      associadas  NOVA DIREITA, e a uma retomada de
do empreendimento", e as virtudes e realiza-       polticas mais intervencionistas. Nesse sentido,
es de um tipo de capitalismo mais laissez-       a oposio entre capitalismo e socialismo, que
faire, definido como sistema de livre mercado      foi um ponto central de confronto ideolgico e
e livre empresa (ver EMPRESARIAL, FUNO), so     poltico durante todo o decorrer do sculo XX,
vigorosamente reafirmadas. Em alguns pases,       parece ter probabilidades de persistir. Mas isso
incluindo alguns antigos pases comunistas da      acontecer em novas circunstncias, de com-
Europa Oriental, essas idias tm sido traduzi-    plexidade muito maior, em que os princpios e
das em polticas governamentais de privatiza-      elementos bsicos de um sistema econmico e
o de empresas de propriedade pblica, uma        social alternativo so bem mais difceis de es-
reduo do planejamento da regulamentao e,       pecificar com preciso; e qualquer movimento
na medida do possvel, uma restrio aos gastos    no sentido dessa sociedade alternativa parece
em servios pblicos.                              ter grandes probabilidades de implicar uma mo-
    O desenvolvimento futuro do capitalismo       dificao contnua e gradual do capitalismo, do
incerto. Na medida em que se buscar seguir         tipo que vinha ocorrendo no decorrer do ltimo
polticas neoclssicas da escola austraca, uma    sculo, muito mais que quaisquer mudanas
renovao do crescimento econmico pareceria       abruptas.
depender de uma reviravolta na onda larga, e
                                                   Leitura sugerida: Bottomore, Tom, 1985: Theories of
isso, se seguirmos a anlise de Schumpeter,        Modern Capitalism  Braudel, Fernand, 1967 (1979):
exige uma nova arrancada de inovao, como         Civilization matrielle, conomie et capitalisme (XV-
as que no passado produziram uma "ferroviari-      XVIII)  Maddison, A. 1991: Dynamic Forces in Capi-
zao", uma "motorizao" ou uma "computa-         talist Development  Mandel, Ernest, 1975: Late Ca-
dorizao" do mundo. Mas h poucos indcios,       pitalism  Schumpeter, J.A. 1942 (1987): Capitalism,
no momento, de novas oportunidades empresa-        Socialism and Democracy  Weber, Max, 1923 (1961):
                                                   General Economic History, parte 4.
riais desse tipo, e alm disso existem recentes
restries impostas por preocupaes ambien-                                         TOM BOTTOMORE
tais, bem como problemas resultantes da mu-
dana no poder econmico dos Estados Unidos        capitalismo monopolista Esta expresso
para o Japo e a comunidade europia (liderada     foi usada por Lenin para definir um novo es-
economicamente pela Alemanha) e da cres-           tgio no desenvolvimento do CAPITALISMO no
cente rivalidade entre esses trs centros. Mais    final do sculo XIX, em que a vida econmica
60   carncias


era dominada por grandes corporaes, o capi-      bem-estar, e da regulamentao estatal extensi-
tal bancrio fundira-se com o capital industrial   va em suas diversas formas.
para formar oligarquias financeiras e as prin-
                                                   Leitura sugerida: Baran, Paul e Sweezy, Paul 1966:
cipais naes capitalistas estavam engajadas na    Monopoly Capitalism  Hardach, Gerd e Karras, D.
expanso imperialista. Lenin ficou devendo         1978: A Short History of Socialist Economic Thought
muito ao Capital financeiro (1910) de Hilfer-       Lenin, V.I. 1916 (1964): Imperialism: the Highest
ding para suas concepes bsicas, mas ele as      Stage of Capitalism.
exps no contexto de uma doutrina poltica                                           TOM BOTTOMORE
inteiramente diferente, que encarava as revo-
lues socialistas como resultado da guerra en-    carncias Ver NECESSIDADES.
tre as potncias imperialistas. Mais tarde Lenin
e marxistas-leninistas posteriores elaboraram      carisma A histria dessa palavra, hoje em dia
uma concepo de "capitalismo monopolista de       empregada principalmente para descrever uma
estado" (ver Hardach e Karras, 1978, p.47-50,      qualidade herica ou extraordinria de um in-
63-8) para explicar o crescente envolvimento       divduo isolado,  curiosa e complexa. De ori-
do estado na economia capitalista. Tambm          gens obscuras no antigo uso cristo, em que
essas idias tinham afinidades com a concep-       significava "o dom da graa", carisma  hoje
o tardia de Hilferding de um "capitalismo        uma palavra popular, cheia de apelo tanto para
organizado" (ver Bottomore, 1981, p.14-5),         os jornalistas quanto para os leigos. Suas cono-
mas divergiam profundamente pelo fato de           taes no sculo XX e o debate que ela ocasio-
estarem embutidas em uma ideologia bolche-         nou so inseparveis do pensamento de Max
vique cada vez mais dogmtica e intelectual-       Weber (1864-1920).
mente estril.                                         Weber adaptou a palavra a partir do telogo
    O capitalismo monopolista recebeu um sen-      Rudolph Sohm, que a empregara para inter-
tido diferente, no entanto, no livro de Baran e    pretar o desenvolvimento da antiga igreja cris-
Sweezy (1966), em que se afirmava que novas        t (ver Bendix, 1966, p.325). Ampliado para
"contradies do capitalismo" haviam tomado        abranger fenmenos tanto seculares quanto re-
o lugar das analisadas por Marx. As elevadas       ligiosos, o conceito assumiu papel axial na an-
taxas de crescimento econmico e uma aparen-       lise de Weber da histria e da dominao (ver
temente maior estabilidade do capitalismo no       especialmente Weber, 1904-5 (1930), p.178;
ps-guerra refletiam uma mudana significati-      1951, p.30-42, 119-29; Weber, 1921-2, vol.1,
va no carter da economia capitalista, da com-     p.241-71 e vol.2, p.1.111-57).
petio ao monoplio. Isso resulta em um au-           Na anlise de Weber, carisma indica uma
mento contnuo e uniforme nos lucros das fir-      qualidade excepcional (real ou imaginria) pos-
mas monopolistas, avizinhando-se do "super-       suda por um indivduo isolado, que  capaz a
vit econmico" da sociedade, de acordo com         partir da de exercer influncia e LIDERANA
Baran e Sweezy, que vo mais alm, afirmando       sobre um grupo de admiradores. Os devotos do
que esse crescente supervit econmico leva        lder carismtico encaram como seu dever obe-
necessariamente  estagnao, a no ser que        decer-lhe os ditames, e fazem isso voluntaria-
seja neutralizado de alguma forma (ver Har-        mente e com uma entrega arrebatada. O carisma
dach e Karras, 1978, p.61-3). Mas essa con-         capaz de assumir toda uma variedade de apa-
cepo, como as elaboradas por pensadores          rncias, correspondendo s esferas de sua in-
marxistas-leninistas, na verdade deu pouca         fluncia (militar, poltica, tica, religiosa, arts-
ateno a vrias e importantes influncias neu-    tica), mas em todos os casos sua conseqncia
tralizantes, tais como o desenvolvimento do         afetar de forma impressionante as vidas dos
capitalismo de bem-estar e inmeras mudanas       que ficam sob o seu efeito. O carisma  uma
mais socializantes na economia. No futuro         fora interiormente revolucionria, com o po-
provvel que os tericos sociais se preocupem      der, portanto, de mobilizar o esforo humano
menos com o que  chamado -- geralmente de         e transformar o mundo material empedernido
maneira enganosa -- de "monoplio", e mais         com que ele se defronta. Na terminologia de
com o estudo da estrutura e influncia das gran-   Weber, carisma  uma forma particular de "do-
des corporaes no contexto do capitalismo de      minao" ou autoridade.
                                                                                       carisma    61


    Weber contrasta essa forma de dominao         monarca) ou do cargo (por exemplo, o de pri-
no-ortodoxa, de forte carga emocional e re-        meiro-ministro ou o de presidente).
volucionria, com duas outras: a tradicional            Embora a anlise de Weber do carisma seja
(em que a obedincia se baseia no costume e         amplamente encarada como seminal, ela tam-
na reverncia ao precedente: tpica das socieda-    bm atraiu crticas ou restries. Alguns afirma-
des pr-industriais) e a jurdico-racional (ca-     ram que sua nfase na liderana pessoal carece
racterstica do mundo moderno, onde a confor-       de uma explicao coerente de por que as pes-
midade a regras e procedimentos juridicamente       soas encaram determinada liderana como ins-
estabelecidos e burocraticamente executados        piradora ou instigante, e subestima "o signifi-
a norma, e onde a submisso , tipicamente,         cado social do lder como smbolo, catalisador
devida mais  posio do que  pessoa). Os          e portador de mensagem" (Worsley, 1957,
modos de dominao tradicional e jurdico-ra-       p.293). Pois se o carisma depende do reconhe-
cional so marcadamente diferentes em muitos        cimento social, como Weber insiste em dizer
aspectos. Mesmo assim, ambos compartilham           que acontece, ento a cultura e as sensibilidades
a mesma qualidade tediosa de serem estruturas       dos que vm legitim-lo exigem maior especi-
estveis, rotineiras e relativamente previsveis    ficao (Baehr, 1990). Alm disso, a exposio
da vida do dia-a-dia. O carisma, por outro lado,    de Weber sobre a aura do carisma tende a deix-
 explosivo -- desafia abertamente os modos         lo numa espcie de condio mstica. Em con-
tradicionais, despreza a frieza rgida da legali-   traste, recentes estudos sociolgicos de oratria
dade impessoal -- e, em sua forma pura, vol-       poltica e linguagem corporal (em especial por
vel e efmero.                                      Atkinson, 1984, por exemplo) tm demons-
                                                    trado que o que geralmente passa por carisma
    Quatro aspectos adicionais da discusso de
                                                    , em boa parte, uma tcnica -- uma srie de
Weber so dignos de nota. Primeiro, as quali-       habilidades, prticas e mensagens aprendidas e
dades ticas do lder carismtico so irrele-       orquestradas por polticos.
vantes para o conceito. Seu dinamismo como
                                                        A contribuio do carisma  estabilidade
indivduo  que  crucial. Segundo, o carisma 
                                                    social, diferentemente da revoluo,  outra
um fenmeno contingente. Apesar de tender a         rea que Weber pode ter subestimado (apesar
despertar em certas circunstncias propcias,       de no a ter desprezado: ver a exposio ante-
em especial em condies de agitao, o entu-       rior sobre rotinizao). Shils, por exemplo, es-
siasmo ou a inquietao, no h nenhuma in-         creve a respeito de uma "propenso carismti-
dicao nos textos de Weber de que seu surgi-       ca" que pode ser encontrada em todas as socie-
mento esteja socialmente destinado a ocorrer.       dades, revelada no "temor e reverncia" com
Terceiro, a existncia e a durao do encanto do    que certos objetos so encarados. De acordo
carisma dependem, acima de tudo, da reao          com isso, o carisma no apenas  algo possudo
dos outros. Para manter seu fascnio sobre co-      por lderes exemplares mas pode estar inerente
raes e mentes, o carisma de uma pessoa deve       em "papis, instituies, smbolos e estratos ou
ser continuamente exibido e provado, por            compostos seculares comuns" (Shils, 1965,
exemplo, com milagres (Jesus) ou campanhas          p.200). Objetos e pessoas que a sociedade acre-
militares brilhantes (Napoleo). Quando a de-       dita possurem carisma assim so porque encar-
voo se transforma em indiferena, a mgica        nam os valores essenciais da sociedade e, por-
do carisma se evapora. Finalmente, o carisma,       tanto, se relacionam com as questes extremas
em sua forma pura, s chega a existir de modo       com as quais essa sociedade se preocupa, de
efmero. Devido ao seu carter personalizado,       forma que o carisma diz respeito  necessidade
o carisma enfrenta dificuldades de transmisso      de coerncia social. Assim, nas mos de Shils,
quando, por exemplo, quem o porta morre.            o carisma se transforma em uma fora que  til
Existem vrias solues para esse problema.         na manuteno da ordem social, enquanto We-
Mas em todos os casos o carisma se extingue         ber enfatizava seus atributos revolucionrios.
ou se torna "rotinizado", isto , canalizado em         Mais recentemente cientistas sociais tm
instituies de orientao tradicional ou jurdi-   utilizado o conceito de carisma em inmeras
ca, com isso perdendo sua quintessncia heri-      esferas. Primeiro, e de maneira mais bvia, ele
ca e se tornando, ao contrrio, um atributo,        foi empregado em relao a seitas e cultos
digamos, da hereditariedade (por exemplo, um        religiosos cujos lderes so capazes de atrair
62   casamento


seguidores devotos (por exemplo, Wallis,             atraente o bastante para recrutar um bando de
1982). Segundo, foi usado para descrever e           seguidores que, por sua vez, agiro como emis-
explicar o apelo de muitos lderes polticos         srios da causa ou misso em questo.
(Apter, 1968; Schweitzer, 1984; Willner, 1984).          Ver tambm MESSIANISMO.
Entre estes, encontramos lderes nacionais que
foram capazes de desenvolver uma misso que          Leitura sugerida: Bendix, R. 1971: "Charismatic lea-
                                                     dership". In Scholarship and Partisanship: Essays on
tanto prometia a liberdade do domnio colonial       Max Weber, org. por R. Bendix e G. Roth, p.170-87
quanto superava as implicaes conservadoras          Berger, P.L., 1963: "Charisma and religious innova-
da submisso  autoridade tradicional (Gandhi,       tion: the social location of Israelite prophecy". Ameri-
Nkrumah); lderes revolucionrios marxistas          can Sociological Review 28, 940-50  Conger, J.A. e
(Lenin, Castro); lderes de ditaduras modernas       Kanungo, R.N., orgs. 1988: Charismatic Leadership:
(Hitler, Mussolini); e lderes que alcanaram        the Elusive Factor in Organizational Effectiveness
                                                      Friedland, W.H. 1964: "For a sociological concept of
poder no contexto de democracias modernas (F.
                                                     charisma". Social Forces 43, 18-26  Haley, P. 1980:
D. Roosevelt). Terceiro, existe um uso cres-         "Rudolph Sohm on charisma". Journal of Religion 60,
cente da palavra para descrever alguns lderes       185-97  Lindholm, C. 1990: Charisma  Roth, G.
de organizaes comerciais (ver, por exem-           1979: "Charisma and the counterculture". In Max We-
plo, Conger, 1989), cujos esforos notrios          ber's Vision of History: Ethics and Methods, org. por G.
produzem uma transformao radical no des-           Roth e W. Scluchter, p.119-43  Schram, S.R. 1967:
tino de uma organizao em dificuldades (por         "Mao Tse-tung as a charismastic leader". Asian Survey
                                                     7, 383-4  Spencer, M.E. 1973: "What is charisma?"
exemplo, Iacocca, da Chrysler), ou cuja lide-        British Journal of Sociology 24, 341-54  Tucker, R.C.
rana resulta na fundao de organizaes            1968: "The theory of charismatic leadership". Daedalus
novas e vitais (por exemplo, Burr, da People         97, 731-56  Weber, Max 1921-2 (1978): Economy and
Express).                                            Society, org. por G. Roth e C. Wittich (ed. em 2 vols.)
                                                      Willner, A.R. 1984: The Spellbinders: Charismatic
   Apesar de ser atraente tentar identificar tipos
de carisma, essas tentativas correm o risco de       Political Leadership.
gerar listas excessivamente longas: Schweitzer                             ALAN BRYMAN e PETER BAEHR
(1984), por exemplo, cataloga mais de 50 tipos!
Duas dicotomias bsicas, porm, tendem a ser         casamento O casamento  encarado como a
empregadas com alguma freqncia na litera-          ligao socialmente aprovada de um homem e
tura especializada. Primeiro, existe a diferen-      uma mulher para fins de comunho sexual,
ciao entre carisma original e rotinizado. Nes-     procriao e colaborao econmica. Porm,
se ponto, pesquisas mostram que lderes caris-       curiosamente, a orientao do pensamento so-
mticos s vezes desenvolvem estratgias ela-        cial do sculo XX tem sido documentar e es-
boradas para resistir s incurses da rotiniza-      timular a disjuno dessas funes da institui-
o, como no caso de David "Mo" Berg e os            o matrimonial, o que pe em questo a utili-
Filhos de Deus (Wallis, 1982). Por outro lado,       dade futura da palavra.
a rotinizao nem sempre tem sucesso: assim,             Os pontos de vista tradicionais, evidente-
o estudo realizado por Trice e Beyer (1986)          mente, tm continuado em vigor. No Ocidente,
sobre duas organizaes dedicadas ao alcoolis-       a afirmao religiosa do casamento como or-
mo mostra como a rotinizao do carisma do           dem divina encontrou seu paladino mais forte
fundador pode ser frustrada por estruturas ina-      no papado catlico romano. A encclica Casti
dequadas ou por acontecimentos inesperados.          Connubii (1933), de Pio XI, reafirmava a natu-
   Uma segunda distino, s vezes proposta,         reza sacramental e irrevogvel do matrimnio,
 entre carisma real e fabricado (ou pseudoca-       enfatizava seu monoplio sexual, celebrava a
risma). Isso destaca o contraste entre o apelo       funo procriativa como uma colaborao com
legtimo de um indivduo verdadeiramente ca-         Deus e defendia a economia domstica.
rismtico e a encenao e o trabalho de mdia            Correntes filosficas de influncia bem
que geralmente penetram na gerao do caris-         maior, contudo, tomavam um rumo diferente.
ma moderno (Bensman e Givant, 1975). Com             A redefinio bsica do matrimnio, dada
plausibilidade, porm, essa distino  ela pr-     por John Locke, como "um pacto voluntrio"
pria problemtica, pois deixa de reconhecer que      (1812, vol.5, p.383-5), necessrio somente na
todo carisma , em certo sentido, fabricado, isto    medida em que crianas pequenas precisavam
, depende da apresentao de uma imagem             de proteo, surgiu no final do sculo XVII.
                                                                                            casta   63


Duzentos anos depois essa mudana de uma           concentrou-se na perda de funes da famlia,
compreenso espiritual para uma compreenso        na medida em que tarefas isoladas, como co-
contratual do matrimnio ganhava um mpeto         operao econmica e criao de filhos, passas-
vigoroso. Ao mesmo tempo tericos marxistas        sem para entidades profissionais. Em meados
colocavam o matrimnio no contexto da luta de      do sculo, Talcott Parsons (1951) deu uma in-
classes, enquanto as primeiras feministas enfa-    terpretao positiva a essa mudana, enfatizan-
tizavam a explorao das mulheres inerente a       do a nova importncia do casamento no ajus-
essa instituio (ver FEMINISMO).                  tamento da personalidade adulta. Nos anos 70
    A abordagem crtica das funes especficas    o ressurgimento das idias feministas levou
do matrimnio ganhou fora particular depois       muitos socilogos a verem um casamento pu-
de 1900. Ellis questionou o monoplio sexual       ramente igualitrio como o modelo para o futu-
pretendido pelo casamento legal (1912, p.53-       ro (Bernard, 1972).
66), o que mais tarde ganharia credibilidade           Observadores recentes, porm, apontam que
estatstica atravs dos trabalhos de Kinsey        o matrimnio pode estar desaparecendo, em
(Kinsey, Pomeroy e Martin, 1948) e de Masters      vez de meramente mudando, nas sociedades
e Johnson (1982, p.249). Key afirmava que o        avanadas. Observando particularmente a Su-
fator econmico no matrimnio havia degra-         cia, Poponoe (1988, p.188-94) registra uma
dado as mulheres (1911, p.367-8). Mesmo            reduzida propenso ao matrimnio, seu adia-
no casamento, homens e mulheres deveriam           mento para uma idade mais avanada, um vo-
ser economicamente independentes, e todas as       lume menor de vidas individuais passadas den-
mes recentes deveriam receber apoio do es-        tro dos laos do matrimnio, uma durao me-
tado, em vez dos maridos. Ao mesmo tempo o         nor dos matrimnios e uma crescente prefern-
monoplio criativo do matrimnio enfrentou         cia por tipos alternativos de unio sexual.
uma crtica crescente por sua cruel categoriza-        Ver tambm FAMLIA; DIVRCIO.
o dos filhos. A legislao reformada da nova
Unio Sovitica estabeleceu o modelo, ao eli-      Leitura sugerida: Key, E., 1911 (1949): Love and
                                                   Marriage  Murdock, G.P. 1949: Social Structure 
minar as distines legais entre nascimentos       Parsons, T. 1951: The Social System  Poponoe, D.
legtimos e ilegtimos.                            1988: Disturbing the Nest: Family Change and Decline
    Ironicamente, enquanto o casamento en-         in Modern Societies  Westermarck, E. 1936: The Fu-
frentava essa forma de desestruturao, os an-     ture of Marriage in Western Civilization.
troplogos modernos afirmavam a universali-                                        ALLAN C. CARLSON
dade da instituio. Em seu levantamento cul-
tural comparado, Murdock definiu o matrim-        casta Esta palavra indica um grupo heredit-
nio como existindo apenas quando o econmi-        rio, endgamo, associado a uma ocupao tra-
co e o sexual esto unidos em uma relao          dicional e classificado, de acordo com isso,
(1949, p.7-8), e em seguida afirmou encontrar      segundo uma escala de pureza ritual. Apesar de
essa instituio "em toda sociedade humana         mudanas e muitas crticas, a casta sobrevive
conhecida". Igualmente universal, disse ele, era   como estrutura e ideologia no sculo XX.
"uma diviso do trabalho por sexo", enraiza-           Foram os portugueses que usaram a palavra,
da nas diferenas naturais e indiscutveis nas     derivada do latim castus (puro), para se referir
funes reprodutoras. Malinowski reconheceu        s diferentes comunidades que encontraram na
as foras que interferiam na unio matrimonial,    ndia. Apesar de a ESTRATIFICAO SOCIAL ser
mas concluiu haver "algo maior no casamen-         um fenmeno humano universal e de a palavra
to humano" enraizado "nas necessidades mais        "casta" ser usada livremente para grupos de
profundas da natureza e da sociedade humanas"      pessoas em outras partes, este verbete concen-
(Briffault e Malinowski, 1956, p.27-8).            tra-se em casta no contexto do hindusmo no
    Os socilogos, por sua vez, projetaram a       Sul da sia -- particularmente na ndia -- e
evoluo de novos padres matrimoniais. Wes-       na dispora de comunidades hindus por todo
termarck encarava o casamento como um ins-         o mundo (ver tambm HINDUSMO E TEORIA SO-
tinto humano formado pela seleo natural          CIAL HINDU).
(1936, p.20). J no mais necessrio no am-            No discurso acadmico sobre comunidades
biente moderno, o casamento sobreviveria ape-      sul-asiticas, casta significa "jati" (palavra
nas como impulso individual. Groves (1928)         com a mesma raiz de nascimento), um grupo
64   casta


hereditrio endogmico. Cada jati consiste em       trabalho. Aspectos dessa interdependncia ain-
linhagens exgamicas (gotra). Regras matri-         da sobrevivem, como quando um brahmin exe-
moniais complexas determinam em que gotras          cuta um ritual e recebe roupas ou outros pre-
uma pessoa em particular pode ser aceita em         sentes dos que o empregam. Em cada aldeia,
casamento.                                          uma ou mais castas exercem o poder sobre as
    O nmero total de jatis chega aos milhares,     outras. O poder econmico no tem obrigato-
e cada regio da ndia tem sua hierarquia es-       riamente que corresponder a uma varna eleva-
pecfica. No obstante, os hindus classificam       da.
seu prprio jati e o de outras pessoas de acordo        O sistema de castas  orgnico e est cons-
com uma escala de quatro varnas (classes),          tantemente se adaptando a circunstncias cam-
reconhecida em todo o mundo hindu. H com           biantes. Antroplogos do sculo XX tm con-
freqncia uma discrepncia entre a varna a que     ceitualizado de vrias maneiras os processos
membros de um jati alegam pertencer e a varna       subjacentes. M.N. Srinivas (1967) postulou a
inferior que outros lhes imputam.                   sanscritizao, processo por meio do qual mem-
    As quatro classes so, respectivamente, as      bros de uma casta inferior trocam seus cos-
varnas brahmin, kshatriya, vaishya e shudra.        tumes, rituais, ideologia e modo de vida, na
No Rig Veda, texto sagrado composto por volta       direo de uma casta mais elevada (por exem-
de 1000 a.C., Purusha, a entidade csmica, uma      plo, adotando uma dieta rigorosamente vegeta-
imagem da sociedade,  desmembrado. Sua             riana, adequada aos brahmins). Recusando-se a
boca  relacionada ao brahmin (sacerdote), seus     dar as filhas em casamento a famlias que no
braos ao kshatriya (guerreiro), suas coxas ao      se adaptaram dessa forma, criam na realidade
vaishya (comerciante) e seus ps ao shudra          um novo jati. A palavra kshatriyzao refere-se
(servo ou lacaio). Os membros das trs primei-      a uma emulao de riqueza e status, mais do que
ras classes so encarados como nascidos duas        a pureza ritual. Durante o sculo XX as castas
vezes, pois que sua investidura com o cordo        menos privilegiadas tenderam a lutar pelo po-
sagrado significa renascer dentro da sociedade      der e pela riqueza atravs da educao. Mobili-
hindu. No Cdigo de Manu (Manu-smriti ou            zaram-se tambm como movimentos religio-
Manava dharma shastra), de aproximadamente          sos, dando um novo significado aos mitos e
2 mil anos, o comportamento permitido para          smbolos antigos e construindo o auto-respeito
cada varna  claramente definido, bem como as       (Juergensmeyer, 1982).
penalidades para os desvios.                            Entre no-hindus de origem sul-asitica, as
    No Bhagavad Gita, escritura preferida dos       castas geralmente persistem como um fator na
hindus, Krishna, a encarnao de Vishnu (di-        interao social, mesmo quando os mestres re-
vindade de primeira importncia), exorta o          ligiosos de uma comunidade investem contra
prncipe relutante, Arjun, a combater porque        elas. Assim, por exemplo, os cristos locais
esse  o seu dharma (dever sagrado) como            podem prestar culto em congregaes distintas
kshatriya.                                          que por acaso tm respectivamente uma origem
    No decorrer de muitos sculos cada jati         de casta elevada e inferior. Os sikhs continua-
desenvolveu um cdigo tcito de prticas. Os        ram a se casar dentro da casta, apesar de seus
membros no devem casar-se nem se sentar            gurus enfatizarem a igualdade de todos e a
para comer com membros de outro jati, apesar        irrelevncia da casta de uma pessoa para a
de ambas as regras, particularmente a ltima,       reunio da alma com Deus.
terem sido consideravelmente relaxadas em al-           Com a educao em estilo ocidental e a
guns contextos. Detalhes de costumes doms-         crescente mobilidade social e industrializao,
ticos e cerimnias religiosas distinguem um jati    o elo entre ocupao hereditria e jati viu-se
de outro na mesma localidade.                       enfraquecido no sculo XX, apesar da associa-
    Na sociedade alde tradicional, antes do pre-   o persistir nas mentes das pessoas. Trabalhar
domnio do dinheiro como meio de troca, os          como piloto, professor ou programador de com-
membros de todas as castas forneciam aos outros     putao no faz com que um indivduo consiga
aldees os servios especficos de cada casta,      alterar ou fugir s conotaes do seu jati.
numa base de reciprocidade. Esse sistema  co-          Algumas ocupaes shudra, tais como a
nhecido como jaimani. As castas mais baixas na      coleta de excrementos ou o curtume do couro,
escala de pureza recebiam menos em troca de seu     eram encaradas como altamente contaminveis
                                                                                            casta   65


para todo aquele com o qual membros desses          zao e a industrializao fizeram com que
jatis entrassem em contato. Como resultado,         membros de diferentes castas entrassem em
esses jatis eram segregados do resto da socie-      contato como nunca acontecera antes. Esse de-
dade. Alm das proibies relativas ao casa-        senrolar dos fatos, somados ao saneamento mo-
mento e s refeies, eram tambm proibidos         derno e ao fornecimento de gua encanada,
de entrar em muitas escolas e templos, e at de     beneficiou as Castas Ordenadas, com a remo-
pegar gua na mesma fonte que os demais.            o de algumas causas de bvia discriminao.
Viviam, como muitos ainda vivem, fora da            Alguns membros das castas inferiores se torna-
aldeia. Se a sombra de um "intocvel" pousasse      ram ricos ou chegaram a altos cargos. No
sobre um brahmin, este tinha de voltar para casa    obstante, o sistema de castas no foi substitudo
a fim de se purificar.                              por um sistema de classes do tipo ocidental. O
    Em grande parte devido  degradao dos         que acontece  uma interao de aspectos de
intocveis, os reformadores dos sculos XIX e       ambos os sistemas. O sistema poltico democr-
XX atacaram as iniqidades do sistema de cas-       tico permite que a casta exera uma influncia
tas. Swami Dayananda Saraswati (1824-83)            poderosa. Os candidatos jogam com as sensibi-
pregava que, segundo o Veda, a sociedade devia      lidades de casta para obterem apoio. Muitos
ser dividida, no em inmeras castas, mas em        polticos dependem das castas que funcionam
quatro varnas, nas quais a participao depen-      como currais eleitorais.
deria mais do mrito que de nascimento.                 A casta sobrevive em comunidades hindus
Mohandas Karamchand Ghandi (Mahatma                 fora da ndia, apesar de a histria de sociedades
Gandhi, 1869-1948) valorizava alguns aspectos       especficas ter dado a cada uma um carter
do sistema de castas para a construo de uma       peculiar. Em Bali, Indonsia, sobrevive uma
sociedade harmoniosa, mas defendia apaixona-        diferena entre a maioria shudra e as classes
damente o ponto de vista de que "a intocabili-
                                                    brahmin, kshatriya e vaishya. As comunidades
dade no  uma sano da religio,  uma
                                                    hindus de Fiji, ilhas Maurcio, Trinidad e Su-
inveno de Sat" (Gandhi, 1951). As vtimas
                                                    riname remontam a meados do sculo XIX,
da discriminao de castas hoje encaram a abor-
dagem de Gandhi como paternalista. Rejeitam         quando trabalhadores contratados como colo-
a expresso "harijans" (filhos de Deus), que        nos chegaram com poucas esperanas de voltar
ele popularizou, preferindo o uso de "Castas         ndia. Nesses pases, as diferenas de casta em
ordenadas" -- na ndia, designao oficial          grande parte desapareceram, exceto pelo fato de
desde 1935 -- e "dalit" (oprimidos). Seu heri      apenas os brahmins exercerem funes sacer-
 o Babasaheb Ambedkar (1891-1956), o advo-         dotais. No Leste da frica, porm, onde os
gado que emergiu de uma famlia de intocveis       colonos chegaram da ndia no incio do sculo
para criar a constituio da ndia. Esta foi pro-   XX, o contato com aquele pas foi mantido, as
mulgada em 1950 e no reconhece castas, ape-        castas permaneceram endogmicas e se estabe-
nas cidados iguais. Ambedkar afirmava que a        leceram associaes de casta.
casta era uma ideologia que s poderia ser              Na Gr-Bretanha, os casamentos hindus e
abolida se as sanes religiosas hindus em seu      sikhs ainda so celebrados geralmente entre
favor fossem retiradas. Exortou seus seguidores     membros da mesma casta. Muitos locais de
a trocarem o hindusmo pelo budismo.                cultos pblicos so dirigidos por membros de
    Existem atualmente na ndia cerca de 120        castas particulares, como os gurdwaras Ram-
milhes de pessoas (1/7 da populao) que           garthia, Bhatra e Ravidasi (locais de culto sikh).
carregam o estigma da intocabilidade. Apesar        Hindus de origem gujatari tm organizaes de
da legislao, especialmente a Lei sobre a Into-    casta que organizam eventos sociais e religio-
cabilidade (Crimes de), de 1955, bem como de        sos, especialmente durante o Festival de Nava-
polticas de discriminao positiva na educao     ratri.
e na reserva de certos empregos, o preconceito
existe. De fato, com a implementao dessas         Leitura sugerida: Dumont, L. 1970: Homo hierarchi-
                                                    cus  Juergensmeyer, M. 1982: Religion as Social Vi-
polticas, a tolerncia das castas mais elevadas    sion  Mahar, J.M., org. 1972: The Untouchables in
s vezes se transforma em rgida hostilidade.       Contemporary India  Nesbitt, E.M. 1991: `My Dad's
    Tal como o advento do trem no sculo XIX,       Hindu, My Mum's Side are Sikhs': Issues in Religion
o crescente acesso  educao, a rpida urbani-     Identity  Schwartz, B.M., org. 1967: Caste in Over-
66   causalidade

seas Indian Communities  Srinivas, M.N. 1962: Caste   to uma condio suficiente  a que quando
in Modern India.                                      ocorre, o evento ocorre tambm. Isso permite
                             ELEANOR M. NESBITT       levar em conta algumas complicaes: por
                                                      exemplo, que um efeito possa estar ligado a
causalidade Nas palavras memorveis de                uma conjuno de causas ou a diferentes causas
Hume, a causalidade  "o cimento do universo",        independentes, e s possa ocorrer se certas cau-
a relao pela qual um evento se liga a outro,        sas contrapostas estiverem ausentes. Essas
um tipo de ocorrncia provoca outro.  uma            complicaes so reunidas em conjunes
noo que desempenha um papel central em              constantes da frmula "todos LMN ou PQR ou
nossas explicaes do mundo que nos cerca (ver        STW so seguidos pelo evento E", em que N
EXPLICAO), por exemplo, quando responde-            simboliza a ausncia de uma condio de tipo
mos a perguntas com "por qu?" atravs de             N e em que cada letra representa uma condio
frases que comeam com "por causa de...",             "inos" para E, ou seja, uma parte insuficiente,
identificando os antecedentes em virtude dos          mas no-redundante de uma condio conjunta
quais a coisa a ser explicada ocorreu.                (p. ex., LMN) que  em si mesma no ne-
    O conceito de causalidade, porm, mostrou-        cessria, porm suficiente, para o resultado E
se difcil de analisar. O problema  como com-        (Mackie, 1965). Um exemplo  uma teoria da
preender o cimento que liga causa a efeito, a         revoluo que combina idias do marxismo e
necessidade com a qual pensamos nos efeitos           da teoria da privao relativa e afirma que a
seguindo-se a suas causas. As explicaes do          atividade revolucionria (E) segue-se ou a partir
sculo XX geralmente comeam com a anlise            da ocorrncia conjunta da polarizao da socie-
empirista de Hume. (EMPIRISMO  a idia de que        dade capitalista em duas classes, a burguesia e
todo o conhecimento deve basear-se na expe-           o proletariado (L), o empobrecimento do prole-
rincia.) Segundo Hume, as conexes causais           tariado (M) e a ausncia de falsa conscincia
no so necessrias no sentido de serem re-           proletria (N), ou da ocorrncia conjunta da
laes lgicas, pois, afirma ele com base em seu      diviso da sociedade numa hierarquia de grupos
empirismo, a descrio de um evento no acar-         (P), da conformidade dos membros de um gru-
reta (no necessita logicamente) a ocorrncia de      po s normas de outro grupo mais superior (Q)
quaisquer outros eventos. Nem a ligao de um         e da ausncia de caminhos legtimos de ascen-
efeito a sua causa  uma relao que exista no        so do grupo inferior para o superior (R). Outras
mundo, pois no temos nenhuma experincia             teorias da revoluo podem ser acrescentadas,
de elo assim necessrio entre um evento (uma          como conjuntos extras de condies inos (p.
causa) e outro (seu efeito), mas apenas dos dois      ex., STW).
eventos em si mesmos. Conseqentemente, do                At mesmo essa verso elaborada da verso
ponto de vista de Hume, ainda que possamos,           humeana parece sofrer, como as verses mais
atravs do hbito, vir a pensar em causalidade        simples, do problema de no conseguir dis-
como trazendo em si necessidade, no mundo as          tinguir regularidades causais daquilo que os
conexes causais no so mais que conjunes          filsofos chamam de generalizaes acidentais,
constantes de eventos contguos e consecuti-          e que os pesquisadores sociais chamam de re-
vos, porm lgica e materialmente indepen-            laes esprias ou co-sintomticas. Alguns
dentes. Como hoje em dia em geral aceita-se           exemplos so o dia seguindo-se  noite e o nvel
que causas podem agir a distncia, e que causas       dos prejuzos aumentando com o nmero de
e efeitos podem ocorrer simultaneamente, o que        bombeiros que combatem um incndio, que so
resta do ponto de vista humano  que a causali-       conjunes constantes, mas sem o cimento da
dade est incorporada em regularidades que            causalidade conectando a ocorrncia antece-
expressam conjunes constantes entre tipos de        dente  conseqente. Os humeanos buscaram
eventos.                                              resolver esse problema acrescentando critrios
    A noo de conjuno constante pode ser           lgicos ou epistemolgicos para diferenciar leis
elaborada em termos de condies necessrias          causais de generalizaes acidentais, mas os
e suficientes. (Trata-se aqui de um sentido de        crticos continuam afirmando que nenhuma
necessrio diverso do acima apresentado.) Uma         dessas tentativas funciona. As dificuldades para
condio necessria para um evento  a que            se produzir uma adequada anlise humeana da
sempre ocorre quando o evento ocorre, enquan-         causalidade levaram alguns filsofos empiris-
                                                                                          cesarismo     67


tas a apontar que a causalidade no tem lugar        Causal Powers: a Theory of Natural Necessity  Hu-
nas cincias maduras (Russell, 1917).                me, D. 1748 (1975): An Enquiry Concerning Human
                                                     Understanding, org. por L.A. Selby Bigge  Mackie,
    As anlises no-humeanas da causalidade          J.L. 1974: The Clement of the Universe  Sosa, E., org.
vo alm das restries do empirismo. Uma das        1975: Causation and Conditionals  Wright, G.H. von
mais interessantes, o ponto de vista realista,       1971: Explanation and Understanding.
afirma que a necessidade que caracteriza a cau-                                       PETER HALFPENNY
salidade  a necessidade fsica (ver REALISMO).
Os acontecimentos de causa e efeito no so          cesarismo Palavra que indica uma forma de
independentes, como insistem os humeanos,            ditadura livremente modelada pela carreira de
mas intrinsecamente relacionados. As causas          Caio Jlio Cesar (100-44 a.C.), general e auto-
tm o poder de provocar seus efeitos, existindo      crata populista que tomou o poder da oligar-
uma relao real entre ambos, um mecanismo           quia senatorial romana em 49 a.C. e cujo re-
gerador ligando fisicamente causa a efeito, ain-     gime acelerou a queda da repblica romana.
da que essa ligao esteja, em geral, acima da       No obstante, essa definio exige uma imedia-
nossa experincia. De acordo com esse ponto          ta restrio. Pois no  s o caso de a palavra ter
de vista, a conjuno constante poderia ser pro-     sido empregada para incluir figuras que antece-
va de uma conexo causal, mas no lhe exaure         dem Caio Jlio -- como os atenienses Pisstrato
o significado, que deriva do mecanismo natural       (c.600-527 a.C.) e Pricles (c.495-429 a.C.) e o
conectando causa e efeito. De fato, conexes         espartano Cleomenes III (c.260-219 a.C.) (Neu-
causais reais podem no se manifestar como           mann, 1957, p.237-8; Weber, 1921-22). H
regularidades, pois causas contrapostas podem        tambm o fato de Augusto Cesar (63 a.C.-14
intervir entre a operao de uma causa e o           d.C.), e no Caio Jlio, s vezes ser dado como
surgimento de seu efeito. Por exemplo, apertar       o modelo de cesarismo (Riencourt, 1958). Alm
um interruptor de luz pode no ter o efeito de       disso, apesar de muitas utilizaes no sculo
iluminar o aposento, caso um fusvel queime e        XX buscarem analogia com a Roma antiga,
impea a lmpada de brilhar. Nessa ocasio a         outras no o fazem, de forma que hoje em dia,
falha -- a refutao de uma conjuno cons-          cesarismo  um conceito mergulhado na mais
tante -- no nos leva a rejeitar como causal a       profunda confuso.
conexo real entre apertar o interruptor e a             Cunhada provavelmente por J.F. Bhmer
lmpada acender-se atravs do mecanismo sub-         em 1845 (Bhmer, 1868, p.277-9), a palavra
jacente de um fluxo de corrente eltrica. A          recebeu seu primeiro tratamento sistemtico
dificuldade com essa viso realista  que, tendo     por parte do francs A. Romieu (1850). A partir
violado o empirismo humeano, ao afirmar a            da cesarismo se tornou uma palavra ampla-
existncia de mecanismos imputados e foras          mente empregada em crculos cultos europeus
invisveis acima do controle epistemolgico da       -- particularmente na Frana e na Alemanha --
experincia, que restries se exercem sobre os      para descrever o regime de Napoleo III (de
mecanismos que possam ser invocadas como             1851 a 1870) e suas implicaes para a poltica
explicaes causais? Se devemos admitir a            moderna (Momigliano, 1956, 1962; Groh,
existncia de vrus, por que no demnios ou         1972; Richter, 1981, 1982; Gollwitzer, 1987).
feitios?                                            Em 1920 j no estava mais em uso popular,
    Dada a existncia de problemas com todas         sobrevivendo apenas como ferramenta de an-
as tentativas de se analisar a causalidade, alguns   lise acadmica.
afirmaram tratar-se de um primitivo no anali-           Falando em termos gerais, existem trs cam-
svel (Anscombe, 1971). Ainda que fosse pos-         pos claros no pensamento do sculo XX sobre
svel chegar a uma anlise satisfatria da cau-      o tema. O primeiro d continuidade  tradio
                                                     de ligar explicitamente o cesarismo ao BONA-
salidade no mundo natural, continua a haver
                                                     PARTISMO de Napoleo III, e tambm de Napo-
questes sobre seu lugar no mundo social: ser
                                                     leo I. Nesse caso, o cesarismo  descrito como
que as aes humanas so causadas e, se o
                                                     uma forma de liderana altamente personaliza-
forem, que o livre-arbtrio  uma iluso? (Ver
                                                     da e militarista, nascida da ilegalidade (tal como
DETERMINISMO.)
                                                     um golpe de estado), caracterizada por uma
Leitura sugerida: Davidson, D. 1980: Essays on Ac-   retrica populista (o lder alega encarnar e de-
tions and Events  Harr, R. e Madden, E.H. 1975:     fender "o povo" en bloc, contra o interesse
68   Chicago, escola econmica de


estreito e divisor de elites ou classes), que des-   que serviu de inspirao para o nome (ver Gel-
preza as instituies polticas representativas      zer, 1969). Muito plausivelmente, apenas os
estabelecidas (o autocrata cesarista governa por     aspectos militares e populistas atribudos ao
imposio, empregando medidas policiais para         cesarismo so convincentes em termos histri-
reprimir a oposio) e  legitimado por apelos       cos. Pois Jlio Cesar tanto foi um estrategista
diretos s massas, atravs do recurso dos ple-       brilhante (e um comandante de batalhas alta-
biscitos. Esse tipo de utilizao pode ser encon-    mente inspirador) como tambm foi chamado
trado, com modificaes, em Thody (1989) e           por seus contemporneos de classe, em tom
Namier (1958), em que o panteo cesarista se         derrisrio, de um popularis, isto , um demago-
amplia para incluir figuras como Ptain e de         go, ou paladino do povo (Croix, 1981, p.352-5,
Gaulle, Mussolini e Hitler.                          362; Taylor, 1949, p.15; cf. Ccero, Pro Sestio
    Em contraste, o segundo campo de pensa-          e In Vatinium, traduo de Gardner, 1958,
mento sobre o cesarismo desenvolve a noo de        p.167-79).
forma muito mais arbitrria e com apenas a
                                                     Leitura sugerida: Baehr, P. 1987: "Accounting for
referncia mais superficial possvel aos dois        Caesarism". Economy and Society 16, 341-56  Brant-
Napolees. Assim, cesarismo  a palavra em-          linger, P. 1983: Bread and Circuses: Theories of Mass
pregada para designar: as manipulaes eleito-       Culture as Social Decay  Mosse, George L. 1971:
rais, a impressionante envergadura e a "ilegiti-     "Caesarism, circuses and monuments". Journal of
midade" de Bismarck (Weber, 1921-2; Baehr,           Contemporary History 6, 167-82  Thody, P. 1989:
1988); a natureza da poltica britnica moderna,     French Caesarism: from Napoleon I to Charles de
                                                     Gaulle  Yavetz, Z. 1983: Julius Caesar and his Public
de dominao por um lder (Ostrogorski, 1902,        Image.
p.607-8; Tnnies, 1917, p.49-53; Weber, "Poli-
tics as a vocation", in Weber, Gerth e Mills,                                              PETER BAEHR
orgs., 1970, p.106-7, e 1978, p.1452); um retor-
no cclico  "ausncia de forma" e ao "primiti-      Chicago, escola econmica de Ver ESCOLA
vismo" (Spengler, 1918-22, vol.1); um tipo teo-      ECONMICA DE CHICAGO.
crtico-militarista de "despotismo oriental",        Chicago, escola sociolgica de Ver ESCOLA
exemplificado pelo imprio de Diocleciano so-        SOCIOLGICA DE CHICAGO.
bre os romanos (Gerth e Mills, 1954, p.210);
uma DITADURA "populista" ou "democrtica",           ciclo econmico Como flutuaes recorren-
comparvel ao, ou manifestada no, peronismo          tes na atividade econmica de economias in-
na Amrica do Sul, entre outros regimes (res-        dustriais, os ciclos econmicos podem ser ob-
pectivamente, Canovan, 1081, p.137, Neumann,         servados estatisticamente quando se examina o
1957, p.236-43); o acrscimo de poder evidente       registro histrico do desempenho econmico
no sistema presidencial norte-americano (Rien-       geral de uma nao -- digamos, as estatsticas
court, 1958).                                        anuais do produto interno bruto corrigidas de
    Finalmente, existe uma utilizao do termo       acordo com as mudanas nos preos (PIB real).
cesarismo que tanto se vale do exemplo napo-         Caracteristicamente, o que surge  um padro
lenico quanto tambm dele diverge de modos          de crescimento a longo prazo, marcado por
fundamentais. De provenincia marxista, essa         alternncias de expanso e contrao. Essas al-
posio relaciona o cesarismo ao bonapartismo        ternncias recorrentes, acima e abaixo da ten-
(Gramsci, 1929-35, p.215, 219); faz distino        dncia de longo prazo, so os ciclos econmi-
entre cesarismo "progressista" e "reacionrio",      cos. A palavra ciclo sugere padres de tempo
dependendo de ele ajudar ou entravar a luta de       fixo e talvez at simtricos, mas os economistas
classe revolucionria (Gramsci, p.219); e amplia     h muito rejeitaram essa idia. Apesar de alguns
a noo para descrever a coaliso, as alianas       economistas atualmente preferirem descrever
polticas centristas ou os governos cuja presena    esses fenmenos como "flutuaes econmi-
marca um estgio intermedirio entre uma crise       cas", a expresso ciclo econmico continua em
social e sua soluo (Gramsci, p.220; Hall, 1983,    uso corrente.
p.309-21; Schwartz, 1985, p.33-62).                      Os movimentos cclicos numa economia di-
    Na maioria das utilizaes acadmicas,          fundem-se de forma abrangente. Quando o PIB
preciso que se diga, o "cesarismo" tem pouca         real aumenta (ou diminui), o mesmo acontece
semelhana com a carreira e a biografia daquele      com o emprego, a renda real, os lucros e outros
                                                                             ciclo econmico   69


aspectos amplos de atividade. Relativamente        pecialistas em ciclo econmico, no final dos
poucas indstrias divergem do padro geral,        anos 60, produziu um volume intitulado Is the
apesar de as indstrias que produzem bens du-      Business Cycle Obsolete? (O ciclo econmico
rveis estarem sujeitas a flutuaes maiores que   est obsoleto?, Bronfenbrenner, 1969). A maior
a mdia. Alm disso, os movimentos, primeiro       parte dos economistas no achava que estives-
em uma direo, depois em outra, tendem a          se, mas quaisquer dvidas sobre se o ciclo
persistir por perodos extensos de tempo -- ao     poderia ter desaparecido foi desfeita nos anos
contrrio das flutuaes sazonais, por exemplo,    70 e 80, que testemunharam graves quedas
que ocorrem dentro do mbito de um ano. No         econmicas e taxas elevadas tanto de desem-
jargo do ciclo econmico, a atividade cres-       prego quanto de inflao. Os anos 70 tambm
cente ou a expanso culmina em um auge, ou         assistiram ao surgimento de novos desenvolvi-
pico e em seguida d lugar a uma recesso          mentos tericos e a um renovado interesse por
(tambm chamada de queda ou contrao), cujo       parte dos economistas no ciclo econmico, in-
ponto extremo  chamado de baixa. A isso           teresse que persistiu durante todos os anos 80.
segue-se a retomada, ou recuperao, que  a           Na busca de causas para o ciclo econmico,
fase inicial da expanso. Nos Estados Unidos,      os economistas estabeleceram uma distino
o meio sculo a partir de 1949 testemunhou oito    entre fatores externos ao sistema econmico e
expanses, variando em durao de um ano a         fatores que estavam no seu interior. Guerras,
cerca de nove, com durao mdia de cerca 3-5      invenes de grande importncia ou mudanas
anos. As retraes, muito menos variveis, ti-     nas polticas monetria e fiscal dos governos
veram uma mdia de pouco menos de um ano.          so exemplos de causas externas que foram
Tanto as expanses quanto as retraes de-         chamadas, variadamente, de "distrbios",
monstraram grande variao de intensidade. A       "choques", "impulsos" ou fatores "exgenos".
Grande Depresso dos anos 30 exerceu um            So diferentes do funcionamento interno da
efeito profundo sobre a posterior poltica eco-    economia em si mesma e de sua tendncia 
nmica dos governos, mas sua severidade e          flutuao por perodos extensos. Estes ltimos
durao foram nicas nos registros dos ciclos      so fatores "endgenos", mais do que "exge-
econmicos do sculo XX (ver tambm DEPRES-        nos", ou "mecanismos de propagao", diferen-
SO ECONMICA).                                    temente de choques, distrbios ou impulsos.
    As teorias do ciclo econmico tm sido         Alguns autores reconheceram essas diferenas
abundantes, embora o interesse por parte dos       antes da Segunda Guerra Mundial, mas geral-
economistas tenha estado sujeito aos seus altos    mente davam maior nfase ao funcionamento
e baixos. O interesse nos anos 20, estimulado      do sistema econmico em si mesmo, isto , 
pelos problemas econmicos da Gr-Bretanha,        tendncia da economia para a instabilidade,
foi grandemente intensificado na dcada se-        mesmo na ausncia de distrbios externos.
guinte devido  Grande Depresso. A General            Em seu famoso estudo de 1937 para a Liga
Theory of Employment, Interest and Money           das Naes, Prosperity and Depression, a an-
(1936), de Keynes, no se ocupava basicamente      lise de Gottfried Haberler das modernas teorias
do cerne tradicional da teoria do ciclo econmi-   do ciclo econmico levaram-no a agrup-las em
co -- explicar as flutuaes decorrentes na        vrias classes amplas, embora ele observasse
atividade econmica geral --, mas, no muito       que as diferenas entre as classes eram princi-
tempo depois do surgimento da General Theo-        palmente questo de nfase. Ele destacou que a
ry, tornou-se razoavelmente comum a crena de      maioria das teorias modernas encarava o ciclo
que polticas governamentais de estabilizao      econmico como resultado no de nenhum fa-
poderiam tornar o ciclo econmico uma coisa        tor isolado, mas de vrios, muitos dos quais
do passado. Os economistas transferiram sua        eram comuns a diferentes teorias, e que os
ateno para o novo campo da macroeconomia,        fatores que faziam surgir um ciclo em um pe-
que se tornou o interesse predominante para os     rodo no eram necessariamente os mesmos que
que se preocupavam com a atividade geral. A        provocavam um ciclo em outro perodo. Esses
prosperidade da dcada ou duas depois do final     julgamentos de meio sculo atrs continuam
da Segunda Guerra Mundial estimulou o ponto        vlidos. No obstante, essas primeiras teorias,
de vista de que o ciclo econmico estava supe-     ao contrrio das posteriores  Segunda Guerra
rado. Uma conferncia internacional com es-        Mundial, tendiam a enfatizar mais os fatores
70   ciclo econmico


endgenos do que as influncias externas como           A perda de interesse pela teoria do ciclo
causas do ciclo econmico. Entre as categorias      econmico nas aproximadamente duas dcadas
mais importantes na classificao de Habeler        que se seguiram ao final da Segunda Guerra
das teorias esto: as que ele descreve como         Mundial no se deveu apenas a Keynes e 
puramente monetrias; excesso de investimen-        prosperidade geral. Vrios fatores estimularam
tos; retrao do consumo; as chamadas psico-        o interesse pela pesquisa emprica: o desenvol-
lgicas; e as que atribuem os ciclos a desajustes   vimento da renda nacional e das estatsticas de
de preo-custo.                                     produo, os avanos na construo de modelos
    Vrias teorias so abrangidas sob a rubrica     economtricos e o advento dos computadores
da teoria do excesso de investimento, que enfa-     eletrnicos para a soluo de grandes modelos
tiza o papel-chave dos gastos com investimen-       complexos. A construo de modelos proliferou
tos em novas construes e equipamento dur-        e alguns pareciam "funcionar", isto , dados
vel. Como esses bens de investimento so du-        certos pressupostos a respeito de poltica, se-
radouros e comprados visando o futuro, no         guiam razoavelmente de perto o comportamen-
difcil ver, intuitivamente, como erros nas es-     to da economia. Dessa forma, pareciam dar
timativas de empresrios podem causar exces-        validade aos princpios econmicos sobre os
sos nos investimentos e suas inevitveis cor-       quais se baseavam. Esse perodo testemunhou
rees. F.A. Hayek foi um de vrios autores que     uma mudana de nfase, dos modelos endge-
deram uma explicao monetria para o exces-        nos para os modelos em que as influncias
so de investimentos (ver tambm MONETARIS-          exgenas eram predominantes, em especial os
MO). Explicaes no-monetrias foram apre-         gastos governamentais e as polticas fiscais,
sentadas por economistas como Joseph Schum-         bem como os investimentos do setor privado.
peter, que enfatizou o papel especial das ino-      Nesses modelos essencialmente keynesianos, a
vaes, a abertura de novos mercados e sua          poltica monetria no parecia ser muito impor-
posterior retrao. Uma variante importante da      tante. Alm disso, eles incorporavam uma alter-
teoria do excesso de investimentos atribua um      nncia entre a taxa de inflao e a taxa de
papel crucial ao princpio de "acelerao", de      desemprego a curto prazo.
acordo com o qual um mero declnio na taxa de           Em seu discurso de posse na American Eco-
crescimento das vendas comerciais -- diga-          nomic Association, Milton Friedman (1968)
mos, a consumidores -- poderia provocar um          desfechou um contra-ataque monetarista ao sis-
declnio absoluto na produo de bens de inves-     tema keynesiano e aos modelos nele baseados.
timento. Essas idias contrastam com as teorias     Ao contrrio de Keynes, Friedman encarava a
da retrao do consumo, apresentadas por auto-      economia privada como fundamentalmente es-
res como J.A. Hobson, os quais afirmavam que,      tvel. Como R.G. Hawtrey, no incio do sculo,
medida que a expanso avana, os consumidores       Friedman atribua a instabilidade na economia
tendem a "poupar em excesso", com o resultado       a mudanas na poltica monetria. Mudanas na
de um declnio na demanda do consumo.               poltica monetria por parte do Banco Central
    H vrias teorias que so classificadas de      -- para estimular ou frear a economia -- cons-
psicolgicas. O aspecto caracterstico destas,      tituram os principais choques externos no sis-
nas palavras de Haberler,  que a resposta de       tema econmico, e foi por esse motivo que
investimento total a fatores objetivos  mais       Friedman recomendou que o Federal Reserve
forte do que indicariam as consideraes eco-       Bank dos Estados Unidos seguisse uma poltica
nmicas racionais (Haberler, 1937, p.147). Du-      em que o meio circulante crescesse a uma taxa
rante um surto de crescimento, os empresrios       estvel. O incio dos anos 70 assistiu aos pri-
esto sujeitos a "erros de otimismo", que levam     meiros passos de uma nova teoria, que pode ser
a erros na direo oposta assim que os empre-       atribuda a Robert Lucas (1977), Thomas Sar-
srios percebem que suas expectativas no po-       gent e outros, a qual revivia o interesse acad-
dero realizar-se. A teoria de Keynes sobre o       mico pelo ciclo econmico. Era a teoria ma-
ciclo econmico (um captulo da General Theo-       croeconmica das expectativas racionais-equi-
ry, p.313-32) dava maior nfase s previses        lbrio, principalmente uma crtica da viso ma-
dos empresrios e ao papel-chave que essas          croeconmica do mundo, keynesiana, mas que
previses desempenhavam nas decises empre-         tinha tambm aplicaes no crculo econmico
sariais de investimentos (ver KEYNESIANISMO).       (ver EXPECTATIVAS RACIONAIS, HIPTESE DAS).
                                                                               ciclo econmico    71


    Desde o surgimento da General Theory de        seus colegas do National Bureau of Economic
Keynes, o ponto de vista macroeconmico do-        Research. Eles examinaram milhares de sries
minante tem afirmado que preos e salrios so     econmicas histricas, buscando padres e re-
rgidos ou muito lerdos na reao a mudanas       gularidades recorrentes dos quais fosse possvel
na demanda geral e, dessa forma, no conse-        derivar generalizaes que descrevessem e, em
guem executar suas funes tradicionais de sa-     ltima anlise, explicassem o comportamento
neamento do mercado. Na viso keynesiana,          cclico da economia. Isso deu incio a um traba-
aumentos ou redues na demanda geral a curto      lho, que continua at o presente momento, de
prazo, como as que ocorrem na expanso ou          medir expanses e retraes, datar pontos crti-
retrao de um ciclo econmico, refletem-se        cos, picos e quedas, classificar sries estats-
principalmente em mudanas na economia real,       ticas particulares como adiantadas ou defasadas
isto , na produo e no emprego. No obstante,    nos pontos crticos do ciclo econmico e coisas
os que propem a teoria do equilbrio das ex-      do gnero. Apesar de Measuring Business Cy-
pectativas racionais afirmam que oferta e de-      cles (Burns e Mitchell, 1946) ter sido recebido
manda, mesmo no mbito da economia geral,          com desprezo pela corrente principal dos eco-
esto sendo constantemente equilibradas atra-      nomistas por no se submeter  nova macroe-
vs de ajustes nos preos e salrios. De acordo    conomia keynesiana (Koopmans, 1947), a
com esses pontos de vista mais recentes, que       abordagem tem demonstrado certo vigor, em
retornam aos economistas pr-keynesianos, a        parte porque os ciclos econmicos persistiram,
economia real no  fundamentalmente ins-          em parte porque os indicadores principais se
tvel. Como, ento, explicar as pronunciadas       transformaram em um mecanismo de previso.
flutuaes na atividade econmica, que se mos-         Em que p estamos hoje, com referncia ao
tram to evidentes? Uma resposta (e vrias         ciclo econmico, que  parte to integrante da
foram apresentadas, testadas e consideradas in-    vida econmica moderna?  muito provvel
suficientes)  que operrios e empresrios, ape-   que economistas e governos j tenham apren-
sar de racionais a respeito de mercados onde       dido o bastante para impedir uma repetio da
eles prprios operam, so ignorantes a respeito    Grande Depresso, mas fora isso no h ne-
de todos os outros mercados e, conseqente-        nhuma teoria isolada predominante que conte
mente, propensos a cometer erros -- sobre          com a aprovao da maioria dos economistas,
quanto produzir ou quanto trabalho fornecer em     conforme Victor Zarnowitz deixou claro em seu
resposta a uma mudana na demanda. Cometer         abrangente artigo de 1985. Provavelmente a
esses erros e em seguida corrigi-los faz com       maioria haver de concordar em que o ciclo
que surjam os movimentos cclicos. Uma teoria      econmico tem muitas causas, algumas oriun-
mais recente no gnero do equilbrio  a do        das de fora do sistema econmico, outras sendo
ciclo econmico real, que atribui flutuaes aos   um reflexo do modo como o prprio sistema
"choques de produtividade", cujas reaes, por     funciona. Qualquer dessas fontes pode ser, em
parte das empresas e do trabalho, ocorrem com      sua natureza, real ou monetria.  possvel que
pronunciada demora. Se essas teorias no forem     o prprio econmico seja de tal complexidade
inteiramente convincentes (Okun, 1980; Gor-        em uma economia industrial moderna que gran-
don, 1986, p.8-9), sua persistncia de formas      de parte de sua natureza essencial nunca possa
variadas, at agora, deve-se em grande parte ao    vir a ser captada por um modelo economtrico,
colapso dos modelos macroeconmicos keyne-         no importa sua sofisticao ou seu grau de
sianos nos anos 70, quando desapareceu a alter-    novidade. Talvez seja um comentrio sobre a
nncia inflao-desemprego em curto prazo,         situao insatisfatria que existe hoje com mo-
e taxas elevadas de inflao coexistiram com       delos de previso o fato de os instrumentos
taxas elevadas de desemprego. Alm disso, a        de previso emprica encontrarem prontamente
nova teoria das expectativas racionais enfatiza    mercado.
um antigo dogma fundamental da anlise eco-            A previso caminha de mos dadas com o
nmica, ou seja, o de que os agentes econmi-      ciclo econmico.  uma atividade florescente
cos so elementos otimizadores racionais.          na maior parte dos grandes pases industria-
    Outra corrente do ciclo econmico digna de     lizados com orientao de mercado, na qual se
nota  a abordagem emprica, associada a Wes-      engajam empresas, governos e organizaes
ley Mitchell no incio do sculo e mais tarde a    internacionais, e que fez surgir, ela prpria, uma
72   ciclos de longo prazo


substancial indstria de previso. Orientados              bido muito mais ateno e elogios do que no
pela experincia dos Estados Unidos, os eco-               passado. Em sua opinio, a idia de ciclos eco-
nomistas tm tido razovel grau de sucesso                 nmicos com periodicidade de 40 ou 50 anos
na previso da atividade econmica (PIB real)              est relacionada com a ocorrncia de um surto
com mais ou menos um ano de antecedncia,                  de importantes inovaes que esto no incio de
mas com notvel falta de sucesso na previso               um demorado movimento ascendente na vida
dos pontos crticos (McNees, 1988). Saem-se                econmica. Atualmente se poderia pensar a esse
claramente melhor que os "modelos ingnuos",               respeito sobre a tecnologia da informao como
que prevem que a mudana no PIB real do ano               fonte do duradouro movimento ascendente,
seguinte ser a mesma do ano anterior. De                  atravs dos processos interligados de difuso,
acordo com esse padro, saem-se menos bem,                 inovao adicional e imitao (ver tambm IN-
no entanto, na previso da taxa de inflao.               FORMAO, TEORIA E TECNOLOGIA DA).
Parte desse sucesso, nessas circunstncias, po-                Schumpeter reanimou a discusso dos ciclos
de ser atribudo ao que os economistas apren-              na dcada de 30, mas ela no comeou com ele.
deram a respeito de macroeconomia, embora o                Dois economistas holandeses, J. van Gelderen
quanto seja difcil quantificar.                           e S. de Wolff, so muito conhecidos por seus
   Ver tambm CICLOS DE LONGO PRAZO.                       trabalhos tericos e estatsticos sobre ciclos.
Leitura sugerida: Bronfenbrenner, M., org. 1969: Is        Foram eles, na realidade, que descobriram o
the Business Cycle Obsolete?  Gordon, R.J., org.           fenmeno, mas, na literatura,  principalmente
1986: The American Business Cycle  Haberler, G.            ao economista russo N.D. Kondratiev que se
1937 (1958): Prosperity and Depression  Moore, G.H.        credita a descoberta. A principal questo consis-
1983: Business Cycles, Inflation and Forecasting, 2ed.
 Santos, W.G. dos 1989: "Modelos endgenos de de-
                                                           te,  claro, em saber se  possvel descrever uma
cadncia liberal"  Sheffrin, S.M. 1983: "Inflation and     causa que produz os ciclos longos. No comeo,
unemployment". In Rational Expectations, p.27-70           as flutuaes de preos estavam relacionadas
Zarnowitz, V. 1985: "Recent work on business cycles        com mudanas no estoque total de ouro. Entre-
in historical perspective: a review of theories and evi-   tanto, como novas descobertas de campos aur-
dence". Journal of Economic Literature 23, 523-80.         feros so uma questo aleatria, essa no pode
                                      MURRAY F. FOSS       ser uma abordagem muito convincente. Um
                                                           enfoque mais avanado pode ser apreciado nas
ciclos de longo prazo A popularidade dos                   teorias que relacionam ondas a movimentos no
ciclos de longo prazo como tpico em teoria                investimento e, em particular, no investimento
econmica exibe um padro cclico. A partir do
                                                           para substituio. S. de Wolff apresentou pela
comeo dos anos 80 mais estudos empricos e
                                                           primeira vez, a esse respeito, o chamado prin-
anlises tericas tm sido dedicados aos ciclos
                                                           cpio de eco.
do que em todos os outros anos desde a Segunda
Guerra Mundial. Isso implica no s um retorno                           Uma cronologia dos ciclos
aos aspectos da economia do lado da oferta,                     1            2            3          4
em parte como reao  nfase de longa data                 Kondratiev Kondratiev Kondratiev Kondratiev
nas concepes keynesianas orientadas para a               prosperidade prosperidade prosperidade prosperidade
demanda, mas expressa tambm a extraordin-                1782-1792 1845-1857 1892-1903 1948-1957
ria reviravolta na atividade econmica, na ini-            prosperidade prosperidade prosperidade prosperidade
ciativa empresarial e na mudana tcnica.                  1792-1802 1857-1866 1903-1913 1957-1966
    O papel que a teoria dos ciclos desempenha             (guerra                    (guerra
hoje em dia nas discusses econmicas tambm               1802-1815)                 1913-1920)
coincide com o que pode ser chamado a revali-              recesso      recesso     recesso     recesso
dao de Schumpeter. Enquanto que a maior                  1815-1825 1866-1873 1920-1929 1966-1973
parte do sculo atual viu Keynes no pedestal da            depresso     depresso    depresso
cincia econmica, a ltima parte trouxe uma               1825-1836 1873-1883 1929-1937
reavaliao e compreenso mais profunda dos                recuperao recuperao recuperao
escritos de J.A. Schumpeter e de suas contri-              1836-1845 1883-1892 1937-1948
buies para a cincia econmica. Em particu-              Fonte: J.J. Van Duijn, cap.20, in S.K. Kuipers e G.J.
lar, a sua nfase no papel do empresrio, com-             Lanjouw (orgs.), Prospects of Economic Growth
binado com o processo de inovao, tem rece-               (Amsterdam, Merth-Holland, 1980), p.223-33.
                                                                                         cidadania    73


    Hoje em dia a mais importante teoria acerca        mo tempo houve um crescimento da chamada
dos ciclos  formulada em termos de inovaes.         "dupla cidadania", apesar dos esforos interna-
Os autores modernos que esto propensos a              cionais para reduzi-la, na qual os imigrantes
relacionar as flutuaes de ondas largas com as        conservam a cidadania em seu pas de origem
inovaes ao longo do tempo so J.J. van Duijn         (Hammar, em Brubaker, 1989), e sob forma
e C. Freeman. Van Duijn apresenta em seu livro         diferente na Comunidade Europia, onde os
(1983) o programa aqui reproduzido para os             cidados dos estados-membros podero vir a ter
ciclos. De acordo com esse esquema, temos              uma segunda cidadania na CE.
estado, desde o comeo da dcada de 80, em um              O desenvolvimento da cidadania substan-
perodo de recuperao. A esse respeito, a tec-        tiva foi analisado em um estudo clssico de T.H.
nologia de informao desempenhou e ainda              Marshall, em 1950 (republicado in Marshall,
est desempenhando um importante papel.                1992), que descrevia um desenrolar da extenso
Freeman sublinhou por vrias vezes a interao         de direitos civis, polticos e sociais para toda a
entre a difuso de novas tecnologias e as mu-          populao de uma nao. Na Europa Ocidental
danas institucionais na sociedade. A idia, que       depois de 1945, foi o aumento dos direitos
remonta a Schumpeter,  que as inovaes che-          sociais -- a criao de um ESTADO DE BEM-ESTAR
gam em "rajadas" e se espalham por toda a              -- que produziu as maiores mudanas, esta-
economia, provocando imitao e preparando             belecendo princpios mais coletivistas e iguali-
o terreno para um boom econmico.                      trios, e polticas que contrabalanavam, em
    Em concluso, de todas as possveis expli-         certa medida, as tendncias no-igualitrias da
caes dos ciclos, o padro cclico de inovaes       economia capitalista. A situao foi diferente,
parece a mais promissora, mas subsiste a dvida        porm, na Europa Oriental, onde as ditaduras
sobre se esse fator estar na base de um padro        comunistas restringiram gravemente os direitos
sistemtico ao longo de um perodo de tempo            civis e polticos, ao mesmo tempo em que pro-
to longo.                                             porcionavam um mbito considervel de im-
    Ver tambm CICLO ECONMICO.                        portantes direitos sociais. Os movimentos de
                                                       oposio que finalmente provocaram a queda
Leitura sugerida: Freeman, C. org. 1984: Long Waves
in the World Economy  Van Duijn, J.J. 1983: The Long   desses regimes na verdade enfatizaram muito
Wave in Economic Life.                                 fortemente a idia de cidadania como incorpo-
                                  ARNOLD HEERTJE       rando direitos bsicos, civis e polticos, e tam-
                                                       bm a concepo correlata de uma necessria
cidadania Idias de cidadania floresceram              independncia das instituies da SOCIEDADE
em diversos perodos histricos -- na Grcia e         CIVIL em relao ao estado.
na Roma antigas, nos burgos da Europa medie-               Outra questo geral diz respeito  relao
val, nas cidades do Renascimento. Mas a cida-          entre os direitos e deveres dos cidados. A
dania moderna, embora influenciada por essas           retomada das idias de cidadania durante o
concepes antigas, possui um carter prprio.         Renascimento europeu valeu-se em grande me-
Primeiro, a cidadania formal  hoje quase uni-         dida do exemplo da cidadania romana, enfati-
versalmente definida como a condio de mem-           zando a autodisciplina, o patriotismo e a preo-
bro de um estado-nao. Em segundo lugar,              cupao com o bem comum; e tais concepes,
porm, a cidadania substantiva, definida como          patentemente, ainda so importantes para o no-
a posse de um corpo de civis (ver LEI), polticos      vo desenvolvimento da cidadania no sculo
e especialmente sociais, tem-se tornado cada           XX, com o "patriotismo" possivelmente trans-
vez mais importante.                                   formado na idia de maior participao popular
    Em ambos esses aspectos, houve um proces-          nos negcios do governo, no apenas de uma
so de desenvolvimento durante o sculo XX, e           comunidade nacional, mas tambm de asso-
mais marcadamente a partir da Segunda Guerra           ciaes regionais mais amplas. Uma participa-
Mundial, que coloca alguma questes novas. A           o desse tipo, porm, depende de forma crucial
cidadania formal tornou-se uma questo mais            do aumento dos direitos sociais para proporcio-
importante, em conseqncia da macia imi-             nar um nvel geral suficiente de bem-estar eco-
grao, no ps-guerra, para a Europa Ocidental         nmico, lazer e educao, e sem dvida tam-
e a Amrica do Norte, o que resultou numa nova         bm de novas formulaes do que venha a ser
poltica de cidadania (Brubaker, 1992). Ao mes-        o "bem comum" (ver TICA).
74     cincia, filosofia da

Leitura sugerida: Brubaker, W. Rogers, org. 1989: Im-     cial. O conselho de Jetro a Moiss, de que
migration and the Politics of Citizenship in Europe and   delegasse autoridade atravs de uma estrutura
North America  1992: Citizenship and Nationhood in
France and Germany  King, D. 1987: The New Right:
                                                          hierrquica para tratar de casos que exigiam
Politics, Markets and Citizenship  Marshall, T.H. e       decises, pode ser citado como um dos primei-
Bottomore, Tom 1950 (1992): Citizenship and Social        rssimos exemplos de aplicao da lgica a
Class  Turner, Bryan S. 1986: Citizenship and Capita-     problemas administrativos (xodo, 18). Alguns
lism: the Debate over Reformism.                          destacam uma investigao feita por Lanches-
                                   TOM BOTTOMORE          ter, publicada em 1916, sobre o efeito das foras
                                                          militares lanadas em combate, como o primei-
cincia, filosofia da Ver        FILOSOFIA DA CIN-       ro exerccio de criao de um modelo matem-
CIA.                                                      tico no estudo do esforo de guerra. De fato,
                                                          uma vez que problemas de organizao, es-
cincia, sociologia da Ver          SOCIOLOGIA DA
                                                          tratgia e logstica sempre figuraram de forma
CINCIA.
                                                          proeminente na gesto da guerra,  possvel
cincia da administrao A cincia da                     defender a tese de que a cincia da adminis-
administrao pode ser definida como a aplicao          trao, ainda que no sob esse nome, existe h
do mtodo cientfico e do raciocnio analtico            praticamente tanto tempo quanto a humani-
ao processo de tomada de decises dos execu-              dade.
tivos no controle de sistemas comerciais e in-                A maior parte dos estudiosos do tema, no
dustriais pelos quais so responsveis. Esses             entanto, atribui a ascenso da cincia da admi-
sistemas podem compreender manufaturas es-                nistrao ao surgimento da Pesquisa Operacio-
pecficas, operaes administrativas ou de ser-           nal (em ingls, Operational Research -- OR),
vios, departamentos ou fbricas inteiras, ou             e a expresso OR/MS foi ento cunhada para
mesmo empresas completas.                                 abranger a ambas. A OR teve incio na Gr-
    Uma caracterstica importante dos cientistas          Bretanha, no final dos anos 30, logo experi-
da administrao  seu esforo para abordar os            mentando rpida expanso, durante a Segunda
problemas gerenciais com o mesmo tipo de                  Guerra Mundial, tanto na Gr-Bretanha quanto
objetividade que se espera dos cientistas puros           nos Estados Unidos (onde essa atividade  cha-
em seus estudos dos fenmenos fsicos. A apli-            mada de Operations Research), a fim de ajudar
cao de mtodos cientficos implica a neces-             na gesto de operaes militares (da o nome).
sidade da coleta de dados, a anlise crtica dos          Depois da guerra muitos cientistas envolvidos
indcios reunidos, a formulao de hipteses              na OR militar voltaram a ateno para suas
usadas para a construo de modelos de com-               aplicaes no mundo civil, e muitos grupos de
portamento dos sistemas que esto sendo exa-              OR foram formados, em departamentos da in-
minados, a especificao de critrios para a              dstria e do governo, em ambos os lados do
mensurao de variveis que afetam o desem-               Atlntico, nos anos 50 e 60.
penho desses sistemas, a criao de projetos                  As aplicaes industriais da OR/MS con-
experimentais (quando apropriada), a previso             centraram-se a princpio no controle da produ-
de resultados futuros e o teste da validade e da          o e dos inventrios na indstria fabril, mas
solidez dos modelos e hipteses propostos. No             nos ltimos 25 anos essas atividades se difun-
contexto da cincia da administrao (referida            diram, abrangendo muitas outras funes em-
comumente pelas iniciais da expresso em in-              presariais, como marketing, distribuio, finan-
gls, management science, MS), esse processo              as, recursos humanos, gerncia de projetos e
tambm implica a recomendao de linhas de                qualquer outra atividade que envolva a aloca-
ao a serem consideradas pelos executivos                o de recursos escassos. Atualmente a OR/MS
para implementao e finalmente a anlise do              j se infiltrou em praticamente todos os setores
efeito das decises gerenciais, atravs de men-           da indstria e da economia em geral, incluindo
surao e feedback, com o fim de modificar e              indstrias de servios como bancos, adminis-
refinar modelos existentes (ou substitu-los) e           trao de fundos, seguros, sade, educao,
ajudar a melhorar as futuras tomadas de deciso           transporte, comrcio e muitos outros.
e o desempenho do sistema.                                    Essencialmente, no h diferena entre as
     difcil destacar algum dado para a primeira         definies de OR e MS, e as duas expresses
aplicao dessa metodologia no campo geren-               desenvolveram-se lado a lado atravs do aci-
                                                                                cincia econmica      75


dente da histria. A primeira OR Society (ORS)       pequeno nas investigaes de OR/MS, que por
formou-se no Reino Unido, em 1950, seguida           sua natureza tm de comear com problemas
pela Operations Research Society of America          reais que exigem solues, e no com um arse-
(ORSA), em 1952. A OR foi ento desenvolvi-          nal de ferramentas em busca de situaes s
da e testada em muitas universidades, primeiro       quais este possa ser aplicado. At mesmo tcni-
em cursos de ps-graduao, tanto como um            cas como a programao linear e matemtica,
complemento da engenharia industrial e de ou-        que domina a literatura, no podem ser consi-
tras disciplinas acadmicas quanto como uma          deradas em uso comum na economia e na in-
disciplina em si mesma, levando ao mestrado,         dstria (com a notvel exceo das indstrias
e em seguida comeou a se infiltrar por vrios       qumica e do petrleo), e quanto  teoria da
programas de faculdade. A natureza altamente         variao seus modelos elaborados e complica-
matemtica da OR acadmica e o desenvolvi-           dos foram em grande parte superados pelo uso
mento de suas tcnicas analticas levaram a que      da simulao em computador.
a literatura sobre o assunto fosse dominada por          A natureza complexa das empresas indus-
exposies tericas, e muitos temeram que as         triais e de negcios, que tm de operar debaixo
aplicaes e a contribuio potencial da OR          de severa concorrncia e sob muitas restries,
para o mundo real, na soluo de problemas de        exige que as decises gerenciais se apiem cada
gerenciamento, ficasse assim inibida (temor          vez mais numa anlise de informaes e numa
ainda hoje muito difundido).  em parte por          formulao de estratgia baseada em modelos
esse motivo que o Institute of Management            cientficos.  a que a MS, com a ajuda do
Sciences (TIMS) foi fundado em 1953, na ten-         crescimento fenomenal do poder da computa-
tativa de enfatizar a necessidade de aplicao e     o em anos recentes, tem uma importante con-
implementao. Seus objetivos declarados so         tribuio a dar.
"identificar, ampliar e unificar o conhecimento          Ver tambm DECISO, TEORIA DA; JOGOS, TEO-
cientfico que contribua para a compreenso e        RIA DOS; COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL.
a prtica do gerenciamento".
                                                     Leitura sugerida: Dennis, T.L. e Dennis, L.B. 1991:
    Na prtica, porm, no h muita distino        Management Science  Eilon, S. 1985: Management
entre a ORSA e o TIMS, em cujos quadros os           Assertions and Aversions  1992: Management Prac-
nomes dos membros se repetem de forma cons-          tice and Mispractice  Hillier, F.S. e Lieberman, G.J.
pcua. A expresso OR e MS tornou-se ampla-          1986: Introduction to Operation Research.
mente usada para indicar a afinidade e o rela-                                            SAMUEL EILON
cionamento estreitos ente as duas sociedades, e
para indicar que OR/MS podem ser encarados           cincia econmica Descrita como uma ci-
como rtulos intercambiveis, embora muitos          ncia social que diz respeito  produo e alo-
analistas ainda achem que a literatura da OR,        cao de bens de servio e a seu conseqente
particularmente nos Estados Unidos, continua         impacto sobre o bem-estar material dos seres
obcecada com a teoria, e que se abriu um abis-       humanos, a economia, como era de se esperar
mo entre a teoria da OR e a prtica da MS.           de uma definio sucinta,  isso e muito mais.
    A literatura e muitos programas acadmicos       Alm de tudo, seus contornos esto em contnua
em geral destacam certos instrumentos analti-       expanso, em reao a novas pesquisas e a
cos que se diz serem marcos da OR, tais como         mudanas em nossos interesses e preocupa-
a teoria da probabilidade e mtodos estatsticos,    es.
clculos de variaes, programaes lineares e          No sculo XX o progresso da cincia eco-
no-lineares, programao dinmica, anlises e       nmica foi fenomenal. Ela saiu dos recessos
escalas combinatrias, teoria da variao, teoria    acadmicos para o mundo das leis, dos progra-
dos jogos, anlise de redes e tcnicas correlatas.   mas e planos de aes nacionais e das organi-
Os que fazem essas descries tendem a carac-        zaes internacionais.
terizar a OR como uma ocupao altamente                John Maynard Keynes, um dos economistas
matemtica (alguns acadmicos nos Estados            mais influentes deste sculo, certa vez afirmou
Unidos at apontam que a OR  apenas um ramo         que a cincia econmica se tornaria redundante
da matemtica aplicada). Esse quadro  uma           a longo prazo, pois resolveria os problemas
infeliz distoro da realidade. Na prtica, as       mais importantes com que se defronta a econo-
tcnicas formais desempenham um papel muito          mia. Isso no aconteceu; seu sucesso no foi to
76   cincia econmica


espetacular assim. Houve outros que acharam         para essa nova abordagem que, como funda-
que a cincia econmica (de que, curiosamente,      mento da "economia neoclssica", viria a exer-
 sinnimo em ingls the dismal science, lite-      cer uma influncia imensa, a mais provvel
ralmente "a cincia desolada") iria desaparecer,    seria 19 de fevereiro de 1860, com base em um
pois seus fracassos seriam marcantes demais.        registro eufrico no dirio de Jevons (La Nauze,
Isso tampouco aconteceu. Felizmente para a          1953). A idia capital que ocorreu a Jevons foi
cincia econmica, e mais ainda, suponho, para      que o valor de um bem no  o volume de
os economistas, o desempenho dessa matria          recursos que entra em sua produo. O valor 
ficou em algum ponto entre as duas previses;       o preo que as pessoas esto dispostas a pagar
e com a crescente complexidade do mundo --          por ele.  claro, isso dependeria dos recursos
crises da dvida internacional, unies monet-      necessrios para produzir o bem, mas depen-
rias e muito mais --, a economia chegou para        deria tambm da demanda e da utilidade. As-
ficar. Ainda h motivos para introspeco e         sim, para o mesmo bem, digamos, camisas de
crtica, mas os avanos neste sculo estabelece-    seda, o valor cresceria se, por algum motivo, a
ram a cincia econmica como uma disciplina         oferta casse, ou a moda as favorecesse, pois
indispensvel, com um imenso atrativo intelec-      isso garantiria que, para os consumidores, a
tual.                                               utilidade de cada camisa de seda seria maior.
    As poucas pginas que se seguem percorrem       Isso seria vlido mesmo que o contedo de
a cronologia da matria durante o decorrer deste    recursos de cada camisa de seda permanecesse
sculo, descrevem as realizaes mais impor-        inalterado.
tantes e tentam demonstrar que o modo margi-            Com essa descoberta, a pesquisa de Jevons
nalista de anlise se encontra no processo de ser   concentrou-se (um tanto desproporcionalmente)
substitudo pelo que se poderia chamar de "an-     na teoria do consumo. O cerne dessa teoria era a
lise estratgica". Este  um terreno difcil por-   lei da utilidade marginal decrescente, a qual
que, para a anlise marginalista, podemos pegar     afirma que, na medida em que um consumidor
emprestadas tcnicas das cincias naturais, en-     obtm cada vez mais de um bem, a utilidade
quanto que para a anlise estratgica no h        extrada da ltima unidade torna-se cada vez
precursores; o recurso da pirataria intelectual     menor. A lei da utilidade marginal decrescente
infelizmente no est disponvel.                   e sua contrapartida na anlise da produo, a lei
    Olhando em retrospecto todos esses anos,        da produtividade marginal decrescente, com
percebe-se que uma importante realizao da         sua concentrao naquilo que acontecesse 
economia foi a sua coerncia intelectual inter-     utilidade ou output  me di da que, res-
na. Os exerccios de lgica abstrata na teoria      pectivamente, o consumo ou input sofre um
econmica (e fao uma diferena entre esta e        pequeno aumento, tornaram a economia extre-
a economia matemtica, que quase sempre de-         mamente receptiva ao uso do clculo e, em
monstrou a tendncia a se atolar em tecni-          particular, da diferenciao. Os fsicos j es-
calidades) so hoje conduzidos em um nvel de       tavam usando muito o clculo. Isso pareceu
excelncia comparvel ao de qualquer outra          extremamente vantajoso, e boa parte da teoria
disciplina. Seus fracassos mais retumbantes         econmica inicial cresceu imitando os mtodos
tm sido pelo lado prtico.                         das cincias fsicas.
Antecedentes                                        Primeiros interesses
    Na virada do sculo os economistas haviam          Tendo a ateno passada para os preos, era
herdado uma nova tcnica: a anlise margina-        natural perguntar: como se determina o preo?
lista (ver ESCOLA AUSTRACA DE ECONOMIA; ESCO-      Se para cada bem, considerado isoladamente, a
LA ECONMICA MARGINALISTA). Para eles, a an-       resposta pode ser fcil, revelou-se que, se qui-
lise marginalista logo se tornaria um leitmotiv,    sssemos saber como os preos de todos os bens
o marco diferencial entre "a economia e sua         so determinados em um sistema no qual o
ancestral, a economia poltica". A pedra fun-       desempenho de um bem no mercado influencia
damental do marginalismo foi a obra de, entre       o de outro, o problema  bem mais difcil e exige
outros, Leon Walras (1834-1910), Stanley Je-        mtodos muitos diferentes. Esse foi o cerne da
vons (1835-82) e Carl Menger (1840-1921). Se        anlise do equilbrio geral, iniciada por Walras.
fosse preciso escolher uma data de fundao         A obra de Walras levantava questes suficien-
                                                                             cincia econmica    77


temente difceis e importantes para se tornarem     mesmo entre alguns dos economistas das cor-
um tema da maior relevncia na pesquisa du-         rentes principais, era a de que muitos dos seus
rante o sculo XX.                                  teoremas dependiam da capacidade de medir
    Resumidamente, o problema era o seguinte.       numericamente fenmenos que no eram re-
Sabia-se h muito tempo que o preo de um bem       ceptivos a tais quantificaes. A utilidade e o
dependia de sua demanda e oferta. Assim, se a       bem-estar eram candidatos bvios. Mas a quan-
demanda de gasolina viesse a exceder a oferta,      tificao da utilidade era essencial? A resposta
era de se esperar que o preo em equilbrio fosse   acabou sendo no. John Hicks (1905-89),
maior. Mas isso pode causar um problema em          valendo-se da obra anterior de Vilfredo Pareto
outro ponto. Se o preo da gasolina sobe,          (1848-1923), determinou-se a demonstrar que
natural esperar que a demanda por querosene         os teoremas da cincia econmica baseavam-se
(ou qualquer outro substituto da gasolina) au-      em menos pressupostos (e, portanto, eram mais
mente. Da,  possvel que,  medida que o          slidos) do que os que surgiam no projeto de
preo da gasolina rume para um nvel de equi-       Marshall (ver Blaug, 1962).
lbrio, o mercado do petrleo venha a ser lana-        De fato, estabeleceu-se uma agenda para
do no desequilbrio. Uma configurao de pre-       basear a economia -- e no apenas a teoria do
os tal que, em todos os mercados, a demanda        consumo -- em cada vez menos pressupostos.
iguale a oferta  conhecida como um equilbrio      As leis da margem estavam sendo substitudas
geral. Mas em que circunstncias poder existir     por exigncias de convexidade; a utilidade car-
um equilbrio geral? Quais so suas proprie-        dinal estava sendo deposta pela ordinalidade; e,
dades? Essas perguntas foram investigadas por       finalmente, a obra influente de Paul Samuelson
Walras, mas as respostas definitivas s foram       levou a prpria utilidade a ser substituda pelas
possveis j bem avanado o sculo XX, devido       relaes de preferncia e pelos axiomas de con-
 falta de um instrumento matemtico -- o           sistncia.
teorema do ponto fixo. Os teoremas do ponto
                                                        Por volta da mesma poca em que tudo isso
fixo de Brouwer e Kakutani, que posterior-
mente se tornariam onipresentes em diversas         acontecia, ocorria uma revoluo mais dram-
reas da economia, foram usados por Kenneth         tica que iria arrancar a cincia econmica de sua
Arrow e Gerard Debreu para demonstrar as            quietude para lan-la no mundo da poltica e
condies em que o equilbrio geral existiria       dos negcios pblicos. Refiro-me  obra de
(ver Debreu, 1959).                                 John Maynard Keynes (1883-1946).
    Mas,  medida que foi crescendo o refina-       A revoluo keynesiana
mento da teoria abstrata, o mesmo foi aconte-
cendo com a ambio do economista de resol-             A obra de Keynes tem sido mais analisada,
ver os problemas do mundo. O mbito da an-         diagnosticada e desenvolvida do que a de qual-
lise marginalista para abordar questes prticas    quer outro economista deste sculo (ver KEYNE-
de taxao, poltica industrial e propriedade da    SIANISMO. Mas ningum foi capaz de se sair
terra foi destacado nas obras de diversos econo-    melhor em propagande-la do que o prprio
mistas, como Alfred Marshall (1842-1924) e          Keynes. Utilizando seu brilho literrio, sua
Francis Edgeworth (1845-1926). Os Princpios        imensa reputao intelectual, que j se estabe-
de Marshall, em particular, que foram publica-      lecera bem antes do surgimento da Teoria geral,
dos em 1890 e tiveram vrias edies (ver           e at mesmo certa dose de ofuscao, Keynes
Marshall, 1890), aumentaram a confiana dos         projetou sua obra econmica bem alm da torre
economistas no confronto com o mundo. De fa-        de marfim (ver BLOOMSBURY, GRUPO DE). Os
to, Marshall, que desprezava abertamente abs-       tempos o ajudaram. No final dos anos 20 es-
traes como a do sistema walsariano estava,        tabeleceu-se a Grande Depresso. Com a pro-
de forma consciente, tentando atrelar a econo-      duo industrial em processo de estagnao, o
mia s necessidades do mundo. Mas, desavisa-        desemprego subiu muito. Em 1931, na Alema-
damente, tendo exibido a fora total da anlise     nha, 5 milhes de pessoas, de uma fora de
econmica, Marshall estava abrindo uma nova         trabalho de 21 milhes, estavam desemprega-
agenda terica. Uma queixa que muitos obser-        das; nos Estados Unidos, o desemprego era de
vadores tinham contra a economia neoclssica,       25%; e esses pases no eram excees. Em
e que era motivo de certo constrangimento at       1932, o volume de produo industrial dos Es-
78   cincia econmica


tados Unidos ficou pouca coisa acima de 50%         dos modelos de competio imperfeita, por um
do nvel de 1929 (Routh, 1975, p.263-4).            lado, e a pesquisa sobre as propriedades do
    A reao inicial do governo a isso foi a mais   equilbrio geral para o bem-estar, por outro. Em
natural, ou seja, estimulou as pessoas a poupar,    que condies a racionalidade individual pode-
como se deve fazer em tempos difceis, e a viver    ria resultar na otimizao social? Para respon-
de modo mais frugal. Mas, segundo Keynes,           der a esta pergunta, os economistas usaram a
esse era exatamente o oposto da receita certa.      definio de otimizao dada por Pareto (ver
Se todos economizassem, todo mundo ficaria          BEM-ESTAR, TEORIA ECONMICA DO) e nos deram
bem pior, pois a demanda efetiva na economia        a relao precisa entre o equilbrio de mercado
iria cair, e isso provocaria uma retrao da        livre e a otimizao. Isso era teoria econmica
produo total, o que por sua vez causaria uma      em sua melhor forma. Havia se resumido em
demanda ainda menor, e assim por diante. Era        dois teoremas claros -- conhecidos como os
o "paradoxo da parcimnia". Significava que a       teoremas fundamentais da teoria do bem-estar
cura do problema estava no fomento  demanda        -- uma relao que tinha sido fonte de debates
efetiva. Algo que o governo poderia conseguir       e especulaes desde Smith (1776). O primeiro
atravs de um dficit fiscal maior. Isso, rever-    teorema afirmava que, dadas certas condies
tendo o argumento acima, provocaria vrias          (tais como continuidade e nenhuma externali-
rodadas de impactos de crescimento -- o cha-        dade), um equilbrio de mercado competitivo
mado "efeito multiplicador".                        seria realmente timo dentro dos padres de
     verdade que a "poltica certa" havia sido     Pareto. O segundo teorema afirmava que dadas
posta em prtica antes mesmo de a obra econ-       certas condies, toda situao tima, dentro
mica de Keynes ter sido devidamente ingerida.       dos padres de Pareto, podia ser alcanada,
Mas, diferentemente das polticas ad hoc, cria-     como um equilbrio de mercado competitivo,
das s pressas por burocratas e polticos, Key-     caso se pudesse efetuar uma adequada redis-
nes havia fornecido todo um quadro, um quadro       tribuio dos dotes iniciais dos agentes.
de interveno planejada pelo governo para              Estes devem ser os teoremas mais erronea-
manter o livre mercado em bom funcionamen-          mente utilizados na economia. Fiis incurveis
to. A economia de Keynes garantia que no           do livre mercado ignoraram a clusula "dadas
voltaramos a ter uma depresso to profunda        certas condies" e trataram o teorema como
-- pelo menos, no do mesmo tipo.                   um veredicto de interveno zero. Interven-
    Keynes no era um terico; e, acredito, sua     cionistas empedernidos viram pouca coisa alm
obra no teria causado um efeito to grande         dessas condies. Na realidade, os teoremas
sobre a teoria se no fosse por alguns de seus      demonstravam que as virtudes do mercado no
posteriores elucidadores. A obra mais influente     podiam ser nem ignoradas nem dadas como
foi um artigo clssico de John Hicks (Hicks,        pressupostas.
1937). Este deu origem s famosas curvas IS-            Os interesses macroeconmicos de Keynes
LM e, atravs destas,  moderna macroecono-         e alguns autores posteriores e os teoremas mi-
mia e aos modelos macroeconmicos. Estes so        croeconmicos do equilbrio geral estavam nu-
hoje em dia um instrumento bsico para que a        ma rota convergente. Era absolutamente inevi-
maioria dos governos planeje suas polticas de      tvel que essas duas pesquisas se encontrassem
ao e preveja o futuro.                            e comessemos a estabelecer as bases da ma-
                                                    croeconomia sobre uma microteoria rigorosa.
Reavaliando a mo invisvel                         Isso aconteceu com maior clareza nos modelos
    A antiga descoberta, atribuda a Adam Smith     de preo fixo da "escola francesa", que tenta-
(1723-90), de que o comportamento individual        ram categorizar as descries da economia key-
egosta, agindo atravs da "mo invisvel" do       nesiana e clssica com diferentes tipos de equi-
mecanismo de mercado, pode resultar no bem          lbrio de preo fixo (e, nesse sentido, no-wal-
social adquiriu certo significado especial  luz    rasiano).
da obra de Keynes. Esta era uma anlise da falha
do mercado, algo que a racionalidade in-            Temas convergentes
dividual no conseguia impedir. O que levou a          Se  verdade que em todas as matrias os
lei da mo invisvel a ser examinada mais mi-       avanos tericos andam  frente do trabalho
nuciosamente foram, tambm, os recm-surgi-         emprico, na economia isso indubitavelmente
                                                                               cincia econmica    79


foi elevado ao nvel de uma arte sofisticada. Se      Essas naes viviam totalmente recolhidas den-
por um lado era comum a utilizao das provas         tro de suas fronteiras de possibilidade de pro-
fornecidas pelos fatos e de dados fragmentados,       duo, isto , dentro do que seria exeqvel da
por outro a econometria, isto , a anlise estats-   plena utilizao de recursos. Se o sistema de
tica sistemtica de dados, estava ficando para        mercado walrasiano despencou das alturas nos
trs. Isso no era de surpreender, pois alguns        pases desenvolvidos, nos anos 30, nunca havia
dos principais luminares da poca, incluindo          sequer chegado a decolar em mais da metade
Keynes, mostravam-se pessimistas quanto ao            do mundo. Por qu? Essa pergunta estava no
valor da econometria. Mas se a economia queria        cerne de investigaes feitas, entre vrios ou-
assumir seu lugar no panteo das disciplinas          tros, por Ragnar Nurkse (1907-59), Maurice
cientficas, precisava testar formalmente suas        Dobb e Arthur Lewis (1915-91).
leis. Dada a grande importncia da econometria            A investigao estabeleceu ligaes com ex-
nos dias de hoje, esse tpico deve ter crescido       perincias que estavam sendo efetivamente
mais depressa do que todo o resto da cincia          conduzidas e em processo de serem registradas
econmica.                                            no Terceiro Mundo. A ndia iniciara experin-
    A econometria levou a mensagem da econo-          cias com planejamento, e Praxanta Mahalano-
mia para o mundo exterior. Ao lado das anlises       bis (1893-1972) e outros estavam escrevendo a
de input-output, ela se tornou o principal vecu-     respeito. Na Amrica Latina, surgia uma litera-
lo para que as grandes corporaes e os gover-        tura sobre inflao e termos de troca, sendo
nos nacionais pudessem prever mudanas nas            Raul Prebisch (1901-86) o principal porta-voz
variveis e assim planejar suas atividades. A         para o mundo industrializado. Em dcadas re-
econometria precisou encarar importantes de-          centes a economia do desenvolvimento, que
safios intelectuais, pois essa era a primeira vez     fora deixada de lado durante o apogeu da revo-
em que mtodos estatsticos altamente sofis-          luo neoclssica, era puxada para a corrente
ticados estavam sendo usados no estudo da             principal da pesquisa terica e economtrica.
sociedade. Entre outras coisas, isso significava          Outra pesquisa convergente, que ocorreu
que, se quisssemos saber como x havia in-            nos anos 50, resultou naquilo que , na minha
fluenciado y, no tnhamos como gerar os dados        opinio, o documento isolado (foi publicado
relevantes atravs de experincias criadas es-        como uma pequena brochura) mais significati-
pecialmente para essa averiguao. Em vez dis-        vo que a cincia econmica produziu. Teve
so, tnhamos de usar os dados que surgissem           conseqncias tremendas para os cientistas po-
naturalmente atravs do tempo e selecionar a          lticos, os economistas do bem-estar e os teri-
relao entre x e y a partir de um emaranhado         cos das tomadas de decises. Foi o teorema da
de indcios disponveis (ver ECONOMETRIA).            impossibilidade, de Arrow, publicado em 1951;
    Outro tipo muito diferente de "interesse pr-     ele deu ensejo a uma enorme literatura e  nova
tico" tambm surgiu no final dos anos 40 e            subdisciplina da economia do bem-estar (ver
durante os anos 50.  medida que as naes do         tambm ESCOLHA SOCIAL).
Terceiro Mundo foram emergindo das sombras
do colonialismo, os economistas foram toman-          Progressos atuais
do conscincia de que uma maioria de seres                 perfeitamente plausvel dizer que estamos
humanos vivia cronicamente em condies               vivendo em meio a uma mudana de paradig-
que, se as naes industrializadas tivessem de        mas to dramtica quanto a que ocorreu no final
suport-las por uns poucos meses, seriam consi-       do sculo XIX. Desde o incio a anlise margi-
deradas como uma crise. Condies crnicas            nalista foi alvo de ataques vindos de vrios
no do notcias nos jornais e, portanto, tm         lados. Algumas das crticas mais convincentes
grandes possibilidades de serem menospreza-           vieram de economistas marxistas ou neokeyne-
das. Alm disso, para que cientistas se interes-      sianos como Piero Sraffa (1898-1983) e Joan
sem por um problema, no basta que o proble-          Robinson (1903-83). A anlise do modo como
ma seja srio.  essencial que o problema colo-       o resultado da atividade econmica  dis-
que um desafio intelectual.                           tribudo -- por exemplo, entre empresrios,
    Mas o sofrimento de naes na sia, frica,       senhores de terras e operrios -- sempre foi um
Amrica Latina e at mesmo parte da Europa            ponto fraco da cincia econmica predomi-
representava efetivamente um quebra-cabeas.          nante, e a crtica dita "de Cambridge" dirigiu-se
80   cincia poltica


principalmente contra isso. A mensurabilidade       no passado e invariavelmente, a longo prazo,
do capital como fator de produo foi ques-         as obras que trataram de preocupaes sociais
tionada, e se fizeram perguntas crticas a res-     mais amplas, misturando lgica e realismo eco-
peito dos fundamentos da teoria da produtivi-       nmico, sobreviveram e predominaram. Com a
dade marginal. O que o trabalho de Sraffa ten-      ascenso da anlise estratgica, a economia est
tava demonstrar era, nas palavras um tanto imo-     armada para fazer reviver algumas das questes
deradas de Joan Robinson (1961, p.13), "que a       de maior importncia da economia poltica que
teoria da produtividade marginal da distribui-      foram levantadas no decorrer de sua longa his-
o era uma grande asneira". Em resposta, a         tria, mas que tiveram de ser abandonadas por
teoria marginalista teve de abandonar algumas       falta de instrumentos de anlise mais adequa-
de suas pretenses ao realismo; mas, ao refinar     dos. As normas sociais e polticas, por exemplo,
seus teoremas e criar um quadro mais esparso,       desempenham papis crticos no funcionamen-
ela saiu-se muito bem em termos de consis-          to das economias. Mas de onde vm as normas
tncia abstrata.                                    e como exatamente elas interagem com o nosso
    Em tempos mais recentes, porm, o margi-        funcionamento econmico? Encontramo-nos
nalismo vem comeando a ceder espao, mas           num estgio em que podemos tentar a srio
como uma conseqncia do que pode ser me-           responder essas questes. E isso, por sua vez,
lhor descrito como pesquisa interna. Ele est       pode enriquecer nossa compreenso do papel
sendo substitudo pela anlise estratgica, ba-     do estado, da raison d'tre das empresas e da
seado nos mtodos da teoria dos jogos (ver          natureza das relaes econmicas internacio-
JOGOS, TEORIA DOS). Apesar de a teoria dos jo-      nais.
gos ter-se iniciado nos anos 40 (Von Neumann            Ver tambm ESCOLA ECONMICA DE CHICAGO;
e Morgenstern, 1944), seu impacto sobre a eco-      ECONOMIA NEOCLSSICA; NOVA ECONOMIA CLS-
nomia foi, durante muitos anos, apenas margi-       SICA; EXPECTATIVAS RACIONAIS, HIPTESE DAS.
nal. Isso tem mudado drasticamente nas duas
ltimas dcadas. Mesmo que a teoria pura dos        Leitura sugerida: Arrow, K.J. 1951: Social Choice
                                                    and Individual Values  Hicks, J.R. 1939: Value and
jogos ainda possa cair no abismo entre a elegn-    Capital  Keynes, J.M. 1936: The General Theory of
cia abstrata da matemtica e os interesses pr-     Employment, Interest and Money  Samuelson, P.A.
ticos das cincias sociais, o modo de anlise da    1947: Foundations of Economic Analysis  Schumpe-
teoria dos jogos continuar conosco por algum       ter, J.A. 1954: A History of Economic Analysis  Sraf-
tempo.                                              fa, P. 1960: Production of Commodities by Means of
    Um dos motivos para o longo hiato entre o       Commodities.
nascimento da teoria dos jogos e suas apli-                                              KAUSHIK BASU
caes  que a teoria dos jogos extensos (isto ,
que so jogados no decorrer do tempo) estava        cincia poltica Esta disciplina dedica-se ao
ficando para trs. Na teoria da organizao         estudo dos fenmenos polticos. Esses fenme-
industrial, em que a aplicao da teoria dos        nos so com freqncia encarados como carac-
jogos foi mais ampla, as interaes estratgicas    terizando exclusivamente o governo nacional,
no ocorrem a um piscar de olhos. Estes so         junto com autoridades locais e regionais. De
"jogos" executados no decorrer de longos pe-        fato,  a que a poltica se torna mais visvel.
rodos de tempo, e pode valer apenas para os        Mas na realidade a atividade poltica  geral.
"jogadores" sacrificar o lucro imediato em tro-     Ela ocorre em todas as organizaes, sejam elas
ca da reputao. Para isso, precisamos de jogos     empresas, sindicatos, igrejas ou organizaes
extensos. Apesar de sua origem remontar  obra      sociais. A poltica, assim, pode ser descrita de
de Harold Kuhn no incio dos anos 50, foi           vrias maneiras: como dizendo respeito ao po-
somente nos anos 60 e 70 que a anlise dos          der, lidando com a resoluo de conflitos ou
jogos extensos emergiu como tema plenamente         fornecendo mecanismos para a tomada de de-
desenvolvido.                                       cises. Na verdade, a poltica abrange todas
    Existe um risco de que a pesquisa se veja       essas coisas, uma vez que  o mecanismo atra-
presa no labirinto de descobertas matemticas       vs do qual uma ao coletiva pode ser exercida
e tcnicas de menor monta, enquanto os grandes      em qualquer comunidade, na medida em que
problemas conceituais que nos confrontam fi-        nela no h unanimidade e enquanto a comuni-
cam  espera. Mas essas tendncias j surgiram      dade continua a existir. Se o carter geral da
                                                                                  cincia poltica   81


atividade poltica  hoje amplamente reconhe-        pudesse ser encarado como cincia, mesmo em
cido, essa atividade ainda  analisada principal-    estado embrionrio.
mente em relao a organismos pblicos, em               A cincia poltica, portanto, s surgiu como
parte por motivos histricos, em parte porque a      disciplina depois da primeira metade do sculo
poltica dentro desses organismos afeta direta-      XIX. No entanto, mesmo ento, e durante vrias
mente todos os que vivem em uma dada rea,           dcadas, o crescimento da disciplina permane-
em parte porque os organismos pblicos e o           ceu lento. Direito constitucional, filosofia pol-
estado, em particular, tm formalmente o direi-      tica e histria poltica tomaram parte, de forma
to de controlar a estrutura das outras organi-       variada, nesse crescimento, com a filosofia e a
zaes existentes dentro de seus limites geogr-     histria desempenhando um papel de relevo na
ficos.                                               Gr-Bretanha, enquanto a filosofia e at mesmo
    Alguns encaram o uso da palavra "cincia"        o direito tiveram um papel mais importante no
aplicada ao estudo da poltica como controver-       continente europeu. Na verdade, perto do final
so, pelo menos se lhe dermos um significado          do sculo XX a cincia poltica ainda no ad-
verdadeiramente rigoroso. Esse carter contro-       quiriu um status totalmente independente em
vertido origina-se de diferenas profundas entre     muitas partes do mundo. Na realidade, somente
os eruditos a respeito tanto da natureza dos         nos Estados Unidos, bem como talvez na Es-
fenmenos polticos quanto da capacidade dos         candinvia e em algum pases da Comunidade
observadores de analisarem esses fenmenos           Britnica, a cincia poltica pode ser encarada
"objetivamente". Essas diferenas tambm se          como tendo se tornado verdadeiramente ins-
refletem na distino aguda, geralmente feita        tituda.
pelos prprios cientistas polticos, entre a cin-       Essa falta de autonomia disciplinar afetou o
cia como tal e um ramo da TEORIA POLTICA que        desenvolvimento da cincia poltica. Tambm
 prximo da filosofia poltica e  normativo:       exerceu efeito sobre a natureza e a vitalidade da
se a cincia poltica  o estudo de fenmenos        teoria poltica, especialmente sobre seus as-
polticos, a teoria poltica normativa diz res-      pectos no-normativos. Como em todas as dis-
peito s caractersticas dos valores polticos.      ciplinas, a cincia poltica precisa desenvolver
    Apesar de uma genealogia muito antiga, a         uma teoria, caso deseje compreender os fen-
cincia poltica tal como  hoje conhecida s se     menos que observa. Reconhecidamente, j se
desenvolveu recentemente. Em parte como              destacou que alguns acreditam ser impossvel
conseqncia disso, a profisso de cientista po-     uma teoria autenticamente cientfica da polti-
ltico ainda tem muito poucos praticantes, es-       ca, dada a natureza do comportamento humano,
pecialmente fora dos Estados Unidos. Todos           tanto individualmente quanto em grupos. Os
concordam em que o estudo da poltica remonta        motivos para tal ponto de vista vo desde a
aos gregos, sendo Plato e Aristteles os cria-      viso de que as aes humanas so basicamente
dores da disciplina. O contraste entre as abor-      imprevisveis at a idia de que as situaes
dagens desses dois autores efetivamente ilustra      polticas so demasiado complexas para que
a idia de que a linha divisria entre uma nfase    alguma anlise cientfica seja capaz de desco-
na observao dos fenmenos e uma nfase na          brir, quanto mais de medir, todas as variveis
anlise dos valores sempre existiu, desde o          envolvidas no processo. J se afirmou ainda que
comeo. No entanto o desenvolvimento da              as idiossincrasias dos observadores so inevit-
cincia poltica atravs da Idade Mdia, do          veis e que o que passa por "observao" , em
Renascimento e do perodo moderno foi, na            geral, apenas um reflexo dessas mesmas idios-
melhor das hipteses, muito desigual. Houve          sincrasias.
vrios autores brilhantes, basicamente Ma-               Se esses pontos de vista, inegavelmente, so
quiavel, Bodin, Hobbes, Locke, Montesquieu,          em parte corretos, h tambm uma necessidade
Rousseau e Tocqueville, cujo interesse pela vi-      de compreender melhor a poltica e especial-
da poltica tal como ela efetivamente ocorre era     mente de descobrir amplas regularidades, mes-
amplo, em parte porque queriam melhorar um           mo que estas acabem no constituindo "leis"
status quo que achavam altamente insatisfat-        verdadeiramente cientficas. Para dar apenas
rio. Mas se por um lado esses autores exerceram      alguns exemplos: houve grande interesse em se
grande influncia, por outro no desenvolve-         examinar o relacionamento entre sistemas elei-
ram um ramo acadmico de aprendizado que             torais e sistemas partidrios, ou as condies
82   cincia poltica


scio-econmicas sob as quais a democracia         em favor de se enfatizar o papel dos "acidentes"
liberal tem probabilidades de surgir e se es-       a parte destacada que alguns grandes lderes
tabilizar, ou que sistema, parlamentar ou presi-   polticos parecem ter na formao do destino de
dencial, tem probabilidades de resultar em um      seus pases.  claro, nem tudo  acidente no
governo mais eficaz. As regularidades que po-      contexto da LIDERANA.  possvel descobrir
dem ser descobertas dessa maneira precisam         regularidades, por exemplo, na formao ou no
basear-se em, e ser guiadas por, uma teoria que    desenvolvimento da carreira dos que esto no
possa explicar essas tendncias to amplas.        alto, sejam ministros de governo, lderes de
    Um movimento nesse sentido comeou de          partidos ou funcionrios pblicos de alta hierar-
fato a ocorrer nos anos 50. Numa primeira          quia. Mas o modo como esses homens e mu-
fase, o objetivo era excessivamente ambicioso:     lheres tm probabilidade de se comportar de-
achou-se que era possvel descobrir modelos        pender de outros fatores alm dessas caracte-
gerais verdadeiramente explanatrios. Esses        rsticas e de outros fatores alm do ambiente
modelos eram retirados basicamente da filoso-      poltico: a personalidade tambm desempenha
fia da histria ou da sociologia (ver SOCIOLOGIA   um papel, e a personalidade , antes de qualquer
POLTICA), como foi o caso de dois dos mais        outra coisa, uma caracterstica individual. Al-
bem-sucedidos dentre eles, o MARXISMO e o          gumas pessoas tendem a minimizar o papel dos
FUNCIONALISMO. Houve posteriormente uma            lderes -- existe de fato um grande debate a esse
mudana de nfase para abordagens mais prxi-      respeito --, mas a maior parte dos cientistas
mas das que predominavam na economia, tais         polticos acha difcil e, em casos extremos,
como a escolha racional (ver ESCOLHA RACIO-        impossvel negar que os lderes "fazem diferen-
NAL, TEORIA DA). De maneira geral, os esforos     a". Pois, nesse caso, tero ao mesmo tempo de
feitos nesse nvel de generalidade forneceram      negar qualquer tipo de influncia a um dos
quadros de anlise, mais do que autnticas ex-     elementos mais visveis da vida poltica e, as-
plicaes das caractersticas da vida poltica.    sim, reduzir marcadamente o papel dos fatores
No obstante, constituram um estmulo ao aju-     polticos. Generalizaes em ampla escala po-
darem a estruturar a pesquisa.                     dem, portanto, levar a armadilhas: muito prova-
    Enquanto isso, o debate sobre a viabilidade    velmente, deixaro inexplicada grande parte da
de uma cincia da poltica continuou, apesar       realidade concreta.  preciso, portanto, que s
desses modelos gerais e em certo sentido por       generalizaes se combine o reconhecimento
causa deles -- pois, bem no fundo, a origem        da importncia do contexto particular e dos que
desse debate pode ser encontrada no papel de-      desempenham papis particulares. Esse talvez
sempenhado pelos "acidentes" histricos e pelo     seja o problema mais difcil e o maior de todos
contexto idiossincrsico em que os fenmenos       os desafios com que se defrontam os cientistas
polticos geralmente ocorrem. Dois campos, ou      polticos: mais do que os cientistas sociais, eles
pelo menos duas tendncias, dividem inevita-       precisam combinar o geral com o particular.
velmente os cientistas polticos. Os que acham         Semelhante situao naturalmente afeta a
que os "acidentes" e idiossincrasias desempe-      metodologia da cincia poltica: os cientistas
nham um papel realmente importante na vida         polticos tm de usar grande variedade de ins-
poltica tenderam a recuar das generalizaes      trumentos e tcnicas se quiserem obter alguma
amplas e a sustentar que o estudo da poltica      compreenso da realidade. No existe nenhuma
devia proporcionar lies em vez de tentar dar     metodologia isolada, nenhuma metodologia
explicaes cientficas.                           comum. Os que se ocupam com o estudo da
    Um dos motivos pelos quais tal debate pro-     liderana devem coletar indcios  maneira dos
vavelmente dever continuar sem sequer abran-      historiadores, isto , principalmente a partir
dar-se,  que a vida poltica, e em particular a   de documentos, embora entrevistas tambm
vida poltica no plano dos responsveis pelas      desempenhem um papel importante e crescen-
tomadas de deciso nacionais,  formada mar-       te. A anlise intensiva de eventos importantes
cantemente pela CULTURA POLTICA dos pases e,     -- por exemplo, decises de grande significado
em muitos casos, at das regies. As tradies     em questes domsticas ou internacionais --
polticas e sociais so os mecanismos pelos        tambm precisa basear-se em documentos e
quais as especificidades histricas desempe-       entrevistas, ainda que os esforos se encamin-
nham seu papel. Outro motivo que tambm joga       hem geralmente para a realizao de anlises
                                                                                cincia poltica   83


dentro de um quadro estruturado. Por outro          que modo, e at que ponto, instituies e pro-
lado, quando se examinam acontecimentos que         cedimentos influenciam o comportamento. Do
se repetem com regularidade, como no caso da        ponto de vista geogrfico, muitos estudos do
anlise das carreiras de polticos ou quando est   governo esto se concentrando em uma ins-
em pauta o comportamento de grande nmero           tituio ou em um pas: as observaes feitas
de indivduos, como nos estudos eleitorais, as      anteriormente a respeito do carter idiossin-
tcnicas quantitativas no apenas so mais ade-     crsico de cada sistema poltico so vlidas aqui
quadas como precisam ser usadas caso se deseje      e em geral so vigorosamente propostas por
descobrir tendncias gerais e identificar asso-     especialistas de reas particulares. No entan-
ciaes entre variveis. Na verdade, os estudos     to existem tambm (e cada vez mais) estudos
dos processos de tomada de deciso vm cada         transnacionais, ou envolvendo os governos de
vez mais se baseando tambm em modelos              uma regio (como a Europa), ou abrangendo
matemticos formais, especialmente os desen-        governos em diferentes regies (industrializa-
volvidos em tempos relativamente recentes tais      das e em desenvolvimento), ou tentando ser
como a teoria dos jogos. (Ver JOGOS, TEORIA         autenticamente gerais. Esse ramo da disciplina,
DOS). Por fim, os argumentos diretos, empres-       conhecido como governo comparativo,  por-
tados do direito e da filosofia, prevalecem nos     tanto um elemento central no estudo da poltica.
aspectos da cincia poltica que se ocupam              A administrao pblica analisa a estrutura
basicamente das disposies constitucionais e       e as caractersticas dos organismos pblicos,
administrativas, bem como na teoria poltica        bem como as condies de emprego dos que
normativa e em grande parte da analtica.           dirigem esses organismos. De essencialmente
    A cincia poltica, assim, apresenta grande     descritiva (na Gr-Bretanha e nos Estados Uni-
diversidade. No  um ramo do saber verdadei-       dos) ou preocupada com disposies legais (no
ramente unido. Conforme vimos, nunca o foi.         continente europeu), ela passou a se dedicar
Isso no constitui necessariamente uma desvan-      basicamente  anlise dos tipos de relaciona-
tagem. Nem essa caracterstica  exclusiva da       mentos que surgem dentro e entre organismos
cincia poltica: outros ramos do saber no         pblicos, bem como entre esses organis-
parecem mais unidos de forma aprecivel. Co-        mos e o pblico. A administrao pblica, as-
mo resultado dessas divises, atualmente  pos-     sim, esfora-se por descobrir as condies am-
svel encontrar no apenas a velha distino        plas em que so tomadas as decises pblicas.
entre o estudo de valores e as investigaes        Tenta determinar quais dessas condies so as
empricas, mas cinco aspectos de estudos em-        mais eficazes e mais eficientes na obteno de
pricos que se tornaram campos de investigao      objetivos particulares. Com a expanso do setor
cada vez mais distintos: o estudo do governo        pblico, a crescente variedade de organismos p-
stricto sensu, da administrao pblica, das re-    blicos, bem como a tendncia a uma reduo na
laes internacionais e, mais recentemente, do      diferenciao entre organizaes pblicas e pri-
comportamento poltico e da anlise de polti-      vadas, a especificidade da administrao pbli-
cas pblicas.                                       ca diminuiu e esse ramo da disciplina se aproxi-
    O estudo do governo  o ramo mais antigo        mou do estado das organizaes (e pode at ser
do estudo emprico da poltica. Em sua forma        encarado por alguns como parte dele), que  um
moderna, est em geral intimamente ligado ao        ramo bastante ativo da SOCIOLOGIA.
direito constitucional (em alguns pases origi-         Os estudos de RELAES INTERNACIONAIS
nou-se dele), em particular no continente euro-     tambm tm mudado de forma marcante, dei-
peu. Ocupa-se com o estudo das instituies e       xando de ser um ramo totalmente distinto da
procedimentos que caracterizam os sistemas          histria para se tornar um setor da cincia pol-
polticos atravs do mundo: as instituies e       tica. Isso ocorre, em parte, devido ao reco-
procedimentos que esto sendo estudados po-         nhecimento de que seu interesse maior  pela
dem ser constitucionalmente estabelecidos (co-      poltica entre naes e, em parte, porque a dife-
mo legislaturas ou poderes executivos) ou sur-      rena entre assuntos internos de estado e re-
gir de facto (partidos polticos, por exemplo). O   laes entre estados se tornou menos pronun-
estudo do governo tambm se ocupa, na ver-          ciada. Em resultado do nmero e variedade
dade cada vez mais, com o estudo de padres         crescentes de tipos de associaes entre estados
comportamentais, e especialmente em saber de        e do crescimento de organizaes internacio-
84   cincia poltica


nais no-governamentais, as questes interna-       qual o comportamento dos agentes polticos
cionais e nacionais tm tendido a estar quase       pode afetar as decises, enquanto a adminis-
sempre ligadas. Enquanto isso, em nvel mais        trao pblica diz respeito basicamente s es-
terico, os estudiosos das relaes internacio-     truturas e aos efeitos dessas estruturas. Esse
nais tm buscado modelos gerais para estruturar     ramo de estudos surgiu porque os especialistas
suas anlises. Isso tambm trouxe esse campo        queriam compreender melhor como as decises
de estudos mais para perto do que se pode           eram tomadas em termos concretos, em parti-
encarar como a corrente dominante da cincia        cular at que ponto elas eram (e na verdade
poltica. Apesar de esses modelos gerais no        poderiam ser) tomadas "racionalmente". As-
terem conseguido at agora fornecer mais que        sim, a origem da anlise de poltica pblica
uma orientao em termos amplos, tm tendido        pode ser encontrada na descrio de casos es-
a apontar quadros de anlise, como ocorre em        pecficos. Ela passou rapidamente a um segun-
outro aspectos da cincia poltica. Conseqente-    do estgio mais sistemtico, contudo, no qual
mente, tambm como em outros ramos da cincia       recebeu a ajuda decisiva do desenvolvimento
poltica, o debate entre o papel dos fatores es-    de inmeros instrumentos matemticos, tirados
truturais e o papel do contexto especfico de de-   especialmente da cincia econmica. Esses ins-
terminados eventos continua acirrado.               trumentos tornaram possvel seguir as ramifi-
    Os dois ltimos subsetores importantes da       caes das decises e classificar os tipos de
anlise poltica emprica desenvolveram-se          resultados. Dada a complexidade das decises
mais recentemente, pelo menos como ramos            pblicas nos nveis nacionais e at mesmo sub-
plenamente florescentes da disciplina. O estudo     nacionais, o estudo da formulao de polticas
do comportamento poltico , em muitos senti-       pblicas  encarado por muitos como de impor-
dos, um subproduto da erupo da poltica de        tncia capital para os responsveis pelas toma-
massa na sociedade moderna, em particular no        das de deciso, na medida em que os ajuda a
Ocidente. Tem havido naturalmente um interes-       analisar melhor os problemas com os quais se
se crescente em compreender as bases sobre as       defrontam.
quais as pessoas fazem suas escolhas polticas,         Com a cincia poltica passando assim por
acima de tudo no contexto de eleies. Esse tipo    uma expanso de vulto no decorrer das ltimas
de investigao precisa valer-se de abordagens      dcadas do sculo XX, sua influncia natural-
e mtodos diferentes dos convencionalmente          mente tem crescido de forma aprecivel. Ela
adotados no estudo do governo ou da adminis-        ainda tem dificuldades importantes na previso
trao pblica. A sociologia e a psicologia tm     de resultados, sejam resultados de eleies ou
dado uma ajuda marcante ao desenvolvimento          de problemas de deciso de alto nvel, mas
das anlises de comportamento poltico, ao for-     outras cincias sociais tambm passam por di-
necer a conceitualizao e as tcnicas, enquanto    ficuldades para fazer previses precisas. Ao
a economia, mais recentemente, tambm tem           mesmo tempo, a necessidade de se dedicar a um
desempenhado um papel significativo na ava-         estudo sistemtico das tendncias polticas e,
liao das escolhas eleitorais. Nesse meio tem-     assim, compreender os acontecimentos polti-
po, os estudos do comportamento poltico am-        cos  algo cada vez mais reconhecido tanto pelo
pliaram-se para a anlise das elites, em particu-   pblico em geral quanto pelos prprios res-
lar com respeito a membros de partidos, legis-      ponsveis pelas tomadas de deciso, sejam es-
ladores e funcionrios pblicos. O objetivo        tes polticos ou funcionrios pblicos de car-
descobrir as motivaes dos que pertencem a         reira. Talvez seja natural que estes ltimos, em
esses grupos e ver como tais motivaes se          geral, se tenham mostrado relutantes em dar
traduzem em comportamento.                          grande importncia  anlise das estruturas em
    O estudo de anlise de polticas pblicas      que operam, bem como ao estudo de seu prprio
o mais recente subsetor da cincia poltica. Tem    comportamento dentro dessas organizaes.
origem na administrao pblica, mas dela di-       No entanto esses sentimentos esto sendo gra-
fere de um modelo que no  totalmente diverso      dualmente superados,  medida que padres de
daquele com que os estudos do comportamento         vida poltica vo sendo identificados com mais
poltico tiveram origem, e se mostrou diferente     preciso em vrios nveis. Dessa forma, a cin-
tambm do estudo do governo. A anlise de           cia poltica preenche uma funo essencial, que
polticas pblicas diz respeito ao modo pelo         a de ajudar os cidados a adquirir melhor
                                                                                   cincias cognitivas   85


compreenso dos fenmenos polticos e, assim,            em dois paradigmas gerais. Durante a primeira
exercerem maior influncia sobre sua comuni-             fase de desenvolvimento o paradigma predomi-
dade e sobre a sociedade como um todo.                   nante foi uma viso simblico-processadora da
                                                         mente, que passou a ser conhecida como a
Leitura sugerida: Almond, G.A. e Powell, G.B. 1976:
Comparative Politics  Barry, B. 1965: Political Argu-    "hiptese do sistema de smbolos fsicos" (Ne-
ment  Blondel, J. 1981: The Discipline of Politics       well e Simon, 1976), ou "cognitivismo cls-
 Dahl, R.A. 1963: Modern Political Analysis  Downs,      sico" (Clark, 1989). Segundo esse ponto de
A. 1957: An Economic Theory of Democracy  Easton,        vista, a cognio consiste na manipulao, por
D. 1953: The Political System  Harrop, M. e Miller,      algoritmos ou regras, de dados que so simb-
W.L. 1987: Elections and Voters  Inglehart, R.F. 1977:   licos, explcitos, precisos, estticos e de carter
The Silent Revolution  Morgenthau, H.J. 1968: Poli-
tics among Nations  Simon, H.A. 1947: Adminis-
                                                         passivo.
trative Behavior.                                            Um paradigma alternativo, conexionista,
                                         J. BLONDEL      surgiu originalmente do trabalho com simu-
                                                         laes computadorizadas de redes neurais. O
cincias cognitivas Uma investigao re-                 "conhecimento" de uma rede de conexes de
cm-formada e interdisciplinar da cognio e             um computador consiste no em dados simb-
do conhecimento, esta rea da cincia vale-se            licos e instrues para sua manipulao, mas no
principalmente da psicologia cognitiva, da in-           padro dos "valores de ativao" das unidades
teligncia artificial, da filosofia da mente, da         individuais que formam a rede e nos "pesos" ou
lingstica e da neurocincia.                           foras de conexo entre elas. Acredita-se que as
    O computador desempenha um papel vital e             capacidades dessas redes para o aprendizado, a
duplo nesse empreendimento. Por um lado, a               degradao decorosa (degradao gradual no
crena de que a cognio tem um carter de               desempenho, dado um input impreciso), a ge-
computao, de processamento de informao,              neralizao e a complementao de informa-
comportando semelhanas importantes com as               es parciais indiquem fidelidade ao processo
atividades de um computador, constitui o centro          cognitivo natural (Rumelhart e McClelland et
conceitual da cincia cognitiva. Por outro lado,         al., 1986; Smolensky, 1988; Clark, 1989). A
a criao e o estudo de programas de computa-            viso correlata da cognio  a de uma atividade
dor visando servir como modelos funcionais de            no-baseada em regras, na qual os dados so
processos cognitivos fornece um mtodo cru-              representados de modo dinmico e, em alguns
cial de investigao.                                    casos, distribudo, implcito e impreciso.  re-
    A influncia e o carter da perspectiva com-         levante tambm que a implementao de uma
putacional da mente podem ser vistos na termi-           rede conexionista com hardware corra parale-
nologia de "algoritmos", "dado", "informa-               lamente, e com isso se acredita que reproduza
o", "mecanismos", "mdulos", "processos",              a atividade do crebro melhor do que a habitual
"representaes", "sintaxe" e assim por diante           arquitetura computadorizada seqencial de von
que permeia a literatura da cincia cognitiva.           Neumann.
    A abordagem computacional da cognio                    As diferenas e oposies entre essas duas
surgiu em meados dos anos 50, o Harvard Cen-             abordagens gerais da construo de modelos
ter for Cognitive Studies foi inaugurado em              cognitivos podem, porm, ser exageradas, e
1960, o peridico Cognitive Science surgiu em            alguns trabalhos recentes tm afirmado que elas
1977 e a Cognitive Science Society foi fundada           so, na verdade, complementares e tm tentado
em 1979. Os anos 80 viram cursos universit-             combin-las em sistemas hbridos.
rios de cincia cognitiva surgirem nos Estados               Na filosofia da mente, vem sendo dada uma
Unidos e na Europa, e, entre muitas publicaes          ateno considervel  plausibilidade da viso
uma histria completa do campo em Gardner                computacional da mente e a tpicos correlatos
(1985), o primeiro manual de estudos em Stil-            tais como a "hiptese da linguagem do pensa-
lings et al. (1987), uma introduo para os              mento", a etnopsicologia e a resposta "fun-
leigos em Johnson-Laird (1988) e uma im-                 cionalista" ao problema mente-corpo (Lycan,
portante coletnea de dissertaes em Posner             1990; Said et al., 1990).
(1989).                                                      Em sua breve histria, a "nova cincia da
    A variedade do trabalho feito nesse campo           mente" produziu um conjunto de obras subs-
considervel, mas grande parte dele se encaixa           tantivo e alm disso uma intensa interao entre
86   cincia social, filosofia da


suas disciplinas componentes. A cincia cogni-           tremo. Para alguns, a cincia ocidental como
tiva, no momento, tem um carter distintamente           um todo  profundamente suspeita, incorporan-
mecanicista e "racionalista" (Winograd e Flo-            do uma forma de racionalidade e uma orienta-
res, 1986) e no est interessada basicamente            o com relao  natureza que so intrinseca-
em fatores como subjetividade, sentimento ou             mente destrutivas e opressivas com respeito a
cultura. No obstante, a atribuio de uma na-           suas vtimas tanto naturais quanto humanas. Por
tureza computacional particular a alguns as-             esse ponto de vista, os padres predominantes
pectos da mente no implica que toda atividade           de opresso social e cultural esto enraizados
mental seja desse tipo, e o futuro da cincia            num projeto de dominao da natureza que 
cognitiva pode vir a confirmar uma pluralidade           implcito  prpria racionalidade da cincia.
de abordagens das muitas manses da mente.               Uma outra abordagem (caracterstica dos auto-
    Ver tambm INTELIGNCIA ARTIFICIAL; LIN-             res neomarxistas da ESCOLA DE FRANKFURT de
GSTICA.                                                Teoria Crtica) reconhece uma esfera de aplica-
                                                         o legtima para os mtodos emprico-analti-
Leitura sugerida: Clark, A. 1989: Microcognition:        cos da cincia, mas denuncia como "cientificis-
Philosophy, Cognitive Science, and Parallel Dis-
tributed Processing  Gardner, H. 1985: The Mind's        mo" as tentativas de subordinar disciplinas tais
New Science  Johnson-Laird, P.N. 1988: The Compu-        como a psicologia, a sociologia e a anlise
ter and the Mind  Posner, M. 1989: Foundations of        cultural a esse regime metodolgico. A perti-
Cognitive Science  Rumelhart, D.E., McClelland, J.L.     nncia poltica mais ampla dessa crtica ao
e PDP Research Group 1986: Parallel Distributed          "cientificismo" deriva da viso, tambm am-
Processing: Explorations in the Microstructure of Cog-   plamente compartilhada pelos Tericos Crti-
nition, 2 vols.  Smolensky, P. 1988: "On the proper
treatment of connectionism". Behavioural and Brain       cos, de que as formas da razo ligadas  cincia
Sciences 11, 1-74  Stillings, N.A. et al. 1987: Cogni-   e a autoridade cognitiva a ela conferida trans-
tive Science: an Introduction.                           formaram-se nas fontes bsicas de legitimidade
                                 DONALD PETERSON         nas sociedades industriais modernas. O apelo 
                                                         especializao e a representao cientificista de
cincia social, filosofia da Ver FILOSOFIA DA            tpicos morais e polticos inerentemente con-
CINCIA SOCIAL.
                                                         trovertidos como questes de clculo tcnico
                                                         esto associados a uma esfera pblica cada vez
cientificismo Desde o surgimento da cincia              mais estreita e  reduo da participao demo-
moderna, nos sculos XVI e XVII, seus defen-             crtica. Ao mesmo tempo, a capacidade tcnica
sores tm reivindicado um status especialmente           das sociedades industriais modernas de "cum-
autorizado para os seus julgamentos e um resul-          prir suas promessas" e manipular os desejos dos
tado universalmente benfico para suas apli-             consumidores de massa tende a tornar toda e
caes tcnicas potenciais. Uma primeira ex-             qualquer oposio aparentemente irracional e
presso desse entusiasmado otimismo quanto              sem valor.
cincia foi um texto utpico de Francis Bacon,               A oposio  cincia como forma intrinse-
The New Atlantis. A posterior integrao da              camente totalitria de domnio social  tambm
cincia com o desenvolvimento da tecnologia              um tema difundido no pensamento ps-estrutu-
industrial e militar levou a sucessivas ondas de         ralista, em especial na obra de Foucault, que
hostilidade desiludida, em que a viso cientfica        liga a formao das cincias humanas a formas
da natureza era desacreditada como empobre-              caracteristicamente modernas de poder social
cida e seu projeto prtico denunciado como               em instituies tais como a priso, o asilo e o
uma busca de domnio exploradora, destrutiva             hospital.  plausvel dizer que as crticas ao
e autofrustrante.                                        "cientificismo" montadas tanto por Foucault
   A palavra "cientificismo" faz parte do arse-          quanto pelos Tericos Crticos no conseguem
nal verbal dos herdeiros modernos dessa crtica          diferenciar entre a cincia, por um lado, e os
da cincia, mas no lhes  exclusiva. Em seu             projetos utpicos ou distpicos de seus pro-
uso mais difundido, a palavra reprova qualquer           pagandistas, por outro. Se a cincia  emprega-
ampliao da cincia ou do mtodo cientfico             da de modo predominantemente opressivo e
alm do seu mbito cientfico. Mas exatamente            destrutivo, isso pode dever-se ao fato de ser ela
o que constitui esse "mbito legtimo" , evi-           empregada em uma sociedade que , ela sim,
dentemente, uma questo controvertida ao ex-             opressiva e destrutiva.
                                                                                        cinema    87


   Ver tambm    REVOLUO CIENTFICO-TECNO-        indstria europia pela Primeira Guerra Mun-
LGICA.                                             dial -- global.
                                    TED BENTON          Foi tambm durante a segunda dcada do
                                                    sculo que se estabeleceram as normas do estilo
cientfico-tecnolgica, revoluo Ver        RE-    clssico de Hollywood. Desenvolveram-se tc-
VOLUO CIENTFICO-TECNOLGICA.                     nicas para reproduzir as convenes de motiva-
                                                    o de personagens e desenvolvimento nar-
cinema Este termo refere-se s tecnologias e        rativo, familiares em funo de formas popu-
prticas institucionalizadas atravs das quais os   lares existentes. Montagem, iluminao, en-
filmes, e especialmente os filmes narrativos        quadramento de planos e uso de close-ups, tudo
ficcionais so produzidos, distribudos, exibi-     isso foi utilizado a fim de produzir uma histria
dos e consumidos. Embora as tcnicas capazes        coerente e plausvel para o espectador, uma
de produzir a iluso da imagem em movimento         iluso de aes desenrolando-se dentro de um
sejam h muito conhecidas, o cinema como tal        espao unificado no decorrer de um tempo con-
s comea a existir no apagar das luzes do          tnuo.
sculo XIX. Thomas Edison registrou patentes            Esse estilo de realizao cinematogrfica
do Kinetograpf e do Kinetoscope em 1891, e foi      prestava-se  eficincia industrial, com um pro-
em meados da dcada de 1890 que companhias          dutor supervisionando a utilizao mais econ-
como a Mutoscope, nos Estados Unidos, e Ir-         mica da mo-de-obra, dos estdios de filmagem
mos Lumire, na Frana, comearam a exibir         e do equipamento em diversos filmes ao mesmo
filmes para platias em teatros de vaudeville e     tempo. Esse sistema taylorista de trabalho foi
outros espaos pblicos.                            pouco afetado pelo advento do som e do dilogo
    Nos primeiros anos do novo sculo o cinema      gravados no final dos anos 20. A essa altura os
comeou a surgir como veculo de massa nos          cinco principais estdios de Hollywood (Para-
Estados Unidos, onde lojas transformadas em         mount, MGM, Fox, Warner Bros. e RKO) j
salas de exibio -- os nickelodeons -- propor-     haviam alcanado um grau extraordinrio de
cionavam divertimento barato para uma platia       integrao vertical da produo, distribuio e
proletria, urbana e em grande parte composta       exibio. Este s foi rompido, ao menos parcial-
de imigrantes. Em 1908 dez dos principais pro-      mente, pelo impacto conjunto da legislao an-
dutores de filmes e fabricantes de cmaras e        titruste e do surgimento da televiso, depois da
projetores formaram um cartel, a Motion Pic-        Segunda Guerra Mundial. A partir de ento
ture Patents Company, a fim de arrancar lu-         Hollywood conheceu um crescimento econ-
cro da jovem indstria atravs da explorao        mico extraordinrio. Para competir com a he-
de suas patentes de tecnologias das cmaras,        gemonia global de Hollywood, outras inds-
matrizes e projetores. Conseguiram convencer        trias cinematogrficas tiveram ou de imitar sua
banqueiros a investir no cinema e a criar um        produo ou de oferecer gneros e estilos alter-
mercado nacional de distribuio. No obs-          nativos.O expressionismo de diretores como
tante, no conseguiram fazer frente ao desafio      Fritz Lang, Georg Wilhelm Pabst e Friedrich
de produtores independentes que, longe da base      Murnau, nos anos 20, foi em parte uma tentativa
nova-iorquina do truste, estavam fazendo fil-       dos estdios alemes de abrir uma brecha no
mes nos arredores de Los Angeles, especial-         mercado internacional. E mesmo quando Ser-
mente em Hollywood.                                 gei Eisenstein, Lev Kuleshov e Dziga Vertov
    Esses produtores, os arquitetos do sistema      estavam realizando suas inovaes radicais, a
de estdio, aproveitaram as vantagens da Cos-       grande maioria dos filmes efetivamente exibi-
ta Oeste: terra barata, clima ameno, paisagens      dos na Unio Sovitica era importada de Hol-
temperadas para serem usadas como locaes e        lywood. Ainda assim, a idia de um "cinema
mo-de-obra no-sindicalizada. Em vez de ven-       nacional", a voz autntica atravs da qual um
der filmes a metro, ofereciam para aluguel nar-     pas supostamente se exprime, sempre teve um
rativas mais longas, apresentando figuras fic-      significado cultural maior do que o sucesso
cionais familiares e depois, cada vez mais, as-     marginal de bilheteria dos filmes produzidos
tros famosos como intrpretes. Tambm conse-        indicaria. Entre outros exemplos, poderiam in-
guiram o controle da distribuio de filmes no      cluir-se o movimento britnico de document-
mbito domstico e -- graas  devastao da        rios, nos anos 30, o cinema neo-realista, que
88   civil, sociedade


tentou articular uma nova identidade italiana na    "invisveis" de Hollywood, afirmavam, ofere-
esteira do fascismo e da derrota, e, cada vez       ciam ao espectador uma posio de coerncia e
mais, nos anos recentes, uma variedade de ci-       onipotncia imaginrias, a iluso de uma sub-
nemas do Terceiro Mundo. (Ver tambm SOCIO-         jetividade unificada, transcendental.  por isso
LOGIA DA ARTE.) Sempre houve formas de reali-       que o cinema pode ser encarado como um pa-
zao cinematogrfica menos preocupadas             radigma para os mecanismos da IDEOLOGIA, par-
com a popularidade de bilheteria do que com o       ticularmente quando se relacionam a questes
potencial do filme como meio de experincia         de identificao e diferenciao sexual. Esse
de vanguarda ou como ferramenta de poltica         modelo desde ento vem sendo contestado,
radical.                                            com base tanto histrica quanto terica. No
    As teorias sobre as possibilidades estticas    obstante, ele conseguiu identificar com sucesso
do cinema e suas funes sociais comearam a        a importncia dual do cinema.  uma indstria
surgir umas duas dcadas depois da primeira         global imensamente importante. Acima de tu-
exibio comercial de um filme. Em 1916, por        do, porm, atravs da disseminao em massa
exemplo, o poeta Vachel Lindsay props uma          de roteiros fantasiosos, o cinema tem sido o
sociologia whitmaniana do cinema como um            arquiteto decisivo do imaginrio popular no
elemento de uma emergente democracia "hie-          sculo XX.
roglfica" norte-americana, e um filsofo de            Ver tambm CULTURA DE MASSA; COMUNICA-
Harvard, Hugo Mnsterberg, props a primeira        O DE MASSA.
explicao da dinmica mental do espectador
                                                    Leitura sugerida: Andrew, J.D. 1976: The Major Film
no ato de assistir ao filme. Desde ento tericos   Theories  Bordwell, D., Staiger, J. e Thompson, K.
tentam definir a natureza mpar do cinema co-       1985: The Classical Hollywood Cinema  Hansen, M.
mo meio esttico e tambm especificar suas          1991: Babel and Babylon: Spectatorship in American
funes sociais concretas e potenciais. Com         Silent Film  Penley, C., org. 1988: Feminism and Film
freqncia os dois aspectos esto ligados, como     Theory  Rosen, P., org. 1986: Narrative, Apparatus,
nos tericos e cineastas soviticos dos anos 20.    Ideology  Sitney, P.A. 1974: Visionary Film: the Ame-
                                                    rican Avant-Garde Film.
Contra as teorias de Eisenstein, que definiam a
                                                                                        JAMES DONALD
montagem como a chave da experincia cine-
matogrfica, Andr Bazin construiu uma anto-
                                                    civil, sociedade Ver SOCIEDADE CIVIL.
logia do cinema altamente influente. Ele afir-
mava que o filme  (ou deveria ser) acima de        civilizao Do latim civis, cidade, a palavra
tudo uma arte da realidade, um meio com capa-       civilizao diz respeito explicitamente  CULTU-
cidade nica de reproduzir a experincia de uma     RA das cidades, algo que Karl Marx nos lembrou
realidade inerentemente ambgua.                    ao afirmar que a sede da civilizao antiga era a
    Nos anos 60 e 70 o cinema tornou-se o foco      cidade (Grundrisse, 1857-58) e que o que Aris-
de um conjunto extremamente animado de de-          tteles queria dizer com zoon politikon era sim-
bates que se apoiavam na SEMITICA, no es-          plesmente que o homem  um habitante das
truturalismo e no ps-estruturalismo, no mar-       cidades (O capital, vol.1). Max Weber, seguin-
xismo authusseriano e na psicanlise lacaniana.     do a percepo de Marx, analisou a cidade sob
O cinema foi teorizado como um aparato: isto        quatro aspectos: a cidade como uma entidade
, como tecnologia usada para fins culturais e      ou local geogrfico ou espacial; a cidade como
ideolgicos, e ao mesmo tempo como uma              mercado, ou cidade mercantil para produtores;
disposio especfica de tcnicas semiticas        a cidade fortificada; e a cidade consumidora,
que apelam  dinmica do desejo e da fantasia.      que se mantm  custa da corte. A antiga cidade
A platia cinematogrfica era encarada tanto        grega do soldado hoplita caracterizava-se por
como determinante quanto como conseqncia          direitos civis conferidos como o quid pro quo
desse aparato. Toricos como Jean-Louis Co-         para o servio militar, mas a cidade medieval
molli, Jean-Louis Baudray, Christian Metz, Ste-     desfrutou dos direitos de auto-regulamentao
phen Heath e Laura Mulvey tentaram demons-          municipal e comercial precisamente em virtude
trar de que modo os cdigos simblicos do           da iseno do servio militar (Weber, 1921-2,
cinema predominante simultaneamente acio-           cap."The city").
nam e disfaram estratgias de manipulao da           A civilizao antiga literalmente controlava
mente do espectador. As tcnicas de narrativa       o interior a partir da cidade. As cidades antigas
                                                                                     civilizao   89


da Mesopotmia, por exemplo, chegavam a             individual, da diviso desigual do excedente
incluir campos e plantaes de tmaras que          econmico, das psicoses e neuroses produzidas
eram cultivados por empresrios urbanos, com        pela propenso  comparao e da concorrncia
capital de risco e escravos, dentro dos muros da    econmica e social que a civilizao faz surgir
cidade, motivo pelo qual eram to extensos.         -- apia-se em uma longa tradio da crtica da
Essa situao s se reverteria na Idade Mdia       civilizao que encontramos na teoria dos "qua-
europia, quando, como nos conta Max Weber,         tro estgios" civilizatrios. Tem suas razes no
a sede da propriedade fundiria coincidia com       pensamento estico e foi desenvolvida durante
o locus do poder -- no campo -- e as cidades        o Iluminismo por Rousseau, Diderot e os mem-
existiam principalmente como mercados para a        bros do Iluminismo escocs, Adam Smith e
troca do excedente produzido pelos nobres em        Adam Ferguson.
suas imensas propriedades.                              Atravs de vrias disciplinas, os estudiosos
    A distino feita por Weber entre a economia    tm observado atualmente certas insuficincias
antiga e o modo burgus de produo, tal como       no cnone histrico normalmente aceito, que
a feita por Marx, apia-se portanto em uma          postula um esquema evolucionista, do primiti-
distino tanto regional quanto cronolgica en-     vismo  plis e  civilizao (ocidental) moder-
tre as culturas urbanas densamente populosas,       na, com os estados do Oriente constituindo uma
empresariais, litorais ou ribeirinhas da bacia do   categoria residual. Estudos de assiriologia, ira-
Mediterrneo e a vida agrria descentralizada       nologia e egiptologia, entre outras reas de
das tribos germnicas e clticas, organizadas       especializao, revelam civilizaes antigas al-
em famlias patriarcais. A primeira era uma         tamente desenvolvidas que exibiam consider-
civilizao com base na cidade, poltica no         vel competncia tecnolgica. Mais inquietante
sentido literal da palavra, pois fundamentada na    ainda  o fato de as capacitaes econmicas e
plis, ou cidade. A segunda, econmica no sen-      tcnicas serem acompanhadas por todo o elenco
tido literal, de oikos, ou famlia, a economia de   de caractersticas sociais e culturais que cos-
ncleos familiares amplos. A distino webe-        tumamos associar ao "desenvolvimento" tal co-
riana entre homem econmico e poltico, feita       mo atualmente concebido (ver tambm DESEN-
dessa maneira,  assumida pela filsofa polti-     VOLVIMENTO E SUBDESENVOLVIMENTO). A capaci-
ca Hannah Arendt, que compara desfavoravel-         dade de as chamadas "sociedades de irrigao"
mente a sociedade moderna, baseada na econo-        da antiga Sumria, mais geralmente da Meso-
mia de gerenciamento domstico generalizado,        potmia, e do Egito e da China realizarem a
com o ideal do cidado clssico, e por Gunnar       transio de cidade-estado a imprio, transio
Myrdal (1953), que fez um estudo do desenvol-       que a plis grega, por exemplo, nunca realizou
vimento dessa forma moderna de economia.            (Mann, 1986), foi precisamente uma funo das
    Na Alemanha, a partir do final do sculo        seguintes capacitaes desenvolvimentistas:
XIX, floresceu uma tradio de crtica ps-mo-          1. governo impessoal administrado por uma
derna, incluindo obras sobre a decadncia do                burocracia;
Ocidente de Oswald Spengler (que teve um                2. concepo do homem como cidado;
equivalente britnico em Arnold Toynbee) e,             3. formas de representao poltica;
mais tarde, membros da Escola de Frankfurt,
                                                        4. criao de um excedente econmico;
especialmente Theodor Adorno, Max Hork-
heimer e Herbert Marcuse. O mal-estar na ci-            5. economia monetarizada, acompanhada
vilizao (1930), de Sigmund Freud, tambm                  pelas instituies do crdito, do direito
pode ser lido de modo mais preciso como uma                 comercial, dos tratados comerciais e de
obra sobre a cultura ou civilizao urbana no               leis regendo os contratos internacionais;
sentido literal, sendo sua a idia de que a civi-       6. exrcito permanente, equipado com
lizao vive da represso, canalizando a energia            avanada tecnologia militar;
sexual sublimada para projetos culturais, tal           7. estratificao social segundo linhas fun-
como atestam os grandes monumentos arts-                   cionais, compreendendo classes de agri-
ticos e as culturas requintadamente construdas             cultores, artesos, mercadores, uma eli-
da cidade antiga e moderna. Em alguns as-                   te administrativa e uma casta sacerdotal;
pectos, a crtica da civilizao feita por Freud         8. conceito da natureza como sendo gover-
-- em termos do que ela custa  gratificao                nada por leis racionais;
90   civilizao


     9. instituies para a aquisio, organiza-   (como mais tarde Solon) prometeu libertar os
         o e disseminao do conhecimento;       que estivessem presos por dvidas.
    10. desenvolvimento da escrita e das cin-         Alguns dos melhores indcios de que dis-
         cias bsicas da matemtica, geometria,    pomos do governo exercido por uma burocracia
         astronomia, navegao, arquitetura, en-   impessoal so exibidos por um stio arqueol-
         genharia e habilidades altamente desen-   gico trimilenar, o de Ebla, na Mesopotmia, na
         volvidas na construo, metalurgia, ce-   forma de aproximadamente 20 mil tabuinhas de
         rmica, tecelagem, escultura e pintura    barro. Cidade prspera com cerca de 260 mil
         (Drucker, 1979; Mann, 1986.)              habitantes, Ebla era governada por um rei, um
    No sculo XX tm ocorrido inmeras rein-       conselho de ancios e cerca de 11.700 burocra-
terpretaes desse tipo. Para usarmos o exem-      tas, cujos livros-razo, dirios e inventrios res-
plo da Sumria, estudiosos (Diakonoff, 1974;       pondem por aproximadamente 13 mil tabui-
Jacobsen, 1976; Kramer, 1963; Oppenheim,           nhas de barro (Bermant e Weitzman, 1979;
1969) apontam hoje em dia que cidades-estados      Matthiae, 1980). Outros indcios de uma supre-
como as de Lagash eram administradas por           macia da lei (ver tambm LEI) administrada
burocracias paralelas, religiosas e palacianas,    burocraticamente vo ser encontrados nos dis-
cujos agentes exigiam a mtua ratificao de       positivos de uma srie de codificaes do direi-
                                                   to consuetudinrio da regio, desde o Cdigo
assinaturas nos carregamentos que entravam
                                                   de Ur-Namu, de 2050 a.C., at e inclusive o
e saam dos celeiros do estado, por exemplo
                                                   famoso Cdigo de Hamurbi. O Cdigo de
(Oppenheim, 1969, p.7ss). As terras consider-
                                                   Ur-Namu defendia os direitos de rfos, vivas
veis da cidade compreendiam os complexos do
                                                   e pequenos proprietrios de terras contra os
palcio e do templo assim como seus bens; as       poderosos "tomadores de propriedades". Pro-
propriedades da nobreza e as terras dos plebeus    movia a regulamentao do mercado, atravs
eram organizadas em "cls patriarcais e comu-      da introduo de pesos e medidas padro, ins-
nidades municipais", cuja propriedade podia        tituindo uma tabela de multas por infraes das
ser comprada e vendida por representantes es-      leis de amparo ao comrcio, em harmonia com
colhidos pela famlia em transaes para as        outros cdigos da regio, incluindo o hitita. As
quais, por volta de 2400 a.C. j dispomos de       atas dos tribunais relativas a esse perodo regis-
indcios documentais (Kramer, 1963, p.75-7).       tram litgios com respeito a "contratos de casa-
Correspondendo a essas hoje clssicas divises     mento, divrcios, herana, escravos, aluguel
da propriedade, havia uma diviso surpreen-        de barcos, reivindicaes de todos os tipos, cau-
dentemente convencional do poder poltico.         es e hipotecas, e questes variadas, tais como
Por volta de 2300 a.C., existem indcios de uma    investigaes para a informao de processos,
assemblia bicameral, em Lagash, sendo a c-       intimaes, furto, danos  propriedade e mal-
mara alta controlada pela nobreza e a inferior,    versao no exerccio do cargo" (Kramer, 1963,
restrita aos plebeus, com o acesso garantido por   p.84-5).
meio de qualificaes de base fundiria. As            Tambm no antigo Egito, embora fosse tal-
magistraturas, nomeadas em base anual, cum-        vez uma sociedade menos litigiosa, as transa-
priam um rodzio entre uma elite isonmica         es envolvendo propriedades eram uma ques-
constituda pelas classes judiciria, adminis-     to carregada de documentos, com inventrios
trativa e mercantil (Oppenheim, 1969). Lagash      incluindo cada documento ligado a determina-
tem a honra de registrar em seus anais o primei-   da propriedade (Lloyd, 1983, p.314; Pestman,
ro uso conhecido da palavra "liberdade" (Kra-      1983). O antigo Egito  geralmente descrito
mer, 1963, p.79), celebrada no documento da        como o estado centralizado arquetpico, com
reforma de Urukagina, de c.2350 a.C., em ter-      base, de acordo com a teoria marxista do "modo
mos espantosamente reminiscentes da seisa-         de produo asitico" ou teorias posteriores
chtheia de Solon, quase 1.800 anos depois.         sobre o "despotismo oriental", por exemplo, no
Liberdade significava precisamente a proteo      controle da gua. Mas, ao contrrio dessas pres-
contra espoliaes por parte do coletor de im-     suposies, o antigo Egito, no incio de sua
postos do palcio, bem como a reparao de         histria tambm se caracterizou por um desen-
abusos administrativos por parte da "burocracia    volvimento independente da cidade (Bietak,
ubqua e detestvel" do templo, e Urukagina        1979; Triegger, 1983, p.40, 48), sistemas de
                                                                                     civilizao   91


patrocnio privado e da nobreza (Kemp, 1983,         ber continua alegando -- o que  surpreendente,
p.83-5) e um alto nvel de individualismo, como      uma vez que se trata de seu assunto especial --
fica atestado pelas assinaturas pessoais de artis-   que  uma realizao do Ocidente dotar as suas
tas j em obras to antigas quanto as pirmides      burocracias de uma organizao de funcion-
de Giz (Drucker, 1979, p.44).                       rios especialmente treinados. Mais surpreen-
    No  necessrio relacionar em detalhes as       dente ainda  sua afirmao de que a organiza-
realizaes tecnolgicas da Mesopotmia e do         o do trabalho baseada na liberdade de contra-
Egito antigos. Vale a pena destacar, no entanto,     to  um triunfo do Ocidente. Mas estipulaes
que cada um dos exemplos que Max Weber               com respeito  liberdade de contrato podem ser
oferece em seu prefcio a A tica protestante e      encontradas nos mais antigos cdigos mesopo-
o esprito do capitalismo (1904-5), para de-         tmicos conhecidos -- no Cdigo de Hamur-
monstrar a superioridade administrativa, cien-       bi, por exemplo --, incluindo um extenso tra-
tfica e tcnica do Ocidente sobre o Oriente,       tamento dos contratos de trabalho tanto agrco-
errado. A pressuposio do desenvolvimento           las quanto comerciais, no que diz respeito a
ocidental e do subdesenvolvimento oriental          taxas de salrio, delitos e responsabilidades
to onipresente que um pensador que passou           envolvendo gado, agricultores, implementos
boa parte da vida escrevendo a respeito de           agrcolas, pastores e carroas, bem como mo-
sistemas orientais no sentiu a menor neces-         de-obra e salrios sazonais, ao lado de taxas de
sidade de conferir os fatos. Ele alega que          salrio para artesos (Driver e Miles, 1962-5).
astronomia babilnica faltava base matemtica,           Se a diviso e a especializao do trabalho
deixando de mencionar tambm a inveno da           so ndices do nvel de desenvolvimento de
geometria como sendo egpcia (cf. King, 1978,        civilizaes, as sociedades pr-modernas tiram
1980). Afirma que s tradies jurdicas do          notas altas, com a Roma antiga registrando
Oriente faltavam a qualidade sistemtica do          cerca de 150 corporaes profissionais, o Cairo
direito romano e cannico -- enquanto que, na        medieval umas 265 ocupaes manuais, 90 ti-
verdade, o direito romano deriva dos estatutos       pos de especializaes bancrias e comerciais,
das provncias orientais, codificados por dois       e por volta do mesmo nmeros de diferentes
jurisconsultos orientais, Papiniano e Ulpiano,       "profissionais, funcionrios, funcionrios reli-
da escola de direito de Beirute (cf. Cumont,         giosos e educadores" (Goitein, 1967, p.99). Em
1911; Driver e Miles, 1952-5). Weber (1904-5)        1801 o Cairo tinha 278 corporaes profis-
afirma ainda que, "embora a base tcnica de          sionais e em 1901 Damasco registrava 435
nossa arquitetura tenha vindo do Oriente (...) ao    ocupaes reconhecidas.
Oriente faltava a soluo para os problemas da           Essas provas colocam em questo os pres-
abbada" -- muito ao contrrio, o Oriente for-       supostos evolucionistas e desenvolvimentistas
neceu a soluo no s para o problema da            a respeito do PROGRESSO econmico e da se-
abbada, mas tambm do arco. Sobre o tema da         qncia de modos de produo subjacente aos
compilao e disseminao do conhecimento,           esquemas macro-histricos dos sculos XIX e
Weber afirma que as universidades ocidentais         XX, incluindo os de Marx e Weber.
so superiores s da China e do isl, "superfi-          O interesse pelo fenmeno da civilizao e
cialmente semelhantes", mas a elas faltando "o       sua dinmica no se limita ao Ocidente e, na
exerccio racional, sistemtico e especializado      verdade, o primeiro grande analista pr-moder-
das cincias, com pessoal treinado e especia-        no, Ibn Khaldun (1332-1406), descreveu no
lizado" -- ele deixa de destacar que universi-       apenas os ciclos de vida endogmicos das civi-
dades islmicas, como a de al-Ajar, eram mais        lizaes, mas tambm a fecundao exogmica
antigas que as do Ocidente, que tampouco co-         cruzada das culturas nmades do deserto e das
mearam a vida como institutos cientficos.          civilizaes sedentrias das antigas cidades.
Indcios da existncia em tempos remotos de          O estudo da cidade e de toda a srie de caracte-
escolas de medicina e de direito nas quais as        rsticas que associamos ao URBANISMO -- po-
mulheres tambm eram admitidas datam na              voamento concentrado; diferenciao interna
verdade do stio arqueolgico trimilenar de          em bairros correspondentes s divises das
Ebla, que tambm fornece listas de metais pre-       profisses; diviso especializada do trabalho;
ciosos, minerais e outras informaes cientfi-      funes como centros industriais e de merca-
cas (Bermant e Weitzman, 1979, p.153-5). We-         do; funes religiosas e de defesa -- surgiu
92   classe


no sculo XX como um dos grandes temas da                   Classes econmicas
investigao sociolgica e histrica,com a obra                 Em sua teoria geral da evoluo da socie-
dos franceses Henri Pirenne, Henri Lefebvre,                dade, Karl Marx destacou pares de classes an-
Gabriel Baer e Fernand Braudel.Arelao entre               tagnicas especficas de cada perodo: escravos
a civilizao e os costumes e a corte, para                 e senhores nas sociedades antigas, servos e
tomarmos uma linha diferente, foi o tema de um              senhores feudais no feudalismo, capitalistas e
estudo fascinante de Norbert Elias (1939).                  operrios no capitalismo. Ele elaborou em deta-
Leitura sugerida: Braudel, Fernand 1967 (1979): Ci-         lhes o conceito de EXPLORAO econmica dos
vilization matrielle, conomie et capitalisme, vol.2       operrios pelos capitalistas, expresso em ter-
 Elias, Norbert 1939 (1978-82): The Civilizing Pro-         mos de extrao de mais-valia. Em seu ponto
cess, 2 vols. Vol.1: The History of Manners; vol.2:         de vista, as relaes de explorao econmica
Power and Civility  Mann, M. 1986: Sources of Social        formam a base da "superestrutura" da socie-
Player, vol.1: A History of Power from the Beginning
to AD 1760  Oppenheim, Adolf L. 1969: "Mesopota-            dade, a saber, ordem poltica e ordem ideolgi-
mia: land of many cities". In Middle Eastern Cities: A      ca: "O poder executivo do estado moderno no
Symposium on Ancient Islamic and Contemporary Mid-          passa de um comit para gerenciar os assuntos
dle Eastern Urbanism, org. por Ira M. Lapidus  Trig-        comuns de toda a burguesia". A IDEOLOGIA do-
ger, Brian J. 1983: "The rise of Egyptian civilization".    minante na sociedade capitalista justifica e san-
In Ancient Egypt: a Social History, org. por B.J. Trigger
e B. Kemp  Weber, Max 1921-2: Economy and Socie-
                                                            ciona a totalidade das relaes sociais que sur-
ty: An Outline of Interpretative Sociology, cap."The        giram sobre o fundamento da explorao eco-
city".                                                      nmica e  funcional no sentido de reproduzi-
                                PATRICIA SPRINGBORG
                                                            las. Marx acreditava que as classes so con-
                                                            juntos de indivduos que, ao adquirirem a cons-
                                                            cincia de uma posio social comum e de um
classe Em seu sentido social, a palavra indica              destino comum, se transformam em agrupa-
grupos amplos, entre os quais a distribuio
                                                            mentos sociais reais, ativos no cenrio poltico.
desigual de bens econmicos e/ou a diviso
                                                            Ele esperava que a explorao econmica levasse
preferencial de prerrogativas polticas e/ou a
                                                            os operrios  revoluo poltica, derrubando a
diferenciao discriminatria de valores cultu-
                                                            sociedade capitalista e limpando o terreno para
rais resultam respectivamente da explorao
econmica, da opresso poltica e da domina-                uma sociedade nova e socialista, sem classes.
o cultural. Tudo isso, potencialmente, leva ao                Max Weber apontou uma distino, pelo
conflito social pelo controle de recursos escas-            menos analiticamente, entre duas ordens dis-
sos. Na tradio do pensamento social, classe               tintas de classes econmicas: classes de pro-
social  um conceito genrico utilizado no es-              prietrios e classes comerciais. Na primeira, os
tudo da dinmica do sistema social, enfatizando             proprietrios e os que vivem de rendas so a
mais o aspecto de relao do que o de dis-                  "classe positivamente privilegiada" e os deve-
tribuio da estrutura social. Nesse sentido, as            dores -- pessoas dclasses e sem proprie-
classes so consideradas no apenas como agre-              dades, em geral -- so a "classe negativamente
gados de indivduos, mas como grupos sociais                privilegiada". Na segunda, os industriais per-
reais, com sua prpria histria e lugar identifi-           tencem  classe positivamente privilegiada, en-
cvel na organizao da sociedade. No obs-                 quanto os operrios pertencem  classe negati-
tante, a idia de que as classes sociais podem              vamente privilegiada. Weber assumiu que o
ser equiparadas a agregados de indivduos de-               sistema econmico capitalista representa o pa-
terminados por nvel semelhante de educao,                no de fundo mais favorvel para a existncia de
renda ou outras caractersticas de desigualdade             "classes comerciais". Ele define a "condio de
social ainda persiste, e leva  confuso desse              classe" de um indivduo como determinada pe-
conceito com o de ESTRATIFICAO SOCIAL. Por-               las oportunidades de vender bens e habilidades
tanto, os sentidos ligados  expresso classe               profissionais. Apesar de no o declarar de forma
social variam e se referem a tipos diferentes de            explcita, sua abordagem da estruturao das clas-
ESTRUTURAO da sociedade. Na sociologia te-               ses comerciais permite aos investigadores elabo-
rica e histrica surgem vrios tipos de estruturao        rar vrias agregaes de indivduos em grupos
em discusses substantivas sobre classes econ-             com as mesmas oportunidades. Nesse sentido, as
micas, classes polticas e classes culturais.               fronteiras ente eles parecem arbitrrias.
                                                                                           classe   93


    As idias gerais de Marx e de Weber tm          isto , a tomar o poder e conserv-lo. A "circu-
sido continuamente refinadas, ampliadas e mo-        lao" das elites governantes  um processo de
dificadas. Bottomore (1965) apontou a validade       mudana da composio das classes polticas,
duradoura das premissas fundamentais da teo-         ou pela fora ou pela infiltrao e cooptao
ria de classes marxista, enquanto Dahrendorf         pacficas (ver ELITES, TEORIA DAS).
(1957) postulou sua reviso crtica. Roemer              O conceito de classe dominante aparece com
(1982) props uma ampliao do conceito mar-         menos freqncia nas discusses sobre as so-
xista de explorao econmica, a qual foi uti-       ciedades ocidentais contemporneas, com seus
lizada por Wright (1985) para construir um           sistemas polticos democrticos, do que nas
novo sistema de classes na sociedade capita-         discusses sobre sociedades contemporneas
lista. Poulantzas (1974) e Wesolowski (1966)         sob um poder autoritrio. No primeiro caso, o
apresentaram teorias integradas de "dominao        conceito aparece nas teorias sobre novas ten-
de classe". Giddens (1973) e Parkin (1979)           dncias no desenvolvimento da sociedade e
propuseram vrias elaboraes e ampliaes da        novos grupos estratgicos considerados como
abordagem das classes por Weber; Lockwood            os agentes dessas tendncias. Nessas teorias,
(1958), Goldthorpe (1980) e Runciman (1972)          espera-se que novas classes venham a privar o
realizaram pesquisas empricas informadas por        sistema democrtico de suas funes reais, as-
idias de Weber.                                     sumindo a liderana e controlando a sociedade.
                                                     Essas classes podem ser compostas de adminis-
Classes polticas                                    tradores (Burnham, 1941; Gurvitch, 1949), bu-
    Gaetano Mosca (1896) formulou uma teoria         rocratas governamentais (Geiger, 1949) ou cer-
das classes "governantes" e "governadas", co-        tos profissionais -- como organizadores, plane-
mo grupos que surgem em qualquer sociedade           jadores, cientistas -- que venham a formar
que atinja um nvel acima do primitivo. A dis-       alianas com polticos e empresrios no velho
tribuio desigual de prerrogativas do poder        estilo (Bell, 1974).
uma exigncia funcional e uma necessidade                As teorias sobre governo totalitrio e ex-to-
estrutural. A existncia do estado leva  existn-   talitrio na antiga Unio Sovitica e na Europa
cia da classe governante. Essa classe compe-se      Oriental (cf. TOTALITARISMO) invocam o concei-
de todos os que desempenham um papel impor-          to de classe dominante em relao aos lderes
tante na poltica e preenchem funes de estado.     principais do Partido Comunista e a altos fun-
As pessoas que efetivamente governam vm de          cionrios do governo, que eram indicados para
um meio, em cada perodo histrico, que dispe       seu cargos pelo partido e detinham um poder
dos recursos adequados  aquisio dos co-           monopolista, ilimitado e arbitrrio (Djilas,
nhecimentos necessrios para governar. Mosca         1957; Hegeds, 1976). Uma vez que tanto o
admitia que, em sua sociedade, a riqueza era         partido quanto o governo eram organizados de
essencial para uma carreira poltica.                acordo com princpios burocrticos, esse dom-
    Normalmente, alm da classe dominante,           nio pode ser chamado de domnio burocrtico
existe um segundo segmento da sociedade, "in-        de partido nico. No sistema totalitrio, a es-
ferior", do qual depende um domnio eficiente.       trutura de poder controla e dirige as instituies
Esse segmento pode ser uma classe mdia ou           econmicas e culturais. Muitos autores afir-
uma BUROCRACIA. Alm disso, dentro de uma            mam que o controle burocrtico e adminis-
estrutura poltica moderna surgem diversas           trativo dos processos econmicos serve de ins-
"foras sociais". Mosca escreve que o segmento       trumento para a explorao dos operrios pelos
militar deseja governar, tal como os intelec-        dirigentes polticos.
tuais, os advogados, os professores, os empre-
srios e os operrios. Ele expressa a opinio de     Classes culturais
que um bom governo deveria incorporar a todos           Jan Waclae Machajski (1904) delineou uma
no processo de governar.                             teoria da sociedade do futuro na qual a "classe
    Em paralelo com Mosca, Pareto (1916-19)          culta" ou "intelligentsia" da sociedade burgue-
apresentou seu conceito de "elite", que pode ser     sa d origem a uma nova classe que domina os
interpretado em termos de classe. Segundo ele,       trabalhadores manuais. Escrevendo de uma
a "elite governante" compe-se dos que se de-        perspectiva anarquista, ele disse que a elimina-
monstraram mais capacitados a governar --            o dos capitalistas no  suficiente para mudar
94   classe


a sociedade. Lendo O capital, de Marx (1867,        conhecida na histria. A nova classe subverte a
1885, 1894), ele descobre a tese de que o traba-    hierarquia do tipo antigo e promove a cultura
lho mais especializado, e que portanto exige        do discurso crtico, mas ao mesmo tempo intro-
mais estudo, deveria ser mais bem pago do que       duz uma nova hierarquia social de conhecimen-
o trabalho que exige menos estudo. Machajski        to. Uma vez que  ao mesmo tempo emancipa-
enfatiza que os programas marxista e social-de-     dora e elitista, diz ele, trata-se de uma "classe
mocrtico para a futura sociedade socialista        universal imperfeita".
implicam a sobrevivncia da desigualdade edu-
cacional e, conseqentemente da desigualdade        Abordagem integradora versus abordagem
econmica.                                          analtica
    Max Weber influenciou indiretamente a for-          Classes econmicas, classes polticas e clas-
mao do conceito de classe cultural. Ele pro-      ses culturais podem ser concebidas como or-
ps que investigssemos os "grupos de status"       dens de classe distintas ou como uma ordem
que tenham desenvolvido um estilo de vida           integrada compreendendo trs aspectos. Se um
especfico. Alguns grupos de status evidente-       terico encara a estrutura de classes como uma
mente no se caracterizam como fenmenos de         ordem integrada, ento o problema importante
classe, mas outros sim, surgindo a partir de uma    para ele  saber como os trs aspectos produzem
base de situao econmica ou situao comum        um todo integrado. Marx props a cadeia causal
dentro da estrutura de poder, ou ambas (como        a partir da base, isto , das relaes econmicas
os senhores feudais): "Os grupos de status so      at a "superestrutura" das relaes polticas e
geralmente criados por classes de propriet-        ideolgicas. Assim, a classe econmica produz
rios". Dos textos de Weber  possvel inferir que   outros aspectos de classe. Ele no ignorou a
as classes sociais demonstram uma afinidade         influncia sobre a base do feedback dos as-
com os grupos de status, pois ambos desenvol-       pectos poltico e cultural. No obstante, a es-
vem sua prpria cultura ou estilo de vida. Weber    trutura econmica, "em ltima instncia", de-
considerava a burguesia das cidades modernas        termina todos os aspectos de classe (ver DETER-
que iam surgindo como uma "classe social" e         MINISMO).
lhe atribua trs caractersticas: propriedade,         Mosca parece menos preocupado com as
direitos de cidado e "cultura". Na perspectiva     relaes causais entre os trs aspectos de classe
weberiana, a cultura pode ser vista como uma        do que com o problema do significado do as-
fora ativa e de integrao nos processos de        pecto de poder para a totalidade das relaes
formao de classes.                                sociais. A diviso em governantes e governados
    Alvin Gouldner (1979), inspirado direta-         o fenmeno crtico em todas as sociedades
mente por Machajski, formulou uma teoria            civilizadas, no-primitivas e diferenciadas.
segundo a qual a "nova classe" de intelectuais      Portanto, ela explica mais sobre o sistema glo-
humanistas e da intelligentsia tcnica, a classe    bal de sociedade. Entre as abordagens con-
dos detentores do conhecimento, est a cami-        temporneas, Lenski (1966) segue a tradio de
nho do domnio social. Os membros da nova           Mosca, apesar de no ignorar Marx. Para Lens-
classe so proprietrios de "capital cultural",     ki, existem duas formas principais de poder: o
que existe basicamente na forma de educao         poder poltico e o poder da propriedade. O que
mais elevada. Comearam a substituir a "velha       ele enfatiza  que em toda a histria da civiliza-
classe endinheirada" no processo de desenvol-       o o poder poltico exerce uma influncia for-
vimento social, bem como no funcionamento           mativa no sistema distributivo, isto , na dis-
do sistema de sociedade ps-industrial. De          tribuio de prestgio e privilgios econmicos.
acordo com Gouldner, o futuro pertence a eles,          Bourdieu (1987; Bourdieu e Passeron, 1970)
e no  "classe operria", como sups Marx. Os      visa uma abordagem integradora ao sugerir a
membros dessa nova classe defendero seus           multicausalidade e as interaes na informao
prprios interesses materiais e no-materiais --    do "poder social" como a caracterstica globa-
maior renda e prestgio para os que detm co-       lizada de classe. Esse poder  uma trajetria do
nhecimento --, mas, simultaneamente, repre-         capital financeiro, cultural e social possudo
sentaro e promovero os interesses da socie-       pelos indivduos. A interao entre essas trs
dade como um todo em um nvel muito mais            formas no  predeterminada por nenhum valor
alto do que qualquer outra classe at ento         petrificado de cada capital, nem por nenhuma
                                                                                         classe   95


relao estvel entre formas de capital. Recen-    seriam organizadas de forma consistente com
temente ele elaborou o conceito de "capital        respeito  instruo formal, ao nvel profis-
simblico", que integra todos os outros capitais   sional e  renda total de seus membros? Estats-
e refora o poder social da classe dominante no    ticas descritivas de vrios pases demonstram a
cenrio pblico.                                   validade do argumento dos tericos de classe de
    A abordagem analtica enfatiza a autonomia     que, embora classe social e estratificao social
da classe econmica, da classe poltica e da       tenham muito em comum, esto longe de ser
classe cultural. A premissa sobre a qual se ba-    idnticas. Nos pases industrializados do Oci-
seia essa abordagem  a de que existem esferas     dente, a ligao da classe social dos indivduos
autnomas da vida --economia, poltica e cul-      com os componentes de sua posio de es-
tura -- dentro das quais os grupos emergentes      tratificao social -- instruo, profisso e ren-
no se sobrepem. Afirma-se tambm que uma         da --  forte, ainda que deixando um espao
abordagem analtica  mais adequada do que a       substancial para determinantes de desigualda-
integradora para o estudo da sociedade moder-      des sociais extraclasse. Alm disso, a ordenao
na, em contraste com a pr-moderna. Essa abor-     das classes sociais em dimenses variadas de
dagem tem suas razes nas idias de Weber,         desigualdade social no  a mesma. Os deten-
apesar de as sugestes de Sorokin (1927) sobre     tores dos meios de produo esto com toda a
canais autnomos de mobilidade social tam-         certeza no topo da dimenso econmica, en-
bm terem exercido algum impacto sobre sua         quanto os intelectuais se situam em posio
formulao. Entre os autores contemporneos,       mais elevada na dimenso cultural. No meio da
Lipset e Zetterberg (1966) defenderam essa         hierarquia, funcionrios de colarinho branco
abordagem e propuseram o estudo separado de        geralmente obtm mais prestgio de seus em-
classe consumidora, classe social e classe de      pregos do que os produtores de pequenos bens.
poder. Essa abordagem, porm, e tambm a           Esses tipos de mudanas de categoria confir-
abordagem analtica foram criticadas e seu con-    mam que as classes sociais representam cate-
ceito de classe contestado com bases tericas      gorias discretas, em vez de categorias consis-
(Calvert, 1982).                                   tentemente organizadas ao longo de um conti-
                                                   nuum de estratificao multidimensional
Classe social na sociologia emprica               (Wright, 1978 e 1985).
    O "paradigma de classe"  uma das aborda-          O interesse pela conscincia social das clas-
gens mais bem-estabelecidas para a anlise de      ses deriva da tradicional diferenciao marxista
dados sobre estrutura social. Dentro desse pa-     entre Klasse an sich (classe em si mesma, isto
radigma, a pesquisa concentra-se em detectar       , sem uma conscincia comum) e Klasse fr
diferenas entre classes sociais com relao a:    sich (classe para si mesma, isto , com uma
(a) a quota, de cada uma, de bens distribudos     conscincia comum). Durante muitos anos se
desigualmente; (b) as atitudes e opinies varia-   observou que os membros das classes privile-
das; (c) o comportamento poltico e as aes de    giadas tendem a ter a mente mais aberta, maior
grupos comuns; e (d) os padres de mobilidade      flexibilidade intelectual e maior autodireciona-
social. Na prtica da pesquisa, os esquemas de     mento em seus valores do que os membros das
classe baseados em grupos de critrios envol-      classes espoliadas. As diferenas de classes so
vendo controles sobre os meios de produo e       substanciais no apenas com respeito ao con-
a fora de trabalho so tratados como variveis    tedo das questes econmicas e polticas, mas
explicativas independentes. O paradigma de         tambm com relao aos meios com os quais as
classe demonstra a sua utilidade se uma aplica-    pessoas pensam, em termos de nvel de abs-
o de um esquema de classe a uma populao        trao. Kohn (1969; Kohn et al, 1900) apresen-
em particular leva  concluso de que as dife-     tou a hiptese de que essas diferenas de classes
renas interclasses com relao a variveis es-    podiam ser atribudas s condies de vida,
pecificadas so significativamente maiores do      especificamente na situao de trabalho. Os que
que as diferenas intraclasses.                    se encontram localizados com mais vantagem
    Se classe social e estratificao social so   na estrutura de classe tm maiores oportuni-
consideradas categorizaes autnomas da es-       dades de exercer o autodirecionamento profis-
trutura social, uma das questes empricas  o     sional; sua experincia na situao de trabalho
grau da sua interdependncia. As classes sociais   generaliza-se para outros campos de suas vidas,
96   classe


incluindo o funcionamento psicolgico. Essen-       governados e governantes. Uma vez que nesses
cialmente, as diferenas de classe no funciona-     pases o poder econmico e o poder poltico se
mento psicolgico so explicadas pelo meca-         confundem em grande medida, os conflitos de
nismo de generalizao do aprendizado. Deve-        classe tornaram-se muito generalizados e en-
se observar, no entanto, que essa interpretao,    volveram questes que iam desde reivindica-
apesar de psicolgica na sua essncia, est lon-    es salariais at a liberdade de expresso (Tou-
ge de uma chamada "interpretao subjetiva          raine et al., 1982; Staniszkis, 1981). Em sua
das classes". Nesse ltimo caso, a pressuposi-      formulao extrema, os conflitos de classe nes-
o de que pessoas em circunstncias seme-          ses pases foram descritos como ocorrendo en-
lhantes desenvolvem um senso semelhante da          tre "proprietrios" (os que decidem sobre o uso
realidade leva ao conceito de classes sociais       dos meios de produo), governantes (os que
"como grupamentos de base psicolgica ou            controlam os meios de administrao e coer-
subjetiva, definidos pela fidelidade de seus        o) e idelogos (os que controlam os meios de
membros" (Centers, 1949, p.210). No caso an-        interpretao e inculcao de valores), de um
terior, as variveis psicolgicas so tratadas      lado, e as massas, do outro. Por causa desses
apenas como correlatas das classes. No entan-       conflitos de classes generalizados, Nowak
to, independentemente da interpretao, as di-      (1983) chama o socialismo de formao supra-
ferenas na "psicologia de classe" sustentam as     classe.
diferenas no "comportamento de classe" e no            Do ponto de vista terico, o grau de MOBILI-
comportamento poltico em particular.               DADE SOCIAL entre as geraes  de importncia
    A relao entre classe social e comporta-       crucial para formao de classe, uma vez que
mento poltico concentra-se em interesses de        influencia tanto a composio das classes quan-
classe diferenciados, definidos com respeito       to a continuidade ou a mudana da experincia
situao material. Na prtica, os partidos pol-    de vida. Por esses motivos, entre os neomarxis-
ticos das democracias ocidentais apelam a cer-      tas (Westergaard e Resler, 1975; Bottomore,
tos segmentos da sociedade e buscam o seu           1965) e os neoweberianos (Parkin, 1979; Gid-
apoio. Estudos do comportamento eleitoral en-       dens, 1973) realizaram-se srios esforos para
contram rotineiramente uma correlao entre a       dar  idia de mobilidade um papel importante
posio dos eleitores em termos de classe social    na teoria de classe. Goldthorpe e seus compa-
e o partido no qual tipicamente votam. Pessoas      nheiros (1980) examinaram e rejeitaram par-
que pertencem s classes proprietrias e geren-     cialmente trs teses com respeito  mobilidade
ciais tm mais probabilidades de votar num          de classe: (1) a tese do fechamento, segundo a
partido que defende a proteo dos interesses       qual, a fim de manter sua posio vantajosa na
empresariais e menos legislao visando o           estrutura social, as classes privilegiadas utili-
bem-estar do que pessoas pertencentes  classe      zam estratgias de fechamento/excluso social
operria. Historicamente, os partidos polticos     contra as classes inferiores; (2) a tese da zona-
passaram a representar coalizes especficas de     tampo, propondo a diviso entre profisses
interesses de classe. No obstante, existem al-     manuais e no-manuais como linha divisria
guns indcios de que nas democracias ociden-        fundamental dentro da estrutura de classe; e (3)
tais o voto classista se reduziu substancialmente   a tese do contrabalanceamento, a qual afirma
nas ltimas dcadas (Franklin, 1985).               que a mobilidade na vida profissional -- em
    Greves e revoltas, evidentemente, tm maior     comparao com origem social -- est se tor-
base de classe do que o comportamento eleito-       nando menos provvel porque o acesso s po-
ral tanto nos pases industrializados do Oci-       sies medianas e mais elevadas depende cada
dente quanto nos pases no-socialistas e em        vez mais de instruo formal e cada vez menos
desenvolvimento. Nos pases da Europa Orien-        de treinamento no trabalho. A crtica a essas
tal, alguns aspectos das revoltas polticas de      teses teoricamente avanadas levou os socilo-
1953 (Alemanha Oriental), 1956 (Hungria e           gos a buscar padres complexos de mobilidade
Polnia), 1968 (Tchecoslovquia), 1970 e 1980       de classe com base em dados de vrios pases.
(Polnia) e as de 1989 podem ser interpretadas      Descobriram que o padro de mobilidade de
em termos de conflitos de classe no somente        classe  essencialmente o mesmo em todos os
entre os economicamente espoliados e os eco-        pases industrializados do Ocidente. Alm dis-
nomicamente privilegiados, mas tambm entre         so, o padro de endogamia de classe -- isto ,
                                                                                        classe mdia   97


o grau em que as pessoas tendem a escolher               da populao empregada em todos os pases
cnjuges em classes sociais semelhantes  sua            importantes do Ocidente. Na Gr-Bretanha, por
prpria -- mostra pouca variao de pas para            exemplo, a proporo de empregados no-ma-
pas. A mobilidade de classe e a endogamia de            nuais cresceu de 19%, em 1911 para 47% em
classe -- bem como os entrecruzamentos de                1981. Esse aumento foi particularmente mar-
amizades -- revelam o mesmo padro de bar-               cante entre as mulheres. Em 1981 aproximada-
reiras de classe nas dimenses econmica, po-            mente 3/5 das mulheres trabalhadoras, mas so-
ltica e cultural da estrutura social.                   mente cerca de 2/5 dos homens, tinham empre-
                                                         gos no-manuais. No obstante, existem ntidas
Leitura sugerida: Bottomore, T.B. 1965 (1991): Clas-     diferenas na composio por sexo dos dife-
ses in Modern Society  Calvert, P. 1982: The Concept
of Class  Giddens, A. 1973: The Class Structure of the   rentes servios no-manuais. A maioria dos pro-
Advanced Societies  Marshall, G. et al. 1988: Social     fissionais liberais  masculina e a maioria dos
Class in Modern Britain  Ossowski, S. 1957 (1963):       trabalhadores de colarinho branco de nvel mais
Class Structure in the Social Consciousness  Wright,     baixo  feminina.
E.O. 1985: Classes.                                          H muitas teorias que tentam enquadrar essa
                       WLODZIMIERZ WESOLOWSKI            classe ou classes dentro do sistema geral de
                     e KAZIMIERZ M. SLOMCZYNSKI          classe das sociedades capitalistas avanadas.
                                                         Podem dividir-se entre teorias marxistas e teo-
classe mdia H muito existe uma srie de                rias weberianas. Nas primeiras, afirma-se que
controvrsias sobre o lugar da classe mdia no           so as relaes de produo que geram dife-
sistema geral de classes das sociedades indus-           rentes classes sociais, enquanto que na ltima
triais avanadas. Essas controvrsias incluem            se sustenta que as classes so produzidas atra-
saber se existe uma classe mdia ou vrias; se           vs dos diferentes meios com os quais as recom-
tal CLASSE (ou classes) se encontra, em algum            pensas por trabalhos distintos so adquiridas e
sentido, no "meio" da sociedade; se a posio            distribudas atravs do mercado.
da(s) classe(s) vem sendo mudada atravs de                  Os pontos de vista do prprio Marx eram
um processo de "proletarizao"; e se essa(s)            contraditrios. Por um lado, ele afirmava que
classe(s) desenvolver(o) formas de poltica e          haveria uma crescente polarizao entre os
de conscincia alinhadas com a CLASSE OPER-             "dois grandes campos hostis" das classes bur-
RIA, ou com a classe capitalista, ou se ser(o)         guesa e operria. Em resultado, as classes m-
relativamente independente(s) de ambas.                  dias seriam espremidas e foradas a entrar para
    A expresso "classe mdia" parece ter sido           um ou outro dos campos hostis (ver tambm
usada pela primeira vez pelo reverendo Thomas            BURGUESIA). Por outro lado, Marx sustentava
Gisborne, em 1785, para se referir  classe              que a classe mdia na verdade iria crescer em
empresarial e proprietria (middle class) loca-          tamanho,  medida que uma proporo menor
lizada entre senhores de terras, por um lado, e          da fora de trabalho precisasse desempenhar
trabalhadores agrcolas e urbanos, por outro.            um papel direto na produo de bens materiais
Essa utilizao permaneceu corrente durante o            -- em particular, haveria um aumento de im-
sculo XIX, mas neste sculo a expresso "clas-          portncia dos "trabalhadores assalariados co-
se mdia" passou a se referir a "profisses de           merciais".
colarinho branco". Estas incluem desde os pro-               Muitos marxistas tm afirmado, no entanto,
fissionais liberais, como mdicos, contadores,           que esses trabalhadores de escritrio so um
advogados, acadmicos e assim por diante, a              grupo fundamentalmente instvel. De fato, al-
pessoas ocupando empregos relativamente ro-              guns autores tm sustentado no haver nenhu-
tineiros e menos especializados. s vezes clas-          ma classe mdia como tal, mas apenas um certo
se mdia  interpretada como se referindo a              nmero de estratos intermedirios. Em resulta-
todos aqueles envolvidos com trabalhos "no-             do da insegurana do emprego e da "desespe-
manuais". Em outras ocasies, os donos de                cializao" de seu trabalho, com a ampliao e
fbricas e os que trabalham por conta prpria            a mecanizao do escritrio, esses estratos iriam
so excludos.                                           passar pela "proletarizao" de sua posio de
    Qualquer que seja a definio usada, no h          classe (Braverman, 1974). E afirma-se que, no
dvida de que esses grupos tm crescido em               decorrer do tempo, o estrato mdio acabar por
nmeros absolutos e tambm como proporo                adotar formas proletrias de poltica e de cons-
98   classe mdia


cincia de classe, incluindo a organizao sin-     rados como "proletarizados", pois passam pela
dical e o voto em partidos de esquerda.             experincia de subir na carreira e se tornam
    Outros autores marxistas tm sustentado,        gerentes. So as funcionrias de colarinho bran-
em contraste, que no existe nenhum processo        co que tm maior probabilidade de se encontrar
geral de proletarizao. Poulantzas (1974), por     em empregos proletarizantes, apesar de haver
exemplo, afirma que existe uma "nova pequena        alguns indcios de que as jovens esto cada vez
burguesia" substancial, determinada por estru-      mais conseguindo as credenciais educativas ne-
turas no apenas econmicas, mas tambm po-         cessrias para as promoes. Finalmente, pa-
lticas e ideolgicas, e com uma posio de         rece de fato que muitos trabalhadores de colari-
classe diferente tanto da do capital quanto da do   nho branco esto dispostos a entrar para sin-
trabalho. Johnson (1972) afirmou que certas         dicatos profissionais que com freqncia as-
profisses no sero proletarizadas se o seu        sumem posies "proletrias" a respeito das
poder residir em formas de conhecimento que         questes discutidas. De fato, os trabalhadores
no podem ser facilmente expressas e codifica-      de colarinho branco do setor pblico  que se
das em termos tcnicos. Nos Estados Unidos,         mostraram mais militantes, nos anos 80, em
Ehrenreich e Ehrenreich (1979) afirmam que          muitos pases europeus.
existe uma ntida "classe profissional liberal-         Em anos recentes, os pesquisadores tm en-
gerencial", baseada na posse de um diploma          fatizado vrios aspectos. Primeiro, a distino
universitrio, que funciona para reproduzir a       entre as teorias marxista e weberiana tornou-se
cultura e as relaes capitalistas. Essa nova       bem menos ntida nos anos 80. Isso porque, por
classe deu origem a novas formas de poltica        um lado, os autores marxistas hoje analisam
que rompem a poltica previamente estruturada       com muito mais detalhes as diferenas no mer-
entre capital e trabalho. Finalmente, Wright        cado de trabalho, particularmente as que resul-
(1985) sustenta que nem todas as posies na        tam de diferenas nas credenciais de instruo.
diviso do trabalho devem ser encaradas de fato     E, por outro lado, os weberianos passaram a
como posies de classe como tais -- deveriam       perceber que, por trs das diferenas de empre-
antes serem vistas como "posies de classe         gos no mercado de trabalho, h toda uma srie
contraditrias".                                    de transformaes estruturais da produo. Em
    Autores weberianos tm elaborado vrios e       particular, a internacionalizao da produo
diversos argumentos em parcial oposio a afir-     significa que existem grandes diferenas no
maes marxistas. Lockwood (1958), por exem-        tamanho e importncia relativos das classes
plo, afirmou que os funcionrios no estavam        mdias entre sociedades diferentes, particular-
sendo proletarizados pois ocupavam uma situa-       mente dependendo de onde se localizam as
o de trabalho que ainda lhes dava um status       sedes das companhias principais.
superior em comparao com os trabalhadores             Em segundo lugar, um exemplo dessa apro-
manuais. Giddens (1973) sustentou que as teo-       ximao das abordagens marxista e weberiana
rias dicotmicas sobre classe social estavam        pode ser visto na literatura recente sobre a "clas-
destinadas ao fracasso por no serem capazes        se de servios". Esse conceito foi desenvolvido
de reconhecer como a capacidade do mercado          pelo austromarxista Karl Renner, o qual afir-
em proporcionar qualificaes educacionais e        mou que,  medida que o capitalismo amplia
tcnicas gerava empregos de classe mdia que        sua escala de operaes, os capitalistas empre-
tinham considervel vantagem econmica so-          gam cada vez mais pessoas para executar as
bre os trabalhos manuais. Outros autores afir-      funes que eles no podem mais desempenhar
mavam que no h uma entidade isolada cha-          pessoalmente. Essa classe serve ao capital, di-
mada a classe mdia. Em vez disso, existe um        retamente, dentro de organizaes capitalistas,
fragmentado sistema de classe composto de           ou indiretamente, nas profisses liberais e no
vrios grupos sociais, com diferentes imagens       estado. Goldthorpe (1980) desenvolveu esse
e concepes de como  esse sistema. De fato,       conceito, tanto demonstrando suas origens re-
afirma-se ainda que uma investigao das ex-        lativamente heterogneas quanto enfatizando a
perincias de trabalho das pessoas, no decorrer     importncia da carreira e da confiana para a
de suas vidas, demonstra que existe uma en-         classe de servios. Mais recentemente, pesqui-
orme diversidade. Muitos funcionrios do sexo       sas realizadas na Gr-Bretanha tm indicado
masculino, por exemplo, no devem ser enca-         que esto sendo criados novos tipos de emprego
                                                                                   classe operria   99


para a classe de servios, que no implicam uma       social existentes. Isto , entre partidos de "es-
vida inteira de trabalho dentro de uma nica          querda" e de "direita".
organizao. O desenvolvimento de uma cha-                No decorrer deste sculo, porm, as con-
mada cultura yuppie foi atribudo ao nmero           dies de existncia e a poltica da classe ope-
crescente de pessoas que possuem habilidades          rria tm sofrido muitas mudanas. J na dca-
profissionais liberais e gerenciais de alto nvel,    da de 1890 a ampliao do sufrgio na Europa
que lhes permite movimentarem-se entre as             Ocidental, conseguida em grande parte por
organizaes.                                         presso da classe operria, tornou possvel o
    Finalmente, tem-se afirmado com veemn-           surgimento de partidos socialistas parlamen-
cia que no existe um simples "proletariado",         tares e a introduo de reformas sociais que
cujos interesses possam ser estabelecidos sem         gradualmente melhoraram as condies de vida
problemas e para o qual alguns setores da classe      dos operrios, enquanto a crescente produtivi-
mdia possam estar migrando. O surgimento de          dade da indstria moderna elevou o padro
uma poltica "proletria" depende de uma ava-         geral de vida e ao mesmo tempo tendeu a am-
liao por parte dos operrios sobre se tal pol-     pliar o mbito da classe mdia, empregada em
tica lhes traria algum benefcio. Alm disso,         trabalhos de escritrio, em ocupaes tcnicas
apontou-se que a sociedade contempornea est         e nas profisses liberais. Os partidos operrios,
sendo profundamente afetada pelo crescimento          dessa maneira, envolveram-se mais profunda-
de uma poderosa classe de servios que est           mente em questes especficas de reforma so-
alterando o perfil da vida social e poltica e        cial, e surgiram fortes divergncias sobre pol-
afetando, em particular, o "proletariado" e sua       tica "reformista" versus poltica "revolucion-
capacidade de desenvolver suas formas pr-            ria" (ver REFORMISMO; REVISIONISMO). Na Euro-
prias e caractersticas de poltica. Nas socie-       pa Oriental, e especialmente na Rssia, onde o
dades modernas, as pessoas no so todas "clas-       movimento da classe operria enfrentou um
se mdia", mas,  medida que a classe mdia se        regime autocrtico, com o agravante de se tratar
transforma, o mesmo ocorre com os efeitos             de um pas predominantemente campons, pre-
profundos que ela exerce sobre todos os demais.       valeceu a poltica mais nitidamente revolucio-
                                                      nria. E essa diviso entre dois tipos de orien-
Leitura sugerida: Abercrombie, N. e Urry, J. 1983:
Capital, Labour and the Middle Classes  Bourdieu,
                                                      tao poltica culminou, depois da Revoluo
Pierre 1979: La distinction  Hyman, R. e Price, R.,   Russa, em uma diviso formal ente partidos
orgs. 1983: The New Working Class? White Collar       comunistas (bolcheviques) e partidos socialis-
Workers and their Organizations: a Reader.            tas. Em contraste com a Europa, o movimento
                                       JOHN URRY      da classe operria nos Estados Unidos, depois
                                                      da primeira dcada do sculo, quando o socia-
classe operria Grupo social que compre-              lismo parecia ser uma fora crescente, jamais
ende trabalhadores de minas, fbricas, trans-         conseguiu firmar um partido operrio indepen-
portes e tarefas correlatas, reunidos nas cidades     dente e bem caracterizado, de importncia na-
industriais em rpido crescimento em funo do        cional, diante de vrias influncias concorren-
desenvolvimento da produo capitalista no s-        tes dentre as quais as mais freqentemente apre-
culo XIX, e que se tornou uma fora poltica de       sentadas eram o padro de vida relativamente
importncia crescente, como fonte dos sindi-          alto, o estilo de vida democrtico, as oportuni-
catos, cooperativas e partidos polticos, ins-        dades de mobilidade social e a imigrao em
pirados por idias socialistas (ver SOCIALISMO).      grande escala (Sombart, 1906; Laslett e Lipset,
No incio do sculo XX partidos da classe ope-        1974).
rria j se haviam firmado por toda a Europa --           A oposio entre partidos com base na classe
onde alguns deles, em especial na Alemanha e          chegou ao auge na depresso econmica dos
na ustria, j eram bastante grandes. E tambm,       anos 30. Embora essa oposio tenha sido agra-
em escala menor, na Amrica do Norte. Dessa           vada por antagonismos entre comunistas e so-
poca at os dias atuais, a poltica interna dos      cialistas, e no obstante muitas derrotas sofridas
pases europeus e, em um estgio posterior, a de      durante esse perodo, os partidos da classe ope-
outras sociedades tm sido dominada pelo con-         rria ressurgiram depois de 1945 mais fortes do
flito entre os partidos da classe operria e os que   que nunca em termos de filiao e apoio eleito-
defendem o sistema econmico e a hierarquia           ral. Nas dcadas que se seguiram, no entanto,
100   coero


mudanas econmicas e sociais modificaram           ra, e que as divises e conflitos de classe, por
profundamente a situao da classe operria.        mais que tenham sido modificados em sua ex-
Seu tamanho reduziu-se relativamente ao da          presso, continuam a exercer uma influncia
CLASSE MDIA. Sua situao econmica melho-         preponderante nas doutrinas sociais e na ao
rou substancialmente em conseqncia de um          poltica.
crescimento econmico prolongado e a uma                Ver tambm CLASSE.
taxa excepcionalmente alta, do pleno emprego
e de servios sociais mais adequados nos novos      Leitura sugerida: Bottomore, Tom 1965 (1991): Clas-
                                                    ses in Modern Society  Goldthorpe, J. et al. 1969: The
"estados de bem-estar". Alm disso, a expres-       Affluent Worker in the Class Structure  Mallet, Serge
so poltico-ideolgica dos antagonismos de         1963: La nouvelle classe ouvrire  Mann, M. 1973:
classe foi gradualmente se moderando. Alguns        Consciousness and Action among the Western Working
dos partidos europeus deixaram de se designar       Class  Thompson, E.P. 1963: The Making of the En-
como partidos de classe, ou de enfatizar com        glish Working Class.
muita veemncia seus objetivos socialistas,                                            TOM BOTTOMORE
concentrando-se, em vez disso, em seu compro-
misso com a ampliao do bem-estar social e         coero Sempre que um sujeito controla o
com a reduo, por vrios meios, das desigual-      comportamento de outro por meio da ameaa
dades de riqueza e renda.                           ou efetiva imposio de dor, dano ou perda
    Um fator importante nessa situao foi a        intolervel, existe coero. Um meio de com-
reao crtica da maioria dos partidos de classe    preender a coero, portanto,  atravs da an-
operria  ditadura poltica na Unio Sovitica,    lise das ameaas.
que se estendeu depois da guerra a outros pases        Uma ameaa pode ser definida como a cria-
da Europa Oriental, e ao estabelecimento do         o ou manuteno, por um sujeito (a "fonte"),
que foi descrito como sociedades de "socialis-      de um incentivo negativo para que algum outro
mo real". No decorrer dos anos 50 e 60 a            sujeito (o "alvo") se comporte tal como a fonte
represso aos levantes populares contra esses       deseja. Conforme assinalou Schelling (1960),
regimes produziu internamente crises e cres-        contra um alvo "racional", uma ameaa, para
centes movimentos de dissidncia. Em outros         ter sucesso, precisa ser ao mesmo tempo ade-
pases observou-se um declnio cada vez mais        quada (as ameaadas conseqncias da no-
rpido dos partidos comunistas, culminando na       submisso precisam ser srias o bastante para
transformao macia do Leste europeu, no           superar, para o alvo, a perspectiva de ganhos
final dos anos 80, e no virtual desaparecimento     com ela) e verossmil (o alvo precisa ter bons
do comunismo como orientao ideolgica ou          motivos para acreditar que, no caso de no-
poltica de maior importncia para a classe         submisso, as conseqncias ameaadas iro
operria.                                           seguir-se). A questo  ilustrada nas matrizes de
    Nos pases industriais avanados, a classe      teoria dos jogos (ver JOGOS, TEORIA DOS) cons-
operria, conforme tradicionalmente concebi-        tantes da ilustrao deste verbete.
da, no  mais o que Marx descreveu como a              Em cada matriz, um jogador, X, escolhe
"imensa maioria", constituindo no mximo            entre as fileiras do Alto (A) e de Baixo (B), e o
50% da populao. Alguns cientistas sociais         outro, Y, entre as colunas da Esquerda (E) e da
tm afirmado que esses pases esto se trans-       Direita (D). Para cada "resultado" (combinao
formando, ou j se transformaram em grande          de escolhas), as recompensas de X esto no
medida, em sociedades de "classe mdia", nas        canto inferior esquerdo e as de Y, no alto 
quais surgem novos interesses e movimentos          direita. A ordem de jogo  que primeiro X pode
sociais e polticos -- preocupados com ques-        "ameaar", depois Y deve escolher e, final-
tes de sexo, raa e meio ambiente --, que cada     mente, X deve escolher. Presume-se que ambos
vez mais vo eclipsando as antigas divises e       os jogadores tenham pleno conhecimento dos
conflitos. Contra esse ponto de vista, no entan-    fatos expostos na matriz.
to, afirma-se que ainda existe nos pases capi-         Em G1, se Y puder ser induzido a escolher
talistas uma ntida estrutura de classes (res-      E, X pode ganhar trs unidades escolhendo A.
surgindo no momento em alguns pases do Les-        A ameaa de X de escolher B caso Y escolha D
te europeu), que a classe operria continua a ser   seria ao mesmo tempo adequada (uma vez que
um amplo e importante elemento nessa estrutu-       a recompensa de Y por BD  menor que por AE)
                                                                                                    coero   101


e verossmil (uma vez que a recompensa de X                       feroz); cultivando a fama de irresponsvel ("a
por BD  maior do que por AD). Schelling                          racionalidade da irracionalidade"), ou de sem-
chama isso de "advertncia". Em G2, no entan-                     pre cumprir suas ameaas de qualquer maneira;
to, apesar de a ameaa de X continuar sendo                       e reduzindo sua prpria recompensa pela no-
adequada (Y continua saindo-se melhor em AE                       implementao (neste caso a recompensa de X
do que em BD), sua credibilidade fica em dvi-                    para AD de 1 para, digamos, -1), ou assumindo
da, uma vez que X agora faria melhor no                          o compromisso jurdico de pagar uma soma a
implementando (em AD) do que implementan-                         um terceiro, nesse caso, ou maximizando o
do (em BD).                                                       descrdito resultante.
    Schelling aponta trs expedientes atravs                         O preo dessa credibilidade, no entanto,  a
dos quais, numa situao G2, uma fonte pode                       rigidez. X agora tem menos capacidade de se
ter a esperana de firmar a credibilidade de uma                  ajustar a circunstncias imprevistas. Na vida
ameaa: colocando a implementao fora do                         real, conforme destacou Lieberman (1964),
seu controle (por exemplo, "ameaar" ladres                      uma ameaa pode ser ao mesmo tempo adequa-
com danos fsicos, instalando um co de guarda                    da e verossmil, e mesmo assim desaconselhada
                                                                  por dois tipos de motivos. Primeiro, os alvos de
                                          Y                       ameaas podem no conseguir reagir racional-
                                                                  mente, devido ao estresse,  falta de informao
                         E                           D            ou  incompetncia burocrtica, e ao fato de a
                     (Esquerda)                   (Direita)
                                                                  coero poder provocar ressentimentos ou tor-
                                      1                       3   nar mais atraente o fruto proibido.
                                                                      Em segundo lugar, se o poder pode ser en-
         A             (AE)                        (AD)           carado, como definiu Deutsch (1963, p.111),
       (Alto)                                                     como "a possibilidade de se permitir no apren-
  X              3                            1
                                                                  der", a coero do ponto de vista da fonte  a
                                                                  recusa a aprender. Ao impor toda a carga de
                                  0                           0   ajuste e de mudana de objetivos ao alvo, a
                                                                  fonte coerciva pode estar, com isso, negando-se
         B             (BE)                        (BD)           uma informao que, por revelar como ela pre-
       (Baixo)                                                    cisa ajustar suas metas ou programas de ao,
                                                                  pode em ltima anlise ser essencial a sua so-
                 2                            2                   brevivncia. Assim, como conclui Gurr (1970),
                                      G1                          baseado em um importante estudo das rebe-
                                                                  lies, os incrementos da VIOLNCIA poltica no
                                                                  so geralmente atribuveis ao enfraquecimen-
                                                                  to do controle coercivo. Alm disso, mesmo
                                          Y                       que a implacvel represso  dissidncia evi-
                                                                  tasse a rebelio, um governo poderia com isso
                         E                           D
                     (Esquerda)                   (Direita)       perder a legitimidade e, com ela, a capacidade
                                                                  de mobilizar o esprito comunitrio de seus
                                  1                           3   sditos.
                                                                      De acordo com recentes estudos feitos por
         A             (AE)                        (AD)           Robert Axerold (1984) e Michael Taylor (1987),
       (Alto)
                                                                  com a aplicao da teoria dos jogos, a coero
  X              3                            1                   pode no ser necessria para garantir a paz e
                                                                  manter um mnimo de cooperao entre os
                                  0                           0   membros de um grupo social, mesmo presu-
                                                                  mindo-se que eles sejam, e continuem sendo,
         B             (BE)                        (BD)           totalmente voltados para seus prprios interes-
       (Baixo)                                                    ses. Se esses estudos se confirmassem, o apara-
                 0                            0
                                                                  to coercivo domstico em que praticamente
                                                                  todos os estados em alguma medida se apiam
                                      G2                          poderia, em princpio, ser abolido.
102    cognio


   Ver tambm PODER.                                      pinas e Porto Rico, e transformando Cuba em
                                                          protetorado.
Leitura sugerida: Gurr, T.R. 1970: Why Men Rebel 
Liebermann, E.J. 1964: "Threat and assurance in the           A competio por colnias havia sido a cau-
conduct of conflict". In International Conflict and Be-   sa de muitas guerras nos sculos XVII e XVIII,
havioural Science, org. por R. Fisher  Pennock, J.R. e    e comeou mais uma vez a se intensificar de
Chapman, J.W., orgs. 1972: Coercion  Schelling, T.C.      forma perigosa. Em 1904-5 o Japo derrotou a
1960: The Strategy of Conflict  Taylor, M. 1987: The      Rssia numa guerra pela Mandchria. A toma-
Possibility of Cooperation.                               da da Lbia pela Itlia, em 1911, levou a uma
                                RODERICK C. OGLEY.        guerra com a Turquia. Em 1914 a Primeira
                                                          Guerra Mundial foi deflagrada, em parte devido
cognio Ver CINCIAS COGNITIVAS.                         a ambies coloniais. Ela proporcionou novas
colonialismo Esta palavra veio a designar a               aquisies aos vencedores, que tomaram as
ocupao, pela fora e a longo prazo, por parte           possesses alems e turcas nominalmente co-
de um pas metropolitano, de qualquer territrio          mo "mandatos" a serem supervisionados pela
fora da Europa (ou dos Estados Unidos).                   nova Liga das Naes. Nos anos 30 a Itlia
    A conquista territorial, inspirada por uma            invadiu a Etipia e o Japo, tendo ocupado a
grande variedade de motivos, parece atravessar            Mandchria, lanou-se numa tentativa macia
toda a histria, onde quer que tenha havido               de subjugar todo o resto da China.
povos acima de um nvel mnimo de sofis-                      Foram apresentadas inmeras teorias, na
ticao. Mas foram os modernos europeus que               poca e posteriormente, buscando explicar por
levaram mais longe essa prtica. Em meados do             que as naes industrializadas buscavam col-
sculo XIX, a maior parte do Novo Mundo j                nias de forma to febril. A mais famosa foi a
se desvencilhara do seu domnio. Este, contudo,           proposta por Lenin durante a Primeira Guerra
havia sido imposto a grande parte da sia:                Mundial. Boa parte dessa teoria foi extrada do
acima de tudo sobre a ndia, a maior de todas as          economista liberal ingls J.A. Hobson, que es-
colnias; e, em segundo lugar, sobre as Filipi-           crevera sob as impresses recentes da Guerra
nas, pela Espanha, sobre a Indonsia, pela Ho-            dos Beres. Muito do restante foi tirado do livro
landa, e sobre a Sibria, pela Rssia.                    Capital financeiro, do economista austraco
    O perodo de 1870 a 1914 costuma ser cha-             Rudolf Hilferding, publicado em 1910. Segun-
mado de "era do imperialismo". Nele a busca               do o pensamento desses homens, nesse estgio
de colnias atingiu o clmax. Exemplo a des-              tardio da evoluo capitalista, o controle do
tacar foi "a disputa ferrenha pela frica", dentro        capital estava se concentrando cada vez mais
das orientaes ajustadas na Conferncia de               em poucas mos, o que deixava muito pouco
Berlim em 1884. Entre os antigos caadores de             poder de compra no mercado interno para os
tesouros, a Gr-Bretanha ocupou a Malsia e o             bens que podiam ser produzidos. Devido a essa
que restou da Birmnia, alm de grande parte              baixa de consumo, o capital comeava a ser
da frica. O entusiasmo pelo imprio atingiu o            exportado, em vez de investido no seu prprio
seu auge histrico na Guerra dos Beres, de               pas, e em regies subdesenvolvidas, que po-
1899-1902. O poder da Frana expandiu-se no               diam conter valiosas matrias-primas, esse ca-
Norte da frica e na Indochina. Expedies                pital precisava da proteo de um governo co-
portuguesas foravam para o interior seus anti-           lonial. Na verdade, porm, a maior parte do
gos domnios coloniais nas costas de Angola e             capital, mesmo no caso do maior de todos os
Moambique. Entre os recm-chegados esta-                 exportadores, a Gr-Bretanha, se dirigia, no
vam a Alemanha, em atividade na frica e no               para as colnias, mas para outros pases indus-
Pacfico, e a Itlia, no Leste e Norte da frica.         triais, principalmente os Estados Unidos.
A modernizao japonesa foi acompanhada por                   Na realidade, no pode haver uma nica
uma emulao precoce do colonialismo ociden-              explicao. Em casos particulares, grande parte
tal: em 1894-5 a China foi derrotada e Taiwan,            do expansionismo pode remontar ao desejo de
anexada. Os Estados Unidos, ampliados por                 destaque de funcionrios de fronteira ou de
guerras contnuas contra os amerndios e pela             gente do exrcito, ou a interesses comerciais
tomada de amplos territrios ao Mxico, em                especiais. Os governos podiam sempre contar
1899 armaram uma disputa com a Espanha e                  com os sucessos coloniais a fim de impressionar
entraram no cenrio mundial anexando as Fili-             tanto os estrangeiros quanto seus prprios elei-
                                                                                  colonialismo   103


tores. Territrio era algo que geralmente consi-    vam chegando aos estratos mais privilegiados
derava-se til possuir por motivos estratgicos.    das classes operrias e, ao aumentar-lhes o pa-
Nesse ponto os britnicos, com suas possesses      dro de vida, reconciliava-as com o domnio
e suas "esferas de interesses" em todo o mundo,     capitalista. O que pode ter sido mais importante
chegaram primeiro. Quiseram o Egito, em par-        foi a capacidade dos empregadores de dizer aos
te, para proteger seu caminho para a ndia e o      operrios que estavam vivendo melhor porque
Afeganisto, a fim de fechar uma porta para a       dispunham de colnias, e no porque dispu-
ndia contra os russos. Os custos militares po-     nham de sindicatos. O Imprio Britnico, alm
diam ser elevados, mas, uma vez na posio de       disso, era singular (se descontarmos a Sibria)
ocupao, os invasores poderiam ampliar seus        na posse de vastas reas, como o Canad e a
efetivos militares a baixo custo, recrutando sol-   Austrlia, adequadas  colonizao branca.
dados nativos, de classes ou grupos tnicos         Elas ofereciam uma vida melhor a emigrantes
convenientes, e empregando-os em tarefas po-        pobres, e esse foi com certeza um forte motivo
liciais ou para novas conquistas. O enorme          para a popularidade do imprio. Muito pouca
exrcito indiano, comandado por oficiais bri-       gente do povo ligava para a ndia ou a frica
tnicos, foi utilizado em grande nmero de          negra. A propaganda italiana valorizou muito as
campanhas fora da ndia,  custa do contri-         oportunidades de colonizao, pelos campo-
buinte indiano. Alguns governos coloniais re-       neses pobres, que a Etipia era capaz de ofere-
correram, ao contrrio dos britnicos, ao recru-    cer.
tamento, em suas prprias fileiras, de tropas           At uma fase bem avanada deste sculo, a
nativas. De fato, para os franceses, intensa-       estrutura social da Europa, e a da Gr-Bretanha
mente conscientes, depois de 1870, de sua infe-     em particular, ainda produzia inmeros homens
rioridade numrica frente aos alemes, uma          para quem a administrao colonial era uma ati-
reserva de efetivos humanos coloniais  sua         vidade natural. Eram recrutados especialmente
disposio podia ser encarada como uma das          entre os filhos mais jovens da pequena nobre-
recompensas principais do imprio.                  za fundiria, uma classe que podia alegar um
    No fundo, os motivos do colonialismo eram       dom natural para governar nativos, pois sempre
econmicos. As fbricas precisavam de mat-         estivera acostumada a governar seus prprios
rias-primas e os produtos, de mercados. O co-       camponeses. A Inglaterra entrou no sculo XX
mrcio ampliou-se principalmente entre pases       com o seu campo ainda surpreendentemente
industriais, mas houve uma intensificao da        feudal, embora economicamente capitalista.
competio  medida que a industrializao se       No havia uma classe anloga a essa nos Es-
disseminou e as pesadas tarifas protecionistas      tados Unidos, e por conseqncia era menor a
ameaavam fechar muitos mercados compra-            disposio para o domnio colonial direto. Os
dores. Em suas prprias colnias, uma compa-        oficiais dos exrcitos europeus que conquis-
nhia britnica podia esperar uma posio prefe-     tavam e ocupavam as colnias com suas guar-
rencial e uma companhia francesa, uma posio       nies eram recrutados nas mesmas fontes. Em
monopolista. A maioria das colnias pode ter        pases com a ndia, com razovel grau de alfa-
significado uma perda lquida para as econo-        betizao, era fcil encontrar os assistentes in-
mias nacionais, mas havia sempre algum que         dispensveis para dirigir a administrao, tanto
lucrava. O imenso imprio da Gr-Bretanha           quanto recrutar soldados.
sem dvida proporcionou lucros gigantescos,             Muito se ouviu falar sobre a "misso civili-
em grande parte de um tipo parasitrio, que         zadora" do homem branco, e houve certa deter-
pode ter tido o efeito negativo de desviar a        minao intermitente de varrer os mtodos anti-
economia da atividade produtiva. As expor-          gos e ruins, bem como de modernizar tudo. No
taes indianas de pio, ch e juta proporciona-    demorou muito e isso deu lugar  preferncia
ram  Gr-Bretanha uma posio favorvel na         pelo "governo indireto", atravs de instituies
balana comercial, em vez de um dficit.            nativas e mtodos familiares ao povo. Inovao
    Na Gr-Bretanha, como em outros centros,        demais era algo que podia ser julgado deses-
os lucros iam principalmente para a bolsa de        tabilizador e arriscado. Na ndia, o "motim" de
valores, as empresas, o servio pblico e o         1857 poderia, de forma plausvel, ser atribudo
servio militar. Outra afirmativa de Lenin foi      a isso, e depois dele foi abandonada a explora-
que algumas "migalhas" do banquete acaba-           o de governantes nativos: em vez disso, pas-
104   colonialismo


saram a ser tratados como scios minoritrios,      poucos europeus se interessavam pelas ques-
sujeitos a um mnimo de inspeo. Um quarto         tes das colnias, e os funcionrios e empres-
da populao foi deixado ao critrio desses         rios ficavam livres para agir. Catlicos e socia-
governantes, geralmente nada esclarecidos. As       listas uniram-se, certa ocasio, para promover
relaes com as classes fundirias semifeudais      algumas melhorias nas colnias africanas da
reminiscentes de pocas anteriores ao domnio       Alemanha. Um protesto internacional contra as
britnico, ou com as que em algumas provncias      atrocidades perpetradas no Congo, colnia par-
foram por ele criadas, tornou-se cada vez mais      ticular do rei Leopoldo, levaram a sua tomada,
cordial, em detrimento dos que lavravam o solo,     em 1908, pelo governo belga. Em termos pol-
mantidos sob forte presso. Em Java, os holan-      ticos gerais, o imperialismo era firmemente
deses tambm entraram em sociedade com os           apoiado pelos partidos de direita e, com menos
herdeiros da antiga aristocracia. Nas Filipinas,    fervor, pelos liberais. Os comunistas eram for-
os norte-americanos fizeram mais ou menos a         temente contrrios. Outros socialistas vacila-
mesma coisa. Um defensor francs de mtodos         vam e, como o Partido Trabalhista na Gr-Bre-
semelhantes foi o marechal L.H. Lyautey, go-        tanha, criticavam-no, sem muito entusiasmo,
vernador-geral do Marrocos de 1912 a 1925.          quando o faziam.
Catlico conservador, sabia dar valor  conve-          Os efeitos do colonialismo variavam de
nincia do conservadorismo islmico e enten-        acordo com circunstncias locais e anteceden-
dia os riscos que poderia correr por perturb-lo.   tes histricos. Os governos coloniais encer-
No Marrocos, na Indochina, na sia central          ravam o tumulto que s vezes predominava e se
russa, as velhas monarquias eram apoiadas e         orgulhavam de seu papel de guardies da or-
mantidas como testas-de-ferro. Na frica, to-       dem. Essa ordem em geral podia no significar
dos os regimes europeus utilizaram "chefes"         muito mais que um governo policial, especial-
tribais, muitos deles sem nenhum direito autn-     mente para as populaes mais pobres, e as leis
tico a semelhante posto, mas apenas colocados       ocidentais no eram adequadas s sociedades
nessa posio pelos funcionrios distritais a fim   sobre as quais eram impostas. Ainda assim, o
de desempenhar o papel adequado.                    princpio da justia imparcial, da supremacia
    Essa estratgia foi muito mal recebida pelos    impessoal da lei, foi uma inovao valiosa. O
africanos e asiticos inteligentes, que em vez      mesmo (ainda que no em todos os aspectos)
disso queriam modernizao, e pelos europeus        pode ser dito com relao ao advento, pela
que esperavam por mudanas benficas. Um            primeira vez na histria no europia, de um
deles foi Karl Marx. Este afirmou que a tomada      corpo de advogados profissionais, dispostos e
de colnias originava-se de nada mais que uma       capazes de assumir processos contra o governo.
ganncia brutal, mas poderia causar um choque           Com maior freqncia, o desenvolvimento
necessrio, ainda que doloroso, a sociedades        econmico era deixado de lado. Isso era previ-
mergulhadas durante muito tempo num absolu-         svel no caso da Gr-Bretanha, cujo governo
to torpor, e impulsion-las ao progresso. O sen-    sentia igualmente pouca responsabilidade por
timento nacionalista leva muitos asiticos e        esse aspecto em seu prprio pas. Na ndia (e no
africanos, hoje em dia, a negar essa necessidade    Egito), sua melhor realizao foi a irrigao, o
e a afirmar -- de forma questionvel -- que         que afinal de contas foi feito em causa prpria,
seus pases teriam sido perfeitamente capazes       pois a renda fundiria representou, durante mui-
de progredir por conta prpria, com pequenos        to tempo, o seu principal esteio. A Gr-Bretanha
emprstimos da Europa, exatamente como fez          construiu uma considervel infra-estrutura de
o Japo. Um rebento tardio do marxismo, a           estradas, ferrovias e meios de comunicao.
"teoria da dependncia" vai bem mais alm,          Fez pela sade o suficiente para dar incio 
afirmando de forma (ainda menos convincen-          reduo das epidemias que antes mantinham o
te) que os pases afro-asiticos s se tornaram     crescimento da populao dentro de limites
"atrasados" e pobres quando se viram reduzidos      rgidos. S muito tarde pensou em organizar
a colnias. Foi saqueando-os que a Europa con-      algum sistema eficaz de combate  fome. Os
seguiu acumular capital, industrializar-se e for-   nacionalistas podiam acus-la de empobrecer
jar seu progresso.                                  os camponeses e de atrasar a indstria, em vez
    Exceto em momentos de entusiasmo, geral-        de foment-la, em favor das exportaes brit-
mente durante uma campanha de conquista,            nicas. As importaes fabris tambm eram cul-
                                                                                  colonialismo     105


padas por paralisar o artesanato nativo e dis-    de ditadores, facilmente manipulados de fora.
seminar o desemprego.                             O capitalismo mundial, ao contrrio, tornou-se
    A Segunda Guerra Mundial representou um       mais poderosamente organizado com o surgi-
golpe mortal para o colonialismo. A Itlia e o    mento das "corporaes multinacionais" e da
Japo foram postos fora de combate. A Gr-        hegemonia norte-americana do que em seu pas-
Bretanha ficou desgastada pelo esforo exces-     sado dividido. Todos os novos pases, mesmo
sivo e seu povo, sem a menor disposio para      sendo ricos em recursos, como a Indonsia,
continuar lutando. Com uma obstinao insen-      precisavam de emprstimos, investimentos,
sata, a Holanda, a Frana e Portugal continua-    ajuda de todos os tipos. A "Ajuda", direta ou
ram durante anos tentando agarrar-se a suas       atravs de instituies como o Banco Mundial
possesses, sob o capcioso pretexto da Guerra     e o Fundo Monetrio Internacional, era algo que
Fria, da luta contra o comunismo. No que dizia    podia ser usado para ditar as polticas econmi-
respeito aos reais interesses econmicos, os      cas. Os governos que no se mostravam dispos-
soldados e oficiais brancos haviam-se tornado     tos a um alinhamento podiam, como regra, ser
suprfluos. Os povos coloniais, ou de qualquer    afastados ou, na linguagem oficial norte-ameri-
maneira as elites que vinham surgindo, foram      cana, "desestabilizados" sem muita dificulda-
se acostumando ao seu novo lugar em um mun-       de. Dois exemplos foram o de Mossadeque, no
do que pertencia, na maior parte, a um grande     Ir, em 1953, e o de Allende, no Chile, em 1973.
e nico complexo, e queriam aproveitar isso ao    Esses dois lderes pagaram com a vida por sua
mximo. A descolonizao era a escolha racio-     atitude recalcitrante. No "quintal" caribenho
nal, e foi calorosamente apoiada pelos Estados    dos Estados Unidos, continuava o que fora cha-
Unidos. Desde que entrou no mercado mundial       mado de "diplomacia das canhoneiras".
como exportador de produtos industriais, na           Em alguns poucos pases, em especial na
dcada de 1890, a Amrica do Norte pregava a      Coria do Sul e em Taiwan, e durante alguns
idia das "portas abertas". Agora achava que      anos no Brasil, a tecnologia e os investimentos
chegara o momento de desmantelar os imp-         estrangeiros, associados ao governo de dita-
rios, com suas barreiras e restries, deixando   dores apoiados pelos Estados Unidos, propor-
todos os mercados livres para serem tomados       cionaram um crescimento industrial notvel,
pelo competidor mais forte -- ela prpria.        embora a parte dos trabalhadores nos lucros
    A descolonizao deixou a verdadeira in-      tenha sido pequena. Em toda parte, os bancos
dependncia como um objetivo ainda distante.      ocidentais fizeram emprstimos em escala pro-
Na economia mundial em que as ex-colnias se      digiosa a pases "em desenvolvimento". A
viram tragadas, a maior parte delas no poderia   maioria dos tomadores descobriu ser difcil --
ter seno uma posio fraca e vulnervel. O       alguns descobriram ser impossvel -- manter
domnio imperial foi substitudo por um "neo-     os pagamentos dos juros, e certos emprstimos
colonialismo" que sujeitava o mais fraco ao       tiveram de ser anulados. O abismo entre pases
mais forte atravs de relaes econmicas desi-   avanados e atrasados est se ampliando, em
guais. Essas relaes sempre existiram, de bra-   vez de se estreitar. O neocolonialismo  danoso
os dados com o controle poltico e militar       aos pases pobres: se beneficia os pases ricos
direto. Boa parte da Amrica Latina no sculo     de alguma forma real,  algo sujeito a grande
XIX fora dominada financeiramente pela Euro-      dvida. No faz muito tempo que os imprios
pa, cujo "imprio informal" naquele continente    eram considerados vitais para a prosperidade
agora estava sendo tomado pelos Estados Uni-      dos que os detinham, e no entanto a Europa,
dos. A China foi apenas o maior de um grande      apesar de os ter perdido, est mais prspera do
nmero de pases geralmente chamados de "se-      que nunca.
micolnias", at que a revoluo comunista ps        Ver tambm MOVIMENTO DE LIBERTAO CO-
fim  sua subservincia ao Ocidente. As semi-     LONIAL; PAN-AFRICANISMO; PAN-ARABISMO.
colnias -- e a Prsia era uma -- s vezes se
saam pior do que as colnias, na opinio de      Leitura sugerida: Bull, Hedley e Watson, Adam, orgs.
muitos observadores.                              1984: The Expansion of International Society  Ethe-
                                                  rington, Norman 1984: Theories of Imperialism: War,
    Poucos dos pases agora nominalmente li-      Conquest and Capital  Fieldhouse, D.K. 1966: The
vres possuam uma liderana respeitvel. Mui-     Colonial Empires: a Comparative Survey from the
tos deles no demoraram a cair sob o controle     Eighteenth Century  Gopal, S. 1965: British Policy in
106   comparada, sociologia

India 1858-1905  Hobsbawn, E.J. 1987: The Age of        -- seja esse mecanismo preos, voto, beleza ou
Empire 1875-1914  Hobson, J.A. 1902 (1968): Impe-       qualquer outro -- e para ajudar na alocao de
rialism: a Study  Magnus, Philip 1958 (1968): Kitche-
ner, Portrait of an Imperialist  Mommsen, Wolfgang
                                                        recursos. A competio no pode ser eliminada,
J. e Osterhammel, Jrgen, orgs. 1986: Imperialism and   pode ser apenas transformada.
After: Continuities and Discontinuities  Pomeroy,           Numa economia pura de mercado, a compe-
W.J. 1970: American Neo-Colonialism: its Emergence      tio coordena as decises econmicas pelo
in the Philippines and Asia  Thornton, A.P. 1978: Im-   racionamento atravs dos preos. Um preo alto
perialism in the Twentieth Century.                     demais para o mercado atual leva a excessos de
                                      V.G. KIERNAM      estoque indesejveis e a uma presso para bai-
                                                        xo, enquanto um preo baixo demais produz
comparada, sociologia Ver SOCIOLOGIA COM-               filas e presso para cima. A subida ativa do
PARADA.
                                                        preo quando a demanda supera a oferta, bem
competio O verbo "competir" indica ati-               como a descida quando a oferta supera a deman-
vidade rival ente dois ou mais indivduos ou            da, serve para alocar recursos de maneira efeti-
grupos. Competir significa superar o outro, co-         va, atravs do ajuste dos mercados. A concor-
mo em um evento esportivo.                              rncia de preos coloca em coordenao os
    Na terminologia econmica, no entanto,              fornecedores e os consumidores mais bem dis-
competio  uma palavra que no pode ser               postos de determinado bem.
definida de forma to pouco ambgua. O corpo                Os preos coordenam a multido de planos
predominante do pensamento econmico no                 isolados que formam o mercado, ao informar os
sculo XX veio a definir a competio, no              agentes econmicos sobre a situao das con-
como uma atividade, mas como um estado de               dies de mercado existentes e o sucesso ou
coisas existente em um mercado idealizado --            fracasso de seus planos anteriores. Os preos
o modelo da concorrncia perfeita. Por outro            executam essa tarefa fornecendo incentivos e
lado, tem havido por todo o decorrer do sculo          conhecimento aos participantes do mercado. O
XX vozes dissidentes (abrangendo todo o es-             preo de qualquer bem  o reflexo da relativa
pectro ideolgico) insatisfeitas com essa defi-         escassez desse bem em relao a outros. Se o
nio esttica e idealizada, e que buscam explo-        preo  alto, isso representa para os partici-
rar melhor os processos efetivos de competio          pantes do mercado um sinal de que o bem
dinmica que ocorrem no mercado.                        particular em questo est relativamente escas-
                                                        so e deve ser economizado. Por outro lado, o
Escassez e racionamento                                 preo baixo de um bem indica sua relativa
    A competio  um resultado inevitvel da           abundncia. Dessa maneira, os que so res-
escassez. Isso no foi bem compreendido na              ponsveis pela tomada de decises na economia
histria das idias porque o conceito de escas-         recebem informaes a respeito das atuais con-
sez foi mesclado com o de riqueza ou abun-              dies do mercado a partir dos sinais repre-
dncia material pela maior parte dos pensadores         sentados pelos preos, e isso os ajuda em suas
do sculo XIX. Escassez, de fato, significa sim-        escolhas.
plesmente a falta do suprimento adequado de                 Os preos tambm fornecem informaes a
um bem, mas tambm algo mais fundamental.               respeito da justificativa econmica de decises
Escassez  um conceito lgico, no relacionado          passadas. Comprar barato e vender caro  re-
 riqueza, que diz respeito  passagem do tempo         compensado, enquanto comprar caro e vender
e  necessidade de escolha. No podemos fazer           barato  penalizado. O sistema de perdas e
tudo de uma s vez, por isso devemos escolher.          ganhos  um mecanismo de aprendizado atra-
A anlise econmica ocupa-se das conseqn-             vs do qual o erro sistemtico pode vir a ser
cias dessas escolhas.                                   eliminado. Alm dessas funes, os preos ser-
    Em resultado da escassez, os indivduos pre-        vem tambm como pano de fundo contra o qual
cisam estabelecer prioridades e racionar o seu          os indivduos descobrem meios de dispor ou
tempo de forma correspondente a poder reali-            redispor os recursos de modos mais eficazes
z-las. Da mesma forma, o sistema social de             para a satisfao de objetivos. A discrepncia
produo e distribuio deve ter como premissa          entre a atual formao dos preos e sua imagi-
algum mecanismo de racionamento para en-                nada formao futura estimula a busca empre-
frentar a escassez inexorvel que nos confronta         sarial do lucro puro.
                                                                                  competio   107


   Essas percepes do modo como funcionam          seria forada pela lgica do modelo a estabele-
os processos do mercado competitivo foi obs-        cer preo igual ao custo marginal. Por outro
curecida na economia do sculo XX com o             lado, numa situao monopolista, a firma seria
desenvolvimento do conceito de concorrncia         capaz de restringir a produo e elevar o preo
perfeita e de equilbrio geral.                     acima do custo marginal. Por conseqncia, em
                                                    uma situao competitiva, o desempenho da
Concorrncia perfeita                               indstria poderia ser designado de timo, en-
    Os economistas neoclssicos, encantados         quanto que, em condies monopolistas, o de-
com os mtodos da fsica, desenvolveram um          sempenho seria subtimo. Esse paradigma de
modelo altamente refinado de competio idea-       economia industrial justificou grande parte do
lizada, chamado de concorrncia perfeita. Os        ajuste econmico da indstria pelo governo,
pressupostos cruciais desse modelo de compe-        como a lei antitrustes, no sculo XX.
tio "sem frico" incluem: um nmero infi-            O paradigma predominante, porm, apre-
nito de compradores e vendedores (de forma a        sentava srias desvantagens. Desde confuses
que nenhum comprador ou vendedor possua             bsicas sobre definio do mercado relevante
qualquer grau significativo de fora de merca-      (nacional ou internacional) at srias dificul-
do), informao completa a respeito de utili-       dades analticas para explicar os modos de fun-
zaes alternativas, mobilidade de recursos         cionamento do processo de mercado competi-
sem custos e produto homogneo. A conse-            tivo, em tudo isso o paradigma estrutura-con-
qncia de semelhante estado de coisas seria: o     duta-desempenho foi considerado insuficiente.
preo de qualquer bem  considerado como            Por exemplo, se todos tratassem o preo como
dado e no como uma deciso varivel por parte      parmetro, como os preos mudariam para re-
dos produtores (tomada de preo); o preo re-       gular o mercado? Alm disso, o modelo conti-
fletiria plenamente o custo de oportunidade de
                                                    nha o srio dilema de que, numa situao de
produo (custo marginal dos preos) e lucros
                                                    conhecimento perfeito, uma oportunidade de
econmicos zero (levar a produo a um nvel
                                                    lucro conhecida de todos  na verdade conheci-
de resultados que minimize o seu custo mdio).
Nessas condies e com esses resultados, afir-      da por ningum, de forma que ningum teria
mou-se, a alocao de recursos poderia ser cha-     estmulo algum a buscar oportunidade de lucro
mada de tima, isto , seria alcanada a eficin-   -- e assim a lgica do modelo de ajuste no
cia de alocao. Nenhuma das partes poderia         mercado desaparece. O modelo bsico de
sair-se melhor sem simultaneamente deixar al-       equilbrio competitivo, descobriu-se, no po-
guma outra pior. Em outras palavras, todos os       dia sequer explicar a existncia de empresas
lucros a serem obtidos do intercmbio seriam        ou o uso do dinheiro, quanto mais esclarecer
exauridos em um equilbrio competitivo.             fenmenos como publicidade, diferenciao
    Esse modelo levou ao desenvolvimento            de produtos, fidelidade  marca, prticas con-
do paradigma estrutura-conduta-desempe-             tratuais e assim por diante. Como recurso
nho na economia industrial. Presumia-se que         analtico positivo para explicar o funciona-
a estrutura de mercado fosse perfeitamente          mento de uma economia pura de mercado, o
competitiva ou monopolista. Se uma empresa          modelo do equilbrio competitivo geral no
estava em situao competitiva ou monopo-           foi de muita ajuda.
lista era algo que podia ser medido pela par-           Esse modelo de concorrncia perfeita, na
ticipao no mercado, uma vez que sob               melhor das hipteses, poderia servir apenas
concorrncia perfeita nenhuma empresa pos-          como construo imaginria que, pelo mtodo
suiria qualquer poder significativo no merca-       do contraste, poderia ajudar-nos a lanar algu-
do. Os ndices de concentrao poderiam ser         ma luz sobre o mundo real da incerteza e do
usados para medir a extenso de poder de            tempo. Em outras palavras, estudando um mun-
mercado. Uma firma que possusse uma quo-           do sem mudana, podemos conseguir compre-
ta muito grande do mercado poderia ser              ender as dificuldades que a mudana introduz
considerada monopolista.                            na vida econmica. Infelizmente, a corrente
    Ademais, a conduta de preos da firma po-       predominante do pensamento econmico enca-
deria ser deduzida a partir da estrutura do mer-    rou esse modelo de maneira muito mais concre-
cado. Em uma indstria competitiva, uma firma       ta e descritiva.
108   comportamentalismo


A contra-revoluo                                  Leitura sugerida: Armentano, D.T. 1982: Antitrust
                                                    and Monopoly  Brozen, Y. 1982: Concentration, Mer-
    O desenvolvimento do modelo de concor-          gers and Public Policy  Demsetz, H. 1982: "Barries
rncia monopolista forneceu a primeira crtica      to entry". American Economic Review 72, 47-57 
iminente do modelo de concorrncia perfeita.        Hayeck, F.A. 1948: "The meaning of competition". In
O modelo de concorrncia perfeita no era ca-       Individualism and Economic Order  1978: "Com-
paz de explicar a existncia da diferenciao de    petition as a discovery procedure". In New Studies in
                                                    Philosophy, Politics, Economics and the History of
produtos que efetivamente se encontra nos mer-      Ideas  Kirzner, I. 1973: Competition and Entrepre-
cados. O modelo de competio monopolista           neurship  McNaulty, P. 1967: "A note on the history of
conseguia. Mas outras questes persistiam, tais     perfect competition". Journal of Political Economy 75,
como o papel dos direitos de propriedade e das      395-9  1968: "Economic theory and the meaning of
instituies de contrato. Os economistas come-      competition". Quarterly Journal of Economics 82, 639-
aram a reconhecer que o problema essencial         56  Stigler, G.J. 1965: Essays in the History of Econo-
                                                    mics  1968: The Organization of Industry.
com o monoplio no era a capacidade de es-
                                                                                       PETER J. BOETTKE
tabelecer preo acima do custo marginal, mas a
barreira ao acesso, o que permitia essas prticas   comportamentalismo Conhecida mundial-
artificialmente restritivas. Os economistas no     mente pelo seu nome mundial, behaviourism,
possuem uma teoria positiva do monoplio,           essa tem sido a escola de pensamento predomi-
mas sim uma teoria normativa dos direitos de        nante na PSICOLOGIA acadmica desde a publi-
propriedade.                                        cao da obras clssica de J.B. Watson, Beha-
    O desenvolvimento de uma abordagem de           viourism, em 1924. Poucos psiclogos, desde
direitos de propriedade para a economia in-         essa poca, tm-se mostrado dispostos a aceitar
dustrial mudou o foco da anlise, retirando-o       sua teoria sem reservas. A maioria, no entanto,
das condies de equilbrio competitivo e de-       sempre concordou com os aspectos gerais da
volvendo-o  discusso dos economistas cls-        sua posio. Ele afirma que:
sicos sobre o processo do mercado dinmico              1. os eventos mentais no podem cons-
dentro de diferentes contextos institucionais.              tituir os dados de uma cincia respeit-
Em resultado, o comportamento rival de in-                  vel, sendo o objeto adequado do estudo
divduos e firmas dentro dos processos econ-               psicolgico o comportamento, e no o
micos voltou a receber ateno. A competio,               pensamento ou o sentimento;
em vez de ser um estado de coisas mensurado             2. todo comportamento  o efeito de um
pela participao do mercado e por supostas                 reforo ou consolidao, isto , a reao
condies de equilbrio,  um processo ativo de             a um estmulo  a conseqncia da repe-
aprender como melhor dispor e redispor recur-               tida coincidncia da reao com uma
sos para satisfazer de forma mais eficiente os              recompensa (ou castigo);
fins procurados.                                        3. as tcnicas experimentais em psicologia
    A competio, dentro de um ambiente ins-                permitem-nos manipular o comporta-
titucional de propriedade privada,  um proce-              mento no sentido de fins socialmente
dimento de descoberta que gera tanto incenti-               aprovados. Uma vez que todo compor-
vos quanto conhecimento para a efetiva aloca-               tamento  de qualquer forma condicio-
o de recursos. Talvez a propriedade mais                  nado, a objeo ao condicionamento,
importante do processo do mercado competiti-                em oposio  persuaso racional, no
vo seja a sua capacidade de revelar erros e                 procede.
fornecer o incentivo e o conhecimento para que          A escola comportamentalista surgiu em pri-
os indivduos corrijam equvocos passados. Es-      meiro lugar como protesto contra a situao
sa propriedade de detectar e corrigir erros do      insatisfatria da psicologia na virada do sculo.
mercado competitivo  a caracterstica vital do     Wilhelm Wundt, Edward Tiechener e William
sistema para a promoo da prosperidade eco-        James supunham que a psicologia estudava os
nmica.                                             eventos mentais por meio da introspeco. Es-
    Ver tambm EMPRESARIAL, FUNO; ESCOLA          se processo era notoriamente destitudo de fide-
AUSTRACA DE ECONOMIA; ESCOLA ECONMICA DE          dignidade, faltando-lhe os meios de replicar as
CHICAGO; SOCIALISTA, CLCULO e SOCIEDADE DE         descobertas relatadas. Era antema para uma
CONSUMO.                                            gerao orientada por uma concepo da cin-
                                                                         comportamentalismo      109


cia extrada de Ernst Mach e que sentia inveja      bicioso de chegar a um registro de nmeros. Por
de cientistas mundialmente aclamados por seus       exemplo, a taxa de aprendizado. Se esses resul-
sucessos na previso de eventos no mundo fsi-      tados tm implicaes importantes para nossa
co. Os movimentos corporais, em contraste,          compreenso do comportamento e da estrutura
pareciam satisfazer a exigncia cientfica de       dos organismos  algo que pode, em si, ser
dados confiveis. A pressuposio de que o          questionado. As experincias de taxa de apren-
comportamento  sempre uma reao a estmu-         dizado nem implicam nem excluem eventos
los reforados forneceu as condies para ex-       ntimos. Nem exigem descrio em termos de
perincias controladas. At agora, portanto, o      movimentos corporais. Aprender  uma realiza-
comportamentalismo  o ponto de vista da pr-       o;  dado experimental. Comportamento,
pria psicologia experimental.                       nesse contexto,  o que organismos fazem, e no
    Watson, no entanto, foi mais longe. Em Chi-     meramente como se movem. As fortes alega-
cago, estudara com Jacques Loeb, famoso por         es de Skinner sobre a eficincia na mudana
sua afirmao de ter criado vida num tubo de        de comportamento com o emprego de mtodos
ensaio e que pensava a cincia como um meio         expurgados de contedo mental parecem entrar
de controlar e mudar a natureza. Watson parti-      em confronto com sua igualmente forte alega-
cipava desse ponto de vista e, com seu aluno        o de que, dado um controle suficiente sobre
B.F. Skinner (1938; 1959; 1971), tornou popu-       um organismo, podemos lev-lo a fazer prati-
lar uma imagem do comportamentalismo como           camente tudo que quisermos. Ces caminhando
receita para resolver as ansiedades individuais     sobre as patas traseiras, golfinhos pulando atra-
e o males do mundo. Onde psiclogos como            vs de anis de fogo, soldados marchando para
Clark L. Hull e E.C. Tolman encaravam o es-         a batalha atestam a possibilidade do controle.
tmulo-reao (E-R) como tcnica para refinar       Mas uma descrio dos mtodos de condicio-
nossa concepo do aparato mental ou fisiol-       namento parece acarretar certa referncia aos
gico que, eles supunham, devia mediar entre um      fins, intenes e motivos, pelo menos do expe-
estmulo e uma reao, Skinner encara o reforo     rimentador. Se assim for, elas acarretam tam-
como recurso utilizado pelo experimentador          bm uma descrio dos organismos como exe-
para induzir comportamento.                         cutando, e no meramente exibindo, movimen-
    Esse ponto de vista poderia ser chamado de      tos fsicos.
comportamentalismo ideolgico, de vez que               Muitos dos crticos de Skinner tm-se opos-
acarreta uma concepo de comportamento for-        to a seus pontos de vista por motivos morais e
mada a partir de fins escolhidos para a ao. Tal   polticos. Ele reduz a motivao humana, se-
concepo exige a linguagem do desempenho           gundo dizem,  forma mais simplista de hedo-
bem ou malsucedido, e no apenas a descrio        nismo. Defende o reforo positivo (recompen-
neutra de movimentos corporais, normalmente         sas, em vez de castigos), no porque seja melhor
encarada como o fundamento cientfico da teo-       ser bom, mas porque, de acordo com seu ponto
ria psicolgica. Definir o comportamento para       de vista, esse  um mtodo de manipulao mais
atender  exigncia de dados  um problema          eficaz. Suas alegaes de eficincia so, alm
para o comportamentalismo em geral. A expe-         do mais, exageradas. As reaes vo sumindo
rincia clssica do labirinto constri-se sobre a   com o decorrer do tempo (extino) e assim
pressuposio de que um sujeito h de se sentir     requerem freqentes sesses de recondiciona-
gratificado por chegar  recompensa e resolver     mento.  claro que hbitos que se extinguem
o labirinto com maior rapidez em novas tenta-       podem ser explicados teoricamente, mas, como
tivas. O comportamento do sujeito no ser          mtodo de poltica social, o condicionamento
descrito de forma mais exata se for analisado       iria onerar a sociedade com custos tremendos.
em suas unidades. A estratgia experimental             Crticas desses tipos so importantes, apesar
sempre presume que o sujeito est buscando a        de se concentrarem, talvez de modo demasiado
recompensa. Mas, nesse ponto, no fica evi-         exclusivo, na obra polmica de Skinner. No
dente por que no podemos dizer diretamente         obstante, elas revelam que grande parte da psi-
que o sujeito quer a recompensa e sabe como         cologia experimental  voltada para os fins, o
encontr-la.                                        que invalida a alegao de haver descrito o
    Grande parte da energia dedicada a expe-        comportamento sem recorrer  linguagem do
rincias de labirinto teve o objetivo menos am-     motivo, do propsito e da ao.
110   comportamentalismo


    Expurgar a linguagem psicolgica da lin-        destacaram. A crtica de alcance mais profundo
guagem intencional e mentalista foi, conforme       baseia-se na obra de Wittgenstein (1953) e Ryle
vimos, uma reao s afirmaes inverificveis      (1949), que foram eles prprios descritos como
dos introspeccionistas. Essa reao assumiu         comportamentalistas, uma vez que concordam
duas formas. Comportamentalistas radicais, co-      em que a introspeco no  o meio apropriado
mo Watson e Skinner, negavam a existncia, ou       de acesso  mente. Wittgenstein afirma que no
pelo menos a significao, de eventos descober-     podemos ter certeza de estarmos aplicando cor-
tos atravs da introspeco. Assumindo que          retamente um termo a experincias particu-
qualquer uso de conversa intencional ou mental      lares. Assim, nossa conversa sobre pensamen-
envolvia o que falava no processo desacredita-      tos e sentimentos no pode, logicamente, repre-
do da introspeco, foram levados a negar que       sentar uma suposio de dados particulares.
alguma coisa intervenha entre o estmulo e a        Ryle ataca a concepo da mente como um
reao. Qualquer referncia a impulsos, moti-       lugar onde os eventos mentais ocorrem. Ns
vos ou percepo consciente  redutvel  lin-      no observamos nossos pensamentos e os rela-
guagem E-R. Skinner, assim,  levado a excluir      tamos; nossos pensamentos so o nosso discur-
a explicao fisiolgica, a qual, desde os tem-     so. No descrevemos nossos sentimentos, na
pos de Pavlov (1927), forneceu um mpeto im-        mesma medida em que os expressamos. A ati-
portante ao desenvolvimento de mtodos com-         vidade mental, ou grande parte dela,  aquilo
portamentalistas. A obra de Hebb (1949)  um        que fazemos.
exemplo instrutivo. Os fisilogos requerem              Em Wittgenstein e Ryle, porm, a externali-
meios refinados para descrever o movimento          zao da mente no  motivada pela tentativa
corporal a fim de extrair inferncias a respeito    de definir comportamento em termos cientfi-
da estrutura e funo do sistema nervoso.           cos. Essa pesquisa leva, em vez disso, de volta
    Outros psiclogos, como Hull (1943) e Tol-       vida comum e  linguagem do dia-a-dia que
man (1958), supunham que a identificao pre-       usamos para facilit-la. Nesse cenrio,  inade-
cisa de estmulo e reao era necessria para       quado falar dos movimentos dos organismos
chegar aos processos interiores que os intros-      como a base para inferncia sobre pensamentos,
peccionistas observaram de modo imperfeito.         intenes, sentimentos e objetivos. Nossas des-
Seus pontos de vista receberam estmulo da          cries bsicas do comportamento consistem
viso predominante de que em cincia se pos-        em conversas sobre aes bem ou malsucedi-
tulam "construtos hipotticos" ou "variveis        das, e no sobre movimentos.
intervenientes", a partir dos quais a prova expe-       As implicaes do "comportamentalismo"
rimental se segue logicamente e por meios dos       filosfico para a psicologia emprica so impor-
quais novos eventos podem ser previstos. Para       tantes. Se seus argumentos so slidos, o infla-
alguns, os modelos no se referem a eventos         do universo mental do introspeccionista  ex-
ou estruturas reais, mas so apenas recursos        purgado sem deixar um vcuo a ser preenchido
heursticos para fazer previses. Para outros, a    pela pesquisa cientfica. J vimos at que nvel
descrio exata do processo de aprendizado era      o projeto experimental em psicologia est im-
justificada com o argumento de que nos pode         plicado no ponto de vista da vida diria. O
dar mapas mais precisos da mente (por exem-         labirinto  construdo visando descobrir com
plo, Tolman). O conceito de impulso desempe-        que rapidez o sujeito o resolve. A bolinha de
nha um papel central em todas as teorias desse      comida  chamada de recompensa e horas de
tipo. A fora impulsionadora, segundo se diz,       privao de alimentos so chamadas de es-
facilita a previso (Skinner,  claro, argumenta-   tmulo ou excitao do impulso, linguagem
ria que no existe diferena entre o impulso e a    que  difcil distinguir conceitualmente de ob-
smula de respostas). Ele tambm apia as           servaes a respeito da fome do sujeito, de
afirmaes a respeito de processos interiores,      suas preferncias, estratgias e descobertas. Es-
cuja natureza, porm, permanece problemtica.       sa  uma linguagem na qual est implcita uma
    J no  mais to claro quanto pode ter         compreenso do comportamento. "Em psicolo-
parecido por volta de 1950 que o comportamen-       gia", diz Wittgenstein, "h mtodo experimen-
talismo psicolgico contribuiu muito para a         tal e confuso conceitual" (Investigaes filo-
nossa compreenso do comportamento dos or-          sficas, II, p.XIV). A reduo que o comporta-
ganismos. Alguns dos motivos de ceticismo se        mentalista faz da ao para movimento tem
                                                                    comportamento organizacional        111


sucesso caso concentre sua ateno em proble-           dy of radical behaviourism". In Minnesota Studies in
mas psicolgicos. Em caso contrrio ela busca           the Philosophy of Science, org. por H. Feigl e M.
sua justificativa, no nos enigmas a respeito do        Scriven  Skinner, B.F. 1938: The Behaviour of Orga-
                                                        nisms  1959: Verbal Behaviour  1971: Beyond Free-
que fazemos, mas em receitas positivistas para          dom and Dignity  Spence, Kenneth 1956: Behaviour
se fazer cincia.                                       Theory and Conditioning  Tolman, E.C. 1958: Beha-
    Tem havido, nos ltimos anos, uma retrao          viour and Psychological Man  Watson, J.B. 1924: Be-
marcante, na teoria comportamentalista, embo-           haviourism  Wilson, E.O. 1975: Sociobiology: the
ra isso tenha sido acompanhado de novas defe-           New Synthesis  Wittgenstein, Ludwig 1953 (1967):
sas do modelo E-R por parte de epistemlogos            Philosophical Investigations.
e filsofos da LINGUAGEM. Word and Object                                                   ALFRED LOUCH
(1960), de Quine,  um bom exemplo. Mas na
psicologia, concebida como disciplina cientfi-         comportamento organizacional Este es-
ca autnoma, pouco tem sido feito desde as              tudo interdisciplinar concentra-se nos aspectos
tentativas de Spence (1956) de levar avante o           humano e social do gerenciamento em organi-
trabalho de Hull. Durante os ltimos 15 anos a          zaes formais como um problema "tcnico".
idia de que o estudo experimental das reaes          Vale-se basicamente da sociologia e da psico-
de organismos sob condies controladas pode-           logia, mas tambm da economia, da CINCIA
ria levar a uma cincia do comportamento pas-           DA ADMINISTRAO e da engenharia de produo
sou a sofrer um ataque cada vez mais constante          para estudar a estrutura e o funcionamento das
por parte dos que acreditam no ser possvel ne-        organizaes e o comportamento de grupos e
nhuma explicao legtima do comportamen-               indivduos dentro delas. A aplicao desse te-
to, exceto no contexto de uma compreenso               ma a problemas prticos de mudana gerencial
biolgica e evolucionista dos organismos. Os            em organizaes  chamada de desenvolvimen-
comportamentalistas clssicos observam o que
                                                        to organizacional. No sculo XX o impacto da
fazem os organismos estritamente dentro da
                                                        cincia social sobre o pensamento gerencial
perspectiva fornecida por recompensas explci-
                                                        cresceu a ponto de se tornar a fora mais impor-
tas ou estmulos de averso. So, assim, inca-
                                                        tante.
pazes de reconhecer o significado do compor-
tamento altrusta. Essa  uma reao, dizem os              Do ponto de vista do comportamento orga-
sociobilogos, explicvel apenas com o pres-            nizacional, a tarefa do gerenciamento pode ser
suposto de que o altrusmo maximiza a pos-              considerada como a organizao do comporta-
sibilidade de o material gentico ser passado           mento dos indivduos em relao aos meios e
adiante para a prxima gerao. O desenvolvi-           recursos fsicos a fim de se alcanarem objeti-
mento da SOCIOBIOLOGIA tem semelhanas mar-             vos desejados. Apresenta-se, ento, um proble-
cantes com o comportamentalismo psicolgico             ma bsico: que quantidade de organizao e de
e tem sido criticado mais ou menos da mesma             controle de comportamento  necessria para
forma.  de interesse aqui por chamar a ateno         um funcionamento eficiente e que forma isso
para o que  fundamental na estratgia compor-          deveria assumir?  na resposta implcita a essa
tamentalista e para suas deficincias. O com-           pergunta que podemos distinguir os dois lados
portamentalismo ser melhor encarado como               de um debate contnuo -- caracterizados por
tentativa de separar a psicologia, como cincia,        Pugh (1990) como os "organizadores" e os
de outras disciplinas.                                  "comportamentistas".
                                                            Os organizadores baseiam-se na obra de
Leitura sugerida: Austin, John 1961 (1970): "A plea     Henri Fayol, Frederick W. Taylor e Max Weber.
for excuses". In Philosophical Papers  Chomsky, N.
1959: "Review of B.F. Skinner's Verbal Behaviour",
                                                        Afirmam que estruturas, planos e programas
Language 35, 26-58  Hebb, D.O. 1949: The Organiza-      mais precisamente determinados, com melhor
tion of Behaviour  Hull, Clark L. 1943: Principles of   especificao, monitorao e controle do com-
Behaviour  MacCorquodale, K. e Meehl, P.E. 1948:        portamento exigido para realiz-los, so neces-
"On a distinction between hypothetical constructs e     srios para a eficincia. Destacam as vantagens,
intervening variables". Psychological Review 85, 95-
                                                        para uma eficiente realizao de objetivos, da
107  Melden, A.I. 1961: Free Action  Pavlov, Ivan
1927: Conditioned Reflexes  Peters, R.S. 1958: The      especializao de funes e tarefas, de defi-
Concept of Motivation  Ryle, Gilbert 1949 (1963):       nies claras dos servios, de procedimentos
The Concept of Mind  Scriven, Michael 1958: "A stu-     padronizados e de linhas ntidas de autoridade,
112   compreenso


isto , a forma de organizao para a qual Weber       Estudos sobre tomadas de deciso tambm
(1922) usou a palavra BUROCRACIA.                  indicaram que no  possvel assumir uma abor-
    A definio de Fayol (1916) do que  geren-    dagem completamente racional do gerencia-
ciamento e a abordagem de Taylor (1947) da         mento (Simon, 1947). Normalmente ocorre
extrema subdiviso e controle das tarefas dos      uma abordagem em etapas, parcialmente racio-
trabalhadores diretos (chamada "gerenciamen-       nal (Lindblom, 1959). Mesmo as abordagens
to cientfico") tiveram e continuam a ter um       no racionais da tomada de decises so es-
impacto considervel sobre o pensamento e a        timuladas como um impulso  inovao
prtica gerenciais. Enquanto Fayol e Taylor        (March, 1976).
foram defensores entusiastas do pleno controle         Novas evolues baseiam-se nos que assu-
gerencial, Weber expressou considervel preo-      mem uma "abordagem de contingncia", afir-
cupao quanto s implicaes sociais da difu-     mando que se deve manter um equilbrio entre
so da burocracia, em termos da capacidade dos     as preocupaes dos organizadores e as dos
burocratas de usurpar funes democrticas.        comportamentistas. Esse equilbrio ser contin-
Uma vez, porm, que essa preocupao se ba-        gente  situao contextual particular da orga-
seava na sua crena na irresistvel eficincia     nizao, que provocar diferenas em sua es-
tcnica da abordagem burocrtica, seu impacto      trutura (Burns e Stalker, 1961; Pugh e Hickson,
no campo do comportamento organizacional           1976), tanto quanto a tecnologia utilizada na
viria a sublinhar os argumentos dos organiza-      produo, conforme demonstrado na aborda-
dores.                                             gem de sistema sociotcnica (Emery e Trist,
    Essas idias foram desenvolvidas, por          1960). Da mesma forma, diferentes tarefas de
exemplo, atravs da explicao detalhada das       um grupo de trabalho, bem como as neces-
caractersticas mnimas exigidas de uma es-        sidades de seus membros, exigiro diferenas
trutura burocrtica eficaz (Jaques, 1976).         na liderana (Fiedler, 1967).
    Os comportamentistas baseiam-se na obra            A abordagem marxista (Braverman, 1974)
de Elton Mayo, Kurt Lewin e Abraham Mas-           tem sido a de afirmar que os organizadores
low. Mayo (1933), nas "experincias Hawthor-       extremados sero sempre preferidos pelas ge-
ne", estudou grupos de trabalhadores diretos e     rncias, uma vez que seu objetivo no  a efi-
desenvolveu a abordagem de "relaes huma-         cincia no desempenho, mas a eficincia no
nas", que enfatiza as necessidades humanas e       controle da classe operria, em nome dos inte-
sociais dos trabalhadores (ver tambm RELA-        resses do capital.
ES INDUSTRIAIS). Lewin estudou as foras da          Uma evoluo recente e importante, com a
liderana democrtica, em oposio  liderana     expanso do comrcio internacional e a ascen-
autocrtica (Lewin et al., 1939). Maslow (1968)    so das corporaes multinacionais, foi a iden-
identificou a "auto-realizao" -- a necessi-      tificao sistemtica das diferenas intercul-
dade de crescer e desenvolver-se como indiv-      turais no comportamento organizacional, com
duo -- como um motivador importante. Os trs       respeito a valores de trabalho, estilo de lideran-
afirmam que a contnua tentativa de aumentar       a e controle de estruturas (Hofstede, 1980).
o controle sobre o comportamento dos mem-          Leitura sugerida: Morgan, G. 1986: Images of Orga-
bros da organizao est destinado ao fracasso.    nization  Pugh, D.S. e Hickson, D.J. 1989: Writers on
O controle gerencial leva  rigidez onde se        Organizations, 4ed.
precisa de flexibilidade e  apatia no desempe-                                           DEREK PUGH
nho dos membros quando se exigem engaja-
mento e alta motivao. Um controle crescente      compreenso Ver VERSTEHEN.
gera esforos dedicados ao contracontrole, atra-   computao Ver INTELIGNCIA ARTIFICIAL.
vs de relaes informais para derrubar os ob-
jetivos da organizao. Em geral, no leva a um    comunicao Tal como os processos comu-
aumento da eficincia e, quando o faz,  apenas    nicativos especficos estudados em lingstica,
a curto prazo e  custa de conflito interno. Os    SOCIOLINGSTICA    e psicologia social, um con-
subordinados precisam receber considervel         ceito mais amplo de comunicao vem sendo
autonomia quanto a decises e oportunidades        um dos temas mais importantes do pensamento
de autodesenvolvimento, caso a organizao         social. Aristteles encarava o Estado como uma
queira funcionar de forma eficiente.               comunidade envolvendo a comunicao entre
                                                                                 comunicao     113


uma multiplicidade de perspectivas indivi-          tativas apresentam 97 combinaes possveis.
duais. Enquanto isso diz respeito  ao in-        Da toda comunicao basear-se em mecanis-
dividual deliberada na esfera poltica, Toms de    mos de reduo da complexidade, tais como
Aquino introduziu no pensamento cristo me-         "confiana mtua", expectativas de normali-
dieval um conceito terico mais amplo, no qual      dade etc. Os agentes podem manter ou modifi-
a natureza de Deus  comunicada na criao de       car essa ordem comunicativa estabilizada pelo
suas criaturas. Esse modelo levou  generaliza-     exerccio de influncia externa sobre os efeitos
o do conceito de comunicao a todos os           das aes dos outros, ou reproduzi-la e recons-
seres humanos e, ao mesmo tempo, a uma dife-        tru-la por meio de um acordo interno em bases
renciao, que se tornou crucial para a moder-      generalizveis.
nidade, entre a comunidade de comunicao               A comunicao, portanto, deve ser vista co-
particular (poltica) e a universal (social).       mo uma forma de ao. Enquanto o conceito
    Essa extenso idealizante do conceito de        clssico de ao se baseia na diferenciao entre
comunicao a todos os seres humanos, bem           sujeito e objeto e entre meios e fins, o mais
como sua simultnea diferenciao em comu-          recente conceito social e cientfico de comuni-
nicao poltica e social, fez dele um ponto de     cao baseia-se na diferenciao entre ego e
referncia preferido da sociologia e da filosofia   alter. A ao comunicativa, na teoria de Haber-
social modernas. Marx, nos Grundrisse, usa a        mas, visa, em ltima anlise, um acordo racio-
diferenciao entre comunicao poltica e so-      nal entre ego e alter. Enquanto aes racionais-
cial para transformar o zoon politikon de Aris-     deliberadas, ou racionais-valorativas formam
tteles em uma "sociedade" de indivduos            um sistema engatando-se a outras aes, as
"agindo e falando juntos". C.S. Peirce analisa a    aes comunicativas formam um sistema social
comunidade cientfica a partir da perspectiva de    ligando-se s aes de outros. A essa distino
uma comunidade de comunicao (idealizada)          correspondem diferentes concepes de RACIO-
e G.H. Mead leva os processos sociais de in-        NALIDADE E RAZO. Enquanto as teorias cls-
dividualizao por meio de socializao para o      sicas aristotlicas de ao, em linha direta at
quadro de um "discurso universal". O principal      Max Weber, ligam a estrutura de meios-fins ao
aspecto dessa universalizao terica da comu-      conceito de racionalidade deliberada ou orien-
nidade de comunicao  a afirmativa de que,        tada para o sucesso, a teoria de Habermas sobre
conforme as palavras de Jrgen Habermas             ao social ou intersubjetiva, que ele chama
(1981, p.105), "o processo de vida social tem       tambm de "ao orientada para a compreenso
uma relao com a verdade que lhe  inte-           mtua", baseia-se no conceito de racionalidade
grante". Essa universalizao, junto com a so-      comunicativa. Esse conceito comunicativo-
cializao (incluindo a "despolitizao" ou di-     pragmtico de racionalidade, remontando a
ferenciao interna) do conceito de comunica-       Peirce, Mead e  hermenutica de Hans-Georg
o  um aspecto caracterstico do pensamento       Gadamer, no apenas estabelece limites  pos-
ps-metafsico da MODERNIDADE, marcando um          sibilidade de generalizao do esquema meios-
rompimento radical entre o pensamento cient-       fins, mas tambm ultrapassa os limites do pen-
fico e social e o pensamento poltico do mundo      samento europeu tradicional, at uma metafsi-
antigo e dos clssicos da filosofia poltica.       ca reflexiva de sujeito e objeto (comparar Rorty,
    Pode-se compreender a comunicao como          1980).
um meio de resolver o problema "hobbesiano"             Uma maior diferenciao do conceito de
da ordem social. Como  possvel que os planos      comunicao abre ampla variedade de pers-
de ao de vrios agentes possam ser coordena-      pectivas tericas e empricas. A diferenciao
dos uns com os outros? Se seguirmos Talcott         entre comunicao verbal e no-verbal mostra
Parsons na anlise das situaes de dupla con-      que a comunicao entre os que esto presentes
tingncia, logo nos ocorrer a extrema impro-        inevitvel (Watzlawick et al., 1967). Corres-
babilidade das seqncias ordenadas de inter-       pondendo  distino de comunicao direta e
ao e dos acordos comunicativos. Mesmo em          indireta est a importante diferena entre sis-
uma situao de laboratrio extremamente sim-       temas sociais simples envolvendo comunica-
plificada, com dois agentes e trs orientaes      o face a face e sistemas sociais complexos
possveis (por exemplo, "egosta", "generosa"       baseados na comunicao mediada entre parti-
e "hostil"), as expectativas recprocas de expec-   cipantes fisicamente distantes (ver Luhmann,
114   comunicao de massa


1972). A oposio entre simetria e assimetria         carter religioso ou literrio e com a produo
capital no apenas para a teoria do papel social,      de textos para uso em direito, medicina e co-
mas tambm para as teorias sobre as condies          mrcio. No incio do sculo XVI essas oficinas
ideais de comunicao (ver Habermas, 1971).            comearam a imprimir peridicos e folhas no-
A diferenciao entre condies simtricas e           ticiosas de vrias espcies, e no incio do sculo
assimtricas de comunicao  importante para          XVII comearam a surgir os jornais regulares.
se distinguir entre comunicao distorcida ou          As indstrias do livro e do jornal expandiram-se
perturbada e comunicao no-distorcida. Essa          rapidamente no sculo XIX, quando tcnicas
distino, por sua vez,  bsica para vrias           ligadas  Revoluo Industrial foram aplicadas
teorias sobre patologias da comunicao (Watz-          produo de textos impressos. A circulao
lawick et al., 1967; Habermas, 1988) e sobre a         aumentou de forma significativa e, com o de-
reconstruo e crtica das ideologias (Apel,           clnio do analfabetismo, livros e jornais torna-
1973).                                                 ram-se acessveis a uma proporo cada vez
   Ver tambm COMUNICAO DE MASSA; DIS-               maior da populao das sociedades industri-
CURSO.                                                 alizadas (ou em processo de industrializao).
                                                           As transmisses de rdio e televiso so um
Leitura sugerida: Apel, K.O. 1973 (1980): Toward a
                                                       fenmeno do sculo XX. A base tcnica de
Transformation of Philosophy  Cashdan, Asher e Jor-
dan, Martin 1987: Studies in Communication  Haber-     transmisso foi desenvolvida por Marconi e
mas, Jrgen 1981 (1984): The Theory of Communica-      outros, na dcada de 1890 e incio deste sculo,
tive Action, vol.1  Mellor, D.H., org. 1990: Ways of   e os primeiros passos para a transmisso radio-
Communicating  Rorty, R. 1980: Philosophy and the      fnica em grande escala foram dados nos anos
Mirror of Nature.                                      20. A transmisso televisiva foi introduzida em
                             HAUKE BRUNKHORST          grande escala no final dos anos 40 e se tornou
                                                       rapidamente um dos meios de comunicao
comunicao de massa A expresso "co-                  mais populares. Em muitas sociedades indus-
municao de massa" (mass media)  comu-               triais do Ocidente, hoje em dia, os adultos pas-
mente usada para se referir a uma srie de             sam uma mdia de 25 a 30 horas por semana
instituies ocupadas com a produo em gran-          assistindo  televiso, e esta transformou-se na
de escala e a difuso generalizada de formas           mais importante fonte de informao com res-
simblicas. Entre essas formas se incluem li-          peito a eventos nacionais e internacionais.
vros, jornais, revistas, filmes, programas de              Dada a sua significao no mundo moderno,
rdio e televiso, gravaes, discos laser e as-       seria possvel afirmar que a comunicao de
sim por diante.                                        massa no tem recebido a ateno que merece
    As origens da comunicao de massa podem           por parte dos tericos sociais e polticos. Foram
remontar  segunda metade do sculo XV. Por            desenvolvidas, porm, vrias e distintas abor-
volta de 1440 Johann Gutenberg, ourives que            dagens tericas da comunicao de massa. En-
trabalhava em Mainz, comeou a fazer expe-             tre os primeiros pensadores sociais a estudar a
rincias com impresso e, em torno de 1450, j         comunicao de massa de forma sistemtica
havia desenvolvido suas tcnicas o suficiente          estavam os antigos "tericos crticos" associa-
para explor-las de forma comercial. Gutenberg         dos ao Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt.
desenvolveu um mtodo para a moldagem ml-             Esses tericos, incluindo Max Horkheimer
tipla de letras metlicas, de modo a ser possvel      (1895-1971) e Theodor Adorno (1903-69), es-
produzir grandes quantidades de tipos para a           tavam interessados na natureza e no impacto do
composio de textos extensos. Ele tambm              que chamaram de "indstria da cultura" (Hor-
adaptou a prensa tradicional, de rosca, para os        kheimer e Adorno, 1947). Escreveram nos anos
fins de fabricao de obras impressas. Durante         30 e 40, afirmando que a comunicao de massa
a segunda metade do sculo XV essas tcnicas           fizera surgir uma nova forma de IDEOLOGIA nas
difundiram-se rapidamente, e mquinas de im-           sociedades modernas. Ao produzir grandes
presso j se encontravam instaladas nos prin-         quantidades de bens culturais padronizados e
cipais centros comerciais de toda a Europa.            estereotipados, a comunicao de massa estava
    As primeiras oficinas de impresso eram,           fornecendo aos indivduos meios imaginrios
em geral, empreendimentos comerciais preocu-           de escape das duras realidades da vida social e,
pados com a reproduo de manuscritos de               com isso, debilitando sua capacidade de pensar
                                                                                     comunidade        115


de forma crtica e autnoma. Horkheimer e          blemas. Ela permitiu que os indivduos se tor-
Adorno apontaram que essas evolues, entre        nassem mais independentes, racionais e espe-
outras, haviam tornado os indivduos mais vul-     cializados. Mas o desenvolvimento da moder-
nerveis  retrica do nazismo e do fascismo.      na mdia eletrnica, de acordo com McLuhan,
    Uma avaliao em geral negativa da comu-       criou um novo ambiente cultural em que o
nicao de massa e de seu impacto pode ser         primado da viso foi deslocado por uma inte-
encontrada nos textos de outros tericos sociais   rao unificadora dos sentidos e na qual os
e polticos, particularmente os influenciados      indivduos so unidos em redes globais de co-
pelo marxismo. Para muitos tericos marxis-        municao instantnea (ver MODERNIDADE). Em
tas, a comunicao de massa  encarada basi-       outras palavras, a mdia eletrnica criou uma
camente como um meio de ideologia. Isto ,         "aldeia global" (McLuhan, 1964) (ver GLOBALI-
como um mecanismo em virtude do qual grupos        ZAO).
ou classes dominantes so capazes de difundir          Os pontos de vista apresentados por Innis e
idias que promovem seus prprios interesses       McLuhan so bastante idiossincrsicos e trata-
e que servem, assim, para manter o status quo.     dos com cautela pela maior parte dos tericos e
Um exemplo desse ponto de vista  a aborda-        analistas da comunicao. Grande nmero de
gem desenvolvida pelo marxista francs Louis       estudos mais detalhados foi executado com a
Althusser, que trata a comunicao de massa        finalidade de examinar o papel da comunicao
como parte integrante do que ele chama de          de massa nas sociedades modernas e seus pos-
"aparelhos ideolgicos de estado" (Althusser,      sveis efeitos sobre a vida poltica e social. (Para
1970).                                             um exame dessa literatura, ver McQuail, 1987.)
    Uma explicao diferente sobre a natureza      No obstante, o trabalho dos tericos da comu-
e o significado da comunicao de massa foi        nicao, entre outros, ajudou a ressaltar o fato
desenvolvida nos anos 50 e 60 pelos autores        de que o desenvolvimento da comunicao de
canadenses Harold Innis (1894-1952) e Mars-        massa deu forma, de um modo profundo e
hall McLuhan (1911-81). s vezes chamados          irreversvel,  natureza da interao social e da
de "tericos da mdia", Innis e McLuhan afir-      experincia cultural no mundo moderno.
maram que a prpria forma do meio de COMU-         Leitura sugerida: Curran, James e Seaton, Jean 1988
NICAO pode influenciar a natureza da organi-     (1991): Power Without Responsability, 4ed.  Eisen-
zao social e da sensibilidade humana. Innis      stein, Elizabeth L. 1979: The Printing Press as an Agent
introduziu a idia de que todo meio de comuni-     of Change  Golding, Peter 1974: The Mass Media 
cao tem certa "inclinao" para a durabili-      Habermas, Jrgen 1962 (1989): The Structural Trans-
dade no tempo ou a mobilidade no espao. Ele       formation of the Public Sphere  Meyrowitz, Joshua
                                                   1985: No Sense of Place  Poster, Mark 1990: The
apontou que as sociedades nas quais o meio         Mode of Information  Thompson, John B. 1990: Ideo-
dominante se inclina para a durabilidade tem-      logy and Modern Culture.
poral (por exemplo, pedra ou argila) tendero a                                       JOHN B. THOMSON
ser pequenas e descentralizadas, enquanto as
sociedades com um meio inclinado para a mo-        comunidade Um dos conceitos mais vagos
bilidade espacial (por exemplo, papiro ou pa-      e evasivos em cincia social, a idia de comu-
pel) tendero a ser amplas e imperiais, como o     nidade continua a desafiar uma definio preci-
imprio romano (Innis, 1950 e 1951). A obra de     sa. Parte do problema tem origem na diversi-
Innis foi desbravadora no sentido de ter ligado    dade de sentidos atribuda  palavra e s cono-
o desenvolvimento dos meios de comunicao         taes emotivas que ela geralmente evoca. Tor-
a consideraes mais amplas de tempo, espao       nou-se uma palavra passepartout, usada para
e poder.                                           descrever unidades sociais que variam de al-
    McLuhan apontou que as tecnologias de          deias, conjuntos habitacionais e vizinhanas
comunicao tiveram um impacto fundamental         locais at grupos tnicos, naes e organizaes
sobre os sentidos e as faculdades cognitivas dos   internacionais. No mnimo, comunidade geral-
seres humanos. Em contraste com as sociedades      mente indica um grupo de pessoas dentro de
orais tradicionais, o desenvolvimento da escrita   uma rea geogrfica limitada que interagem
e da impresso criou uma cultura que foi domi-     dentro de instituies comuns e que possuem
nada pelo sentido da viso e por uma aborda-       um senso comum de interdependncia e inte-
gem analtica e seqencial da soluo de pro-      grao. No obstante, conjuntos de indivduos
116   comunidade


vivendo ou interagindo dentro de um mesmo           desenvolver uma abordagem mais dinmica,
territrio no constituem em si mesmos comu-        com uma mudana de nfase para as redes,
nidades -- particularmente se esses indivduos      faces, rodas e no-grupos sociais. No entanto
no se consideram como tal. O que une uma           abordagens antropolgicas recentes, exemplifi-
comunidade no  a sua estrutura, mas um            cadas por Cohen (1985), tm evitado o proble-
estado de esprito -- um sentimento de comu-        ma de definio de tentar formular um modelo
nidade. Essa dimenso subjetiva torna comuni-       estrutural de comunidade, concentrando-se em
dade algo problemtico como instrumento de          vez disso no significado. Para Cohen, comuni-
anlise sociolgica, pois os limites de qualquer    dade  uma entidade simblica, sem parmetros
grupo com auto-identificao, da perspectiva        fixos, pois existe em relao e oposio a outras
do que est dentro, so geralmente fluidos e        comunidades observadas; um sistema de VA-
intangveis, em vez de fixos e finitos.             LORES e um cdigo de moral que proporcionam
    Os estudos empricos de comunidade geral-       a seus membros um senso de IDENTIDADE. A
mente confundem descrio com as pressupo-          idia de comunidade como entidade "imagina-
sies preconcebidas do socilogo a respeito do     da" e "idia-fora" simblica tambm foi usada
que comunidade deveria ser (Bell e Newby,           com sucesso na obra de Anderson (1983) sobre
1971, p.21). Outra confuso surge da combina-       as origens do NACIONALISMO moderno. Com
o de comunidade como unidade ou coletivi-         suas associaes de companheirismo e vida
dade social (clube, aldeia, subrbio, municpio)    comunal, comunidade  h muito um conceito-
com comunidade como um tipo de relaciona-           chave no pensamento poltico e religioso. Re-
mento social (baseado em laos de sentimento        cebe nfase especial na tradio socialista e
ou econmicos). Essa confuso pode remontar         anarquista. A dicotomia comunidade-associa-
a Tnnies (1887) e seu conceito original de         o pode ser ligada a contrastantes concepes
Gemeinschaft, que representava a comunidade
                                                    polticas de sociedade -- como uma livre as-
integrada, pr-industrial, em pequena escala,
                                                    sociao de indivduos em competio (viso
baseada em parentesco, amizade e vizinhana,
                                                    liberal/hobbesiana) ou como um coletivo que 
em que as relaes sociais so ntimas, dura-
douras e multiintegradas. De acordo com a           mais que a soma de suas partes, um corpo
formulao de Tnnies, a comunidade contras-        edificante atravs do qual  possvel concretizar
tava com sua contrapartida, a no-comunidade,       a autntica cidadania (viso socialista/rousse-
o Gesellschaft ("associao") -- simbolizando       auniana).
os laos impessoais, annimos, contratuais e            Como conceito analtico, comunidade tem
amorais caractersticos da sociedade industrial     pouco valor, apesar de sua permanente impor-
moderna.                                            tncia como uma realidade nas vidas da maioria
    Seguindo Weber e Tnnies, socilogos            das pessoas. Tornou-se uma palavra de ordem
norte-americanos, particularmente Talcott Par-      carregada de associaes emotivas de inteireza,
sons, Robert E. Park, Louis Wirth e Robert          coeso, comunho, interesse pblico e tudo que
Redfield, continuaram a usar comunidade co-          bom. Como observou Raymond Williams
mo um tipo ideal em um continuum entre dois         (1976, p.76), "diferentemente de todas as outras
plos, como tradio-modernidade, rural-urba-       palavras que indicam organizao social (es-
no e sagrado-secular. Havia implcita nessa         tado, nao, sociedade etc.), esta parece nunca
abordagem uma viso nostlgica e romntica          ser usada de forma desfavorvel". Em resulta-
do passado: a pressuposta coeso emocional e        do, comunidade aparece como um complemen-
a "vida boa" da comunidade tradicional foram        to de toda uma srie de instituies, sempre que
usadas para fazer comparaes desfavorveis         est implcita uma camaradagem profunda, ho-
ao anonimato, isolamento e alienao da mo-         rizontal e natural (assistncia comunitria, cen-
derna SOCIEDADE DE MASSA.                           tro comunitrio, comunidade local, Comuni-
    Apesar da proliferao dos estudos sobre        dade Europia), por mais tnues que sejam os
comunidade na sociologia, essa abordagem em-        laos. A palavra tambm foi apropriada por
prica "manteve-se quase que inteiramente es-       polticos, planejadores e arquitetos para legiti-
tril no plano terico" (Elias, 1974, p.XVI). Nos   mar planos de ao em nome do interesse p-
anos 60 foram feitas tentativas, em especial na     blico, por mais implausvel que possa ser a
obra de Clyde Mitchell e Jeremy Boissevain, de      realidade.
                                                                                     comunismo     117

Leitura sugerida: Anderson, Benedict 1983: Imagi-     pitalismo e empresas comunistas em um sis-
ned Communities  Bell, Colin e Newby, Howard 1971:    tema comunista.
Community Studies  Cohen, Anthony 1985: The Sym-
bolic Construction of Community  Elias, Norbert           As teorias comunistas geralmente contras-
1974: "Towards a theory of communities". In The So-   tam o comunismo com o capitalismo, uma so-
ciology of Community, org. por C. Bell e H. Newby     ciedade com propriedade privada, produo de
Williams, Raymond 1976: Keywords.                     bens para a venda em mercados livres e com
                                       CRIS SHORE     trabalhadores livres e mercados de capital. Para
                                                      os primeiros autores (T. More, T. Campanella),
                                                      o comunismo era provavelmente uma alterna-
comunismo Palavra que abrange uma fam-               tiva ao capitalismo. Mais tarde passou a ser
lia de conceitos intimamente relacionados, de-        tratado como uma sociedade ps-capitalista.
signando (1) um tipo de sociedade humana, (2)         Alguns o encararam como uma condio natu-
teorias que descrevem e justificam uma socie-         ral da sociedade, enquanto outros autores
dade comunista e (3) movimentos polticos que         (Saint-Simon, Fourier, Marx) colocaram-no
tentam criar uma sociedade comunista. A ex-           dentro de uma seqncia necessria de tipos de
presso "comunismo primitivo"  usada por             sociedade a se sucederem imediatamente de-
muitos marxistas para designar os primeiros           pois do capitalismo. Estava em geral implcito
estgios da sociedade humana. Autores soviti-        nos textos dos autores do sculo XIX que existe
cos e do Leste europeu, no entanto, em geral          apenas uma seqncia de tipos possveis de
preferem expresses como "sociedade primiti-          sociedade. Esse ponto de vista foi aceito pelos
va", "sociedade comunalista primitiva" ou "so-        bolcheviques russos e seus seguidores. Para a
ciedade tribal".                                      maioria dos tericos, o comunismo era o estgio
    Uma relao mnima de qualidades neces-           final de desenvolvimento. Marx apoiou esse
srias para que uma sociedade seja chamada            ponto de vista escatolgico em seus Manuscri-
de comunista inclui a propriedade comum dos           tos de 1844. Depois de 1845 Marx e Engels
meios de produo (mas no necessariamente            abandonaram a escatologia, aceitaram a idia
dos meios de consumo), a autogesto em todas          de outros tipos de sociedade seguindo-se ao
as reas da vida e liberdade. As teorias comunis-     comunismo, mas afirmaram que a especulao
tas alegam que essas qualidades tambm pro-           a respeito de evolues ulteriores no tinha
porcionam as condies necessrias para a fe-         sentido porque as provas necessrias s se fa-
licidade humana (apesar de poderem no ser            riam presentes quando os ltimos estgios do
suficientes para garantir a felicidade de todas as    comunismo tivessem sido atingidos. Esse ponto
pessoas). As teorias sobre comunismo geral-           de vista foi rejeitado pela maioria dos autores
mente enfatizam a ausncia, nessa sociedade,          soviticos nos anos 60, mas veio a ser aceito por
de algumas caractersticas das sociedades con-        vrios deles.
temporneas, como a explorao de classe (Le-             Nunca ficou provado, acima de qualquer
nin fazia uma concesso  explorao de pes-          dvida razovel, que sociedades capazes de
soas de vontade fraca por pessoas de vontade          satisfazer as condies de aplicabilidade da pa-
forte), dinheiro, bens de consumo, funcionrios       lavra "comunista" tenham efetivamente exis-
pblicos profissionais e exrcitos permanentes.       tido. Sem democracia na Unio Sovitica, a
    Engels usou as expresses "propriedade pri-       alegao de que seu povo possua os meios de
vada" e "propriedade comum" para designar a           produo  evidentemente falsa. A escravido
propriedade por uma pessoa e a propriedade por        em massa, a servido feudal para os campo-
mais de uma pessoa, respectivamente. Uma              neses e a ditadura totalitria na Unio Sovitica
cooperativa e uma empresa acionria eram ca-          de Stalin no tinham relao alguma com qual-
sos de propriedade comum. s vezes se faz uma         quer coisa que se pudesse chamar de "comunis-
distino entre a propriedade comum capitalista       ta" no sentido tradicional do sculo XIX. De-
(os acionistas da firma no so os empregados         pois de 1953 surgiu uma forma dual de proprie-
desta) e a propriedade comum comunista (os            dade dos meios de produo, consistindo em
acionistas so os empregados da firma). Lenin         um proprietrio coletivo de nvel mais alto (o
afirmava que, no capitalismo, qualquer forma          Politburo hierarquicamente organizado, na c-
de propriedade  capitalista. Ele considerava as      pula do Partido Comunista da Unio Sovitica)
cooperativas como empresas capitalistas no ca-        e dois proprietrios coletivos paralelos de nvel
118   comunismo


mais baixo (as hierarquias do partido e do go-      utpico, tal como o foram seus antecessores. M.
verno). Os empregados definitivamente no           Conforth rejeitou a idia de que o comunismo
eram os proprietrios de suas empresas. O sis-      fosse um estgio de desenvolvimento (ou um
tema chins e a maioria dos europeus orientais      modo de produo) e afirma que  um meio de
eram basicamente semelhantes aos da Unio           vida moral e poltico baseado nos direitos dos
Sovitica.                                          indivduos em seu estado consumado de desen-
    A forma predominante das primeiras teorias      volvimento e liberdade.
comunistas era um esquema de uma sociedade              Lenin insistiu, em 1917, em afirmar que
futura projetada para a felicidade geral que s     Marx usou "socialismo" para se referir ao pri-
vezes usava a fico utpica como recurso lite-     meiro estgio do comunismo, caracterizado pe-
rrio. Acrescentava-se geralmente uma crtica       la propriedade comum dos meios de produo,
penetrante da sociedade contempornea. Nos          a reteno do Estado, a ausncia de classes
Manuscritos de 1844 Marx forneceu uma jus-          econmicas, mas tambm a ausncia da capa-
tificativa filosfica do comunismo. Este era        cidade de satisfazer plenamente as necessida-
visto como o meio de realizar um valor es-          des (materiais) do povo. O socialismo deveria
sencial (o humanismo, alcanado atravs da          ser antecedido pela ditadura do proletariado
superao da ALIENAO do trabalho). Depois         (Lenin, 1917). Alguns autores trataram o SOCIA-
de 1845 Marx e Engels comearam a se opor a         LISMO como um estgio distinto que seria pos-
teorias de esquemas, alegando que era impos-        sivelmente paralelo ao comunismo.
svel fornecer um projeto completo para uma             Marx usou a palavra "comunista" para de-
atividade futura livre e criativa. Assim, recusa-   signar o movimento poltico que aceitava suas
ram-se a desenvolver um tratamento ou descri-       idias, ou qualquer movimento da classe ope-
o sistemticos das propriedades da sociedade      rria visando criar a sociedade comunista. Com
comunista. Justificavam o comunismo, agora,         toda a certeza, ele apoiou a revoluo violenta
como o meio de superar os conflitos bsicos no      e a ditadura do proletariado, mas pressups que,
interior do capitalismo, libertando a classe ope-   no capitalismo, um governo no-democrtico,
rria e garantindo o progresso humano. O co-        combinado com um oficialato permanente e um
munismo s viria a ser possvel depois que          exrcito profissional, iria de qualquer forma
todas as opes disponveis para o desenvolvi-      usar a violncia para se opor  deciso da maio-
mento dos meios de produo no interior do          ria de introduzir o comunismo, e achou que
capitalismo fossem exauridas. Marx nunca for-       seria o caso de uma grande maioria (provavel-
neceu uma anlise a respeito do nvel de foras     mente 80-95%) exercendo coero sobre uma
produtivas que ele considerava incompatvel         pequena minoria. Os partidos da classe oper-
com a existncia futura do capitalismo. Na d-      ria, no final do sculo XIX, geralmente chama-
cada de 1840 ele achava que o capitalismo j        vam-se socialistas ou social-democratas. De-
havia atingido seu ponto de saturao, porm        pois de 1917 a palavra "comunista" foi usada
mais tarde admitiu ter cometido um equvoco.        para descrever os partidos que aceitavam a re-
Marx (1867) parecia pensar que o momento de         voluo violenta e a ditadura do proletariado
mudana do capitalismo para o comunismo             como os meios de transio para o comunismo,
chegaria quando a maioria esmagadora da hu-         e "socialismo" descrevia os que as rejeitavam.
manidade se tornasse assalariada (ou da classe      Lenin insistiu em que somente um partido mar-
operria). Lenin, em suas obras posteriores,        xista poderia ser chamado de "comunista" e que
afirmou que um governo da classe operria           o governo por um nico partido comunista era
pode usar o poder poltico para elevar as foras    uma caracterstica essencial da ditadura do pro-
de produo ao nvel necessrio para a sobrevi-     letariado. Deixou de lado a exigncia de uma
vncia do comunismo, mas no forneceu ne-           sociedade predominantemente de classe oper-
nhuma descrio articulada desse nvel.             ria como ponto de partida de uma transio para
    A literatura comunista do sculo XX trata       o comunismo. (Mais tarde, admitiu que a dita-
basicamente da transio do capitalismo para o      dura do proletariado na Rssia havia degenera-
comunismo e evita uma exposio detalhada do        do em uma ditadura do Partido Comunista e do
conceito em si mesmo. A. Nove afirmou que o         Exrcito Vermelho sobre todas as classes da
comunismo de Marx (e, por implicao, o de          sociedade.) Os partidos comunistas ocidentais
Lenin) no  factvel. Assim, Marx seria um         aceitaram as alegaes soviticas sobre a natu-
                                                                        confiana e cooperao    119


reza da sociedade na URSS, na maioria dos            preenso, so realadas de forma expressiva
casos, at o final dos anos 60. Hoje esto aban-     "quando uma ao necessria por parte de pelo
donando a idia de ditadura do proletariado e        menos um dos envolvidos no se encontra sob
at mesmo a designao "comunista".                  o controle imediato do outro envolvido. (...) Sob
                                                     essa definio, uma situao em que dois
Leitura sugerida: Cornforth, M. 1980: Communism      agentes cooperam envolve necessariamente pe-
and Philosophy: Contemporary Dogmas and Revisions
of Marxism  Marx, K. e Engels, F. 1848 (1981): O     lo menos um deles dependendo do outro" (Wil-
manifesto comunista  Moore, S. 1980: Marx on the     liams, 1988, p.5).
Choice between Socialism and Communism  Nove, A.         A partir da, a cooperao torna-se ao mes-
1977: The Soviet Economic System  1983: The Econo-   mo tempo frgil e objeto de uma tomada de
mics of Feasible Socialism  Roemer, J., org. 1986:   deciso incerta, em particular para a parte de-
Analytical Marxism.                                  pendente. Quando a monitorao  difcil, a
                                     EERO LOONE      deciso de aderir a um empreendimento coope-
                                                     rativo -- que  geralmente suscetvel a custos
confiana e cooperao "Pode-se dizer que            -- torna-se particularmente passvel do risco
dois ou mais agentes cooperam quando se em-          relacionado  potencial desero de outros.
penham num empreendimento conjunto para              Nesse ponto, a cooperao aproxima-nos mais
cujo resultado so necessrias as aes de am-       da noo de confiana, que representa um in-
bos" (Williams, 1988, p.5). Numa definio           grediente destacado, mas pouco estudado, da
ampla, a cooperao , portanto, relevante para      interao social.
a maior parte dos empreendimentos huma-                  O objeto da confiana pode referir-se  ca-
nos, do jogo ao matrimnio, das transaes           pacidade tcnica de certos indivduos dos quais
de mercado s relaes internacionais, da            s vezes depende o nosso bem-estar (tais como
produo industrial  educao. At mesmo a          mdicos ou pilotos). Ou pode dizer respeito 
competio, em vez de ser o oposto da coope-         fidedignidade e eficcia de certos grupos (diga-
rao, muitas vezes se apia em acordos co-          mos, os gurkhas, soldados hindus do Nepal que
operativos.                                          servem no exrcito britnico) e at mesmo de
    A cooperao exige que os agentes -- tais        entidades abstratas (um exemplo seria o sistema
como indivduos, firmas e governos -- estejam        de transportes) (Luchmann, 1979, 1988; Bar-
de acordo com respeito a um conjunto de regras,      ber, 1983). No entanto  a confiana na dis-
um "contrato", que deve ser ento observado no       posio de outros agentes de cumprir suas obri-
decorrer de sua atividade conjunta (Binmore e        gaes "contratuais" que  crucial para a coope-
Dasgupta, 1986, p.3). Acordos e regras, no en-       rao. Nesse sentido, a confiana (ou, simetri-
tanto, no precisam ser o resultado de uma           camente, a desconfiana) pode ser descrita co-
comunicao, nem mesmo de uma inteno,              mo um nvel particular da probabilidade subje-
explcita. Pode-se desenvolver no decorrer da        tiva com que um agente avalia se um ou mais
prpria interao, por tradio, experincia an-     dos outros agentes (A) com quem se planeja a
terior com sucesso, tentativa e erro ou processos    cooperao ir tambm cooperar (ou no)
evolutivos (Axelrod, 1984; Sugden, 1986). Nes-       ("Can we trust?", in Gambetta, 1988, p.217).
se sentido, o comportamento cooperativo pode         Quando dizemos que confiamos em A (ou que
surgir tambm entre espcies no-humanas,            A  digno de confiana), estamos querendo
nas quais, na verdade, costuma ser encontra-         dizer implicitamente que a probabilidade de
do -- em contraste com a viso tradicional e         que A venha a executar uma ao benfica (ou,
hoje desacreditada de "competio para a             pelo menos, no prejudicial) para ns  sufi-
sobrevivncia" representaria o aspecto cen-          cientemente alta para que nos envolvamos na
tral do mundo animal (Hinde, 1982; Bateson,          cooperao com A. Do mesmo modo, quando
1986).                                               dizemos que no confiamos em A deixamos
    A cooperao coloca problemas de interesse       implcito que essa probabilidade est abaixo do
particular para as cincias sociais sempre que       limite crucial, isto , abaixo o suficiente para
os agentes no so capazes de monitorar as           que evitemos a cooperao.
aes uns dos outros sem o dispndio de esfor-           A confiana representa um problema nada
o. Tanto sua significao social quanto sua         trivial quando pelo menos quatro condies se
sofisticao conceitual, exigidas para sua com-      apresentam.
120   conflito


   1. A confiana em A deve ter uma relao           plo, no apenas  relevante resolver confiar ou
       com a nossa prpria ao, quando essa          no em A, mas pode ser igualmente relevante A
       ao deve ser decidida ou antes de poder-      confiar em ns. A cooperao pode fracassar em
       mos monitorar a ao relevante de A ou         resultado de A furtar-se a agir em cooperao,
       independentemente da nossa capacidade          simplesmente porque A no confia em que ns
       de sequer virmos a conseguir monitor-         venhamos a cooperar. Alm disso, conforme
       la (Dasgupta, 1988, p.15).                     mostra a teoria dos jogos (ver JOGOS, TEORIA
   2. A deve ser livre, livre especialmente para      DOS), a cooperao pode fracassar de todo se os
       frustrar as nossas expectativas (j se disse   outros agentes no confiarem no fato de que ns
       que a confiana representa "um expe-           confiamos neles: A pode furtar-se a agir de
       diente para lidar com a liberdade dos          forma cooperativa porque acredita que no con-
       outros", Luhmann, 1979; Dunn, 1984).           fiamos em que ele v cooperar, e que, em vir-
       Mas a confiana no se relaciona apenas        tude disso, ns no iremos cooperar. Para se
        liberdade de outros.                         conseguir a cooperao, a confiana precisa ser
   3. Ns tambm precisamos ser livres para           mtua e os agentes precisam saber que assim .
       nos furtar  cooperao, caso no con-            Apesar de a desconfiana incondicional tor-
       fiemos, pois sem alternativa poderamos,       nar impossvel a cooperao entre agentes li-
       na melhor das hipteses, ter esperana,        vres (Gambetta, 1988, p.224-9), esta no de-
       ou contar com, mas no confiar.                pende necessariamente de nveis elevados de
   4. Finalmente, se nos fosse possvel obter         confiana. Na verdade, uma cooperao bem-
       uma informao perfeita a respeito de          sucedida pode ocorrer independentemente de
       outros agentes, a confiana no seria pro-     confiana e influenciar de modo positivo o
                                                      prprio nvel de confiana (Axelrod, 1984).
       blema. Assim pode-se tambm dizer que
                                                      Quando se pondera sobre a possibilidade de
       a confiana representa uma reao expe-
                                                      cooperar, h outros fatores a serem levados em
       rimental e intrinsecamente frgil a nossa
                                                      considerao, dentre os quais se incluem o vo-
       ignorncia, um meio de enfrentar "os
                                                      lume de perda caso a cooperao fracasse, a
       limites da nossa previso" (Shklar, 1985,
                                                      perspectiva de interaes futuras, os interesses
       p.151).
                                                      de A e a possibilidade de A infligir golpes fatais.
   Uma tradio importante no pensamento                 Ver tambm CONSENSO.
ocidental -- compreendendo Maquiavel, Hu-
me e Smith, e ainda comum hoje em dia, es-            Leitura sugerida: Akerlof, G. 1970: "The market for
                                                      `lemons': qualitative uncertainty and the market me-
pecialmente no campo das cincias econmicas          chanism", Quarterly Journal of Economics 84, 488-500
-- equipara a confiana a um recurso que no           Axelrod, R. 1984: The Evolution of Cooperation 
apenas seria escasso, como o so todos os outros      Barber, B. 1983: The Logic and Limits of Trust  Gam-
recursos, mas que, como o amor, o altrusmo e         betta, D., org. 1988: Trust: Making and Breaking Co-
a solidariedade,  impossvel produzir  von-         operative Relations  Hirschmann, A.O. 1984: "Against
tade. Em conseqncia, a confiana deve ser           parsimony: three easy ways of complicating some cate-
                                                      gories of economic discourse". American Economic
dispensada com parcimnia, e no seria sensato        Review Proceedings 74, 88-96  Lyhmann, N. 1979:
nos fiarmos nela para promover a cooperao           Trust and Power.
(Elster e Moene, 1988). Albert Hirschmann                                               DIEGO GAMBETTA
(1984) e Dasgupta (1988), porm, contestaram
esse ponto de vista e demonstraram que a con-         conflito Definido como uma contenda a res-
fiana no  um recurso como outros, que se           peito de valores, ou por reivindicaes de sta-
esgotam sendo usados, mas que se esgota no           tus, poder e recursos escassos, na qual os obje-
sendo usado. Alm disso, vrios exemplos              tivos das partes conflitantes so no apenas
histricos apontam com plausibilidade que a           obter os valores desejados mas tambm neutra-
confiana pode ser intencionalmente "produ-           lizar seus rivais, causar-lhes dano ou elimin-
zida" (ver Velez-Ibanez, 1983) e, com toda a          los, o conflito pode ocorrer entre indivduos ou
certeza, intencionalmente destruda (ver Pag-         entre coletividades. Esses conflitos intergrupos,
den, 1988).                                           bem como intragrupos, so aspectos perenes da
   A confiana e a cooperao interagem em            vida social. So componentes essenciais da in-
toda uma variedade de modos sutis. Por exem-          terao social em qualquer sociedade. Os con-
                                                                                        conflito   121


flitos no so sempre, de forma alguma, "fa-         te, os conflitos tendem a ser suprimidos, mas
tores negativos" a minar a vida coletiva. Em         tm probabilidades de ser altamente desagrega-
geral contribuem para a manuteno e o cresci-       dores, se e quando ocorrem.
mento de grupos e coletividades, bem como                Em sociedades abertas e flexveis, os confli-
para reforar relaes interpessoais.                tos mltiplos muito provavelmente se entrecru-
    Conflito e COMPETIO so fenmenos so-          zam, impedindo com isso rupturas ao longo de
ciais relacionados, mas distintos. A competio      uma nica linha. Em sociedades desse tipo sur-
concentra-se na obteno de objetivos especfi-      ge toda uma variedade de conflitos em dife-
cos frente a agentes concorrentes, enquanto o        rentes esferas. Disso resulta que o envolvimen-
conflito visa sempre no apenas obter valores        to mltiplo dos indivduos em vrios confli-
desejados, mas ferir ou eliminar agentes que se      tos une firmemente a sociedade ao fomentar
coloquem no caminho. A competio pode ser           diferentes alianas para diferentes questes.
concebida como semelhante a uma corrida, en-         Agentes que so antagonistas em um conflito
quanto o conflito pode ser visto como anlogo        podem ser aliados em outro. Isso impede a
a uma luta de boxe.                                  polarizao caracterstica de uma sociedade r-
    Filsofos e cientistas sociais sempre se mos-    gida, onde todos os conflitos tendem a incidir
traram divididos na avaliao do conflito, desde     sobre uma nica linha.
a Antigidade. Nos tempos modernos, os pon-              Desde o pensamento clssico grego faz-se
tos de vista a respeito das funes, causas e        uma distino entre conflitos que se desen-
efeitos dos conflitos nas estruturas sociais divi-   volvem sobre a base de um CONSENSO da
dem-se, grosso modo, em dois campos: os que          sociedade e conflitos que, ao contrrio, en-
afirmam que os conflitos deveriam ser encara-        volvem dissenso com respeito aos valores
dos como fenmenos patolgicos, como sinto-          bsicos sobre os quais uma sociedade se
mas de doena no corpo social; e os que defen-       apia. Existem conflitos dentro das regras do
dem a idia de que os conflitos so formas           jogo e conflitos a respeito das regras do jogo.
normais de interao social que podem contri-        O primeiro tipo de conflitos pode levar a
buir para a manuteno, o desenvolvimento, a         novos ajustes e a reformas, enquanto o segun-
mudana e a estabilidade geral de entidades so-      do provavelmente levar a uma ruptura ou
ciais. Na sociologia moderna, o primeiro ponto       mudana revolucionria.
de vista  representado, entre outros, por mile         Toda sociedade contm elementos de tenso
Durkheim e Talcott Parsons, e o segundo pode         e fontes potenciais de conflito. Em estruturas
ser encontrado no pensamento hegeliano e mar-        flexveis, esses conflitos fornecem a dinmica
xista, mas tambm no DARWINISMO SOCIAL e             da transformao social. Elementos que fogem
entre os tericos da elite, como Vilfredo Pareto     e resistem s estruturas padronizadas de valores
e Gaetano Mosca.                                     e normas e ao habitual equilbrio de poder e
    Hoje em dia, em sociologia -- embora nem         interesses em tais estruturas podem ser consi-
sempre tenha sido esse o caso -- existe uma          derados arautos de padres alternativos. Em
tendncia do pensamento conservador a enfati-        estruturas flexveis, os conflitos evitam a fos-
zar as funes negativas do conflito e dos radi-     silizao e reduzem a probabilidade de tipos de
cais, a celebr-lo como um veculo de transfor-      ao puramente rotineiros. A mudana em geral
mao social.                                        e a inovao e a criatividade em particular
                                                     neutralizam os ajustes habituais que paralisam
Conflito e estrutura social                          a vida social dentro de moldes rgidos.
    O impacto dos conflitos sobre as estrutu-            O choque de valores e interesses, as tenses
ras sociais varia com o carter dessas estruturas.   entre o que  e o que, de acordo com alguns
Em sociedades abertas, pluralistas,  provvel       grupos ou indivduos, devia ser, o conflito entre
que os conflitos tenham conseqncias estabi-        capitais investidos e novas demandas de acesso
lizadoras. Se existirem canais viveis para a         riqueza, ao poder ou ao status esto longe de
expresso de pretenses rivais, os conflitos em      ser fenmenos patolgicos -- so estimulantes
sociedades flexveis e abertas podem levar           da vitalidade social em sociedades suficiente-
a novas e estveis formas de interao entre         mente flexveis para permitir ou at mesmo
agentes componentes, assim como permitir no-         estimular a expresso, sem obstculos, de inte-
vos ajustes. Nas estruturas rgidas, em contras-     resses e valores conflitantes.
122   conflito


Uma apreciao da teoria do conflito                trio, por exemplo, esteja sempre associado a
    Paz social e hostilidades sociais, conflito e   atitudes preconceituosas. Atitudes hostis no
ordem so fenmenos correlatos. Tanto a soli-       resultam necessariamente em comportamento
dificao quanto a quebra de um costume e dos       de conflito.
sistemas de hbitos dominantes so parte da             Tampouco precisamos ter a expectativa de
dialtica integrante da vida social.  portanto     que discrepncias objetivas de poder, status,
de mal alvitre fazer distino entre uma socio-     posio de classe ou renda conduzam neces-
logia da ordem e uma sociologia do conflito, ou     sariamente  deflagrao de um conflito, embo-
ver uma contradio entre um modelo de har-         ra devam ser concebidas como fontes poten-
monia e um modelo de conflito da sociedade.         ciais deste. O modo como as pessoas definem
As teorias sobre o conflito ou sobre a integrao   uma situao, mais que os aspectos objetivos
no deveriam ser encaradas como sistemas ex-        desta, deve ser o centro da ateno analtica. Os
plicativos rivais, tais como a astrologia ptole-    rivais potenciais por uma mudana de status,
maica versus a copernicana, mas sim como            respeito ou poder e riqueza podem abster-se de
componentes antes parciais do que globais da        recorrer ao conflito, seja devido a uma avalia-
teoria sociolgica geral. Em ltima anlise, s     o realista de suas possibilidades de sucesso,
pode existir uma teoria sociolgica geral, ainda    seja porque consideram legtima a atual dis-
que esta possa consistir em grupos de teorias       tribuio das entidades valorizadas. Quando,
parciais de nvel mdio. Assim como a moderna       como no tradicional sistema de CASTAS indiano,
teoria poltica abandonou a discusso infrutfe-    distribuies desiguais de itens valorizados so
ra a respeito de coero ou a persuaso ser a       consideradas legtimas no apenas pelos privi-
verdadeira base das estruturas polticas, e assim   legiados mas tambm pelos desprivilegiados, o
tambm como a maior parte da psicologia mo-         conflito entre ricos e pobres no ser ameaa ao
derna abandonou a busca v de resolver se  a       sistema. S quando os desprivilegiados negam
natureza ou a criao que se encontra na raiz da    legitimidade a uma ideologia, ao perder a f que
personalidade, da mesma forma a teoria socio-       nela depositavam, como ocorre quando as re-
lgica deveria abster-se de estimular dicoto-       laes entre suas necessidades e os privilgios
mias igualmente infrutferas. Sempre que um         dos de posio mais elevada se tornam trans-
analista depara com o que parece ser um equi-       parentes para eles,  possvel esperar-se a ir-
lbrio temporrio, deveria prestar ateno s       rupo de conflito entre ricos e pobres.
foras conflitantes que levaram ao seu estabe-
lecimento, antes de qualquer coisa. E, inversa-     Conflito realista e no-realista
mente, o analista deveria ser sensvel  pro-           A distino entre tipos de conflitos realistas
babilidade de que onde existe conflito e divi-      e no-realistas demonstrou recentemente al-
so haver tambm foras pressionando para o        guns resultados valiosos na anlise concreta. O
estabelecimento de novos tipos de equilbrio.       conflito realista surge quando grupos ou in-
Uma preocupao preponderante com um ou             divduos se chocam na busca de direitos rivais
outro grupo de fennemos impede o caminho           e na expectativa de lucro econmico, poder ou
da anlise geral das estruturas e processos so-     status. Os participantes entendem que o conflito
ciais. A sociologia do conflito busca explicar      pode ser abandonado ou substitudo por outros
variveis negligenciadas por outras abordagens      meios, caso esses paream mais eficientes. Por
tericas; ela no pode suplantar a anlise de       outro lado, em confitos no-realistas, que geral-
outros processos sociais.                           mente brotam apenas de sentimentos hostis, os
                                                    meios de conduzir o conflito no podem ser
Fatores objetivos e subjetivos                      substitudos porque o que est em jogo  a
   A base objetiva de conflitos a respeito de       agresso em si mesma. O sistema do bode ex-
valores e bens escassos, como renda, status ou      piatrio fornece um bom exemplo. O que pode
poder, precisa ser diferenciada de predisposi-      ser substitudo nesse caso no so os meios, mas
es e atitudes subjetivas, tais como hostili-      o objeto. Em tais conflitos, o alvo  secundrio
dade, agressividade e fenmenos semelhantes.         necessidade da disposio ao ataque. Assim,
Conflitos e sentimentos hostis so fenmenos        num conflito no-realista existem alternativas
diferentes e podem nem sempre coincidir. No        quanto ao alvo, enquanto no conflito realista
 necessrio que o comportamento discrimina-        existem alternativas quanto aos meios utiliza-
                                                                                   confucionismo       123


dos. No caso do bode expiatrio, por exemplo,      tipos especficos de comportamento de conflito
o objeto atacado pode vir a se tornar vtima       quando estes so entendidos como antifuncio-
devido a uma questo de grupo tnico, de cren-     nais ou nocivos. Os duelos, que um dia foram
as, sexo ou outras caractersticas, dependendo    um componente vital do estilo de vida aris-
da situao especfica. No conflito realista, em   tocrtico, desapareceram por completo. A ven-
contraste, uma das partes numa relao indus-      deta s sobrevive em remanescentes isolados de
trial pode resolver que o arbtrio, e no uma      sociedades ocidentais. As greves violentas nos
ao de ataque, tem maiores probabilidades de      conflitos entre trabalho e direo industrial, no
trazer resultados.                                 sculo XIX e incio do sculo XX, so hoje
                                                   coisa do passado, com muito poucas excees.
Conflito, autovalorizao e fora coletiva         Como esses pequenos exemplos demonstram,
    Sentimentos de valor, fora e dignidade pes-    possvel reduzir a violncia ou intensidade do
soal entre pessoas ou extratos at ento des-      conflito atravs da canalizao dos confrontos
prezados e desprivilegiados tm probabilidades     antagnicos, de tal forma que sejam minimiza-
de ser fomentados e fortalecidos, caso os des-     dos o sofrimento e os custos impostos aos seres
privilegiados tenham demonstrado seu nimo         humanos. Se hoje a guerra nuclear tornou-se
em controvrsias com os que at ento os vi-       impensvel, da mesma forma amanh outras
nham reprimindo e oprimindo. As lutas pelos        formas odiosas de guerra, mesmo que nem to-
direitos civis no Sul dos Estados Unidos, por      das o sejam, podem no vir mais a custar vidas
exemplo, intensificaram de tal forma o senso de    humanas.
capacitao e valor entre a populao negra que       Ver tambm AGRESSO; VIOLNCIA.
esta podia agora proclamar, triunfalmente, que
                                                   Leitura sugerida: Collins, Randall 1975: Conflict So-
"Black is Beautiful" (negro  lindo). A classe     ciology: Toward an Explanatory Science  Coser, Le-
operria em todos os pases industriais do Oci-    wis A. 1956: The Functions of Social Conflict  1967:
dente transformou-se lentamente de objeto em       Continuities in the Study of Social Conflict  Dahren-
sujeito da histria, em uma classe para si, com    dorf, R. 1957 (1959): Class and Class Conflict in Indus-
um senso de poder para transformar seu status      trial Society  Gluckman, Max 1956: Custom and
de pria. O moderno movimento feminista            Conflict in Africa  Himes, Joseph S. 1980: Conflict
                                                   and Conflict Management  Kriesberg, Louis 1982: So-
transformou milhes de mulheres de objetos         cial Conflicts, 2ed.  Rex, J. 1961: Key Problems of
sexuais quase totalmente passivos em agentes       Sociological Theory  Simmel, Georg 1908 (1955):
conscientes dentro do cenrio pblico, em sua      Conflict and the Web of Group Affiliations.
busca de plena igualdade com os homens.                                                  LEWIS A. COSER
    O conflito entre agentes antagnicos pode
no apenas intensificar o senso de valor, poder    confucionismo Como tradio intelectual e
e dignidade de um deles, ou de ambos, como         tica, o confucionismo tem mais de 25 sculos.
tambm levar a um reforo dos laos recpro-       Seus valores bsicos foram abraados no ape-
cos. Seja nas relaes raciais ou no matrimnio,   nas na China propriamente dita, mas tambm
os conflitos podem permitir o surgimento de        no Japo, Coria e Vietn, e ajudaram a dar
laos mais fortes, em vez da destruio desses     forma  autoconscincia do Leste Asitico co-
laos. Os laos matrimoniais podem ser forta-      mo regio cultural distinta. Conforme seria de
lecidos, ou as relaes entre raas podem me-      se esperar, no existe um confucionismo es-
lhorar, depois de os agentes relevantes terem      sencial que tenha persistido durante todo o de-
ganhado uma fora autoconfiante, depois de se      correr dessa longa histria. Em vez disso, a
terem confrontado na busca de interesses ini-      tradio confuciana, como outras tradies in-
cialmente divergentes.                             telectuais e religiosas de idade e significao
                                                   comparveis, evoluiu e se transformou, ainda
Canalizao de conflitos                           que algumas continuidades reais tenham sido
    A busca da eliminao do conflito na socie-    mantidas. Essa herana cultural variada propor-
dade humana est destinada ao fracasso. O con-     cionou recursos abundantes para que os habi-
flito  parte inerradicvel da vida conjunta dos   tantes do Leste Asitico do sculo XX refletis-
seres humanos;  um componente to funda-          sem sobre a vida social contempornea, embora
mental da associao humana quanto a coope-        o confucionismo tambm tenha tido de enfren-
rao. O que  factvel, porm,  transformar      tar inmeros desafios com respeito a sua com-
124   confucionismo


patibilidade com novos conhecimentos e va-          responde a direito. Todos essas relaes varia-
lores sociais.                                      das e recprocas so melhor estabelecidas e
    O nome ocidental "confucionismo" pode           cultivadas atravs de uma etiqueta e um ritual
indicar que Confcio (forma latinizada de Kung      formalizados (li), que foram recebidos do pas-
Fu-Tzu -- Mestre Kung), filsofo e professor        sado.
chins que viveu no sculo VI a.C., tenha sido          Um comportamento adequado dentro dessas
o fundador dessa tradio intelectual e tica. Na   relaes tradicionalmente definidas  no ape-
verdade, ele se encarava apenas como transmis-      nas crucial para o estabelecimento de uma so-
sor de uma herana que se formara sculos antes     ciedade bem ordenada, mas tambm essencial
de sua poca, e "confucionismo"  conhecido         ao desenvolvimento necessrio de um indiv-
geralmente no Leste da sia como a "tradio        duo, pois de acordo com a perspectiva confu-
erudita". Confcio viveu num perodo de gran-       cionista, as pessoas s se tornam humanas atra-
de agitao poltica e cultural. Suas preocu-       vs de um processo de aprendizado cultural e
paes em restaurar a ordem e a harmonia na         tico que dura uma vida inteira. "Para se tornar
sociedade e em cultivar a MORALIDADE indivi-        plenamente humano, o eu deve entrar em di-
dual dentro de uma ordem social definida pela       logo contnuo com outros dentro das estruturas
tradio tornaram-se valores que motivaram          de relaes humanas" (Tu, 1984, p.5).
e orientaram o posterior desenvolvimento do             A tradio confuciana foi institucionalizada
pensamento social confuciano. Como modo de          em padres de vida de famlia, num sistema
vida, o confucionismo notabilizou-se por sua        educacional sofisticado e no governo. O sis-
preocupao com o bem-estar social, a harmo-        tema educacional confuciano, em princpio, era
nia e a solidariedade sociais, a estabilidade       aberto a qualquer um, e  um dos poucos exem-
poltica e a paz social, que devem todos ser        plos de aspirao  educao universal no mun-
buscados dentro de estruturas de significado        do pr-moderno. No passado o pensamento so-
herdadas do passado. (Ver tambm TRADIO E         cial confuciano dedicou lugar especial ao papel
TRADICIONALISMO.)                                   do governante no estabelecimento da socie-
    O pensamento social confuciano tem sido         dade ideal e no estmulo  perfeio moral dos
em geral corporativista, presumindo que a so-       indivduos. Alguns ensinamentos do prprio
ciedade ideal  uma ordem hierarquicamente          Confcio, reunidos nos Aforismos, postulavam
diferenciada e que relaes humanas estrutura-      o governo atravs do comportamento exemplar,
das de forma ritual so essenciais para esse        em vez da correo e do castigo. Ele aconse-
ideal. Essa nfase nas relaes humanas expres-     lhava os governantes a liderar o povo de acordo
sou-se num interesse conjunto pela distino        com os ritos apropriados (li), o que motivaria
entre os indivduos e pela diferenciao dos        outros a cumprir com seus prprios papis den-
tipos de relaes posssveis entre eles. Tradi-     tro da sociedade. Segundo a teoria poltica con-
cionalmente, os confucianos admitiam a pos-         fuciana, um governante no ser capaz de exer-
sibilidade de muitos tipos de relaes entre        cer o governo de forma eficaz sem uma conduta
indivduos, mas davam nfase especial a "cinco      pessoal adequada. A comunidade de elite dos
relaes cardeais" como fundamentais a uma          eruditos confucianos em geral aspirava a de-
ordem social adequada: as relaes entre pai e      sempenhar um papel no governo, como conse-
filho, governante e sdito, marido e mulher,        lheiros do governante. Confcio e seus suces-
irmo mais velho e irmo mais moo, e entre         sores insistiram em que os governantes deve-
amigos. A preocupao confuciana com as re-         riam dar posies de autoridade a "pessoas de
laes dentro da famlia, especialmente entre       virtude e capacidade", isto , aos que tivessem
pais e filhos, levou alguns observadores a des-     obtido sucesso na educao confuciana, e a
crever a teoria social confuciana como orienta-     tradio confuciana geralmente dava prefern-
da de forma restritiva para o grupo, mas essa       cia  meritocracia em relao a qualquer sis-
preocupao confuciana com a possibilidade e        tema de governo que privilegiasse o direito de
a significao de relaes construdas volunta-     nascena.
riamente, tais como as que existem entre ami-           No sculo XX muitos dos valores centrais
gos, no deveria ser subestimada. Cada uma          do pensamento social confuciano foram sujei-
dessas relaes cardeais determina papis, bem      tos a crticas extensas e inteira rejeio.  o caso
como responsabilidades; assim, obrigao cor-       particular das dimenses polticas do pensa-
                                                                            conhecimento, teoria do      125


mento confuciano, uma vez que raros gover-               damentalisms Observed, org. por Martin E. Marty e R.
nantes atingiam o status moral necessrio para           Scott Appleby.
governar de acordo com as instrues da teoria                                          CHARLES HALLISEY
poltica de Confcio. Na virada do sculo o
confucionismo foi identificado, de forma bas-            conhecimento, sociologia do Ver SOCIOLO-
                                                         GIA DO CONHECIMENTO.
tante realista, com o autoritarismo e a corrupo
poltica, uma vez que seus ideais podiam ser             conhecimento, teoria do A teoria filosfi-
facilmente manipulados para ampliar o poder              ca do conhecimento -- ou epistemologia -- diz
de indivduos ou grupos particulares. Essa cr-          respeito  sua natureza, sua variedade, suas
tica interna da prtica do confucionismo, que            origens, seus objetos e seus limites. Plato di-
teve muitos precedentes na histria chinesa, foi         ferenciou o conhecimento (episteme) da mera
acompanhada do desafio representado pelos                crena (doxa). Tradicionalmente, o conheci-
ideais sociais alternativos aprendidos em conta-         mento foi definido como uma crena de legiti-
to com o Ocidente no sculo XIX. Os valores e            midade justificada. Entre as questes com as
instituies confucianos eram encarados cada             quais a epistemologia se ocupou esto: (1) o
vez mais como incompatveis com os ideais                conhecimento  possvel? (2) Em caso positivo,
democrticos ou socialistas, ou simplesmente             seus objetos so reais ou ideais? (3) Sua fonte
com a MODERNIDADE em geral. Grande parte do               a experincia ou a razo? (4) O conhecimento
pensamento social confuciano no sculo XX                 unitrio? Desde o seu nascimento, a epistemo-
tem sido, portanto, necessariamente defensivo,           logia  (5) aportica: ou seja, suas solues
tentando demonstrar que a tradio confuciana            foram forjadas na preocupao com certos pro-
tem valores anlogos aos desses novos contes-            blemas ou conjunto de problemas. Assim, neste
tadores ou  capaz de promover a concepo de            artigo, examinarei rapidamente um desses con-
novos ideais.                                            juntos, o que cerca o problema da induo,
    Mais recentemente tem havido uma retoma-             chamado de "o escndalo da filosofia" por C.D.
da dos valores confucianos por todo o Leste da           Broad em 1926.
sia, como parte das atuais reconsideraes de               (a) Os cticos duvidavam que fosse possvel
identidade cultural no mundo moderno. Essa               a justificao das pretenses ao conhecimento,
retomada tem enfatizado a tradicional insis-             enquanto os falibilistas, como C.S. Peirce e
tncia confuciana em que a vida social deve ser          K.R. Popper, argumentavam que o melhor que
formada pelos recursos morais e simblicos do            se pode conseguir so conjecturas no-falsifi-
passado. Ao mesmo tempo em que se mostra                 cadas e submetidas a exame crtico. Mas a
crtica da tradio confuciana que herdou, essa          falsificao de uma conjectura parece implicar
retomada tambm comea a repensar se a mo-               o reconhecimento, e com isso a aceitao, de
dernidade deve necessariamente ser definida              um engano. No obstante, a apreenso da rela-
com nfase na autonomia do indivduo. O                  tividade do conhecimento levou tanto os con-
exemplo do Leste Asitico industrial sugere que          vencionalistas do sculo XX quanto alguns so-
os valores confucianos de respeito  autoridade,         cilogos do conhecimento a querer colocar a
solidariedade social baseada na famlia e prefe-         palavra entre aspas de advertncia.
rncia pelo consenso, em vez do pensamento                   (b) O incio do sculo testemunhou uma
independente, podem trazer contribuies po-             reao realista aos idealismos subjetivo e obje-
sitivas para uma sociedade moderna.                      tivo do sculo XIX predominantes, nos quais a
                                                         realidade, em particular os objetos da percepo
Leitura sugerida: King, Ambrose Yeo-Chi 1991:
"Kuan-hsi and network building: a sociological inter-    e o conhecimento de maneira mais geral, era
pretation". In The Living Tree: the Changing Meaning     encarada como consistindo de mentes (finitas
of Being Chinese Today, nmero especial de Daedalus,     ou infinitas) ou idias (particulares ou transcen-
120, 63-84  Levenson, Joseph R. 1958-65: Confucian       dentes), ou de qualquer forma dependendo de-
China and its Modern Fate, 3 vols.  Rozman, Gilbert,     las. G.E. Moore props um REALISMO percep-
org. 1991: The East Asian Region: Confucian Heritage     tual baseado no senso comum, mas nem este
and its Modern Adaptation  Tu Wei-ming 1984:
Confucian Ethics Today: the Singapore Challenge 
                                                         nem o realismo representativo mais habitual,
1985: Confucian Throught: Selfhood as Creative Trans-    cartesiano-lockeano, em que alguns produtos
formation  1991: "The search for roots in industrial     da percepo eram como os seus objetos, conse-
East Asia: the case of the Confucian revival". In Fun-   guiu fornecer uma proposio  altura do feno-
126   conhecimento, teoria do


menalismo, em que os objetos eram analisados        o, irrefutveis ou convencionalmente ajus-
como dados dos sentidos, efetivos ou possveis,     tadas, mas no inferidas. Kant tentou reconci-
e no qual o empirismo lgico dominante no           liar as posies rivais de razo e experincia em
segundo quartel do sculo geralmente se abri-       seu sistema de idealismo transcendental, en-
gava. (Os empiristas lgicos, no entanto, de        carando a razo como fornecedora de princpios
modo caracterstico, tenderam tambm a des-         sintticos a priori, impondo forma  matria
cartar toda a questo realista/idealista como       recebida atravs dos sentidos.
uma questo "metafsica", tipicamente insol-           Na primeira metade do sculo, o EMPIRISMO,
vel e, portanto, sem sentido.) Nos anos 70 e 80     particularmente numa forma lgica promulga-
a questo do realismo -- mas agora principal-       da pelo crculo vienense de M. Schlick, R.
mente do realismo cientfico -- veio mais uma       Carnap e O. Neurath, era praticamente hegem-
vez para o primeiro plano, nos Estados Unidos       nico -- embora fora da corrente predominante
principalmente nas formas de orientao epis-       analtica florescessem exemplos de racionalis-
temolgica propostas por H. Putnam e W. Boyd,       mo como a FENOMENOLOGIA, de Husserl, e at
e na Inglaterra nas variedades mais ontolgicas     mesmo dentro dela sobrevivessem figuras co-
propostas por Harr e Bhaskar. Este ltimo          mo R.G. Collingwood. Vale a pena examinar
afirma que os objetos do conhecimento cient-       com um pouco mais de detalhe o desapareci-
fico no so os eventos e suas conjunes, mas      mento do empirismo lgico. O crculo de Viena
sim (1) as estruturas causais, mecanismos ge-       empregava a dicotomia analtico-emprico na
radores e fatores semelhantes que existem e         forma de um critrio de significao (inicial-
agem, em sua maior parte, de forma bastante         mente afirmado por Schlick como "o significa-
independente da atividade humana, e (2) em          do de uma proposio  o mtodo da sua veri-
particular a atividade da experimentao que        ficao") e de um critrio de demarcao (de
nos permite um acesso emprico a eles. De           um discurso cientfico para um no-cientfico).
forma mais geral, parece importante distinguir,     Mas logo surgiram dificuldades. Primeiro, o
pelo menos no que diz respeito  cincia, dois      princpio de verificabilidade no era nem ana-
tipos de objetos do conhecimento: os objetos        ltico nem emprico, e portanto deveria ser des-
(intransitivos) de investigao cientfica (tais    provido de sentido. Em segundo lugar, nele
como o mecanismo da conduo eletrnica ou          tanto as proposies histricas quanto as leis
a propagao da luz) e os objetos cognitivos        cientficas (as quais, sendo universais, nunca
(transitivos) -- recursos, e no tpicos -- usa-    poderiam ser verificadas de forma conclusiva)
dos na produo ou transformao de seu co-         revelaram-se sem sentido. Para enfrentar essa
nhecimento (ver MODELO).                            dificuldade, Carnap afrouxou o critrio a fim de
    (c) Pelo menos desde Leibniz e Hume, o          admitir uma proposio que fizesse sentido,
conhecimento analtico tem sido nitidamente         para o caso de alguma prova emprica poder
diferenciado do conhecimento emprico, apesar       contar a favor ou contra ele, isto , de ser testvel.
de essa distino ter sofrido ataques no terceiro   A reao de Popper foi admitir proposies
quartel do sculo por parte de W.V.O. Quine (e,     no-cientficas como significativas, mas usan-
numa direo diferente, Friedrich Waismann).        do a falsificabilidade como critrio de demar-
Uma disputa histrica capital dentro da epis-       cao substituto. Finalmente, o princpio pare-
temologia foi a ocorrida entre os racionalistas,    cia acarretar solipsismo ou, caso recebesse uma
como Plato e Descartes, que encaravam a ra-        interpretao realista, perda de irrefutabilidade
zo, e os empiristas, como Aristteles e Locke,     e, com isso, de decises singulares.
que encaravam a experincia como fonte pri-             De forma mais geral, toda uma idia de fatos
mria (ou mesmo nica) do conhecimento. De          independentes de teoria constituindo os fun-
forma tpica, os racionalistas conceberam o co-     damentos irrefutveis do conhecimento foi co-
nhecimento, dentro do paradigma da geometria        locada sob suspeita a partir de variadas esferas.
euclideana, como derivado aprioristicamente         A crtica de Wittgenstein da sua prpria filoso-
de axiomas auto-evidentes ou racionalmente          fia inicial, e em particular da necessidade de
demonstrveis. Os empiristas, em contraste,         uma linguagem particular, minou de modo fatal
presumiram que o conhecimento era determi-          o individualismo sociolgico implcito no mo-
nado por induo a partir de (ou testado por        delo. Uma crescente conscincia da mutabili-
referncia a) afirmaes oriundas da observa-       dade do conhecimento cientfico (e da magni-
                                                                      conhecimento, teoria do    127


tude das efetivas mudanas cientficas), pela       sentado pelo influente Philosophy and the Mir-
qual a obra de Karl Popper, T.S. Kuhn, I. Laka-     ror of Nature (1980), de Rorty, ou mesmo su-
tos e P.K. Feyerabend foi principalmente res-       peridealismo, acarretando um hiperrelativismo
ponsvel, comprometeu o argumento do fun-           subjetivo, no qual os critrios de objetividade e
damentalismo. Alm disso, ficou evidente que        verdade so completamente perdidos.
palavras-chaves tais como "experincia" eram             (d) De forma tradicional, a FILOSOFIA DA
subanalisadas e usadas de forma equvoca, por       CINCIA tem sido tratada como pouco mais que
exemplo, pela impossibilidade de distinguir         um exemplo substitutivo da teoria do conhe-
prtica social, por um lado, e investigao ex-     cimento mais geral. A FILOSOFIA DA CINCIA SO-
perimentalmente controlada, por outro -- am-        CIAL foi anexada, por sua vez, como nada alm
bas, alm do mais, profundamente implicadas         de um exemplo da filosofia geral da cincia
na teoria. Finalmente, o carter holstico tanto    (natural). Essas elises tm sido cada vez mais
dos resultados experimentais quanto das lin-        questionadas no decorrer do sculo XX. Assim,
guagens de observao tornou-se claro. (Assim,      fizeram-se discriminaes entre conhecimento
no primeiro caso, qualquer resultado , pri-        comum e conhecimento cientfico, com este
meiro, um teste de uma multiplicidade de hip-      ltimo exigindo uma socializao prpria, e
teses -- qualquer uma das quais pode ser pre-       entre conhecimento nas cincias naturais e nas
servada --, segundo, consistente com uma plu-       cincias humanas (ao que voltarei em breve).
ralidade -- geralmente infinita -- de novos         Alm do mais, seguindo Ryle, costuma-se hoje
grupos de hipteses e, terceiro, sujeito a subse-   fazer uma distino entre o conhecimento-de-
qente reviso ou redescrio na histria da        como prtico e o conhecimento-de-que propo-
cincia.)                                           sitivo (e o mais genrico conhecimento-de);
    A obra do segundo Wittgenstein e a lingua-      segundo Polanyi, entre conhecimento tcito e
gem comum, depois a FILOSOFIA DA LINGUAGEM          explcito; segundo Wittgenstein, entre consci-
centrada em Oxford (liderada por Gilbert Ryle       ncia prtica e discursiva (ou entre forma de
e J.L. Austin), junto com a anlise conceitual      vida e teoria); e, segundo Noam Chomsky, entre
tambm praticada ao mesmo tempo, abriram            competncia e desempenho. Todas essas dis-
caminho para o ressurgimento de temas neo-          tines ajudaram a demolir o antigo conceito
kantianos, especialmente na obra de P. Straw-       unitrio e indiferenciado de conhecimento.
son e S.N. Hampshire e nas filosofias da cincia         (e) Quero agora considerar brevemente o
propostas por W. Sellars, S.E. Toulmin, N.R.        campo-problema da induo. O problema da
Hanson e Rom Harr. Mais recentemente, uma          induo, de saber que garantia temos para supor
combinao no-kantiana do empirismo e do           que o curso da natureza no ir mudar. Na
racionalismo foi tentada por Bhaskar em seu         ontologia realista transcendental, a estratifica-
sistema de realismo transcendental ou crtico,      o da natureza proporciona a cada cincia sua
no qual a teoria cientfica  encarada como         prpria garantia indutiva interna. Se existe uma
geradora, sob a disciplina do controle experi-      razo real, localizada na natureza da matria, e
mental, de conhecimento de necessidade natu-        independente da disposio envolvida, tal co-
ral a posteriori. Nesse sistema, os critrios hu-   mo sua estrutura molecular ou atmica, ento a
meanos de causalidade e lei, bem como os            gua deve tender a ferver quando  aquecida.
critrios hempelianos de explicao, no so        Seria inconsistente com essa razo (explana-
nem necessrios nem suficientes. A ontologia       o) que ela tendesse a congelar, ou a ruborizar
rejustificada e o erro da anlise de proposies,   timidamente, ou a se transformar num sapo.
sobre serem proposies a respeito do nosso         Mas continua a ser verdadeiro que, num mundo
conhecimento do ser -- a falcia epistmica --,     aberto, qualquer previso particular pode ser
 encarado como encobrindo a gerao de uma         derrubada. Assim, o realismo transcendental
ontologia implcita, no caso padro a do realis-    permite-nos sustentar a transfactualidade (uni-
mo emprico, incorporando a reduo do real ao      versalidade) das leis  luz da complexidade e
factual (factualismo) e da ao emprico. A partir   diferenciao do mundo, de forma a nos permi-
dessa perspectiva, sem a retematizao e a cr-     tir, por exemplo, inferir tendncias no contexto
tica da ontologia empirista, o empirismo deve       extra-experimental, resolvendo dessa forma o
sofrer uma mutao para alguma forma de con-        problema do que poderia ser chamado de
vencionalismo, pragmatismo conforme repre-          "transduo". Uma ontologia de sistemas fe-
128   conhecimento, teoria do


chados e eventos de atomizao  uma condio       papel desempenhado na teoria sociolgica pelo
da inteligibilidade do problema tradicional da      problema hobbesiano da ordem.
induo. Estreitamente ligados a esta questo           O campo das humanidades e das cincias
esto os problemas de distinguir uma seqncia      sociais tem sido dominado no sculo XX pela
de eventos necessria de outra acidental, dos       disputa entre os defensores de um POSITIVISMO
condicionais subjetivos e dos paradoxos de N.       naturalista irrestrito e os de uma HERMENUTICA
Goodman e C.G. Hempel. Todos estes giram            antinaturalista. De modo plausvel, essa disputa
em torno da ausncia de uma razo real (no-         resolvida pelo novo naturalismo crtico, com
convencional), localizada na natureza das coi-      base na filosofia da cincia realista transcen-
sas, para que predicados sejam ligados da ma-       dental. Neste, a VERSTEHEN surge como ponto
neira como so. Em virtude de sua constituio      de partida para a pesquisa social, que busca
gentica, se Scrates  um ser humano, ele deve     descobrir mecanismos geradores em funciona-
morrer.                                             mento na sociedade, pelo menos parcialmente
    Gravitando tambm em torno da ausncia de       anlogos aos que se encontram na natureza, o
um princpio de estrutura encontra-se o tradi-      que pode tornar as prprias compreenses ini-
cional problema dos universais. Se existe algu-     ciais dos agentes sujeitas a crtica. No novo
ma coisa, tal como a posse de uma estrutura         naturalismo restrito, surge toda uma srie de
atmica ou eletrnica comum, que a grafita, o       diferenas ontolgicas, epistemolgicas, rela-
carbono e os diamantes possuem em comum,            cionais e crticas entre as cincias da natureza e
ento os qumicos tm razo ao classific-los       da sociedade (ver NATURALISMO). A estrutura
juntos. Por outro lado, nada existe de algum        social surge como condio sempre presente e
significado cientfico (estrutural) que, digamos,   como o resultado continuamente reproduzido
                                                    da mediao intencional humana (esta  uma
todas as hortalias possuam em comum -- nes-
                                                    dualidade de estrutura na terminologia da "teo-
se ltimo contexto classificatrio, uma teoria da
                                                    ria de estruturao" de Giddens e do "modelo
semelhana, em vez de uma teoria realista,
                                                    transformacional de atividade social" de Bhas-
funciona melhor. A cincia s se preocupa com       kar). A mediao aparece como um poder da
que tipos de coisas existem na medida em que        matria, sincronicamente emergente (ver MATE-
isso esclarece seus motivos para agir (os meca-     RIALISMO). A cincia social, por sua parte, surge
nismos geradores da natureza); e s se preocupa     como, ao mesmo tempo, mais fcil de se iniciar
com o que as coisas fazem na medida em que          e mais difcil de se desenvolver do que a cincia
isso esclarece o que elas so (as entidades es-     natural.
truturadas do mundo). Existe uma dialtica de           Estreitamente ligada a esse novo realismo
conhecimento explanatrio e taxonmico na           crtico, encontra-se uma reavaliao de Marx
cincia (Bhaskar, 1975, especialmente cap.3,        como, pelo menos em O capital, um realismo
sees 3-6). Na ontologia realista transcenden-     cientfico. Mas a natureza de sua Ausgang da
tal, outros aporiai tradicionais da epistemolo-     filosofia em cincia scio-histrica substantiva
gia -- dos paradoxos platnicos de auto-as-         levou ao subdesenvolvimento da sua crtica do
sero aos paradoxos de auto-referncia de gru-     empirismo, em comparao com a sua crtica
pos tericos do sculo XX e aos paradoxos           do idealismo; de seu realismo cientfico, como
contemporneos de implicao material -- se         distinto do simples objeto material; e de sua
dissolvem. Assim,  possvel ver que Plato, por    concepo da dimenso intransitiva (tematiza-
exemplo, tenta explicar a razo de algum exem-      da em torno de "objetividade"), em comparao
plo da qualidade de azul em termos de sua           com a dimenso transitiva (tematizada em torno
participao na Forma "azul" -- em vez, diga-       de "trabalho"). Isso resultou numa tendncia da
mos (como ele,  claro, no poderia dizer), de      epistemologia marxista a oscilar, no sculo XX,
sua reflexo luminosa de comprimento de onda        entre um idealismo sofisticado (seja no neokan-
4.400  -- invocando um novo nvel ou ordem         tismo de Max Adler e os austromarxistas, no
de estrutura.  fcil descobrir outros homlogos    marxismo estico de G. Lukcs, K. Korsch e A.
do problema da induo -- por exemplo, na           Gramsci, no antiobjetivismo da teoria crtica da
interpretao e generalizao de Kripke, 1981,      Escola de Frankfurt, nos marxismos humanista
do argumento de Wittgenstein sobre a lingua-        e existencialista no perodo do ps-guerra --
gem particular; ou anlogos dele -- como no         mais especialmente o de Jean-Paul Sartre -- ou
                                                                      conselho de trabalhadores       129


no racionalismo cientfico de Louis Althusser)      Leitura sugerida: Bhaskar, Roy 1991: Philosophy and
e um materialismo cru (seja no "diamat" --          the Idea of Freedom  Dews, Peter 1987: Logics of
                                                    Desintegration  Giddens, A. 1979: Central Problems
materialismo dialtico -- engelsiano-leninista-     of Social Theory  Harr, R. 1970: The Principles of
stalinista, ou no positivismo mais sofisticado      Scientific Thinking  Kripke, Saul 1981: "Wittgenstein
porm cientificista de G. Della Volpe).             on rules and private language". In Perspectives on the
    Fora da corrente analtica predominante, a      Philosophy of Wittgenstein, org. por I. Block  Ou-
fenomenologia de Husserl, especialmente de-         thwaite, William 1987: New Philosophies of Social
pois de 1907, tornou-se cada vez mais raciona-      Science  Polanyi, M. 1967: The Tacit Dimension 
                                                    Rorty, Richard 1980: Philosophy and the Mirror of
lista em seu teor, praticando uma epoch ou         Nature  Ryle, Gilbert 1949 (1963): The Concept of
suspenso transcendental da realidade ou, se        Mind  Wittgenstein, Ludwig 1953 (1967): Philosophi-
no dos objetos, dos atos da conscincia, a fim     cal Investigations.
de investigar suas formas puras. Heidegger rea-                                           ROY BHASKAR
giu a isso perguntando como a existncia dos
atos se relacionava  existncia dos objetos dos    conselho de trabalhadores Esta instituio,
atos, abrindo assim o caminho para a sua onto-      no contexto da DEMOCRACIA INDUSTRIAL, pode
logia fundamental do Dasein em O ser e o            ser descrita tambm como conselho de trabalho,
tempo (1927) e mais tarde para sua influente        conselho de fbrica, conselho de empresa (co-
metaontologia e meta-histria das pocas do         mit d'entreprise) ou soviete. Segundo Gott-
ser, culminando na era contempornea de tec-        schalch (1968, p.32), podemos diferenciar entre
nologia e niilismo. Nietzsche e Heidegger so       trs tipos de conselhos: (1) como organizaes
os principais progenitores da escola chamada        de luta; (2) como formas de representao de
ps-estruturalista (depois do ESTRUTURALISMO        interesses; (3) como rgos diretores da comu-
de Claude Lvi-Strauss e Althusser). Os princi-     nidade poltica. Os conselhos de trabalhadores
pais membros dessa escola so Jacques Derrida,      foram concebidos e praticados em todas essas
Michel Foucault e o metapsiclogo Jacques           trs formas.
Lacan. A obra de Derrida continua a crtica             Conselhos locais e municipais existem h
heideggeriana da metafsica da presena --          longo tempo como a expresso dos movimen-
logocentrismo --, que ele encara como infor-        tos de cidados para dirigir os assuntos de uma
madora da epistemologia tradicional, e se apia     comunidade local ou de uma cidade. No sculo
na desconstruo das oposies caractersticas,     XIX os trabalhadores comearam a se organizar
tais como universal/particular, da filosofia. O     em grmios, sindicatos, clubes e outras formas
ps-estruturalismo est normalmente associado       de associao. Os conselhos de trabalhadores
ao motivo da ps-modernidade, recentemente          no sentido moderno foram concebidos inicial-
submetido a uma crtica devastadora por Jrgen      mente no contexto do ANARCO-SINDICALISMO, no
Habermas em O discurso filosfico da moder-         final do sculo XIX. Opunham-se aos partidos
nidade (1985). No mundo anglo-saxo, Ri-            socialistas centralizados, aos sindicatos e outras
chard Rorty seguiu sua abordagem pragmatista,       organizaes operrias.
invocando cada vez mais (embora questiona-              Os sovietes tornaram-se provavelmente a
velmente) J. Dewey como seu mentor, contra-         forma mais famosa de conselho no sculo XX.
pondo que o pragmatismo pblico  compatvel        J na Revoluo de 1905, na Rssia, os conse-
com a ironia privada.                               lhos de trabalhadores, camponeses e soldados
    Nesse meio tempo a SOCIOLOGIA DO CONHE-         desempenharam um papel proeminente (An-
CIMENTO, que em geral se apresenta como rival       weiler, 1958). Lenin, em seus primeiros textos,
da epistemologia,  um empreendimento prs-         foi um protagonista dessa forma de organizao
pero. Parece que a filosofia, se quer analisar as   social, e "Todo o poder aos sovietes!" foi o
condies de possibilidade do conhecimento,         slogan da primeira revoluo (fevereiro) em
precisa dar as mos ao estudo empiricamente         1917. Anna Pankratova (1923) descreveu a es-
fundamentado de suas causas e efeitos, nu-          trutura e o funcionamento precisos dos conse-
ma pesquisa que deve, logicamente, incluir as       lhos de trabalhadores at 1923, mas seu livro
questes tanto de seu prprio status epistemo-      teve a publicao proibida em todos os pases
lgico quanto de seu prprio papel causal como      socialistas estatais at recentemente.
parte da totalidade que ela busca descrever e           O conflito entre o "centralismo democrti-
explicar.                                           co" (e a ditadura do proletariado exercida atra-
130   conselho de trabalhadores


vs do monoplio de poder do partido comunis-        gundo Gramsci, escrevendo em 1920, os conse-
ta) e a autodeterminao bsica democrtica na       lhos de fbrica so a expresso de uma demo-
forma de sovietes chegou s vias de fato na          cracia produtora:
revolta de Kronstadt, em 1921. Trotsky -- mais          em todas as fbricas, em todas as oficinas  formado
tarde um defensor do controle operrio -- es-           um rgo de base representativa (...) que materializa
magou o levante pela fora militar. Esse foi o          o poder do proletariado, luta contra a ordem capitalis-
incio do domnio stalinista e da aniquilao de        ta ou exerce o controle sobre a produo e educa
toda e qualquer oposio na Unio Sovitica, de         todas as massas de trabalhadores para a luta revolu-
que a regio ainda no se recuperou (Ferro, 1980).      cionria e para o estabelecimento do estado operrio.
                                                        (Citado por Szll, 1988, p.37).
Democracia de conselho
                                                         Os kibbutzim, em Israel, podem ser encara-
    O conceito de democracia de conselho de-         dos como uma forma especfica de conselho de
senvolveu-se principalmente fora da Unio So-        trabalhadores, e apesar de seu mandato ser mui-
vitica e em oposio ao que l era praticado.       to mais amplo, uma vez que eles abrangem
Rosa Luxemburgo criticou de forma bastante           todas as esferas da vida social e econmica, sua
spera, e desde muito cedo, a degenerao do         base  a comunidade de produo, que est
sistema sovitico, e apoiou os conselhos de          organizada de modo democrtico direto (Ros-
trabalhadores e de soldados formados na revo-
                                                     ner, 1976).
luo alem de novembro de 1918. Esses conse-
lhos derrubaram o Kaiser e levaram  primeira            Os conselhos de trabalhadores so hoje a
repblica alem (Oertzen, 1963), mas em 1920,        forma mais difundida de controle operrio na
como uma concesso histrica, uma lei sobre          empresa e foram institucionalizados em inme-
os conselhos de trabalhadores, que lhes reduzia      ros pases depois da Segunda Guerra Mundial.
o poder, foi aprovada em Berlim (Crusius, 1978).     Foram tornados obrigatrios em nove pases
Os social-democratas e os sindicatos tinham          da Europa Ocidental: ustria, Blgica, Frana,
quase tanto medo dessas organizaes bsicas         Alemanha Ocidental, Grcia, Luxemburgo,
democrticas quanto os conservadores.                Holanda, Portugal e Espanha. Em alguns dos
    Em 1918-19 houve tambm uma repblica            casos, o conselho de trabalhadores consiste ape-
de conselho hngara que durou seis meses, e em       nas em representantes operrios, em outros in-
1919 uma repblica de conselho em Munique,           cluem tambm representantes da gerncia
de vida breve. Os conselhos de trabalhadores         (Mller-Jentsch, 1990). (Ver tambm PARTICIPA-
tambm desempenharam um papel predomi-               O; AUTOGESTO.) O modelo alemo tornou-se
nante no Conselho da Repblica espanhola,            o mais conhecido. Pode parecer que essa ins-
entre 1936 e 1939.                                   tituio  especfica da Europa Ocidental, mas
    O pensador mais destacado do grupo de            pode ser encontrada hoje tambm no Burundi,
comunistas "de conselho" que se constituiu na        no Paquisto, na Tanznia e em Zmbia, en-
Repblica de Weimar foi Anton Pannekoek.             quanto instituies semelhantes existem, sob
Para ele, o conselho de trabalhadores no signi-     outras denominaes, em Bangladesh, no Bra-
ficava uma forma de organizao especfica,          sil, na Dinamarca, no Gabo, no Iraque, na
precisamente concebida, que tivesse de ser ela-      Mauritnia, nas Ilhas Maurcio, no Mxico, nas
borada em maiores detalhes, mas o princpio de       Filipinas, em Sri Lanka, na Sua, na Tunsia e
controle pelos prprios trabalhadores da empre-      no Zaire (International Labour Office, 1981,
sa e da produo (Pannekoek, 1950). Karl             p.205-24; Monat e Sarfate, 1986, p.109-208).
Korsch -- outro comunista de conselho --             Naturalmente,  difcil comparar instituies
escreveu um manual de direito trabalhista            em pases onde as condies econmicas, cul-
(1922) para ajudar os conselheiros operrios a       turais e polticas so completamente diferentes.
colocarem em prtica o controle operrio.            Qual pode ser o papel de um conselho de traba-
    Os conselhos de fbrica, como forma es-          lhadores numa sociedade onde o desemprego
pecfica de conselho de trabalhadores, ficaram       chega a 50% e a economia informal envolve
conhecidos basicamente na Itlia, atravs dos        90%? No obstante, os conselhos de traba-
textos de Antonio Gramsci (1910-20, 1921-6),         lhadores podem ser encarados como uma forma
que os descreveu tal como foram organizados          mais fraca, ou como um prottipo, de controle
de 1919 a 1921, principalmente em Turim. Se-         por parte dos operrios.
                                                                                          consenso   131


    Com a queda do socialismo estatal, as pro-            consenso Como expresso de um acordo ge-
fundas crises ecolgica, cultural, social e pol-         ral entre indivduos ou grupos, no apenas em
tica das sociedades capitalistas e o ressurgi-            pensamento, mas tambm em sentimento, es-
mento de organizaes regionalistas e locais,             sa palavra no se refere apenas a acordos na-
um novo debate sobre a organizao democr-               cionais, mas implica tambm sentimentos co-
tica da produo e da reproduo parece ser               muns -- um sentir conjunto. O consenso existe
historicamente necessrio. Nesse contexto, os             quando uma ampla proporo dos membros
ideais de controle por parte dos trabalhadores,           adultos de uma sociedade, ou de seus subgru-
atravs de conselhos, podem dar uma resposta              pos, em particular uma ampla proporo dos
s crises no Leste e no Oeste, no Norte e no Sul.         que tomam decises, encontra-se em acordo
O problema da democratizao da sociedade                geral quanto a que decises so exigidas e que
ainda praticamente o mesmo que existia no                 questes devem ser abordadas. Pessoas ou gru-
incio do sculo: quem decide o que  produzi-            pos que agem em consenso tm um senso de
do, como, onde e para quem? A reestruturao              afinidade mtuo e se encontram unidos por
democrtica (perestroika) na Unio Sovitica              laos afetivos e preocupaes ou interesses co-
estava ligada  introduo de conselhos de tra-           muns. Essa definio,  claro, aplica-se apenas
balhadores diretos e  glasnost (transparncia),          a um grupo ideal. Em qualquer situao concre-
e os efeitos se fizeram sentir no mundo inteiro.          ta, o consenso entre alguns ser acompanhado
Em muitos dos antigos pases de socialismo                pelo DISSENSO, ou recuo aptico, entre outros.
estatal, conselhos de trabalhadores foram cria-           Consenso e dissenso so correlativos.
dos espontaneamente. Do outro lado da antiga                  A palavra consenso foi introduzida na lin-
Cortina de Ferro (Sturmthal, 1964), os movi-              guagem das cincias sociais por Auguste Com-
mentos de cidados, bem como os estudantes,               te, no sculo XIX. Ele concebeu o conceito
mulheres e desempregados, geralmente se or-               como o cimento indispensvel sobre o qual
ganizavam em conselhos. Mas os movimentos                 qualquer estrutura social deve repousar. Acre-
feministas e os verdes, como novos movimen-               ditava que, para que a sociedade no se trans-
tos sociais, normalmente no se ocupam muito              formasse num amontoado de indivduos, devia
com questes econmicas. Talvez para eles --              basear-se no consenso de uma comunidade mo-
bem como para o pensamento conservador --                 ral de indivduos de igual pensamento e igual
j estejamos vivendo numa sociedade ps-in-               sentimento. Cientistas sociais posteriores ten-
                                                          deram a seguir os passos de Comte, tentando ao
dustrial, onde o trabalho j no desempenha um
                                                          mesmo tempo tornar a sua rigidez analtica
papel central na vida. No obstante, para o
                                                          mais flexvel. Enfatizaram, por exemplo, que
futuro da DEMOCRACIA, parece importante en-
                                                          em nenhuma sociedade, por mais consensual
contrar algum equilbrio entre espontaneidade
                                                          que seja, tal consenso ser igualmente compar-
e organizao (Mattick, 1975), e os conselhos
                                                          tilhado por todos os membros componentes.
de trabalhadores deram uma importante contri-             Nem  possvel esperar que todos os membros
buio nesse sentido.                                     de um grupo ou sociedade venham efetiva-
    Ver tambm SINDICATOS.                                mente a desejar participar das tomadas de de-
Leitura sugerida: Bouvier, Pierre 1980: Travail et
                                                          cises. Nem, por outro lado, todos os grupos ou
expression ouvrire: pouvoirs et contraintes des comi-    indivduos so sempre capazes de fazer com
ts d'entreprise  Garson, G. David, org. 1977: Worker     que suas vozes sejam ouvidas no debate pbli-
Self-Management in Industry -- the West European          co. Pode ocorrer que o que se apresenta como
Experience  Jain, Hem Chand e Giles, Anthony 1985:        consenso geral seja apenas o consenso daqueles
"Worker's participation in Western Europe: implica-       a quem  permitido participar do jogo poltico.
tions for North America". Relations Industrielles 40.4,
                                                              Consenso precisa ser diferenciado de COER-
747-74  Jenkins, David 1973: Job Power  Mandel, E.
                                                          O, isto , a imposio pela fora de normas
1970 (1973): Contrle ouvrier, conseils ouvriers, auto-
gestion, 3 vols.  Szll, Gyrgy 1988: Participation,      de comportamento sobre a populao em geral
Worker's Control and Self-Management  Williams, G.        por parte dos senhores polticos e dos que to-
A. 1975: Proletarian Order: Antonio Gramsci, Factory      mam as decises. O conformismo sem reflexo
Councils and the Origins of Italian Communism, 1911-      e a aceitao habitual das ordens sociais no
1921.                                                     podem ser encarados tampouco como o equiva-
                                      GYRGY SZLL        lente de um consenso. Este ltimo conceito em
132   conservadorismo


geral implica um processo atravs do qual se       do da relativa abertura ou do relativo fechamen-
promove o acordo entre agentes participantes.      to do acesso ao campo de debate poltico. O
Deve ser concebido como um processo ativo e,       consenso origina-se de um processo no qual at
portanto, ser distinguido da aquiescncia, da      mesmo alguns agentes inicialmente recalcitran-
aceitao resignada ou do simples conformis-       tes, sejam indivduos ou grupos, se tornam mo-
mo. O regime nazista na Alemanha, por exem-        tivados, pelo menos em alguns contextos, a
plo, provavelmente pde contar com o consen-       deixar de lado padres egocntricos de compor-
so de grande parte dos agentes polticos do pas   tamento por meio da unio atravs de um "ns"
nos primeiros anos do regime; mais para o final,   coletivo. Nessas situaes, discordncias ini-
porm, a maioria dos cidados parece ter sido      ciais podem tornar-se parte de crenas consen-
motivada apenas pelo conformismo passivo s        suais comuns no momento mesmo em que no-
injunes dos lderes.                             vas reas emergentes de dissenso j comeam
    As regras do jogo, como acabamos de ver,       a dar indcios de uma nova virada.
podem ser impostas de forma coercitiva por
                                                   Leitura sugerida: Comte, Auguste 1974: The Essen-
superiores poderosos a subordinados desprovi-      tial Comte, org. por Stanislav Andreski  Key, Jr., V.O.
dos de poder. No entanto, conforme tericos        1961: Public Opinion and American Democracy  Lip-
polticos vm argumentando desde os grandes        set, S.M. 1960: Political Man: the Social Bases of
filsofos gregos, a coero por si no pode        Politics  Shils, Edward 1975: "Consensus" in Center
proporcionar fundamento suficiente para uma        and Periphery: Essays in Macrosociology.
ordem social. Se  verdade que policiais podem                                           LEWIS A. COSER
erguer o cassetete contra potenciais violadores
de uma ordem imposta, essa ordem no tem           conservadorismo Esta  uma perspectiva
como resolver o problema de quem policia e         poltica universal de um modo que as grandes
ergue um cassetete contra os policiais. Uma        ideologias modernas do LIBERALISMO, do SOCIA-
medida de consenso, ainda que possa envolver       LISMO e do FASCISMO no so. A averso ins-
apenas uma frao da populao, deve inspirar      tintiva  mudana e a correspondente ligao s
alguns agentes a seguir as diretivas dos que       coisas tais como elas so, constituem sentimen-
tomam as decises por motivos outros que no       tos dos quais poucos seres humanos j esti-
o medo da represlia.                              veram totalmente isentos. E sentimentos foi
    O consenso no implica o vnculo perma-        tudo que o conservadorismo reuniu, durante
nente a padres fixos que guiem a conduta. Ao      boa parte da histria humana. Nas sociedades
contrrio, uma reflexo histrica demonstrar      avanadas, no menos que nas primitivas, qual-
que o que numa poca fez parte do consenso em      quer outra disposio que no a conservadora
outra j no mais determina o comportamento.       em geral sempre pareceu aberrante. Costumes,
Os partidos polticos, pelo menos na poltica      rituais e maneiras inalterveis governaram o
democrtica moderna, esto continuamente en-       comportamento humano de gerao a gerao.
volvidos em conflitos que visam transformar o      O conservadorismo s desperta de seu torpor
consenso parcial em dissenso parcial ou vice-      instintivo quando incitado a faz-lo pela defla-
versa. Por exemplo, as crenas a respeito da       grao de uma mudana rpida e turbulenta. E,
necessidade de uma certa medida de segurana       mesmo ento, o conservadorismo acha difcil
social durante perodos de desemprego, ou na       dar voz a instintos aos quais durante tanto tem-
velhice, so hoje reconhecidas e aceitas, ainda    po ele no deu o menor valor e que (de forma
que s vezes de m vontade, por defensores do      bastante literal) ele no tinha nenhum motivo
livre mercado, enquanto em um perodo ante-        para definir ou defender. Para cada Edmund
rior eram encaradas como fantasias utpicas.       Burke, que foi "levado pelo alarme  reflexo",
Com muita freqncia os excntricos de uma         devido  Revoluo Francesa, havia mil aris-
gerao tornam-se os inovadores venerados da       tocratas e camponeses de boca calada, que sabiam
gerao seguinte.                                  o que lhes agradava, mas no sabiam por qu.
    No apenas um dado consenso pode existir           Por isso, o "alarme" sentido pelos conserva-
hoje e desaparecer amanh, devido ao fluxo e       dores diante da mudana presta-se  "reflexo",
s mudanas histricas, como tambm os agen-       mais do que leva a ela. No obstante,  correto
tes que desenvolvem o consenso e o acordo          buscar a origem do pensamento conservador no
podem mudar no decorrer do tempo, dependen-        sentimento conservador. Esse senso do concre-
                                                                              conservadorismo      133


to e do imediato, que  to caracterstico do       em vez disso, pela comunidade orgnica do
primeiro, tem suas origens no ltimo. Pode          "povo" (Volk).
remontar, mais especificamente, aos laos e             A mudana, no entanto, pode ser to verti-
prticas pr-modernos da velha Europa, aos          ginosa que uma reao historicista a ela termine
quais os philosophes do ILUMINISMO do sculo        no em adaptao, mas em capitulao. Tanto
XVIII dedicaram tanto desprezo. Contra o im-        a histria quanto a experincia, ento, tornam-
pulso destes ltimos de reorganizar a sociedade     se um terreno traioeiro para se montar uma
segundo linhas "racionais" e de valorizar os        oposio eficaz  mudana radical, pelo simples
indivduos que se soltavam da teia de ligaes      motivo de que -- para tomar emprestada a
em que viviam presos, os tradicionalistas con-      linguagem do MARXISMO -- ambas esto do
servadores se uniram na defesa de sua prpria       lado da mudana.  por isso que no sculo XX
espcie (ver RACIONALIDADE E RAZO). Eleva-         muitos conservadores tm sentido a necessi-
ram lentamente ao plano da reflexo sua expe-       dade de um modo de pensar mais discriminador
rincia de instituies e costumes, to insepar-   que apele menos  tradio em si mesma do que
veis dos fins da vida humana. E isso formou         s verdades que uma tradio saudvel incor-
forte contraste com a ento emergente nfase        pora. Era uma norma da tradio judaico-crist
liberal em fins e interesses totalmente indivi-     que todos os membros da sociedade a aceitas-
duais, com relao aos quais as instituies e      sem como imposio unificadora sobre eles
formas de vida se colocam num relacionamento        prprios. Mas o homem ocidental moderno per-
meramente utilitrio. Quanto a instituies h      deu qualquer senso de ordem moral objetiva. A
muito estabelecidas, para o individualista libe-    "privatizao" dos valores morais, que  inevi-
ral elas sempre pareceram muletas sem as quais      tvel e boa do ponto de vista liberal, sob o ngulo
as pessoas "adultas" podem viver perfeitamente      conservador  idntica ao niilismo prspero da
(ver INDIVIDUALISMO). O conservador , no ge-       sociedade contempornea. Se os valores no
ral, menos otimista: no caminho da liberdade,       repousam em nada mais slido que a nossa
diz o pensamento conservador, fica o atalho da      escolha arbitrria, como gostaria o RELATIVIS-
libertinagem. A sociedade, tal como o conser-       MO, ento no podemos ter nenhum bom motivo
vador a descreve, no  um amontoado de to-        para acreditar neles. A crtica conservadora ao
mos individuais, desconectados.  antes uma         individualismo liberal adquire aqui uma pers-
communitas communitatum, em que o indiv-           pectiva cultural e metafsica -- e no apenas
duo socialmente isolado -- o "homem rebelde"        social e poltica. A sociedade e suas obrigaes
de Shakespeare --  a exceo, no a regra.         no se fundam sobre as vontades e desejos
    O que comeou como oposio instintiva          cambiantes dos indivduos, mas, em ltima an-
a idias modernizantes desabrochou num "con-        lise, sobre a natureza dos seres humanos. Em
tra-Iluminismo" maduro quando os conserva-          outras palavras, antes dos acordos que fazemos
dores entenderam que os radicais burgueses          uns com os outros, na busca de nossos interes-
queriam racionalizar e atomizar toda a socie-       ses, temos certos deveres e direitos que so, por
dade. Parte da oposio conservadora aos mo-        assim dizer, inegociveis ou "dados", pois ins-
dos abstratos de pensamento era despolitizada,      critos em nossas prprias naturezas.
uma vez que perdera o contato com o mundo               Os limites atribudos  mudana ou ao "pro-
tal como estava passando a ser e se refugiara       gresso" pelas idias gmeas de natureza huma-
na experincia internalizada que reconhecemos       na e lei natural so obviamente bastante consi-
como romantismo, e isso ao ponto de os obje-        derveis. Liberais e radicais, em graus variados,
tivos dos radicais burgueses terem tido suces-      assumem a plasticidade infinita da natureza
so. Porm um elemento mais durvel no cam-          humana. Os conservadores adeptos da lei natu-
po conservador surgiu com o HISTORICISMO. A         ral afirmam, ao contrrio, que ela manifesta
escola histrica reagiu  dissoluo do mundo       aspectos imutveis, que por sua vez implicam
tradicional esttico, reinterpretando a ligao     normas imutveis. Alguns tm encarado esse
conservadora com o concreto como uma liga-          ponto de vista como sinal de uma possvel
o com o orgnico, isto , com o que vive e        incoerncia na teoria conservadora: como pode
est sempre evoluindo. O lugar que fora ocupa-      a crena em uma lei natural universal -- que 
do no antigo pensamento conservador pelo es-        por definio aplicvel a todos os seres huma-
tado e pela comunidade local foi preenchido,        nos em todos os lugares e em todos os tempos
134    consumo, sociedade de


-- ser compatvel com a ligao com tradies             palavra counterculture foi acrescentada  ln-
e costumes particulares e locais? Nem todos os            gua inglesa no final dos anos 60 e incio dos
conservadores,  claro, apiam esses dois pon-            anos 70, referindo-se aos valores e compor-
tos de vista. Mas os que o fazem so geralmente           tamento da mais jovem gerao norte-america-
forados a admitir que uma cultura existente, ou          na dos anos 60, que se revoltava contra as
tradicional, pode de fato no corresponder nem            instituies culturais dominantes de seus pais,
de longe a certos princpios morais universais,           na maior parte, afluentes (ver SOCIEDADE
caso em que essa cultura deve submeter-se ao              AFLUENTE). Embora a palavra tivesse entrado
julgamento de tais princpios.                            para a lngua a fim de identificar esse conflito
    Ainda  verdade que, desde que a Ilustrao           de geraes em particular na Amrica do Norte,
usou sua prpria idia de natureza humana para            a idia  to antiga quanto a histria judaico-
demonstrar a irracionalidade de todas as socie-           crist do Ocidente; a prpria cristandade foi
dades existentes, muitos conservadores rejeita-           uma contracultura na Jerusalm judaica e mais
ram a prpria idia como sendo, no todo, dema-            tarde na Roma pag. Tanto J. Milton Yinger,
siado abstrata. Mas  importante compreender              importante socilogo de contraculturas norte-
o grande abismo que separa a idia conservado-            americano (1982), quanto Christopher Hill, um
ra de natureza humana -- como s se tornando              dos principais historiadores britnicos da Revo-
aquilo que ela essencialmente , como s se               luo Inglesa (1975), se reportam  Bblia em
completando na sociedade -- da idia liberal              seus livros sobre contraculturas:
moderna da natureza humana como essencial-                             Esses homens que tm
mente a-social. Conservadores britnicos e nor-                         alvoroado o mundo
te-americanos s vezes chegam perto de abraar                        chegaram aqui tambm.
esse ponto de vista liberal na sua adeso en-                                                 Atos, 17:6.
tusistica ao CAPITALISMO. No entanto, na prti-              A fora motriz da cristandade construiu-se
ca, normalmente conservam alguns vestgios da             sobre a tenso dialtica entre o Velho e o Novo
velha crena conservadora de que a liberdade,             Testamentos, entre a lei e o Evangelho, entre os
incluindo a liberdade econmica,  ao mesmo               Dez Mandamentos e o Sermo da Montanha.
tempo inopervel e intolervel fora de uma forte          Perfeccionistas de todas as geraes geralmente
estrutura social e moral. Resta ver at onde o            tm apelado ao Evangelho universal do amor,
conservadorismo, em alguma coisa mais que o               em contraposio s leis culturalmente enraiza-
mero nome, pode sobreviver numa sociedade                 das que eram simbolizadas pelos Dez Man-
que est mais inclinada a fundir do que a rela-           damentos. Assim, entre a multido de segui-
cionar liberdade com virtude.                             dores gerada pela Revoluo Inglesa das dca-
                                                          das de 1640 e 1650, os que se ligaram a seitas
Leitura sugerida: Burke, E. 1790 (1968): Reflections
on the Revolution in France  Eliot, T.S. 1939: The Idea
                                                          como "A Famlia do Amor" no eram diferentes
of a Christian Society  1948: Notes Towards the Defi-     dos "Flower People" e dos hippies da "Gerao
nition of Culture  Kirk, Russel 1954 (1986): The          do Amor" dos Estados Unidos nos anos 60.
Conservative Mind, 7ed.  Nisbet, Robert 1966:                Os movimentos sectrios e contraculturais
The Sociological Tradition  Oakeshott, Michael 1962:      tm tido geralmente dois aspectos, o ativismo
Rationalism in Politics and Other Essays  Scruton,        radical dos que buscam revolucionar politica-
Roger 1980: The Meaning of Conservatism  org.
1988: Conservative Thinkers  org. 1988: Conservative      mente a sociedade e a bomia dos que a aban-
Thoughts  Strauss, L. 1949: Natural Right and History     donam para viver em isolamento. Dessa forma,
 Voegelin, E. 1952: The New Science of Politics.          John Lillburne, o homem mais popular na In-
                                      IAN CROWTHER        glaterra de Cromwell, liderou seus Niveladores
                                                          na revolta poltica, mas acabou se retirando do
consumo, sociedade de Ver             SOCIEDADE DE        ativismo poltico e se tornando um quacre. S-
CONSUMO; ver    tambm SOCIEDADE AFLUENTE.                taughton Lynd, um guru da Nova Esquerda
                                                          Estudantil, que foi a Hani demonstrar sua so-
contracultura Uma cultura minoritria ca-                 lidariedade para com o inimigo quando os Es-
racterizada por um conjunto de valores, normas            tados Unidos ainda lutavam na Guerra do Viet-
e padres de comportamento que contradizem                n, tambm se tornou quacre. Theodore Ros-
diretamente os da sociedade dominante. De                 zak, num trabalho excelente, um dos primeiros
acordo com o Oxford English Dictionary, a                 livros sobre a contracultura (1969), inclui tanto
                                                                                  contracultura   135


"a bomia drogada dos beats e hippies" quanto         co, bem como a guerra. A razo, o cientificismo
o "ativismo poltico tenaz da Nova Esquerda           e o culto  tecnologia eram partes importantes
Estudantil" dentro da contracultura.                  do problema, em vez de soluo. O empenho
    No final da Segunda Guerra Mundial, os            no trabalho e a mobilidade social transforma-
norte-americanos estavam confiantes e orgu-           ram-se na "corrida" que deveria ser evitada a
lhosos em relao a suas instituies, que ti-        qualquer custo (melhor um carpinteiro ou bom-
nham razes em valores culturais calvinistas.         beiro independente e honesto do que um buro-
Entre estes se incluam a f na razo, na cincia     crata conformista e conivente). O auto-aperfei-
e na tecnologia, uma tica puritana de empenho        oamento atravs da renncia e do despren-
no trabalho e auto-aperfeioamento, a demo-           dimento deu lugar  tica de auto-indulgn-
cracia representativa limitada pela lei e pela        cia da Playboy, os rituais do namoro para fazer
Constituio e, finalmente, uma famlia mode-         amor foram deixados de lado em favor de "fa-
radamente patriarcal em que o divrcio ainda          zer sexo". Maridos e esposas foram substitu-
era relativo tabu, se admitia a autoridade pater-     dos por "companheiros" mais ou menos perma-
na e o comparecimento da famlia  igreja era         nentes (os relacionamentos duradouros eram
mais elevado do que em qualquer outra nao           honestamente temidos). O comparecimento s
ocidental. Nessa sociedade confiante, ordem e         sinagogas e igrejas, bem como os rituais de jogo
autoridade eram formadas por um sistema de            nos clubes de golfe dos subrbios, foram deixa-
classes hierrquico, porm cada vez mais aberto       dos para pais rgidos e convencionais, enquanto
e incentivador do aproveitamento das oportuni-        os filhos iam embora, em busca de vidas mais
dades, liderado por elites extradas de um sis-       cheias de significado no movimento estudantil
tema ("establishment") WASP ("white anglo-            pelos direitos civis no Sul, na poltica da Nova
saxon protestant" ou seja, "branco, protestante       Esquerda nos melhores campi da nao e no
e anglo-saxo") seguro e hegemnico, ou a ele         escape atravs das drogas e dos variados cultos
assimiladas.                                          religiosos orientais em cenrios bomios urba-
    Essa sociedade otimista desencadeou o mais        nos como os do East Village, em Nova York, ou
longo boom econmico da histria norte-ame-           Haight-Ashbury, em So Francisco, alm das
ricana, que produziu um "baby-boom" (surto de         periferias bomias de seus campi preferidos, de
bebs) que durou at boa parte dos anos 60. Os        Berkeley ao Harvard Yard. Os quacres (que um
filhos dessa gerao entraram para a faculdade,       dia foram chamados de anabatistas antinmicos
passando da a cursos de mestrado e doutorado         da Revoluo Inglesa, que ainda acreditam na
em nmeros cada vez maiores. Nesse meio               democracia participativa) passaram por um de-
tempo, uma minoria proftica (Newfield, 1967)         clnio lento, porm constante, nos Estados Uni-
entre eles foi-se desencantando com os valores        dos do ps-guerra, para em seguida estourarem
materialistas da Amrica branca e tentou sub-         nos anos 60, quando novas Assemblias foram
vert-los nos anos 60, a dcada mais antiauto-        criadas em torno das comunidades dos campi.
ritria, antielitista e anti-sistema em toda a his-   A maior assemblia de Massachusetts foi logo
tria dos Estados Unidos. No decorrer dessa           ao lado de Harvard Square.
dcada a hegemonia do sistema WASP numa                   Um aspecto importante a respeito da contra-
sociedade de classes aberta foi substituda por       cultura foi a sua perda na f da democracia
uma burocracia governamental inclinada a ni-          representativa, com preferncia por uma demo-
velar por baixo, e no por cima, criando uma          cracia participativa ou manifestante. A Nova
sociedade sem classes, de posies sociais ba-        Esquerda Estudantil, liderada por Tom Hayden
seadas em credenciais (como ttulos acadmi-          e outros fundadores dos Students for a Demo-
cos avanados de instituies prestigiosas), em       cratic Society (SDS) -- Estudantes por uma
lugar da habilidade e do esforo.                     Sociedade Democrtica --, estava determinada
    Tornando-se adultos  sombra do Holocaus-         a arrancar a tomada de decises polticas das
to e de Hiroxima, e confrontados com os as-           assemblias legislativas para as ruas tomadas
pectos desumanizantes de instituies cada vez        pelas multides. O voto foi substitudo pelo
mais racionalizadas e impessoais, como as mul-        megafone, a privacidade da cabine eleitoral por
tiversidades de Berkeley e Michigan, muitos           grupos solitrios entoando solues simplistas
membros dessa gerao achavam inaceitveis            para problemas polticos complexos. A eficcia
todas as formas de racismo e preconceito tni-        da poltica de multides dependia da televiso,
136   contracultura


que logo transmitia fortes imagens audiovisuais            anos 60. Nesse vero triste "o amor se fixara
por toda a "Aldeia Global" mundial, dramati-               num lugar de excrementos" (Wolfe, 1968,
zando o comportamento da multido de 3 mil                 p.XVIII). Esse "love people", que havia deixa-
estudantes reunidos (para o Movimento do Li-               do lares de prosperidade e de conforto parali-
vre Discurso) na Sproul Plaza, no campus da                sante, no fazia a menor idia de como tomar
Universidade da Califrnia em Berkeley em                  conta de si mesmo. Descalos, cabelos compri-
1964; a multido de 20 mil na marcha so-                   dos, vestindo trapos encontrados em brechs e
bre Washington contra a guerra do Vietn, em               nos stos das avs, viviam de drogas e comida
1965; de 25 mil hippies e novos-esquerdistas               enlatada, sofriam de problemas nos dentes, m
marchando sobre o Pentgono em 1967; e final-              digesto e falta de sono, e estavam constante-
mente as multides de estudantes enfurecidos e             mente pisando em pregos enferrujados e vidros
assustados combatendo os "porcos" (policiais)              quebrados; a doena venrea prosperou lado a
em Grant Park e nas ruas em torno da Conven-               lado com a liberdade sexual. Uma clnica m-
o Democrtica, em Chicago, no vero de                   dica gratuita tratou de cerca de 3 mil pacientes
1968, o que desmoralizou os liberais (inimigos             em um ms nesse vero.
desprezados dos SDS). James Miller (1987,                      O maior acontecimento em toda a hist-
p.304) descreveu o final desse dia em Chicago,             ria da contracultura foi o Festival da Vida de
da seguinte maneira:                                       Woodstock (Woodstock Festival of Life), quan-
   O sol se ps. Refletores de luzes de Klieg foram        do cerca de 500 mil jovens, ativistas de esquer-
   ligados. As cmaras de televiso registravam a ao     da, drop-outs e meros curiosos, rumaram para
   (...) De repente, sem aviso, a polcia atacou (...)
                                                           um gigantesco concerto de rock realizado no
   Incitada pelo pnico, a fria e o orgulho, a multido
   comeou a entoar um cntico: "O Mundo Inteiro Est      meio de uma fazenda lamacenta, no interior do
   Olhando! O Mundo Inteiro Est Olhando! O Mundo          Estado de Nova York, em agosto de 1968, ape-
   Inteiro Est Olhando!"                                  nas um ms depois da tragdia da Conveno
                                                           Democrtica em Chicago. Durante trs dias, a
    Depois de Chicago, os SDS se desfizeram,               multido desnuda, drogada e contente mostrou-
deixando um pequeno remanescente chamado
                                                           se ordeira e amigvel, impressionando at a
The Weathermen, agora dedicado  violncia.
                                                           polcia e os fazendeiros locais. Se Woodstock
Seu fim foi simbolizado por dois acontecimen-
                                                           foi um sucesso, o Festival Let it Bleed of Angels
tos em 1970. Em maio uma esplndida casa na
                                                           and Death, organizado pelos Rolling Stones de
cidade de Nova York, na Rua 11, bem perto da
Quinta Avenida, no Village, explodiu acidental-            Mick Jagger, "a maior banda de rock and roll
mente, matando trs Weathermen. Os sobrevi-                do mundo", no autdromo de Altamont, perto
ventes, incluindo a filha do proprietrio, fugi-           de So Francisco, em dezembro, foi um desas-
ram para a clandestinidade. Em maio membros                tre. Os Stones, para economizar dinheiro, alu-
da Guarda Nacional abriram fogo sobre es-                  garam um bando de Hell's Angels (uma gangue
tudantes numa manifestao, matando quatro                 de motociclistas da Califrnia), por 500 dlares
deles.                                                     em cerveja, para manter a ordem (O'Neil, 1971,
    A ascenso e queda da cultura da droga foi             p.261). A multido de cerca de 300 mil pessoas
paralela  dos ativistas estudantis. No ano se-            estava de longe muito mais drogada do que em
guinte ao Movimento do Livre Discurso em                   Woodstock. A revista Rolling Stone, maior au-
Berkeley, dois hippies abriram uma loja psico-             toridade em rock, fotografou Mick Jagger ob-
dlica no bairro de Haight-Ashbury, em So                 servando os Angels matar a pancadas um jovem
Francisco. No "Vero do Amor", em 1967, esse               negro de Berkeley, sobre o palco, diante da
bairro j se havia tornado a meca das tribos               multido ensandecida. Todd Gitlin, obcecado
hippies da nao inteira, que se haviam ligado             com o fedor de morte na multido drogada,
no movimento, largado tudo e entrado para a                perguntou-se: "Quem ainda podia acalentar a
religio da droga de Timothy Leary, um profes-             iluso de que essas centenas e milhares de filhos
sor de Harvard que abandonara a ctedra, e de              da Multido Solitria, mimados, sequiosos de
Ken Kesey, o romancista com a mensagem de                  astros, eram o arauto de uma boa sociedade?"
"deixa tudo rolar", autor de One Flew over the             (1987, p.407).
Cuckoo's Nest, que se tornou romance e filme                   Ver tambm CULTURA DA JUVENTUDE; MOVI-
cult [Um estranho no ninho] da gerao dos                 MENTO ESTUDANTIL.
                                                                                     contrato social   137

Leitura sugerida: Feuer, Lewis S. 1969: The Conflict      sendo mais uma vez utilizada como um modo
of Generations: the Character and Significance of Stu-    de conciliar o individualismo egosta (segundo
dent Movements  Fraser, Ronald 1988 (1968): A Stu-
dent Generation in Revolt  Kenann, George F. 1968:
                                                          o qual a pessoa racional busca, ou deveria bus-
Democracy and the Student Left  Mailer, Norman            car, somente o seu prprio bem-estar) com a
1968: Miami and the Siege of Chicago  Rothman,            aceitao de obrigaes de sociedade definidas
Stanley e Lichter, S. Robert 1982: Roots of Radicalism:   e limitadas (como sendo no interesse de longo
Jews, Christians and the New Left  Wolfe, Tom 1968:       prazo de todos os envolvidos). Isso transfere
The Purple Decade: a Reader.                              para a esfera social e poltica geral modelos
                                   E. DIGBY BATZELL       econmicos relacionados ao livre mercado, em
                                                          que as relaes contratuais entre indivduos so
contradio Ver DIALTICA.                                de importncia capital. Na chamada teoria da
contra-revoluo Ver REVOLUO.                           escolha coletiva, Buchanan e Tullock (1962)
                                                          examinam os procedimentos decisrios rele-
contrato social Qualquer acordo entre indi-               vantes para a determinao de quando  racio-
vduos independentes com respeito a dispo-                nal para indivduos agindo egoisticamente acei-
sies institucionais bsicas que devero deter-          tar as restries implcitas  ao coletiva.
minar seus relacionamentos sociais ou polticos               Numa veia menos egosta, derivada das teo-
constitui um contrato social. O acordo pode ser           rias de Locke (1690), Rousseau (1762) e Kant
feito entre todas as pessoas relevantes, ou entre         (1977), com origem no Iluminismo, a metodo-
uma pessoa (o soberano potencial) e todas as              logia do contrato social tem sido usada tambm
outras, podendo ainda implicar acordos entre              para servir de base a uma teoria liberal moderna
grupos preexistentes. O conceito  utilizado              da JUSTIA que combina o compromisso com
para explicar, justificar ou deduzir os direitos          fortes direitos individuais a amplos mecanis-
ou obrigaes positivos que indivduos natural-           mos redistributivos (Rawls, 1971).
mente autnomos tm uns para com os outros                    Os tericos modernos do contrato social
dentro de uma sociedade e/ou estado.                      aceitam no ter existido nenhum contrato his-
    A idia de contrato social exemplifica mui-           trico efetivo que antecedesse as origens da
tas das pressuposies da teoria poltica libe-           vida social ou poltica, e em vez disso se apiam
ral tradicional. Assim, um comentarista recente           na idia de um contrato hipottico explicado
aponta que a teoria do contrato social  volun-           em termos do que pessoas racionais (e possi-
tarista (no sentido de que a autoridade poltica          velmente bem-informadas e imparciais) teriam
"depende de atos da vontade humana"), con-                ajustado entre si em circunstncias devidamen-
sensual ("a teoria postula um consenso de von-            te especificadas. Rawls, por exemplo, postula
tades entre todos aqueles sujeitos a uma dada             uma "posio original" imaginria, na qual in-
autoridade legtima"), individualista ("funda-            divduos em geral cultos, livres e iguais concor-
mentando a autoridade poltica legtima na sua            dam a respeito das instituies bsicas da socie-
aceitao por parte dos indivduos") e racio-             dade, sem conhecer suas prprias caractersticas
nalista (no sentido de que as vontades indi-              sociais e sem saber que lugar viro a ocupar numa
viduais que chegam a um consenso so racio-               sociedade assim (o "vu da ignorncia")
nais, e no produto de caprichos voluntariosos)           (Rawls, 1971, p.118-94). Essa formulao
(Lessnoff, 1986, p.6ss).                                  abandona a idia de que os indivduos s tm
    No incio do sculo XX, assumiu-se que a              obrigaes polticas e de sociedade se efetiva-
teoria do contrato social havia sido posta de             mente assumiram certos compromissos, e subs-
lado, e com justia, devido a suas pressupo-              tituem-na pela idia mais nebulosa de que aqui-
sies histricas e sociolgicas errneas e a sua         lo sobre o que se chegaria a um acordo, em
incapacidade filosfica de explicar a base da             certas circunstncias, determina ou explica o
obrigao fundamental de se agir de acordo                que  obrigatrio, independentemente de todos
com o contrato social original. Recentemente,             ou alguns indivduos efetivos terem chegado a
porm, a abordagem de contrato social tem sido            tais acordos. Desse modo, a moralidade  ana-
retomada de vrias formas.                                lisada como uma combinao entre interesse
    Numa tradio que tem origem em Thomas                prprio a longo prazo e imparcialidade ou eqi-
Hobbes, filsofo poltico do sculo XVII                  dade. Pode ser difcil distinguir as implicaes
(1651), a abordagem do contrato social est               prticas dessa abordagem das do utilitarismo
138    controle social


clssico (com o qual normalmente se contrasta            to de instituies, relaes e processos sociais
a teoria do contrato como dando mais proteo            mais amplos.
a indivduos e minorias). Alm disso, a aborda-              O controle social sempre foi, historicamen-
gem do contrato hipottico no pode explicar             te, uma preocupao crucial da sociologia, sen-
com facilidade por que as pessoas se submetem            do at plausvel afirmar que  difcil separ-lo
s exigncias dessa moralidade quando no               da prpria palavra sociologia. A questo princi-
de seu interesse (mesmo a longo prazo) faz-lo           pal para os tericos do controle social tem sido
(Gauthier, 1977), embora possa explicar por              como alcanar uma ordem social compatvel
que as pessoas s vezes tm bons motivos para            com princpios morais, sem impor um grau
faz-lo.                                                 excessivo de controle pela coero. De acordo
    Uma forma de contrato hipottico, de orien-          com esse ponto de vista, todos os problemas
tao mais histrica,  a exposta por Robert             sociais eram, na base, problemas de controle
Nozick (1974), que segue Locke ao aceitar que            social. Essa viso foi desenvolvida nos anos 50
os indivduos tm alguns direitos naturais pr-          por socilogos como Paul Landis, cujo conceito
sociais, tais como o direito  vida, e constri          de controle social se originava de uma viso
uma histria conjectural, descrevendo como               altamente conservadora da sociedade. Tradicio-
tais indivduos poderiam aderir sem estar vio-           nalmente, a ordem na sociedade era o produ-
lando os direitos uns dos outros. Ele conclui que        to de um consenso profundamente enraizado,
esses indivduos concordariam com um estado              mantido sem nenhum esforo consciente por
libertrio ou mnimo, mas nada alm disso.               parte de qualquer grupo particular da sociedade.
Nenhuma justificativa ou explicao de contra-           Na medida em que os elos da sociedade tradi-
to (ou outra)  apresentada para os pressupostos         cional, tais como igreja e famlia, foram se
direitos naturais.                                       enfraquecendo e as foras desintegradoras da
    A teoria de Nozick  caracterstica da teoria        vida urbana e industrial moderna foram proli-
contempornea do contrato social por ser jus-            ferando, o consenso foi se tornando cada vez
tificativa ou normativa, e no descritiva ou ex-         mais frgil. Manter uma estabilidade contnua
plicativa, embora geralmente se presuma existir          atravs do controle social tornou-se, do ponto
s vezes uma justaposio emprica entre as              de vista de Landis, "o problema crucial da nossa
situaes associais em que se diz que o contrato         poca". Visto assim, o controle social mal pode
ocorre e as realidades da vida social e poltica         ser diferenciado da SOCIALIZAO.
efetiva. As teorias do contrato hipottico no               Se a socializao  o processo informal atra-
evitam os problemas epistemolgicos que sur-             vs do qual os indivduos chegam a aprender e
gem com respeito ao nosso suposto conheci-               a aceitar as normas sociais (ver NORMA), o con-
mento do contedo dos contratos em questo, e            trole social entra em jogo quando esses meios
os resultados prescritivos de se aplicar a meto-         no conseguem garantir a conformao. Para
dologia do contrato social tendem a refletir os          ilustrar: a socializao pode acarretar a interna-
valores de seus usurios.                                lizao de normas atravs da opinio de grupos
                                                         paritrios, da presso social ou das expectativas
Leitura sugerida: Barker, E. 1947: Social Contract       familiares. O controle social tambm pode ope-
Lessnoff, M. 1986: Social Contract  Macpherson,
C.B. 1962: The Political Theory of Possessive Indi-      rar informalmente, atravs de famlia, da igreja
vidualism  Rawls, John 1971: A Theory of Justice         ou da escola, ou formalmente, atravs do es-
Scanlon, T.M. 1982: "Contractualism and utilitaria-      tado, do sistema jurdico, da polcia ou de outros
nism". In Utilitarianism and Beyond, org. por A. Sen e   instrumentos de fora. Os mecanismos de con-
B. Williams.                                             trole social, segundo Talcott Parsons, funcio-
                                  TOM D. CAMPBELL        nam como "defesas secundrias" para combater
                                                         os desvios que, se deixados sem controle, po-
controle social Esse conceito descreve a ca-             dem romper o equilbrio social (ver tambm
pacidade da sociedade de se auto-regular, bem            CRIME E TRANSGRESSO).
como os meios que ela utiliza para induzir a                 Nos anos 60 socilogos radicais adotaram
submisso a seus prprios padres. Repousa na            um uso mais negativo dessa expresso, buscan-
crena de que a ordem no  mantida apenas,              do explicar como se mantm a autoridade numa
nem sequer principalmente, por sistemas jur-            sociedade assolada por conflitos. Os novos so-
dicos ou sanes formais, mas , sim, o produ-           cilogos da transgresso inverteram a premissa
                                                                        conversacional, anlise      139


de Parsons de que o controle social era uma        toriador social Gareth Stedman Jones, "leva 
reao  transgresso, afirmando, em vez disso,    no-explicao e  incoerncia" (1983, p.42).
que "a idia contrria, isto , que o controle     Promove a tendncia a encarar aqueles que
social leva  transgresso,  de igual modo        esto sujeitos ao controle como recipientes pas-
sustentvel e a premissa, potencialmente mais      sivos, desprezando sua capacidade (ainda que
rica" (E. Lemmert, cit. in Donajgrodzki, 1977,     coagida) de rejeitar, adaptar, distorcer ou con-
p.13). O controle social no era apenas uma        trapor-se s foras do conformismo. Assume
fora reativa ou reparadora que entrava em jogo    uma idia monoltica do poder, uma unanimi-
quando outros mecanismos fracassavam, mas          dade de propsitos entre os "controladores", ou
sim uma fora que, ativamente, criava a trans-     simplesmente abafa a questo de suas identi-
gresso. Howard Becker, por exemplo, usando        dades objetivas dentro da "hegemonia burgue-
o conceito de solidariedade social de mile        sa". Finalmente, essa utilizao deixa sem repto
Durkheim, afirmou em Outsiders que as ins-         a eficcia dos mecanismos de controle social,
tituies de controle social criam "outsiders",    desprezando a possibilidade de muitos terem
"indivduos  margem", sejam eles criminosos,      efeitos bem diversos dos pretendidos.
doentes mentais ou minorias religiosas e ra-           Uma crescente desiluso a respeito do con-
ciais, que servem de bodes expiatrios sociais     trole social como pouco mais que "um conceito
e tambm como ltima fronteira da "sociedade       fcil" (Cohen, 1985, p.2) tem levado  rejeio
respeitvel". Essa viso radical foi prontamente   de sua utilizao mais ampla. Socilogos como
adotada por movimentos como a antipsiquia-         Stanley Cohen preferem restringir sua com-
tria, a antimedicalizao e a desescolarizao.    preenso do controle social aos "modos organi-
    Os historiadores sociais tambm se mos-        zados com que a sociedade reage a comporta-
traram vidos por adotar o conceito como um        mentos e pessoas que encara como transgres-
meio de compreender os mecanismos atravs          sores, problemticos, preocupantes, ameaado-
dos quais as classes operrias eram condiciona-    res, perturbadores ou indesejveis" (Cohen,
das a aceitar e adotar as normas e condutas        1985, p.1). Nesse sentido mais estreito e es-
necessrias  sustentao de uma rpida indus-     pecfico, o controle social continua a ser um
trializao da sociedade. F.M.L. Thompson, por     instrumento capital para a sociologia da trans-
exemplo, caracteriza a maneira como os his-        gresso.
toriadores compreendem essa expresso como
                                                   Leitura sugerida: Becker, H. 1963: Outsiders  Co-
o meio atravs do qual "um grupo ou classe         hen, S. 1985: Visions of Social Control  Cohen, S. e
impem sobre outra classe suas idias a respeito   Scull, A., orgs. 1983 (1985): Social Control and the
do que so os hbitos e atitudes adequados a       State  Donajgrodzki, A.P. org. 1977: Social Control in
essa classe" (Thompson, 1981, p.190-1). Se-        Nineteenth-Century Britain  Landis, P.A. 1956: Social
gundo os historiadores marxistas, o objetivo das   Control: Social Organization and Disorganization in
classes mdia e alta era produzir membros obe-     Process  Ross, E.A. 1929: Social Control: a Survey of
dientes e submissos da classe operria, adequa-    the Foundations of Order.
damente equipados para seu papel inferior na                                             LUCIA ZEDNER
sociedade, condicionados a respeitar a lei e a
ordem, bem como a autoridade, a propriedade        controvrsia Ver DISSENSO.
e as pessoas de seus superiores.
                                                   controvrsia metodolgica Ver            METHODEN-
    Numa posio extrema, a teoria do controle     STREIT .
social coloca todas as atividades de estado, por
mais benvolas ou progressistas que possam         conversacional, anlise Esse campo da so-
parecer, como mecanismos camuflados de con-        ciologia (que costuma ser chamado de CA,
trole e represso. As polticas de bem-estar,      iniciais da denominao original inglesa, con-
educao e sade so denunciadas como sendo        versation analysis) diz respeito  organizao
"na verdade" mecanismos de controle social,        da interao social em contextos cotidianos e
semelhantes, em seus objetivos,  polcia, aos     em ambientes institucionais mais especializa-
tribunais e s prises. Definido dessa maneira,    dos. Com origem na pesquisa de Harvey Sacks
o controle social tem limites como instrumento     e seus colaboradores, Emanuel Schegloff e Gail
explanatrio. "A utilizao circunstancial de      Jefferson, esse campo surgiu como produto das
metforas de controle social", afirma o his-       influncias da ETNOMETODOLOGIA e da anlise
140   cooperao


interativa de Erving Goffmann. Tendo comea-         da bsica para se documentar e analisar a con-
do com palestras de Sacks (1964-72), que tive-       duta que  caracterstica de formas mais es-
ram circulao privada, a CA cresceu at se          pecializadas de interao, por exemplo, em tri-
transformar num campo de pesquisa praticado          bunais, entrevistas a jornais, consultas mdicas
no mundo inteiro.                                    e assim por diante.
    O objetivo bsico de pesquisa da CA  des-           As pesquisas e descobertas da CA incorpo-
crever e analisar as competncias sociais sub-       ram uma fuso inovadora de abordagens socio-
jacentes  produo e ao reconhecimento de           lgicas da natureza da ao e interao social
aes sociais comuns. Muitas dessas competn-        com perspectivas analticas associadas ao prag-
cias tm uma dimenso normativa. A CA parti-         matismo lingstico. Os detalhes e resultados
cipa da viso etnometodolgica de que um cor-        cumulativos dessas descobertas esto criando
po comum de prticas normativas informa tanto        novas oportunidades de estudos precisamente
a produo quanto a interpretao da ao, e de      enfocados do funcionamento de instituies so-
que so implementadas em um contexto social          ciais especficas e vm exercendo um impac-
dinmico que  alterado, em maior ou menor           to significativo sobre as disciplinas adjacentes
extenso, a cada sucessiva contribuio  inte-      da antropologia, lingstica, psicologia social e
rao. A anlise dessas prticas torna-se poss-     cincia cognitiva.
vel pelo fato de que, no decorrer da interao,
cada participante (conscientemente ou no) exi-      Leitura sugerida: Atkinson, J.M. e Drew, P. 1979: Or-
                                                     der in Court: The Organization of Verbal Interaction
be uma compreenso e uma anlise da conduta          in Judicial Settings  Atkinson, J.M. e Heritage, J.C.,
do outro atravs da produo da ao seguinte        orgs. 1984: Structures of Social Action: Studies in
em uma seqncia. A CA incorpora uma es-             Conversation Analysis  Drew, P. e Heritage J.C., orgs.
trutura analtica que se baseia neste fato. Assim,   1991: Talk at Work  Goodwin, C. 1981: Conversatio-
em vez de se concentrar nos interlocutores e em      nal Organization: Interaction between Speakers and
suas intenes individuais, a CA comea com          Hearers  Levinson, S.C. 1983: Pragmatics  Sacks,
                                                     Harvey 1964-72 (1992): Lectures on Conversation, org.
as prticas normativas que do formas a seqn-      por G. Jefferson, 2 vols.
cias de interao entre interlocutores e com o
esquema de aes ou elocues dentro dessas                                               JOHN HERITAGE
seqncias. A utilizao dessa abordagem re-
sultou num grande mbito de descobertas a            cooperao Ver CONFIANA E COOPERAO.
respeito da organizao da ao, da compreen-
so mtua dentro da organizao e, cada vez          cooperativismo Ver MOVIMENTO COOPERATIVO.
mais, da medida em que descobertas derivadas         corpo, sociologia do Ver           SOCIOLOGIA DO
de dados interativos de uma cultura particular       CORPO.
so universais ou culturalmente especficas.
    A abordagem emprica da CA  naturalista         corporativismo Em uso recente nas cincias
e realiza mais pela observao do que pela           sociais, o conceito de corporativismo livrou-se
experimentao. Baseia-se em dados recolhi-          de sua ligao anterior com regimes autoritrios
dos de situaes naturais de interao por fitas     e fascistas e passou a ser utilizado como um
de udio, ou fitas de vdeo ou filmes. Grande        meio para se analisar o papel dos interesses
parte desses dados  tirada de conversas infor-      organizados nas democracias liberais da atuali-
mais entre amigos e conhecidos. Esse tipo de         dade. O corporativismo tambm entrou no uso
conversa representa a forma mais bsica de           poltico comum como uma espcie de refern-
interao na maioria das culturas, ainda que no     cia abreviada ao envolvimento de sindicatos,
em todas. , como observou Schegloff, o local        junto com organizaes que representam os
primordial da sociabilidade humana, de signi-        interesses do capital, em negociaes com os
ficado fundamental no estudo da ao social e        governos a respeito de polticas econmicas.
do raciocnio prtico. Ademais, a conversa co-       No debate pblico, o corporativismo passou a
mum  a primeira forma de interao a que os         ser visto como a anttese do neoliberalismo, no
seres humanos so expostos no decorrer da            qual os governos buscam usar a competio, em
SOCIALIZAO e atravs da qual a prpria socia-      vez da negociao, como o elemento dinmico
lizao continua. A anlise de sua organizao       da tomada de decises sobre polticas e progra-
subjacente est proporcionando uma coordena-         mas.
                                                                               corporativismo    141


    Grande parte dos primeiros textos normati-       especfico. A utilizao moderna mais difun-
vos sobre o corporativismo refletia a doutrina       dida da palavra identifica o cerne do corporati-
social catlica e a busca de uma alternativa         vismo como sendo o papel das organizaes de
ideolgica para o liberalismo e o socialismo. Os     interesses como intermedirio entre o estado e
autores corporativistas defendiam teorias org-      a SOCIEDADE CIVIL. A teoria pluralista enfatizou
nicas da sociedade e pleiteavam grupamentos          o papel dos grupos como representantes dos
funcionais de corporaes baseados num con-          interesses de seus membros, buscando influen-
junto comum de interesses que transcendia as         ciar a direo de polticas e programas pblicos
divises de classe. Essa idia do corporativismo     implementados atravs das instituies do es-
como planta baixa de um sistema social ideal         tado. A teoria corporativista colocou igual n-
baseado na acomodao harmnica de dife-             fase  delegao de funes pblicas a grupos
rentes grupos sociais no se realizou, na prtica,   e em sua responsabilidade pela implementao
em parte alguma, embora alguns de seus ele-          de polticas pblicas. Assim, os grupos no se
mentos encontrassem expresso no projeto de          limitavam a representar interesses, mas inter-
ESTADO corporativo na Itlia de Mussolini.           pretavam um duplo papel, que fundia a repre-
    Entre os autores acadmicos contempor-          sentao de interesses com a implementao de
neos, o corporativismo  encarado em geral           polticas. O teste crucial para a eficcia de um
como a anttese do PLURALISMO, e de fato o           grupo corporativo, afirmou-se ento, seria sua
principal expoente da teoria corporativista nos      capacidade de disciplinar seus membros para
anos 70, Philippe Schmitter (1974), apontou o        aceitar e implementar acordos fechados com
corporativismo como uma crtica do que enca-         o estado. Relacionamentos relativamente est-
rava como a ortodoxia pluralista predominante        veis desse tipo tambm foram chamados de
na SOCIOLOGIA POLTICA. Os pluralistas interpre-     "governo do interesse privado" (Streeck e Sch-
tavam o extraordinrio alcance e diversidade         mitter, 1985).
das organizaes de defesa de interesses nas             A diferena entre as sociedades capitalistas
sociedades modernas como um indcio da aber-         avanadas, onde o corporativismo se desen-
tura dos governos democrticos a um vasto            volve cada vez mais em conseqncia do cres-
mbito de influncias, e propunham uma viso         cente poder monopolista das organizaes de
benevolente da poltica dos grupos de interesses     interesses, e aquelas onde h um plano corpo-
(ver INTERESSE, GRUPO DE) como uma comple-           rativista imposto pelo estado  bem captada na
mentao dos mecanismos eleitorais para ga-          distino entre corporativismo societal (ou li-
rantir a responsabilidade democrtica. Em con-       beral) e corporativismo de estado (Schmitter,
traste, a teoria corporativista enfatizava um n-    1974). O corporativismo societal desenvolve-
mero limitado de organizaes politicamente          se onde o estado reconhece o aumento do poder
influentes e a tendncia desses grupos a alcan-      autnomo por parte de organizaes que re-
ar uma posio monopolista na representao         presentam os interesses de categorias sociais
de interesses dentro de categorias sociais parti-    e entra num processo de intercmbio poltico
culares. Esses desdobramentos tendiam a su-          com essas organizaes. O corporativismo so-
plantar, em vez de complementar os processos         cietal tornou-se mais fortemente institucionali-
parlamentares. Os governos tendiam a preferir        zado em pases como a ustria ou a Sucia,
o desenvolvimento de monoplios de interesses        onde um poderoso movimento trabalhista se
porque isso tornava mais fcil alinhar os in-        tornou um "parceiro social" da associao de
teresses de grupos com as polticas pblicas,        cpula dos empregadores e do estado na nego-
com menos consumo de tempo. Ao conferir um           ciao de polticas econmicas e sociais. O
status pblico privilegiado aos grupos cuja co-      corporativismo de estado, em contraste, ocorre
operao era considerada importante para se          em sociedades com grupos de interesses de
realizarem objetivos de poltica pblica, os go-     organizao relativamente fraca, onde o estado
vernos de fato excluam da mesa de negocia-          busca legitimar seu domnio e alcanar seus
es um nmero bastante grande de grupos             objetivos mobilizando a populao dentro de
menos poderosos (Offe in Berger, 1981).              organizaes subordinadas. O corporativismo
    Houve um debate acalorado sobre qual de-         de estado tende a estar ligado a regimes capita-
veria ser o foco da teoria corporativista, o que     listas perifricos ou dependentes, como os da
levou alguns crticos a duvidar de seu carter       Amrica Latina (Malloy, 1977).
142   corporativismo


    O desenvolvimento do corporativismo nas            Uma parte importante dos primeiros textos
democracias liberais est geralmente associado     sobre corporativismo liberal concentrou-se na
 reduo do mbito de decises que esto          anlise comparativa de estados-naes, e foram
sujeitas a determinao atravs de processos       feitas vrias tentativas de relacionar pases de
eleitorais e parlamentares. Muitas da primeiras    acordo com seu nvel de conformidade a um
avaliaes assumiram um processo evolutivo         tipo ideal de corporativismo. A maioria dos
do desenvolvimento corporativista, com adver-      autores parecia concordar em que o pas a al-
tncias de que as democracias parlamentares        canar a marca mais elevada era a ustria, que
estavam se tornando cada vez mais "estados         os Estados Unidos eram o pas menos corpora-
corporativos". Mas, com a crescente sofistica-     tivista e que na Gr-Bretanha o corporativismo
o da teoria corporativista, o surgimento de      era relativamente fraco. Fizeram-se algumas
estudos empricos de processos corporativos e      tentativas (discutidas em Cawson, 1986) de
a rejeio consciente das prticas corporativas    mensurar o corporativismo e correlacionar sua
em alguns pases, veio tambm uma avaliao        incidncia com outros fatores presentes nos
dos limites do corporativismo e de sua coexis-     sistemas polticos nacionais. Os resultados so
tncia com os processos parlamentares e plura-     mais sugestivos que conclusivos, havendo po-
listas. Isso levou ao desenvolvimento da tese do   rm indcios de que o corporativismo est liga-
"estado dual" ou da "poltica dual", a qual        do a baixos nveis de represlia contra impos-
sugere que o corporativismo se limita  inter-     tos elevados e gastos pblicos. Outros estudos
mediao com respeito a um mbito de ques-         apontaram que os pases mais "governveis"
tes relativas  produo e implicando interes-    so os fortemente corporativistas e que estes
ses dos produtores, e que ele sempre coexistir    tendem tambm a ter menos desemprego. A
com um processo poltico competitivo ou plu-       maioria dos que estudam o corporativismo es-
ralista para a determinao das questes de        to de acordo em que o caso tpico de macro-
consumo envolvendo indivduos e organiza-          corporativismo  a ustria, seguida pelos pases
es de interesses dos consumidores (Cawson        escandinavos, especialmente a Sucia. A us-
e Saunders, 1983).                                 tria tem um sistema de filiao compulsria em
    Onde o corporativismo ficou fortemente en-     cmaras de comrcio, trabalho, agricultura e
trincheirado no nvel mais elevado, as polticas   profisses liberais, e cada cidado trabalhador
econmicas e sociais tm sido determinadas          membro de pelo menos uma destas. Cada uma
com base numa negociao trplice. Afirmou-se      delas  uma organizao altamente centraliza-
que a capacidade de certos pases de suportar a    da, em que a liderana nacional mantm um
recesso econmica sem recorrer  deflao e      controle efetivo sobre as subdivises setoriais
criao de desemprego pode ser explicada pelo      e territoriais. A principal organizao sindical
grau em que o corporativismo facilita as ne-       monopoliza a representao do trabalho, e os
gociaes entre capital e trabalho a respeito      sindicatos isolados so subunidades que depen-
da distribuio do produto social (Goldthorpe,     dem da unidade central para seus recursos fi-
1984). Nesses casos, os processos corporativis-    nanceiros. A paridade de representao  garan-
tas envolvem a colaborao de classes e por        tida pelo estado nas negociaes sobre controle
esse motivo muitos crticos marxistas (ver Pa-     de preos e planejamento econmico, e a ne-
nitch in Schmitter e Lehmbruch, 1979) aduzi-       gociao scio-econmica coletiva concentra-
ram que o corporativismo pode ser compreen-        se num organismo no-burocrtico altamente
dido como uma estratgia adotada por estados       informal, a Comisso de Paridade. Assim, o
capitalistas a fim de manter a subordinao da     exemplo austraco demonstra a efetiva institu-
classe operria. Existe, relacionado ao corpora-   cionalizao das precondies do macrocorpo-
tivismo como processo de deciso em poltica       rativismo: organizaes de interesses monopo-
macroeconmica, um trabalho recente de es-         listas e centralizadas, paridade na representao
tudiosos escandinavos que introduziu a idia da    de classes e processos informais de ajuste. To-
"economia negociada" como meio de descrever        das essas precondies surgiram no decorrer de
a tomada de decises em termos de poltica         um considervel perodo histrico e, se ne-
econmica, regulamentada por uma srie de ne-      nhuma delas  exclusiva da ustria, a combi-
gociaes entre instituies autnomas (Niel-      nao de todas certamente o  (Marin in Grant,
sen e Pedersen, 1988).                             1985).
                                                                                  corporativismo      143


    Exemplos menos estveis e bem-sucedidos           de informao ou a obedincia necessrios para
de instituies corporativistas podem ser en-         a implementao de polticas de estado. Es-
contrados em vrios pases. Durante cerca de          tudos empricos indicam que as associaes
duas dcadas depois da Segunda Guerra Mun-            comerciais e de empregados, os sindicatos e os
dial o Conselho Social e Econmico Holands           organismos das profisses liberais so os inter-
produziu com eficincia um consenso interclas-        locutores mais comuns. A forma que o corpora-
ses sobre poltica econmica, mas sua influn-        tivismo assume  a negociao, com alto grau
cia se reduziu a partir dos anos 60, quando as        de delegao de autoridade pblica a orga-
organizaes de interesses se tornaram mais           nismos nominalmente particulares. Como um
fragmentadas e o sistema formalizado de repre-        modo de poltica, o corporativismo pode ser
sentao funcional no conseguiu adaptar-se.          contrastado com as formas de regulamentao
Em outros casos, como o da ex-Alemanha Oci-           jurdico-burocrtica e de mercado, as quais im-
dental, instituies corporativas sofreram pres-      plicam uma forma nitidamente diversa de rela-
ses em conseqncia de crises econmicas,            cionamento entre estado e organizaes de in-
quando empregados e s vezes sindicatos isola-        teresses.
dos buscaram escapar aos procedimentos cen-               Alm do nvel macro, que envolve asso-
tralizados de negociao. Em geral, o ressurgi-       ciaes mais importantes em negociaes a
mento de estratgias econmicas neoliberais           respeito de polticas pblicas, o corporativismo
desde os anos 70 tendeu a minar as precon-            pode ser identificado em um nvel setorial ou
dies para o macrocorporativismo (Goldthor-
                                                      intermedirio no relacionamento entre organis-
pe, 1984).
                                                      mos e organizaes estatais que atingiram re-
    O uso moderno aponta, como definio con-         presentao monopolista de categorias particu-
cisa do conceito, o seguinte: o corporativismo
                                                      lares de interesse setorial. Mesmo em pases
 um processo scio-poltico especfico no qual
                                                      como os Estados Unidos e o Canad, que so
organizaes que representam interesses fun-
                                                      fracos em termos corporativos, usando-se in-
cionais monopolistas dedicam-se ao intercm-
bio poltico com agncias do estado a respeito        dicadores nacionais, em reas particulares de
dos rendimentos das polticas pblicas, o que         poltica, tais como a agricultura, podem-se en-
envolve essas organizaes em um papel que            contrar formas vigorosamente entrincheiradas
combina a representao de interesses com a           de mediao corporativa.
implementao de polticas atravs da capaci-             A teoria corporativista tem representado um
dade de realizar decises, delegada pelo estado.      forte desafio ao pluralismo como modelo de
    Trs aspectos-chaves do corporativismo dis-       poltica de grupos de interesses, mas,  medida
tinguem-no dos processos pluralistas da polti-       que os indcios empricos vo alimentando su-
ca de grupos de interesses. O primeiro  o papel      cessivos refinamentos da teoria, vai ficando
de monoplio desempenhado pelos organismos            claro que corporativismo e pluralismo no de-
corporativos; o segundo  a fuso do papel            veriam ser encarados como paradigmas alterna-
representativo com o de implementao; e o            tivos para o estudo de polticas de interesses, e
terceiro  a presena do estado tanto no licen-       sim como extremidades de um continuum de
ciamento da representao monopolista quanto          acordo com o nvel dos relacionamentos mo-
na co-determinao de polticas. Enquanto na          nopolistas e interdependentes entre organiza-
teoria pluralista os interesses so identificados     es de interesses e de estado que vieram a se
como anteriores  organizao e  mobilizao         estabelecer (Cawson, 1986).
poltica, na teoria corporativista o estado  iden-
tificado como agente crucial na formao de           Leitura sugerida: Cawson, A. 1986: Corporatism and
                                                      Political Theory  org. 1985: Organized Interest and
interesses e influenciando o resultado dos pro-
                                                      the State: Studies in Meso-Corporatism  Grant, W.,
cessos de grupo (Cawson, 1986).                       org. 1985: The Political Economy of Corporatism 
    As organizaes de interesse que tm maior        Malloy, I., org. 1977: Authoritarianism and Corpora-
probabilidade de alcanar o status de monop-         tism in Latin America  Schmitter, P.C. e Lehmbruch,
lio e participar de um intercmbio corporativo        G. orgs. 1979: Trends Toward Corporatist Intermedia-
com organismos do estado so as que repre-            tion  Williamson, P. 1989: Corporatism in Pers-
sentam os interesses de produtores, mais que as       pective.
dos consumidores, e que dominam os recursos                                               ALAN CAWSON
144   cotidiano


cotidiano Na tentativa, que herdamos do s-         ger e Thomas Luckmann, que examinaram todo
culo XIX, de subordinar tudo  razo e de           um mbito de importantes questes epistemo-
encontrar uma razo para tudo, parece que nos       lgicas a partir dessa perspectiva (ver FENOME-
esquecemos, conforme a bela expresso de Si-        NOLOGIA). Na verdade, o que podemos chamar
lesius, de que "a rosa no tem uma razo". Em       de vitalismo e essa "bom-sensologia" so coi-
termos epistemolgicos ao insistirmos no que       sas estreitamente relacionadas, e combin-las
"dito" nas relaes sociais, esquecemo-nos de       permite-nos enfatizar a qualidade intrnseca do
que elas tambm dependem do que "no  dito"        "aqui e agora", o valor de viver no presente, um
-- um espao vazio transbordando de possibi-        "presentismo" cujo pleno potencial ainda est
lidades. Explorar o cotidiano dessa maneira         por ser explorado.
pode levar-nos  prpria formulao de um               A existncia social jamais  unidimensional;
modo concreto de sociabilidade que tenha uma        ela , em muitos aspectos, monstruosa, frag-
coerncia prpria e no deve ser encarada sim-      mentada, e nunca se enquadra onde se pensa
plesmente como um reflexo de nossas idias.         que foi definida.  animada por um pluralismo
Trata-se aqui de um exemplo de bom senso            cuja exposio e exame devem ser a tarefa da
bsico (e que o intelecto discursivo acha difcil   sociologia do cotidiano. Alm das racionalizaes
reconhecer, em parte por se sentir relativizado     e legitimaes a que nos acostumamos, a exis-
por ela), que retorna com regularidade tanto na     tncia social  formada por sentimentos e emoes
vida cotidiana quanto no debate intelectual.        mal-definidos, pelos "momentos nebulosos" que
Seria possvel at dizer que, se existe um des-     no podemos ignorar e cujo impacto sobre nossas
contentamento geral com ideologias excessiva-       vidas cresce de maneira palpvel.
mente abrangentes e confusas, isso se deve a             preciso ter em mente que o que sustenta
estarmos testemunhando o surgimento de toda         todas as construes intelectuais , acima de
uma multiplicidade de novas ideologias viven-       tudo, o que damos como certo (conforme A.
ciadas dia aps dia e baseadas em valores fami-     Schtz destacou), o que  auto-evidente. Como
liares. Essa sensibilidade para a concretude da     exemplo, basta pensar nos ditados e provrbios
existncia pode, portanto, ser interpretada co-     populares, que mile Durkheim encarava como
mo a expresso de uma vitalidade saudvel e         "a expresso condensada de uma idia ou senti-
robusta. Esse vitalismo engendra um modo or-        mento coletivo" (Durkheim, 1893), ou na con-
gnico de pensar, com todas as caractersticas      versa do cotidiano, que s vezes contm uma
desse tipo de pensamento, ou seja, uma insis-       filosofia de vida mais elaborada e um senso mais
tncia na percepo intuitiva como meio de          elevado dos problemas que o futuro reserva do que
captar as coisas a partir de dentro, na compreen-   muitas discusses acadmicas. Esses so fenme-
so como noo totalmente abrangente, hols-        nos culturais quintessenciais, no sentido de serem
tica, dos diferentes elementos das situaes, e     aquilo sobre o que se constri a sociedade. Segue-
na experincia como algo que, vivenciado em         se da que a vida cotidiana  uma questo epis-
comum com outros,  considerado como cons-          temolgica que se encontra na linha de frente
tituindo o conhecimento emprico.                   do debate sociolgico.
    Alguns autores, ainda que muito poucos,         Leitura sugerida: Heller, A. 1970 (1984): Everyday
insistiram na primazia desse modo orgnico de       Life  Lefebvre, H. 1968: La vie quotidienne dans le
pensar: W. Dilthey,  claro, mas tambm os          monde moderne  Maffesoli, M. 1979: La conqute du
pensadores inspirados por Nietzsche, que do        prsent: pour une sociologie de la vie quotidienne 
prioridade ao cotidiano e seus aspectos tcteis,    1985: La connaissance ordinaire: prcis de sociologie
emocionais, coletivos e unificadores. Defense       comprhensive  1989: "The sociology of everyday
                                                    life". Current Sociology, 37.1  Moore, G.E. 1925
of common-sense (1925), de G.E. Moore, tam-         (1959): "A defense of common-sense". In Contempora-
bm enfatiza as verdades que se escondem na         ry British Philosophical Papers, org. por J.H. Mui-
vida cotidiana. Moore observou com elegncia        rhead.
que "a maioria dos filsofos (...) se coloca                                        MICHEL MAFFESOLI
contra o prprio senso comum de que eles
tambm participam em sua vida cotidiana".           crescimento econmico A experincia e a
Outros autores concentram-se igualmente em          perspectiva de crescimento econmico tm
tpicos mais  mo, por exemplo, socilogos,        moldado de forma profunda o discurso do s-
fenomenlogos como Alfred Schtz, Peter Ber-        culo XX. Seu efeito sobre a cultura e o racioc-
                                                                       crescimento econmico      145


nio foi bem diferente dos efeitos exercidos em      do mundo, sua identidade e seu direcionamento
outras pocas, embora j se houvesse anterior-      poltico tm sido moldados nos ltimos anos
mente experimentado perodos de extraordin-        por dvidas quanto a sua taxa de crescimento
rio crescimento. De 1820 a 1980 o produto total     (comparada particularmente com a do Japo), e
das 16 principais economias capitalistas de hoje    as disputas entre os partidos polticos nas de-
cresceu 60 vezes; sua produo per capita cres-     mocracias europias vm sendo determinadas
ceu 13 vezes. Um perodo notvel, de 1950 a         por comparaes de crescimento econmico
1973,  encarado como uma Idade de Ouro, uma        sob diferentes governos.
vez que a taxa de crescimento de sua produo,          As ambies polticas da Unio Sovitica
nesse anos, foi mais de duas vezes superior        foram, desde a poca de Lenin, definidas, em
das dcadas anteriores. No sculo XX o sistema      parte, com relao ao crescimento econmico.
socialista, dirigido pelo estado, da Unio Sovi-   Nos tempos modernos o papel do crescimento
tica tambm experimentou nveis elevados de         econmico na rivalidade entre superpotncias
crescimento de produo, tal como aconteceu         foi representado de forma mais ntida pela afir-
com alguns pases do Terceiro Mundo, espe-          mao de Krushev de que o crescimento sovi-
cialmente depois de 1960. No decorrer dessa         tico permitiria a seu pas vencer a Guerra Fria
experincia, as idias referentes ao crescimento    ao superar os nveis de renda dos Estados Uni-
econmico e aquelas por ele moldadas desem-         dos em duas dcadas (Halliday, 1983). Por ou-
penharam um papel-chave nas estruturas con-         tro lado, a crise poltica que acabou derrubando
ceituais modernas. Essas idias podem ser, de       o sistema sovitico nos anos 80  amplamente
forma no exaustiva, resumidas em cinco cate-       concebida como o resultado de uma reduo da
gorias -- o crescimento conceitualizado em          taxa de crescimento (mais que da pobreza ab-
relao a: poltica nacional; transformao so-     soluta).
cial; expanso da produo; desenvolvimento
do Terceiro Mundo; e seu custo ambiental, entre     O crescimento como transformao social
outros mais.                                            Existe, ligada ao realce poltico do cresci-
Poltica nacional                                   mento econmico, uma concepo desse cres-
                                                    cimento como mais do que uma categoria quan-
    O sistema europeu de poltica nacional,         titativa de aumento de produo. No sculo XX
construdo no sculo XIX, desenvolveu desde         cientistas e historiadores sociais estabeleceram
o incio uma dinmica expansionista. Esse ex-       o crescimento econmico como o principal ob-
pansionismo poltico derivava, em parte, da         jeto de investigao. A partir dessa perspectiva,
adoo do crescimento econmico como carac-         o crescimento econmico  concebido como
terstica da nacionalidade. Caracterizou-se pela    um processo de transformao social funda-
expanso externa na forma de imperialismo,          mental. Os pontos de vista modernos sobre
com suas rivalidades nacionais, e por ideais de     o crescimento como um processo contnuo
alargamento da produo domstica e da rique-       de transformao social foram iniciados efetiva-
za para fortalecer o estado-nao e justificar as   mente pelas anlises de Karl Marx da gnese e do
ambies da "grande potncia". A Alemanha de        progresso do capitalismo, e as idias derivadas de
Bismarck exibiu ambas as caractersticas de         sua obra deram forma aos debates sobre o cresci-
maneira extremamente clara, mas no foi a           mento tanto capitalista quanto socialista.
nica a faz-lo.
    As idias polticas ento germinando torna-     Crescimento capitalista A compreenso que o
ram-se, um sculo depois, uma caracterstica        sculo XX tem do crescimento, ou acumulao
universal da poltica oficial nos estados capita-   capitalista, a partir dessa perspectiva tem girado
listas e socialistas. No discurso das democracias   em torno de trs problemas centrais: a natureza
ocidentais, a principal medida da fora nacional    da transformao do feudalismo para o cresci-
 a taxa relativa de crescimento do pas. O nvel   mento capitalista, o papel das crises no cres-
absoluto de sua riqueza  tratado como sendo        cimento capitalista e as transformaes his-
de pouca relevncia em comparao com o             tricas do prprio sistema capitalista. As an-
dinamismo do crescimento da produo (ou a          lises marxistas da transformao histrica do
falta desse dinamismo). Embora os Estados           feudalismo para o capitalismo na Inglaterra ser-
Unidos sejam o mais importante e mais rico pas     viram de base para importantes anlises do
146   crescimento econmico


crescimento econmico moderno nas circuns-          seja uma recesso, esta ser seguida de uma
tncias especficas de duas sociedades capita-      grande expanso.
listas: o Japo e a Inglaterra. No Japo, os            A idia de que as crises so perodos de
debates desde os anos 20 concentram-se em           ajuste no processo de crescimento est ligada 
saber se o crescimento a partir da restaurao      viso de que o crescimento econmico sob o
Meiji, de 1868, foi capitalista, ou se a plena      capitalismo caracteriza-se por transformaes
transio do feudalismo ocorreu mais tarde,         deste -- fases distintas, em cada uma das quais
talvez mesmo to tarde quanto a reforma agrria     predomina uma diferente estrutura scio-eco-
imposta nos anos 40. Est em questo uma            nmica (por exemplo, um estgio de laissez-
compreenso do carter especfico do cresci-        faire, um estgio de capital monopolista e um
mento capitalista no Japo e, nesse aspecto, o      estgio de capitalismo monopolista de estado)
debate  semelhante ao iniciado por Anderson        (Fine e Harris, 1979; Mandel, 1975; Uno,
(1964), que buscava explicar o carter especfi-    1980). Kondratiev deu origem  ideia, adotada
co do crescimento britnico no decorrer dos         por Schumpeter, de que o crescimento econ-
ltimos sculos por meio do carter da transio    mico sob o capitalismo segue numa sucesso de
do feudalismo.                                      CICLOS DE LONGO PRAZO, cada uma das quais
    O crescimento econmico sob o capitalismo       pode ser encarada como uma "era" distinta. Em
tem-se caracterizado por crises regulares, que      seu desenvolvimento posterior, a teoria enfatiza
Marx afirmava poder explicar. A crise econ-        o papel das inovaes tecnolgicas no cresci-
mica identificada com os anos 30 penetrou nas       mento e o papel das crises em promov-las, e
conscincias como exemplar, uma crise que           ela ganhou um destaque renovado durante a
estimulou anlises divergentes quanto ao car-      instabilidade e a reduo do crescimento no
ter do crescimento capitalista. Um ponto de         Ocidente depois de 1973. Como teoria, reflete
vista muito difundido foi que isso era um in-       o ponto de vista geral e amplamente difundido
dcio de que o capitalismo havia exaurido seu       de que o crescimento  um reflexo do desenvol-
potencial de crescimento econmico e estava         vimento cientfico e tecnolgico, embora na
condenado  estagnao ou a um levante social       maioria das verses ela localize esses desenvol-
que instalaria o socialismo (Strachey, 1935).       vimentos em condies sociais definidas (Kon-
Outro ponto de vista que se tornou predomi-         dratiev, 1926, Kondratiev, 1935; van Duijin,
nante foi o keynesiano, o qual sustentava de que    1983).
as crises at ento endmicas ao capitalismo            A instabilidade do ltimo quartel do sculo
podiam ser eliminadas atravs de estruturas         XX tambm estimulou o desenvolvimento de
sociais e polticas transformadas (ver KEYNESIA-    uma nova perspectiva marxista sobre os es-
NISMO). Uma terceira interpretao, fornecida
                                                    tgios do crescimento capitalista. Dentro da
por Joseph Schumpeter, foi de que as crises so     estrutura geral dessa "escola de regulao", os
um "processo de destruio criativa", um pro-       autores concentraram-se na anlise da transfor-
cesso de transformao que, em vez de anunciar      mao do capitalismo no final do sculo XX,
a estagnao, seria a precondio para um cres-     de um regime de acumulao "fordista" para
cimento econmico renovado sob o capitalismo        "ps-fordista". A instabilidade marca uma crise
(Schumpeter, 1942). Essa linha de raciocnio        da acumulao fordista, e as bases para o reno-
tinha paralelos com a teoria de Marx sobre a        vado crescimento capitalista ps-fordista sero
relao entre crescimento e crise, pois a desva-    encontradas nas mudanas na diviso inter-
                                                    nacional do trabalho e no prprio processo de
lorizao do capital que ela acarretava pode
                                                    trabalho capitalista (Aglietta, 1979; Lipietz,
estabelecer as condies para uma acumulao
                                                    1987).
renovada, no obstante a viso de Marx de que
a acumulao capitalista tem seus limites defi-     Crescimento socialista A idia de que o cresci-
nitivos. No h dvida de que a viso marxista      mento  um processo de transformao social
e schumpeteriana de que as crises globais so       recebeu seu maior destaque no fecundo debate
ajustes em geral funcionais para o crescimento      sobre o planejamento do crescimento na socie-
econmico capitalista encontra apoio na expe-       dade socialista da Unio Sovitica. Trata-se do
rincia. Ela hoje est embutida no ponto de vista   grande debate sobre a INDUSTRIALIZAO dos
predominante de que, por mais profunda que          anos 20. A transformao social considerada
                                                                     crescimento econmico     147


necessria deveria ser a industrializao, a       gir uma taxa de crescimento na qual o aumento
construo de um setor industrial dinmico, de     da demanda por produo se equipare  expan-
propriedade do estado e regulamentado por um       so da propriedade produtiva. A questo gira
planejamento central. No obstante, promove-       em torno do equilbrio entre poupana agrega-
ram-se caminhos diferentes para a industriali-     da e investimento agregado numa economia
zao, que correspondiam a diferenas no car-     em crescimento, e da diferena entre a taxa de
ter da mudana social. Sob foco especial encon-    crescimento garantida por esse equilbrio e a
trava-se a questo do ritmo e do carter da        taxa de crescimento da capacidade produtiva.
transformao rural, das relaes entre o estado   O modelo criou pessimismo quanto  possibili-
e outros setores e, indiretamente, das medidas     dade de o crescimento do emprego pleno e
polticas adequadas  industrializao.            estvel ser atingido automaticamente, e funcio-
    Os argumentos principais de N. Bukharin e      nou como estmulo  adoo de idias keyne-
E. Preobrajensky divergiam quanto ao ritmo da      sianas quanto  necessidade de interveno do
industrializao e ao grau de desequilbrio no     estado para promover investimentos.
desenvolvimento da agricultura, da indstria           O modelo de Harrod-Domar baseava-se em
leve e da indstria pesada. Em termos do equi-     pressupostos simplificadores especiais: que
lbrio da produo, as discusses diziam res-      poupana era uma proporo constante da ren-
peito  alocao de recursos para a produo de    da e que o coeficiente do capital para o produto
bens de consumo e de bens de capital, res-         era tambm constante. A substituio desses
pectivamente. Tambm divergiam quanto aos          dois axiomas por pressupostos alternativos le-
mecanismos atravs dos quais o setor estatal       vou a duas escolas diretamente opostas: a neo-
devia relacionar-se com os outros setores e        clssica e a de Cambridge.
quanto  medida que os recursos deveriam ser
forosamente transferidos de outros setores pa-        Os modelos neoclssicos, segundo as expo-
ra financiar a industrializao estatal (Bukha-    sies simplificadas de Solow e Swan (Solow,
rin, 1982; Preobrajensky, 1926). Esse debate       1956; Swan, 1956), demonstraram que, mudan-
exerceu imensa influncia sobre o pensamento       do-se a premissa de uma taxa fixa entre capital
do sculo XX, em parte devido a sua importn-      e produo -- atravs da postulao de que,
cia para se compreender a gnese do stalinismo,    com um dado nvel de tecnologia, a economia
mas tambm porque influenciou a concepo          pode avanar fluentemente no sentido de tcni-
de crescimento econmico implementada na           cas de produo mais intensivas em capital ou
China e em outras economias de planejamento        mais intensivas em trabalho -- e presumindo-se
central nos anos 50. (Ver tambm PLANEJAMEN-       que poupar  igual a investir, a economia ca-
TO ECONMICO NACIONAL.)                            pitalista estar num caminho de crescimento
                                                   com equilbrio estvel. A no ser que ocorram
O crescimento como expanso da produo            mudanas tecnolgicas, a produo crescer na
    Os autores que escreveram sobre o cresci-      mesma medida da fora de trabalho. Esse mo-
mento econmico como processo de transfor-         delo neoclssico bsico foi expandido em in-
mao social no fizeram parte da corrente         meras direes para dar conta dos problemas
predominante na teoria econmica ocidental.        que as suas simplificaes deixam sem respos-
Desde os ensaios originais de Roy Harrod           ta. Um deles  o de como a inovao tcnica
(1939) e Evsey Domar (1946), uma profuso de       pode ser introduzida no modelo: que tipos de
artigos sobre a teoria econmica pura do cres-     progresso tcnico so compatveis com o cami-
cimento se ocupou de inmeras questes rela-       nho do crescimento equilibrado e como ocorre
cionadas com o problema de saber se um cres-       a mudana (aprendizado) tcnica? Outra sim-
cimento econmico estvel  possvel. Os mo-       plificao no modelo de Solow-Swan, a de ser
delos usados afastam-se das estruturas sociais,    um modelo unissetorial que no distingue entre
concebendo os agentes econmicos como in-          o setor que produz bens de consumo e o que
divduos indiferenciados e tratando o cresci-      produz bens de capital, foi respondida com o
mento simplesmente como uma expanso da            desenvolvimento de modelos de crescimento
produo de bens. O modelo de Harrod-Domar         bissetoriais, segundo especialmente a contri-
 mais conhecido devido a sua preocupao em       buio de Uzawa (1961). (Ver tambm ECONO-
saber se as economias capitalistas podem atin-     MIA NEOCLSSICA.)
148   crescimento econmico


    Os autores da escola de Cambridge subs-         da distribuio do excedente econmico. (Ver
tituem a suposio de Harrod-Domar de uma           tambm DESENVOLVIMENTO E SUBDESENVOLVI-
proporo fixa de poupana pela que afirma que      MENTO; DEPRESSO ECONMICA).
as mudanas na distribuio da renda total entre
salrios e lucros causam mudanas na taxa de        Custos do crescimento
poupana da sociedade, uma vez que capitalis-           O conceito de crescimento econmico pre-
tas e trabalhadores tm diferentes taxas de pou-    dominante no sculo XX  benvolo, mas uma
pana (Kaldor, 1955-56; Pasinetti, 1961-62).        subcorrente de pensamento articulou o lado
Em conseqncia, a taxa de crescimento eco-         negativo do crescimento e estimulou um senti-
nmico est diretamente ligada ao equilbrio        mento anticrescimento (ou pelo menos um sen-
entre salrios e lucros, e o modelo, com isso,      timento favorvel a um crescimento mais mo-
responde a um dos problemas-chaves do cres-         desto e menos intensivo em capital), com apelo
cimento nas economias de hoje. A anlise que        popular considervel. Uma corrente  a que
esse modelo faz da distribuio de renda            sustenta o argumento de que o crescimento da
contrasta fortemente com a do modelo neocls-       produo material implica custos sociais de
sico, e o debate sobre essa diferena acarretou     grande monta que no oneram totalmente o
uma crtica substancial a respeito de base lgica   produtor ou o consumidor isolados. Em um
do conceito de capital social agregado utilizado    argumento essencialmente conservador contra
em modelos unissetoriais como o de Solow            o crescimento, Mishan (1967) demonstrou o
(Robinson, 1956).                                   poder que tm deseconomias externas, como o
                                                    congestionamento, de minar a afirmao de que
Desenvolvimento no Terceiro Mundo                   o crescimento da produo incrementa o bem-
    O problema de se alcanar altas taxas de        estar. Uma segunda corrente manifesta-se no
crescimento econmico no Terceiro Mundo a           ponto de vista de que o crescimento econmico
fim de superar a pobreza absoluta e transpor o      implica um insustentvel esgotamento dos re-
abismo entre esses pases e os pases indus-        cursos da terra que, alm de produzir custos
trializados est firmemente enraizado no dis-       externos (tais como os efeitos que o desmata-
curso do final do sculo XX. Os conceitos           mento exerce sobre as chuvas e a eroso do
criados para analisar o crescimento em econo-       solo), produzir rapidamente um limite insupe-
mias capitalistas ou de planejamento central        rvel ao crescimento, na medida em que esses
no abordam diretamente o problema de se            recursos se forem exaurindo (Meadows, 1972).
atingir elevadas taxas de crescimento em eco-           No entanto os proponentes do ponto de vista
nomias do Terceiro Mundo que tm uma abor-          de que os mercados so capazes de fornecer a
dagem de "economia mista" para a poltica e         fonte do crescimento, que se tornou hegemni-
uma base econmica com diferentes condies         co no ltimo quartel do sculo XX, contrapuse-
tecnolgicas e sociais em diferentes setores. A     ram a essas vises anticrescimento o argumento
exceo  o modelo de Harrod-Domar, que             de que os ajustes de preos (ou as polticas para
forneceu a base para planos de desenvolvimen-       fazer com que os sinais do mercado funcionem
to nacional (em grande parte no-realizados) de     melhor) podem garantir um caminho de cresci-
recentes naes independentes no rastro da on-      mento que leva em conta eses custos de maneira
da de descolonizao de meados do sculo, e         tima (Pearce e Turner, 1990).
com base no qual se desenvolveram tcnicas              Um custo mais incontrolvel e inaceitvel
para estimar as necessidades de ajuda externa.      do crescimento econmico pode ser o dos direi-
Inmeros modelos de "economia de desenvol-          tos humanos. Em sua forma mais aguda, o
vimento" foram formulados para abordar o pro-       debate a respeito de que o crescimento econ-
blema do crescimento nas circunstncias es-         mico "exigia" uma supresso profunda dos di-
peciais do Terceiro Mundo. A inovao terica       reitos humanos em certos estgios concentrou-
mais influente foi o modelo de trabalho exce-       se nesta pergunta: "Stalin era necessrio?"
dente de W. Arthur Lewis (1954). Lewis descre-      (Nove, 1964). De forma mais geral, a supresso
veu uma economia dual simples caracterizada         de direitos humanos em regimes de crescimento
por um setor tradicional e moderno e, numa          com orientao tanto capitalista quanto socia-
tradio clssica, derivada de Ricardo, demons-     lista tem servido de base a movimentos sociais
trou o carter crucial, para o desenvolvimento,     que rejeitam o crescimento econmico.
                                                                           crime e transgresso   149

Leitura sugerida: Maddison, A 1982: Phases of Capi-   poderia tornar-se elstico e metafrico, um erro
talist Development  Polanyi, K. 1944: The Great       cujo significado seria independente do que ad-
Transformation  Schumpeter, J.A. 1942 (1987): Capi-
talism, Socialism and Democracy  Sen, A. 1970:
                                                      vogados, leis e estado pudessem dizer, no mui-
Growth Economics.                                     to diferente, na sua utilizao, da condenao
                                LAURENCE HARRIS
                                                      pretendida nas frases intercambiveis " uma
                                                      lstima", " um pecado" e " um crime". A
crime e transgresso A definio conven-              prpria criminologia seria transformada para
cional mais sucinta de crime o descreveria de         estudar problemas estabelecidos por uma viso
maneira um tanto tautolgica como uma infra-          radical do mundo. Schwendinger e Schwen-
o do direito penal (ver LEI). Definies mais       dinger (1975), por exemplo, deploraram a apro-
generosas provavelmente acrescentariam que a          priao da palavra "crime" por estados capita-
infrao  considerada lesiva ao bem pblico e        listas e decidiram exercer sua independncia
punvel pelo estado. Alguns, como o crimino-          preferindo descrever como crimes problemas
logista Paul Tappan, ainda acrescentariam uma         como racismo, imperialismo e sexismo. O pr-
referncia  mente culposa, mas a inteno, em        prio ttulo de "crime", afirmaram, faz parte de
direito, no  um requisito. William Blackstone,      um sistema hegemnico, totalmente voltado
em 1778, criou uma definio clssica de crime:       para uma poltica de denominao e conde-
"delitos pblicos ou crimes e contravenes so       nao que deveria ser objeto de resistncia.
uma infrao e violao dos direitos e deveres            O corpo mais amplo dos criminologistas e
pblicos devidos a toda a comunidade, em sua          pensadores sociais ocupados com o crime no
condio social coletiva (...) traio, assassinato   se deixou abalar por Sellin nem pelos Schwen-
e roubo so corretamente classificados entre os       dinger. Eles preferiram evitar o questionamento
crimes, uma vez que, alm do mal feito ao             de processos jurdicos e legislativos ou aceitar
indivduo, atingem a prpria substncia da so-        o que esses processos engendram como fatos
ciedade".                                             sociais slidos e indiscutveis. Mantiveram cer-
     A definio convencional no  universal-        ta verso da definio convencional. Mas  uma
mente aceita. Por exemplo, um pequeno nme-           definio que se defronta com dificuldades, a
ro de criminologistas de orientao positivista       no ser que o crime seja tratado como um
certa vez declarou que confiar a determinao         atributo especial de apenas um nmero muito
do que  crime a advogados e legisladores             limitado de sociedades ocidentais contempor-
produz um sistema de classificao que  cul-         neas.
turalmente relativo, difcil de generalizar e             H o problema posto pela exigncia de que
cientificamente impraticvel. (Ver CRIMINOLO-         o crime seja encarado como transgresso da lei
GIA.) Em vez de "crime", Sellin (1938) props         punvel pelo estado. O estado no existe em
"norma de conduta" como expresso mais rigo-          toda parte e, com toda a certeza, nem sempre
rosa e frutfera. "Normas de conduta" so coisas      sob uma forma familiar aos criminologistas e
coerentes e consistentes, da natureza do crime,       advogados criminalistas ocidentais. No passa-
que podem ser estudadas pela criminologia.            do o estado podia ser apenas uma entre vrias
No obstante, isso no foi muito bem acolhido         potncias inter-relacionadas, armadas com for-
pela disciplina.                                      a legtima e com capacidade de penalizar.
     Mais uma vez, um pequeno grupo de crimi-         Sharpe (1988), historiador social, destacou as
nologistas radicais atribuiu particular importn-     dificuldades concentuais estabelecidas pelos
cia  poltica envolvida na identificao de          muitos delitos julgados em tribunais eclesis-
crime e criminosos. Em 1976 Chambliss e Man-          ticos e de herdades locais antes do sculo XIX.
koff declararam simplesmente que "certos atos         Antroplogos sociais tm chamado a ateno
so definidos como criminosos porque  do             para as muitas sociedades pr-alfabetizadas que
interesse da classe dominante assim defini-los        possuem dispositivos capazes de cumprir a
(...)". Achavam que as implicaes polticas,         maior parte das atribuies de um sistema de
sociais e morais da palavra "crime" eram to          justia penal, mas aos quais faltam algumas de
profundas que membros desse grupo se mos-             suas estruturas formais. Assim, Llewellyn e
travam relutantes em admitir que sua definio        Hoebel (1941) descreveram o trabalho policial
permanecesse sob o controle de um estado ou           entre os cheyennes e Gluckman (1965) escre-
classe com que discordavam. O "crime", ento,         veu a respeito do sistema de jurisprudncia de
150   crime e transgresso


um povo banto da Rodsia, os Barotse. Mali-         crime. Existem "crimes" que no se amoldam
nowski ficou muito satisfeito por intitular um      a nenhuma noo convencional do que seja
de seus estudos sobre a Melansia de Crime e        criminoso. Existem atos, particularmente no
costume na sociedade selvagem (1932). Algo          campo dos delitos contra o bem-estar pblico
muito prximo do crime pode existir em comu-        que causam mal social, mas no so criminali-
nidades que no possuem leis escritas ou um         zados. Em 1980 uma comisso de justia, a
estado formal. De fato, Reckless props em          seo britnica da Comisso Internacional de
1940 uma definio de crime conciliadora: "nas      Juristas, relatou em Breaking the Rules no ter
chamadas sociedades primitivas, ou pr-alfabe-      sido capaz de descobrir quantos crimes dife-
tizadas, que no possuem um cdigo escrito ou       rentes esto previstos no direito ingls, nem o
legislado de direito penal, um crime  uma          que transformava certos delitos em crimes em
violao dos preciosos hbitos e costumes".         vez de "meras" contravenes. Existem hoje
Essa definio introduz uma qualificao extre-     muitos atos criminosos que antes no o eram.
mamente importante.                                 Clarke afirmou, em Fallen Idols (1981), que o
    H um segundo problema. Existem estados         aumento das fraudes financeiras e comerciais
estruturalmente elaborados sem um direito pe-       deve-se, em grande parte,  pura expanso da
nal organizado, previsvel e preciso. O Antigo      regulamentao, e Tench defendeu a idia, em
Egito no possua leis escritas, pois uma legis-    Towards a Middle System of Law (1981), de
lao iria privar o fara da liberdade absoluta     que "hoje em dia praticamente tudo pode ser
de declarar sua vontade. Em um exemplo no          crime".
muito diverso, as sociedades totalitrias conser-       Seria possvel acrescentar que praticamente
vam os crimes por analogia. O crime deixa de        todo mundo pode ser criminoso. De acordo com
ser unicamente uma transgresso especfica de       o Home Office Statical Bulletin 7/85 (Boletim
um cdigo, podendo ocasionalmente ser um            Estatstico do Ministrio do Interior), ao chega-
comportamento julgado razoavelmente seme-           rem aos 28 anos, cerca de 30% dos homens da
lhante  dita transgresso. O artigo 79 do Cdi-    Inglaterra e Pas de Gales tero tido de compa-
go Penal da Repblica Popular da China, por
                                                    recer diante de algum tribunal, e 40% o tero
exemplo, diz: "um crime no especificamente
                                                    feito at o final de suas vidas.
previsto sob as provises especiais da presente
lei pode ser ratificado como crime e a sentena         Uma conseqncia da proliferao de leis,
pronunciada  luz do artigo mais anlogo sob        crimes e criminosos  que os significados de
as provises especiais da presente lei". A Ale-     crime parecem ter-se bifurcado na vida cotidia-
manha nazista e a Rssia sovitica dispunham        na. Por um lado, existem muitas transgresses
de estipulaes semelhantes. O crime torna-se       do cdigo penal cujo significado se tornou um
aquilo que as autoridades governantes quiserem      tanto diludo: so, por assim dizer, "meros cri-
que o seja, a qualquer momento. Em casos            mes". A criminalidade incorporou-se a reas da
assim, o atrativo de uma outra verso da defini-    sociedade: "comer de baixo do pano" e "levar
o mnima fica evidente. Clinard (1963), por       vantagem" so rotina e, na verdade, feitos admi-
exemplo, representou o crime meramente como         rados em grande parte do East End e do Sul de
"qualquer ato punvel pelo estado".                 Londres. Negociar artigos roubados e prati-
    A identificao de crime pode ser facilitada    car suborno so coisas normais e esperadas. O
em estados como o Canad, onde existe um            crime pode, na verdade, constituir um apoio
cdigo penal sob o escrutnio peridico de ju-      estvel em muitas sociedades organizadas.
ristas, buscando consistncia e racionalidade.          Por outro lado, existe um segundo significa-
Muitos estados no dispem de um cdigo as-         do de "crime" que ainda incorpora sentimentos
sim, e neles os crimes no constituem uma           de ultraje com relao ao dano causado a uma
classe simples e caracterstica de eventos. Des-    comunidade, e este s vezes  diferenciado da
sa forma, o sistema jurdico da Inglatera e Pas    verso diluda atravs da denominao de
de Gales contm tamanha abundncia de leis,         "crime real". "Crime real" tornou-se uma es-
com respeito a tantas reas da vida poltica,       pcie de metonmia, desligada de sua definio
social e econmica, que se tornou difcil dis-      rigorosa na lei e muito dependente da moral
cernir um simples princpio coerente, subja-        habitual. Tende, tipicamente, a ser encarado
cente  definio ou aplicao das idias de        como inaceitvel, ao de pessoa  margem da
                                                                           crime e transgresso   151


sociedade, ou que o prprio cidado s compete        vtima alm de uma representao do estado ou
em momentos de perda momentnea da razo.             comunidade abstrata ou afrontado.
    Esses dois significados so continuamente             Evidentemente, seria possvel tambm afir-
jogados um contra o outro, demarcando os li-          mar que a idade de ouro pode no ter sido
mites do tolervel e do permissvel em qualquer       absolutamente dourada para a vtima solitria,
situao. De fato, o carter e as relaes precisas   impopular ou fraca em confronto com um
desses significados so de grande importncia         agressor poderoso. Existem alguns conflitos
poltica e moral. Eles colocam questes a res-        que a vtima podia muito bem ter querido aban-
peito da legitimidade de legisladores, da legis-      donar e, como Georg Simmel certa vez obser-
lao, da polcia, das leis, de agressores e de       vou, terceiros podem fazer muito para liquidar
vtimas. Foi por esse motivo, em parte, que os        uma disputa que, de outra forma, poderia conti-
criminologistas radicais tentaram, sem sucesso,       nuar interminavelmente.
obter o controle da sua utilizao.                       "Transgresso" traduz o ingls deviance,
    O que fica bastante claro  que crime e PODER     neologismo introduzido no pensamento social
so inseparveis. W. Tallack, S. Schafer, N.          no incio dos anos 60, principalmente como
Christie e outros optaram por atribuir importn-      reao s idias estimuladas pela publicao de
cia especial  associao histrica entre a idia     Outsiders, de Howard Becker, em 1963.  uma
de crime e o surgimento de uma organizao            das mais recentes de toda uma srie de expres-
central capaz de fazer e executar a lei. Eles         ses criadas pelos que queriam ir alm do es-
destacam o modo com que o estado organiza os          tudo do crime para abranger uma rea mais
papis e relaes das vtimas, dos agressores e       ampla de problemas que no so nitidamente
                                                      regulamentados pelo sistema de justia penal.
da sociedade. O prprio surgimento do crime 
                                                      As primeiras a chegar foram "desorganizao
tratado como equivalente  apropriao de con-
                                                      social", "problemas sociais" e "patologia so-
flitos pessoais por um governo usurpador. Afir-
                                                      cial", mas foram postas de lado ou porque eram
mam que, no que foi chamado de "Idade de
                                                      consideradas no exatamente capazes de captar
Ouro da vtima", antes da presena de um es-          o carter especial dessa rea mais ampla, ou
tado criminalizante, as pessoas desfrutavam de        porque j no soavam de acordo com discurso
algum controle sobre suas prprias desavenas.        intelectual em voga na poca. "Deviance" foi
O conflito era pessoal: resultava em vtimas          uma palavra adotada, em parte, porque se achou
e agressores reconhecveis, cujas disputas po-        que ela permitia uma til ampliao de foco:
diam ser mediadas e cujas perdas podiam ser           fenmenos novos, interessantes e at ento ig-
compensadas.  medida que o poder de intervir         norados podiam ser trazidos  luz com fins de
nas disputas se foi concentrando em um nmero         explorao e comparao. O direito e o sistema
de mos cada vez menor,  medida que vtimas,         de justia penal podiam eles prprios ser ins-
agressores e conflitos comearam a se separar         pecionados a partir de fora e com novos olhos.
uns dos outros e o estado comeou a adquirir              Acima de tudo, a mudana de palavra signi-
uma identidade jurdica distinta, as vtimas pes-     ficou uma transio intelectual. O uso da pala-
soais, bem como seus parentes e amigos, come-         vra "deviance" simbolizava o afastamento de
aram a perder relevncia. Perderam "proprie-         uma preocupao com o crime e a criminologia,
dade" em seus conflitos: a idia de vtima tor-       que alguns consideravam intelectualmente pa-
nou-se cada vez mais metafsica, j no exigin-       ralisante. Nos Estados Unidos, essa transio
do um ferimento visvel ou uma pessoa tang-          esteve ligada ao surgimento da Sociedade para
vel. Havia, em vez disso, uma entidade abstrata,      o Estudo dos Problemas Sociais. Na Gr-Breta-
o bem pblico ou a sociedade, naquilo que             nha, um pouco depois, esteve ligada ao York
Blackstone chamou de sua condio social co-          Deviancy Symposium. Difundiu-se em Social
letiva, que exigia proteo: o que se rompia no      Pathology, de Lem ert , em Outsiders, de
era a paz particular de um indivduo, mas a Paz       Becker, e em Images of Deviance, de Cohen. A
do Reino. Surgiu at a possibilidade do que           palavra "deviance"  no apenas denotativa,
Edwin Schur descreveu como "crimes sem v-            mas conotativa. Marca a adoo tanto de um
timas", crimes envolvendo drogas, prostitui-          mtodo distinto quanto de um tema especial,
o, jogo, homossexualismo, aborto e outras           sendo usada caracteristicamente pelos ento
prticas, que no produziam nenhuma outra             "novos" interacionistas simblicos e socilo-
152   crime e transgresso


gos fenomenolgicos, interessados nos signifi-        petitiva da imputao moral. E. Erikson, Daniel
cados que as pessoas atribuem ao seu compor-          Bell (1961) e Robert Merton (1949) retrataram
tamento, na qualidade interativa e dialtica da       a transgresso como a face obscura da socie-
vida social e nos detalhes de cenas pequenas,         dade, que d apoio involuntrio  ordem social:
fechadas e observadas. Em nossa lngua, a pa-         a prostituio escorando o casamento, a bas-
lavra "desvio" est muito ligada a questes de        tardia garantindo a primogenitura e o mal pro-
comportamento sexual, sendo por isso prefer-         duzindo o bem. Essa idia  antiga e interes-
vel a traduo "transgresso". A "abordagem da        sante, mas efetivamente se apia numa teleolo-
transgresso" tem sido com freqncia amplia-         gia incmoda e na chamada mo invisvel, e
da e aplicada a problemas no-convencionais           demonstrar isso no  fcil.
porque os pensadores sociais a consideram es-             A transgresso  descrita, talvez de forma
clarecedora, e no porque os eventos ou pessoas       mais comum e livre, como uma violao das
estudados fossem em si mesmos indubitavel-            regras, normas ou expectativas sociais, passvel
mente transgressores. E. Freidson, por exem-          de punio. Tende a haver pouca hesitao em
plo, empregou-a em estudos de medicina e              definir e reconhecer suas formas essenciais
sade.                                                mais exuberantes. Alm disso, Newman (1976)
    "Transgresso" inclui crime (e  mais geral-      demonstrou que parece haver um amplo acordo
mente o crime que os sociolgos da transgres-         dentro e atravs das sociedades a respeito das
so efetivamente estudam), mas evidentemente          principais regras de conduta. Mas existe em
foi escolhida com a inteno de se ampliar a          "transgresso" uma inteno, tambm impor-
qualquer outro afastamento, passvel de sano,       tante, de abranger as violaes menos espeta-
do caminho convencional. Tem sido aplicada            culares, que parecem fundir-se de forma amb-
de forma extremamente liberal a um grande             gua com as atividades  sua volta.  a prpria
mbito de pessoas e atividades. Gagos, gigan-         marginalidade de muitas transgresses que se
tes, anes, prostitutas, doentes, ladres, estelio-   admite ter ampliado e melhorado o alcance
natrios, imbecilizados, homossexuais e vicia-        intelectual da sociologia. E marginalidade e
dos em drogas tm sido analisados como trans-         ambigidade so marcantes. Numa sociedade
gressores. Aqueles como A. Liazos, que depre-         heterognea, existe tamanha disperso de re-
ciam imensamente as deficincias de um grupo          gras contraditrias que os tipos mais insignifi-
to mal sortido, referiram-se aos transgressores      cantes de transgresso so eles prprios corres-
como "birutas, marafonas e pervertidos".              pondentemente diversos e polticos. So locali-
    Transgresso provavelmente no , como            zados e limitados no tempo, ligados a pessoas,
"deviance", uma palavra muito boa. No chega          lugares e ocasies. Nem sempre pode ser pos-
a ser um termo jurdico ou clnico. Nem              svel para os de dentro, ou os observadores,
empregada comumente na vida cotidiana.               determinar que regras predominam num cen-
uma palavra peculiarmente sociolgica e seu           rio particular, quo coerentes ou sistemticas
significado reflete as preocupaes cambiantes        elas so, como devem ser comparadas com
dos que a usam, no havendo um acordo muito           outras regras, se devem ser aplicadas, por quem,
grande quanto  sua definio exata. Alguns a         em relao a quem e em que medida. Deviance
descreveram como atividade estatisticamente           in Classrooms, de Hargreaves,  um ensaio
infreqente, mas  bvio que existe um com-           longo e revelador sobre o emaranhado de pro-
portamento freqente que poderia, ao contrrio,       blemas de obedincia e aplicao das regras em
ser encarado de forma profcua como transgres-        um local, as escolas: cada regra tem regras
so: violaes do trfego e mentiras so dois         secundrias e tercirias regulando sua aplica-
exemplos. Talcott Parsons encarou a transgres-        o, cada regra pode ser revogada em certas
so como uma quebra, ou articulao incomple-         situaes e alunos e professores so obrigados
ta, de relaes entre pessoas e instituies em       a realizar julgamentos sofisticados na gesto de
transformao, embora essa descrio no in-          seus problemas cotidianos. Os prprios trans-
clua a transgressso estvel que parece estar         gressores geralmente tm um interesse con-
embutida em boa parte da vida social. Lofland         sidervel em promover confuso, em falsear e
(1969), Duster (1970) e outros compreendem a          esconder o que fazem, em passar por normais e
transgresso como a posio desacreditada ou          em confundir o observador. Nas palavras de
desvalorizada dos perdedores na poltica com-         Matza, os transgressores geralmente se tornam
                                                                                           criminologia   153


trapaceiros. Os fenmenos das regras e de sua                 logia). O uso popular da palavra por romancis-
violao so de tal modo desnorteantes que                    tas e jornalistas para designar a descoberta e o
Matza (1969) e Douglas e Scott (1972) repre-                  estudo de provas que podem inculpar ou ino-
sentaram a contradio e o absurdo como cons-                 centar suspeitos (cincia forense ou criminals-
titutivos do prprio carter da transgresso. A               tica)  um solecismo.
transgresso tem o poder de estimular um senso                    O estudo dos criminosos e seu comporta-
facilmente identificvel de confuso e embarao.              mento  hoje em dia campo dos psiclogos e
    Uma vez que a transgresso ocorre em abun-                socilogos. No passado, psiquiatras como Ce-
dncia, que causa confuso e que grande parte                 sare Lombroso e Henry Maudsley, e psicanalis-
dela  bastante insignificante, "mera" violao               tas como Edward Glover, escreveram a respeito
de regras -- o que Lemert chamou de "trans-                   de comportamento anti-social como se este fos-
gresses primrias", que no acarretam qual-                  se sempre, ou em geral, atribuvel a anormali-
quer reavaliao do prprio eu ou de sua aes                dades da personalidade, constitutivas ou adqui-
--, a ateno intelectual foi desviada para as                ridas. Hoje em dia o psiquiatra sensato limita
reaes sociais provocadas pela transgresso.                 suas generalizaes a infratores que sofrem de
No existe um foro conceitual para o estudo das               distrbios com sintomas inequvocos. Estes so
transgresses primrias: Becker (1963) o fez no               uma minoria, ainda que se incluam os "distr-
caso dos fumantes de maconha. Mas so essas                   bios anti-sociais da personalidade".
reaes, e as reaes s reaes, que conferem
maior ordem, conseqncia, interesse e visibi-                Histria natural
lidade. A significao de atos e agentes pode ser                 As primeiras tentativas de explicar a infra-
transformada, sendo s vezes associada a outros               o da lei sofreram da ignorncia de sua "his-
significados putativos, avaliada e classificada.              tria natural" -- dos fatos sobre a vida crimi-
A transgresso deixa de ser particular e se torna             nosa. Alguns observadores do sculo XIX, em
um fenmeno social mais prontamente suscet-                  especial Henry Mathew (1851-62), descreve-
vel  anlise. Esse processo de reorganizao                 ram com realismo a violncia e as aes de-
simblica foi chamado por Lemert de "trans-                   sonestas dos pobres urbanos, mas o comporta-
gresses secundrias". Faz parte do trabalho de               mento social dos mais bem postos na vida foi
ROTULAO, que convidou os socilogos a vol-                  deixado aos romancistas e aos reprteres da
tar o olhar para instituies e prticas de con-              corte. Foi s j bem avanado o sculo XX que
trole social que eram anteriormente despreza-                 criminlogos, em especial Sutherland (1973),
das. Em conseqncia, amplas parcelas da so-                  conseguiram descries mais detalhadas do es-
ciologia da transgresso foram chamadas, com                  tilo de vida dos criminosos, e que os editores
certa infelicidade, de "teoria da rotulao".                 descobriram um mercado na classe mdia para
                                                              as memrias de criminosos bem alfabetizados
Leitura sugerida: B ecker, H. 1963: Outsiders 
Chambliss, W. e Mankoff, M. 1976: Whose Law? What             e articulados (para um exemplo moderno, ver
Order?  Cohen, S., org. 1971: Images of Deviance              Curtis, 1973). Essas narrativas no deixavam de
Downes, D. e Rock, P. 1988: Understanding Deviance            ser tendenciosas, mas trouxeram um pouco de
 Justice 1980: Breaking the Rules  Lemert, E. 1951:           vida autntica para estatsticas que registravam
Social Pathology  Schwendinger, H. e Schwendinger,            pouco mais do que idades, condenaes ante-
J. 1975: "Defenders of order or guardians of human            riores e, s vezes, empregos oficiais.
rights". In Critical Criminology, org. por I. Taylor et al.
 Sellin, T. 1938: Culture, Conflict and Crime  Sharpe,
J. 1988: "The history of crime in England". In A History
                                                              Explicao
of British Criminology, org. por P. Rock  Sutherland,             A abordagem mencionada resultou em uma
E. e Cressey, D. 1974: Principles of Criminology.             explicao mais sofisticada. A ubiqidade e a
                                             PAUL ROCK        diversidade da infrao da lei comearam a ser
                                                              mais bem avaliadas. Uns poucos socilogos e
criminologia Este  um nome genrico para                     psicanalistas agarraram-se a "teorias gerais"
um grupo de temas estreitamente ligados: o                    que pretendiam explicar todo tipo de crime, ou
estudo e a explicao da infrao da lei; os                  a maioria, e at mesmo tambm a transgresso
meios formais e informais que a sociedade usa                 (ver tambm CRIME E TRANSGRESSO). Os his-
para lidar com a infrao (penalstica); e a na-              toriadores naturais, por sua vez, entenderam
tureza e necessidades de suas vtimas (vitimo-                que isso no era mais sensato do que oferecer
154   criminologia


uma nica explicao para a "doena". Mesmo             Alguns criminologistas preferem a aborda-
tipos bastante especficos de infrao, como o      gem "situacional". A principal determinante 
furto em lojas ou o infanticdio, so cometidos     encarada como sendo situaes que oferecem
por pessoas de personalidades, modos de vida        oportunidades tentadoras ou estmulos provo-
e, acima de tudo, motivaes absolutamente          cadores. Presume-se que a vasta maioria das
diferentes. Percebeu-se tambm que uma coisa        pessoas aproveitar a oportunidade -- diga-
 tentar explicar por que este ou aquele pas,      mos, de furto -- se houver certeza de impuni-
cultura, distrito ou escola tem uma predominn-     dade. As pessoas variam com relao ao que as
cia particularmente elevada (ou baixa) de certos    tenta e  sua confiana quanto s possibilidades
tipos de comportamento infrator e outra coisa,      de serem condenadas; mas onde existe um "al-
bem diferente,  explicar por que este ou aquele    vo" atraente mais cedo ou mais tarde ele ser
indivduo tende a isso. Mais uma vez, explicar      atingido. A existncia de pessoas com fortes
as propenses de um indivduo  lgica e cien-      inibies morais no pode ser negada, mas 
tificamente distinto de dar conta de uma nica      relativamente pouco importante no que diz res-
infrao da lei, no repetida, para a qual uma      peito  predominncia de infraes desonestas.
"explicao narrativa" pode ser muito mais          Como a maioria das novas contribuies para o
plausvel (ver Walker, 1977).                       tema, esta exagera em suas afirmaes; mas tem
    A contribuio do POSITIVISMO, porm, foi       valor, como veremos na seo sobre preveno
                                                    (ver, por exemplo, Laycock e Heal, 1986).
volumosa e valiosa, ainda que por vezes de
modo negativo. As pesquisas descobriram li-         Penalstica
gaes estatsticas entre a infrao da lei (ou,
mais precisamente, uma histria de desones-             Esta subdiviso do tema preocupa-se princi-
tidades ou violncias) e um nmero enorme de        palmente com os modos oficiais como se tratam
variveis: sexo, idade, infraes por parte dos     infratores identificados: pena capital, deporta-
pais, desarmonia no lar paterno, condies e        o, priso, multa, sursis ou suspenso con-
locais de habitao, inteligncia, nvel educa-     dicional de pena e outros expedientes de no-
cional, vadiagem, desemprego, natureza do em-       aprisionamento; mas alguns penalistas interes-
                                                    sam-se pelas reaes no-oficiais da sociedade,
prego, filiaes religiosas e tnicas, constitui-
                                                    tais como o estigma e o ostracismo. Entre as
o fsica ("tipo somtico"), alcoolismo ou v-
                                                    realizaes da pesquisa penalstica est a prova
cio de outras drogas, filiao a quadrilhas e at
                                                    de que a pena de morte no impede a ao de
mesmo, no caso da violncia, temperaturas ele-
                                                    assassinos mais do que a pena em "vida" (isto
vadas. Algumas dessas variveis, porm, como        , priso prolongada e por tempo indetermi-
baixo nvel educacional e vadiagem, podem           nado); que meios gerais de represso no se
muito bem ser efeitos em vez de causas. De          mostram muito eficazes quando so baixas as
qualquer forma, as ligaes raramente so mui-      taxas de deteco (investigaes bem-sucedi-
to marcadas (sendo sexo a nica exceo). Mes-      das); que os infratores receptivos a medidas
mo quando combinadas matematicamente, o             reformadoras constituem minoria e no so fa-
mximo que oferecem  um meio de discrimi-          cilmente identificados no estgio de deciso da
nar entre categorias com respeito  probabi-        sentena; e que muitos infratores detidos por
lidade de que um dado membro venha a come-          longos perodos em prises ou hospitais para
ter infraes da lei (especficas ou no-espec-    proteo dos outros na verdade no seriam pe-
ficas). Por exemplo, uma jovem de um lar har-       rigosos caso libertados sob superviso. Os pe-
monioso, com bom nvel educacional e um             nalistas tambm tm-se preocupado com os
emprego em escritrio tem muito menos pro-          efeitos indesejveis de medidas como o encar-
babilidades de ser uma infratora da lei do que      ceramento, e corrigiram alguns exageros, co-
um rapaz com pais separados, instruo mnima       mo, por exemplo, a respeito de seus efeitos
e sem emprego fixo. Do ponto de vista explica-      psicolgicos. O debate sobre justificativas para
tivo, esse  um quebra-cabea incompleto. H        punio, ou sobre o mbito adequado do direito
um nmero muito grande de indivduos que            penal, pertence mais  filosofia moral do que 
preenchem as condies mas cujas vidas pau-         penalstica, mas a familiaridade com a penals-
tadas dentro da lei s podem ser explicadas por     tica  essencial para os que tomam parte nesses
histrias mais pessoais.                            debates.
                                                                                     criminologia     155


Preveno                                            de se tornar alvos ou vtimas. Prostitutas, mo-
    Apesar de a represso ser, estritamente fa-      toristas de txi, guardas de segurana e, hoje em
lando, um tipo de tentativa de impedir o crime       dia, professores e assistentes sociais esto per-
(e ser assim classificada por criminologistas do     feitamente cnscios disso. Nos anos 50 um
continente europeu), "preveno" na crimino-         estudo de homicdios feito por Marvin Wolf-
logia anglo-americana tende a significar medi-       gang (1958) chamou a ateno para os modos
das que se concentram nos alvos potenciais,          pelos quais muitos deles haviam sido provoca-
mais do que nos infratores potenciais, que so       dos ou incitados pela conduta da vtima, e ele
menos facilmente identificados quando  solta.       cunhou a expresso "victim-precipitation". A
A abordagem situacional antes descrita e as          maior parte da violncia contra mulheres  co-
descobertas um tanto desestimulantes sobre a         metida por maridos ou amantes. A maior parte
eficcia das medidas voltadas contra infratores      dos maus-tratos contra crianas  cometida por
indicam que se deveriam dedicar mais recursos        pais ou membros da casa. Pode at haver, como
ao alvos mais vulnerveis. Estes podem ser           j se apontou, tipos de personalidades que, es-
indivduos ou propriedades, ou mesmo "o meio         pecialmente entre os jovens, convidam  vio-
ambiente". Os indivduos podem tornar-se me-         lncia ou ao atentado ao decoro sexual. As
nos vulnerveis se conscientizados dos perigos       vtimas de fraudes e contos-do-vigrio so ge-
inerentes de se freqentarem certos lugares em       ralmente pessoas cuja ambio as deixou cegas
certas horas e se forem ensinados a se precaver      para a implausibilidade do que lhes estava sen-
com os estranhos que os abordam. As mulheres         do oferecido. No caso de brigas, em geral  difcil
podem ser aconselhadas a no carregar bolsas         para a polcia ou para os tribunais ter certeza sobre
ou sacolas. Em alguns pases, os cidados po-        quem  a vtima e quem  o agressor.
dem armar-se com pistolas, embora o resultado            As vtimas podem nem sempre estar total-
seja provavelmente mais vtimas do que ocor-         mente isentas de culpa. Mas isso no reduz suas
reria se assim no fosse. A propriedade pode         necessidades. Vtimas de violncias necessitam
tornar-se um pouco mais segura atravs de me-        de cuidados mdicos, mas tambm de tratamen-
canismos de segurana e sinais de identificao.     to humano no interrogatrio, especialmente se
Ladres e assaltantes podem se tornar mais           a violncia for sexual. O confronto com ata-
visveis com melhor iluminao das ruas, me-         cantes no tribunal pode aumentar o trauma,
nos passagens cobertas (por exemplo, debaixo         especialmente no caso de crianas. Foram cria-
de ruas) e uma arquitetura previdente. As vizi-      dos procedimentos especiais para a obteno
nhanas mostram-se cada vez mais dispostas a         e apresentao de provas por parte de crian-
organizar "rondas da vizinhana" e at mesmo         as. Muitas jurisdies hoje permitem que
"grupos de vigilantes", embora estes ltimos         vtimas de violncia sexual, tanto adultas
sejam malvistos pelos agentes da lei, pois suas      quanto menores de idade, permaneam an-
atividades podem tender a ultrapassar os limites     nimas no que diz respeito  mdia. "Centros
do aceitvel (ver POLCIA). Essas so "medidas       de apoio" para os casos de crises em razo de
centradas". J se fizeram sugestes de progra-       estupros oferecem aconselhamento e socorro
mas no-centrados, tais como melhorar os n-         psiquitrico grtis. Tem havido at experin-
veis de habitao e escolaridade, e tambm as        cias que renem perpetrantes e vtimas de cri-
perspectivas de emprego. As provas de que esse       mes como assalto a residncia e estupro, na
tipo de medidas exerce efeitos de valor sobre as     esperana de algum tipo de benefcio para am-
taxas de criminalidade so insuficientes, e no     bas as partes. Os resultados no se mostram de
fcil interpret-las com confiana; mas esses pro-   fcil avaliao.
gramas tm outros mritos que os recomendam.
                                                     Indenizao
Vitimologia                                              Uma necessidade mais material de muitas
    O pensamento preventivo recebe certa ajuda       vtimas  a indenizao, especialmente quando
da vitimologia. No incio deste sculo, os his-      elas so pobres. Em muitos pases ocidentais,
toriadores naturais do crime perceberam que          as vtimas podem requerer compensao finan-
este no atinge suas vtimas de forma inteira-       ceira durante o processo criminal, em vez de
mente aleatria, e que certos empregos, ativi-       serem obrigadas a encarar a perspectiva desani-
dades e comportamentos sofrem riscos maiores         madora de uma ao cvel. Isso, porm, no
156   crise


ataca o problema bsico -- a incapacidade de        e do sub-registro  uma sria subestimativa que
muitos infratores de pagar mais do que uma          os levantamentos de vtimas, em certa medida,
frao daquilo que os tribunais determinam,         corrigem.  concebvel que estes acabem vindo
especialmente se tambm tm de cumprir pena         a substituir as estatsticas baseadas na informa-
de priso. Os planos de indenizao por parte       o policial, pelo menos no que diz respeito a
do Estado restringem-se a um mbito limitado        crimes comuns como roubo, furto e assaltos de
de infraes, em geral as que envolvem feri-        menor monta (ver Mayhew et al., 1989).
mentos violentos ou danos psicolgicos. Ne-
nhum pas ainda instituiu um plano de seguro        Reforma penal
compulsrio para crimes contra a propriedade.           Na teoria, o criminologista  um cientista,
Esse  um problema que s foi atacado parcial-      no um reformador penal ou social, e se limita
mente (ver, por exemplo, Hodgson, 1984).            a fornecer e interpretar as descobertas de pes-
                                                    quisas que militantes ou ativistas podem dar a
Levantamentos de vtimas                            pblico, se lhes for adequado faz-lo. Na prti-
    Uma valiosa evoluo das dcadas recentes       ca, a distino  geralmente um pouco confusa.
foi o "levantamento de vtimas", em que amos-       A escolha por parte do criminologista do objeto
tras representativas do pblico so questiona-      da pesquisa -- digamos, os efeitos psicolgicos
das a respeito de delitos que elas ou seus filhos   danosos do encarceramento -- , em geral,
possam ter sofrido no decorrer do ltimo ano        ditada pelos objetivos do organismo que patro-
(ou outro perodo especificado). Esses levanta-     cina essa pesquisa e, mesmo quando a escolha
mentos tm defeitos de menor monta. Algumas         cabe ao pesquisador, esta provavelmente deve
categorias de vtimas so pessoas ocupadas de-      alguma coisa  ideologia deste. Felizmente,
mais, ou nmades, ou sofrem de distrbios           existem criminologistas cuja integridade os le-
mentais, o que dificulta o acesso dos entrevis-     va a relatar descobertas inesperadas ou incon-
tadores. Os homens jovens que sofrem muita          venientes -- por exemplo, no caso de terem
violncia esto em geral na rua bebendo ou, de      descoberto que os efeitos danosos do encar-
alguma outra forma, se expondo  violncia, e       ceramento foram na verdade exagerados pe-
no sendo entrevistados a esse respeito. Alguns     los reformadores penais (ver Bottoms e Light,
tipos de delitos no tm vtimas especficas e      1987, cap.8).
provavelmente no sero notificados: a polui-
                                                    Leitura sugerida: Bottomley, K. e Pease K. 1986:
o ilegal  um exemplo.                            Crime and Punishment: Interpreting the Data  Box, S.
    O valor desses levantamentos, por exemplo,      1981: Deviance, Reality and Society  Freeman, J. e
 que eles corrigem a sria tendncia  baixa       Sebba, L., orgs. 1989: International Review of Victimo-
estimativa das taxas de criminalidade resultante    logy, vol.1  Morris, A. 1987: Women, Crime and Cri-
da "subnotificao" e do "sub-registro". Muitos     minal Justice  Radzinowicz, Leon e Hood, R.G. 1986:
                                                    The Emergence of Penal Policy  Rutter, M. e Giller, H.
delitos no so notificados  polcia (ou outra     1983: Juvenile Delinquency  Ten, C.L. 1988: Crime,
autoridade responsvel) porque os que pode-         Guilt and Punishment  Tonry, M. e Morris, N. 1979:
riam notific-los esto assustados ou constran-     Crime and Justice  Walker, N. 1988: Crime and Cri-
gidos demais (como no caso de violncia se-         minology  Wilson, J.Q. e Herrnstein, R.J. 1985: Crime
xual), ou consideram o delito excessivamente        and Human Nature.
trivial, ou com poucas probabilidades de vir a                                            NIGEL WALKER
ser alvo de alguma ao efetiva. Alguns prefe-
rem lidar com os infratores  sua prpria manei-    crise Falamos de "crise" em relao a sujeitos,
ra, especialmente se estes so menores de idade.    a uma vida ou uma forma de vida, a um sistema
Ainda que notificados, alguns delitos no so       ou uma "esfera" de ao. As crises decidem se
registrados, pelo menos para fins estatsticos.     uma coisa perdura ou no. O caso paradigmti-
Os que os notificam podem ter a sua palavra         co de crise  a crise de vida, na qual, se levada
colocada em dvida, por exemplo, porque se          ao extremo, est se tratando de uma questo de
pode pensar que estejam agindo por malcia. O       vida ou morte. Em toda crise os envolvidos
incidente pode parecer excessivamente trivial.      confrontam-se com a questo hamletiana: ser
Um nmero excessivo de registros de crimes          ou no ser. As crises em geral tm causas obje-
sem soluo faz com que a fora policial parea     tivas, mas devem tambm poder ser vivencia-
ineficiente. O resultado final da subnotificao    das como crises pelos sujeitos ou entidades
                                                                                             crise   157


sociais envolvidos. Elas tambm sempre afe-          1983). Hegel ainda tem em mente essa ligao
tam a autocompreenso e a autodefinio de           entre lei e crise na sua teoria da tragdia. Ele
agentes, sistemas ou esferas, uma vez que sem-       descreve a queda do heri na crise do conflito
pre afetam sua "identidade", isto , uma vida ou     trgico como um "destino racional" que se con-
situao de vida como um todo.                       cretiza em nome de uma justia nova, trgica e
    Aqui, a histria da palavra  importante e       urbana, a qual substitui a "justia antiga, pica",
esclarecedora. O grego krisis no distingue en-      hoje vista como um "destino cego" pr-legal.
tre crise e crtica, cobrindo "diferena e confli-       Do Iluminismo at Marx, a poca presente
to, mas tambm deciso no sentido de resultado        compreendida como uma crise, e a crise como
definitivo, deciso judicial ou, de fato, qualquer   crtica prtica, revolucionria, como uma causa
julgamento -- algo que hoje se encaixaria na         levantada pela nova sociedade burguesa contra
esfera da crtica" (Koselleck, 1973: p.197). Es-     o antigo estado, ou pelas classes excludas da
sa ligao original entre os aspectos subjetivo e    sociedade burguesa contra as que esto inclu-
objetivo da crise subsiste quando criticar entra     das. Mas Marx se encontra tambm na raiz das
em moda na modernidade. Na poca do Ilumi-           teorias sociais cientficas sobre crise.  medida
nismo esses dois usos divergem, ao mesmo             que estas se desenvolvem, a separao entre
tempo em que continuam sobrepostos. Com              teoria e crtica  ressaltada de forma ainda mais
essa separao, porm, as palavras crtica e         aguda do que na filosofia da histria do prprio
crise, usadas basicamente na Idade Mdia no          Marx. Mas o que foi separado na teoria ainda
sentido mdico, tornam-se altamente politiza-        se une na prtica poltica: no pode haver crise
das. Sir B. Rudyard aplicou o conceito mdico        sem diagnstico de crise. Um diagnstico de
de crise ao corpo poltico: "Esta  a Crise dos      crise representa uma vigorosa posio explica-
Parlamentos: atravs disso saberemos se os Par-      tiva. Ele no visa um fim da histria, mas
lamentos vivem ou morrem." Mesmo depois do           constri hipoteticamente uma histria capaz de
sculo XVIII, porm, "crise"  um ttulo co-         funcionar como justificativa por aes polticas
mum para textos crticos e polmicos. Thomas         para os que vivenciam a crise. Nesse sentido, a
Paine deu o nome The Crisis ao dirio em que         filosofia de Kant j era uma filosofia da histria,
comentava os eventos da revoluo norte-ame-         pressupondo que o tribunal da razo crtica
ricana. Aqui, o sentido grego de crise como          julga argumentaes e no pessoas. De agora
julgamento permanece predominante como um            em diante, crise e crtica encaixam-se em dife-
conceito polmico de crise. O significado de         rentes categorias. Embora a crtica possa tornar
"crise" como julgamento, referindo-se a uma          uma pessoa consciente de uma crise, e uma crise
deciso judicial, e o significado mdico, diag-      possa provocar crtica ou transformar a prpria
nstico, combinam-se quando falamos, ainda           crtica em crise, a crise decide outras questes
hoje, de uma situao crtica.                       que no as da crtica. Enquanto a crise diz
    Na antiga Atenas, eram as atividades de          respeito a se uma forma de vida social pode ser
julgar (krisis) e governar (kratein) que transfor-   ou no ser, a crtica s se preocupa com a
mavam um indivduo em cidado (Aristteles).         validade dos argumentos; se so "verdadeiros
A lei  um produto da crise e da diviso da vida     ou falsos", "precisos ou imprecisos". Essa dis-
tica. Quando recebe expresso efetiva num           tino (krisis)  notoriamente ignorada pela
julgamento, promove-se o fim da diviso ou           metacrtica conservadora do Iluminismo. Essa
CONFLITO. (A palavra alem Ent-scheidung [de-        crtica fundamental, presente em Nietzsche,
ciso] indica esse processo.) O elo aristotlico     Carl Schmitt e Michel Foucault, concebe a ar-
entre julgamento legal e crise e o status de         gumentao e a crtica como guerra (polemos),
cidado poltico  ele prprio resultado de uma      como luta por existncia e poder. Tal como a
diviso, separao ou diferenciao das esferas      filosofia da histria que critica, ela combina
de oikos e polis -- uma diviso em que a lei         crtica e crise e, assim, v na crtica a verdadeira
desempenha um papel fundamental. A separa-           crise dos tempos modernos. "A crise est dis-
o do poltico (e portanto o status de cidado)     farada de crtica" (Kosellek, 1973).
acompanha a superao e substituio do antigo           O conceito social cientfico de crise tem
sistema legal (justia de famlia, vingana de       razes profundas na filosofia da histria, mas no
sangue, oikos ou justia domstica) por um           sculo XX deitou razes novas, ps-metafsicas.
sistema judicial poltico-burgus (ver Meier,        O conceito de crise baseado na filosofia da
158   crise


histria desenvolveu-se no sentido de um con-        ta-se ao planejamento (...) com base na crena
ceito evolutivo,  luz do qual a filosofia da        e no progresso" (Kosellek, 1973). Livros como
histria se v ela prpria relegada ao status de     Histria e conscincia de classe (1923), de
"elo perdido" na transio do antigo conceito        Lucks, ou A decadncia do Ocidente (1918-
de crise para o moderno. A ligao mais impor-       22), de Spengler, representam um lado da dis-
tante , sem dvida, sua temporalizao na           tino entre um conceito de crise baseado na
cristandade. Esta transforma a deciso judicial      filosofia da histria e uma concepo de crise
na crise extrema do Juzo Final. O todo da           social cientfica. A legitimao da crise (1973),
histria  assim dominado pela contradio de        de Habermas, ou As contradies culturais do
que a deciso final j ocorreu com a encarnao      capitalismo (1976), de Daniel Bell, marcam o
do Messias, mas deve ainda assim ser deixada         outro lado. Outro exemplo de conceito social
em aberto para ser ratificada no Juzo Final. Isso   cientfico de crise  A estrutura das revolues
estende a crise a todo o processo entre a Reve-      cientficas (1962), de Thomas Kuhn (ver SOCIO-
lao, ou vinda de Cristo, e o Fim dos Tempos;       LOGIA DA CINCIA). Aqui tambm se trata da
a crise permanente transforma, segundo as pa-        vida, como um todo, de uma comunidade par-
lavras de Hegel, a histria mundial num tribunal     ticular, concreta, de pesquisadores, ligada a um
mundial. "Desse modo, a modernidade assiste          paradigma holstico, mas no do destino das
 ascenso de um modelo processual de crise          cincias europias, como no famoso diagns-
que impregnou inmeras filosofias da histria"       tico de Husserl (1937), que ainda no aban-
(Kosellek, 1976: p.1236).                            donou os caminhos de uma filosofia metafsica
    Um aspecto caracterstico do diagnstico de      da histria em cima do muro que separa a Queda
crise da filosofia da histria  a maneira como      da Salvao.
a poca  tratada como um todo. A crise                 No centro da concepo social cientfica de
sempre a crise de uma totalidade histrica. O        crise encontra-se o conceito de crise de sistema,
conceito social e cientfico de crise, em contras-   que Marx foi o primeiro a exprimir com clareza,
te, baseia-se sempre apenas em uma esfera ou         ligando-se tanto s teorias de circulao da
aspecto parcial de uma totalidade de vida, por       economia clssica e do Iluminismo francs
exemplo, o sistema econmico, programas de           quanto ao conceito hegeliano de uma contradi-
pesquisa, estgios de desenvolvimento ou prin-       o entre esferas que no pode ser resolvida
cpios organizacionais. No se pode mais fazer       dentro de um sistema fechado. A teoria da tra-
afirmaes a respeito de crises extremas ou de       gdia de Hegel desenvolve um modelo de crise
progresso e retrocesso com relao ao Bem e         que retorna em crises de sistema e em conflitos
felicidade do Todo. A perspectiva da filosofia       que arrasam, do ponto do vista social, o mundo
da histria sobre a totalidade de uma "forma de      concreto ou uma imagem do mundo. A validade
vida" (Hegel) permanece constitutiva para a          abrangente de pretenses legais mutuamente
experincia subjetiva e intersubjetiva de crise      exclusivas  o que diferencia as crises das guer-
por parte dos afetados por elas, mas isso se         ras e tambm das revolues e das guerras civis.
transforma em mero componente subjetivo de           Na lenda grega, Creonte e Antgona no se
anlise social cientfica. O que permanece da        relacionam um com o outro como amigo e
filosofia da histria  um discurso de autocom-      inimigo em guerra; eles trazem em si mesmos a
preenso tpico das crises -- geralmente com         oposio que destri o seu mundo.
caractersticas teraputicas. Isso diz respeito          O significado social cientfico desse modelo
aos problemas de identidade individuais ou co-       de crise ultrapassa em muito a sua interpretao
letivos. Os discursos globais da filosofia da        nas filosofias da histria de Hegel e de Marx
histria s tm lugar dentro desses discursos,       (cf. Kojve, 1947). Marx j havia combinado
nos quais os envolvidos devem deixar claro           esse modelo de uma crise orientada para as
quem desejam ou no desejam ser (cf. Tugend-         pretenses  validade de grupos sociais antag-
hat, 1979). Mas j no tm uma significao          nicos (classes) com o da crise de sistema obje-
prognstica. Inversamente, as teorias sociais e      tiva identificvel em problemas de rumo, de
cientficas sobre a crise j no produzem co-        orientao e dos imperativos da manuteno do
nhecimento a respeito do resultado das conse-        sistema. Mas, mesmo nos diagnsticos dos ter-
qncias das crises. Na crise, o nmero que os       mos que a modernidade vem oferecendo desde
dados vo dar fica em aberto. "Toda crise fur-       pelo menos a poca de Max Weber o modelo
                                                                                           crise   159


trgico de uma esfera tica dividida em si mes-       "cientistas normais" de Kuhn. O sofrimento em
ma continuou a ser crucial. Ele se estende do         geral inspira a busca de solues novas e radi-
"mundo de desintegrao" do primeiro Lukcs           cais, fazendo surgir uma imagem do mundo de
ao diagnstico de Weber sobre o esmagamento           nvel mais elevado, que rene experincias anti-
da liberdade e o significado no conflito insol-      gas e novas em uma relao inteligvel e coe-
vel das esferas de valor mutuamente alienadas         rente. As contradies comunicativas ocorrem
do racionalismo moderno, at a teoria de Jrgen       quando imagens do mundo variadas e incom-
Habermas sobre as "patologias do mundo con-           patveis se superpem e entram em disputa na
creto" e diagnsticos semelhantes apresentados        interpretao das mesmas, ou semelhantes, ex-
por pensadores neocomunitrios. Robert N.             perincias. Quando agentes com imagens do
Bellah e seus colaboradores (1985), seguindo          mundo divergentes ou concorrentes so obriga-
Alasdair MacIntyre (1981), vem a cultura nor-        dos a debater e a entrar num acordo, precisam
te-americana estendida entre os plos de in-          usar a linguagem comum da vida do dia-a-dia
dividualismo utilitrio e expressivo. Michael         para articular suas variadas perspectivas e ima-
Walzer (1983) descreve com perspiccia o mo-          gens do mundo. A articulao de sua prpria
do como esferas da vida moderna justificadas e        imagem do mundo, com sua perspectiva sem-
geralmente aceitas (divididas "corretamente")         pre egocntrica, em linguagem comum e com
desenvolvem tendncias crticas, na verdade           uma orientao voltada para a compreenso
autnticas ameaas  vida, a superar e "domi-         mtua resulta em algo que empurra os agentes
nar" umas s outras. Charles Taylor (1989)            no sentido de uma descentralizao do seu ego-
localiza a contradio mais profunda dos tem-         centrismo. Os processos de aprendizado que
pos modernos entre bens igualmente constitu-          levam a descentrao de perspectivas no mundo
tivos: universalismo e pluralismo, cientificismo      podem, portanto, ser explicados pelas contra-
(utilitarismo) e romantismo, moralismo e ceti-        dies entre vises do mundo idiossincrsicas
cismo desconstrutivo. Os herdeiros cientfico-        e sua articulao numa linguagem comum. Es-
sociais do modelo de crise hegeliano e marxista       sas contradies obrigam os agentes a transcen-
no apenas dissolveram sua ligao desagrad-         der o seu prprio horizonte e a "fundi-lo" com
vel com a filosofia da histria como tambm           o de outros agentes na linguagem comum da
substituram o paradigma da reflexo pelo             compreenso mtua (ver Gadamer, 1960). Des-
da linguagem, dissolvendo ainda a perspectiva         sa forma, torna-se possvel vivenciar o conflito
unificada numa pluralidade de tendncias de           entre vises do mundo, ou "esferas de valor",
crise. As contradies que fazem surgir as crises     como um conflito entre articulaes contradi-
e as abrem  experincia no precisam mais ser        trias da sua prpria viso do mundo ou esfera
entendidas na linha de antinomias lgicas, pro-       de valores. Uma crise, caso ocorra, resolver se
duzidas pela ascenso do Esprito, atravs de         essas antinomias so produtivas ou destrutivas
estgios infinitos de reflexo, mas podem ser         (ver Kesselring, 1981; 1984). Se so produtivas
trazidas de volta ao seu lugar na linguagem as        e fonte de motivao racional,  algo que pode
contradies entre afirmaes e acima de tudo         depender na prtica das possibilidades institu-
no dilogo.                                           cionais para uma discusso objetiva e a resolu-
    As crises de maturidade e as de desenvolvi-       o de conflitos. Isso vale tanto para a evoluo
mento cognitivo e moral, tal como outras crises,      individual e social, e para o resultado das cri-
so geralmente deflagradas por circunstncias         ses individuais da adolescncia, quanto para o
externas contingentes, mas tambm tm um              auto-esclarecimento de grupos sociais (ver D-
aspecto interior, racional. Este se expressa, inter   bert e Nunner-Winkler, 1978; Eder, 1985).
alia, nas tentativas dos agentes de reconciliar           O que vai ser decidido numa crise depende
suas experincias com sua imagem do mundo.            em geral de toda uma constelao de tendncias
As experincias que entram em conflito da             de crise complexas e que se superpem. A con-
imagem que se tem do mundo podem propor-              juntura de crises de identidade e crises de sis-
cionar um motivo racional para a busca de             tema produz limiares crticos, mas a expectativa
solues coerentes. As crises ocorrem quando          de uma ligao sistemtica entre os dois tipos
experincias conflitantes se acumulam e, no           de crise que inspiraram Marx e o marxismo
final, no podem mais ser integradas, confor-         demonstrou ser demasiado especulativa. Na
me ocorre com as "anomalias" sofridas pelos           prtica, parecemos estar antes vivenciando uma
160   crist, teoria social


dissociao ou desacoplamento dos mais varia-           estruturas, mas significa que a teoria social
dos fenmenos de crise cultural, econmica,             crist , basicamente, uma teoria de ao.
ecolgica, cientfica, administrativa e outras. A           O aspecto, apresentando-se sob diferentes
tentativa de sistematizar possveis tendncias          formas, que caracterizou a teoria social crist
de crise pode, portanto, ser ligada ao processo         durante todo o decorrer de sua histria foi a
de diferenciao e centramento de subsistemas           tenso. Talvez somente na doutrina social do
sociais;  possvel observar uma tendncia ain-         Velho Testamento no tenha sido esse o caso.
da rudimentar de afastamento das crises scio-          No Velho Testamento, que  a fonte bsica da
econmicas no sentido das crises de motivao,          teoria social crist, o pensamento hebraico con-
legitimao e cultura. O alto grau de inter-            servou elos ticos e teolgicos inseparveis en-
dependncia e a crescente interpenetrao de            tre criao e salvao. No havia separao
subsistemas, porm, e acima de tudo a mutabi-           entre as atividades deste mundo e a do outro.
lidade e a reversibilidade de tendncias evolu-         Esse senso da unidade dos atos divinos de cria-
tivas tornam quase impossvel fazer afirmaes          o e salvao, e de nossa reao a essas reas,
categricas.                                            pode ser observado no amplo mbito de sentido
                                                        para as palavras "retido", "justificao" e "f",
Leitura sugerida: Habermas, J. 1973 (1976): Legiti-     bem como na importncia da noo hebraica de
mation Crisis  Husserl, E. 1938 (1970): The Crisis of   tiqqun ha-olam, restaurao do mundo. O con-
the European Sciences and Transcendental Phenome-
nology  O'Connor, J. 1973: The Fiscal Crisis of the
                                                        texto dessas palavras  geralmente social e po-
State.                                                  ltico.
                                                            No Novo Testamento, porm, e especial-
                              HAUKE BRUNKHORST
                                                        mente nos textos de So Paulo, "salvao" est
                                                        mais freqentemente ligada  "justificao" do
crist, teoria social Essa teoria abrange afir-         indivduo que chega  f em Jesus. Assim, as
maes sistemticas ou conjuntos de conhe-              palavras crists que refletem as palavras hebrai-
cimento sobre o relacionamento do cristianis-           cas com conotao de "justia" afastaram-se de
mo com a sociedade. Em um nvel, essas afir-            seu contexto social e da ordem e harmonia na
maes sistemticas so "teorias" no sentido            natureza e em todo o cosmo da criao de Deus.
estrito de "viso geral" da natureza da socie-          Essa viso excessivamente antropocntrica da
dade, isto , equiparando "teoria social" secular       criao e da salvao no pensamento cristo
e "teoria poltica", mas incluindo uma pers-            primitivo estreitou a viso da graa de Deus no
pectiva transcendente. Em outro nvel, a teoria         mundo e restringiu o desenvolvimento, na teo-
social crist pode ser encarada como uma                ria social crist, de uma tica de obrigao
prxis, no sentido aristotlico de um estudo da         responsvel para com a criao e de deveres
sociedade como um fim, a saber, o de facilitar          para com a ecologia, o meio ambiente e as
o florescimento de uma vida boa e justa na plis.       outras criaturas.
    A perspectiva especfica a que nos referimos            A tenso entre as exigncias do outro mundo
pode ser chamada de "personalismo", palavra             e deste mundo, que entrou no pensamento cris-
usada para indicar que "o fundamento, a causa           to com o Novo Testamento, e o desenvolvi-
e o propsito de todas as instituies sociais so      mento de uma TEOLOGIA sistemtica, vieram a
os seres humanos individualmente tomados,               exercer forte influncia sobre a teoria social
isto , pessoas, que so sociais por natureza e         crist no perodo patrstico, que cobriu os oito
elevadas a uma ordem de coisas que ultrapassa           primeiros sculos de cristianismo. Mesmo sen-
e sujeita a natureza" (papa Joo XXIII, Mater           do possvel demonstrar que, s vezes, em es-
et magistra, n.219). Os sistemas sociais, em            pecial depois da conveno do imperador Cons-
outras palavras, no tm propsitos, motivos ou         tantino, alguns dos Padres da Igreja assumiram
necessidades; rigorosamente falando, apenas as          um discurso mais voltado para o mundo, pode-
pessoas humanas, individualmente, os tm. Na            se afirmar que o "sobrenatural" foi um elemento
teoria social crist, portanto, o voluntarismo e o      dominante e fundamental em seu pensamento.
carter intencional da conduta humana so en-               Conforme a igreja crist foi crescendo em
fatizados, bem como a capacidade dos agentes            nmeros, riqueza e poder poltico, e o prprio
de escolher entre diferentes objetivos e proje-         estado finalmente se tornou cristo, no primeiro
tos. Isso no exclui a anlise e discusso de           quartel do sculo IV, cresceu tambm a tenso
                                                                             crist, teoria social   161


entre a preocupao vital com a vida depois da       individual e o bem da comunidade), da "justia
morte e as exigncias da vida aqui na terra. Na      distributiva" (proporcionalidade do status dos
esfera econmica, a principal preocupao dos        membros para com a comunidade), do "princ-
Padres era com o abismo gritante entre ricos e       pio de funo subsidiria" (o de que o poder do
pobres, para o que a sua soluo foi a doao de     estado deve ser usado, no para deslocar a
esmolas. No era funo da esmola eliminar a         iniciativa, mas para permitir a comunidades e
pobreza, apenas aliviar um nvel extremo de          indivduos menores serem eles prprios) e do
necessidade. Nesse sentido, no existe soluo       "direito  propriedade privada".
econmica no conjunto dos textos patrsticos.            A elaborao da teoria social crist nessa
Eles aceitavam o direito  propriedade privada,      forma filosfica, ao mesmo tempo em que tira-
embora atribuindo a sua origem ao pecado ori-        va da teologia os motivos para a ao, teve a
ginal e afirmando que, no incio da sociedade        vantagem prtica de tornar esse ensino aces-
humana, todas as coisas eram possudas em            svel aos que no partilham das crenas crists,
comum. Em termos do desenvolvimento da               mostrando-se adequado na sociedade pluralista
teoria social crist,  possvel destacar que San-   dos dias atuais. Isso explica a insistncia, na
to Agostinho se opunha ao individualismo,            prtica social papal recente, de que os textos so
mesmo ao individualismo possessivo que se            para todas as pessoas, e no apenas para os
tornou a caracterstica do liberalismo moderno.      catlicos.
Em conseqncia dessa compreenso da des-                Se o princpio unificador da lei natural tor-
tinao comum dos bens humanos, os Padres            nou possvel, no estilo catlico de teoria social
da Igreja enfatizaram as obrigaes dos ricos de     crist, exercer mediao entre o mundo da reli-
partilhar e defenderam o uso comum das rique-        gio e o cenrio scio-poltico, por outro lado
zas como o ideal. Muitos autores modernos            tambm levou a uma confuso pelo fato de as
comentaram esse aspecto "socialista" da dou-         autoridades eclesisticas, em nome da Igreja, se
trina patrstica, e  certo que houve uma tenso     tornarem governantes terrenos, ao mesmo tem-
contnua na teoria social crist entre a defesa da   po em que poderes seculares se arrogavam auto-
propriedade privada e o ideal da propriedade         ridade em questes espirituais. A soluo de
social.                                              Lutero foi propor, seguindo o estilo das Duas
    Em sua apresentao geral do pensamento          Cidades, de Santo Agostinho, uma doutrina dos
social, os escolsticos do perodo medieval per-     Dois Reinos, que se tornou a primeira interpre-
maneceram fiis  nfase mais antiga que tanto       tao protestante de uma tica poltica. Os dois
o Novo Testamento quanto a doutrina patrstica       reinos so a Igreja e o Estado, este ltimo
atribuam ao primado do "espiritual" sobre o         tornado necessrio apenas devido  descrena.
"temporal". Nessa forma, a teoria social crist      Essa  uma teoria social diferente da antiga
permaneceu, sem dvida, como uma doutrina            teoria catlica, que reconhecia a necessidade de
social radicalmente teolgica. A influncia do       potestas coactiva (poder poltico), como conse-
pensamento estico e aristotlico, porm, deu        qncia do pecado original, ao mesmo tempo
origem a evolues que transformaram a dou-          em que aceitava a necessidade de uma potestas
trina social crist, como um todo, numa cincia      directiva (um estado administrativo), mesmo
filosfica com certos "acrscimos" de gnero         antes da Queda. Em toda essa questo, Lutero
teolgico. Essa nova tenso entre fundamentos        afirmou que, qualquer que fosse a qualidade do
morais-filosficos ou teolgicos permaneceu          governo secular, bom ou mau, os dois reinos
como caracterstica na teoria social crist at o    nunca deveriam ser confundidos, princpio ado-
perodo moderno. As tradies catlica romana        tado por Karl Barth, o qual insistiu em que "o
e catlica anglicana conservaram o estilo da         divino no deve ser politizado e o poltico no
filosofia moral, enquanto as tradies da Refor-     deve ser divinizado".
ma adotaram abordagens radicalmente teolgi-             O dualismo de responsabilidades "particu-
cas. Na teoria social catlica, um fundamento        lar" e "pblica" derivado da doutrina luterana
na "lei natural" (uma apreenso quase instintiva     dos Dois Reinos passou a ser usado para jus-
de uma regra de comportamento sensato ade-           tificar as pretenses absolutistas do poder pol-
quado a seres humanos racionais) ajudou no           tico. A forma particular de sua teoria social
desenvolvimento do "bem comum" (uma coin-            crist preparou o caminho (de forma totalmente
cidncia, impelida pela justia, entre o bem         no-intencional) para essa interpretao. Cada
162   crist, teoria social


Reino era governado por Deus verticalmente,                cia, incorporar uma teoria poltica submissa,
porm de modo distinto, mas no havia meio                 que aceitava um equilbrio de poder entre or-
bvio pelo qual o Evangelho pudesse penetrar               dens autnomas; e, em segundo lugar, abraar
horizontalmente no reino secular.                          um consenso benvolo a respeito do livre mer-
                                                           cado como um tipo de forma econmica final.
No perodo moderno                                             Duas formas recentes de teoria social crist
    Na cristandade no havia nenhum campo                  desenvolveram-se na tentativa de romper com
secular, apenas uma nica comunidade de sa-                os estilos consagrados de pensamento poltico
cerdcio e reino. Mas, uma vez que o secular               e econmico. A "teologia poltica", que pode
como domnio foi institudo pela racionalidade             ser definida como um corretivo crtico  ten-
cientfica e pela pretenso poltica, e em segui-          dncia da teologia contempornea de se con-
da reconhecido pela religio crist, o sacro tor-          centrar no indivduo particular, desafiou a ten-
nou-se privatizado e espiritualizado. Em rela-             dncia poltica da modernidade a erigir uma
o  teoria social crist a SECULARIZAO criou           relao direta entre o estado soberano e o in-
as condies dentro das quais Grotius, Hobbes              divduo "particular", cortando assim todas as
e Spinoza estabeleceram a teoria social autno-            ligaes intermedirias. Os elementos comuni-
ma -- isto , independente de justificativas               trios da teoria social crist, apresentados sob a
teolgicas.                                                forma de subsidiariedade (no ensino social ca-
    O desafio foi srio, uma vez que (como diz             tlico) e de "soberania de esfera" (na tradio
John Milbank) a teoria social crist deve ser a            da Reforma), defendem a devoluo do poder
aplicao de uma teologia ou de uma tica                  a nveis intermedirios adequados. A segunda
social, a qual, como um metadiscurso, prope               forma contempornea  a TEOLOGIA DA LIBERTA-
disciplinas seculares; ou ento ela prpria               O, que tentou recuperar o sentido do Evange-
proposta pela razo secular. Diante desse de-              lho para os pases do Terceiro Mundo engajados
safio, a teoria social crist tendeu a aceitar que         na luta por justia. Valeu-se seletivamente da
as cincias sociais executam leituras funda-               anlise marxista, mas muitos comentaristas du-
mentais da realidade que podem ser passadas                vidam que essa anlise possa ser utilizada sem
para a teologia ou para a tica social. A agenda           que tambm se aceite a interpretao marxista
 determinada pela razo secular. Ernst Troelt-            da histria. Em geral, pode-se dizer a respeito
sch, em sua obra monumental intitulada A dou-              das teologias polticas e de libertao que elas
trina social das igrejas crists (1911) afirmou            tm, segundo o estilo restrito recomendado por
que essa experincia teria de ser aceita e que a           Troeltsch, de se apropriar de alguma forma
teoria social crist deveria buscar estabelecer            existente de teoria social (de Marx, digamos, ou
alguma coerncia com a racionalidade secular.              Habermas), juntamente com a secularizao
Na concluso de sua obra, destacou que a apli-             que estas em geral acarretam, e com isso, em
cao do ideal espiritual do Evangelho "no                sua tica social ou teologia social, elas se limi-
pode ser realizada dentro deste mundo isolada              tam a interpretaes do que resta.
de uma conciliao". Seguiu da  concluso de                 Um desafio radical a todas as formas exis-
que                                                        tentes de teoria social crist foi colocado recen-
   no existe em parte alguma uma tica crist absoluta,   temente por John Milbank (1990), o qual afirma
   que s espera ser descoberta; tudo que podemos fazer    que a prpria teologia  uma sociologia. A teoria
    controlar a situao mundial em suas fases suces-     social crist, sustenta ele, colocou-se numa po-
   sivas, tal como fez a tica crist primitiva, ao seu    sio de fraqueza ao se tornar dependente de
   prprio modo. No existe uma transformao abso-        teorias seculares fracamente corroboradas e ao
   luta da natureza material ou da natureza humana.        abandonar sua prpria fora como teoria social
   Tudo que existe  um confronto constante com os         especfica. Ela pode ter a pretenso legtima a
   problemas que elas levantam.
                                                           ser uma sociologia no sentido de que  uma
    Os termos de conciliao da teoria social              descrio de toda a PRXIS (contedo, narrativa,
crist foram, no caso do desafio por parte da              prtica e doutrina) de uma comunidade particu-
teoria poltica secular, aceitar a autonomia da            lar, e no de que proporciona uma explicao
poltica e, no caso da economia poltica, admitir          especfica das causas finais em ao na histria
um mercado racional. As conseqncias para a               humana. Com respeito  metodologia, essa teo-
teoria social crist foram, em primeira instn-            ria deveria dar mais ateno s interpretaes
                                                                                          cultura   163


das implicaes sociais da prxis crist por           em afirmar que o problema crucial encarado
parte dos que esto "dentro" dela e ser menos          pelas sociedades humanas era o da teodicia, ou
dependente das noes dos que esto "de fora".         seja, a necessidade de apresentar uma explica-
Isso no significa excluir a importncia das           o para o nascimento, o sofrimento e a morte.
interpretaes vindas de fora, apenas enfatizar        Essa formulao no  feliz, na medida em que
que a teoria social crist no pode ser reduzida       indica haver uma adequao natural entre ne-
a nenhuma leitura exata e rigorosa do contexto         cessidades humanas e significado social. Em
histrico e social, mas sim incluir um "momen-         vez disso, a vida social organizada depende da
to especulativo" (como Milbank o chama) que            represso de muitos de nossos impulsos ge-
apreende elementos doutrinrios e conseqen-           neticamente codificados, em especial, como
tes propostas de uma natureza especificamente          Freud enfatizou corretamente, os que dizem
scio-teolgica.                                       respeito  sexualidade. Em segundo lugar, a
    Em concluso, a teoria social crist, de um        cultura fornece regras de ao social sem as
ponto de vista, deve manter a continuidade com         quais seria impossvel para os seres humanos
certos aspectos da tica antiga. De outro ponto        dentro de uma sociedade chegar a compreender
de vista, deve superar a tica antiga devido          uns aos outros.  extremamente importante ob-
necessidade de um contedo de virtudes es-             servar que as religies do mundo, em grande
pecficas e ao fato de ser uma teoria a respeito       contraste com sua suposta referncia a um "ou-
de uma comunidade especfica, com uma prxis           tro mundo", so, natural e inevitavelmente, em
particular.                                            grande parte compndios de regras para lidar
                                                       com a vida do dia-a-dia. At mesmo um rpido
Leitura sugerida: Bonino, J. 1983: Towards a Chris-
tian Political Ethics  Boswell, J. 1990: Community     exame dos estudos de Max Weber sobre as
and the Economy: a Theory of Public Co-operation       religies do mundo mostra que ele trabalhou
Milbank, J. 1990: Theology and Social Theory: Beyond   dentro desse esprito, tentando tanto explicar a
Secular Reason  Phan, P.C. 1984: Social Thought:       criao, o contedo, a difuso e a manuteno
Message of the Fathers of the Church  Troeltsch, E.    de sistemas de crena quanto analisar os modos
1911 (1981): The Social Teaching of the Christian      pelos quais elas influenciam a ordem social de
Churches  Viner, J. 1978: Religious Thought and Eco-
nomic Society.                                         que fazem parte -- a insignificncia do impacto
                                                       do budismo sendo, o que  muito interessante,
                               FRANCIS P. MCHUGH
                                                       atribuda a sua pura referncia ao outro mundo,
cultura O fato isolado mais notvel a res-             ou seja, a sua incapacidade de fornecer um
peito da histria da humanidade  a extraordi-         simples servio matrimonial at o sculo XX.
nria diversidade de formas sociais produzidas             A inevitvel interpenetrao de crena e cir-
por seres do mesmo, ou praticamente do mes-            cunstncia -- o fato de elas tenderem a no ter,
mo, tipo gentico. Em outras palavras, enquan-         para usar a expresso de David Hume, "exis-
to a maioria das espcies tem uma forma de             tncias distintas" -- cria tremendas dificulda-
organizao social embutida nos genes, o ani-          des para os cientistas sociais. Uma teoria vigo-
mal humano parece ser programado, em vez               rosa depende de ser capaz de distinguir os mo-
disso, para dar ateno  cultura. A diversidade       mentos nos quais uma fonte de poder social
 possvel porque os seres humanos aprendem            influencia outra e , de acordo com isso, de
a partir de meios culturais. Viver em acordo           importncia vital descobrir esses momentos em
com a natureza  uma idia atraente, mas no            que as fontes de poder podem ser diferenciadas.
caso humano isso na verdade significa viver            Boa parte do pensamento social moderno no
com cultura.                                           foi de grande vitalidade, uma vez que seguiu
    A cincia social destacou dois papis capi-        uma trilha falsa; isso  descrito primeiro como
tais que a cultura cumpre na vida social. Primei-      uma preliminar para se especificarem os trs
ro, a cultura proporciona significado -- durante       modos pelos quais se pode dizer que as idias
a maior parte da histria humana, por meio da          tm um impacto autnomo sobre a sociedade.
religio organizada. Se Marx pode ser visto,
com alguma liberdade, como um pensador que             e/ou
insistia em que a produo de alimentos  bsica          Grande parte do pensamento social moder-
para a vida humana, Max Weber, por sua vez,            no sofreu uma bifurcao profunda na sua abor-
insistia com exatamente a mesma veemncia              dagem da cultura. Pensadores "idealistas", de
164   cultura


Antonio Gramsci a Clifford Geertz e de Talcott       let, por excesso de pensamentos, pois possu-
Parsons a Louis Althusser, insistiram em dizer       mos valores que nos do um senso de IDENTI-
que uma sociedade se mantm coesa porque as          DADE; dizendo de outra forma,  impossvel
normas so compartilhadas (ver NORMA). Essa          especificar interesses que no contenham com-
posio tende ao relativismo, isto ,  doutrina     ponentes culturais. Dizer isso, no entanto, no
de que, na expresso de Pascal, "a verdade          implica aceitar indiscriminadamente o idealis-
diferente do outro lado dos Pireneus". Isso leva     mo. Para sermos especficos, h tudo o que se
um pensador rigoroso como Peter Winch a in-          dizer contra o deslize entre afirmar que os seres
sistir em que as pretenses da cincia social a      humanos tm valores (perfeitamente verdadei-
criar leis universais so absurdas. Podemos no      ro) e aceitar a viso de que as sociedades so
gostar de mgica, mas ela "funciona" para os         mantidas coesas/sujeitadas por um conjunto de
Azande da frica Oriental, da mesma forma            valores (extremamente falso). Podemos, em ou-
como a cincia funciona para ns: tudo que a         tras palavras, aprender atravs da cultura, mas
investigao social pode fazer  traduzir e servir   isso no significa que a cultura seja a nica fora
de mediadora entre mundos separados, mas             capaz de explicar a mudana ou a coeso na
iguais. Em violento contraste, os "materialis-       sociedade. Um volume bastante grande de in-
tas" vem as ideologias como vus ou mscaras        dcios empricos est hoje disponvel para de-
para grupos de interesses; ainda mais impor-         monstrar que classes perigosas ou inferiores
tante, tendem a acreditar que a maioria dos          raramente compartilham os valores da cultura
agentes tem plena conscincia dos seus pr-          oficial (ver tambm CONTRACULTURA). Esses
prios interesses e, de acordo com isso, no tm      indcios no devem,  claro, ser encarados como
probabilidades de engolir crenas que os pode-       significando que os interesses "reais" e "mate-
rosos tentam impingir-lhes. A ordem social,          riais" so a nica preocupao dos agentes so-
desse ponto de vista, depende do poder nu e cru
                                                     ciais. O que est realmente em questo  a
ou de uma harmonia natural de interesses entre
                                                     natureza da ideologia. Para que um idealismo
agentes racionais e auto-interessados -- sendo
                                                     sem barreiras faa sentido,  necessrio que as
o marxismo um exemplo do primeiro caso e a
                                                     ideologias sejam claras e consistentes, isto ,
economia neoclssica, do ltimo.
                                                     capazes de dirigir a vida social. A maior parte
    Nenhuma dessas posies faz muito sentido.
                                                     das ideologias simplesmente no  assim: so
Os materialistas deixam implcito, de forma
implausvel, que a histria teria seguido o mes-     sacos de gatos, cheios de diferentes opes,
mo curso, ainda que paganismo, religies do          utilizveis  vontade por diferentes grupos. Os
mundo e marxismo nunca tivessem sido inven-          aldees medievais achavam-se em oposio 
tados. Mais ainda, isso impe a questo de por       hierarquia eclesistica, mas em nome da pobre-
que algum se d ao trabalho de inventar uma         za de Cristo. Se  verdade que temos valores,
crena. No caso do marxismo, ou as foras            continua ento a ser o caso de sermos mais do
produtivas so irresistveis, caso em que no        que mera forragem para alimentar conceitos. E
existe necessidade de justific-las, ou precisam     se um pensador como Winch est absoluta-
ser justificadas, caso em que no so irresis-       mente certo ao enfatizar a realidade da magia
tveis. Caso ainda mais importante  a efetiva       para os Azande,  a mais pura afetao intelec-
falta de energia que se esconde por trs da viso    tual querer fazer crer que a mgica se encontra
de indivduos buscando calcular seus interesses      no mesmo nvel das prticas cognitivas da cin-
materiais "reais". Isso fica claro quando pensa-     cia moderna. A cincia social depende crucial-
mos tentar "calcular" se casamos ou no com          mente dessas prticas cognitivas: no mnimo,
algum. Precisamos de um coup de foudre para         inclumos na mesma categoria as crenas locais
esse tipo de acontecimento da vida, pelo sim-        (ignorando, por exemplo, a pretenso de que o
ples motivo de nossas identidades estarem en-        isl se difundiu porque era verdadeiro, de forma
volvidas: o clculo presume um eu solidrio e        a investigar as condies s quais ele correspon-
isolado, e  praticamente intil quando uma          deu), enquanto no mximo investigamos ques-
deciso envolve aquilo que somos ou que po-          tes -- tais como a capacidade de um sistema
demos vir a ser -- como os romances de Dos-          de crena como a magia de se manter em face
toievsky demonstram de maneira brilhante. A          da contradio -- precisamente porque sabe-
maioria de ns no  "desfibrada", como Ham-         mos que as prticas locais so equivocadas.
                                                                                        cultura   165


O impacto das idias                                 capaz, para tomarmos um exemplo bvio, de se
    A libertao da falsa anttese entre idealismo   acomodar ao imprio, depois  sua ausncia e a
e materialismo permite-nos ver trs meios pelos      um sistema de estados, e igualmente conseguiu
quais as idias tm ocasionalmente exercido um       primeiro endossar a escravido e em seguida
impacto autnomo sobre a sociedade. Esses trs       opor-se a ela. No obstante, existem ocasies
meios podem ser mais bem descritos, tendo-se         em que o discurso no afeta de forma autnoma
em mente a preocupao de Max Weber com a            o registro histrico. Pode haver de fato uma
"racionalizao" do Ocidente. Se por um lado         afinidade eletiva entre idia e circunstncia,
algumas de suas percepes permanecem vli-          mas o repertrio de opes dentro de uma ideo-
das, os estudiosos contemporneos, por sua par-      logia particular, em termos do qual a circuns-
te, tambm complementaram de maneira til            tncia pode ser compreendida e justificada, po-
essas percepes.                                    de ser ocasionalmente limitado. Esse ponto de
                                                     vista provavelmente nos ajuda a compreender
    Weber  mais conhecido por seu A tica
                                                     a ascenso do Ocidente, ainda que no de for-
protestante e o esprito do capitalismo (1904-
                                                     mas tradicionais. O desenvolvimento da cincia
05). Esse livro no dizia que o capitalismo
                                                     moderna -- como John Milton, muito no es-
surgiu simplesmente como resultado do prote-
                                                     prito de Weber, destacou -- efetivamente pa-
stantismo; ao contrrio, e em sintonia com sua       rece depender dos termos particulares de dis-
noo de "afinidades eletivas", Weber insistia       curso embutidos no legado do Ocidente. O
em que novas idias deram sentido  vida dos         conceito fundamental de "lei da natureza" re-
membros ordeiros das cidades singularmente           pousa na combinao da investigao grega da
autnomas do Noroeste da Europa. O fato de a         natureza com uma concepo judaica de uma
circunstncia estar to envolvida com a cultura      divindade oculta, austera e ordenada, que no
significa que o primeiro meio com que as idias      revela nem seus desgnios, nem a ordem das
exercem impacto  o menos autnomo dos trs.         coisas, mas fora a humanidade a interpretar a
No obstante, existe tudo a ser dito no sentido      aparncia superficial das coisas como pistas
de que isso seja especificado como uma fora         para o seu desgnio maior. A pobreza da cincia
social caracterstica. O que est realmente em       muulmana pode muito bem ser explicada pe-
questo aqui  a moral. Se um marxista pudesse       los termos muito diferentes em que a divindade
aceitar a explicao de Weber, continua a ser o      foi concebida: to onipotente quanto a divin-
caso de que o marxismo imagina, efetivamente         dade do Ocidente, mas diferindo dela por ser
no esprito de B.F. Skinner, existir uma virtual     propensa a interferir, em base meramente oca-
correspondncia entre circunstncia e idia, de      sional, no funcionamento do mundo. De manei-
tal forma que o estmulo da circunstncia ir        ra mais geral, o que  digno de nota a respeito
provocar automaticamente uma reao ideol-          do isl  a sua intransigncia, a sua dificuldade
gica. No h nenhum motivo pelo qual deva-           em se adaptar a novas circunstncias, dado que
mos aceitar tal coisa. Uma classe ou grupo           "os portes da interpretao" foram tidos como
necessita acreditar no seu destino moral para ser    finalmente fechados logo depois da morte de
capaz de grandes aes coletivas. De maneira         Maom.
geral,  classe operria faltou precisamente esse        O terceiro e ltimo meio pelo qual as idias
tipo de fora. E foi um marxista, Lucien Gold-       podem exercer um impacto sobre a sociedade 
mann, que mostrou como um grupo de elite             o mais importante. O que est em questo  algo
podia ser prejudicado pela sua falta de moral.       bem mais forte do que a alegao de Weber de
No final do sculo XVII e incio do sculo           que as idias podem determinar os caminhos
XVIII, a falta de confiana da noblesse de robe      pelos quais o interesse orienta a ao. Isso  de
francesa foi extremamente exacerbada pelo            pouca ajuda em algumas circunstncias, na me-
mundo mental tortuoso e trgico criado por           dida em que indica que os caminhos j foram
Pascal e Racine, seus representantes ideolgi-       abertos e que uma ordem social j se encontra
cos.                                                 no lugar. Pois os maiores momentos de fora
    Os idealistas equivocam-se, conforme se          ideolgica foram aqueles em que os intelectuais
observou, ao imaginar que a maioria das ideo-        serviram -- para usar o melhoramento de Mi-
logias  to inflexvel que ficamos presos aos       chael Mann  idia de Weber -- como "as-
termos de seus discursos. A cristandade foi          sentadores de trilhos" ou "cavadores de cami-
166   cultura


nhos", ou seja, como os fabricantes da socie-       no mundo moderno provavelmente dizem mais
dade. O poder ideolgico pode levar  criao       a respeito da posio dos artistas, presos nas
da sociedade. A mesma idia pode ser mais bem       frestas do mercado, do que a respeito de senti-
ilustrada se pensarmos em Durkheim. Se acei-        mentos de setores inteiros da populao. Mas o
tamos o ponto de vista de que a presena de         que  mais digno de nota nessa viso da arte 
normas define uma sociedade, ento a socie-         o seu idealismo. O funcionamento da sociedade
dade do Noroeste da Europa entre, digamos,           tido mais uma vez, e de maneira ingnua,
800 e 1199 d.C. foi a cristandade latina. Ora,      como dependente unicamente do fator ideol-
dizer isso , na verdade, melhorar a idia de       gico.
Durkheim. Exatamente tal como o marxismo                Se a relao da arte com a ordem/desordem
cru, Durkheim encarava a crena como um             social preocupou muito o pensamento social
reflexo de outros processos sociais. Mas no         moderno, o mesmo efeito tambm produziu a
incio da Idade Mdia a cristandade no era o       relao entre cultura "elevada" e "baixa" cultu-
reflexo da sociedade. Era a sociedade. Pois foi     ra. Esses termos podem ser utilizados com pro-
a Igreja que estabeleceu as regras sobre guerra     veito: o grau em que a cultura oficial  compar-
externa e paz interna. Mas, se formos investigar    tilhada atravs da sociedade, na histria e em
a gnese dessa fora ideolgica, seremos fora-     circunstncias contemporneas,  uma questo
dos a reconhecer que, num outro sentido, Durk-      adequada  investigao emprica -- uma abor-
heim ainda tem muito a nos dizer a respeito de      dagem que nos permite reconhecer que as cate-
crena. A sociedade crist foi inicialmente cria-   gorias consensuais de um Parsons no deixam
da no Imprio Romano pelo envio de mensa-           de ter mrito na anlise dos Estados Unidos,
gens, as epstolas, entre comunidades de habi-      sendo o conjunto de categorias, claro, um re-
tantes urbanos -- artesos, mulheres, escravos      flexo dessa formao social extraordinariamen-
libertados -- que no podiam tomar parte algu-      te durkheimiana. Uma abordagem semelhante
ma na cultura oficial, porm ficavam acima do       poderia ser proveitosamente adotada para um
mundo minimalizado do campesinato. Podere-          debate correlato -- quanto a se os padres
mos compreender melhor o nascimento dessa           artsticos so "diludos" pela arte popular. s
religio mundial se nos lembrarmos que reli-        vezes, a arte popular enriqueceu a arte "eleva-
gio, segundo Durkheim,  "a sociedade ado-         da", o que foi certamente o caso no momento
rando a si mesma". A cristandade transformou        shakespeareano; mas do mesmo modo a orga-
pessoas, que de outra forma eram marginaliza-       nizao da comunicao de massa -- que difere
das, numa comunidade. Se o poder das idias         de forma to grande de um estado-nao para
s vezes depende do seu efetivo contedo, o que     outro -- pode ser tal que venha a acarretar a
pode importar ainda mais  a capacidade de unir     homogeneizao e a limitao. No campo da
pessoas em comunidade.                              cultura, h muito o que dizer a favor de um
                                                    afastamento de pressuposies a respeito de
As coisas "mais elevadas"                           coisas mais elevadas, de forma a se investigar,
    At este momento, a nfase foi no significa-    em vez disso, os funcionamentos sociais dos
do mais importante de cultura, isto , o sentido    mundos artsticos.
antropolgico de cultura como meio de vida.
Mas cultura tambm pode referir-se  arte -- a      Leitura sugerida: Abercrombie, N., Hill, S., e Turner,
                                                    B. 1980: The Dominant Ideology Thesis  Bell, Daniel
cujo respeito duas consideraes merecem ser        1976 (1979): The Cultural Contradictions of Capita-
feitas.                                             lism  Crone, Patricia 1989: Pre-Industrial Societies
    Muitos pensadores modernos acreditam que         Elster, J. 1989: The Cement of Society  Gellner,

a arte une a sociedade ou a divide: Daniel Bell     Ernest 1973: Cause and Meaning in the Social Sciences
                                                     Goldmann, Lucien 1956: The Hidden God  Mann,
consegue combinar essas posies ao afirmar
                                                    M. 1986: Sources of Social Power. Vol.1: A History of
que a arte burguesa apoiou o capitalismo, en-       Power from the Beginning to AD 1760  Milton, John
quanto as exigncias da arte modernista por         1981: "The origins and development of the concept `law
uma gratificao instantnea so uma ameaa         of nature'". European Journal of Sociology 23  Weber,
ao mundo moderno (ver tambm SOCIOLOGIA DA          Max 1904-5 (1976): The Protestant Ethic and the Spirit
ARTE).  o caso de se duvidar da preciso des-      of Capitalism  Winch, Peter 1958 (1976): The Idea of
critiva desse quadro: o desencanto e a alienao    a Social Science and its Relation to Philosophy.
vistos pelo modernismo como caractersticas                                                JOHN A. HALL
                                                                           cultura da juventude    167


cultura da juventude Considerada distinta             cas sexuais e comunidades. Em qualquer era,
da cultura dominante, a cultura da juventude          porm, nem todos os jovens apiam a cultura
refere-se a smbolos, crenas e comportamentos        da juventude mais ampla. Consideraes im-
singulares dos jovens da sociedade. A expresso       portantes para a identificao de uma cultura da
tem dois usos. Primeiro, representa os valores        juventude incluem at que medida os jovens
e normas da populao jovem em geral na               endossam e expressam um conjunto comum de
sociedade; e segundo, inclui os ideais e prticas     valores e normas.
de subgrupos juvenis especficos, tais como               Uma orientao antagnica para a sociedade
grupos subculturais ou contraculturais (ver CON-      adulta reflete-se nas contraculturas ou subcul-
TRACULTURA). As discusses e estudos sobre a          turas desviantes, de nmeros relativamente pe-
cultura da juventude resultaram em literaturas        quenos de jovens (Brake, 1985). As subculturas
um tanto distintas, tratando dos anos de adoles-      aceitam certos aspectos dos sistemas de valores
cncia (incio e meados da adolescncia) e do         predominantes, mas tambm expressam senti-
estgio de juventude (fim da adolescncia e           mentos e crenas exclusivas de seu prprio
incio da vida adulta). Est em questo em que        grupo, enquanto contracultura  uma subcultura
medida as atitudes e comportamentos dos jo-           que desafia a cultura e a sociedade dominantes.
vens se desviam das normas da sociedade (adul-        Um meio de distinguir entre as duas formas de
tas ou juvenis) e o apoio relativo dado pela          cultura da juventude  notar que os grupos
juventude a tipos particulares de atividades re-      subculturais se retiram da sociedade convencio-
lacionadas a seus pares.                              nal, enquanto os grupos contraculturais so
    Tendncias histricas como a moderniza-           mais contestadores e confrontadores. Entre os
o, a industrializao, a urbanizao, a ascen-      exemplos de grupos subculturais incluem-se os
so da classe mdia e a ampliao da educao         artistas e escritores de vanguarda, os delin-
pblica fomentaram a segregao com base na           qentes juvenis, as gangues, os bomios e os
idade e a estratificao da juventude, o que por      centros de jovens autnomos (comunidades de
sua vez promoveu o desenvolvimento da cultu-          "espao livre"). A juventude contracultural po-
ra da juventude (Parsons, 1964). A formao de        de ser grandemente expressiva (cults, hippies,
culturas jovens recebeu mpeto no sculo XIX.         skinheads, punks), ou seus membros po-
Na Europa, com a glorificao e romantizao          dem participar de atividades polticas rebeldes,
dos jovens por filsofos, escritores, artistas e os   tais como grupos radicais utpico-ideolgicos
"combatentes pela liberdade da juventude" em          e dissidentes polticos agressivos (ver tambm
atividade durante a Era da Revoluo (Gillis,         NOVA ESQUERDA; NOVA DIREITA). A classe social 
1974). Culturas jovens continuaram a se formar        um fator significativo na diferenciao de gru-
atravs da histria moderna -- s vezes em            pos subculturais na sociedade. Por exemplo,
separado e s vezes em ligao com movimen-           certas subculturas de juventude apelam ampla-
tos jovens por mudanas polticas (ver MOVI-          mente a jovens das classes mais baixas e da
MENTO DA JUVENTUDE). Na ltima metade do              classe operria (vndalos nos estdios espor-
sculo XX, os avanos tecnolgicos, as comu-          tivos, punks, roqueiros), enquanto outras sub-
nicaes rpidas e a comercializao tm faci-        culturas e contraculturas atraem jovens de clas-
litado a difuso de atividades relacionadas          se mdia (bomios, hippies e yuppies).
juventude numa escala mundial.                            Compreender a cultura da juventude (seja
    A cultura jovem mais ampla -- s vezes            ela de massa, subcultural ou contracultural)
chamada de cultura jovem "generalizada", "de          implica consideraes tanto scio-histricas
massa" ou "pop" -- no representa um rompi-           quanto psicolgicas. De uma perspectiva scio-
mento marcante com a sociedade adulta, mas            histria, estrutural-funcional, o conflito de ge-
gira em torno da adoo de certas ondas, modas,       raes e as teorias interacionistas simblicas
buscas de lazer e estilos de vida por amplos seg-     foram empregados para explicar a ascenso das
mentos da populao jovem (Douglas, 1970).            culturas jovens. Tomadas em conjunto, essas
Por exemplo, os anos 20 ("anos loucos", "era          teorias indicam que as culturas de juventude
do jazz") e os anos 60 ("era de aqurio", "ps-       tm probabilidade de se formar quando o tama-
materialismo") foram perodos extraordinrios         nho da coorte jovem  relativamente grande;
em que os jovens criaram seus prprios estilos        quando as sociedades esto passando por rpi-
de roupa, linguagem, expresso artstica, prti-      das mudanas, so pluralistas e tm problemas
168   cultura de massa


para integrar seus jovens nas instituies da        o status quo e seu desejo de criar um mundo
corrente predominante (devido a fatores como         melhor (ou pelo menos diferente) para a sua ge-
desemprego, lares rompidos, alta mobilidade,         rao. Qualquer que seja a interpretao, existe
alienao, segregao, conflitos de classe e de      um acordo generalizado em que as culturas de
status social); e quando membros da gerao          juventude representam uma fora para a mu-
mais jovem cresceram sob condies diferentes        dana e so influenciadas pela sociedade mo-
das dos mais velhos e expressam insatisfao         derna, bem como exercem um impacto signi-
com a sociedade convencional, criando seus           ficativo sobre ela.
prprios valores e estilos de vida.
                                                     Leitura sugerida: Bernard, J., org. 1961: "Teen-age
    De uma perspectiva psicolgica, as expli-        culture". Annals of the American Academy of Political
caes sobre as culturas da juventude tm-se         and Social Science 338  Frith, S. 1984: The Sociology
baseado nas teorias psicodinmica, desenvol-         of Youth  Mannheim, K. 1952: "The problem of gene-
vimentista, cognitiva, de personalidade, beha-       rations". In Essays on the Sociology of Knowledge, org.
viorista e scio-psicolgica. As alegaes so       por P. Kecskemeti, p.226-322  Smith, D.M. 1985:
de que esses jovens que apiam algum tipo de         "Perceived peer and parental influences on youths'
                                                     social world". Youth and Society 17, 131-56  Yinger,
cultura de juventude podem ser motivados pe-         J.M. 1982: Countercultures.
las necessidades dos ciclos de vida do jovem
                                                                               RICHARD G. BRAUNGART e
(formao da identidade, autodeterminao, ex-                                MARGARET M. BRAUNGART
perincias psicossociais, associao e ligao de
obrigao com seus pares); por traos da persona-    cultura de massa Usada em geral de modo
lidade (o desejo de romper os limites do conven-     pejorativo, para identificar a cultura da SOCIE-
cional, o engajamento num comportamento de           DADE DE MASSA ou, de maneira mais ampla, da
risco elevado, pouco controle dos impulsos, con-     massa da populao nas sociedades modernas,
troles pessoais); e pela concluso de que existe     a cultura de massa  assim caracterizada no
mais a ganhar do que a perder envolvendo-se em       apenas por se tratar da cultura das massas, ou
alguma forma de atividade ligada a seus pares e,     porque  produzida para o consumo das massas,
por a, entrando em grupos de referncia que         mas porque dela se diz que lhe faltam tanto o
apiam seus valores e objetivos.                     carter reflexivo quanto a sofisticao da "cul-
    As concluses obtidas no estudo de culturas      tura elevada" das elites sociais, culturais ou
de juventude podem ser parcialmente influen-         educacionais, tanto quanto o carter direto e a
ciadas pelos procedimentos de pesquisa empre-        simplicidade das culturas populares das socie-
gados. Por exemplo, levantamentos de cultura         dades tradicionais (ver tambm CIVILIZAO).
comparada de jovens indicam que a maioria                Embora originalmente uma reao elitista s
deles apia os valores de sua sociedade, en-         conseqncias culturais, reais e imaginrias, da
quanto estudos de observao e entrevistas com       democratizao poltica, e  aplicao da tecno-
grupos juvenis especficos provavelmente in-         logia  reproduo e difuso de produtos cultu-
dicaro a existncia de insatisfao acoplada a      rais, o pessimismo dos crticos da cultura de
exigncias altamente ativas e intensas por mu-       massa refletiu-se na obra de crticos esquer-
danas na sociedade por parte dos jovens (Braun-     distas das sociedades capitalistas de consumo,
gart e Braungart, 1986; Dornbusch, 1989). Inves-     mais notoriamente no marxismo da ESCOLA DE
tigaes empricas da cultura de juventude po-       FRANKFURT.
dem beneficiar-se de uma estratgia mltipla de          Existem verses tanto elitistas quanto am-
pesquisa: o emprego de metodologias quantita-        plamente democrticas da crtica da cultura de
tivas e qualitativas, incluindo nveis de anlises   massa, embora elementos das duas estejam em
histrica, de sociedade, de grupo e individual;      geral associados. Aos olhos de seus crticos
e o uso de planejamentos comparativos (de            elitistas, o que pe a perder a cultura de massa
cultura, histricos, intergrupos e intragrupos).      que, para ser facilmente acessvel s massas
    Ao mesmo tempo em que alguns cientistas          iletradas, ela busca agradar seus sentimentos e
sociais tm interpretado a formao de culturas      emoes menos nobres, porm praticamente
de juventude como indicativas de uma "falha          ubquos. A cultura de massa , de acordo com
na socializao adulta", outros tm afirmado         isso, superficial e sentimental: dessa forma, um
que as vrias formas de cultura de juventude         colaborador da New York Review descreveu a
significam o descontentamento dos jovens com         msica popular como algo que expressa "os
                                                                              cultura de massa   169


sentimentos mais profundos dos homens mais           dronizava seus produtos fsicos. O resultado era
superficiais". A crtica democrtica da cultura      o empobrecimento espiritual das massas e uma
de massa contrasta-a com a cultura popular           indstria do entretenimento montada para a
autnoma e enfatiza o nvel em que sua produ-        diverso passiva.
o e distribuio se encontram nas mos das             Apesar do papel exaltado que ele propunha
elites capitalistas.                                 para os crticos literrios, Leavis no era sim-
    A posio do artista como criador de cultura     plesmente elitista. Acreditava, diferentemente
 um tema recorrente. A caracterizao, feita        de Eliot, que a verdadeira ameaa  vitalidade
por Matthew Arnold, dos artistas "aliengenas"       cultural vinha da alienao dos pensadores cria-
encontra eco na concepo de Karl Mannheim           tivos com relao  cultura comum. As edies
da intelligentsia produtora de cultura como um       em massa, os clubes de livros, os jornais e a
estrato relativamente distanciado das classes da     COMUNICAO DE MASSA em geral minavam o
sociedade moderna. (Ver tambm SOCIOLOGIA            relacionamento orgnico entre as elites criati-
DA ARTE.) A partir dessa perspectiva, a cultura      vas e um pblico leitor mais amplo. A ameaa
de massa representa a ameaa de que a comer-         da cultura de massa no vinha de baixo, na
cializao impenitente de todos os aspectos da       forma de eroso das diferenciaes de classe,
vida moderna venha a integrar o intelectual          mas de cima, na forma de uma cultura de massa
excessivamente na vida econmica da socie-           capitalista, orientada para o lucro.
dade de classes.                                         Temas semelhantes podero ser encontrados
    O poeta e crtico T.S. Eliot rejeitou explici-   na obra do socilogo C. Wright Mills. Mills
tamente o diagnstico de Mannheim. Repre-            afirmava que, na sociedade norte-americana
sentada em geral como aristocrtica ou elitista,     dos anos 50, a crescente especializao das
at nietzscheana, a crtica de Eliot  cultura de    funes e o colapso do pluralismo levaram a
massa pode ser descrita de maneira mais precisa      uma sociedade de massa em que o poder se
como conservadora. Eliot acreditava que a me-        encontrava cada vez mais concentrado e a cul-
lhor garantia contra o rebaixamento de nvel e       tura era uma questo de manipulao pela elite.
a homogeneizao da cultura era a manuteno         A educao de massa, longe de elevar o nvel
de uma sociedade estratificada, na qual a cria-      cultural geral, produz apenas um "analfabetis-
tividade cultural de cada classe pudesse ser         mo educado", na medida em que a educao
protegida e a herana cultural comum preservada.     perde a sua funo crtica e se torna integrada
    Em geral includo na mesma categoria de          com as exigncias da economia, deixando ape-
Eliot encontra-se o crtico literrio F.R. Leavis.   nas a cultura amena, pouco exigente e confor-
No entanto, se Leavis participava do alarme de       mista dos subrbios dos colarinhos- brancos.
Eliot contra o que ambos acreditavam ser o               A crtica social norte-americana foi combi-
declnio dos padres artsticos e do gosto popu-     nada com o marxismo da Escola de Frankfurt
lar, e se, como Eliot, ele colocava a maior parte    em O homem unidimensional (1964), de Her-
da culpa no desenvolvimento da produo me-          bert Marcuse. Marcuse via a cultura de massa
cnica da cultura, fosse na forma do cinema, dos     como o principal agente de um consenso social
discos ou da fico em brochuras, a crtica de       manipulado que negava os reais interesses hu-
Leavis  cultura de massa era, no obstante,         manos. Os comentaristas apontaram at que a
mais democrtica. Leavis lamentava a perda de        disponibilidade da obra de Marcuse nas bancas
uma "cultura comum", cuja destruio comea-         dos livros nos supermercados era uma prova de
ra com a chegada da mquina e fora acelerada         que a cultura se havia transformado em mera
pelo desenvolvimento do automvel, o qual,           mercadoria.
devido  mobilidade que proporcionava, tendia            Marcuse proporcionou uma verso menos
a desenraizar os indivduos da famlia e da          hermtica da crtica  cultura de massa proposta
comunidade. No cerne da crtica de Leavis ha-        pelos principais tericos da Escola de Frank-
via o mito romntico da sociedade pr-indus-         furt, T.W. Adorno e Max Horkheimer. Estes
trial como um reino de comunidades autnticas,       afirmavam que a "arte elevada", ao contrrio da
orgnicas, ignorantes do conflito entre capital e    cultura de massa, no busca reconciliar o pbli-
trabalho. A moderna produo de massa, em            co com a ordem econmica e poltica predomi-
contraste, padronizava a experincia emocional       nante, mas tem uma funo transcendente, cr-
do trabalhador, to garantidamente quanto pa-        tica. Como as obras da cultura de massa devem
170   cultura poltica


apelar a um pblico vasto e homogneo, no           comportamento empiricamente observvel (ver
deixam espao para a imaginao e no empe-          COMPORTAMENTALISMO).       Por esse motivo, a
nham o leitor numa dialtica autntica, mas em       maior parte das anlises tem a cautela de es-
vez disso o tratam como objeto passivo. A            tabelecer uma diferena conceitual entre cultu-
indstria da cultura de massa remove qualquer        ra poltica e comportamento poltico, uma vez
oposio genuna s tendncias reificantes do        que a primeira pretende explicar -- ao menos
capitalismo e constitui, assim, a base do capita-    em parte -- o segundo. Em particular, os cien-
lismo moderno.                                       tistas polticos tm-se preocupado em explorar
   Os defensores da cultura de massa afirmam         as ligaes entre democracia estvel e certos
que, como resultado da alfabetizao quase uni-      tipos de culturas polticas. O conceito  encara-
versal, da difuso do conhecimento pela cultura      do como poderosa varivel explicativa, que d
de massa, incluindo a televiso, e de um cres-       conta do fracasso da democracia ao estilo oci-
cente tempo de lazer, a "arte elevada" hoje          dental em firmar razes nos pases menos desen-
desfruta de um pblico mais amplo do que             volvidos do Terceiro Mundo, onde a fragmen-
jamais teve. As culturas populares podem ser         tao cultural e os hbitos tradicionais de pas-
"contaminadas", mas a diversidade cultural no       sividade, ao que se supe, minam os padres
desapareceu, o impacto da cultura de massa          constitucionais (Almond, 1965, p.400-3). Tam-
pelo menos ambguo, e a inovao cultural            bm se afirmou que uma abordagem cultural
continua. Talvez, mas quando obras de arte so       pode ajudar a explicar a diversidade de sistemas
adquiridas como investimentos por fundos de          comunistas, na medida em que os revolucion-
penso e so as perspectivas de sucesso comer-       rios precisam inevitavelmente adaptar seu mo-
cial que determinam se um filme ser feito ou        delo marxista para se adequar  herana tico-
um livro publicado, a crtica  cultura de massa     poltica especfica do pas em questo (Tucker,
e  "indstria cultural" conserva um pouco da        1973).
sua fora.                                               Se a cultura poltica efetivamente consegue
Leitura sugerida: Giner, S. 1976: Mass Society 
                                                     explicar alguma coisa,  uma questo aberta a
Swingewood, A. 1977: The Myth of Mass Culture.       dvidas. Em primeiro lugar,  difcil determinar
                                     C.A. ROOTES
                                                     os componentes precisos da cultura poltica de
                                                     uma nao. Os primeiros estudos eram "impres-
cultura poltica Esse conceito data dos anos         sionistas" e pareciam inferir orientaes subje-
50, quando se tornou um instrumento analtico        tivas do comportamento prtico que essas
da cincia poltica. Gabriel Almond, um dos          orientaes pretendiam ter causado. Assim, no
pioneiros dessa nova abordagem, definiu a cul-       primeiro tratamento dado por Almond ao tema,
tura poltica como "um padro particular de          as jogadas de barganha dos polticos norte-ame-
orientaes para a ao poltica", um "conjunto      ricanos eram encaradas como demonstrao de
de significados e propsitos" dentro do qual         que a Amrica do Norte possua "uma cultura
cada sistema poltico est embutido (1956,           poltica racional, calculista, negociadora e ex-
p.396). A cultura poltica, portanto, refere-se s   perimental", enquanto -- ao mesmo tempo --
crenas, valores e smbolos expressivos (a           essas jogadas eram explicadas pela "cultura"
"bandeira", a monarquia e assim por diante) que      (1956, p.398). O carter circular desse racioc-
compreendem o contexto emocional e de ati-           nio no fugiu  observao crtica, e nos anos
tudes da atividade poltica. A anlise de sis-       60 se fizeram tentativas de descobrir atitudes de
temas polticos em termos de seus atributos          massa atravs de mtodos rigorosos de obser-
culturais tem antecedentes distantes. J no s-      vao (Almond e Verba, 1963). Mas no  de
culo XVIII, Montesquieu achou adequado rela-         maneira alguma bvio que VALORES e crenas
cionar os princpios constitucionais de uma na-      populares possam ser inferidos atravs de tc-
o aos seus "costumes ou moral". O ressurgi-        nicas de levantamento e anlise de dados. Como
mento e o desenvolvimento sistemtico dessa          os crticos tm demonstrado,  notoriamente
abordagem durante os ltimos 30 ou 40 anos           difcil formular perguntas inequvocas a serem
devem ser compreendidos contra o pano                feitas aos que esto sendo pesquisados, e essas
de fundo da "revoluo comportamental", que          perguntas podem, de qualquer modo, ser dema-
rejeitava o estudo formal, jurdico-institucio-      siado precisas para captar as atitudes ambiva-
nal, da poltica e, em vez disso, enfatizava o       lentes e cambiantes das pessoas comuns (Fe-
                                                                                  cultura poltica    171


mia, 1979). De qualquer forma, dados "concre-       considerado "burgus" explicar a persistncia
tos" no anulam a necessidade de intuio e         da democracia liberal fazendo referncia a con-
interpretao por parte do analista. Por exem-      ceitos e normas amplamente compartilhados.
plo, o quanto uma atitude precisa ser difundida     No entanto marxista algum assumiria que esse
para poder ser includa na cultura poltica de um   CONSENSO surge plenamente formado do solo
pas? Se, digamos, 51% da populao adulta          nacional; seria sua obrigao tentar fazer re-
so classificados como "condescendentes", is-       montar a perspectiva cultural predominante a
so significa que a cultura poltica  condescen-    suas razes scio-econmicas.
dente? No surpreende que a literatura tenha            Isso leva-nos  deficincia crucial da anlise
uma abundncia de observaes vagas e at           da cultura poltica, como normalmente pratica-
banais (tais como "a cultura poltica britnica    da. Seus praticantes parecem esquecer que a
uma mistura de tradio e modernidade").            cultura  o produto de muitas e muitas influn-
    Mesmo que pudssemos determinar uma             cias, e que seu uso como uma varivel explica-
cultura poltica em particular com preciso ma-     tiva nunca deveria ir alm de um fator interve-
temtica, no se seguiria da, necessariamente,     niente. A efetiva relao entre a ordem norma-
que as orientaes culturais assim determinadas     tiva e estruturas polticas, sociais ou econmi-
tenham qualquer eficcia causal. Alguns crti-      cas deve ser provavelmente de reforo mtuo
cos afirmam que o que passa por cultura poltica    no decorrer do tempo, e essa interao torna
, em grande parte, criao do sistema poltico     difcil decidir qual fator, se algum,  mais im-
que essa cultura supostamente deveria explicar.     portante. A cultura poltica deve fazer parte de
Se, para tomarmos um exemplo, os italianos so
                                                    uma explicao do desempenho dos sistemas
alienados de suas instituies polticas, esse
                                                    polticos, mas ao final precisaremos examinar
estranhamento deve, em certo grau, resultar do
                                                    como as orientaes culturais vieram a se for-
desempenho inadequado dessas instituies. A
                                                    mar. E, ainda, o homem  um animal simblico
maneira como um sistema se desempenha, alm
do mais, ser influenciada por seus prprios        vivendo uma vida mental. Suas aes refletiro
traos caractersticos. Na Itlia, o imobilismo     o modo como interpreta o seu meio ambiente,
poltico pode ser visto como um efeito da repre-    e essa interpretao ser moldada pelo seu "ma-
sentao proporcional, a qual -- dada a nature-     pa cognitivo" (Almond, 1956, p.402), por suas
za das divises sociais do pas -- propicia         crenas e atitudes. Tendo em mente esse trus-
governos de coalizo instvel (Sartori, 1969).      mo, podemos concluir que o conceito de cultura
    Os marxistas ortodoxos tambm tm ques-         poltica pode, ao menos potencialmente, au-
tionado a validade das explicaes culturais. Na    mentar a nossa compreenso da vida poltica.
sua perspectiva, idias e crenas so meramente     Leitura sugerida: Kavanagh, D. 1972: Political Cul-
derivadas da estrutura social e econmica. O        ture  Nordlinger, E. 1967: The Working-Class Tories:
comportamento poltico , portanto, explicvel,     Authority, Defence, and Stable Democracy  Pye, L. e
em ltima anlise, em termos de conflito de         Verba, S., orgs. 1965: Political Culture and Political
classe ou outras presses materiais. Sob a in-      Development  Rosenbaum, W.A. 1975: Political Cul-
fluncia de Antonio Gramsci, no entanto, al-        ture  White, S. 1979: Political Culture and Soviet Po-
guns marxistas atuais tm admitido o potencial      litics.
explicativo dos fenmenos culturais. J no                                            JOSEPH V. FEMIA
                                              D
dana A crena de que a dana  uma arte                  em obras como Radha (1906) e White Jade
trivial, adequada apenas para diverso e entre-           (1926). Isadora Duncan abraou as idias da
tenimento, era comum no final do sculo XIX.              recm-fundada Unio Sovitica em Marcha
No incio do sculo XX os pioneiros da dana              eslava, que descrevia a opresso das massas e
moderna deram incio a sua revolta contra o que           o triunfante rompimento final de suas cadeias.
consideravam a decadncia do bal contempo-                   Um marco na histria da dana no sculo
rneo. Aquilo por que lutavam era um retorno              XX foi The Green Table (de 1932), do alemo
da dana  sua funo original na sociedade, ou           Kurt Jooss. Seu brado pela paz comeava e
seja, de instrumento para reforar o senso de             terminava com cenas de diplomatas discutindo
comunidade. O instrumento podia funcionar                 em seus respectivos lados na mesa de nego-
para reiterar crenas tradicionais, enfatizando           ciaes. Entre eles, Jooss traava trgicos retra-
sua contnua relevncia, ou podia despertar               tos dos desastres da guerra nas vidas de paz,
idias de protesto contra valores existentes. O           amantes e amigos.
primeiro rumo caracterizou, de maneira geral,                 Os personagens de The Green Table so
o gnero da dana folclrica. A dana teatral             abstraes generalizadas de tipos. O pensamen-
tendeu para o segundo, embora os bals abs-               to social na Unio Sovitica, porm, utilizou
tratos, mais que as danas de significado social,         narrativas envolvendo personagens especfi-
tenham predominado no decorrer deste sculo.              cos, em geral com incidentes tirados da histria.
    Com poucas excees, os ensastas sobre a             Uma das primeiras obras, A papoula vermelha
dana tm concentrado seus esforos na anlise            (1927), falava sobre um bravo capito sovitico
das estruturas formais da dana, em vez de                que  ameaado por um conspirador chins,
procurar o seu contedo social. A natureza da             mas salvo pelo sacrifcio de uma bailarina chi-
dana em si mesma orientou esse caminho. O                nesa. Mais recentemente Yuri Grivorovich, do
movimento pode, de fato, ser expressivo, mas              Bal Bolshoi, de Moscou, condenou a cruel-
o que melhor pode ser expresso atravs de mo-             dade da Rssia czarista em Ivan, o Terrvel, de
vimentos do corpo so sentimentos, emoes,               1975, e louvou os trabalhadores da Sibria em
e no idias intelectuais. Quando uma socie-              Angara, de 1976.
dade tradicional usa a dana para fomentar suas               Nos Estados Unidos, o pensamento social
crenas ou para demonstrar sua rebelio contra            explcito tem desempenhado um papel insis-
estas, ela cria uma imagem. Um grupo movi-                tente, embora em geral de menor importncia.
menta-se junto, firmando sua solidariedade. Ou            Durante os anos da Depresso do incio da
escolhe um formato narrativo, transmitindo sua            dcada de 30, a Worker's Dance League patro-
mensagem com um exemplo de como  trgico                 cinou concertos que promoviam o protesto so-
o abuso do poder ou com a glorificao do                 cial. Suas danas tinham ttulos como "Des-
triunfo do bem.                                           pejo" (Eviction), "Fome" (Hunger), "Desem-
    Embora as danas de significado social no            prego" (Unemployment). Em 1955 Anna So-
tenham dominado o panorama da dana teatral               kolow lamentou o vazio da vida urbana em
neste sculo,  possvel destacar algumas ex-             Rooms, no qual as pessoas vivem fisicamente
cees notveis. Entre os primeiros bailarinos            juntas, porm emocionalmente isoladas. Em
modernos, Ruth St. Denis e Ted Shawn volta-               1984 Nine Short Pieces about Defense Budget
ram-se para o misticismo do Oriente, para os              and Other Military Matters ("Nove peas cur-
valores atemporais dos mitos e lendas antigos,            tas sobre o oramento da defesa e outros as-

                                                    172
                                                                                            dana     173


suntos militares"), Liz Lerman, assumiu uma        para a expresso individual, em vez das que
posio mais especificamente poltica.             refletem valores coletivos. Os tradicionalistas
    A celebrao da herana negra comeou          que ainda restam acham difcil interess-los nas
com o trabalho de Katherine Dunham e Pearl         danas de seus antepassados. Pequenos grupos
Primus, seguido pelo grande sucesso da compa-      esto tentando, porm, e alguns vidos educa-
nhia de Alvin Ailey, cujo Revelations, de 1960,    dores europeus esto ensinando, nas escolas
com msica de negros spirituals, tornou-se um      primrias, danas folclricas a aprendizes inte-
tremendo sucesso popular. Nessa dcada, tam-       ressados. Em algumas aldeias africanas, esto
bm, jovens coregrafos comearam a traba-         sendo feitos esforos para manter festivais com
lhar com a improvisao e a expresso indi-        danas nativas que reafirmam os valores e cos-
vidual. Anna Halprin formou a sua Dancers'         tumes da comunidade.
Workshop (Oficina de bailarinos), de So Fran-         Outro tipo de soluo  apresentado pela
cisco, um grupo multitnico, dedicado  harmo-     companhia de dana teatral folclrica, que pega
nia racial e ao bem-estar da terra.                o esprito e os motivos orientadores bsicos dos
    Na Alemanha, Pina Bausch exps proble-         gneros nativos e os coreografam para apresen-
mas que as pessoas enfrentam na sociedade          tao por intrpretes hbeis em cenrios tea-
contempornea. Os personagens das suas obras       trais. Enquanto muitos afirmam que essas dan-
de teatro danado executam como que mecani-        as j no representam de maneira autntica
camente rituais arraigados; ao seu comporta-       suas fontes nativas, outros sustentam que elas
mento faltam sentimentos, falta motivao. Em      ainda servem para promover sentimentos de
1980, os bailarinos oscilam entre o exibicionis-   identidade e orgulho tnicos. O sucesso de gru-
mo agressivo e a solido irremedivel, entre a     pos como o conjunto de dana folclrica Mois-
letargia e a histeria.                             seyevm da Unio Sovitica, e da Companhia
    Na China, uma cano das plantaes de         Nacional de Dana do Senegal certamente ser-
arroz, "yang-ko", tornou-se o tema da vitria      ve a esse propsito.
dos comunistas em 1949. Os bailarinos usavam           Mas s vezes uma crise social  capaz de
os movimentos do trabalho, alm da maneira de      provocar a retomada de interesse pela dana co-
andar, de bater palmas e deixar oscilar o corpo,   munitria. Quando Nelson Mandela foi libertado,
para acompanhar a melodia. Seguiram-se nar-        em 1990, jovens sul-africanos foram para as ruas
rativas polticas. Em A moa de cabelos bran-      danar o Toyi-Toyi como expresso de sua alegria.
cos (de 1964), a herona sofre nas mos de um          J se afirmou muitas vezes que a dana 
cruel senhor feudal, at que seus cabelos negros   uma linguagem universal.  medida que este
ficam brancos, mas acaba sendo libertada pelo      sculo se aproxima do fim, essa afirmao vem
Oitavo Exrcito Vermelho, quando este toma         sendo substanciada. H professores trabalhan-
sua aldeia.                                        do nas escolas de vrios pases para familiarizar
    No Japo, o tratamento tem sido mais abs-      jovens bailarinos com diferentes tcnicas e es-
trato. Tendo comeado como um protesto con-        tilos. Com freqncia cada vez maior, coregra-
tra os horrores da guerra, o gnero conhecido      fos esto criando suas obras em companhias
como Bu-t apresenta bailarinos com cabeas        de danas de outras naes. Os intercmbios
raspadas e corpos pintados de branco, habitan-     no param. Enquanto esses movimentos con-
do uma paisagem de desespero. Com passos           tribuem para a compreenso internacional, o
lentos e movimentos que mal se distinguem, o       mundo da dana espera que as naes tambm
Bu-t mostra ao seu pblico um mundo pertur-       continuem a respeitar e a executar as danas que
bado, conseqncia da brutalidade global.          simbolizam a sua prpria identidade.
    No momento as danas no teatrais enfren-          Ver tambm SOCIOLOGIA DA ARTE; TEATRO.
tam problemas srios. Danas que brotaram de
experincias e das necessidades comuns de uma      Leitura sugerida: Boaz, Franziska, org. 1972: The
                                                   Function of Dance in Human Society  Brinson, Peter
comunidade esto hoje desaparecendo, junto         1983: "Scholastic tasks of a sociology of dance". Dance
com o modo de vida que as gerou. Com a             Research Journal 1, 100-7; 2, 59-68  Katz, Ruth 1973:
mudana das reas rurais para as urbanas, os       "The egalitarian waltz". Comparative Studies in Society
jovens passam boa parte do seu tempo de lazer      and History 15,3  Rust, France 1969: Dance in Society
assistindo  televiso. Quando danam, prefe-       Spencer, Paul, org. 1985: Society and the Dance.

rem formas que lhes ofeream a oportunidade                                      SELMA JEANNE COHEN
174   darwinismo


darwinismo Ver EVOLUO; NEODARWINIS-               individual autocentrado e o ponto de vista mar-
MO; DARWINISMO SOCIAL.                              xista de que os indivduos devem agir com
                                                    deliberao em uma entidade coletiva, como
darwinismo social Em meados do sculo               uma classe social, mostrou-se muito difcil de
XIX surgiram teorias que sustentavam que a          ser superado.
organizao social , ou se assemelha, a um             Como premissa terica, o organismo indi-
organismo vivo, que as sociedades sofrem mu-        vidual autocentrado, batalhando competitiva-
danas evolutivas e que essas seqncias de         mente pela existncia e pelo aperfeioamento,
EVOLUO so, ou podem ser, progressivas. As        representa uma noo aparentada quela subja-
conseqncias involuntrias, ou at biologica-      cente s filosofias antimarxistas de Friedrich
mente determinadas, das aes individuais, sua      Hayek e Karl Popper. Porm, como tericos que
agregao em mecanismos tais como o compor-         exaltam as virtudes do mercado no que diz
tamento competitivo e o mercado, e intenes        respeito a bens e idias, seus argumentos fun-
por parte do analista de tirar concluses norma-    cionam em um nvel muito acima dos simples
tivas e voltadas para programas de ao dis-        mecanismos biolgicos que uma teoria darwi-
tinguiram as continuaes dessa tendncia no        niana da sociedade exigiria. No final do sculo
sculo XX.                                          XX a SOCIOBIOLOGIA surgiu como sucessora do
    As teorias evolucionistas da transformao,     darwinismo social. As conseqncias para a
em termos de constituio biolgica e compor-       coletividade humana de um comportamento in-
tamento observvel, e da transformao huma-        voluntrio, tal como a AGRESSO geneticamen-
na em sentidos semelhantes precederam em            te determinada, so conceitualizadas teorica-
muito Charles Darwin (1859). No obstante, o        mente, embora os sociobilogos de forma algu-
darwinismo social e as teorias dele descen-         ma concordem quanto ao nvel em que uma
dentes entram em contradio, em vrios as-         ao abalizada pode ou deva interferir nesses
pectos, com os pontos de vista originais de         supostos processos dentro da sociedade.
Darwin. Este rejeitava qualquer noo de pro-
gresso na transformao de indivduos e na          Leitura sugerida: Hayek, F.A. 1983: Knowledge, Evo-
                                                    lution and Society  Holbrook, D. 1987: Evolution and
origem das espcies, e sentia fortes suspeitas      the Humanities  Jones, G. 1980: Social Darwinism
das tentativas de se tirarem concluses de sua      and English Thought  Peel, J.D.Y. 1971: Herbert
obra que fossem aplicveis  sociedade huma-        Spencer  Ruse, M. 1985: Sociobiology, 2ed.
na. A SELEO NATURAL referia-se  variao                                           TERRELL CARVER
no-padronizada,  interao com o meio am-
biente e ao mero sucesso reprodutivo, e no a       decadncia Os perodos da histria que fo-
conceitos normativos como "sobrevivncia dos        ram classificados como "decadentes" compar-
mais aptos". Essa expresso foi popularizada        tilham a convico de que "a vida recomea,
por Herbert Spencer, o principal terico do         sempre e sempre". Essa viso cclica das coisas
darwinismo social, e ironizada por Karl Marx.        a pedra fundamental de dois vastos complexos
    A teoria de Marx era evolucionista e pro-       de temas, o primeiro dos quais se relaciona a
gressista, vagamente enraizada em uma histria      "correspondncias" com o mundo externo, com
natural das exigncias biolgicas humanas, mas      nosso meio ambiente imediato, com a natureza
crucialmente dependente de premissas relativas      e assim por diante, enquanto o outro abrange os
a habilidades lingsticas e de raciocnio. Frie-   elementos variados do COTIDIANO, do hedonis-
derich Engels, porm, mais tarde comparou a         mo, do ceticismo, em suma, a valorizao da
teoria de Marx  de Darwin, em mtodo e             experincia vivida. A premissa bsica de ambas
importncia, e se esforou para ligar a seleo     as variantes  o reconhecimento da vida social
natural ao desenvolvimento das habilidades          tal como ela efetivamente , e no como "deve-
produtivas humanas. Isso resultou numa pletora      ria ser". Ela implica uma conciliao com o fato
de tentativas formuladas de maneira imprecisa,      de que, gostemos ou no, existe uma aceitao
dentro do MARXISMO, de reconciliar a luta de        da existncia que se expressa em incontveis
classes como caminho para o progresso his-          formas de repeties. Este , com toda certeza,
trico, com mecanismos biolgicos de sobrevi-       o marco caracterstico da decadncia. Essa re-
vncia e extino. No entanto o abismo entre a      petio, quase obsessiva,  um meio tanto de
premissa terica darwinista de comportamento        afirmar quanto de negar a passagem do tempo.
                                                                                  decadncia    175


E, nesse sentido, a repetio cclica  um efi-     de fora e, dessa maneira, permanecem "abs-
ciente mecanismo de defesa. O surgimento da         tratas", e mesmo quando eles pretendem falar e
"tira de histria em quadrinhos" pode, assim,       agir em favor dos menos privilegiados,  sem-
ser considerado um sintoma extraordinrio de        pre para exigir submisso ou conformismo s
uma forma de narrativa que no pode ser apri-       ordens.
sionada dentro do tempo linear.                         A decadncia manifesta-se no apenas nessa
    O que se pode observar na conversao es-       forma popular de relativismo, como tambm
tereotipada ou nas pardias gratuitas que so       em expresses mais eruditas. Antes de tudo, de
caractersticas bsicas da "histria em quadri-     um ponto de vista weberiano, fica claro que o
nhos"  que, talvez inadvertidamente, ou no m-     reconhecimento de sistemas de valor antinmi-
nimo no-explicitamente, elas afirmam, atravs      cos dentro de diferentes sociedades, bem como
de sua crtica intrnseca aos discursos dogmti-    dentro de cada sociedade -- simplificado na
cos, uma certa qualidade invarivel do homem        expresso "guerra dos deuses" --, nos leva, se
e da sociedade e um retorno "do mesmo". Seja        no a uma absoluta "neutralidade axiolgica",
de forma puramente ldica ou mais sardnica,        pelo menos a um certo ceticismo quanto ao
elas servem de reserva de um tipo de anomia         conceito da prpria Verdade (Weber, 1904). De
agnstica cuja implicao  que nada de novo        forma deliberadamente paradoxal, Max Weber
jamais acontece na histria humana. Seja o seu      tenta pensar rigorosamente e generalizar, ao
alvo a Igreja ou o Estado, a repetio lembra-      mesmo tempo reconhecendo o carter frvolo e
nos o fato de que apenas o presente, que           efmero das paixes humanas. Uma coisa 
infalivelmente idntico a si mesmo, merece a        certa, ou seja, que vrias de suas anlises so
nossa ateno. Nesse sentido, "decadncia" in-      realizadas contra um pano de fundo de decadn-
dica uma "tica do momento" que no est            cia. A "antinomia de valores" nunca ser resol-
preocupada com um paraso celestial, nem com        vida e, em ltima anlise,  devido a essa anti-
alguma utopia futura, mas que pretende obs-         nomia que as sociedades perduram. Colocando
tinadamente, assim mesmo, levar a cabo esta         a coisa de maneira um tanto irreverente, pode-
existncia que, apesar de todas as muitas pro-      mos dizer que, "enquanto os deuses esto em
vaes e atribulaes que proporciona, ainda       guerra uns com os outros, os homens esto em
cativante, apesar delas ou talvez por causa de-     paz".
las.                                                    Uma perspectiva semelhante pode ser en-
    Um elemento que destaca a importncia do        contrada na sociologia de Vilfredo Pareto. As-
RELATIVISMO cclico e decadente na conscincia      sim com Claude Lvi-Strauss afirmou que "o
coletiva  a atitude para com a poltica. Mais      homem sempre foi capaz de pensar igualmente
uma vez, a conversao cotidiana tem muito a        bem", Pareto estava convencido de que "o ho-
nos ensinar; seria preciso uma pesquisa es-         mem  sempre o mesmo".  possvel encontrar
pecializada nessa rea para analisar todas as       mostras dessa convico no seu Tratado de
nuanas de suspeita com relao  poltica im-      sociologia geral (1916-19). Vrias de suas an-
plcitas nessas conversaes. Seria mais exato      lises so informadas por esse ceticismo, que
dizer que elas mostram que a poltica  o centro    pode ter origem nas muitas decepes que mar-
de um intenso interesse, mas em geral encarada      caram sua carreira. O economista consciencio-
como uma arte, uma arte com suas prprias           so, que mais tarde se tornou um professor de
regras. Nos pases mediterrneos, por exemplo,      sociologia um tanto desencantado, estava cns-
o discurso poltico visa,  maneira do bel canto,   cio da "vaidade da ao" que se origina do senso
agitar as paixes, apelar mais ao corao do que    de que o eterno retorno e a repetio dominam
 cabea.  luz do conceito de decadncia, tor-     a histria das sociedades humanas. A esse res-
namo-nos conscientes de exatamente o quanto         peito, seria possvel dizer que ele est imbudo
o pensamento social deve a essa viso cclica       do senso trgico da existncia. Excelente obser-
do mundo, segundo a qual "no h nada de novo       vador da poltica contempornea, tinha perfeita
sob do sol". Em ltima anlise, a imposio do      conscincia do fato de que esta no se baseia
poder  uma constante imutvel da vida, algo        em argumentos racionais, qualquer que seja
que as pessoas conhecem bem, pelo menos             o seu mito a respeito de si prpria, e parte
intuitivamente. Os "prncipes" podem ir e vir,      para tirar da compreenso desse fato todas as
mas suas aes sero sempre impostas a partir       concluses necessrias.  de fato caracterstico
176   deciso, teoria da


da decadncia demonstrar que essa razo, no         mando que a decadncia nos permite vislum-
reino da poltica, mas a fortiori mesmo em          brar a serenidade do kairos grego, em outras
atividades humanas que no pretendem ser uma        palavras, os momentos de oportunidade ofere-
manifestao dela, no passa daquilo que Pare-      cidos dentro do fluxo da vida cotidiana.
to chama de "derivao", uma legitimao que           Ver tambm PROGRESSO.
mascara todas as incoerncias, delrios e inte-
resses da paixo. Nesse ponto, no se pode          Leitura sugerida: Durand, G. 1979: Figures mythi-
                                                    ques et visages de l'oeuvre  Freund, J. 1984: La dca-
deixar de pensar em Maquiavel e suas Histrias      dence  Maffesoli, M. 1979: La cnquete du prsent:
florentinas, nas quais ele coloca em relevo to     pour une sociologie de la vie quotidienne  Pareto, V.
agudo a ambigidade e a ambivalncia da ao        1916-19 (1963): The Mind and Society: a Treatise on
humana.                                             General Sociology  Spengler, O. 1918-22 (1926-8):
    Em outras palavras, sempre que o futuro         The Decline of the West, 2 vols.  Weber, Max 1904
predomina, a conscincia coletiva volta-se para     (1949): The Methodology of the Social Sciences.
ele. Quando, em vez disso, prevalece o pre-                                          MICHEL MAFFESOLI
sente, ressurgir uma viso do mundo cclica e
decadente. Mas por qu? Talvez devido ao me-        deciso, teoria da Teoria da deciso  o es-
canismo de "saturao" to bem descrito por         tudo de como os agentes racionais decidem agir,
Pitirim Sorokin, que leva os valores, bem como      dados os seus objetivos, suas opes e suas
as coisas, a se tornarem gastos e exauridos. Isso   opinies a respeito dos efeitos de suas opes
tambm explicaria a saturao de uma concep-        sobre seus objetivos. Mesmo dado tudo isso,
o linear do tempo e o desejo de recuperar o       resolver o que fazer pode ser extremamente
"aqui e agora" que impregna a vida cotidiana.       problemtico, quer devido  pura complexidade
E o presente sempre  mais bem apreendido           dos clculos necessrios (como nos problemas
quando comparado com alguns grandes mo-             de deciso estudados em anlise operacional),
mentos do passado. Isso fica bem expresso na        quer porque h incerteza nas opinies. Essa
metfora de Proust sobre o tempo ser "ein-          incerteza habitual pode ser a respeito do estado
steinizado". A vida cclica leva-nos de volta ao    de "natureza", como na teoria da utilidade, ou
tempo da paixo, que invalida qualquer cons-        das escolhas de outros agentes cujos problemas
truo racionalizante. Certamente no  pos-        de escolha se entrechocam com os deles, como
svel falar de decadncia sem se referir, ou pelo   na teoria dos jogos.
menos aludir ao efeito colateral que ela exerce         A teoria da deciso desenvolveu-se, em sua
sobre os modos como compreendemos a reali-          forma clssica como uma teoria axiomtica, na
dade. Assim que o "pro-jeto" pra de ser a fora    qual axiomas estabelecem a priori princpios de
motora da sociedade, os socilogos tm de re-       escolha racional. Como o ncleo da explicao
correr a um modo diferente de avaliar a vida        psicolgica cotidiana  que a ao est racional-
social. A aceitao relativista daquilo que ,      mente relacionada com as opinies e objetivos
essa afirmao da vida em toda a sua contingn-     do agente, a teoria da deciso pode ser vista
cia,  o reconhecimento de que todos os seres e     como algo que proporciona, entre outras coisas,
todas as situaes so marcados pela incomple-      o modelo formal desse ncleo (ver Lewis,
tude. Isso  algo que a lgica do "tem de ser"      1983). Para uma srie de situaes definidas, a
no consegue tolerar.                               teoria da deciso clssica aspira a deduzir as
    Em desafio aos intelectuais que confundem       decises dos agentes unicamente a partir e dos
a eroso de certos VALORES com a morte trgica      princpios a priori. , assim, uma teoria ideali-
e melanclica de todas as coisas, e aos que         zada, que descreve o agente como algum que
pensam que o fim de um mundo significa o fim        jamais viola os princpios a priori e que sempre
do mundo, a decadncia lembra-nos que anali-        age logicamente conforme estes determinam,
sar o papel da repetio na vida cotidiana e        por mais difcil de computar que isso possa ser.
reconhecer o prazer hedonista a ser obtido de       Mas em torno desse cerne clssico publicado da
uma liberao dos sentidos abre um amplo cam-       teoria tambm houve muito trabalho dedicado
po de pesquisa. Com base nessa convico pro-       a testar empiricamente a adequao dos sujeitos
fundamente enraizada, podemos contestar as          humanos aos axiomas e, em anos recentes, com
declaraes dos apologistas do futuro ou dos        teorias em desenvolvimento que recolhem, ex-
que sentem a nostalgia do tempo perdido, afir-      plicam e estudam as conseqncias, nos ca-
                                                                             deciso, teoria da   177


sos observados, desses axiomas tomados como         zam essa "hiptese da utilidade esperada". Eles
ponto de partida.                                   mostram que, se uma pessoa classifica as pers-
    As duas maiores realizaes tericas da teo-    pectivas de risco de uma forma que atende a
ria da deciso foram a teoria da utilidade e a      certos cnones bvios de racionalidade, expres-
teoria dos jogos (ver JOGOS, TEORIA DOS). Esta     sos nos axiomas da teoria, ento nesse caso
a teoria da deciso do indivduo em cenrios        existe uma magnitude numrica associada a
sociais.  assim chamada porque von Neumann         cada resultado, e que  chamada de sua utili-
e Morgenstern encararam os jogos de salo           dade, de tal forma que a pessoa s classifica
como sendo isomrficos com, e paradigmas            uma perspectiva de risco acima de outra se der
para, as interaes econmicas e outras intera-     um valor esperado maior dessa magnitude. Por
es sociais a que a teoria se dedicava. Ela        exemplo, vou preferir fazer a aposta acima se,
se preocupa e tenta lidar, em estilo axiomti-      e somente se, (1/10)u(25)+(9/1o)u(  1>0,
co, com os problemas de deciso que duas ou         onde u(x) indica utilidade de ganhar x. Al-
mais pessoas enfrentam quando o resultado das       guns dos axiomas so indiscutivelmente con-
aes de cada uma delas -- e, portanto, sua         sistentes com a preferncia racional: por exem-
convenincia -- depende das aes dos outros.       plo, o Axioma de Monotonicidade, o qual diz,
Presume-se que cada qual conhea as opes e        grosso modo, que, dados dois resultados, um
os desejos de todos; e, alm disso, que os outros   (A) prefervel a outro (B), aumentar a pro-
tenham esse conhecimento. A maior parte da          babilidade de A d uma perspectiva prefervel.
literatura preocupa-se com os jogos no-coope-      Outros so mais controvertidos, em especial o
rativos, em que os que jogam no podem ficar        Axioma de Independncia, o qual diz: se um
sabendo das intenes dos outros pela comuni-       resultado A  pelo menos to desejvel quanto
cao com eles, mas devem inferi-las a partir       um resultado B, ento uma dada oportunidade
do conhecimento apenas de sua prpria situa-        de A  pelo menos to desejvel quanto a mesma
o (suas opes, desejos e conhecimento) e de      oportunidade de B.
sua racionalidade.                                      Tanto a teoria dos jogos quanto a teoria da
    A teoria da utilidade ocupa-se dos proble-      utilidade dizem respeito a decises racionais
mas de um agente individual que precisa esco-       tomadas em condies de incerteza, mas a in-
lher entre duas ou mais aes que do oportu-       certeza  de tipos radicalmente diversos nas
nidade a "perspectivas de risco". Perspectiva de    duas teorias. Na teoria da utilidade, incerteza 
risco, para um agente,  um conjunto de resul-      o "risco" -- representvel por probabilidade.
tados alternativos associado a uma probabi-         Estas se ligam, na teoria da utilidade clssica,
lidade para cada resultado, a ele atribuda pelo    ao "estado de natureza". Na teoria dos jogos,
agente; eu, por exemplo, encaro a perspectiva       porm, a incerteza  a respeito das decises de
de risco (25 libras com probabilidade 1/10;         outros agentes racionais, que se presume deri-
menos uma libra com probabilidade de 9/10),         varem, atravs de razo pura, dos dados dos
se aposto uma libra num cavalo com chances de       seus problemas. Aqui, no se trata de nada ao
25 por 1 contra aqueles a cuja vitria atribuo      acaso, e  difcil ver que base o primeiro jogador
uma probabilidade de 1 em 10.                       poderia ter para lhes atribuir probabilidades. (A
    A teoria da utilidade teve seu ponto de par-    teoria da deciso tambm se preocupou com a
tida no relatrio de Daniel Bernoulli, em 1738,     incerteza que resiste a uma probabilizao por
sobre o curiosum "de S. Petersburgo", o fato de     outro motivo -- porque o agente se encontra em
ningum estar disposto a pagar mais que umas        "completa ignorncia" a respeito de que pos-
poucas libras para participar de um certo jogo      sibilidade  ou ser realizada.)
de azar, embora o valor de ganho esperado de            Que tipo de coisas so as probabilidades do
um jogador fosse infinito. (O "valor esperado"      agente numa deciso sob "risco"? Von Neu-
de uma perspectiva monetria arriscada  a          mann e Morgenstern supuseram que fossem
mdia ponderada dos diferentes ganhos pos-          possibilidades objetivas, como as dos jogos de
sveis, sendo os pesos as suas probabilidades.)     azar, conhecidas do agente. Mas essa no  a
Como explicao, Bernoulli conjecturou que o        nica possibilidade. Dentro da teoria da deciso
jogador racional  algum que maximiza o va-        desenvolveu-se um ponto de vista das proba-
lor esperado no de lucro, mas de sua utilidade.    bilidades como "graus de opinio" subjetivos,
Von Neumann e Morgenstern (1944) axiomati-          revelados na "disposio de apostar". Fica claro
178   definio


que um agente que prefere uma loteria que d         trabalho explicativo e de prognstico nas cin-
um prmio se transpira um estado S e uma             cias sociais, e com sucesso considervel. Na
penalidade no caso de no-S a uma outra que          cincia poltica, ela gerou a teoria de escolha
d o prmio se no-S e a penalidade no caso de       racional (ver ESCOLHA RACIONAL, TEORIA DA); na
S, em algum sentido, acredita mais fortemente        economia, estende-se por toda parte, propor-
em S do que em no-S. Tal como von Neumann           cionando um modo simples e poderoso de am-
e Morgenstern "constroem" utilidades a partir        pliar a cenrios incertos a pressuposio central
do padro da escolha do agente entre loterias,       da disciplina da busca eficiente do auto-interes-
quando estas obedecem a certos axiomas, tam-         se. Desempenha um papel-chave na explicao
bm Ramsey (1926), Savage (1954) e outros            de fenmenos to diversos quanto seguros, jo-
subjetivistas constroem graus numricos de           gos de azar, o entesouramento de dinheiro e
opinio a partir desse padro. Eles conseguem        a insegurana dos salrios nas recesses. Em
demonstrar, para o caso de agentes que obede-        muitos desses casos ela se conjuga com a hip-
cem aos seus axiomas, tanto que essas mag-           tese emprica de que os agentes econmicos so
nitudes so probabilidades (matematicamente)         avessos a risco, isto , preferem uma soma  x
quanto que os agentes escolhem como se maxi-         garantida a uma perspectiva arriscada cujo va-
mizar a utilidade esperada resultasse de acordo      lor esperado   x.
com elas. Esses resultados levaram ao chamado            A teoria da deciso completou um brilhante
ponto de vista bayesiano de que todas as in-         meio sculo no qual tem contribudo com po-
certezas que os agentes enfrentam so proba-         derosos e esclarecedores instrumentos de pen-
bilidades e que a hiptese da utilidade esperada     samento para as cincias sociais. No entanto ela
fornece uma teoria abrangente da tomada de           continua em um estado no totalmente satisfa-
deciso racional.                                    trio. Como uma teoria da escolha racional
    A hiptese da utilidade esperada tem sido        humana, ela , em sua forma clssica, ao mesmo
desconfirmada repetidas vezes em estudos de          tempo muito forte e muito fraca: muito forte no
laboratrio. A mais famosa violao experi-          sentido de que seus axiomas -- s vezes por
mental  o chamado paradoxo de Allais. Outra         estabelecerem padres impossveis, s vezes
 o "efeito do coeficiente comum", demons-           por no conseguirem captar as sutilezas das
trado por Kahneman e Tversky (1979): se uma          preocupaes humanas -- so consistentemen-
pessoa prefere um prmio moderado M com              te violados por sujeitos inteligentes. Muito fra-
uma possibilidade de 50% a um prmio maior           ca por ignorar restries sobre o que conta como
L, de acordo com a teoria essa pessoa deve           opinies, desejos e aes racionais nos cenrios
tambm preferir uma probabilidade de 10% de          culturais especficos a que deve ser aplicada.
M a uma probabilidade de 5% de L; mas os             Ainda resta ver at que ponto essas deficincias
sujeitos estudados, de maneira padro, demons-       podem ser reparadas sem danos ao poder e 
tram a primeira preferncia e o reverso da se-       luminosidade da teoria clssica.
gunda. Essas descobertas provocaram diversas
                                                     Leitura sugerida: Bacharach, M.O.L. e Hurley, S.L.,
reaes: alguns, que encaram a teoria da utili-      orgs. 1991: Foundations of Decision Theory: Issues
dade como normativa e acham seus axiomas             and Advances  Gardenfrs, P. e Sahlin, N.-E., orgs.
inteiramente convincentes, concluem que os           1988: Decision, Probability and Utility  Jeffrey, R.C.
sujeitos esto errados e necessitam de instru-       1965 (1983): The Logic of Decision, 2ed.  Luce, R.D.
o! Outros, porm, acham que a teoria norma-        e Raiffa, H. 1957: Games and Decisions: Introduction
tiva deveria refletir a fora dos julgamentos        and Critical Survey  Nozick, R. 1969: "Newcomb's
                                                     problem and two principles of choice". In Essays in
intuitivos que provocam tais "reverses", ou         Honor of Carl Hempel, org. por N. Rescher  Reznik,
ento encarar a teoria da utilidade como basica-     M. 1987: Choices: an Introduction to Decision Theory.
mente explicativa ou prognosticante. Essas ati-                                    MICHAEL BACHARACH
tudes levaram ao desenvolvimento de teorias da
"utilidade no-esperada", um tanto mais com-         definio Os tericos sociais tm tendido a
plexas e/ou mais fracas que a teoria da utilidade,   assumir que a definio estipulativa ou verbal
e que so consistentes com as observaes re-        de termos ("com x quero dizer abc")  uma
calcitrantes.                                        prtica sem problemas e desejvel, que nada
    Apesar destas "arestas" empricas, a teoria      exige alm de clareza e consistncia de uso.
da utilidade tem sido amplamente utilizada num       Esse ponto de vista, expresso no final do sculo
                                                                                        democracia    179


XIX e incio do sculo XX por mile Durkheim              pela primeira vez no sculo V a.C. pelo his-
(1895) e Ferdinand Tnnies (1899-1900),  ain-            toriador grego Herdoto, combinando as pala-
da aceito como um lugar-comum pela maioria                vras gregas demos, que significa "o povo", e
dos cientistas sociais (ver POSITIVISMO).                 kratein, que significa "governar". A definio
    Um ponto de vista mais complexo pode ser              famosa de Abrao Lincoln era "governo do
encontrado na afirmao de Max Weber de que,              povo, pelo povo, para o povo". Desenvolven-
por exemplo, uma definio de religio s pode            do-se a noo de governo ou domnio, o signi-
vir ao fim de uma investigao, e no no incio.          ficado pode ser transmitido de forma mais pre-
Aqui, Weber parece estar seguindo a mxima                cisa: democracia  um sistema poltico no qual
de Nietzsche de que conceitos que expressam               o povo inteiro toma, e tem o direito de tomar,
um processo histrico inteiro resistem a defi-            as decises bsicas determinantes a respeito de
nies. Esse ponto de vista, vigorosamente sus-           questes importantes de polticas pblicas. A
tentado por Theodor Adorno (ver ESCOLA DE                 noo de ter "o direito de tomar" as decises
FRANKFURT), tende a ser acompanhado por uma               bsicas distingue a democracia de outros sis-
nfase na complexidade hermenutica dos fe-               temas nos quais essas decises so determina-
nmenos sociais e sua relao ntima com os               das de fato pelo povo -- por exemplo, onde um
VALORES. Isso, por sua vez, foi fortalecido a             ditador fraco ou enfermo cede aos desejos do
partir de meados do sculo, no mundo de lngua            povo devido  ameaa de levante ou insur-
inglesa, pela crtica de Wittgenstein ao positi-          reio. Numa democracia,  devido ao seu di-
vismo, fazendo surgir na obra de Winch (1958)             reito de faz-lo que o povo pode tomar as
e de outros um modelo alternativo de cincias             decises; esse direito origina-se de um sistema
sociais (ver VERSTEHEN). A relevncia normati-            de regras bsicas, tais como a constituio.
va da definio foi ainda mais destacada pela                 A idia de o povo tomar decises levanta a
noo de Gallie de "conceitos essencialmente              dificuldade a respeito de quantas decises iso-
contestados" em pensamento social e poltico              ladas diferentes podem ser combinadas em uma
(Gallie, 1955-6).                                         deciso coletiva. Uma resposta comum  con-
    O declnio do positivismo para um conven-             ceber a democracia como o domnio da maioria.
cionalismo e as conseqentes inquietaes a               A idia aqui  de que, onde falta unanimidade,
respeito do RELATIVISMO levaram defensores do             isto , onde as preferncias expressas pelas
racionalismo e do REALISMO a reviver a noo              decises dos indivduos se encontram dividi-
de "definio real", na qual as definies pre-           das, o que deve prevalecer  o nmero maior de
tendem expressar a natureza essencial de uma              preferncias, e no o menor. O nmero maior
entidade -- como na definio de substncias              est mais perto de ser o todo: a deciso da
qumicas por meio de sua estrutura molecular.             maioria deve ento contar como deciso de
Em que medida isso  possvel para objetos sociais        todo o povo. Existem, no entanto, muitas difi-
 algo que ainda suscita controvrsias, mas est          culdades com semelhante idia. Uma deciso
claro que a concepo mais sofisticada a respeito         por parte de todo o povo implica algo mais que
da natureza da teoria cientfico-social que passou        uma deciso por parte da maioria, e precisa
a predominar em dcadas recentes trouxe consi-            envolver conciliao e consenso; e democracia
go maior sensibilidade para os problemas da                algo que no pode ser adequadamente equa-
formao de conceitos cientfico-sociais.                 cionado com domnio da maioria (Holden,
Leitura sugerida: Durkheim, mile 1895: Les rgles
                                                          1988; Spitz, 1984).
de la mthode sociologique  Gallie, Duncan 1955-56:           O significado bsico de "democracia" acaba
"Essentially contested concepts". Proceedings of the      de ser enunciado, mas existe tambm um signi-
Aristotelian Society, NS, 56  Hollis, Ma. 1977: Models    ficado secundrio que brota do carter estreito
of Man  Outhwaite, William 1983: Concept Forma-           da conexo entre as idias de democracia e
tion in Social Science  Tnnies, Ferdinand 1899-1900:
                                                          igualdade (ver IGUALDADE E DESIGUALDADE).
"Philosophical terminology". Mind 8 e 9  Winch, Pe-
ter 1958: The Idea of a Social Science and its Relation   Essa conexo existe porque, alm de qualquer
to Philosophy.                                            outra coisa, a idia de o povo inteiro tomar uma
                               WILLIAM OUTHWAITE          deciso implica a noo -- resumida no slogan
                                                          "um homem, um voto" -- de cada indivduo ter
democracia O significado da palavra "de-                  voz igual. Sem isso, haveria uma deciso ape-
mocracia"  "governo do povo". Ela foi usada              nas de parte do povo, em vez de todo ele. Mas
180   democracia


a conexo  to estreita que a igualdade s vezes       Embora to importante hoje, do ponto de
se torna crucial para o prprio sentido de demo-    vista histrico a democracia foi relativamente
cracia: isso nos d o significado secundrio,       pouco importante. Durante muitos sculos ela
no qual "democracia" significa, grosso modo,        simplesmente no existiu. "Tanto como idia
"uma sociedade na qual existe igualdade". Esse      quanto como prtica, no decorrer da histria
sentido subsidirio tambm pode ver-se envol-       documentada, a hierarquia tem sido a regra, a
vido em concepes tais como "democracia            democracia, a exceo" (Dahl, 1989, p.52) --
social" e "democracia econmica", em que a          embora essa situao hoje talvez esteja sendo
idia de um sistema caracterizado por igualdade     revertida. Durante um perodo, na Grcia cls-
social e/ou econmica  crucial (para um senti-     sica, a democracia foi importante, em especial
do diferente de "democracia econmica", ver         em Atenas nos sculos V e IV a.C. Depois disso,
mais adiante).                                      porm, foi s no final do sculo XVIII e no
    O significado de "democracia" est razoa-       sculo XIX que a idia voltou a se tornar im-
velmente claro, mas esse fato tende a ser obs-      portante; e s no sculo XX  que ela se viu
curecido devido  diversidade de sistemas que       devidamente firmada na prtica. E foi somente
foram chamados de democracias. De fato, s          depois da Primeira Guerra Mundial que a desa-
vezes pode at parecer que o nico aspecto          provao geral da democracia foi substituda
comum dentro de tamanha diversidade  a ex-         pela aprovao generalizada.
presso de aprovao. Como a aprovao                 A democracia da Grcia antiga era uma de-
democracia  hoje expressa de modo quase            mocracia direta: o povo governava de modo
universal, isso pelo menos fica claramente im-      efetivo, reunindo-se, e tomando diretamente as
plcito com o uso da palavra, ainda que exata-      decises polticas bsicas (Held, 1987; Sinclair,
mente o que est sendo aprovado no seja assim      1988). Essa forma mais consumada de demo-
to claro. Na verdade, para alguns parece que       cracia nunca perdeu sua influncia sobre o pen-
"democracia"  meramente uma "palavra de            samento democrtico; na verdade, at o final do
aclamao" (como "hurra!" ou "viva!"), esva-        sculo XVIII "democracia" s se referia a essa
                                                    forma direta. No entanto a plis ou cidade-es-
ziada de qualquer contedo descritivo, nada
                                                    tado grega era muito menos que um estado
significando alm de "viva esse sistema polti-
                                                    moderno, onde no  possvel reunir o povo (em
co!". Uma confuso desse tipo pode ser evitada,
                                                    Atenas havia de 30 mil a 40 mil cidados, e o
porm, estando-se atento s distines entre o      quorum para a Assemblia era de 6 mil). O
significado admitido de "democracia" -- "go-        aumento no tamanho e na complexidade dos
verno do povo" -- e julgamentos discordantes        estados, portanto, significou que no mundo mo-
a respeito do que  necessrio para que tal         derno a democracia tem de ser indireta. Nesse
governo exista, e, da, quais sistemas polticos    caso, o povo s toma diretamente algumas pou-
de fato a exemplificam. Assim, a discordncia       cas decises muito bsicas, em eleies, e o
a respeito da aplicao da palavra "democracia"     resto  feito por seus representantes eleitos: a
-- discordncia quanto aonde existe um gover-       democracia indireta  uma democracia repre-
no do povo -- na verdade no implica que            sentativa. Existem idias divergentes a respeito
a palavra signifique meramente aprovao e          da natureza e do papel dos representantes numa
que lhe falte um significado admitido (Holden,      democracia (Pitkin, 1967; Holden, 1988). No
1974, 1988).                                        entanto a noo bsica  que os representantes
    Essa quase universalidade da aprovao         tomam decises pelo povo que os elege, ou em
um aspecto destacado da democracia hoje. O          nome dele, mas assim fazendo eles esto, pelo
outro aspecto fundamental  que as democra-         menos em ltima anlise, subordinados s de-
cias modernas so indiretas ou representativas,     cises do prprio povo, expressas nas eleies.
em vez de diretas. So tambm hoje, predomi-        Votar em eleies , portanto, o processo demo-
nantemente, democracias liberais. Isso, porm,      crtico essencial, e  necessrio que pratica-
 uma evoluo muito recente (ver adiante),         mente todos os adultos tenham direito de voto
antes da qual houve discordncias importantes,      para que um sistema seja uma democracia (ver
do tipo que acabamos de mencionar, com res-         tambm PARTICIPAO POLTICA).
peito  aplicao de "democracia" a diferentes          A forma predominante de democracia nos
tipos de sistemas polticos.                        dias de hoje  a democracia liberal. Os defen-
                                                                                     democracia     181


sores da democracia liberal acreditam que ela       segundo. A pretenso a serem democrticos
o nico tipo de democracia. Mas pelo menos at       repousava sobre a idia de que o partido gover-
bem recentemente se afirmava que havia for-          nante nico expressava a real vontade do povo
mas rivais (ver adiante). A palavra "liberal",       melhor do que este prprio poderia faz-lo. Isso
aplicada a sistemas de governo, costuma impli-       tinha semelhanas com a idia de "vontade
car uma preocupao com a proteo das liber-        geral", formulada por Jean-Jacques Rousseau
dades individuais atravs da limitao do poder      (1712-78), o famoso filsofo poltico francs.
do governo (ver LIBERALISMO). A idia tpica        No caso das democracias populares, fazia parte
que o poder de um governo deveria ser limitado,      tambm a noo leninista do partido comunista
sujeitando-se a regulamentao atravs de uma        de vanguarda como capaz de discernir o real
constituio ou carta de direitos. Numa demo-        interesse de classe -- e da inferindo a vontade
cracia liberal, portanto, o governo eleito expres-   real -- do proletariado (ver LENINISMO). Parte
sa a vontade do povo, mas seu poder , no           das alegaes em favor das democracias popu-
obstante, limitado. Da existir, em certa medida,    lares era o argumento de que nas "democracias"
uma forma de democracia condicional, na qual         liberais o poder do povo era corrompido pelas
o poder do povo -- conforme expresso atravs         maquinaes do capitalismo.
de seu governo --  limitado. Por outro lado, os         Depois da Segunda Guerra Mundial a demo-
defensores da democracia liberal afirmam que         cracia unipartidria representou um poderoso
as liberdades liberais essenciais so necessrias    desafio  democracia liberal, at os aconte-
para que se possa dizer que existe democracia.       cimentos dramticos de 1989-90. Ento, a der-
Sem liberdade de expresso, de associao e          rubada dos sistemas comunistas na Europa
assim por diante, o povo, nas eleies, no pode-    oriental implicou a rejeio geral da idia de
ria dispor das escolhas que lhe permitem tomar       democracia unipartidria em favor da de demo-
as decises polticas bsicas. Em suma, as           cracia liberal e as democracias unipartidrias do
eleies livres so encaradas como condio          Terceiro Mundo esto sendo afetadas tambm:
necessria para a democracia -- e a democracia       hoje so amplamente rejeitadas na teoria e, com
liberal como sua nica forma possvel.               bastante freqncia, na prtica. Isso se nota
    A noo de democracia liberal costuma estar      particularmente na frica, onde a democracia
ligada a idias importantes a respeito dos outros    unipartidria foi amplamente adotada no pero-
tipos de estruturas e processos polticos neces-     do ps-colonial.  verdade que ainda existem
srios para a limitao do poder governamental       alguns regimes unipartidrios ao estilo antigo
e a proviso de escolhas eleitorais. Destaque-se     -- o caso mais notvel  o da China -- e que
entre estes o conceito de um sistema multipar-       ainda no est muito claro o que ir acontecer
tidrio e a idia associada de partidos cuja fun-    na ex-Unio Sovitica. No entanto est, sim,
o  opor-se ao governo. Estes podem ser enca-      bastante claro que a teoria da democracia uni-
rados como os componentes da idia geral de          partidria sofreu um golpe mortal e que, pe-
PLURALISMO. Concentra-se este no conceito de         lo menos por enquanto, a democracia liberal
pluralidade de grupos polticos (ver INTERESSE,      emergiu como a nica forma reconhecvel de
GRUPO DE), bem como de partidos, como impor-         democracia.
tante tanto para fornecer fontes de poder alter-         Desenvolveram-se teorias de democracia li-
nativo ao governo, e limitadora deste, quanto        beral no final do sculo XVIII e no scuo XIX,
para criar escolhas para o eleitorado.               embora elas fossem muito influenciadas pela
    At bem recentemente a democracia liberal        filosofia poltica de John Locke (1632-1704).
era contestada por sistemas alternativos a res-      Essas teorias costumam ser reunidas num s
peito dos quais seus defensores diziam ter um        bloco e chamadas de "teoria democrtica tra-
direito superior a formas de democracia. Estes       dicional", embora existam, na verdade, algu-
eram os sistemas unipartidrios do mundo co-         mas diferenas importantes entre elas. Pode-
munista e de muitos pases do Terceiro Mundo:        mos usar um grupo fundamental dessas diferen-
a "variante comunista" e a "variante subdesen-       as para distinguir dois tipos principais de teoria
volvida" de "democracia no-liberal" (Mac-           tradicional: a "teoria democrtica convencio-
pherson, 1966). No primeiro caso, os sistemas        nal" e a "teoria democrtica radical". No tipo
eram chamados de democracias populares, e            de sistema apoiado pela primeira, o povo de-
em certa medida serviram de modelo para os do        sempenha um papel passivo e se limita a esco-
182   democracia industrial


lher "negativamente" entre o que os candidatos       mo Robert Dahl hoje defende essa "democracia
tm a oferecer. E os representantes, uma vez         econmica" (1985).
eleitos, tm um grande volume de arbtrio, em-           Se pode ou no haver um fundamento racio-
bora a exigncia de eleies subseqentes sig-       nal para o julgamento -- hoje to amplamente
nifique que eles se encontram subordinados, em       referendado -- de que a democracia  o melhor
ltima anlise, aos eleitores. Os tericos demo-     sistema de governo, essa  uma questo contro-
cratas convencionais mais importantes foram          vertida; no obstante, argumentos que muitos
James Madison (1751-1836), na Amrica do             encaram como irrefutveis vm sendo tradicio-
Norte, e John Stuart Mill (1806-73), na Gr-         nalmente apresentados em apoio a essa idia
Bretanha. Em contraste, no modelo de demo-           (Holden, 1988; Dahl, 1989). E hoje a democra-
cracia da teoria radical o povo tem um papel         cia est sendo mais amplamente constituda na
positivo, propulsor: os candidatos respondem a       prtica, bem como aprovada na teoria; ainda
iniciativas polticas do povo, e no ao contrrio.   existem muitos sistemas no-democrticos no
Alm disso, no se espera dos representantes         mundo, mas o recente ressurgimento da demo-
eleitos que usem o arbtrio, mas apenas que          cracia parece ter tornado obsoleta a afirmao
executem as instrues de seus eleitores; em         de Dahl de que ela  a exceo ao longo da
suma, eles no passam de delegados. Entre            histria documentada.
os principais tericos democrticos radicais
contam-se Tom Paine (1737-1809) e Thomas             Leitura sugerida Dahl, R.A. 1989: Democracy and its
                                                     Critics  Gould, C.C. 1988: Rethinking Democracy 
Jefferson (1743-1826), e os utilitaristas ingleses   Holden, B. 1988: Understanding Liberal Democra-
(ver UTILITARISMO) Jeremy Bentham (1748-             cy  Macpherson, C.B. 1977: The Life and Times of
1832) e James Mill (1773-1836). Rousseau             Liberal Democracy  Pennock, J.R. 1979: Democratic
tambm tem um lugar importante, embora te-           Political Theory  Sartori, G. 1987: The Theory of De-
nha sido o terico da democracia "continental",      mocracy Revisited.
e no da teoria democrtica liberal da corrente                                          BARRY HOLDEN
predominante (Holden, 1988).
    Neste sculo se afirmou que a teoria tradi-      democracia industrial Este conceito de-
cional (ou, mais precisamente, a radical) deve-      signa a idia e a prtica da cooperao entre o
ria ser superada por teorias mais realistas e        capital e o trabalho para funcionarem em em-
modernas de democracia que reconhecessem a           preendimentos comuns. A democracia indus-
complexidade dos sistemas polticos modernos         trial visa superar a diviso social do trabalho,
e a falta de conhecimento e de interesse dos         isto , as diferenas hierrquicas no processo de
eleitores. A "teoria democrtica elitista", incor-   produo. Num sentido mais amplo, tem de
porando aspectos da teoria das elites (ver ELITES,   estar ligada ao processo geral de PARTICIPAO
TEORIA DAS), destaca-se nesse aspecto.  impor-      e democratizao da sociedade (Lauck, 1926).
tante, ainda, a "teoria democrtica pluralista".     A expresso tambm tem de estar associada a
Em algumas das obras do mais conhecido te-          "democracia econmica", e s vezes tem senti-
rico moderno, Robert Dahl, as duas se combi-         do idntico a esse (Naphtali, 1928; Carnoy e
nam (por exemplo, Dahl, 1956, 1961). Os te-         Shearer, 1980).
ricos democrticos elitistas, porm, viram-se            A idia de democracia industrial remonta
eles prprios sujeitos a crtica da parte dos        aos socialistas pioneiros, ou utpicos, do incio
tericos participativos, os quais afirmam que        do sculo XIX, sendo o protagonista mais fa-
os primeiros no so, em absoluto, tericos          moso Robert Owen, que fundou em 1800 uma
realmente democrticos, e aquilo de que a de-        comunidade industrial em New Lanark, na Es-
mocracia precisa para existir  uma ampla PAR-       ccia (Owen, 1812-16).  fruto das sociedades
TICIPAO por parte de todo o povo (Pateman,         industriais que criaram a moderna diviso entre
1970). H aqui, bem ntidos, ecos da teoria          capital e trabalho, assim como a classe dos
democrtica radical, mas existe a dimenso adi-      assalariados. Desde o incio duas escolas de
cional de uma crena na DEMOCRACIA INDUS-            pensamento social tentaram superar os confli-
TRIAL: a participao de massa deveria ampliar-      tos e infortnios que acompanharam a infncia
se para alm do sistema poltico como se con-        dessa sociedade. A primeira  dos pensadores e
cebe habitualmente, chegando ao local de tra-        praticantes humanistas, religiosos e filantrpi-
balho e  economia de maneira geral. At mes-        cos que tentaram integrar o proletariado  so-
                                                                         democracia industrial     183


ciedade para evitar revolues e insurreies.       de organizao do trabalho. Ela em geral as-
As duas igrejas -- protestante e catlica --         sume a forma de democracia industrial, mas
estimularam muitos debates e atividades. Na          continua a ser unilateral e limita a participao,
Alemanha, o padre catlico Adolf Kolping             quase sempre, ao nvel do local de trabaho, com
criou, na segunda metade do sculo XIX, um           a palavra final reservada  gerncia. No obs-
amplo movimento social que resultou num do-          tante, pode ser encarada como uma resposta
cumento de fundo social, a encclica Rerum           gerencial s crescentes demandas de mais de-
Novarum, do papa Leo XIII, de 1891. A segun-        mocracia no local do trabalho por parte da fora
da escola est ligada ao movimento operrio em       de trabalho, portanto como promissora para o
suas diferentes expresses, como SOCIALISMO,         futuro da democracia. "Desenvolvimento orga-
SINDICALISMO e SINDICATOS. Nesta, a democracia       nizacional", "sistemas scio-tcnicos" (Emery
industrial pode ser compreendida como parte de       e Thorsrud, 1969) e "crculos de qualidade" so
um processo que vai da alienao, passando           alguns dos mtodos usados.
pela participao, at a autodeterminao. O             Negociao coletiva  a forma mais difun-
MOVIMENTO COOPERATIVO  uma forma especfi-          dida de participao industrial. Consiste em
ca de democracia industrial, na medida em que        negociaes regulares sobre salrios, condies
abrange cooperativas de produtores.                  de trabalho, benefcios sociais e assim por
    Em 1916 a Inglaterra introduziu o gerencia-      diante, que podem ocorrer no nvel de escritrio
mento conjunto sob a forma dos conselhos de          ou departamento, empresa, indstria ou at na-
Whitley. Certamente, como em outros pases, a        cional. Nos pases anglo-saxes, essa  em geral
situao de guerra facilitou uma abertura demo-      a nica forma de democracia industrial aceita e
crtica no que vinham sendo at ento estrutu-       praticada. No final do sculo passado Sidney e
ras decisrias predominantemente autoritrias,       Beatrice Webb (1897) desenvolveram a estru-
quase militares, na economia. O gerenciamento        tura geral dessa abordagem (ver SOCIALISMO
conjunto tambm foi reintroduzido na econo-
                                                     FABIANO). Embora exista uma compreenso
mia norte-americana durante a Segunda Guerra
                                                     pluralista dos interesses econmicos divergen-
Mundial.
                                                     tes na base do modelo da negociao coletiva,
    Depois da Segunda Guerra Mundial a legis-
                                                     este tende a nunca questionar o sistema econ-
lao trabalhista baseada em conceitos de de-
                                                     mico como tal e, portanto, no  revolucionrio
mocracia industrial foi introduzida em muitos
                                                     (Derber, 1970; Okamoto, 1981).
pases. A OCDE e a Organizao Internacional
do Trabalho tambm entraram em atividade.                A presena de delegados sindicais como
A prpria OIT pode ser encarada como o rgo         uma forma de democracia industrial desenvol-
internacional da democracia industrial. Sob          ve-se na Inglaterra. Essa  uma estrutura demo-
seus auspcios, foram publicados inmeros re-        crtica de origem popular, em que o repre-
latrios e bibliografias, e seu Instituto Interna-   sentante eleito de um servio negocia direta-
cional de Pesquisa Trabalhista realizou ele pr-     mente com a direo sobre diferentes questes
prio inmeros estudos (OIT, 1981; Monat e            da vida profissional. Pode ser encarada como
Sarfate, 1986). A democracia industrial pode         um complemento do sistema de negociao
ser, como foi, interpretada como um movi-            coletiva (Coates e Topham, 1975).
mento contra o "gerenciamento cientfico", que           Propriedade operria  uma forma que
alienava as pessoas ainda mais do seu produto        sempre teve certa importncia. O capitalismo
do que o capitalismo j havia feito antes.           popular tentou integrar os operrios  compa-
    Os tipos principais de democracia industrial     nhia e/ou  economia atravs de projetos de
podem ser diferenciados de vrias maneiras           participao acionria e participao nos lu-
(OIT, 1981; King e van de Vall, 1978), mas as        cros. Recentemente o chamado Employee
formas que se seguem podem ser apontadas             Stock Holding Programme (ESOP -- Progra-
como tendo se desenvolvido histrica e geogra-       ma de Participao Acionria dos Emprega-
ficamente.                                           dos), nos Estados Unidos, foi muito discutido e
    Gerenciamento participativo  uma forma          cientificamente estudado. Mas em geral esses
que se desenvolveu com o movimento de "re-           projetos de participao no incluem o direito
laes humanas", desde os anos 30, e a partir        de voto e ainda no mudaram fundamental-
dessa ocasio foram introduzidas novas formas        mente as relaes de trabalho (International
184   democracia industrial


Handbook of Participation in Organizations,        sistema geral de democracia econmica, que
vol.1, 1989 e vol.2, 1991).                        incluiria um sistema de conselho para todas as
    O socialismo gremial  uma forma que est      indstrias, at o nvel nacional. Embora esse
ligada ao nome de G.D.H. Cole, o qual formu-       aspecto tenha sido incorporado  Constituio
lou esse conceito da Primeira Guerra Mundial       de Weimar a partir de 1919 e no Programa
em diante. Em Self-government in Industry          Fundamental da Federao dos Sindicatos Ale-
(1917), ele desenvolveu os princpios bsicos      mes (DGB), de 1949, ainda no foi aplicado.
que podem ser resumidos da seguinte maneira:       Naphtali emigrou para a Palestina e l realizou
em primeiro lugar, as constituies das agre-      a maior parte de suas idias na Histadrut (Fe-
miaes tm de alcanar uma autntica autono-      derao Sindical).
mia individual; em segundo lugar, devem com-           O controle operrio foi algo muito discutido
binar eficincia e liberdade. O meio  a descen-   nos anos 60 e 70 na Gr-Bretanha e tambm no
tralizao ao ponto mximo, isto , a democra-     continente europeu (Coates e Topham, 1975;
cia industrial. Ele abriu polmica contra os       Mandel, 1970). Nessa concepo, a colabora-
coletivistas -- isto , os comunistas --, afir-    o com o capital em todas as formas de esque-
mando que a utopia destes era um mundo de          mas de participao, tais como a co-determina-
cartis pblicos, enquanto a utopia das agre-      o, foi radicalmente rejeitada como colabora-
miaes era um mundo de unies de produtores,      o com a economia capitalista.
todos trabalhando pelo interesse comum. As             A autogesto tem dois significados dife-
cooperativas de consumidores, para ele, nunca      rentes no debate terico e na prtica (ver AUTO-
foram democrticas, uma vez que a democracia       GESTO ). Um deles est ligado  teoria e prtica
direta era a nica DEMOCRACIA autntica. Desen-    na Iugoslvia, conforme foi formulado em opo-
volveu um sistema que ainda garante a unidade      sio ao stalinismo, a partir de 1950, principal-
em toda uma confederao de agremiaes,           mente por Edvard Kardelj (1978), e  geral-
com um escritrio central.                         mente concebida como autogesto dos oper-
    A co-determinao foi caracterizada como a     rios. A pesquisa emprica demonstrou -- pelo
forma alem tpica de democracia industrial.      menos at os anos 70 -- que o sistema iugosla-
o resultado da conciliao histrica entre capi-   vo dava aos operrios a maior parte dos direi-
tal e trabalho, em 1920, depois do fracasso da     tos de gerenciamento, no apenas de jure, mas
Revoluo do Conselho, de 1918-19, e se ba-        tambm de facto (Adizes, 1971; IDE, 1981;
seia no CONSELHO DE TRABALHADORES, que            King e van de Vall, 1978). O outro sentido foi
geralmente controlado pelos sindicatos. Mas        desenvolvido especialmente na Frana como
existe uma diviso de tarefas ente o conselho      "autogesto geral" (Bourdet, 1970). A introdu-
fabril -- como  chamado na Alemanha -- e os       o da democracia industrial na Frana  enca-
sindicatos. Os sindicatos so responsveis por     rada como secundria diante de uma transfor-
negociaes coletivas, enquanto os conselhos       mao geral da sociedade, onde todos os setores
fabris so voltados para a companhia. Desde        so autodeterminados. As experincias polone-
1951 tm-se introduzido diferentes esquemas        sas e outras parecem ter demonstrado que ten-
de participao no quadro diretor das compa-       tativas isoladas de democracia industrial plena
nhias ou na nomeao do diretor de cada fbrica    no conseguem sobreviver.  preciso que exista
-- responsvel pelas questes pessoais e sociais   uma estrutura poltica geral, em nvel nacional
(Bruegmann, 1981). , na maior parte, um sis-      ou at mesmo internacional.
tema de democracia industrial codificado legal-        No h dvida nenhuma de que a democra-
mente, e existem vrios graus, dependendo da       cia industrial tem sido uma das principais idias
indstria e do tamanho da empresa. Estendeu-se     e prticas sociais no sculo XX em pratica-
tambm ao setor pblico. Para muitos, o relati-    mente todos os pases industrializados, e esses
vo sucesso da economia alem depois da Se-         projetos tambm foram introduzidos em muitos
gunda Guerra Mundial, seu Wirtschaftswunder        pases do Terceiro Mundo. Um relatrio da OIT
(milagre econmico), depende em grande parte       relaciona grande nmero deles (Monat e Sar-
do seu sistema de participao, tambm chama-      fate, 1986). Com a perestroika, os pases so-
do de Sozialpartnerschaft (parceria social). Es-   cialistas da Europa Oriental tambm comea-
se conceito, elaborado em 1928 por Fritz Naph-     ram a democratizar a economia depois de um
tali, foi visto como algo que poderia levar a um   longo perodo de gerenciamento centralizado e
                                                                                           demografia    185


posterior estagnao. O futuro da democracia                    2. Os diferentes processos que influen-
industrial no incio do sculo XXI parece estar                      ciam diretamente a composio das po-
em aberto. Existe um amplo debate a respeito                         pulaes (fertilidade, mortalidade, nup-
do final da sociedade industrial e o incio da                       cialidade, MIGRAO e assim por diante).
ps-modernidade. O gerenciamento participa-                     3. A relao entre esses elementos es-
tivo tem-se difundido cada vez mais.                                 tticos e dinmicos e o ambiente social,
   Slater e Bennis declararam em 1964 (na                            econmico e cultural dentro do qual eles
Harvard Business Review) que a democracia                           existem.
inevitvel; e que aquilo que os socialistas afir-               Embora no exista uma diviso rigorosa,
maram durante mais de 100 anos, ou seja, que                costuma-se estabelecer um contraste entre de-
a democracia poltica deve ser complementada                mografia formal ou tcnica, por um lado, e
pela democracia econmica para a realizao                 demografia social ou estudos populacionais,
da democracia plena, parece ter recebido apoio
                                                            por outro. A primeira preocupa-se principal-
tambm das gerncias. Com a dissoluo final
                                                            mente com a coleta e anlise de dados, enquanto
do stalinismo, os ltimos defensores do taylo-
                                                            a ltima implica um quadro mais amplo de
rismo foram expulsos tambm. "Novos concei-
                                                            referncia, valendo-se de trabalhos de campo
tos de produo" (Kern e Schumann, 1984),
                                                            relacionados.
baseados numa conciliao histrica entre ge-
renciamento e trabalho, parecem garantir pro-                   Desde suas origens nos estudos atuariais, a
dutividade e reduo de custos. A parceria so-              demografia tem sido impulsionada por toda
cial sob a liderana capitalista, por um lado, e o          uma variedade de motivaes. Grande parte da
socialismo democrtico, de outro, incorporam                pesquisa realizada no incio do sculo XX tinha
ambos a democracia industrial como a base                   elos estreitos com a eugenia (ver EUGENIA, CIN-
                                                            CIA DA), com os estudiosos buscando descobrir
social da economia.
                                                            as dimenses quantitativas da diferenciao so-
Leitura sugerida: Cole, G.D.H. 1917 (1972): Self-go-        cial e racial. No rastro da Segunda Guerra Mun-
vernment in Industry  IDE (Industrial Democracy in          dial e do abuso da pesquisa eugnica pelo na-
Europe International Research Group) 1981: Industrial
Democracy in Europe  International Handbook of
                                                            zismo, a motivao caiu muito. No entanto a
Participation in Organizations, 1989-92, 4 vols.            ascenso da SOCIOBIOLOGIA nos anos 70 levou a
King, Charles D. e van de Vall, Mark 1978: Models of        uma retomada de interesse pelos estudos demo-
Industrial Democracy: Consultation, Co-Determina-           grficos da biologia humana.
tion and Workers' Management  Monat, Jacques e Sar-             Durante os anos 30 a fertilidade, em muitas
fate, Hedva 1986: Workers' Participation: a Voice in        sociedades desenvolvidas, caiu a nveis sem
Decisions, 1981-85  Szll, Gyrgy 1988: Participa-
tion, Worker's Control and Self-Management  org.            precedentes. Isso inspirou tanto desenvolvi-
1992: Concise Encyclopedia of Participation and Co-         mentos tcnico-analticos, tais como o clculo
Management  Unesco 1984: "Industrial democracy:             das taxas brutas e lquidas de reproduo, visan-
participation, labour relations and motivation". Interna-   do quantificar de forma precisa a escala do de-
tional Social Science Journal 36, 196-402  Webb Sid-        clnio da fertilidade, quanto tentativas de com-
ney e Webb Beatrice 1897: Industrial Democracy 
Woodworth, Warner, Meek, Charles e Whyte, William
                                                            preenso mais ampla do fenmeno, tais como a
F. orgs. 1985: Industrial Democracy: Strategies for         Real Comisso Britnica sobre Populao nos
Community Revitalization.                                   anos 40 (Glass, 1956). Mas os temores de des-
                                       GYRGY SZLL         povoamento nos pases ocidentais tornaram-se
                                                            obsoletos nos anos 50, quando a fertilidade
demografia Descrevendo o estudo das po-                     cresceu substancialmente durante o chamado
pulaes humanas, essa palavra abrange um                   "baby boom".
volume muito grande de trabalho, mas em seu                     Dos anos 50 em diante a ateno dos dem-
cerne existem trs preocupaes maiores:                    grafos passou para a populao do Terceiro
   1. O tamanho e a composio das popu-                    Mundo, onde o progresso acelerado na questo
       laes, de acordo com diversos critrios             da mortalidade e uma fertilidade elevada persis-
       (idade, sexo, estado civil, educao e               tente produziram taxas extremamente altas de
       assim por diante). Em suma, os perfis                crescimento populacional. A preocupao com
       cruzados de uma populao em um mo-                  o rpido crescimento da populao, e em parti-
       mento fixo no tempo.                                 cular o desejo de promover a reduo da ferti-
186   demografia


lidade nos pases em desenvolvimento, tem si-       sendo encarada como subdisciplina distinta. Is-
do uma importante subcorrente da pesquisa           so pode ser parcialmente atribudo a diferenas
demogrfica na segunda metade do sculo. A          no material de pesquisa e consulta, e parcial-
controvrsia tem reinado de maneira geral entre     mente ao papel bem maior dos gegrafos em
teorias rivais sobre a mudana social e demo-       qualquer forma de anlise espacial.
grfica, com os tericos disputando a ateno           A demografia matemtica tem sido uma
dos governos e dos organismos provedores de         subdiviso muito ativa da disciplina, desenvol-
fundos (Hodgson, 1988).                             vendo vrios modelos que combinam elegncia
    O baby boom no durou muito e, no mundo         formal com considervel utilidade prtica.
desenvolvido, a ateno novamente se concen-        Dentre estes, o mais importante  a teoria das
trou na questo da baixa fertilidade em seguida     populaes estveis. Formulada pela primeira
a rpidas quedas nas taxas de nascimentos,          vez no sculo XVIII por Leonard Euler, a teoria
desde o final dos anos 60. A preocupao tem-se     da populao estvel foi reinventada e popula-
concentrado particularmente no fenmeno do          rizada pelo demgrafo norte-americano Alfred
envelhecimento da populao,  medida que as        Lotka (1939). Essa teoria permite que se calcule
sociedades enfrentam o crescimento das popu-        a estrutura etria da populao em consonncia
laes idosas.                                      com qualquer dada combinao de mortalidade
    Tanto a demografia formal quanto a social       e fertilidade, um aspecto inestimvel para a
tm desenvolvido vrias idias ou modelos de        compreenso da dinmica de uma populao.
importncia fundamental no decorrer do sculo       Por exemplo, vem sendo possvel demonstrar que
XX. Na demografia formal, uma idia crucial         o envelhecimento demogrfico  resultado prin-
vem sendo a busca da anlise em termos de           cipalmente de baixa fertilidade, mais que da maior
grupos em vez de perodos. A anlise de grupos,     sobrevivncia individual (Coale, 1972).
que considera a experincia dos indivduos no           O conceito mais influente em demografia
decorrer do tempo, tem muitas vantagens teri-      social  o de transio demogrfica. Conforme
cas sobre a anlise de eventos ocorrendo num        as palavras de Demeny (1972), "em sociedades
dado perodo. Isso  particularmente vlido on-     tradicionais, a mortalidade e a fertilidade so
de os eventos em questo se encontram em            elevadas. Em sociedades modernas, a fertili-
grande parte sob controle individual, como          dade e a mortalidade so baixas. No meio destas
acontece com a fertilidade e a nupcialidade, e      se encontra a transio demogrfica." A teoria
onde a experincia passada desempenha um            da transio demogrfica foi desenvolvida pela
papel na determinao do comportamento cor-         primeira vez por demgrafos norte-americanos
rente (Ryder, 1968).                                nos anos em torno da Segunda Guerra Mundial
    Sem dvida, a principal contribuio da de-     e era uma forma das teorias de modernizao
mografia  cincia social quantitativa foi o qua-   mais gerais, ento correntes (Notestein, 1945;
dro estatstico das mdias de vida (life table),    Davis, 1945). De maneira geral, a teoria pode
uma descrio detalhada da mortalidade de uma       ser divida em trs partes:
populao, dando a probabilidade de morte e             1. uma descrio de mudanas na fertili-
vrias outras estatsticas a cada idade. Esse               dade e na mortalidade no decorrer do
quadro  um instrumento poderoso para a an-                tempo;
lise da mortalidade ou qualquer outro fenmeno
sem possibilidades de recorrncia. Ele tem encon-       2. a construo de modelos tericos causais
trado aplicaes difundidas em muitas reas das             explicando essas mudanas;
cincias sociais, bem como nas cincias naturais        3. previses de tendncias futuras, espe-
e na estatstica (Shryock e Siegel, 1976).                  cialmente no Terceiro Mundo.
    As tcnicas estatsticas empregadas pelos           A ateno tem-se concentrado especialmen-
demgrafos so relativamente poucas em n-          te nos fatores responsveis pelo declnio da
mero e em geral muito diretas, embora, com o        fertilidade, com diferentes tericos defendendo
advento dos computadores, se tenha passado a        diferentes mecanismos causais. Os primeiros
utilizar mtodos estatisticamente mais sofis-       trabalhos enfatizavam a urbanizao e a indus-
ticados. Para a maioria dos demgrafos, o cerne     trializao como motivos bsicos, mas isso pas-
da questo reside na anlise da mortalidade, da     sou a ser questionado em seguida  descoberta
fertilidade e da nupcialidade, com a migrao       de que mudanas nesses fatores no tinham
                                                                                      dependncia    187


correlao estreita com a mudana na fertili-           americano. Tendo origem na teoria da MODERNI-
dade em populaes europias histricas. Alm           ZAO, o dualismo costumava distinguir entre
do mais, muitos pases asiticos e latino-ameri-        um setor moderno e progressista da economia
canos haviam passado por significativas quedas          e da sociedade e divises ou regies estagnadas
de fertilidade com um desenvolvimento scio-            e tradicionais, que eram rotuladas de pr-capi-
econmico concorrente apenas limitado                   talistas. Os tericos da dependncia, em con-
(Freedman, 1982). Como resultado, o trabalho            traste, viam DESENVOLVIMENTO E SUBDESENVOL-
recente tem tendido a enfatizar os fatores cultu-       VIMENTO como posies funcionais dentro da
rais como desempenhando um papel social                 economia mundial, em vez de estgios ao longo
(Cleland e Wilson, 1987).                               de uma escala de evoluo. Anteriormente, o
    Muitas outras reas do pensamento social            pensamento econmico latino-americano era
foram influenciadas por idias demogrficas. A          dominado por uma perspectiva identificada
pesquisa da FAMLIA teve de levar em conta as           com a CEPAL (Comisso Econmica das Na-
restries demogrficas dentro das quais ocor-          es Unidas para a Amrica Latina). Seu men-
rem todos os relacionamentos de famlia e pa-           tor, o economista argentino Raul Prebisch, acre-
rentesco, enquanto anlises do casamento e do           ditava que o subdesenvolvimento da Amrica
divrcio buscam apoio na demografia para suas           Latina refletia sua posio perifrica na econo-
bases quantitativas. A demografia histrica tem         mia mundial e resultava da adoo de polticas
tido muita influncia no desenvolvimento da             de livre comrcio enquanto as exportaes de
histria social e econmica, e a utilizao de          bens da regio sofriam um declnio secular em
mtodos demogrficos na ANTROPOLOGIA tem                seus preos. Os produtores primrios do Tercei-
crescido rapidamente nos anos recentes.
                                                        ro Mundo, ao contrrio dos produtores de gros
Leitura sugerida: Pressat, R. 1985: The Dictionary of   em reas de colonizao branca no sculo XIX,
Demography, org. por C. Wilson  Ross, J.A., org.        no estavam, a longo prazo, colhendo grandes
19 8 2: International Encyclopedia of Population        lucros do livre comrcio. A teoria da depen-
 Woods, R. 1979: Population Analysis in Geography.
                                                        dncia concordava com o diagnstico de Pre-
                             CHRISTOPHER WILSON         bisch, mas rejeitava sua receita keynesiana:
                                                        uma "industrializao de substituio de impor-
dependncia A teoria da dependncia  uma               taes" (ISI), protecionista, fomentada pelo es-
matriz intelectual neomarxista que surgiu na
                                                        tado, que se tornou a ideologia desenvolvimen-
cincia social latino-americana em finais dos
                                                        tista predominante. Os primeiros trabalhos de
anos 60. Segundo Theotonio dos Santos (1970),
"uma relao de interdependncia (...) torna-se         um economista da CEPAL, o brasileiro Celso
uma relao dependente quando alguns pases             Furtado (1964), serviram de transio concei-
so capazes de se expandir atravs do auto-im-          tual a partir de Prebisch, ao enfatizar que nos
pulso, enquanto outros. (...) s podem expandir-        pases subdesenvolvidos o tamanho reduzido
se como reflexo da expanso dos pases domi-            do mercado domstico restringe a formao de
nantes". Embora a palavra possa ser encontrada          capital e ao perceber o estado como um meio
em textos marxistas anteriores a Lenin (como            de combater engarrafamentos estruturais. Um
em Otto Bauer), foi Lenin quem lhe deu des-             golpe severo nas crenas dualistas e no refor-
taque, especialmente depois de seu panfleto de          mismo nacionalista foi desferido quando um
1916 sobre o imperialismo como "o ltimo                socilogo mexicano, Rodolfo Stavenhagen, de-
estgio do capitalismo". Na verdade, a teoria da        nunciou as vrias "teses equivocadas sobre a
dependncia  basicamente uma retomada do               Amrica Latina" (1968), atacou a idia do
conceito leninista de imperialismo, transferin-         "pinga-pinga", de que a industrializao difun-
do o foco para os seus efeitos (aos quais Lenin         de um progresso geral, afirmando que, ao con-
deu muito pouca ateno) sobre as economias             trrio, se algum progresso existia, este ocorrera
subdesenvolvidas. Kwane Nkrumah, o lder ga-             custa das reas atrasadas, e negou (a) que as
nense, ecoou Lenin conscientemente quando               burguesias nacionais fossem inimigas dos se-
disse que o "neocolonialismo  o ltimo estgio         nhores de terras, (b) que os operrios tivessem
do capitalismo".                                        interesses comuns com os camponeses e (c)
   A idia de dependncia nasceu como reao            que as classes mdias fossem empreendedoras
s interpretaes dualistas do atraso latino-           e progressistas.
188   dependncia


    A teoria da dependncia tambm transfor-       dualistas, em termos de sua relao com o mer-
mou os pontos de vista latino-americanos sobre     cado, em vez de se ater  nfase marxista cls-
o imperialismo. At o perodo entreguerras (co-    sica na estrutura de classes e nas relaes so-
mo no pensamento de Haya de la Torre) a po-        ciais. O mesmo argumento foi mais tarde apre-
sio antiimperialista predominante ao sul dos     sentado por Robert Brenner (1977) em sua cr-
Estados Unidos atribua o subdesenvolvimento       tica a Immanuel Wallerstein, um historiador
 explorao estrangeira, mas no ao capitalis-    neomarxista do capitalismo, que fundiu habil-
mo como tal. A teoria da dependncia, porm,       mente a perspectiva de Frank com a explicao
preferiu seguir a importante reverso feita por    de teor geogrfico dada por Fernand Braudel
Lenin da concepo marxista do capitalismo.        para a "economia mundial" moldada pelo ca-
Enquanto Marx o encarava como uma ten-             pital moderno inicial (ver Wallerstein, 1974).
dncia histrica fundamentalmente progressis-      Frank e Wallerstein tornaram-se as fontes mais
ta (ainda que condenada), Lenin passou a enca-     conhecidas da teorizao da dependncia (ver
rar o capitalismo, em seu estgio imperialista,    tambm SISTEMA-MUNDO).
como um processo decadente, parasitrio, que           A teoria da dependncia na cincia poltica
se havia tornado um obstculo ao progresso         (ver O'Donnell, 1973) tentou relacionar a as-
econmico e social. Esse ponto de vista foi ado-   censo do autoritarismo  exausto da ISI. En-
tado tambm por tericos "linha-dura" da de-       quanto a primeira ISI se concentrava na inds-
pendncia, como Andr Gunder Frank (1969),         tria leve, de trabalho intensivo, com baixo nvel
Theotonio dos Santos, Rui M. Marini e Samir        de tecnologia e custos de investimentos e uma
Amin (1970). Uma abordagem mais "soft", ao         produo visando consumidores de baixa ren-
estilo de Gramsci, foi logo desenvolvida por um    da, a ISI posterior produz bens de capital ou
socilogo de So Paulo, Fernando Henrique          bens de consumo durveis e caros, que exi-
Cardoso, com uma linha estruturalista mais mo-     gem alta tecnologia e investimentos custosos.
derada, reformista, liderada por Furtado e o       Conseqentemente, o crescimento do consumo
economista chileno Osvaldo Sunkel.                 passa a estar engrenado com as classes mdias
    Gunder Frank iniciou a escola da depen-        superiores e a represso poltica  convocada
dncia propriamente dita, em 1967, assumindo       para impedir as classes inferiores de impor um
a tese de Paul Baran em A economia poltica do     padro mais distributivo atravs do voto. A
desenvolvimento (1957) de que a explorao do      dependncia entrou em cena por meios das
Terceiro Mundo no s continuou firme depois       companhias multinacionais, as maiores forne-
do fim do domnio colonial como se tornou bem      cedoras de capital e tecnologia na ISI posterior.
mais eficiente, sendo o subdesenvolvimento o       A obra de Cardoso e Enzo Faletto (1969) foi
resultado da tomada econmica de reas atrasa-     principalmente uma tipologia germinal das bur-
das por um capitalismo metropolitano avana-       guesias, classificadas segundo seu grau de auto-
do. Frank cunhou uma frase capciosa para esse      nomia vis--vis a economia de exportao e as
processo: "O desenvolvimento do subdesen-          multinacionais, em vrios contextos nacionais.
volvimento." Para ele, desenvolvimento e sub-      Cardoso fez restries severas s doutrinas ori-
desenvolvimento no so apenas relativos e         ginais de Frank, enfatizando a dialtica entre
quantitativos, mas "relacionais e qualitativos",   foras de mercado, estruturas de classe e tra-
porque "estruturalmente diferentes"; os mes-       dies polticas nacionais. Mas o resultado final
mos mecanismos capitalistas geram tanto o de-      de sua reformulao penetrante da teoria da
senvolvimento no centro quanto o subdesen-         dependncia foi confundir-lhe os contornos co-
volvimento na periferia. reas "feudais", no       mo hiptese causal; o que se ganhou no sentido
jargo dualista, so apenas as que mais sofreram   de contexto foi perdido em poder explanatrio
nesse processo. Assim, as partes mais "arcai-      (cf. Jaguaribe, 1973).
cas" da Amrica Latina, como as terras altas do        A grande pergunta sem resposta da teoria da
Peru ou o Nordeste brasileiro, tinham sido an-     dependncia : como  possvel que alguns
teriormente os centros da dinmica econmica       pases "dependentes" possam ser to afluentes?
e comercial da regio.                             A economia canadense  to dependente do
    A anlise de Frank foi rapidamente contes-     comrcio com os Estados Unidos quanto a do
tada. E. Laclau (1977) criticou-o por definir      Mxico, e muito mais impregnada do que este
modos de produo, tal como Paul Sweezy e os       pelo capital norte-americano, e no entanto o
                                                                                  depresso clnica   189


Canad  um pas desenvolvido e o Mxico, um             por crises tais como um aborto ou separao
pas em penoso desenvolvimento.  claro que o            conjugal.
atoleiro da dvida externa lanou muitas naes              As explicaes biolgicas recentemente tm
em desenvolvimento nas garras de uma aguda               tido destaque -- em especial variaes sobre
dependncia financeira. No obstante, enquan-            formulaes com respeito a deficincias nas
to a causa imediata da dvida foram as taxas de          aminas neurotransmissoras do crebro. Tam-
juros estratosfricas da era Reagan nos Estados          bm ficou claro que situaes psicossociais ten-
Unidos, sua causa mais profunda foram os em-             sionantes, particularmente com respeito a per-
prstimos macios e livres ditados pela deciso          das e decepes, parecem estar freqentemente
de manter economias em desenvolvimento, co-              envolvidas na provocao de todas as formas
mo as do Brasil e do Mxico, o mais autrquicas          de depresso (deixando de lado o relativamente
possveis (uma vez que a sada alternativa de            raro estado bipolar), e que fatores como o apoio
atrair mais investimentos estrangeiros poderia           psicossocial oferecem certa proteo. Com ba-
ter mantido suas dvidas externas num nvel              se nos indcios atuais, se tomarmos o mbito
significativamente mais baixo). Em certa medi-           amplo dos estados depressivos, incluindo os
da, portanto, o atual problema da dvida, longe          que no chegam a ser examinados por um psi-
de refletir uma situao original de dependn-           quiatra nem diagnosticados por um clnico ge-
cia, pode ser considerado como a nmese da               ral, os fatores psicossociais provavelmente de-
vocao autrquica.                                      sempenham um papel muito importante no co-
Leitura sugerida: Amin, Samir 1970: L'accumulation
                                                         meo e no decorrer desses estados, e ajudam
 l'chelle mondiale  Cardoso, Fernando Henrique e       muito a explicar as grandes diferenas de classe
Faletto, Enzo 1969: Dependncia e desenvolvimento na     social geralmente presentes nos cenrios ur-
Amrica Latina  Frank, Andr Gunder 1969 (1971):         banos. Mais ainda, certos tipos de experin-
Capitalism and Underdevelopment in Latin America:        cias adversas prematuras, particularmente im-
Historical Studies of Chile and Brazil  Furtado, Celso   plicando rejeio e abuso por parte de um dos
1964: Dialtica do desenvolvimento  Larrain, Jorge
                                                         pais, tambm podem levar a um risco mais
1989: Theories of Development  Santos, Theotonio
dos 1970: "The structure of dependence". American        elevado de depresso na vida adulta. Feliz-
Economic Review 60, maio.                                mente, nada existe de inevitvel nesses efeitos,
                       JOS GUILHERME MERQUIOR           de vez que uma experincia "positiva" pos-
                                                         terior, particularmente em termos de um casa-
depresso clnica Um diagnstico desse es-               mento incentivador ou de uma nova oportuni-
tado clnico envolve mais que um estado de               dade, pode reduzir enormemente os riscos.
esprito deprimido, por mais persistente e grave             Os psiquiatras atendem relativamente pou-
que este seja:  preciso que esteja presente um          cos dos membros da populao geral que viven-
certo nmero de sintomas caractersticos, tais           ciam um episdio depressivo, e a tarefa de se
como perda de interesse, sentimentos de culpa,           ajustar intelectualmente quilo que examinam
perturbaes do sono e do apetite, planos suici-          complicada de vrias maneiras. Boa parte da
das, lentido de movimentos e incapacidade de            disfuno indubitavelmente biolgica que se
sentir prazer. Mas a depresso no  um fen-            torna presente uma vez que a pessoa est depri-
meno unitrio. A depresso manaca (ou estado            mida poderia ser conseqncia de eventos ex-
bipolar), por exemplo, pode ser distinguida por          ternos, embora possa haver pouca dvida de
implicao gentica, recorrncia clnica (em             que alguma depresso tem origem essencial-
geral implicando episdios manacos) e reaes           mente biolgica. O mais comum  os psiquia-
a tratamentos especficos. No entanto outras             tras atenderem pacientes que se encontram em
divises diagnsticas mostraram-se mais dif-            estado de depresso particularmente profundo,
ceis de fazer, e palavras como "reativa" e "neu-         o que  bastante compreensvel. Alm disso, os
rtica", em contraste com "endgena" ou "psi-            pacientes em geral tm mais do que uma depres-
ctica", podem confundir, se tomadas literal-            so pura e simples. Os que apresentam um
mente. Est claro hoje, por exemplo, que es-             comportamento "teatral", como gestos suici-
tados "endgenos" (definidos pelo que se acre-           das, tm mais probabilidades de serem levados
dita serem sintomas caractersticos e que alguns         a psiquiatras, bem como os que apresentam
crem surgir espontaneamente dentro do in-               alcoolismo, abuso de substncias qumicas e
divduo) podem, na verdade, ser provocados               doenas fsicas, da mesma forma que os casos
190   depresso econmica


em que o paciente ajudou a provocar a crise             longo prazo ou se so o resultado contingente
imediatamente responsvel por sua depresso.            de acontecimentos nicos e aleatrios. Divi-
De fato, com o uso crescente de drogas antide-          dem-se tambm quanto  nfase atribuda s
pressivas na medicina geral, os psiquiatras po-         causas reais versus as causas monetrias da
dem muito bem atender relativamente poucas              depresso.
depresses "comuns". Dada a natureza seletiva               Em uma investigao emprica feita nos
da depresso atendida por psiquiatras,  com-           anos 20, N.D. Kondratiev sugeriu a possibili-
preensvel um certo ceticismo por parte destes          dade de ciclos longos, de aproximadamente 50
em reao a simples explicaes etiolgicas. Ao         anos de durao, nos quais ele situava as depres-
mesmo tempo, cabe a eles reconhecer a pos-              ses de cerca de 1815 a 1850 e da dcada de
sibilidade de que o fenmeno depressivo como            1870  de 1890. Ao mesmo tempo em que
um todo pode no se mostrar to complexo em             chamava a ateno para a qualidade deficiente
suas origens quanto pareceria a partir da pers-         dos dados anteriores a 1850 e para o pequeno
pectiva da prtica psiquitrica.                        nmero de ciclos sugeria com cautela uma ex-
   Ver tambm PSIQUIATRIA E DOENA MENTAL.              plicao endgena em termos da proviso de
                                                        capital fixo, de custo muito elevado e de longa
Leitura sugerida: Goldberg, D. e Huxley, P. 1992:
Common Mental Disorders: a Biosocial Model              durao, cujas substituio e expanso se fa-
Herbst, K. e Paykel, E. 1989: Depression: an Integra-   ziam de forma acumulada e descontnua. Suas
tive Approach.                                          sugestes foram incorporadas  explicao ela-
                                 GEORGE W. BROWN        borada por J.A. Schumpeter no final dos anos
                                                        30, mas a causalidade de Schumpeter seguia no
depresso econmica H muito tempo se                   sentido oposto: nfase no papel da inovao
admite que as flutuaes na atividade econmi-          tecnolgica exgena, que ele supunha ocorrer
ca das economias capitalistas so de carter            em acmulos determinados pelas avaliaes
cclico, mas as explicaes apresentadas para           empresariais de risco e retorno. Os acmulos de
os ciclos econmicos, contrariamente a sua des-         inovao fazem subir o investimento, o que
crio, continuam a ser reas de grande con-            acelera o crescimento, e as depresses ocorrem
trovrsia. A expresso "depresso econmica"            quando o crescimento se desacelera pela falta
 correspondentemente imprecisa, referindo-se           de investimento em funo da exausto de um
em geral ao ponto mais baixo dos ciclos, que,           surto de inovao. Entre os exemplos de inves-
por algum motivo, so de mbito mais grave              timento devido a surtos de inovao em pocas
e internacional, ao contrrio das "recesses            variadas, incluem-se o estabelecimento das in-
econmicas", que so mais localizadas, menos            dstrias ferroviria, do ao e da eletricidade.
graves e de durao mais curta. Outra utilizao        Com o longo surto de desenvolvimento do ps-
comum distingue a recesso, na qual a taxa de           guerra, a teoria do ciclo saiu de moda, mas a
crescimento cai a um nvel mais baixo do que a          idia de ciclos longos ressurgiu durante a reces-
tendncia normal, mas permanece positivo, da            so internacional que teve incio no princpio
depresso, em que a taxa de crescimento cai             dos anos 70. Houve tambm quem destacasse
abaixo de zero, provocando uma queda na pro-            uma nova onda de inovao na microeletrnica,
duo real.                                             a qual, previa-se, lanaria as bases para um surto
    Os ciclos econmicos nas economias capi-            de investimentos e uma nova subida no ciclo
talistas so todos qualitativamente semelhan-           longo, por volta do final do sculo XX, embora
tes, mas quantitativamente diferentes. O pri-           as implicaes da tecnologia microeletrnica
meiro aspecto inicia a possibilidade de uma             no que se refere a emprego continuem a ser
teoria geral, sem restrio alguma a tempo ou           controvertidas.
lugar em particular e sem necessidade alguma                Muitos negam, porm, que os ciclos longos
de se apoiar em caractersticas polticas ou ins-       sequer existam. As provas empricas so, na
titucionais particulares; o segundo aspecto in-         melhor das hipteses, apenas indicativas, e as
dica que qualquer teoria precisa estar capacita-        ligaes causais nas explicaes tericas so
da a levar em conta eventos histricos exclusi-         especificadas de forma bastante frouxa.  luz
vos. Dividem-se as explicaes sobre o que              de tamanha impreciso, as depresses econ-
enfatizar: se as depresses econmicas deve-            micas so, para alguns, no parte de um padro
riam ser incorporadas a uma teoria do ciclo de          endgeno de desenvolvimento capitalista, mas
                                                                                   desconstruo    191


meramente o resultado de acontecimentos ca-            enquanto "desconstrucionismo"  usado exclu-
suais. Uma posio extrema  o peso atribudo          sivamente por crticos desse trabalho. Na ver-
pelos economistas norte-americanos Milton              dade, no existe nenhuma "escola" ou institui-
Friedman e A. Schwartz  morte fortuita de             o unificada de pensamento derridiano, embo-
Benjamin Strong, do Federal Reserve Bank, de           ra este tenha inspirado um grande volume de
Nova York, em 1928, a cuja ausncia talvez se          obras, especialmente na teoria literria e na
pudessem atribuir os erros do Fed. em poltica         filosofia. A desconstruo ainda  uma rea de
de investimentos entre 1929 e 1933. Existe             pensamento em violenta disputa, e Derrida se
tambm a questo de se a palavra "depresso"           viu envolvido em inmeras polmicas, espe-
tem algum sentido. Por exemplo, o perodo              cialmente com Michel Foucault, Hans-Georg
1933-7, nos Estados Unidos, marcou a mais              Gadamer, Jrgen Habermas, Jacques Lacan e
longa expanso em tempos de paz registrada at         John Searle.
os anos 60; os ganhos dos trabalhadores cresce-            Pode-se demonstrar que grande parte do
ram sem interrupo, pelo qual era difcil falar       material crtico escrito a respeito de Derrida se
em depresso; mas o desemprego esteve sem-             apia em uma compreenso inadequada. Mas
pre acima de 14%, pelo qual por isso era difcil       sua obra  suficientemente difcil para inspirar
falar de surto. Histria semelhante poderia ser        diferenas de interpretao muito bsicas at
narrada a respeito do Reino Unido nos anos 80.         mesmo entre supostos especialistas. Est em
     difcil para teorias que se fundamentam          moda, e  muito conveniente, apontar que exis-
numa noo de equilbrio econmico assimilar           tem duas recepes opostas a Derrida, sejam
flutuaes econmicas, a no ser encarando             estas favorveis ou crticas: uma como essen-
essas flutuaes como parte do prprio proces-         cialmente um filsofo que pode, de modo ape-
so de equilbrio. (Ver ECONOMIA NEOCLSSICA.)          nas incidental, ter algumas coisas a dizer a
Por outro lado, existem variedades na teoria           respeito de estudos literrios (Jonathan Culler,
marxista, todas as quais enfatizam o carter           Rodolphe Gasch, Christopher Norris), e a ou-
endgeno e funcional dos ciclos para o desen-          tra, como quase um antifilsofo, atacando a
volvimento capitalista. (Ver, por exemplo, RE-         filosofia a partir do ponto de vista de algo
GULAO.) Para ambas permanece o desafio:              semelhante  literatura (Habermas, Geoffrey
explicar teoricamente como a queda de um               Hartman, Richard Rorty). Esse tipo de caracte-
ciclo leva s vezes a uma depresso econmica,         rizao pode ser exposto como fundamental-
mas somente s vezes.                                  mente equivocado (Bennington), no mnimo
    Ver tambm CICLOS DE LONGO PRAZO; CICLO            porque se apia numa representao binria
ECONMICO; CRESCIMENTO.                                (ver adiante) em um contexto em que o binaris-
                                                       mo  possivelmente o objeto bsico de suspeita.
Leitura sugerida: Bernstein, M.A. 1987: The Great
Depression: Delayed Recovery and Economic Change           Derrida toma como seu objeto nada menos
in America, 1929-1939  Brunner, K., org. 1981: The     que a totalidade daquilo a que ele se refere
Great Depression Revisited  Day, R.D. 1976: "The       como, no rastro de Heidegger, metafsica ou
theory of long waves: Kondratiev, Trotsky, Mandel".    ontoteologia ocidental. Sua afirmao, ainda
New Left Review 99, 67-82  Fearon, P. 1987: War,       seguindo Heidegger,  de que essa tradio,
Prosperity and Depression: the US Economy 1917-45      pelo menos desde Plato, tentou determinar o
 Mandel, E. 1980: Long Waves of Capitalist Develop-
ment: the Marxist Interpretation  Rosenberg, N. e
                                                       ser como presena, mas que tal determinao 
Frischtak, C.R. 1984: "Technological innovation and    dogmtica, apoiando-se em uma "deciso ti-
long waves". Cambridge Journal of Economics 8, 7-24.   co-terica", e no em alguma demonstrao
                                    SIMON MOHUM        terica, e sempre pode ser exposta como falha
                                                       em toda uma variedade de maneiras. No ponto
desacordo Ver DISSENSO.                                de vista de Derrida, o pensamento ocidental tem
                                                       avanado habitualmente num sentido de oposi-
desconstruo Este tornou-se o termo de                o, propondo pares binrios de conceitos (dos
uso mais corrente para descrever o trabalho do         quais alguns dos mais difundidos e gerais talvez
filsofo francs Jacques Derrida (nascido em           sejam dentro/fora, bom/mau, puro/impuro, pre-
1930) e dos que se descrevem, ou so encara-           sena/ausncia). Ao mesmo tempo em que
dos, como seus seguidores (apesar das reservas         apresenta esses pares como neutros e descriti-
do prprio Derrida a respeito dessa palavra),          vos, o pensamento ocidental est na verdade
192   desconstruo


determinando um desses termos como primrio            do de "escrita", assim elaborado, funciona ao
ou privilegiado e o outro como secundrio,             mesmo tempo como a condio da possibili-
derivado, inferior, ou parasitrio, com respeito       dade da LINGUAGEM e como a condio de im-
ao primeiro. Os primeiros trabalhos de Derrida         possibilidade de ela jamais alcanar seu tradi-
tentam demonstrar isso, de forma improvvel,           cional telos de auto-obliterao no interesse do
seguindo a orientao fornecida pela compre-           pensamento.
enso tradicional da relao entre fala e escrita          Esse "exemplo" de desconstruo indica
(em Husserl, Plato, Rousseau, Saussure, Hegel         imediatamente inmeras e importantes conse-
entre outros). Derrida demonstra, num primeiro         qncias "metodolgicas":
momento de exegese, como a fala  tradicional-             1. textos (at mesmos os textos filosficos)
mente valorizada em relao  escrita, fazendo                no so simples e unificados, mas habitual-
reverter para si mesma todos os valores de                    mente implicam, ao lado do contedo ou
presena, enquanto a escrita  (des)qualificada               doutrina mais obviamente proposto, recur-
como corporificando exterioridade, materiali-                 sos mais ou menos bvios que funcionam
dade, morte e ausncia. Em um segundo mo-                     contra esse contedo ou doutrina;
mento, Derrida afirma que, mesmo em seus
                                                           2. o funcionamento desses recursos pode
prprios termos, os autores em questo no
                                                              ser demonstrado, independentemente de
conseguem deixar de expor, apesar de seus
                                                              qualquer alegao quanto ao que o autor
argumentos mais patentes, que os predicados
                                                              pretendia;
habitualmente usados na descrio da escrita
so, na verdade, predicados essenciais da lin-             3. a desconstruo no  essencialmente
guagem em geral e, portanto, tambm da fala.                  uma atividade crtica posta em ao pelo
Os filsofos parecem querer demonstrar que a fala             leitor, a partir de uma posio de fora do
 bsica e a escrita, derivativa: terminam demons-            texto, mas em certo sentido j est "no"
trando, contra sua prpria vontade, que a fala  ela          texto;
prpria, na verdade, uma espcie de "escrita".             4. na medida em que os textos fogem ao
    O cerne da argumentao  o seguinte: a                   controle de qualquer leitura internamen-
escrita  tradicionalmente representada como                  te proposta (item 1 acima), ento eles
implicando o funcionamento repetvel de um                    tampouco "se desconstroem" simples-
signo na ausncia da minha inteno animadora                 mente (isso mais uma vez desqualifica
(por exemplo, depois de minha morte); mas,                    todo um mbito de reaes a Derrida,
sem a possibilidade (a possibilidade essencial)               tanto elogiosas quanto crticas). A des-
da repetio descontextualizada (se necessrio,               construo ocorre em algum ponto "en-
depois de minha morte) mesmo das coisas que                   tre", digamos, Derrida e Plato, mas no
eu falo e que tenho a plena inteno de dizer, a              pode ser localizada dentro dos esquemas
linguagem no funcionaria em absoluto. A pos-                 histricos de nenhuma histria da filoso-
sibilidade da repetio (como o mesmo, mas                    fia ou das idias.
repetido e, nessa medida, no idntico)  defi-            Essas conseqncias talvez fossem de im-
nidora da linguagem como um todo e no pode            portncia apenas limitada (afetando, por exem-
ser confinada  escrita. A desconstruo da            plo, o historiador ou leitor de filosofia, mas no
oposio clssica (aqui, fala/escrita) implica a       o que "faz" filosofia), no fosse por uma nova
reteno polmica do termo previamente des-            afirmativa extrada dessa descrio sobre como
valorizado (aqui, escrita) para nomear uma es-         a linguagem em geral pode funcionar. A des-
trutura mais geral que inclui o termo previa-          construo tende a demonstrar como  incoe-
mente valorizado (aqui, fala). Esse termo (es-         rente qualquer tentativa de definir conceitos ou
crita) sofreu um deslocamento (ou "reinscri-           significados como auto-suficientes, e como de-
o") nesse processo e rompeu a oposio bi-           saba qualquer tentativa de determinar as conse-
nria em que era tradicionalmente definido.            qentes relaes entre conceitos como opositi-
Esse deslocamento imediatamente desqualifica           vas (ou, por extenso, dialticas). Uma das
todo um mbito de reaes "textualistas" a             afirmaes mais significativas da desconstru-
Derrida (sejam elas de apoio ou de crtica), as        o  que as explicaes binrias e dialticas
quais assumem que o termo conserva o seu               ainda funcionam no sentido de uma unidade
sentido antigo. Alm disso, o conceito desloca-        indiferenciada (a "presena" da metafsica, para
                                                                                  desconstruo      193


sermos precisos). Numa interpretao descons-       da palavra,  que nada existe fora da rede assim
trutiva, esse relao deve ser concebida como       radicalmente histrica de diferenas inter-rela-
diferencial, mas no opositiva, ou como impli-      cionadas multiestratificadas, ou, no que se tor-
cando uma diferena que (contrariamente a He-       nou uma formulao notria, que "nada existe
gel) no precisa tornar-se oposio (ver DIAL-     fora do texto". Diffrance significa que as dife-
TICA). Significados ou efeitos disso (pois Der-     renas nunca so absolutas (uma leitura errnea
rida acredita to pouco em "significados" quan-     comum de Derrida implica a assimilao de
to Quine ou Wittgenstein) resultam da rede          sua diffrance  diferena absoluta de Hegel,
multiplamente diferencial em que os termos so      na tentativa de mostrar como ela deve reverter
definidos unicamente por suas inter-relaes.       a identidade absoluta), e nem o so, portanto,
Essa rede  intrinsecamente histrica, na medi-     as identidades. Essa situao radicalmente no-
da em que os termos s esto "presentes" atra-      teleolgica  uma ofensiva ao racionalismo
vs de sua repetibilidade como o mesmo (mas         (ver RACIONALIDADE E RAZO), mas no signi-
no idntico), e portanto  inerentemente tradi-    fica que a desconstruo seja, por isso, ir-
cionalista. Os nicos meios para o pensamento       racionalista ou niilista: as razes precisam ser
so herdados com essa rede, e  ingenuidade         apresentadas, e Derrida escreve muita coisa que
esperar que algum seja capaz de pensar sem         pode ser reconhecida dentro das normas da
recorrer a ela. No campo da conceitualidade         argumentao filosfica (pace Habermas), mas
filosfica, essa historicidade da rede implica      seu valor nunca  estabelecido. A desconstruo
que qualquer uso de um conceito filosfico (e,      no diz que tudo  de valor igual, mas que
na verdade, de qualquer conceito) envolve uma       estabelecer valores como iguais ou desiguais
"leitura" pelo menos implcita da tradio, que     permanece sendo sempre uma questo; ela no
assim no pode ser ignorada.                        diz que existe um nmero infinito de interpre-
    Essa dvida ambivalente e inevitvel para       taes ou significados, mas sim que no existe
com a tradio  tambm o motivo pelo qual          uma interpretao ou um significado (ver HER-
Derrida conserva o nome do antigo conceito          MENUTICA). Ao contrrio do pensamento bin-
(aqui, "escrita"), em vez de tentar simplesmente    rio, a desconstruo, assim, abre-se para uma
introduzir um nome novo para aquilo que ele         multiplicidade, ou "disseminao", radical, que
est tentando pensar. Em outros pontos, a lgica    permanecer sendo sempre desorganizada ou
desse argumento traduz-se nos hbitos de Der-       catica. Essa multiplicidade implica que a
rida de tomar emprestados os operadores lgi-       desconstruo tenta conceder aos eventos uma
cos de seus argumentos dos textos sob discus-       singularidade que lhes  negada na filosofia
so, negando assim a possibilidade de qualquer      metafsica. Devido a essa multiplicidade, os
demarcao clara de objeto-linguagem e meta-        eventos, em sua singularidade, so indecidveis
linguagem. Essa recusa da tradicional fantasia      (nunca absolutamente classificveis ao modo
filosfica de se obter um ponto de observao       binrio clssico), e portanto, segundo Derrida,
fora do ponto do campo da investigao, no          exigem decises infundadas que so da ordem
entanto, no obriga Derrida a uma posio de        do que se encara tradicionalmente como polti-
pura imanncia: certos termos (pharmakon, su-       ca. Mas, se a filosofia poltica tradicional tenta
plemento, parergon e at mesmo o notrio neo-       domesticar essa dimenso indecidvel, a
logismo "diffrance" -- tentativa de dar nome       desconstruo a afirma e, nessa medida, no
ao "tornar-se diferente" da rede diferencial; ver   pode ser anexada a programas ou teorias polti-
ESTRUTURALISMO -- atravs de uma modifica-          cas reconhecveis. A indecidibilidade torna
o jocosa da noo-chave de diferena) ga-         possvel a tomada responsvel de decises (sem
nham um valor sempre limitado nos textos den-       ela, a tica e a poltica seriam reduzidas a
tro dos quais, no obstante, permanecem embu-       administrao e burocracia), mas torna impos-
tidos: esse status "quase transcendental" (tal      svel sua fundamentao terica ou doutrinria
como formalizado especialmente por Rodolphe         segura. Nessa medida, ela  ao mesmo tempo o
Gasch) implica um estgio intermedirio entre      recurso e o desespero da poltica em geral.
o imanente e o transcendente que talvez capte
                                                    Leitura sugerida: Bennington, Geoffrey e Derrida,
melhor a posio desconstrutiva.                    Jacques 1991: Jacques Derrida  Culler, J. 1982: On
    Uma das conseqncias dessa situao, que       Deconstruction: Theory and Criticism after Structura-
j no  mais filosfica no sentido tradicional     lism  Derrida, Jacques 1967: De la grammatologie 
194   desemprego

1967: L'criture et la diffrence  1972: Positions    na na fbrica, urbanizao acelerada, ensino
Gasch, Rodolphe 1986: The Tain of the Mirror: De-    compulsrio para as crianas e excluso das
construction and the Philosophy of Reflection.
                                                      mulheres do mercado de trabalho, a capacidade
                          GEOFFREY BENNINGTON         dos indivduos de subsistir atravs da movi-
                                                      mentao, geralmente em base sazonal, entre o
desemprego Desemprego indica a existn-               mercado de trabalho formal e o setor informal,
cia, dentro de uma sociedade, rea geogrfica         compreendendo instituies no de mercado
ou grupo social, de quantidades significativas        (tais como o lar) declinou rapidamente. Em
de adultos buscando trabalho remunerado, as-          conseqncia, nas ltimas dcadas do sculo
sim como a permanncia dessa situao. Vem            XIX, encontrar e manter trabalho remunerado
sendo uma caracterstica crnica das socieda-         regular -- e o seu inverso, o desemprego --
des modernas que se baseiam no emprego re-            tornaram-se um aspecto crucial das vidas da
munerado. Com exceo do perodo de 30 anos           maioria das pessoas e uma condio necessria
que se seguiu  Segunda Guerra Mundial, essas          manuteno das rendas domsticas.
sociedades normalmente no tm fornecido su-              Os efeitos de estar desempregado so em
ficiente trabalho remunerado para a populao         geral traumticos, profundamente pessoais e
adulta. O desemprego tem sido a causa de fre-         no se restringem  perda de rendimentos e do
qentes conflitos sociais e polticos, bem como       poder de consumo. So tambm altamente va-
de considervel inquietao social e psicolgi-       riveis de acordo com personalidade, sexo,
ca. A controvrsia social e poltica a respeito das   idade, classe, tipo de ocupao anterior, his-
causas e efeitos do desemprego, e dos remdios        trico de vida e grau de desemprego dentro da
contra ele, foi especialmente intensa nos anos        localidade imediata e/ou da famlia. No obs-
20 e 30, bem como nas dcadas de 70 e 80,             tante, vrios estudos (ver Pilgrim Trust, 1938;
ambos perodos de alto desemprego. No decor-          Jahoda et al., 1932; Kelvin e Jarrett, 1985) tm
rer das ltimas dcadas a ateno tem-se trans-       destacado os aspectos gerais de grave perturba-
ferido para consideraes sobre todo o futuro         o psicolgica, social e fsica vivenciada por
do trabalho remunerado.                               pessoas que ficam desempregadas. Entre os
    O desemprego no era problema nas socie-          efeitos psicolgicos identificados como ligados
dades baseadas na caa e na coleta; nem era           ao desemprego incluem-se resignao, auto-
admitido como problema em regimes do tipo             estima negativa, desespero, vergonha, apatia,
sovitico, onde sua existncia no era oficial-       depresso, desesperana, sensao de futilida-
mente reconhecida. Em sociedades tribais, o           de, perda de objetivo, passividade, letargia e
desempenho das atividades de subsistncia re-         indiferena. Entre os efeitos sociais incluem-se
queria relativamente pouco tempo, no propor-         pobreza, perda de status, perda de disciplina
cionava status ou remunerao especial e no          temporal e rotina diria, isolamento social, de-
era encarado como uma esfera isolada da vida.         sagregao da vida em famlia, incluindo o
Estados do tipo sovitico tambm no reco-            divrcio, mudanas na diviso sexual do traba-
nheciam uma rea distinta da sociedade civil,         lho e vrias formas de comportamento anti-so-
uma "economia", em que os trabalhadores so           cial, incluindo roubo e vandalismo. Entre os
empregados, distintamente do estado. Da no          efeitos fsicos incluem-se vrias formas de
reconhecerem a existncia de desemprego, em-          doena, insnia, tenso e ansiedade, resultando
bora vrias formas de "desemprego oculto" (ver        s vezes em tentativa de suicdio, embriaguez
adiante) fossem muito difundidas. Somente             intermitente e de curto prazo, violncia intrafa-
com o surgimento de sociedades "de emprego",          miliar e maus-tratos a crianas.
baseadas no TRABALHO remunerado -- organi-                A filosofia pblica predominante no sculo
zado em grande escala, com base no MERCADO            XIX, e que permaneceu na verdade at os anos
DE TRABALHO e ligado  produo agrcola, fa-         40 deste sculo, dizia que o desemprego era
bril e de servios --,  que o desemprego as-         inevitvel, basicamente de curto prazo e re-
sume o significado social, econmico e poltico       sultante, de maneira caracterstica, das inade-
que tem hoje (ver SOCIEDADE INDUSTRIAL). Sob          quaes pessoais dos desempregados -- ou da
presses de uma atividade fabril e do rpido          sua falta de esforo e iniciativa ou (seguindo
desenvolvimento, novas e mais rigorosas for-          Malthus) de sua tendncia a produzir famlias
mas de especializao no trabalho e de discipli-      grandes. Essa viso refletiu-se no pensamento
                                                                                 desemprego     195


econmico clssico e neoclssico: que as eco-       volta do final do sculo XIX, um corpo cres-
nomias capitalistas tinham uma tendncia "na-       cente de opinio social e poltica reformista
tural" ao pleno emprego porque, segundo a Lei       reclamava garantias de pleno emprego por parte
de Say, a oferta cria sua prpria demanda, isto     do estado, ao mesmo tempo em que rejeitava
, criar produo vai gerar automaticamente a       explicitamente as interpretaes tanto ortodoxa
demanda.  medida que crescesse o desempre-         quanto marxista do problema. As solues pro-
go, produzindo uma oferta excessiva de mo-         postas variavam consideravelmente. Muitos
de-obra "ociosa", os salrios cairiam, permitin-    defendiam o protecionismo ou o recrutamento
do que mais trabalhadores fossem empregados.        naval e militar; outros, garantias pblicas do
    Marx, porm, contestou de maneira explci-      direito ao trabalho, criao direta de empregos
ta a idia de que o desemprego nas sociedades       pelo estado e taxao progressiva combinada
capitalistas era um fenmeno temporrio. Em         com obras pblicas contracclicas. Mas nenhu-
O capital, ele afirma tratar-se de um problema      ma teoria geral alternativa para o desemprego
estrutural bsico, ligado aos processos de acu-     se mostrou disponvel at os anos 30 e 40 deste
mulao de capital e explorao capitalista do      sculo.
trabalho. Em uma sociedade capitalista, sujeita         Impelido pelo desemprego macio dos anos
a crises recorrentes e cada vez mais graves, no    20 e 30, J.M. Keynes desenvolveu os conceitos
havia nenhuma tendncia automtica garantin-        de demanda econmica agregada e deficin-
do o equilbrio do pleno emprego, conforme          cia de demanda (ver KEYNESIANISMO), e sua teo-
afirmavam os economistas clssicos e neocls-       ria do desemprego foi habilmente sintetizada
sicos. As sociedades capitalistas precisam de       em um programa social-democrata para um
um "exrcito de trabalho industrial de reserva"     estado de bem-estar e de pleno emprego por
que mantenha a fora de trabalho sob presso        William Beveridge em Full Employement in a
permanente. Quando se expande a demanda             Free Society (1944). Nesse influente relatrio,
econmica, a demanda por trabalho aumenta,          Beveridge defendia garantias governamentais
reduzindo com isso o exrcito de reserva e          de pleno emprego do trabalho e do capital atra-
inflacionando o preo da mo-de-obra. Quando        vs da regulamentao do mercado de trabalho
os salrios sobem, tanto a taxa de lucro da         pelo ESTADO DE BEM-ESTAR, como parte de um
acumulao de capital quanto o prprio nvel        programa social e poltico bem mais amplo para
de acumulao caem, reduzindo a demanda             a criao de uma sociedade que garantisse jus-
agregada, retraindo a atividade econmica e         tia e liberdade para todos. A argumentao de
aumentando o exrcito de reserva. A existncia      Beveridge em favor de um estado de bem-estar
contnua de um exrcito de reserva garante          e de pleno emprego estabeleceu efetivamente
assim que os salrios, mesmo quando em aguda        os parmetros para a discusso pblica do des-
ascenso, no ameacem os lucros. Marx dife-         emprego nas sociedades capitalistas durante os
renciou trs elementos no exrcito de trabalho      30 anos que se seguiram.
de reserva: trabalhadores industriais flutuantes,       A criao de estados de bem-estar e de pleno
que passam de um emprego a outro; um bolso         emprego em muitos pases capitalistas coinci-
latente de trabalhadores em reas agrcolas;        diu com um perodo, depois da Segunda Guerra
e uma populao estagnada de trabalhadores          Mundial, de prolongado crescimento econmi-
eventuais, que esto muito perto da misria.        co, pleno emprego (masculino), crescimento
Autores marxistas recentes (como Braverman,         dos salrios e baixa inflao. Sempre que pare-
1974) demonstraram que esse tradicional exr-       cia necessrio, os governos desses pases -- s
cito de reserva vinha sendo crescentemente su-      vezes dentro do quadro de um planejamento
plementado, no decorrer das ltimas dcadas,        econmico indicativo e de extensa propriedade
por mulheres e imigrantes que entravam para o       por parte do estado, como na Frana -- contro-
mercado de trabalho em base temporria (como        lavam seus prprios gastos e impostos para
era o caso dos Gastarbeiter, os "operrios hs-     garantir um nvel consistentemente elevado de
pedes", na Alemanha).                               demanda econmica e de emprego. A maioria
    Com as recorrentes recesses econmicas         dos comentaristas e dos implementadores de
depois da dcada de 1870, e sob a presso dos       programas econmicos chegou  concluso de
SINDICATOS emergentes, o desemprego logo se         que, uma vez que os governos, usando as tcni-
tornou uma importante questo pblica. Por          cas keynesianas de administrao da demanda,
196   desemprego


eram capazes de manter o desemprego em n-          qualquer poltica monetria ou fiscal que tente
veis baixos e conservar a prosperidade, esses       colocar a taxa de desemprego abaixo do que
programas deviam, portanto, garantir tais con-      eles chamam de taxa "natural" s conseguir,
dies favorveis. Vrios autores afirmaram,        em ltima anlise, acelerar a taxa de inflao.
com o benefcio da viso em retrospecto, que o      Em vez disso, os governos deveriam dar um
pleno emprego do ps-guerra dependeu de uma         passo decisivo no sentido de estabelecer e man-
conjuntura de muitos outros fatores econmi-        ter um controle rigoroso sobre o meio circulante
cos, sociais e polticos mais importantes: pol-    (a fim de controlar a inflao); deviam seguir
ticas de livre comrcio nas finanas e no comr-    uma estratgia de emprego de livre mercado,
cio internacional; estabilidade de preos; reser-   visando reduzir a "rigidez estrutural" dentro da
va de crescimento e de desenvolvimento tecno-       economia e no comrcio internacional, reduzin-
lgico potencial que economias mais bem-su-         do drasticamente a interveno estatal na eco-
cedidas podiam explorar; e tambm as polti-        nomia e cortando o tamanho e o custo do estado
cas keynesianas (ver, por exemplo, Matthews,        de bem-estar burocrtico. Assim, a livre con-
1968).                                              corrncia garantir um nvel elevado e prolon-
    O pleno emprego era tambm a poltica           gado de emprego. (Ver Friedman, 1977; Fried-
oficial de estados do tipo sovitico, como parte    man e Friedman, 1962 e 1980.)
de estratgias econmicas socialistas criadas           As abordagens de livre mercado para o de-
para se atingir uma rpida industrializao e       semprego exerceram substancial influncia so-
lanar as bases de uma sociedade socialista. Era    bre as polticas governamentais nos anos 80,
tpico desses estados que tais estratgias --       especialmente na Gr-Bretanha e nos Estados
abandonadas por muitos deles no incio dos          Unidos, mas, tal como o estado de bem-estar e
anos 90 -- sacrificassem deliberadamente a          de desemprego, esses pases enfrentaram mui-
eficincia econmica, no reconhecessem a           tos problemas para reduzir os altos nveis de
existncia do desemprego ou de um mercado de        desemprego. Importantes fatores econmicos
trabalho e alocassem os nmeros excessivos de       que explicam essas dificuldades foram a DESIN-
trabalhadores em projetos e indstrias (dirigi-     DUSTRIALIZAO e a nova diviso internacional
dos pelo estado), escondendo assim diversas         do trabalho, que aumentou o desemprego "es-
formas de desemprego "oculto".                      sencial" ou "estrutural" (diferente do desem-
    Com o retorno do desemprego em massa na         prego "cclico" ou keynesiano); e tendncias
maioria dos pases da Europa Ocidental e na         demogrficas que aumentaram o nmero de
Amrica do Norte nos anos 70, a viso social-       trabalhadores, particularmente mulheres e imi-
democrata de Beveridge passou a sofrer um           grantes, na demanda por emprego.
ataque contnuo por parte da Nova Direita, cujo         Os altos nveis de desemprego nos anos 70
pensador mais destacado na questo das causas       e 80 levaram muitos autores a questionar a
do desemprego  o economista Milton Fried-          viabilidade de se retornar ao pleno emprego,
man (ver ESCOLA ECONMICA DE CHICAGO). De-          assim como todo o futuro do trabalho remune-
senvolvendo uma linha de pensamento que re-         rado. Segundo Andr Gorz, em seus Farewell
monta a Herbert Spencer e outros autores do         to the Working Class (1980, 1982) e Paths to
ultimo quartel do sculo XIX, Friedman insiste      Paradise (1984), as ltimas dcadas do sculo
em que o apoio no estado burocrtico para           XX esto testemunhando o surgimento de so-
garantir o bem-estar dos indivduos tornou-se       ciedades de desemprego de massa permanente.
um fim em si mesmo, contradizendo com isso           medida que o trabalho remunerado vem sen-
o objetivo original de maximizar a liberdade        do cada vez mais substitudo por sistemas mi-
individual e a igualdade de oportunidades. O        croeletrnicos e de telecomunicaes, na "re-
pleno emprego no pode ser alcanado atravs        voluo da robtica", bens e servios podem ser
dos meios de um estado de bem-estar devido ao       produzidos com menos investimento, menos
tipo de planejamento e regulamentao esta-         matrias-primas e menos mo-de-obra.  pro-
tais recomendados por Beveridge e Keynes, os        vvel, portanto, que essas sociedades venham a
quais distorcem os mecanismos de mercado            passar por um "crescimento sem emprego", isto
para a determinao de salrios, preos, inves-     , o crescimento econmico pode ocorrer, mas
timentos e a distribuio do trabalho remune-       no estar associado a expanses equivalentes
rado. Especificamente, Friedman afirma que          do emprego. Esse desenrolar dos acontecimen-
                                                               desenvolvimento e subdesenvolvimento      197


tos no s vir a gerar desemprego em massa,                adequadas (superao da pobreza absoluta), ao
conclui Gorz, como tambm alterar a estrutura              que se podem acrescentar ainda outras con-
de classes scio-econmicas das sociedades de               dies de uma existncia humana plena, tais
emprego. Sob a presso de acelerar a MUDANA                como o acesso universal  educao, liberdades
TECNOLGICA, os trabalhadores se vero dividi-              civis e participao poltica (superao da po-
dos em trs substratos: uma aristocracia privi-             breza ou privao relativa).
legiada de "trabalhadores com estabilidade",                    Depois de 1945 o mapa internacional foi
fortemente sindicalizados, com emprego inte-                redesenhado por movimentos anti-colonialistas
gral; e dois substratos formando uma "no-clas-             e pelo fim do imprio colonial, bem como pela
se de no-trabalhadores", compreendendo os                  hegemonia dos Estados Unidos no mundo ca-
permanentemente desempregados, condenados                   pitalista e sua rivalidade com a Unio Sovitica
 pobreza e  ociosidade, e um nmero cres-                 na busca de aliados entre os estados indepen-
cente de trabalhadores "temporariamente em-                 dentes da sia e da frica. Nesse contexto
pregados", em ocupaes de baixa especializa-               global, o desenvolvimento no sentido transfor-
o, sem nenhuma segurana no emprego e                     mador e transitivo acima sublinhado tornou-se
nenhuma identidade de classe definida (ver                  um objetivo maior de governos e de organismos
CLASSE OPERRIA). O nico meio desejvel de se              internacionais como as Naes Unidas e o In-
evitarem essas divises sociais agudas e o des-             ternational Bank for Reconstruction and Deve-
emprego em massa permanente  separar o ter                 lopment (Banco Internacional para a Recons-
o emprego do receber uma renda; e desenvolver               truo e o Desenvolvimento, o chamado World
uma sociedade democrtica, ps-emprego, na                  Bank, Banco Mundial), e surgiu, nas cincias
qual o trabalho socialmente necessrio se veja              sociais, como um campo de especializao.
reduzido a um mnimo e seja distribudo eqi-                   Uma intensa controvrsia continua a cercar
tativamente, a fim de "fazermos mais coisas por             as causas do subdesenvolvimento e os modos
ns prprios em nosso tempo livre" (Gorz,                   de alcanar o desenvolvimento, refletindo pon-
1984).                                                      tos de vista radicalmente diferentes sobre a
                                                            natureza do desenvolvimento ocidental e ja-
Leitura sugerida: Bottomore, Tom 1990: The Socia-
list Economy: Theory and Practice  Harris, J. 1982:         pons (capitalista industrial), sobre a econo-
Unemployement and politics: a study in English Social       mia internacional que ele criou e sobre como
Policy, 1886-1914  Hawkins, K. 1984: Unemployment           esse desenvolvimento condiciona as perspec-
 Jahoda, M. 1982: Employment and Unemployment: A            tivas de desenvolvimento no TERCEIRO MUNDO,
Social-Psychological Analysis  Keane, J. e Owens, J.        bem como a respeito das pretenses rivais das
1986: After Full Employment  Kumar, K. 1984:                solues capitalista, socialista e nacionalista
"Unemployment as a problem in the development of
industrial societies: the English experience". Sociologi-   para os problemas do desenvolvimento. A teo-
cal Review 32, 185-233  Moggridge, D.E. 1976:               ria social dedicada ao desenvolvimento e sub-
Keynes  Pahl, R.E. 1984: Divisions of Labour  Ste-          desenvolvimento tem, portanto, mbito "his-
wart, M. 1967: Keynes and After  Warr, P. 1987: Work,       trico mundial" em sua abrangncia e com-
Unemployement and Mental Health  Winch, D. 1969:            plexidade, mas vrios temas capitais so abor-
Economics and Policy: a Historical Study.                   dados nos muitos debates que ela tem gerado.
                                       JOHN E. OWENS
                                                            Fatores globais e societais
desenvolvimento e subdesenvolvimento                            Um dos conjuntos de questes que per-
Esta expresso indica a conquista do progresso              meiam todos os debates diz respeito  natureza
econmico e social (desenvolvimento) atravs                e  avaliao dos fatores internos (societais) e
da transformao do estado de subdesenvolvi-                externos (globais) na explicao da estagnao
mento (baixa produo, estagnao, pobreza)                 e da mudana. Nas teorias da MODERNIZAO
em pases designados de forma variada como                  dos cientistas sociais norte-americanos em par-
"pobres", "subdesenvolvidos", "menos desen-                 ticular, sociedade ou cultura "tradicional" , na
volvidos" ou "em desenvolvimento". O CRESCI-                verdade, sinnimo de subdesenvolvimento (ver
MENTO ECONMICO  uma condio necessria,                  tambm TRADIO E TRADICIONALISMO). Abs-
ainda que insuficiente, para o progresso social,            tratamente, tradio e modernidade so deli-
representado pela satisfao de necessidades                neadas pelas "variveis padro" de Talcott Par-
bsicas, tais como nutrio, sade e habitao              sons (1951), que descrevem a modernizao
198   desenvolvimento e subdesenvolvimento


como a evoluo de sistemas sociais com alto        subordinados, enriquecendo as primeiras e em-
grau de diferenciao funcional e estrutural e      pobrecendo os ltimos, criando e reproduzindo
mecanismos correspondentes de integrao. A         com isso o seu subdesenvolvimento. Ao que
diferenciao abrange uma complexa diviso          tudo indica, formas sociais tradicionais ou pr-
social do trabalho e uma racionalidade que          capitalistas em pases e regies satlites so,
produz inovao e crescimento, enquanto a in-       portanto, na realidade, capitalistas, em conse-
tegrao e seu sistema normativo garantem a         qncia de sua integrao ao mercado mundial.
estabilidade social.                                Os principais mecanismos de "escoamento de
    Os pases subdesenvolvidos caracterizam-        excedentes" so uma troca desigual no comr-
se por uma estrutura dual de setores sociais,       cio internacional, a expatriao de lucros por
crenas e prticas tradicionais e modernas. O       parte de um investimento estrangeiro e de juros
motor da transformao  psicocultural -- uma       sobre emprstimos no exterior, dentro de uma
"revoluo de expectativas crescentes", promo-      diviso internacional do trabalho que sistema-
vendo a difuso da modernidade, dos pases          ticamente favorece as metrpoles.
desenvolvidos para os subdesenvolvidos e,               Esse retrato de um sistema global gerando o
dentro destes ltimos, dos setores modernos         desenvolvimento e o subdesenvolvimento co-
para os tradicionais. A mensagem subjacente        mo dois lados da mesma moeda tem exercido
"sigam os passos do Ocidente" e "ns os auxi-       uma influncia enorme. Tambm tem sido con-
liaremos" atravs da ajuda e dos investimentos      testado e modificado de vrias formas, con-
externos, da transferncia de tecnologia e assim    forme aconteceu com a receita principal de
por diante. Os problemas surgem quando uma          Frank, que era de autarquia para os pases do
mudana scio-econmica no consegue satis-         Terceiro Mundo, seu "desengajamento" da eco-
fazer as expectativas crescentes, dando lugar a     nomia mundial, como uma condio necessria
frustraes cada vez maiores que exigem fortes      ao desenvolvimento.
"elites modernizantes" capazes de, simultanea-          Transcendendo o modelo estagnacionista de
mente, induzir um desenvolvimento acelerado         Frank, as possibilidades e restries do "desen-
e manter a ordem.                                   volvimento dependente" foram formuladas por
    As teorias da modernizao, dessa maneira,      intelectuais latino-americanos (Cardoso e Fa-
formulam o desenvolvimento como um proces-          letto, 1969) e em seguida generalizadas para
so de difuso, adoo e adaptao, a partir de      todo o Terceiro Mundo. Tal como acontece com
um ambiente externo favorvel, e explicam o         muitas palavras associadas ao desenvolvimen-
subdesenvolvimento atravs das barreiras da         to, "dependncia"  uma noo elstica, mas
tradio que so intrnsecas aos pases pobres.     que reconhece a possibilidade de crescimento
As pressuposies e receitas da modernizao        econmico rpido, cujos padres e limites ainda
-- etnocntricas, s vezes implicitamente racis-    so determinados principalmente pela depen-
tas, em geral explicitamente anticomunistas --      dncia externa, em especial a dependncia das
tm sofrido um desafio vigoroso por parte das       corporaes multinacionais para a tecnologia,
posies que enfatizam os fatores globais na        e dos bancos internacionais para os financia-
explicao do subdesenvolvimento.                   mentos, dramatizada na atual crise da dvida do
    Um lema histrico desse desafio foi "o de-      Terceiro Mundo.
senvolvimento do subdesenvolvimento", cu-               Outra abordagem para a teorizao da rela-
nhado por Andr Gunder Frank (1969) para            o entre fatores internos e externos  a articu-
sustentar seu ponto de vista de que o subdesen-     lao dos modos de produo. Aqui, a idia-
volvimento no  uma situao original ou re-       chave  que, em vez de destruir outros modos
sidual (tradio), mas foi ativamente criado        de produo, o capitalismo em geral os conser-
pela incorporao do Terceiro Mundo  econo-        va (ou at mesmo os cria), articulando-os ou
mia mundial formada pela expanso europia a        combinando-os com o seu prprio funciona-
partir do final do sculo XV.                       mento a fim de obter bens "baratos" para sus-
    Essa economia capitalista mundial consiste      tentar a acumulao. Esses bens compreendem
em uma cadeia de relaes "metrpole-satlite"      tanto os da produo camponesa e artesanal
entre pases, e entre regies dentro deles, atra-   quanto os da fora de trabalho, que so baratos
vs das quais as metrpoles dominantes se apro-     porque seu valor de troca  "subsidiado" por
priam do excedente econmico dos satlites          uma produo de subsistncia no-paga. For-
                                                       desenvolvimento e subdesenvolvimento      199


mas sociais contemporneas pr ou no-capita-       por polticas socialistas, nacionalistas ou popu-
listas, portanto, nem representam uma tradio      listas, derivadas de noes equivocadas de im-
residual nem se tornam "capitalistas" simples-      perialismo (originrias de Lenin, 1916) e de-
mente por suas ligaes com a economia mun-         pendncia. Warren promoveu a volta completa
dial (Frank).                                       a uma explicao interna do fraco desempe-
    Essa abordagem terica foi desenvolvida de      nho econmico, apontando que a integrao no
forma mais sistemtica por antroplogos fran-       mercado mundial deve ser estimulada, em vez
ceses que trabalhavam na frica, em especial        de reprimida, e que a construo socialista 
Rey (1976) e Meillassoux (1975), embora de-         "prematura" enquanto o estgio de transforma-
bates independentes sobre "modos de produ-          o capitalista no estiver completo.
o", com agendas um tanto diversas e concen-
trados na questo agrria, tambm tenham ocor-      Estados, planos, mercados
rido na Amrica Latina (Bartra et al., 1976) e na       A posio de Warren converge em parte com
ndia (Patnaik, 1990). Formulada no mbito de       o atual neoliberalismo, que destaca um outro
uma anlise marxista do capitalismo, particu-       conjunto de questes a permear os debates: o
larmente conforme interpretado na teoria de         que diz respeito a estados, planos e mercados
Rosa Luxemburgo sobre o imperialismo (1913),        na promoo do desenvolvimento. Desenvolvi-
a articulao explica o subdesenvolvimento          mento capitalista e estados economicamente
atravs da necessria reproduo, dentro do         ativos so claramente compatveis. Gerschen-
capitalismo global, de formas pr-capitalistas      kron (1962) sugeriu que, para os "retardatrios"
servindo de base a um exrcito de trabalho de       relativos do desenvolvimento, o estado desem-
reserva em reas e classes empobrecidas.            penha um papel central no estabelecimento das
    Essa idia tambm se destaca no projeto         condies de acmulo de capital ou adotando-o
ecltico de um "sistema mundial" de Waller-         em setores estratgicos, o que faz lembrar a tese
stein (1979), que por sua vez tambm deve           da "infncia da indstria" do "economista na-
muito a Frank e at mesmo a Parsons, segundo        cional" alemo do sculo XIX Friedrich List
crticos da explicao funcionalista de Waller-     (1841).
stein para "sistema". Ao contrrio de Frank,            O desenvolvimento econmico do ps-
Wallerstein contrape-se explicitamente ao          guerra foi sem dvida encarado como respon-
marxismo com o argumento de que a proletari-        sabilidade dos estados, sob influncia do plane-
zao, crucial  sua explicao do desenvolvi-      jamento abrangente inaugurado na Unio So-
mento capitalista, foi excepcional, e no univer-   vitica e do gerenciamento econmico ociden-
sal, no sistema mundial moderno, que atrela         tal em tempo de guerra seguido pela recons-
toda uma variedade de formas de trabalho, nem       truo europia como o Plano Marshall e por
totalmente transformadas em mercadoria, nem         polticas influenciadas pelo KEYNESIANISMO. O
"livres", aos imperativos do acmulo de capital.    prprio J.M. Keynes participou do estabeleci-
Adicionalmente, Wallerstein substitui o dualis-     mento, em Bretton Woods, do sistema de ins-
mo esttico da estrutura metrpole-satlite de      tituies destinado a regulamentar a economia
Frank por uma hierarquia de localizaes cen-       internacional, incluindo o Banco Mundial, que
trais, semiperifricas e perifricas no sistema     teve um envolvimento crucial na promoo do
mundial, indicando que os pases podem alterar      planejamento (Waterston, 1965), at sua con-
sua localizao em momentos particulares de         verso a uma estratgia neoliberal, igualmente
mudana da DIVISO INTERNACIONAL DO TRABA-          ambiciosa, de "reforma" estrutural nos anos 80.
LHO.                                                    A extenso e a natureza do papel do estado
    Outra reao ao rpido crescimento econ-       no investimento, no gerenciamento econmico
mico em partes da Amrica Latina e dos PRJs         e na proviso social, e suas relaes com as
(pases recm-industrializados) do Leste asiti-    atividades do capital privado, nacional e inter-
co, foi virar de cabea para baixo os argumentos    nacional,  tema amplo e complexo em si mes-
das abordagens globais radicais em nome de se       mo, que se manifesta na prpria variedade de
reviver um marxismo "ortodoxo". Numa pol-          resultados do desenvolvimento conduzido pelo
mica importante, Bill Warren (1980) afirmou         estado em pases tanto capitalistas quanto so-
que o capitalismo desenvolve de fato o Terceiro     cialistas do Terceiro Mundo. As complexidades
Mundo ps-colonial, exceto onde isso  inibido      dessas diferentes experincias e do que  exigi-
200   desenvolvimento e subdesenvolvimento


do para analis-las foram reduzidas pelos suces-   da descolonizao. A criao de uma nao
sos ideolgicos (ainda que no prticos) da        coesa, ou "soerguimento nacional", era encara-
doutrina neoliberal de "reduzir o estado". Isso    do como tarefa vital para o estado na promoo
combina um ncleo seletivo de idias da eco-       do desenvolvimento, ou inseparvel dele.
nomia neoclssica com uma poltica agressiva           Na medida em que as contradies herdadas
que inclui a rejeio da disciplina da "economia   do subdesenvolvimento foram persistindo de-
desenvolvimentista" com base no keynesianis-       pois do momento triunfal da independncia e
mo e no estatismo intrnsecos (Lal, 1983). Alm    em que surgiram novas contradies de desen-
disso, o neoliberalismo apropriou-se em parte      volvimento desigual, a anlise de classe tornou-
da bandeira do amplo descontentamento popu-        se mais crucial, em geral concebendo a es-
lar com a ineficincia econmica do estado, sua    trutura de classe no capitalismo perifrico por
incapacidade de satisfazer necessidades bsi-      meio de seus desvios do capitalismo "clssico"
cas, sua corrupo e seu autoritarismo em mui-     ou central: burguesias dependentes ou burocr-
tos pases do Terceiro Mundo, e ganhou novo        ticas, em vez de "nacionais"; massas semipro-
mpeto com o dramtico colapso do socialismo       letarizadas ou marginais, em vez de classes
estatal do Leste Europeu, considerado alterna-     operrias. Outras abordagens visam transcen-
tiva ao capitalismo.                               der essa concepo um tanto mecanicista, abor-
    As atuais condies e perspectivas, bem co-    dando as especificidades e complexidades his-
mo a histria econmica, lanam dvida sobre       tricas da formao de classes e o modo como
a simplista explicao neoliberal de mercados      esta se entrelaa com outras divises da socie-
virtuosos e estados viciosos. Ainda que o pla-     dade civil, em especial as divises de gnero.
nejamento seja reduzido, que as empresas e             O feminismo tem exercido um impacto
funes do estado sejam privatizadas e desre-      substancial na anlise do desenvolvimento e
gulamentadas e que o comrcio externo e inter-     subdesenvolvimento, investigando e demons-
no seja liberalizado, o estado "mais magro"        trando os modos pelos quais seus processos
prescrito tem de ser muito mais eficiente, tanto   constituintes -- incluindo a formao e repro-
como tecnocracia quanto como agente de con-        duo de classes -- so influenciados pela di-
trole social, do que vem acontecendo at ento     ferena de gnero (Agarwal, 1988). Tem contri-
no Terceiro Mundo. Isso levanta questes a         budo tambm para um repensar geral, por parte
respeito da constituio e das condies dos       de alguns estudiosos, da agenda da teoria e
estados em relao s divises profundas de        prtica do desenvolvimento, provocado inter
classe, sexo, regio e cultura das sociedades      alia pela crtica convergente ao estado, de es-
cujo desenvolvimento eles tentam orientar, bem     querda e de direita. A agenda que surge centra-
como em relao s poderosas "foras exter-        liza-se em questes de agenciamento social
nas" do sistema mundial.                           que transcendem o dualismo convencional de
                                                   orientao por parte do estado (desacreditada)
Nao, classe e sociedade civil                    e a alternativa neoliberal do individualismo de
    Um terceiro conjunto de questes que per-      mercado, para explorar formas de "habilitao"
meiam o debate, portanto, diz respeito aos pro-    e de "ao pblica" que expressem e desenvol-
cessos sociais e polticos de nao, classe e      vam as capacidades de classes e grupos oprimi-
sociedade civil que exercem um efeito crtico      dos. Assim, h indcios de uma busca de novas
sobre a forma como as variveis macroecon-        solues para problemas persistentes de desen-
micas padro dos programas de desenvolvi-          volvimento e subdesenvolvimento enraizados
mento funcionam na prtica, sejam elas regimes     nas estruturas patentemente desiguais da eco-
de taxas cambiais e comrcio exterior, nveis de   nomia mundial capitalista e dos diferentes tipos
poupana, prioridades de investimento setorial     de sociedades que ela abrange.
ou papel do setor pblico.
    As razes iniciais no Terceiro Mundo para a    Leitura sugerida: Cardoso, F.H. e Faletto, E. 1969:
primazia do estado no desenvolvimento foram        Desenvolvimento e subdesenvolvimento na Amrica
                                                   Latina  Drze, J. e Sen A., 1989: Hunger and Public
a experincia do colonialismo e o temor da         Action  Edwards, C. 1985: The Fragmented World 
dominao "neocolonial" depois da indepen-         Elson, D., org. 1991: Male Bias in the Development
dncia. "Estado" e "nao" eram quase sinni-      Process  Kay, C. 1989: Latin American Theories of
mos no momento profundamente nacional(ista)        Development and Underdevelopment  Patnaik, P., org.
                                                                                   despotismo oriental      201

1986: Lenin and Imperialism  Post, K. e Wright, P.        questo ento passa a ser se ela tinha de decair
1989: Socialism and Underdevelopment  Sklair, L.          to abaixo do nvel da Frana, da Alemanha e
1991: Sociology of the Global System  Toye, J. 1987:
Dilemmas of Development: Reflections on the Counter-
                                                          da Itlia; questes semelhantes esto sendo hoje
revolution in Development Theory and Policy  Wolpe,       colocadas a respeito dos Estados Unidos. Em
H., org. 1980: The Articulation of Modes of Production.   geral, a explicao para esse mau desempenho
                                  HENRY BERNSTEIN
                                                          resulta de uma combinao de fatores: s vezes
                                                          a criao de vantagem comparativa por meio de
desigualdade Ver         IGUALDADE E DESIGUAL-
                                                          ao do estado em outras partes recebe a culpa;
DADE.
                                                          o mais freqente  que se d ateno ao proble-
                                                          ma de tipos variados de rigidez social interna.
desindustrializao Referindo-se  retra-                 Provavelmente, no  por acidente que o decl-
o da produo e/ou do emprego no setor fabril           nio na Gr-Bretanha e na Amrica do Norte
da economia, esse fenmeno tem recebido aten-             tenha sido to agudo: ambas as naes tm a
o particular no Reino Unido a partir do final           mesma averso anglo-saxnica pela poltica
dos anos 70, embora um debate mais recente                industrial e ambas tendem a favorecer as finan-
nos Estados Unidos aborde as mesmas ques-                 as acima da indstria.
tes. Ainda no se deu o valor suficiente                    A esquerda poltica tem-se mostrado parti-
existncia de uma literatura bastante diversa             cularmente preocupada com a desindustrializa-
sobre os efeitos desindustrializantes da incor-           o. O que tampouco  de surpreender: qual-
porao dentro dos grandes imprios europeus              quer das formas aqui identificadas reduz a im-
dos sculos XIX e XX. Deixando isso de lado,              portncia da classe operria manual, em cujas
a principal caracterstica da recente discusso           atividades tendem a repousar as esperanas pro-
sobre desindustrializao tem sido uma confu-             gressistas. A maioria dos planos para reverter a
so generalizada. Isso resulta do fato de dois            desindustrializao, porm,  imperfeita por
significados serem negligentemente superpos-              no distinguir entre os dois sentidos aqui des-
tos.                                                      tacados -- isto , fazem-se em geral planos para
    De um lado, a desindustrializao  encara-           reconduzir a indstria fabril ao seu antigo auge
da como conseqncia natural da mudana de                de glria, sem tomar conscincia do fato de que
uma sociedade industrial inicial para outra tar-          um pouco de desindustrializao  inevitvel --
dia (ou talvez ps-industrial) (ver SOCIEDADE             talvez at seja desejvel.
PS-INDUSTRIAL). O setor tercirio deve crescer,              Ver tambm MUDANA TECNOLGICA.
caso as economias avanadas queiram conser-
var sua margem competitiva, fazendo com que               Leitura sugerida: Bell, D. 1974: The Coming of Post-
                                                          Industrial Society  Blackaby, F., org. 1979: De-indus-
suas indstrias avancem no ciclo de produtos,             trialization  Gershuny, R. e Rowthorn, R. orgs., 1986:
isto , orientando-se para bens de tecnologia             The Geography of De-industrialization  Singh, A.
cada vez mais elevada. Nada existe de "errado"            1977: "UK industry and the world economy: a case of
nesse movimento. Uma fatia menor do Produto               de-industrialization?". Cambridge Journal of Econo-
Interno Bruto fornecida pela indstria fabril             mics 1.2, 113-6.
representa um declnio relativo, e no absoluto;                                                 JOHN A. HALL
ou seja, a desindustrializao no significa per-
da de afluncia. De forma semelhante, no h              despotismo oriental Referindo-se a uma
motivo, em princpio, para que uma reduo do             forma de organizao poltica na qual uma bu-
emprego no setor secundrio no possa ser                 rocracia centralizada controla o fornecimento
compensada no setor tercirio.                            de gua e os sistemas de irrigao, esse conceito
    Por outro lado, a desindustrializao refere-         tornou-se famoso atravs de Karl Wittfogel, que
se a economias que esto se saindo pior do que            escreveu um livro exatamente com esse ttulo
poderiam devido a causas estruturais variadas.            (1957), mas sua histria  complexa e sua refe-
A economia britnica sofreu um declnio abso-             rncia, bem mais ampla.
luto na atividade fabril de 1979 a 1987, e exis-              A palavra despotismo  muito antiga, mas
tem amplos indcios demonstrando que seu de-              em geral se considera que Montesquieu (1749)
clnio relativo se deveu a outros fatores que no         foi o primeiro a us-la sistematicamente para
uma industrializao bem-sucedida em outros               traar uma diferena entre monarquia e des-
centros. Se a Gr-Bretanha tinha de decair, a             potismo. Enquanto o primeiro sistema de go-
202   despotismo oriental


verno compreendia certo nmero de nveis hie-       Marx estabeleceu um tratamento mais elabora-
rrquicos, este ltimo, que se acredita caracte-    do dessa questo. Nele, o sistema asitico, no
rstico da sia, apresentava um abismo entre o      mencionado no esquema anterior, tornou-se um
dspota governante e o povo, cujos compo-           dos trs caminhos de sada alternativos da co-
nentes eram todos semelhantes no fato de serem      muna primitiva, ao lado dos sistemas antigo e
"nada".                                             germnico. Aqui, Marx tambm chamou a aten-
    Muitos outros autores do sculo XVIII mos-      o para uma diferena entre as formaes so-
traram-se interessados pelas sociedades asiti-     ciais "que resistem e as que favorecem a evolu-
cas. Adam Smith (1776), por exemplo, afirmou        o histrica" (Hobsbawn, 1964, p.33), sendo
que o despotismo ligado mais  agricultura do       a sociedade oriental um exemplo claro do pri-
que ao comrcio era um tipo de sociedade em         meiro caso. A essa altura, portanto,  evidente
estgio inferior de evoluo e, em grande parte,    que Marx j no nutria uma simples teoria
em situao estacionria. No sculo XIX o cen-      unilinear da evoluo.
tro da ateno passou do governo e do gover-            Na comuna primitiva, "a terra fornece os
nante para as comunidades aldes, supostamen-       meios e os materiais do trabalho" e os homens
te auto-suficientes e em grande parte isoladas,     "encaram-se como seus proprietrios comu-
que constituam as unidades individuais da so-      nais" (Marx, Grundrisse, p.69). Em semelhante
ciedade oriental.                                   forma social, os frutos da natureza constituem
    Com Karl Marx, a sociedade oriental tor-        uma precondio da existncia, mas no so
nou-se o sistema asitico.  difcil reconstituir   eles prprios o produto do trabalho; antes, afi-
o desenvolvimento desse conceito dentro da          guram-se como uma precondio natural e di-
tradio do marxismo, tanto porque as idias de     vina concebida como uma espcie de unidade
Marx sobre a evoluo das formaes sociais         sobre e acima do grupo. O sistema asitico,
mudaram ao longo do tempo quanto porque             encarado como a forma mais elementar de es-
seus prprios textos sobre esse tpico s se        tado, est apenas um passo alm da comuna
foram tornando disponveis gradualmente e,          primitiva, pois a unidade divina assume a forma
mesmo assim, aos pedaos. Em um raciocnio          substancial de um dspota governante, tido co-
inicial, Marx e Engels (1845-6) propuseram o        mo representante ou reencarnao do divino. A
ponto de vista de que existem vrios estgios na    unidade mais elevada, assim, assume o lugar do
diviso social do trabalho que correspondem a       "pai" das comunidades menores e se revela
formas especficas de propriedade. O primeiro       como o nico proprietrio, a quem o excedente
estgio  a comuna primitiva, na qual toda          do trabalho  doado como tributo. Objetiva-
e qualquer propriedade  possuda comunal-          mente, na medida em que a propriedade ainda
mente. Disso brota o desenvolvimento de idias       possuda comunalmente, a forma asitica 
sobre propriedade privada e o contraste entre       um estado sem classes (ou pelo menos sem o
cidade e campo (e entre homem livre e escravo),     efeito corrosivo das classes, ver Bloch, 1985,
que est ligado  distino entre o trabalho        p.112), e da, estagnado. Os estados asiticos
industrial e comercial e o trabalho agrcola, e     podem decair e reformar-se no nvel mais ele-
da ao surgimento da antiga cidade-estado. O        vado, mas a organizao social das comuni-
terceiro estgio da propriedade  a posse feudal.   dades de aldeia permanece imune  turbulncia
Como isso no implica a concentrao da po-         das mudanas nas dinastias governantes.
pulao em cidades, porm,  discutvel se o            Com a adoo, na Unio Sovitica, de um
feudalismo sucede a antiga cidade-estado ou se      materialismo histrico simplista e unilinear, no
 um caminho alternativo de sada da comuna         qual as vrias formas de sociedade eram tidas
primitiva. O prximo estgio  o capitalismo,       como sucedendo umas s outras atravs da
emergindo das contradies econmicas do            dinmica da luta de classes, a noo de um
feudalismo.                                         despotismo oriental estagnado (sociedade asi-
    Depois de dez anos de novas e intensas          tica) colocava um importante problema terico
pesquisas, Marx modificou essa verso de pe-        e poltico. Boa parte dos primeiros trabalhos
riodizao histrica. Em uma parte dos Grund-       dos pensadores soviticos foi dedicada  rein-
risse (1857-8, publicados pela primeira vez so-     terpretao dessa forma social como realmente
mente em 1953, e publicados em ingls como          uma verso do feudalismo, e o fato de Engels
Pre-capitalist Economic Formations, 1964),          no haver mencionado a sociedade asitica em
                                                                                   determinismo       203


A origem da famlia, da propriedade privada e      Leitura sugerida: Bailey, A.M. e Llobera, J.R. 1974-5:
do estado (1884) tornou a tarefa desses pensa-     "The Asiatic mode of production". Critique of Anthro-
                                                   pology 2, 95-103; 4-5, 165-76  1979: "Karl Wittfogel
dores um pouco mais fcil.                         and the Asiatic mode of production: a reppraisal".
    Despotismo oriental, de Karl Wittfogel, co-    Sociological Review 27, 541-59  Geertz, G. 1980:
mo uma teoria da "sociedade hidrulica", afir-     Negara: The Theatre State in Nineteenth-Century Bali
ma que as condies ecolgicas especiais da         Hindess, B. e Hirst, P. 1975: Pre-capitalist Modes

sia tornam a irrigao em grande escala, por      of Production  Krader, L. 1975: The Asiatic Mode of
meio de canais, e os sistemas de gua a base       Production  Mitchell, W. 1973: "The hydraulic hypo-
                                                   thesis: a reappraisal". Current Anthropology 14, 532-4
necessria da agricultura, o que tambm exige
                                                    Service, E. 1975: The Origins of the State and Civili-
a interferncia de uma burocracia centraliza-      zation  Steward, J. 1977: Evolution and Ecology 
da para coordenar o controle da gua. Isso se      Winzeler, R. 1976: "Ecology, culture, social organiza-
consolida em sistemas polticos despticos nos     tion and state formation in Southeast Asia". Current
quais a elite governante se apropria de um         Anthropology 17, 623-40.
excedente dos produtores primrios e possui o                                                 LEO HOWE
monoplio do poder militar. Nesses sistemas,
as comunidades aldes locais permanecem ato-       determinismo Esta noo  normalmente
mizadas e culturalmente distantes de seus suse-    compreendida como a tese de que para tudo que
ranos.                                             acontece existem condies tais que, uma vez
    Despotismo oriental tambm  digno de no-      dadas, nenhuma outra coisa poderia ter aconte-
ta por sua ampla polmica contra a Rssia          cido. Na influente formulao filosfica articu-
stalinista. Segundo Wittfogel, tanto Lenin         lada por David Hume e J.S. Mill, isso aparece
quanto Stalin ignoraram e suprimiram o concei-     como teoria da regularidade determinista, ou
to do sistema asitico, mesmo Marx o tendo         seja, de que para cada evento x existe um con-
enfatizado, pois tinham conscincia de que a       junto de eventos y1.... yn, tais que se conjugam
Rssia se encontrava ela prpria em semelhante     regularmente sob algum conjunto de descri-
estgio de evoluo e no queriam dar destaque     es.
 possibilidade de que um estado comunista             Neste sculo, pelo menos at bem recente-
pudesse assumir o carter de despotismo. No        mente, assumiu-se de maneira geral que isso
que dizia respeito a Wittfogel, Stalin no pas-    continua sendo vlido na natureza, com exce-
sava de mais um na longa linhagem de dspotas      o da mecnica dos quanta (onde tudo indica
orientais.                                         ser impossvel determinar simultaneamente a
    Embora muito influente, o trabalho de Witt-    posio e o momentum de partculas elemen-
fogel tem sido amplamente criticado. Um pro-       tares). No entanto P.T. Geach e G.E.M. Ans-
blema bvio  que existem muitos estados do        combe, nos anos 60, expressaram reservas a
Sudeste Asitico baseados na produo do arroz     esse respeito. Nos anos 70, de forma mais sis-
por irrigao, mas aos quais faltam burocracias    temtica, o mesmo foi feito por R. Bhaskar. Este
efetivas e centralizadas. Outra crtica  que a    afirmou que uma reflexo sobre as condies
ligao de uma forma especfica de sociedade       em que os resultados deterministas so efetiva-
a uma rea geogrfica particular (e a um tipo de   mente possveis (a partir do que o determinis-
cenrio ecolgico) parece limitar a aplicao      mo, como tese metafsica, deriva a sua plausi-
universal da teoria marxista sobre a evoluo      bilidade) indica que, com exceo de uns pou-
das formaes scio-econmicas.                    cos contextos fechados especiais -- estabe-
    Com a recente publicao dos Grundrisse e      lecidos de forma experimental ou ocorrendo
outras das obras tardias de Marx, o debate no      naturalmente --, as leis estabelecem limites,
Ocidente concentra-se hoje em dia nas questes     impem restries ou funcionam como ten-
a respeito das condies para o surgimento de      dncias, em vez de prescreverem resultados
estados, a natureza das classes nas sociedades     fixados de forma nica. Em particular, tm um
pr-capitalistas e o simbolismo do poder do        carter no-emprico e de norma; e so consis-
estado. Mais recentemente, a idia de que a        tentes com situaes de controle dual e mlti-
sociedade oriental constitui um objeto de es-      plo, determinao mltipla e plural, complexi-
tudo especfico e coerente passou a sofrer um      dade, surgimento e intermediao humana (por
questionamento intenso (Said, 1978).               exemplo, na atividade experimental). A partir
    Ver tambm ESTADO; MODO DE PRODUO.           dessa perspectiva, as leis no so efetivas ou
204   dialtica


contingentes, mas necessrias e reais -- pro-           Tem havido muita controvrsia no sculo
priedades de mecanismos e no conjunes de          XX a respeito de o marxismo ser uma teoria
eventos. E o nico sentido no qual a cincia         determinista no sentido de que toma os resulta-
pressupe o determinismo  o sentido (no-hu-        dos como sendo (a) inevitveis e/ou (b) previ-
meano, no-laplaciano) de determinismo da            sveis e/ou (c) predestinados. Isso no tem co-
ubiqidade, isto , a ubiqidade de causas reais     mo ser discutido aqui (ver o verbete "determi-
(mas talvez no necessariamente inteligveis),       nismo" em Bottomore et al., 1983) -- a no ser
incluindo causas de diferenas, e da a pos-         para observar que existem bons motivos filos-
sibilidade (por mais remota que seja) de expli-      ficos e histricos para no se tratar o programa
caes estratificadas. O "determinismo", como        de pesquisa marxista como determinista em
normalmente compreendido, pode portanto ser          nenhum desses sentidos.
considerado uma noo que repousa em uma
                                                     Leitura sugerida: Anscombe, G.E.M. 1971: Causality
ontologia ingnua e factualista de leis, e em        and Determination  Bhaskar, Roy 1975 (1978): A
particular no erro de se supor que um evento,        Realist Theory of Science, 2ed.  Kamminga, H. 1990:
porque foi levado a acontecer, estava destina-       "Understanding chaos". New Left Review 181  Mel-
do a acontecer antes de ter sido causado --          den, A.I 1961: Free Action  Polanyi, M. 1967: The
uma confuso entre determinao (ontolgica)         Tacit Dimension.
e predeterminao (epistemolgica)). Nem  o                                              ROY BHASKAR
caso de dizer que as relaes de gerao natural
so (logicamente) transitivas. Assim, no  o        dialtica Em seu sentido mais geral, dialtica
caso de se dizer que, porque S1 produziu S2, e       passou a significar qualquer processo mais ou
S2 produziu S3, S1 produziu S3 -- se, por exem-      menos intricado de conflito, interconexo e
plo, S2 possui poderes emergentes, ou o sistema      transformao conceitual ou social, no qual a
em que S3 se formou  aberto, ou o processo         gerao, interpenetrao e conflito de oposi-
estocstico. O desenvolvimento da teoria da          es, levando  sua transcendncia em um mo-
catstrofe e do caos representou mais um golpe       do mais pleno ou mais adequado de pensamento
no determinismo de regularidade, ilustrando          ou forma de vida, desempenha um papel cru-
que sistemas dinmicos no-lineares podem            cial. Mas a dialtica  um dos conceitos mais
produzir resultados altamente irregulares (ca-      antigos, complexos e contestados em todo o
ticos e imprevisveis). (Ver tambm PREVISO.)       pensamento filosfico e social. A controvrsia
    A relativa raridade de resultados determinis-    no sculo XX, contudo, tem girado em torno de
tas e a complexidade de agentes tm impli-           duas figuras do sculo XIX, Hegel e Marx.
caes para a questo do livre-arbtrio. A posi-        Existem duas inflexes da dialtica em He-
o predominante na primeira metade do sculo        gel: (a) como processo lgico; (b) em sentido
era a "compatibilista", segundo a qual o livre-      mais restrito, como o dnamo desse processo.
arbtrio pressupe o determinismo. Sob a in-            (a) Em Hegel, o princpio do idealismo, a
fluncia de Gilbert Ryle, John Austin, o ltimo      compreenso especulativa da realidade como
Wittgenstein, F. Waismann, P. Strawson e S.          esprito (absoluto), une duas antigas correntes
Hampshire, a viso do senso comum de que o           de dialtica, a idia eletica de dialtica como
determinismo representa uma ameaa aos nos-          razo e a idia jnica de dialtica como proces-
sos conceitos normais de mediao (ver AO E        so, na noo de dialtica como processo da
MEDIAO), escolha e responsabilidade costu-         razo autogerador, autodiferenciador e auto-
mava, de maneira geral, reconciliar-se com um        particularizante. Esse processo se efetiva alie-
contnuo compromisso com o determinismo no           nando-se e restaura sua auto-unidade atravs
nvel fsico, na doutrina de que os conceitos        do reconhecimento dessa alienao como nada
anteriores funcionavam em um nvel lgico,           alm de sua prpria livre expresso ou manifes-
estrato lingstico ou jogo lingstico diferente.   tao -- processo que  recapitulado e comple-
Mas uma vez descartado o factualismo, a pos-         tado no prprio Sistema Hegeliano.
sibilidade de uma rejustificao naturalista da         (b) O motor desse processo  a dialtica
mediao humana, da CAUSALIDADE de motivos           concebida de maneira mais restrita, o segundo
e a potencial aplicabilidade do atributo "livre"     momento, essencialmente negativo, de "pensa-
aos agentes, suas aes e situaes est mais        mento efetivo", a que Hegel chama "a apreen-
uma vez aberta.                                      so de opostos em sua unidade ou do positivo
                                                                                      dialtica   205


no negativo". Esse  o mtodo que permite ao        ta; (3) a compatibilidade da dialtica com a
comentarista dialtico observar o processo atra-    LGICA formal, o materialismo, a prtica cient-
vs do qual categorias, noes ou formas de         fica e a racionalidade de modo geral; e (4) o
conscincia brotam umas das outras para for-        status da tentativa de Engels de estender a dia-
mar totalidades cada vez mais inclusivas, at       ltica de Marx para alm do mbito social a fim
que o sistema como um todo esteja completo.         de abranger a natureza e a totalidade do ser de
Para Hegel, a verdade  o todo e o erro reside      maneira geral.
na unilateralidade, na incompletude e na abs-           As trs nfases mais comuns do conceito, na
trao; seu sintoma so as contradies que ele     tradio marxista, so quanto a: (a) o mtodo,
gera e sua cura  a incorporao dessas tradies   de maneira mais geral o mtodo cientfico, ilus-
a formas mais plenas, mais ricas, mais concretas    trando a dialtica epistemolgica; (b) um con-
e altamente mediadas. No decorrer desse pro-        junto de leis ou princpios governando algum
cesso, observa-se o famoso princpio de subla-      setor ou o todo da realidade, a dialtica ontol-
o:  medida que a dialtica se desdobra, ne-      gica; e (c) o movimento da histria, dialtica
nhuma percepo parcial jamais se perde. De         relacional. Todas as trs podem ser encontradas
fato, a dialtica hegeliana avana de dois modos    em Marx. Mas seus paradigmas so os comen-
bsicos: trazendo  luz o que est implcito, mas   trios metodolgicos de Marx em O capital, a
no explicitamente articulado, em alguma no-        filosofia da natureza exposta por Engels no
o; ou remediando alguma falta, insuficincia      Anti-Dhring e o "hegelianismo superando He-
ou inadequao dessa noo. O pensamento            gel" do primeiro Gyrgy Lukcs em Histria
"dialtico", em contraste com o "reflexivo" (ou
                                                    e conscincia de classe -- textos que podem
analtico), apreende formas conceituais em suas
                                                    ser encarados como os documentos fundadores
interconexes sistemticas, e no apenas em
                                                    da cincia social marxista, do MATERIALISMO
suas diferenas determinadas, e concebe cada
                                                    DIALTICO e do marxismo ocidental, respec-
desenvolvimento como o produto de uma fase
                                                    tivamente.
prvia, menos desenvolvida, da qual ele  a
necessria verdade ou o necessrio cumprimen-           Existe uma consistncia notvel nas crticas
to; de forma que existe sempre alguma tenso,       de Marx a Hegel de 1843 e 1873. Essas voltam-
ironia latente ou surpresa incipiente entre qual-   se, formalmente, contra as "inverses" sujeito-
quer forma e o que se encontra no processo de       predicado de Hegel, seu princpio de identidade
vir a ser.                                          (implicando a reduo do ser a pensamento) e
    No incio do sculo os idealismos absolutos     seu misticismo lgico (implicando a reduo
de F.H. Brandley e J. McYaggart, na Gr-Breta-      da cincia a FILOSOFIA); e, substantivamente,
nha, e de J. Royce, nos Estados Unidos, exerce-     contra a impossibilidade de Hegel de sancionar
ram grande influncia. Benedetto Croce desen-       a autonomia da natureza e a historicidade das
volveu uma forma de hegelianismo na Itlia          formas sociais. Mas uma reavaliao positiva
durante os anos do entreguerras. As leituras        definida da dialtica hegeliana ocorre a partir
humansticas de A. Kojve e Jean Hyppolite,         do momento dos Grundrisse (1857-58). Infeliz-
especialmente da Fenomenologia do esprito          mente, Marx nunca realizou o seu desejo de
de Hegel, nos anos 30, ajudaram a formar toda       "tornar acessvel  inteligncia humana co-
uma gerao de intelectuais, franceses em par-      mum, em duas ou trs folhas impressas, aquilo
ticular, incluindo Jean-Paul Sartre. J. Findlay,    que  racional no mtodo que Hegel descobriu
nos anos 50, e Charles Taylor, na dcada de 70,     e ao mesmo tempo mistificou". Todos os in-
foram importantes na preparao do caminho          dcios, no entanto, parecem deixar claro que
para uma re-recepo de Hegel no apogeu e na        Marx achava possvel extrair parte da dialtica
seqncia da hegemonia filosfica positivista       hegeliana sem ser comprometida pelo idealis-
no mundo de lngua inglesa.                         mo de Hegel -- contrariando tanto a viso
    Quatro grandes questes tm dominado a          neofichteana dos Jovens Hegelianos e de En-
controvrsia intelectual a respeito da dialtica    gels, de que uma extrao completa de mtodo
na tradio marxista: (1) a diferena entre as      a partir de sistema  vivel, quanto a posio de
dialticas de Marx (materialista) e de Hegel; (2)   crticos de orientao positivista, de Eduard
o papel da dialtica na obra de Marx e, de forma    Bernstein a Lucio Colletti, de que a dialtica 
mais ampla, em qualquer cincia social marxis-      inseparvel do idealismo.
206   dialtica


    Marx compreendia a sua dialtica como           essencialmente hegeliano e buscou aplic-la ao
cientfica, pois ela se determinava a explicar as   ser como um todo. Se Marx, por um lado, nunca
contradies no pensamento e as crises da vida      repudiou a cosmologia de Engels, sua prpria
scio-econmica em termos das relaes es-          crtica da economia poltica no pressupe nem
senciais, particulares e contraditrias que as      acarreta uma dialtica da natureza, e sua crtica
geravam; como histrica, pois estava ao mes-        do apriorismo implica o carter a posteriori e
mo tempo enraizada em mudanas nas prprias         especfico do sujeito das afirmaes a respeito
relaes e circunstncias que descrevia e era um    da existncia de processos dialticos, bem co-
agente delas (de forma condicional); como cr-      mo de outros tipos de processos na realidade.
tica, pois demonstrava as condies histricas          A prpria suposio de uma dialtica da
de validade e os limites de adequao das cate-     natureza pareceu a toda uma linha de crticos,
gorias, doutrinas e prticas que explicava; e       de Lukcs a Sartre, categoricamente equivoca-
como sistemtica, pois buscava reconstituir as      da, na medida em que implica antropomorfica-
variadas tendncias e contradies histricas do    mente (e portanto idealisticamente) uma retro-
capitalismo, at certas contradies, estrutural-   jeo na natureza de categorias tais como con-
mente constitutivas, do seu modo de produo.       tradio e negao, que s fazem sentido no
Dentre estas, as mais importantes so as contra-    mbito humano. Tais crticas no negam que a
dies entre o valor de uso e o valor de mercado,   cincia natural, como parte do mundo scio-
e entre os aspectos til e concreto e social e      histrico, possa ser dialtica; o que est em
abstrato do trabalho que a mercadoria incorpo-      questo  se pode haver uma dialtica da natu-
ra. Essas contradies, junto com as outras con-    reza por si s. Obviamente, existem diferenas
tradies estruturais e histricas que elas fun-    entre as esferas natural e social. Mas seriam
damentam, so tanto (a) oposies inclusivas        essas diferenas especficas mais ou menos im-
reais, no sentido de que os termos ou plos das     portantes do que suas semelhanas genricas?
contradies pressupem existencialmente uns        Na verdade, o problema da dialtica da natureza
aos outros, quanto (b) relacionadas interna-        reduz-se a uma variante do problema geral do
mente a uma forma mistificadora de aparn-          NATURALISMO, o modo como esse problema 
cia. Essas contradies dialticas no violam o     resolvido dependendo de a dialtica ser conce-
princpio de no-contradio, pois podem ser        bida de forma suficientemente ampla e o mundo
descritas de forma consistente; nem tampouco        humano de forma suficientemente naturalista
so cientificamente absurdas, pois a noo de       para tornar plausvel sua extenso  natureza.
representao errnea e invertida -- ou mistifi-    Mesmo ento, no se deve esperar necessaria-
cadora -- de um objeto real, gerada pelo objeto     mente uma resposta unitria -- pode haver
em questo,  prontamente acomodada dentro          polaridades dialticas e oposies inclusivas na
de uma ontologia no-empirista, estratificada,      natureza, mas no inteligibilidade ou razo dia-
na qual o pensamento  includo dentro da           lticas.
realidade, e no hipostasiado.                          Tanto em Engels quanto em Lukcs, a "his-
    As trs posies mais comuns sobre a dial-     tria" foi efetivamente esvaziada de substncia
tica so a de que ela  uma tolice ininteligvel,   -- em Engels, ao ser interpretada de forma
de que  universalmente aplicvel e de que         "objetivista", em termos das categorias de um
aplicvel ao domnio natural e/ou social, mas       processo universal; em Lucks, ao ser concebi-
no ao domnio natural. Engels imprimiu sua         da de forma "subjetivista" como tantos momen-
autoridade  segunda posio, a universalista.      tos ou mediaes de um ato de auto-realizao
No existe problema a esse respeito para Hegel,     finalizante e incondicionado, que era o seu fun-
para quem a realidade  pensamento e a lgica       damento lgico. Apesar dessas falhas originais,
dialtica, onto-lgica. Mas parece que qualquer     as tradies tanto do materialismo dialtico
equao desse tipo deve ser problemtica para       quanto do marxismo ocidental tm produzido,
um realista comprometido com a noo da exis-       no sculo XX, algumas figuras dialticas not-
tncia da natureza independente do pensamento       veis. Dentro do marxismo ocidental, alm da
e para um materialista comprometido com a           prpria dialtica de Lucks, de autoconscincia
noo de sua primazia causal. No entanto En-        histrica ou dialtica sujeito-objeto, existem as
gels, sobrescrevendo ambos esses compromis-         contradies teoria/prtica de Antonio Grams-
sos, conseguiu levar a dialtica em seu sentido     ci, essncia/existncia de Herbert Marcuse e
                                                                                diferenciao social      207


aparncia/realidade de Colletti, todas de prove-          2. argumentao dialtica, orientada para a
nincia mais ou menos diretamente hegeliana.                 busca de ideais fundamentveis;
Em Walter Benjamin, a dialtica representa a              3. razo dialtica, que abrange todo um
descontinuidade e o aspecto catastrfico da his-             leque de conotaes, indo do pensamen-
tria; em Marc Bloch,  concebida como fanta-                to imaginoso e conceitualmente flexvel
sia objetiva; em Sartre, est enraizada na inteli-           que, sob a disciplina de restries emp-
gibilidade da atividade totalizante do prprio               ricas, lgicas e contextuais, desempenha
indivduo; em Henri Lefbvre, significa o obje-              um papel to crucial no desenvolvimento
tivo da humanidade desalienada. Entre os mar-                cientfico atravs do esclarecimento e da
xistas ocidentais mais anti-hegelianos (incluin-             desmistificao at a racionalidade pro-
do Colletti), a dialtica de Della Volpe consiste            funda da PRXIS emancipatria;
essencialmente em um pensamento no-rgido,               4. processo dialtico, implicando um es-
no-hipostasiado, enquanto a dialtica de                    quema de unidade original, disjuno
Althusser representa a complexidade, pr-for-                histrica e eventual retorno que  um
mao ou sobredeterminao das totalida-                     motivo recorrente e profundamente en-
des. Equilibrado entre os dois campos, Theodor               raizado no pensamento ocidental;
Adorno enfatiza, por um lado, a imanncia de              5. inteligibilidade dialtica, compreenden-
toda a crtica e, por outro, o pensamento de                 do a apresentao de origem tanto teleo-
no-identidade.                                              lgica (em Hegel) quanto causal (em
    Enquanto isso, dentro da tradio materia-               Marx) de formas sociais e culturais (in-
lista dialtica, a terceira lei de Engels (a negao         cluindo crenas) e sua crtica explanat-
da negao) foi retirada sem a menor cerimnia               ria.
por Stalin da ideologia oficial da Unio Sovi-        Leitura sugerida: Adorno, Theodor 1966 (1973): Ne-
tica, e a primeira lei (a transformao de quan-       gative Dialetics  Althusser, Louis 1965 (1969): Pour
tidade em qualidade e vice-versa) foi relegada         Marx  Anderson, Perry 1976: Considerations on
por Mao Ts-tung, na China, a um caso especial         Western Marxism  Bhaskar, Roy 1992: Dialetic  Col-
da segunda (a interdependncia de opostos), a          letti, Lucio 1975: "Marxism and the dialetic". New Left
qual, a partir de Lenin, aliviou propriamente a        Review 93  Lukcs, Gyrgy 1923 (1971): History and
                                                       Class Consciousness  Rosen, Michael 1982: Hegel's
maior parte da carga da dialtica.  certo que         Dialetic and its Criticism  Stedman Jones, Gareth
havia boas credenciais materialistas (bem como         1973: "Engels and the end of classic German philo-
motivos polticos) para esses movimentos. A            sophy". New Left Review 79  Taylor, Charles 1975:
negao da negao  o meio pelo qual Hegel            Hegel.
dissolve um ser determinado na infinidade. Por                                                ROY BHASKAR
outro lado, como destacou Maurice Godelier,
os materialistas dialticos raramente aprecia-         dialtico, materialismo Ver           MATERIALISMO
ram as diferenas entre a unidade de Marx e a          DIALTICO.
identidade de opostos hegeliana. Dentro dessa
tradio, Mao  digno de nota por uma srie            diferenciao social O conceito refere-se
potencialmente frutfera de distines -- entre        ao reconhecimento e  constituio como fatos
contradies antagnicas e no-antagnicas,            sociais de diferenas entre grupos ou categorias
contradies principais e secundrias, aspectos        particulares de indivduos. Nem todas as ca-
                                                       ractersticas individuais so diferenciadas dessa
principais e secundrios de uma contradio e
                                                       maneira, mas muitas o so, de diversos modos,
assim por diante -- e por enfatizar, como Lenin
                                                       em diferentes sociedades e com variados graus
e Trotsky, a natureza "combinada e desigual"
                                                       de rigor, s vezes codificados em lei. Entre os
de seu desenvolvimento.
                                                       tipos mais significativos de diferenciao en-
    Atravs de sua histria longa e complexa,          contram-se aqueles entre os sexos, entre grupos
cinco correntes bsicas de significado se des-         etrios (especialmente importantes nas socie-
tacam na dialtica, todas ocupando o primeiro          dades tribais primitivas), entre grupos tnicos e
plano em diferentes ocasies no sculo XX:             lingsticos, entre categorias profissionais e en-
    1. contradies dialticas, implicando             tre classes e grupos de status. Em escala mun-
        oposies inclusivas ou foras de origens      dial, atravs da histria, as distines entre gru-
        no-independentes;                             pos tribais, comunidades polticas distintas, im-
208   diferenciao social


prios e estados-naes modernos, bem como          do individualismo e a diversificao de grupos
entre adeptos das principais religies mundiais     sociais nos pases da Europa Ocidental durante
ou das inmeras crenas menores que delas           o sculo XIX: o rpido desenvolvimento de
brotaram, tm sido uma fora poderosa na unio      uma economia monetria, o crescimento das
dos grupos humanos e ao mesmo tempo em              cidades, a mobilidade dos indivduos e o surgi-
separ-los de outros grupos, freqentemente         mento de novos interesses sociais e culturais.
levando-os a conflitos entre si.                    Em particular, a vida na cidade fornecia o es-
    Embora a diferenciao social dentro de         tmulo de perspectivas intelectuais e culturais
sociedades ou tipos de sociedades particulares      diversas e competitivas, das quais novos tipos
seja h muito tempo tema de comentrio por parte    de diferenciao podiam novamente surgir, en-
de filsofos, mestres religiosos (por exemplo, em   quanto o crescimento do nmero de associaes
explicaes das origens do sistema de castas        e "crculos sociais" de todos os tipos permitia
hindu ou da hierarquia feudal) e pensadores         aos indivduos desenvolver aspectos especfi-
polticos, ela s foi estudada sistematicamente     cos de seu carter e propsitos.
a partir do final do sculo XVIII e mais particu-       No sculo XX esses processos tm tido con-
larmente no sculo XIX, quando passou a estar       tinuidade, ainda que sendo afetados em certo
cada vez mais ligada ao desenvolvimento eco-        grau por tendncias opostas surgidas a partir do
nmico e  especializao das profisses. As-       desenvolvimento da SOCIEDADE DE MASSA. Ao
sim, Adam Smith exps no apenas as conse-          mesmo tempo dois outros tipos de diferencia-
qncias econmicas da expanso da diviso do       o social -- os de sexo e os de raa, origem
trabalho, mas tambm os seus efeitos na deter-      tnica ou nacionalidade -- tm adquirido proe-
minao das caractersticas dos estilos de vida     minncia bem maior no pensamento social. Em
dos indivduos; e Herbert Spencer, pos-             todas as sociedades humanas, homens e mu-
teriormente, concebeu a diviso do trabalho         lheres tm sido tratados de forma diferente (em
como o elemento bsico na diferenciao so-         geral sem eqidade), e muitos cientistas sociais
cial, fazendo remontar seu desenvolvimento         do sculo XIX (entre eles Marx e Spencer)
especializao de funes em todas as reas da      apontaram que a diviso econmica do trabalho
vida social. De forma semelhante, Karl Marx         comeou com a diviso de tarefas entre os
baseou sua teoria das classes em uma anlise da     sexos, fonte de muitas diferenas sociais e cul-
diviso do trabalho em diferentes modos de          turais posteriores, incluindo o domnio mascu-
produo, ao mesmo tempo distinguindo entre         lino na vida poltica. Nas novas sociedades
uma diviso social do trabalho, implicando a        industriais do sculo XIX, ainda eram negados
propriedade ou a no-propriedade dos meios de       s mulheres muitos direitos sociais e polticos
produo, e uma diviso tcnica do trabalho         bsicos; embora esses direitos fossem sendo
dentro do processo produtivo (ver MARXISMO).        lentamente adquiridos em sociedades mais mo-
Por um outro aspecto, mile Durkheim (1893)         dernas, persistem formas variadas de diferen-
enfatizou a importncia da diviso do trabalho      ciao injusta (ver GNERO).
como a fonte do individualismo que caracteriza          A diferenciao por raa ou origem tnica 
as sociedades modernas.                             tambm uma caracterstica importante das so-
    Sem dvida, o tipo de sistema econmico e       ciedades modernas, e distines semelhantes
a diviso do trabalho so fatores importantes na    ocorrem em muitas sociedades ps-coloniais e
criao da diferenciao social dentro de socie-    multitribais do Terceiro Mundo. Nos pases
dades e, em muitos casos, entre elas (como, por     industriais, porm, em parte como legado do
exemplo, na atual relao entre os pases indus-    colonialismo, mais particularmente no perodo
triais avanados e o Terceiro Mundo), mas se        do ps-guerra, como conseqncia da imigra-
reconhece de maneira geral que esto longe de       o em grande escala, essa diferenciao est
ser os nicos fatores. O autor que destacou de      freqentemente associada a uma substancial
maneira mais clara a complexidade da dife-          desigualdade econmica e social e a manifes-
renciao social nas sociedades modernas foi        taes de RACISMO. A diferenciao em termos
Georg Simmel. Em seu volume de ensaios ber         de sexo ou raa est ligada a diferenas biol-
soziale Differenzierung (1890) e em outras          gicas (como acontece com a diferenciao por
obras, ele examinou a grande variedade de in-       grupo etrio), mas as distines sociais que so
fluncias que contriburam para o crescimento       feitas surgem de forma independente e, onde se
                                                                                         dinheiro    209


enfatizam os fatores biolgicos, isso visa sem-        suas funes econmicas e sociais, sendo a sua
pre estabelecer ou reforar algum tipo de desi-        funo bsica identificada convencionalmente
gualdade. Nacionalidade, no sentido de lngua          com o seu papel como meio de troca. Embora
e cultura caractersticas,  um importante fator       divirjam na especificao dessas funes e no
de diferenciao nos estados-naes que incor-         relacionamento hierrquico proposto entre elas,
poram minorias nacionais, e tambm nesse caso          as vrias teorias sobre o dinheiro tm em co-
isso em geral implica desigualdade de trata-           mum a dissoluo da especificidade deste como
mento, mas  igualmente uma fonte de movi-             fenmeno social, reduzindo-o a um meio de
mentos separatistas.                                   representao de fenmenos no-monetrios.
    Os casos que acabamos de considerar reve-          No entanto, ao enfatizar a simetria de relaes
lam como importante aspecto da diferenciao           de troca como base da racionalidade instrumen-
social o fato de ela estar quase que invariavel-       tal do dinheiro, essas teorias deixam de lado a
mente associada  ESTRATIFICAO SOCIAL. As            assimetria social das relaes de dominao
desigualdades de poder, riqueza e prestgio so-        atravs das quais o dinheiro se afirma, no como
cial, em suas diversas formas, so aspectos            mero smbolo, mas como fora social autno-
fundamentais do processo de diferenciao (ver         ma.
ELITES, TEORIA DAS) e precisam ser considerados            A concepo predominante do dinheiro re-
em relao ao "individualismo" das sociedades          monta pelo menos a Aristteles, que explicou
modernas. A esse respeito, a anlise da dife-          seu surgimento em termos da inconvenincia
renciao social contribui grandemente para a          do escambo ou da permuta, definindo sua fun-
compreenso da relao entre indivduo e so-           o bsica pelo seu papel como meio de troca,
ciedade. Os indivduos, com toda a sua srie de        mas reconhecendo tambm suas funes deri-
qualidades pessoais, no ocupam posies neu-          vativas como a medida de valor e, pelo menos
tras e desestruturadas na sociedade, mas nas-          implicitamente tambm, como reserva de va-
cem dentro de grupos e categorias particulares         lor. O desenvolvimento posterior da teoria mo-
e distintos que em muito contribuem para de-           netria acrescentou notavelmente pouco  an-
terminar seu carter e perspectiva, ou suas opor-      lise de Aristteles. O debate principal foi trava-
tunidades e realizaes. O grau em que cada            do entre os que insistiam em que o dinheiro
indivduo  capaz de moldar um estilo de vida          devia ter ele prprio um valor e os que afirma-
pessoal e satisfatrio depende em grande parte         vam que as formas primitivas de dinheiro como
-- como Simmel, Durkheim e Marx afirmaram,             mercadoria podiam ser substitudas por formas
cada qual  sua maneira -- do sistema de dife-         puramente simblicas, cujo valor seria determi-
renciao social e de suas mudanas, especial-         nado por conveno e, para alguns, endossado
mente na esfera econmica.                             pelo estado. Esse debate superps-se quele
                                                       entre os que seguem Aristteles, encarando a
Leitura sugerida: Durkheim, mile 1893 (1984): The
Division of Labour in Society  North, C.C. 1926: So-
                                                       funo dos meios de troca como bsica, e os
cial Differentiation  Simmel, Georg 1890: ber so-     hereges, que atribuam primazia a outras fun-
ziale Differenzierung: soziologische und psycholo-     es do dinheiro. O significado poltico do de-
gische Untersuchungen  Tnnies, Ferdinand 1887         bate concentra-se na "teoria quantitativa do di-
(1955): Community and Association.                     nheiro": se a funo bsica do dinheiro  como
                                 TOM BOTTOMORE         meio de troca, um aumento em sua oferta levar
                                                       a preos mais elevados. Se sua funo bsica 
dinheiro Este fenmeno cotidiano  o fato              como valor de reserva, um aumento na sua
social supremo da sociedade moderna. Apesar            oferta levar a uma queda nas taxas de juros.
disso, a teoria social do dinheiro  negligencia-          Adam Smith (1776), seguindo David Hume
da pela maior parte dos cientistas sociais. Esse       (1752), lanou as bases da economia moderna
descaso ocorre porque o dinheiro foi reduzido          ao reafirmar a ortodoxia aristotlica contra a
a um instrumento racional, visto alternadamen-         heresia "mercantilista", que encarava a funo
te como meio de troca (ver ECONOMIA NEOCLS-           bsica do dinheiro no seu papel como reserva
SICA) ou como meio de comunicao (ver ESCO-           de valor. A "teoria estatal do dinheiro", de
LA AUSTRACA DE ECONOMIA). O desenvolvimen-            Knapp (1905), enfatizava a primazia da funo
to histrico, as formas de existncia e os modos       deste como meio de pagamento, validada por
de operao do dinheiro foram reduzidos s             seu status de moeda legal. Keynes (1930) se-
210   dinheiro


guiu Knapp, enfatizando a primazia da "moeda        outros subsistemas sociais, considerados como
de clculo" sobre o dinheiro como meio de           sistemas de troca simblica, abordagem que foi
troca. No entanto nem os mercantilistas nem         ainda mais desenvolvida na concepo ps-
Knapp desenvolveram uma teoria sistemtica          modernista da sociedade como rede de comu-
do dinheiro que contestasse a ortodoxia cls-       nicaes (Habermas, 1981; Luhmann, 1983,
sica, enquanto Keynes no desenvolveu as im-        1984; cf. Ganssmann, 1988: ver MODERNISMO E
plicaes de suas percepes indubitveis, res-     PS-MODERNISMO), na qual dinheiro  anlogo
tringindo-se  anlise dos motivos para se ter o    ao signo lingstico (concepo que leva a teo-
dinheiro como a base da sua teoria dos juros e      ria do dinheiro a dar a volta completa, uma vez
do emprego (1936). Assim, a teoria de Keynes        que a teoria do signo de Saussure [1916] ins-
foi logo reabsorvida na ortodoxia clssica, sob     pirou-se na concepo do dinheiro apresentada
a forma da "sntese neoclssica", a primazia da     pelos economistas).
funo do dinheiro como valor de reserva, ex-           Os socilogos no tm ignorado os aspectos
pressa na teoria keynesiana da preferncia pela     irracionais do dinheiro, nem se contentado com
liquidez, sendo reduzida a um desvio irracional     a concepo psicolgica dos economistas sobre
do funcionamento normal do sistema monet-          tal irracionalidade. No obstante, os socilogos
rio, baseado na primazia do dinheiro como meio      seguiram os economistas ao encarar tal irra-
de troca.                                           cionalidade como fenmeno patolgico, como
    Os economistas no foram to ingnuos ao        instituio social cuja funo bsica de servir
ponto de acreditar que sua teoria  adequada       como instrumento racional adquire significa-
realidade cotidiana de uma sociedade em que o       dos secundrios que podem subverter seu pro-
dinheiro , de forma transparente, no apenas       psito original. A Filosofia do dinheiro (1907),
um instrumento racional, mas tambm tanto           de Simmel, a nica contribuio sociolgica
substncia quanto o smbolo de riqueza, de          sria  teoria do dinheiro,  um estudo brilhante
status e de poder. No obstante, a irraciona-       da influncia permeadora do dinheiro na vida
lidade associada a um sistema monetrio desen-      social, mas a irracionalidade de uma sociedade
volvido  tratada como fenmeno patolgico          dominada pelo dinheiro  atribuda a uma me-
distinguvel em princpio da normalidade in-        tafsica universal, o processo psicolgico atra-
corporada no sistema ideal das teorias dos eco-     vs do qual meios e fins acabam sendo inverti-
nomistas, a ser explicado por socilogos e psi-     dos. Assim, o aspecto essencial do dinheiro
clogos sociais, ou at mesmo por telogos e        numa sociedade capitalista, o de poder servir
filsofos morais. Tal irracionalidade explica-se,   como um meio apenas por ser o fim supremo,
no em termos da irracionalidade objetiva da         atribudo a um processo psicolgico mis-
sociedade capitalista, mas em termos da ir-         terioso que precisa ser invocado devido  desig-
racionalidade subjetiva dos agentes sociais, que    nao original e errnea do dinheiro como o
 convocada a explicar todos os males da socie-     instrumento da razo.
dade moderna: o "ciclo comercial", o desem-             O nico terico social a contestar sistema-
prego em massa, a pobreza persistente, a desi-      ticamente a concepo ortodoxa do dinheiro foi
gualdade crescente, o "abuso" de poder, o con-      Karl Marx. At recentemente as interpretaes
flito industrial e a decadncia urbana, tudo isso   da teoria do dinheiro estabelecida por Marx
resulta da impossibilidade dos seres humanos        permaneceram dentro do quadro funcionalista,
de viverem  altura dos ideais de racionalidade     insistindo em geral em que a funo bsica do
incorporados nas teorias dos economistas.           dinheiro reside em seu papel como a forma de
    A sociologia, apesar de toda a sua preocupa-    valor independente, e portanto como capital.
o com as dimenses no-racionais da ao          Essa concepo do dinheiro est de acordo com
social, no representou um desafio efetivo  or-    a concepo marxista do capitalismo como uma
todoxia dos economistas. Weber (1921-22)            sociedade baseada, no na troca e na comuni-
concordou sem questionamentos com a                 cao, mas na EXPLORAO e no domnio, cujo
concepo dos economistas do dinheiro como          desenvolvimento  determinado, no pelas ne-
o instrumento e meio de expresso da raciona-       cessidades e aspiraes humanas, mas pela acu-
lidade econmica. Parsons (1967) foi alm,          mulao de capital. Essa teoria leva os marxis-
encarando a concepo do dinheiro pelos eco-        tas a afirmar que a "irracionalidade substantiva"
nomistas como um modelo para a anlise de           da sociedade capitalista  inseparvel de sua
                                                                                 direitos e deveres     211


"racionalidade formal" e mais fundamental do        economia tcnica, tem de estar no prprio cerne
que esta. No entanto isso no define uma teoria     da teoria da sociedade capitalista (Merrington e
do dinheiro caracteristicamente marxista, va-       Marazzi, 1977; Negri, 1979, Lio 2; Clarke,
lidando a viso ortodoxa de Marx como um            1982, Captulos 3 e 4; Clarke, 1988, Captulos
herege menor, cujas teorias monetrias eram         4 e 5; Ganssmann, 1988; cf. Aglietta e Orlean,
derivativas e cheias de falhas.                     1982, que desenvolvem uma teoria antropol-
    Dentro da interpretao funcionalista de        gica do dinheiro comparvel, mas no-marxis-
Marx, o dinheiro permanece sendo um ins-            ta).
trumento, no um instrumento da razo, mas do       Leitura sugerida: Aglietta, M. e Orlean, A. 1982: La
capital. A irracionalidade do dinheiro no         violence de la monnaie  Backhaus. H.G. 1969 (1980):
inerente ao dinheiro, mas reside fora de si mes-    "On the dialectics of the value-form". Thesis XI 1,
ma, nas relaes sociais que o dinheiro serve       94-120  Clarke, S., Simon, 1982 (1991): Marx, Mar-
para simbolizar. O que fica implcito -- e nisto    ginalism and Modern Sociology  Ganssmann, H.
se agarrou o movimento reformista no bloco          1988: "Money: a symbolically generalized medium of
                                                    communication?". Economy and Society 17.3, 185-316
sovitico --  que o dinheiro  socialmente          Knapp, G.F. 1905 (1924): The State Theory of Money,
neutro e pode servir como instrumento de pla-       ed. resumida  Luhmann, N. 1983: "Das sind Preise:
nejamento socialista da mesma forma como            ein soziologisch-systemtheoretischer Klrungsver-
serve de instrumento de explorao capitalista.     such". Soziale Welt, 34.2, 153-70  1984: "Die Wirt-
    A publicao das primeiras obras de Marx e      schaft der Gesellschaft als autopoietisches System".
dos Grundrisse abriu o caminho para uma in-         Zeitschrift fr Soziologie, 13.4, 308-27  Merrington, J.
                                                    e Marazzi, C. 1977: "Notes on money, crisis and the
terpretao alternativa e mais radical da teoria    state". CSE Conference Papers  Negri, A. 1979
marxista que atribui um papel crucial  sua         (1984): Marx Beyond Marx  Simmel, Georg 1907
crtica do dinheiro. Essa abordagem representa      (1990): The Philosophy of Money.
uma convergncia da anlise da "forma-valor",                                              SIMON CLARKE
que teve como pioneira a Alemanha, e do di-
nheiro como modo de dominao, que teve             direita, nova Ver NOVA DIREITA.
como pioneiro o movimento italiano de auto-         direito Ver LEI; POSITIVISMO JURDICO.
nomia no incio dos anos 70 (Backhaus, 1969;
Negri, 1972). Essa interpretao reverte a rela-    direitos e deveres Para que algum tenha
o convencional entre forma e funo, en-          um direito, um dever correspondente deve ca-
carando as funes do dinheiro como derivadas       ber a um outro ou outros, especficos ou gen-
das propriedades do dinheiro enquanto forma         ricos. O direito pode ser o de fazer algo, de
social particular. Essa abordagem rejeita a dis-    conservar a posse de algo ou de receber algo
tino analtica entre o sistema "real" e o sis-    (incluindo uma abstrao, como o respeito). O
tema monetrio, a qual marca tanto a economia       dever respectivo seria tolerar a atividade, no
ortodoxa quanto o marxismo ortodoxo, e que          interferir com a posse do bem ou oferecer o
surge de forma invertida nas teorias ps-mo-        benefcio ou a reao. Os direitos legais, isto ,
dernistas. O dinheiro no simboliza uma rela-       aqueles reconhecidos pelo direito (ver LEI), ser-
o real que esteja por trs dele. E menos ainda    vem de modelo para os direitos extralegais, ou
constitui a "economia" como um campo pura-          "morais". Os que invocam estes ltimos em
mente simblico.  somente com o desenvolvi-        apoio a suas pretenses deixam implcito que
mento do capitalismo que o dinheiro dissolve        estas seriam apoiadas por um tribunal moral
todos os "laos pr-histricos", de forma que as    imaginrio e, de forma tpica, buscam mudar a
relaes entre os indivduos s podem cons-         lei de forma a efetiv-las.
tituir-se como relaes sociais, e assim adquirir       Coloca-se ento a questo das justificativas
um determinado carter social, atravs da forma     com que os direitos podem ser postulados. A
do dinheiro. Em uma sociedade capitalista de-       resposta tradicional  que os seres humanos tm
senvolvida, o dinheiro no , portanto, mera-       "direitos naturais". John Locke afirmou que,
mente um smbolo, mas  o elemento mediador         mesmo em um "estado natural", os indivduos
bsico entre o indivduo e a sociedade. Essa        so seres morais e, ao abandonarem esse estado
observao aparentemente banal tem conse-           natural, concederam apenas limitados poderes
qncias bastante fundamentais, pois implica        de coero ao governo que ento estabelecera.
que a teoria do dinheiro, longe de ser uma          Quando este ultrapassa tais limites, viola os
212   direitos e deveres


"direitos naturais" de seus sditos. A Carta de     nham assumido, ou do relacionamento entre
Direitos anexada  Constituio dos Estados         eles. Assim, Melden (1959) sustenta que um pai
Unidos exemplifica com limpidez esse modo           tem o direito de esperar respeito do filho e, por
de pensar. Em meados do sculo XX, porm, as        analogia, alguns avanam at a reivindicao
alegaes quanto  existncia de tais direitos      de que um grupo tem um direito especfico 
sofreram ataques das mais variadas procedn-        lealdade de seus membros e um estado  dos
cias. Alguns, refletindo uma perspectiva positi-    seus cidados.
vista lgica, a qual nega que os julgamentos            No entanto no  caracterstico dos tericos
morais possam ser verdadeiros ou falsos, enca-      dos "direitos naturais" defender os direitos de
ram essas alegaes mais como "decises", ou        coletividades contra indivduos. Ao contrrio,
como uma "tomada de posio" (MacDonald,            os "direitos" so encarados como baseados na
1947-8, p.49). Outros, ao mesmo tempo em que        liberdade (Hart), e a liberdade  definida nega-
aceitam serem vlidos os julgamentos morais,        tivamente como a ausncia de coero (Crans-
encaram as entidades coletivas -- a nao, a        ton, 1953; Berlin, 1958). A afirmao de Jean-
classe -- como os nicos repositrios de valor.     Jacques Rousseau de que somos "forados a ser
Em uma veia mais prtica, Mabbott (1958) ao         livres"  tida como um abuso de linguagem. Nas
mesmo tempo em que encara as entidades co-          palavras de Hart,
letivas com extremo ceticismo e prope o "ba-          se existe algum direito moral, segue-se que deve
nimento [da palavra] `sociedade', a fim de que         existir pelo menos um direito natural, o direito igual,
seja possvel pensar com lucidez" (p.83), rejeita      de todos os homens, a ser livre. (...) [pelo que]
os direitos naturais como "indeterminados e            qualquer ser humano adulto capaz de fazer uma
caprichosos" (p.58) e como uma arma poltica           escolha (1) tem o direito de estar livre, por parte de
invariavelmente utilizada pelos oponentes de           todos os outros, do uso da coero ou da represso
reformas (p.62).                                       contra ele, salvo para impedir a coero ou represso,
    Na parte final do sculo "os direitos" volta-      e (2) tem a liberdade de exercer (isto , no estar sob
                                                       a obrigao de se abster de) qualquer ao que no
ram a se impor no pensamento poltico, embora,
                                                       seja coercitiva, repressiva, ou que vise a causar mal
em seguida  Segunda Guerra Mundial e  pos-           a outras pessoas (Hart, 1955, p.154).
terior denncia do holocausto nazista, grande
parte da nfase em todo mundo se tenha concen-          Esse no , do ponto de vista de Hart, um
trado no que foi chamado de "direitos huma-         direito absoluto, mas seria preciso que se apre-
nos". Ao se delinearem esses direitos, o debate     sentassem motivos muito bons para suprimi-lo.
no foi tanto a respeito de que direitos os in-         Milne, em contraste, seguindo Green (1941)
divduos um dia tiveram, ou teriam, em um           e Bosanquet (1951), encara a liberdade como
"estado natural", mas sim quanto a que direitos     positiva. Concorda com Hart em que "o direito
todos deveriam ter no mundo tal como ele           a estar livre de coero arbitrria  uma con-
hoje. Alm disso, enquanto os direitos naturais     dio necessria para se terem quaisquer outros
tendem a ser encarados como "ativos", isto ,       direitos", mas sustenta que isso s  possvel
opes que os que os detm poderiam escolher        numa sociedade livre, cujos membros "estejam
exercer, ou no, em qualquer dada situao, os      substancialmente de acordo a respeito do car-
"direitos humanos" ampliam o conceito para          ter fundamental do seu modo de vida" (Milne,
abranger igualmente os direitos "passivos", isto    1968, p.177). Ele considera que a moralidade
, os direitos que impem deveres sobre outros,     estabelecida de uma tal sociedade poderia auto-
independentemente da escolha daquele que tem        rizar restries por outros motivos que no os
os direitos. Assim,  possvel dizer que uma        mencionados por Hart (a segurana nas estradas
criana tem "direito  educao" sem estar im-      poderia ser um exemplo). O que distingue uma
plcito que ela deveria ter a opo de se recusar   sociedade livre  que cada membro participa da
a receber educao.                                 responsabilidade de mant-la e determinar-lhe
    Os direitos podem ser especficos ou univer-    o rumo, e deve portanto ser autnomo aos olhos
sais. Enquanto um direito universal  aquele        da lei. Os direitos, afirma, tm um carter es-
que todos deveriam reconhecer, um direito es-       sencialmente social. Ao pressupor a autonomia
pecfico s  devido por parte de um outro, ou      de cada membro, a sociedade livre depende de
conjunto de outros, especfico e surge ou de        que cada um aja no esprito, mais do que apenas
compromissos explcitos que estes ltimos te-       na letra, de sua MORALIDADE estabelecida. Deve,
                                                                                     direitos e deveres    213


portanto, conferir a cada pessoa a oportunidade            se pagaria uma indenizao por essa transgres-
de exprimir suas prprias percepes quanto s             so.
questes pblicas e, assim, preservar a liber-                 Tambm se tem afirmado que alguns direi-
dade de expresso de todos. Alm disso, naqui-             tos so absolutos. Gewirth (1984) prope que o
lo que chama de perspectiva "humanista crti-              direito de uma me de no ser torturada at a
ca", os membros de uma sociedade podem ava-                morte pelo prprio filho seria um desses. Assim,
liar o nvel de compreenso que predomina em               mesmo que terroristas fizessem a ameaa ve-
sua sociedade e buscar melhor-lo. Os direitos             rossmil de destruir uma grande cidade com
de associao, de participao poltica e de ao          armas nucleares, a no ser que essa tortura
poltica no-violenta, tendero a facilitar esse           acontecesse, seria errado o filho faz-lo. O filho
processo.                                                  seria responsvel pela tortura que estaria in-
    De acordo com Mabbott (1948, p.57), os                 fligindo, mas no pelas aes letais dos terroris-
"direitos naturais devem ser auto-evidentes e              tas em represlia a sua recusa a infligir a tortura.
tambm absolutos para poderem ser considera-                   O pensamento de Gewirth, porm, parece
dos como direitos". Milne, ao ligar os "direitos           preocupado basicamente com o direito do filho,
naturais"  concepo de uma sociedade livre,              mais que com os direitos da me. Desta ltima
demonstrou que eles no precisam ser auto-evi-             dificilmente se poderia dizer que teria sido me-
dentes; e tanto ele quanto Hart reconhecem que             nos violentada caso tivesse sido torturada at a
eles s vezes tm de ser suprimidos.                       morte por alguma outra pessoa. Para fazer eco
    Esse ltimo reconhecimento, porm, lana               a Hart, se  que existem "direitos naturais", o
os tericos dos "direitos naturais" numa ladeira           direito de no ser torturado, ou de no ser
escorregadia. Se os direitos pudessem ser supri-           abandonado a uma perspectiva de tortura,  com
midos apenas por motivos utilitrios, isto ,              toda certeza absoluto.
sempre que a sua supresso viesse a promover
a "maior felicidade (ou maior bem) do maior                    As teorias do direito (especialmente dos di-
nmero", eles seriam destitudos de valor. De              reitos "naturais" ou ativos) em geral represen-
acordo com Waldron, seguindo Dworkin,                      tam o indivduo como tudo e a sociedade como
                                                           nada. Conforme demonstra Milner, isso  um
   um indivduo tem um direito quando existe um mo-
                                                           exagero que o conceito mais amplo de direitos
   tivo para lhe atribuir algum recurso, liberdade ou
   oportunidade, mesmo apesar do fato de que, normal-      humanos -- incorporando direitos "passivos",
   mente, as consideraes decisivas sobre o interesse     tais como os direitos a alimentao, abrigo,
   geral (ou outros objetivos coletivos) falariam contra   cuidados mdicos e educao -- em certa me-
   essa concesso (Waldron, 1984, p.17).                   dida corrige, pelo menos em princpio. Afirmar
    Os utilitaristas, em contraste, "esto neces-          que existem limites alm dos quais a liberdade
sria e profundamente comprometidos em (...)               e o bem-estar do indivduo possam no estar
trocar os interesses de vida e liberdade de um             subordinados quilo que um governo encara
pequeno nmero de pessoas por uma soma                     como o bem comum dificilmente seria discut-
maior de interesses menores de outros" (ibid.,             vel hoje em dia, embora a considerao contr-
p.18-9).                                                   ria, apresentada pelo argumento de Mabbott,
    Para preservar essa diferenciao, os defen-           indique que tambm deveria haver limites
sores dos direitos naturais contestariam em pri-           quanto ao grau em que um governo deveria ser
meiro lugar que, mesmo que um direito no                  impedido de promover fins autenticamente co-
fosse absoluto, seria preciso apresentar um ar-            muns por indivduos que invocam seus direitos.
gumento extremamente convincente para que                  No obstante,  difcil discordar da afirmao
ele pudesse ser suprimido, o que poderia signi-            de que, neste sculo, e particularmente desde o
ficar exigir que os que buscassem suprimi-lo               pice do LAISSEZ-FAIRE, da Grande Depresso de
no poderiam agir simplesmente segundo seu                 1929 em diante, os ultrajes mais terrveis contra
prprio critrio, mas teriam de convencer um               a humanidade se originaram, levando-se tudo
tribunal independente da necessidade de faz-              em conta, mais do excesso que da deficincia
lo; e em segundo lugar que, ao suprimir um                 de poder dos governos. Admitido isto, a reto-
direito, a infringncia seria mantida em nvel             mada da nfase na questo dos direitos e de-
mnimo, o direito seria restaurado assim que a             veres representa uma tendncia salutar.
necessidade de suprimi-lo houvesse passado e                   Ver tambm JUSTIA.
214    discurso

Leitura sugerida:  Dworkin, R. 1978 (1990): Taking        das em teorias recentes no mbito das artes e
Rights Seriously, ed. rev.  Gostin, L. org. 1988: Civil   nas cincias sociais, sem um nico conceito
Liberties in Conflict  Hart, H.L.A. 1955: "Are there
any natural rights?". Philosophical Review 64, 175-91
                                                          unificador claramente definvel. Discurso e tex-
 MacDonald, M. 1947-48: "Natural rights". Procee-
                                                          to costumam ser usados alternadamente. Onde
dings of the Aristotelian Society, 35-55  Melden, A.I.    se faz uma distino, esta  s vezes de pers-
1977: Rights and Persons  Milne, A.J.M. 1968: Free-       pectiva metodolgica (texto = produto mate-
dom and Rights  Waldron, J., org. 1984: Theories of       rial; discurso = processo comunicativo), ou en-
Rights.                                                   to para explicar a interligao de textos no
                                 RODERICK C. OGLEY        dilogo. Beaugrande e Dressler (1981) tornam
                                                          o texto coincidente com o discurso na medida
discurso Com grande freqncia, este con-                 em que seja produzido por um nico indivduo,
ceito  associado a linguagem "em uso", levan-            mas se referem igualmente ao discurso como a
do em considerao o texto/textos que ocorrem             soma de textos interligados. Para definir o texto
efetivamente em um contexto comunicativo ge-              como ocorrncia comunicativa, eles propem
nuno. O discurso, assim, tem desempenhado                sete padres de textualidade. Coeso e coern-
um papel em vrias disciplinas e subdisciplinas           cia so os chamados critrios "textocentrados".
da LINGSTICA: na lingstica textual, como um           Ambos referem-se a formas gramaticais que
meio de descrever o modo como as proposies              marcam as ligaes entre sentenas dentro de
se unem para formar uma unidade lingstica               um texto e aos elos conceituais atravs de pro-
coesa maior que uma sentena (ver Beaugrande              posies conexas, que no surgem necessaria-
e Dressler, 1981; Halliday e Hasan, 1976); na             mente em formas gramaticais especficas. Alm
lingstica sistmica (ver SEMITICA), como um            disso, existem critrios "usurio-centrados":
meio de ligar a organizao lingstica do dis-           intencionalidade, aceitabilidade, informativi-
curso a componentes sistemticos particulares             dade, situacionalidade e intertextualidade. Jun-
de tipos situacionais; na psicolingstica, para          tos, esses sete padres so constitutivos da co-
dar conta das estratgias cognitivas que os usu-         municao textual. Os padres "usurio-centra-
rios da linguagem empregam em COMUNICA-                   dos" tm de explicar o fato de o "significado"
O, incluindo a ativao do conhecimento or-             do discurso no estar contido dentro das formas
dinrio (ver Van Dijk e Kintsch, 1983). Uma               lingsticas como tais, mas os leitores ou ou-
vez que o discurso se ocupa do significado do             vintes terem de construir ativamente o signifi-
que se "expressa", mais que da "sentena", ele            cado atravs de inferncias.
est relacionado  pragmtica, embora a prag-                 Levinson (1983, cap.6) limita a anlise do
mtica lingstica no possa explicar todos os            discurso  formulao de regras para a estrutura
aspectos do discurso em seu sentido mais am-              do discurso, conforme expresso em gramticas
plo. Assim, os conceitos de discurso vo da               de textos (ver Van Dijk, 1972) e em teorias
mais estrita descrio lingstica-textual, em            baseadas no discurso-ao (Labov e Fanshel,
que discurso  simplesmente "um perodo con-              1977; Coultrard e Montmogery, 1979), e opem
tnuo de (...) linguagem maior do que a senten-           isso  anlise conversacional praticada por et-
a" (Crystal, 1985, p.96), que pode ser falado            nometodologia de forma estritamente emprica
ou escrito, ou ambos, e  de autoria nica ou             (Sacks et al., 1974; Schenkein, 1978). Um con-
dialgico, at macroconceitos que tentam de-              ceito de discurso de base mais ampla, porm,
finir teoricamente formaes ideolgicas ou               subordinaria a ANLISE CONVERSACIONAL (ver
"discursivas" que organizam sistematicamente              CONVERSACIONAL, ANLISE) e outras abordagens
o conhecimento e a experincia e reprimem                 sociolgicas  interao comunicativa como
alternativas atravs de seu domnio (ver Fou-             um dos mtodos de abordagem do discurso (ver
cault, 1969). Nesse contexto, surgem questes             Gumperz 1982).
a respeito de como os discursos podem ser                     Na teoria literria, o conceito de discurso
contestados a partir de dentro e de como emer-            representa um meio de romper as divises entre
gem discursos alternativos. Esses debates conti-          textos literrios e no-literrios. O status espe-
nuam em muitos campos, incluindo o feminis-               cial do texto potico  substitudo por um conti-
mo e o ps-estruturalismo.                                nuum de prticas lingsticas que so mais ou
    Discurso tornou-se uma das palavras mais              menos dependentes de contexto. A diferena
amplas e, em geral, mais confusamente utiliza-            entre "discurso na vida e discurso na poesia"
                                                                                              dissenso   215


(Volosinov, 1926) torna-se, assim, uma questo             A maior parte dessas restries foi abolida no
de grau, e no um absoluto. Segundo Volosinov,             sculo XIX, mas a longa histria de discrimi-
o discurso  ideolgico no sentido de que surge            nao levou membros de seitas dissidentes a
entre indivduos socialmente organizados e no             assumirem posies impopulares em campos
pode ser compreendido fora do seu contexto.                no-religiosos, tanto quanto no domnio es-
"O discurso, tomado (...) como fenmeno de                 pecificamente religioso. Foi nesse esprito que
comunicao cultural (...) no pode ser com-               Edmund Burke se referiu aos colonizadores
preendido independentemente da situao so-                norte-americanos, s vsperas da revoluo, co-
cial que lhe deu origem" (ibid., p.8). A natureza          mo os protestantes do protestantismo, ou seja,
ideolgica do discurso fica mais transparente              os dissidentes do dissenso.
no                                                             O outro contexto importante em que a pala-
   discurso autoritrio [o qual] exige nossa submisso     vra dissenso aparece com freqncia  o do
   incondicional. O discurso autoritrio, portanto, no    direito, especialmente o do direito consuetudi-
   permite que se jogue com o contexto que o enquadra      nrio. Nesse caso, a palavra refere-se aos mem-
   (...). Est indissoluvelmente fundido com sua autori-   bros de um jri ou aos juzes, num processo
   dade -- com um poder poltico, uma instituio, uma     jurdico, que divergem da opinio de seus cole-
   pessoa -- e tanto se mantm quanto cai junto com        gas. Uma vez que as opinies dissentneas so
   essa autoridade (Bakhtin, 1934-5, p.343).
                                                           freqentemente formuladas com muito cuidado
    O conceito de discurso de Volosinov, Bakh-             e exibem um elevado grau de sofisticao jur-
tin e outros autores do crculo de Bakhtin, bem            dica, tm em geral a orientao de advogados
como conceitos relacionados em textos recen-               ou juzes, em processos mais recentes, e sua
tes de semitica social, fornece assim um elo              influncia sobre decises judiciais posteriores
com macroverses de discurso encontradas na                pode ser to grande ou maior do que a deciso
definio de Bourdieu de "capital lingstico"             majoritria  qual inicialmente se dirigiam. Os
(1977), e especialmente com as "formaes                  dissensos de ontem podem muito bem tornar-se
discursivas" de Foucault (1969).                           as verdades estabelecidas de hoje. (Ver tambm
                                                           CONSENSO.)
Leitura sugerida: Beaugrande, R. de e Dressler, W.
1981: Introduction to Textlinguistics  Foucault, M.            Exceto no contexto religioso ou jurdico, a
1969: L'archelogie du savoir  Gumperz, J. 1982:           palavra  usada com infreqncia nas cincias
Discourse Strategies  Halliday, M.A.K. e Hasan, R.         sociais; mas outras, quase sinnimas, aparecem
1976: Cohesion in English  Schenkein, J., org. 1978:       com regularidade. Robert K. Merton, por exem-
Studies in the Organization of Conversational Interac-     plo, faz uma diferena entre o comportamento
tion  Van Dijk, T. e Kintsch, W. 1983: Strategics of
                                                           desviante assumido com vistas ao lucro pessoal,
Discourse Comprehension  Volosinov, V.N. 1926
(1983): "Discourse in life and discourse in poetry". In    que ele chama de "comportamento aberrante",
Bakhtin School Papers: Russian Poetics in Translation,     e o "comportamento no-conformista" assu-
vol.10, org. por Ann Shukman.                              mido por indivduos ou grupos que rejeitam as
                                    ULRIKE MEINHOF         normas e valores predominantes em nome de
                                                           orientaes alternativas de conduta para me-
dissenso O verbo "dissentir" refere-se a ati-              lhorar a qualidade de vida e o bem comum. Ele
vidades que divergem ou discordam da maioria               afirma que a freqente falta de diferenciao
em termos de crena e opinio. A palavra "dis-             entre essas categorias de atividades, todas elas
sidente" refere-se a uma pessoa que adota tal              classificadas simplesmente como "desviantes",
comportamento e sustenta pontos de vista dis-              leva  impossibilidade de se distingir analiti-
sentneos.                                                 camente entre um ladro de estradas comum e
   O verbo e a palavra foram usados original-              Jesus Cristo (Merton e Nisbet, 1961, cap.1).
mente para designar organizaes religiosas e                  Enquanto analistas conservadores tendem a
seus adeptos que divergiam da doutrina e dos               considerar o dissenso como uma doena do
ensinamentos da Igreja Anglicana. Batistas,                corpo social, liberais e radicais tm mais proba-
metodistas, quacres e seitas e denominaes                bilidades de conceb-lo como um motor fun-
protestantes similares, fora da Igreja Anglicana,          damental da mudana social. Afirmam que es-
foram historicamente discriminados depois da               truturas sociais que dependem do precedente e
Restaurao de 1660, sendo-lhes recusado o                 do hbito esto destinadas a se fossilizar e a no
acesso a posies estratgicas na Gr-Bretanha.            conseguir responder ao desafio do novo. Sem
216    ditadura


as virtudes do dissenso, afirmam, as modernas            direito negado, em tempos normais, a um co-
sociedades burocrticas provavelmente segui-             mandante militar sem a autorizao expressa do
ro o caminho do antigo Egito e da China                 Senado; e tinha em geral imensos direitos de
imperial.                                                priso e execuo.
                                                             No entanto os poderes investidos na ditadura
Leitura sugerida: Coser, Lewis A. 1988: "The func-
tions of dissent". In A Handful of Thistles: Collected
                                                         nunca eram absolutos ou incondicionais. O im-
Papers in Moral Conviction  Erikson, Kai T. 1966:        perium do ditador -- autoridade militar e juris-
Wayward Puritans: a Study in the Sociology of De-        dicional, com amplo poder discricionrio de
viance  Merton, Robert K. e Nisbet, Robert, orgs. 1961   suspenso ou reiterao de penas (Brunt e Mo-
(1976): Contemporary Social Problems, 4ed.  Mori-       ore, 1967, p.83-5) -- era normalmente limitado
son, Samuel Eliot et al. 1970: Dissent in Three Ameri-   a um perodo de seis meses de durao; ele no
can Wars.
                                                         tinha nenhuma autoridade para interferir em
                                     LEWIS A. COSER      questes civis, declarar guerra ou alterar a cons-
                                                         tituio; ao mesmo tempo em que, por volta de
ditadura A ditadura costuma ser compreen-                300 a.C., os poderes do ditador se haviam tor-
dida hoje em dia como uma forma altamente                nado sujeitos ao provocatio -- o direito de um
opressora e arbitrria de governo, estabelecida          cidado "de apelar contra uma sentena capital"
por meio da fora ou da intimidao e que                (Oxford Classical Dictionary, 1970, p.892-3).
permite a uma pessoa ou grupo monopolizar o                  A legalidade constitucional da ditadura ro-
poder poltico em detrimento da sociedade em             mana, junto com sua durao e jurisdio cla-
geral. No entanto essa definio muito geral,            ramente definidas, levou alguns autores a serem
quase coloquial, capta apenas um dos significa-          cautelosos ao aplicar o conceito a condies
dos-chave da palavra.  verdade que "ditadura"           incidentes no sculo XX. Assim, Roy Medve-
ressoa com idias de ilegalidade, domnio, go-           dev (1981, p.41) observou que os
verno de MILITARES e totalitarismo. Mas tam-
                                                            regimes variados de Mussolini, Hitler, Salazar, Fran-
bm tem sido empregada com freqncia em                    co, Somoza, Duvalier e Stroessner no recebem o
cenrios "democrticos" para caracterizar, por              nome de tirania, despotismo, ou fascismo, mas o de
exemplo, a ascendncia e a fora do Poder                   "ditaduras". Todos eles, incidentalmente, evitaram
Executivo e a incapacidade do Congresso em                  qualquer limitao temporal. Alguns eram transfer-
control-la. Para que esse duplo significado seja           veis hereditariamente de pai para filho e, embora as
compreendido,  necessrio entender as razes               ditaduras de Hitler, Mussolini, Salazar-Caetano e
e o contexto histrico da palavra.                          Somoza no tenham continuado para sempre, chega-
    Na constituio da Repblica Romana                     ram ao fim, no porque o prprio ditador tenha abdi-
                                                            cado "na expirao do perodo especificado", mas
(c.509-31 a.C.), uma ditadura no era algo a                porque este foi derrubado por guerra ou revoluo.
quem algum se arrogasse, mas era conferida a
essa pessoa como funo extraordinria, embo-                No entanto, como Medvedev diz em segui-
ra perfeitamente legal (Jolowicz, 1967, p.53-5).         da, a fuso dessas palavras (tirania, despotismo,
A ditadura era uma magistratura cujo titular (em         fascismo) no surpreende, dada a violncia e os
geral um ex-cnsul) era nomeado pelo Senado              poderes excepcionais que acompanhavam o go-
para fins de administrao de crises -- particu-         verno ditatorial romano. Da mesma forma, 
larmente em perodos de guerra no estrangeiro            importante lembrar que, em 202 a.C., a ditadura
ou de luta civil, quando se exigia uma ao              em sua forma original j estava efetivamente
decisiva e quando o governo de uma pessoa era            morta (Jolowicz, 1967, p.55). Figuras poste-
encarado como mais bem adaptado para enfren-             riores -- como Sulla (c.138-78 a.C.) e Csar
tar a emergncia do que um sistema de governo            (100-44 a.C.) -- podem ter assumido o ttulo de
colegiado, de movimentos mais tolhidos (cf.              ditador por motivos de legitimao ou conve-
Maquiavel, 1531 (1965), p.189-90). O ditador             nincia, mas governaram como autocratas de
recebia um poder temporrio acompanhado de               facto. Nos anos finais da Repblica o cargo de
um vasto mbito de prerrogativas civis e mili-           ditador era uma impostura constitucional, em-
tares (Rossiter, 1948, p.15-28). Por exemplo,            pregada para disfarar a ambio excessiva e
ele estava liberado das restries representadas         sancionar a virtual onipotncia de soberanos
pelo veto tribuncio; podia, por sua prpria             militares. ( esclarecedor observar que, segun-
autoridade, levantar mais de quatro legies --           do Plnio, o Velho -- cit. por Gelzer, 1969,
                                                                                    ditadura    217


p.284 --, 1.192 mil pessoas morreram nas guer-        Na segunda principal corrente de pensamen-
ras travadas por Csar -- e esse nmero exclui    to sobre nosso tema, a ditadura  retratada como
os cidados romanos que tombaram.)                compatvel com a democracia (definida de v-
    Esse pano de fundo histrico permite-nos      rias maneiras contestadas), at mesmo como
localizar e tornar compreensveis as duas cor-    uma parte integrante ou condio necessria
rentes principais (e um tanto entrelaadas) da    desta ltima. Essa variante tem pelo menos
utilizao da palavra no sculo XX, uma valen-    quatro permutaes. Uma delas fica evidente
do-se da dimenso usurpatria, coercitiva e mi-   nas descries de regimes bonapartistas e cesa-
litarista da ditadura, conforme se encontra,      ristas, os quais, embora repressores em certos
por exemplo, no perodo quase ininterrupto de     aspectos, no obstante alegam extrair sua auto-
Csar no cargo, de 49 a.C. at seu assassinato    ridade diretamente do Povo soberano e buscam
em 44 a.C.; a outra referindo-se ao sentido e    a aclamao deste atravs de plebiscitos de
substncia mais antigos de ditadura, implican-    massa (ver BONAPARTISMO; CESARISMO; POPULIS-
do legalidade ou legitimidade, mesmo que          MO; e tambm Weber sobre "democracia ple-
combinadas com o exerccio de poderes consi-      biscitria", 1978, p.268). Outra  a leitura leni-
derados, de certa forma, extraordinrios em seu   nista da idia de Marx de "ditadura do proleta-
mbito e intensidade.                             riado" -- com a diferena de que o conceito de
    O primeiro uso  evidente nas correntes de    democracia, importante para Marx, tende a ser
pensamento social que contrastam ditadura         tragado pelo de ditadura (de classe), tornando
com democracia e que associam enfaticamente       ilusria a prpria distino (Marx, 1850, p.123;
ditadura a militarismo, politizao da SOCIE-     carta de Marx a Weydemeyer in Marx e Engels,
DADE CIVIL, extirpao do imprio da lei e su-    Selected Correspondence, 1975, p.64; Lenin,
bordinao do indivduo ao princpio de lide-     1918, p.44-67; ver tambm Medvedev, 1981).
rana. A partir dessa perspectiva, a ditadura         Uma terceira permutao sobre o tema de-
pode ser estudada como um dos caminhos his-       mocracia-ditadura, mais prxima do clssico
tricos para a modernidade manifestada no,        sentido romano, surge da anlise de "ditaduras
digamos, FASCISMO alemo e japons (Barring-      constitucionais" (Rossiter, 1948). Enquanto a
ton Moore, 1967, especialmente p.433-52); ou      "ditadura do proletariado" -- seja sua concep-
o conceito pode ser aplicado aos regimes mili-    o marxista ou leninista -- sempre foi encara-
tares do ps-Segunda Guerra da "semiperiferia     da como instrumento de transformao revolu-
parlamentar", emergentes na Argentina (em         cionria, este terceiro sentido de ditadura con-
1967), na Grcia (em 1967) e no Chile (em         centra-se nos atributos potencialmente restau-
1973) (Mouzelis, 1986, especialmente p.97; ver    radores, reconstituintes, das crises de regime
tambm Poulantzas, 1976). As sociedades do        particulares. Nessa utilizao do termo "ditadu-
tipo sovitico tambm tm recebido o rtulo de    ras constitucionais" surgem durante perodos
ditadura ou, em conjuno com o fascismo/na-      de rebelio, guerra e depresso econmica, para
zismo, "ditadura totalitria" (Neumann, 1957,     conduzir a legtima ordem social e poltica du-
p.243-56; cf. Arendt, 1958 e Shapiro, 1972). No   rante a emergncia. Os drsticos poderes as-
entanto ambas as designaes so controverti-     sumidos por esses regimes para enfrentar si-
das (ver TOTALITARISMO), e assim foram at o      tuaes extremas so, na maioria, abandonados
programa de liberalizao de Gorbachov e as       uma vez passada a crise. (Cf. o contraste de
revolues de 1989 na Europa Centro-Oriental.     Schmitt entre ditaduras "soberanas" e "comis-
Dessa forma, vrios autores tm insistido que     sionrias", in Schmitt, 1928, especialmente p.2,
as sociedades de tipo sovitico deviam ser en-    137-9).
caradas como um modo de dominao nico na            Os trs usos de ditadura que acabamos de
histria humana: por exemplo, como uma "di-       citar em um contexto "democrtico" dividem
tadura sobre as necessidades" (Fehr, Heller e    uma caracterstica notvel: todos eles descre-
Mrkus, 1983), ou como um sistema "ps-tota-      vem sociedades que se esto confrontando com
litrio" -- conformista, atomizado, mecnico,     circunstncias excepcionais. Em contraste, nos-
manipulativo e construdo sobre o auto-engano     so quarto e ltimo sentido de ditadura refere-se
e a m-f sistemticos -- que a noo clssica    ao funcionamento mais normal e rotineiro de
de ditadura  demasiado insuficiente para ex-     um governo "democrtico". Nunca esse uso foi
primir (Havel, 1987).                             mais evidente do que nas descries da "auto-
218    diviso do trabalho


cracia de gabinete" britnica (Hobson, 1909,              especializadas no processo de produo, a lti-
p.12), com o gabinete do primeiro-ministro no             ma  diferenciao na sociedade como um todo.
pice. Os extensos poderes do primeiro-minis-                 No decorrer do sculo XX tem havido uma
tro no que se refere  nomeao para cargos               preocupao particular, no pensamento social,
pblicos, a possibilidade de reduzir o Parlamen-          com a anlise do impacto da crescente espe-
to a um carimbo de aprovao de polticas                 cializao sobre
decididas em outros lugares e a relao plebis-               1. a experincia de trabalho e as reaes dos
citria com as massas, atravs da "mquina"                      trabalhadores manuais, confinados a ta-
partidria, muitas vezes, no nosso sculo, foram                 refas repetitivas, que no necessitam de
identificados como "ditatoriais". De fato, esse                  habilidade, e privados da oportunidade
epteto liga o pensamento poltico de autores do                 de conhecimento e controle relacionados
incio do sculo XX, como Low (1904, p.156-                      ao processo de trabalho, tema geralmente
8), Hintze (1975, p.266) e Weber ("Poltica                      designado como ALIENAO do operrio;
como Vocao", in Weber, Gerth e Mills, orgs.,
                                                              2. as formas em que o trabalho dividido e
1970, p.106-7), ao comentrio mais recente
                                                                 especialmente o desenvolvimento da
sobre "ditadura eletiva" (Hailsham, 1976; cf.
                                                                 profissionalizao se relacionam com a
Ash, 1989, p.288, e Hirst, 1989, p.82).
                                                                 distribuio social do conhecimento e,
    Correspondendo aos dois principais trata-                    assim, contribuem para relaes de poder
mentos analticos divergentes de ditadura aci-                   e dominao (ver PROFISSES LIBERAIS);
ma destacados, existe tambm uma diferena
na fora de locuo exercida pela palavra. No                 3. a estrutura de classes, especialmente por
primeiro caso, "ditadura" geralmente se ex-                      meio da crescente importncia da dis-
prime com averso e horror. No segundo, o tom                    tino entre trabalho "mental" e "ma-
pode ser de condensao, porm, com a mesma                      nual" (Sohn-Rethel, 1978) e do cresci-
freqncia, de resignao ou aprovao.                          mento de uma "nova classe mdia" de
                                                                 trabalhadores de colarinho branco, pro-
Leitura sugerida: Baehr, P. 1989: "Weber and Wei-                fissionais liberais e administrativos (ver
mar: the `Reich President' proposals". Politics 9, 20-5          CLASSE);
 Birch, A.H. 1964: Representative and Responsible             4. a crescente burocratizao da adminis-
Government: an Essay on the British Constitution                 trao econmica e poltica, processo
 Bobbio, N. 1989: Democracy and Dictatorship: the
Nature and Limits of State Power  Bracher, K.D. 1971:
                                                                 que surge, em parte, da necessidade de
The German Dictatorship: the Origins, Structure and              coordenar e administrar sociedades e or-
Effects of National Socialism  Cobban, A. 1939: Dic-             ganizaes caracterizadas por complexi-
tatorship: its History and Theory  Conquest, R. 1971:            dade e interdependncia cada vez maio-
The Great Terror: Stalin's Purge of the Thirties  Cros-          res (ver BUROCRACIA);
smann, R.H.S. 1963: "Introduction". In W. Bagehot,            5. as possibilidades de autogesto e con-
The English Constitution, p.1-57  Keane, J. 1988:
"Dictatorship and the decline of parliament. Carl                trole dos trabalhadores sobre o processo
Schmitt's theory of political sovereignty". In Democra-          de produo (ver CONSELHO DE TRABA-
cy and Civil Society, p.153-89  Medvedev, R. 1981:               LHADORES);
"The dictatorship of the proletariat". In Leninism and        6. a diviso sexual do trabalho e as relaes
Western Socialism  Neumann, Franz 1957: "Notes on                de dominao e subordinao entre ho-
the theory of dictatorship". In The Democratic and the
Authoritarian State, org. por H. Marcuse, p.233-56               mens e mulheres (ver GNERO).
 Schmitt, C. 1928: Die Diktatur.                              Na Gr-Bretanha desde a Segunda Guerra
                                                          Mundial tem havido uma crescente concentra-
                                        PETER BAEHR
                                                          o nos processos atravs dos quais as prticas
                                                          racistas exclusivistas contra imigrantes e ope-
diviso do trabalho Basicamente, esta ex-                 rrios da segunda gerao de minorias tnicas
presso refere-se  diferenciao de tarefas im-          vm levando a uma "racializao" da diviso
plcita na produo de bens e servios e  alo-           do trabalho (ver RACISMO) e  formao de uma
cao de indivduos e de grupos para realiz-             "subclasse" distinta e de "fraes" racializadas
las. Uma distino comumente empregada                   de outras classes (Miles, 1982). A questo do
aquela entre a diviso tcnica e a diviso social         impacto especfico da racializao sobre as
do trabalho, a primeira referindo-se a tarefas            operrias das minorias tnicas tambm tem sido
                                                                             diviso do trabalho    219


abordada (Phizacklea, 1983), e continuam os           sui e controla os meios de produo. No entan-
debates sobre como esses processos se relacio-        to, tendo origem em parte nas diferenas entre
nam  articulao de "raa", classe e gnero          os primeiros e os ltimos textos do prprio
(Anthias e Yuval-Davis, 1983). Ultimamente            Marx sobre o assunto (Rattansi, 1982), e tam-
debates importantes tm-se concentrado na re-         bm no desenvolvimento estrutural de socie-
composio da classe operria em uma fase             dades capitalistas e socialistas de estado, o pen-
"ps-industrial" do capitalismo, nas possibili-       samento social marxista tem-se caracterizado
dades de uma nova diviso do trabalho baseada         por significativas divises de pontos de vista
na minimizao do tempo despendido no traba-          quanto aos efeitos do desenvolvimento da divi-
lho, num socialismo "ps-industrial" (Gorz,           so do trabalho. Alguns a encaram basicamente
1980, 1982; Hyman, 1983) e em novas formas            em termos de uma tendncia a polarizar a es-
da DIVISO INTERNACIONAL DO TRABALHO.                 trutura de classes do capitalismo entre uma
    No entanto existe confuso no uso da ex-          massa de trabalhadores manuais em grande par-
presso porque ela combina variadamente tare-         te no-habilitados e uma pequena classe de
fas divididas, trabalhadores especializados, hie-     proprietrios e o modo como a transformao
rarquias de autoridade no local de trabalho,          capitalista da diviso do trabalho faz surgir uma
setores diferenciados na economia e complexi-         nova classe mdia mais ou menos permanente
dade estrutural geral nas sociedades industriais.     (Carter, 1985); outros a encaram basicamente
A isso se sobrepem divergncias quanto a at         como resultado do desenvolvimento tecnolgi-
que ponto a subdiviso de tarefas e a diferen-        co, em lugar de processos de dominao de
ciao de estruturas de controle relacionadas        classe, a viso mais tecnologicamente deter-
basicamente resultado de processos "neutros"          minista vindo  tona, por exemplo, na tentativa
de desenvolvimento tecnolgico (ou de carac-          de Lenin, na Rssia dos anos 20, de importar
tersticas biolgicas, no caso da diviso sexual do   aquilo que ele encarava como tcnicas, neutras
trabalho), e ao grau em que eles resultam do          em termos de classe, de "gerenciamento cient-
planejamento dos processos de trabalho com vis-       fico" para aumentar a produtividade, enquanto
tas a perpetuar relaes de dominao social e        um ponto de vista contrrio est includo na
poltica que so suscetveis de transformao, em     influente anlise de Braverman (1974), dando
especial sob condies de produo socialista.        continuidade a noes vislumbradas pela pri-
    As principais contribuies do sculo XX          meira vez em O capital, de Marx, segundo a
para a compreenso da diviso do trabalho esto       qual o gerenciamento cientfico  um eptome
relacionadas, de modos complexos, aos textos          da tendncia da classe capitalista a estruturar os
dos antigos gregos, dos autores da Ilustrao         processos de trabalho de uma forma que nega 
escocesa do sculo XVIII, especialmente Adam          maioria dos operrios a capacidade de exercer
Smith e Adam Ferguson, e a figuras do sculo          controle ou de possuir habilidades intelectuais
XIX, como Karl Marx e Auguste Comte (Rat-             (ver TRABALHO, PROCESSO DE). Os marxistas
tansi, 1982). Neste sculo as principais contri-      tambm discordam a respeito do grau em que 
buies tm vindo (1) do marxismo, (2) de             possvel abolir a diviso de trabalho, no que
mile Durkheim, (3) da sociologia funcionalis-        a confuso a respeito dos vrios significados
ta e (4) do feminismo.                                da expresso se torna particularmente eviden-
                                                      te (Rattansi, 1982). No obstante, o marxis-
Marxismo                                              mo ocidental, em particular, tem-se unido
   O conceito de diviso do trabalho  crucial        na preocupao de contestar a perda de contro-
no marxismo devido  importncia atribuda ao         le dos operrios, que  endmica no planeja-
trabalho como categoria, sublinhando a signifi-       mento e operao de processos fragmentados
cao da atividade produtiva transformadora da        de trabalho, dominados por pequenos grupos de
natureza como fundamento sobre o qual repou-          trabalhadores tcnicos e de nvel gerencial, seja
sa a criao de riqueza, a existncia de classes      em sociedades capitalistas ou socialistas es-
sociais e do estado, o funcionamento das ideo-        tatais. Em comum com a maioria dos modos
logias e a promessa futura de abolio da escas-      no-feministas de pensamento, a teorizao
sez. O trabalho dividido aumenta a produtivi-         marxista tem-se mostrado especialmente dbil
dade e disso surgiriam os excedentes que so          na captao do significado da dominao mas-
apropriados por uma classe dominante que pos-         culina na diviso do trabalho, embora se tenham
220   diviso do trabalho


feito vrias tentativas de fornecer explicaes      enfatizou cada vez mais o papel das "corpo-
marxistas-feministas da diviso sexual do tra-       raes" ou associaes profissionais como me-
balho (Barrett, 1988).                               diadoras entre o indivduo e o estado e na
                                                     criao de tipos de regulamentao econmica
mile Durkheim (1858-1917)                           e moral exigidos por uma diviso do trabalho
    O primeiro livro de Durkheim, Da diviso         tcnica e social muito complexa. No entanto
do trabalho social (1893), que se valeu de           existem divergncias quanto ao grau em que
temas constantes na obra de Comte, continuou         Durkheim vislumbrou a possibilidade de uma
a ser crucial para o seu pensamento e tem sido       transformao fundamental da diviso do traba-
uma fonte influente para a anlise sociolgica       lho em alguma forma de sociedade socialista.
da diviso do trabalho, em especial para as          Gane (1984) e Pearce (1989) enfatizaram o
anlises funcionalistas da diferenciao estru-      radicalismo potencial de sua viso poltica, en-
tural (ver ESCOLA SOCIOLGICA DE DURKHEIM).          quanto outros (Gouldner, 1962) interpretaram
Ele utilizou a expresso para incluir todas as       seus pontos de vista como permitindo apenas
formas de especializao de funo social, am-       possibilidades limitadas.
pliando assim o seu significado para muito alm
da esfera econmica. Durkheim via as formas          Sociologia funcionalista
de diviso do trabalho como intrinsecamente              Seguindo Comte, Durkheim e outros, a n-
relacionadas a tipos de ordem social, ou "soli-      fase nessa tradio sociolgica se d na diviso
dariedade". Contraps  "solidariedade mec-         do trabalho como DIFERENCIAO SOCIAL ligada
nica" baseada na simples diviso do trabalho          especializao evolutiva de funo, em es-
das sociedades mais elementares, a "solidarie-       pecial como conseqncia da industrializao.
dade orgnica" das sociedades industriais, ba-       Um nmero limitado de funes exigidas para
seada no individualismo e em laos de depen-         a reproduo da sociedade -- tais como a so-
dncia e de troca criados por uma complexa           cializao e a produo de bens de servio -- 
diferenciao funcional, na qual um nmero           tido como sendo realizado por um mbito cres-
muito grande de instituies econmicas, pol-       cente de instituies especializadas, enquanto
ticas e culturais especializadas estavam envol-      instituies antes multifuncionais, como a fa-
vidas. O crescimento da populao e o contato        mlia, que nas sociedades pr-industriais execu-
intersocial foram identificados como os princi-      tava as funes tanto de socializao quanto de
pais motores da mudana rumo a formas mais           produo econmica, se viram confinadas 
complexas. Durkheim lutou continuamente              socializao dos filhos. Uma importante fra-
com o problema do que chamou formas "anor-           queza das explicaes funcionalistas da diviso
mais" da diviso do trabalho, relacionadas          do trabalho  seu determinismo tecnolgico,
falta de solidariedade e de regulao moral para     aliado a um descaso quanto s relaes entre a
orientar o comportamento. Em especial, escre-        diviso do trabalho, a dominao de classe e a
veu sobre as divises "anmica" e "forada" do       subordinao das mulheres.
trabalho, estados de transio conseqentes da
rpida industrializao nos quais, devido  falta    Feminismo
de uma regulamentao econmica, poltica e              Aqui, uma alegao crucial  a de que gran-
moral adequada para a diviso do trabalho e as       de parte do pensamento social, ao se concentrar
relaes de troca, a economia se viu sujeita a       no domnio pblico e ao definir "trabalho" co-
flutuaes, o conflito de classes se intensificou,   mo emprego pago, deu como certas as desigual-
a especializao e as desigualdades no es-          dades sexuais na diviso do trabalho (Stacey,
tavam relacionadas aos talentos naturais e os        1981), no conseguindo analisar o TRABALHO
operrios envolvidos em tarefas especializadas       DOMSTICO das mulheres e sua relao com a
eram incapazes de compreender como seu tra-          subordinao destas na ordem econmica e po-
balho era essencial  manuteno da sociedade        ltica. Algumas anlises feministas encaram a
como um todo. Durkheim prescreveu a inter-           dominao masculina como tendo razes basi-
veno do estado na economia e a abolio de         camente nas relaes familiares, enquanto ou-
privilgios herdados no acesso a posies na         tras afirmam que as prticas exclusivistas mas-
diviso do trabalho, ou aquilo que agora seria       culinas no local de trabalho fornecem a chave
chamado de igualdade de oportunidades. Ele           para a compreenso sexual do trabalho (Walby,
                                                                     diviso internacional do trabalho    221


1986). Outros debates tm-se concentrado nos                tribudos por meio da especializao e da troca.
benefcios para a acumulao privada de capi-               Em sociedades baseadas na auto-suficincia,
tal, para o estado e para os homens, individual-            eles so produzidos dentro da famlia, de forma
mente, do trabalho feminino de cuidado das                  que a especializao  muito limitada. As dife-
crianas e de reproduo do trabalho no lar, e              renas entre essas sociedades so de importn-
na segregao das mulheres em empregos de                   cia fundamental para se explicarem aspectos
meio expediente e baixa remunerao, bem co-                bsicos da estrutura social e da capacidade eco-
mo no grau em que a diviso sexual do trabalho              nmica e poltica.
 um efeito das relaes de dominao de classe                 Dessa forma, muitos tericos tm associado
e, portanto, exige a abolio das classes sociais           o surgimento de sistemas econmicos e sociais
antes de permitir uma transformao maior nas               baseados na diviso do trabalho ao prprio
desigualdades sexuais. Os reducionismos bio-                processo de modernizao. As sociedades "tra-
lgicos, feministas e no-feministas, que retra-            dicionais" eram vistas como altamente auto-su-
tam a diviso sexual do trabalho como uma                   ficientes, de forma que cada indivduo ou fam-
ramificao "natural" das diferenas homem-                 lia produzia sua prpria comida, suas roupas e
mulher tm sido um alvo importante dentro da                sua habitao, educava os prprios filhos e
maioria dos feminismos, os quais vm sus-                   tomava parte diretamente nos processos po-
tentando ser a dominao masculina dentro da                lticos, culturais e outros implcitos na vida
diviso sexual do trabalho basicamente o resul-             em comunidade. Nessas sociedades, ativida-
tado de relaes sociais de controle masculino              des econmicas complexas so impossveis e o
sobre a fertilidade e a fora de trabalho das               grau de interao e cooperao entre os in-
mulheres.                                                   divduos s pode ser muito limitado.
Leitura sugerida: Abercrombie, N. e Urry, J. 1983:              Diz-se ento que as sociedades modernas se
Capital, Labour and the Middle Classes  Beechey, V.         baseiam em uma complexa e ampliada diviso
1987: Unequal Work  Giddens, A. e Mackenzie, G.,            do trabalho na qual os indivduos executam
orgs. 1982: Social Class and the Division of Labour
 Gorz, A., org. 1973: Critique de la division du travail
                                                            papis cada vez mais especializados e insti-
 Horton, J. 1964: "The dehumanization of alienation         tuies diferenciadas surgem para realizar as
and anomie: a problem in the ideology of sociology".        funes necessrias  manuteno da coopera-
British Journal of Sociology 15, 283-300  Larson, Ma-       o social. Assim, na esfera econmica, os in-
gali Sarfatti 1977: The Rise of Professionalism  Littler,   divduos se especializam na produo de bens
C. e Salaman, G. 1984: Class at Work: the Design,
                                                            em particular e os trocam por todas as outras
Allocation and Control of Jobs  Lukes, S. 1967: "Alie-
nation and anomie". In Philosophy, Politics and Socie-      coisas necessrias  vida; muitos indivduos
ty, org. por P. Laslett e W.G. Runciman  1973: mile        podem ento ser reunidos para produzir cada
Durkheim  Rueschemeyer, D. 1986: Power and the              bem, cada um deles sendo responsvel por ape-
Division of Labour  Westwood, S. e Bhachu, P., orgs.        nas um aspecto do processo de produo. As-
1988: Enterprising Women: Ethnicity, Economy and            sim, diferenciao de funes e especializao
Gender Relations  Wilson, W. 1980: The Declining
Significance of Race: Blacks and Changing American
                                                            de tarefas caminham lado a lado com a neces-
Institutions, 2ed.                                         sidade de nveis de troca cada vez mais elevados
                                         ALI RATTANSI
                                                            e formas de organizao cada vez mais com-
                                                            plexas.
diviso internacional do trabalho Nesta                         Nessas comunidades o princpio  aplica-
escala, os princpios da DIVISO DO TRABALHO se             do no apenas aos processos econmicos, mas
ampliam do nvel nacional para o nvel global.              tambm a todos os outros. As organizaes
O desenvolvimento das comunicaes interna-                 polticas, culturais, religiosas e de todos os ou-
cionais reduz o custo das trocas e permite que              tros tipos so criadas e dirigidas por especialis-
muitas atividades sejam controladas a partir de             tas que dedicam suas vidas profissionais  exe-
um nico centro. Isso significa interdependncia            cuo das tarefas necessrias em benefcio do
crescente, primeiro entre comunidades locais                restante da comunidade, que ento passam a
para criar estados-naes, e depois entre es-               depender deles para a satisfao de suas neces-
tados-naes para criar sistemas internacionais.            sidades sociais. Assim, sociedades baseadas na
   Em sociedades baseadas na diviso do traba-              diviso do trabalho exigem nveis mais eleva-
lho, os bens e servios so produzidos e dis-               dos de capacitao, autonomia e cooperao do
222   diviso internacional do trabalho


que as baseadas na subsistncia e na auto-sufi-         A existncia de uma diviso do trabalho
cincia.                                            pode ser identificada nas mais antigas crnicas
    No nvel internacional, a expresso costuma     sobre a interao social da humanidade, mas
ser aplicada com mais freqncia na esfera          est ligada especialmente  rpida expanso da
econmica para descrever o processo pelo qual       produo e do comrcio induzida pela revolu-
produtores em pases particulares decidem --        o capitalista a partir do sculo XVI. Isso levou
ou podem ser obrigados a decidir -- especiali-      a uma grande desigualdade em nvel global (os
zar-se na produo de bens particulares para os     12 pases mais ricos controlam mais de 80% do
quais seu meio ambiente ou seus recursos se         comrcio mundial), e a uma intensa concor-
mostrem mais adequados -- aqueles nos quais         rncia entre companhias, pases e regies. Isso,
eles tm uma "vantagem comparativa". Assim,         por sua vez, produziu fortes resistncias locais
alguns pases esto envolvidos principalmente        penetrao econmica e poltica estrangeira,
na exportao de bens manufaturados, outros         bem como tentativas, por parte de estados-
de produtos primrios, enquanto os mais desen-      naes, de limitar a liberdade de comrcio e de
volvidos esto agora passando a se especializar     afirmar os direitos soberanos em oposio aos
na troca de servios de vrios tipos.               de outros pases ou organismos internacionais.
    Esse processo implica a troca de bens e             Foi gerada, ainda, uma revolta poltica con-
servios atravs de fronteiras nacionais, por       tra a forma capitalista predominante assumida
parte de produtores independentes, mas tam-         pela diviso internacional do trabalho, manifes-
bm veio a envolver uma crescente tendncia
                                                    ta no desenvolvimento do bloco socialista, a
entre os prprios produtores a se organizarem
                                                    comear com a Revoluo Russa em 1917 e
como companhias globais e a operarem em
                                                    cobrindo a Europa Oriental, a China e vrios
escala internacional. Todos os de maior porte
                                                    pases menos desenvolvidos. Mas o intercm-
operam entre fronteiras nacionais, com subsi-
dirias em muitos pases. Eles exercem um           bio internacional continuou entre ambos os blo-
impacto poderoso sobre os nveis de atividade       cos, de forma que isso limitou e alterou essa
econmica nos pases que os recebem e so em        tendncia, sem no entanto bloque-la por com-
geral capazes de dominar mercados estrangei-        pleto. Esses pases no foram capazes de pro-
ros e eliminar a competio no plano doms-         duzir bens de qualidade comparvel aos produ-
tico. Est associada a isso uma GLOBALIZAO        zidos no Ocidente, nem de gerar nveis equiva-
de processos e possibilidades tecnolgicos. Em      lentes de produo e de consumo. Essa falha
um mercado mundial cada vez mais unificado,         desempenhou um papel importante no recente
todos os produtores devem adotar a nova tecno-      colapso desses sistemas estatizantes, e tambm
logia mais eficiente a fim de sobreviver, en-       na atual tentativa de integrar plenamente essas
quanto os produtores maiores so capazes de         economias na diviso internacional do trabalho.
promover seus produtos internacionalmente,              Assim, apesar dessas tendncias cruzadas, o
levando  homogeneizao de padres de con-         perodo do ps-guerra tem testemunhado um
sumo, bem como de processos de produo.            imenso crescimento na interdependncia glo-
    O lado econmico da diviso do trabalho        bal, uma ampliao da influncia de organi-
predominante no plano internacional devido         zaes internacionais como o Fundo Monetrio
facilidade com que bens e dinheiro podem atra-      Internacional, o Banco Mundial e a Comunidade
vessar fronteiras, mas est tambm associado        Europia, bem como um correspondente enfra-
ao desenvolvimento de organismos culturais e        quecimento da capacidade de pases ou comuni-
polticos especializados desse nvel. O incio do   dades em particular de se isolarem do poderoso
capitalismo esteve ligado a uma extenso glo-       impacto da diviso internacional do trabalho.
bal do controle poltico por parte dos principais       Ver tambm RELAES INTERNACIONAIS; DE-
pases, responsvel pelo sistema imperial. Mais     SENVOLVIMENTO E SUBDESENVOLVIMENTO.
recentemente a autoridade poltica foi devolvi-
da a antigas possesses, mas houve uma proli-       Leitura sugerida: Brett, E.A. 1985: The World Econo-
ferao de organismos internacionais especia-       my since the War  Grubel, H.G. 1981: International
lizados, criados para permitir que um sistema       Economics  Mill, J.S. 1900: Principles of Political
de intercmbio local, cada vez mais denso e         Economy, livro 3, cap.17.
interdependente, fosse administrado.                                                        E.A. BRETT
                                                                                       divrcio   223


divrcio Como um dos vrios e diferentes             atuais casamentos vai "terminar nos tribunais
meios pelos quais o CASAMENTO pode acabar, o         de divrcio, e no na casa funerria". (A Ingla-
divrcio difere de suas alternativas -- aban-        terra e os Estados Unidos tm as mais elevadas
dono e morte -- no sentido de ser a dissoluo       taxas de divrcio do mundo ocidental, com
legal dos laos matrimoniais: como uma anula-        exceo da Escandinvia.) A partir dos anos 70,
o, nenhuma das partes tem obrigaes, a no        nos Estados Unidos, os cnjuges obtiveram o
ser, talvez, financeiras, para com o adulto deixa-   direito de declarar mutuamente "no-fault" ("ne-
do para trs. Embora o divrcio tenha sido           nhuma culpa") no tribunal e, ao faz-lo, encer-
permitido em vrios tempos e locais, foi s no       rar seus laos matrimoniais (embora no os de
sculo XX que ele se tornou o meio comum de          famlia).
se dissolver um casamento na maior parte do              Muitos afirmam que essa nova fundamen-
Ocidente (a Irlanda  uma exceo; ainda no         tao de "nenhuma culpa" no s tornou o
permite o divrcio). Em contraste, Murdock           divrcio mais fcil como criou maiores dificul-
(1950) encontrou em seu estudo clssico de           dades para as mulheres deixadas para trs. Os
sociedades no-ocidentais -- a maioria delas         maridos que as deixaram tinham agora sua ino-
pequenas e grafas -- que as taxas de divrcio       cncia declarada pelo estado, a cujos olhos a
superavam historicamente as do Ocidente. Na          ausncia de erro moral est ligada  ausncia de
maioria dos cenrios pr-industriais, o divrcio     obrigao financeira. Os maridos divorciados
 disponvel igualmente para mulheres e ho-          podiam agora buscar uma nova esposa, sem
mens (Whyte, 1978). Em muitas comunidades            qualquer obrigao financeira para com a anti-
tribais da ndia, o divrcio  comum, sendo          ga. Isso deixou muitas mulheres em situao de
realizado simplesmente pelo ato de um indi-          pobreza, contribuindo para o que alguns cha-
vduo caminhar publicamente em direo a um          maram de uma nova "feminizao da pobreza".
homem ou mulher que no o seu prprio cn-           Ao criar tanto empobrecimento de mulheres e
juge. Hoje, nas sociedades muulmanas, onde          filhos, o divrcio ressaltou a permanncia da
as taxas de divrcio eram extremamente altas,        base econmica do casamento, que muitos
um homem pode divorciar-se de uma de suas            acreditavam ter perdido a fora.
esposas simplesmente repetindo trs vezes "Eu            Essa situao tem levado vrios analistas a
me divorcio de voc", diante de testemunhas          afirmar que, de fato, o casamento finalmente se
fidedignas (a lei islmica no concede  mulher      tornara um contrato voluntrio, a ser abando-
o mesmo direito ao divrcio). Mas, em muitos         nado de acordo com a vontade de um dos cn-
cenrios fora dos Estados Unidos e da Europa         juges. Por sua vez, afirmam, o divrcio j no
Ocidental, seja em Bangladesh ou na Indonsia,        mais estigmatizado, mas uma experincia
na Colmbia ou no Mxico, na ex-Unio Sovi-         bastante comum, que tem muito a ver com o
tica ou na China, o divrcio est em ascenso.       prprio ato do casamento. O divrcio, porm,
    Pela primeira vez na histria do Ocidente,       ainda  estigmatizado, se por "estigmatizao"
em meados dos anos 70, nos Estados Unidos e          queremos dizer que seus participantes podem
na Inglaterra, o nmero de casamentos que            ser excludos de atividades comunitrias e leva-
terminaram em divrcios superou os que termi-        dos a se sentirem acusados por viverem separa-
naram na viuvez. Se por um lado sempre acon-         dos. Alm disso, tal como a morte, o divrcio
teceu de cnjuges viverem separados, s recen-       ainda provoca muitas vezes um trauma psico-
temente essa separao foi legitimada atravs        lgico. Esse trauma  ainda mais intenso para
do aparato legal do divrcio. O divrcio, dife-      os que se divorciam, pois muitas vezes  ines-
rentemente da separao, significa que os que        perado e privado, em vez de previsto e pblico.
o obtm podem legalmente assumir outro cn-          Ao contrrio da morte, o divrcio no tem
juge. Hoje isso se tornou fcil na maior parte do    ritual, nenhum evento comunitrio para confir-
mundo. Andrew Cherlin (1982), demgrafo              m-lo. Ocorre nos tribunais e nas mentes dos
americano especializado em famlia, avalia           participantes, e no no palco mais amplo da
que, se as tendncias recentes persistirem, cerca    vida social. Tanto o ex-marido quanto a ex-es-
de metade das pessoas que esto se casando           posa buscam uma explicao -- uma histria
hoje ver esses casamentos terminarem em di-         -- para justificar a si mesmos e aos outros o que
vrcio. Lawrence Stone (1977), historiador da        aconteceu e por qu. Ao faz-lo, tendem a des-
famlia, estima que na Inglaterra mais de 1/3 dos    cobrir que o que em geral se acredita ser um
224   doena


conjunto de problemas particulares acaba se          enquanto, poucos dariam uma resposta afirma-
revelando como tendo sido sempre um assunto          tiva. Ao contrrio, demgrafos, socilogos, psi-
pblico.                                             clogos e economistas -- ainda que por moti-
    A experincia do divrcio, tal como a do         vos muito diferentes -- apontam que os in-
prprio matrimnio,  moldada tanto pelas di-        divduos j no buscam necessariamente o
ferenas de gnero quanto pelas de raa. Tal         apoio da Igreja para legitimar seus compromis-
como existe um "dele" e um "dela" no casa-           sos, obrigaes ou laos pessoais. Mas buscam,
mento, o mesmo existe tambm no divrcio. As         e devem buscar, o apoio do estado. Sem o apoio
mulheres brancas tendem a sofrer economica-          do estado, no h casamento; sem casamento,
mente quando perdem o cnjuge; as mulheres           no h divrcio. E o divrcio, como o casamen-
negras, menos, ainda que isso se deva ao fato        to, ainda est bem perto de ns. Nas palavras de
de dependerem menos dos maridos para a renda         um crtico: "Na sade ou na doena, ele chegou
familiar. Porm os homens brancos e negros           para ficar."
sofrem da mesma forma, social e emocional-
                                                     Leitura sugerida: Cherlin, Andrew 1982: Marriage,
mente. Enquanto as mulheres que perdem os            Divorce, Remarriage  Murdock, George 1950: "Fami-
maridos em geral perdem o provedor do po            ly stability in non-European cultures". Annals of the
dirio, que tornava possvel seu modo de vida        American Academy of Political and Social Science
material, os homens que perdem a esposa per-         5.227, 195-201  Stone, Lawrence 1977: The Family,
dem no apenas uma parceira numa diviso do          Sex and Marriage  Whyte, Martin Kin 1978: The Sta-
trabalho, mas tambm uma companheira e con-          tus of Women in Preindustrial Societies.
fidente que os liga a outros amigos e parentes.                                       NAOMI R. GERSTEL
    Com a crescente onda de divrcios, alguns
afirmam hoje que o casamento est chegando           doena Ver       SADE; PSIQUIATRIA E DOENA
                                                     MENTAL.
ao fim, que os indivduos j no buscam o apoio
da Igreja para legitimar suas ligaes pessoais,     doena mental Ver         PSIQUIATRIA E DOENA
que estamos finalmente assistindo  extino da      MENTAL.
FAMLIA -- pelo menos como a conhecamos at
agora. Est certo que famlia e casamento so        domstico, trabalho Ver TRABALHO DOMS-
hoje diferentes daquilo que foram durante o          TICO.
sculo anterior. De fato, essas instituies esto   dominao Ver AUTORIDADE.
mudando mais rapidamente do que qualquer
um havia previsto. Permanece, porm, a per-          Durkheim, escola sociolgica de Ver
gunta: esto desaparecendo? Pelo menos por           ESCOLA SOCIOLGICA DE DURKHEIM.
                                               E
ecologia Tendo sua origem etimolgica, tal                incluram-se os estudos da ecologia das prada-
como a palavra "economia", no grego oikos, ou             rias por grupos de Nebraska e Chicago, nos
"habitao", "morada", a palavra "ecologia"               Estados Unidos, e a ecologia botnica de A.G.
tem seu uso moderno creditado em geral a Ernst            Tansley, na Gr-Bretanha. Apesar de a ecologia
Haeckel, evolucionista alemo do sculo XIX.              fisiolgica animal ter sido criada antes (1881)
Esse conceito, no entanto, j estava presente, no         pelo alemo K.C. Semper, e da concentrao
sculo XVIII, na idia de uma "economia da                ainda mais antiga da polinizao pelos insetos,
natureza". Segundo esse ponto de vista, cada              o desenvolvimento geral da economia animal
espcie viva tinha determinado seu lugar pr-             avanou a passos mais lentos do que a ecologia
prio na natureza -- seu prprio tipo especfico           vegetal. O reconhecimento, como uma percep-
de alimento, mbito geogrfico e populao, ou            o capital da ecologia, de padres mais ou
seja, seu habitat, dentro de um padro har-               menos estveis de associao entre populaes
monioso de interdependncia entre as diferen-             de diferentes espcies de animais e plantas,
tes espcies. O reconhecimento do difundido               junto com condies geolgicas, topogrficas e
fenmeno da extino levou, no sculo XIX, a              climticas, obrigou a uma abordagem holstica
um enfraquecimento da idia de desgnio da                tanto dos estudos de campo quanto das explica-
providncia e de harmonia racional, enquanto              es tericas. O controvertido conceito de F.E.
o conceito de Darwin de seleo natural apoia-            Clements de um ecossistema como um "super-
va-se no pressuposto de uma luta competitiva              organismo" no  defendido hoje em dia dentro
pela existncia, tanto entre os organismos quan-          da ecologia cientfica, mas vrias formas de
to entre eles e suas condies fsicas de vida.           abordagens holsticas de "sistemas" foram con-
No obstante, a idia de uma economia har-                servadas. A ecologia moderna est preocupada
moniosa da natureza no estava inteiramente               principalmente com os ciclos dos nutrientes
perdida em Darwin, uma vez que o mecanismo                atravs dos ecossistemas, e com padres de
de seleo natural tinha, como resultado, uma             fluxo e intercmbio de energia. A metfora
adequao ou adaptao ainda mais estreita                econmica, de acordo com a qual so clas-
entre os organismos e suas condies de vida.             sificadas as "funes" de diferentes grupos de
Embora Darwin e outros bilogos evolucionis-              organismos dentro de um ecossistema -- "pro-
tas do sculo XIX tenham efetivamente realiza-            dutores" (principalmente os vegetais), consu-
do detalhados estudos das associaes entre               midores (herbvoros e seus predadores) e degra-
espcies interdependentes (os estudos do pr-             dantes (principalmente microorganismos) --,
prio Darwin sobre a polinizao das orqudeas             tem uma clara ressonncia da noo mais antiga
por insetos so um exemplo famoso), houve                 de "economia da natureza". Tem-se desenvol-
poucas tentativas de integrar sistematicamente            vido cada vez mais o reconhecimento de que os
esses estudos numa especializao disciplinar             diferentes ecossistemas esto eles prprios in-
antes dos anos 1890.                                      ter-relacionados. De importncia fundamental
    O trabalho pioneiro de E. Warming, A.                 para o pensamento social contemporneo a res-
Schimper e outros na sintetizao da geografia            peito da ecologia humana foi a sntese (Cole,
vegetal com a fisiologia levou a uma concen-              1958) do conceito da biosfera (a totalidade de
trao na ecologia das comunidades vegetais e             todos os seres vivos sobre a Terra) com o de
sua sucesso atravs do tempo. Entre os primei-           ecossistema para transmitir o conceito de
ros trabalhos notveis sobre ecologia vegetal             "ecosfera": o planeta considerado como um

                                                    225
226   ecologia


sistema global, imensamente complexo, de            reaes de adaptao e as diversificaes do
ecossistemas. Esse conceito fornece a base para     trabalho. Nesses termos, puderam ser compre-
um estudo da atividade social e econmica           endidos os padres e distribuies cambiantes
humana do ponto de vista de suas condies e        de "sucesso" temporal de grupos tnicos, sub-
de seus impactos ecolgicos globais.                culturas, atividades especializadas e assim por
    A nfase, nos sculos XVIII e XIX, na ma-       diante, como entre reas ou "zonas" naturais,
leabilidade e "perfectibilidade" humanas per-       geograficamente definidas, na cidade.
mitiu influncias reconhecidamente ecolgicas           A mudana de uma aplicao metafrica
no pensamento social e poltico europeu. Mon-       para uma aplicao direta, literal, dos conceitos
tesquieu atribuiu um papel significativo aos        ecolgicos  vida social humana s foi estabe-
fatores geogrficos e climticos na formao da     lecida nos anos 60, em seguida  globalizao
diversidade social e cultural e da variedade de     da perspectiva ecolgica na forma do conceito
formas de governo, enquanto Malthus utilizou        de "ecosfera". As advertncias dramticas de
a idia de uma carncia de meios de subsistn-      "viglia ecolgica" de Paul Ehrlich, Edward
cia relativa  "fora" de crescimento populacio-    Goldsmith, autores de Limits to Growth e outros
nal como uma arma contra propostas de mudan-        textos do final dos anos 60 e incio da dcada
a social radical. O industrialismo ocidental do    de 70, foram resultado de tentativas de ex-
sculo XIX e incio do sculo XX fez surgirem       trapolar as tendncias globais ento correntes
sucessivas ondas de nostalgia romntica por         no que dizia respeito a populao, poluio e
uma harmonia com a natureza que se havia            esgotamentos de recursos para o futuro, con-
perdido, e muitos autores socialistas encaravam     trastando-as com o reconhecimento ecolgico
a transformao das relaes com a natureza         de uma capacidade de sustento global finita.
como crucial para o futuro ps-capitalista.             A primeira onda de "poltica ecolgica", em
    As tradies predominantes no pensamento        geral designada de forma um tanto enganosa
social ocidental no sculo XX tm-se funda-         como "neomalthusianismo", logo deu lugar a
mentado numa oposio dualista entre natureza       uma multiplicidade de tentativas de incorporar
e sociedade ou cultura. Mas, buscando resistir      uma perspectiva ecolgica  teoria social e
ao DARWINISMO SOCIAL e a outras formas de           poltica. B. Commoner, A. Gorz e outros ten-
determinismo biolgico, essas tradies de          taram reconstruir a crtica marxista do capitalis-
pensamento tambm se isolaram de um con-            mo em termos de suas conseqncias ecologi-
fronto potencialmente produtivo com os des-         camente destrutivas, enquanto feministas como
dobramentos mais recentes nas cincias da vi-       C. Merchant ligaram a cincia moderna, o pa-
da, especialmente a ecologia. Uma antiga e          triarcado e a destruio ecolgica em uma tradi-
importante exceo foi a sociologia da Escola       o peculiar de "ecofeminismo". Na filosofia
de Chicago nos anos 20 e 30. A obra de R.E.         social ambiental, traou-se uma diferenciao
Park e E.W. Burgess, em especial, tinha como        entre ecologia "superficial" e "profunda"
premissa uma oposio entre as foras em fun-       (Naess, 1989). No primeiro caso, a preocupao
cionamento na e sobre a vida social, indepen-       com o ambiente baseia-se num reconhecimento
dente da conscincia e mediao de agentes          esclarecido da sua importncia para o bem-estar
sociais, e o significado atribudo a essas foras   humano, enquanto no segundo se atribui um
e processos pelos agentes envolvidos. Valendo-      valor intrnseco ao meio ambiente, independen-
se explicitamente do trabalho de Warming e          te de quaisquer interesses humanos especficos.
Clements com a ecologia vegetal e o do ecolo-       Movimentos sociais presumivelmente reacio-
gista animal pioneiro C. Elton, Park e Burgess      nrios e misantrpicos podem ser ligados 
referiram-se  antiga classe de foras sociais      ecologia profunda.
como uma ordem "ecolgica". Essa analogia               Ver tambm AMBIENTALISMO; MOVIMENTO
entre ecologia vegetal e animal e a dimenso        ECOLGICO.
inintencional de vida social humana foi mais
plenamente desenvolvida e aplicada no campo         Leitura sugerida: Bahro, R. 1982: Socialism and Sur-
                                                    vival  Bramwell, A. 1989: Ecology in the 20th Cen-
da sociologia urbana, em que Park e Burgess         tury: a History  Enzenberger, H.M. 1988: "A critique
analisaram os efeitos da competio por recur-      of political ecology". In Dreamers of the Absolute
sos escassos entre indivduos e grupos, bem          Gorz, A. 1980: Ecology as Politics  Lowe, P.D. e
como as resultantes presses "seletivas", as        Rudig, W. 1986: "Political ecology and the social scien-
                                                                                        econometria    227

ces: the state of the art". British Journal of Political   rios outros tpicos ampliou o repertrio da eco-
Science 16, 513-50  Matthews, Fred H. 1977: Quest          nometria terica.
for an American Sociology: Robert E. Park and the
Chicago School  Meadows, D.H. et al. 1972: The Li-
                                                               Usando esses instrumentos em contnua
mits to Growth  Merchant, C. 1980: The Death of            evoluo, muitas propostas tericas em todas as
Nature: Women, Ecology and the Scientific Revolution       reas da CINCIA ECONMICA tm sido submeti-
 Ryle, M. 1988: Ecology and Socialism.                     das a testes empricos. Estes vo da teoria de
                                         TED BENTON        demanda do consumidor e de hipteses eficien-
                                                           tes de mercado, em macroeconomia, at o teste
econometria Encarada normalmente como a                    das teorias sobre a determinao da taxa de
aplicao de tcnicas estatsticas a dados eco-            cmbio na economia internacional.
nmicos a fim de investigar problemas econ-                   Outra rea importante no desenvolvimento
micos, a econometria, numa definio mais                  da econometria foi a formulao e a corrobora-
inclusiva, abrangeria todo o rol de problemas              o de modelos macroeconomtricos. Come-
de mensurao em economia. Essa definio                  ando com o trabalho pioneiro de Elmer Wor-
poderia incluir problemas de operacionalizao             king na identificao das curvas de demanda e
de um conceito, de teste de uma teoria, de coleta          oferta a partir de dados econmicos, o trabalho
de dados e de construo de modelos especfi-              de Frisch e Tinbergen, na Europa, fez avanar
cos (ver MODELO). Embora a palavra tenha sido              consideravelmente as fronteiras da econome-
usada pela primeira vez no sculo XX por pra-              tria. Um trabalho posterior, na Cowles Foun-
ticantes pioneiros, como Ragner Frisch, a tradi-           dation, dirigido por J. Marschak e T.C. Koop-
o de uma abordagem estatstico-matemtica                mans, resultou num slido fundamento analti-
para os fenmenos sociais remonta  aritmtica             co para a avaliao de modelos de equao
poltica do sculo XVII. A origem da econome-              simultnea. A efetiva apreciao desses mode-
tria neste sculo est ligada a esforos para              los para uma economia real teve como pionei-
resolver as discusses tericas entre os mar-              ros Klein e Goldberger (1955), e continua de
ginalistas e seus crticos, recorrendo ao teste            formas cada vez mais sofisticadas, com grande
emprico da teoria de produtividade marginal               nmero de equaes, em muitos pases. Inter-
da distribuio, por economistas como H.L.                 nacionalmente, essa abordagem resultou no
Moore. Este tentou demonstrar a validade da                projeto LINK, um grupo de estudos interna-
teoria dos salrios de J.B. Clark, usando os               cional e cooperativo iniciado em 1968 com a
mtodos de correlao.                                     finalidade de criar um sistema de modelos. Os
    Desses primeiros passos ainda toscos, a eco-           modelos LINK consistem em modelos de co-
nometria evoluiu para uma disciplina rigorosa,             mrcio nacional, regional e mundial.
atravs dos esforos de pioneiros como R. Fris-                Recentemente R.E. Lucas destacou que os
ch e J. Tinbergen, na Europa, e pesquisadores              parmetros desses modelos sempre mudaro
da Cowles Foundation, nos Estados Unidos.                  em conseqncia de declaraes ou anncios de
Depois da Segunda Guerra Mundial, o campo                  programas e polticas. Teoricamente, o argu-
se expandiu rapidamente com a inveno do                  mento  bastante vlido, embora sua relevncia
computador de alta velocidade. Hoje em dia                para um modelo macroeconomtrico na prtica
mais adequado falar dos vrios ramos da eco-               continue a ser uma questo emprica. Muitos
nometria do que da econometria como um ni-                modelos recentes incorporam a pressuposio
co campo.                                                  de expectativas racionais introduzida por J.F.
    A econometria terica, tradicionalmente,               Muth e R.E. Lucas. Uma abordagem diferente,
tem-se concentrado na construo de modelos                defendida por C.A. Sims,  usar tcnicas empi-
estatsticos adequados ao teste de teorias eco-            ristas, tais como mtodos de auto-regresso
nmicas. O modelo de regresso linear clssico             vetora.
foi ampliado atravs da investigao da viola-                 De forma diferente, econometristas ingleses
o dos vrios pressupostos com respeito ao                como D.F. Hendry reconhecem os problemas
error term. Contribuio especfica dos econo-             dos pressupostos de exogeneidade na soluo
metristas foi o desenvolvimento de modelos                 das questes de identificao de modelos ma-
simultneos de equao. Um trabalho mais re-               croeconomtricos. No entanto Hendry ainda
cente sobre variveis qualitativas dependentes,            reconhece o valor da econometria para testar
atrasos distribudos, modelos dinmicos e v-              teorias econmicas. Seu trabalho nessa rea
228    economia


enquadra-se na rubrica dos procedimentos de                economia, socializao da Ver         SOCIALIZA-
seleo de modelos.                                        O DA ECONOMIA.
    Na rea da seleo de modelos e na abor-
dagem da econometria em geral, a bayesiana                 economia neoclssica O desenvolvimento
vem sendo uma contendora das abordagens                    da economia neoclssica data do rompimento
clssicas descritas acima. Em contraste com a              com a economia clssica ocorrido no ltimo
abordagem clssica freqentista, a proposta                tero do sculo XIX. Todas as escolas de eco-
bayesiana preocupa-se com o modo como uma                  nomia (ver CINCIA ECONMICA) buscam expli-
nova informao modifica as crenas do pes-                car, a seus diferentes modos, a disjuno entre
quisador a respeito dos valores dos parmetros.            o valor de uso e o valor de troca. A escola
Ela tambm foge da necessidade de justificar os            clssica teve a teoria de valor do trabalho como
procedimentos de avaliao, apelando para o                seu principal modo de explicar o valor de dife-
desastrado conceito clssico de desempenho do              rentes bens -- as taxas s quais eles so troca-
avaliador em amostras hipotticas repetidas.               dos. Houve muitas anomalias com essa teoria,
Filosoficamente, porm, a aceitao da abor-               especialmente no que diz respeito  dificuldade
dagem bayesiana implica uma viso subjetivis-              de valorizar coisas raras -- "obras-primas" --
ta de probabilidade que se choca com a viso               e bens em cuja produo o capital durvel de-
objetivista, tal como esta emerge de aspectos do           sempenhava um papel importante. A teoria do
mundo independentes do observador. Portanto,               trabalho apoiava-se no papel do tempo de traba-
as abordagens clssica e bayesiana tm com-                lho despendido na produo de um bem para
promissos ontolgicos distintos e opostos.                 explicar sua taxa de troca por outro bem. O
    Dada a diversidade de contribuies e pon-             valor de uso -- a utilidade do bem -- no
tos de vista na econometria moderna, qualquer              desempenhava nenhum papel ativo nessa ex-
viso sumria est sujeita a ser enganosa. No              plicao.
momento, vrios novos desdobramentos tm                       Quase que simultaneamente, embora de mo-
comeado a reconhecer a necessidade de maior               dos diferentes, trs autores defenderam a subs-
gerao de dados, mais testes de diagnstico,              tituio da teoria clssica por uma teoria basea-
incluso de graus de crena e uso de modelos               da em consideraes tanto subjetivas como ob-
que reconheam limitaes de dados. Ao mes-                jetivas, ou de custo de recursos. O valor de uso,
mo tempo, est sendo dada mais nfase a uma                ou utilidade, tornou-se um lado da equao que
construo de modelos no-linear e dinmica.               explica o valor de troca. Leon Walras (1834-
                                                           1910), William Stanley Jevons (1835-1882) e
Leitura sugerida: Aigner, D. e Zellner, A., orgs. 1988:    Carl Menger (1840-1921), a espaos de trs
"Causality". Journal of Econometrics 39, 1-2  Hendry,      anos um do outro, propuseram uma abordagem
D.F. 1987: "Econometrics methodology: a personal           anticlssica. O trabalho deles passou a ser co-
perspective". In Advances in Econometrics, Fifth World
Congress, vol.2, org. por T.F. Bewley  Klein, L. e
                                                           nhecido como a "revoluo marginal", pois
Goldberger, A. 1955: An Econometric Model of the           usaram a noo de utilidade marginal como
United States: 1929-1952  Leamer, E.E. 1987: "Eco-         explicao para os valores de troca (ver ESCOLA
nometric metaphors". In Advances in Econometrics,          ECONMICA MARGINALISTA). A revoluo mar-
Fifth World Congress, vol.2, org. por T.F. Bewley  Pe-     ginal  geralmente encarada como sinnimo de
saran, M.H. 1987: The Limits to Rational Expectations      economia neoclssica, mas essa  uma concep-
 Sims, C.A. 1987: "Making economics credible". In
Advances in Econometrics, Fifth World Congress,
                                                           o equivocada. Os pioneiros marginalistas, em
vol.2, org. por T.F. Bewley  Tinbergen, J. 1939: Statis-   especial Jevons e Menger, eram explicitamente
tical Testing of Business Cycle Theories, 2 vols.  Zell-   anticlssicos.
ner, A. 1983: "Statistical theory and econometrics". In        Foi Alfred Marshall (1842-1924) que cons-
Handbook of Econometrics, vol.1, org. por Z. Griliches     cientemente buscou enfatizar a continuidade,
e M.D. Intriligator.                                       em vez da ruptura, com os antigos economistas
                                    HAIDER ALI KHAN        ingleses e que criou a economia neoclssica
                                                           como a sucessora legtima da economia cls-
economia Ver CINCIA ECONMICA.                            sica. Ele incorporou o marginalismo ao corpo
                                                           principal da economia, mas tambm o integrou
economia, processos evolucionrios na                      com teorias clssicas de renda e de comrcio
Ver PROCESSOS EVOLUCIONRIOS NA ECONOMIA.                  internacional.
                                                                        economia neoclssica    229


   A economia neoclssica surge, assim, como       do seu preo estimular uma busca de subs-
um resultado consciente dos esforos de Mar-       titutos, e essas buscas tero sucesso.
shall para propagar uma mistura sinttica e            (4) Equilbrio. A otimizao por um con-
bem-acabada de economia clssica (embora           sumidor  bem-sucedida e define para ele um
sem a teoria do valor trabalho) e marginalismo.    equilbrio. O equilbrio  uma situao tal que,
Mas a economia moderna, especialmente nos          na ausncia de novas informaes, o indivduo
anos 60 e a partir de ento, tem uma diferena     no tem motivo para mudar o seu compor-
importante com relao  economia marshallia-      tamento. O mesmo aplica-se aos produtores.
na. Marshall pensou em mercados distintos em           (5) Concorrncia. Ao chegar  sua deciso,
equilbrio parcial; Walras propusera anterior-     o consumidor individual encara o preo de um
mente um equilbrio geral simultneo como          bem como um dado; o consumidor  parte
modo de teorizar a respeito de economia. A         muito pequena da economia total para exercer
economia moderna seguiu muito mais as linhas       algum poder em virtude de suas aes, por
walrasianas.                                       exemplo, para influenciar o preo. Os produ-
                                                   tores s se encontram em situao semelhante
Proposies bsicas
                                                   em estruturas industriais perfeitamente com-
    (1) Individualismo metodolgico. O con-        petitivas. Estas so desejveis, mas no univer-
sumidor, isoladamente,  o ponto de partida e      sais. Em situaes no-competitivas, os produ-
de chegada da economia neoclssica. Ele (en-       tores individuais (e muito raramente os consu-
caremos a realidade,  ele) maximiza sua utili-    midores) exercem poder no mercado e influen-
dade, e sua obteno de um optimum fornece o       ciam o preo ao qual vendem ou compram. A
critrio para a avaliao de alternativas econ-   situao competitiva  a norma.
micas. O produtor ou a firma, tomado isolada-          (6) Desobstruo do mercado. Na ausn-
mente, s infere sua base racional como, em        cia de restries arbitrrias externas, um mundo
ltima anlise, consumidor ou propriedade de       de consumidores e produtores individuais ir
consumidores.                                      agir de tal forma que o mercado para a mer-
    (2) Racionalidade econmica. O consumi-        cadoria em questo (em equilbrio parcial) e
dor busca otimizar. A otimizao envolve maxi-     para todas as mercadorias (em equilbrio geral)
mizar uma funo objetiva (utilidade) sujeita a    ser desobstrudo, isto , as demandas igualaro
restries. A renda, ou os recursos em geral,      as ofertas. No haver, portanto, nem excesso
funciona como uma restrio. O consumidor          de demanda nem excesso de oferta de natureza
encara toda uma multiplicidade de fins, porm
                                                   involuntria.
com meios escassos, o que o leva a otimizar.
                                                       (7) Mximo de bem-estar. Em situaes de
    (3) Escolha e substituio. Defrontado
                                                   equilbrio geral competitivo, o bem-estar do
com a otimizao como tarefa, o indivduo 
                                                   consumidor chegar ao mximo. Isso pode
ajudado pelo fato de ter uma escolha. Fora a
                                                   ocorrer sobre bases utilitaristas, que permitiro
restrio dos recursos, no h outras restries
                                                   a soma das utilidades dos diversos consumi-
que ele deva, idealmente, enfrentar. Assim, o
                                                   dores, ou pelo critrio de Pareto, o qual afirma
mbito de bens e de oportunidades disponveis
em geral  tal que ele pode escolher um em vez     que uma situao  tima, no sentido de que
de outro bem. Os bens substituem-se uns aos        ningum pode sair-se melhor sem que pelo
outros: ou na satisfao de uma nica neces-       menos uma pessoa se saia pior. Em qualquer
sidade ou porque as necessidades esto concor-     dos clculos, um equilbrio competitivo  uma
rendo e, se no uma, outra pode ser satisfeita.    situao de mximo de bem-estar.
Em geral, no existe hierarquia de preferncia         Em torno dessas proposies bsicas, a eco-
ou necessidades. Do lado da produo, do mes-      nomia neoclssica ampliou e enriqueceu sua
mo modo, a tecnologia  tal que os meios           capacidade de modelar um nmero crescente de
alternativos de produzir um bem ou, se no, de     atividades humanas dentro da sua estrutura.
substituir elementos que so colocados nos         Assim, crime, casamento, criao de filhos e
bens, ou ainda de substituir bens finais, esto    escolha do tamanho da famlia foram todos
sempre disponveis. Se por algum motivo essas      estudados, bem como as atividades econmicas
substituies no esto disponveis e o bem        mais estreitamente definidas, tais como escolha
escasso  nico, ento um aumento suficiente       de profisso, investimento, consumo, produo
230   economia poltica


e assim por diante. Dado o ponto de partida             lizavam as origens da riqueza na aquisio de
metodolgico individualista, a economia neo-            metais preciosos, atravs de excedentes comer-
clssica tem dificuldade em teorizar sobre rela-        ciais, refletindo o capitalismo mercantilista pre-
cionamentos agregados, macroeconmicos. A               dominante na poca. Essa doutrina foi superada
agregao sobre indivduos, firmas ou mer-              no sculo seguinte pela dos fisiocratas, que
cadorias leva a problemas internos de coern-           localizavam a fonte de toda riqueza na agricul-
cia. A busca de microfundamentos da macroe-             tura (refletindo o lento crescimento do capi-
conomia , portanto, endmica, e parte insol-          talismo agrcola). Mais tarde ainda, as origens
vel da economia neoclssica.                            da riqueza foram buscadas (por Adam Smith na
    Seus detratores criticam a economia neo-            dcada de 1770) na ampliao da diviso do
clssica por ser esttica, excessivamente orien-        trabalho, refletindo o incremento da atividade
tada para o equilbrio, fazendo pressuposies          econmica que levaria  Revoluo Industrial.
irreais, ignorando dados institucionais e cul-          No incio do sculo XIX, durante a Revoluo
turais, e tambm por desprezar o poder ou o             Industrial (David Ricardo) e um pouco depois
conflito (de classe). Seu predomnio contnuo           (Karl Marx), h o reconhecimento de que as
na economia, no entanto, sustenta-se no ape-           origens da riqueza se encontram, de maneira
nas por sua hegemonia institucional nas univer-         mais geral, na produo. O foco concentra-se
sidades, mas tambm pelo compromisso de                 em particular no modo como um excedente
seus praticantes com uma adeso vigorosa ao             econmico (isto , o que excede a reproduo
pequeno nmero de proposies bsicas, e a              de uma situao estacionria de subsistncia) 
ativos e ferozes mecanismos crticos internos,          produzido e distribudo; o que a relao dessa
que tentam garantir que, pelo menos por seus            produo e distribuio representa para o cres-
prprios padres internos, s sejam aprovados           cimento econmico e o conflito de classes (en-
trabalhos rigorosos e de alta qualidade.                tre senhores de terras e capitalistas, para Ricar-
                                                        do, entre capitalistas e operrios, para Marx); e
Leitura sugerida: Blaug, M. 1962 (1985): Economic       quais so as implicaes para preos, lucros,
Theory in Retrospect, 4ed.  Boland, L.A. 1985: The
Foundations of Economic Method  Hahn, F. 1984:
                                                        salrios e empregos.
Equilibrium and Macroeconomics  Hey, J. e Winch,            Marx fez distino, ainda, entre a economia
D., orgs. 1990: A Century of Economics  Stigler, G.J.   poltica "clssica", que "investigava a real es-
1965: Essays in the History of Economics.               trutura interna das relaes burguesas de produ-
                                   MEGHNAD DESAI        o", e que ele encarava, portanto, como cien-
                                                        tfica, e as atividades de economistas "vulga-
economia poltica Esta designao adqui-                res", que "se confundem com a estrutura apa-
riu uma variedade de significados, dos quais            rente dessas relaes (...) sistematizando de for-
nem todos so mutuamente compatveis. Em                ma pedante e proclamando como verdades eter-
termos histricos, a palavra "economia" refe-           nas as idias banais e complacentes que os
ria-se  administrao do oramento domstico.          agentes de produo burgueses tm sobre seu
Quando a residncia era a do monarca, essas             prprio mundo, que para eles  o melhor mundo
preocupaes econmicas eram evidentemente              possvel" (O capital, vol.I, 1867 (1976), p.174,
polticas. Da a "economia poltica" ter-se ori-        n.34). Para Marx, a ruptura ocorreu em 1830: a
ginado como o estudo dos problemas relativos            conquista do poder poltico pela burguesia, na
s rendas (oriundas de impostos e emprstimos)          Frana e na Inglaterra, e seu conflito de classe
e despesas (com a corte, a administrao civil,         com um proletariado em rpido crescimento
o exrcito e a marinha) do monarca, numa                marcaram o fim de qualquer possibilidade de
poca em que os estados-naes estavam co-              novos desenvolvimentos da economia poltica
meando a se consolidar e o enfraquecimento             cientfica; depois disso s seriam possveis uma
da moeda era comum. Em particular, a inflao           apologtica do status quo (economia poltica
europia no sculo XVI, ligada ao influxo de            vulgar) ou uma crtica cientfica (sua prpria
prata do Novo Mundo, inspirou questes rela-            obra).
tivas aos determinantes da balana entre rendas             Sucessores mais convencionais de Ricardo
e despesas e sua ligao com o comrcio, a              passaram cada vez mais a achar insatisfatria a
produo e, de maneira mais geral, a riqueza da         fundamentao da teoria deste numa teoria do
nao. Os mercantilistas do sculo XVII loca-           valor trabalho, e na dcada de 1870 sua teoria
                                                                                  economia poltica        231


da renda fora generalizada com sucesso para          sevelt (in Lindbeck, 1977) descrevem as con-
outros chamados fatores de produo tais que,        seqncias do uso da "razo, do conhecimento
em equilbrio competitivo, cada fator recebe o       tcnico, de manobras jurdicas e de polticas de
equivalente monetrio de sua contribuio para       reforma eleitoral" por ativistas estudantis nos
a produo. Seguiram-se imediatamente vrias         anos 60 e incio dos anos 70:
conseqncias. Primeiro, questes de cresci-            Eles descobriram pessoalmente a violncia, apoiada
mento e de atividade econmica agregada fo-             pela lei e pelo governo, que era usada contra os
ram substitudas por preocupaes com a aloca-          negros; em pases subdesenvolvidos, viram as elites
o de recursos. Segundo, o conflito de classes         governantes colaborando com os negcios interna-
foi substitudo por uma concentrao do in-             cionais para obstruir as reformas mais obviamente
teresse na maximizao promovida pelos in-              necessrias; viram que os administradores de suas
                                                        universidades resistiam a exigncias mnimas com
divduos (consumidores maximizando a utili-
                                                        incrvel tenacidade; viram como os programas de
dade e produtores maximizando o lucro), com             bem-estar social e as prises aterrorizavam e degra-
dadas dotaes iniciais e dadas tecnologias de          davam as pessoas as quais deveriam promover e
produo (ambas questes de histria) e dadas           melhorar; e, na poltica, os jovens descobriram que,
preferncias (questo de psicologia). Terceiro,         mesmo conseguindo levantar uma onda gigantesca
desapareceu a prpria noo de excedente eco-           contra a guerra e forar um presidente a renunciar,
nmico. E, quarto, a expresso "economia po-            isso no fez a guerra parar. A partir dessa experincia,
ltica" foi substituda pela palavra "economia".        comearam a se perguntar se no existe algo fun-
(Ver VALOR.) Enquanto os marxistas achavam              damentalmente errado no prprio sistema. (p.121)
esses desdobramentos "vulgares" e continua-              Esse questionamento levou  construo de
vam a usar a expresso "economia poltica cls-      uma viso de mundo alternativa  da ortodoxia
sica" para descrever a obra de Ricardo e seus        econmica predominante, rejeitando a concen-
antecessores, cada vez mais outros economistas       trao desta ltima em padres eficientes de
seguiam o uso de J.M. Keynes da expresso            alocao de recursos produzidos pelas ativi-
"economia clssica" para descrever a ortodoxia       dades otimizadoras de indivduos racionais (e
econmica no sculo posterior a Ricardo (tra-        em geral oniscientes), em favor de muitas das
tando Marx como um seguidor de Ricardo) e            preocupaes da tradio da economia poltica
anterior  Teoria geral do prprio Keynes, de        clssica, que havia culminado na obra de Marx.
1936. A expresso economia poltica s sobre-        Em particular, os economistas da Nova Esquer-
viveu na ortodoxia no-marxista em dois sen-         da (como vieram a ser chamados) no negaram
tidos. Primeiro, ocorre como expresso ocasio-       a nfase na concorrncia e na troca voluntria
nal na teoria das finanas pblicas -- bvia         nos mercados, to cruciais para a ortodoxia
referncia a suas origens histricas. Segundo,       econmica; mas afirmaram que essa concentra-
foi apropriada por um crescente conjunto de          o de foco era unidimensional demais para
trabalhos -- com origem em grande parte nos          representar a realidade do capitalismo de uma
Estados Unidos, nos anos 70 -- que investigam        forma que no fosse enganadora. O que seria
a interao de processos polticos democrticos      necessrio acrescentar era, primeiro, um reco-
e as relaes econmicas de troca de mercado-        nhecimento das relaes de poder, coero e
rias em mercados livres. Os primeiros so en-        hierarquia, caractersticas tanto do local de tra-
carados como estorvos s segundas, exigindo          balho quanto do mercado numa sociedade ca-
reestruturao e subordinao a elas. Mais uma       pitalista; e, segundo, o reconhecimento de que
vez, fica clara a referncia s origens histricas   as sociedades capitalistas no se encontram em
da expresso.                                        equilbrio esttico, e nem sequer dinmico, mas
    Ao mesmo tempo em que economistas co-            sim em constante mudana, sendo essa mudan-
mo Paul Baran e Paul Sweezy, nos Estados             a produzida por sua existncia sistmica.
Unidos, e Maurice Dobb e Ronald Meek, no                 A nfase no aspecto do poder  particular-
Reino Unido, mantinham uma tradio marxis-          mente importante. A explicao das desigual-
ta no sculo XX, foi a conjuno do movimento        dades da sociedade capitalista em termos do
de direitos civis nos Estados Unidos com o           comportamento otimizador dos indivduos ,
macio envolvimento norte-americano no Viet-         para os economistas polticos radicais, parti-
n que levou a uma retomada das preocupaes         cularmente ociosa, uma vez que constri repre-
da economia poltica clssica. Hymer e Roo-          sentaes da sociedade capitalista que so, na
232   economia socialista


melhor das hipteses, enganadoras e, o que         das pela ortodoxia econmica. Um exemplo de
mais tpico, totalmente mticas. A economia         destaque  a obra de Keynes: enquanto a in-
poltica, em vez disso, concentra-se em agrega-     terpretao ortodoxa encara a economia keyne-
dos de indivduos, em como as relaes de           siana em termos de situaes de equilbrio, Joan
poder distribuem recursos entre esses agrega-       Robinson e seus colegas sempre insistiram em
dos e em como essas distribuies de recursos       afirmar que isso significa distorcer os processos
mantm relaes de dominao e subordinao.        de desequilbrio com os quais Keynes se preo-
Esse tipo de anlise de relaes distributivas      cupava. Assim, Nell, por exemplo, afirma que
tem sido amplamente utilizado em anlises da        a ortodoxia econmica "deturpa a natureza da
pobreza em sociedades com estratificao de         circulao e da distribuio" (1980, p.XI); uma
classes, em anlises das diferenas entre os        compreenso mais precisa, no caso, exige um
sexos e das relaes patriarcais entre homens e     retorno  teoria keynesiana sobre demanda efe-
mulheres, em anlises de conflitos raciais nos      tiva e sua ampliao para ligar decises sobre
pases capitalistas mais ricos e numa ampla         preos e investimentos (ver PS-KEYNESIANIS-
variedade de anlises da situao com que se        MO). Entre outros exemplos incluem-se a in-
defrontam os pases subdesenvolvidos, em ter-       terpretao de Piero Sraffa da economia de
mos tanto de seu meio ambiente domstico            Ricardo e a redescoberta da economia marxista
quanto de sua entrada num mercado mundial           como algo mais que uma variante menor na
dominado pelos pases capitalistas mais ricos.      tradio ricardiana.
    Mas no  somente no que diz respeito a             As preocupaes da economia poltica radi-
relaes de poder entre agregados na distribui-     cal so, assim, heterogneas; unidas pela hos-
o que a economia poltica radical se diferen-     tilidade  ortodoxia econmica predominante,
cia da ortodoxia econmica. O prprio Marx          elas continuam eclticas, em parte complemen-
achava que as relaes de dominao e subor-        tares e em parte competitivas entre si. Nos
dinao no processo de produo em si mesmo         Estados Unidos, a Union for Radical Political
eram particularmente importantes para a an-        Economics (URPE), que publica a Review of
lise do capitalismo. Mas os escritos de Marx        Radical Political Economics,  a principal or-
desenvolveram pouco esse setor e, no sculo         ganizao a abrigar economistas dissidentes; no
XX, essas preocupaes marxistas foram bas-         Reino Unido existe uma anloga Conference of
tante negligenciadas. Foram, porm, revividas       Socialist Economists (CSE), com sua publica-
e na verdade atingiram um pblico muito mais        o Capital & Class, mas as preocupaes da
amplo com a publicao, em 1974, da obra de         economia poltica permeiam inmeras outras
Braverman sobre o processo de trabalho ca-          publicaes, incluindo Cambridge Journal of
pitalista (ver TRABALHO, PROCESSO DE), que ten-     Economics, Critical Social Policy e Race and
tava aplicar a anlise de Marx ao local de traba-   Class, num testemunho de sua influncia na
lho moderno e a sua evoluo no sculo XX.          contestao da ortodoxia econmica.
Grande nmero de estudos empricos foi buscar
sua inspirao na obra de Braverman, tentando       Leitura sugerida: Bowles, S. e Edwards, R. 1985: Un-
entender a evoluo de uma ampla variedade de       derstanding Capitalism: Competition, Command and
                                                    Change in the US Economy  Edwards, R.C., Reich, M.
situaes no local de trabalho. Nisso existe        e Weisskopf, T.E. 1978: The Capitalist System, 2ed.
certa ligao com as preocupaes da teoria da       Green, F. e Sutcliffe, B. 1987: The Profit System
REGULAO. Um foco de ateno relacionado,           Lindbeck, A. 1977: The Political Economy of the New
ainda que distinto, foi uma anlise das corpora-    Left: An Outsider's View, 2ed.  Nell, E.J., org. 1980:
es do sculo XX; uma linha de anlise apia-      Growth, Profits and Property: Essays in the Revival of
se na escola institucionalista norte-americana,     Political Economy.
de Thorstein Veblen a J.K. Galbraith; outra                                               SIMON MOHUN
relaciona a evoluo da corporao multina-
cional s teorias marxistas sobre imperialismo.     economia socialista Ver SOCIALISTA, TEORIA
    Esse itinerrio da redescoberta das preo-       ECONMICA; SOCIALISTA, CLCULO; SOCIALISMO
cupaes tericas do passado descobriu simul-       DE MERCADO.
taneamente como a obra de muitos economistas
influentes pode ser lida e interpretada sob uma     econmica, histria Ver            HISTRIA ECON-
luz diversa de como essas obras foram apropria-     MICA.
                                                                       educao e teoria social   233


educao e teoria social Se usarmos           SO-        Explicaes deterministas H dois tipos
CIALIZAO   para nos referirmos  soma de pr-      de deterministas. Primeiro, os que afirmam que
ticas pelas quais novos indivduos so transfor-     os indivduos diferem biologicamente em inte-
mados em membros de sociedades existentes,           ligncia e/ou que grupos (negros, mulheres, em
ento "educao"  o subconjunto de prticas         contraste com brancos, homens) diferem na
que tm como resultado pretendido tipos par-         mdia em termos de inteligncia biologicamen-
ticulares de formao. De forma ainda mais           te determinada, e que isso explica as diferenas
estrita, a palavra "educao"  usada como           nos resultados. A literatura sobre esse tipo de
sinnimo de escolaridade, medida institucional       determinismo  ao mesmo tempo ampla e
especfica para a transmisso de conhecimentos       amplamente superestimada, uma vez que
e habilidades, o desenvolvimento de competn-        muito poucas (se  que alguma) concluses
cias e crenas.                                      quanto a polticas e programas podem ser
    H uma pressuposio bsica que permeia o        dela derivadas com clareza, qualquer que seja
pensamento social do sculo XX, de que a             a verdade nessa questo. Por exemplo, supo-
socializao  o meio certo de caracterizar o que    nhamos que algumas crianas simplesmente
transpira entre novos indivduos e suas socie-       sejam mais espertas do que outras. O que se
dades, e de que os indivduos so maleveis a        segue a respeito de sua educao e da educa-
um nmero indefinido de tipos de formao.           o das que so menos espertas? Absoluta-
Contra esse pano de fundo, os socilogos pare-       mente nada, uma vez que a questo con-
cem ter a tarefa descritiva direta de caracterizar   seqente mais bvia  esta: as que so mais
como diferentes sociedades socializam os in-         espertas deveriam receber mais/melhor edu-
divduos e em que elas os socializam. Mas se         cao (para beneficiar indiretamente os res-
existem falhas de socializao, e elas existem,      tantes), ou menos (uma vez que no preci-
fica (mais) difcil sustentar a idia de plas-       sam)? E nada no mero fato das diferenas
ticidade (cf. Hollis, 1977; Wrong, 1977). Por        ajuda a resolver essa questo. A maioria dos
exemplo, se os indivduos de fato diferem bio-       sistemas educacionais reconhece tacitamente
logicamente em termos de inteligncia, isso          a diferena e gasta mais tanto com as que so
limitar o possvel sucesso de qualquer sistema      mais espertas como com as que so particular-
de escolaridade que proporcione a igualdade de
                                                     mente menos capazes e identificadas como ten-
tratamento na expectativa de que este venha a
                                                     do necessidades educacionais especiais.
produzir uma igualdade de resultados.
                                                         O segundo tipo de determinista fala a partir
    Os compromissos polticos de conseguir a
                                                     da sociedade, e no da biologia, demonstrando
igualdade de oportunidades, de tratamento e/ou
                                                     como as crianas chegam  escola com a van-
de resultados tm inspirado (e fundado) inme-
                                                     tagem ou com o peso de sua formao social
ros programas e projetos de pesquisas na socio-
logia do sculo XX (ver tambm IGUALDADE E           (classe, educao, status). Conseqentemente,
DESIGUALDADE). Por exemplo, em um compro-
                                                     o sucesso e o fracasso relativos na escola so
misso com a idia de que a escolaridade deveria      determinados pelos trunfos ou cargas que as
permitir a mobilidade social, identificando ta-      crianas trazem consigo, e a escolaridade em si
lento e/ou esforo independentemente de ori-         mesma no pode contrabalanar a sociedade --
gens sociais -- dessa forma tornando talento e       a escola  um agente menos possante, do ponto
esforo disponveis (como "mrito") como dis-        de vista causal, do que o lar ou a comunidade
criminadores identificveis para a seleo pro-      (ver Halsey et al., 1980).
fissional --, tem havido grande nmero de es-            Os mecanismos efetivos de determinao
tudos sobre o motivo por que origens e destinos      social so muitos e variados. Se em casa no h
continuam obstinadamente ligados, apesar dos         livros, no h lugar para estudar nem proces-
compromissos meritocrticos, pelo menos for-         sador de texto para produzir trabalhos elegan-
mais.  possvel distinguir trs tipos de explica-   tes, mame e papai esto sempre discutindo, o
es resultantes, que podem ser rotuladas de         beb no dorme e seus colegas esto sempre
determinista, desmistificadora e voluntarista.       batendo  porta chamando para jogar futebol --
Essas explicaes no so mutuamente exclu-          bem, quais so as chances de a criana fazer
sivas, ainda que geralmente sejam apresentadas       uma boa prova de histria? (Ver tambm PRIVA-
como tal.                                            O RELATIVA.)
234   educao e teoria social


    Explicaes desmistificadoras As prprias        bm a passividade do aluno de escola. Mas 
escolas so instituies sociais, contando com       possvel que as prprias crianas se mostrem
professores cuja classe ou status social precisos    ativas na formao de seus prprios destinos, e
tm sido objeto de considervel debate (ver          desde a tenra idade. Elas tm suas prprias
Ozga e Lawn, 1981). A realidade das escolas          percepes quanto a suas origens e aspiraes
pode divergir, e de fato diverge, de sua retrica.   por distino social: querem ser mdicos, enfer-
Assim, por exemplo, um compromisso formal            meiras e estrelas pop. Querem ou no querem
com a igualdade de oportunidades no garante         seguir o papai ladeira abaixo. Nesse contexto,
que um professor trate meninas e meninos de          os professores podem ou no representar um
modo tal que ambos tenham iguais oportunida-         status ou conjunto de valores com os quais os
des de sucesso na sala de aula desse professor.      alunos podem identificar-se, ou aos quais pos-
Na verdade, os indcios apontam, de forma            sam vir a aspirar. E isso  importante porque
surpreendente, que os professores -- homens e        pode formar uma orientao para todo o proces-
mulheres -- so discriminadores, no tratamen-        so de aprendizado. Em um estudo influente,
to que dedicam a meninos e meninas, de modos         Paul Willis (1977) afirmou que parte da ex-
educativamente significativos (Stanworth,            plicao para o fato de filhos da classe operria
1983). Alm disso, as escolas so moldadas           conseguirem empregos de classe operria 
como instituies atravs das exigncias for-        simplesmente que eles querem esses empregos;
mais dos governos nacionais e locais, e infor-       rejeitam decididamente a CULTURA mais "cola-
malmente pelas presses exercidas por pais,          rinho branco" da escola, que no  a de suas
diretores e o comrcio e indstria locais. A         famlias de origem. O modo como os profes-
conjuno de exigncias formais e presses           sores se comportam e vivem (objeto de certo
informais na verdade conspira para garantir que      fascnio para a maioria dos alunos) no os im-
o reconhecimento e a recompensa do mrito            pressiona como algo a ser copiado ou buscado.
individual sejam apenas um dos vrios objeti-            Qualquer que seja a mistura de explicaes
vos conflitantes perseguidos pelas escolas. As       certa, os filhos da classe operria conseguem
escolas tambm tm um "currculo oculto"             empregos de classe operria e as meninas aca-
(Snyder, 1971), o qual reconhece e recompensa        bam realizando trabalho "de mulher". A mobi-
o conformismo a suas normas de bom compor-           lidade social e sexual  sempre muito menor do
tamento e de auto-apresentao aceitvel (ver        que aquilo que satisfaria qualquer pessoa com-
Ball, 1990). Essas normas no so neutras no         prometida com a igualdade de oportunidades.
que se refere aos grupos, mas, ao contrrio,         Trabalhos sociolgicos detalhados sobre a re-
discriminam de forma sistemtica por classe e        produo de uma fora de trabalho estratificada
sexo. Assim, para usarmos um exemplo menos           podem ser encontrados, dentro da tradio bri-
que bvio, no nvel secundrio a norma da            tnica, em Halsey et al. (1980) e, numa perspec-
caligrafia clara indicaria um favorecimento sis-     tiva marxista norte-americana, em Bowles e
temtico das meninas, embora a "recompensa"          Gintis (1976).
seja na verdade a capacitao para funes de            Alguns tm procurado garantir que a es-
baixas recompensas e status moderado, tais co-       colaridade se torne uma influncia mais pode-
mo empregos de funcionrias e secretrias. Ne-       rosa do que a origem; por exemplo, ampliando
nhuma menina com a cabea no lugar deveria           o perodo de escolaridade compulsria, cuidan-
permitir-se ter uma bela caligrafia.                 do para que cada escola receba alguns alunos
    Em geral, diz o socilogo desmistificador,       com todos os nveis de habilidade e rebaixando
as escolas no so locais sociais "neutros",         a cultura de conhecimento "intil" (latim e grego,
impotentes diante de determinaes sociais           por exemplo), para cuja aquisio o principal
"externas". Suas prprias prticas institucional-    motivo , ou deveria ser, o desejo de marcar uma
mente embutidas formam resultados diferen-           distino social (ver Bourdieu, 1979).
ciados por classe, sexo e outros discriminadores         Outros tornaram-se crticos da prpria ins-
irrelevantes, como etnia.                            tituio da escolaridade. Na NOVA ESQUERDA,
                                                     Ivan Illich afirmou, numa obra muito influente,
Explicaes voluntaristas Tanto o determinista       Deschooling Society (Sociedade desescolari-
quanto o desmistificador esto, na verdade, as-      zante, 1971), que as escolas privilegiam o di-
sumindo no apenas a plasticidade, como tam-         ploma sobre a efetiva competncia, restringem
                                                                                    elites, teoria das   235


irracionalmente o domnio daquilo que conta               elites, teoria das A palavra lite foi usada na
como valendo a pena aprender e prescrevem                 Frana, no sculo XVII, para descrever bens de
modos de aprendizado restritivos e inteis --             qualidade particularmente superior. Um pouco
enquanto escrevo esta ltima frase, ocorre-me             mais tarde foi aplicada a grupos sociais supe-
que amanh minha filha colocar um colarinho              riores de vrios tipos, mas s viria a ser am-
e uma gravatinha novos, sem os quais jamais               plamente empregada no pensamento social e
lhe ser permitido aprender coisa alguma.  seu           poltico por volta do final do sculo XIX, quan-
primeiro dia numa escola inglesa comum.                   do comeou a ser difundida pelas teorias socio-
    A NOVA DIREITA adaptou a seus prprios ob-            lgicas das elites, propostas por Vilfredo Pareto
jetivos alguns dos temas da crtica da Nova               (1916-19) e, de forma um pouco diferente, por
Esquerda  escolaridade, expressa como a idia            Gaetano Mosca (1896). Pareto comeou com
de controle exercido pelo produtor: os profes-            uma definio muito geral de elite, como as de
sores prepararam suas prprias agendas para as            pessoas que tm os ndices mais elevados de
escolas, quando deveriam ser os pais a prepara-           capacidade em seu ramo de atividade, qualquer
rem agendas para os professores. A Nova Direi-            que seja a sua natureza, mas em seguida con-
ta, ento, manifesta-se a favor do rompimento             centrou sua ateno naquilo que chamou de
dos monoplios escolares e da libertao do               "elite governante", em contraste com as massas
consumidor.                                               no-governantes. Essa concepo devia algo a
    Tanto o pensamento da Nova Esquerda                   Mosca -- o primeiro a tentar a construo de
quanto o da Nova Direita conflitam com as                 uma nova cincia da poltica baseada na distin-
concepes centrais, social-democratas e libe-            o entre elite e massas --, que resumiu sua
ral-democratas -- como a de John Dewey                    concepo geral dizendo que, em todas as so-
(1966) --, que encaram a escolaridade como                ciedades, um fato bvio se destaca; o de sur-
uma instituio com um papel de liderana na              girem "duas classes de pessoas -- uma classe
criao de uma sociedade justa, democrtica e             que governa e uma classe que  governada".
unificada. E, dentro da tradio marxista, An-                As teorias das elites eram dirigidas contra o
tonio Gramsci expressa uma aprovao decidi-              socialismo (especialmente o socialismo mar-
da ao tipo de sistema escolar tradicional de que          xista) e, em certa medida, muito em especial no
ele foi um beneficirio individual (Entwistle,            caso de Pareto, contra as idias democrticas.
1979). O caso de Gramsci tambm deveria ser-              Contestavam o conceito marxista de "classe
vir para nos tornar conscientes de que, se os             dominante", cujo poder poltico se concentrava
socilogos em geral tm-se ocupado em ex-                 na propriedade dos meios de produo, afir-
plicar por que as crianas fracassam na escola,           mando que os grupos dominantes se carac-
existe tambm outra interessante questo de               terizavam por terem capacidades superiores e
pesquisa, que deseja saber por que certas crian-          por serem "minorias organizadas", cujo "dom-
as que deveriam, por todos os padres socio-             nio (...) sobre a maioria desorganizada  inevi-
lgicos, efetivamente fracassar tiveram sucesso           tvel" (Mosca, 1896, p.50). Essa argumentao
nas circunstncias mais improvveis. Existem              foi levada mais adiante com a negao de que
muito poucos sistemas de escolaridade que no             uma "sociedade sem classes", conforme prefi-
tenham como se orgulhar de seus meninos po-               gurada pela maioria dos socialistas, ou uma
bres que obtiveram sucesso, e uma abordagem               democracia no sentido de "governo exercido
biogrfica do estudo do seu sucesso pode fazer            pelo povo", pudesse vir a ser atingida um dia.
ressaltar fatores desprezados nas abordagens              Mosca, porm, acabou desenvolvendo uma teo-
macrossociolgicas do estudo da educao.                 ria mais complexa, na qual reconhecia a impor-
(Para usos bem diferentes de uma abordagem                tncia da posse da propriedade na constituio
biogrfica, ver Hoggart, 1957, e Lacey, 1970.)            da minoria organizada (ou "classe poltica"); a
                                                          influncia sobre o governo de "foras sociais"
Leitura sugerida: Bowles, Samuel e Gintis, Herbert
1976: Schooling in Capitalist America  Halsey, A.H.,      diversas, representando diferentes interesses na
Heath, A. e Ridge, J.M. 1980: Origins and Destinations:   sociedade; a importncia, para a estabilidade
Family, Class and Education in Modern Britain  Il-        poltica, de uma subelite compreendendo, na
lich, Ivan 1971: Deschooling Society  Willis, Paul        prtica, a "nova classe mdia"; e a possibilida-
1977: Learning to Labour.                                 de, numa democracia parlamentar, de que a
                                   TREVOR PATEMAN         maioria desorganizada, atravs de seus repre-
236   elites, teoria das


sentantes, viesse a exercer algum controle sobre   corporaes empresariais, os lderes polticos e
a poltica governamental.                          os chefes militares), e sua anlise parecia levar
    As obras de Pareto e Mosca tiveram uma          reafirmao, de forma limitada, da fora de-
influncia penetrante. Max Weber, de modo          terminante definitiva que era a posse da proprie-
parecido, rejeitou a idia de governo exercido     dade.
pelo povo e redefiniu a democracia como a              Grande parte da extensa pesquisa sobre as
"competio pela liderana poltica", no que foi   elites desde a Segunda Guerra Mundial tem-se
mais tarde seguido por J.A. Schumpeter (1942).     preocupado com a arregimentao e o papel
Em seus argumentos contra o socialismo, We-        social de grupos elitistas particulares -- lderes
ber enfatizou a independncia relativa do poder    polticos, executivos de empresas (especial-
poltico, afirmando ser mais provvel que uma      mente em grandes corporaes), funcionrios
revoluo socialista estabelecesse a ditadura do   de alta hierarquia, chefes militares e intelectuais
funcionalismo do que a ditadura do proletariado    -- em sociedades diferentes, e esse tem sido um
(Weber, 1918). A partir de outro aspecto, Robert   elemento importante nos estudos sobre a mobi-
Michels, que trabalhava numa ligao muito         lidade social (Heath, 1981). De maneira mais
estreita com Weber, em seu estudo sobre os         geral, as teorias das elites tm ocupado o centro
partidos polticos, afirmou que todos eles (in-    das controvrsias a respeito da relao entre
cluindo os partidos socialistas) inevitavelmente   elites e democracia. Karl Mannheim, que ori-
desenvolviam uma estrutura oligrquica, resul-     ginalmente ligara as teorias das elites ao fascis-
tando na dominao por parte dos lderes par-      mo e s doutrinas antiintelectualistas de "ao
tidrios. Tanto Weber quanto Michels atribuam     direta", afirmou mais tarde que democracia e
importncia capital, na liderana poltica, s     elites no eram necessariamente incompatveis:
elites, bem como aos indivduos "carismticos"     numa sociedade democrtica, haveria "um no-
(Beetham, 1981; Mommsen, 1981), e suas             vo modo de seleo da elite e uma nova auto-
idias exerceram considervel influncia sobre     interpretao desta", juntamente com uma re-
o pensamento social posterior. Raymond Aron        duo da distncia entre a elite e a massa (Man-
(1950) tentou uma sntese da teoria de "classes"   nheim, 1956, p.200). Nos anos 60, porm, os
com a teoria das "elites" atravs da anlise da    movimentos esquerdistas radicais renovaram o
relao entre DIFERENCIAO SOCIAL e hierarquia    ataque ao elitismo em sua defesa da "democra-
poltica nas sociedades modernas, e seguiu We-     cia participativa" e, embora alguns desses mo-
ber ao afirmar que a "desigualdade em termos       vimentos tenham declinado no decorrer da l-
de poder poltico no  de forma alguma elimi-     tima dcada, suas crticas ao domnio da elite
nada ou reduzida pela abolio das classes, pois   ainda exercem influncia sobre os partidos ver-
 absolutamente impossvel que o governo de        des e entre os defensores da autogesto.
uma sociedade esteja nas mos seno de uns             No pensamento social do ps-guerra, a teo-
poucos". Nesse texto e em outros (Aron, 1964),     ria das elites tornou-se menos uma alternativa
ele tambm usou o conceito de elite para es-        teoria de classe do que um complemento a
tabelecer uma distino entre a "pluralidade de    essa teoria, em especial na anlise da natureza
elites" nas sociedades capitalistas democrticas   do domnio poltico nos pases socialistas (eles
e a "elite unificada" nas sociedades "sem clas-    prprios envolvidos, desde o final dos anos 80,
ses" (mais especificamente, na Unio Soviti-      em um processo de mudana radical em que
ca). Esses textos foram uma importante con-        tanto as classes quanto as elites desempenham
tribuio para as controvrsias a respeito do      um papel). O que hoje parece mais importante
surgimento de uma nova classe governante, ou        a relao das elites com a democracia, assim
elite dominante, nos pases socialistas. C.        como as novas questes colocadas por verses
Wright Mills (1956), muito influenciado por        mais recentes da teoria das elites para concep-
Weber, tambm usou a expresso "elite do po-       es da ulterior evoluo da democracia nas
der" preferencialmente a "classe governante",      sociedades industriais avanadas (Albertoni,
que ele achava implicar com excessiva facili-      1987, parte 2).
dade que uma classe econmica tem o domnio        Leitura sugerida: Albertoni, Ettore A. 1987: Mosca
poltico, mas, ao contrrio de Aron, concebeu      and the Theory of Elitism  Aron, Raymond 1950
essa elite como unindo trs grupos distintos na    (1988): "Social structure and the ruling class". In Po-
sociedade norte-americana (os chefes das           wer, Modernity and Sociology  Bottomore, Tom 1964
                                                                                             empirismo      237

(1966): Elites and Society  Mannheim, K. 1956: Es-          para a compreenso, como blocos psicolgicos
says on the Sociology of Culture  Michels, Robert,          e ideologias sociais dominantes. Os vnculos
1911 (1949, 1962): Political Parties  Mills, C.W.
1956: The Power Elite  Mosca, Gaetano 1986 (1939):
                                                            existentes entre cincia e dominao e a poss-
Elementi di scienza politica, 2ed. rev. e ampl., 1983. A   vel contribuio da cincia (incluindo a cincia
verso inglesa organizada por Arthur Livingston, sob o      social) para a emancipao humana tm sido
ttulo The Ruling Class, rene essas duas edies           um importante tema nas teorias crticas da cin-
Pareto, V. 1916-19 (1963): The Mind and Society: a          cia da LIBERDADE.
Treatise on General Sociology, 2 vols.  Schumpeter,
Joseph A. 1942 (1987): Capitalism, Socialism and De-        Leitura sugerida: Bhaskar, Roy 1986: Scientific Rea-
mocracy, 6ed.                                              lism and Human Emancipation  Marcuse, Herbert
                                     TOM BOTTOMORE          1969: An Essay on Liberation.
                                                                                         WILLIAM OUTHWAITE
emancipao Usadas no sculo XIX para se
referir  abolio de restries jurdicas aos              empirismo Esta palavra indica um conjunto
judeus europeus, aos servos russos e aos es-                de teorias de explicao, definio e justifica-
cravos americanos, as palavras "emancipao"                o de nossos conceitos e/ou conhecimento, no
e "libertao" mantiveram seus laos com a                  sentido de que estes so derivados dos sentidos
imagstica da escravido. Ao lado de motivos                (ou da introspeco) e/ou podem ser explicados
tirados da Revoluo Francesa e dos movimen-                (e/ou justificados) em termos da experincia
tos operrios, essas palavras formaram a retri-            destes.  tpico dos empiristas terem assumido
ca dos "movimentos de libertao nacional"                  que o conhecimento deve ser estabelecido por
anticolonialistas (ver Fanon, 1961).                        induo a partir de (ou testado em oposio a)
    Mary Wollstonecraft (1792) chamou a aten-               relatos de observaes incorrigveis, ou pelo
o para as semelhanas entre a condio das                menos no-deduzidos. Isso sempre levantou
mulheres e a dos escravos, e os movimentos                  problemas a respeito do status das proposies
feministas tm usado tradicionalmente as pala-              matemticas (questionado por J.S. Mille, no
vras emancipao e libertao. (Fora desses                 final do sculo XX, por David Bloor, para ser-
movimentos, tambm, a mulher "emancipada"                   mos empricos), princpios a priori aparente-
era associada a um estilo de vida anticonven-               mente sintticos, tais como a uniformidade da
cional.) Ver tambm MOVIMENTO DE MULHERES.                  natureza (que Bertrand Russell admitiu ser um
    Em outras reas do pensamento radical, es-              limite ao empirismo) e do prprio empirismo
sas palavras costumam ser usadas como alter-                (seria ele analtico e, portanto, na expresso de
nativas ou complementos de um vocabulrio da                John Locke, "trivial", como Wittgenstein es-
revoluo social, especialmente na teoria crtica           tava disposto a admitir, ou meramente emprico
(ver ESCOLA DE FRANKFURT). O Ensaio sobre a                 e, portanto, sujeito  dvida indutiva?). Alm
libertao (1969), de Herbert Marcuse, am-                  do mais, em sua forma cannica humeana, o
pliou as tradicionais concepes socialistas de             empirismo leva prontamente a um ceticismo a
libertao para poder incorporar idias dos mo-             respeito (a) dos objetos independentemente da
vimentos estudantil e hippie, bem como dos                  nossa percepo a seu respeito e (b) da neces-
movimentos de libertao feminina e gay.                    sidade natural (isto , conexes necessrias na
    O conceito, mais austero, de Jrgen Haber-              natureza -- e da a um problema a respeito do
mas, de um interesse na emancipao orientado               status das leis). Caracterstico do POSITIVISMO
pelo conhecimento, caracterizando cincias                  em geral, o empirismo tem sido a epistemologia
"crticas" como a psicanlise e a crtica marxis-           e a teoria da cincia predominantes durante a
ta da ideologia, exerceu tambm extrema in-                 maior parte deste sculo; mas tambm estendeu
fluncia como alternativa ao ideal de liberdade             sua influncia  tica (como emotivismo), 
de valores (ver VALORES). No modelo de Haber-               lingstica,  psicologia (como comportamen-
mas, as cincias emancipatrias combinam o                  talismo) e  cincia social de maneira geral. Em
estudo de processos causais a serem encon-                  sua fase possivelmente mais influente, assumiu
trados na cincia emprica com a transformao              a forma do empirismo lgico do crculo de
de nossa compreenso de ns prprios a ser                  Viena dos anos 20 e 30, que inicialmente uniu
obtida a partir da HERMENUTICA; eles envolvem              a epistemologia sensacionalista de Ernst Mach
a identificao e remoo de obstculos causais             com o atomismo lgico de Russell e Wittgens-
238   empirismo


tein, e cujos membros mais importantes foram        XX. Em certa medida, o empirismo lgico de-
M. Schlick, R. Carnap e Otto Neurath.               sabou sob o peso de sua prpria dvida sis-
    A estrutura da epistemologia empirista no       temtica interna (ver CONHECIMENTO, TEORIA
sculo XX baseia-se substancialmente em:            DO). N.R. Campbell, nos anos 20, j se havia
    P1, o princpio de invarincia-emprica, isto   manifestado contra a suficincia da teoria de-
, que as leis so ou dependem de regularidades     dutivista da explicao, sustentando que os mo-
empricas; e                                        delos eram indispensveis  inteligibilidade da
    P2, o princpio de confirmao (ou refuta-      cincia. Seu legado foi assumido por filsofos
o) pelo evento, ou seja, de que as leis so       como Scriven -- que lanou um importante
confirmadas (ou refutadas) por seus eventos.        ataque  idia da simetria de explicao e pre-
                                                    viso --, S.E. Toulmin, M.B. Hesse e, em es-
    A definio dos eventos pode ser ostensiva      pecial, Rom Harr, o qual afirmou que os mo-
ou operacional (P.W. Bridgman); e, se osten-        delos eram capazes de indicar mecanismos ge-
siva, fisicalista (Neurath) ou fenomenalista --     radores e estruturas causais que poderiam vir a
a resposta predominante ao problema (a) no          ser empiricamente estabelecidos -- por um cri-
qual objetos eram analisados como dados dos         trio perceptual direto ou causal indireto --
sentidos, efetivos ou possveis, mas que sofreu     como reais, suposio prontamente apoiada pe-
muito com as crticas dos wittgensteinianos e       la histria de cincias como a fsica e a qumica.
da escola oxfordiana da FILOSOFIA DA LINGUA-        Ao mesmo tempo, o trabalho de Popper, Tho-
GEM, liderada por John Austin e Gilbert Ryle,
                                                    mas Kuhn, I. Lakatos e P. Feyerabend minou a
depois de meados do sculo. P1  suscetvel s      credibilidade da correlata teoria monista do de-
interpretaes descritivista e instrumentalista     senvolvimento cientfico, registrando a magni-
(Ryle); e  interpretao idealista transcenden-    tude das mudanas cientficas que haviam ocor-
tal, bem como  estritamente empirista. P2         rido no sculo XX. O reducionismo e o atomis-
suscetvel s interpretaes indutivista (Car-      mo implcitos na teoria da linguagem cientfica
nap) e refutacionista (Karl Popper); e  conven-    que necessariamente se seguiu sofreram ata-
cionalista, bem como  positivista. De P1 e P2      ques de W.V.O. Quine, W. Sellars, N.R. Hanson
brotam teorias sobre a explicao de eventos,       e outros. Estes afirmaram haver predicados de
leis, teorias e cincias -- dedutivismo --, sobre   observao ligados ao mundo prtico de um
a simetria de explicao e preciso, sobre o        modo muito mais complicado, no-isomrfico
desenvolvimento da cincia como monista, so-        e dependente da teoria do que os empiristas
bre confirmao, ou corroborao, e refutao,      haviam, tipicamente, presumido.
e sobre racionalidade cientfica (ver Bhaskar,          Nesse meio tempo, os paladinos da her-
1975, apndice ao cap.2). A filosofia da cincia,   menutica -- de maneira especial, talvez, H.-G.
durante o terceiro quartel do sculo, colocou em    Gadamer e P. Winch -- questionavam a aplica-
questo a suficincia de P1 e P2; enquanto que,     bilidade do modelo empirista ao domnio so-
no ltimo quartel do sculo, o trabalho de Bhas-    cial. Tanto a teoria quanto a prtica da cincia
kar questionou igualmente a necessidade de P1       social empirista foram criticadas por autores
e P2, substituindo a subjacente ontologia do        antinaturalistas e naturalistas antiempiristas
realismo emprico pela ontologia estratificada      preocupados em enfatizar a especificidade das
e diferenciada do realismo transcendental, e        cincias humanas. Nesse ponto, exerceu in-
proporcionando uma contraposio realista ao        fluncia particular a argumentao de Jrgen
problema empirista (b), numa defesa da idia        Habermas de que o positivismo, em sua preo-
da necessidade e universalidade (analisada co-      cupao com o observvel e o manipulvel,
mo transfactualidade no-emprica) das leis. O      refletia uma forma de prtica tcnico-instru-
realismo transcendental tornou possvel uma         mental que incorporava apenas um interesse
supresso no-kantiana do empirismo e do ra-        humano limitado. Ao mesmo tempo, naturalis-
cionalismo, na qual ficava demonstrado o modo       tas crticos como Bhaskar afirmaram que o
como, no desenvolvimento da cincia, se podia       modelo empirista havia levado hermeneutas e
chegar a ter um conhecimento de necessidade         dualistas (como Habermas) a exagerar as dife-
natural a posteriori.                               renas entre as cincias sociais e naturais. Deu-
    Vale a pena examinar com um pouco mais          se particular ateno aos limites da mensurao
de detalhe a extino do empirismo no sculo        e das investigaes quantitativas nas cincias
                                                                            empresarial, funo      239


sociais e aos efeitos do empirismo (por exem-       Leitura sugerida: Bhaskar, Roy 1975 (1978): A Rea-
plo, ao gerar retrocessos interacionistas e redu-   list Theory of Science, 2ed.  Bloor, David 1976:
                                                    Knowledge and Social Imagery  Chomsky, Noam,
cionistas na busca de um trmino) sobre as          1959: "Review of B.F. Skinner's Verbal Behaviour",
cincias sociais. A psicologia comportamenta-       Language 35  Habermas, Jrgen 1968 (1971): Know-
lista viu-se debaixo de fogo de variadas proce-     ledge and Human Interests  Harr, R. e Madden, E.
dncias, incluindo Erving Goffman, a etnome-        1975: Causal Powers: a Theory of Natural Necessity
todologia de Harold Garfinkel e a psicologia         Lovibond, Sabina 1983: Realism and Imagination in

social formada dentro de um molde wittgens-         Ethics  Scriven, M. 1962: "Explanation, prediction
                                                    and laws". In Minnesota Studies in the Philosophy of
teiniano e vygotskiano. O modelo empirista de
                                                    Science, vol.3, org. por H. Feigl e G. Maxwell  Volo-
aprendizado da linguagem, associado particu-        sinov, V.N. 1929 (1973): Marxism and the Philosophy
larmente a B.F. Skinner, e a linguagem em geral     of Language.
sofreram um ataque pesado da lingstica racio-                                          ROY BHASKAR
nalista e profundamente estruturalista de Noam
Chomsky. A recepo internacional, nos anos         empresarial, funo Uma conscincia alerta
70, s idias de Volosinov e Bakhtin (formula-      s oportunidades de puro lucro  a essncia da
das pela primeira vez nos anos 20) e o desen-       funo empresarial. Ao falar de funo em-
volvimento do estruturalismo, de Ferdinand de       presarial, no nos estamos referindo a in-
Saussure a Claude Lvi-Strauss, levaram ao          divduos especficos, isto , empresrios, mas
surgimento da semitica -- ou cincia estrutu-      antes  funo do empresariado e sua importn-
ral dos signos --, nas mos de praticantes to      cia analtica na compreenso da natureza do
variados quanto Roland Barthes e M. Pcheux.        processo do mercado competitivo.
Tudo isso foi observado como envolvendo uma
crtica da identidade sujeito-objeto, do isomor-    O homem econmico e o homo agens
fismo ou da correspondncia assumida pelo               A ao humana consiste na tentativa con-
empirismo.                                          tnua de substituir o atual estado de coisas in-
    Nos anos 80 houve um ressurgimento par-         satisfatrio por um imaginado estado futuro
cial do empirismo nas obras de autores como B.      melhor. Os seres humanos precisam ajustar e
van Frassen e N. Cartwright. De maneira mais        reajustar, de maneira mais eficaz, seus meios de
geral, o empirismo tendeu a sofrer uma mutao      alcanar os fins a que perseguem. A noo de
(Outhwaite, 1987a, Cap.2) para certa forma de       economia, isto , a alocao de meios escassos
convencionalismo, de pragmatismo, conforme          entre fins concorrentes, capta apenas um peque-
representado por Richard Rorty, ou mesmo de         no aspecto da ao humana. H um elemento
superidealismo, como nas variedades de ps-         de ao humana que no pode ser analisado
estruturalismo e ps-modernismo em geral, em        dentro do modo econmico e maximizante e
cujos critrios de objetividade, verdade e neces-   que foge  nossa compreenso quando o anali-
sidade humana tendeu a se perder por completo.      samos dessa forma. Esse elemento  o aspecto
Nesse meio tempo, um produto da anlise rea-        empresarial de toda ao humana.
lista-crtica do empirismo foi a reavaliao da         Dentro do modelo padro de comportamen-
obra de Marx como antiempirista, mas no            to econmico, o homem econmico racional
(contrariamente  caracterstica interpretao      (homo oeconomicus) maximiza sua utilidade
marxista ocidental) antiemprica, e do materia-     dentro de um quadro de fins e meios dados. Essa
lismo dialtico como implicando ele prprio         racionalidade instrumental mecnica, porm,
uma forma de empirismo objetivista.  medida        limita a anlise ao problema de alocao que se
que o sculo se aproxima do final, entre os         segue  justaposio de meios escassos e fins
tpicos sob investigao encontram-se as con-       concorrentes. Dentro dessa perspectiva, o pro-
dies da possibilidade e os efeitos do empiris-    cesso da realizao de escolhas  simplesmente
mo em si mesmo (com sua reificao dos fatos        um problema de matemtica aplicada. A ao
e sua tcita personificao -- humanizao --       humana, porm, abrange muito mais que a com-
das coisas); a quebra das distines fato-valor     putao da soluo de um problema de maxi-
e teoria-prtica (pelo menos no domnio social)     mizao. Abrange tambm a percepo do qua-
com que o empirismo, de forma caracterstica,       dro de fins e meios dentro do qual a atividade
sempre foi associado; e a renovada possibilida-     econmica vem a surgir. O homo agens (o
de de realismo na tica.                            "agente humano") no apenas tem a propenso
240   empresarial, funo


a perseguir objetivos de forma eficaz, uma vez      da competio de mercado no deve presumir
claramente identificados fins e meios, como         o que se determinou a explicar -- a saber, a
possui tambm a conscincia alerta, ou pers-        tendncia ao equilbrio. A anlise econmica
piccia, para identificar que fins devem ser        padro do equilbrio competitivo, porm, faz
perseguidos e que meios esto disponveis.          exatamente isso ao postular um estado de equi-
    S dentro de um quadro de meios e fins em       lbrio que uma explanao adequada do proces-
aberto  que podemos comear a compreender          so competitivo deveria explicar como conse-
a natureza do elemento empresarial evidente         qncia desse processo. Se, por outro lado,
em toda ao humana, bem como o processo de         estudarmos o mercado dinmico como um pro-
mercado empresarial que se segue. Por outro         cesso competitivo de aprendizado e descoberta,
lado, se encaramos as escolhas humanas sim-         ento o papel crucial da funo empresarial na
plesmente dentro de um dado quadro de meios         coordenao econmica poder ser compreen-
e fins, como grande parte da economia neocls-      dido. O empresrio reage  atual situao de
sica no sculo XX tendeu a fazer, ento o papel     desequilbrio, caracterizada pela perda de opor-
empresarial no  tanto incompreendido quanto       tunidades, de uma forma que estimula o sistema
simplesmente ignorado, e a viso do mercado        ao ajuste e coordenao mtuos de elementos
de um estado de equilbrio esttico, e no a do     previamente discordantes. Dessa maneira, o
processo de mercado dinmico que, em primei-        empresrio exercita a perspiccia para as opor-
ro lugar, buscvamos compreender e explicar.        tunidades de puro lucro e, ao faz-lo, empurra
Num equilbrio competitivo geral, no existe,       o sistema em direo ao hipottico estado de
por definio, papel para a funo empresarial.     equilbrio.  claro que, antes que o sistema
    Na medida em que os economistas concen-         atinja esse estado de equilbrio, mudanas na
tram sua ateno na alocao mecnica de            realidade econmica subjacente revelam novas
meios escassos entre fins concorrentes dentro       ineficcias. Mas somente por reconhecer a pro-
de um quadro dado, a natureza dinmica da           penso humana a aprender com a experincia
atividade de mercado lhes fugir  compreen-        do mercado, a ajustar expectativas e a alterar
so. O papel empresarial s se torna importante     planos de acordo com isso  que podemos co-
para nossa compreenso da vida econmica            mear a responder s perguntas cruciais com
num mundo de incerteza e mudana contnua,
                                                    respeito s foras que provocam mudanas nas
um mundo fora do equilbrio.
                                                    decises de compra, venda, produo e consu-
Duas vises da funo empresarial                   mo, que compelem a multido de indivduos
                                                    dentro da sociedade econmica a agir de co-
    Existem basicamente duas vises da funo
                                                    mum acordo uns com os outros.
empresarial na atividade econmica. Uma de-
las, ligada a Joseph Schumpeter, afirma que a           A prpria existncia de ineficcias atuais
funo empresarial  catalisadora da inovao       motiva o processo de mercado empresarial. Es-
na vida econmica. O empresrio inovador per-       tando alerta para possveis oportunidades de
turba o equilbrio existente, d incio  mudana   melhor ajustar ou reajustar recursos para satis-
e cria novas oportunidades. Embora o sistema        fao dos fins, o empresrio coordena a ativi-
se estabelea em um novo equilbrio depois de       dade econmica. O empresrio  uma fora
cada exploso de inovao empresarial, o em-        endgena dentro do mercado que elimina a
preendedor schumpeteriano  fundamental-            ineficincia. A discrepncia entre o elenco exis-
mente uma fora desequilibradora na atividade       tente de preos ineficazes e o imaginado elenco
econmica. Assim, na anlise de Schumpeter, o       futuro motiva agentes econmicos alertas, na
empreendedor  introduzido como uma fora           busca de puro lucro, a descobrir meios melhores
exgena de mudana para estimular a passagem        e mais eficientes de satisfazer consumidores (ou
da economia de um equilbrio a outro.               alcanar fins). O processo de mercado com-
    A outra viso, ligada a Ludwig von Mises e      petitivo  um processo de aprendizado e des-
seu aluno Israel Kirzner, enfatiza o papel equi-    coberta, e sua lgica depende, de forma crucial,
librador do empresrio na vida econmica. O         da compreenso do papel coordenador da fun-
mundo real de ignorncia disseminada, incer-        o empresarial.
teza e mudana  incapaz de se estabelecer              Ver tambm COMPETIO; ESCOLA AUSTRACA
numa posio de equilbrio. Qualquer anlise        DE ECONOMIA; SOCIALISTA, CLCULO.
                                                                   Escola Austraca de Economia     241

Leitura sugerida: Baumol, W.J. 1968: "Entrepreneur-     uma preocupao com (a) os processos de de-
ship in economic theory", American Economic Review      ciso individual envolvidos nas incertezas do
58  Buchanan, J.M. 1979: What Should Economists
Do?  Kirzner, I. 1973: Competition and Entrepreneur-
                                                        tempo e da ignorncia; e (b) a ligao dessas
ship  19 79: Perception, Opportunity and Profit         decises com uma explicao do surgimento de
 1985: Discovery and the Capitalist Process  Schum-     uma complexa rede de relaes de troca in-
peter, J.A. 1911 (1961): The Theory of Economic Deve-   terligadas, constituindo a ordem do mercado.
lopment  1942: (1987): Capitalism, Socialism and De-        A identidade da contribuio austraca pas-
mocracy  Von Mises, Ludwig 1949 (1966): Human           sou a receber maior ateno em resultado de
Action: a Treatise on Economics, 3ed. rev.
                                                        vrias controvrsias ferozes: com a escola his-
                                  PETER J. BOETTKE      trica alem, no chamado METHODENSTREIT;
                                                        com os tericos do AUSTROMARXISMO; no debate
Escola Austraca de Economia Este ttu-                 sobre clculo socialista (ver SOCIALISTA, CL-
lo indica um modo caracterstico de raciocnio          CULO) com os defensores do socialismo de mer-
econmico ou agenda de pesquisa. Durante as             cado; e com os adeptos do novo KEYNESIANISMO.
dcadas de 70 e 80, a escola austraca de eco-              No incio dos anos 40 a ascendncia intelec-
nomia ganhou destaque como uma entre vrias             tual e poltica da revoluo keynesiana, em
escolas rivais de pensamento econmico des-             particular, havia desacreditado a escola aus-
confiadas da corrente econmica predominante            traca de economia a tal ponto que ela parecia
(ver PS-KEYNESIANISMO). Chama-se "austra-             haver-se tornado um captulo encerrado na his-
ca" porque sua linhagem remonta ao triunvirato          tria do pensamento.  parte Ludwig von Mises
original constitudo por Carl Menger, Eugen             e Ludwig Lachmann, no havia praticamente
Bohm von Mawerk e Friedrich von Wieser, que             ningum que abraasse uma posio explicita-
ensinavam na Universidade de Viena durante o            mente austraca (F.A. Hayek abandonara a teo-
crepsculo do Imprio Habsburgo.                        ria econmica pela filosofia social). A situao
    A escola austraca, ou vienense, constituiu         mudou de forma drstica, porm, quando a
uma corrente importante -- ao lado das tradi-           ampla insatisfao com a deriva generalizada
es britnica (marshalliana) e de Lausanne             da economia, que comeara a se afirmar no final
(walsariana) -- do que se tornou conhecido              dos anos 60 e incio da dcada de 70, estimulou
mais tarde como economia neoclssica (em                uma grande atividade introspectiva entre os
oposio  economia poltica clssica), ou ES-          economistas e o ressurgimento de idias e tradi-
COLA ECONMICA MARGINALISTA. Se por um lado             es antes desacreditadas. A retomada do in-
estavam em amplo acordo com essas outras                teresse pela escola austraca de economia co-
correntes de pensamento no que diz respeito            meou gradualmente como um gnero muito
perspectiva geral, os austracos destacaram-se,         reduzido nos Estados Unidos; em seguida di-
desde o princpio, por uma elaborao mais              fundiu-se para partes do Reino Unido e do
inflexvel do ponto de vista subjetivista na eco-       continente europeu, e at para a Amrica do Sul.
nomia. A teoria austraca do valor  um exem-           Hoje em dia encontra-se na vanguarda das idias
plo: em contraste com as idias clssicas, "va-         sobre reforma econmica em pases do Leste
lor" no era algo que se pudesse objetivamente          Europeu, como a Polnia.
medir, como o comprimento de uma mesa; no                  Os que esto comprometidos com a escola
se apoiava em uma quantidade fsica inerente            austraca de economia professam sua adeso ao
aos bens, mas antes era visto como estando no           INDIVIDUALISMO metodolgico e poltico; sua
cerne de uma relao entre os tomadores de              preocupao maior  com a natureza dos pro-
decises de avaliao e o objeto dessa avalia-          cessos de mercado impulsionados pela funo
o. Conceber o valor como um conceito sub-             empresarial e pela rivalidade, e no com a an-
jetivista abriu o caminho para um redireciona-          lise dos estados de equilbrio desprovidos des-
mento no foco de ateno da economia. Em                ses processos (ver COMPETIO e EMPRESARIAL,
concordncia com um afastamento geral da                FUNO); enfatizam os aspectos de descoberta
ateno dos problemas de produo (tecnolo-             de mercados; e subscrevem uma teoria sobre o
gia), isto , criao de riqueza, rumo s questes      surgimento de instituies econmicas, polti-
de demanda, o indivduo que escolhe (que faz            cas e culturais como fruto de uma evoluo
economia) comeou a ocupar o centro do palco            espontnea, resultados imprevistos de buscas
na anlise econmica. Essa mudana acarretou            individuais no-guiadas pelo "bem comum".
242    Escola de Frankfurt

Leitura sugerida: Kizner, I. 1973: Competition and        da histria, segundo a qual se pressupe que o
Entrepreneurship  Lachmann, Ludwig M. 1986: The           desenvolvimento das foras produtivas seja o
Market as an Economic Process  Lavoie, Don 1985:
Rivalry and Central Planning: the Socialist Calculation
                                                          mecanismo central do progresso social (Hor-
Debate Reconsidered  Littlechild, Stephen, org. 1990:     kheimer, 1932) e que a teoria crtica deveria ser
Austrian Economics, 3 vols.  O'Driscoll Jr., Gerald P.    agora incorporada a essa sucesso histrica de
e Rizzo, Mario, J. 1985: The Economics of Time and        eventos como uma medida do conhecimento da
Ignorance.                                                sociedade a respeito de si mesma. Conforme as
                                    STEPHAN BOEHM         palavras de Marcuse, inspirando-se em Hor-
                                                          kheimer, a teoria crtica deveria tornar eviden-
Escola de Frankfurt A teoria crtica da es-               tes "as possibilidades para as quais a prpria
cola de Frankfurt ocupa lugar de destaque em              situao histrica havia amadurecido" (1937,
meio s tentativas feitas entre as duas guerras           p.647). Ao mesmo tempo, porm, Horkheimer
mundiais de desenvolver o pensamento marxis-              e Marcuse no acreditavam mais que a raciona-
ta. O que inicialmente a distinguia no eram              lidade corporificada nas foras de produo, na
tanto os seus princpios tericos, mas os seus            sociedade contempornea, tambm se expres-
objetivos metodolgicos, que foram resultado              sasse na conscincia revolucionria do proleta-
de um reconhecimento sem reservas das cin-               riado. Suas obras estavam impregnadas da
cias empricas. Uma de suas metas bsicas era             conscincia do fato de que, devido  crescente
a incorporao sistemtica de todas as discipli-          integrao da classe operria ao sistema capita-
nas de pesquisa social cientfica em uma teoria           lista tardio, uma teoria baseada em Marx havia
materialista da sociedade, facilitando assim a            perdido o seu grupo social alvo. Para Horkhei-
mtua fertilizao entre a cincia social acad-          mer, o ponto de referncia de toda a atividade
mica e a teoria marxista.                                 de pesquisa do Instituto era a questo de "como
    A idia de uma extenso interdisciplinar do           ocorrem os mecanismos psquicos que tornam
marxismo amadureceu durante os anos 20 no                 possvel que as tenses entre as classes sociais,
pensamento de Max Horkheimer, que reco-                   que so foradas a se transformar em conflitos
nhecia o valor das cincias empricas (Korthals,          devido  situao econmica, permaneam la-
1985). Quando sucedeu a Carl Grnberg como                tentes" (1932, p.136). A realizao particular de
diretor do Instituto de Pesquisa Social de                Horkheimer foi determinar o programa de pes-
Frankfurt, em 1930, utilizou seu discurso de              quisa do Instituto ao exprimir a questo abran-
posse para introduzir publicamente um progra-             gente das novas formas de integrao do capi-
ma de teoria crtica da sociedade (Horkheimer,            talismo em termos de sua relevncia especfica
org. por Brede, 1972). Nos anos que se segui-             para as disciplinas empricas. O programa que
ram, veio a elaborar essa abordagem, com Her-             orientou o trabalho do Instituto baseava-se num
bert Marcuse, no Zeitschrift fr Sozialfor-               nexo de trs disciplinas: uma anlise econmi-
schung, peridico fundado em 1932 que veio a              ca da fase ps-liberal do capitalismo (realizada
formar o foco intelectual do trabalho do Ins-             por Friedrich Pollock); uma investigao socio-
tituto at 1941. A idia fundamental da teoria            psicolgica da integrao de indivduos atravs
crtica era lanar uma ponte sobre o abismo que           da socializao (por Erich Fromm); e uma an-
separava a pesquisa substantiva e a filosofia,            lise cultural dos efeitos da cultura de massa que
fundindo esses dois ramos do conhecimento em              vieram a se concentrar na recm-surgida inds-
uma nica forma de reflexo modelada na filo-             tria cultural (por Theodor W. Adorno e Leo
sofia hegeliana da histria. Para que isso pudes-         Lowenthal).
se ser alcanado, era evidentemente necessrio                No entanto a idia de pesquisa social inter-
dispor de uma teoria da histria capaz de deter-          disciplinar s exerceu uma influncia vital e
minar os efetivos poderes da razo que residem            formativa sobre o Instituto at o incio dos anos
no prprio processo histrico. As pressuposi-             40. Os sinais de mudana geral de orientao j
es bsicas de tal concepo da filosofia da             estavam patentes nos ensaios que Horkheimer
histria foram extradas, tanto por Horkheimer            escreveu para o volume final do Zeitschrift fr
quanto por Herbert Marcuse, da tradio do                Sozialforschung (Horkheimer, 1941a e 1941b).
pensamento marxista (ver MARXISMO).                       Essa mudana afetou no apenas as premissas
    J nos anos 30, Horkheimer e Marcuse ainda            da teoria crtica baseadas na filosofia da his-
defendiam a verso clssica da teoria marxista            tria, mas tambm sua percepo a respeito de
                                                                           Escola de Frankfurt     243


seu prprio papel e objetivos polticos. Durante     do conflito entre foras de produo e relaes
os anos 30, apesar da resignao diante do           de produo, mas foi concebido como surgindo
fascismo, o Instituto conservou a esperana de       da dinmica interna de formao da conscincia
progresso inerente  concepo marxista da           humana. Horkheimer e Adorno partiram da es-
histria e, ainda que a idia de um proletariado     trutura fornecida pela teoria do capitalismo e
necessariamente revolucionrio tivesse sido h       agora pressupunham o processo civilizatrio,
muito abandonada, a idia de revoluo con-          em sua totalidade, como o sistema de referncia
tinuou a fornecer um vago pano de fundo para         que servia de apoio a sua argumentao. Nesse
a compreenso poltica, por parte da teoria cr-     contexto, o fascismo surgia como o estgio
tica, de seu papel e de suas metas (Dubiel, 1978     histrico final de uma "lgica de decadncia"
(1985), A.1). Horkheimer ainda concebia o tra-       que  inerente  forma original de existncia da
balho de pesquisa do Instituto como uma forma        prpria espcie. O processo civilizatrio as-
intelectual de reflexo ligada ao movimento          sumiu a forma de uma espiral de crescente
operrio, pois se agarrava a uma concepo           REIFICAO que era posta em movimento pelos
positiva do domnio da natureza como uma             atos originais da natureza subjugante e atingia
condio para a emancipao, permitindo que          sua concluso lgica no fascismo. Uma con-
as foras de produo fossem liberadas da for-       cluso a que nos fora Dialtica do escla-
ma capitalista de sua organizao. No final dos      recimento (Habermas, 1985, cap.5)  a negao
anos 30 esse mundo idealizado veio final e           de qualquer dimenso de progresso na civiliza-
definitivamente abaixo: em termos de poltica        o que no seja o que fica manifesto numa
prtica, atravs da experincia do fascismo, do      intensificao das foras de produo. Uma
stalinismo e da cultura de massa do capitalismo,     segunda concluso  que toda forma de prxis
juntando foras para formar um todo totalitrio;     poltica  ao orientada para o controle, de
em termos de teoria, atravs da mudana de um        modo que era preciso exclu-la, em princpio,
modelo positivo para um outro, negativo, de          do rol de alternativas positivas. O crculo bsico
trabalho social. A viso produtivista do pro-        de pesquisadores do Instituto viu-se, assim, pri-
gresso abriu caminho a uma crtica da razo          vado de uma vez por todas da possibilidade de
que criticava o progresso e colocava em ques-        situar sua prpria atividade de pesquisa numa
to a prpria possibilidade de se mudarem as         poltica real.
relaes sociais por meio de uma revoluo               Uma alternativa a esses modelos tericos
poltica.                                            negativistas teria sido a abordagem de Franz
    Foi Theodor Adorno quem se tornou o rep-         Neumann e Otto Kirchheimer, que pertenciam,
resentante mais destacado dessa nova concep-         com Walter Benjamin e mais tarde Erich
o da teoria crtica. Seu pensamento fora           Fromm, a um grupo que esteve apenas tem-
profundamente marcado pela experincia his-          porria ou indiretamente ligado ao Instituto.
trica do fascismo como um produto catas-            Essa abordagem poderia ter colocado em ques-
trfico da civilizao, o que desde o princpio o    to a imagem de uma "sociedade totalmente
tornara ctico quanto s idias de progresso do      administrada" que levava necessariamente ao
materialismo histrico. Alm disso, seu desen-       beco sem sada da absteno poltica. Durante
volvimento intelectual fora to fortemente mol-      seu perodo de exlio em Nova York, Neumann
dado por interesses artsticos que ele no pode-     e Kirchheimer colaboraram com o trabalho do
ria deixar de vir a ter dvidas a respeito do        Instituto, realizando pesquisas sobre a teoria
nacionalismo estreito da tradio terica            jurdica e as teorias do Estado, e propuseram
marxista; sob a influncia de Walter Benjamin,       uma anlise do fascismo cuja fora explanatria
fez suas primeiras tentativas de tornar os mto-     era superior  da teoria do capitalismo de estado
dos estticos de interpretao frutferos para a     (Wilson, 1982). Reconheciam que a integrao
filosofia materialista da histria (Buck-Morss,      social no ocorre apenas atravs do cumpri-
1977, p.43-80). Dialtica do esclarecimento,         mento persistentemente inconsciente dos impe-
que ele escreveu com Horkheimer no incio dos        rativos funcionais da sociedade, mas antes atra-
anos 40 (Horkheimer e Adorno, 1947),  uma           vs da comunicao poltica entre grupos so-
expresso desse novo motivo intelectual em           ciais. A participao ativa nos conflitos de clas-
uma filosofia negativa da histria. O totalitaris-   se que caracterizaram a Repblica de Weimar
mo no podia ser explicado como o resultado          levou-os a uma avaliao realista do "coeficien-
244   Escola de Frankfurt


te de poder dos interesses sociais"; viram que o   tanto, um pr-requisito fundamental e ines-
potencial do poder que evoluiu a partir do con-    capvel para a reproduo da vida social.
trole capitalista privado dos meios de produo        Foi atravs desse caminho que ele chegou
no tinha como ser superestimado. Finalmente,      tambm a uma crtica do marxismo, cujo resul-
o contato com o AUSTROMARXISMO deu-lhes            tado foi uma concepo da histria que se am-
conscincia de que as ordens sociais como um       pliou para incluir a dimenso de uma teoria de
todo so caracterizadas pelo compromisso. As       ao. Se a forma de vida do ser humano se
estruturas institucionais de uma sociedade de-     distingue pelo nvel de compreenso atravs da
vem ser compreendidas como fixaes momen-         linguagem, ento a reproduo social no pode
tneas de acordos realizados dentro dela pelos     ser reduzida  dimenso isolada do trabalho,
vrios grupos de interesses, em consonncia        conforme fizera Marx em seus textos tericos.
com seus respectivos potenciais de poder. Tudo     Em vez disso, alm da atividade de dominar a
isso formava um modelo de sociedade em cujo        natureza, a prtica de uma interao lingis-
centro ficava o processo abrangente de comu-       ticamente mediada deve ser encarada como
nicao entre os grupos sociais.                   uma dimenso igualmente fundamental do de-
    Quando o Instituto foi reaberto em Frank-      senvolvimento histrico (Habermas, 1968).
furt, no ano de 1950, retomou sua atividade de         O passo decisivo que levou  teoria da so-
pesquisa sem qualquer continuao direta da        ciedade do prprio Habermas, porm, s seria
perspectiva sociofilosfica dos anos 30 e 40       tomado quando "trabalho" e "interao", os
(Wiggershaus, 1986, p.479-520). Foi nesse          dois conceitos de ao, foram associados a dife-
ponto que a teoria crtica deixou de ser uma       rentes categorias de racionalidade. Nos subsis-
escola de pensamento unificada e filosofica-       temas de ao intencional-racional em que se
mente homognea. No entanto a idia de um          organizam as tarefas de trabalho social e admi-
"mundo totalmente administrado" inicialmente       nistrao poltica, a espcie evolui atravs do
ainda representou um ponto de referncia para      acmulo de conhecimento tcnico e estrat-
o seu trabalho em filosofia social. Essa idia     gico, enquanto que, dentro da estrutura ins-
percorre, como um leitmotif, toda a crtica da     titucional em que se reproduzem as normas
civilizao nos estudos de Horkheimer, Adorno      socialmente integradoras, a espcie evolui atra-
e Marcuse. Nada partiu das premissas filosfi-     vs da libertao de todas as coeres que ini-
cas desse diagnstico da sociedade contem-         bem a comunicao (Habermas, 1968). Todas
pornea at uma nova abordagem vir a ser for-      as ampliaes dessa teoria que Habermas reali-
mulada por Jrgen Habermas, o qual, embora         zou no decorrer dos anos 70 seguem as linhas
fosse um produto do Instituto, tinha formao      desse modelo de sociedade, no qual os sistemas
e orientao tericas muito diferentes. No         de ao organizados de acordo com critrios
desenvolvimento do pensamento de Habermas,         intencional-racionais se distinguem de uma es-
a antropologia filosfica, a HERMENUTICA, o       fera de prtica comunicativa cotidiana. Em
PRAGMATISMO e finalmente a anlise lingstica
                                                   Theory of Communicative Action (1981), esse
trouxeram ao primeiro plano correntes tericas     programa era pela primeira vez apresentado de
que sempre haviam sido encaradas como estra-       forma sistemtica. Nele, os frutos dos vrios
nhas, na verdade at mesmo hostis, pela gerao    estudos so consolidados em uma nica teoria
mais velha em torno de Adorno e Horkheimer.        na qual a racionalidade da ao comunicativa 
No obstante, os trabalhos de Habermas leva-       reconstruda na estrutura de uma teoria do ato
ram gradualmente  formao de uma teoria
                                                   da fala, ainda mais desenvolvida como base
que era inequivocamente motivada pelos obje-
                                                   para uma teoria da sociedade atravs da reviso
tivos originais da teoria crtica e se fundamen-
                                                   da histria da teoria sociolgica, de Max Weber
tava numa percepo da intersubjetividade lin-
                                                   a Talcott Parsons, e finalmente transformada no
gstica da ao social. Habermas chegou a essa
                                                   ponto de referncia de um diagnstico crtico
premissa central atravs de sua preocupao
                                                   da sociedade contempornea. Os resultados da
com a filosofia hermenutica e com a anlise da
                                                   discusso que esse trabalho provocou decidiro
linguagem feita por Wittgenstein, com a qual
                                                   o futuro da teoria crtica (Honneth e Joas, 1991).
aprendeu que os sujeitos humanos sempre es-
tiveram ligados uns aos outros pelo nvel de       Leitura sugerida: Arato, A. e Gebhardt, E., orgs. 1978:
compreenso atravs da linguagem. Esta , por-     The Essential Frankfurt School Reader  Benhabib, S.
                                                                        escola econmica de Chicago      245

1986: Critique, Norm and Utopia  Bottomore, Tom                4. As decises governamentais, tal como
1984: The Frankfurt School  Buck-Morss, S. 1977:                   as decises no mbito da economia pri-
The Origin of Negative Dialetics  Held, D. 1980: In-
troduction to Critical Theory  Horkheimer, Max 1968
                                                                   vada, so tomadas por indivduos que
(1972): Critical Theory: Horkheimer to Haberms  Jay,               buscam maximizar seus prprios ga-
Martin 1973: The Dialectical Imagination: a History of             nhos. No se pode, portanto, contar com
the Frankfurt School and the Institute of Social Resear-           o governo para alcanar qualquer obje-
ch 1923-50  Wellmer, Albrecht 1969 (1974): Critical                tivo em particular -- tal como eficincia
Theory of Society.                                                 ou eqidade --, a no ser os objetivos
                                      AXEL HONNETH                 dos funcionrios envolvidos.
                                                               5. A quantidade de dinheiro  o fator chave
escola econmica de Chicago Essa "esco-                            que influencia o comportamento do n-
la" representa um modo prprio de encarar a                        vel de preos e a estabilidade da produ-
economia e a poltica econmica -- dando                           o agregada (ver tambm MONETARIS-
                                                                   MO).
grande nfase aos mercados livres como descri-
o e prescrio -- que tem sido associado                    Os fundadores da escola econmica de
Universidade de Chicago desde pelo menos os                Chicago nos anos 30 foram os professores
anos 30. Nem todos os economistas relaciona-               Frank H. Knight, Lloyd Monts, Henry C. Si-
dos  Universidade de Chicago foram membros                mons e Jacob Viner -- embora Viner negasse
da "escola econmica de Chicago". Nem todos                ser membro dessa escola. Atravs de seus en-
os membros dessa escola tiveram relao com                sinamentos, os alunos adquiriram grande res-
a Universidade de Chicago. Mas Chicago  sem               peito pelo livre mercado como mtodo de or-
dvida a igreja matriz de um modo de pensar                ganizao econmica. O ensino da economia
cujos fundadores ensinaram em Chicago e cu-                nos anos 30, porm, dava grande ateno a
jos posteriores sumos-sacerdotes l estudaram              aspectos nos quais o mundo real podia divergir
e/ou ensinaram.                                            do modelo e no seria ideal mesmo que se
   A doutrina no foi constante no decorrer do             conformasse a este. No se poderia dizer que os
tempo nem houve um momento em que todos                    anos 30 tenham sido uma poca para se pensar
os membros se encontrassem em posio igual-               que o sistema econmico, tal como existia,
mente ortodoxa. No entanto os dogmas co-                   estivesse dando resultados ideais.
muns, at 1989, podem ser resumidos da se-                     As implicaes polticas da lacuna entre o
guinte forma:                                              modelo de bom funcionamento e o mundo cla-
   1. A economia diz respeito ao comporta-                 ramente visvel foram expressas principalmen-
       mento de indivduos plenamente infor-               te nos textos de Henry Simons. Trs aspectos
       mados buscando maximizar sua utilida-               eram bsicos:
       de em mercados de troca competitivos                    1. Um mercado adequadamente competi-
       (ver tambm MERCADO). Outras explica-                       tivo, com participantes bem-informa-
       es do comportamento humano no                            dos, podia no existir, e no era possvel
       so " eco n mi cas". Al m disso,                          contar com que viesse a existir esponta-
       provavelmente no existe outra teoria                       neamente. O governo tinha, portanto,
       geral til.                                                 um papel na promoo da concorrncia
   2. Se o mundo fosse organizado do modo                          e do fluxo de informaes.
       como a economia o descreve, certos re-                  2. O mercado privado podia gerar um grau
       sultados benficos importantes se segui-                    inaceitvel de desigualdade na distribui-
       riam. Num mundo assim, cada in-                             o da renda e o governo tinha um papel
       divduo conseguiria de seus recursos                        adequado na correo disso.
       tanto quanto pudesse obter sem for-                     3. Os mercados privados no garantiam
       osamente privar a outrem.                                  a estabilidade da demanda agregada,
   3. O mundo real funciona dentro de uma                          significando basicamente estabilidade
       aproximao razoavelmente satisfatria                      do nvel de preos. Era respon-
       do MODELO dos economistas e con-                            sabilidade do governo utilizar suas po-
       cretiza os benefcios que o modelo                          lticas fiscais e monetrias para es-
       prev.                                                      tabilizar a economia.
246   escola econmica marginalista


    Assim, digamos, at 1940, o pensamento           e  cincia poltica tendem particularmente a
"de Chicago" dava um espao considervel,            apoiar a argumentao em favor de mercados
embora limitado, para a ao do governo.             livres atravs da demonstrao de que uma
    Depois da Segunda Guerra Mundial a lide-         interpretao correta de direitos legais aumen-
rana da escola econmica de Chicago passou          taria a eficincia dos mercados, bem como da
para uma nova gerao, na qual Milton Fried-         inconfiabilidade do processo poltico como cor-
man e George Stigler ganharam maior destaque         retor das falhas do mercado, caso estas existis-
e Aaron Director e Ronald Coase foram tam-           sem.
bm muito importantes. J nos anos 70 era                  provvel que apenas uma minoria dos
possvel identificar uma terceira gerao, com       economistas norte-americanos tenha um dia se
Gary Becker e Robert Lucas entre seus lderes.       considerado membro de uma escola de Chica-
    Depois da Segunda Guerra Mundial a escola        go. Mas a influncia de Chicago sobre o pen-
econmica de Chicago evoluiu de trs formas          samento econmico foi profunda. At mesmo
principais. Primeiro, tal como a economia na         economistas que no foram to longe quanto os
maioria dos lugares, tornou-se mais emprica e       de Chicago sentiram a necessidade de uma
quantitativa, apoiando-se menos em dedues          anlise mais aberta e mais sutil do modelo de
lgicas a partir de proposies auto-evidentes e     mercado como explicao e prescrio do que
observaes banais, e mais em dados histricos       a que se praticava at ento. Da mesma forma,
e estatsticos coletados de forma sistemtica.       economistas que no eram "monetaristas" vie-
Segundo, tornou-se "mais pura". Descobriu que        ram a concordar com a importncia do dinheiro
muitas das qualificaes para a eficincia dos       e com a necessidade de buscar melhores es-
mercados livres at ento aceitas no eram v-       tratgias para administr-lo.
lidas ou no tinham importncia. O nmero de              Alguns membros da escola de Chicago v-
competidores necessrio para se alcanarem os        em-se impedidos de alegar qualquer influncia
resultados benficos da concorrncia foi deter-      sobre polticas e programas pblicos, uma vez
minado como sendo pequeno. O que antes se            que acreditam que a poltica  feita por in-
encarava como ineficcias causadas por infor-        divduos ou grupos movidos pelo auto-interes-
maes inadequadas passou a ser visto como           se, que possuem, todos, a informao que des-
adaptaes eficientes ao custo da obteno da        ejam. Mas, dentro de uma viso menos res-
informao. Descobriu-se que as falhas de mer-       tritiva, seria possvel observar uma importante
cado que se alegava existir, em casos nos quais      influncia do pensamento de Chicago, durante
agentes particulares no tinham qualquer incen-      os anos 70 e 80, na reduo da regulamentao
tivo para levar em considerao os efeitos sobre     governamental, na flutuao do dlar, em novos
outros, eram corrigveis por meio de contratos       rumos da poltica antitrustes e na poltica mo-
entre as partes.                                     netria.
    Na abordagem da macroeconomia tambm
entrava em cena um processo de purificao.          Leitura sugerida: Friedman, M. 1953: Essays in Posi-
                                                     tive Economics  Knight, F.H. 1935: The Ethics of
Descobriu-se que o mercado privado era menos         Competition  Patinkin, D. 1981: Essays on and in the
inerentemente estvel do que se achava nos           Chicago Tradition  Reder, M.W. 1987: "Chicago
anos 30. O papel positivo do governo na es-          School". In The New Palgrave Dictionary of Econo-
tabilizao da economia foi depurado, de uma         mics, vol.1, org. por J. Eatwell, M. Milgate e P. New-
combinao ad hoc de medidas fiscais e mone-         man, p.413-8  Simons, H.C. 1948: Economic Policy
trias, para a manuteno de uma taxa constante      for a Free Society  Stigler, G.J. 1988: Memories of an
de crescimento do meio circulante. Calculou-se       Unregulated Economist.
que os possveis efeitos benficos at mesmo                                              HERBERT STEIN
da poltica monetria sobre o emprego e a pro-
duo reais eram muito temporrios e, em al-         escola econmica marginalista Esta ex-
gumas verses, inexistentes.                         presso  usada para descrever o tipo de anlise
    Em terceiro lugar, a escola econmica de         econmica que, depois de 1870, superou gra-
Chicago tornou-se, na expresso de George            dualmente as doutrinas dos economistas cls-
Stigler, "imperialista". Ela chegou a aplicar        sicos ingleses. A anlise marginalista e, em
suas hipteses e mtodos  sociologia, ao direi-     particular, os conceitos de utilidade marginal e
to e  cincia poltica. Essa aplicao ao direito   custo marginal dedicaram-se basicamente s
                                                                escola econmica marginalista     247


questes da alocao eficiente de recursos por       Foi com esses problemas que se preocuparam
parte de consumidores e empresas isolados.           pioneiros importantes da anlise marginal co-
    Utilidade marginal (ou custo marginal)  o       mo A.A. Cournot (1801-1877) e J. Dupuit
acrscimo  utilidade total (ou custo total) de se   (1804-1866).
consumir (ou produzir) mais uma unidade de               A concepo marginalista assumiu pela pri-
um bem. A necessidade de um conceito do              meira vez um papel geral, central e fundamental
fenmeno marginalista pode ser encontrada nos        com o desenvolvimento da teoria neoclssica
dois princpios -- ou "leis" -- fundamentais do      do valor baseada na utilidade marginal, no in-
retorno decrescente e da utilidade decrescente.      cio da dcada de 1870, seguindo as obras semi-
O princpio de retorno decrescente, ou da pro-       nais de W.S. Jevons (1835-1882), na Inglaterra,
dutividade marginal decrescente, como seria          C. Menger (1840-1921), na ustria, e L. Walras
mais tarde redescrito de forma mais precisa, foi     (1834-1910), em Lausanne. Estes autores abor-
formulado explicitamente pela primeira vez pe-       daram o problema do valor e do preo pelo
lo grande economista e administrador francs         ngulo da utilidade e da demanda de bens, e no
A.R.J. Turgot (1727-1781) e desempenhou pa-          pelo ngulo dos custos ou do trabalho, como
pel importante no sistema terico dos econo-         haviam feito seus antecessores, os economistas
mistas clssicos ingleses, que dominaram o te-       clssicos ingleses. Havia agora, portanto, um
ma nos dois primeiros teros do sculo XIX.          papel vital para o princpio de utilidade decres-
Em sua forma original, o princpio de retorno        cente e, da, para o de utilidade marginal. De
decrescente foi aplicado apenas  produo           acordo com o princpio de utilidade decrescen-
agrcola, quando sucessivas unidades de traba-       te, a utilidade esperada de cada sucessiva uni-
lho eram empregadas em uma rea de terra fixa.       dade de um bem consumvel (digamos, a utili-
O princpio exprimia ento que o produto ou          dade marginal do consumo de sucessivas fatias
retorno adicional de cada sucessiva unidade de       de po) cai a cada fatia adicional consumida,
trabalho iria declinando  medida que unidades       embora a utilidade total de todas as fatias con-
adicionais fossem sendo aplicadas. Era neces-        sumidas deva continuar a crescer at se atingir
srio, portanto, distinguir entre a produo m-     o ponto de saturao, quando o consumo de
dia de uma unidade de trabalho e a produo          ainda mais uma fatia no traz nenhuma utili-
marginal de uma unidade adicional.                   dade e o de fatias subseqentes traz uma desuti-
     parte, porm, a produo agrcola, havia       lidade. O consumidor racional, preocupado em
pouco mbito para os conceitos marginalistas         conseguir o mximo de utilidade possvel de
na teoria clssica inglesa. A utilidade e o prin-    recursos limitados, buscar igualar a utilidade
cpio de utilidade decrescente desempenhavam         marginal de consumir uma fatia adicional ao
um papel bastante reduzido, ao mesmo tempo           custo que lhe cabe, ou ao preo, dessa fatia, ou
em que, no que diz respeito  produo indus-         utilidade que foi antecipada pagando o preo
trial, presumia-se em geral que os custos eram       dessa fatia marginal.
constantes e os mercados, competitivos. No              A anlise das decises do consumidor, de-
havia, portanto, papel para os conceitos de custo    senvolvida a partir do incio da dcada de 1870,
marginal ou receita marginal, uma vez que estes      foi complementada nos anos 80 deste sculo
eram necessariamente iguais ao custo mdio e         pela anlise da produtividade marginal das de-
 receita mdia. A necessidade dos conceitos         cises das empresas com respeito a quanto dos
marginalistas surgiu quando foi preciso distin-      diferentes fatores de produo (terra, trabalho e
guir entre custo mdio e custo marginal, ou          capital) se devia empregar. Foi proposta a fr-
entre utilidade mdia e utilidade marginal, ou       mula de que a empresa, buscando minimizar
entre receita mdia e receita marginal de ven-       seus custos e maximizar os lucros, contrataria
das. Um papel parcial para os conceitos mar-         unidades dos variados fatores de produo at
ginalistas comeou a surgir nas dcadas centrais     o ponto em que o acrscimo a sua receita oriun-
do sculo XIX, quando os problemas de produ-         do da produo de mais uma unidade de um
o e preos de monoplios de utilidades pbli-      fator igualasse o custo de se empregar essa
cas, como as estradas de ferro, vieram para o        unidade adicional.
primeiro plano, com seus custos mdios caindo             possvel observar que o adjetivo "mar-
de forma marcante -- e caindo, portanto, de          ginal" s entrou em uso geral depois do final da
forma ainda mais marcante os custos marginais.       dcada de 1880 e no incio da de 1890, seguin-
248    escola sociolgica de Chicago


do-se sua adoo por P. Wicksteed (1844-1927)            Small, historiador e socilogo que antes fora
e A. Marshall (1842-1924) e, na Alemanha                 diretor de um pequeno ginsio no Maine. A
(Grenznutzen), por F. von Wieser (1851-1926).            nova Universidade de Chicago, amplamente
Por volta da dcada de 1890, com o marginalis-           financiada por John D. Rockefeller, encarava
mo desempenhando um papel capital, essencial             como misso competir com as universidades
mesmo, construiu-se uma anlise da lgica da             mais antigas da Costa Leste dos Estados Unidos
escolha e da alocao racional de recursos es-           e demonstrar que o Meio-Oeste era capaz de
cassos por lares e empresas, a qual, embora s           nutrir e promover um centro de ensino que nada
vezes tenha incio a partir da anlise altamente         ficasse devendo a qualquer outro. O Depar-
simplificada de um indivduo isolado, tal como           tamento de Sociologia participava das ambi-
Robinson Cruso, possua uma aplicabilidade              es da Universidade e Small o construiu num
bastante ampla. Embora baseada em abstraes             nvel de primeira classe.
e simplificaes extremas, e de contedo muito               O departamento de Chicago no era o pri-
tnue, essa anlise marginal podia ser aplicada          meiro a ensinar sociologia -- j havia cursos
 valorizao e alocao de recursos escassos            sendo oferecidos nas Universidades Brown, Ya-
por consumidores e produtores isoladamente,              le e Columbia, mas foi a primeira iniciativa cuja
bem como por entidades de utilidade pblica e            oferta de cursos e cujo programa de pesquisa
planejadores do governo.                                 no refletiam a viso pessoal de uma figura
    Posteriormente, com o desenvolvimento                central, sendo antes um empreendimento cole-
sistemtico, por Keynes e outros, da economia            tivo. Os membros mais destacados do depar-
monetria e da macroeconomia -- isto , a                tamento, antes e depois da Primeira Guerra
anlise da economia como um todo e da renda              Mundial, alm de Albion Small, o presidente,
e nvel de emprego nacionais --, a concepo             eram W.I. Thomas, Robert Park e Ernest Bur-
marginalista foi aplicada  anlise de agrega-
                                                         gess. O novo departamento tambm mantinha
dos, como tendo a propenso marginal a consu-
                                                         relaes estreitas com o Departamento de Filo-
mir (medida pela percentagem de uma unidade
                                                         sofia, no qual John Dewey e George Herbert
adicional de renda nacional gasta em consumo),
                                                         Mead desenvolveram uma filosofia pragmtica
ou como tendo a propenso marginal a importar
                                                         com inclinao reformista que era simptica
de uma economia nacional. Agora, portanto,
seria ilusrio aplicar a expresso "marginalista"        aos membros do Departamento de Sociologia e
simplesmente  anlise neoclssica e microeco-           permitia a seus alunos fcil acesso  filosofia
nmica de lares e empresas individuais. Seria            pragmtica em geral e  psicologia social em
ainda mais errneo deixar implcito que o uso            particular.
da teoria necessariamente, ou geralmente, im-                Conforme observou Martin Blumer, "a es-
plica a aprovao de quaisquer pressupostos              cola de Chicago apresentou o primeiro progra-
ticos ou polticos em particular.                       ma norte-americano bem-sucedido de pesquisa
    Ver tambm ECONOMIA NEOCLSSICA.                     sociolgica coletiva" (1984, p.XV).
                                                             Nos primeiros anos o Departamento de So-
Leitura sugerida: Howey, R.S. 1960: The Rise of the
                                                         ciologia ainda oferecia cursos e aceitava teses
Marginal Utility School 1870-1889  Hutchison, T.W.
1953: A Review of Economics Doctrines 1870-1929          de doutoramento inspirados pelo pensamento
 Marshall, A. 1890 (1920): Principles of Economics       social cristo reformista ou pelos impulsos mais
 Schumpeter, J.A. 1954: A History of Economics Ana-      seculares de reformadores como Jane Addams.
lysis  Stigler, G.J. 1941: Production and Distribution   Nesses primeiros anos, dissertaes como The
Theories: the Formative Period  Wicksteed, P.H.          Influence of Modern Social Relations upon
1933: The Common Sense of Political Economy and
Selected Papers and Reviews on Economic Theory, org.
                                                         Ethical Concepts, de Cecil North, no eram de
por Lionel Robbins.                                      forma alguma atpicas. Mas, imediatamente an-
                                    T.W. HUTCHISON       tes da Primeira Guerra Mundial e novamente
                                                         depois dela, o departamento abandonou um
escola sociolgica de Chicago Lanando                   pouco do seu zelo reformista e, sob a orientao
as fundaes sobre as quais se construiu grande          de W.I. Thomas, e mais tarde de Robert Park,
parte da sociologia norte-americana no sculo            voltou-se para a investigao emprica em ce-
XX, o Departamento de Sociologia da Univer-              nrios urbanos. Encarava a cidade de Chicago
sidade de Chicago foi criado por Albion W.               como seu laboratrio.
                                                                    escola sociolgica de Durkheim          249


    O departamento de Chicago foi muitas vezes          escola sociolgica de Durkheim Este  o
acusado de negligenciar a teoria sociolgica e          nome atribudo aos colaboradores e discpulos
defender um empirismo intelectualmente va-              de Emile Durkheim, cujas atividades flores-
zio. Mas no era esse o caso. Tanto Thomas              ceram na Frana entre o final da dcada de 1890
quanto Park haviam estudado na Alemanha                 e a Segunda Guerra Mundial. Comearam co-
com alguns dos eruditos mais famosos daquele            mo um grupo de pesquisa de uma eficincia
pas. Park escreveu sua tese sob a orientao do        extraordinria, aplicando, refinando, desenvol-
destacado filsofo neokantiano Wilhelm Win-             vendo e s vezes modificando as idias de
delband. Mas  um fato que os socilogos de             Durkheim, ao longo de uma ampla variedade
Chicago, em contraste com a maioria de seus             de disciplinas. Organizavam-se em torno de um
colegas de outros centros, enfatizavam que a            peridico notvel, o Anne Sociologique, do
sociologia s poderia desenvolver-se na Am-            qual foram editados 12 volumes entre 1898 e
rica do Norte caso se dedicasse ao estudo dos           1913. Este publicava resenhas, monografias e
muitos problemas sociais que confrontavam a             notas editoriais, cobrindo um mbito bastante
Amrica urbana na rpida onda de urbanizao,           amplo, todo esse material escrito na maior parte
industrializao e expanso capitalista subse-          pelos durkheimianos, mas no de forma ex-
qentemente  Guerra Civil. Os membros do               clusiva: o Anne tambm publicava Georg Sim-
departamento estudaram os dancings da cidade,           mel. Conforme Marcel Mauss um dia viria a
garonetes, vagabundos, os valores dos terre-           relembrar:
nos locais, delinqentes juvenis, ladres e as             Um bom laboratrio depende no apenas da pessoa
relaes raciais em Chicago. Esperava-se dos               encarregada, mas tambm da existncia de partici-
alunos de Chicago que lidassem com problemas               pantes confiveis, ou seja, antigos e novos amigos,
e questes sociais concretos no apenas em suas            cheios de idias, com conhecimentos extensos e
teses, mas tambm em suas carreiras poste-                 hipteses viveis e que, ainda mais importante, es-
riores. E,  medida que ex-alunos comearam a              tejam prontos a compartilhar teses uns com os outros,
dominar novos departamentos de sociologia no               participar do trabalho dos membros mais antigos e
Meio-Oeste e em outros locais, foram dando a               promover as obras dos recm-chegados. ramos um
estes o colorido caracterstico de Chicago.                grupo assim. (In Besnard, 1983, p.140.)
    A orientao de Chicago dominou a socio-               O Anne Sociologique consolidou o que
logia norte-americana at os anos 30. O depar-          veio a ser chamado de "escola sociolgica fran-
tamento publicava o American Journal of So-             cesa". Depois da Primeira Guerra Mundial, que
ciology, que durante muito tempo manteve uma            dizimou os durkheimianos, e da morte do pr-
posio de monoplio entre as publicaes so-           prio Durkheim em 1917, os sobreviventes con-
ciolgicas, e colonizou departamentos mais no-          tinuaram a produzir muitas obras individuais
vos da mesma forma como a antiga Atenas, no             significativas, embora j no mais como um
perodo clssico, havia colonizado novas ci-            grupo de trabalho (apesar de o Anne ter sido
dades no Mediterrneo oriental. O domnio de            publicado duas vezes nos anos 20 e os Annales
Chicago foi derrubado nos anos 30, quando               Sociologiques, por breve perodo nos anos 30).
Harvard, Columbia e outras universidades do             Vieram a ocupar posies importantes na edu-
Leste comearam a institucionalizar a sociolo-          cao superior francesa -- na Sorbonne (Cles-
gia, mas fora exercido durante tanto tempo que          tin Bougl, Paul Fauconnet, Maurice Halb-
mesmo depois disso ainda costumava ser visto            wachs, Georges Davy), no Collge de France
como o prprio eptome da pesquisa sociolgi-           (Mauss, Franois Simiand, Halbwachs), na
ca emprica norte-americana.                            cole Normale Suprieure (Bougl) e na Aca-
                                                        dmie de Paris (Paul Lapie). Influenciaram toda
Leitura sugerida: Blumer, Martin 1984: The Chicago      uma gerao de especialistas em diversas dis-
School of Sociology: Institutionalization, Diversity,
and the Rise of Sociological Research  Faris, Robert
                                                        ciplinas e, por algum tempo, conseguiram exer-
E.L. 1967: Chicago Sociology: 1920-1932  Kurtz,         cer alguma influncia sobre o treinamento de
Lester R. 1984: Evaluating Chicago Sociology: a Guide   professores para as escolas secundrias de toda
to the Literature with an Annotated Bibliography        a Frana. Em 1920 Paul Lapie, editor e colabo-
Matthews, Fred H. 1977: Quest for an American Socio-    rador do Anne e diretor de educao primria
logy: Robert E. Park and the Chicago School.            na Frana, introduziu como parte de um novo
                                    LEWIS A. COSER      programa para as coles Normales Primaires
250   escola sociolgica de Durkheim


um curso intitulado "sociologia aplicada  mo-     secando os dados brutos fornecidos pelos ramos
ral e  educao". Sua meta era introduzir os      descritivos das nossas cincias" (in Besnard,
professores ao "estudo objetivo dos fatos so-      1983, p.143), mas sempre atravs de um intenso
ciais", o que, afirmava Lapie, "indica uma apre-   engajamento com a erudio ento corrente, e
ciao de seu valor e, conseqentemente, longe     em geral em combate com as tradies acad-
de levar a uma forma de indiferena, termina       micas predominantes. Seu objetivo era dissol-
por justificar com solidez as nossas prticas      ver barreiras arbitrrias entre campos acadmi-
morais" (cit. in Besnard, 1983, p.121). Mas o      cos e fundar uma nova perspectiva sobre sua
curso veio a ser muito atacado e seu contedo      matria. Quem, perguntou Durkheim, at re-
foi diludo. Em 1930 a ideologia dos durkhei-      centemente haveria de supor "que existem rela-
mianos j estava fora de moda. Alm disso, eles    es entre fenmenos econmicos e religiosos,
no sobreviveram como "escola". Outras in-         entre adaptaes demogrficas e idias morais,
fluncias intelectuais incompatveis, como o       entre formas geogrficas e manifestaes cole-
marxismo, a fenomenologia e o existencialis-       tivas, e assim por diante?" (Durkheim, 1960,
mo, predominaram na Frana depois da Segun-        p.348). Eram racionalistas e positivistas: acre-
da Guerra Mundial (embora houvesse uma con-        ditavam no poder explicativo de idias claras e
tinuidade marcante dentro da antropologia so-      distintas aplicadas metodicamente atravs da
cial), ao mesmo tempo em que as idias dur-        diviso do trabalho acadmico. Defendiam uma
kheimianas eram adotadas em outros centros,        viso, inspirada pela Ilustrao, da reorganiza-
em especial na antropologia social e na SOCIO-     o de todos os variados ramos especializados
LOGIA anglo-saxnica.                              do conhecimento cientificamente estabelecido,
    A preocupao motora de Durkheim era es-       que forneceria ento uma slida base para o
tudar a vida social como realidade objetiva, em    progresso social, o que eles interpretavam como
todos os seus aspectos, na poca dividida em       significando um movimento no sentido de uma
disciplinas acadmicas, embora todas fossem        ordem social industrial planejada, ancorada em
abordveis, ele achava, pelo modo sociolgico      crenas e sentimentos comuns esclarecidos pela
de investigao. Isso exigia um mtodo com-        cincia social.
parativo, implicando a classificao de socie-         Eram na maior parte socialistas (simpticos
dades em tipos, e uma insistncia na busca de      a Jean Jaurs, no-revolucionrios e certamente
causas sociais (em oposio s individuais, psi-   no-marxistas), mas traaram uma ntida linha
colgicas ou materiais), at mesmo -- na ver-      divisria entre seu trabalho cientfico e seu
dade, talvez especialmente -- para o que pode-     trabalho poltico. Tal como os comteanos e os
ria parecer menos suscetvel de tal explicao:    saint-simonianos antes destes, os durkheimia-
da seu famoso estudo do suicdio e seu interes-   nos achavam que as religies propunham uma
se na sociologia da religio, do conhecimento e    explicao mistificadora do mundo social, que
da moral. Implicava tambm uma concentrao        a cincia social transmitiria de maneira clara,
no que ele chamou de rpresentations collec-       mas no se encaravam nem como os sacerdotes
tives -- crenas e sentimentos coletivos que       de uma nova religio secular nem como os
predominam num dado meio social. De acordo         empreendedores prticos de um novo industria-
com isso, o segundo volume do Anne declara,       lismo. Eram antes, e acima de tudo, cientistas
em seu prefcio, o princpio geral de que fen-    sociais praticantes que buscavam, atravs de
menos religiosos, jurdicos, morais e econmi-     sua pesquisa e de seus ensinamentos, fortalecer
cos devem estar sempre ligados a um meio           a ideologia secular e reformista da Terceira
social em particular, devendo suas causas ser      Repblica francesa. Como o prprio Durkheim,
sempre buscadas nos aspectos constitutivos do      eram na maioria evolucionistas caracterizados
tipo de sociedade a que pertence esse meio         pelo otimismo, relativamente cegos aos ele-
(Durkheim, 1858-1917, p.348).                      mentos da vida social que weberianos e marxis-
    Os durkheimianos buscaram seguir esse          tas enfatizavam -- acima de tudo os mecanis-
programa imperialista, ao longo das disciplinas    mos de dominao e os conflitos de interesses.
das cincias sociais, incluindo a histria, "in-   Tampouco se mostraram atentos s foras de-
corporando", conforme as palavras de Marcel        monacas, irracionais, que uma sociedade mo-
Mauss, "fatos dentro de uma estrutura sociol-     derna podia abrigar e que entraram em erupo
gica e, simultaneamente, organizando-os e dis-     na Alemanha nazista.
                                                                escola sociolgica de Durkheim    251


    Trs figuras centrais contriburam de forma      modos muito interessantes, como tambm in-
mais importante com o Anne Sociologique,            vestigou a estrutura social da memria (Halb-
tanto como editores quanto como colabora-            wachs, 1980) e examinou os determinantes so-
dores: Durkheim, Marcel Mauss e Henri Hu-            ciais de padres de vida diferenciados e das
bert. Mauss era sobrinho de Durkheim e o mais        variadas definies de "necessidades" em rela-
prximo a ele, tendo dado uma contribuio           o  classe social, bem como padres de or-
importante para O suicdio (1897) e As formas        amento e de consumo.
elementares da vida religiosa (1912) deste l-           Clestin Bougl era o encarregado da seo
timo. Especialista em etnologia e histria das       de "sociologia geral" e mostrou particular in-
religies, editou, com Hubert, a seo de "so-       teresse pelo lugar da psicologia no estudo dos
ciologia religiosa" e escreveu importantes estu-     fenmenos sociais. Estudou tambm as precon-
dos de sistemas classificatrios primitivos (com     dies sociais do crescimento das idias iguali-
Durkheim: Durkheim e Mauss, 1903), sacrif-          trias, a evoluo dos valores e o sistema in-
cio e magia (com Hubert: Hubert e Mauss,             diano de castas (Bougl, 1908). Paul Fauconnet
1899; Mauss e Hubert, 1904), um estudo not-         (o qual, com Durkheim, editou as sees de
vel sobre a prece, a reciprocidade e a doao de     "sociologia criminal e estatstica moral" e "o
presentes (Mauss, 1925), e tambm sobre a            estudo de regras morais e jurdicas") realizou
prpria noo da pessoa, ou "eu" (em 1938: ver       um exame das formas de responsabilidade co-
Carrithers et al., 1985). De todos os durkhei-       mo socialmente determinadas, analisando suas
mianos, Mauss foi sem dvida a figura mais           condies, natureza e funes. Os irmos
importante e influente. Seu trabalho passou pela     Hubert e Georges Bourgin editaram a seo de
prova do tempo e continua fundamental --             "sociologia econmica". Franois Simiand, o
acima de tudo, o Essai sur le don. Alm disso,       economista do grupo, investigou as determi-
foi um professor que transmitia inspirao e do      nantes de salrios e preos, flutuaes econ-
qual se dizia que, a partir de suas idias, outros   micas e valor do dinheiro, bem como a origem,
escreviam teses e livros. Dedicou grande parte       evoluo e papel do dinheiro, alm de ter escrito
de sua energia cheia de vivacidade  colabora-       extensamente sobre a metodologia das cincias
o e  publicao dos trabalhos de colegas que      sociais. Henri Beuchat, que trabalhou com ar-
morreram na Primeira Guerra Mundial. Tragi-          queologia e filologia americana, tambm cola-
camente, depois da Segunda Guerra Mundial,           borou com Mauss no importante estudo de am-
Mauss perdeu a sade mental.                         bos a respeito do impacto da "morfologia (ou
    Hubert, alm da sua colaborao com              estrutura) social" sobre a vida jurdica, moral,
Mauss, publicou um importante estudo sobre a         domstica e religiosa dos esquims, que variava
representao do tempo na religio e na magia,       sazonalmente (Mauss e Beuchat, 1906), en-
tendo escrito tambm sobre a teoria da religio      quanto Georges Davy estudou o surgimento e a
popular e sobre arqueologia histrica. Stefan        evoluo do contrato e, com o egiptlogo Ale-
Czarnowski, aluno polons de Hubert, tambm          xandre Moret, publicou um estudo das origens
fez importantes contribuies  sociologia das       da civilizao egpcia, "dos cls aos imprios".
religies populares, em especial seu estudo so-      Houve tambm Gaston Richard, cujos primei-
bre So Patrcio e o culto dos heris nas lendas     ros trabalhos foram sobre as origens sociais da
celtas. Robert Hertz escreveu estudos brilhantes     idia de direito, mas que acabou se tornando um
sobre a concepo coletiva da morte em socie-        crtico virulento da sociologia durkheimiana, e
dades primitivas (1907) e sobre o dualismo           Paul Lapie, cujo trabalho sobre sociologia edu-
simblico de direita e esquerda (1909) que exer-     cacional -- e em particular sobre as determi-
ceram considervel influncia posterior, mas         nantes do sucesso na educao --, escolaridade
investigou tambm o culto alpino de Saint-Bes-       e delinqncia e educao e mobilidade social
se (numa obra que , de todos esses estudos          foi pioneiro e estava muito adiante do seu pr-
durkheimianos, a mais prxima do campo de            prio tempo (ver Besnard, 1983).
trabalho da etnografia), bem como histrias              Depois da dissoluo efetiva do grupo, in-
folclricas recolhidas de soldados da infantaria     divduos do crculo de Durkheim e prximos a
na Primeira Guerra Mundial (que lhe tirou a          ele transportaram a influncia desse crculo pa-
vida). Maurice Halbwachs no somente am-             ra os seus respectivos campos. Entre eles, o
pliou a teoria de Durkheim sobre o suicdio de       grande lingista comparativo Antoine Meillet,
252    escolha pblica


o eminente sinlogo Marcel Granet (Granet,                 LHA SOCIAL     e a exposio sobre o Teorema da
1922), os juristas Emmanuel Lvy e Paul Hu-                Impossibilidade de Arrow). Em parte como
velin, o estudioso pioneiro do direito grego               conseqncia disso, os tericos da escolha p-
antigo Louis Gernet, o arabista Eduard Doutt,             blica hoje adotam uma verso da abordagem
os historiadores Georges Bourgin, George Le-               contratualista dos governos (Buchanan, 1974).
febvre, Albert Mathiez, Marc Bloch e Lucien                Assim, afirmam haver apenas indivduos (dife-
Febvre (atravs de Bloch e Febvre, os durkhei-             rentemente de uma "mentalidade de grupo" ou
mianos influenciaram de maneira poderosa a                 de um "bem geral" que um governo poderia
escola dos Annales -- ver ANNALES), os psic-              refletir); e a autoridade do governo ocorre quan-
logos Charles Blondel, Georges Dumas e Henri               do indivduos se determinam a resolver suas
Wallon, o gegrafo econmico e social Albert               diferenas como parte de um ajuste constitucio-
Demangeon, o filsofo-socilogo Lucien L-                 nal que lhes permita viver juntos de forma
vy-Bruhl e toda uma gerao de etnlogos fran-             vantajosa.
ceses que estudaram com Marcel Mauss ou por                    Em segundo lugar, reconheceu-se que o cus-
ele foram influenciados, especialmente Claude              to da aquisio da informao  elevado. Essa
Lvi-Strauss e Louis Dumont.                               percepo combina-se significativamente com
                                                           o pressuposto de que os agentes polticos bus-
Leitura sugerida: Besnard, P., org. 1983: The Sociolo-
gical Domain: the Durkheimians and the Founding of         cam os seus prprios interesses, produzindo a
French Sociology  Durkheim, Emile 1960: Emile Dur-         perspectiva de "falha do governo" -- isto , o
kheim 1858-1917: A Collection of Essays, with Trans-       governo no consegue comportar-se como uma
lations and a Bibliography, org. por K. Wolf  Dur-         instituio de vantagem mtua. Por exemplo,
kheim, Emile e Mauss, M. 1903. "De quelques formes         os polticos tentam maximizar suas possibilida-
primitives de classification" In Textes.  Hertz, R. 1907   des de reeleio mostrando-se sensveis a elei-
(1960): "Contribution  une tude sur la rpresentation
collective de la mort"  Hubert, H. e Mauss, M. 1899        tores que, dados os custos de aquisio de in-
(1964): Sacrifice: Its Nature and Function  Mauss, M.      formao, esto mais conscientes de questes
1925: Essai sur le don  Mauss, M. e Hubert H. 1904         diretamente relevantes aos seus interesses (co-
(1972): A General Theory of Magic.                         mo programas de gastos em particular e nveis
                                       STEVEN LUKES        de impostos) do que de questes de interesse
                                                           mais indireto e menos imediato (como a situa-
escolha pblica As pessoas comportam-se                    o das finanas pblicas e o futuro servio da
de modo praticamente idntico, quer estejam                dvida). O resultado, na ausncia de um freio
agindo nos mercados, em um cargo poltico ou               constitucional,  a inclinao para os gastos
no servio pblico: elas buscam seus prprios              elevados, os baixos impostos e os dficits p-
interesses. Essa  a premissa contundente de               blicos (ver Buchanan e Wagner, 1977). Da mes-
uma teoria que tenta unir poltica e economia,             ma forma, o fraco conhecimento que os polti-
proporcionando o que s vezes tambm se co-                cos tm das aes de seus burocratas deixa
nhece como uma teoria econmica da poltica.               espao para a busca dos auto-interesses destes,
Essa aplicao do modelo da escolha racional               que tm grande probabilidade de se verem bem
tem exercido poderoso impacto tanto sobre a                servidos dentro dos sistemas de remunerao da
teoria quanto sobre a prtica da poltica moder-           maioria dos servios pblicos atravs do cres-
na. Em especial, tem estimulado discusses                 cimento de seus departamentos (ver Tullock,
sobre a ampliao dos limites constitucionais              1965). Da que a informao inadequada, nesse
dos governos atravs de sua anlise da "falha              caso, estimula um crescimento burocrtico ex-
do governo".                                               cessivo e isso, por sua vez, interage com o
    A teoria da escolha pblica comeou com                fenmeno antes observado para criar uma cres-
uma retomada do interesse pelos sistemas elei-             cente clientela de eleitores cujos interesses ime-
torais (ver Downs, 1957; Black, 1958). Duas                diatos tambm favorecem um amplo setor p-
percepes, em particular, tornaram-se pedras              blico.
fundamentais da escola da escolha pblica. Pri-                Assim, est montado o cenrio para um
meiro, a possibilidade de ciclos em sistemas               moderno Leviat, que no tem nem a capaci-
eleitorais foi (re)descoberta e isso ajudou a              dade nem a inclinao para satisfazer as neces-
minar a idia tradicional de que a ao do                 sidades de seus cidados; encontra-se fora de
governo refletia "a vontade do povo" (ver ESCO-            controle, e a necessidade de controle  ainda
                                                                       escolha racional, teoria da   253


mais premente, uma vez que o crescimento do            em termos utilitrios, como uma questo de
governo tambm estimula a atividade de busca           maximizar a satisfao das preferncias do in-
de receita. (As receitas, nesse sentido, so cria-     divduo (ver UTILITARISMO). Modelos de com-
das, por exemplo, atravs de aes governa-            portamento maximizante so amplamente uti-
mentais, que por sua vez criam monoplios de           lizados na economia contempornea, e a teoria
um tipo ou de outro, tal como quando certas            da escolha racional pode ser compreendida co-
atividades so licenciadas pelo governo ou             mo uma proposta de ampliao dessa "abor-
quando o pagamento pblico excede o equiva-            dagem econmica" a outras reas da vida so-
lente privado. Essas receitas estimulam os in-         cial. Ela pretende ser rigorosa e capaz de gerar
divduos a investir recursos perdulariamente           explicaes convincentes com base em poucos
em aes projetadas para aumentar suas chan-           e relativamente simples pressupostos. Fora da
ces de adquirir os ttulos a elas.) Existe uma         economia propriamente dita,  possvel encon-
soluo bvia: a restrio constitucional das          trar exemplos influentes na literatura sobre es-
aes do governo. Especificamente, por exem-           colha pblica e cada vez mais na cincia poltica
plo, deveria haver exigncias para o equilbrio        e sociologia contemporneas, e at mesmo den-
do oramento, assim como uma constituio              tro do marxismo acadmico.
monetria, e as burocracias deveriam ser sub-              O pressuposto da racionalidade individual
metidas s foras da concorrncia atravs de           no implica a racionalidade do comportamento
menor interferncia do estado, privatizao e          coletivo. Em primeiro lugar, Arrow (1951) de-
outros processos semelhantes.                          monstrou que preferncias individuais no po-
    Alguns podem mostrar-se relutantes quanto          dem ser normalmente agregadas em uma es-
a pressuposies de informao muito precisas          trutura de preferncia coletiva bem definida.
e ao apoio no modelo de indivduos que maxi-           Nesse caso, pode no haver nenhum resultado
mizam a "utilidade" (ver tambm UTILITARIS-            do qual seja possvel dizer que maximiza pre-
MO). Mas poucos duvidam de que o reconhe-              ferncias coletivas. Em segundo lugar, o com-
cimento da "falha do governo" se mostrou um            portamento coletivo implica a interao estra-
importante corretivo de uma viso comum (pe-           tgica de indivduos racionais (ver JOGOS, TEO-
lo menos em economia), a qual simplesmente             RIA DOS). Cada qual agir com base nos clculos
afirmava que o governo agiria no sentido de            dos efeitos das aes posssveis dos outros. Em
compensar qualquer "falha de mercado", uma             uma situao de "dilema do prisioneiro", carac-
vez identificada. No obstante, no se deve            terizada pela ausncia de comunicao efeti-
esquecer de que os mercados efetivamente fa-           va (imaginem-se dois prisioneiros interrogados
lham, de modo que as perguntas reais na teoria         em separado por um crime que cometeram jun-
da escolha pblica hoje em dia se relacionam a         tos), o agente racional teme o pior dos outros e
como diferentes regimes constitucionais afe-           age no sentido de minimizar os danos. Cada
tam a incidncia relativa e as propores das          qual, portanto, evita o pior resultado possvel,
falhas "do mercado" e "do governo".                    mas coletivamente eles no conseguem obter o
                                                       melhor.
Leitura sugerida: Black, D. 1958: The Theory of
Commitees and Elections  Buchanan, J.M. 1975: The          O problema do free rider (carona)  outro
Limits of Liberty: Between Anarchy and Leviathan       exemplo. A no ser que exista algum mecanis-
Buchanan, J.M. e Wagner, R. 1977: Democracy in         mo (como a taxao compulsria) para fazer
Deficit: The Political Legacy of Lord Keynes  Downs,   com que os indivduos contribuam para a pro-
A. 1957: An Economic Theory of Democracy  Tullock,     viso de um bem coletivo, os indivduos racio-
G. 1965: The Politics of Bureaucracy.                  nais deixaro a contribuio para os outros. O
                      SHAUN P. HARGREAVES HEAP         free rider obtm os benefcios de um bem cole-
                                                       tivo sem incorrer nos custos da sua proviso. Se
escolha racional, teoria da O aspecto ca-              existirem free riders em excesso, o bem coleti-
racterstico desta abordagem  a viso de que a        vo no poder ser absolutamente alcanado.
vida social deve ser explicada por meio de             Olson (1965) desenvolveu esse argumento para
modelos de ao individual racional. Raciona-          indicar que s porque todos os membros de um
lidade pode significar muitas coisas diferentes        grupo partilham um interesse comum no se
no pensamento social moderno (ver RACIONALI-           segue necessariamente que eles se organizaro
DADE E RAZO). Neste caso,  compreendida,             na busca desse interesse. Uma ao coletiva por
254   escolha racional, teoria da


parte de grandes grupos depende da existncia      capacidade de desenvolver uma cadeia bem
de incentivos seletivos para os ativistas, e s    ligada de raciocnio ou argumentao. Pode
vezes de um elemento compulsrio. Grupos           referir-se tambm  consistncia das prprias
com poucos membros (como no caso de um             cadeias de raciocnio e aos conceitos e outros
oligoplio) normalmente se encontram em me-        mecanismos intelectuais (horscopos, jogos de
lhor posio para organizar e chegar a um acor-    dados, anlises de custos-benefcios) emprega-
do sobre uma linha de ao tima.                  dos em sua construo -- e, por extenso, a
    A teoria da escolha racional no exige que     linhas de ao e tipos de comportamento par-
seus modelos de ao racional sejam inteira-       ticulares. A suposio de que os indivduos
mente realistas. Sua pretenso, antes de tudo,    humanos so normalmente dotados da facul-
fornecer previses com sucesso em muitos ca-       dade da razo e que so, portanto, capazes de
sos e, na possibilidade de falha na previso,      desenvolver cadeias de raciocnio nada nos diz
fornecer meios de identificar o lugar de elemen-   sobre o carter dos mecanismos conceituais que
tos no-racionais na ao humana. O compor-        eles podem empregar nesse processo. Uma vez
tamento eleitoral  um exemplo citado com          que a maior parte dos mecanismos conceituais
freqncia. Na maioria dos casos, o voto de uma    disponveis para um agente ser culturalmente
pessoa pouco efeito ter sobre o resultado, e a    adquirida, existe um sentido importante no qual
diferena que o resultado far para essa pessoa    a racionalidade ou no da ao individual de-
ser igualmente pequena. O pressuposto de um       pender de condies culturais e sociais exter-
comportamento racional orientado para o auto-      nas ao agente em pauta.
interesse, portanto, "exibe uma explicao no-         Por fim, existe a questo do papel explica-
toriamente frgil para o comportamento eleito-     tivo da suposio de racionalidade. Ela nos leva
ral, uma vez que indica que praticamente nin-      a esperar certa consistncia no comportamento
gum iria votar voluntariamente nas, digamos,      dos indivduos, mas nada nos diz a respeito de
eleies nacionais norte-americanas. Isso aju-     suas motivaes. As explicaes de aspectos
da-nos a compreender por que metade dos ame-       significativos da vida social como resultantes
ricanos qualificados no votam, mas pouco          das aes racionais de indivduos, portanto,
adianta no sentido de nos ajudar a compreender     dependem de suposies auxiliares com res-
a outra metade" (Hardin, 1982, p.11).              peito ao contedo de suas explicaes -- outro
    Provas de irracionalidade significativa no     aspecto em que o individualismo patente da
comportamento humano, portanto, pouco pre-         teoria da escolha racional em geral implica uma
juzo causam s pretenses da teoria da escolha    referncia disfarada a condies culturais e
racional. Questes crticas mais srias relacio-   sociais supra-individuais. Existem aqui mais
nam-se, primeiro, ao carter e localizao da      duas questes. Primeiro, a validade dessas su-
racionalidade e, segundo, ao seu papel na ex-      posies quanto a motivos pode muito bem ser
plicao. Crticos tm afirmado que a teoria da    questionada. A explicao acima quanto  razo
escolha racional tem uma viso excessivamente      por que tantos norte-americanos no votam nas
simples do agente: por exemplo, que no leva       eleies nacionais simplesmente lhes atribui
na devida conta o altrusmo e outros engaja-       uma motivao presumida, da qual se segue
mentos, que a racionalidade humana  uma           ento a deciso de no votar. Mas no  com-
questo de projetos de auto-edificao a longo     patvel com os resultados de um recente estudo
prazo, e no apenas de maximizao a curto         de seus motivos para no votar (Fox-Piven e
prazo, e que as capacidades cognitivas dos seres   Cloward, 1988). Em segundo lugar,  discutvel
humanos so demasiado limitadas para que           que a suposio rigorosa da racionalidade
suas decises sejam totalmente racionais em        acrescente muita coisa  fora explanatria das
todos os casos.                                    prprias suposies auxiliares (Simon, 1986).
    Essas posies crticas apontam uma ques-          Ver tambm ESCOLHA SOCIAL.
to mais geral para o individualismo metodol-
gico da teoria da escolha racional. Existem dois   Leitura sugerida: Barry, B. e Hardin, R., orgs. 1982:
                                                   Rational Man and Irrational Society  Elster, J., org.
sentidos bastante diferentes em que a raciona-     1986: Rational Choice  Hardin, R. 1982: Collective
lidade pode ser atribuda aos indivduos huma-     Action  Hindess, B. 1988: Choice, Rationality and So-
nos. Ela pode referir-se ao que se costumava       cial Theory  Hollis, M. 1987: The Rise of Reason
chamar de faculdade da razo, a generalizada        Journal of Business 59 (1986), 4, Parte 2: "The beha-
                                                                                   escolha social   255

vioural foundations of economics theory"  Olson, M.   mercadorias na forma de um grupo de preos
1965: The Logic of Collective Action  Sen, A. 1987:   relativos, tambm os indivduos votam de acor-
On Ethics and Economics.
                                                      do com preferncias (ticas) e as urnas produ-
                                   BARRY HINDESS      zem um ordenamento social de resultados e
                                                      com isso um julgamento a respeito de que in-
escolha social Como os governos e outros              teresses favorecer.
organismos pblicos decidem, e como deve-                 Isso  atraente porque oferece uma soluo
riam decidir, suas aes? Existem vrias ex-          de procedimento que evita qualquer compro-
plicaes sobre o modo como os governos to-           misso com a forma moral da boa vida. Arrow
mam decises (ver, por exemplo, DEMOCRACIA;           (1951), porm, demonstrou um resultado de
ELITES, TEORIA DAS), mas  um pressuposto bsi-       impossibilidade que lana dvidas sobre a coe-
co da democracia liberal que os governos de-          rncia dessa abordagem. Quando as prefern-
vem agir no interesse dos seus cidados. O            cias individuais satisfazem os axiomas regu-
interesse pblico, por assim dizer, no pode ser      lares da teoria da escolha, nenhum sistema de
definido independentemente dos interesses dos         agregao dessas preferncias pode garantir a
indivduos dos quais os governos recebem sua          produo de um ordenamento social que satis-
autoridade. Essa frmula democrtica funciona         faa um conjunto de condies aparentemente
bastante bem quando a ao pblica  no in-           mnimas. Especificamente, no pode evitar in-
teresse de todos. Mas existem inevitavelmente         consistncias do tipo "x  preferido a y, e y 
situaes em que a escolha da ao a ser tomada       preferido a z, mas z  preferido a x", e ao mesmo
implica um conflito com o interesse de um ou          tempo satisfazer condies simples como a
outro indivduo ou grupo. So esses casos dif-       no-ditadura e a condio tima de Pareto (o
ceis que determinam a agenda para a discusso         princpio de Pareto, neste contexto, implica
sobre escolha social. No  de surpreender que,       que, se todos os indivduos preferem a a b, ento
com a ascenso da democracia e o crescimento          a deve ser preferido a b no ordenamento social).
do setor pblico sob vrias formas, essas dis-        A mais simples intuio por trs desse resultado
cusses raramente tenham estado longe dos             de impossibilidade  que Arrow est generali-
centros do debate tanto na poltica quanto na         zando o famoso paradoxo de votos de Condor-
economia.                                             cet. (Para entender esse paradoxo, suponha-se
    H duas importantes abordagens modernas           que existam trs indivduos com a seguinte
para a questo da origem dos princpios que           ordem de preferncia em relao a trs resul-
deveriam ser utilizados nos casos difceis. Uma       tados {x,y,z}: [x,y,z]; [y,z,x]; [z,x,y]. Ento, o
implica o apelo s urnas. Constitui uma exten-        uso de um simples sistema de voto da maioria
so natural da poltica das idias de escolha         para decidir entre comparaes aos pares de
individual encontradas na economia (ver ECO-          {x,y,z} resultar em que x  preferido a y (uma
NOMIA NEOCLSSICA; ESCOLHA RACIONAL, TEORIA           vez que o primeiro e o terceiro indivduos su-
DA). E tambm tem sido muito influente no caso        peram o voto do segundo), y  preferido a z, mas
de algumas discusses sobre a forma como os           a maioria tambm prefere z a x.)
governos efetivamente tomam decises (ver,                Esse resultado foi imensamente influente
por exemplo, Downs, 1957; Riker, 1982; e ES-          para a teoria democrtica, mas tambm tem sido
COLHA PBLICA). Presume-se que os indivduos          objeto de speras crticas a sua fundamentao
tenham preferncias quanto aos resultados pos-        utilitria da economia (Sen, 1982). Embora a
sveis (s vezes chamadas de preferncias ti-        abordagem de Arrow rejeite explicitamente as
cas, na medida em que se referem aos resultados       comparaes interpessoais de utilidade que
para a sociedade e podem implicar um juzo            possam exigir uma escolha social utilitria para
tico a respeito de que interesses, e de quem,        apoiar a tortura, caso esta resulte em mais utili-
devem ser favorecidos). Uma constituio en-          dade para o torturador do que em desutilidade
to agrega essas preferncias, atravs de algum       para a vtima, ela ainda assim se baseia em uma
mecanismo de voto, para produzir um ordena-           representao ordinal de utilidade dos indiv-
mento social dos resultados possveis. Assim,         duos e  capaz de gerar um tipo semelhante de
tal como consumidores agindo de acordo com            problema porque, notoriamente, a maioria po-
suas preferncias sobre bens em mercados pro-         der sempre votar para impor a tirania sobre
duzem uma valorizao social de diferentes            grupos minoritrios. O que parece estar faltan-
256   escolha social


do  um reconhecimento de que os indivduos            Essa  uma implicao controvertida. Em
so mais do que feixes de preferncias: mini-      primeiro lugar, no  bvio que o princpio de
mamente, que eles tm direitos que precisam        maxi-min se recomende como a regra apropria-
ser respeitados.                                   da de deciso para condies de incerteza. H
    Esses direitos so cruciais para a abordagem   uma forte alegao na literatura econmica ou
alternativa contratualista da escolha social. A    na teoria da escolha racional para uma regra de
marca caracterstica do contratualismo  um        maximizao da utilidade esperada, e seu uso
argumento que justifica um resultado atravs da    poderia restaurar uma espcie de utilitarismo
demonstrao de como indivduos dotados de         (Harsanyi, 1955). Em segundo lugar, ela pre-
direitos tais como liberdades bsicas teriam       sume que os governos devam decidir que in-
concordado com esse arranjo caso tivessem          teresses favorecer quando surgem conflitos. Em
partido de alguma posio hipottica original      outras palavras, presume que a justia exija
de contrato.  um argumento atraente porque        algum tipo de interveno do estado, quando foi
parece que haveria pouco motivo de queixa          notoriamente sustentado por Robert Nozick
quanto a aes do governo quando se pudesse        (1974) que um sistema de justia baseado em
demonstrar que indivduos dotados da opor-         direitos no exige nada desse tipo.
tunidade de negociar teriam concordado com             A posio original de Nozick  definida por
elas. No obstante, seu apelo pode ser engano-     um estado lockeano de natureza (grosso modo,
so. Ele no resolve muitas das controvrsias       um estado em que os indivduos podem fazer
fundamentais nessa rea, pois existem vrios       valer os seus direitos a sua propriedade, incluin-
meios de especificar a posio original de con-    do o seu trabalho, na medida em que isso no
trato e os posteriores acordos hipotticos so     infrinja os direitos de outrem); e ele afirma que
extremamente sensveis a essas especificaes      os indivduos faro contratos uns com os outros
(ver tambm CONTRATO SOCIAL).                      para formar um estado que sustente os direitos
                                                    propriedade, porm no mais do que isso.
    Por exemplo, os que seguem Rawls (1971)
                                                   Especificamente, qualquer tentativa por parte
podem supor que a escolha social nos casos
                                                   do governo de seguir um programa redistribu-
difceis em que conflitos de interesses envol-
                                                   tivo ir contrariar o direito fundamental dos
vem uma questo de justia, e uma vez que a
                                                   indivduos de disporem de seu tempo e proprie-
justia deve ser imparcial, a posio original     dade conforme acharem adequado. Isso seria
para a derivao desses princpios de justia      subverter ou desfazer as aes que os indiv-
deveria ser caracterizada por um "vu de ig-       duos tomaram livremente e, assim, constitui
norncia". Os indivduos deveriam decidir que      uma infringncia dos direitos desses indiv-
resultado social preferem sem saber, entre ou-     duos.
tras coisas, a posio individual que viro a
                                                       Dessa forma, a abordagem contratualista
ocupar. Formalmente, os indivduos devem de-
                                                   no resolveu as diferenas na escolha social,
cidir sob essas condies de incerteza, e Rawls
                                                   uma vez que seus argumentos podem permitir
afirma que a regra adequada de deciso 
                                                   tanto um estado intervencionista quanto um
max-min, uma vez satisfeita uma condio de        estado mnimo. No obstante, o que ficou reve-
liberdades bsicas iguais. Isso significa que os   lado pela recente mudana contratualista de
resultados sociais so julgados de acordo com      argumento  a sensibilidade da escolha social
o bem-estar da pessoa menos favorecida, com        tanto ao pressuposto modelo de tomada de de-
um conseqente pressuposto a favor da igual-       ciso individual quanto ao que  encarado como
dade. De fato, indivduos sob essa regra s        a relao relevante entre indivduos em alguma
escolhem um resultado social em que haja des-      posio original.
igualdade quando o membro mais des-
favorecido sob essa disposio  levado a ficar    Leitura sugerida: Arrow, K. 1951 (1963): Social
melhor do que seria o caso sob um resultado        Choice and Individual Values  Buchanan, J.M. 1986:
com maior igualdade. Assim, uma abordagem          Liberty, Market and the State  Downs, A. 1957: An
                                                   Economic Theory of Democracy  Hamlin, A. 1986:
rawlsiana da justia, quando aplicada  escolha
                                                   Ethics, Economics and the State  Harsanyi, J.C. 1955:
social, parece sancionar em geral atividades       "Cardinal welfare, individualistic ethics and interper-
intervencionistas do estado destinadas a promo-    sonal comparisons of welfare". Journal of Political
ver a igualdade.                                   Economy 63, 309-21  Nozick, R. 1974: Anarchy, State
                                                                                              estado    257

and Utopia  Rawls, J. 1971: A Theory of Justice  Ri-    Richard 1978: The Fall of Public Man  Siltanen, J. e
ker, W.H. 1982: Liberalism against Populism  Sen, A.    Stanworth, M. 1984: Women and the Public Sphere.
1982: Choice, Welfare and Measurement  Sugden, R.                                    WILLIAM OUTHWAITE
1981: The Political Economy of Public Choice.
                       SHAUN P. HARGREAVES HEAP         esquerda, nova Ver NOVA ESQUERDA.
                                                        estado H uma grande concordncia entre os
esfera pblica Embora as diferenas entre               cientistas sociais quanto a como o estado deve
pblico e privado remontem aos tempos da                ser definido. Uma definio composta incluiria
Grcia e da Roma antigas, os conceitos de               trs elementos. Primeiro, um estado  um con-
esfera pblica e de publicidade esto intima-           junto de instituies; estas so definidas pelos
mente ligados a concepes do sculo XVIII a            prprios agentes do estado. A instituio mais
respeito de SOCIEDADE CIVIL. O pensamento so-           importante do estado  a dos meios de violncia
cial do sculo XX continuou a se preocupar com          e COERO. Segundo, essas instituies encon-
o que  encarado como "privatismo" excessivo            tram-se no centro de um territrio geografi-
(ver PRIVACIDADE) e um correspondente declnio          camente limitado a que geralmente nos referi-
da vida pblica. Jrgen Habermas (1962) afirmou         mos como SOCIEDADE. De modo crucial, o es-
que a publicidade como princpio crtico, a aber-       tado olha para dentro de si mesmo, no caso de
tura das questes pblicas  discusso por cida-        sua sociedade nacional, e para fora, no caso de
dos interessados, deu lugar a uma opinio pbli-       sociedades mais amplas entre as quais ele precisa
ca manipulada, enquanto Richard Sennett (1978)          abrir seu caminho; seu comportamento em uma
diagnosticou O declnio do homem pblico.               rea, em geral, s pode ser explicado pelas suas
    O FEMINISMO tanto tem documentado o vis            atividades na outra. Terceiro, o estado monopoliza
de gnero na distino entre "homem pblico"            a criao das regras dentro do seu territrio. Isso
e "mulher privada" (Elshtain, 1981) quanto              tende  criao de uma CULTURA poltica comum,
questionado a prpria distino pblico/priva-          partilhada por todos os cidados.
do. O lema feminista de que "o pessoal  pol-               preciso enfatizar que a condio de estado
tico" tem sido complementado por pesquisas               em geral mais uma aspirao do que uma
demonstrando, por exemplo, que no apenas               realizao efetiva. Por um lado, a maioria dos
faltava privacidade  "esfera privada" do sculo        estados histricos teve grande dificuldade em
XIX como esta era tambm uma rea importan-             controlar suas sociedades civis e, em particular,
te de atividade econmica (Davidoff, 1979) e            em estabelecer seus prprios monoplios dos
que as mulheres no so to desinteressadas             meios de violncia; e o que era vlido no caso
pela vida "pblica" ou poltica quanto excludas        dos estados feudais  igualmente vlido no caso
dela e, quando esto presentes, negligenciadas          do Lbano nos dias de hoje. Por outro lado, a
(Siltanen e Stanworth, 1984). Tal como Marx             busca por parte de um estado da sua meta
deixou implcito na sua crtica a Hegel, as pa-         principal, a da segurana, fica normal e neces-
tologias das esferas pblica e privada podem            sariamente incompleta devido  presena de
mais reforar do que abrandar uma  outra,              sociedades maiores que ele no pode controlar.
como quando uma esfera privada politizada que           Uma dessas sociedades  o sistema de estados,
 transformada em objeto de "pnicos morais"            presente durante mil anos na histria europia
e legislao (Donzelot, 1977) coexiste com              e hoje caracterstica daquilo que  genuinamen-
uma esfera poltica personalizada e degradada           te uma sociedade mundial organizada. Uma
cujas insatisfaes so, por sua vez, aliviadas         segunda sociedade desse tipo  a do CAPITALIS-
nos "nichos" da vida privada. Esses modos de            MO, que tem nitidamente suas prprias leis de
pensar sobre a relao entre pblico e privado          movimento. Um trabalho muito interessante e
so influenciados tambm por um reco-                   importante est sendo realizado atualmente na
nhecimento tardio da importncia da COMUNI-             cincia social a respeito das inter-relaes entre
CAO DE MASSA (Thompson, 1990, sobretudo
                                                        capital e estado, tanto no nvel domstico quan-
p.238-48).                                              to no internacional.
Leitura sugerida: Elshtain, J. 1981: Public Man, Pri-   A contestao do estado
vate Woman  Habermas, J. 1962 (1989): The Struc-
tural Transformation of the Public Sphere  Keane, J.       A natureza do estado tem sido tema de de-
1984: Public Life and Late Capitalism  Sennett,         bate intelectual e da poltica de poder no sculo
258   estado


XX.  possvel identificar dois campos opostos     Franz Oppenheimer tenham, todos, atribudo
principais, a saber, o do liberalismo anglo-sa-    grande peso ao impacto da transformao geo-
xo e o de uma escola menos ntida, mais           poltica sobre a vida social.
referida como a do realismo germnico.                 A Alemanha comeou duas guerras mun-
    Ao mesmo tempo em que existem muitas           diais e as potncias anglo-saxs saram vitorio-
verses de liberalismo, a maioria demonstra        sas. Isso significou, em conseqncia, que du-
suspeitas com relao s atividades do estado.     rante um longo perodo ela foi considerada
Tudo que  virtuoso  encarado como fazendo        indigna de considerao. Desde os anos 70,
parte da sociedade, com as foras do estado        porm, isso felizmente tem mudado. Uma fonte
sendo vistas como obstculos que precisam ser      dessa mudana foi o moderno MARXISMO OCI-
reduzidos. O papel mais ativo para o estado, na    DENTAL. Combater um inimigo  algo que in-
viso de alguns liberais,  o de um vigia notur-   fluencia a sua prpria mente, e o marxismo, em
no, protegendo uma estrutura dentro da qual as     ltima anlise, se parece com o liberalismo --
foras de mercado podem ento operar de acor-      com o qual tem em comum, embora tendo em
do com a sua prpria lgica. Essa  a filosofia    mente uma escala de tempo bastante diversa, as
do LAISSEZ-FAIRE; suas explicaes so mais        esperanas tanto de paz universal quanto de
baseadas na sociedade do que centradas no          "desaparecimento" do estado, ao apresentar ex-
estado, pois no se atribui uma realidade fun-     plicaes baseadas na sociedade, em vez de
damental ao estado como corporificao da          centradas no estado. No obstante, a tentativa
sociedade organizada. A viso que o liberalismo    de especificar o modo como um estado "rela-
tem das relaes internacionais  de um des-       tivamente" autnomo poderia servir aos in-
prezo surpreendente pelo poder do estado. A        teresses do capital, proporcionando-lhe a infra-
"escola de Manchester" do liberalismo de lais-     estrutura necessria, levou a que se fizessem
sez-faire tinha a esperana de que nada menos      perguntas que rapidamente fugiram ao prprio
que a paz pudesse ser garantida pela crescente     paradigma dos marxistas. De maneira mais ge-
interdependncia da economia mundial; de for-      ral, a perspectiva histrica  hoje tal que nin-
ma igualmente importante, considerava-se ago-      gum pode negar que a histria do desenvol-
ra o comrcio, e no a conquista territorial,      vimento econmico, to amada pelos liberais,
como o caminho do progresso e da prospe-           foi rudemente interrompida por conflitos geo-
ridade. Outros liberais, seguindo o exemplo de     polticos entre 1914 e 1945, nem que esse pe-
Immanuel Kant, apontaram que a era da paz          rodo transformou profundamente a vida social.
depender no apenas do comrcio, mas de           A diferente organizao da estrutura de classes
outros estados reconhecerem os princpios do       nas ento Alemanha Oriental e Ocidental, para
nacionalismo e da democracia.                      dar apenas um exemplo, foi resultado mais de
    A Alemanha foi criada como resultado das       um arranjo geopoltico do que de qualquer l-
aes do seu estado, e no surpreende que tenha    gica interna s classes por si mesmas.
demonstrado o maior apreo para com a reali-           Tudo considerado, no h dvida de que o
dade do PODER do estado. Internamente, essa        "estado" est de volta. A cincia social tem, no
tradio encara o estado como um agente por        entanto, o hbito lamentvel de se encantar com
direito prprio, capaz de representar o direito    novas abordagens, em vez de garantir que elas
geral. Externamente, o estado  visto como         realmente nos ajudem a compreender o mundo.
aquele que garante a sobrevivncia. Esse reco-     Felizmente, o interesse renovado no estado tem
nhecimento da lgica de um mundo "a-social"        levado a avanos no nosso conhecimento; a
de competio entre estados foi especialmente      especificao de alguns desses avanos com-
fcil para os alemes. O pensamento social em      preende o restante deste verbete.
geral foi maciamente influenciado pela longa
paz entre 1815 e 1914, na qual a brusca trans-     O paradoxo do poder do estado
formao social da industrializao parecia su-       Chegamos a uma compreenso, em parte
mamente importante. Mas os alemes alcan-          devido ao trabalho de Michael Mann (1988), de
aram a condio de estado em parte devido        que existem duas faces ou dimenses no poder
guerra, e tambm no surpreende descobrir que      do estado. A teoria tradicional preocupava-se
pensadores como Max Weber, Ludwig Gum-             com o alcance dos poderes discricionrios do
plowicz, Gustav Ratzenhofer, Otto Hintze e         estado -- na verdade foi estabelecida por ele
                                                                                       estado   259


--, isto , a oposio polarizadora entre regimes   lado, tais estados tendiam a no colaborar com
despticos e constitucionais. No entanto es-        as suas prprias classes superiores, sendo por
tudos de estados agrrios mostram que as alega-     isso impedidos de receber uma significativa
es de poder universal eram mais pretenso do      renda em impostos; isso demonstrava que dis-
que realidade, uma vez que o estado tinha pou-      punham de fundos insuficientes para poder pro-
cos servidores para poder penetrar na vida so-      porcionar um quadro de expectativas racionais
cial e organiz-la. Da, uma segunda dimenso       em questes de dinheiro e justia do qual um
de poder do estado merece ser chamada de            capitalismo emergente se teria beneficiado. Em
infra-estrutural.                                   contraste, a civilizao ocidental viu surgirem
    Disso resulta um paradoxo. A fora do es-       estados que eram poderosos e fracos nos lugares
tado , em geral, resultado de at que ponto ele    "certos" para o surgimento do capitalismo. Os
pode colaborar com agrupamentos da socie-           limites  discricionariedade significavam que o
dade civil, e essa colaborao  normalmente        estado no podia controlar de maneira definiti-
garantida por alguma limitao dos poderes          va os agentes capitalistas, enquanto que o au-
despticos do estado. Assim, no sculo XVII, o      mento da receita do estado, resultante da cola-
estado absolutista francs pode ter sido autno-    borao com as classes superiores funcionando
mo no sentido de ser "livre de" restries par-     atravs dos parlamentos, permitiu que se pro-
lamentares, mas no obstante era mais fraco --      porcionasse uma justia regularizada e, com o
conforme ficou demonstrado no teste da guerra       tempo, dinheiro decente.
-- do que sua rival constitucional, a Gr-Breta-        Esse padro europeu  parcialmente expli-
nha. Nesse estado, o acordo entre as classes        cvel, em segundo lugar, como resultado de
superiores e os agentes do estado permitia nveis   foras externas a qualquer estado isolado. Os
mais elevados de taxao e maior eficincia         estados europeus eram duradouros e, em con-
geral: o estado britnico era "livre" para fazer    seqncia, envolvidos em incessante concor-
muito mais. Esse paradoxo aplica-se igualmente      rncia uns com os outros. Nessas circunstn-
bem ao mundo moderno: a mobilizao de guer-        cias, tornou-se racional no matar a galinha dos
ra da Gr-Bretanha na Segunda Guerra Mundial        ovos de ouro -- isto , os governantes acabaram
superou a da Alemanha, enquanto recentes es-        entendendo que um comportamento predatrio
tudiosos do estado japons tm enfatizado que       para com os seus capitalistas levaria  fuga
sua grande fora resulta de uma "poltica de        destes e, conseqentemente, a um aumento na
aquiescncia recproca".                            receita de seus rivais geopolticos. Em grande
                                                    medida, o comportamento decente para com o
Estados e mercados                                  capitalismo que ento nascia explica-se pela
    Est hoje disponvel, traado em perspectiva    simples afirmao de que o capitalismo tinha
comparativa, um quadro bem mais ntido do           estados: houvesse a Europa revertido ao dom-
papel do estado no surgimento do dinamismo          nio imperial depois de queda de Roma e nada
econmico capitalista do Nordeste da Europa, o      teria havido que impedisse os governantes de
qual permitiu que esta dominasse o mundo. Dois      mais uma vez exercerem controle sobre a mo-
aspectos tericos so de especial importncia.      bilizao social que resultava de se conceder 
    Primeiro,  necessrio distinguir entre os      sociedade civil uma certa autonomia.
diferentes tipos de estado no mundo pr-indus-          Esses padres de poder do estado so igual-
trial. Falando de maneira bastante grosseira, as    mente teis para se compreenderem os modos
civilizaes orientais tinham estados que eram      como o estado prospera economicamente na era
a um tempo poderosos demais e fracos demais         industrial. Parece ser cada vez mais o caso de
-- isto , despoticamente poderosos, mas infra-     se dizer que a capacidade de um estado-nao
estruturalmente fracos -- para permitir o sur-      de se inserir nas sociedades capitalistas est
gimento de qualquer dinmica capitalista. Tais      relacionada com a sua capacidade de colaborar
estados buscavam controlar todas as foras so-      com os capitalistas nacionais e de fornecer uma
ciais que tinham a capacidade de mobilizar as       macia infra-estrutura social de educao e de
pessoas, com o argumento de que qualquer            conciliao de classes que permita flexibilidade
fora independente poderia rapidamente minar        diante dos padres cambiantes do comrcio
seu prprio domnio; isso levou repetidas vezes     internacional. Assim, o estado em muitos pases
ao bloqueio de foras capitalistas. Por outro       do Leste Asitico  relativamente (e cada vez
260   estado de bem-estar


mais) fraco do ponto de vista desptico, mas          ses operrias tendem a se tornar militantes
muito poderoso do ponto de vista infra-estrutu-       quando um estado as exclui de participao na
ral: o fato de o oposto tender a ser vlido no caso   sociedade civil, isto , os operrios enfrentam o
da Amrica Latina ajuda a explicar seus fraqus-      estado quando so impedidos de se organizar
simos resultados em termos de desenvolvimen-          industrialmente e de discutir com seus oponen-
to econmico. Alm disso, est hoje bastante          tes capitalistas imediatos. Assim, um estado
evidente que o planejamento socialista s fun-        liberal com plena cidadania no assiste a ne-
ciona no estgio de industrializao inicial; a       nhum movimento revolucionrio da classe ope-
continuao do sucesso econmico das socie-           rria, enquanto regimes autoritrios e autocr-
dades socialistas parece depender da mudana          ticos assistem ao surgimento de movimentos
que elas possam vir a promover em seus pa-            operrios de inspirao marxista: esse princpio
dres de controle estatal.                            ajuda a explicar a diferena no comportamento
    Vale a pena levantar uma ltima questo a         das classes operrias nos Estados Unidos e na
respeito dos mercados internacionais. Esses           Rssia czarista no final do sculo XIX. O mes-
mercados so criados geopoliticamente. E isso         mo princpio -- de que a excluso poltica
foi particularmente vlido depois da Segunda          provoca a militncia -- parece, em segundo
Guerra Mundial, quando foi criado um "sistema         lugar, explicar a incidncia de revolues no
norte-americano" cujas instituies estabiliza-       Terceiro Mundo desde 1945. As sociedades
ram o mundo avanado ao custo provvel do             centro-americanas dividem um determinado
desenvolvimento do Terceiro Mundo. Uma teo-           modo de produo, mas somente umas poucas
ria importante a respeito desses assuntos, sobre      testemunham revolues. A possibilidade de
a qual a histria ainda no estabeleceu um            participao na Costa Rica desacelera o conflito
julgamento definitivo, indica que a sociedade         social; sua ausncia na Nicargua de Somoza
capitalista necessita de um estado em posio         levou  criao de uma elite revolucionria com
de liderana para organizar o capitalismo como        apoio popular.
um todo -- isto , para fornecer uma moeda            Leitura sugerida: Aron, Raymond 1962: Paix et guer-
fundamental e para insistir no livre mercado.         re entre les nations  Gilpin, R. 1981: War and Change
Com toda a certeza, os Estados Unidos tm             in World Politics  Hall, J. e Ikenberry, J. 1989: The
desempenhado esse papel, embora seja duvido-          State  Katzenstein, P. 1985: Small States in World
so que a Gr-Bretanha um dia o tenha feito. Mas       Markets  Maier, C. 1988: In Search of Stability
uma questo to importante para o final do             Mann, M. 1988: States, War and Capitalism  Poggi,

sculo XX quanto a da liberalizao das socie-        G. 1978: The Development of the Modern State  Skoc-
                                                      pol, T. 1979: States and Social Revolutions  Tilly, C.,
dades socialistas de estado (ver SOCIALISMO)         org. 1975: The Formation of National States in Western
saber at que ponto um declnio norte-america-        Europe  Waltz, K. 1959: Man, the State and War.
no pode levar a um conflito renovado entre as                                                 JOHN A. HALL
principais potncias capitalistas.
                                                      estado de bem-estar Tendo origem na Gr-
Estados e poltica                                    Bretanha e sendo usada em geral de maneira
    Conforme se observou, os desenvolvimen-           livre, esta expresso tornou-se amplamente di-
tos polticos internos s sociedades nacionais        fundida tanto nos crculos jornalsticos quanto
resultam em geral de foras geopolticas. O que       acadmicos depois da Segunda Guerra Mun-
foi vlido para as mudanas no comportamento          dial. Visava descrever um estado que, em con-
de classe  igualmente vlido para a revoluo        traste com o "estado do vigia noturno" do scu-
social. As revolues tendem a ocorrer em re-         lo XIX, preocupado basicamente com a prote-
gimes que foram debilitados por participao          o da propriedade, ou com o "estado-potncia"
excessiva ou por efetiva derrota na guerra. As        do sculo XX, preocupado basicamente, duran-
derrocadas do estado do s elites revolucion-       te a Segunda Guerra Mundial, com a vitria
rias a sua oportunidade.                              total, utilizaria o aparato do governo para con-
    Alm disso, os cientistas sociais cada vez        ceber, implementar e financiar programas e pla-
mais percebem que a forma dos "movimentos             nos de ao destinados a promover os interesses
sociais" resulta em geral das caractersticas do      sociais coletivos de seus membros. Destruiria
estado com o qual eles interagem. Dois exem-          aquilo que William Beveridge, que no gostava
plos merecem ser observados: primeiro, as clas-       da expresso, chama de os cinco males gigan-
                                                                            estado de bem-estar    261


tes: a escassez, a doena, a ignorncia, a misria   polticas de servio social haviam sido encara-
e a ociosidade. O estado, no futuro, interviria      das at ento como programas remediadores
deliberadamente para limitar ou modificar as         para tratar aos poucos dos problemas da socie-
conseqncias da livre operao das foras de        dade, e no dos seus andares superiores, o es-
mercado em circunstncias nas quais indiv-          tado de bem-estar havia agora comeado a re-
duos e famlias fossem confrontados com con-         modelar o edifcio inteiro. O estado de bem-es-
tingncias sociais consideradas como demasia-        tar era a culminao de um longo processo que
damente fora de seu controle, em especial o          havia comeado com a afirmao dos direitos
desemprego, a doena e a velhice. Seria mais,        civis, passando pela luta pelos direitos polticos
porm, do que o que passara a ser chamado,           e terminando com a identificao e o estabele-
antes da Segunda Guerra Mundial, de um "es-          cimento de direitos sociais. Marshall acreditava
tado de servio social", pois em relao a todo      que, ao explicar a ascenso do estado de bem-
um rol convencionado de servios sociais, em         estar, era mais importante a ampliao do ideal
particular os que diziam respeito a sade e          de cidadania do que o aumento do mbito de
educao, esse estado ofereceria de forma            poder do estado.
abrangente, a todos os cidados, os melhores             Essa era uma perspectiva britnica, e a ex-
servios que estivessem disponveis, sem dis-        presso "estado de bem-estar" nem inspirou
tino de status ou classe. Atravs dos impostos,    consenso em todos os outros pases, especial-
haveria nisso, portanto, um aspecto redistribu-      mente nos Estados Unidos, nem sempre trouxe
tivo.                                                consigo ressonncias histricas agradveis, em
    As origens do estado de bem-estar podem          especial na Alemanha com sua longa histria de
remontar  criao de "servios sociais", for-       sozialpolitik. A expresso podia sempre ser usa-
necidos pelo estado, na esteira da industrializa-    da de forma tanto pejorativa quanto favorvel,
o do sculo XIX, sendo dada nfase particular      tal como acontecia com as palavras isoladas que
 Alemanha de Bismarck e  Gr-Bretanha do           a compunham -- "bem-estar" e "estado". O
incio do sculo XX. Havia obviamente muitas         conceito, no entanto, passou a ser encarado
tendncias diversas, at contrastantes, na his-      como universal fora dos pases comunistas, at
tria, incluindo o paternalismo conservador, o       mesmo em regies que no haviam passado
"novo liberalismo", o fabianismo e algumas           pelo processo de industrializao em grande
outras qualidades de socialismo e ainda, no         escala. Se por um lado o "estado de completo
menos importante, o feminismo. No entanto foi        bem-estar" no existia, escreveu Piet Thoenes,
quando se mobilizaram cidados, durante a Se-        socilogo holands, em 1962, "elementos dele"
gunda Guerra Mundial, e quando houve uma             podiam ser encontrados em "uma forma mais
estreita ligao entre o esforo de guerra e a       isolada" na Frana, na Itlia, na Alemanha Oci-
preocupao com o bem-estar, que os servios         dental e nos Estados Unidos contemporneos.
sociais deixaram de ser considerados como uma        Uma lista um pouco mais completa teria in-
forma de ajuda aos pobres. Havia tambm um           cludo a Sucia e a Nova Zelndia.
elevado grau de consenso potencial -- ento e            Durante a Segunda Guerra Mundial uma
depois da guerra -- quanto ao fato de que a          Conferncia Internacional do Trabalho realiza-
mudana era para melhor, de forma que em             da em Filadlfia observou o "desejo profundo"
1949 um manifesto do Partido Conservador             dos povos de toda parte "de se libertarem do
britnico, The Right Road for Britain, afirmava      medo da escassez", e afirmou que, depois da
que os servios constituam "um sistema coope-       guerra, a relevncia da expresso "sociedade
rativo de ajuda mtua e de auto-ajuda propor-        internacional" seria julgada "em termos de be-
cionado pelo todo da nao e destinado a pro-        nefcio e bem-estar humanos". E, seis anos
porcionar a todos o mnimo bsico de seguran-        depois, em 1950, a Organizao Internacional
a, habitao, oportunidade, emprego e padres       do Trabalho registrou que quela altura j havia
de vida abaixo dos quais somos impedidos pelo        "um movimento por toda parte" a fim de criar
nosso dever uns para com os outros de permitir       "uma nova organizao para a segurana social,
que algum desa".                                   que s pode ser descrita como um servio p-
    A defesa acadmica do estado de bem-estar        blico para os cidados no seu todo".
foi feita de modo mais incisivo pelo socilogo           J no final dos anos 50, porm, havia amplos
T.H. Marshall, o qual afirmou que, enquanto as       indcios dos problemas ligados  economia e 
262   estatstica


poltica do estado de bem-estar, bem como dos          quais os padres bsicos dos dados so obs-
princpios de crticas acadmicas ao prprio           curecidos por variaes externas que surgem de
conceito, da esquerda e da direita. Em 1951 o          fatores fora de controle, instrumentos insufi-
governo trabalhista britnico estabeleceu tetos        cientes de mensurao ou efeitos de amos-
para os gastos com o bem-estar e embutiu tri-          tragem. Os mtodos estatsticos, assim, encon-
butos nos preos de culos e dentaduras; e, em         tram um papel a desempenhar em praticamente
uma coletnea de ensaios publicados em 1958,           todos os ramos da pesquisa humana, embora
Richard Titmuss, que fizera um estudo deta-            sua importncia varie consideravelmente de
lhado sobre mudanas na poltica social brit-         acordo com o grau de quantificao que  pos-
nica na Segunda Guerra Mundial, afirmou que            svel.
os programas do ps-guerra, que no haviam                 A prpria palavra "estatstica" tem vrios
chegado a um ponto decisivo, tinham beneficia-         outros significados especficos.  usada com
do as classes mdias mais do que qualquer outro        freqncia, por exemplo, como sinnimo um
setor da sociedade.                                    tanto pretensioso de "nmeros". No singular,
    Durante os dez anos que se seguiram, a             refere-se a qualquer nmero, tal como uma
crtica tanto ao conceito quanto  prtica foi         mdia calculada a partir dos membros de uma
aguada,  medida que se destacavam questes           amostra. Tambm est ligada a uma grande
gerenciais e a base econmica de gastos com            srie de adjetivos indicando campos de aplica-
um bem-estar abrangente era ameaada. A                o, dos quais o agrcola, o biolgico, o atuarial,
ameaa transformou-se em reao durante os             o comercial e o mdico so exemplos tpicos. A
anos 70, quando a inflao fez subir as despesas       estatstica matemtica  o ramo da matemtica
e se realizaram esforos para cortar os gastos         que formaliza idias e procedimentos estats-
pblicos. O resultado foi a chamada "crise do          ticos e se preocupa particularmente com a deter-
estado de bem-estar", uma crise tanto de valores       minao dos "melhores" procedimentos.
quanto de finanas ou gerenciamento. Nas pa-               Estatstica, no sentido moderno,  uma pa-
lavras de um documento do governo britnico            lavra que no surgiu pronta, mas foi gerada a
sobre segurana social (1988), "o suprimento           partir de inmeras correntes diferentes que co-
por parte do estado desempenhou um papel               mearam a se unir por volta do sculo XIX e
importante em apoiar e sustentar o indivduo;          incio do sculo XX. Uma delas remonta s
mas no deve desestimular a autoconfiana ou           primeiras tentativas, nos tempos bblicos, de
colocar-se no caminho do suprimento ou da              "contar o povo" para fins militares, ou outros.
responsabilidade individuais".                          medida que as funes de governo se foram
    Ver tambm PLANEJAMENTO SOCIAL.                    tornando mais centralizadas e complicadas, a
                                                       necessidade de uma boa informao quantitati-
Leitura sugerida: Beveridge, W.H. 1943: The Pillars
of Security  Birch, R.C. 1974: The Shaping of the
                                                       va a respeito da "condio do povo" tornou-se
Welfare State  Clarke, J., Cochrane, A. e Smart, C.,   mais premente. No sculo XIX isso levou 
orgs. 1987: Ideologies of Welfare: From Dreams to      formao de sociedades estatsticas, em espe-
Disillusion  Jallade, J.P., org. 1988: The Crisis of   cial, em 1834, a Statistical Society of London,
Redistribution in European Welfare States  Marshall,   que se tornaria mais tarde a Royal Statistical
T.H. 1950 (1992): Citizenship and Social Class  Mi-    Society. Entre seus fundadores incluam-se pes-
shra, R. 1984: The Welfare State in Crisis: Social     soas eminentes na vida pblica, como o mar-
Thought and Action  Mommsen Wolfgang. J., org.
1981: The Emergence of the Welfare State in Britain    qus de Lansdowne, o bispo de Londres e pen-
and Germany  Thoenes, P. 1962 (1966): The Elite in     sadores como Charles Babbage e T.R. Malthus.
the Welfare State  Titmuss, R.M. 1958: Essays on the   Estavam unidos em sua preocupao de con-
Welfare State.                                         seguir fornecer informaes factuais fidedignas
                                       ASA BRIGGS      a respeito de todos os aspectos da sociedade.
                                                       Esse movimento cresceu, passando a incluir
estatstica Estatstica  a cincia de operar          estudos pblicos e privados de assuntos como
informaes quantitativas. Preocupa-se com o           a situao dos pobres, conforme descrito em
modo de como os dados devem ser coletados e            Bartholomew (1988). (Ver tambm ESTATSTICA
analisados, e com a maneira como concluses            SOCIAL.)
podem ser legitimamente tiradas dessa anlise.             A maior parte desses primeiros estudos seria
 especialmente relevante em contextos nos             hoje qualificada de estatstica descritiva, seu ob-
                                                                                     estatstica   263


jetivo principal tendo sido condensar e apresen-     portante sobre o movimento de eugenia no en-
tar os aspectos destacados de uma grande massa       tre-guerras.
de nmeros em uma forma -- geralmente qua-               A maior parte do sculo XX, no que se refere
dros ou mapas -- em que seu significado pudes-        estatstica, foi tomada pela elaborao das
se ser prontamente apreendido. Essa continuou        implicaes dessas idias seminais, num m-
sendo a espinha dorsal da estatstica oficial, mas   bito de aplicaes sempre em expanso. Uma
os aspectos metodolgicos se arrastaram at o        mudana de nfase, ligada especialmente a
advento de computadores possantes. Estes per-        Abraham Wald (1902-50) e Jerzy Neyman
mitiram que quantidades muito grandes de da-         (1894-1981), passou a encarar a inferncia co-
dos fossem manipuladas e tornaram possvel           mo uma questo de tomada de deciso diante
pela primeira vez explorar o inter-relaciona-        da incerteza e buscou incorporar as conseqn-
mento de muitas variveis diferentes. Isso          cias da ao a ser tomada na avaliao de es-
hoje encarado, s vezes, como uma atividade          tratgias de inferncia. (Ver tambm DECISO,
distinta, chamada de anlise de dados.               TEORIA DA.) L.J. Savage (1917-71), em seu
    A segunda corrente principal da estatstica      Foundations of Statistics, mais uma vez mu-
moderna tem sua origem em problemas de jo-           dou o campo, das probabilidades objetivas ex-
gos, de dados e outros, que deram origem            pressas como freqncias, para probabilidades
teoria da probabilidade no sculo XVII (ver          pessoais vistas como guias para um compor-
tambm JOGOS, TEORIA DOS). Sua relevncia            tamento coerente diante da incerteza. Seu traba-
para a interpretao de dados  que d expres-       lho foi descobrir inspirao em um teorema de
so formal  inevitvel incerteza que acompa-        Thomas Bayes (1702-61), ministro presbiteria-
nha qualquer tentativa de generalizao. Um          no do sculo XVIII cujo nome hoje se d a essa
exemplo simples e familiar do que isso significa     escola de inferncia.
 fornecido pela pesquisa de opinio. Suponha-           Se a introduo de idias de probabilidade
mos que nos digam que uma pesquisa feita entre       na estatstica marcou a primeira revoluo no
cerca de 1.500 pessoas mostra que 48%, diga-         tema, a segunda  inquestionavelmente o resul-
mos, dos pesquisados votariam pela volta do          tado do poder do computador. Este no se limi-
atual governo, caso houvesse uma eleio. Es-        tou simplesmente a permitir que conjuntos de
tamos sendo implicitamente convidados a acre-        dados muito mais amplos fossem manipulados
ditar que exatamente a mesma percentagem de          mais rapidamente, mas tem exercido um efeito
toda a populao de eleitores se comportaria         de longo alcance sobre que anlise  feita e
como essa amostra. O propsito da estatstica        quem a faz. Permitiu que pesquisadores inves-
inferencial  fornecer um quadro dentro do qual      tigassem a interdependncia de muitas vari-
essas generalizaes possam ser feitas e jus-        veis e, da, construssem modelos mais realistas
tificadas.  o equivalente formal do jogo de         de fenmenos reais, especialmente nas cincias
dados e do sorteio de membros de uma amostra,        sociais. Hoje, quando bibliotecas de softwares
o qual permite que a descrio matemtica de         de computao se encontram amplamente dis-
um processo seja aplicado ao outro (ver tam-         ponveis, os pesquisadores podem executar
bm AMOSTRA SOCIAL).                                 suas prprias anlises sem ter de recorrer aos
    O reconhecimento de que a teoria da proba-       conselhos de especialistas. Isso acabou sendo
bilidade era a chave para a deduo ou infern-      um benefcio ambguo, uma vez que no apenas
cia concretizou o elo entre a tradio descritiva    leva a que se faam anlises inadequadas como
e a inferncia, transformando a primeira em um       tambm estimula a proliferao de estudos me-
instrumento de inferncia cientfica. Sir Ronald     diocremente concebidos e um conseqente des-
Fisher (1890-1962), talvez o maior estatstico       perdcio de recursos escassos.
de todos os tempos, exemplifica essa sntese.            Muitos sistemas biolgicos e sociais evo-
Ele pde ampliar o trabalho dos que, como sir        luem no tempo com um grau acentuado de
Francis Galton (1822-1911) e Karl Pearson            acaso interno. Coisas como a mutao e a com-
(1857-1936), buscavam quantificar os proces-         petio em populaes de organismos, ou a
sos biolgicos da seleo natural e da heredita-     livre escolha de indivduos em questes como
riedade, os quais haviam sido postos em des-         compras ou eleies, tornam a evoluo desses
taque pela teoria evolucionista de Charles Dar-      sistemas uma questo altamente incerta. A teo-
win. Esse trabalho exerceu uma influncia im-        ria dos processos aleatrios foi desenvolvida
264    estatstica social


para lidar com sistemas desse tipo e o for-                notveis atravs da histria. Na Idade Mdia
necimento de mtodos estatsticos para tais sis-           havia o Domesday Book, um catlogo da pro-
temas  uma das reas mais difceis e desafia-             priedade de terras na Inglaterra feito para fins
doras da pesquisa atual.                                   de impostos por ordem de Guilherme, o Con-
    Apesar da ubiqidade da incerteza e da va-             quistador, em 1086. No sculo XVI a estatstica
riabilidade e do grau em que as idias estats-            demogrfica, descrevendo batismos e enterros,
ticas impregnaram trabalhos cientficos de to-             comeou a ser registrada nas igrejas paroquiais
dos os tipos, a influncia do pensamento estats-          da Gr-Bretanha e da Frana. No incio do
tico na cultura ocidental, de maneira mais geral,          sculo XVII a difuso do capitalismo mercantil
ainda  limitada. As escolas ensinam estatstica           favoreceu a pesquisa emprica sistemtica e
elementar, mas em geral de uma forma tcnica               estimulou a reunio de fatos demogrficos e
estreita que no consegue inculcar os modos de             econmicos a fim de informar programas go-
pensar necessrios para a vida num mundo                   vernamentais, por exemplo, determinando re-
altamente incerto. O desejo de certeza e a crena          cursos humanos e materiais disponveis para as
profundamente enraizada em um modo deter-                  foras militares e avaliando os custos do auxlio
minstico de operao no mundo so difceis de             aos pobres. No incio do sculo XIX na Gr-
erradicar. No obstante, j se pode discernir              Bretanha e na Frana, e no final desse mesmo
alguma mudana.  raro atualmente que al-                  sculo na Alemanha e na Amrica do Norte, o
gum diga, como certa vez disse Malcolm Mug-               advento do capitalismo industrial fez brotar um
geridge, jornalista de TV, que  absurdo supor             interesse renovado na coleta sistemtica de es-
que as respostas de umas poucas centenas de                tatsticas econmicas e demogrficas a fim de
pessoas possam dizer-nos o que milhes pen-                orientar as polticas de governo. Foram estabe-
sam. A experincia, se no a teoria, nos tem               lecidas agncias governamentais centralizadas
ensinado que existe um elo mensurvel entre o              para coordenar a coleta do que hoje  conhecido
que descobrimos numa amostra, feita de forma               como estatstica oficial. Por exemplo, o General
adequada, e a populao da qual provm essa                Register Office, para o registro civil de estats-
amostra. Os cientistas lamentam com freqn-               ticas demogrficas, foi criado em Londres em
cia que, embora os frutos da pesquisa cientfica           1836 (Nissel, 1987). ( hoje conhecido como
estejam sendo desfrutados por toda parte, a                Office of Population Censuses and Surveys,
maneira de pensar que lhes d origem ainda                OPCS.) Outros pases ocidentais instituram
estranha para a vasta maioria -- conforme de-              agncias semelhantes durante o sculo XIX, e
monstra a predominncia da superstio e do                os censos nacionais por decnios tiveram incio
interesse pelo oculto. Os estatsticos no esto           mais ou menos no mesmo perodo.
numa situao melhor, e a sociedade  que mais                 Alm dos registros do estado, a estatstica
se prejudica por no conseguir apreender e divul-          social pode ser coletada por meio de uma AMOS-
gar as percepes que a estatstica proporciona.           TRA SOCIAL. Essas amostras foram muitas vezes

Leitura sugerida: Clogg, C.C. 1992: "The impact of
                                                           os instrumentos dos reformadores sociais. Por
sociological methodology on statistical methodology".      exemplo, a burguesia do sculo XIX, em diver-
Statistical Science 7  Federer, W.T. 1991: Statistics      sos pases, preocupada com o destino da recm-
and Society, 2ed.  Kotz, S., Johnson, N.L. e Read,        urbanizada classe operria industrial e com sua
C.B., orgs. 1988: Encyclopedia of Statistical Sciences,    prpria posio na sociedade, formou socie-
9 vols.  Pearson, E.S, org. 1978: The History of Statis-   dades estatsticas. Seus propsitos eram organi-
tics in the 17th and 18th Centuries  Sprent, P. 1988:
Taking Risks: the Science of Uncertainty  1988: Un-
                                                           zar amostragens em grande escala e publicar
derstanding Data  Stigler, S.M. 1986: The History of       peridicos eruditos em apoio s reformas que,
Statistics: the Measurement of Uncertainty before 1900.    acreditavam, estabilizariam a sociedade. Uma
                                  D.J. BARTHOLOMEU         segunda fase de amostras sociais patrocina-
                                                           das pelo setor privado teve incio na Inglaterra
estatstica social Essas compilaes de in-                durante a depresso econmica do final do s-
formao quantificada a respeito de pessoas,               culo XIX, com o fim de documentar os nveis
populaes, propriedades e assim por diante                de pobreza entre os habitantes das cidades. A
tm origem muito recuada no tempo. Os aspec-               amostragem feita por Charles Booth dos pobres
tos de contagem e registro do mundo social                 de Londres na virada do sculo  de todas essas
comearam na Antigidade e existem exemplos                a mais conhecida (Booth, 1892-97). A ela se
                                                                                               esttica   265


seguiram muitas mais que se foram tornando                  esteretipo Ver ROTULAO.
pouco a pouco tecnicamente mais sofisticadas
tanto no uso de amostragens quanto de ESTATS-              esttica Em seu sentido moderno, a esttica
TICA inferencial, a fim de generalizar os resul-             mais freqentemente compreendida como
tados para as populaes mais amplas das quais              uma disciplina filosfica que  uma filosofia
eram tiradas as amostragens, bem como no uso                dos fenmenos estticos (objetos, qualidade,
de tcnicas multivariadas para determinar as                experincias e valores), uma filosofia da arte
magnitudes das relaes entre os fatores inves-             (da criatividade, da obra de arte e da sua per-
tigados, como a influncia de idade e sexo sobre            cepo), uma filosofia da crtica da arte tomada
o voto. Na Gr-Bretanha, o estado tambm                    de maneira ampla (metacrtica) ou, por fim,
comeou a realizar amostras sociais de amplo                uma disciplina que tem uma preocupao filo-
alcance, com o que  hoje a Social Survey                   sfica com todas essas trs esferas conjunta-
Division da OPCS surgindo da Amostra Social                 mente.
de Guerra estabelecida durante a Primeira                       A reflexo esttica  muito mais antiga do
Guerra Mundial.                                             que a expresso em si mesma. A histria da
    As crticas  estatstica social so de dois tipos.     esttica ocidental comea geralmente com Pla-
Primeiro, crticas tcnicas sobre a qualidade dos           to, cujos textos contm uma reflexo sistem-
dados registrados e o modo com que estes so                tica sobre a arte e uma teoria especulativa so-
apresentados. Por exemplo, a mensurao da ren-             bre o belo. Nem Plato nem seu grande dis-
da das pessoas deveria basear-se em suas declara-           cpulo Aristteles, porm, trataram conjunta-
es para o imposto, quando se sabe que existe              mente desses dois grandes temas da esttica.
uma substancial economia paralela de ganhos                     A palavra "esttica" foi introduzida na filo-
no-declarados, e deveria a mdia de renda ser              sofia apenas em meados do sculo XVIII por
apresentada utilizando-se o modo ou a mdia?                um filsofo alemo, Alexander Gottlieb Baum-
    Segundo, h crticas dizendo que um status              garten (1714-62). Discpulo de Christian Wolff
esprio, cientfico ou objetivo,  atribudo               (1679-1754), seguidor de Leibniz, Baumgarten
estatstica social simplesmente porque se trata             concluiu que o sistema de disciplinas filosfi-
de nmeros (Irvine, Miles e Evans, 1979). Essas             cas estava incompleto e exigia uma cincia
crticas afirmam que, s porque a estatstica               paralela  lgica, a qual era uma cincia de
social  quantitativa, no se deve esquecer que             cognio clara e organizada atingida pelo in-
 um produto, sendo influenciada pelos mto-                telecto. A nova cincia deveria ser a esttica,
dos de produo e pelos interesses dos que a                uma cincia da cognio clara e confusa, reali-
produzem, tal como qualquer outra criao so-               zada pelos sentidos. Esse ponto de vista foi
cial. A informao numrica no  mais neutra               expresso pela primeira vez por Baumgarten em
nem livre da opinio poltica do que as explica-            sua tese Meditationes philosophicae de nonnu-
es mais qualitativas do mundo social.                     lis ad poema pertinentibus (de 1735) e, de
    A lio a se tirar dessas crticas  que  fcil        forma conclusiva, 15 anos depois, em sua Aes-
mentir com estatsticas sociais (Huff, 1954), e elas        thetica.
devem portanto ser avaliadas com cautela, per-                  Contrariando as expectativas que a palavra
guntando-se como os aspectos do mundo social                aesthetica poderia indicar (do grego aistheticos
que elas registram foram definidos e medidos.               = perceptivo), essa obra no se ocupava da
                                                            teoria da cognio sensorial, tratando em vez
Leitura sugerida: Abrams, P. 1968: The Origins of           disso da teoria da poesia (e, indiretamente, de
British Sociology  Bulmer, M., org. 1985: Essays on         todas as artes) como uma forma de cognio
the History of British Sociological Research  Lazars-       sensorial para a qual o principal objeto da per-
feld, P.F. 1961: "Notes on the history of quantification    cepo  o belo. A combinao das duas -- a
in sociology: trends, sources and problems". Isis 52,
277-333  Oberschall, A, org. 1972: The Establishment        reflexo sobre a arte e a reflexo sobre o belo
of Empirical Sociology: Studies in Continuity, Discon-      -- definiu o posterior desenvolvimento desse
tinuity and Institutionalization  Shaw, M. e Miles, I.      recm-surgido ramo da filosofia, mas isso aca-
1979: "The social roots of statistical knowledge". In       bou se tornando a fonte tanto de suas realiza-
Demystifying Social Statistics, org. por J. Irvine, I.      es quanto de suas incessantes dificuldades
Miles e J. Evans  Slattery, M. 1986: Official Statistics.   tericas e metodolgicas. Sem dvida foi um
                                   PETER HALFPENNY          acontecimento de significao histrica, mar-
266   esttica


cando o incio de um novo perodo no desen-           Simon Lesser). Entre outras evolues, inclu-
volvimento da filosofia da arte, em particular        ram-se a esttica matemtica (George Birkhoff
por ter coincidido com a concluso da antiga          e Max Bense), a esttica da informtica (Abra-
busca pelo denominador comum de todas as              ham Moles), a esttica semitica e semiolgica
artes, alcanada por um terico da arte francs,      (Charles Morris, Umberto Eco, Yuri Lotman) e
Charles Batteux, em seu Trait des beaux arts         a esttica sociolgica (J.M. Guyau, P. Francas-
rduit  un mme principe (em 1746). Batteux          tel, Pierre Bourdieu, Janet Wolff). No domnio
reconheceu o aspecto comum das artes e a              filosfico, o projeto de criar uma esttica cien-
beleza prpria a todas elas que, portanto, po-        tfica foi introduzido por Etienne Souriau e
diam ser chamadas de beaux arts (belas-artes).        Thomas Munro. A esttica, porm, no deixou
    O nome esttica levou algum tempo para ser        de ser um ramo da filosofia.
aceito. Immanuel Kant (1724-1804) comeou                 Desde a virada do sculo tem havido um
com uma crtica a Baumgarten por sua falta de         interesse crescente nas dificuldades metodol-
consistncia e, na sua Crtica da razo pura (de      gicas da esttica, a qual comeou a levar em
1781 e 1787), utilizou a expresso "esttica          conta dvidas e argumentos dirigidos contra
transcendental", significando uma cincia filo-       seu status cientfico e o prprio sentido de se
sfica da percepo sensorial. No entanto, em         criarem teorias estticas. Nesse ponto, so de
sua Crtica do juzo (de 1790), ele utilizou a        relevncia particular as idias ainda populares
palavra esttica para definir a reflexo sobre        de Max Dessoir (1906) e Emil Utitz (1914-20).
beleza e juzos de GOSTO. O significado tradi-        Esses pensadores introduziram uma distino
cional de esttica tornou-se popular no sculo        entre esttica e uma cincia geral da arte, enfa-
XIX pela influncia de Hegel (1770-1831), cu-         tizando que as duas disciplinas se cruzam, mas
jas palestras sobre a filosofia das belas-artes, em   no se sobrepem: as funes da arte no po-
1820-9, foram publicadas postumamente como            dem ser reduzidas a funes estticas apenas,
Vorlesungen ber die sthetik (em 1835).              enquanto que os mritos estticos podem ser
    Kant, Schelling e Hegel foram os primeiros        encontrados em objetos que no so absoluta-
filsofos de destaque para os quais a esttica        mente obras de arte, tais como fenmenos na-
constitua uma parte inerente de seus sistemas        turais e produtos extra-artsticos feitos pelo ho-
filosficos. Para Kant, esttica era antes de tudo    mem. Eles afirmam tambm que a cincia geral
a teoria do belo, do sublime e dos juzos es-
                                                      da arte difere metodologicamente da esttica
tticos. Para Hegel, esttica era principalmente
                                                      e deveria evoluir para um ramo independente,
a filosofia das belas-artes. Os dois modelos
                                                      fora da filosofia. A esttica tambm deveria
de plasmar a esttica, ou como uma filosofia
                                                      ultrapassar as fronteiras da filosofia e utilizar
do belo (mais tarde dos valores estticos) e da
experincia esttica, ou como uma filosofia           bem mais os resultados produzidos por outras
da arte, tornaram-se predominantes na es-             cincias, em particular a psicologia e a socio-
ttica do sculo XIX e do incio do sculo            logia (ver tambm SOCIOLOGIA DA ARTE).
XX. O mais freqente era as duas variantes                O primeiro esteta que no apenas sistemati-
serem reunidas, sendo os resultados bastante          zou as objees contra a esttica, mas tambm
diversificados.                                       tentou super-las, foi Edward Bullough em suas
    No decorrer dos anos, porm, a idia da           palestras de 1907 sobre "a concepo moderna
esttica como filosofia da arte pareceu tornar-se     de esttica" (in Bullough, 1957). Ele organizou
mais popular. No sculo XIX houve a primeira          as objees levantadas contra a esttica em dois
tentativa de se ir alm da filosofia nas con-         grupos: populares e tericas, ambos os tipos
sideraes estticas e criar uma esttica cien-       sendo redutveis s afirmativas de que:
tfica. Em seu Vorschule der Aesthetik, de 1876,          1. As tentativas de se criar uma teoria de
o psiclogo alemo Gustav Theodor Fechner                     fenmenos to especficos, relativos,
tentou criar uma esttica experimental sobre a                subjetivos e mutveis quanto beleza,
base da psicologia, e o sculo XX tambm                      efeitos estticos e o prazer e desprazer
testemunhou uma tentativa de se criar uma                     a eles relacionados, so fteis. Esses
esttica psicolgica pelos representantes da psi-             fenmenos no podem ser racionaliza-
cologia da Gestalt (Rudolf Arnheim e Leonard                  dos e verbalizados, s podem ser vi-
Meyer) e da psicologia profunda (Ernst Kris e                 venciados.
                                                                                         esttica   267


    2. As definies de belo e outros fenme-        que no podem ser definidos. Em segundo lu-
         nos estticos so excessivamente abs-       gar, os representantes da esttica tradicional
         tratas e gerais e, assim, completamente     deixaram escapar uma outra verdade bsica, de
         inteis e praticamente desnecessrias.      que toda obra de arte  valorizada em seu carter
         No ajudam ningum a desfrutar da be-       nico e por sua originalidade irrepetvel, no
         leza e da arte.                             havendo lugar, portanto, para nenhuma regra
    3. Tanto os artistas quanto os entusiastas       geral de criao e avaliao de tal obra. Os
         da arte ficam preocupados e aborrecidos     estetas, porm, foram persistentes nas suas ten-
         com o fato de regras de criao e percep-   tativas de descobrir ou de estabelecer essas
         o serem definidas e impostas aos ar-      regras gerais, ainda que qualquer generalizao
         tistas e ao pblico, e ainda por cima       a respeito de arte seja dbia e injustificada. Os
         apresentadas com um pedantismo              argumentos dos estetas eram anlogos aos da
         absurdo e insolente.                        tica, mas qualquer analogia demonstrava ser
                                                     enganosa. Na tica, as generalizaes so pos-
    A obra de Bullough foi a primeira autocrtica
                                                     sveis e necessrias, enquanto que na esttica a
que resumiu as efetivas dificuldades metodol-
                                                     situao  bem diversa. "Quando, em esttica,
gicas internas da esttica e as objees vindas
                                                     se passa do particular para o geral, o que se est
de fora, as quais, embora nem sempre plena-
                                                     fazendo  viajar na direo errada" (S. Hamp-
mente justificadas, no deixavam de ter alguma
                                                     shire in Elton, 1954). Em terceiro lugar, a es-
razo.
                                                     ttica seguiu a filosofia no pressuposto errneo
    Segundo Stefan Morawski (1987), a obra de        de que os fatos podem ser desvendados e in-
Bullough deu incio ao terceiro perodo na his-      terpretados, enquanto que, na verdade, sua ta-
tria da esttica, o perodo de autoconhecimen-      refa adequada no  desvendar os fatos, mas
to crtico do seu status de pesquisa e do desen-     esclarecer os significados das palavras. Pala-
volvimento da sua auto-reflexo metodolgica.        vras, conceitos e expresses so usados de in-
Esse processo atingiu o auge em 1954, com a          meras maneiras, nem sempre apropriadas. Uma
publicao da famosa antologia de W. Elton,          soluo de problemas filosficos consiste em
Aesthetics and Language, e dos igualmente fa-        reconhecer como certas palavras so usadas
mosos ensaios de M. Weitz, "The role of theory       apropriadamente. O problema bsico da es-
in aesthetics" (1956), e de W.E. Kennick, "Does      ttica no  responder  pergunta "O que  a
traditional aesthetics rest on a mistake?"           arte?", mas "Que tipo de conceito  `arte'?"
(1958), que continuaram e desenvolveram as           (Weitz).
idias lanadas na coletnea de Elton. Essas trs        A crtica da esttica pela filosofia analtica,
obras foram, por sua vez, inspiradas pelas idias    porm, no resultou na morte da esttica nem
de Wittgenstein em Investigaes filosficas         numa vitria duradoura do minimalismo cog-
(1953), e criticavam a esttica filosfica tradi-    nitivo ou no abandono de novas tentativas de
cional, de maneira penetrante e profunda, por        criar uma teoria da arte. Seria possvel at de-
sua falta de preciso lingstica, vacilao con-    fender o ponto de vista de que a crtica anties-
ceitual e pressupostos tericos e metodolgicos      sencialista da esttica resultou em sua recupera-
errneos, que ficavam mais evidentes nas ten-        o e retomada de interesse nos anos 70 e 80.
tativas fracassadas de criar uma teoria filosfica   Ao mesmo tempo, porm, a esttica continuou
da arte. Pressupostos errneos levavam natural-      a ser criticada de fora e os estetas continuaram
mente ao fracasso das teorias filosficas da arte    com sua auto-reflexo metodolgica, o que em
at ento propostas.                                 parte respondia  crtica externa e em parte
    O primeiro pressuposto errneo identificado      resultava das necessidades inerentes da esttica.
foi a alegao essencialista de que a arte possui    No obstante, os estetas rejeitaram todas as
uma natureza universal, ou uma essncia abso-        objees bsicas articuladas pelos filsofos
luta, que  tarefa da esttica entender e definir.   analticos. A esttica deve e na verdade pode ser
A arte, afirmava-se agora,  um fenmeno in-         praticada com maior preciso lgica e lings-
cessantemente mutvel, ao qual falta uma es-         tica, mas ao mesmo tempo no pode ser redu-
sncia universal, e as noes de "arte", "obra de    zida  anlise de conceitos e dos modos como
arte", "experincia esttica" e assim por diante     estes so usados. Nesse respeito, a situao
so, portanto, conceitos abertos (Weitz, 1959),      da esttica no diverge substancialmente da
268   esttica


de outros ramos das humanidades.  um equ-              Um nmero considervel de dvidas e reser-
voco aplicar  esttica as exigncias aplicadas      vas a respeito da esttica se repete. Existem
 cincia ou  matemtica. Alm disso, mesmo         tambm novas crticas surgidas no decorrer do
nas cincias naturais no existe nenhum para-        desenvolvimento da cultura moderna e em par-
digma nico e universal de exatido cientfica.      ticular da arte de vanguarda, da cultura de massa
     preciso dar-se conta de que quaisquer          e da comunicao de massa. A crtica recente
generalizaes com respeito a fenmenos to          tem dois aspectos principais. Em primeiro lu-
diversos e mutveis quanto a arte e a experin-      gar, as reservas maiores ainda dizem respeito ao
cia esttica so muito arriscadas, mas no h        status da esttica como campo de pesquisa. Os
necessidade de abandonar por completo essas          crticos afirmam que a esttica  cognitivamen-
generalizaes. Evitar definies essencialistas     te ftil, anacrnica e inadequada, e seus mto-
e anti-histricas da esttica tradicional no sig-   dos antiquados e baseados em princpios meto-
nifica abandonar as tentativas de criar uma teo-     dolgicos inadequados. Conseqentemente,
ria da arte e dos fenmenos estticos. Con-          mesmo que tenha feito algum sentido no pas-
sideraes normativas que ameaam a liber-           sado, a esttica parece ser completamente im-
dade de criao e que so notoriamente atribu-      potente diante das mais recentes manifestaes
das  esttica no so de forma alguma carac-        de vanguarda na arte e dos fenmenos mais
tersticas da esttica, ocorrendo com muito          significativos de cultura de massa. Ela ento os
maior freqncia na crtica da arte.  verdade,      ignora (uma atitude desqualificante), ou tenta
porm, que a maioria das teorias estticas efe-      descrev-los, interpret-los e avali-los usando
tivamente contm elementos de avaliao.             seus mtodos e categorias tradicionais e abso-
Tambm a, porm, os aspectos axiolgicos so        lutamente irrelevantes, o que leva a seu fracasso
tpicos de qualquer disciplina e formam uma          e humilhao.
parte orgnica da cognio; no podem nem                Esse modo de crtica pode ser encontrado
devem ser eliminados da cincia. Ao mesmo            nos ensaios de T. Binkley, em The Art of Time
tempo  possvel criar teorias da arte puramente     (1969), de Michael Kirby, e nas obras mais
descritivas (Dickie, 1971).                          recentes de Stefan Morawski. Kirby afirma que
    Ao rejeitar a crtica abrangente da esttica     a esttica filosfica tradicional deveria ser dei-
por parte dos filsofos analticos, os prprios      xada de lado em favor de uma esttica histrica
estetas periodicamente tomam nota de crticas        ou situacional. Binkley alega que a esttica
e reservas dirigidas contra sua disciplina e ex-     poderia sobreviver se reduzisse o mbito de
pressam suas prprias dvidas quanto a seu           seus interesses a uma reflexo sobre os fenme-
status de pesquisa. Na maioria dos casos, po-        nos estticos e abandonasse a criao de teorias
rm, eles defendem seu valor, embora alguns          da arte, uma vez que a esttica no pode explicar
prefiram busc-lo de uma forma total ou par-         a arte de vanguarda, a qual, como tal, rejeita o
cialmente modificada. Vale a pena destacar pelo      paradigma esttico de arte, caso continue pre-
menos trs tentativas de equilibrar os argumen-      sumindo que a natureza da arte  esttica. Mo-
tos pr e contra apresentados pelos prprios         rawski afirma que a esttica est em declnio
estetas nas trs ltimas dcadas.                    no somente devido  arte de vanguarda, mas
    A primeira foi feita em 1960 por Jerome          tambm porque a arte "perdeu parte da sua
Stolnitz em Aesthetics and Philosophy of Art         relevncia e a continuao de sua existncia
Criticism (p.7-19). A segunda, por Stefan Mo-        est ameaada". A esttica, ento, deveria dar
rawski em duas obras publicadas em polons           lugar ou a uma "poitica", como a teoria da
(1973, 1987). As concluses de Morawski, po-         criatividade, ou  antiesttica, compreendida
rm, divergem nas duas obras; na primeira, ele       em termos de "uma reflexo crtica sobre a crise
defende a relevncia da esttica, enquanto na        da cultura e da arte do nosso tempo" (1987,
outra abandona essa defesa e afirma que ela          p.77). No  a metodologia a responsvel pelo
hoje se encontra em declnio. O terceiro autor       declnio da esttica;  a desintegrao do seu
que relacionou as objees levantadas e de-          principal objeto: a arte.
fendeu a esttica contra elas  Gran Her-               A esttica, porm,  criticada no apenas por
meren, que dedicou o ltimo captulo de seu          sua impotncia diante da arte de vanguarda,
Aspects of Aesthetics (1983, p.224-60) a essa        mas tambm devido s atitudes a-histricas, s
questo.                                             "aspiraes  totalidade" (Werckmeister,
                                                                               estratgicos, estudos   269


1971), ao essencialismo e  criao de regras            estratgicos, estudos Dedicados ao papel
abstratas, independente do fato de que a "arte          do poder militar na poltica internacional, os
uma sndrome dinmica" (Adorno, 1984) e de               estudos estratgicos podem concentrar-se em
que a prpria arte e sua percepo so produzi-          microquestes relacionadas ao desenvolvimen-
das por um processo histrico (Bourdieu, 1979).          to das foras armadas, sua escolha e obteno
Se a esttica quer sobreviver, tem de se transfor-       de equipamento, e tambm em macroquestes,
mar e tornar-se uma esttica dialtica (Adorno) ou       tais como a eficincia do poder militar, em
uma esttica sociolgica (Bourdieu).                     comparao com os meios econmicos e diplo-
    O outro tipo de argumento contra a esttica          mticos, na consecuo dos objetivos dos es-
consiste em afirmar que ningum precisa real-            tados. A nfase principal  na distribuio e
mente dela. A esttica no ajuda os receptores           emprego de meios militares para alcanar os
comuns da arte moderna a encontrarem seu                 fins da poltica. Isso inclui a dissuaso da guer-
caminho no caos dos fenmenos artsticos mais            ra, o reforo de alianas e o envolvimento em
recentes. Algum que tenha um interesse srio            negociaes de controle armamentista, tanto
em esttica faria melhor reportando-se a obras           quanto a conduo da guerra. O que implica
sobre a histria e a teoria de esferas particulares      examinar no apenas que atividades militares
da arte, ou sobre a psicologia da arte, a sociolo-       poderiam apoiar naturalmente objetivos par-
gia da arte, a filosofia da CULTURA, a teoria da         ticulares, mas tambm como os fins podem
comunicao de massa, a semitica e assim por            precisar ser alterados para estar de acordo com
diante.                                                  os meios militares disponveis, alm de exami-
     difcil prever o futuro da esttica. As teses      nar as conseqncias inesperadas.
a respeito de sua morte ou declnio, porm, so              Os estudos estratgicos tm um carter in-
to frgeis quanto as teses sobre a morte ou o           terdisciplinar e, no perodo do ps-guerra, se
declnio da arte. Mas a esttica tem de mudar,           beneficiaram das contribuies tanto da eco-
levando em conta as transformaes do seu                nomia quanto da engenharia, bem como das
objeto e as realizaes de outras disciplinas            contribuies mais previsveis da histria e
preocupadas com a arte e com os fenmenos                da poltica. Tm tambm um carter inevita-
estticos. Talvez se devesse retornar  idia de         velmente aplicado, no sentido de que grande
duas disciplinas, na veia de Dessoir e Utitz: a          parte, ainda que no a totalidade, do trabalho
filosofia da arte e a filosofia dos valores e            nesse campo tenha sido realizada de forma
experincias estticos. No h dvida, porm,            deliberada para influenciar ou apoiar polti-
de que o desenvolvimento da psicologia, da               cas nacionais.
sociologia, da semitica e de outras disciplinas             O ponto de partida intelectual para a maior
que se ocupam da arte no erradica os proble-            parte do pensamento sobre estratgia  a obra
mas estritamente filosficos (axiolgicos, me-           clssica de Carl von Clausewitz, Sobre a guer-
todolgicos, cognitivos e ontolgicos) da arte e         ra, que enfatizava a importncia de se encarar
dos fenmenos estticos. Essa  a inquestio-             a guerra como uma continuao da poltica.
nvel raison d'tre da esttica.                         Desde ento muitos o seguiram na tentativa de
    Ver tambm FILOSOFIA DA LINGUAGEM;                   desenvolver uma teoria sistemtica que servisse
MODERNISMO E PS-MODERNISMO.                             de apoio ao desenvolvimento da estratgia na
                                                         prtica. No sculo XX um terico predominan-
Leitura sugerida: Adorno, Theodor W. 1984: Aes-
thetics Theory  Barrett, Cyril, org. 1965: Collected     te foi Basil Liddell Hart. At a era nuclear,
Papers on Aesthetics  Beardsley, Monroe 1958: Aes-       houve pouco trabalho erudito nessa rea. O
thetics: Problems in the Philosophy of Criticism  El-    desafio colocado aos conceitos tradicionais de
ton, William, org. 1954: Aesthetics and Language  In-    poder militar com o advento de meios de des-
garden, Roman 1985: Selected Papers in Aesthetics        truio macia, numa poca de grave antago-
 Margolis, Joseph, org. 1987: Philosophy Looks at the
                                                         nismo LesteOeste, acabou sendo um estmulo
Arts  Shusterman, Richard, org. 1989: Analytic Aes-
thetics  Sparshott, Francis 1963: The Structure of
                                                         ao desenvolvimento intelectual da teoria es-
Aesthetics  Tatarkiewicz, W. 1970-4: History of Aes-     tratgica. Grande parte disso se realizou nos
thetics, 3 vols.  Werckmeister, Otto 1971: Ende der      Estados Unidos, incluindo o trabalho em think
sthetik  Wolff, Janet 1983: Aesthetics and the Socio-   tanks como a Rand Corporation; houve traba-
logy of Art.                                             lhos no International Institute of Strategic Stu-
                               BOHDAN DZIEMIDOK          dies, na Gr-Bretanha, e tambm estudos im-
270    estratificao social


portantes por parte de eruditos isolados, entre           graduada dos indivduos com base no controle
eles Raymond Aron (1962).                                 que tm sobre esses recursos, a abordagem
   Considerada a necessidade de se evitar a               escolhida pela maioria dos estudiosos  iden-
catstrofe de uma guerra total, "dissuaso" tor-          tificar um conjunto de "classes sociais", ou
nou-se o conceito crtico. As teorias sobre dis-          "estratos sociais", que reflita as divises mais
suaso abordaram questes tais como se seria              importantes da populao. A funo da pes-
possvel dissuadir atravs da mera ameaa de              quisa de estratificao  especificar a forma e
que um conflito pudesse fugir completamente               os contornos desses grupamentos sociais, des-
ao controle, atravs do fenmeno da "escala-              crever os processos atravs dos quais se faz a
da", ou se quaisquer ameaas visando  dis-               alocao dos indivduos em diferentes resultados
suaso deveriam ser secundadas por opes                 sociais (ver MOBILIDADE SOCIAL) e revelar os me-
militares verossmeis, e ainda, se fosse esse o           canismos institucionais por meio dos quais so
caso, se ataques nucleares punitivos pode-                geradas e mantidas as desigualdades sociais.
riam de alguma forma ser factveis se o inimi-
go tivesse a capacidade de retaliar  altura. A           Formas de estratificao
anlise dessas questes inicialmente fez uso                  Tornou-se convencional entre os tericos
substancial de metodologias como a TEORIA                 contemporneos estabelecer uma diferenciao
DOS JOGOS. Os anos mais recentes tm testemu-             entre os "sistemas de classe" modernos e as
nhado uma nfase maior na anlise poltica,              "posies", ou "castas", originalmente encon-
medida que foi ficando mais patente que no               tradas em sociedades agrcolas adiantadas (ver
existem remdios tcnicos para os dilemas b-             Mayer e Buckley, 1970; Svalastoga, 1965).
sicos da dissuaso nuclear e que os levantes nos          Neste verbete, o quadro apresentado adiante
antigos pases do Pacto de Varsvia, na Europa            define essas formas de estratificao em termos
Oriental, alteraram as questes bsicas da se-            de suas vantagens fundamentais (coluna 1), de
gurana europia.                                         seus grupamentos sociais mais importantes (co-
   Os conceitos inicialmente desenvolvidos                luna 2) e da estrutura de suas oportunidades de
para a considerao da estratgia nuclear tam-            mobilidade (coluna 3). Deve-se ter sempre em
bm foram aplicados  estratgia convencional.            mente,  claro, que os sistemas acima sero
Isso no teve pleno sucesso, na medida em que             mais bem encarados como "tipos ideais" do que
os conflitos em questo tenderam a ser muito              como descries de sociedades existentes (We-
mais complexos do que se supunha na esfera                ber, 1921-22). De fato, os sistemas de estratifi-
nuclear. H tambm uma tradio vigorosa e                cao das sociedades humanas so complexos
distinta de teorizao sobre a guerra de GUERRI-          e multidimensionais, no mnimo porque as for-
LHA, incluindo o estudo de figuras como T.E.              mas institucionais de seu passado tendem a
Lawrence e Mao Ts-tung.                                  "sobreviver" em conjuno com formas novas
   Ver tambm GUERRA.                                     e emergentes (ver Wright, 1985, para uma tipo-
                                                          logia relacionada; ver tambm Lenski, 1966;
Leitura sugerida: Aron, Raymond 1962: Paix et guer-       Runciman, 1974).
re entre les nations  Baylis, John et al. 1987: Contem-
porary Strategy, 2 vols.  Clausewitz, Carl von 1832
                                                              A primeira linha do quadro relaciona alguns
(1976): On War  Freedman, Lawrence 1989: The Evo-         dos princpios bsicos subjacentes s castas
lution of Nuclear Strategy, 2ed.  Liddell Hart, B.H.     tnicas (ver CASTA). Como se indica na coluna
1967: Strategy: The Indirect Approach  Paret, Peter,      1, as castas da ndia podem ser classificadas de
org. 1986: Makers of Modern Strategy: from Machia-        acordo com um continuum de pureza tnica,
velli to the Nuclear Age.                                 ficando as posies mais elevadas dentro do
                               LAWRENCE FREEDMAN          sistema reservadas s castas que probem ativi-
                                                          dades ou comportamentos considerados "cons-
estratificao social Em todas as socieda-                purcadores" (tais como comer carne ou varrer
des complexas, o suprimento total de recursos             ruas). Em sua forma tpica-ideal, um sistema de
valorizados  distribudo desigualmente, com              castas no d espao a qualquer tipo de mobi-
os indivduos ou famlias mais privilegiados              lidade individual (ver linha 1, coluna 3); a crian-
desfrutando de um volume desproporcional de               a recm-nascida recebe em carter permanente
propriedade, poder ou prestgio. Embora fosse             a filiao de casta de seus pais. Embora um
possvel construir uma exaustiva ordenao                sistema de castas desse tipo seja visto geralmen-
                                                                                estratificao social   271


te como o "caso limite" de estratificao,         Fontes de estratificao
preciso observar que os sistemas feudais (ver           O anteriormente esboado deixa claro que
FEUDALISMO) tambm se baseiam em um rgido
                                                    surgiu, no decorrer da histria humana, toda
sistema de grupos quase hereditrios (ver linha     uma srie de sistemas de estratificao. Natu-
2, coluna 3). O aspecto distintivo do feudalismo    ralmente, ento, a questo que se coloca  se
 a instituio da servido pessoal (Bloch,
                                                    alguma forma de estratificao seria uma carac-
1940); isto , os servos eram obrigados a viver
                                                    terstica inevitvel das sociedades humanas. Ao
em uma propriedade feudal e a pagar aluguis
                                                    abordar essa questo,  til comear com a
de vrios tipos (por exemplo, a "corvia"), uma
                                                    anlise funcional de Davis e Moore (1945), uma
vez que o senhor feudal detinha os direitos
legais  sua fora de trabalho. Se um servo fugia   vez que nela vamos encontrar um esforo ex-
para a cidade, isso no passava de uma forma        plcito para compreender "a necessidade uni-
de roubo; o servo estava roubando uma poro        versal que provoca estratificao em qualquer
de fora de trabalho que pertencia a seu senhor     sistema social" (p.242; ver tambm Davis,
(Wright, 1985, p.78). Seria possvel dizer, en-     1953; Moore, 1963). O ponto de partida para
to, que a "fora de trabalho" era uma das          essa abordagem  a premissa de que todas as
vantagens principais em um sistema feudal (ver      sociedades devem criar alguns meios de moti-
linha 2, coluna 1).                                 var seus trabalhadores mais competentes a pre-
    A evoluo de maior impacto da era moder-       encher as funes mais difceis e importantes.
na foi o surgimento das ideologias igualitrias     Esse "problema de motivao" pode ser abor-
(ver linha 3). Isso pode ser observado, por         dado em toda uma variedade de formas, mas a
exemplo, nas revolues dos sculos XVIII e         soluo mais simples  criar uma hierarquia
XIX, em que os ideais da Ilustrao foram           de recompensas (tais como prestgio, proprie-
dirigidos contra os privilgios hierrquicos e o    dade, poder) que privilegie os encarregados
poder poltico da aristocracia. No final, essas     de tarefas funcionalmente importantes. Con-
lutas eliminaram os ltimos resduos de privi-      forme observado por Davis e Moore (1945,
lgio feudal, mas tambm tornaram possvel o        p.243), isso representa estabelecer um sis-
surgimento de nova formas de desigualdade e         tema de desigualdade institucionalizada (um
estratificao. Costuma-se afirmar que no pri-      "sistema de estratificao"), com a estrutura
meiro perodo industrial se desenvolveu um          de tarefas servindo como um conduto atravs
"sistema de classes", sendo os estratos prin-       do qual se distribuem recompensas e privil-
cipais desse sistema definidos em termos pre-       gios. Segue-se que o sistema de estratificao
dominantemente econmicos. Existe,  claro,         pode ser encarado como um "mecanismo que
uma controvrsia considervel quanto aos con-       evoluiu inconscientemente e por meio do
tornos e fronteiras dessas classes econmicas       qual as sociedades garantem que as posies
(ver adiante). Conforme indicado na linha 3, um     importantes sejam conscientemente preen-
modelo simples ao estilo de Marx poderia con-       chidas pelos indivduos mais qualificados"
centrar-se na diviso entre capitalistas e oper-   (ibid.).
rios, enquanto outros modelos representam a
estrutura de classes como uma gradao con-          Vantagens maiores, estratos principais e processo de
tnua de "riqueza e renda monetrias" (Mayer e       mobilidade para trs formas de estratificao social
Buckley, 1970, p.15). A questo importante,
porm,  que essas posies em um sistema                             Vantagens      Estratos Processo de
de classes so distribudas de maneira formal-       Sistema de        maiores      principais mobilidade
                                                    estratificao       (1)            (2)       (3)
mente competitiva (ver linha 3, coluna 3).
Embora os resultados de levantamentos con-          1 Sistema        Pureza       Castas       Hereditrio
temporneos indiquem que as profisses so            de castas      tnica
freqentemente "passadas adiante" de pais
                                                    2 Sistema        Terra e      Reis,        Hereditrio
para filhos (Goldthorpe, 1980), isso reflete a        feudal         fora de     senhores e
operao de mecanismos indiretos de herana                          trabalho     servos
(socializao, treinamento no trabalho e as-
sim por diante), em vez de sanes legais que       3 Sistema        Meios de     Capitalistas Competitivo
probam diretamente a mobilidade.                     de classes     produo     e operrios
272   estratificao social


    Essa abordagem tem sido criticada por ne-       delo abstrato de capitalismo era decididamente
gligenciar o "elemento de poder" nos sistemas       dicotmico, com o conflito entre capitalistas e
de estratificao (Wrong, 1959, p.774; ver tam-     operrios constituindo a fora motriz por trs de
bm Huaco, 1966, para uma recenso abran-           novos desenvolvimentos sociais. O modelo
gente). H muito se afirma que Davis e Moore        simples de duas classes pretendia captar as "ten-
deixaram "de observar que (...) os encarregados     dncias de desenvolvimento" do capitalismo;
[de tarefas funcionalmente importantes] tm o       no entanto, sempre que Marx efetuava uma
poder no apenas de insistir no pagamento de        anlise concreta dos sistemas capitalistas exis-
recompensas esperadas, como tambm de exi-          tentes, reconhecia que a estrutura de classes era
gir recompensas ainda maiores" (Wrong, 1959,        complicada pela persistncia de classes transi-
p.774; ver tambm Dahrendorf, 1957). Nesse          cionais (como os senhores de terras), grupa-
particular, o sistema de estratificao pode ser    mentos formando quase classes (camponeses)
encarado como auto-reprodutor: os trabalha-         e fragmentos de classe (o "lumpemproletaria-
dores em funes importantes podem utilizar         do"). Era somente com o progressivo amadure-
seu poder para influenciar a distribuio de        cimento do capitalismo que Marx esperava que
recursos e preservar ou ampliar seus prprios       essas complicaes desaparecessem,  medida
privilgios. Seria difcil, por exemplo, explicar   que as "foras centrfugas da crise e da luta de
plenamente as vantagens dos senhores feudais        classes lanassem todas as dritte Personen em
sem referncia  sua possibilidade de fazer va-     um ou outro campo" (Parkin, 1979, p.16).
ler suas pretenses por meio de sanes morais,         A histria recente do capitalismo moderno
jurdicas ou econmicas. De acordo com essa         indica que a estrutura de classes no evoluir de
linha de raciocnio, a distribuio de recompen-    maneira to precisa e metdica. A velha classe
sas reflete no apenas as "necessidades laten-      mdia de artesos e lojistas decresceu em tama-
tes" da sociedade mais ampla como tambm o          nho relativo,  claro, mas ao mesmo tempo uma
equilbrio de poder entre grupos rivais e seus      "nova classe mdia" de administradores, pro-
membros (Collins, 1975).                            fissionais liberais e trabalhadores no-manuais
A estrutura da estratificao moderna               se expandiu, ocupando o espao recm-vago.
                                                    Os ltimos 50 anos de teorizao neomarxista
    A histria recente da teorizao sobre es-      podem ser encarados como a "debandada in-
tratificao  em grande parte uma histria de      telectual" dessa evoluo, com alguns comen-
debates sobre os contornos da desigualdade em       taristas buscando minimizar suas implicaes e
sociedades industriais avanadas. Embora es-        outros propondo uma reviso do mapeamento
ses debates venham sendo travados numa am-          da estrutura de classes que acomode a nova
pla variedade de frentes, para os nossos objeti-    classe mdia em termos explcitos. No primeiro
vos bastar distinguir entre modelos "marxis-       campo, a tendncia principal  alegar que os
tas" e "weberianos" de desigualdade.  prova-       setores inferiores da nova classe mdia se en-
velmente justo dizer que a maioria dos tericos     contram num processo de proletarizao, uma
contemporneos tem suas razes intelectuais em      vez que "o capital sujeita [os trabalhadores
alguma combinao dessas duas tradies.
                                                    no-manuais] s formas de racionalizao ca-
Marxistas e neomarxistas Os debates nos cam-        ractersticas do modo de produo capitalista"
pos marxista e neomarxista tm sido especial-       (Braverman, 1974, p.408). Essa linha de ra-
mente acirrados, no apenas porque freqen-         ciocnio indica que a classe operria pode
temente se encontram embutidos em disputas          gradualmente expandir-se em tamanho nu-
polticas mais amplas, mas tambm porque a          mrico e com isso reconquistar seu antigo
discusso de classe em O capital (Marx, 1894)       poder. Na outra extremidade, Poulantzas
revela-se fragmentria e assistemtica. No final    (1974) afirmou que a maioria dos membros
do terceiro volume de O capital vamos encon-        do novo estrato intermedirio se enquadra
trar o hoje famoso fragmento sobre "as classes"     fora da classe operria propriamente dita,
(Marx, 1894, p.885-6), mas este  interrompido      uma vez que est envolvida em "trabalho
exatamente no ponto em que Marx parecia             improdutivo" de vrios tipos (ver Wright,
pronto a propor uma definio formal da ex-         1985, para um levantamento abrangente des-
presso. Fica claro, no obstante, que seu mo-      sas posies).
                                                                                     estruturao      273


    Weberianos e neoweberianos A ascenso da       as dcadas do ps-guerra o modelo de classe
"nova classe mdia" revela-se menos proble-        marxista foi tipicamente desprezado pelos so-
mtica para os estudiosos que trabalham dentro     cilogos norte-americanos como patentemente
de uma perspectiva weberiana. De fato, o mo-       simplista e unidimensional, enquanto o modelo
delo de classe proposto por Weber sugere uma       weberiano era encarado como estabelecendo a
multiplicidade de divises de classe, pois equi-   distino adequada entre as inmeras variveis
para a classe econmica dos operrios a sua        que Marx fundira em sua definio de classe
"situao de mercado" (Weber, 1921-2, p.926-       (ver, por exemplo, Barber, 1968). Nas verses
40). Esse modelo implica que os ricos proprie-     mais extremas dessa abordagem, as dimenses
trios se encontram numa situao de classe        identificadas por Weber so desagregadas em
privilegiada; de fato, membros dessa classe po-    uma multiplicidade de variveis de estratifica-
dem superar os operrios na obteno de mer-       o (tais como renda, educao, etnia), e ento
cadorias de valor no mercado de bens, tal como     se demonstrou que as correlaes entre essas
podem tambm converter sua riqueza em capi-        variveis eram fracas o suficiente para gerar
tal e com isso monopolizar as oportunidades        vrias formas de "inconsistncia de status" (isto
empresariais. Entretanto Weber enfatizou que       , um milionrio de pouca instruo, um mdi-
os operrios especializados tambm so privi-      co negro e assim por diante). O quadro geral que
legiados no capitalismo moderno, uma vez que       surgiu indicava um "modelo pluralista" de es-
os servios que executam tm alta demanda no       tratificao; isto , o sistema de classes era
mercado de trabalho. O resultado final, ento,    representado como intrinsecamente multidi-
que uma nova classe mdia de operrios es-         mensional, com grande nmero de filiaes que
pecializados intervm entre a classe capitalista   se entrecruzam, produzindo uma complexa
"positivamente privilegiada" e a massa de ope-     miscelnea de divises internas de classe. 
rrios desqualificados, "negativamente privile-    bom observar que as foras concorrentes de
giada" (ibid., p.927-8). Ao mesmo tempo, o         ETNICIDADE e GNERO parecem especialmente
sistema de estratificao  complicado ainda       importantes na ao de minar formas de solida-
mais pela existncia de grupos de status, en-      riedade baseadas em classe (ver Hechter, 1975;
carados por Weber como formas de filiao          Firestone, 1970). De fato, dada a ascenso dos
social que geralmente competiam com formas         movimentos feministas e nacionalistas em todo
de organizao baseadas em classe. Embora          o mundo moderno, seria possvel argumentar
uma classe econmica seja meramente um             que grupos baseados em etnia e gnero se tor-
agregado de indivduos em uma situao de          naram mais eficazes do que as classes econ-
mercado semelhante, Weber definiu um grupo         micas na mobilizao de seus membros para
de status como uma comunidade de indivduos        a busca de objetivos coletivos.
que partilham do mesmo "estilo de vida" e que
                                                   Leitura sugerida: Bendix, Reinhard e Lipset, Sey-
interagem como iguais em termos de status (a       mour M., orgs. 1966: Class, Status and Power  Botto-
nobreza, uma casta tnica e assim por diante).     more, Tom 1965 (1991): Classes in Modern Society 
Em algumas circunstncias, as fronteiras de um     Dahrendorf, R. 1957 (1959): Class and Class Conflict
grupo de status podem ser determinadas por         in Industrial Society  Giddens, Anthony 1973: The
critrios puramente econmicos, mas Weber          Class Structure of the Advanced Societies  Gold-
observa que "a honra do status no precisa estar   thorpe, J. 1980 (1987): Social Mobility and Class Struc-
                                                   ture in Modern Britain, 2ed. rev.  Lenski, G. 1966:
necessariamente ligada a uma situao de clas-     Power and Privilege: a Theory of Stratification  Os-
se" (ibid., p.932). Os nouveaux riches, por        sowski, S. 1957 (1963): Class Structure in the Social
exemplo, nunca so imediatamente aceitos na        Consciousness  Parkin, Frank 1979: Marxism and
"alta sociedade", mesmo quando sua riqueza os      Class Theory: A Bourgeois Critique  Weber, Max
coloca claramente na classe econmica mais         1921-2 (1978): Economy and Society, vol.2 (ed. em 2
elevada (p.936-7). O que fica implcito, ento,    vols.)  1946 "Class, status and party". In From Max
                                                   Weber: Essays in Sociology, org. por H.H. Gerth e
 que os sistemas de classe e status so formas    C.W. Mills  Wright, E.O. 1985: Classes.
potencialmente independentes de estratifica-
o.                                                                                   DAVID B. GRUSKY
    Essa abordagem foi refinada e ampliada por
socilogos que buscavam compreender a "for-        estruturao Referncias  estruturao apa-
ma norte-americana" de estratificao. Durante     recem na cincia social em lngua inglesa j em
274   estruturao


1927 e, em um esquema terico mais abrangen-           Segue-se que exemplos amplamente semelhan-
te, na obra de Georges Gurvitch (1955; 1962,           tes de uma prtica institucionalizada podem ser
parte 2, cap.4), que tambm introduziu os con-         reproduzidos pela intermediao de muitos
ceitos teis de "desestruturao" e "reestrutura-      agentes diferentes, estendendo-se alm de um
o"; mas a palavra hoje se refere principalmen-       dado grupo ou gerao. Segue-se tambm que
te  teoria ontolgica da vida social exposta por      os agentes no precisam (embora possam) reco-
Anthony Giddens (1976, 1979, 1984), que se             nhecer que seu exerccio de intermediao re-
desenvolve sobre a percepo de que todos os           produz ou altera uma prtica institucionalizada.
elementos da vida social esto constitudos no             A teoria de Giddens sobre o sujeito agente 
hbil desempenho de prticas sociais.                  talhada para complementar a centralidade da
    A ONTOLOGIA estruturacionista proporciona          PRXIS na teoria da estruturao. Embora no se
pressupostos genricos com respeito ao tema da         despreze a conscincia reflexiva (discursiva),
cincia social, mas, contrariamente a suposi-          muitas prticas sociais podem ser reproduzidas
es identificveis em ontologias clssicas            na base da conscincia tcita (prtica) dos agen-
(Thomas Hobbes, Adam Smith, Jean-Jacques               tes quanto s habilidades envolvidas. Giddens
Rousseau), teorias funcionalistas (Talcott Par-        fundamenta uma motivao difusa para par-
sons) e teorias teleolgicas de evoluo (Emile        ticipar da vida social, junto com elementos de
Durkheim, Karl Marx), ela no postula inevita-         desenvolvimento da personalidade humana, em
bilidades, necessidades ou mecanismos de mu-           um sentido inconsciente de segurana ontol-
dana trans-histricos. Em vez disso, aborda as        gica mantido no desempenho de rotinas fami-
capacidades mpares que permitem aos agentes           liares. No entanto resta-lhe ainda abordar a
sociais instituir, manter e alterar a vida social de   constituio da vontade humana, bem como
variadas formas. As restries e capacitaes          questes importantes com respeito s neces-
sociais, bem como a forma e a direo da mu-           sidades e aos interesses humanos.
dana social, esto constitudas nas prticas              Embora a teoria da estruturao conceba o
sociais que podem diferir, em execuo e resul-        desempenho hbil de prticas sociais mais ou
tado, de um domnio histrico para outro. A            menos  maneira de Erving Goffman e Harold
teoria da estruturao, portanto, proporciona         Garfinkel (ver Giddens, 1977, cap.4; 1987),
cincia social uma ontologia de potenciais, em         uma nfase nos aspectos transituacionais dessas
vez de uma ontologia de traos sociais fixos           prticas  introduzida na explicao inovadora
(ver Cohen, 1989). Como esses potenciais po-           de Giddens sobre a dualidade da estrutura. Nes-
dem ser realizados em toda uma variedade de            sa explicao, o conhecimento com respeito ao
modos, no h conceitos ou explicaes his-            desempenho de prticas, em companhia de ou-
toricamente especficos que possam ser dedu-           tros sujeitos apropriados em cenrios adequa-
zidos da ontologia estruturacionista. Os estudos       dos,  tratado como condio necessria  re-
de Giddens sobre a modernidade (ver, por               produo dessas prticas. Por sua vez, o desem-
exemplo, 1990) ilustram a utilidade propedu-          penho dessas prticas refora a conscincia dos
tica de postulados na teoria da estruturao.          participantes quanto  constituio de suas cir-
    Como a teoria da estruturao atribui um           cunstncias sociais. O conhecimento assim re-
papel central, na constituio da vida social, ao      generado serve para estruturar a reproduo
desempenho das prticas sociais, ela questiona         continuada de modos de vida rotineiros. As
a validade ontolgica da diviso profundamen-          propriedades estruturais das prticas sociais po-
te arraigada entre as tradies coletivista e in-      dem ser analiticamente decompostas em regras
dividualista no pensamento social. Diferente-          e recursos. Ambas, porm, esto inextricavel-
mente das teorias coletivistas, ela trata os pa-       mente inter-relacionadas na realidade concreta
dres e propriedades dos grupos sociais como           dos modos de vida institucionalizados.
realidades produzidas atravs de prticas roti-            Inspirada por desenvolvimentos na geogra-
nizadas, e no como realidades sui generis.            fia temporal, a teoria da estruturao altera
Diferentemente das explicaes individualis-           substancialmente explicaes correntes sobre
tas, o exerccio da intermediao  por ela tra-       padres sistmicos na vida social ao conceb-
tado como logicamente anterior a uma preo-             los como interaes institucionalizadas e rela-
cupao com as escolhas subjetivas ou com as           es articuladas atravs do tempo e do espao
interpretaes de prticas sociais do agente.          (ver Giddens, 1987, cap.6). A fora e a per-
                                                                                    estruturalismo    275


meabilidade das fronteiras sistmicas depen-             em campos como a matemtica, a biologia, a
dem de como se produzem as articulaes na               lingstica e a psicologia da Gestalt. O mo-
prxis social. As interaes entre agentes co-           vimento estruturalista mais recente, porm, te-
presentes so institucionalizadas em sistemas            ve pretenses mais amplas, enfatizando a im-
de todos os tipos, mas os sistemas extensos (que         portncia fundamental de identificar e analisar
tm um alto grau de distanciamento espao-               as "estruturas profundas" que esto na base e
temporal) tambm implicam relaes institu-              que geram os fenmenos observveis -- e a
cionalizadsa entre agentes em cenrios remo-             esse respeito o movimento tem afinidades com
tos. Articulaes de todos os tipos comunicam,           a moderna filosofia realista da cincia (Bhaskar,
transmitem ou transportam resultados a vrias            1975) -- e ampliando a abordagem estruturalis-
prticas.                                                ta mais amplamente para as cincias sociais e
    A estruturao (isto , reproduo ou altera-        humanas. Tendo origem na lingstica, onde
o) de relaes sistmicas atravs do tempo e           seus princpios podem ser encontrados nas teses
do espao pode ocorrer exclusivamente atravs            delineadas pelo Crculo Lingstico de Praga
de conseqncias no-intencionais da prxis,             em 1929 (Robey, 1973, Introduo), o estru-
ou implicar a administrao intencional atravs          turalismo penetrou em seguida na crtica liter-
de tempo e espao. Diferentemente de teorias             ria, na teoria esttica e em algumas das cincias
polticas pluralistas e elitistas, a teoria da es-       sociais -- particularmente na antropologia,
truturao postula uma dialtica de controle em          atravs da obra de Claude Lvi-Strauss, na so-
sistemas de todos os tipos. Enquanto grupos              ciologia, principalmente sob a forma do marxis-
dominantes tm acesso a recursos superiores              mo estruturalista de Louis Althusser, e na his-
para alcanar resultados atravs dos feitos de           tria, onde a idia de "histria estrutural" na
outrem, aos grupos subordinados nunca faltam             obra da escola dos ANNALES estava relacionada,
de todo recursos para resistir ao controle domi-         em certos aspectos, a concepes estruturalistas
nante ou redirecion-lo. As relaes sistmicas          mais gerais (Review, 1.3-4, 1978).
de poder, portanto, esto constitudas em equi-              Como ampla abordagem terica nas cin-
lbrios institucionalizados ou disputados de au-         cias sociais, o estruturalismo pode ser distin-
tonomia e controle (Giddens, 1981, cap.2;                guido por sua oposio ao humanismo, ao his-
1985, cap.1).                                            toricismo e ao empirismo.  anti-humanista no
Leitura sugerida: Bryant, C.G.A. e Jary, D. 1990: An-
                                                         sentido de que as aes conscientes e delibera-
thony Giddens  Clark, J., Modgil, S. e Modgil, C.,       das de indivduos e grupos sociais so am-
orgs. 1990: Anthony Giddens: Consensus and Con-          plamente excludas da anlise e suas prprias
troversy  Cohen, Ira J. 1989: Structuration Theory:      proposies explanatrias so concebidas em
Anthony Giddens and the Constitution of Social Life      termos de "causalidade estrutural". Esse ponto
 Held, D. e Thompson, J., orgs. 1990: Social Theory of
                                                         de vista foi expresso com clareza por Maurice
Modern Societies: Anthony Giddens and his Cri-
tics  Kiessling, B. 1988: Kritik der giddensschen
                                                         Godelier (1966) quando este diferenciou dois
Sozialtheorie: ein Beitrag zur theoretisch-methodis-     tipos de condies para o surgimento, funcio-
chen Grundlegung der Sozialwissenschaften.               namento e evoluo de qualquer sistema social
                                        IRA J. COHEN     -- atividade intencional e propriedades no-in-
                                                         tencionais inerentes s relaes sociais -- e
estruturalismo Este mtodo de indagao,                 atribuiu uma importncia decisiva a estas l-
ou paradigma, tornou-se proeminente e influen-           timas, afirmando que a razo ou base extrema
te durante os anos 60 e 70, embora tenha tido            para as transformaes sociais ser encontrada
vrios antecedentes em perodos anteriores. Na           na compatibilidade ou incompatibilidade entre
anlise sociolgica, o conceito de estrutura, em         estruturas e no desenvolvimento de contradi-
variadas formulaes, durante muito tempo                es dentro de estruturas. A oposio humanis-
ocupou um lugar central (Bottomore e Nisbet,             ta/estruturalista fica evidente tambm na dis-
1978, cap.14), e vrios comentaristas (Piaget,           cusso contrastante de razo "dialtica" e "ana-
1968; Kolakowski, 1971; Schaff, 1974) obser-             ltica" travada por Claude Lvi-Strauss (1962,
varam que esse conceito foi um elemento de               cap.9) e por Jean-Paul Sartre (1960). As inves-
importncia maior na perspectiva filosfica e            tigaes metodolgicas de Sartre visavam es-
cientfica geral dos anos 30, importncia essa           clarecer a relao entre condies estruturais e
refletida na influncia que o conceito adquiriu          aes intencionais -- os "projetos" -- de in-
276   estrutura social


divduos, bem como a introduzir num marxis-             A abordagem estruturalista foi criticada num
mo esclerosado algo da perspectiva indivi-          primeiro estgio por adeptos de outros pontos
dualista e humanista do existencialismo.            de vista metodolgicos nas cincias sociais (por
    O anti-historicismo fica manifesto na obra      exemplo, Leach, 1967) e, em sua forma marxis-
de Lvi-Strauss por meio de uma preferncia         ta, por pensadores de outras escolas de pen-
geral pelas investigaes sincrnicas, em vez       samento marxista. No final dos anos 70 sua
das diacrnicas, com o objetivo de descobrir as     influncia comeou a diminuir e, na dcada
caractersticas estruturais universais da socie-    seguinte, foi eclipsado pela ascenso do ps-es-
dade humana e, mais remotamente, relacionar         truturalismo, ou ps-modernismo (ver MODER-
essas caractersticas s estruturas universais da   NIDADE), em que a idia de uma estrutura fixa e
mente humana. Nesse ponto, o estruturalismo         objetiva de significado ou relaes sociais 
demonstra sua afinidade muito estreita com a        abandonada (Eagleton, 1983, cap.4). De modo
moderna teoria lingstica (Lyons, 1970, p.99).     menos extremo, outros tericos sociais tm
Alguns estruturalistas marxistas, em especial       reintroduzido na discusso metodolgica essas
Hindess e Hirst (1975, Concluso), expres-          questes a respeito da relao entre estrutura e
saram uma viso anti-historicista com par-          mediao humana, ou estrutura e mudana his-
ticular energia, negando que o marxismo seja,       trica, que so temas recorrentes do pensamen-
ou pudesse ser, uma cincia da histria, uma vez    to social.
que todas as tentativas de formular explicaes     Leitura sugerida: Bottomore, Tom e Nisbet, Roberts,
histricas surgem como doutrinas teleolgicas       orgs. 1978: A History of Sociological Analysis  Eagle-
e no como teorias cientficas. O estruturalismo    ton, Terry 1983: Literary Theory: an Introduction
 tambm antiempirista, no mesmo sentido da          Leach, E.R., org. 1967: The Structural Study of Myth

filosofia realista da cincia, em virtude de sua    and Totemism  Lvi-Strauss, Claude 1958: Anthro-
insistncia na eficcia causal de uma estrutura     pologie structurale  Lyons, J. 1970: Chomsky  Pia-
                                                    get, Jean 1968: Estruturalisme  Robey, David, org.
profunda subjacente  aparncia superficial,        1973: Structuralism: An Introduction  Schaff, Adam
imediatamente dada, dos eventos. Esse aspecto       1974: Structuralisme et marxisme.
foi exposto claramente por Godelier (1973,                                             TOM BOTTOMORE
1977, p.35) em sua crtica do "funcionalismo
emprico clssico", o qual, ele afirmava, "ao       estrutura social Embora este seja um dos
confundir estrutura social com relaes sociais     conceitos mais importantes nas cincias so-
externas (...), est condenado a permanecer pri-    ciais, em geral  difcil, uma vez que a maioria
sioneiro das aparncias dentro do sistema social    dos cientistas sociais no define os termos de
estudado, no havendo possibilidade alguma de       maneira precisa, diferenci-lo, em sua utiliza-
se revelar uma lgica sob a superfcie".            o, de expresses alternativas como organiza-
    Um dos aspectos destacados do movimento         o social e sistema social. A primeira utiliza-
estruturalista foi sua estrita conexo com o        o explcita da expresso estrutura social foi
marxismo. Lvi-Strauss considerava Marx co-         feita provavelmente por Herbert Spencer
mo o ponto de partida para o seu prprio pen-       (1858). No entanto o conceito de estrutura so-
samento, e o estruturalismo tornou-se o prin-       cial data de um perodo muito mais antigo, e 
cipal veculo para transmitir uma orientao        capital para Ibn Khaldun em seu livro Muqa-
marxista significativa  antropologia (Godelier,    dimmah, escrito no final do sculo XIV.
1973; Bloch, 1975; Seddon, 1978). Em socio-             Estrutura pode ser definida como um corpo
logia, bem como em antropologia, o marxismo         organizado de partes mutuamente ligadas. Na
estruturalista de Althusser, muito prximo da       estrutura social, as partes so relaes entre
orientao geral do pensamento estruturalista,      pessoas e o corpo organizado das partes pode
mas concentrando a ateno nos elementos que        ser considerado coincidente com a sociedade
eram essenciais na teoria de Marx -- os modos       como um todo. Est tambm implcito no con-
e as relaes de produo, as relaes entre        ceito de estrutura social que existe um certo
diferentes nveis de vida social (econmica,        grau de permanncia no decorrer do tempo.
poltica e ideolgica) e contradies estruturais   Nesse ponto, a nfase ser dada aos tericos
--, exerceu ampla influncia, em especial sobre     cujas carreiras profissionais comearam ou ter-
os estudos de diferentes formas de sociedade,       minaram no sculo XX. O pensamento no sculo
estado e classes sociais.                           XX, porm, tem uma dvida para com a reflexo
                                                                              estrutura social   277


de pessoas que viveram nos sculos anteriores.     mudana social ocorre numa direo linear, e
A contribuio destas no pode ser ignorada. Na    abraaram teorias evolucionistas.
seqncia deste verbete, vou concentrar-me em          Ibn Khaldun (1377) foi o primeiro dos te-
duas questes bsicas a respeito da natureza da    ricos cclicos. Com base em suas observaes
estrutura social que tm sido de importncia       empricas das sociedades rabes no Norte da
extrema para os tericos sociais. No que diz       frica medieval, ele postulou a existncia de
respeito a cada uma das duas, ainda no se         dois tipos de sociedade: uma sociedade pastoril
conseguiu chegar a um acordo acadmico.            nmade, em que era forte a solidariedade social;
    A primeira questo diz respeito ao grau em     e uma sociedade urbana, com um nvel
que a estrutura social se baseia primordialmente   relativamente baixo dessa solidariedade. Ele
no consentimento ou na coero. Em 1858 Her-       descreveu um ciclo em que a sociedade pastoril
bert Spencer uniu a palavra estrutura  palavra    conquistava a urbana e estabelecia um novo
funo. Ao faz-lo, invocou uma metfora da        estado. No entanto a solidariedade social
sociedade como semelhante ao organismo hu-         decrescente na sociedade urbana levava
mano. Essa analogia implica que todas as partes    gradualmente a sua desintegrao e, finalmen-
da sociedade so integradas e que cada uma         te, a sua conquista por outra sociedade pastoril.
delas serve para sustentar o todo existente. Uma   No sculo XX os dois tericos cclicos mais
vez que no h espao para o conflito em tal       destacados foram Oswald Spengler (1918-22)
analogia, segue-se tambm que a base da exis-      e P.A. Sorokin (1937-41). Spengler, em uma
tncia de sociedade  o CONSENSO e no a COER-     obra publicada pouco depois do final da Primei-
O. A teoria de Karl Marx (1845-46; 1848),        ra Guerra Mundial, rejeitava a idia de progres-
proposta em meados do sculo XIX, ope-se          so e via a civilizao como um ciclo contnuo
diretamente a essa viso da sociedade. Para        de crescimento, decadncia e morte; a civiliza-
Marx, cada forma existente de sociedade (como      o ocidental contempornea, particularmente,
feudalismo ou capitalismo) se baseava na coer-     era encarada como moribunda. Sorokin, numa
o exercida pela classe dominante sobre as        obra publicada pouco antes da Segunda Guerra
classes subordinadas. No obstante, o conflito,    Mundial, encarava a sociedade como passando
na teoria de Marx, desapareceria depois da         por um ciclo com trs estgios: o ideacional
revoluo proletria e do estabelecimento do       (religioso), o idealista e o sensato. De acordo
socialismo. Entre os tericos do sculo XX, a      com seu princpio de mudana imanente, cada
importncia do consenso foi enfatizada ener-       tipo lanava as sementes de sua prpria destrui-
gicamente por Emile Durkheim (1893),               o, e a transio de um estgio a outro era
A.R. Radcliffe-Brown (1952) e Talcott Parsons      acompanhada pela guerra e pela crise social.
(1951). Por outro lado, uma viso de conflito          A idia de que a mudana na estrutura social
da sociedade  apresentada na obra de Ralf         ocorre em uma direo nica foi apresentada
Dahrendorf (1957). Diversamente de Marx, Dah-      pela primeira vez por Henri de Saint-Simon, no
rendorf enfatizou que o conflito estar presente   incio do sculo XIX, e foi elaborada por seu
tanto na sociedade capitalista quanto na           protg, Comte (1830-42), que postulou trs
socialista. A maior parte dos tericos sociais     estgios no desenvolvimento da estrutura so-
acreditava que a estrutura social se baseia em     cial: o teolgico, o metafsico e o positivo. Marx
parte no consenso e em parte na coero. No        tambm acreditava que a mudana na estrutura
sculo XX, entre os tericos dessa linha, in-      social evolua em uma nica direo, e atribuiu
cluram-se Max Weber (1922), Vilfredo Pareto       ao modo econmico de produo o papel de
(1916-19) e Robert Merton (1949). Uma pala-        fora propulsora dessa mudana. Spencer tam-
vra de Merton, disfuno, denota explicitamen-     bm se interessou bastante pelos estgios da
te que certos elementos da estrutura social po-    evoluo humana, particularmente no que dizia
dem funcionar contra a manuteno dos outros.      respeito  famlia, ao estado e  religio (Spen-
    Todos os tericos sociais tm reconhecido      cer, 1876-96).
que, no decorrer do tempo, ocorrem mudanas            Em 1911 Franz Boas criticou as tentativas
na estrutura social. No entanto, a natureza de     de se fazerem descries excessivamente pre-
tais mudanas tem sido motivo de debate. Al-       cisas sobre a evoluo da estrutura social (Boas,
guns tericos encararam a mudana na estrutura     1911). Talvez devido a sua influncia, durante
social como cclica. Outros afirmaram que a        o restante da primeira metade do sculo se
278    tica


reduziu o interesse entre os estudiosos pelo               ou rejeitam essa posio de valor (Gouldner,
modo como a estrutura social poderia vir a                 1964) ou negam a independncia lgica de fato
evoluir no tempo. Esse interesse renasceu de-              e valor (Strauss, 1953).
pois da Segunda Guerra Mundial, particular-                    A discusso tica substantiva dentro da teo-
mente em seguida  publicao de um livro de               ria social tem sido dominada por duas amplas
Walter Goldschmidt (1959), detalhando cinco                perspectivas ticas: a tica utilitarista (Glover,
estgios da sociedade como dependentes de                  1990; Sen e Williams, 1972; Smart e Williams,
nveis de tecnologia. Parsons (1966), em uma               1973); e a tica baseada em direitos (ver LEI),
de suas ltimas obras, examinou a evoluo da              com fundamentos kantianos ou contratualistas.
estrutura social em termos do processo de dife-                O utilitarismo clssico tem dois componen-
renciao, tanto da estrutura quanto da funo,            tes: o conseqencialismo -- a justeza de uma
de uma forma que fazia lembrar Spencer.                    ao deve ser julgada por suas conseqncias;
    Ver tambm ESTRUTURALISMO.                             e o hedonismo -- a nica coisa boa em si
Leitura sugerida: Leach, E.R. 1968: "Social structure:
                                                           mesma  a felicidade, concebida como prazer e
the history of the concept." In International Encyclope-   ausncia de dor. A melhor ao  aquela cujas
dia of the Social Sciences, org. por D.L. Sills, vol.14.   conseqncias maximizam a felicidade. Algu-
 Moore, W.E. 1963: Social Change  Moseley, K.P. e          mas variedades posteriores de utilitarismo re-
Wallerstein, I. 1978: "Precapitalist social structures".   jeitaram o componente hedonista da doutrina
Annual Review of Sociology 4, 259-90  Smelser, N.J.        clssica. A variedade mais influente  o utilita-
1988: "Social structure." In Handbook of Sociology,        rismo de preferncia, de acordo com o qual a
org. por N.J. Smelser  Udy, S.H. 1968: "Social struc-
ture: social structural analysis." In International En-    melhor ao  a que maximiza a satisfao de
cyclopedia of the Social Sciences, org. por D.L. Sills,    preferncia das partes envolvidas. Esse prin-
vol.14.                                                    cpio tico surge  guisa de um princpio de
                                       DAVID M. HEER       eficincia na moderna Teoria econmica do
                                                           bem-estar (ver BEM-ESTAR, TEORIA ECONMICA
tica Em seu sentido mais amplo, tica re-                 DO). Tanto na economia neoclssica quanto na
fere-se  avaliao normativa das aes e do               economia austraca os valores so tratados co-
carter de indivduos e grupos sociais.  em               mo expresses de preferncias subjetivas (ver
geral usada alternadamente com MORALIDADE                  VALOR). Numa anlise de custos-benefcios, os
para se referir s obrigaes e deveres que                pesos dessas preferncias so tidos como men-
governam a ao individual. No entanto h                  surveis pela disposio de uma pessoa de pa-
motivos para afirmar que a moralidade, nesse               gar pela sua satisfao. O critrio padro de
sentido,  uma instituio peculiarmente mo-               eficincia empregado  o critrio potencial de
derna, e que a palavra "tica" deveria ser com-            melhoria de Pareto: uma proposta  eficiente se
preendida de maneira mais ampla (Williams,                 a satisfao de preferncia  maior que a insatis-
1985). A tica pode surgir na teoria social em             fao de preferncia, de forma que os que ga-
trs nveis diferentes: (1) diferentes sistemas de         nham ficam em posio de compensar os que
crena e conduta ticas podem formar o objeto              perdem e ainda se saem melhor (Kaldor, 1939;
de estudo da teoria social; (2) as teorias sociais         Hicks, 1939). Esse critrio de "eficincia" cor-
podem fazer alegaes metaticas quanto ao                 porifica uma posio tica substantiva, o utili-
status lgico e epistemolgico de manifesta-               tarismo de preferncia: a mais "eficiente" de um
es ticas; e (3) as teorias sociais podem com-           grupo de propostas  a que maximiza a satisfa-
prometer-se com pontos de vista ticos substan-            o de preferncia sobre a insatisfao. No
tivos. (Ver VALORES.)                                      entanto afirma-se que ele  compatvel com
    Os debates metaticos em teoria social tm-            uma doutrina central de boa parte da recente
se concentrado na relao entre asseres ticas           teoria poltica liberal -- a de que o estado
e descritivas. Os defensores da liberdade de               deveria ser neutro entre diferentes concepes
valor afirmam que as asseres descritivas e               do que  bom. Uma vez que toma os valores
ticas so logicamente independentes e se com-             como expresses de preferncias, e toma estas
prometem com a posio de valor de que, ao                 como dadas, ele permanece neutro entre valores
mesmo tempo em que faz cincia social, o                   diferentes.
terico social no deve fazer alegaes ticas                 Embora o utilitarismo permanea crucial
(Weber, 1904). Os crticos da liberdade de valor           para a teoria econmica liberal, na teoria pol-
                                                                                          tica   279


tica o liberalismo tendeu a ser de uma variedade         Uma explicao da tica que no utiliza a
deontolgica. Afirmar uma tica deontolgica         idia de contrato, mas divide com Rawls uma
 negar o conseqencialismo e pretender que as       herana kantiana e um engajamento com prin-
razes morais esto fundamentadas em certos          cpios de justia neutra entre diferentes concep-
deveres, como o dever de no torturar. Onde o        es do bom,  a de Jrgen Habermas (1986,
utilitarista permite que o bem-estar de um in-       p.170). Este tenta fundamentar a tica na "razo
divduo seja posto de lado, caso isso leve          comunicativa". Ao executar um ato discursivo,
maximizao da felicidade ou da satisfao de        aquele que fala se empenha, com a significati-
preferncia, o liberal deontolgico afirma que       vidade de sua expresso e com as asseres de
os indivduos tm direitos que incorporam exi-       que ela  verdadeira, em que est sendo sincero
gncias morais, as quais no podem ser, assim,       e em que tem o direito de falar como fala.
postas de lado. Os direitos individuais so trun-    Enquanto atos discursivos particulares geral-
fos na argumentao tica e poltica (Dworkin,       mente no se mostram  altura das asseres
1977, p.XI). Uma tica baseada em direitos d        que implicitamente fazem, estas devem ser em
primazia a princpios de JUSTIA que o utilitaris-   princpio justificveis ou "redimveis". Invo-
mo, como princpio agregador, trata como de-         cam, afirma Habermas, uma "situao discur-
rivativos. O conflito entre as perspectivas ticas   siva ideal", caracterizada como aquela em que
utilitria e baseada em direitos domina os de-       indivduos chegam ao consenso sem fora ou
bates tanto tericos quanto de polticas de ao.    trapaa e onde cada um tem os meios e a opor-
(Para um bom exemplo deste ltimo, ver Glover        tunidade de participar do dilogo pelo qual se
et al., 1989.)                                       chega ao consenso. Os princpios normativos
    A tica baseada em direitos apela, para sua      pressupostos pelos atos comunicativos forne-
fundamentao, ou a uma concepo kantiana           cem a Habermas a base de uma tica kantiana
de respeito pelas pessoas, de acordo com a qual      reconstituda. (Ver Habermas, 1981 e 1983;
as pessoas devem ser tratadas "sempre como           Benhabib e Dallmayr, 1990.)
fins em si mesmas e nunca meramente como                 Tanto os utilitaristas quanto os kantianos
meios", ou a uma explicao contratualista dos       partilham da suposio comum de que a avalia-
princpios ticos, de acordo com a qual prin-        o tica se fundamenta em princpios que so
cpios ticos defensveis so aqueles com que        universais, isto , se aplicam a todos, e impar-
indivduos movidos pelo auto-interesse concor-       ciais, ou seja, se baseiam no preceito de que os
dariam em condies ideais, ou, como  o caso        indivduos ou seus interesses devem receber
com John Rawls, a ambas as fundamentaes.           igual respeito. Essa suposio tem sido ques-
Para Rawls (1971), princpios de justia defen-      tionada por concepes particularistas da tica,
sveis so aqueles com que indivduos movidos        as quais afirmam que tais princpios so in-
pelo auto-interesse concordariam em condies        capazes de explicar a avaliao tica que ocorre
de ignorncia com relao a sua posio social,      no contexto de relaes particulares com ou-
caractersticas, capacidades e concepes par-       tros. Essa questo est no cerne da crtica co-
ticulares sobre o que  bom. Os agentes, sob um      munitria do liberalismo, a qual afirma que o
vu de ignorncia, chegariam a dois princpios       liberalismo pressupe uma viso do eu como
bsicos: o princpio de Igualdade, de acordo         desembaraado de compromissos particulares
com o qual cada um tem direitos iguais a liber-      com outros indivduos, tradies, prticas e
dades bsicas, e o princpio de Diferena, se-       concepes do que  bom. Contra essa viso, o
gundo o qual as desigualdades sociais e econ-       comunitarista afirma que a identidade de um
micas s so justificadas se os que esto em pior    agente  constituda por esses compromissos
condio se encontram melhor do que estariam         especficos que formam o ponto de partida para
em condies de igualdade. O primeiro prin-          a avaliao e o debate ticos. (MacIntyre, 1981;
cpio tem prioridade sobre o segundo. Outro          Sandel, 1982; Taylor, 1975, parte 4). Crtica
influente proponente de um liberalismo basea-        semelhante surgiu a partir de uma direo diver-
do em direitos  Nozick (1974), que simples-         sa, na obra de Gilligan sobre uma tica feminina
mente parte do pressuposto de que os indiv-         (Gilligan, 1982; Kitay e Meyers, 1987). A obra
duos tm certos direitos e segue defendendo um       de Gilligan origina-se de uma crtica  explica-
estado minimalista dentro de uma economia de         o piagetiana de Lawrence Kohlberg para o
livre mercado. (Ver tambm Gauthier, 1986.)          desenvolvimento moral, que concebe a criana
280   tica protestante, tese da


como rumando para um estgio "ps-conven-           tra o capitalismo, em especial o da alienao e
cional" de maturidade moral caracterizada em        explorao que o capitalismo implica, apelam
termos kantianos. A maturidade moral  com-         para um conjunto de bens no-morais que so
preendida em termos de uma "perspectiva de          necessrios para que os indivduos levem uma
justia" na qual a moralidade consiste na aplica-   vida humana prspera. (Verses diferentes des-
o de princpios universais, imparciais e abs-     se argumento so defendidas por Lukes, 1985;
tratos. Gilligan afirma que a obra de Kohlberg      Miller, 1984; Skillen, 1977; ver tambm Niel-
descreve um caminho especificamente "mas-           sen e Patten, 1981; Geras, 1985.)
culino" de desenvolvimento tico e indica ha-           Um trabalho recente sobre tica ambiental
ver um padro caracteristicamente "feminino"        lanou mais um desafio s vises utilitarista,
de desenvolvimento, no qual a maturidade mo-        kantiana e contratualista da tica. Cada uma
ral  compreendida em termos de uma "pers-          dessas perspectivas pressupe um argumento
pectiva de zelo", em que a tica consiste no        particular a respeito do limite da classe de ser 
cuidado com indivduos especficos em relao       qual se deve uma considerao tica direta. Os
aos quais o agente se encontra em relao par-      adeptos das vises kantiana e contratualista es-
ticular, por exemplo, como amigo, filho, pai.       tendem a considerabilidade tica s pessoas. O
    Alguns defensores de uma concepo par-         utilitarismo clssico estende-a ainda mais a to-
ticularista da tica, de forma mais destacada       dos os seres capazes de sentir dor e prazer e,
MacIntyre, tambm rejeitaram uma segunda            portanto, inclui em seu contingente tico os
suposio partilhada tanto por utilitaristas        animais sensveis no-humanos (Singer, 1977).
quanto por kantianos, a de que a tica se preo-     Os proponentes de uma tica ambiental afir-
cupa basicamente com as aes dos agentes e         mam que os seres no-humanos tm valor in-
responde  pergunta "como devo agir?". Contra       trnseco e ampliaram as fronteiras da conside-
essa suposio, os proponentes de uma tica         rao tica a fim de incluir, por exemplo, coisas
das virtudes fizeram reviver a clssica viso       vivas no-sensveis e ecossistemas (Goodpas-
aristotlica da tica, segundo a qual a avaliao   ter, 1978; Naess, 1973; Routley e Routley,
tica se preocupa basicamente com o carter         1979). Essa ampliao do contingente da preo-
dos agentes e responde  pergunta "que tipo de      cupao tica exigiria uma reviso radical da
pessoa devo ser?". As virtudes, compreendidas       teoria tica existente.
como disposies de carter que so condies
necessrias a uma vida boa para os indivduos,      Leitura sugerida: Gilligan, C. 1982: In a Different
                                                    Voice  Goodpaster, K. 1978: "On being morally con-
substituem os deveres como os conceitos ava-        siderable". Journal of Philosophy 75  Gouldner, A.
liadores centrais do vocabulrio tico. A ques-     1964: "Anti-minotaur: the myth of value-free sociolo-
to do que seja levar uma vida boa ou prspera,     gy". In The New Sociology, org. por I. Horowitz
que em boa parte dos discursos liberais  tratada    Habermas, Jrgen 1981 (1984, 1989): The Theory of

como questo de preferncia pessoal, recon-         Communicative Action, vol.I  Hicks, J.R. 1939: "The
quista o centro das atenes no debate tico.       foundations of welfare economics". Economic Journal
                                                    49  Kaldor, N. 1939: "Welfare comparisons of econo-
    Pontos semelhantes podem ser encontrados        mics and interpersonal comparisons of utility". Econo-
em trabalhos recentes sobre a tica marxista.       mic Journal 49  Lukes, S. 1985: Marxism and Mora-
Estes abordam um paradoxo crucial nos textos        lity  MacIntyre, A. 1981 (1985): After Virtue, 2ed.
de Marx sobre a moralidade -- o de que, por          Naess, A. 1973: "The shallow and the deep, long-ran-

um lado, ele condena a moralidade como ideo-        ge ecology movement: a summary". Inquiry 16  Nash,
                                                    R. 1989 (1990): The Rights of Nature  Nielsen, K. e
lgica e ilusria, afirmando que os comunistas      Patten, S. orgs. 1981: Marx and Morality. Canadian
no pregam nenhuma moralidade, enquanto,            Journal of Philosophy, Supp. vol.7  Rawls, John
por outro lado, sua obra  abundante em crticas    1971: A Theory of Justice  Smart, J. e Williams, B.,
ticas ao capitalismo. A soluo mais promis-       orgs. 1973: Utilitarism: For and Against  Taylor, C.
sora desse paradoxo  o argumento de que,           1975: Hegel  Weber, M. 1904 (1949): The Methodolo-
quando Marx critica a moralidade, no est          gy of the Social Sciences  Williams, B. 1985: Ethics
rejeitando todas as asseres ticas sobre a vida   and the Limits of Philosophy.
humana, mas sim uma forma caracterstica de                                                JOHN O'NEILL
argumentao e avaliao tica que apela para
os conceitos morais quase legais de direitos e      tica protestante, tese da A tese de Max
deveres. Seus prprios argumentos ticos con-       Weber sobre a relao entre o puritanismo e o
                                                                      tica protestante, tese da   281


"esprito do capitalismo", publicada pela pri-       1904-5 (1974), p.110). Os calvinistas buscaram
meira vez em 1904, gerou uma discusso entre         a prova da eleio pelo sucesso na atividade
os estudiosos que continua at o dia de hoje. No     mundana, pois ser prspero na vida era ter sido
entanto grande parte da controvrsia sempre          escolhido como um dos "intendentes" de Deus.
disse respeito  compreenso correta da tese e,      No entanto os calvinistas condenavam o gozo
em particular, a se Weber pretendia alegar que       relaxado da vida, e isso impedia que os lucros
o CAPITALISMO era efeito do puritanismo (ou,         fossem gastos num consumo conspcuo. Assim,
mais especificamente, do calvinismo). Esse de-       o comrcio veio a ser regulado por disposies
bate deveria ser compreendido em termos da           motivacionais que nunca antes haviam existido.
preocupao constante do sculo XX com as            Seja prudente, diligente, nunca ocioso (pois
questes de mtodo histrico e com a gnese da       tempo  dinheiro), cultive um bom nome no
MODERNIDADE.                                         crdito, seja pontual no pagamento de emprs-
    A tese deriva de trs textos: os ensaios de      timos e frugal no consumo. A recompensa do
Weber em A tica protestante e o esprito do         esforo tornou-se "a sensao irracional de ter
capitalismo (1904-5), seu ensaio sobre as seitas     cumprido bem o [seu] dever" (p.71).
protestantes na Amrica do Norte (1906) e suas           Essa tese oferece uma explicao do motivo
rplicas de 1910 a Karl Fischer e Felix Rachfahl     por que o capitalismo se desenvolveu especifi-
(in Winckelmann, 1968). O primeiro livro de-         camente no Noroeste da Europa, ainda que
senvolve trs observaes. Em primeiro lugar,        precondies (tais como trabalho assalariado,
que, nos sculos XVI e XVII, a maior parte dos       mercados, tecnologia ou distino entre o lar e
pases economicamente desenvolvidos era pro-         a produo) tenham existido em outras partes.
testante, e dentro deles as burguesias economi-      No entanto isso tambm representa uma afirma-
camente mais avanadas estavam associadas           o sobre modernidade, racionalidade e his-
Reforma. Em segundo lugar, que o novo es-            tria. O capitalismo  "racional" como sistema
prito do capitalismo diferia do mero enriqueci-     de contabilidade e planejamento, mas seu valor
mento ou da ganncia em geral (que so ub-          central -- a acumulao como um fim em si
quos) no sentido de que o esprito capitalista era   mesma --  to irracional quanto qualquer ou-
definido por uma conduta de vida eticamente          tra meta. Assim: "Se este ensaio vier a represen-
regulada e pela busca do acmulo de capital          tar alguma contribuio, que seja a de destacar
como um fim em si mesmo. (Ver tambm TI-            a complexidade do conceito apenas superficial-
CA.) Em terceiro lugar, que havia uma afinidade      mente simples do racional" (Weber, 1904-5
entre a teologia do puritanismo, especialmente       (1974), p.194). Alm disso, Weber afirmou que
seu conceito de "chamamento", e o esprito           a transposio da idia de "chamamento" de um
secular do capitalismo, conforme proposto por        mbito religioso para um mbito secular foi
autores como o moralista norte-americano Ben-        totalmente imprevista para a teologia. A histria
jamin Franklin.                                      segue uma lgica de conseqncias involun-
    A essncia do argumento de Weber  que um        trias, governada por afinidades acidentais, e
movimento teolgico fundamentado na Refor-           no poderia, portanto, seguir o tipo de leis de
ma teve a conseqncia no pretendida de con-        desenvolvimento proposto pelo materialismo
tribuir para o ethos mundano e materialista do       histrico.
capitalismo. O elo entre os dois  reconstrudo          Questes como a gnese do capitalismo e a
atravs da doutrina calvinista da predestinao.     natureza da explicao histrica tambm preo-
Se Deus determinou o padro da Criao pela          cupavam contemporneos de Weber, como
eternidade, ento os salvos (os eleitos) e os        Werner Sombart, Karl Fischer, Felix Rachfahl
condenados j estavam tambm predetermina-           e Ernst Troetsch, e a publicao de A tica
dos. Isso deve ter criado para os calvinistas uma    protestante incitou um debate que continuou
solido ntima sem precedentes, uma vez que a        durante todo o sculo XX. Weber foi, em geral,
salvao no podia ser alcanada, por exemplo,       (mal) compreendido como tendo afirmado que
atravs dos sacramentos ou das "boas obras".         o capitalismo (em oposio ao ethos capitalista)
Weber afirma que essa "questo -- serei eu um        era efeito do puritanismo. Assim, R.H. Tawney,
dos eleitos? -- devia surgir mais cedo ou mais       em Religion and the Rise of Capitalism, que em
tarde para cada crente, forando todos os outros     alguns sentidos fazia eco  crtica de Rachfahl
interesses para um segundo plano" (Weber,            de 1909, afirmou que o capitalismo em Veneza
282   etnicidade


e Florena no sculo XV foi anterior ao purita-      (p.104). No entanto a tese da tica protestante
nismo, que tericos polticos como Maquiavel         tambm implica uma renncia da histria como
deram mpeto ao esprito capitalista e que o         narrativa estruturada, tal como expe o ma-
calvinismo em si mesmo era anticapitalista. O        terialismo histrico, em favor de conexes ml-
protestantismo, concluiu Tawney, foi o terreno       tiplas em meio ao caos das conseqncias ines-
ideolgico no qual o capitalismo se afirmou.         peradas. Os valores puritanos descobriram afi-
Em The Quintessence of Capitalism (1913),            nidades com um sistema materialista que, em
Sombart afirmou que o catolicismo no im-            sua forma desenvolvida, teria horrorizado os
pedia a atividade lucrativa e que o mpeto para      telogos da Reforma.  possvel detectar aqui
o capitalismo havia derivado de grupos mar-          uma idia da histria e da modernidade com
ginalizados, como os judeus, e de comerciantes       fenmenos trgicos, no sentido tambm apon-
aventureiros. Esses argumentos sobre cronolo-        tado por um colega de Weber, Georg Simmel.
gia e influncia causal no se limitaram ao          A cultura moderna  "trgica" quando as foras
debate no incio do sculo XX, mas surgem            que a destroem so conseqncias necessrias
ainda hoje, como indica a obra de Pellicani          de propriedades essenciais ao fenmeno em si
(1988).                                              mesmo. No entanto isso no est explicitamen-
    A resposta de Weber a crticos como Ra-          te afirmado na obra de Weber. Apenas indica o
chfahl, Sombart ou Fischer, na qual ele teve o       tipo de inferncia mais ampla que a tese admite
apoio de Troetsch, foi reafirmar que no havia       e que tem ocupado estudiosos em todo o decor-
alegado mais que uma "afinidade eletiva" entre       rer deste sculo.
o puritanismo e o esprito do capitalismo.          Leitura sugerida: Eldridge, J.E.T., org. 1972: Max
evidente que havia comerciantes aventureiros         Weber  Fischoff, E. 1944: "The Protestant ethic and
alheios  teologia puritana. No entanto era o        the spirit of capitalism: the history of a controversy".
esprito da acumulao, como parte de um estilo      Social Research 11, 61-77  Green, R.W., org. 1959:
de vida asctico, que diferenciava a atividade       Protestantism and Capitalism: the Weber Thesis and its
capitalista nos sculos XVI e XVII do enrique-       Critics  Hennis, W. 1988: Max Weber: Essays in
cimento em geral. Era esse esprito que corpo-       Reconstruction  Marshall, G. 1982: In Search of the
                                                     Spirit of Capitalism: An Essay on Max Weber's Protes-
rificava a congruncia entre a teologia da Refor-    tant Ethic Thesis  Mommsen, Wofgang J. 1977: "Max
ma e as motivaes econmicas do capitalismo         Weber as critic of Marxism". Canadian Journal of
(Weber, 1910). Alm do mais, Weber j previra        Sociology 2, 373-98  Poggi, G. 1983: Calvinism and
as acusaes de "idealismo" quando observou:         the Capitalist Spirit  Ray, L.J. 1987: "The Protestant
"(...)  claro que no  minha inteno substituir   ethic debate". In Classic Disputes in Sociology, org. por
uma interpretao causal da cultura e da histria    R.J. Anderson, J.A. Hughes e W.W. Sharrock  Schlu-
                                                     chter, W. 1981: The Rise of Western Rationalism: Max
unilateral e espiritualista por uma outra, igual-    Weber's Developmental History  Sprinzak, E. 1972:
mente unilateral materialista. Ambas so igual-      "Weber's thesis as an historical explanation". History
mente possveis (...)" (Weber, 1904-5 (1974),        and Theory 11, 294-320.
p.183).                                                                                              L.J. RAY
    No entanto, esse desmentido j  uma suges-
to do tipo de ambigidades da tese que tm          etnicidade Esta  uma das principais carac-
alimentado sete dcadas de debates. Ser que         tersticas socialmente relevantes dos seres hu-
Weber realmente s queria sugerir uma afini-         manos. Para compreend-la, precisamos de-
dade eletiva entre o puritanismo e o ethos capi-     monstrar como ela deve ser distinguida de RA-
talista? Se for esse o caso, ento a alegao       A, classe, status (ver ESTRATIFICAO SOCIAL) e
sugestiva (impelindo C.P. Hill e Robert Merton       posio, mas tambm como interage com estes
a examinar os elos entre puritanismo e cincia       na formao de grupos e sistemas sociais.
natural, por exemplo), mas no  forte. Alm do           importante distinguir a etnicidade de dife-
mais, que  que ela significa em termos de se        renciao racial. Enquanto esta ltima ocorre
escrever a histria, se cada explicao  igual-     em termos de diferenas fsicas que se acredita
mente possvel? Karl Lwith, um marxista sim-        serem biologicamente herdadas, a diferencia-
ptico ao projeto de Weber, interpretou como         o tnica se d em termos de diferenas cul-
querendo dizer que "ambas so igualmente im-         turais que tm de ser aprendidas. Essa distino
possveis" (Lwith, 1932, p.103); da, as ex-         confundida na teoria racista no-cientfica, a
plicaes histricas deverem ser "multilaterais"     qual presume que o comportamento cultural,
                                                                                     etnicidade    283


tanto quanto as caractersticas fsicas,  biolo-    de status que as caractersticas culturais defini-
gicamente herdado. Uma das caractersticas da        doras do grupo se baseiam, numa distino
etnicidade e dos grupos tnicos para cuja for-       hostil entre um grupo e outro. Como diz Weber
mao ela contribui , porm, que as peculiari-      em Economia e sociedade, os grupos de status
dades tnicas so comuns aos que so parentes        baseiam-se na "distribuio diferencial da hon-
biolgicos. O processo de aprendizagem atra-         ra". Um nico grupo de status no pode existir
vs do qual se adquire a cultura ocorre entre pais   por si prprio -- tem de fazer parte de um
e filhos biolgicos; portanto, no surpreende        sistema hierrquico de grupos. Embora os gru-
que raas e grupos tnicos s vezes se sobrepo-      pos tnicos possam tornar-se grupos de status
nham. Uma raa pode ser tambm um grupo              quando os indivduos comparam e avaliam suas
tnico e um grupo tnico pode constituir-se          prprias caractersticas culturais em contrapo-
exclusivamente de indivduos da mesma raa.          sio s de outros grupos, e embora a etnicidade
No obstante, as raas so grupos bem mais           possa ser uma das caractersticas avaliadas em
amplos e os grupos tnicos implicam diferenas       um sistema de status, esse tipo de ordenao de
sutis de comportamento, de forma que dentro          status no  da essncia da etnicidade. Na pr-
de qualquer uma das principais raas ou sub-ra-      tica, o que em geral encontramos, porm,  o
as do mundo pode haver grande nmero de             funcionamento combinado de uma ordem tni-
diferenas tnicas internas.  tambm possvel       ca e de status. Deve observar-se tambm que
que indivduos de raas diferentes se tornem         tanto etnicidade quanto status podem ser trans-
membros do mesmo grupo tnico, na medida             mitidos, em grupos de parentesco, de pais para
em que o comportamento cultural de um grupo          filhos. Contudo, no so to vigorosamente
tnico pode, em princpio, ser aprendido, no        determinados por herana quanto os grupos
dependendo da herana biolgica. Os judeus na        raciais.  possvel que indivduos de parentes-
Alemanha foram erroneamente representados            cos diversos sejam unidos pela etnia e, em um
pelos idelogos nazistas como constituindo           sistema de status,  possvel a mobilidade de um
uma raa, enquanto na verdade eram um grupo          grupo de status para outro.
tnico com uma cultura caracterstica, de base           Um sistema de ordens  uma forma mais
religiosa.                                           complexa de organizao social, uma forma
    As classes sociais so coletividades cujos       com a qual a etnicidade pode estar envolvida.
membros individuais esto unidos em primeiro         Tal como um sistema de status, implica a dis-
lugar por interesses comuns. Nesse aspecto, so      tribuio diferencial da honra, mas tem os as-
diferentes dos grupos tnicos, para os quais um      pectos adicionais da especializao funcional
interesse comum no  uma caracterstica defi-       pelas diferentes ordens e da desigualdade jur-
nidora bsica. Para que as classes se tornem         dica e poltica entre elas, tal como no sistema
agentes coletivos, porm,  necessrio que se        clssico de ordens da Europa medieval e nas
tornem unidas pelos elos de uma organizao          sociedades coloniais. No caso colonial, os gru-
comum, de uma cultura comum e de uma cons-           pos diferencialmente incorporados podem mui-
cincia comum. Pode acontecer de uma "clas-          to bem ser grupos tnicos. Sociedades desse
se" capaz de contar com o vnculo tnico vir a       tipo, caracterizadas pela incorporao diferen-
ser mais forte e mais capaz de ao coletiva do      cial de diferentes grupos tnicos, so o que
que uma outra que desenvolve uma nova or-            socilogos chamam de sociedades plurais
ganizao e uma nova conscincia em torno de         (Smith, 1963 e 1974). De acordo com a termi-
um interesse comum. Por outro lado, os grupos        nologia aqui adotada, sociedade plural  aquela
tnicos podem ser transformados por sua intera-      em que diversos grupos tnicos esto organiza-
o com um sistema de interesses. Com fre-           dos em um sistema de ordens.
qncia, os laos de etnicidade esto latentes e         Etnicidade e constituio de grupos tnicos,
podem at no levar  formao de um grupo,          ao que parece, baseiam-se na diferenciao cul-
a no ser que os indivduos sejam ativados pela      tural dos indivduos e na criao de laos sociais
existncia de interesses comuns.                     entre os que partilham de uma CULTURA comum.
    Os grupos de status, tal como os grupos          Num sentido tpico ideal,  possvel pressupor
tnicos, baseiam-se nas caractersticas culturais    uma sociedade que consista em tais grupos, e
comuns de seus membros. Ao contrrio dos             somente neles. Na prtica, porm, a etnicidade
grupos tnicos, porm,  na natureza dos grupos      torna-se envolvida na interao de raas, clas-
284   etnometodologia


ses, grupos de status e ordens, e se evidencia              como parte das prprias condies de existn-
atravs deles. Portanto, no surpreende que, ao             cia.
se fazerem tentativas de definir etnicidade, se                 As teorias situacionais sobre a etnicidade
tenha feito referncia no s caractersticas de            relacionam-na estreitamente  busca de interes-
etnicidade em si, mas aos grupos e diferencia-              ses. Os fatores primordiais a que Geertz se
es estruturais dentro dos quais ela se expressa.          refere so encarados como permanecendo la-
    As tentativas clssicas dos antroplogos de             tentes, a no ser que a situao os torne relevan-
definir a etnicidade dividiram-na em teorias                tes para a consecuo de fins. Nesse caso, po-
"primordiais", associadas ao nome Clifford                  dem ser recursos importantes para a cooperao
Geertz (1963), e teorias "situacionais", associa-           necessria  consecuo de fins. Por outro lado,
das ao nome de Frederick Barth (1969). Segun-               os vrios fatores envolvidos na etnicidade po-
do Geertz, a etnicidade e a constituio de                 dem constituir um estigma e um risco em rela-
grupos tnicos so fatores "primordiais" no                 o  consecuo de fins. Nesse ponto, parece
sentido de serem dados nas prprias condies               que os tericos situacionais esto chamando a
da existncia humana. Esses dados incluem                   ateno para as necessidades tticas e os in-
aquilo que ele chama de "contigidade" e "liga-             teressses comuns que Geertz exclui. Eu tambm
o de vida" (isto , ligaes derivadas da proxi-          os exclu do tipo ideal de etnicidade, embora
midade territorial ou do parentesco), mas, alm             observando que no mundo real os grupos tni-
desses, "o dado que se origina de se ter nascido            cos vm a se entrelaar profundamente com as
em uma comunidade religiosa particular, falan-              formaes de classe social. Ao mesmo tempo,
do uma lngua particular, ou mesmo um dialeto               a noo de estigma chama a ateno para o
de uma lngua, e seguindo prticas sociais par-             desenvolvimento de distines hostis  medida
ticulares". Geertz continua:                                que um sistema de grupos tnicos se vai en-
   Essas continuidades de sangue, fala, costumes e as-
                                                            trelaando com a ordem de status.
   sim por diante exercem uma conseqncia inex-                Tudo somado, podemos ver que a etnici-
   primvel e s vezes esmagadora sobre e a partir deles    dade, compreendida como primordial no sen-
   mesmos. Uma pessoa est ligada a um parente, a um        tido de Geertz,  um fator entre os vrios envol-
   vizinho, a um companheiro de crena, ipso facto,         vidos na ordenao e na estrutura bsicas da
   como resultado no apenas da atrao pessoal, da         sociedade humana. Dito de outra maneira, po-
   necessidade ttica, do interesse comum ou da obriga-     demos afirmar que etnicidade pura  um tipo
   o moral contrada, mas, ao menos em grande parte,      ideal, uma abstrao analtica dos cientistas
   em virtude de alguma significao absoluta e inex-       sociais. Esses tipos ideais, porm, so essen-
   plicvel atribuda ao prprio elo em si. (1963, p.109)   ciais  cincia social, e no h como uma ex-
    Aqui, Geertz desenvolve um tipo ideal de                plicao completa da estrutura social possa ser
etnicidade em si mesma. Ele a diferencia com                apresentada ignorando-se o elemento da etnici-
bastante clareza de classe e de grupos ao estilo            dade.
de classe, que se baseiam na "necessidade tti-             Leitura sugerida: Barth, Frederick 1969: Ethnic
ca" e no "interesse comum"; do gosto e da                   Groups and Boundaries  Geertz, Clifford 1963: Old
averso, e talvez da honra e da desonra, carac-             Societies and New States: the Quest for Modernity in
tersticos dos sistemas de status; e das obriga-            Asia and Africa  Smith, Michael Garfield 1963: The
es intergrupais que talvez caracterizem os                Plural Society in the British West Indies  1974: Corpo-
sistemas de ordem. Mas inclui o parentesco                  rations and Society  Warner, W. Lloyd 1936: "Ameri-
                                                            can class and caste". American Journal of Sociology, 42
biolgico em sua lista de fatores primordiais, e            (setembro)  Weber, Max 1921-22 (1967): Economy
parecia a princpio estar confundindo raa e                and Society, vol.2, cap.9.
etnicidade. Pode-se argumentar, porm, que os                                                           JOHN REX
aspectos fsicos passam a ser valorizados ao
lado dos puramente culturais e, assim, se tor-              etnometodologia Este campo da sociologia
nam parte da cultura. O que  mais interessante             investiga o funcionamento do conhecimento
a respeito da definio de Geertz, no entanto, e            produzido pelo senso comum e do raciocnio
o que acrescenta alguma coisa ao que j foi dito            prtico em contextos sociais. Em contraste com
acima,  que certas caractersticas valorizadas             as perspectivas que encaram o comportamento
do aspecto e do comportamento humanos o so,                humano em termos de fatores causais externos
no como questo de escolha arbitrria, mas                 ou de motivaes internalizadas, a etnometodo-
                                                                             etnometodologia    285


logia enfatiza o carter ativo, racional e cog-    esse processo, seguindo Karl Mannheim, como
nitivo da conduta humana. Seu fundador e prin-     "o mtodo documental de interpretao", e afir-
cipal terico, Harold Garfinkel, afirmou que       mou que ele  um aspecto ubquo do reco-
uma teoria da ao e da organizao sociais        nhecimento de todos os objetos e eventos, desde
estaria incompleta sem uma anlise do modo         os aspectos mais mundanos da existncia coti-
como os agentes sociais compartilham o co-         diana at as mais recnditas realizaes arts-
nhecimento e o raciocnio produzidos pelo sen-     ticas ou cientficas. Nesse processo, renem-se
so comum na conduo de seus assuntos co-          as ligaes entre um evento e seu pano de fundo
muns. Pois sem tal anlise seria impossvel        fsico e social usando-se uma srie variada de
demonstrar como os membros do mundo social         suposies e procedimentos inferenciais. O m-
se comprometem com linhas de ao realistas        todo documental incorpora a propriedade da
e pactuadas. Sua inovao crucial foi estabe-      reflexividade: mudanas na compreenso do
lecer uma explicao das propriedades do           contexto de um evento provocaro alguma mu-
conhecimento produzido pelo senso comum,           dana ou elaborao da apreenso do evento
das compreenses compartilhadas e da ao          central e vice-versa. Quando empregado num
social ordinria que pode ser desenvolvida         contexto temporalmente dinmico, que  uma
em um programa coerente de pesquisa em-            caracterstica de todas as situaes de ao e
prica.                                            interao social, ele forma a base para com-
    A etnometodologia desenvolveu-se nos           preenses de aes e eventos, entre os par-
anos 60 a partir dos textos fenomenolgicos de     ticipantes, compartilhadas e atualizadas.
Alfred Schutz (1962-66), o qual afirmava que           A inerente contextualidade do mtodo do-
o conhecimento produzido pelo senso comum          cumental est associada a outras propriedades
 fragmentado e incompleto, articulado de uma      do raciocnio e da ao prticos. Uma proposi-
forma tipificada, aproximada e corrigvel, e que   o fundamental da etnometodologia  que to-
as compreenses partilhadas entre pessoas so      dos os objetos e produtos do raciocnio prtico
realizaes contingentes baseadas nesse conhe-     -- conceitos, descries, aes e assim por
cimento. Utilizando uma srie de procedimen-       diante -- tm propriedades de indexao. Isso
tos semi-experimentais (conhecidos como "ex-       significa que o sentido desses objetos  elabo-
perincias de ruptura") para criar desvios bsi-   rado e particularizado pelos contextos em que
cos a partir de expectativas sociais tidas como    eles aparecem. Embora essa propriedade seja
certas, Garfinkel (1967) foi capaz de demons-      um obstculo reconhecido para a anlise formal
trar o alcance dessas idias. Os desvios ex-       da linguagem e da ao (e seja assim tratada na
perimentais criaram profunda confuso e indig-     literatura sobre lgica, da qual deriva a noo
nao moral nos objetos da experincia. In-        de "indexao"), no  um obstculo  condu-
dicaram que as compreenses partilhadas, as        o da ao prtica. De fato, os agentes sociais
aes sociais e, em ltima anlise, as institui-   planejam regularmente sua conduta de forma a
es sociais so sustentadas por um complexo       utilizar contextos locais para elaborar e par-
corpo de suposies, admisses tcitas e mto-     ticularizar o sentido daquilo que dizem e de suas
dos de inferncia -- em suma, um conjunto de       aes. Assim, exploram as propriedades de in-
mtodos, ou metodologia -- que informa a           dexao da ao e do raciocnio prtico. Inver-
produo de objetos e aes culturalmente sig-     samente, porm, essas particularidades no po-
nificativos, e tambm a compreenso destes.        dem sustentar-se fora de contexto. Existe uma
So esses mtodos de raciocnio do senso co-       adequao inerentemente aproximada entre
mum e suas propriedades que constituem o           eventos particulares e suas representaes mais
objeto de pesquisa da etnometodologia.             gerais em descries e em formulaes mate-
    Os mtodos de raciocnio do senso comum        mticas, e essa adequao s pode ser avanada
so fundamentalmente adaptados ao reconheci-       atravs de uma srie de atividades interpre-
mento e  compreenso de eventos-em-contex-        tativas aproximadoras, que Garfinkel chama de
to. Na anlise de Garfinkel, as compreenses       "prticas ad hoc". Essas prticas so, portanto,
comuns so o produto de um processo circular       cruciais para o processo pelo qual os agentes
no qual um evento e seu pano de fundo so          sociais sustentam a coerncia, a normalidade e
dinamicamente ajustados um ao outro para for-      a sensatez de suas circunstncias e atividades
mar uma Gestalt coerente. Garfinkel descreveu      cotidianas.
286   etologia


    O programa etnometodolgico de pesquisa         cesso, criaram-se novos campos de pesquisa na
baseia-se nessas observaes essenciais. Sua        sociologia e em disciplinas correlatas e sur-
dinmica fundamental tem origem no ponto de         giram novas perspectivas sobre reas tradicio-
vista de que as compreenses compartilhadas         nais de problemas. Alm, contudo, das reas
de todos os aspectos do mundo social se apiam      especficas nas quais a etnometodologia tem
em um corpo altamente complexo de mtodos           sido uma importante fonte de inovao, est
tcitos de raciocnio que so socialmente parti-    claro que ela tambm vem exercendo um im-
lhados e que tm carter de procedimento. Tal       pacto importante e contnuo tanto sobre a teoria
como esses mtodos de raciocnio so utiliza-       sociolgica bsica quanto sobre os modos pelos
dos para reconhecer objetos, eventos e pessoas,     quais se abordam muitos tipos de problemas de
e para compreender descries de todos estes,       pesquisa emprica. Essa influncia ampliou-se
tambm so igualmente usados para produzir          para os campos adjacentes da PSICOLOGIA SO-
aspectos do mundo social que so reconhec-         CIAL, da LINGSTICA e da INTELIGNCIA ARTIFI-
veis e descritveis ou, para usar a palavra de      CIAL. Em todas essas direes, a influncia da
Garfinkel, responsveis. O fato de o mesmo          etnometodologia  uma fora dinmica no pen-
conjunto de procedimentos de raciocnio ser         samento social contemporneo.
empregado tanto para reconhecer eventos so-
                                                    Leitura sugerida: Atkinson, J.M. 1978: Discovering
ciais quanto para produzi-los  a base elementar    Suicide: Studies in the Social Organization of Sudden
sobre a qual os membros de uma cultura podem        Death  Cicourel, A.V. 1968: The Social Organization
vir a habitar um mundo social fundamental-          of Juvenile Justice  Garfinkel, H. 1967: Studies in
mente compartilhado.                                Ethnomethodology  Heritage, J. 1984: Garfinkel
    A teorizao fundamental de Garfinkel tem       and Ethnomethodology  Lynch, M. 1985: Art and Ar-
                                                    tifact in Laboratory Science  Pollner, M. 1987: Mun-
sido empregada num corpo diferente de estudos
                                                    dane Reason: Reality in Everyday and Sociological
sociolgicos empricos. Entre estes, foi impor-     Discourse  Schutz, Alfred 1962-66: Collected Papers,
tante uma srie de investigaes da construo      3 vols.  Wieder, D.L. 1974: Language and Social Rea-
simblica e prtica de mundos sociais particu-      lity.
lares e circunscritos (Wieder, 1974), bem como                                          JOHN HERITAGE
do raciocnio bsico pelo qual se obtm e se
sustenta o senso conjunto das pessoas de uma        etologia Konrad Lorenz e Niko Tinbergen
realidade compartilhada (Pollner, 1987). Ou-        so normalmente encarados como os fundado-
tros estudos tm-se voltado para o tema da          res da moderna etologia, a abordagem biolgica
adequao aproximada entre descries e even-       do estudo do comportamento. Por suas realiza-
tos do mundo real. De destaque nesse contexto       es pioneiras, eles dividiram o Prmio Nobel
tm sido as investigaes sobre a criao or-       com Karl von Frisch em 1973. Lorenz e Tinber-
ganizacional dos dados estatsticos nos quais       gen trataram o comportamento do mesmo mo-
muitos estudos sociolgicos se apiam. Nesse        do que qualquer outro aspecto de um animal, no
caso, tem-se afirmado -- particularmente em         sentido de que os padres de comportamento
relao a estatsticas sobre crime, transgresso,   em geral tm uma regularidade e uma consis-
suicdio e assim por diante -- que o raciocnio     tncia que se relacionam com necessidades b-
prtico das equipes de organizaes construiu       vias do animal. Alm disso, o comportamento
pressupostos tericos sobre as causas desses        de uma espcie geralmente difere de forma
fenmenos to mergulhados em dados estats-         marcante do de outra. Essa percepo foi um
ticos que os resultados so inteis para a pes-     passo crucial para fazer com que o estudo do
quisa sociolgica (Cicourel, 1968; Atkinson,        comportamento entrasse na sntese darwiniana
1978). Outros produtos significativos do pro-       que estava sendo forjada nos anos 30. Uma vez
grama etnometodolgico tm abrangido estu-          que seu pensamento estava impregnado da teo-
dos de interao social (mais destacadamente a      ria darwiniana da evoluo, os etologistas es-
anlise conversacional [ver CONVERSACIONAL,         pecularam repetidas vezes sobre a relevncia,
ANLISE]) e iniciativas importantes na sociolo-     em termos de adaptao, das diferenas entre as
gia da cincia (Lynch, 1985).                       espcies.
    No decorrer do seu desenvolvimento, a etno-         O interesse pela funo biolgica levou a
metodologia tem-se alternado entre tendncias       muitos estudos excelentes de animais em con-
"construtivas" e "desconstrutivas". Nesse pro-      dies naturais. Um animal em cativeiro geral-
                                                                                     etologia   287


mente se encontra demasiado constrangido por           Tinbergen destacou quatro problemas am-
seu ambiente artificial para fornecer uma com-     plos, porm isolados, levantados pelo estudo
preenso completa das funes da grande varie-     biolgico do comportamento. A questo de co-
dade de atividades que a maior parte dos ani-      mo um padro de comportamento  controlado
mais  capaz de executar. Os estudos, em con-      tem a ver com os fatores internos e externos que
dies naturais, de animais e cada vez mais de     regulam sua ocorrncia, e com o modo como
seres humanos tm sido um aspecto importante       funcionam os processos bsicos. O estudo do
da etologia e desempenhado papel de destaque       desenvolvimento do comportamento ocupa-se
no desenvolvimento de mtodos caractersticos      das influncias genticas e ambientais sobre a
e eficazes de observao e mensurao do com-      montagem de um padro de comportamento no
portamento. Mesmo assim, seria um engano           perodo de vida do indivduo e com o modo
descrever os etlogos como no-experimentais       como funcionam os processos de desenvol-
e preocupados meramente com a descrio.           vimento. O problema da funo comportamen-
    Tinbergen foi um mestre em elegantes ex-       tal diz respeito ao modo como o padro de
perincias de campo e a excelente tradio que     comportamento ajuda a manter o animal vivo e
ele firmou continua at os dias de hoje. Grava-    a propagar seus genes na gerao seguinte.
es em fita de predadores ou congneres (tais     Finalmente, os estudos evolucionistas do com-
como filhotes ou companheiros/as potenciais)       portamento dizem respeito  histria ancestral
so tocadas para animais livres a fim de des-      e aos modos pelos quais um padro de compor-
cobrir como estes reagem. Da mesma forma,          tamento evoluiu. Essas quatro reas de pesquisa
foram usados bonecos e imitaes de diferentes     so distintas. No entanto a posio etolgica 
formatos para medir a reao a uma forma ou        a de que no devem ser severamente divor-
cor em particular, tais como as bicadas que        ciadas umas das outras. Ao colocar uma questo
filhotes de gaivotas do em diferentes objetos     em particular num contexto conceitual mais
mais ou menos parecidos com os bicos de seus       amplo, alcana-se maior compreenso, qual-
pais. Esses e muitos outros exemplos demons-       quer que possa ter sido a questo central. A
tram que at mesmo o campo predominante da         abordagem funcional, com toda a certeza, tem
etologia implica muito mais que a mera obser-      ajudado os que se interessam pelo estudo do
vao passiva. Alm disso, muitos etlogos tm     mecanismo, e o estudo do desenvolvimento e
dedicado a maior parte de suas vidas profis-       da integrao de comportamento tem propor-
sionais a estudos de laboratrio do controle e     cionado importantes percepes das presses e
desenvolvimento do comportamento. Na ver-          coeres que vm funcionando no decorrer da
dade, algumas das descobertas etolgicas mais      evoluo.
impressionantes, tais como o imprinting em             Certos conceitos e teorias fundamentais es-
pssaros, foram feitas em condies artificiais    tiveram ligados em certo momento  etologia.
e influenciaram de modo marcante a forma co-       J no formam uma parte to central do pen-
mo o comportamento vem sendo interpretado.         samento etolgico, embora tenham sido impor-
    Quando observada em pssaros em cativei-       tantes em seu desenvolvimento. Dois conceitos
ro, a elaborada seqncia envolvida na constru-    bsicos foram o "estmulo do sinal" e o "padro
o de um ninho no  facilmente explicada em      fixo de ao". A idia de estmulo do sinal, tal
termos de uma srie de aes aprendidas, cada      como o peito vermelho de um tordo norte-ame-
qual desencadeada por um estmulo particular       ricano desencadeando um ataque por parte de
do meio ambiente. No obstante, a disposio       um oponente, foi produtiva por levar  anlise
a considerar qual poderia ser um padro de         dos caracteres de estmulo que incitam seletiva-
comportamento particular no ambiente natural       mente fragmentos particulares de comporta-
sempre foi caracterstica dessa matria. Quando    mento. Os padres fixos de ao (ou padres
essa abordagem era associada a comparaes         modais de ao, como talvez seja sua melhor
entre animais, a fcil suposio de que todos os   descrio) proporcionaram unidades teis para
animais resolvem o mesmo problema da mes-          a descrio e a comparao entre espcies. Ca-
ma forma foi rapidamente revelada como falsa.      racteres comportamentais tm sido usados na
A abordagem comparativa continua a ser uma         taxonomia, e a preocupao zoolgica com a
caracterstica importante da etologia em geral.    evoluo levou a tentativas de se formularem
288   etologia


princpios para a derivao e a ritualizao de      mo alimentao, namoro, cuidado com os fi-
movimentos que servem como sinais.                   lhotes e assim por diante. Conseqentemente,
    Tanto o conceito de estmulo do sinal, ou        atribui-se uma nfase cada vez maior aos me-
desencadeador, quanto o padro fixo de ao          canismos comuns de percepo, armazenamen-
desempenharam papis importantes nas pri-            to de informao e controle de output.  medi-
meiras tentativas etolgicas de desenvolver          da que isso ocorre, os interesses de muitos et-
modelos de sistemas de comportamento. O mo-          logos esto coincidindo em medida cada
delo do reservatrio (lavatory cistern) de           vez maior com as preocupaes tradicionais da
Lorenz era um fluxograma em mais de um               PSICOLOGIA.
sentido e forneceu a toda uma gerao de et-            O trabalho moderno tambm destruiu outra
logos um meio de integrar seu pensamento             crena dos etlogos clssicos, a de que todos os
sobre a causalidade mltipla do comportamen-         membros da mesma espcie e da mesma idade
to a partir tanto de dentro quanto de fora. No       e sexo ho de se comportar do mesmo modo. J
entanto esse modelo era seriamente enganoso          se foi o tempo em que uma pessoa em trabalho
e, em alguns sistemas de comportamento, es-          de campo podia supor com confiana que uma
pecialmente a agresso, o desempenho do com-         boa descrio de uma espcie, obtida em um
portamento torna a repetio mais provvel, e        habitat, podia ser generalizada para a mesma
no menos, como prev o modelo. Outro mo-            espcie em outro conjunto de condies am-
delo de sistemas saiu-se bem melhor na prova         bientais. As variaes de comportamento den-
do tempo. Foi desenvolvido por Tinbergen e           tro de uma espcie podem,  claro, refletir a
dizia respeito  organizao hierrquica do          penetrao e difuso dos processos de apren-
comportamento. Aqui porm, mais uma vez,             dizado. No entanto alguns modos alternativos
seu papel mais importante no foi tanto o poder      de comportamento so provavelmente mais de-
de previso quanto ajudar os etlogos a reunir       sencadeados do que aprendidos pelas condies
indcios que de outra forma poderiam parecer         ambientais predominantes. No caso do babuno
desconectados.                                       "gelada", por exemplo, muitos machos adultos
    Uma preocupao etolgica clssica foi           so bem maiores que as fmeas e, uma vez que
com o carter inato de grande parte do compor-       assumem um grupo de fmeas, defendem-nas
tamento, e esse tema esteve fortemente ligado        das atenes de outros machos. Outros machos,
ao desenvolvimento de uma teoria do instinto.        por sua vez, so do mesmo tamanho das fmeas
No entanto at mesmo os fundadores dessa             e conseguem surrupiar uma cpula quando um
temtica no negaram a importncia do apren-         macho grande no est olhando. O benefcio
dizado. Ao contrrio, deram destaque a proces-       compensatrio para os machos pequenos  que
sos de desenvolvimento, tal como o imprinting,       eles tm vidas reprodutivas bem mais longas do
o qual especifica o que um animal trata como         que os machos grandes. Parece provvel que
me ou companheiro/a, e o aprendizado do             qualquer macho pode seguir qualquer um des-
canto, que especifica o modo como um pssaro         ses dois caminhos, e o caminho particular em
macho canta um dialeto diferente do de outro         que cada um deles se desenvolve depende das
macho da sua prpria espcie. Ainda assim,           circunstncias. Exemplos como esse esto le-
Lorenz encarava o comportamento adulto co-           vando a um crescente interesse por tticas alter-
mo implicando a intercalao de elementos            nativas, sua relevncia funcional e a natureza
"aprendidos" e "instintivos" distintos e discer-     dos princpios de desenvolvimento nelas im-
nveis. Poucas pessoas ainda compartilham            plcitos.
desse ponto de vista e o trabalho dos etlogos           A etologia moderna rene tantas disciplinas
orientados para o desenvolvimento tem sido           diferentes que desafia uma definio simples
importante por ilustrar como os processos de         em termos de um problema comum ou de uma
desenvolvimento implicam uma interao entre         literatura comum. Ela se sobrepe extensamen-
fatores internos e externos. Depois das primei-      te aos campos conhecidos como ecologia com-
ras e fracassadas tentativas de classificar o com-   portamental e SOCIOBIOLOGIA. Alm disso, os
portamento em termos de instintos, a ateno         que hoje em dia se dizem etlogos vo ser
concentrou-se cada vez mais nas faculdades ou        encontrados trabalhando ao lado de neurobi-
propriedades de comportamento que unem as            logos, psiclogos, antroplogos e psiquiatras
categorias funcionais convencionais, tais co-        sociais e desenvolvimentistas, entre muitos ou-
                                                                                 eugenia, cincia da   289


tros. Os etlogos esto acostumados a pensar de           caractersticas as transmitissem s geraes fu-
maneiras que refletem sua experincia com sis-            turas. Nos Estados Unidos, mais de 60 mil
temas de livre funcionamento que ao mesmo                 indivduos foram esterilizados de acordo com
tempo influenciam muitas coisas  sua volta e             leis estaduais que estipulavam a esterilizao
por elas so influenciados. Essas habilidades             compulsria dos mentalmente insanos ou retar-
permitiram-lhes compreender a dinmica dos                dados. Na Alemanha nazista, um sistema de
processos comportamentais e so valorizadas               tribunais especiais de sade e eugenia ordenou
pelos que com eles colaboram. Houve poca em              a esterilizao de mais de meio milho de in-
que a etologia parecia prestes a sucumbir a suas          divduos considerados portadores de deformi-
disciplinas irms. No entanto ela ressurgiu co-           dades fsicas, retardos mentais, esquizofrenia,
mo matria importante que continuar a desem-             epilepsia e outras doenas. Como a cincia da
penhar um papel integrador igualmente sig-                gentica, na poca, mal dava os primeiros pas-
nificativo no impulso de compreender para que             sos, e como as teorias raciais pareciam manifes-
servem os padres de comportamento, como                  tamente legtimas para muitos defensores da
evoluram e como so controlados.                         eugenia, as minorias raciais e tnicas foram
                                                          desproporcionadamente visadas para a esterili-
Leitura sugerida: Alcock, J. 1989: Animal Behaviour,
4ed.  Hinde, R.A. 1982: Ethology  Immelmann, K.          zao.
e Beer, C. 1989: A Dictionary of Ethology  Jaynes, J.         Em seguida s revelaes da enormidade
1969: "The historical origins of `ethology' and `com-     dos crimes cometidos sob a influncia da ideo-
parative psychology'". Animal Behaviour 17, 601-6         logia nazista, as teorias raciais foram repudia-
 McFarland, D. 1985: Animal Behaviour  Manning,           das pela maioria dos intelectuais do Ocidente,
A. e Dawkins, M. 1992: An Introduction to Animal          e o movimento da eugenia, devido a sua ligao
Behaviour  Martin, P. e Bateson, P. 1986: Measu-
ring Behaviour  Slater, P.J.B. 1985: An Introduction to   com essas teorias, entrou em eclipse. As leis de
Ethology  Slater, P.J.B., org. 1986: The Collins En-      esterilizao compulsria foram repelidas e os
cyclopedia of Animal Behaviour.                           esforos para melhorar a raa humana atravs
                                   PATRICK BATESON        do princpio da procriao seletiva foram prati-
                                                          camente abandonados. Hoje em dia essas leis
eugenia, cincia da Descrevendo uma cin-                 s esto em vigor em umas poucas reas isola-
cia aplicada que busca melhorar a herana ge-             das, como, por exemplo, partes da China.
ntica da raa humana, essa expresso refere-se               Apesar do desaparecimento do movimento
tambm a um movimento social que busca po-                da eugenia em sua forma original, os esforos
pularizar os princpios e prticas dessa cincia.         para melhorar a herana gentica da raa huma-
A palavra foi adaptada do grego, no final do              na tm sido retomados de uma forma radical-
sculo XIX, pelo cientista ingls Francis Galton          mente diversa. Durante a segunda metade do
(1883, p.17).                                             sculo XX, a cincia da gentica tem feito
   Antes de sua apropriao pelos nazistas, nos           avanos extraordinrios, e uma conseqncia
anos 30, a idia de eugenia desfrutou de amplo            disso foi a descoberta de que muitas doenas
apoio, em crculos tanto liberais quanto conser-          humanas graves so geneticamente transmiti-
vadores, em muitos pases. Isso refletia uma              das (por exemplo, diabetes e anemia falcifor-
complexa mistura de influncias e preocupa-               me). Casais de risco so hoje estimulados a
es. Em parte, era reflexo do crescimento do             fazer exames genticos e a levar em considera-
pensamento racionalista e do interesse cada vez           o a possibilidade de permanecer sem filhos
maior pelo planejamento social. Refletia tam-             ou de abortar um feto que tenha tido o diagns-
bm a conscincia de que certas formas de                 tico de alguma falha gentica sria.
incapacidade social tinham base hereditria. E,               Comparando-se as fases antiga e recente do
finalmente, era um reflexo da influncia das              movimento da eugenia, observa-se uma mu-
teorias raciais (ver RACISMO).                            dana de aes involuntrias para voluntrias,
   Nas primeiras dcadas do sculo os propo-              com relao aos indivduos afetados, e de uma
nentes da eugenia concentravam sua preocupa-              preocupao com incapacidades mentais mal
o nos custos que representavam para a socie-            compreendidas para um grupo limitado de in-
dade o retardo e a doena mentais e a degenera-           capacidades fsicas claramente entendidas. De-
o moral. Isso levou  defesa da esterilizao           vido a essas mudana, o apoio pblico ao novo
como meio de impedir que os portadores dessas             movimento de eugenia tem crescido nos lti-
290    evoluo


mos anos, mas muitos continuam cautelosos, e              los ou milnios, envolvendo a populao huma-
alguns so at mesmo ativamente hostis a                  na inteira, e a ltima no decorrer de perodos
quaisquer esforos para alterar a herana gen-           mais curtos, envolvendo sociedades tomadas
tica de nossa espcie.                                    isoladamente.
    Ver tambm DARWINISMO SOCIAL.                             Embora o conceito de evoluo se refira
                                                          basicamente a um processo de mudana, ele
Leitura sugerida: Haller, M. 1963: Eugenics: Heredi-
tarian Attitudes in American Thought  Kelves, D.J.
                                                          incorpora um reconhecimento do fato da con-
1985: In the Name of Eugenics: Genetics and the Use       tinuidade. Isso porque se baseia na suposio
of Human Heredity  Ludmerer, K.M. 1972: Genetics          de que as entidades que mudam so populaes
and American Society: a Historical Appraisal  Os-         ou sistemas feitos de mltiplos componentes.
born, F. 1951: Preface to Eugenics  Pickens, D.K.         Assim, embora tais entidades possam ser dras-
1968: Eugenics and the Progressives  Searle, G.R. 1976:   ticamente alteradas a longo prazo (como os
Eugenics and Politics in Britain 1900-1914.
                                                          mamferos, que so descendentes de organis-
                                   GERHARD LENSKI         mos unicelulares), muitos componentes persis-
                                                          tem imutveis durante perodos extensos (por
evoluo No sentido mais geral, evoluo                 exemplo, os cdigos genticos de todas as es-
um processo ampliado de mudana ou transfor-              pcies, ao que tudo indica, empregam pares dos
mao de populaes ou sistemas, em que es-               mesmos quatro nucleotdeos h bilhes de
tgios posteriores de uma entidade se desenvol-           anos). A curto prazo, ademais, a continuidade
vem gradualmente a partir de estgios anterio-            , em geral, bem mais evidente do que a mudan-
res. As evolues social e cultural, portanto, so        a. Essa capacidade de sintetizar dois aspectos
casos especiais de um fenmeno muito mais                 do mundo emprico to fundamentais, mas apa-
geral. Em todas as suas variadas manifestaes,           rentemente to contraditrios,  obviamente um
a evoluo  geralmente concebida como um                 dos grandes atrativos do conceito evolucionista
processo irreversvel, embora raras excees              nas vrias cincias.
possam ocorrer.
                                                              O conceito evolucionista  atraente tambm
    O conceito de evoluo  hoje em dia a base
                                                          porque dirige a ateno para os elos importantes
de importantes paradigmas em cincias que vo
                                                          entre passado, presente e futuro. Ren Dubois
da astrofsica  zoologia, e  aplicado a en-
                                                          (1968, p.270), destacado bilogo, expressou
tidades que vo desde o prprio cosmo at
                                                          isso muito bem quando escreveu: "O passado
populaes de organismos microscpicos. O
astrofsico I.D. Novikov (1983, p.XIII), por              no  histria morta;  matria viva com a qual
exemplo, define a cosmologia como "o estudo               o homem forja a si mesmo e constri o futuro."
da estrutura e evoluo do universo".                         Apesar de seus atrativos, o conceito de evo-
    No uso pr-darwiniano, evoluo significa-            luo no deixou de ter crticos. Entre estes se
va um processo de desdobramento, ou de de-                incluem no apenas os criacionistas, que rejei-
senvolvimento, por meio do qual os sucessivos             tam a evoluo com bases teolgicas, mas tam-
estgios de uma entidade eram predetermina-               bm muitos cientistas sociais.
dos por atributos ou potencialidades inerentes,               Os cientistas sociais apresentaram pelo me-
como quando uma flor desabrocha ou um or-                 nos quatro motivos para justificar sua rejeio
ganismo se desenvolve do feto  condio adul-            ao evolucionismo. Primeiro, muitos presumem
ta. Os bilogos hoje em dia, porm, referem-se            que o conceito implique a crena em um pro-
a tal processo como desenvolvimento, reser-               gresso moral e em uma inevitvel melhoria da
vando a palavra evoluo para processos que               condio humana. Segundo, muitos rejeitam a
envolvem populaes de organismos e nos                   idia de evoluo com base em que ela implica
quais o resultado  produto de uma interao              certa forma de reducionismo biolgico. Ter-
entre uma populao e seu meio ambiente, co-              ceiro, os cientistas sociais com pendor huma-
mo nas transformaes intergeracionais de po-             nista rejeitam qualquer explicao generalizan-
pulaes de plantas e animais. Nas cincias               te da histria humana e insistem na importncia
sociais, porm, as palavras evoluo e desen-             dos fatores contingentes na formao das con-
volvimento costumam ser usadas alternativa-               seqncias de qualquer evento. Finalmente,
mente. A primeira tende a ser usada quando se             muitos rejeitam o evolucionismo devido a sua
faz referncia a mudanas no decorrer de scu-            eventual associao com o DARWINISMO SOCIAL.
                                                                                   existencialismo      291


    Embora tenha havido uma justificativa so-        social no fornece base firme para qualquer
cial para essas objees no passado, o pen-          agenda poltica isolada.
samento evolucionista mais recente vem res-             Ver tambm NEODARWINISMO; PROCESSOS
pondendo de maneira geral aos problemas le-          EVOLUCIONRIOS NA ECONOMIA; PROCESSOS EVO-
vantados. Assim, o evolucionismo mais recente        LUCIONRIOS NA SOCIEDADE; SELEO NATURAL.
nega explicitamente tanto a inevitabilidade
quanto a universalidade do progresso moral e         Leitura sugerida: Calvin, M. 1969: Chemical Evolu-
da melhoria da condio humana (Lenski e             tion: Molecular Evolution towards the Origin of Living
                                                     Systems on the Earth  Dobzhansky, T. 1962: Mankind
Lenski, 1987, p.399-406). O progresso (ou di-        Evolving: the Evolution of the Human Species  Harris,
recionalidade)  visto na histria humana ape-       M. 1968: The Rise of Anthropological Theory  Hol-
nas em questes moralmente neutras, tais como        land, H. 1984: The Chemical Evolution of the Atmos-
o crescimento da armazenagem de informaes          phere and Oceans  Laszlo, E. 1987: Evolution: the
culturais teis, da escala de organizao, da        Grand Synthesis  Lenski, G. e Lenski, J. 1987: Human
diferenciao inter e intra-organizacional, do       Societies: an Introduction to Macrosociology, 5ed.
                                                      Lewontin, R.C. 1968: "The concept of evolution". In
poder do ser humano de manipular o meio              International Encyclopedia of the Social Sciences, org.
ambiente biofsico. Mesmo nessas questes, o         por D.L. Sills, vol.5, p.202-10  Mayr, E. 1982: The
progresso s  evidente na populao humana          Growth of Biological Thought  Novikov, I.D. 1983:
considerada como um todo, no em cada socie-         Evolution of the Universe  Simpson, G.G. 1949: The
dade tomada isoladamente.                            Meaning of Evolution: a Study of the History of Life
    Em segundo lugar, o evolucionismo mais           and of its Significance for Man  Tax, S., org. 1960:
                                                     Evolution After Darwin: the University of Chicago
recente rejeita explicitamente o determinismo        Centennial, vol.1: The Evolution of Life; vol.2: The
biolgico, identificando a cultura como o me-        Evolution of Man  Tax, S. e Callender, C., orgs. 1960:
canismo dinmico na mudana social. Embora           Evolution After Darwin: the University of Chicago
o novo evolucionismo afirme que todas as cul-        Centennial, vol.3: Issues in Evolution.
turas refletem a herana gentica de nossa es-                                          GERHARD LENSKI
pcie, ele encara essa herana como capaz de
explicar apenas as caractersticas mais bsicas      evolucionrio, processo Ver PROCESSOS EVO-
do processo evolutivo (tais como o uso univer-       LUCIONRIOS NA ECONOMIA; PROCESSOS EVOLU-
sal de sistemas de smbolos), e no as especfi-     CIONRIOS NA SOCIEDADE.
cas. Isso  muito diferente do reducionismo
simplista de parte do antigo evolucionismo e de      existencialismo Influente filosofia europia
boa parte da sociobiologia contempornea.            do sculo XX, derivada da FENOMENOLOGIA, a
    Em terceiro lugar, as teorias evolucionistas     doutrina caracterstica do existencialismo  de
mais recentes so formuladas em termos de            liberdade humana radical. A palavra foi cunha-
probabilidades, e no do modo determinista a         da durante a Segunda Guerra Mundial para as
que os crticos humanistas se opem. Seu obje-       idias, ento em surgimento, de Jean-Paul Sar-
tivo  definir e descrever a natureza do campo       tre e Simone de Beauvoir. O rtulo estendeu-se
das foras que influenciam as aes de indiv-       primeiro a amigos do casal, como Maurice Mer-
duos e sociedades sob condies especficas, e       leau-Ponty, sendo em seguida aplicada  obra
com isso fornecer uma base para estimativas da       de outros filsofos, em especial Martin Heideg-
probabilidade de vrios resultados -- no pre-       ger e Karl Jaspers, que haviam influenciado
vises nem explicaes de resultados em casos        Sartre. Poucos dos que foram chamados de
individuais.                                         "existencialistas" gostaram disso, ficando preo-
    Finalmente, apesar da associao do pen-         cupados, o que  compreensvel, em serem
samento evolucionista com o darwinismo so-           associados de modo excessivamente estreito
cial, a ligao parece, em grande parte, fortuita.   com os pontos de vista particulares de Sartre. O
Basta lembrar o grande apreo de Marx pela           existencialismo como filosofia deve ser distin-
obra de Darwin ou o panegrico feito por Engels      guido do culto disseminado entre a juventude
 beira do tmulo do amigo para entender a           parisiense nos anos 40 e 50 que tomou empres-
natureza diversificada das implicaes polticas     tado o ttulo. Esse "existencialismo de caf"
do evolucionismo (Berlim, 1939, p.247-8; Har-        pode ter sido apenas uma manifestao da "de-
ris, 1968, p.68). Seria de supor que seus crticos   sordem espiritual" do ps-guerra (usando a ex-
acabaro por entender que o evolucionismo            presso criada por The Oxford Companion to
292   existencialismo


French Literature, 1959, p.261), enquanto as       que  um conceito ao mesmo tempo metafsico
pretenses filosficas so de relevncia perene.   e moral. Ela denota, primeiro, a independncia
    O existencialismo  uma fuso de dois te-      absoluta da escolha com relao a restries
mas: a idia, que remonta a Kierkegaard, de que    causais; uma liberdade diretamente vivenciada,
a existncia humana  de natureza mpar e as       ao que ele alega, num estado de esprito de
percepes essenciais da fenomenologia. A          Angst. Meu carter, meus motivos e minha si-
existncia humana se distingue, primeiro, pela     tuao no podem forar minhas escolhas, uma
capacidade singular das pessoas para a auto-       vez que so parcialmente constitudos por esco-
conscincia e o auto-interesse. O ser humano      lhas e interpretaes. Minha fadiga, por exem-
uma "questo" para si mesmo (Heidegger,            plo,  um motivo para parar, e no para me
1927, p.67); ele  um ser "para si mesmo", em      forar  frente, com um esforo extra, apenas 
oposio ao ser "em si mesmo" das meras coi-       luz de ambies que eu tenha ou no adotado.
sas (Sartre, 1943, p.LXIII). Em segundo lugar,     Uma vez que os valores que uso para justificar
e de modo relacionado, o que uma pessoa se         minhas aes so tambm "projetados" atravs
torna no pode ser explicado por uma dada          de minhas aspiraes, no sendo fornecidos
constituio ou por caractersticas essenciais,    nem pela Natureza nem por Deus, ento minha
mas somente pelas escolhas que a pessoa faz        liberdade  tambm moral. Minhas decises
para resolver a "questo" da sua vida. Assim, "a   no levam em conta quaisquer "fundamentos"
existncia [de uma pessoa] precede a [sua] es-     objetivos, conclusivos; da o senso de "absur-
sncia" (Sartre, 1946, p.28); ou, na colocao     do" a que Sartre se refere (1943, p.479). Liber-
de Ortega, "existncia  o processo de realizar    dade, nesses aspectos, significa que uma pessoa
as aspiraes que somos" (1941, p.113).             totalmente responsvel por suas aes. No
    Uma importante percepo herdada da feno-      pode desculpar-se delas alegando compulso,
menologia diz respeito  prioridade do que         nem tentar impingir os valores que informam
Edmund Husserl chamou de Lebenswelt, "o            suas escolhas como qualquer outra coisa alm
mundo para todos ns", sobre os "mundos"           de seus prprios comprometimentos. Resta, po-
especializados abstrados pelos cientistas. Ns    rm, um imperativo moral de autenticidade: o
nos relacionamos com o mundo, fundamental-         reconhecimento pleno, vivenciado, da prpria
mente, no como objetos naturais interagindo       responsabilidade, cuja anttese  a "m-f" que
com outros de forma causal, mas "intencional-      a maioria de ns se permite na maior parte do
mente" -- isto , encarando-o como uma rede        tempo, como quando, por exemplo, atribumos
de sentido e significado, somente atravs da       nossas falhas a alguma fora inexorvel chama-
qual as coisas podem sobressair para ns. Os       da "carter".
existencialistas, porm, afastam-se essencial-         O existencialismo penetra no pensamento
mente de Husserl ao insistirem em que no          social em diversos pontos. Em primeiro lugar,
somos egos puros, desincorporados, mas ativos      fornece uma importante verso da viso de que,
"seres no mundo" que vivenciam esse mundo          pace o FUNCIONALISMO, o comportamento social
como um "equipamento" (Heidegger, 1927,            s  inteligvel em termos da percepo e com-
p.97), como um "mundo de tarefas" e "proje-        preenso, pelas prprias pessoas, de suas situa-
tos" (Sartre, 1943, p.199).                        es. Em segundo lugar, ele se envolve com
    Os dois temas esto intimamente relaciona-     questes de ALIENAO. A sensao que as pes-
dos.  porque estamos sempre "a caminho" de        soas tm de um mundo estranho, "desencan-
realizar aspiraes que o mundo se revela como     tado", deve-se basicamente  incapacidade de
um campo de sentidos -- como obstculos e          entender a percepo fenomenolgica de que o
oportunidades, digamos. E  porque nos rela-       nosso  um "mundo humano", do qual o univer-
cionamos com as coisas "intencionalmente", e       so neutro do cientista  uma abstrao artificial.
no estamos "no" mundo da maneira natural          Os existencialistas tm uma conscincia ntida,
das pedras ou dos peixes, que nos devemos          no entanto, de que a nfase na liberdade de
reconhecer como criaturas para as quais as coi-    "escolher e recusar" ameaa alienar o indivduo
sas importam e cuja existncia pode tornar-se      de seus companheiros: pois, como diz Jaspers,
uma "questo".                                     posso e devo levantar "resistncia ntima" ao
    Esses temas convergem para produzir a ex-      "social que impus a mim mesmo" (1932, vol.2,
posio radical que Sartre faz de LIBERDADE,       p.30). Isso leva, em terceiro lugar, a discusses
                                                               expectativas racionais, hiptese das   293


das relaes com "o Outro", que so encaradas            racional a "tirar o melhor partido das opor-
pela maioria dos existencialistas como poten-            tunidades" (ver ESCOLHA RACIONAL, TEORIA DA)
cialmente inimigas do alcance da autenticidade.          que  responsvel pela gerao de expectativas
Para Heidegger, o annimo "Eles" (Das Man)               racionais. E no surpreende que tenha sido lou-
seduz ou "tranqiliza" o indivduo  aceitao           vada como a hiptese natural a se usar na ECO-
passiva dos hbitos e opinies "medianos" "De-           NOMIA NEOCLSSICA. De fato, junto com a cha-
les" (1927, p.222), enquanto para Sartre o peri-         mada hiptese da taxa natural de desemprego,
go vem do "Olhar" (le regard) do Outro, seu              ela constituiu um dos principais esteios da NOVA
poder de me categorizar e reificar (1943, p.263;         ECONOMIA CLSSICA, extremamente influente.
cf. a exposio de Simone de Beauvoir em O               Alm disso, simplificou enormemente a esti-
segundo sexo, 1949, de como o Outro, na forma            mativa de relaes em econometria.
de homens, consegue constituir a compreenso                 A formulao original de Muth (1961) sobre
que as mulheres tm de si mesmas). "O inferno            a hiptese das expectativas racionais tinha um
so os outros", escreve Sartre -- no porque             enunciado ligeiramente diverso. As expectati-
sejam o mal, mas porque podem privar-me do               vas seriam as de que "previses da teoria eco-
sentido de minha liberdade (1947, p.182). As             nmica relevante", ou, de maneira mais geral,
relaes pessoais, portanto, tendem inerente-            a "distribuio subjetiva de probabilidades de
mente ao agnico, com cada pessoa tentando               resultados", devem tender  "distribuio obje-
reduzir a liberdade da outra por meio de um              tiva de probabilidade e resultados". Esse modo
ataque preventivo contra a ameaa que esta               de colocar a hiptese possivelmente revela bem
representa. Em seus momentos mais otimistas,             mais sobre as dificuldades que vieram a estar
porm, Sartre concebe uma comunidade em                  associadas a ela. Os indivduos podem querer
que as pessoas entendem que "o opressor opri-            evitar cometer erros sistemticos, mas atraves-
me a si prprio" e que o nico caminho para um           sar o abismo entre o "subjetivo" e o "objetivo"
autntico autoconhecimento  o do firme reco-            no  um exerccio simples no mundo social.
nhecimento do carter recproco da liberdade             No  apenas uma questo de deixar o tempo
entre os seres humanos (1983, p.443). Sua Cri-           passar, como seria para algum fazendo expec-
tique de la raison dialectique (1960, 1986)              tativas a respeito da paisagem quando a neblina
tambm se engaja fundamentalmente com o                  desaparecer. No h resultados "objetivos" nes-
marxismo, ao desenvolver uma teoria da ao              se sentido, pois os resultados no mundo social
poltica.                                                dependem das expectativas "subjetivas" que
                                                         fazemos quanto a eles. Essa interdependncia
Leitura sugerida: Baldwin, Thomas 1986: "Sartre,
Existentialism and Humanism". In Philosophers An-        gera dois problemas principais para a hiptese,
cient and Modern, org. por G. Vesey, p.287-307  Co-      e eles se combinam para indicar que essa ex-
oper, David E. 1990: Existentialism: a Reconstruction    plicao da formao de expectativas permane-
 Heidegger, Martin 1927 (1962, 1970): Being and          cer incompleta a no ser que seja suplemen-
Time  Jaspers, Karl 1932 (1969-71): Philosophy, 3        tada por algum sentido adicional de intermedia-
vols.  Merleau-Ponty, Maurice 1945: La phnomno-        o individual.
logie de la perception  Sartre, Jean-Paul 1943: L'tre
et le nant  1946: L'existencialisme est un humanisme        O primeiro problema diz respeito  carac-
 1983: Cahiers pour une morale  Sprigge, T.L.S.          terizao do processo de aprendizagem  medi-
1984: Theories of Existence  Warnock, Mary 1970:         da que um indivduo passa de expectativas no-
Existentialism.                                          racionais para racionais. Formalmente, uma vez
                                   DAVID E. COOPER       que a recompensa de uma pessoa em particular
                                                         por se ater a um conjunto de expectativas em
expectativas racionais, hiptese das         De          vez de outro depende dos resultados efetivos, e
acordo com esta hiptese, as expectativas de um          uma vez que esses resultados dependem das
indivduo com relao a eventos futuros no              expectativas de outros, uma pessoa encontra-se,
deveriam sofrer de erros sistemticos. O motivo          na verdade, em um jogo com outros (ver JOGOS,
 simples: a pessoa tem de ser capaz de aprender         TEORIA DOS). Nesse jogo, um equilbrio de
os componentes sistemticos dos seus erros, e            Nash constitui uma expectativa racional e  o
existem todos os incentivos para faz-lo, uma            comportamento fora de equilbrio de agentes
vez que ela s lucrar com a sua eliminao.             nesse jogo que corresponde a um processo de
Assim,  a tendncia do agente proficuamente             aprendizado. No entanto hoje se aceita, de ma-
294    explicao


neira geral, que a anlise desse comportamento             a variedade surge das vises alternativas a res-
fora de equilbrio tem de recorrer a uma noo             peito da natureza do explanans e da natureza da
de intermediao racional, que difere do sim-              relao que liga o explanans e o explanandum.
ples senso de utilidade normalmente presumido                  Os pontos de vista a respeito do explanans
na economia neoclssica.                                   se encaixam de maneira ampla em dois tipos:
    Em segundo lugar, h toda uma variedade                primeiro, algumas exigncias psicolgicas ar-
de cenrios sociais nos quais essa dependncia             ticuladas, por exemplo, de que o explanans seja
dos resultados em relao s expectativas pro-             conhecido ou familiar, ou previamente admiti-
duz mltiplos equilbrios de expectativas racio-           do pelo recipiente da explicao. O que  co-
nais. Isto , existem muitas expectativas que, se          mum aqui  que o explanans seja selecionado
amplamente nutridas, se reproduziriam, exceto              de forma a eliminar a perplexidade entre os que
pela ao de interferncias geradas por erros              recebem a explicao: o sucesso explanatrio 
aleatrios (os erros tm um valor esperado de              relativo aos seus recipientes, que devem ver a
zero e no so serialmente correlatos). Mais               explicao antes que se possa considerar que
uma vez, isso levanta um problema para o senso             eles a tenham. Em segundo lugar, existem pon-
til normal de racionalidade: que expectativa              tos de vista a respeito do explanans que en-
deve ser nutrida quando muitas satisfazem po-              fatizam as exigncias lgicas, por exemplo, de
tencialmente essa condio de ser uma expec-               que ele inclua um axioma ou uma verdade
tativa racional? Esse dilema  caracterstico de           patente, ou uma descrio empiricamente ver-
situaes em que existe autntica incerteza (ver           dadeira de uma seqncia invarivel de even-
DECISO, TEORIA DA).                                       tos. Aqui, a nfase  nas condies formais para
    Assim, a hiptese das expectativas racionais           o sucesso explanatrio e, conseqentemente, os
tem contribudo enormemente para nossa com-                recipientes podem ser considerados como tendo
preenso de como os indivduos formam expec-               uma explicao, ainda que no possam v-la.
tativas quanto ao futuro. Em particular, se ela                Entre os pontos de vista a respeito da relao
um dia prometeu preencher o hiato de informa-              que liga o explanans e o explanandum tambm
es na explicao instrumental da racionali-              se incluem alguns que enfatizam exigncias
dade, na verdade serviu para sublinhar a neces-            formais, por exemplo, que a relao seja de
sidade de suposies adicionais de racionali-              vnculo, em que seria autocontraditrio aceitar
dade, caso desejemos compreender a ao em                 a verdade do explanans mas rejeitar a do expla-
condies de incerteza.                                    nandum. Outros insistem em que a relao deva
                                                           ser causal; isso introduz ainda mais diversidade
Leitura sugerida: Attfield, C.L.F., Demery, D. e           na noo de explicao, devido  variedade de
Duck, N.W. 1985: Rational Expectations in Macroeco-
nomics  Begg, D.K.H. 1982: The Rational Expecta-           caracterizaes da conexo causal (ver CAUSA-
tions Revolution in Macroeconomics  Bray, M. 1985:         LIDADE).
"Rational expectations, information and asset pricing".        No sculo XX as tentativas de analisar a
Oxford Economic Papers 37, 161-95  Frydman, R. e           explicao tm-se concentrado amplamente
Phelps, E.S. 1983: Individual Forecasting and Aggre-       nas condies formais a serem atribudas ao
gate Outcomes  Hahn, F. 1980: Money and Inflation
 Haltiwanger, J. e Waldman, M. 1985: "Rational ex-
                                                           explanans e  relao de ligao, especialmente
pectations and the limits of rationality". American Eco-   quando se consideram as explicaes nas cin-
nomic Review 75, 326-40  Hargreaves Heap, S.P.             cias naturais, que atraram muita ateno por-
1989: Rationality in Economics  Muth, J.F. 1961: "Ra-      que parecem ser especialmente abalizadas. O
tional expectations and the theory of price movements".    modelo dedutivo-nomolgico, ou baseado em
Econometrica 29, 315-35.                                   uma lei abrangente, de Hempel e Oppenheim
                       SHAUN O. HARGREAVES HEAP            (1948), exerceu influncia particular. Segundo
                                                           este, um fenmeno  explicado quando sua
explicao Este conceito implica relacionar                descrio se deduz de um explanans que con-
o que deve ser explicado (o explanandum) a                 tm a expresso de um conjunto de condies
alguma outra coisa (o explanans) -- mas                   iniciais junto com uma lei ou leis (nomos sendo
improvvel que at mesmo uma definio to                 a palavra grega para lei). Para usar um dos
geral como essa possa abranger a ampla varie-              exemplos de Hempel (1965), o motivo pelo
dade de explicaes que achamos aceitveis em              qual a parte de um remo reto que fica debaixo
nossas buscas cotidianas e cientficas. Em parte,          d'gua parece quebrada para cima se explica
                                                                                         explorao    295


com referncia s leis de refrao e  condio           explorao Embora se possa referir tambm
inicial de que a gua  oticamente mais densa             ao modo como as pessoas usam os recursos
que o ar.                                                 naturais, as situaes polticas ou os argumen-
    O esquema dedutivo-nomolgico enfrenta                tos morais, "explorao"  uma palavra aplica-
crticas considerveis, de trs tipos. Primeiro,          da com mais freqncia a relaes entre pes-
dificuldades internas; por exemplo, as leis no            soas, ou grupos de pessoas, nas quais um grupo
explanans devem ser universais, caso queiram              ou indivduo se encontra estruturalmente numa
garantir a explicao, mas existem dificuldades           posio que lhe permite tirar vantagem de ou-
tanto prticas quanto lgicas para se estabele-           tros. Explorao tem sempre alguma conotao
cerem verdades empricas universais. Segundo,             de injustia; no entanto as escolas de pensamen-
argumentos no sentido de que o esquema no                to variam quanto ao que constitui uma van-
pode dar conta de todos os tipos de explicao            tagem injusta e sob que condies estruturais
nas cincias naturais; por exemplo, explicaes           esta ocorre.
estatsticas, em que existe apenas probabilidade              Para o marxismo, explorao  uma relao
e no certeza de que o evento descrito no ex-             entre classes. Em qualquer sociedade em que
planandum venha a ocorrer, tal como a proba-              nem todo o tempo de trabalho disponvel 
bilidade de que um fumante realmente invete-              necessrio para o provimento das necessidades
rado venha a contrair cncer do pulmo, e ex-             diretas de consumo da populao, as classes se
plicaes realistas, em que as ocorrncias se             desenvolvem em torno da produo e do con-
explicam pela identificao dos mecanismos                trole do tempo de trabalho excedente. Uma
bsicos que tm a responsabilidade causal por             classe  "explorada" porque produz mais do que
elas, tal como o movimento dos ponteiros em               consome, enquanto uma outra, "exploradora"
torno do mostrador de um relgio  explicado              ou dominante, mantm o seu poder atravs do
revelando-se a mola e as engrenagens que o                controle desse produto excedente. Os diferentes
impulsionam (ver REALISMO). Terceiro, crticas            modos de produo e as classes dentro deles so
afirmando que o esquema no pode ser esten-               definidos pelo modo especfico como ocorre a
                                                          explorao. Assim, para o marxismo, explora-
dido s cincias sociais e mais alm, em que as
                                                          o  a relao bsica de qualquer poca his-
explicaes intencionais, que explicam aes
                                                          trica, em torno da qual as prprias classes so
apelando a intenes, razes, motivos, e assim
                                                          definidas (ver MODO DE PRODUO).
por diante, dos agentes envolvidos, so em geral
mais apropriadas, e em que as explicaes                     Sob o capitalismo, a explorao  ocultada
                                                          pela liberdade e igualdade aparentes do proces-
funcionais, que explicam aes e instituies
                                                          so de troca no qual os trabalhadores vendem
pela identificao do papel que desempe-
                                                          livremente sua capacidade de trabalho, sua for-
nham na manuteno de toda a sociedade, so
                                                          a de trabalho, por um salrio de valor equi-
tambm importantes. Se as explicaes rea-                valente (Marx, 1867). No obstante, os traba-
listas podem ser estendidas das cincias na-              lhadores so explorados porque a jornada de
turais para as cincias sociais e se as explica-          trabalho  mais longa do que o necessrio para
es intencionais e racionais so diferentes              produzir seus salrios, e o restante de seu dia 
das explicaes causais, continua a ser moti-             passado produzindo um excedente como lucro
vo de discusso na FILOSOFIA DA CINCIA SO-               para o seu empregador capitalista. Isso ocorre
CIAL. Se o esquema dedutivo-nomolgico po-                porque a liberdade de troca  uma faca de dois
de abranger as explicaes causais, incluindo             gumes; uma vez que os trabalhadores no tm
as realistas, continua a ser questo de debate            nenhum outro acesso aos meios de produo,
na FILOSOFIA DA CINCIA.                                  s podem escolher entre a liberdade de vender
Leitura sugerida: Halfpenny, P. 1982: Positivism and
                                                          sua fora de trabalho a algum empregador ou a
Sociology: Explaining Social Life  Harr, R. 1970:        liberdade de morrer de fome. No entanto no 
The Principles of Scientific Thinking  Taylor, C. 1964:   a relao de troca que  exploradora sob o
The Explanation of Behaviour  Van Parijs, P. 1981:        capitalismo, pois os trabalhadores recebem o
Evolutionary Explanation in the Social Sciences           valor de sua fora de trabalho, mas sim o fato
 Wright, G.H. von 1971: Explanation and Understan-        de que, tendo comprado essa fora de trabalho,
ding.                                                     os empregadores podem ento utiliz-la para
                                  PETER HALFPENNY         produzir mais do que tm de pagar por ela. De
296   explorao


fato, esse  o motivo para que sejam empre-           economia neoclssica para investigar um pouco
gados, pois sem a explorao os empregadores          mais as condies sob as quais pode ocorrer a
no teriam lucros. Assim, para Marx, a explora-       explorao. Roemer (1988) mostra que a ex-
o ocorre na produo, e  a condio comum          plorao "marxista"  um resultado da dis-
de todos os trabalhadores empregados por fir-         tribuio desigual de recursos produtivos, mais
mas capitalistas.                                     que das relaes especficas de produo. Para
    Em contraste, na ECONOMIA NEOCLSSICA a           ele, isso significa que o marxismo deveria en-
explorao s ocorre se os trabalhadores rece-        carar a desigualdade, mais que a explorao,
bem menos do seu empregador do que a sua              como sua crtica bsica do capitalismo. Suas
produo de renda marginal, o acrscimo mar-          crticas (ver, por exemplo, Lebowitz, 1988),
ginal em lucros que o seu emprego torna pos-          porm, usam esse resultado, em vez de demons-
svel. Uma firma buscando maximizar os lucros         trar como seus mtodos no conseguem captar
empregar trabalhadores at o ponto em que o          as diferenas essenciais entre as abordagens
custo marginal de seu emprego iguale sua pro-         marxista e neoclssica: que para a primeira a
duo de renda marginal. Uma firma enfrentan-         explorao depende de relaes de produo e
do um mercado de trabalho competitivo no             est intimamente ligada  existncia das duas
poder influenciar os nveis de salrios, por isso    classes principais do capitalismo, enquanto que
seu custo marginal para empregar um traba-            para a outra  uma relao contingente entre
lhador extra ser exatamente igual ao salrio, e      indivduos dependentes de condies espec-
a maximizao do lucro implica simplesmente           ficas de mercado.
garantir que os trabalhadores produzam uma                A explorao tambm tem sido usada em
renda marginal igual ao seu salrio. A explora-       vrias crticas sociais radicais para se referir s
o no sentido neoclssico , portanto, uma           relaes entre outros grupos na sociedade. Por
impossibilidade para uma firma plenamente             exemplo, algumas feministas descrevem as re-
competitiva (ver, por exemplo, Gravelle e Rees,       laes entre homens e mulheres como de ex-
1981, p.382).                                         plorao. Pode ser que, por analogia direta com
    No entanto, uma firma com poder monopo-           o conceito marxista, os maridos, seus emprega-
lista de compra no mercado de trabalho ser           dores ou at mesmo o sistema capitalista como
capaz de influenciar os nveis de salrios; seu       um todo se beneficiem das mulheres que traba-
nvel de emprego maximizador dos lucros ser,         lham mais do que  necessrio para prover o seu
portanto, aquele no qual os trabalhadores so         prprio consumo, ou, em sentido mais nebulo-
contratados por salrios mais baixos do que a         so, as prticas sexuais ou reprodutivas podem
sua produo de renda marginal, resultando em         ser encaradas como de explorao.
sua explorao. Assim, para a economia neo-
clssica, explorao no  a situao comum de        Leitura sugerida: Braverman, H. 1974: Labor and
toda a classe operria, mas uma caracterstica        Monopoly Capital: the Degradation of Work in the
especfica de alguns trabalhadores tomados isola-     Twentieth Century  Lebowitz, M. 1988: "Analytical
                                                      Marxism". Science and Society 52.2  Marglin, S.A.
damente, os que trabalham para firmas com poder
                                                      1974-75: "What do bosses do? The origins and function
monopolista de compra no mercado de trabalho.         of hierarchy in capitalist production". Review of Radi-
Alm disso, em vez de ser uma caracterstica das      cal Political Economics 6.2, 60-112; 7.1, 20-37  Marx,
relaes capitalistas de produo,  um atributo de   K. 1867 (1976): O capital, vol.1  Roemer, J. 1988:
condies particulares de mercado.                    Free to Lose; an Introduction to Marxist Economic
    Mais recentemente a escola do marxismo            Philosophy.
analtico tem utilizado alguns dos mtodos da                                       SUSAN F. HIMMELWEIT
                                              F
fabianismo Ver SOCIALISMO FABIANO.                       a ser uma instituio baseada na dependncia
                                                         econmica. Apesar da entrada mundial e sem
famlia Embora muitos historiadores e an-                precedentes de esposas na fora de trabalho, a
troplogos tenham chamado a ateno para a               maioria das mulheres continua a depender fi-
notvel variao entre as formas de famlia,             nanceiramente dos maridos. A despeito da apa-
outros tm buscado, no obstante, identificar as         rente independncia financeira dos maridos, a
suas caractersticas universais. Em 1949 o an-           maioria depende das esposas no apenas para o
troplogo George Murdock arriscou uma defi-              trabalho "invisvel" e sem pagamento no lar,
nio assim universal (baseada em sua anlise            mas tambm pela renda proporcionada pelo
de cerca de 500 sociedades) e afirmou que "a             contracheque da esposa. Apesar da crescente
famlia" era "um grupo social caracterizado              afirmao de independncia dos filhos, a maior
pela residncia, a cooperao econmica e a              parte deles ainda depende dos pais para a atual
reproduo. Ela inclui adultos de ambos os               e a futura posio de classe, uma vez que cada
sexos, pelo menos dois dos quais mantm um               vez mais conseguem empregos em dois setores
relacionamento sexual socialmente aprovado, e            da economia que se encontram em expanso, o
um ou mais filhos, prprios ou adotivos, dos             de servios e o informal, e dividem sua renda
adultos que coabitam sexualmente" (Murdock,              em casa. No entanto, embora a diviso do traba-
1949, p.1). Durante muitos anos a definio de           lho ligue marido a mulher e filhos a pais, as
Murdock foi a padro -- citada em inmeros               ideologias transformam e mistificam a relevn-
manuais e ensaios eruditos --, aplaudida por ser         cia econmica desses intercmbios, moldando-
aplicvel tanto a pases em desenvolvimento              os em termos de amor e companheirismo. Nessa
quanto ao Ocidente moderno. Ironicamente,                ideologia, a cooperao econmica tornou-se
essa definio j no pode mais ser aplicada             voluntria e a diviso de trabalho, trivializada.
com preciso sequer ao Ocidente.                         Assim, o adesivo econmico sobre o qual Mur-
    Hoje em dia, embora Murdock ainda seja               dock escreveu parece estar em processo de dis-
amplamente citado, existem novos indcios --             soluo.
tanto sobre normas de famlia quanto formas de               Outros indicam que, ao aplicar sua defini-
lares -- para contest-lo com relao a cada             o, aplicamos uma ideologia claramente ten-
critrio que ele props. Pelo menos desde os             denciosa, que no caracteriza nem a funo das
anos 60, em grande parte do Ocidente moderno             famlias modernas nem a sua estrutura. Um
e no mundo em desenvolvimento, a forma de                grande corpo de pesquisa nos Estados Unidos e
famlia de Murdock d conta apenas de uma                na Gr-Bretanha, no final dos anos 50 e durante
minoria dos lares. A famlia, alegam os crticos         a dcada de 60, mostrou que at mesmo a classe
de Murdock, em geral consiste em um nico                mdia j vivia, de forma atpica, em "famlias
genitor (o tpico  que seja a me) e filho, ou          ampliadas e modificadas" (Litwak, 1965), e no
adultos coabitando sem filhos. (Ver tambm               na famlia nuclear isolada que Talcott Parsons
DIVRCIO.) Ou os casais se privam voluntaria-            havia proposto (Parsons e Bales, 1955). Em
mente da paternidade, em geral para buscar               todo o mundo, indivduos modernos, de manei-
outros objetivos. So, conforme se costuma               ra geral, se mantm em contato com parentes,
dizer, "sem filhos".                                     mesmo com os que vivem a alguma distncia.
    No h dvida de que, tanto para mulheres            A moderna tecnologia proporciona-lhes a opor-
quanto para homens e filhos, a famlia continua          tunidade de faz-lo. Geralmente, devido a suas

                                                   297
298   famlia


carreiras independentes, algumas esposas --                diferentes, enfatizando parentescos ampliados
seja nos Estados Unidos, no Japo ou na China              e fictcios, em vez de laos conjugais. Esses
-- at passam boa parte de seu tempo em resi-              padres de ampliao dos laos familiares tm
dncias separadas, em vez de dividirem um                  muito em comum com estratgias de sobrevi
nico lar. Deixam de lado as reivindicaes no            vncia fora do Ocidente moderno. Conforme
apenas a uma "famlia" residencialmente intac-             Pine (1982) descobriu a respeito da rea urbana
ta, mas tambm  proximidade geogrfica de                 de Gana, os membros dos casais de baixa renda
uma mesma "comunidade" e "vizinhana".                     tendem muito mais do que as classes alta e
Mesmo ento, contudo, valem-se das novas                   mdia a viver separadamente, em geral com
tecnologias que tornam possveis novas defini-             parentes, e a se envolver em relacionamentos
es e compreenses a respeito da famlia. Cn-            recprocos do dia-a-dia com estes. Conforme
juges geograficamente prximos j no so                  ela escreve sobre a frica Ocidental:
mais sine qua non para a vida em famlia.                     Pode-se muito bem dizer que em muitas sociedades
    Da mesma forma como os cnjuges de clas-                  complexas, com desenvolvimento econmico desi-
se mdia geograficamente afastados transfor-                  gual, a famlia nuclear, como unidade econmica e
mam as nossas noes de famlia, tambm os                    domstica na qual os membros so interdependentes,
pobres urbanos o fazem. Tanto Liebow quanto                    uma alternativa vivel, ou pelo menos desejvel,
                                                              basicamente para as classes mdia e alta (...). Para as
Stack descrevem como negros pobres nos Es-                    mulheres, especialmente as que tm filhos, um ho-
tados Unidos transformam amigos em "paren-                    mem desempregado, ou com emprego apenas es-
tes fictcios", pois se supe que a famlia seja              pordico, pode ser muito mais um problema do que
mais confivel do que a amizade (ver tambm                   uma vantagem, enquanto as parentes podem oferecer
PARENTESCO). Amigos tornam-se parentes por-                   umas s outras ajuda mtua, companheirismo e tra-
que  possvel contar com eles para a troca de                balho (...). Em termos de famlia e parentesco,  mais
dinheiro, bens e servios, e no simplesmente                 til examinar as relaes de parentesco mais amplas
de amor. A partir de sua pesquisa etnogrfica                 ente os povos urbanos do que se concentrar em
                                                              variaes de unidades conjugais ou na falta destas.
em uma grande cidade norte-americana, Stack                   (p.401)
desenvolve uma nova definio de famlia:
   Por fim, defini famlia como a menor rede organi-
                                                              Assim, como indicou Rapp, o debate a res-
   zada e durvel de parentes e no-parentes que inte-     peito do valor e do futuro da famlia baseia-se
   ragem diariamente, provendo as necessidades do-         em experincias que variam com raa e classe.
   msticas dos filhos e garantindo-lhes a sobrevivn-     A feminista do Terceiro Mundo que defende a
   cia. A rede familiar difunde-se por vrios lares com    famlia e a feminista da classe mdia que  de
   base no parentesco (...). Uma imposio arbitrria de   opinio de que esta deveria ser abolida "no
   definies amplamente aceitas sobre a famlia, a        esto falando sobre as mesmas famlias" (Rapp,
   famlia nuclear, ou a famlia matrilocal bloqueia o     1978, p.278).
   caminho para se compreender como as pessoas em              lgico que uma direita politicamente po-
   suas casas descrevem e organizam seu mundo
                                                           derosa em muitas sociedades industriais avan-
   (Stack, 1974, p.31).
                                                           adas busca restaurar a hegemonia do casal
    Aqui, famlia torna-se uma rede local -- no           heterossexual, permanentemente unido pelo
um lar, nem uma vizinhana. Mais importante                matrimnio, no qual o marido  o principal (ou,
ainda, a famlia torna-se subjetiva:  a unidade           melhor ainda, o nico) ganha-po e cabea da
que permite a sobrevivncia e que organiza o               famlia, a esposa  me e dona-de-casa (ver
mundo da pessoa (Gerstel e Gross, 1987). No                tambm TRABALHO DOMSTICO) e os filhos
todo, portanto, os laos econmicos das fam-              (sempre h alguns) esto sujeitos ao controle
lias negras, pelo menos entre os pobres, diferem           dos pais (especialmente o paterno). Mas o pro-
dos das famlias brancas, pelo menos entre a               grama da direita  pouco mais que reativo; nem
classe mdia. Os homens negros desprivilegia-              representa a viso majoritria nem aborda as
dos so, por quaisquer que sejam os motivos,               tendncias estruturais predominantes e mun-
incapazes de proporcionar segurana econmi-               diais na vida da famlia.
ca s mulheres (Wilson, 1988). No entanto isso                A transformao de realidades empricas e
no equivale a dizer que os laos econmicos               polticas, porm, no foi o nico desafio ao
entre as famlias negras desaparecem totalmen-             conceito monoltico de famlia. Igualmente im-
te. Em vez disso, reconstituem-se em sentidos              portante foi o fato de estudiosas feministas te-
                                                                                                   famlia     299


rem contestado a crena de que "qualquer ar-                  noes de privacidade e sentimentos -- eram, antes
ranjo familiar especfico  natural, biolgico ou             dos ltimos sculos, ausentes do discurso de relaes
funcional de uma forma atemporal" (Thorne e                   sociais primrias ou sem importncia para ele. (Gu-
                                                              brum e Holstein, 1990, p.17.)
Yalom, 1982, p.2). Mais importante ainda, es-
tudos recentes apontam que a busca de uma                      Alguns estudiosos respeitados chegam a in-
"famlia" universal esconde mudanas hist-                dicar que somente a partir do sculo XV  que
ricas ao estabelecer uma ideologia "da famlia"            podemos encontrar o surgimento de um novo
que obscurece a diversidade e a realidade da               conceito: o conceito de famlia. O arranjo es-
experincia familiar em qualquer tempo e local             tava presente, afirmou Aris, em seu trabalho
particulares.                                              pioneiro, mas "a famlia existia em silncio; no
    Por exemplo, na Amrica do Norte colonial,             despertava sentimentos fortes o bastante para
a participao na famlia era definida em termos           inspirar o poeta ou o artista. Temos de reco-
de contribuio produtiva e filiao ao lar. As-           nhecer a importncia desse silncio: no se dava
sim, empregados que viviam e trabalhavam em                muito valor  famlia" (1960, 1962, p.342).
uma casa, mas no tinham parentesco de san-                    Dados esses novos significados, muitos pre-
gue, eram em geral encarados e tratados como               tendem hoje em dia o direito ao ttulo de "fam-
membros da famlia pelos com que eles divi-                lia". Gays e lsbicas, por exemplo, exigem que
diam esse lar. Forneciam seu trabalho tal como             o Estado e a Igreja legitimem suas unies por-
aprendiam habilidades produtivas, doutrinas                que eles tambm dividem esses laos emocio-
religiosas e valores morais. Eram membros da               nais modernos. Genitores solteiros afirmam
famlia porque partilhavam um lar e estavam                que eles e seus filhos so "famlia" porque esto
sujeitos  autoridade do chefe desse lar, no              ligados no apenas pelo sangue, porm, mais
porque fossem tratados com proteo, afeio               importante ainda, pela emoo. Casais que co-
ou amor. Inversamente, como indica um crtico              abitam, com e sem filhos, exigem os direitos do
recente, j no final da Idade Mdia a lngua               matrimnio porque partilham as emoes de
alem no tinha nenhuma palavra para designar              cnjuges. Ao mesmo tempo, a retrica da direi-
os grupos particulares de pais e filhos que eram           ta utiliza os laos protetores e ntimos que pas-
ento compreendidos como famlia (Mitterauer               samos a associar  "famlia". Mas esses grupos
e Sieder, 1982). Muitos estudiosos afirmam que             -- quer  esquerda ou  direita -- obscurecem
as caractersticas definidoras da "famlia mo-             as efetivas condies das famlias modernas.
derna" no Ocidente (com razes no sculo XIX)              Afirmam que famlia  uma questo de amor.
so totalmente diferentes: essa famlia moderna            Enquanto o Ocidente moderno passou a en-
 formada na base da afeio e do amor; fun-               fatizar o significado emocional da famlia, po-
ciona em benefcio da personalidade, para for-             demos ter mudado as condies que poderiam
necer segurana psicolgica e capacidade de                sustentar tal nfase. O prprio conceito -- a
lidar com tenses; e seus cnjuges so compa-              famlia --, portanto, no pode captar a extenso
nheiros, da mesma forma que seus genitores                 e a diversidade de experincia que muitos hoje
(especialmente as mes) so protetores e se                definem como sua. A famlia -- na realidade,
auto-sacrificam. Mais ainda, enquanto a famlia            muitas famlias diferentes -- veio "para ficar".
colonial (um pouco comunitria) era quase in-              A famlia  uma elaborao ideolgica e social.
distinguvel da comunidade, os estudiosos                  Quaisquer tentativas de defini-la como uma
apontam que a famlia moderna se tornou cada               instituio delimitada, com caractersticas uni-
vez mais privatizada, silenciosa e reclusa. As             versais em qualquer local ou tempo, neces-
relaes dentro da famlia tornam-se mais n-              sariamente fracassaro.
timas e valorizadas na mesma medida em que
as relaes fora dela ficam mais remotas, es-              Leitura sugerida: Aris, Philippe 1960: Historie so-
pecializadas e tnues. Conforme escreve um                 ciale de l'enfant et de la famille  Gerstel, Naomi e
                                                           Gross, Harriet, orgs. 1987: Families and Work  Gu-
analista recente:
                                                           brum, Jaber e Holstein, James, A. 1990: What is Fami-
   De fato, tornou-se cada vez mais claro que "famlia"    ly?  Litwak, Eugene 1965: "Extended family relations
   e conceitos "domsticos" relacionados, tais como os     in an industrial society". In Social Structure and the
   conhecemos, so desenvolvimentos relativamente          Family: Generational Relations, org. por S. Shanas e
   recentes. Muitos dos aspectos caractersticos do dis-   G. Strieb  Mitterauer, Michael e Sieder, Reinhard,
   curso familiar contemporneo -- em particular, as       1982: The European Family  Murdock, George 1967:
300    fascismo

Ethnografic Atlas  Parsons, T. e Bales, R. 1955: Fami-   pertar popular colocou ambos  parte, generica-
ly Socialization and Interaction Patterns  Pine, Fran-   mente, dos muitos estados contemporneos au-
ces 1982: "Family structure and the division of labor:
female roles in urban Ghana". In Introduction to the
                                                         toritrios de ultradireita que, embora adotando
Sociology of Developing Societies, org. por Hamza        muitas das exterioridades da Itlia e da Alema-
Alavi e Teodor Shanin  Rapp, Rayna 1978: "Family         nha nazista, se opunham essencialmente  revo-
and class in contemporary America: notes toward an       luo social imaginada pelo fascismo, pelo que
understanding of ideology". Science and Society 5.42,    so mais bem definidos como regimes "fascis-
278-300  Stack, Carol 1974: All our Kin  Thorne,         tides" ou "parafascistas" (por exemplo, a us-
Barrie e Yalom, Marilyn, orgs. 1982: Rethinking the
                                                         tria social-crist de Dolfuss ou o Estado Novo
Family  Wilson, W. 1987: The Truly Disadvantaged.
                                                         de Salazar, em Portugal). A dimenso anticon-
                                  NAOMI R. GERSTEL       servadora do fascismo torna-se particularmente
                                                         obscurecida pela ampla conivncia com elites
fascismo Usado de maneira genrica, fascis-              de poder tradicionais (como o exrcito, a Igreja,
mo  uma palavra que designa um gnero sin-              indstria), que tanto o fascismo quanto o nazis-
gularmente multiforme de poltica moderna,               mo foram forados a exercitar por motivos
inspirado pela convico de que um processo              pragmticos (ver Blinkhorn, 1990). Da mesma
de renascimento nacional (palingnese) se tor-           forma o populismo autntico e intrnseco a sua
nou essencial para pr fim a um prolongado               ideologia se perde facilmente de vista devido 
perodo de DECADNCIA social e cultural, e ex-           extensa manipulao social (implicando pro-
pressando-se ideologicamente em uma forma                paganda intensa e terror de estado) necessria
revolucionria de NACIONALISMO integral (ul-             na prtica quanto  promessa de transformar em
tranacionalismo). Restrito a textos de divulga-          realidade a utopia de uma comunidade nacional
o e a grupos de ativistas  margem da vida             homognea e revitalizada. Qualquer revoluo
poltica antes da deflagrao da Primeira Guer-          fascista est destinada ao fracasso, uma vez que
ra Mundial e depois do final da Segunda, o                o exemplo mais notvel de um movimento
fascismo proporcionou a base racional para as            poltico moderno palingentico ou regenera-
formaes e partidos polticos de ultradireita           cionista, com um pequeno contingente natural
que surgiram para combater o liberalismo, o              buscando funcionar como o exclusivo sistema
socialismo e o conservadorismo em pratica-               de verdade para toda uma sociedade pluralista.
mente todos os pases europeus entre 1918 e              Quando tal ideologia se torna a base de um
1945. Registraram-se movimentos fascistas de             regime, leva inevitavelmente  desumanidade e
destaque na ustria, Blgica, Gr-Bretanha,              ao TOTALITARISMO sistemticos.
Finlndia, Frana, Alemanha, Hungria, Itlia,                A definio de fascismo  inevitavelmente
Romnia e Espanha, bem como, fora da Europa,             controvertida, uma vez que se trata de um TIPO
na frica do Sul e no Brasil. Embora alguns              IDEAL que at agora tem resistido s tentativas
destes tenham temporariamente conseguido                 dos acadmicos de transform-lo em categoria
abrir caminho e se tornar ncleos de movimen-            social cientfica a cujo respeito prevalea um
tos populares, ou desempenhar um papel em                consenso vivel (comparar as definies em
regimes colaboracionistas sob o NACIONAL-SO-             Bottomore, 1983; Sternhell, 1987; Wilkinson,
CIALISMO, somente na Itlia e na Alemanha con-           1987). O que distingue a presente abordagem 
junes particulares de eventos permitiram que           que ela localiza o "minimum fascista" num mito
o fascismo tomasse o poder de forma autnoma,            central da nao renascida que se pode expres-
atravs de uma combinao de legalidade e                sar em um vasto mbito de racionalizaes e
violncia, fazendo surgir o Estado Fascista de           transformaes. Historicamente, houve um alto
Mussolini (1925-43) e o Terceiro Reich de Hit-           nvel de acordos entre diferentes fascismos
ler (1933-45).                                           quanto a que foras ameaam o bem-estar da
    Esses dois regimes exibiam os contrastes             nao, a saber, o marxismo-leninismo, o ma-
marcantes, tanto na ideologia de superfcie              terialismo, o internacionalismo, o liberalismo e
quanto no potencial para uma brutalidade im-             o individualismo, porm houve tambm con-
piedosa na busca de implementar suas polticas           sidervel variao quanto a detectar que foras
interna e externa, que distinguem diferentes             so apresentadas como remdio e ao grau de
tipos de fascismo. No entanto seu mpeto de              violncia imperialista e racista proposta a fim
regenerar a nao inteira atravs de um redes-           de imp-lo. Sendo de inspirao ultranaciona-
                                                                                      fascismo    301


lista, cada fascismo ir inevitavelmente beber       se poderia chamar de fascismo "mimtico".
na histria e na cultura do pas em que surge, de    Talvez de forma ainda mais significativa, sur-
forma a legitimar sua investida contra o status      giram inmeros partidos que, mesmo quando
quo, conforme exemplificado na viso nazista         oficialmente dissociados do fascismo do pero-
da Alemanha como um Terceiro Reich ariani-           do entre as duas guerras mundiais, fazem cam-
zado, ou na pretenso fascista de que a Itlia       panha por uma verso palingentica do ultrana-
estaria renovando sua herana romana. No pas-        cionalismo adaptado s condies do ps-guer-
sado os fascismos incorporaram elementos do          ra, como por exemplo o MSI (Movimento So-
militarismo, da tecnocracia, do ruralismo, do        ciale Italiano) e os Republicanos Alemes. Na
imperialismo, do neoclassicismo, da arte de          Frana, a Frente Nacional de Le Pen, com seu
vanguarda, do sindicalismo, do nacional-socia-       sucesso espetacular, tem alguns seguidores fas-
lismo, do neo-romantismo, do cristianismo po-        cistas, mas sua plataforma oficial  uma per-
litizado, do paganismo, do ocultismo, do racis-      verso racista do liberalismo conservador, mais
mo biolgico, do ANTI-SEMITISMO, do volun-           do que um credo revolucionrio. Em termos do
tarismo, do DARWINISMO SOCIAL ou, mais recen-        seu impacto direto sobre a corrente predomi-
temente, elementos da "cultura alternativa"          nante da poltica, talvez a formao fascista
(por exemplo, da New Age e do movimento              mais significativa dos anos 90 tenha sido a
verde). Nos anos 80 houve uma conveno de           Afrikaner Weerstandsbeweging, na frica do
neofascistas italianos em Camp Hobbit, e um          Sul.
neofascista britnico apresentou-se como can-            O perodo do ps-guerra tambm testemu-
didato da "Onda Verde".                              nhou o surgimento de novas bases nacionais
    Embora o carter excessivamente ecltico         para o ultranacionalismo palingentico. Ente
do fascismo torne arriscadas quaisquer genera-       estas, as mais influentes so a viso ps-nietzs-
lizaes a respeito de seu contedo ideolgico       chiana de uma "revoluo conservadora", pre-
especfico, o teor geral de todas as suas manifes-   gada por De Benoist em nome da "Nova Direi-
taes colocam-no na tradio da revolta do fim      ta" francesa (que no deve ser confundida com
do sculo XIX contra o liberalismo e o positi-       o neoliberalismo anglo-americano), e a fuso
vismo, o que o leva a atribuir uma nfase muito      "tradicionalista" de pseudocincia hindusta e
forte  primazia do vitalismo e da ao sobre o      ocultista proposta por Jullius Evola e adotada
intelecto e a teoria. Em coerncia com a com-        por muitas correntes da "Direita Radical" ita-
plexidade ideolgica do fascismo, a base social      liana (ver Sheehan, 1981), ambas as quais exer-
desses movimentos, tomados isoladamente,            ceram influncia sobre o neofascismo contem-
altamente heterognea, e de forma alguma res-        porneo na Gr-Bretanha (ver, por exemplo, o
trita s classes mdia baixa ou capitalista (ver     peridico Scorpion). Uma caracterstica de boa
Mhlberger, 1987), apesar de se pressupor per-       parte do neofascismo europeu  o tema de uma
sistentemente o contrrio. O fascismo tambm         nova Europa, construda por uma liga de naes
se vale da tradio da Teoria das elites (ver        regeneradas agindo como um bastio contra as
ELITES, TEORIA DAS), embora as autonomeadas          duas superpotncias decadentes, a Amrica do
vanguardas ativista e paramilitar de suas va-        Norte e (at 1990) a Rssia, tema j explorado
riantes no perodo entre as duas grandes guerras     por alguns elementos do fascismo do entre-
estivessem convencidas de sua misso de revo-        guerras. A tenacidade do nacionalismo no-li-
lucionar a sociedade no apenas "a partir de         beral, mesmo nas democracias liberais mais
cima", mas tambm a partir de baixo, atravs         estveis (ver Maolin, 1987, e exemplares
de um movimento de massa capaz de transfor-          atuais de Searchlight), torna provvel que o fas-
mar os pretensos caos e degenerao da socie-        cismo e o neofascismo venham a ser um in-
dade moderna em uma COMUNIDADE nacional              grediente perene da poltica moderna, e era de
coordenada e saudvel.                               se esperar que, depois do outono de 1989, mi-
    Desde a guerra praticamente todos os pases      nsculos movimentos neonazistas e neofascis-
ocidentalizados assistiram ao surgimento de          tas viessem  tona em vrias das "novas demo-
grupos pequenos e em geral efmeros que to-          cracias" (por exemplo, o Pamyat, na Rssia).
mavam por modelo o nazismo ou o fascismo a           No obstante, a conjuntura de foras estruturais
fim de atrair a ateno pblica para verses         que permitiu ao fascismo e ao nazismo conquis-
grosseiras do racismo e do chauvinismo, no que       tar poder de estado j no existe mais, e est
302   favelas


condenada a levar uma existncia altamente                 Assim, surgiu a distino entre pobres "dig-
marginalizada dentro de um futuro previsvel           nos" e "indignos" -- estes ltimos sendo cha-
(ver Cheles, 1991).                                    mados tambm de "pobres desonrosos" (Matza,
    Em termos da contribuio do fascismo ao           1966), "classes perigosas" (Chevalier, 1973) e,
pensamento social, alguns de seus tericos, em         na literatura marxista, "lumpenproletariat". En-
especial na Alemanha, Itlia e Frana, introdu-        tre as caractersticas estereotpicas dos habitan-
ziram teorias relativamente elaboradas a res-          tes das favelas incluam-se o rompimento da
peito de temas como o conceito orgnico do             estrutura familiar e a falta de organizao co-
estado, o princpio da liderana, economia, cor-       munitria. A conseqente apatia levou a altos
porativismo, esttica, direito, educao, tecno-       nveis de criminalidade e violncia desestrutu-
logia, raa, histria, moralidade e o papel da         rada. As explicaes desse comportamento tm
Igreja. Embora todos negligenciem princpios           variado das atribuies de fraqueza moral in-
metodolgicos liberais (e marxistas) funda-            dividual -- a ser corrigida por meio de educa-
mentais, oferecem importantes estudos conjun-          o e/ou punio -- at imperfeies na situa-
turais na aplicao do mito nacionalista irracio-      o da sociedade a serem remediadas pela refor-
nal a discursos acadmicos como uma con-               ma social (Waxman, 1977). A inevitabilidade
tribuio  legitimao e  normalizao de            da transmisso dessas caractersticas compor-
polticas revolucionrias. Quanto  luz que o          tamentais entre geraes foi popularizada no
pensamento social ortodoxo lana sobre o fas-          conceito de Lewis (1967) da "subcultura da
cismo, o conceito durkheimiano de ANOMIA, o            pobreza". Ele afirmou que, na maioria das con-
conceito weberiano de poltica e liderana ca-         dies de POBREZA, as crianas eram socializa-
rismticas, a pesquisa em sociologia, antro-           das, em tenra idade, dentro dos valores de seus
pologia social e psicologia social sobre a din-       pais; o conceito de "ciclos de privao" in-
mica complexa das revolues, ditaduras pes-           dicava que a multido de problemas interli-
soais, movimentos de juventude e autoritaris-          gados que os muito pobres encaravam tornava
mo, tudo isso tem alguma relao com o fascis-         sua fuga da pobreza quase que impossvel. Am-
mo. Da mesma forma, os estudos que inves-              bas as abordagens tm sido amplamente criti-
tigam a dimenso mtica do nacionalismo e o            cadas (ver Leacock, 1970; Coffield et al., 1980).
componente utpico em todas as ideologias
revolucionrias, sem confundi-las com o mile-              Quando os bairros favelados do sculo XIX
narismo religioso.                                     foram limpos e reconstrudos, foram tambm
                                                       substitudos por outras formas de habitao de
Leitura sugerida: Griffin, R.D. 1991: The Nature of    baixo custo, prdios de apartamentos e assim
Fascism  Laqueur, W., org. 1979: Fascism: a Reader's   por diante, que por sua vez foram rotulados com
Guide  Mosse, George L., org. 1979: International      as mesmas caractersticas estigmatizantes.
Fascism: New Thoughts and Approaches  Payne, S.G.          Essa imagem da favela, gerada pelo desen-
1980: Fascism: Comparison and Definition.
                                                       volvimento industrial ocidental do sculo XIX,
                                    ROGER GRIFFIN      no se mostrou inteiramente adequada ao cres-
                                                       cimento do Terceiro Mundo na segunda metade
favelas O deslocamento de pessoas para as              do sculo XX. L, taxas de crescimento anuais
cidades, nas primeiras dcadas da Revoluo            de 10% se mostraram comuns devido tanto 
Industrial, levou  criao de grande reas ha-        migrao macia das reas rurais quanto a uma
bitacionais de construo inferior, com falta de       elevada taxa de natalidade em conseqncia da
servios essenciais e imensamente populosas.           juventude dos migrantes. Alguns desses mi-
Essas favelas contrastavam com os bairros das          grantes encontram residncia em imveis dila-
cidades pr-industriais e com as aldeias rurais        pidados em reas centrais das cidades, outros
no fato de ricos e pobres serem rigorosamente          em casas de cmodos construdas exatamente
segregados. Como resultado, as conotaes pe-          para esse fim. Mas a oferta desse tipo de habita-
jorativas do termo foram transpostas para os           o  de longe superada pela demanda; a vasta
habitantes dessas favelas. Eram retratados pelos       maioria dos migrantes recentes viu-se obrigada
mais ricos como pessoas que haviam rejeitado           a construir suas prprias casas nas periferias das
as normas e valores dominantes de sua socie-           cidades. Essas reas, chamadas de favelas, ci-
dade, em vez de haver lutado para preserv-los.        dades-satlites ou toda uma multido de expres-
                                                                                    federalismo    303


ses de acordo com o local, hoje abrigam me-        das pelo clientelismo poltico, a organizao
tade da populao total de muitas cidades.          comunitria e os laos de etnia, tornando inade-
    A populao favelada tende a ser carac-         quado o rtulo da maioria dos pobres urbanos
terizada pelos mais ricos de sua sociedade com      como "desonrosos" ou "classes perigosas".
os mesmos atributos pejorativos acima citados.         Ver tambm URBANISMO.
Estudos dessas reas revelaram, no entanto,
                                                    Leitura sugerida: Chevalier, L. 1973: Labouring
atributos muitos diversos e levaram  diferen-      Classes and Dangerous Classes  Lloyd, P. 1979:
ciao entre "favelas de esperana" e "favelas      Slums of Hope?  Rutter, M. e Madge, N. 1976: Cycles
de desespero" (Stokes, 1962). Tpicos das pri-      of Disadvantage  Waxman, C.I. 1977: The Stigma of
meiras so os imigrantes rurais que aspiram a       Poverty.
uma vida melhor, aderindo o mais possvel aos                                            PETER LLOYD
valores sociais dominantes, em geral envol-
vidos em vigorosa atividade comunitria; em         federalismo Esta palavra designa a diviso
contraste encontram-se as ltimas, lares dos que    de poderes, dentro de uma estrutura legal, entre
se encaram como em decadncia social, no           governos central e subsidirios, e de tal forma
tendo conseguido enfrentar os problemas da          que, diferentemente do que acontece no caso da
vida urbana, e que demonstram as caracters-        delegao, o centro no pode mudar a diviso
ticas de apatia associadas a essa forma de po-      sem procedimentos especiais e difceis. Todos
breza extrema. A equiparao de cidades-sat-       os pensadores polticos modernos enfrentam o
lites com favelas de esperana e de reas cen-      dilema de que, se um estado  forte demais, vir
trais das cidades com favelas de desespero no      a ameaar as liberdades de seu povo; mas, se 
 necessariamente vlida; pois, conforme Tur-       fraco, pode no ser capaz de ajud-lo e proteg-
ner (1967) demonstrou para o caso de algumas        lo. Jean-Jacques Rousseau (1762) afirmou que
cidades latino-americanas, o imigrante tpico se    o poder soberano s podia ser exercido com
estabelece primeiro em acomodaes alugadas         justia em um estado pequeno, "mas, se for
no interior das cidades, a fim de estabelecer uma   muito pequeno, no vir a ser subjugado? No;
"cabea-de-ponte", e em seguida "consolida"         mostrarei em seguida como a fora externa de
sua posio construindo sua prpria habitao       um grande povo pode combinar com o governo
em uma cidade-satlite em desenvolvimento.          livre e a boa ordem de um pequeno estado." E
    O contraste agudo entre a degradao da         uma nota de p de pgina prometia uma con-
favela clssica e a orientao para o progresso     tinuao (que ele nunca escreveu) sobre "o tema
encontrada na cidade-satlite  sem dvida exa-     das confederaes. Esse tema  inteiramente
gerado. Tal como h muitos habitantes da pri-       novo e seus princpios ainda esto por ser es-
meira que no tinham os atributos associados        tabelecidos."
de forma estereotipada  extrema pobreza, as-           A constituio federal norte-americana de
sim tambm existem muitos habitantes das ci-        1787 estabeleceu esses princpios, expostos
dades-satlites que os possuem de fato. As ex-      com clareza no polmico arrazoado para a sua
tremas variaes no sucesso em encontrar em-        adoo, The Federalist Papers (Hamilton e
prego urbano contribuem para diferentes pa-         Madison, 1787-8). O governo federal era um
dres de vida e atitudes sociais. Dentro da ci-     novo governo central, estabelecido sobre 13
dade-satlite, a diferenciao social resulta da    estados existentes, ex-colnias reais, todos com
comercializao do mercado habitacional, na         constituio; mas os poderes desse organismo
medida em que os primeiros residentes que           central eram limitados por lei e sujeitos a revi-
tiveram sucesso se tornam pequenos senhorios,       so judicial. Os tris ingleses da poca zom-
com seus inquilinos, ento, ficando incapazes       baram dessas propostas como inerentemente
de acumular economias suficientes para a cons-      instveis, to profundamente acreditavam que
truo de suas prprias casas.                      um estado soberano era essencial  ordem pol-
    As favelas no se tornaram os "pontos de        tica. Mas o jovem Jeremy Bentham devolveu a
ecloso" de inquietao civil, conforme foi to     ironia: "Vocs acham que os suos no tm
amplamente previsto no final dos anos 60. Mas       governo?" (1776).
as tenses que brotam da pobreza, esta prpria          Os governos federais hoje em dia so co-
manifesta na habitao inferior, certamente         muns. At mesmo a constituio de Stalin pro-
existem, embora sejam freqentemente dilu-         clamava a Unio Sovitica como uma federa-
304    feminismo


o, embora os elementos nacionais pareces-              vra "feminista" como "um termo vicioso e cor-
sem apenas uma fachada. Mas, com a derrocada             rupto que causou muitos males no seu tempo e
do poder comunista no final dos anos 80, reve-           hoje est obsoleto": uma manifestao extre-
lou-se uma realidade de poderes divididos. E            mada que ilustra as desavenas sobre poltica
preciso lembrar que as colnias americanas ha-           que ocorrem at mesmo entre os que apiam a
viam desfrutado de um grau considervel de               causa das mulheres.
autogesto, antes da federao. No h exemplo               Na Gr-Bretanha e nos Estados Unidos, a
no mundo de um estado unitrio escolhendo                tradio feminista mais antiga  a do feminismo
transformar-se em federao; o federalismo al-           democrtico, liberal, dirigido  obteno de
tamente bem-sucedido da Alemanha Ocidental               direitos e oportunidades iguais para as mu-
no ps-guerra, por exemplo, foi imposto pela             lheres. Os textos bsicos dessa tradio so A
conquista.                                               Vindication of the Rights of Women, de Mary
    Por trs desses diversos arranjos institucio-        Wollstonecraft, publicado em 1792, e o ensaio
nais, encontram-se diferenas profundas de teo-          de John Stuart Mill, The Subjection of Woman,
ria poltica. Pensadores modernos to diversos           de 1869. Uma til discusso moderna sobre
quanto Lenin, Sidney e Beatrice Webb, bem                essa tradio pode ser encontrada em Phillips
como apologistas da soberania do Parlamento              (1987). No sculo XIX boa parte desse trabalho
na Gr-Bretanha, fazem fila atrs de Thomas              se concentrou na remoo de barreiras educa-
Hobbes, na crena de que, sem um estado cen-             cionais e profissionais, e o mpeto por trs
tral e soberano, na melhor das hipteses a ine-          dessas campanhas reformistas era em geral de
ficcia ir grassar e, na pior, a guerra civil se        forte militncia. O auge dessa militncia por
torna latente. Olhem o que aconteceu com a               "direitos iguais" ocorreu com a luta violenta das
queda do poder sovitico! Mas outros contes-             sufragistas do incio do sculo XX pelo direito
tam o prprio conceito de soberania. Para John           de voto, documentada no contexto britnico por
Adams (1774), "soberania  a prpria tirania".           Ray Strachey em The Cause (1928). reas mais
E pensadores pluralistas modernos afirmam                recentes de contestao nos contextos norte-
que o prprio conceito de soberania  uma                americano e europeu tm sido os direitos de
iluso perigosa: todos os poderes se apiam em           emprego, o pagamento igual e a igualdade em
um consenso de algum tipo e tm diferentes               termos de benefcios sociais, impostos e assim
limitaes que se originam na sociologia, na             por diante.
cultura e nas tradies das diferentes sociedades            As sociedades ocidentais, desde o final dos
(ver PLURALISMO). O federalismo ento se torna           anos 60, tm testemunhado a ascenso (e o
uma teoria geral de sociedades complexas, e              declnio) de movimentos feministas com um
no simplesmente um conjunto escolhido de                cunho mais radical, propondo algum tipo de
instituies. Harold Laski certa vez disse que           estremecimento poltico revolucionrio da so-
"todo poder  federal" (1925).                           ciedade, mais que uma redistribuio de direi-
    Ver tambm REGIONALISMO.                             tos e recursos, e insistindo em afirmar que a
Leitura sugerida: Forsyth, M. 1989: Federalism and
                                                         opresso das mulheres est enraizada em pro-
Nationalism  King, P. 1982: Federalism and Federa-       cessos psquicos e culturais profundos, e que os
tion  Vile, M.J.C. 1967: Constitutionalism and the Se-   objetivos feministas, a partir da, exigem uma
paration of Powers.                                      mudana fundamental, e no superficial. Um
                                    BERNARD CRICK        foco particular dessas campanhas tem sido a
                                                         luta pelo controle das mulheres sobre seus pr-
feminismo O feminismo pode ser definido                  prios corpos -- especialmente na questo do
como a defesa de direitos iguais para mulheres           direito da mulher de escolher a respeito do
e homens, acompanhada do compromisso de                  aborto -- e a rede de grupos e refgios or-
melhorar a posio das mulheres na sociedade.            ganizados para proteger as mulheres e seus
Ele pressupe, portanto, uma condio bsica             filhos de homens violentos. Embora a ascenso
de desigualdade, seja esta concebida como do-            dessa chamada "segunda onda" do feminismo
minao masculina, patriarcado (ver PATRIAR-             esteja em geral ligada  poltica que surge do
QUIA), desigualdade de gnero ou os efeitos              movimento norte-americano pelos direitos ci-
sociais da diferena sexual. Em 1938 Virginia            vis nos anos 60, as razes dessas idias mais
Woolf descreveu de forma provocadora a pala-             radicais encontram-se mais obviamente em tra-
                                                                                     feminismo     305


dies polticas nativas da Europa: socialismo           (2) A relao do feminismo com as idias e
utpico, anarquismo, libertarianismo, marxis-        com a poltica socialistas tem sido tema de
mo e assim por diante. Outras importantes fon-       muitas discusses (ver Barrett, 1988). Com a
tes de idias foram a obra de Frantz Fanon sobre     derrocada do bloco sovitico e com o declnio
a internalizao do colonialismo e a abordagem       do marxismo como fora intelectual no Ociden-
da conscincia poltica por Mao Ts-tung. Du-        te,  provvel que essa relao venha a se erodir.
rante os anos 80 e nos anos 90 esse tipo de          Vale a pena observar que as sociedades que
feminismo -- voltado para uma ampla mudan-           tentaram implementar uma transio para o
a cultural -- tem estado ativo em torno de          socialismo conseguiram, embora possam ter
questes que dizem respeito  masculinidade e        fracassado no geral, atribuir um peso conside-
 guerra (por exemplo, a campanha de paz em          rvel  emancipao das mulheres. Da, por
Greenham Common, Gr-Bretanha, contra ar-            exemplo, a reunificao da Alemanha (em
mas nucleares), assim como ao florescente            1991) ter implicado uma perda de direitos e de
"ecofeminismo", que liga as mulheres a uma           recursos para as mulheres da antiga RDA. Da
preocupao particular com a preservao do          mesma forma, seria possvel observar que os
planeta. Entre os textos bsicos dessa "segunda      regimes socialistas de estado ofereceram s mu-
onda" feminista ocidental esto O segundo sexo       lheres oportunidades infinitamente superiores
(1949), de Simone de Beauvoir, Three Guineas         s de regimes inspirados por programas islmi-
(1938), de Virginia Woolf, Sexual Politics, de       cos ou de outras religies fundamentalistas.
Kate Millett, A dialtica do sexo, de Shulamith           possvel afirmar que o feminismo no Oci-
Firestone, e A mulher eunuco, de Germaine            dente, em suas formas tanto do sculo XIX
Greer (todos de 1970). No contexto britnico,        quanto do sculo XX, tendeu a oscilar entre
seria o caso de apresentar Hidden from History       fazer presso pela igualdade, e da talvez por
(1975), de Sheila Rowbotham e Women: The             uma "uniformidade" de mulheres e homens
Longest Revolution (1974), de Juliet Mitchell.       (androginia), ou partir da posio de que mu-
    A segunda onda feminista ocidental tem co-       lheres e homens so essencialmente "diferen-
locado muitas questes em discusso e pode           tes" uns dos outros (quer se compreenda isso
ajudar, ao localizar seu contexto no pensamento      biolgica, cultural ou socialmente) e, portanto,
social e poltico do sculo XX, na abordagem         forar uma reavaliao da contribuio espec-
de duas dessas questes: (1) o "separatismo"         fica das mulheres. Evidentemente que existe
feminista e (2) o relacionamento do feminismo        tenso no pensamento e na poltica feministas
com o pensamento e a poltica socialistas.           do Ocidente quanto a essa questo, que tem
    (1) As utopias feministas em geral tm des-      surgido em muitos contextos especficos. A "le-
crito comunidades de mulheres onde as carac-         gislao protetora" do sculo XIX, proibindo
tersticas violentas, militaristas, hierrquicas e   que as mulheres fossem expostas a certas con-
autoritrias atribudas aos homens se encon-         dies de trabalho (tais como o trabalho subter-
tram graciosamente ausentes. Essa corrente do        rneo em minas ou os turnos da noite), pode,
pensamento feminista inclina-se ao pessimis-         por exemplo, ser interpretada a partir de uma
mo na questo de melhorar a brutalidade mas-         posio de "diferena", como proteo adequa-
culina e aconselha o estabelecimento de comu-        da  reproduo da espcie, ou de uma posio
nidades femininas e o fortalecimento dos laos       de "igualdade", como providncia cnica des-
das mulheres entre si. Historicamente, essa tra-     tinada a excluir as mulheres de posies van-
dio tendeu a implicar uma sentimentalizao,       tajosas na fora de trabalho. Decises quanto a
mais que uma erotizao dos relacionamentos          lutar para repelir tal legislao ou deix-la em
entre as mulheres. Na segunda onda feminista,        vigor tm implicado assumir uma posio nesse
a articulao poltica do lesbianismo como op-       debate sobre "igualdade ou diferena". Dilemas
o tem sido marcante, embora de forma al-           semelhantes surgem com respeito a provises
guma necessariamente separatista. O Movi-            para a maternidade, polticas de ao afirma-
mento de Libertao das Mulheres ocidentais          tiva, disposies para manuteno e custdia de
dos anos 70 e 80, em certos pontos, ligou-se a       filhos depois do divrcio, para no mencionar
uma poltica liberacionista mais geral em torno      questes mais polmicas como a maternidade
da sexualidade, particularmente na defesa dos        de aluguel ou as novas tecnologias de reprodu-
direitos dos gays.                                   o. Os debates polticos sobre essas questes
306   feminismo


na Gr-Bretanha, nos Estados Unidos e na Aus-          fracasso do feminismo branco em se engajar nas
trlia so discutidos em Bacchi (1990). De for-        questes do racismo e do etnocentrismo. En-
ma mais profunda, afirmou-se (Scott, 1990) que         quanto esse problema era imputado ao feminis-
a tradicional oposio binria entre "igualdade"       mo ocidental, afirmava-se tambm que o car-
e "diferena"  desqualificante, e que o feminis-      ter conspcuo do feminismo ocidental havia, ele
mo contemporneo deveria rejeit-la, em vez            prprio, reduzido a considerao das lutas das
de continuar a trabalhar com ela. A igualdade          mulheres em outros lugares do mundo (ver
no precisa implicar a eliminao da diferena.        MOVIMENTO DE MULHERES).  evidentemente v-
    Os pressupostos tericos caractersticos da        lido dizer que as prioridades polticas variam
segunda onda feminista ocidental, de grande            significativamente e que a agenda feminista 
influncia nos anos 70, abriram caminho hoje           muito diferente em sociedades no-ocidentais.
em dia a um conjunto de idias mais dispersas          As tentativas de feministas ocidentais de abor-
e heterogneas. O que se poderia chamar de             dar essas questes em um contexto comparativo
"feminismo dos anos 70" presumia ser possvel          (por exemplo, Sisterhood in Global [1984], de
especificar uma "causa" da opresso das mu-            Robin Morgan) foram compreensivelmente criti-
lheres, embora muitas feministas divergissem           cadas por reproduzir essas diferenas de poder
quanto ao que poderia ser essa causa (controle         subjacentes.
masculino sobre a fertilidade feminina, neces-             (2) A diferena sexual passou a ser encarada
sidade do capitalismo de uma fora de trabalho         como mais intransigente, mas tambm mais
dcil e assim por diante). Nas taxonomias to          positiva, do que fora permitido no auge da
apreciadas nesse perodo, havia vrios pacotes         segunda onda feminista, a qual tendeu a fazer
de respostas (feministas "liberais", "socialis-        eco  viso de Beauvoir (1949) de que a femi-
tas" ou "radicais") a essas questes; um exame         nilidade era no apenas uma "realizao" cul-
em retrospecto permite ver que a diversidade           tural, mas tambm uma reduo, ou distoro,
dessas respostas acabou escondendo um eleva-           do potencial humano das mulheres. Essa mu-
do grau de consenso quanto a quais eram as             dana ficou marcada no crescente interesse pe-
questes certas a serem colocadas. Assumiu-se          las exploraes psicanalticas da diferena e da
tambm que todas as mulheres eram oprimidas            identidade sociais, sendo um texto influente
ou subordinadas, e que a dinmica dessa opres-         Psychoanalysis and Feminism (1975), de Juliet
so se encontrava nas estruturas sociais deter-        Mitchell, e pela anlise da maternidade, maci-
minantes. Os argumentos enfatizando a impor-           amente desenvolvida aps a publicao, em
tncia da biologia, da natureza, dos hormnios         1978, de The Reproduction of Mothering, de
ou da gentica foram todos postos de lado,             Nancy Chodorow. Um aspecto importante des-
confiantemente, como "biologismo", enquanto            se processo foi a reapropriao pelo feminismo
se afirmavam as causas sociais e culturais das         da identidade da mulher e uma percepo de
atitudes sexistas. A diferena social e a especial     que o impulso para a "androginia" ou "igual-
relevncia de ter e criar filhos para as vidas tanto   dade" era apenas mais uma capitulao  norma
de mulheres quanto de homens foram ampla-              masculina de negar a relevncia de sexo e g-
mente ignoradas.                                       nero.
    O rompimento desse consenso poderia ser                (3) A relao do pensamento feminista com
atribudo a trs fontes principais: (1) a crtica ao   as correntes tericas do ps-estruturalismo e do
feminismo ocidental por tentar universalizar a         ps-modernismo  complexa, e deve s-lo ne-
experincia de mulheres brancas (em geral, de          cessariamente, se forem consideradas as razes
classe mdia) em pases capitalistas avanados;        histricas do feminismo como doutrina liberal
(2) a perda de confiana no modelo sociolgico         humanista. Vrios autores que abordaram esse
de GNERO implcito nessa abordagem e a con-           tema (Hekman, 1990; Pollock, 1992; Barrett,
comitante reafirmao da "diferena sexual"            1992) concluem que o feminismo se localiza
como um importante fenmeno psquico e cul-            em ambos os lados da diviso modernida-
tural; e (3) a incorporao de idias deses-           de/ps-modernidade (ver MODERNISMO E PS-
tabilizantes de provenincia ps-estruturalista e      MODERNISMO). , assim, difcil ligar o feminis-
ps-modernista.                                        mo como movimento poltico histrico, de
    (1)  importante observar aqui que as femi-        qualquer maneira bvia, a posies ps-estru-
nistas negras lanaram uma crtica eloqente ao        turalistas, embora tenham sido muitas as ten-
                                                                                     fenomenologia    307


tativas nesse sentido (por exemplo, Weedom,                lugar, na psicologia da percepo,  uma escola
1987). Riley (1988) examina as implicaes                 influenciada pelo filsofo Maurice Merleau-
problemticas, para o feminismo, de uma "des-              Ponty (1908-1961), a qual afirma que o corpo
construo" ps-estruturalista da categoria de             e o comportamento so portadores imediatos e
"mulher". A teoria feminista na Europa, Am-               pr-lingsticos de significado na experincia
rica do Norte e Austrlia enfatiza atualmente as           (Shapiro, 1985) (ver PSICOLOGIA). Este verbete
implicaes das idias ps-estruturalistas para            concentra-se na fenomenologia em filosofia e
a conceitualizao de qualquer projeto feminis-            sociologia.
ta, e da as possibilidades de uma poltica fe-                A fenomenologia  um ramo abstrato, rigo-
minista.                                                   roso e especializado da filosofia, com vrias
    Uma questo final pode ser apresentada com             escolas e tradies nacionais. No entanto no 
respeito  idia de "ps-feminismo", que des-              incorreto dizer, em oposio ao REALISMO cien-
fruta atualmente de alguma popularidade no                 tfico, que todos os fenomenlogos tm dado
Ocidente. Muitos jovens em sociedades ociden-              prioridade  descrio da experincia de vida
tais avanadas parecem ter uma viso mais                  (Erlebnis ) no mundo da vida humana cotidiana
progressista e aberta das escolhas de vida dis-            (Lebenswelt ). Os membros do movimento in-
ponveis s mulheres do que a gerao de seus              fluenciados pelo EXISTENCIALISMO (como Jean-
pais, e em certa medida isso pode ser cor-                 Paul Sartre ou Maurice Merleau-Ponty) en-
retamente atribudo ao trabalho do movimento               fatizaram mais a experincia de sujeitos huma-
feminista ativo dos anos 70 e 80. No obstante,            nos localizados, concretos, vivendo juntos, en-
a idia de que o feminismo  hoje obsoleto e de            quanto os que estavam na tradio do raciona-
que predomina uma cultura de escolha "ps-                 lismo cartesiano (como Husserl) partiram da
feminista" simplesmente no  corroborada por
                                                           experincia do Ego individual e tentaram des-
nenhuma investigao sociolgica ou poltica
                                                           cobrir os fundamentos essenciais do conheci-
de desigualdade de gnero e poder nas socie-
                                                           mento.
dades contemporneas.
                                                               As pesquisas fenomenolgicas, em geral,
Leitura sugerida: Bacchi, Carol Lee 1990: Same Di-         no tm a inteno de produzir afirmaes fac-
fference: Feminism and Sexual Difference  Barrett, M.      tuais, mas sim reflexes filosficas no-em-
e Phillips, A., org. 1992: Destabilizing Theory: Contem-
porary Feminist Debates  Beauvoir, Simone de 1949:
                                                           pricas, ou "transcendentais", sobre conheci-
Le deuxime sexe  Hirsh, M. e Keller, Evelyn Fox,          mento e percepo e sobre atividades humanas
orgs. 1990: Conflicts in Feminism  Millett, Kate 1970:     como a cincia e a cultura. Husserl visava es-
Sexual Politics  Morgan, Robin 1984: Sisterhood is         tabelecer nada menos que a pura VERDADE, in-
Global: the International Women's Movement An-             dependente de tempo, lugar, cultura ou psi-
thology  Phillips, Anne, org. 1987: Women and Equa-        cologia individual. No estava interessado na
lity  Rowbotham, Sheila 1973: Hidden from History 
Woolf, Virginia 1938: Three Guineas.                       percepo de objetos particulares, concretos,
                                   MICHLE BARRETT
                                                           mas sim no "percebido como tal", que ele cha-
                                                           mou de noema. Para chegar a tais essncias
fenomenologia Em filosofia, trata-se (a) da                abstratas dos objetos, Husserl defendeu um pro-
pura descrio dos "fenmenos" da experincia              cedimento que chamou de "reduo transcen-
humana, tal como se apresentam em direta con-              dental", ou epoch, por meio do qual as ques-
siderao, independente da histria, da particu-           tes de ONTOLOGIA eram mantidas em estado de
laridade, da causalidade e do contexto social              suspenso. Atravs de uma mudana de atitude,
dessas experincias; e (b) do movimento filo-              a crena no mundo efetivo da existncia huma-
sfico europeu do sculo XX, associado em                  na em qualquer sociedade, comunidade ou pe-
particular a Edmund Husserl (1859-1938), de-               rodo histrico foi suspensa, ou "posta entre
fendendo esse mtodo de investigao em v-                colchetes". Colocando-se assim os objetos so-
rias formas. Em segundo lugar, em sociologia               ciais ou naturais concretos e individuais entre
-- e em particular com inspirao nos textos de            colchetes, era possvel, acreditava ele, variar
fenomenologia social de Alfred Schutz (1899-               muitos exemplos de coisas para descobrir os
1959) --,  o estudo dos modos como as pessoas             aspectos essenciais que qualquer coisa dada
vivenciam diretamente o COTIDIANO e imbuem                 deve possuir a fim de ser reconhecida como um
de significado as suas atividades. Em terceiro             exemplo dessa coisa. Em fenomenologia, esse
308   fenomenologia


mtodo  conhecido como a abordagem eidti-          existncia de outros  dada como certa na vida
ca (Husserl, Ideas, 1931).                           cotidiana, uma vez que assumimos uma "reci-
    A doutrina da intencionalidade  importante      procidade de perspectivas". O conceito de "si-
em Husserl e na fenomenologia em geral, e            multaneidade" descreve a idia de que nossa
deriva de Franz Brentano, professor de Husserl.      experincia do Outro ocorre no mesmo presente
A caracterstica mais fundamental da conscin-       em que o Outro est tendo a experincia de ns.
cia  tida como sendo o fato de ela ser sempre       As pessoas orientam-se usando "tipificaes",
conscincia de alguma coisa. Independente do         tais como concorrente comercial, norte-ameri-
status existencial do objeto em questo, a cons-     cano, tipo jovial, atravs das quais se efetua
cincia  "dirigida". Os indivduos destacam         uma interao significativa (Schutz, 1932).
entidades em sua experincia para a sua ateno          Schutz participava da crena humanstica de
e, assim, as constituem em objetos. Mas do fato      Husserl, que ele havia estabelecido em Crisis,
de um ato consciente ser dirigido a alguma coisa     no primado do Lebenswelt como ponto de refe-
no se pode inferir que essa coisa exista. Para      rncia extremo e base de significado para toda
Husserl, todo ato  "dirigido" porque, mesmo         a experincia, bem como para as teorias cien-
que no tenha um objeto bvio, ser dirigido a       tficas que os seres humanos constroem. Al-
um noema. Durante o procedimento artificial          tamente influente para a ETNOMETODOLOGIA e a
da epoch, atos "intencionais" como esperana,       metodologia sociolgica foi a insistncia de
expectativa ou temor tornam-se importantes           Schutz, de acordo com aquele princpio, em
para se estabelecer a essncia da percepo          evitar a REIFICAO: os constructos de "segunda
como tal (Husserl, Cartesian Meditations,            ordem" criados em cincia social deveriam ba-
1931).                                               sear-se nos de "primeira ordem" j em uso no
    Husserl, seguindo esse raciocnio e usando       Lebenswelt cotidiano. A cincia social como
o mtodo da epoch, esperava demonstrar que          um "contexto de significado" s era possvel e
era possvel atingir uma esfera de conscincia       humanamente legtima se efetuasse uma tradu-
purificada, ou "subjetividade transcendental",       o de ida e volta entre si prpria e o "cabedal
tida como sendo uma esfera auto-suficiente de        de conhecimento" disponvel e em uso nos
experincia fora do tempo e do espao. O m-         contextos de significado do Lebenswelt. (Uma
todo produziria verdades no-empricas, apod-       verso dessa idia aparece como a "dupla her-
ticas, a priori, que seriam universalmente vli-     menutica" nos influentes textos de teoria so-
das e livres de pressupostos. Estas proporciona-     ciolgica de Anthony Giddens [1976] -- ver
riam um slido baluarte contra a dvida cptica,     HERMENUTICA.) Schutz disse que se deviam
o historicismo, o relativismo e o irracionalismo     observar aes e eventos significativos tpicos
poltico. A esse respeito, a fenomenologia era       e coorden-los com modelos construdos de
tambm uma WELTANSCHAUUNG humanista, cu-             agentes tpicos, ou "homunculi". Em cincia
ja natureza Husserl explicitou em sua ltima         social, era assim possvel construir, como todas
obra, The Crisis of European Sciences and            as cincias o fazem, sistemas conceituais anal-
Transcendental Phenomenology (1937).                 ticos (nesse caso, de ao social) de anonimi-
    A fenomenologia social de Alfred Schutz          dade mxima, mas baseados em experincias
deixa de lado o projeto de uma filosofia sem         reais e, por meio do dilogo de ida e volta,
pressupostos e evita o resultante problema hus-      mantendo laos com a singularidade dos in-
serliano de como o "Ego transcendental" (que         divduos comuns.
ele foi forado a postular para evitar o idealismo       A controvrsia continua dentro e em torno
subjetivo) se constitui no "Ego emprico" in-        da fenomenologia. Dois focos recorrentes de
dividual. Schutz pressupe de sada que as pes-      debate so os seguintes:
soas se defrontam umas com as outras em um               1. Problemas que surgem do status trans-
Lebenswelt j constitudo, significativo e inter-           cendental das reflexes fenomenolgi-
subjetivo, que  a "realidade suprema" para os              cas. Nas verses sociolgicas, existe uma
seres humanos, e defende o estudo dos modos                 relao ambgua entre as categorias
como as pessoas vivenciam esse Lebenswelt                   transcendentais e o mundo real descrito
cotidiano. A caracterstica postura de senso co-            pela cincia social emprica. Essa relao
mum que as pessoas assumem nessa esfera                     sempre o calcanhar-de-aquiles de qual-
chamada por Schutz de "atitude natural". A                  quer pesquisa transcendentalmente in-
                                                                                         fenomenologia       309


       formada, incluindo a fenomenologia                     gewelt ), com o que eu e minhas diferentes atitudes
       (Kilminster, 1989). (Ver NEOKANTISMO.)                 para com outros institumos esses relacionamentos
       Rigorosamente falando, Schutz estava                   mltiplos. Tudo isso  feito em variados graus de
                                                              intimidade e anonimidade. (Schutz, 1940, p.181.)
       delineando apenas as precondies para
       a pesquisa na cincia social humanista, e               Esse ponto de partida nominalista para a
       no tentando uma descrio emprica de              cincia social tem sido alvo de considerveis
       qualquer sociedade nem fornecendo con-              crticas em sociologia, de Karl Marx e Emile
       ceitos para uso direto em pesquisa social.          Durkheim em diante e, recentemente, de forma
       Conforme as palavras de Thomas Lu-                  notvel, no trabalho terico e emprico de Nor-
       ckmann (1983, p.viii-ix), a fenomenolo-             bert Elias, em que foi encarado como uma
       gia social  uma "proto-sociologia" que             forma inaceitvel de monadologia (Elias, 1978
       "revela as estruturas universais e inva-            e 1991).
       riveis da existncia humana em todos os                O mesmo egosmo significou que as verses
       tempos e lugares". Mas essa pretenso              filosficas, particularmente a de Husserl, sem-
       universalidade, baseada como era unica-             pre foram assoladas pelo fantasma do solipcis-
       mente no raciocnio filosfico, sempre              mo. Sua soluo -- a auto-experincia univer-
       foi contestvel. De onde deriva o catlo-           sal do "ego transcendental" -- foi atacada pelos
       go abstrato de estruturas bsicas do Le-            fenomenlogos existenciais (Sartre, 1936-7;
       benswelt? Que evidncia emprica, se               Merleau-Ponty, 1945). Estes tentaram evitar tal
       que existe, poderia mud-las? Estaro               perigo mudando a nfase para a ontologia. Cria-
       sendo sub-repticiamente introduzidos                ram conceitos como o "estar-no-mundo" da
       valores e preconceitos a respeito da na-            humanidade para tentar descrever a unio pr-
       tureza humana?                                      terica das pessoas em sociedade. O movi-
   Alm do mais, a natureza esclarecedora, a               mento anti-subjetivista e anti-humanista do
priori, do empreendimento que os fenomenlo-               ESTRUTURALISMO no pensamento social euro-
gos haviam reunido para si prprios significava            peu, nos anos 50 e 60, foi tambm, em parte,
que -- como eles mesmos reconheceram -- no                uma reao s formas mais individualistas de
eram competentes para fazer quaisquer afirma-              fenomenologia.
es concretas, sistemticas, a respeito das ur-               Em fenomenologia, o sujeito individual, ou
gentes questes de poder e dominao social                Ego emprico, sempre teve um status analtico,
em sociedades especficas. Tal tarefa cientfico-          embora explicitamente se assumisse ser ele um
social estava fora de sua esfera. Sua principal            indivduo adulto. A referncia ao desenvolvi-
pretenso  fama, portanto, tornou-se a crtica            mento desse indivduo era feita de maneira
humanista do objetivismo e do POSITIVISMO on-              formal, por exemplo, na distino de Husserl
de estes existiam na corrente dominante da                 entre gnese "ativa" e "passiva" do Ego (Car-
cincia social. Uma vez que os socilogos ab-              tesian Meditations, 1931, seo 38). Em suas
sorveram esse corretivo, a fenomenologia foi               primeiras obras, Schutz descreveu explicita-
gradualmente perdendo o seu apelo.                         mente o agente individual, tido em suas anlises
   2. O foco "egolgico" da fenomenologia                  como o "adulto plenamente consciente". Essa
       teve importantes repercusses para as               suposio estatstica  corrigida em sua obra
       variantes tanto social quanto filosfica.           pstuma The Structures of the Lifeworld
       Esse molde individualista  bvio em                (Schutz e Luckmann, 1974), que contribuiu
       Husserl, mas tambm fica claro na viso             para desenvolver o que ficou conhecido como
       que Schutz tem da sociedade como con-               "fenomenologia gentica". Nessa obra, foi ple-
       sistindo em crculos concntricos em tor-           namente reconhecido o fato de os adultos terem
       no de si prprio.                                   sido crianas que aprenderam a partir de uma
                                                           cultura preexistente atravs da socializao. Es-
   Com referncia a Ns, cujo centro sou eu, outros se
   destacam como "Voc", e com referncia a Voc, que
                                                           se ponto de vista pode ser encontrado, de forma
   se refere de volta a mim, terceiros se destacam como    sofisticada, na influente obra de metateoria de
   "Eles". Meu mundo social, com os alter egos nele        Berger e Luckmann intitulada The Social Cons-
   includos, est arrumado, em torno de mim como          truction of Reality (1961). No entanto, de acor-
   centro, em associados (Unwelt), contemporneos          do com o carter transcendental da anlise fe-
   (Mitwelt), predecessores (Vorwelt) e sucessores (Fol-   nomenolgica em geral, a gnese  inevitavel-
310   fetiche


mente tratada, aqui tambm, de modo formal,            dinastias Xu, Han tardia e Tang tardia; no Japo,
abstrato, como parte de uma estrutura universal        entre os sculos IX e XVIII; e muitos mais. No
de orientao subjetiva para as cincias sociais,      decorrer do tempo a autoridade governamental
com o mundo de gnese real, emprica, coloca-          foi fragmentada entre jurisdies locais com
do entre colchetes.                                    mais freqncia e durante perodos mais longos
    Os socilogos tm chamado a ateno para           do que foi centralizada. Somente na Europa
o fato de a fenomenologia ser um produto proe-         medieval, porm,  que uma economia e uma
minente do egocentrismo da filosofia europia          sociedade no-centralizadas geram elementos
tradicional de Descartes a Kant e Husserl. Essa        competitivos suficientemente fortes para sobre-
tendncia foi convincentemente explicada pelo          viverem  recentralizao.
desenvolvimento de complexos estados-naes                Foi nessa Europa que surgiu, durante o s-
ocidentais, com paz interna. Pode ser vista co-        culo X d.C., um sistema ecltico de governo e
mo expresso da auto-experincia do indivduo          organizao econmica, em grande parte a par-
moderno, eminentemente autocontrolado, ca-             tir da necessidade mtua de defesa contra in-
racterstico dessas sociedades (Elias, 1939). A        vasores da Escandinvia. Sob o feudalismo eu-
direo predominante que surge nas pesquisas           ropeu, o coletivismo (subordinao do interesse
contemporneas da sociologia da individua-             individual ao interesse do grupo), associado a
lidade afasta-se do transcendental rumo s in-         antigas formaes polticas hierrquicas, com-
vestigaes empricas, de forma simultnea,            binou-se com rudimentos de individualismo
nas duas frentes do que Norbert Elias chamou           poltico, oriundos das relaes entre os lderes
de psicognese e sociognese (Burkitt, 1991).          tribais germnicos e seus seguidores, entre os
                                                       sculos VI e IX.
Leitura sugerida: Elliston, Frederick e McCormick,
Peter, orgs. 1977: Husserl: Expositions e Appraisals       Por volta do sculo VI d.C., quando todos os
 Hammond, Michael, Howard, Jane e Keat, Russell        vestgios da administrao imperial romana do
1991: Understanding Phenomenology  Landgrebe,          Ocidente haviam desaparecido no Norte da Eu-
Ludwing 1966: Major Problems in Contemporary Eu-       ropa, um governo limitado como o que ainda
ropean Philosophy, from Dilthey to Heidegger  Lu-      existia se tornou privatizado. A defesa comum
ckmann, T., org. 1978: Phenomenology and Sociology     e a manuteno da lei e da ordem cabiam aos
 Natanson, Maurice, org. 1970: Phenomenology and
Social Reality: Essays in Memory of Alfred Schutz      bispos locais e aos proprietrios de terras que
 Pivcevic, Edo 1970: Husserl and Phenomenology         eram descendentes de invasores germnicos.
 Spiegelberg, Herbert 1970: The Phenomenological           Os guerreiros (vassalos) das foras de defesa
Movement, 2 vols., 3ed. rev. e amp.  Thomason,        dos chefes locais prestavam servio voluntrio
Burke C. 1982: Making Sense of Reification: Alfred     em troca apenas da camaradagem diria e da
Schutz and Constructivist Theory.
                                                       subsistncia perptua na casa de seus senhores.
                             RICHARD KILMINSTER        Os fracos reis merovngios e carolngios, des-
                                                       cendentes desses chefes, recompensavam seus
fetiche Ver MERCADORIA, FETICHISMO DA.
                                                       vassalos com extensas doaes de terras, em
feudalismo O interesse moderno por esse an-            troca de 40 dias de servio armado por ano; e,
tigo sistema de organizao social no ocorre          com a situao instvel que se seguiu s in-
apenas por si prprio. A combinao de in-             vases do sculo IX, a vassalagem adquiriu
dividualismo e hierarquia encontrada no feuda-         funo poltica. Uma relao entre quase iguais,
lismo europeu foi fonte da liberdade poltica, do      fruto da obrigao mtua, evoluiu para uma
capitalismo e da cincia -- todos os trs basea-       hierarquia adaptada s necessidades de governo
dos na competio, seja de governantes, recur-         e defesa militar locais.
sos ou idias. Duas condies da competio, a             No vcuo criado pela queda da monarquia
ausncia de capacidade coerciva central e a            carolngia, no sculo IX, cada vassalo assumiu
independncia dos participantes, fornecem cha-         autoridade para governar todos os que viviam
ves para o contexto e o contedo do feudalismo.        em seu feudo. Ele exercia a justia, recolhia
   Podemos encontrar governos no-centrali-            impostos, construa estradas e pontes e mobili-
zados ao longo de toda a histria: na antiga           zava um exrcito particular formado entre os
Mesopotmia, durante o perodo cassita; no             residentes. Podia exigir trabalho dos campo-
Egito, durante o Mdio Imprio; em Bizncio,           neses e tinha direito a todo o produto agrcola.
entre os sculos X e XII; na China, durante as         Assim, praticamente sem distino entre auto-
                                                                                    feudalismo    311


ridade particular e pblica, a administrao dos     exerccio do poder de tutelagem, quando uma
servios e instalaes pblicos tornou-se in-        criana herdava um feudo um senhor podia
diferenvel da administrao da propriedade         exercer o controle at que a criana tivesse
feudal privada.                                      idade suficiente para fazer o juramento de fide-
    Por mais independente que cada vassalo           lidade. O senhor tinha o direito de aprovar o
pudesse ter sido de fato, a obrigao tradicional    novo casamento de uma viva e de aprovar os
de fornecer foras de defesa sustentou os laos      noivos para as filhas de seus vassalos. Final-
simblicos com o doador das terras. Por volta        mente, o poder em aberto delegado permitia a
do sculo X, quando os ttulos de propriedade,       um doador retomar um feudo, caso seu detentor
o poder poltico e o status social correspondente    no conseguisse atender suas exigncias. Tal-
 escala de posses podiam ser herdados, as           vez esses poderes indicassem meios pelos quais
mtuas obrigaes defensivas de sucessivas ge-       os vassalos tentavam fugir s suas obrigaes.
raes de proprietrios de terras foram sendo            O poder individual sob o feudalismo era
formalizadas em um contrato feudal. Os her-          limitado em dois aspectos importantes. Ne-
deiros dos feudos maiores ficavam perto do           nhum notvel local em exerccio do governo
pice da pirmide social, superiores em uma          poderia controlar todos ou a maioria dos outros,
nobreza feudal emergente.                            assim como nenhum senhor isolado poderia
    Em uma cerimnia conduzida pela Igreja, o        manter sua autoridade sem os recursos for-
vassalo jurava fidelidade ao seu senhor, prome-      necidos pelos subordinados, cada um dos quais
tendo fornecer cavaleiros armados para uma           governava independentemente sua terra dentro
fora de defesa em tempo de guerra e guardar o       do domnio mais amplo do suserano.
castelo do senhor em tempo de paz. (O senhor,            Embora as relaes hierrquicas sociais e
por sua vez, resolveria as disputas entre os         econmicas persistissem dentro de cada dom-
vassalos e forneceria ajuda militar caso as terras   nio individual, onde a terra podia ser trabalhada
de um vassalo fossem atacadas.) Para cumprir         por escravos e arrendatrios vinculados (ser-
sua obrigao de fornecer cavaleiros armados,        vos), completamente dependentes do senhor
um vassalo de amplas posses as dividia, en-          das terras para a sobrevivncia, umas poucas
tregando o uso da terra a associados de posio      famlias camponesas, em especial no continen-
inferior, e estes por sua vez subdividiam ainda      te, possuam terras em propriedade livre e alo-
mais suas propriedades, at que, depois de uma       dial, e estavam isentas dos deveres feudais. Por
sucesso de partilhas, a propriedade menor per-      volta do sculo XII, com o desaparecimento da
tencia a um cavaleiro. Com a subenfeudao,          escravido e a compra da liberdade pelos ser-
como esse processo  hoje chamado, cada nvel        vos, que se mudavam para as cidades, as regras
da hierarquia jurava fidelidade, prometendo          da hierarquia passaram a controlar reas cada
fornecer cavaleiros armados ao suserano dire-        vez mais reduzidas da vida.
tamente acima dele, at que, nos nveis mais             No existiu nenhuma autoridade temporal
elevados, os principais vassalos deviam direitos     forte ao longo da Idade Mdia; os monarcas
feudais  coroa.                                     feudais do medievo tardio governavam reinos
    A subenfeudao estabilizou o relaciona-         descentralizados. No final da Idade Mdia, po-
mento feudal: um vassalo principal hesitaria em      rm, elementos de interdependncia permea-
violar seu contrato feudal com o rei, pois suas      vam as relaes entre os senhores feudais. 
aes serviriam de exemplo desfavorvel aos          medida que coalizes entre quase iguais se
homens que lhe deviam servio feudal.                formavam, eram dissolvidas e depois reinicia-
    A lei consuetudinria feudal ento emergen-      das para se obterem vantagens mtuas, o pro-
te estabilizou ainda mais as relaes hierrqui-     cesso de barganha que passou a se desenrolar
cas, protegendo os direitos dos senhores nas         enfraqueceu o coletivismo. A barganha, em que
transferncias entre geraes. A regra da primo-     a auto-regulamentao substitua a autoridade,
genitura (a herana para o filho mais velho)          caracterstica do individualismo comumente
garantia que terra, ttulos e posio na socie-      associado ao capitalismo.
dade feudal passassem intactos aos herdeiros.            Lentamente,  medida que senhores feudais
Se o herdeiro do vassalo era incompetente, o         fracos assumiram a autoridade dos notveis
poder de reverso do senhor feudal permitia-lhe      locais de ministrar a justia e administrar a
confiscar um feudo e redistribu-lo. Atravs do      defesa, foi-se negociando uma combinao vi-
312    filosofia


vel de individualismo e coletivismo. A hierar-            samento e realidade. Bradley (1846-1924), ca-
quia acabou dominando a formao poltica.                racteristicamente, tentou uma soluo que co-
No entanto sua estrutura formal coexistia com             meava com a "experincia imediata" e afir-
elementos de individualismo e, no decorrer do             mava que todos os julgamentos, incluindo os da
tempo, esses elementos foram se tornando cada             cincia, so "cheios de contradies". Para Bra-
vez mais fortes.                                          dley, o pensamento s pode ser verdadeiro
   Ver tambm ESTADO.                                     quando o intelecto se encontra plenamente
                                                          satisfeito -- e este no pode estar plenamente
Leitura sugerida: Bloch, Marc 1940: La societ fo-       satisfeito enquanto o pensamento contiver con-
dale  1974: "The rise of dependent cultivation and
seignorial institutions". In Cambridge Economic His-      tradies. Conforme escreve John Passmore
tory of Europe, vol.1, cap.4  Duby, Georges 1973:         (1957): "Em parte alguma, a no ser no Abso-
Guerriers et paysans: essai sur la premire croissance    luto (...) essa autoconsistncia pode ser encon-
conomique de l'Europe  Lyon, Bruce 1972: The Ori-        trada." Para os idealistas, o mundo, em sua
gins of the Middle Ages: Pirenne's Challenge to Gibbon    infinita complexidade, era, em ltima anlise,
 Stephenson, Carl 1969: Medieval Feudalism, caps. 1,
                                                          uma unidade.
2 e 5  Strayer, Joseph R. 1971: "The two levels of
feudalism". In Medieval Statecraft and the Perspectives       O idealismo praticamente desapareceu com
of History  Webber, Carolyn e Wildavsky, Aaron 1986:      a Primeira Guerra Mundial. De fato, todas as
"Finance in private governments of medieval Europe:       elaboraes de maior sucesso no sculo XX,
poor kings". In A History of Taxation and Expenditure     incluindo o marxismo, a ele se opunham. Na
in the Western World.                                     Amrica do Norte, o PRAGMATISMO e uma srie
           CAROLYN WEBBER E AARON WILDAVSKY               de "realismos" -- os "novos" realismos, por
                                                          exemplo, de E.B. Holt e R.B. Perry (Holt, 1912)
filosofia No sculo XIX foi impossvel para               e os realismos "crticos" de A.O. Lovejoy e
o pensamento filosfico do fin de sicle evitar           R.W. Sellers (Drake, 1920) -- eram reaes
as conseqncias do desenvolvimento da cin-              diretas ao idealismo. O mesmo acontecia na
cia moderna. As reaes de Nietzsche, dos neo-            Gr-Bretanha com as figuras predominantes de
kantianos, naturalistas e evolucionistas, mar-            Bertrand Russell e G.E. Moore. Na Alemanha
xistas, pragmatistas e idealistas, cada qual a seu        e na ustria, a FENOMENOLOGIA de Husserl, a
modo, obtiveram sucessos desiguais. Os menos              filosofia da existncia de Heidegger e o POSITI-
bem-sucedidos foram os idealistas, cujos esfor-           VISMO de Viena, tambm movimentos de imen-
os para compreender o mundo como cons-                   so sucesso, foram esforos para superar o im-
titudo por um sistema de idias j no eram              passe do final do sculo XIX entre idealistas e
mais convincentes.                                        realistas.
    Na Alemanha, o hegelianismo j havia sido                 Em resposta aos ataques materialistas ao
superado. No tanto nos Estados Unidos e na               "socialismo cientfico", Engels tentou, um tan-
Gr-Bretanha. Nos Estados Unidos, Josiah                  to tardiamente, fornecer uma filosofia da cin-
Royce e, na Gr-Bretanha, T.H. Green, F.H.                cia para o marxismo. Seguindo-o, o livro Ma-
Bradley e Bernard Bosanquet estavam propor-               terialismo e emprio-criticismo (1908), de Le-
cionando fortes bases metafsicas para o cris-            nin, tornou-se a fonte do que se transformaria,
tianismo liberal. Embora variedades de idealis-           com Stalin, no MATERIALISMO DIALTICO, a filo-
mo "personalista", promovidas pelo norte-ame-             sofia "oficial" do marxismo. O chamado "mar-
ricano G.H. Howinson e pelos filsofos de                 xismo ocidental", a cujo respeito mais se dir
Cambridge J.E. Mctaggart e James Ward, rejei-             em seguida, seria uma reao recente a isso.
tassem o "absolutismo" como "oriental", todos                 O pragmatismo no era uma coisa nica. Os
esses filsofos idealistas tinham em comum a              textos de Charles S. Peirce, William James,
rejeio aos compromissos empiristas com o                Georges Herbert Mead e John Dewey talvez
nominalismo, o atomismo e as "relaes exter-             sejam to diferentes quanto semelhantes. Todos
nas" -- a idia de que as "coisas" conservam              so corretamente pragmatistas na aceitao da
suas identidades independentemente das rela-              crtica de Kant  metafsica, mas tambm na
es em que se encontram.                                 rejeio de seu mvel transcendental.
    Pelo menos desde Parmnides os filsofos                  Peirce (1829-1914) chegou mais prximo
tm-se confrontado com o duplo problema da                do "realismo" tradicional. Havia um mundo
relao entre o um e o mltiplo e entre pen-              externo, de existncia independente, que era
                                                                                       filosofia   313


no apenas dotado de leis prprias, mas tambm       que a democracia era "a prpria idia de comu-
inteligvel. Peirce (1877) reagiu  inquietao      nidade" e comunidade exige que "relaciona-
cartesiana, afirmando que o problema era en-         mentos face a face tenham conseqncias que
contrar o modo preferido de estabelecer a cren-      geram uma comunidade de interesses, uma par-
a na comunidade. Este era, claro, o "mtodo         ticipao nos mesmos valores" (1927), o pro-
cientfico" preferido porque, como pblico e         blema da democracia era precisamente estabe-
falvel, somente ele era autocorrigvel.             lecer as condies em que  possvel identificar
    A famosa "mxima pragmtica" de Peirce           conseqncias e estabelecer valores conjunta-
(1878) de que nossa concepo dos efeitos pr-       mente.
ticos de uma idia d a ela todo o seu significado       Superar uma srie de dualismos -- corpo e
foi mal utilizada por posteriores teorias verifi-    mente, experincia e natureza e, muito impor-
cacionistas do significado. Sua obra sobre se-       tante, fato e valor -- era crucial para o projeto
mitica e lgica continua atual, especialmente       de Dewey. No seu ponto de vista, esses dualis-
considerando-se que proporciona uma alter-           mos, e com eles as "principais divises" da
nativa radical aos pontos de vista predominan-       filosofia moderna, "cresceram em torno do pro-
tes de Frege/Russell.                                blema epistemolgico da relao geral de sujei-
    O pragmatismo de James (1842-1910) tinha         to e objeto" (1917). A indagao era a idia
a inteno de colher benefcios tanto dos "idea-     central da sua teoria do conhecimento, e sua
listas" quanto dos "realistas", a fim de incluir     abordagem, em muitos sentidos comparvel 
no apenas "fatos" e "princpios", mas cincia       de Marx, era comear com a prtica concre-
e religio. Para conseguir isso, James desmiti-      ta, levantar questes quanto  "autenticidade,
ficou ambas. Cincia e religio brotam do "sen-      sob as atuais condies da cincia e da vida
timento de racionalidade" (1878) e ambas vi-         social, dos problemas [da filosofia]" e ento
sam "relaes ideais e interiores" que no po-       articular os "problemas dos homens" em termos
dem, "em nenhum sentido inteligvel que seja,        passveis de indagao. Dewey est passando
ser reprodues da ordem da experincia exter-       atualmente por um renascimento, tanto como
na". A definio de James para verdade (1908)        pensador ps-moderno prematuro, ao modo de
escandalizou os epistemlogos, uma vez que           Richard Rorty, quanto como um pensador cuja
parecia conceder que uma condio suficiente         filosofia continua vivel para a reconstruo
para verdade era que uma crena fosse til. De       modernista.
forma semelhante, seu "empirismo radical"                Enquanto Dewey se furtava a muitos dos
caiu nas graas de defensores de pontos de vista     problemas tradicionais da filosofia, G.E. Moore
mais recentes amplamente opostos. Por um la-         (1873-1958) insistia em que estes resultavam
do magnfico autor de obras em prosa, James          da falta de clareza. Seu ensaio "The refutation
tinha pouco interesse tanto em problemas "filo-      of idealism" (1903a) demonstra isso e d o tom
sficos" estritamente concebidos quanto em           para a concepo (posterior) da filosofia como
atender aos padres da recente filosofia tcnica.    anlise lingstica. Para Moore, o conceito de
Sua caracterstica principal era insistir em que     uma coisa existente exigia que ela estivesse
o mundo  plural, relacional e "em produo".        externamente relacionada a uma outra coisa. O
De acordo com isso, as crenas s tm valor          idealismo, comprometido com relaes inter-
como afirmaes da verdade na medida em que          nas, no podia ser expresso de forma coerente.
atendam a necessidades, carncias, objetivos e       Moore (1903b) usou essa mesma ttica contra
interesses especficos.                              a "tica naturalista", afirmando que os pontos
    O "instrumentalismo" de Dewey era um             de vista que tentavam definir o que era bom em
naturalismo que implicava dessencializar Aris-       termos de alguma "propriedade natural", tal
tteles e ignorar a epistemologia tradicional em     como a utilidade, cometem uma "falcia". Mes-
favor de uma franca admisso do mtodo cien-         mo que seja certo -- ele insistiu -- que algo 
tfico. Mas, embora Dewey (1859-1952) mos-           til, ainda podemos perguntar: "Mas  bom?"
trasse-se confortavelmente abstrato a respeito           Russell (1872-1970), um gigante da lgica
do que isso significava, ele no era "cientfico".   moderna, no se contentou em buscar solues
Ao contrrio, buscou "humanizar" a cincia e         para problemas na teoria lgica e na matemti-
trazer seus mtodos para as questes cotidianas,     ca. Em vez disso, ao empregar tcnicas geradas
incluindo uma poltica democrtica. Uma vez          no seu esforo de construir a matemtica a partir
314   filosofia


da lgica ("logicismo"), ele pde afirmar que          Esses filsofos estabeleceram o Weltans-
"todo problema filosfico, quando submetido       chauung para o "positivismo lgico", talvez o
anlise e  purificao necessrias, demonstra     movimento mais influente do sculo. Os Prin-
no ser realmente filosfico, de forma alguma,     cipia Mathematica (1910-11), de Russell e
ou ento ser, no sentido em que estamos usando     Whitehead, e o Tractatus Logico-Philosophi-
a palavra, lgico" (1941a).                        cus (1921), de Ludwig Wittgenstein, foram,
    Ele deveu a sua metafsica platnica inicial   porm, os recursos imediatos. Wittgenstein
a Moore. Mas, dada a noo dbia de Moore de       (1889-1951) parece ter seguido Hertz ao afir-
que percebemos "dados dos sentidos" que            mar que a linguagem precisava de um "modelo"
eram, presumivelmente, as superfcies das coi-     abrangente. Ele voltou-se, de acordo com isso,
sas, Russell foi forado a concluir que os obje-   para a obra de G. Frege e Russell. Mas o esforo
tos comuns eram inferncias a partir dos dados     de Wittgenstein parece ter se destinado a no
dos sentidos. Com o princpio de que "sempre       demonstrar que o discurso no-cientfico era
que possvel as construes lgicas devem          cognitivamente destitudo de sentido. No seu
substituir as entidades inferidas" (1914b), ele    ponto de vista,  precisamente aquilo a cujo
pde afirmar que objetos comuns, como nme-        respeito precisamos calar que constitui tudo que
ros, podiam tornar-se "construes lgicas".       realmente importa na vida! De qualquer manei-
Mas, ao mesmo tempo em que defendia o "ato-        ra, a filosofia se havia colocado contra a parede.
mismo lgico", ele admitiu que "fatos gerais"      Aliviados da responsabilidade de dizer o que
no podiam ser analisados como "fatos mole-        deveria ser, os filsofos voltaram-se para a "me-
culares" (Russell, 1918). Por exemplo, todos os    tatica". A Theory of Justice (1971), de John
cisnes so brancos no se "reduzia a" este cisne   Rawls, seria o primeiro tratado filosfico sig-
                                                   nificativo, dentro da corrente principal, sobre
 branco e aquele cisne  branco etc. Em 1948
                                                   tica normativa e filosofia poltica em possivel-
seu otimismo j havia desaparecido. Com toda
                                                   mente duas geraes.
a engenhosidade do mundo, o empirismo no
podia sustentar-se. A cincia no apenas exigia        A histria do positivismo mais recente j
"o princpio indutivo", que ele no conseguia      est um pouco batida, no apenas com respeito
encontrar meio de fundamentar, como precisa-       s frustraes do programa, mas tambm, hoje,
                                                   quanto ao esclarecimento sobre o que ele era.
va do "postulado de quase permanncia" --
                                                   Por exemplo, W.V.O. Quine, ele prprio pro-
"coisas".
                                                   fundamente envolvido no movimento e um de
     medida que a cincia se industrializava,     seus crticos mais atentos, afirmou que The
vrios cientistas fsicos do sculo XIX se tor-    Logical Structure of the World (1928), de Ru-
naram filsofos da cincia (ver FILOSOFIA DA       dolf Carnap, foi um esforo rigoroso, porm
CINCIA). Tinham em comum a rejeio  meta-       fracassado, de executar o programa de Russell
fsica e, como parte disso, insistiam em que a     de 1914, que visava explicar o mundo externo
cincia no visava explicar por que as coisas      como um "constructo lgico de dados dos sen-
acontecem de determinada maneira. Explica-         tidos". Carnap mais tarde afirmaria que a obra
o, se  que era possvel, significava deduo,   tinha um objetivo mais geral, ou seja, demons-
subsuno  lei. Havia, no entanto, algumas        trar a possibilidade de traduzir afirmaes cien-
diferenas importantes entre eles.                 tficas em um "sistema construcional" ontolo-
    G.R. Kirchhoff (1874), Ernst Mach (1886)       gicamente neutro, no qual a linguagem fenome-
e Karl Pearson (1892) ofereceram uma verso        nalista no era a privilegiada. Nesse ponto de
fenomenalista e descritivista da cincia. Henri    vista, Carnap j estava comprometido com a
Poincar (1902) e Pierre Duhem (1906) insis-       idia de estruturas lingsticas pragmaticamen-
tiram numa posio mais "convencionalista",        te justificadas, com a verdade definida relativa-
afirmando que leis e teorias eram definies       mente a estas. Isso viria a se tornar um tema da
disfaradas. Finalmente, Heinrich Hertz            filosofia analtica posterior, como, por exem-
(1894), aluno de um pensador de inclinao         plo, na obra de Donald Davidson.
mais realista, Herman Helmholtz, forneceu              A "reduo" fenomenalista foi um tema
uma resposta neokantiana na qual as teorias        principal do influente Language, Truth and Lo-
eram "representaes" do mundo na forma de         gic (1936), de A.J. Ayer, cuja formulao do
modelos matemticos (Bilder).                      famoso "princpio da verificabilidade" in-
                                                                                      filosofia   315


troduziu-o a um nmero incontvel de leitores.       tericos fossem compreendidos  maneira dos
Em seus termos, o significado de uma proposi-        positivistas, no poderiam desempenhar o pa-
o  dado pelo seu mtodo de verificao.           pel que se esperava que desempenhassem. Han-
    Esse princpio teve problemas instantanea-       son (1950) afirmou que era impossvel estabe-
mente. Assim, se no era uma tautologia nem          lecer a distino entre termos na linguagem de
uma generalizao emprica verificvel, qual         observao e na linguagem terica. Seria pos-
era ento o seu estatuto? Em 1936, pelo menos,       svel continuar, mas talvez tenha sido Structure
a verificabilidade tinha se transformado em          of Scientific Revolutions (1962), de T.S. Kuhn,
"confirmabilidade" e j no havia esperana          que levou essas questes ao extremo. A con-
alguma para a reduo fenomenalista (Carnap,         cluso principal foi que, se Kuhn estivesse no
1936). Assumindo um realismo ingnuo, o pro-         mnimo aproximadamente correto, a cincia
blema tornou-se o estatuto dos termos tericos.      efetiva no se conformava, em nenhum sentido,
Estes eram dotados de significado parcial por         "reconstruo" que era promovida pela filo-
meio de "sentenas de reduo"; por exemplo,         sofia empirista da cincia.
"caso desafiado, se algum est apreensivo, fica         Deixando de lado autores mais antigos e
irrequieto".  clara a relao com "definio        marginalizados, como Cassirer (1923), White-
operacional" e "comportamentalismo". Mas,            head (1925) e Bachelard (1934), surgiram duas
sem receber muita ateno por parte dos cien-        alternativas para o "ponto de vista padro", a
tistas sociais, cuja afeio por essas idias no    saber, o "anarquismo metodolgico" de Paul
se deixava perturbar com facilidade, logo ficou      Feyerabend (1971) e o "realismo" de Rom Har-
claro para Carnap que "sentenas de reduo"         r (1970) e outros. Para Feyerabend, Kuhn era
no seriam suficientes. Em 1956 ele havia pas-       insuficientemente radical; para Harr, uma vez
sado para "regras de correspondncia", liber-        eliminado o "mito do dedutivismo", seria pos-
tando-se consideravelmente do apoio no "em-          svel entender a prtica cientfica de formas
prico" (Carnap, 1956).                              despercebidas pelas filosofias anteriores.
    Houve tambm o problema persistente de               O empirismo lgico foi uma corrente na
uma "lgica de confirmao", o esqueleto no          postura predominantemente "analtica" da filo-
armrio do empirismo lgico. Carnap e C.G.           sofia anglo-americana. A outra, com Moore ao
Hempel reconheceram que o que se precisava           fundo e o Wittgenstein tardio no primeiro plano,
era de uma lgica indutiva que, como os Prin-        foi a "anlise da linguagem ordinria" (ver FI-
cipia, nos permitisse discriminar entre progns-     LOSOFIA DA LINGUAGEM). Conseguir acompa-
ticos "vlidos" e "sem validade". Outros foram       nhar o Wittgenstein das Philosophical Investi-
menos confiantes, incluindo Karl Popper              gations (1953) no  fcil. Mas o slogan "o
(1934). Este mordeu a isca humeana e insistiu        significado  o uso" rapidamente passou a ca-
na "falsificabilidade", baseado na regra deduti-     racterizar anlises que, at mesmo para a velha-
va do modus tollens. "Conjecturas arrojadas"         guarda wittgensteiniana, pareciam ser exerc-
so a essncia da cincia, conjecturas que so       cios aos quais faltava conseqncia filosfica,
em seguida testadas tentando-se falsific-las.       at mesmo conseqncias do tipo "teraputi-
De acordo com isso, a no-falsificabilidade de-      co", antimetafsico, que presumivelmente mo-
finiria a no-cincia. Mas, conforme j obser-       tivara a obra tardia de Wittgenstein.
vado por Duhem, ficou muito pouco claro, dado            Dois dos mais conhecidos analistas da "lin-
o carter holstico das teorias, se a falsificao   guagem ordinria" foram os filsofos de Ox-
foi possvel em algum momento.                       ford Gilbert Ryle (1900-76) e J.J. Austin (1911-
    Por volta dos anos 50 a crtica interna j       60). Ryle (1949) analisou os "conceitos men-
havia corrodo todos os pilares principais do        tais" e concluiu que a "mente" no era um
positivismo. Goodman (1947) demonstrou que           "fantasma na mquina". Ryle, que deu incio 
nenhuma anlise extensional podia enfrentar          "filosofia da mente", estava, no entanto, prxi-
satisfatoriamente os problemas intimamente re-       mo a Carnap (e a B.F. Skinner!) ao sustentar que
lacionados de induo, confirmao e anlise         os conceitos mentais eram mais bem analisados
da lei cientfica; Quine (1951) demonstrou que       de modo disposicional, como proposies hipo-
tanto a verificabilidade quanto a distino ana-     tticas que fazem referncia ao comportamen-
ltica/sinttica no podiam ser sustentadas;         to. Austin juntou-se ao ataque ao fenomenalis-
Hempel (1958) reconheceu que, se os termos           mo (1962) e identificou (1962) uma diferena
316   filosofia


crtica entre "enunciados preformticos", por        exemplo, a de Georg Gadamer (1960). (Ver
exemplo, "eu os declaro marido e mulher", e          HERMENUTICA.)
"enunciado de constatao", como "hoje                  Ao mesmo tempo em que Hitler atraa Hei-
segunda-feira". Somente este ltimo tem con-         degger, tambm espantava incontveis filso-
dies de verdade. A anlise "discurso-ao" de      fos dignos de nota para a Inglaterra e a Amrica
Austin levou a filosofia analtica a um repensar     do Norte, entre eles membros da ESCOLA DE
da relevncia do social.                             FRANKFURT. Herbert Marcuse, Theodor Adorno
    Mas precisamos voltar aqui a uma resposta        e Max Horkheimer tentaram uma reviso do
totalmente diversa ao amadurecimento da cin-        projeto de Iluminismo de Hegel/Marx, de en-
cia. Edmund Husserl (1859-1938), como Frege,         contrar razo na histria. Se a classe operria
Russell, Peirce e Dewey, considerava a lgica        no proporcionava uma perspectiva privilegia-
como uma teoria da cincia, mas que precisava        da, ento a razo estava "sem a sua condio de
ser considerada "transcendentalmente". A lgi-       possibilidade". Jrgen Habermas continua a ser
ca deveria fornecer uma elucidao a priori          uma voz poderosa nesse esforo.
sobre as condies de possibilidades da cincia          De fato, o "acontecimento filosfico decisi-
(Husserl, 1900). Com essa finalidade, desen-         vo" na Frana do ps-guerra foi a redescoberta
volveu uma FENOMENOLOGIA "sem pressupos-             da DIALTICA de Hegel. Isso deveu muito a
tos". A idia era comear com "a situao cog-       Alexander Kojve e Jean Hypollite. Juntos,
nitiva total, no analisada", conforme viven-        ensinaram a toda uma srie de intelectuais fran-
ciada, e ento, atravs de descrio rigorosa,       ceses, incluindo Raymond Aron, Maurice Mer-
"explicar a igualdade de significados e sua re-      leau-Ponty, Jacques Lacan, Michel Foucault,
ferncia a uma objetividade, seja real ou fictcia   Gilles Deleuze, Louis Althusser e Jacques Der-
em seu carter". Dessa maneira, questes sobre       rida. Conforme informou Simone de Beauvoir,
a existncia de objetos comuns, como sobre           falando tanto por si mesma quanto por Sartre,
espao e tempo, so postas "entre parnteses",
                                                     "ns havamos descoberto a realidade e o peso
de forma que o mtodo  ostensivamente neutro
                                                     da histria".
entre realismo e idealismo. A objetividade, en-
to, "no  constituda nos contedos `prim-            No primeiro romance de Sartre, "a nusea 
rios' (ou seja, contedos dos sentidos), mas sim     a existncia revelando a si mesma" (1938). O
nos caracteres de apreenso significativa e nas      ser e o nada (1943) desenvolveu um existen-
leis que pertencem  essncia desses carac-          cialismo radical que se concentrava na liber-
teres". Mas Husserl continuou, afirmando que         dade, mas que naufragou "no rochedo do soli-
os objetos "s podem ser `no' sistema de co-         psismo". Em 1947 Sarte j havia confrontado o
nhecimento". Isso, claro,  idealismo.               marxismo e o stalinismo (Sartre, 1947). O resul-
    As filosofias da "existncia" de Martin Hei-     tado, a Crtica da razo dialtica, concluda em
degger (1889-1976) e Jean-Paul Sartre (1905-         1960, foi uma assimilao que recebeu crticas
80) (ver EXISTENCIALISMO) devem muito  feno-        tanto dos "estruturalistas", incluindo Claude
menologia, mas no apenas a ela. Kierkegaard         Lvi-Strauss (1962), quanto de colegas ntimos,
(1813-55) e Nietzsche (1844-1900), cada qual         como Albert Camus (1951) e Maurice Merleau-
reagindo a Hegel, viam a razo como algo que         Ponty (1955), que nos deram a expresso MAR-
ameaava engolir a humanidade. O tema cen-           XISMO OCIDENTAL.
tral de Heidegger tornou-se "o estranhamento             Como Herbert Marcuse, Franois Lefbvre
do homem em relao ao Ser" (1927). Ele bus-         e G. Della Volpe, Sartre enfatizou os textos
cou, ento, descrever sem pressupostos o que        recentemente "descobertos" do jovem Marx.
a existncia humana. Tentando solapar a subje-       Para os "estruturalistas", isso reintroduzia a
tividade cartesiana, o Dasein  o "campo" da         metafsica, a bte noire da filosofia do sculo
existncia humana, o nome para pessoas em            XX. Assim, Lvi-Strauss defendeu um "kantis-
relao a outras e seu ambiente. Para Heidegger,     mo sem objeto" e Louis Althusser (1965), em-
a verdade no diz respeito a proposies, mas,       bora comprometido com uma forma vigorosa
seguindo a etimologia grega, a-lethea, ou des-       de realismo, defendeu a histria sem agentes.
velamento, diz respeito a "compreender", numa        No seu ponto de vista, Marx havia efetuado um
condio primordial da existncia. Esse  um         "corte epistemolgico", rejeitando seus antigos
tema de abordagens "hermenuticas", por              "humanismo" e "historicismo". Mas Althusser
                                                                                  filosofia da cincia   317


partilhava com Sartre a rejeio do "diamat" e            geral (tais como: ser que pelo menos algumas
a busca de redefinir a filosofia para o MARXISMO.         entidades tericas seriam reais?), de grupos
    A reao ao estruturalismo, o "ps-estrutu-           particulares de cincias (tais como, os objetos
ralismo", caracteriza-se por um anti-realismo             sociais podem ser estudados da mesma forma
ontolgico e por uma ansiedade nietzschiana               que os objetos naturais? -- o problema do
quanto  vontade de poder. Embora Foucault                NATURALISMO) e de cincias isoladas (tais como:
(1966) rejeitasse a idia de Sartre de que a              quais so as implicaes da teoria da relativi-
"totalizao" podia responder  crtica nietz-            dade para os nossos conceitos de espao e tem-
schiana do conhecimento objetivo, ele parecia             po?). A filosofia da cincia surgiu como dis-
admitir um tipo de crtica imanente, expondo,             ciplina distinta da Teoria do conhecimento (ver
atravs de "genealogias", compreenses alter-             CONHECIMENTO, TEORIA DO), de carter mais ge-
nativas de prticas atuais. Ao mesmo tempo em             ral, em meados do sculo XIX -- mais ou
que  improvvel que Derrida (1967) viesse a              menos na mesma poca em que diferentes cin-
aprov-lo, epgonos do "desconstrucionismo"               cias, com nomes como "fsica", "qumica" e
tenderam a reduzir a filosofia a gneros retri-          "biologia", estavam se "profissionalizando".
cos, obliterando, no caminho, a prpria idia de          As principais figuras de sua primeira gerao
verdade. Mas o "ps-modernismo" (ver MODER-               foram Auguste Comte, inventor do rtulo "po-
NISMO E PS-MODERNISMO)  possivelmente um                sitivismo" (bem como de "sociologia"), o ultra-
fenmeno demasiado difuso para ser carac-                 empirista J.S. Mill (o qual achava que at as
terizado em breves linhas.                                proposies matemticas eram empricas) e o
    A filosofia, ento, encontra-se numa condi-           historiador kantiano da cincia William Whe-
o bastante diversa daquela em que estava                well. Boa parte da histria posterior da filosofia
quando o sculo comeou. No tanto pelo fato              da cincia pode ser encarada como uma con-
de o debate idealismo/realismo ter desapareci-            tinuao da controvrsia entre Mill e Comte,
do. Trata-se, antes, de seus termos terem mu-             por um lado, e Whewell, por outro, com hege-
dado. Possivelmente to importante quanto is-             monia dos primeiros, at cerca de 1970. A viso
so, a incapacidade dos empirismos antimetaf-             predominante da cincia baseava-se firmemen-
sicos de extrair sentido da cincia, e menos              te no empirismo humeano, que tinha sua ep-
ainda do nosso mundo, tem forado a filosofia             tome na alegao de E. Mach (1844, p.192) de
recente a rejeitar tanto as solues fceis quanto        que as leis naturais no passavam da "reprodu-
suas aspiraes "fundacionistas". O resultado             o mimtica de fatos no pensamento, cujo
ainda no ficou claro.                                    propsito  substituir e poupar o incmodo da
                                                          experincia nova". Assim, o final do sculo
Leitura sugerida: Ayer, A. J. org. 1959: Logical Posi-
tivism  Barrett, William 1958 (1962): Irrational Man:     XIX assistiu a triunfos to espetaculares para o
a Study in Existential Philosophy  Callinicos, A. 1990:   campo empirista quanto a construo, por Ben-
Against Postmodernism  Caton, Charles, E., org.           jamin Brodie, de uma qumica sem tomos, que
1963: Philosophy and Ordinary Language  Farber,           foram amplamente encarados como sendo, nas
Marvin 1943 (1967): Foundation of Phenomenology           palavras de Alexander Bain, meras "fices
 Flower, Elizabeth e Murphey, Murray, G. 1987: A
                                                          representativas".
History of Philosophy in America, vol.2  Passmore,
John 1957: A Hundred Years of Philosophy  Poster,             O POSITIVISMO lgico do crculo de Viena dos
Mark 1975: Existential Marxism in Postwar France:         anos 20 e 30 uniu-se ao reducionismo e ao
from Sartre to Althusser  Suppe, Frederick, org. 1974:    empirismo epistemolgico de Mach, Pearson e
The Structure of Scientific Theories  Tiles, J.E. 1988:   Duhem, com as inovaes lgicas de Frege,
Dewey  Tiles, Mary 1991: Mathematics and the Image        Russell e Wittgenstein, para formar a espinha
of Reason  Toulmin, S. e Janik, A. 1973: Wittgenstein's   dorsal da viso predominante da cincia em
Vienna  Urmson, J.O. 1956: Philosophical Analysis:
Its Development Between the Two World Wars.
                                                          meados do sculo. Seus membros originais fo-
                                                          ram M. Schlick, R. Carnap, O. Neurath, F.
                                   PETER T. MANICAS
                                                          Waismann e H. Reichenbach. C.G. Hempel, E.
filosofia analtica Ver        FILOSOFIA; FILOSOFIA
                                                          Nagel e A.J. Ayer estavam intelectualmente
DA LINGUAGEM.
                                                          prximos. Ludwig Wittgenstein e Karl Popper
                                                          circulavam na periferia. O formalismo e o lin-
filosofia da cincia Este ramo de investiga-              gisticismo eram caractersticas do crculo. Es-
o abrange questes a respeito de cincia em             te partilhava as idiossincrasias do lingisticis-
318   filosofia da cincia


mo com o convencionalismo, que crescera na          de diferena, isso pressupe que sejam explica-
Frana sob a influncia de H. Poincar e E. Le      es alternativas do mesmo mundo; e se uma
Roy, na primeira dcada do sculo, e que viria      teoria pode explicar fenmenos mais sig-
a ser radicalmente historicizado por G. Ba-         nificativos em termos de suas descries do que
chelard e G. Canguilhem a partir dos anos 30.       a outra o pode em termos das suas, ento existe
Contra a corrente, o legado de Whewell foi          um critrio racional para a escolha da teoria e,
assumido por N.R. Campbell, nos anos 20,            a fortiori, um possvel sentido para a idia de
defendendo a necessidade de modelos na cin-        desenvolvimento cientfico ao longo do tempo.
cia. Fora da corrente principal estavam as cos-         A teoria dedutivista da estrutura cientfica
mologias de inspirao biolgica produzidas         inicialmente sofreu ataques de Michael Scri-
por H.L. Bergson, S. Alexander e A.N. White-        ven, Mary Hesse e Rom Harr, pela falta de
head, mais ou menos na mesma poca; e o             suficincia dos critrios humeanos para a cau-
materialismo dialtico que estava sendo sis-        salidade e a lei, dos critrios hempelianos para
tematicamente codificado e disseminado na           a explicao e dos critrios nagelianos para a
Unio Sovitica sob Stalin.                         reduo de uma cincia a outra mais bsica. Sua
    A viso positivista da cincia girava em        crtica foi ento generalizada por Roy Bhaskar
torno do eixo de uma teoria monista do desen-       para incorporar tambm a falta de necessidade
volvimento cientfico e de uma teoria dedutivis-    para eles. Bhaskar afirmou que o positivismo
ta da estrutura cientfica. A primeira sofreu       no podia confirmar a necessidade ou a univer-
ataques de trs fontes principais. Primeiro, de     salidade -- e, em particular, a transfactualidade
Popper e de (ex-)popperianos como I. Lakatos        (tanto em sistemas abertos quanto fechados) --
e P. Feyerabend. Estes afirmavam que era a          das leis. Nem uma ontologia -- no que carac-
falsificabilidade, e no a verificabilidade, o      terizou como a dimenso intransitiva da filoso-
marco da cincia, e que era precisamente nos        fia da cincia -- que no identificasse os dom-
avanos revolucionrios como os associados a        nios do real, do efetivo e do emprico.  de certa
Galileu ou Einstein que residia a sua relevncia    relevncia que o ataque ao dedutivismo tenha
epistemolgica. Segundo, de Kuhn e outros           sido tanto iniciado quanto levado a cabo por
historiadores (como A. Koyr) e socilogos          filsofos com forte interesse nas cincias huma-
(como L. Fleck) da cincia. Eles concederam         nas, onde o que um autor chamou de "ortodoxia
escrupulosa ateno aos processos sociais reais     da explicao da lei" (Outhwaite, 1987b) nunca
implcitos na reproduo e transformao do         foi sequer remotamente plausvel (Donagan,
conhecimento cientfico -- no que viria a ser       1966).
chamado de dimenso transitiva, epistemolgi-           A trava de segurana do dedutivismo era a
ca ou histrico-sociolgica da filosofia da cin-   teoria da explicao de Popper-Hempel, segun-
cia. Finalmente, de wittgensteinianos, como         do a qual a explicao seguia por meio de
N.R. Hanson, S.E. Toulmin e W. Sellars, que se      subsuno dedutiva, sob leis universais (in-
agarraram ao carter no-atomista, dependente       terpretadas como regularidades empricas).
de teorias e mutvel dos "fatos" em cincia.        Destacou-se, porm, que  tpico da subsuno
    Um problema que surgiu nos primeiros tem-       dedutiva no explicar, mas meramente genera-
pos do debate sobre a transformao cientfica      lizar o problema (por exemplo, de "por que este
dizia respeito  possibilidade e, na verdade,              /                            /
                                                    x faz o" para "por que todo x faz o"). O que se
segundo gente como Kuhn e Feyerabend, ao            exige para uma explicao genuna , conforme
carter efetivo da variao de significado, bem     insistiram Whewell e Campbell, a introduo
como da inconsistncia da mudana cientfica.       de novos conceitos que no estivessem contidos
Kuhn e Feyerabend apontaram que podia vir a         no explanandum, modelos descrevendo meca-
suceder que no houvesse nenhum sentido co-         nismos geradores plausveis e coisas do gnero.
mum entre uma teoria e a sua sucessora. Isso        Mas os novos realistas -- crticos ou transcen-
parecia tornar problemtica a idia de uma es-      dentais -- romperam com o kantismo de Cam-
colha racional entre tais teorias "incomensur-     pbell, admitindo que, sob certas condies, es-
veis", e at estimulava um ceticismo (super-        ses conceitos ou modelos poderiam indicar n-
idealista) quanto  existncia de um mundo          veis novos e mais profundos de realidade; e a
independente de teoria. No entanto, se a relao    cincia era encarada como algo que seguia por
ente as teorias  mais de conflito que meramente    meio de um processo de movimento contnuo e
                                                                           filosofia da cincia social   319


reiterado, partindo dos fenmenos manifestos,            com suas metateorias ou filosofias do que as
atravs de modelos e experincias criativos, at         cincias naturais -- quer dizer, recorrendo  til
a identificao de suas causas geradoras, que se         distino de G. Bachelard, a filosofia diurna dos
tornavam ento os novos fenmenos. Alm do               cientistas esteve, nesse ponto, mais impregnada
mais, afirmou-se que as leis que a cincia iden-         da filosofia noturna produzida por seus filso-
tificou sob condies experimentalmente fe-              fos. Alm disso, cada cincia social e cada
chadas continuavam a valer (porm transfac-              escola dentro dela tem tido problemas ontol-
tualmente, no como regularidades empricas)             gicos, epistemolgicos, metodolgicos e con-
de modo extra-experimental, fornecendo assim             ceituais que lhe so peculiares. Mas um impor-
uma base racional para um trabalho prtico e             tante contraste pode ser traado entre um posi-
aplicado, seja explicatrio, diagnstico, explo-         tivismo naturalista, forte em cincia econmi-
ratrio etc.                                             ca, psicologia e sociologia nos moldes de Emile
    Nos anos 80 I. Hacking, A. Chalmers e                Durkheim e Talcott Parsons, e proeminente nos
outros aduziram novos argumentos em favor do             pases anglfonos, e a hermenutica antinatura-
realismo cientfico. Mas houve tambm um                 lista, forte nas cincias sociais e na sociologia
parcial ressurgimento do positivismo no "em-             de orientao mais humanista, na veia de Max
pirismo construtivo" de B. van Fraasen, que              Weber e proeminente no mundo germnico.
mais uma vez restringiria a imputao de reali-          Esse contraste supera a linha divisria marxis-
dade aos observveis, e no "atualismo" de N.             ta/no-marxista. Assim, o tradicional materia-
Cartwright, no qual as leis da fsica, na medida         lismo dialtico da espcie de Friedrich Engels,
em que no so empiricamente verdadeiras,                G. Della Volpe e Louis Althusser pode ser co-
literalmente jazem. Ao mesmo tempo, realistas            locado de um lado, Gyrgy Lukcs, Jean-Paul
crticos comearam a explorar a questo -- no            Sartre e a ESCOLA DE FRANKFURT do outro. S em
que foi chamado de "dimenso metacrtica" --             data relativamente recente ganhou destaque
das condies da possibilidade tanto do positi-          uma terceira alternativa, um naturalismo crtico
vismo quanto do REALISMO (por exemplo, a                 ou limitado, baseado em uma descrio realista
identificao emprica, permitida pela tecnolo-          no-positivista da cincia. Este verbete vai in-
gia do sculo XX, das novas entidades e estratos         teressar-se principalmente por algumas das
identificados por palavras como "tomos",                questes que tm surgido na filosofia das cin-
"eltrons", "radiao estelar", "genes"). Dessa          cias sociais no sculo XX.
forma, eles estabeleceram um elo com o "pro-
grama forte na sociologia do conhecimento"               Explicao e previso
associada a Barry Barnes, David Bloor e a                    O modelo positivista cannico de EXPLICA-
escola de Edimburgo. A partir daqui, o sculo            O sustenta que explicar um acontecimento
parece pronto a se encerrar, na filosofia da             etc.,  deduzi-lo de um conjunto de leis univer-
cincia, com uma nota pluralista e ecumnica,            sais somado a condies iniciais. Infelizmente,
ficando (plausivelmente) as grandes questes             exemplos de explicaes em conformidade
do realismo e do naturalismo resolvidas e dan-           com esse modelo esto completamente ausen-
do-se talvez mais ateno aos problemas meta-            tes nas cincias sociais. Isso fornece o mais
crticos, metatericos e conceituais colocados           forte argumento negativo para a hermenutica.
por cincias em particular.                              O modelo dedutivista postula uma simetria en-
Leitura sugerida: Bhaskar, Roy 1975 (1978): A Rea-       tre explicao e PREVISO, mas a cincia social,
list Theory of Science, 2ed.  Chalmers, Alan F. 1982:   funcionando como deve ser em sistemas aber-
Wha t is this T hing called "Science"?, 2ed.            tos, tem uma ficha preditiva notoriamente ruim.
 Feyerabend, P. 1971: Against Method  Hacking, I.        E, por estranho que parea, foi um dos prin-
1983: Representing and Intervening  Harr, R. e Mad-     cipais expoentes do modelo dedutivo-nomol-
den, E. 1975: Causal Powers  Kuhn, Thomas S. 1962
(1970): The Structure of Scientific Revolution, 2ed.
                                                         gico de explicao, Karl Popper, quem se mos-
 Nagel, E. 1961: The Structure of Science  Popper,
                                                         trou mais virulento em seu ataque ao que cha-
Karl 1959: Conjectures and Refutations.                  mou de historicismo, isto , a elaborao de
                                      ROY BHASKAR        profecias histricas incondicionais.  evidente
                                                         que a falsidade disso no quer dizer que as
filosofia da cincia social As cincias so-              cincias sociais no possam fazer previses
ciais sempre existiram em relao mais ntima            condicionais, sujeitas a uma clusula ceteris
320   filosofia da cincia social


paribus. Mas a ausncia de sistemas fechados        em que a Verstehen deve ser o ponto de partida
significa que situaes de teste decisivas so,     para a investigao social.
em princpio, impossveis, pelo que as cincias
sociais devem confiar em critrios exclusiva-       Razes e causas
mente explicativos para confirmao e refuta-           A posio hermenutica  freqentemente
o. Quanto  explicao, os novos critrios        reforada pelo argumento de que as cincias
realistas postulam uma distino entre explica-     humanas esto interessadas nas razes do com-
es tericas e aplicadas. As primeiras proce-      portamento dos agentes e de que tais razes no
dem por descrio de caractersticas significan-    podem ser analisadas como causas. Com efeito,
tes, retroduo para causas possveis, elimina-     em primeiro lugar, as razes no so logicamen-
o de alternativas e identificao dos mecanis-    te independentes do comportamento que ex-
mos geradores ou da estrutura causal em ao        plicam. Alm disso, em segundo lugar, operam
(a qual se torna agora a nova explicao a ser      em um diferente nvel de linguagem (F. Wais-
explicada) (DREI); as segundas, por resoluo       mann) ou pertencem a um jogo de linguagem
de um evento complexo (etc.) em seus com-           (Sprachspiel ) (Wittgenstein) que  diferente
ponentes, redescrio terica desses compo-         das causas. Mas os eventos naturais podem, do
nentes, retrodico de possveis antecedentes e     mesmo modo, ser redescritos em funo de suas
eliminao de causas alternativas (RRRE).           causas (por exemplo, toast as burnt = torrado
                                                    como queimado). Alm disso, a menos que as
Entendimento                                        razes sejam causalmente eficazes na produo
    O mais forte argumento positivo em favor        de uma e no de outra seqncia de movimentos
da hermenutica  que, sendo os fenmenos           corporais, sons ou sinais, fica difcil ver como
sociais singularmente significativos ou gover-      pode haver bases para se preferir uma explica-
nados por regras, a cincia social deve estar       o da razo a uma outra e, na verdade, toda a
precisamente interessada na elucidao do sig-      prtica de dar explicaes da razo deve, final-
nificado do seu objeto de estudo -- ou por          mente, acabar parecendo desprovida de fun-
imerso nele, como na inspirada explicao de       damento lgico (ver tambm MATERIALISMO).
Wittegenstein por P. Winch, ou pela dialgica
fuso de horizontes ou estruturas de significa-     Estrutura e mediao
do, como na explicao heideggeriana de H.G.            Tanto o positivismo como a hermenutica
Gadamer. Pode-se objetar a isso que a con-          foram ligados ao individualismo e coletivismo
ceitualidade da vida social  suscetvel de ser     ou ao holismo; e os positivistas, pelo menos,
reconhecida sem se admitir:                         acentuaram ou a mediao humana ou a es-
    1. que tais conceitualizaes esgotam o ob-     trutura social. Mas os novos realistas apontam
       jeto de estudo da cincia social (con-       um paradigma relacional para, sobretudo, a so-
       siderem-se os estados sociais de fome,       ciologia; e uma resoluo da antinomia de es-
       guerra ou priso, ou os psicolgicos de      trutura e mediao na "teoria da estruturao"
       ira, coragem ou isolamento);                 (Anthony Giddens) ou no "modelo transfor-
    2. que tais conceitualizaes so incorrig-    macional de atividade social" (Roy Bhaskar).
       veis (pelo contrrio, sabemos desde          De acordo com isso, a estrutura social  a con-
       Marx e Freud que elas podem mascarar,        dio onipresente e o resultado continuamente
       reprimir, mistificar, racionalizar, obscu-   reproduzido da mediao humana intencional.
       recer ou, de alguma outra forma, oblite-     Assim, as pessoas no se casam para reproduzir
       rar a natureza das atividades em que es-     a famlia nuclear nem trabalham para sustentar
       to implicadas); ou                          a economia capitalista. No entanto  essa a
    3. que o reconhecimento da conceitualida-       conseqncia no-premeditada (e o resultado
       de do ser social exclui a sua compreenso    inexorvel) da atividade delas, assim como
       cientfica (pelo menos, uma vez que se       tambm  uma condio necessria dessa ativi-
       abandone a restritiva ontologia empirista    dade. Relacionada com isso est a controvrsia
       de esse est percipi).                        acerca de tipos ideais. Para os realistas crticos,
    O paradigma hermenutico  coerente, po-        a base da abstrao reside na estratificao real
rm, com a metateoria realista da cincia. Alm     (e na profundidade ontolgica) da natureza e da
disso, os realistas crticos insistem tipicamente   sociedade. No so classificaes subjetivas de
                                                                         filosofia da linguagem    321


uma realidade emprica no-diferenciada, mas        qumica (suas concepes clssicas). Mais re-
tentativas de apreender (por exemplo, em defi-      centemente, porm, vrios autores recomen-
nies reais de formas de vida social j enten-     daram com insistncia diferentes disciplinas
didas de modo pr-cientfico) precisamente os       para comparao -- por exemplo, biologia (Ted
mecanismos geradores e as estruturas causais        Benton), teatro (Rom Harr e P.F. Secord, dan-
que explicam, em todas as suas complexas e          do seguimento  obra de Erving Goffman e
mltiplas determinaes, os fenmenos con-          Harold Garfinkel). Quando o sculo se avizinha
cretos da histria humana. Estreitamente ligado     de seu trmino, parece haver mais que o sufi-
a isso est uma reavaliao de Marx como, pelo      ciente para manter os cientistas sociais falando.
menos em O capital, realista cientfico -- ao
                                                    Leitura sugerida: Benton, T. 1977: Philosophical
contrrio das interpretaes marxistas e no-       Foundations of the Three Sociologies  Bhaskar, Roy
marxistas existentes. Tambm na sua esteira         1979 (1989): The Possibility of Naturalism, 2ed.
ocorre uma reavaliao de outras figuras maio-       Giddens, A. 1984: The Constitution of Society  Ha-
res nas cincias sociais (como Durkheim e We-       bermas, Jrgen 1968 (1971): Knowledge and Human
ber), na medida em que combinam aspectos de         Interests  Harr, R. 1979: Social Being  Keat, R. e
um mtodo realista e de um ou outro mtodo e        Urry, J. 1981: Social Theory as Science  Manicas,
ontologia no-realistas.                            Peter 1987: A History and Philosophy of the Social
                                                    Sciences  Outhwaite, William 1987: New Philoso-
                                                    phies of Social Science  Sayer, D. 1979: Marx's Me-
Fatos e valores                                     thod.
    O positivismo sustenta a existncia de um                                           ROY BHASKAR
abismo intransponvel entre o fato e os enun-
ciados de valor. A impregnao de valor do          filosofia da histria Ver        H ISTRIA ; H IS-
discurso factual social-cientfico parece fato      TORICISMO; TELEOLOGIA.
patente. Est claramente vinculado ao carter
impregnado de valor da realidade social que as      filosofia da linguagem Esta  uma expres-
cincias sociais esto procurando descrever e       so um tanto enganosa, dando a entender que
explicar. (Marx e Engels estavam simplesmente       se trata de uma filosofia lingstica. Na ver-
errados ao no ver isso.) De modo menos bvio,      dade, a expresso  usada na maioria das vezes,
Bhaskar apontou que a cincia social tem im-        e melhor, com relao a um certo movimento
plicaes de valor. Na medida em que podemos        filosfico que se cristalizou em Cambridge sob
explicar essa necessidade de conscincia sis-       a liderana de Ludwig Wittgenstein (1889-
tematicamente falsa (comunicao distorcida         1951) durante os anos imediatamente anteriores
etc.) acerca dos fenmenos sociais, ento pode-      Segunda Guerra Mundial. Esse movimento
mos passar, ceteris paribus, s avaliaes nega-    veio a dominar o cenrio filosfico da Inglaterra
tivas dos objetos que tornam essa conscincia       e, em menor extenso, outros pases de lngua
necessria e s avaliaes positivas das aes      inglesa durante as dcadas imediatamente pos-
racionalmente planejadas para transform-las.       teriores  guerra. Embora tendo origem em
A "crtica de economia poltica" de Marx ,         Cambridge, seu quartel-general depois da guer-
neste ponto, um bvio paradigma. Essa concep-       ra localizou-se em Oxford, sob a liderana de
o de cincia social como crtica explicativa e,   Gilbert Ryle (1900-76) e J.L. Austin (1911-60).
por conseguinte, emancipadora est ligada aos       Era s vezes chamada de "filosofia de Oxford".
primeiros trabalhos de Jrgen Habermas sobre            A idia central do movimento no era a de
o "interesse cognitivo emancipador", bem co-        que a filosofia poderia iluminar a linguagem,
mo ao seu mais recente projeto de uma cincia       mas sim que a linguagem poderia iluminar a
reconstrutiva necessariamente (cf. Outhwaite,       filosofia. Os problemas filosficos eram tidos
1987) realista de competncia comunicativa.         como sendo, num sentido importante, esprios:
                                                    surgiam, no porque houvesse realmente um
Naturalismo                                         problema a resolver ou uma pergunta a respon-
    Os novos realistas postulam uma srie de        der, mas porque pessoas acometidas pela "per-
diferenas ontolgicas, epistemolgicas, rela-      plexidade filosfica" (expresso muito utiliza-
cionais e crticas entre cincias sociais e natu-   da) eram tomadas, sem perceb-lo de forma
rais (ver NATURALISMO). O pano de fundo natu-       clara ou consciente, por idias equivocadas a
ral para esse contraste tem sido a fsica e a       respeito da natureza da linguagem. Essas idias
322   filosofia da linguagem


equivocadas manifestavam-se para elas sob a         nova revelao.) Tais vises da linguagem no
forma de uma inquietao conceitual, a qual         negavam, evidentemente, que ela tambm 
levava os tomados por essa inquietao a fazer      usada para toda uma variedade de outros fins
perguntas caracteristicamente filosficas. Di-      sociais, tais como o ritual, mas eles descartavam
zia-se desse diagnstico que era aplicvel a toda   implicitamente esses papis, tratando-os como
a filosofia.                                        irrelevncias e excrescncias de menor monta,
    A tentativa de responder a perguntas filos-    que no modificavam a real essncia da lin-
ficas e, pior ainda, de tentar substanciar essas    guagem. Esse era o grande erro.
respostas era inerentemente desorientada. O             Os erros especficos eram, em certo sentido,
procedimento correto, de acordo com esse pon-       apenas exemplos concretos especiais do erro
to de vista, era descrever o costume lingstico    geral. Por exemplo, existe a interpretao err-
que comanda o uso das expresses cruciais           nea da avaliao como a atribuio de traos
relacionadas ao alegado "problema". Isso leva-      caractersticos, ou "disposicionais", como as-
ria a pessoa tomada pela perplexidade a com-        pectos diretamente observveis. (Dizer que al-
preender o real funcionamento das palavras          go  frgil significa dizer que est sujeito a se
relevantes e, a partir disso, a se libertar da      quebrar, e no que tenha alguma caracterstica
tentao de fazer, e de responder, a pergunta       perceptvel neste exato momento.)
espria. Foi essa receita para lidar com proble-        A hiptese subjacente  filosofia da lin-
mas filosficos que levou todos os que abraa-      guagem de Wittgenstein era a de que, sempre
ram tal posio  prtica de observaes deta-      que se formulam problemas ou teorias filosfi-
lhadas -- embora um tanto impressionistas --        cos, o que est realmente acontecendo  que o
do uso das palavras, acompanhadas da convic-        pensador no se deu conta dessa verdade geral
o de que esse  o nico mtodo adequado de        a respeito da diversidade de funo da lin-
fazer filosofia.                                    guagem e est tentando impor um modelo ho-
    O movimento garantiu uma influncia pos-        mogneo sobre o material lingstico que 
sante sobre a gerao mais jovem de filsofos,      inerentemente heterogneo. Sem esse pressu-
que entrou na profisso depois da guerra, in-       posto errneo, a questo no se colocaria. Por
fluncia que no sofreu nenhum desafio srio        exemplo, os tericos morais tentam assimilar o
at cerca de 1960. O movimento, na poca, no       discurso moral ao discurso descritivo ou cien-
se encarava como uma posio entre outras,          tfico; os que propem teorias sobre a mente no
mas sim como uma revelao definitiva, revo-        conseguem ver que o discurso com respeito a
gando todo pensamento anterior, e como o pi-       um desempenho inteligente se refere a uma
ce de toda a filosofia at ento existente. Seus    ampla variedade de capacidades, e no a uma
adeptos tinham de "curar" os rivais de seus         nica zona distinta e observvel; e assim por
auto-enganos tcitos em vez de discutir com         diante. Durante o auge do movimento, essa
eles como iguais. Tudo isso estava destinado a      hiptese era encarada como uma revelao de-
levar ou  eutansia final da filosofia ou ao       vidamente estabelecida; na prtica, era usada
nascimento de uma disciplina totalmente nova.       como uma definio.
    Quais eram os pressupostos errneos, com            Era uma parte inerente e central da posio
respeito  linguagem, que tiveram o poder de        "madura" de Wittgenstein que a teorizao, a
assolar a humanidade durante tanto tempo e, na      explicao e a justificao no tinham lugar na
verdade, de engendrar toda uma disciplina e         filosofia e deveriam ser substitudas pela des-
uma profisso cultas? O(s) erro(s) pode(m) ser      crio do costume lingstico. "Formas de vi-
dividido(s) em um grande erro genrico, por um      da", com o que ele parecia querer referir-se ao
lado, e erros especficos, por outro. O erro ge-    costume lingstico efetivo de comunidades
nrico era achar que a linguagem no faz seno      dotadas de um discurso concreto, estavam aci-
uma coisa, e esse nico papel ou funo  de        ma tanto da explicao quanto da justificao.
referncia ao mundo. As anteriores teorias em-      Essa estratgia, portanto, se autojustificava.
pricas da linguagem em geral davam isso como       Dessa maneira estranha, uma filosofia que ne-
certo, e em particular o Tractatus Logico-Phili-    gava o papel tradicional da justificao ou da
sophicus (1921), obra juvenil do prprio Witt-      validao para a filosofia acabava praticando-a,
genstein, se baseara nesse pressuposto. (Foi a      ela prpria, de uma forma oblqua. E, de manei-
derrubada desse pressuposto que fez surgir a        ra curiosamente nova, indiscriminada e genera-
                                                                        fordismo e ps-fordismo       323


lizada, foi o que ela fez: todos os estilos de       diagnstico e o auge terminal de toda a filosofia,
pensamento atualmente em existncia eram v-         mas como uma filosofia entre outras, porm
lidos. Apenas a tentativa de buscar um ponto de      melhor e mais generosa em seu endosso de
vista externo e de justificar, ou condenar, a        todas as culturas. Neste tipo de interpretao, o
prtica existente no era vlida. Essa filosofia     que se valoriza em Wittgenstein no  tanto a
ignora o fato de que a busca transcendente do        sua revogao da filosofia anterior (como uma
costume de qualquer comunidade dada  ela            presumida incompreenso da linguagem), mas
prpria um aspecto importante e difundido da         sua defesa do igual valor, dignidade e autono-
histria intelectual humana: todos os tipos de       mia de todas as vises culturais. Sob essa forma,
platonismo, a religio transcendente, a Refor-       Wittgenstein continua a exercer grande influn-
ma, a Ilustrao, a tradio filosfica cartesiana   cia em campos mais amplos, tais como os es-
buscando um fundamento para o conhecimen-            tudos literrios ou a antropologia cultural.
to, tudo isso o exemplifica. O relativismo in-
                                                     Leitura sugerida: Austin, J.L. 1962: Sense and Sen-
discriminado e o imanentismo lingstico de          sibilia: How To Do Things with Words  Gellner, Ernest
Wittgenstein condenariam todos  desgraa.           1959: Words and Things  Magge, Bryan 1971: Modern
    A primeira onda de filsofos da linguagem        Britsh Philosophy  Ryle, Gilbert 1949: The Concept of
profundamente convictos e no-crticos no           Mind  Winch, Peter 1958 (1976): The Idea of a Social
praticou esse relativismo implcito de nenhum        Science and its Relation to Philosophy  Wittgenstein,
                                                     Ludwig 1953 (1967): Philosophical Investigations.
modo consistente ou, por assim dizer, generali-
zante: eles se concentraram no seu prprio                                             ERNEST GELLNER
costume conceitual, a "linguagem ordinria",
esforando-se por demonstrar que as teorias
                                                     foras armadas Ver MILITARES.
filosficas eram leituras equivocadas disso e        fordismo e ps-fordismo A palavra fordis-
podiam ser "curadas" prestando-se a devida           mo foi cunhada nos anos 30 pelo marxista
ateno s suas nuanas. A tentativa mais deter-     italiano Antonio Gramsci e pelo socialista belga
minada e clebre de pr em prtica essa es-          Henri de Man para se referir a uma interpreta-
tratgia foi The Concept of Mind (1949), de          o dos textos de Henry Ford, o fabricante de
Gilbert Ryle, que alegava resolver, ou "dissol-      automveis, como formuladores das premissas
ver", o problema mente-corpo (e, no pacote, o        para uma importante transformao da civiliza-
problema das "outras mentes"). Provavelmente         o capitalista. Nos anos 60 a palavra foi redes-
o praticante mais influente desse mtodo tenha       coberta por inmeros marxistas italianos (R.
sido J.L. Austin, o qual tentou demonstrar em        Panzieri, M. Tronti, A. Negri) e em seguida pela
Sense and Sensibilia que o problema do co-           escola francesa da regulao (M. Aglietta, R.
nhecimento, conforme previamente apresenta-          Boyer, B. Coriat, A. Lipietz), como o nome para
do pelos tericos do conhecimento, era mal-          o modelo de desenvolvimento econmico efe-
orientado (ver tambm CONHECIMENTO, TEORIA           tivamente estabelecido nos pases capitalistas
DO). Quando nossa pretenso ao conhecimento          avanados depois da Segunda Guerra Mundial.
se via submetida a uma dvida geral, no havia,      Ford havia insistido em duas questes impor-
segundo ele, nada o que responder.                   tantes. Primeiro, enfatizou o paradigma indus-
    Esse tipo de filosofia wittgensteiniana cls-    trial que havia implementado em sua fbrica,
sica, posta em prtica dentro da filosofia e em      onde no apenas desenvolveu os princpios do
um esprito marcadamente insular -- o uso do         "gerenciamento cientfico" inicialmente pro-
"ingls ordinrio" para demonstrar que as an-        postos por F. Taylor -- a sistematizao, atravs
tigas filosofias no passavam de feixes de con-      da criao de mtodos, do que fosse o melhor
fuso --, acabou fenecendo depois de duas ou         meio de se executar cada tarefa produtiva ele-
trs dcadas de entusiasmo. A posterior influn-     mentar, a diviso ntida entre essas tarefas ele-
cia de Wittgenstein tendeu a se dar mais entre       mentares e a especializao de cada funo de
pensadores com uma conscincia mais clara de         modo padronizado --, como tambm acrescen-
seu relativismo cultural. Esses homens sen-          tou a busca da automao atravs de uma me-
tiam-se positivamente atrados pelo relativismo      canizao cada vez mais intensa (ver tambm
geral. A formulao notvel dessa posio  The      RACIONALIZAO). O outro aspecto do "fordis-
Idea of a Social Science (1958), de Peter Winch.     mo" de Ford era a defesa dos salrios mais
Tais pensadores j no a encaravam como o            elevados (cinco dlares por dia), para o que
324   formalismo


apresentou dois motivos. Salrios elevados          ticular de massas. Donde ele abriu o caminho
eram a recompensa pela disciplina e a estabili-     para a SOCIEDADE AFLUENTE, uma forma de in-
dade da fora de trabalho em uma empresa            dividualismo generalizado controlado pela pro-
racionalmente organizada. Mas tambm (caso          paganda e pela regulamentao.
essa prtica se tornasse generalizada) fornece-         Nos anos 70 a crise econmica do fordismo
riam o mercado comprador necessrio para a          teve origem tanto em seu aspecto "taylorista"
produo em massa. Em ambos os casos, a             quanto em seu aspecto "regulado". Os prin-
classe operria era convidada a se beneficiar da    cpios tayloristas mostraram-se menos eficazes
sua prpria submisso  autoridade gerencial        com as novas tecnologias de informao, e a
dentro da firma. Gramsci enfatizou o aspecto        internacionalizao da economia tornou mais
"microcorporativista" desse tipo de concesso       difcil para o estado exercer o seu papel regula-
mtua (dentro de cada empresa), enquanto            dor. Da, nos anos 80, a busca de um "ps-for-
Henri de Man concentrou-se na possibilidade         dismo", concebido a princpio como inverso
de um "macrocorporativismo" no nvel da so-         do fordismo: especializao por tarefa em vez
ciedade (ver tambm CORPORATIVISMO).                de taylorismo e produo em massa, flexibili-
    Era a poca da Grande Depresso, quando         dade em vez de regulamentao rigorosa. Essa
fascistas, social-democratas e comunistas criti-     a concepo da "especializao flexvel"
cavam a "anarquia do mercado capitalista" ou,       (Piore e Sabel, 1984) do ps-fordismo, que
como disse Karl Polnyi, "o domnio de um           inspira alguns pensadores de esquerda no mun-
mercado auto-regulado sobre a sociedade". O         do anglo-saxo, e tambm os estilos e ideolo-
macrocorporativismo estava na agenda de todas       gias "ps-modernistas" (ver tambm MODERNIS-
essas tendncias antiliberais, e na verdade Hen-    MO E PS-MODERNISMO). Mas isso  veemen-
ri de Man terminou como fascista. Mas, depois       temente criticado por abandonar os direitos que
da Segunda Guerra Mundial, a "soluo social        o trabalho havia conquistado sob o fordismo.
democrtica" e o "modo de vida americano"           No continente europeu, enfatiza-se que as "ta-
tornaram-se hegemnicos no Ocidente, sob o          refas especializadas" implicam rigidez do con-
domnio dos exrcitos de libertao do pre-         trato salarial e que a "flexibilidade" fomenta a
sidente Roosevelt. Atravs do New Deal nos          desqualificao. Assim, existem concepes
Estados Unidos, do Front Populaire na Frana,       opostas quanto  sada para a crise do fordismo,
da implementao do Relatrio XX na Gr-            vrios "ps-fordismos". A histria ainda est
Bretanha, dos sucessos da social-democracia na      em aberto no final do sculo XX, mas os pases
Escandinvia, o macrocorporativismo foi es-         capitalistas mais "flexveis" (Gr-Bretanha, Es-
tabilizado pela formalizao da mtua conces-       tados Unidos) parecem ser industrialmente do-
so fordista entre gerncia e sindicatos, sob os    minados pelos mais "organizados" e "habilita-
auspcios do estado. A legislao social foi sis-   dos" (Japo, Alemanha).
tematizada, o estado de bem-estar, ampliado, a          Ver tambm CAPITALISMO.
negociao coletiva generalizada. Essa conci-
                                                    Leitura sugerida: Hall, S. e Jacques, M., orgs. 1991:
liao resultou em 20 anos de forte expanso da     The Changing Face of Politics in the 1990s  Harvey,
produtividade, do investimento e do poder de        D. 1989: The Condition of Postmodernity: an Enquiry
compra.                                             into the Origins of Cultural Change  Lipietz, A. 1987:
    O fordismo , assim, uma espcie de "holis-     Mirages and Miracles: the Crises of Global Fordism
                                                     1991: Choosing Audacity: an Alternative for the XXIst
mo hierrquico". A sociedade garante a todos a
                                                    Century  Piore, M. e Sabel, C. 1984: The Second In-
participao no trabalho coletivo e divide os       dustrial Divide: Possibilities for Prosperity  Polnyi,
benefcios entre todos. Mas essa "sociedade"       K. 1944: The Great Transformation; the Political and
organizada por "gerentes" particulares ou p-       Economic Origin of our Time.
blicos, construindo o mundo de acordo com sua                                              ALAIN LIPIETZ
"cincia". Nesse aspecto, o fordismo liga-se 
"modernidade" como um estilo burocrtico em         formalismo Os grupos de jovens escritores,
termos de governo e como um estilo racionalis-      artistas e crticos russos progressistas que co-
ta em termos de urbanismo. No entanto, ao           mearam a desafiar os valores culturais e as
contrrio do stalinismo ou do fascismo, a glria    teorias estticas dos realistas e romnticos tra-
do fordismo no reside em suas realizaes          dicionais tornaram-se conhecidos, pejorativa-
coletivas, mas no acesso geral ao consumo par-      mente, como formalistas. O Crculo Lingstico
                                                                                   formalismo     325


de Moscou foi formado em 1915, e inclua            da linguagem dirigira-se,  claro, contra a mi-
Roman Jakobson, Osip Brik e Boris Tomas-            mese, contra todas as noes de representao
hevsky. O grupo complementar de So Peters-         da linguagem como transparente, como media-
burgo, que fundou a Sociedade para o Estudo         dora direta de uma realidade externa. A aplica-
da Linguagem Potica (Opoiyaz) em 1916, ti-         o dos princpios formalistas  prosa narrativa
nha entre seus membros Viktor Chklovsky, Bo-        pode ser vista na obra de Eichenbaum e
ris Eichenbaum e Vladimir Maiakvsky. Os            Shklovsky. Contos de Gogol, como O capote,
grupos formalistas participavam do projeto          so tratados como um sofisticado jogo de estilos
maior de estabelecer uma potica rigorosamen-       discrepantes, um desnudamento dos recursos
te cientfica, comeando pela demolio de al-      que entram em funo no processo artstico. A
guns princpios e abordagens crticos padroni-      extensa anlise de Tristam Shandy, de Laurence
zados. No podia haver mais lugar para o con-       Sterne, e do Don Quixote, de Cervantes, feita
ceito do artista-como-gnio, para noes de         por Viktor Shklovsky, leva o mtodo de Eichen-
controle, expressividade ou presena intuitiva      baum aos seus limites. Paradoxalmente, Sterne
autoral. Os estudos biogrficos e psicolgicos,      dado como tendo composto "o romance mais
bem como os filosficos e impressionistas, tor-     tpico da literatura mundial", uma vez que "li-
naram-se irrelevantes. As obras no podiam ser      teratura sem tema"  a definio dos formalistas
identificadas em termos de idias, pensamen-        para o que se qualifica como literatura. De
tos, proposies ou temas.                          forma semelhante, o humor, os contrastes de
    A tarefa que os formalistas se auto-estabele-   personagens, os acontecimentos divertidos, o
ceram era especificar, atravs de anlise deta-     pattico e as solues dos romances de Cervan-
lhada, o que exatamente vinha a constituir um       tes tm de ser vistos como produzidos quase que
"fato literrio", distinguindo a literatura de      inadvertidamente, como incidentais  denncia
qualquer linguagem falada ou no-literria, en-     parodista do romance de cavalaria.
carada como automatizada, cheia de clichs,             A explicao dos formalistas para a evolu-
embotada e rgida. No propunham uma nica          o literria atribui a mudana a tendncias em
posio ou doutrina fixa, mas todos partilhavam     desenvolvimento dentro da prpria LITERATURA,
esse pressuposto bsico a respeito da linguagem     bem como  passagem do tempo. Nessa ex-
potica. Ela  bem diferente da linguagem "na-      plicao, a sucesso no  particularmente cau-
tural", da fala do dia-a-dia, e no deve ser        sal, uma vez que formas iniciais, mais antigas,
tomada como mera variao.  um sistema             podiam retornar com o mesmo efeito de pertur-
auto-suficiente, completo em si mesmo, com          bar as formas estabelecidas ou cannicas. O que
suas prprias formas, cdigos e leis de auto-        vlido para a evoluo do gnero tambm o 
regulao. Uma qualidade caracterstica excep-      para a criao formal interna do texto particular.
cional  sua auto-referencialidade, seu poder de    Do processo de desfamiliarizao, surge a cons-
chamar a ateno sobre si mesma. Todos os           cincia peculiar e incomparavelmente nova que
componentes da escrita potica, suas unidades,      rompe com as reaes e hbitos convencionais
padres, formas e tcnicas, se dirigem para esse    de percepo. Os textos que causam esse cho-
jogo de linguagem, uma conscincia de expres-       que do novo tm a qualidade de "literalidade".
so que se autodeleita e  qual todos os outros     Chklovsky conclui: "Arte  um meio de revi-
aspectos esto subordinados. A funo esttica      venciar a criao de objetos, mas objetos j
no se identifica com a funo comunicativa,        prontos no tm importncia para a arte." O
sendo prioritria e superior a esta. (O comen-      carter fugidio do "objeto" (coisa, contedo ou
trio de Jakobson sobre o Soneto 129 de Sha-        tema) nas explicaes formalistas  semelhante
kespeare exemplifica de forma brilhante essa        ao do no-objeto, da literalidade, a qualidade
abordagem.)                                         extrema que precisa ser definida. Na medida em
    A pesquisa da "literalidade" havia produzi-     que as convenes e as formas literrias so o
do alguns belos resultados na poesia. Formulan-     alvo, o conceito tende a se estetizar (ver ESTTI-
do uma estilstica a partir desse trabalho, os      CA), a se confinar a construes literrias. Na
crticos de Moscou e Petersburgo passaram,          medida em que so idias, atitudes e valores, os
ousadamente, a aplicar seus princpios  prosa.     alvos so objetos extraliterrios, ideologias, a
A Teoria da prosa, de Chklovsky, publicado em       prpria compreenso; o contedo volta para se
1929, foi o manifesto. O ataque de toda a crtica   vingar e a forma  restituda ao social, ao cul-
326     Frankfurt, escola de


tural, ao histrico e ao imediatamente contem-           americana dos anos da guerra at meados da
porneo. A desfamiliarizao, mesmo quando               dcada de 60, mas desde ento se viu submetido
limitada a cdigos e convenes literrias, de-          a variados ataques que levaram  perda de seu
monstra ter paradoxos semelhantes. Na medida             anterior predomnio, nunca mais tendo assu-
em que normas e cnones literrios tm de ser            mido uma importncia maior na Europa.
necessariamente subvertidos, o prprio con-                  Uns poucos exemplos demonstraro a natu-
ceito  essencialmente relativo ao que ser "tor-        reza dessa abordagem. Se algum deseja anali-
nado estranho". Na medida em que a nova                  sar os padres conjugais na sociedade ociden-
produo se transforma, por sua vez, na norma            tal,  possvel tentar explic-los atravs de uma
aceita, no h nenhum grupo ou srie de formas           anlise, digamos, das idias crists de matrim-
estveis em equilbrio histrico a partir das            nio, tal como se desenvolveram desde o tempo
quais as qualidades que definem a literalidade           de So Paulo at os pronunciamentos do atual
possam ser inferidas e articuladas. O objetivo           papa. Mas  possvel tambm levantar um tipo
extremo recua e o processo  auto-invalidante.           diferente de questo: por que sistemas de casa-
                                                         mento monogmico tm predominado no mun-
Leitura sugerida: Bann, S. e Boult, J.E., orgs. 1973:
Russian Formalism  Bennet, Tony 1979: Formalism          do ocidental durante to longo tempo? Nesse
and Marxism  Jameson, Fredric 1972: The Prison-          caso, uma resposta satisfatria deve no apenas
House of Language: a Critical Account of Structura-      concentrar sua ateno na histria do sistema
lism and Russian Formalism  Lemon, L.T. e Reis,          familiar ocidental moderno, mas alm disso
M.J., orgs. 1965: Russian Formalist Criticism: Four      explicar sua persistncia durante um longo pe-
Essays  Matejka, L. e Pomorska, K., orgs. 1971: Rea-     rodo da histria ocidental. Essa questo ser
dings in Russian Poetics: Formalist and Structuralist
Views  Pike, Chris, org. 1979: The Futurists, the For-
                                                         mais bem abordada comparando-se esse sis-
malists and the Marxist Critique.                        tema familiar com outros e investigando suas
                               FRANK GLOVERSMITH
                                                         conseqncias para a estrutura mais ampla da
                                                         sociedade ocidental e para elementos especfi-
Frankfurt, escola de Ver ESCOLA DE FRANK-                cos dentro dela.
FURT.                                                        A busca sistemtica das conseqncias so-
                                                         ciais de um dado conjunto de fenmenos deve
funcionalismo Este ramo de anlise em                    ser distinguida de outra noo "prospectiva"
cincias sociais refere-se a uma orientao me-          nas cincias sociais: a de propsito. Enquanto
todolgica e terica em que as conseqncias             esta ltima se refere a motivaes conscientes
de um dado conjunto de fenmenos empricos,              de um ou mais agentes, a primeira  usada para
em vez de suas causas, constituem o centro da            investigar conseqncias das quais o ator pode
ateno analtica. A palavra tem sido aplicada a         no ter conscincia. Tal distino foi formulada
toda uma variedade de abordagens divergentes,            pela primeira vez por Robert K. Merton, quando
mas o elemento que estas tm em comum  a                apresentou uma distino entre funes ma-
concentrao nas relaes de uma parte da so-            nifestas e latentes (isto , inconscientes), como
ciedade com outra e, talvez com maior freqn-           nos exemplos que se seguem. Todas as socie-
cia, de uma parte da sociedade com a sociedade           dades tm regras de herana que determinam
inteira. Anlise causal e anlise funcional so          quem deve herdar o qu. A anlise funcional
duas abordagens distintas que no precisam               no est interessada no desenvolvimento his-
competir uma com a outra.                                trico dessas regras, mas volta o foco de sua
    A anlise funcional surgiu da tentativa de           indagao para uma considerao sobre o im-
usar em anlise social noes desenvolvidas              pacto societal diferencial dos diferentes sis-
inicialmente na esfera biolgica. Esse modo de           temas de herana. Investiga, por exemplo, as
raciocnio metodolgico teve como pioneiros              conseqncias patentes do sistema de primoge-
Emile Durkheim, na Frana, e Herbert Spencer,            nitura e dos sistemas que favorecem a partilha
na Gr-Bretanha. A corrente durkheimiana foi             igual entre filhos e filhas; ou de sistemas que
desenvolvida pelos antroplogos A.R. Radclif-            prevem a sucesso atravs da linhagem pater-
fe-Brown e Bronislaw Malinowski, na Gr-                 na, ou da linhagem materna, ou da vontade do
Bretanha, e por Talcott Parsons, Robert K. Mer-          testante. Cada um desses diferentes sistemas de
ton e seus discpulos, nos Estados Unidos. O             herana tem fortes conseqncias estruturais,
funcionalismo dominou a sociologia norte-                na medida em que leva, por exemplo,  concen-
                                                                              funcionalismo    327


trao ou  disperso da riqueza familiar. O       monstra, alm disso, que determinados itens
conceito de funo latente leva a ateno para     sob anlise podem ter conseqncias funcionais
alm do problema de saber se o comportamento       ou disfuncionais para diferentes partes de um
atinge o propsito dos agentes, dirigindo-a para   sistema social. Por exemplo, os padres de
sries de conseqncias do comportamento das       mobilidade individual em uma sociedade in-
quais os agentes no tm conscincia e que no     dustrial podem ser reforados pela assistncia
haviam previsto. Em particular, comportamen-       financeira a jovens promissores das classes in-
tos que do ao observador a impresso de ir-       feriores, permitindo-lhes atingir os cursos se-
racionais e sem sentido podem resultar,  luz da   cundrios ou a faculdade. Mas essa "extrao
anlise funcional, como tendo importantes con-     do melhor" ente os estudantes promissores das
seqncias. Se as danas da chuva no tm          classes inferiores provavelmente esvaziar as
probabilidade de mudar o tempo, podem muito        reservas de lderes capazes para um partido
bem contribuir para elevar o moral de um grupo     operrio ou um sindicato. Quando a disfuno
que est desmoralizado por um longo perodo        de uma instncia em particular torna-se bvia,
de seca.                                           isso pode estimular cientistas sociais voltados
    Muitos cientistas sociais, antroplogos em     para as reformas, bem como leigos, a imaginar
particular, tm concentrado suas maiores aten-     modos alternativos de organizao.
es nas conseqncias de um fato social par-          Como costuma ser o caso na histria da
ticular para a estrutura mais ampla no qual ele    cincia, quando uma nova abordagem, mtodo
est embutido. Parece, no entanto, que uma         ou teoria  publicado, os que a ela so in-
estratgia analtica igualmente frutfera seria    troduzidos parecem sentir que a nova coisa 
fazer remontar as conseqncias de uma dada        capaz de explicar tudo que existe sob o sol. Os
instncia para outra instncia como essa, dentro   primeiros freudianos tendiam a ver simbolismo
de um todo mais amplo. Essa perspectiva in-        sexual nos zepelins ou nos charutos havana, e
dica, por exemplo, haver probabilidades de que     os primeiros analistas funcionais acreditavam
seja frutfero analisar o impacto de uma depres-   que tudo devia ter necessariamente uma funo.
so sobre a taxa de natalidade, ou as conseqn-   Essa f to simples tem hoje poucos seguidores.
cias do uso de drogas para os padres de mobi-     Tal como a medicina est consciente de que
lidade de uma minoria em particular.               existem partes da anatomia, tais como o apn-
    Tem havido entre alguns analistas funcio-      dice, que no possuem quaisquer funes dis-
nais a tendncia infeliz a presumir que qualquer   cernveis, tambm a maioria dos funcionalistas
instncia que contribua para a manuteno de       hoje sabe que existem partes do organismo
um todo mais amplo , por isso mesmo, um           social que no parecem ter mais uma funo, ou
fator positivo. Mas somente aqueles com uma        que podem at nunca haver tido uma.
inclinao conservadora presumem que o que             Outra abordagem da anlise funcional, a
existe  necessariamente desejvel. Essa in-       noo de pr-requisitos funcionais, desfrutou
clinao conservadora pode ser evitada se for      de bastante ateno uma dcada ou duas atrs,
destacado que  possvel concentrar-se em al-      mas desde ento parece ter sido deixada de lado.
ternativas que podem ter funes positivas para    A noo de pr-requisito sugere que qualquer
uma instncia e, no entanto, no estarem amar-     sistema social precisa atender a certas funes
radas a um conjunto de conseqncias indese-       indispensveis, caso queira sobreviver. A aten-
jveis. Assim, se a magia pode dar aos agentes     o aqui se concentra nas precondies e pr-
uma sensao de segurana em um ambiente           requisitos funcionais para uma sociedade. Essa
imprevisvel, tambm  verdade que aplices        parece ser uma noo valiosa. Infelizmente,
de seguro podem ter as mesmas conseqncias        porm, tal proposio irrepreensvel foi seguida
quando a pessoa passa de uma sociedade tribal      em geral pela idia de que um item particular
para uma sociedade moderna. A ateno a fun-       existente  um pr-requisito funcional, e essa 
es alternativas impede que a anlise seja        uma noo altamente questionvel. No so-
amarrada a uma ideologia conservadora.             mente se desvia a ateno das estruturas alter-
    Outra inclinao conservadora pode ser in-     nativas como tambm se afirma que itens cul-
troduzida na anlise funcional caso a ateno      turais especficos devem ser operantes, caso o
analtica se limite a funes positivas. Merton    sistema queira sobreviver. Assim, por exemplo,
distingue entre funes e disfunes. Ele de-      afirmou-se que a religio era um requisito fun-
328    fundamentalismo


cional para a manuteno da solidariedade nu-               fundamentalismo Tendo comeado a exis-
ma sociedade. Tal proposio s pode ser man-               tir com referncia a uma variedade de protes-
tida afirmando-se que instituies culturais for-           tantismo conservador, mais particularmente
malmente no-religiosas so na verdade de ca-               nos Estados Unidos, essa palavra teve seu uso
rter religioso (por exemplo, que o comunismo               contemporneo ampliado um tanto livremente
 na verdade uma religio) ou que a religio               para incluir variedades do islamismo e do
de fato uma instituio indispensvel, insubs-              judasmo conservadores, e deveria abranger o
tituvel, o que at hoje no se demonstrou ser o            tipo de catolicismo militante e dogmtico en-
caso. Os analistas que raciocinam segundo essa              contrado no movimento Opus Dei.
linha de pensamento nunca estabeleceram de                      O fundamentalismo cristo originalmente
forma convincente que a religio  o cimento                tinha a ver com fundamentos de crena especi-
insubstituvel que une a sociedade. Alm do                 ficamente designados que incluam a infalibili-
mais, muitas listas compiladas por autores que              dade da Bblia, bem como a concepo imacu-
afirmam esse ponto de vista acabam, depois de               lada do Filho pela Virgem e a expiao dos
um exame, demonstrando no serem muito                      pecados. Como movimento, o fundamentalis-
mais do que listas de itens tais como a produo            mo representa uma importante reao ao pro-
de alimentos e a regulao sexual, que de fato              testantismo liberal. Os protestantes liberais
so parte da sociedade por definio. Parece de             aceitavam uma abordagem altamente crtica da
valor limitado insistir em que as pessoas devem             Bblia e adotavam uma hermenutica flexvel,
realmente ter algo para comer, caso a sociedade             com tudo que isso implica a respeito de moder-
                                                            nizao e relativizao. Do ponto de vista libe-
queira sobreviver.
                                                            ral, a cristandade havia deixado de ser uma
    A anlise funcional encontra-se no presente             revelao nica e final entregue  humanidade
momento muito na defensiva nos Estados Uni-                 na Bblia, sendo antes uma conscincia do di-
dos e tambm na Europa. No entanto tambm                   vino em evoluo, lado a lado com outras fontes
 um fato que muitos textos sociolgicos con-               espirituais geradas por outras modalidades de
tinuam a usar a lgica e o raciocnio funcionais,           f. Um liberalismo desse tipo estava neces-
embora no explicitamente. Monsieur Jour-                   sariamente em movimento, em geral numa dire-
dain, o personagem de Molire, no sabia que                o cada vez mais afastada da ortodoxia en-
estivera sempre falando em prosa, e muitos                  quanto o fundamentalismo se via como um
membros da corporao sociolgica no sa-                   defensor da "f revelada de uma vez por todas
bem, ou no querem que seus leitores saibam,                aos santos".
que na realidade esto usando a anlise fun-                    Era tpico dos fundamentalistas ater-se 
cional.                                                     verdade literal e  historicidade precisa da B-
    Somente o futuro dir se a anlise funcional            blia, e bem assim  autoria mosaica do Pen-
 de fato um requisito de uma sociologia sofis-             tateuco como de certa forma indissoluvelmente
ticada.                                                     ligado ao literalismo. Rejeitavam Darwin, bem
    Ver tambm ESTRUTURALISMO; TELEOLOGIA.                  como as modernas explicaes cientficas sobre
                                                            as origens do cosmo e a compreenso habitual
Leitura sugerida: Davis, Kingsley 1949: Human So-           dos registros dos fsseis. Boa parte do protes-
ciety  Demerath, N.J. e Peterson, R.A., orgs. 1967:         tantismo ingls, mesmo o de tipo conservador,
System, Change and Conflict  Durkheim, E. 1895: Le          absorveu a evoluo e a moderna cosmologia,
rgles de la mthode sociologique  Giddens, A. 1977:        ainda que tenha havido algumas tragdias in-
"Functionalism: aprs la lutte". In Studies in Social and   telectuais, como por exemplo a do destacado
Political Theory  Kluckhohn, Clyde 1944: Navaho
Witchcraft  Malinowski, B. 1944: "The functional
                                                            bilogo marinho Philip Gosse, que teve de der-
theory". In A Scientific Theory of Culture and Other        rubar, com o uso de astcia, suas prprias pro-
Essays  Merton, Robert K. 1949 (1968): Social Theory        vas. Mas nos Estados Unidos se desenvolveu
and Social Structure, ed. rev.  Parsons, T. 1951: The       uma interpenetrao mais estreita, especial-
Social System  Radcliffe-Brown, A.R. 1952: "On the          mente no Sul, de conservadorismo moral, fun-
concept of function in social science". In Structure and    damentalismo e defesa da moralidade. Talvez
Function in Primitive Society  Stinchcombe, Arthur          isso se devesse, em parte, a haver mais espao
1968: Constructing Social Theories.                         nos Estados Unidos para a criao de redes de
                                       LEWIS A. COSER       instituies fora dos centros educacionais im-
                                                                             fundamentalismo      329


portantes, controlados pela intelligentsia liberal   mas sua raison d'tre gira em torno dos dons do
(e seus aliados no clero liberal). Assim, embora     Esprito Santo, da cura e do exorcismo.
a causa fundamentalista tenha sofrido um revs           O fundamentalismo na Europa tambm pa-
em 1925, devido  publicidade adversa que se         rece ser apenas incidental, quer seja parte do
seguiu ao julgamento de John Scopes por en-          pentecostalismo ou de formas mais antigas de
sinar ilegalmente a teoria da evoluo, ela con-     pietismo, evangelismo e revivalismo. Isso sig-
seguiu reforar suas defesas institucionais e        nifica haver camadas de conservadorismo reli-
ressurgiu mais ou menos uma gerao depois,          gioso -- por exemplo, no Oeste da Noruega, no
em aliana com diversas variedades de conser-        Nordeste da Holanda, no Norte da Jutlndia, no
vadorismo moral, teolgico, cultural e poltico.     Norte da Esccia e na Irlanda do Norte -- que
Em algumas reas, os fundamentalistas ganha-         no colocam o fundamentalismo na linha de
ram influncia suficiente para garantir que o        frente de sua luta cultural. Existe um centro
"criacionismo" fosse ensinado nas escolas, ao        intelectual, com ramificaes internacionais, na
lado de outras explicaes. (O prprio criacio-      Universidade Livre de Amsterdam; e existem
nismo  muito variado, indo desde a viso pa-        partidos polticos pequenos em boa parte do
dro de Deus como Criador at uma periodiza-         Norte da Europa dedicados  MORALIDADE reli-
o baseada no Livro do Gnese, chegando a           giosa tradicional. Movimentos paralelos de
uma adeso rigorosa s narrativas do Gnese I        conservadorismo religioso tm surgido em anos
e II.) Vale a pena enfatizar que o perfil do         recentes dentro da maioria das igrejas estabele-
pblico e a coeso interna do fundamentalismo        cidas, e alguns destes tm nfase carismtica.
tm sido reforados por transmisses religiosas      Mais uma vez, porm, seu conservadorismo
em televiso e rdio e por escolas "crists" que     est mais ligado  atitude devocional e  dis-
ajudam a criar uma "estrutura de plausibili-         ciplina moral do que a um ponto de vista da
dade" capaz de tudo abranger. Uma influncia         Bblia rigidamente conservador.
como a que os fundamentalistas alcanaram                Evidentemente, o fundamentalismo cristo
atravs da participao na Maioria Moral im-          apenas um elemento em um movimento ma-
plicou alianas inditas com conservadores de        cio no sentido das verses conservadora e
outros tipos de f.                                  evanglica da f. Corre paralelo a um movimen-
    Muitos comentaristas encaram o fundamen-         to comparvel no mundo islmico, mais par-
talismo como apenas uma reao e como uma            ticularmente entre os xiitas. Em um certo sen-
instncia daquilo que Steve Bruce chamou de          tido, o ISLAMISMO  inerentemente fundamen-
"calas curtas culturais" (1990). No entanto         talista, dada a nfase na perfeio da Palavra da
essa viso  excessivamente parcial para com a       Deus, corporificada de forma definitiva no Co-
compreenso liberal da questo. Os conser-           ro. Ao lado disso, como um dos "fundamen-
vadores religiosos podem estar engajados em          tos" do islamismo, encontra-se a promoo do
uma forma de luta cultural, mas operam com           isl e da lei islmica como um modo de vida
facilidade no mundo comercial e tcnico sem          completo, abrangendo o estado, onde quer que
que seus vizinhos notem qualquer estranheza          o poder e os nmeros o permitam. As ambies
ou atraso marcante. De qualquer forma, a prin-       teocrticas do isl formam um contraste agudo
cipal denominao conservadora, os Southern          com a modesta atividade dos grupos de presso
Baptistes (Batistas Sulistas dos Estados Uni-        dos protestantes conservadores. No uso con-
dos), est se expandindo onde as denominaes        temporneo, um muulmano "fundamentalis-
mais liberais esto diminuindo, e o pentecos-        ta" ou est ligado a um dos movimentos con-
talismo  parte de um movimento universal que        servadores ou ento se caracteriza simplesmen-
faz um progresso espantoso na Amrica Latina         te pela militncia e o fanatismo. Com toda
(compare-se, aqui, TEOLOGIA DA LIBERTAO),          certeza, esse tipo de militncia  parte de uma
no Caribe, em partes da frica, na Coria do         reao  libertao de muitas sociedades crists
Sul e na chamada Faixa do Pacfico.  interes-       em relao ao colonialismo muulmano (prin-
sante que o pentecostalismo seja apenas in-          cipalmente otomano) e ao avano da cultura e
cidentalmente fundamentalista, em vez de par-        do colonialismo ocidentais, incluindo-se nesse
tir da premissa fundamentalista. Os pentecos-        avano a secularidade e o pluralismo, atravs
tais tratam a Bblia de maneira conservadora,        das fronteiras do mundo islmico.
330   futurologia

Leitura sugerida: Bruce, S. 1990: A House Divided:     levaram ao desenvolvimento de inmeras e in-
Protestantism, Schism and Secularization  Marsden,     fluentes abordagens da previso -- tais como o
George 1982: Fundamentalism and American Culture:
the Shaping of Twentieth-century Evangelicalism,
                                                       mtodo Delphi e a anlise de impacto cruzado,
1870-1925  Martin, David A. 1990: Tongues of Fire:     mtodos mais sofisticados de extrapolao de
the Explosion of Conservative Protestantism in Latin   tendncias, debate de idias em grupo e anlise
America.                                               de seqncias imaginrias de eventos. (Prova-
                                  DAVID A. MARTIN      velmente o nico acrscimo substancial, desde
                                                       os anos 60, a esse arsenal de mtodos  a
futurologia No incio do sculo XX estava              simulao por computador.) Descobriu-se que
evidente que uma rpida mudana nas capaci-            essas abordagens eram teis para grandes em-
dades e nos modos de vida humanos tinha todas          presas e, de fato, para uma ampla srie de outros
as probabilidades de continuar. Inmeros ana-          organismos preocupados com a incerteza sobre
listas influentes insistiram em que se fizessem        os ambientes futuros em que poderiam estar
esforos para sistematizar a nossa maneira de          operando. Foram popularizadas tambm atra-
pensar a respeito do futuro. Especialmente H.G.        vs de livros de grande vendagem escritos pelo
Wells, que havia usado a fico cientfica tanto       controvertido Herman Kahn e outros pesquisa-
para provocar questes a respeito de perspec-          dores. Ecos mais acadmicos viriam a ser en-
tivas sociais quanto para fornecer uma platafor-       contrados nos trabalhos de Daniel Bell e outros
ma para a apresentao da cincia popular, con-        autores que escreveram sobre a SOCIEDADE
clamou  criao de uma nova disciplina aca-           PS-INDUSTRIAL. (De fato, a sondagem do futuro
dmica que tivesse em seu cerne esses esforos.        atravs de mtodos futurolgicos e da aplicao
    Esses apelos tiveram pouca resposta imedia-        de instrumentos de planejamento, tais como
ta, e boa parte da especulao a respeito do           anlises de sistemas, era encarado como um dos
futuro, nas primeiras dcadas do sculo, pode          meios com que as sociedades ps-industriais
hoje ser vista como um ensaio da Primeira              orientariam seu prprio progresso e evitariam
Guerra Mundial e como visando alertar lderes          as crises econmicas e polticas de formaes
e populaes para a suposta ameaa represen-           sociais mais antigas.)
tada por outras potncias mundiais. O perodo
                                                           Na Europa, esse perodo foi igualmente
entre as duas guerras mundiais testemunhou
                                                       marcado por esforos para a consolidao do
desdobramentos de fatos importantes, tais co-
mo uma srie de livros publicados pela editora         pensamento sobre o futuro, com a criao de
Kegan Paul no Reino Unido, que convidavam              grande nmero de novos organismos e a prepa-
intelectuais famosos a especular sobre o futuro.       rao de relatrios importantes. Em contraste
Nos Estados Unidos, os relatrios de William           com o trabalho da corrente predominante nos
F. Ogburn sobre tendncias sociais e suas con-         Estados Unidos, o "movimento futurolgico"
seqncias lanaram grande parte das bases             europeu era bem mais questionador quanto 
para o trabalho posterior sobre extrapolao de        forma que o futuro poderia assumir -- por
tendncias, indicadores sociais e avaliao de         exemplo, os autores europeus que escreviam
tecnologia -- tudo isso associado a estudos            sobre a sociedade ps-industrial tendiam a ter
mais recentes sobre o futuro. Mas foi s nos           bem menos confiana na ausncia de conflitos
anos 60 que comeou a surgir um corpo de               scio-econmicos e no fim das ideologias. A
trabalho em harmonia.                                  palavra "futurologia" foi introduzida por Ossip
    Boa parte desse trabalho derivou dos es-           Flechtheim, pesquisador alemo que se preocu-
tudos realizados em vrios "think tanks" dos           pava em criar vises de um futuro diferente dos
Estados Unidos. O Exrcito norte-americano,            representados pelo capitalismo norte-america-
quase que na prpria concluso da Segunda              no e pelo socialismo sovitico. Ironicamente,
Guerra Mundial, estabeleceu uma srie de pre-          os estudos futurolgicos que vieram da antiga
vises tecnolgicas de longo alcance que leva-         Unio Sovitica so, em muitos aspectos, um
ram organizaes multidisciplinares, como a            verdadeiro espelho dos que foram feitos nos
RAND Corporation, a se tornarem centros onde           Estados Unidos nos anos 60, partilhando seu
acadmicos podiam trocar idias com membros            otimismo social e tecnolgico, mas invertendo
do complexo industrial-militar. Os esforos pa-        os papis das superpotncias como foras pro-
ra avaliar contingncias militares e geopolticas      gressistas e reacionrias. Os estudos do Leste
                                                                                       futurologia      331


Europeu, em contraste, tendiam a uma atitude        Talvez, ainda mais importante, seja vista como
mais comedidamente crtica.                         limitada a observar aspectos especficos e redu-
    A palavra "futurologia" foi amplamente uti-     zidos do desenvolvimento econmico, ambien-
lizada para descrever os esforos pioneiros no      tal, social ou tecnolgico. Um dos elementos-
sentido de se pensar sistematicamente a res-        chave dos estudos futuros, em contraste,  tido
peito do futuro a longo prazo, e foi essa palavra   como sendo o seu esforo para fornecer avalia-
que entrou na conscincia do pblico. Outras        es mais holsticas, reunindo o conhecimento
expresses so "estudos futuros" e "pesquisas       sobre desenvolvimentos de muitos tipos dife-
futuras", enquanto nas tradies francesas ge-      rentes e levando em conta sua interao. Assim,
ralmente se usam as expresses "futurveis" e       a anlise de eventos futuros hipotticos, a des-
"estudos prospectivos", e a literatura alem em     crio de futuros alternativos em termos de
geral se refere a "prognsticos". A palavra "fu-    grande nmeros de caractersticas,  uma das
turologia", apesar de ser a mais conhecida do       principais ferramentas desse trabalho.
pblico em geral, costuma ser rejeitada pelos           A onda de entusiasmo pela futurologia nos
que trabalham nesse campo.  encarada como          anos 60 e incio da dcada de 70, poca durante
um termo que transmite pretenses esprias a        a qual se estabeleceram muitos grupos e as-
uma compreenso cientfica do futuro -- ex-         sociaes de pesquisa, recuou um pouco duran-
presses como "estudos futuros", em contraste,      te as dcadas seguintes. O campo do futuro
do mais o sentido de haver futuros alternati-      tornou-se um centro de debates em que pontos
vos, de as questes no estarem prontas e em-       de vista opostos discutem com crescente sofis-
brulhadas, meramente  espera de serem des-         ticao, mas poucos sinais de concordncia, a
cobertas por meios racionais ou tcnicos, de um     respeito de tpicos como a degradao do meio
campo que est aberto a no-cientistas. Talvez,     ambiente global e as implicaes libertadoras
tambm, futurologia seja encarada como exces-       ou opressoras das novas tecnologias. A impor-
sivamente ligada aos pesquisadores norte-ame-       tncia de buscar pontos de vista de longo prazo
ricanos dos anos 60, que estabeleceram esse
                                                    e de relacionar dimenses de mudana (ver
campo. Vale a pena notar que os dois principais
                                                    tambm MUDANA SOCIAL) que tendem a ser
organismos profissionais atuando na rea -- a
                                                    compartimentalizadas umas em relao s ou-
World Futures Society e a World Futures S-
                                                    tras nas tradicionais especializaes acadmi-
tudies Federation -- no usam a expresso
                                                    cas e de elaborao de polticas pblicas no
"futurologia"; as publicaes principais so Fu-
tures, Futures Research Quarterly e Futuribles,     entanto no diminuiu.  medida que se aproxi-
juntamente com o mais popular, The Futurist.        ma o milnio, fica evidente um renovado in-
                                                    teresse pela pesquisa do futuro -- s vezes
    Qualquer que seja o rtulo que lhes seja
                                                    chamada de "Estudos do Sculo XXI".
aplicado, no entanto, normalmente se faz uma
distino entre essas abordagens e as previses     Leitura sugerida: Coates, J.F. e Jarrat, J., orgs. 1992:
mais convencionais. A previso  encarada co-       The Future: Trends into the Twenty-First Century. N-
mo tipicamente de curto prazo, preocupada           mero especial de Annals of the American Academy of
com a extrapolao de tendncias e outros des-      Political and Social Science 552, julho  Fowles, J.,
dobramentos "livres de surpresas", tentando         org. 1978: Handbook of Futures Research.
prever ou planejar algum aspecto do futuro.                                                  IAN D. MILES
                                                G
gnero Representando o aspecto social das                   e snteses parciais entre as perspectivas do FE-
relaes entre os sexos, gnero  um conceito               MINISMO.  As trs tradicionais so o feminismo
que se distingue do conceito biolgico de sexo.             radical, o feminismo socialista e o liberalismo.
A questo de se, e at que ponto, os aspectos               Entre as categorias adicionais incluem-se o
biolgicos dos sexos so pertinentes  com-                 conservadorismo (por exemplo, a SOCIOBIOLO-
preenso do gnero  popularmente controver-                GIA), o pensamento feminino negro, o ps-mo-
tida, mas dentro das cincias sociais a questo             dernismo, a teoria dos sistemas duais, o ecofe-
 encarada, de maneira ampla, como resolvida                minismo e o feminismo materialista. Alguns
-- a organizao social  considerada o fator               dividem a categoria do feminismo socialista,
esmagadoramente preponderante.                              separando as correntes marxistas mais orto-
    O gnero se constri e se expressa em muitas            doxas das que se valem mais do feminismo
reas da vida social. Inclui a cultura, a ideologia         radical, como em uma diviso entre marxismo
e as prticas discursivas, mas no se restringe a           e feminismo socialista. Algumas perspectivas
elas. A diviso do trabalho por gnero, no lar e            dentro do pensamento social,  claro, abstm-se
no trabalho assalariado, a organizao do es-               na rea de gnero.
tado, a sexualidade, a estruturao da violncia                O que se segue representa um resumo de
e muitos outros aspectos da organizao social              algumas das principais divergncias tericas.
contribuem para a construo das relaes de                No entanto deve-se observar que esta viso
gnero. As teorias sociais variam em suas ex-               geral, por sua prpria natureza,  esquemtica
plicaes sobre a importncia relativa atribuda            e muitos textos isolados desafiam uma catego-
a vrias instituies sociais na construo das             rizao to simples.
relaes de gnero.
    As relaes de gnero assumem formas di-                Feminismo radical
ferentes em diferentes sociedades, perodos his-                As anlises feministas radicais indicam que
tricos, grupos tnicos, classes sociais e gera-            a diferenciao de gnero  basicamente uma
es. No obstante, tm em comum a diferen-                 questo de desigualdade entre os gneros, sen-
ciao entre homens e mulheres, apesar da                   do o masculino o dominante. Os homens so
imensa variabilidade social da natureza da di-              encarados como os principais beneficirios da
ferena. Um aspecto muito comum  que a                     opresso das mulheres. A subordinao das mu-
diferena de gneros se associa  desigualdade              lheres  tida como autnoma em relao a ou-
de gnero, com os homens exercendo poder                    tras formas de desigualdade social.
sobre as mulheres -- alguns afirmam que uni-                    Enquanto todos os aspectos de vida das mu-
versalmente, outros que quase universalmente.               lheres so encarados como influenciados pelo
    Uma palavra relacionada  PATRIARCADO,                  domnio masculino, as feministas radicais tm
que conceitualiza a desigualdade de gnero co-              analisado com mais freqncia as questes da
mo socialmente estruturada.                                 violncia masculina para com as mulheres e do
                                                            abuso, por parte dos homens, da sexualidade
Teorias de gnero                                           das mulheres, bem como temas relacionados ao
    O pensamento social costuma identificar                 problema da reproduo.
trs perspectivas principais para se abordar a                  Essa perspectiva  em geral criticada por no
questo de gnero, embora haja muitas mais,                 levar suficientemente em conta outras formas
especialmente se forem includas subcategorias              de desigualdade social, mas essa falha  um

                                                      332
                                                                                       gnero    333


aspecto mais contingente do que necessrio          Estruturas
desse tipo de anlise, e algumas feministas ra-        O patriarcado pode ser considerado como
dicais tm-se mostrado sensveis  questo. Ou-     constitudo pelas seis estruturas seguintes:
tra crtica comum  que o feminismo radical tem
uma tendncia ao reducionismo biolgico.            O lar
Mais uma vez, se essa  uma caracterstica de           O lar familiar  a instituio que vem sendo
algumas pensadoras, no  um aspecto univer-        mais freqentemente analisada por seu papel na
sal dessa escola de pensamento.                     produo tanto da diferenciao quanto da de-
                                                    sigualdade de gnero. No entanto a prpria e
Feminismo socialista                                considervel variao de formas de lar entre
    A anlise feminista socialista tambm se        diferentes culturas e pocas torna a generaliza-
concentra na desigualdade de gnero como um         o arriscada. As anlises funcionalistas susten-
aspecto importante da diferenciao de gnero.      tavam tradicionalmente que a famlia era um
No entanto a desigualdade de gnero  en-           local de diferenciao -- mais que de desigual-
carada, no como um sistema autnomo de             dade -- de papis entre homens e mulheres.
relaes sociais, mas como intimamente ligada       Muitas anlises feministas tm afirmado que,
s relaes de classe. Isso significa que o capi-   ao contrrio, as mulheres so subordinadas aos
tal, tanto quanto os homens -- e s vezes com       homens na famlia e que isso  crucial para
a excluso dos homens --,  tido como o bene-       outros aspectos de sua opresso (Barrett, 1980).
ficirio da subordinao das mulheres.              A expropriao do trabalho domstico das mu-
    As feministas socialistas freqentemente se     lheres  um aspecto central das teorias de muitas
tm concentrado mais nos diferentes aspectos        feministas socialistas e materialistas, como
da subordinao das mulheres do que as femi-        Delphy (1984). Essa desigualdade no tempo
nistas radicais. Em particular, desenvolveram       despendido no trabalho domstico foi confir-
anlises do trabalho, tanto do trabalho assala-     mada por anlises de oramento de tempo
riado quanto do TRABALHO DOMSTICO, embora          (Gershuny, 1983). No entanto o modelo da
questes de cultura e sexualidade tambm te-        famlia como composta de um marido/provedor
nham sido abordadas (a ltima geralmente em         do sustento e de uma esposa/dona-de-casa em
combinao com a psicanlise).                      tempo integral, mais os filhos,  um fenmeno
                                                    no to comum hoje em dia. Em parte, porque
    O debate entre feminismo socialista e femi-
                                                    isso  etnicamente especfico; por exemplo,
nismo radical tem-se concentrado com freqn-       essa forma foi raramente encontrada entre os
cia na importncia relativa dos homens como         povos de ascendncia africana. De fato, essa
agentes ativos na opresso das mulheres, as         variao tnica  crucial para a anlise de al-
feministas radicais considerando que isso  su-     gumas feministas negras, tais como Hooks
bestimado pelas socialistas. Tambm existe di-      (1984), a qual afirma que grande parte da teoria
vergncia sobre a relevncia relativa dos di-       feminista partiu para uma generalizao ilegti-
ferentes locais de desigualdade de gnero.          ma das experincias das mulheres brancas para
                                                    todas as mulheres. A forma do lar familiar "tra-
Liberalismo
                                                    dicional"  incomum tambm entre as famlias
    Em comparao com as duas primeiras pers-       brancas hoje em dia, em parte devido ao aumen-
pectivas, os pontos de vista liberais sobre gne-   to na proporo de mulheres casadas em em-
ro so em geral menos estruturais. As anlises      pregos assalariados no perodo do ps-guerra e
dentro dessa perspectiva tendem a incluir al-       ao aumento dos lares chefiados por um nico
guns fenmenos de menor escala e a no se           genitor. No obstante, a entrada das mulheres
integrar a uma macroteoria das relaes entre       na fora de trabalho assalariada no produz,
os gneros. Entre os tpicos aqui abrangidos,       como resultado tpico, uma diviso igualitria
incluem-se em geral questes como educao e        do trabalho domstico. O aumento do nmero
representao nos campos polticos normais,         de lares chefiados por mulheres resulta em parte
como parlamentos, por exemplo. A crtica a          da crescente taxa de DIVRCIO e em parte do
essa abordagem concentra-se na falta de con-        aumento da natalidade fora do casamento. Essa
sideraes sistemticas sobre a inter-relao de    ltima tendncia, contudo, tem sido acompa-
aspectos das relaes de gnero.                    nhada por um crescimento da proporo de
334   gnero


casais no-casados e vivendo em coabitao         lidade como o terreno mais importante da do-
(ver CASAMENTO).                                   minao das mulheres pelos homens. As mu-
                                                   lheres s vezes sofrem violentos abusos sexuais
Emprego                                            por parte dos homens e outras vezes so coop-
    O emprego das mulheres difere do dos ho-       tadas por projetos patriarcais, atravs de cons-
mens em dois aspectos principais. Primeira-        trues particulares da heterossexualidade. Por
mente,  tpico que as mulheres recebam paga-      um lado, os homens violentam e representam as
mento inferior ao dos homens (cerca de 3/4 do      mulheres pornograficamente como objetos dos
salrio/hora dos homens na Gr-Bretanha). Em       desejos masculinos e, por outro, a ideologia do
segundo lugar, as mulheres, em muitas socie-       amor romntico seduz as mulheres para o que
dades, esto menos integradas do que os ho-         efetivamente uma heterossexualidade com-
mens no trabalho assalariado e mais no trabalho    pulsria. A sexualidade  encarada como um
domstico no-remunerado.                          espao onde os homens foram ou manipulam
    Uma diviso importante nas explicaes         as mulheres a ter relaes ntimas com homens.
dessas diferenas e desigualdades  a que se       O lesbianismo  encarado com freqncia como
formou entre, por um lado, os que enfatizam a      uma alternativa desejvel.
importncia dos compromissos domsticos da             A psicanlise forneceu os conceitos que al-
mulher na reduo de sua capacidade de par-        gumas feministas marxistas desejavam para co-
ticipar efetivamente do trabalho assalariado e,    adjuv-las na anlise da sexualidade. Elas tm
por outro, os que enfatizam as estruturas dis-     tentado descartar-se das partes sexistas da an-
criminatrias dentro do mercado de trabalho e      lise de Freud e utilizar conceitos centrais, como
do estado.                                         o do inconsciente (Mitchell, 1975). A sexuali-
    Tericos sociais mais prximos do marxis-      dade  vista como intimamente ligada  iden-
mo tendem a enfatizar o papel do capital e da      tidade de gnero e como crucialmente formada
famlia na subordinao das mulheres no mer-       por experincias da primeira infncia. Outras
cado de trabalho (Beechey, 1977). Os econo-        tm usado uma crtica de Freud como base de
mistas das correntes predominantes tambm          explicaes radicalmente diferentes da sexuali-
tendem a se concentrar na relevncia das con-      dade particular das mulheres (Irigaray, 1985).
dies domsticas da mulher, mas, diferente-           Os conceitos que Foucault (1976) introduz
mente dos marxistas, articulam isso como resul-    so outro caminho pelo qual os tericos sociais
tado da opo livre e racional das mulheres de     tm buscado fornecer uma explicao da sexua-
se engajarem no trabalho domstico.                lidade. Esta  mais uma vez encarada como
    A nfase nas estruturas discriminatrias do    socialmente construda, agora como um discur-
mercado de trabalho e do estado origina-se,        so.
caracteristicamente, dos tericos dos sistemas
duais e das feministas liberais. Os autores de     Violncia
textos sobre sistemas duais combinam uma an-          A conscincia da extenso e do significado
lise feminista radical das tentativas dos homens   da violncia masculina contra as mulheres  um
de subordinar as mulheres com uma anlise          dos produtos da recente onda feminista. Fe-
socialista do capital. Aqui, a estruturao do     ministas radicais tm analisado essa violncia
mercado de trabalho, representada na segrega-      como uma forma de controle social sobre as
o empregatcia por sexo,  encarada como o       mulheres. Destacam, de forma tpica, o sig-
resultado de uma luta entre capital, trabalha-     nificado e a crescente incidncia desses atos. As
dores (homens) organizados e mulheres (Har-        feministas socialistas tm tido muito menos a
tmann, 1979). As feministas liberais, de manei-    dizer sobre essa violncia. As anlises liberais
ra tpica, concentram-se nos problemas da cul-     tm destacado as falhas do estado na "proteo"
tura masculina no local de trabalho e nas difi-    das mulheres e levantado questes sobre como
culdades em obter a igualdade de direitos.         reformar esse estado de coisas.
Sexualidade                                        Cultura
   A relevncia da sexualidade para as relaes        A cultura tem sido encarada tradicionalmen-
de gnero tem sido tema de muitos debates.         te como de importncia capital na construo
Algumas feministas radicais encaram a sexua-       das diferenas de gnero. A teoria da socializa-
                                                                                       genocdio    335


o tem sido popular em suas explicaes de         sua condio, devendo reconhecer, em vez de
como meninos e meninas so tratados de forma        negar, a diferena.
diferente desde a tenra idade e conseqente-
                                                    Leitura sugerida: Cockburn, C. 1983: Brothers  Ei-
mente crescem com diferentes caractersticas        senstein, H. 1984: Contemporary Feminist Thought 
sociopsicolgicas. A educao  encarada como       Hooks, B. 1984: Feminist Theory: From Margin to
parte importante desse progresso, atraindo me-      Center  Jaggar, A. e Rothenberg, P.S., orgs. 1978
ninos e meninas para diferentes atividades e        (1984): Feminist Framework, 2ed.  Kelly, L. 1988:
realizaes.                                        Surviving Sexual Violence  Oakley, A. 1985: Subject
                                                    Woman  Spender, D. 1983: Women of Ideas  Stan-
    Anlises mais recentes de gnero e cultura      worth, M., org. 1986: Reproductive Technologies
tm-se valido extensamente da teoria literria,      Walby, S. 1990: Theorizing Patriarchy  Weedon, C.
com o desconstrucionismo de Derrida (1967)          1987: Feminist Pratice and Poststructuralist Theory.
(ver DESCONSTRUO), e tambm da anlise do                                             SYLVIA WALBY
DISCURSO de Michel Foucault. A nfase passou
da experincia de aprendizado do indivduo          genocdio Este conceito foi cunhado por Ra-
para a criao dos textos, representaes ou        phael Lemkin (1944) para se referir ao objetivo
discursos que constroem nossas noes de g-        principal da poltica populacional alem na Se-
nero (Weedon, 1987). Essa obra fala com fre-        gunda Guerra Mundial: exterminar completa-
qncia da diferena, tanto entre homens e mu-      mente os judeus -- o principal alvo de persegui-
lheres quanto tambm entre as mulheres. De          o durante todo o domnio alemo -- e os
fato, alguns trabalhos que enfatizam as diferen-    ciganos, alm de dizimar e reduzir seletivamen-
as entre as mulheres chegaram a problematizar      te algumas naes eslavas. Embora o genocdio
o prprio conceito de "mulher" como categoria       tenha ocorrido no decorrer da histria, ele cha-
unitria.                                           mou a ateno contempornea devido  (a) sua
                                                    utilizao calculada e repetida no sculo XX e
Estado                                               sua justificao por meio de ideologias totali-
    O estado costuma ser analisado como ele-        trias; (b)  racionalizao de sua utilizao; e
mento contribuinte para a diferenciao e des-      (c) ao crescimento e  especificao de normas
igualdade de gnero. Por exemplo, as feminis-       de direitos humanos.
                                                        O crime de genocdio foi uma especificao
tas radicais tm analisado a falta de interveno
                                                    dos crimes contra a humanidade -- um crime
do estado quando os homens cometem atos de
                                                    internacional de acordo com a Conveno de
violncia criminosa contra mulheres (Hanmer
                                                    Haia de 1907 -- que constituiu uma das acusa-
e Saunders, 1984), enquanto as feministas so-
                                                    es contra os lderes nazistas no Tribunal Mi-
cialistas tm examinado o modo como o estado        litar Internacional de Nurembergue em 1946.
de bem-estar reproduz a forma tradicional de lar    Genocdio e conspirao para comet-lo so
familiar (McIntosh, 1978).                          hoje um crime de acordo com a lei interna-
    As mulheres tm buscado com freqncia          cional, em tempo de paz ou de guerra, em
mudar sua posio no mundo, e temos tido            prtica domstica ou entre naes, sob a Con-
inmeras ondas de atividade feminista. As duas      veno da ONU sobre a Preveno e Punio
mais conhecidas so as de 1850-1918 e a atual,      do Crime de Genocdio (UNGC), que entrou em
que comeou no final dos anos 60 nos Estados        vigor em 1951. No entanto nenhum genocdio
Unidos e um pouco mais tarde na Gr-Bretanha        foi julgado de acordo com a UNGC, apesar da
(ver MOVIMENTO DE MULHERES). No existe um          citao de mais de 18 casos por estudiosos,
movimento monoltico, mas antes uma mul-            advogados e organizaes de direitos humanos
tiplicidade de estratgias feministas e uma cor-    (ver Fein, 1990; Harff e Gurr, 1990). A impos-
respondente complexidade nas reaes antife-        sibilidade de as Naes Unidas e de naes
ministas motivadas por gnero. Por exemplo, s      isoladas abrirem processos por genocdio tem-
vezes as feministas afirmam que o melhor ca-        se relacionado: (a) a falhas estruturais da ONU;
minho para o progresso das mulheres  lutar         (b) ao paradoxo jurdico da conveno; e (c) s
pelos mesmos direitos e privilgios e por serem     muitas utilizaes polticas que os estados en-
tratadas do mesmo modo que os homens, en-           contraram para o genocdio no sculo XX. Con-
quanto outras afirmam que as mulheres devem         forme escreveu um observador em relao a (a)
exigir ateno especial s especificidades de       e (c): "O estado territorialmente soberano ar-
336   genocdio


vora-se, como parte integrante de sua soberania,     difundir o terror entre inimigos reais ou poten-
o direito de cometer genocdio ou de se envol-       ciais; e (c) conseguir riqueza econmica. Sin-
ver em massacres genocidas contra povos sob          tetizando a formulao desses dois autores e as
o seu domnio, e (...) as Naes Unidas, para        tipologias de outros, podemos distinguir quatro
todos os fins prticos, defende esses direitos"      tipos: retaliatrio, desptico, desenvolvimen-
(Kuper, 1981, p.161). A ONU nunca instalou           tista e ideolgico.
uma corte penal internacional, e a imposio de          Tanto os tericos estruturais quanto os so-
sanes depende do consenso entre as grandes         ciopsicolgicos em geral concordam em que
potncias. Assim -- e este  um exemplo de (b)       uma precondio necessria, mas no suficien-
--, embora exista a possibilidade terica de tal     te, para a vitimizao  a preexistente "defini-
corte penal, a UNGC conta principalmente com         o da vtima como fora do universo da obriga-
os estados signatrios para abrir processos por      o ou responsabilidade" (Fein, 1979, cap.1):
genocdio, apesar do fato de o estado ser, com       um estranho ou estrangeiro, um inimigo ou
maior freqncia, aquele que perpetra o geno-        intruso, um grupo de prias ou uma comunidade
cdio.                                               nacional identificada como estrangeira, sem ne-
    O estudo de genocdios especficos -- prin-      nhum estado-nao estrangeiro protetor para
cipalmente a "Soluo Final da Questo Judai-        apoi-la, e povos indgenas que nunca foram
ca" de 1939-45 (ver ANTI-SEMITISMO) e o geno-        concebidos como fazendo parte da sociedade
cdio armnio de 1915 --, juntamente com o           organizada. Os estruturalistas concentram-se
estudo comparativo de genocdios que come-           na interao de condies prvias que fazem do
ou nos anos 70, sofreu um crescimento ex-           genocdio um resultado provvel. Entre estas
ponencial nos anos 80. Existe discordncia en-       incluem-se crises de declnio e de legitimidade
tre os estudiosos a respeito da definio e dos      do estado, a subida ao poder de regimes revo-
melhores mtodos de explicao e anlise. As         lucionrios e totalitrios, as implicaes de
discordncias quanto  definio concentram-         ideologias exclusivas nacionalistas, fascistas e
se na utilidade e justificativa da definio de      comunistas, a disputa pelo poder entre grupos
genocdio da UNGC, especialmente a noo de          em novos estados e a abertura de novas terras
inteno e a inclusividade de grupos de vtimas      para o desenvolvimento ou a mera pilhagem.
estipuladas. De acordo com a UNGC, genoc-           Finalmente, existem em geral condies co-
dio  "qualquer dos seguintes atos [comeando        muns que facilitam ou permitem o genocdio:
com o assassinato de membros de grupos] co-          guerras que tornam as vtimas menos visveis e
metido com a inteno de destruir, no todo ou        improvvel, se no impossvel, que outros es-
em parte, um grupo nacional, tnico, racial ou       tados tentem proteg-las; e o apoio de impor-
religioso, como tal".                                tantes potncias mundiais e regionais aos per-
    Muitos estudiosos hoje utilizam o termo          petradores. Fein concebe o clculo do genoc-
genocdio para se referir ao extermnio delibe-      dio como uma escolha racional (depois de levar
rado de qualquer grupo, incluindo grupos pol-       em conta todas as outras precondies), en-
ticos (e no-violentos) e classes sociais. Uma       carando o fator precipitador como sendo a mu-
nova definio pretende seguir paralela aos ter-     dana nos custos e benefcios previstos do ge-
mos da definio da UNGC: "Genocdio  a             nocdio: isso brota de "uma crise ou oportuni-
ao sistemtica e intencional por parte de um       dade considerada como causada ou impedida
perpetrante para destruir uma coletividade, di-      pela vtima" (Fein, 1990).
reta ou indiretamente, atravs da interdio da          As teorias sociopsicolgicas concentram-se
reproduo biolgica e social de membros do          nos estados e nos motivos ntimos dos per-
grupo, mantida independentemente da rendio         petrantes, que interagem com os eventos exter-
ou falta de ameaa oferecida pelas vtimas"          nos para lev-los a culpar os grupos de vtimas
(Fein, 1990).                                        pelos seus problemas, a seguir lderes autorit-
    As explicaes de genocdio recorrem a v-       rios e a matar sem culpa nem pudor (para uma
rios tipos de anlise: histrica, estrutural e so-   anlise em nveis mltiplos, ver Staub, 1989).
ciopsicolgica. O genocdio  encarado por               O genocdio tem tido maior incidncia, no
Chalk e Jonassohn (1990) como surgindo pri-          mundo do ps-guerra, nos novos estados, es-
meiramente da prtica de imprios buscando (a)       pecialmente estados com governos comunistas
eliminar uma ameaa real ou potencial; (b)           ou autoritrios. Antes de 1950 a maior parte dos
                                                                                     geografia humana      337


perpetrantes no sculo XX foi composta de                   Uma caracterstica comum crucial a esses te-
estados totalitrios, incluindo importantes po-             mas -- a conduta situada da prtica por agentes
tncias europias: principalmente a Alemanha                humanos operando dentro de constelaes es-
nazista e a Unio Sovitica.  possvel relacio-            pecficas de relaes sociais -- ficou muito
nar padres recentes de genocdio tanto ao m-              tempo sem ser reconhecida e ajudou a resultar
bito das opes dos estados multitnicos no                 em um discurso disciplinar que, em sua maior
sentido de reestruturar suas sociedades -- ex-              parte, se esquecia da teoria social; ainda que
pulso e eliminao so um modo radical de                  Vidal de la Blache e seus companheiros pra-
evitar a resoluo de um conflito -- quanto ao              ticantes de la gographie humaine encarassem
uso crescente da represso e do terror como                 os genres de vie, os modos de vida, caracters-
meio de controle social em estados da sia,                 ticos de regies, junto com as interaes de
frica e Amricas Central e Latina.                         seres humanos com seu meio fsico, como fe-
   Dois interesses recorrentes unem muitos                  nmenos, antes de tudo, sociais.
cientistas sociais que se preocupam com a ques-                 Os adeptos do determinismo ambiental, o
to do genocdio: o reconhecimento dos geno-                ponto de vista mais amplamente predominante
cdios passados e a preveno dos futuros. Em               durante o sculo XX, ignoraram a existncia de
anos recentes, cientistas sociais comearam a               relaes sociais e insistiram em que as prticas
ponderar sobre como medir e monitorar in-                   de vida, as caractersticas culturais, os atributos
dicadores de graves violaes dos direitos hu-              fsicos e as habilidades mentais humanas varia-
manos (incluindo assassinatos polticos e pa-               vam geograficamente devido a diferenas no
dres de discriminao que possam ser um                    ambiente natural (e, ao faz-lo, legitimaram a
prefcio ao genocdio), a propor "sistemas de               persistncia do imperialismo europeu e norte-
alarme antecipados" e a avaliar os estados e as             americano). A "geografia cultural", tal como
"minorias em risco" (Gurr e Scarritt, 1989). Ver            desenvolvida por Carl Sauer e seus seguidores
tambm EUGENIA.                                             a partir de meados dos anos 20, evitava o social
                                                            adotando a viso superorgnica de CULTURA
Leitura sugerida: Chalk, F. e Jonassohn K. 1990: The
History and Sociology of Genocide  Charny, I.W., org.
                                                            proposta por Alfred Kroeber e outros antrop-
1988: Genocide: a Critical Bibliographic Review             logos, atribuindo  cultura um status ontolgico
 Fein, H. 1979: Accouting for Genocide  1990: "Ge-          e determinativo independente, removendo-a do
nocide: a sociological perspective". Current Sociology      mbito da interveno e do conflito humano e
38,1  Gurr, T. e Scarrit, J. 1989: "Minorities at risk: a   permitindo-lhe gerar magicamente suas pr-
global survey". Human Rights Quarterly 11, 3, 375-          prias formas. Nos anos 40 e 50 os que buscaram
405.  Harff, B. e Gurr, T. 1990: "Victims of the state:
genocides, politicides and group repression since
                                                            o que Richard Hartshorne chamou de "diferen-
1945". International Review of Victimology 1, 1-19          ciao a-real" abandonaram a teoria social atra-
 Kuper, Leo 1981: Genocide: its Political Use in the        vs de uma concentrao na a-realmente mpar
Twentieth Century  Lemkin, R. 1944: Axis Rule in            inter-relao de fenmenos direta ou indireta-
Occupied Europe  Staub, E. 1989: The Roots of Evil.         mente ligados  terra, embora enfatizando o
                                           HELEN FEIN       varivel e o diferente, e tambm atravs de uma
                                                            desateno a estruturas e processos sociais geo-
geografia humana Em seu estudo da ocu-                      graficamente extensos. Finalmente, a "revolu-
pao humana da superfcie da Terra, os esfor-              o" quantitativa do final dos anos 50 e dos anos
os empricos dos gegrafos humanos no de-                  60 trouxe consigo um novo e rigoroso empiris-
correr do sculo XX tm sido extremamente                   mo -- agora concentrando-se no estatistica-
heterogneos, mas quase sempre estiveram as-                mente mensurvel, em vez do que podia ser
sociados a trs temas subjacentes e que freqen-            observado em campo; uma preocupao con-
temente se sobrepem: o papel dos seres huma-               sidervel com modelos originada na clssica
nos na transformao da natureza, na modifica-              teoria da locao e na economia neoclssica; a
o fsica da superfcie da Terra; a organizao            busca de uma ordem geomtrica; a preocupao
do espao por unidades societais e o impacto da             com a forma espacial, mais que com o processo;
organizao espacial sobre a interao social e             um desprezo positivista por teorias que lidavam
econmica; e as atividades humanas ou aspec-                com relaes inquantificveis; e, como resul-
tos da paisagem construda que caracterizam                 tado de tudo isso, pouca ateno a questes
cidades, regies ou outras reas delimitadas.               tericas de carter cultural e social.
338   geografia humana


    No contexto da Guerra do Vietn e da cas-       humana so elas prprias produtos sociais; que,
cata de movimentos sociais populares em pa-        no desenrolar da histria, as estruturas sociais e
ses capitalistas altamente industrializados, sur-   espaciais interagem mutuamente de forma
giu uma crtica interna da geografia humana         constante. Ao faz-lo, e quando de um modo ou
predominante que finalmente veio a enfrentar a      de outro reconhecem a interao transformado-
dimenso social terica da temtica dessa dis-      ra de intermediao e estrutura, proporciona-
ciplina atravs da introduo de uma perspec-       ram um novo conjunto de significados para a
tiva marxista. Durante os anos 70, seguindo os      famosa frase de Marx de que as pessoas "fazem
esforos pioneiros de David Harvey, uma cres-       sua prpria histria, mas no exatamente como
cente minoria de gegrafos humanos comeou,         lhes agrada; no a fazem sob circunstncias
terica e empiricamente, a reinterrogar o mun-      escolhidas por si mesmas, mas sob circunstn-
do da organizao espacial e da diferenciao       cias diretamente encontradas, dadas e trans-
regional em termos da economia poltica, do         mitidas do passado".
desenvolvimento desigual e da "lgica do capi-          Com sensibilidades epistemolgicas des-
tal". Comearam a explorar o impacto do capi-       pertadas pela postura cptica dos filsofos ps-
talismo contemporneo sobre muitos dos fen-        modernistas para com padres absolutos de
menos urbanos e rurais, muitas das relaes         verdade, muitos dos que contribuem para o
homem-terra que eram tradicionalmente objeto        novo discurso geogrfico humano em questo
de escrutnio disciplinar, e comearam -- de        -- seguindo as posies de Keat e Urry (1975)
forma em geral combativa -- a examinar a            e Sayer (1984) -- tornaram-se adeptos do REA-
dimenso geogrfica das questes de justia         LISMO devido  sua afirmao de que a cincia
social que anteriormente estavam acima do m-        possvel e necessria;  sua alegao de que as
bito de uma indagao aceitvel.                    estruturas, com suas relaes e foras causais
    Na medida em que os estudiosos inspirados       impalpveis, existem para serem identificadas; e
em Marx se tornaram alvo de crtica na dis-         s indicaes que o realismo fornece para evitar
ciplina e se abriram ao debate interno, e em que    concluses causais injustificadas no estudo em-
o prprio Harvey (1982), se expandiu ele pr-       prico de sistemas sociais abertos e complexos.
prio at os "limites do capital", indo alm de          O novo discurso resultou em inmeros es-
Marx ao enfatizar a espacialidade do capital e      tudos teoricamente informados e elegantes. Al-
conclamar um "materialismo histrico-geogr-        guns dos mais importantes examinam as ar-
fico", inmeros gegrafos humanos tornaram-         ticulaes cambiantes do local e do global sob
se diretamente engajados em desenvolvimentos        o capitalismo do final do sculo XX e os modos
sociais tericos mais amplos. Eles embarcaram       como as relaes entre os sexos, as relaes de
na reformulao da teoria social e um novo          classe, outras relaes de poder, os detalhes da
discurso comeou a tomar forma, especialmen-        vida cotidiana e elementos da cultura so rees-
te nas pginas das revistas Antpode e Society      truturados localmente na medida em que dife-
and Space e em uma onda de livros importantes,      rentes formas de capital so inexoravelmente
dos quais apenas uns poucos aparecem na lei-        reestruturadas em termos globais. Avanos par-
tura sugerida abaixo. s vezes apelando para        ticularmente significativos foram feitos no m-
figuras disseminadas to populares quanto Pier-     bito da geografia industrial, em que houve uma
re Bourdieu, Michel Foucault e Anthony Gid-         nova concentrao na reestruturao e nos mer-
dens, os gegrafos humanos crticos que par-        cados de trabalho regionais, nos complexos de
ticipam desse discurso tm, de vrias formas,       produo concentrados resultantes da acumula-
afirmado que a histria no deve mais ser pri-      o flexvel e no papel central de uma indus-
vilegiada nas anlises sociais; que a geografia     trializao geograficamente especfica em cres-
e a histria tm igual status ontolgico; que o     cimento sob o capitalismo (Massey, 1984; Scott
espacial, o temporal e o social so sempre in-      e Storper, 1986; Storper e Walker, 1989). Atra-
separveis; que tudo que  social est situado      vs de todas essas evolues, a geografia huma-
em cho firme e dentro de um contexto depen-        na crtica no tem escapado ao questionamento
dente; que a dinmica histrica dos sistemas        ps-modernista da linguagem e representao
sociais deve ser vista em um contexto geogr-       como resultado de questes repetidamente le-
fico concreto; que as condies, ou estruturas,     vantadas por Gunnar Olsson desde 1980 (Ols-
sociais que capacitam e restringem a atividade      son, 1980).
                                                                                gestalt, psicologia da   339

Leitura sugerida: Cosgrove, D. 1985: Social For-          sries de estmulos so espontaneamente agru-
mation and Symbolic Landscape  Gregory, D. e Urry,        padas em padres significativos. Essas leis in-
J., orgs. 1985: Social Relations and Spatial Structures
 Gregory, D. e Walford, R., orgs. 1989: Horizons in
                                                          cluem princpios como "construo fechada e
Human Geography  Harvey, D. 1985: Consciouness            boa gestalt", por meio dos quais as partes que
and the Urban Experience  Harvey, D. 1989: The Con-       faltam em uma srie de estmulos so automa-
dition of Postmodernity: an Enquiry into the Origins of   ticamente "preenchidas" por aquele que per-
Cultural Change  Peet, R. e Thrift, N., orgs. 1989: New   cebe. Os gestaltistas afirmavam que essas leis
Models in Geography: the Political-Economy Perspec-       da percepo no so aprendidas e, a esse res-
tive, 2 vols.  Pred, A. 1990: Making Histories and
Producing Human Geographies: the Local Transfor-          peito, suas idias entravam em conflito com os
mation of Pratice, Power Relations and Consciousness      dogmas do COMPORTAMENTALISMO.
 Soja, Edward E.W. 1989: Postmodern Geographies:              As teorias de aprendizado da gestalt tambm
The Reassertion of Space in Critical Social Theory        diferiam das dos comportamentalistas. Os ges-
Thrift, N. 1983: "On the determination of social action   taltistas enfatizavam o papel da percepo, afir-
in space and time". Society and Space 1, 23-57  Watts,
M.J. 1985: Silent Violence: Food, Famine and Peasan-
                                                          mando que os problemas so resolvidos quando
try in Northern Nigeria.                                  captados em sua totalidade. Khler ilustrou es-
                                         ALLAN PRED
                                                          sas idias em seu clssico estudo dos chimpan-
                                                          zs. Colocavam-se bananas imediatamente fora
gerncia Ver ADMINISTRAO, CINCIA DA; RE-               de alcance, mas os chimpanzs repentinamente
VOLUO GERENCIAL.                                        apreendiam o problema ou viam a gestalt total;
                                                          eles ento usavam varetas para alcanar os ob-
gestalt, psicologia da O movimento de ges-                jetos distantes (Khler, 1925).
talt em psicologia teve origem na Alemanha, na                Embora as noes bsicas da psicologia da
primeira parte do sculo. Os psiclogos da ges-           gestalt tenham sido formuladas na Alemanha,
talt afirmavam que o todo psicolgico  maior             os trs principais gestaltistas iriam terminar
que a soma de suas partes: os psiclogos deve-            suas carreiras nos Estados Unidos. Werthei-
riam analisar a experincia em termos de pa-              mer e Koffka, como judeus, fugiram da Ale-
dres totais de estmulos, ou gestalts, em vez            manha nazista. Khler foi um dos pouqus-
de buscar dividi-los em partes componentes.
                                                          simos psiclogos alemes no-judeus a se
Embora muitas de suas idias fossem contes-
                                                          oporem publicamente ao nazismo. Em 1935
tadas pelos comportamentalistas, elas atual-
                                                          ele pediu demisso de seu cargo no Instituto de
mente esto integradas  moderna cincia cog-
                                                          Psicologia da Universidade de Berlim e partiu
nitiva.
                                                          para a Amrica.
    As trs figuras mais importantes no movi-
mento da gestalt foram Max Wertheimer (1880-                  As idias gestaltistas tm exercido um efeito
1943), Kurt Koffka (1884-1941) e Wolfgang                 direto sobre o desenvolvimento da PSICOLOGIA
Khler (1887-1967). Khler explicou o termo               SOCIAL. Idias a respeito da estrutura das ati-
terico bsico, "gestalt": "alm da conotao de          tudes e da influncia destas sobre a percepo
forma, como atributo das coisas, a palavra tem            tornaram-se influentes no estudo psicolgico
o significado de uma entidade concreta per se,            do PRECONCEITO e da dinmica de grupo. Em
que tem, ou pode ter, uma forma como uma de               anos recentes, as noes de gestalt foram reto-
suas caractersticas" (Khler, 1947, p.104). A            madas por cientistas cognitivos. Existe uma
teoria da gestalt indicava que o sistema de               afinidade entre as idias dos gestaltistas e as de
percepo registra as formas inteiras dos obje-           David Marr (1945-1980), que analisou o modo
tos, em vez de seus elementos. Os gestaltistas            como os que percebem selecionam sries de
freqentemente ilustravam esse princpio com              estmulos em "esboos primrios" (Marr,
o exemplo da msica.  possvel reconhecer                1982). H uma conexo lingstica entre a psi-
uma melodia ainda que tocada numa tonalidade              cologia da gestalt e uma forma de terapia co-
pouco familiar. As notas separadas no podem              nhecida como "terapia gestltica". No entanto
ser reconhecidas, pois no foram ouvidas antes.           os conceitos frouxamente definidos da terapia
Portanto,  o padro geral, ou gestalt, que              gestltica, com seus temas anticientficos, pou-
reconhecido.                                              ca relao tm com as idias da psicologia da
    Os gestaltistas atriburam-se a tarefa de for-        gestalt (Henle, 1986).
mular as "leis da percepo", atravs das quais               Ver tambm PSICOLOGIA.
340   globalizao

Leitura sugerida: Ellis, W.D., org. 1938: A Source-   de MacLuhan foi captar uma propriedade da
book of Gestalt Psychology  Koffka, K. 1935: Prin-    cultura moderna, ou seja, a possibilidade de
ciples of Gestalt Psychology  Khler, W. 1967: The
Task of Gestalt Psychology.
                                                      comunicao global, e afirmar que a recepo
                                                      instantnea de imagens e vozes distantes muda-
                                  MICHAEL BILLIG      va o contedo da cultura. Sua idia pressagiou
                                                      uma nova concentrao de interesse na comu-
globalizao Este  o processo pelo qual a            nicao mundial como um fator transformador
populao do mundo se torna cada vez mais             da vida local, de relevncia semelhante ao im-
unida em uma nica sociedade. A palavra s            pacto dos mercados capitalistas. A teoria mar-
entrou em uso geral nos anos 80. As mudanas          xista do desenvolvimento do capitalismo, tal
a que ela se refere tm alta carga poltica e o       como desdobrada por Immanuel Wallerstein
conceito  controvertido, pois indica que a cria-     (1974) em sua teoria do SISTEMA MUNDO, teve
o de uma sociedade mundial j no  o projeto       como imagem fundamental um centro ou cerne
de um estado-nao hegemnico, e sim o resul-         estendendo seu poder sobre regies perifricas, e
tado no-direcionado da interao social em           ao mesmo tempo ligando-as. A imagem de in-
escala global. Desse modo, ela enquadra na            fluncia na idia de cultura global parece-se muito
mesma discusso os temas da SOCIEDADE PS-IN-         mais com a da precipitao decorrente de uma
DUSTRIAL e do DESENVOLVIMENTO E SUBDESEN-             exploso. Ela d um mpeto extra aos que encaram
VOLVIMENTO. A palavra firmou-se em campos             a cultura como um fator independente na criao
to diversos quanto a economia, a geografia, o        de um mundo nico (Robertson, 1990).
marketing e a sociologia, o que indica que seu            Cultura e mercado juntaram-se nos anos 70,
uso  mais que uma questo de moda pas-               nas atividades das corporaes multinacionais
sageira.                                              que buscavam maximizar as vendas mundiais
    Crticos desse conceito destacam o fato de        de seus produtos atravs da publicidade global.
que as idias de seres humanos pertencendo a          No caso talvez mais famoso, a Coca-Cola ofe-
uma nica espcie, habitando um nico mundo           receu a imagem de uma reunio de pessoas de
ou compartilhando princpios universais no           todas as naes e de todas as cores, cantando
so novas. Temos  nossa disposio os regis-         uma msica que falava de "perfeita harmonia".
tros de milhares de anos de contato entre os          A "globalizao" tornou-se conhecida como
grandes imprios da histria, e um sistema eco-       estratgia de mercado logo depois, embora con-
nmico envolvendo a maior parte da populao          tinue a haver controvrsia quanto a exatamente
do mundo pode remontar a vrias centenas de           at que ponto uma estratgia global leva em
anos. Ao mesmo tempo em que aceitam esses             conta as diferenas culturais. Ao nvel de corpo-
fatos, os preponentes do conceito afirmam que         rao, a multinacional, com seu centro (geral-
ocorreu uma mudana qualitativa nos ltimos           mente nos Estados Unidos) e suas filiais em todo
30 anos de histria do mundo. O universalismo         o mundo, d lugar  transnacional, em que ex-
no pensamento social, o INTERNACIONALISMO no          patriados de muitos pases dedicam-se s ativi-
pensamento poltico, o comrcio mundial, o            dades de uma nica corporao em toda a Terra.
imperialismo, as guerras mundiais podem ser               Para os economistas, globalizao  uma
encarados como preliminares a um processo             palavra que ficou associada  dissoluo das
que  mais abrangente e penetrante.                   barreiras nacionais  operao de mercados de
    O uso da palavra "global"  um indicador da       capital que teve incio no comeo dos anos 80.
mudana ocorrida. Nos anos 60 ela passou a ser        Isso resultou em negcios simultneos nos prin-
usada para significar "pertencente ao mundo",         cipais mercados de Nova York, Londres, T-
ou "mundial". O Dictionary of Modern English          quio e Frankfurt, de tal forma que o movimento
Usage, de Fowler (1965), considerou-a um neo-         dos mercados se encontra evidentemente fora
logismo desnecessrio, sugerindo "mundial"            do mbito do controle de qualquer agncia na-
como alternativa. Mas o dicionrio Webster, o         cional. O futuro do sistema capitalista j no
Oxford English e o Larousse francs aceitaram-        pode ser visto como ligado ao destino de uma
na j no incio dos anos 70. O Oxford cita sua        nao modernizante em particular, os Estados
utilizao mais famosa, feita por Marshall Mc-        Unidos. Isso indica uma mudana qualitativa a
Luhan (1962) num conceito que se tornou em-           partir de um processo encarado, de forma varia-
blemtico, o de "aldeia global". A perspiccia        da, como MODERNIZAO ou imperialismo, ru-
                                                                                 golpe de estado     341


mo a uma transformao abrangente na qual          nal de capitalistas, gerentes, burocratas, astros
novos agentes da mudana social global esto       da mdia e dos esportes, no outro. Todos esses
potencialmente ativos em qualquer parte do         fatores levam ao reconhecimento de que temos
mundo. Os pases do Extremo Oriente, o mundo       que ultrapassar a interao do econmico, do
islmico ou a Europa podem ocupar o centro do      cultural e at mesmo do poltico, e visualizar
palco a qualquer momento, produzindo reper-        claramente a globalizao como um processo
cusses para as vidas das pessoas em reas do      de transformao social no mais amplo sentido
mundo totalmente distantes.                        possvel. O tratamento mais substancial do te-
    Em ltima anlise, so os efeitos transfor-    ma, at o momento, foi dado por Anthony Gid-
madores da globalizao sobre as vidas dos         dens (1990).
indivduos e suas relaes entre si que cons-
                                                   Leitura sugerida: Albrow, M. e King, E., orgs. 1990:
tituem o teste de utilidade do conceito. Esses     Globalization, Knowledge and Society  Featherstone,
efeitos, por sua vez, esto diretamente relacio-   M., org. 1990: Global Culture: Nationalism, Globaliza-
nados aos argumentos sobre o ps-modernismo        tion and Modernity  Giddens, A. 1990: The Conse-
e a possibilidade de se compreender a idia de     quences of Modernity  King, A. 1990: Global Cities:
cultura ps-moderna. Um dos aspectos fre-          Post-imperalism and the Internationalization of Lon-
qentemente observados no ps-modernismo          don  Sklair, L. 1991: Sociology of the Global System.
a justaposio de fragmentos de vrias fontes                                         MARTIN ALBROW
tnicas e histricas dentro de uma mesma es-
trutura cultural, seja em arquitetura, msica,     golpe de estado Definido de forma restrita
moda ou culinria, mas ainda se discute se esse    por Henry R. Spencer como "uma mudana de
tipo de colagem cultural deve ser visto como       governo efetuada pelos detentores do poder
uma reao ao carter racional da modernidade      governamental em desafio  constituio legal
ou como um estgio em direo a uma nova           do estado" (1963, p.508), o conceito de golpe
sntese global. (Ver tambm MODERNISMO E PS-      de estado tenderia, assim, a abranger apenas a
MODERNISMO.)                                       categoria dos golpes executivos. Conforme su-
    A globalizao  atacada pelos que a en-       blinhado por M.N. Hagopian (1975, p.6), a
caram como uma nova forma de homogeneiza-          desvantagem de tal definio  excluir os golpes
o da cultura, uma extenso da CULTURA DE         fomentados por grupos no-pertencentes  elite
MASSA que aplainou a variedade de culturas         do poder (golpes paramilitares) ou que, apesar
locais europias do sculo XIX. Ela est ligada    de serem parte do aparelho do estado, no de-
claramente, contudo, ao avano do multicul-        tm necessariamente o poder poltico (golpes
turalismo,  demanda por pluralismo cultural       militares).
em estados unitrios e a movimentos de auto-           Diferentemente das revolues ou das insur-
determinao nacional. O processo que resul-       reies militarizadas, que tambm visam a mu-
tou em estados-naes trabalhando no sentido       dana do governo (ver REVOLUO), um golpe
da formao de agncias supranacionais, como       de estado jamais convoca a mobilizao das
as Naes Unidas, e de acordos intergover-         massas. Essa caracterstica bsica no exclui
namentais, como o Acordo Geral sobre tarifas       uma "eventual interdependncia emprica dos
e Comrcio (General Agreement on Tariffs and       fenmenos", um golpe que pode muito bem
Trade -- GATT) ou os acordos da Eco 92, no         ocorrer "no incio de uma revoluo ou durante
Rio de Janeiro, facilitou as viagens por todo o    ela" (Chazel, 1985, p.637). A segunda caracte-
mundo, ajudou os fluxos migratrios e colocou      rstica reside na sua forma de execuo: prepa-
em destaque questes sobre direitos de mino-       rado e executado por um nmero pequeno de
rias. A sensao de um destino comum para a        pessoas, um golpe de estado exige acima de
humanidade  aumentada pelo reconhecimento         tudo segredo e ao rpida. Dessa forma, ocorre
de questes sobre o meio ambiente global, e o      "a infiltrao de um segmento pequeno, porm
ativismo poltico cada vez mais cruza as fron-     crtico, do aparelho de estado, que  usado para
teiras nacionais com a mobilizao mundial de      afastar o governo do controle do restante" (Lutt-
movimentos sociais. O supranacionalismo,           wak, 1969, p.12). A nfase colocada na mudan-
portanto, opera no plano do engajamento in-        a institucional limitada nem sempre  um fator
dividual com valores globalistas, em um ex-        pertinente. O que  vlido para as sociedades
tremo, e na formao de uma classe internacio-     tradicionais, onde os golpes em geral so cen-
342    gosto


trados em rivalidades pessoais -- estes no so              Kant remonta a Plato, passando por Hume, ela
tanto golpes executivos, mas antes revolues                tem sido surpreendentemente negligenciada
palacianas --, no o  necessariamente para                  pelas cincias sociais. Com efeito, at data re-
outras sociedades: o golpe de estado no Chile                cente, salvo pelas consideraes de Max Weber
em 1973 foi acompanhado por um significativo                 sobre estilizao da vida e pela teoria do consu-
estreitamento da arena poltica. Em outros lo-               mo conspcuo de Thorstein Veblen, o gosto era
cais, ainda que a habilidade estratgica (segredo            a provncia quase exclusiva de filsofos e es-
e ao rpida) do sedicioso seja essencial para              pecialistas em histria ou crtica de arte (Osbor-
o deslocamento dos detentores do poder, ela no              ne, 1970), para no mencionar os bilogos --
 suficiente em si mesma para garantir o sucesso             em suma, era relegado ao domnio da alta cul-
do golpe de estado; o putsch de Kapp na Alema-               tura ou da natureza. Assim, o verbete sobre
nha, em 1920, fracassou em resultado de uma                  gosto na International Encyclopedia of the So-
greve geral. No entanto, o elo entre os golpes               cial Sciences (Wenzel, 1968) trata o gosto, a par
de estado e a capacidade civil de mobilizao                do cheiro, exclusivamente como um fenmeno
continua a ser muito complexo, uma vez que                   fsico-qumico e no contm uma s linha a
no  raro que golpes militares ponham freio a               respeito de suas dimenses sociais.
situaes violentas imputveis, em pases em                     A atitude da moderna cincia econmica 
desenvolvimento, a um sbito mpeto na par-                  tpica do tradicional desprezo social-cientfico
ticipao das massas. Neste caso, a ideologia e              pelo gosto. Ao atribuir s preferncias o status
a organizao dos militares contrastam em ge-                de varivel "exgena", a teoria neoclssica evi-
ral com o baixo nvel de institucionalizao dos             ta a necessidade de estudar sua gnese social,
regimes polticos que caracterizam as socie-                 estrutura e mudana, e reduz o gosto ao resul-
dades pretorianas -- devido  ausncia ou fra-               tado de um processo inteiramente individual de
queza de instituies polticas efetivas, foras             aprendizagem interna, como na hiptese de
sociais defrontam-se abertamente e cada qual                 "cultivao" de Tibor Scitovsky. Em seu cle-
emprega meios que refletem as suas capaci-                   bre artigo "De gustibus non est disputandum"
dades: "os ricos subornam; os estudantes se                  [Gosto no se discute] Stigler e Becker (1977)
amotinam; os operrios fazem greve; a turba faz              chegam ao ponto de sustentar a irrelevncia
manifestaes de protesto e os militares gol-                total do gosto para a anlise social de toda a
peiam" (Huntington, 1968, p.196). No entanto                 conduta humana, afirmando que as diferenas
seria exagero dizer que os golpes militares le-              em comportamento se explicam melhor em ter-
vam apenas a regimes autoritrios: o golpe de                mos estritamente de variaes em preos e rendas.
1974 em Portugal  testemunha do fato de que                 At mesmo fenmenos "baseados no gosto", co-
um putsch pode s vezes abrir o caminho para                 mo o vcio, o comportamento habitual, a publici-
a democracia.                                                dade e a moda, dizem esses autores, podem ser
Leitura sugerida: Chazel, F. 1985: "Les ruptures rvo-
                                                             mais bem estudados  luz da "hiptese das pre-
lutionnaires". In Trait de science politique, org. por J.   ferncias estveis e uniformes".
Leca e M. Grawitz  Hagopian, M.N. 1975: The Phe-                 Incumbia  filosofia e  ESTTICA, portanto,
nomenon of Revolution  Huntington, S.P. 1968: Poli-          explorar o gosto e seus contornos. O pensamen-
tical Order in Changing Societies  Luttwak, E. 1969:         to filosfico do sculo XX sobre o tpico est
Coup d'tat: a Pratical Handbook  Spencer, H.R.              apoiado no tratamento de Kant e pode ser carac-
1963: "Coup d'tat". In Encyclopedia of the Social
Sciences, org. por Edwin R.A. Seligman e Alvin John-         terizado como uma busca da essncia trans-his-
son, vol.3-4, 508-10  Touraine, Alain, 1988: La parole       trica do gosto. Na primeira metade de sua
et le sang.                                                  Crtica do juzo (1790), dedicada ao juzo es-
                                         PATRICE MANN        ttico, Kant formulou assim o "problema do
                                                             gosto": como podemos emitir juzos que pre-
gosto A capacidade de julgar e apreciar o que                tendam ter "validade universal" quando "sua
 belo, excelente, bom ou perfeito e a propenso             base determinante"  essa resposta estritamente
a produzir ou consumir objetos (como, por                    privada aos objetos do mundo que se chama
exemplo, obras de arte) que materializam essa                prazer? Ou  possvel ao gosto, brotando espon-
capacidade constituem os dois aspectos do gos-               taneamente de nossos sentimentos subjetivos,
to. Embora a noo tenha um extenso e ilustre                excluir "a deciso mediante prova" e, ainda
passado no pensamento social ocidental, que de               assim, obter a "necessria concordncia de ou-
                                                                                             gosto     343


tros"? A resposta de Kant foi separar o "gosto      em detalhe a demorada luta que se travou nos
puro" do "prazer vulgar", de modo a isolar a        Estados Unidos "para estabelecer padres es-
disposio desinteressada para "diferenar" e       tticos, para separar a verdadeira arte da pura-
"apreciar" a beleza (Cohen e Guyer, 1982); esta     mente vulgar", de modo que, na virada deste
ltima rejeita a fcil submisso dos sentidos ao    sculo,
comum e ao vulgar (das Vulgre) para celebrar          o gosto que (...) prevalecia era o de um segmento do
a finalidade da forma.  certo que nem todos os        espectro social e econmico que se convenceu, e
filsofos adotaram a noo kantiana de uma             convenceu a nao em geral, de que o seu modo de
faculdade pura de apreciao e distino.              ver, entender e apreciar msica, teatro e arte era o
Wittgenstein (Lectures and conversations, s.d.,        nico legtimo. (Levine, 1988, p.231.)
p.8), por exemplo, assinalou claramente uma
                                                        Criar consumidores culturais como uma co-
concepo antropolgica de gosto, por oposi-
                                                    leo de pessoas que reagem individualmente
o a uma carismtica, quando insistiu em que,
                                                    ao desempenho com discreto "bom gosto" exi-
"para descrever o que se entende por gosto
                                                    gia um trabalho ativo de fragmentao, sujeio
cultural, deve-se descrever uma cultura".
                                                    e segregao de pblicos, atores, estilos e gne-
    Somente nas duas ltimas dcadas a pes-
                                                    ros, o que redundou no sistemtico descrdito
quisa na rea da sociologia da CULTURA quebrou
                                                    do entretenimento e da diverso "populares". O
o monoplio da esttica filosfica e literria,
                                                    gosto em arte convertera-se em um meio de
substituindo a noo essencialista de gosto des-
                                                    separao social ligado  ascenso das novas
ta ltima por uma concepo relacional que
vincula firmemente o gosto  dinmica da de-        classes mdia e superior.
sigualdade de CLASSE. Enquanto o propsito              Mas  em La distinction: critique sociale du
bsico da esttica pura foi ontologizar o gosto     jugement que encontramos uma resposta radi-
na busca de uma entidade platnica com his-         calmente sociolgica ao enigma kantiano do
tria prpria, a sociologia esfora-se por his-     gosto. Pierre Bourdieu (1979) efetua nessa obra
toriciz-lo. Para Norbert Elias (1939), os nossos   uma revoluo copernicana na cincia do gosto
padres de gosto so o produto histrico de um      ao romper com trs princpios centrais da pers-
secular "processo civilizatrio" que envolve a      pectiva dominante. Em primeiro lugar, aboliu a
progressiva multiplicao de restries e proi-     fronteira sagrada que faz da cultura legtima um
bies impostas s funes fsicas do corpo         universo distinto ao repatriar o consumo es-
(comer e evacuar, dormir, sexo e violncia). A      ttico para a esfera dos consumos cotidianos: o
transformao da sensibilidade europia regis-      mesmo conjunto de disposies -- a que Bour-
trada por esses padres ocorreu primeiro nas        dieu chama habitus -- determina a escolha de
cortes reais, antes de vazar aos poucos da aris-    cada um em matria de msica e esporte, pin-
tocracia para as classes mdia e trabalhadora em    tura e penteado, teatro e alimento. Em segundo
virtude do estabelecimento de fortes estados uni-   lugar, contra a ideologia carismtica, Bourdieu
ficados e da conseqente pacificao fsica da      observa no s que as necessidades e capaci-
sociedade. Corbin (1982) desenvolveu argumento      dades culturais so um produto de criao e
anlogo no domnio do cheiro ao revelar como as     educao de classe, mas tambm que existe
modificaes nos padres olfativos -- o que        uma homologia entre a hierarquia de bens e a
considerado ftido e aromtico, que odores so      hierarquia de consumidores, de tal modo que as
considerados tolerveis, que grupos so conside-    preferncias estticas refletem em sua organi-
rados "repugnantes" -- na Frana do sculo XIX      zao a estrutura do espao social. Por conse-
expressaram o crescente conflito entre classes na   guinte, o gosto s pode ser apreendido relacio-
apropriao e adaptao do espao na cidade em      nalmente, dentro de um sistema de oposies e
processo de industrializao.                       complementaridades entre estilos de vida e en-
    De fato, as prprias categorias que usamos      tre correspondentes posies sociais na estrutu-
para estabelecer hierarquias de gosto, como "in-    ra de classes.
telectual" versus "simplrio", tm sua origem no       Em questes de gosto, mais do que em qualquer outra
processo histrico de sacralizao da cultura,         rea, qualquer determinao  negao: os gostos
pelo qual os assuntos e hbitos artsticos das         so, sem a menor dvida, acima de tudo, averses,
classes privilegiadas foram institudos em c-         repugnncia provocada por horror ou intolerncia
none universal de juzo esttico. Levine relata        visceral do gosto de outros. (Bourdieu, 1979, p.56.)
344    governo


    Assim, o "gosto de liberdade" da classe alta,        Meditations on a Hobby Horse and other Essays on the
que confere primazia  maneira sobre a matria           Theory of Art  Schusterman, Richard, org. 1989: Ana-
                                                         lytic Aesthetics.
com base em uma distncia eletiva da neces-
sidade econmica, define-se pela recusa em se                                         LOC J. D. WACQUANT
entregar a impulsos primrios, que ela con-
sidera ser o gosto das classes trabalhadoras.
                                                         governo Ver ESTADO.
Estas evidenciam um "gosto de necessidade",              grupo Um grupo social pode ser definido
o qual expressa um ethos de classe e no cons-           como um agregado de seres humanos no qual
titui, propriamente falando, uma esttica, na            (1) existem relaes especficas entre os in-
medida em que se recusa a separar arte e vida e          divduos que o compreendem e (2) cada in-
a subordinar a funo  forma. Entre eles, o             divduo tem conscincia do prprio grupo e de
gosto da pequena burguesia  manifestao de             seus smbolos. Em suma, um grupo tem pelo
boa vontade cultural determinada pelo hiato              menos uma estrutura e organizao rudimen-
entre seu elevado reconhecimento da legitimi-            tares (incluindo regras e rituais) e uma base
dade da cultura burguesa e sua baixa capacidade          psicolgica na conscincia de seus membros.
de se apropriar dela. A terceira inovao de             Uma famlia, uma aldeia, uma associao es-
Bourdieu consiste em mostrar que a maneira               portiva, um sindicato ou um partido poltico
como o cdigo especfico necessrio para deci-           so, cada qual, um grupo nesse sentido. No
frar obras culturais  adquirido -- atravs da           entanto existem tambm grupamentos mais
imerso imperceptvel no meio ambiente fami-             amplos de indivduos -- uma tribo, uma nao
liar ou via ensino explcito na escola -- sobre-         ou um imprio -- e os socilogos em geral
vive no modo como  usada e afeta profun-                sempre fizeram distino entre essas entidades,
damente todas as prticas culturais. De suma             concebidas como "sociedades inclusivas", e os
importncia, quando assume a forma de cate-              grupos menores existentes dentro delas. Alguns
gorias cognitivas que parecem individuais e no           autores tambm identificaram uma terceira ca-
entanto so desigualmente distribudas entre             tegoria de "quase grupos", caracterizada por
grupos, esse cdigo fornece automaticamente              relaes mais tnues entre os membros, menor
lucros de distino social: funciona como capi-          conscincia de grupo e talvez uma existncia
tal cultural ao naturalizar diferenas de classe.        mais fugaz, indicando, como exemplos desse
    Portanto, longe de ser o repositrio final da        fenmeno, multides ou turbas, agregados por
individualidade espontnea, o gosto resulta ser          idade ou sexo e classes sociais. Mas a fronteira
a forma por excelncia do destino social (amor           entre grupos e quase grupos no  uma coisa
fati), "uma cultura de classe convertida em na-          fixa ou claramente marcada, e a observao de
tureza, isto , corporificada" (Bourdieu, 1979,          Max Weber sobre as classes -- de que, embora
p.190) e destinada a operar como cdigo de               em si mesmas no sejam comunidades, so com
poder. Ao revelar o gosto como simultaneamen-            freqncia uma base para a ao comunal --
te arma e prmio nas lutas de classificao pelas        pode ser aplicada de forma mais ampla. Assim,
quais os grupos procuram manter ou melhorar              as multides podem evoluir para movimentos
suas posies na sociedade impondo seu estilo de         de protesto, as diferenas etrias s vezes se
vida como a nica legtima art de vivre, Bourdieu        cristalizam em movimentos de grupos etrios
traz o Homo aestheticus de volta ao mundo do             ou de juventude, a diferena entre os sexos fez
lugar-comum, do cotidiano e do contestado, ou            surgir os movimentos femininos e as distines
seja, de volta ao mago da cincia social.               de status social, que produzem quase grupos
    Ver SOCIOLOGIA DA ARTE.                              tais como as "profisses liberais" ou as "intelec-
                                                         tuais", podem tornar-se a fonte de grupos mais
Leitura sugerida: Bourdieu, Pierre et al. 1966: L'a-     organizados, na forma de associaes profis-
mour de l'art  1987: "The historical genesis of a pure   sionais ou de elites especializadas.
aesthetics", Journal of Aesthetics and Art Criticism,        Os grupos sociais, em sentido estrito, so
edio especial sobre esttica analtica, 201-10  Gam-   extremamente variados no seu carter. Tnnies
boni, Dario 1983: "Mprises et mpris: lments por
une tude de l'iconoclasme contemporain". Actes de la    (1887), em obra que exerceu influncia con-
Recherche en Sciences Sociales, 49, 2-28  Gans, Her-     sidervel sobre o pensamento social posterior,
bert 1974: Popular Culture and High Culture: an Ana-     estabeleceu uma ampla distino entre dois ti-
lysis and Evaluation of Taste  Gombrich, E.H. 1963:      pos de grupo, Gemeinschaft (comunidade) e
                                                                                          guerra    345


Gesellschaft (sociedade ou associao), em ter-      proximidade dos membros, base de formao
mos da natureza da relao entre os membros.         (voluntria e assim por diante), acesso (aberto,
Em uma comunidade, os indivduos encon-              semifechado, fechado), grau de organizao,
tram-se envolvidos como pessoas integrais e          funo, orientao, relao com a sociedade
esto unidos por um acordo de sentimento ou          inclusiva, relao com outros grupos, tipo de
idia, e Tnnies d como exemplos a famlia ou       controle social, tipo de autoridade, grau de uni-
o grupo de parentes, a vizinhana (a aldeia          dade. Isso leva em conta todas as principais
rural) e o grupo de amigos. Os membros de uma        diferenas entre os grupos e a diversidade de
associao, por outro lado, entram na relao de     suas relaes entre si e com a sociedade in-
uma forma mais calculada e deliberada, visando       clusiva. Assim, abrange, por exemplo, questes
satisfazer objetivos especficos e parciais, e es-   como as levantadas por Georg Simmel em um
to unidos por um acordo racional de interesses;     conhecido ensaio (1902) que examinou o rela-
os principais exemplos dados so os dos grupos       cionamento entre o nmero de membros de um
preocupados com interesses econmicos. Tn-          grupo e a sua estrutura, e em outro estudo
nies, deve se observar de passagem, tambm           (1903) que mostrava como a concentrao de
aplicou essa tipologia a sociedades inclusivas,      populao em cidades transformava a natureza
basicamente num contraste entre o feudalismo         das relaes sociais.
e o capitalismo moderno. No que diz respeito a           De maneira mais geral, a tipologia de Gur-
grupos dentro da sociedade, a sua distino tem      vitch proporciona um ponto de partida mais
algumas semelhanas com a que fez Cooley             adequado para uma investigao sistemtica
(1909) entre "grupos primrios" e outros (fre-       das maneiras pelas quais os grupos sociais for-
qentemente chamados "grupos secundrios"            mam uma rede de relaes na SOCIEDADE CIVIL
por socilogos posteriores), sendo grupos pri-       que interagem com essas tendncias e as modi-
mrios os "caracterizados pela associao n-        ficam no sentido da criao de uma SOCIEDADE
tima, face a face e pela cooperao", o que          DE MASSA onde indivduos relativamente isola-
resulta em "uma certa fuso de individualidades      dos se defrontam com um estado cada vez mais
em um todo comum".                                   poderoso. Por outro lado, tambm torna pos-
    Muitos estudos posteriores sobre grupos          svel uma anlise das condies em que grupos
(Homans, 1948, e as pesquisas sociomtricas de       sociais especficos, tais como elites ou classes
Moreno, 1934) concentraram-se nesses grupos          dominantes organizadas (ver ELITES, TEORIA
"primrios" ou "pequenos", e embora se tenha         DAS), podem eles prprios adquirir um poder
reconhecido, de maneira geral, que eles so          descomedido. A partir de variados pontos de
apenas um elemento na estrutura social, alguns       vista, portanto, o estudo de grupos pode lanar
autores tenderam a adotar a viso do prprio         luz sobre algumas questes fundamentais do
Cooley de que tais grupos so primrios acima        pensamento social, com respeito  relao entre
de tudo pelo fato de serem fundamentais para a       indivduo e sociedade, s fontes de solidarie-
formao da natureza social e dos ideais do          dade e estabilidade social e aos pr-requisitos
indivduo. Contra isso pode-se afirmar de forma      de uma ordem democrtica.
convincente que os grupos pequenos so for-              Ver tambm PSICOLOGIA SOCIAL.
mados pela sociedade inclusiva, muito mais do
                                                     Leitura sugerida: Homans, G.C. 1948: The Human
que a formam, conforme fica bastante evidente        Group  Redfield, R. 1955: The Little Community
no impacto da moderna sociedade industrial            Tnnies, Ferdnand 1887 (1955): Community and As-
sobre os grupos, a famlia e a aldeia rural.         sociation.
Redfield (1955), em seu estudo da "pequena                                            TOM BOTTOMORE
comunidade", reconheceu a importncia dessa
questo e a estudou minuciosamente, sobretudo        guerra O confronto violento de unidades so-
com referncia s sociedades tribais, s relaes    ciais organizadas, que  a guerra, pode ser abor-
(diversas) que existem entre pequenos grupos e       dado a partir de vrias e diferentes perspectivas.
 sociedade mais ampla em que eles funcionam.        Anatol Rapoport (1968, p.14) identifica trs
    Uma tipologia de grupos muito mais elabo-        delas: a poltica, a cataclsmica e a escatolgica.
rada foi esboada por Gurvitch (1958, vol.1,         A primeira, exemplificada por Clausewitz e
seo 2, cap.1), que props 15 critrios de clas-    ainda corrente no sculo XX, especialmente
sificao: contedo, tamanho, durao, ritmo,        entre os estrategistas, trata a guerra como um
346   guerra


modo de COERO, "um ato de violncia com a        progresso tecnolgico e os ajustes polticos,
inteno de forar nosso oponente a cumprir        sociais e psicolgicos que a raa humana faz
nossa vontade". Numa perspectiva escatol-         com relao a eles.
gica, em contraste, a prpria guerra (incluindo        A Segunda Guerra Mundial, bem como a
a revoluo violenta) torna-se o desdobrar de      rapidez com que foi seguida pela confrontao
algum desgnio grandioso: o enfraquecimento        de alianas nuclearmente armadas conhecida
e derrubada do capitalismo (para os marxistas);    como Guerra Fria, estimulou muitas pesquisas
a inaugurao do domnio de mil anos sobre o       inspiradas pela filosofia cataclsmica, para o
mundo pelo Terceiro Reich (pelos nazistas); ou,    que o Journal of Conflict Resolution, lanado
mais tarde, o redespertar do Jihad, ou Guerra      em 1957, tornou-se um centro proeminente.
Santa islmica, particularmente conforme pre-      Waltz (1959) classificou proveitosamente todos
gada pelo aiatol Khomeini do Ir. Os adeptos      esses esforos de acordo com uma das trs
desses "desgnios grandiosos" tendem a no se      imagens de relaes internacionais que eles
deter diante dos custos, em geral dando como       pressupunham, isto , se localizavam as razes
privilgio morrer pela causa e, assim, tornar-se   da guerra na "natureza e comportamento do
parte de um dos momentos decisivos da histria.    homem" (p.17), na "organizao interna dos
    A filosofia de guerra mais caracterstica do   estados" (p.81) ou no "carter anrquico do
sculo foi a cataclsmica. Desde a Primeira        sistema de estados" (p.160). Uma vez que qual-
Guerra Mundial, em que 9 milhes de homens         quer grupo de estados ou de outros agentes
morreram em batalha, a guerra vem sendo en-        podia, para fins analticos, ser encarado como
carada amplamente como uma desgraa da so-         um "sistema", essa terceira imagem podia ser
ciedade humana, anloga aos acidentes de es-       ampliada a fim de incluir todas as influncias
trada ou s epidemias. Nessa perspectiva, a        para a guerra emanando de fora do par belige-
tarefa  compreender suas causas, de forma a       rante; e uma quarta imagem, a didica, podia
aboli-la, ou pelo menos reduzir sua incidncia     ser observada em explicaes da guerra que
e gravidade. Para muitos expoentes desse ponto     enfatizavam as caractersticas e padres de in-
de vista, o modelo  a cincia e seus dois         terao exibidos pelo prprio par beligerante (a
pioneiros foram Lewis Fry Richardson (1960a        "dade") como um par.
e 1960b) e Quincy Wright (1942). As investiga-         As explicaes da guerra pela primeira ima-
es de Richardson sobre a guerra, s publica-     gem tendem a vir de psiclogos, psiquiatras,
das em forma de livro postumamente, fizeram        etlogos e, numa veia mais pessimista, telo-
extenso uso da matemtica. Um dos seus obje-       gos. A guerra tem sido encarada como um re-
tivos foi mapear a incidncia da guerra de ma-     flexo da necessidade dos indivduos de AGRES-
neira objetiva. Ele no via nenhuma base firme     SO, ou de sua inclinao a ela, como manifes-
para se distinguir entre guerra e guerra civil,    tao de territorialidade; como conseqncia de
rebelio, motim, tumulto ou at mesmo assas-       suas atitudes etnocntricas e percepes distor-
sinato, encarando tudo isso como sendo, essen-     cidas (Klineberg, 1957), ou de sua obedincia
cialmente, "contendas fatais", que ele classifi-   incondicional  autoridade (Milgram, 1974).
cou por magnitude, conforme o nmero de            Destas, somente a ltima contribui diretamente
mortos ficasse geometricamente mais perto de       para explicar a guerra e a perpetrao de atro-
1, 10, 100, 1.000, 10.000, 100.000, 1.000.000      cidades, em cumprimento a ordens, na guerra e
ou 10.000.000. Limitando-se aos de magnitude       na paz; nem mesmo ela, porm, explica as
4 e acima (317 ou mais mortes), relacionou 289     decises de ir  guerra ou de dar tais ordens,
dessas contendas entre 1820 e 1949.                caso devam ser dadas. As outras repousam no
    A contribuio de Wright foi ver a guerra      pressuposto de que populaes menos agres-
moderna em perspectiva como um fenmeno,           sivas e menos tipologicamente imaturas ten-
relacionando-o  guerra entre os animais, entre    dem a produzir menos governos inclinados 
as sociedades pr-cultas e  guerra histrica      guerra, ou pelo menos a controlar as propenses
conforme manifesta nas civilizaes cultas at     belicosas de seus governos, de forma mais efi-
o Renascimento. Tambm fez a crnica de suas       caz do que as mais agressivas e imaturas. Le-
flutuaes em termos de freqncia e inten-        vando-se em considerao o papel menor e em
sidade. No geral, enfatizou a defasagem, em        geral pouco direto que a poltica externa tende
plano global e continental, entre os efeitos do    a desempenhar nas eleies nacionais,  pos-
                                                                                        guerra   347


svel duvidar da veracidade desse pressuposto.       minao quase colonial, para resistir a mudan-
Alm do mais, como demonstra Waltz, as per-          as revolucionrias e para impor sua vontade
cepes das explicaes da primeira imagem           sobre os vizinhos, justificando amplamente a
no so facilmente aplicadas. Tornar a popula-       restrio de Doyle de que, apesar de seu impres-
o de um pas, ou pelo menos um segmento            sionante sucesso na criao de uma zona de paz,
substancial dela, menos agressiva ou chauvinis-      o liberalismo "foi um fracasso igualmente im-
ta em geral exige ao do governo, e assim leva      pressionante na orientao da poltica externa
a anlise para a esfera da poltica; o desar-        fora do mundo liberal" (p.323).
mamento psicolgico unilateral, ele afirma,             A inclinao para a guerra tambm pode ser
anlogo ao PACIFISMO e pode ser arriscado em         vista como conseqncia de caractersticas do
seus efeitos. Embora Waltz aqui ignore em que        sistema de tomada de decises de um estado, e
medida at mesmo sociedades cujos governos           particularmente da parcela desse sistema que se
deveriam desejar mant-las fechadas podem            ocupa com a poltica externa. A abordagem
ainda estar abertas  influncia transnacional,      ciberntica de Karl Deutsch  o exemplo not-
isso no invalida totalmente sua objeo.            vel disso (ver RELAES INTERNACIONAIS). Ou-
    As personalidades dos lderes isolados ge-       tros afirmaram que, sob condies de depresso
ralmente parecem exercer influncia sobre a          econmica ou de disputas polticas domsticas,
gnese da guerra, como sem dvida foi o caso         os governos precisam, e buscam, inimigos ex-
de Hitler na Segunda Guerra Mundial; mas, sem        ternos para manter o seu poder. Embora boa
analisar as foras polticas e sociais que propor-   parte da investigao estatstica no tenha con-
cionam a essas personalidades o campo de ao        seguido corroborar o elo implcito entre con-
e o apoio de que precisam para ganhar o poder,       flito interno e externo, Patrick James (1988)
dificilmente seria possvel prevenir-se contra o     demonstrou que se um estado houvesse passado
surgimento de lderes igualmente perturbados         recentemente pelo agravamento de um conflito
no futuro.  evidente que existe um elo entre a      domstico e em seguida se envolvido numa
guerra e a natureza humana, mas este  tnue e       crise com um estado mais fraco, tinha mais
 apenas parte da histria.                          probabilidades de entrar em guerra com esse
    Os pensadores da segunda imagem diver-           outro estado do que um que no tivesse essa
gem radicalmente entre si quanto a que tipos de      experincia recente de conflito interno.
estado so mais inclinados  guerra do que               A terceira imagem, conforme Waltz original-
outros. Os marxistas atribuam a guerra, e na        mente a concebeu, concentrava-se na anarquia
verdade a prpria diviso do mundo em estados,       internacional -- a ausncia de governo e de uma
 natureza essencialmente competitiva do capi-       lei aplicvel entre estados -- como uma causa
talismo; ambos desapareceriam uma vez alcan-         permissiva da guerra. Conforme Claude (1962)
ado o sucesso da Revoluo. Quando as revo-         demonstrou, essa  uma viso desmasiado sim-
lues marxistas, em vez de unir, produziram         plista. A existncia de um governo no deu paz
regimes distintos, e s vezes mutuamente an-          Etipia, ao Lbano ou ao Sudo; nem a ausn-
tagnicos, em diferentes estados, essa alegao      cia de um governo comum colocou as relaes
tornou-se insustentvel.                             entre Canad e Estados Unidos, ou entre Norue-
    Os indcios histricos apiam de maneira         ga e Sucia, sob perptua ameaa de guerra.
enftica uma viso alternativa para a segunda            As explicaes posteriores para a guerra de
imagem, a de que os estados democrticos libe-       acordo com a "terceira imagem" foram mais
rais so menos inclinados  guerra do que as         sutis, visando delinear caractersticas dos sis-
ditaduras, pelo menos em suas relaes uns com       temas internacionais que influenciam a incidn-
os outros. Doyle (1983) observa que no houve        cia da guerra, em geral como parte de um exame
um nico exemplo de guerra entre quaisquer           mais amplo das propriedades desses sistemas.
dois estados liberais, embora o uso da fora por     O substancial projeto de David Singer, "Cor-
parte dos Estados Unidos, ainda que indireta-        relatos da Guerra", na Universidade de Michi-
mente, para depor o governo marxista de Allen-       gan (Ann Arbor), permitiu hipteses a respeito
de, democraticamente eleito no Chile, em 1973,       dos efeitos sobre a guerra de aspectos sist-
esteja perto de constituir o nico exemplo. Es-      micos tais como a polarizao, o nvel de con-
tados liberais, no entanto, certamente usaram a      centrao de poder e o grau em que os estados
fora para criar e manter imprios ou uma do-        que formam o sistema se agregam em alianas
348   guerra


a fim de serem rigorosamente testados contra          tada com a escolha entre ter de ceder numa
dados para todas as guerras enquadrando-se em         questo ou ir  guerra por isso escolher a ltima
sua definio entre 1816 e 1965. E.H. Carr (1939)     hiptese caso Ct vezes p ultrapasse C, sendo Ct
props outra explicao plausvel da guerra pela      o "custo da tolerncia " da parte envolvida para
terceira imagem (embora menos rigorosamente           o tpico em questo -- em outras palavras, o
testada), contrapondo que o sistema econmico         quanto a parte envolvida estaria preparada para
internacional de laissez-faire e o multilateralismo   perder ou sofrer a fim de fazer valer a sua
dos anos 20, ao acentuar a debilidade dos econo-      posio --, p  uma frao representando sua
micamente mais fracos, ajudou a criar o naciona-      probabilidade subjetiva de ganhar uma guerra,
lismo belicoso dos anos 30, que veio a deflagrar a    caso esta venha a ocorrer, e C  o custo que a
Segunda Guerra Mundial.                               parte envolvida, no caso de guerra, efetivamen-
    Os principais tipos de explicaes da guerra      te esperaria ter. Assim, para partes "racionais",
pela "quarta imagem" so adequadamente re-            os valores subjetivos de p sero compatveis
sumidos no ttulo de outra obra de Rapoport,          (chegando a somar 1) e as estimativas de C,
Fights, Games and Debates (1960). Numa "lu-           realistas. A guerra ser mais provvel se o tpi-
ta", a ao de A para se defender de B  vista        co for de elevado valor para ambas as partes e
por B como ameaadora e vice-versa. Richar-           inerentemente refratrio a uma conciliao (co-
dson demonstrou que esse processo pode, den-          mo, por exemplo, o regime a ser instalado em
tro de certos pressupostos, explodir numa cor-        um terceiro estado, importante para ambas), os
rida armamentista desenfreada em que a pri-           custos da guerra relativamente baixos ou o re-
meira parte, achando-se incapaz de aumentar           sultado incerto (um perdedor garantido, caso
suas defesas de maneira "adequada", provavel-         seja racional, ceder sem luta). A frmula de
mente se decidir pela guerra antes que a cor-        Rosen pode ento ser ligada  primeira e segun-
relao de foras se volte irrevogavelmente           da imagens, supondo-se que determinadas ati-
contra ela. Uma escalada com "probabilidade           tudes ou estados de esprito populares, ou uma
de luta" tambm pode ocorrer numa disputa em          dada estrutura poltica interna, possam dispor
que ambas as partes tenham feito "investimento        um ou ambos os lados ao excesso de confiana
demais para desistir" (ver Teger, 1980).              (superestimando p),  supervalorizao de um
    Analisar a guerra em termos de um "jogo"          objetivo perifrico (Ct incomumente elevado)
implica que ela seja encarada como uma opo          ou um descaso incomum pelo custo de uma
a sangue frio, escolhida quando vantajosa. Em-        guerra, por exemplo, quando a parte envolvida
bora utilizada de maneira geral, e s vezes de        se v pagando dividendos polticos em nvel
forma falaciosa, a servio da filosofia poltica      domstico. O que o modelo de Rosen no prev
de guerra ou da coero militar, a Teoria dos          a guerra por acidente ou por m interpretao
jogos pode contribuir para a compreenso da           das intenes de um oponente.
guerra, ajudando a demonstrar por que, numa               A introduo de armas nucleares e outros
dada situao, ela parece vantajosa a uma ou          meios de destruio total na guerra e nos prepa-
ambas as partes. (Ver JOGOS, TEORIA DOS.)             rativos de guerra liquidou em grande parte a
    "Debates", isto , situaes em que as partes     glorificao da guerra total entre estados avan-
divergem marcantemente a respeito de como            ados. No eliminou -- na verdade aumentou
o mundo ou do que deveria ser feito, e em que         muito -- as duas possibilidades omitidas no
no se chega a um acordo sobre procedimentos          modelo de Rosen. E hoje em dia a guerra,
para uma resoluo ou administrao do con-           quase universalmente repudiada como instru-
flito, podem facilmente levar  guerra; a seleti-     mento poltico, assumiu formas mais sub-rep-
vidade da percepo implcita em todo e qual-         tcias, tais como a guerra "por procurao", ou
quer aprendizado tende a ser reforada, em            a ajuda externa a movimentos de guerrilha (ver
geral mutuamente, pela "cegueira do envol-            GUERRILHA). Ironicamente, enquanto nas ex-
vimento".                                             plicaes para a guerra do incio do sculo
    Aspectos da primeira, segunda e quarta ima-       XX a soberania nacional era encarada em
gens podem ser incorporados a uma frmula             geral como a responsvel, na era nuclear
sugerida por Rosen (1970), o qual, no esprito        grande parte da guerra contempornea  vista
da Teoria dos jogos, caracterizou a guerra como       como oriunda da fraqueza dos estados, mais
um instrumento de deciso; uma parte defron-          que de suas foras.
                                                                                                guerrilha     349

Leitura sugerida: Aron, Raymond 1962: Paix et guer-        conteste a legitimidade do estado. Do incio ao
re entre les nations  Blainey, G. 1971: The Causes of      fim, os problemas militares encontram-se es-
War  Doyle, M.W. 1983; "Kant, liberal legacies, and
foreign affairs". Philosophy and Public Affairs 12, 205-
                                                           treitamente relacionados e subordinados a ob-
34, 323-52  James, P. 1988: Crisis and War  Ogley,         jetivos polticos.
R.C. 1991: Conflict under the Microscope  Rapoport,            Embora diversas insurreies tenham sido
A. 1960: Fights, Games and Debates  Rosen, S. 1970:        derrotadas (na Grcia, nas Filipinas, na Mal-
"A model of war and alliance". In Alliance in Inter-       sia, no Qunia), muitas conseguiram, depois de
national Politics, org. por J.R. Friedman, C. Bladen e     longas guerras de atrito -- s vezes com a
S. Rosen  Singer, J.D. 1981: "Accouting for Inter-
national war: the state of the discipline". Journal of
                                                           simpatia da opinio pblica no pas colonial --,
Peace Research 18,1-18  Singer, J.D. e Small,              ganhar a independncia atravs de uma vitria
M. 1972: The Wages of War  Waltz, K.N. 1959: Man,          poltica. As democracias concordaram em ne-
the State and War  Wright, Q. 1942: A Study of War.        gociar, uma vez que para elas nada havia de vital
                                 RODERICK C. OGLEY         em jogo. As ditaduras, por outro lado, no ne-
                                                           gociam e somente uma vitria militar (na maior
guerrilha A origem da palavra, no seu sen-                 parte das vezes contra um estado fraco) con-
tido de "guerra pequena", remonta  interven-              segue pr fim ao conflito. Este foi o caso em
o de Napoleo na Espanha (1808-12). Mas                  Cuba (1959) e, 20 anos depois, na Nicargua.
suas tticas so to antigas quanto a prpria              A Guerra do Vietn (1965-73) confirmou a
histria. A guerra de guerrilha  usada por tropas         capacidade dos fracos de resistirem aos fortes.
irregulares (cujos componentes costumam cha-               Mas nos anos 60 todas as guerrilhas latino-ame-
mar a si prprios de guerrilheiros) e se baseia            ricanas a que faltava o apoio popular foram
na surpresa e no tormento de hostilidades suces-           derrotadas (Guevara na Bolvia, 1967).
sivas para enfraquecer um exrcito regular. A                  Hoje em dia h uma variedade cada vez
guerra de guerrilha foi geralmente usada como              maior de guerrilhas:
forma de resistncia  ocupao estrangeira                    -- guerrilhas marxistas visando  tomada do
(romana, otomana, napolenica); mais tarde foi             poder para efetuar a mudana social (como no
amplamente praticada contra a expanso colo-               Peru, El Salvador, Filipinas);
nial europia na sia e na frica.                             -- contra a ocupao estrangeira, como no
    A guerra de guerrilha mais uma vez ocupou              Afeganisto, onde as tropas soviticas, depois de
um papel importante durante e aps a Segunda               nove anos de interveno (1979-88), recuaram;
Guerra Mundial (Grcia, Iugoslvia, China).                    -- guerrilheiros lutando pela autonomia ou a
Com Mao Ts-tung, as tticas de guerrilha                  independncia de uma minoria tnica ou religiosa
transformaram-se em esforo de guerra revolu-              (Eritria, Sri Lanka, os curdos no Oriente Mdio);
cionrio, instrumento militar visando  tomada                 -- guerrilhas antimarxistas, ajudadas pri-
do poder poltico (ver MAOSMO). A inovao de             meiro pela frica do Sul (UNITA em Angola e
Mao no foi militar, mas poltica. Ele usou o              Renamo em Moambique), em seguida pelos
partido de vanguarda originalmente criado por              Estados Unidos (Contras na Nicargua).
Lenin para organizar o proletariado urbano a                   A guerra de guerrilha no vai desaparecer,
fim de mobilizar o campesinato. Esse modo,                 pois as condies que a deflagram ainda se
baseado em propaganda amplamente difundi-                  encontram presentes. Mas, com a inquietao
da, organizao e uso do terrorismo seletivo,              urbana, a megalpole cada vez mais populosa
visa construir o apoio popular e, acima de tudo,           est se tornando mais e mais o epicentro de
uma infra-estrutura subterrnea. Foi usado com             tumultos e insurreies.
sucesso pelo Viet Minh, na luta contra o colo-                 Ver tambm GUERRA.
nialismo francs, e as tropas vietnamitas con-
seguiram vencer a batalha de Dien Bien Phu.                Leitura sugerida: Beaufre, Andr 1972: La guerre re-
                                                           volutionnaire: les forces nouvelles de la guerre 
Mais tarde o mesmo modelo foi tambm adota-                Chaliand, Grad 1979 (1984): Stratgies de la gurilla
do por movimentos no-marxistas de libertao               Ellis, John 1975: A Short History of Guerrilla Warfare
nacional. Quadros mdios so uma ajuda essen-               Laqueur, W. 1977: Guerrillas: a Historical and Cri-
cial para a conquista do apoio de segmentos da             tical Study  Sarkissian, Sam S., org. 1975: Revolutio-
populao, atravs da agitao e da propagan-              nary Guerrilla Warfare.
da, sendo o objetivo criar uma nova ordem que                                               GRARD CHALIAND
                                               H
hegemonia O uso desta palavra no sculo                    e instituies --, a rea da ao do estado se
XX rene e amplia utilizaes anteriores. Ela              amplia e as esferas pblica e privada da socie-
tradicionalmente indicava o domnio de um                  dade se entrelaam cada vez mais. Nesse con-
pas ou governantes sobre outros. Em segundo               texto, o prprio sentido de liderana ou domnio
lugar, tambm significava o princpio em torno             poltico mudou, na medida em que os gover-
do qual um grupo de elementos era organizado.              nantes precisam alegar que esto governando
Hoje em dia ela se aplica no apenas s relaes           no interesse dos governados a fim de permane-
internacionais, em que ainda significa domnio,            cerem no poder. Cada vez mais as exigncias e
mas -- principalmente sob a influncia do pen-             necessidades da sociedade passaram a ser con-
sador marxista italiano Antonio Gramsci, que               sideradas como responsabilidade dos governos,
desenvolveu o conceito de forma significativa              quando antes podiam ser relegadas  esfera
(1929-35) -- tambm passou a indicar o prin-               privada definida como exterior  poltica. As
cpio organizador de uma sociedade na qual                 idias, a cultura e o modo como as pessoas vem
uma classe se impe sobre as outras, no apenas            a si mesmas e suas relaes com as outras e com
atravs da fora, mas tambm mantendo a sujei-             as instituies so de importncia capital para
o da massa da populao. Essa sujeio                  a forma como uma sociedade  governada e
conseguida tanto por meio de reformas e con-               organizada, e justificam a natureza do poder --
cesses, nas quais se levam em conta os interes-           quem o detm e de que maneiras. Assim, na
ses de diferentes grupos, como tambm pela                 medida em que a prpria natureza da poltica
influncia sobre o modo como as pessoas pen-               mudou, o significado de hegemonia, como lide-
sam. Se a princpio Gramsci (1921-26) utilizou             rana, domnio ou influncia, por sua vez tam-
a palavra do mesmo modo que outros marxistas,              bm evoluiu. A palavra hoje implica liderana
como Lenin, Bukharin e Stalin, com respeito               intelectual e moral e se relaciona  funo de
liderana de uma classe sobre outras em um                 sistemas de idias ou ideologias na manuteno
sistema de alianas, ao ampliar o termo ele                ou contestao da estrutura de uma sociedade
ultrapassou o conceito marxista habitual de PO-            em particular. Conseqentemente,  til no
DER do estado como o instrumento de uma                    apenas na continuao do status quo, mas na
classe que empregava um monoplio da fora,                maneira como uma sociedade se transforma.
afirmando que o estado no perodo moderno s               Leitura sugerida: Anderson P. 1976-7: "The antino-
podia ser compreendido como fora mais aqui-               mies of Antonio Gramsci". New Left Review 100  Bo-
escncia.                                                  cock, R. 1986: Hegemony  Buci-Glucksmann, C. 1982:
    Esse enriquecimento do significado de he-              "Hegemony and consent". In Approaches to Gramsci,
gemonia est relacionado  crescente comple-               org. por A.S. Sassoon  Femia, J.V. 1981: Gram-
                                                           sci's Political Thought: Hegemony, Consciousness and
xidade da sociedade moderna, na qual o terreno             the Revolutionary Process  Mouffe, C. 1979: "Hege-
da poltica mudou fundamentalmente. Na era                 mony and ideology in Gramsci". In Gramsci and Mar-
das organizaes de massa, como partidos po-               xism Theory, org. por C. Mouffe  Sassoon, A.S. 1980
lticos e grupos de presso, quando a expanso             (1987): Gramsci's Politics, 2ed.
do sufrgio exige de qualquer estado, por mais                                   ANNE SHOWSTACK SASSOON
restritas que sejam as liberdades democrticas,
que tente manter a aquiescncia dos governados             hermenutica Esta rea da atividade e da
-- e com o desenvolvimento do nvel educacio-              indagao filosfica diz respeito  teoria e 
nal e cultural da populao, suas idias, prticas         prtica da compreenso em geral, e  interpreta-

                                                     350
                                                                                 hermenutica     351


o do significado de textos e aes em par-            A teoria hermenutica, conforme se desen-
ticular.                                            volveu antes do sculo XIX, isto , como um
                                                    conjunto de regras prticas, , em princpio,
Viso geral                                         incapaz de proporcionar uma base terica para
    Nas duas dcadas que se seguiram  publica-     a interpretao do significado. O que se exige
o de Verdade e mtodo, de Hans Georg Ga-          para esse fim  nada menos que a contribuio
damer, em 1960, a hermenutica passou a rep-        que Kant deu  fundamentao e justificao
resentar um tpico central na filosofia e na        das cincias naturais. A esse respeito, a "Crtica
anlise cultural, justificando com isso a afirma-   da razo histrica" de Wilhelm Dilthey (ver
o contida nessa obra seminal com respeito        Dilthey, 1927) representa uma ampliao da
"universalidade do problema hermenutico". A        Crtica da razo pura de Kant, ao levar em
posio de Gadamer  axial na hermenutica          conta a dimenso histrica no desenvolvimento
contempornea. Trabalhando a partir de dentro       do pensamento humano.
da tradio da ontologia de Heidegger, ele pde         A tentativa de Dilthey de fornecer a base
apreender e desenvolver criticamente formula-       para as cincias humanas prosseguiu neste s-
es anteriores do "problema hermenutico" e        culo com Emilio Betti, que se atribuiu a tarefa
fornecer as bases para a posterior aplicao das    de recolher a abundncia de pensamento her-
percepes hermenuticas a um amplo campo.          menutico at ento acumulada e fazer dela um
    Nas cincias sociais, a influncia da her-      bom uso metodolgico.
menutica tem sido penetrante. Debates com              Uma importante atrao da perspectiva ob-
respeito, por exemplo, ao status cientfico das     jetivo-idealista de Emilio Betti no estudo do
cincias sociais,  relao de sujeito e objeto,    significado reside na promessa de se obter uma
ao significado de "objetividade",  formulao      exposio da possibilidade de verstehen, aqui
de mtodos apropriados,  constituio signifi-     usada no sentido de uma forma de compreenso
cativa do objeto foram todos crucialmente mol-      baseada em mtodos que levam a resultados
                                                    objetivos.
dados pela hermenutica e hoje continuam, em
grande parte, no seu terreno. A influncia semi-        Betti introduz a sua teoria geral da interpre-
nal da obra de Gadamer tambm pode ser detec-       tao atravs de uma considerao da relao
                                                    sujeito-objeto na interpretao de formas sig-
tada num amplo mbito de disciplinas fora da
                                                    nificativas. O objeto das cincias humanas 
filosofia e das cincias sociais, indo da medici-
                                                    constitudo por valores ticos e estticos. Eles
na aos estudos de administrao e  arquitetura
                                                    "representam uma objetividade ideal que segue
-- na verdade, onde quer que se reflita sobre a
                                                    infalivelmente sua prpria legitimidade" (Betti,
constituio dialgica do significado.
                                                    1955, p.9). A objetividade ideal dos "valores
Como metodologia                                    espirituais" s pode ser compreendida, con-
                                                    tudo, atravs da "real objetividade" das "formas
    A hermenutica, encarada como a metodo-         significativas". Essas formas contm valores
logia das cincias humanas (Geisteswissen-          que Betti encara como algo absoluto, isto ,
shaften), aplicava-se s disciplinas ancilares da   como contendo dentro delas mesmas a base de
teologia, da jurisprudncia e da filologia, que     sua prpria validade. Esto, portanto, afastadas
tentavam conhecer regras e linhas mestras para      da arbitrariedade subjetiva do que as percebe e,
a interpretao de textos. A palavra seria cunha-   como existentes objetivamente, so acessveis
da apenas no sculo XVII, mas seu campo, a ars       verificao intersubjetiva.
interpretandi, remonta ao incio do pensamento
ocidental. Foi, em particular, em pocas de         Filosofia hermenutica
convulso social e cultural que a hermenutica          A obra de Betti representa uma exposio
se viu incumbida da tarefa de esclarecer o auto-    sofisticada da teoria hermenutica como a me-
entendimento de uma poca em relao  es-          todologia da interpretao da mente objetiva. A
trutura de significados tradicionais.  quando      filosofia hermenutica, em contraste, muda o
concepes tidas como certas so abaladas que       foco da ateno da hermenutica do problema
entra em jogo a interpretao do significado        de verstehen para a constituio existencial de
como sua apropriao metodicamente orien-           uma compreenso possvel a partir do ponto de
tada.                                               vista da existncia ativa, especialmente em re-
352   hermenutica


ferncia a nosso embebimento na tradio e na     preenso no deve ser concebida tanto como
linguagem.                                        um ato da subjetividade, mas como o colocar-se
                                                  dentro de uma tradio na qual passado e pre-
Heidegger                                         sente esto constantemente fundidos. A reunio
    Na obra tardia de Edmund Husserl, a figura    de passado e presente no ato da compreenso 
central no desenvolvimento da FENOMENOLO-         descrita por Gadamer como a "fuso de hori-
GIA, o Lebenswelt -- o mundo da vida cotidiana,   zontes". Com a compreenso, o horizonte do
que aceitamos sem crtica como "nosso mundo"      intrprete se amplia para abranger o objeto a
-- fornecia a base ontolgica para qualquer       princpio pouco familiar, e nesse processo for-
experincia possvel (Husserl, 1937).             ma um horizonte novo, ampliado.  nesse pon-
    A fenomenologia hermenutica de Martin        to, no convergir de posies inicialmente diver-
Heidegger desenvolve esse tema no sentido de      gentes, que pode surgir o verdadeiro signifi-
uma anlise do Dasein, o "ser-a" humano no       cado. O significado constitui-se na formao
mundo, caracterizado pela busca de significado    dialgica de um acordo. Somente nessa ex-
e por uma existncia significativa (Heidegger,    perincia comunicativa  que chegamos a com-
1927).                                            preender e a conhecer mais plenamente aquilo
    O significado de Dasein s pode ser abor-     que antes permanecia como uma parte obscura
dado por um esforo de interpretao: "her-       do nosso pr-entendimento, do nosso horizonte
menutico", portanto, torna-se o conceito cen-    inicial.
tral em anlises existenciais. A teoria herme-        A nfase na historicidade da compreenso,
nutica, sobre essa base, no pode ser mais que   na localizao do intrprete dentro de uma tra-
um derivativo da hermenutica mais funda-         dio ativa, j foi qualificada em termos da
mental do Dasein, em que nos engajamos no         "ante-estrutura" do conhecimento. Gadamer le-
esclarecimento de uma forma j existente de       va esse raciocnio ainda mais longe, nos termos
compreenso do nosso mundo da vida cotidia-       de uma "pr-compreenso" e na inevitabilidade
na.                                               do Vorurteile (que pode significar tanto precon-
    Mas o verstehen metodicamente discipli-       ceito quanto prejulgamento).
nado no apenas  um derivativo da compreen-          Esse aspecto tem sido encarado por her-
so existencial, como  tambm dirigido por       meneutas crticos como uma "reabilitao do
esta ltima. A interpretao de algo como algo,   preconceito" e, como tal, um retrocesso em
isto , "como estrutura de compreenso", ba-      relao ao questionamento de pressupostos in-
seia-se na ante-estrutura de compreenso. A       justificados que caracteriza a tradio do Ilumi-
circularidade de argumento patente na concep-     nismo. Nesse ponto, porm, essa percepo da
o da interpretao como um elemento dentro      estrutura pr-ajuizadora da compreenso pode
da ante-estrutura de compreenso  a do Crculo   ser desenvolvida ainda mais, na forma de um
hermenutico ou existencial-ontolgico.           argumento em favor da "universalidade do pro-
    A teoria hermenutica enfatizou o movi-       blema hermenutico", com base na nfase de
mento da parte para o todo, e vice-versa, no      Gadamer quanto  condio niilista do nosso
processo de compreenso. Esse procedimento        Ser.
interpretativo metodologicamente orientado           A linguagem no  meramente um instru-
hoje visto como um derivativo da estrutura        mento do pensamento, mas ela prpria trabalha
existencial de nosso Ser-no-mundo. Na expli-      para nos revelar um mundo; ns nos movimen-
cao de Heidegger, no  uma questo de sair     tamos dentro dele e com base nele. Em ltima
desse Crculo (como na busca de descobertas       anlise,  a linguagem que forma a "tradio",
"objetivas"), mas de entrar nele adequadamen-     a "pr-compreenso", que gera nossa compre-
te, uma vez que ele contm a possibilidade de     enso de ns mesmos e de nosso mundo.
uma percepo original.
                                                  Ps-estruturalismo
Gadamer                                               A nfase de Gadamer mais na natureza pro-
    A teoria hermenutica concebe a compreen-     dutiva do que na meramente reprodutiva da
so como um ato que reside na capacidade do       interpretao forma um paralelo com uma mu-
intrprete de se envolver com formas significa-   dana no pensamento filosfico literrio fran-
tivas. Na viso de Gadamer, porm, a com-         cs no sentido de uma posio "ps-estrutura-
                                                                                hermenutica    353


lista". Uma corrente, em geral chamada de "tex-     nomenologia, o pragmatismo, a filosofia lin-
tualista",  de particular interesse aqui, em es-   gstica e a anlise freudiana. Ambas visam
pecial considerando-se que seu principal repre-     uma integrao das anlises de Gadamer com
sentante, Jacques Derrida, entabulou um dilo-      preocupaes sociopolticas e com a formula-
go com Gadamer (ver, por exemplo, Derrida,          o de uma cincia social que possa ajudar a
1967). (Ver tambm DESCONSTRUO.)                  libertar uma prtica social reprimida.
    A figura da "fuso de horizontes" que repre-        Aderindo ao "projeto do Iluminismo", Ha-
senta a constituio dialgica do significado       bermas busca desenvolver uma cincia social
surge no pensamento ps-estruturalista como         crtica que reconstri possibilidades de eman-
"intertextualidade". Essas palavras referem-se      cipao suprimidas. Como uma cincia social
tambm a uma relao ativa entre leitor e texto,    crtico-dialtica, a hermenutica profunda de
a uma interao e um desempenho, em vez de          Habermas tenta ser mediadora entre a objetivi-
um consumo passivo ou de uma anlise distan-        dade das foras histricas e a subjetividade dos
ciada de um significado fixo. Esse movimento,       agentes. Uma vez que seu objetivo  liberar o
ao mesmo tempo, forma o ponto central de            potencial de emancipao atravs da reconstru-
partida do ESTRUTURALISMO e da semiologia           o de processos de represso, no surpreende
(ver SEMITICA), com sua nfase no "signo"          que Habermas usasse a psicanlise como mo-
como construo fechada.                            delo.
    O ps-estruturalismo afasta-se da herme-            Como a represso ocorre na e atravs da
nutica, porm, em sua negativa radical de qual-    linguagem, a estrutura terica exigida por tal
quer fundamento de conhecimento no sentido          programa assume a forma de uma cogitada
de pressupostos funcionais no que diz respeito      "teoria da competncia comunicativa". As
a uma base auto-evidente de pretenses ao co-       ideologias fornecem uma explicao ilusria
nhecimento. Por essa tradio,  impossvel         das sociedades que se caracteriza pelo domnio
usar noes como "chegar a um consenso" ou          de uma seo sobre outra. O consenso, em tais
"chegar a uma verdade" sem se ver preso a um        condies, tem todas as possibilidades de ser
movimento circular e autocontraditrio de pen-      falso ou distorcido, isto , o resultado de uma
samento.                                            "comunicao sistematicamente deformada".
                                                    Em condies de desigualdade, o consenso s
A hermenutica como crtica                         pode ser um pressuposto "contrafactual", o ob-
    A figura do crculo hermenutico foi usada      jetivo previsto da interao social, em vez de
por Gadamer para rejeitar o objetivismo ine-        sua inquestionada precondio.
rente na Geisteswissenschaften hermenutica.
Quando desafiado por Betti a julgar a exatido      Ps-modernismo
ou verdade de interpretaes apresentadas, Ga-          A tica discursiva de Habermas, centrada
damer respondeu que s se preocupava em             na idia de dilogo livre de domnio, tem sido
mostrar o que estava sempre acontecendo quan-       rejeitada pelos filsofos que buscam sua ins-
do compreendemos.                                   pirao em Heidegger e, mais longe ainda, em
    A referncia de Gadamer ao embebimento          Nietzsche.
da interpretao numa tradio foi vista por            A inteno universalista do pensamento do
Betti como uma recada no subjetivismo. Para        Iluminismo, bem como seu programa eman-
a hermenutica crtica, isso no apenas impede      cipador,  hoje encarada, na melhor das hip-
a hermenutica de adquirir qualquer relevncia      teses, como ilusria, porm mais provavelmen-
metodolgica, mas tambm, e talvez ainda mais       te como repressora ela prpria. Tal projeto im-
importante, representa a perda de um grau de        plica uma justificao filosfica, na expresso
autonomia, conquistado com dificuldade em           de Jean-Franois Lyotard, uma "grande nar-
relao s foras da tradio, que o pensamento     rativa" ou "metanarrativa" (1979), cuja funo
do Iluminismo havia garantido.                       impor uma concepo unilinear, monolgica,
    Na obra de filsofos sociais trabalhando        do objeto e legitimar suas prprias regras de
dentro da rbita mais ampla da ESCOLA DE            procedimento.
FRANKFURT, como Karl-Otto Apel e Jrgen Ha-             Esta grande narrativa  representada pela
bermas, tenta-se uma integrao da filosofia        "hermenutica de significado", e caracteriza a
hermenutica com outras tradies, como a fe-       posio ps-moderna de nos termos tornado
354    hindusmo e teoria social hindu


"incrdulos" com relao a ela. Essa atitude tem          hindusmo e teoria social hindu Hindusmo
origem no reconhecimento valorizado da hete-               o nome geralmente atribudo s crenas e
rogeneidade, da pluralidade e da determinao             prticas que se desenvolveram no decorrer de
local, e leva Lyotard a rejeitar a unanimidade de         muitos sculos no subcontinente indiano. Essas
mentes buscada na formao do consenso como               crenas e prticas so variadas, mas se asseme-
no apenas irrealista, mas at perigosa, "ter-            lham umas s outras como uma famlia. Trs
rorista".                                                 tradies -- BUDISMO, jainismo e sikhismo --
    No que diz respeito  preocupao filosfica          surgiram como religies distintas, porm cog-
e prtico-poltica com a formao do consenso,            natas. A palavra ocidental "hindusmo" deriva
 necessrio afirmar que a constituio dialgi-          de uma palavra snscrita para o rio Indo, e
ca do significado e o esforo por um acordo               variantes da palavra "hindu" foram usadas por
racional, alcanado comunicativamente, no tem            mais de 2 mil anos por estrangeiros que queriam
relao com a imposio monolgica de um                  descrever o povo da ndia. Os hindus chamam o
jogo de linguagem particular. Mais pertinente             seu modo de vida de "darma sanatana" (eterno).
ainda, a hermenutica crtica preocupa-se com                 O darma, em geral traduzido como "reli-
a formulao das condies da possibilidade de            gio",  um conceito fundamental que no tem
pluralidade.  s com base em normas con-                 equivalente em nossa lngua, e inclui a noo
sensuais que posies divergentes podem ser               de moralidade. Designa a conduta apropriada 
livremente desenvolvidas e receber uma aten-              casta, ao sexo e  idade de um indivduo. A vida
o imparcial. A hermenutica crtica busca               humana  encarada como uma oportunidade
ampliar esse espao atravs da ajuda a se iniciar         para se atingir a moksha (libertao) do ciclo de
uma prtica emancipadora que remova obs-                  nascimento e renascimento da alma. Os hindus
tculos no caminho da formao de um consen-              acreditam que o sofrimento e a boa fortuna
so autntico.                                             podem ser explicados atravs do carma, a lei
                                                          csmica de causa e efeito, operando no decorrer
Concluso                                                 de muitas vidas.
    O pensamento hermenutico destaca a loca-                 A teoria social hindu  a viso da sociedade
lizao de toda atividade dentro de uma es-               que surge da anlise da histria e da cultura
trutura particular de interpretao. Como tal,            hindu, conforme articulada por pensadores hin-
chama nossa ateno para os pressupostos e                dus e por analistas da sociedade hindu. O hin-
limitaes de todas as formas de pensamento e             dusmo no tem um nico fundador, nem um
prtica social. O objetivo dos que o propem              nico livro que seja encarado como uma Es-
tem sido fomentar a interao comunicativa e,             critura. Suas razes podem provavelmente re-
com isso, facilitar o desenvolvimento de formas           montar ao perodo da civilizao do vale do
                                                          Indo (2500-1500 AEC -- antes da Era Crist)
humanitrias e autenticamente racionais de co-
                                                          e s muitas religies tribais locais do subcon-
existncia social.
                                                          tinente. Os textos mais antigos, os Vedas, pro-
    Ver tambm CONHECIMENTO, TEORIA DO.                   vavelmente escritos por volta de 1.000 AEC no
Leitura sugerida: Bauman, Z. 1978: Hermeneutics
                                                          Norte da ndia, registram os hinos de sacrifcios
and Social Science  Bleicher, J. 1980: Contemporary       dos arianos (palavra que adquiriu conotaes de
Hermeneutics  1982: The Hermeneutic Imagination           pureza racial ou de hindusmo puro, porm que,
 Dallmayr, F. e McCarthy, T., orgs. 1977: Understan-      mais precisamente, indica os falantes de uma
ding and Social Inquiry  Gadamer, Hans-Georg 1960         lngua indo-europia que provavelmente teve
(1975): Truth and Method  Habermas, Jrgen 1967           origem mais ao Ocidente). Os arianos adora-
(1988 ): On the Logic of the Social Sciences  Hekman,     vam deuses masculinos, como Indra.
S.J. 1986: Hermeneutics and the Sociology of Know-
ledge  Hoy, D.C. 1982: The Critical Circle: Literature,       Nos Upanixades, compostos cerca de 500
History and Philosophical Hermeneutics  Ricoeur, P.       anos depois, surge a crena caracteristicamente
1969: Le conflit des interprtations. Essais d'herm-     hindu na transmigrao da alma e na unidade
neutique  Wachterhauser, B.R. 1986: Hermeneutics          da atim (a alma individual) com o bram (o
and Modern Philosophy  Warnke, G. 1987: Gadamer:          absoluto impessoal que a tudo permeia). A ex-
Hermeneutics, Tradition and Reason.                       perincia mstica assumia grande importncia e
                                     JOSEF BLEICHER       posteriormente surgiram sistemas de controle
                                                                 hindusmo e teoria social hindu   355


fsico e mental para favorec-los (ioga), que so   camadas supersticiosas dos sculos posteriores.
prefigurados no Bhagavad Gita.                      Ele e o movimento que criou (Arya Samaj)
    O propsito da Artaxastra, uma exposio        enfatizaram a filosofia hindu em lugar da
do sculo IV AEC sobre as relaes sociais,  a     ocidental, lutaram para eliminar a intocabili-
preservao do poder de um rei. Realpolitik         dade, estimularam a educao das mulheres e
combina-se com princpios.                          permitiram s vivas que voltassem a se casar.
    Subjacente  sociedade hindu encontram-se       Swami Vivekananda (1862-1902) pregou um
os conceitos gmeos de Varna (ver CASTA) e          monismo mstico acoplado a reformas sociais,
ashrama (estgio de vida). A sociedade  com-       sem eliminar as castas ou a adorao de ima-
preendida como uma hierarquia de elementos          gens.
interdependentes, porm desiguais, caracteri-           Bal Gangdhar Tilak (1856-1920) promoveu
zados mais pela harmonia do que pela competi-       a conscincia social e o nacionalismo poltico.
o. A vida de um homem das castas "duas            Ele defendia a antigidade da cultura ariana e
vezes nascidas" era encarada como uma se-           afirmava que o Bhagavad Gita devia ser com-
qncia de estgios. O bramachari (estudante        preendido como exortao ao servio despren-
celibatrio) casava-se, tornando-se um grihasta     dido. Mahatma Gandhi (1869-1948) lutou para
(chefe de famlia, casado). Quando lhe nascia       concretizar uma sociedade livre da dominao
um neto (e sua linhagem ficava assegurada), ele     estrangeira e caracterizada pela no-violncia,
podia tornar-se um eremita da floresta (varna-      na qual todos os indivduos fossem igualmente
prasta) antes de renunciar a todos os laos com     valorizados. Ele no via justificativa no hin-
o mundo como saniasi (renunciante). Esse pa-        dusmo para a intocabilidade. Seu princpio de
dro persiste na sociedade hindu como um ideal      sarvodaia (elevao universal), esposado por
bsico da vida de famlia, dando lugar a uma        Vinoba Bave (1895-1982) e outros gandhianos,
preocupao sem obstculos com as ocupaes         significa uma ao prtica para melhorar a qua-
religiosas. Do Rig Veda, das epopias (Maha-        lidade de vida dos mais necessitados. Na filo-
barata e Ramaiana) e dos cdigos de leis (Dar-      sofia do ex-ativista poltico Sri Aurobindo
machastra), surge uma viso elaborada da so-        Ghose (1872-1950), a evoluo substitui maya
ciedade.                                            (iluso) como princpio fundamental da socie-
    A principal preocupao dos telogos e fil-    dade e do universo.
sofos no era a teoria social, mas a compreenso        Para Jawaharlal Nheru (1889-1964), primei-
da derradeira realidade. Shankara (c.800 E.C.)      ra pessoa a ocupar o cargo de primeiro-ministro
pregou o advaita (no-dualismo). Em outras          da ndia, a sociedade deve corporificar a demo-
palavras, todas as aparncias de dualidade (por     cracia, o socialismo e o secularismo -- isto ,
exemplo, entre Deus e a matria) eram ilusrias.    lealdade  unidade bsica da ndia --, em vez
Para os msticos medievais, como Kabir e Ra-        do comunalismo (o auto-interesse de comuni-
vidas, a experincia mstica no deixava lugar      dades divididas segundo linhas religiosas). Sar-
para a diviso em castas, mas seria um ana-         vapelli Radakrishnan (1888-1975), filsofo e
cronismo descrev-los como reformadores so-         presidente da ndia, viu um Idealismo indiano
ciais ou tericos no sentido moderno.               como potencial salvador da civilizao em vista
    A ndia do sculo XIX, governada pelos          da explorao pela tecnologia comercial do
ingleses e sensvel tanto ao pensamento oriental    Ocidente. Conforme definido por Radakrish-
quanto ao pensamento cristo, ps de lado os        nan, o secularismo no significa a falta de reli-
pensadores hindus com programas para a trans-       gio nem o atesmo, mas enfatiza valores es-
formao da sociedade. Em Bengala, a Brahma         pirituais que podem ser alcanados de toda uma
Samaj (Sociedade Brmane), fundada por Ram          variedade de modos. A harmonia, mais que a
Mohan Roy (1772-1833), promoveu reformas            competio, era o ideal incorporado no sistema
sociais especialmente no campo dos direitos         de castas, tal como ele o exps (Radakrishnan,
das mulheres. Em seu pensamento, uma forma          1927).
de monismo testa era defendida pelo raciocnio         O pensamento social hindu no sculo XX
filosfico de tipo ocidental. Um asceta de Gu-      tem-se caracterizado por uma crescente tenso
jurati, Swami Daiananda Saraswati (1824-83)         entre os princpios do secularismo e do Hin-
exortou os hindus a voltarem  sua concepo        dutva (revivalismo hindu), no qual Bharat (a
de uma pura sociedade vdica, expurgada das         ndia)  emotivamente identificada com o hin-
356    histria


dusmo. Isso desenvolveu-se em conjugao                histria O convite a escrever um breve en-
com o movimento para unir os hindus de todas             saio sobre histria para um dicionrio do pen-
seitas, castas e regies. O objetivo da Rashtriya        samento social no sculo XX  igualmente um
Swayamsevak Sanch (Unio Voluntria Nacio-               convite a chegar a uma deciso, visando esse
nal), fundada em 1925 pelo Dr. Keshav Baliram            ensaio, sobre o que  o sculo XX. Para esse
Hedgevar (1889-1940), era fazer renascer a               fim, ele ser aqui um sculo XX curto -- os 75
autoconfiana dos hindus e seu senso de obriga-          anos entre 1914 e 1989, do incio da Primeira
o civil, em grande parte atravs do envol-             Guerra Mundial ao mltiplo colapso do comu-
vimento dos jovens num servio social dis-               nismo, como realidade objetiva e como ideolo-
ciplinado. Em 1964 era fundada a Vishwa Hin-             gia, em todo o mundo. Nesse "sculo" de 75
du Parishad (Organizao Hindu Mundial),                 anos, a escrita da histria sofreu trs tipos de
com o mesmo esprito de unificao dos hindus.           mudana de importncia capital, diferenveis
Muitos hindus, enfurecidos ao perceberem que             entre si, mas tambm mutuamente inter-rela-
o governo indiano estava buscando satisfazer as          cionados. As fontes s quais os historiadores
minorias, resolveram afirmar-se de modo mais             dedicaram sua ateno profissional mudaram;
militante, unidos na luta por um templo, em vez          o tema sobre o qual os membros da profisso
de uma mesquita, para marcar o lugar do nas-             escreveram mudou; e a estrutura na qual defi-
cimento de Rama, em Aiodia. Esse ativismo,               niram sua disciplina mudou.
inspirado pela idealizao do passado hindu,                Nesse "sculo" passado os historiadores ga-
representado politicamente pelo Partido Bhara-           nharam acesso a todo um repertrio de informa-
tiya Janata.                                             es at ento fora do seu alcance, por falta de
                                                         tecnologia ou de tcnicas para explor-las, ou
    Analistas da sociedade hindu compreen-
                                                         por falta da perspectiva que lhes desse sentido
dem-na em termos de uma variedade de proces-
                                                         histrico. Pela primeira vez os historiadores
sos, por exemplo, a relao interativa entre a           usaram sistematicamente fontes tais como le-
Grande e a Pequena Tradio (Pan-ndia e for-            vantamentos areos (fotogrficos ou fotogra-
mas locais de hindusmo). Srinivas postulou a            mtricos) de terrenos, registros de nascimentos,
sanscritizao (o processo pelo qual as castas           batismos, casamentos e bitos, mensuraes
inferiores mudam seu comportamento para fa-              fsicas de homens recrutados para os exrcitos,
z-lo assemelhar-se ao que  caracterstico das          catlogos de empresas de vendas pelo correio,
castas brmanes). Entre outros processos, in-            registros de matrculas em escolas e univer-
clui-se a secularizao (pela qual o que  iden-         sidades, listas telefnicas. Esses detritos da vida
tificavelmente religioso, tal como a crena no           humana haviam sido reunidos pelos povos e
sobrenatural, desempenha um papel menos sig-             moldados em forma manusevel em algum mo-
nificativo nas vidas das pessoas), a moderniza-          mento, em algum lugar, para algum propsito.
o, a industrializao, a urbanizao (na me-           Esses propsitos eram outros que no os dos
dida em que milhes se mudam das aldeias para            historiadores do sculo XX, os quais, em ltima
a cidade, num movimento sem precedentes) e a             anlise, remodelaram os dados sobreviventes
ocidentalizao (indicando uma mudana no                para seu prprio uso. A caracterstica comum a
sentido, por exemplo, do consumo de carne e              esses tipos de dados era s terem relevncia
lcool, comportamento incompatvel com a                 para os historiadores quando agregados. Era da
sanscritizao).                                         prpria natureza das coisas que os tipos de
                                                         avano do conhecimento histrico a que essas
Leitura sugerida: Basham, A.L. 1954: The Wonder          fontes se prestavam fossem quantitativos.
that was India  Beteille, A. 1966: Caste, Class and
Power: Changing Patterns of Stratification in a Tanjo-
                                                             Um segundo tipo de dados que atraiu a
re Village  Dumont, L. 1967: Homo hierarchicus           ateno dos historiadores profissionais com
 Dumont, L. e Pocock, D., orgs. 1957-69: Con-            formao acadmica no sculo XX foi a massa
tributions to Indian Sociology, vols.1-9  Lannoy, R.     de informao que, durante 250 anos ou mais,
1971: The Speaking Tree: a Study of Indian Culture and   antiqurios locais vinham reunindo assistema-
Society  Radakrishnan, S. 1927: The Hindu View of        ticamente nas publicaes de sociedades erudi-
Life  Srinivas, M.N. 1967: Social Change in Modern       tas do mesmo mbito. Os historiadores profis-
India.                                                   sionais durante muito tempo tiveram desprezo
                               ELEANOR M. NESBITT        por essas atividades de antiquariato. Esse des-
                                                                                      histria   357


prezo era bem merecido, dada a inpcia de           parte de sua ateno aos feitos passados de
alguns desses esforos e a trivialidade ou me-      lderes dos homens brancos adultos, uma nfima
diocridade de boa parte do resto. No sculo XX      minoria das pessoas que haviam at ento vivi-
os historiadores profissionais remexeram as la-     do sobre a Terra. A intensidade de sua dedicao
tas de lixo da histria local e, em meio a muitos   pode ter sido subestimada e seus motivos para
detritos sem significado, descobriram artefa-       essa dedicao mal compreendidos por muitos
tos preciosos de um passado at ento inex-         de seus sucessores no sculo XX. Ainda assim,
plorado. Aos novos dados quantitativos, acres-      a generalidade com que os historiadores do
centaram as cartas (dirios, registros de casa-     sculo XIX, todos homens brancos e adultos, se
mento e testamentos, aluguis e arrendamen-         dedicaram ao estudo das lutas pelo poder, na
tos) de homens e mulheres obscuros; e em            guerra e na paz, de homens adultos, brancos
ambos os casos a histria se viu enriquecida por    especialmente,  conspcua. A revelao de in-
esse incremento.                                    dcios sobre como a maioria esmagadora dos
    Ambas as espcies de novas fontes histri-      seres humanos, que no era nem branca, nem
cas forneceram dados sobre os tipos de pessoas      masculina, nem adulta, havia vivido e morrido
a quem os historiadores profissionais s haviam     no passado humano resultou em um amplo e
dedicado at aquele momento uma ateno             confuso tumulto a respeito do que conta como
muito passageira: trabalhadores agrcolas, cam-     o passado significativo e de como cont-lo. 
poneses, operrios, soldados, servidores do-        evidente que no decorrer dos quatro sculos e
msticos, mulheres, crianas -- com efeito, a       meio entre 1492 e 1942 os homens brancos
maior parte da humanidade, desde que a vida         adultos vieram a dominar, a ter hegemonia so-
humana comeou a existir. Assim, no sculo          bre a Terra. Para alguns historiadores no sculo
XX pela primeira vez se tornou possvel -- e        XX, at para alguns que no se pode acusar com
logo depois j se tornara prtica comum -- para     facilidade de viso paroquial ou limitada por
os historiadores profissionais escrever de forma    antolhos, era bvio que a ascenso do Ocidente
coerente a respeito de fenmenos com os quais       era A Histria desses 450 anos, no mesmo
os antigos historiadores tiveram poucos meios       sentido em que a Segunda Guerra Mundial foi
e ainda menos disposio para se preocupar:         A Historia dos seis anos de 1939 a 1945; era a
dieta, sade, fora hidrulica, fontes e aplica-    histria ou texto coerente em que a maioria dos
es de energia, alfabetizao, populao, pro-     outros feitos humanos dentro desse intervalo
dutividade, epidemias. (Ver tambm HISTRIA         podia ser encarada como contexto ou pano de
SOCIAL.) Os historiadores que se dedicaram a        fundo. Esse modo de olhar para o passado ,
abrir novos campos de investigao fizeram          evidentemente, mais antigo que o Ocidente mo-
acompanhar seus esforos pioneiros do clangor       derno. Teve suas origens nas literaturas de duas
adequadamente alto de trompetes e, com menos        culturas antigas -- a greco-romana e a judaico-
felicidade, de pretenses territoriais que fize-    crist --, as quais os governantes e autores do
ram com que as dos 13 estados originais dos         Ocidente haviam considerado conveniente e
Estados Unidos, em comparao, parecessem           adequada bem antes da descoberta da Amrica.
modestas.                                           A histria da ascenso do Ocidente, assim, aco-
    A transferncia do interesse para pessoas       moda confortavelmente as duas tradies nar-
que os historiadores das geraes anteriores        rativas com as quais os homens de letras do
haviam negligenciado ou desprezado fez im-          Ocidente estavam mais familiarizados antes de
plodir uma complacncia que os membros da           1492 e que praticamente todos os fundadores
profisso tinham at ento cultivado. A recon-      da profisso histrica, no sculo XIX, aceita-
cepo do histrico, s vezes multifacetada a       vam como um dado.
ponto de parecer catica, havia alterado a pr-         No surpreende que muitos dos historia-
tica visvel dos historiadores profissionais com    dores do sculo XX que tomaram parte na
uma srie de choques ssmicos cuja fora mxi-      descoberta da histria "de baixo para cima"
ma foi difcil de mensurar quando o "sculo"        considerassem essa "velha" histria narrativa
terminou, em 1989.                                  uma prova da anterior sujeio de outras raas,
    No perodo de fundao de sua profisso, de     outras classes, outros grupos etrios e do outro
cerca de 1815 at 1914, os historiadores com        sexo  hegemonia dos homens brancos. E ela
formao acadmica haviam dedicado a maior          foi tambm um instrumento dessa servido.
358   histria


    A desvalorizao das pessoas, individual-       XIX -- expectativas da difuso por todo o
mente, como os centros das histrias histricas     planeta da civilizao dos estados da Europa
e a desvalorizao das histrias como a forma       mais avanados em termos de cincia, tecnolo-
natural da histria, portanto, acomodam com         gia e alfabetizao, esperanas de PROGRESSO
conforto os tipos de provas que os novos gne-      contnuo no caminho da liberdade e da demo-
ros de fontes forneceram no sculo XX. Todo         cracia, aspirao pela paz universal. Na Europa,
esse conjunto de provas proporcionou respostas      desde Waterloo tinha havido ocasionais e curtos
a muitas perguntas histricas que nenhum his-       episdios de luta armada. Mas dos Urais ao
toriador at ento havia feito. No proporcio-      Atlntico, ao norte do Danbio, pela primeira
nou respostas aos tipos de perguntas que ha-        vez desde que os estados da Europa alcanaram
viam sido a preocupao maior dos historia-         a coeso necessria para conflitos entre estados,
dores do sculo XIX e de seus sucessores que        no tinha havido nenhuma guerra longa e im-
continuaram a partilhar de suas preocupaes.       portante entre as grandes potncias.  preciso
Numa cultura que durante 200 anos havia atri-       lembrar que, pelo menos com a vantagem da
budo um valor honorfico sem precedentes          viso em retrospecto, atribumos aos historia-
inovao, era de se esperar que os inovadores       dores que oscilam  beira do sculo mais odioso
do sculo XX viessem a menosprezar o valor          da histria a qualidade da idiotice -- moral,
dos tipos de histria narrativa que suas prticas   poltica ou ambas.
no estavam mais aptas a produzir do que um             No conflito armado da Primeira Guerra
bate-estacas estava apto a produzir uma gravu-      Mundial, o maior conflito de recursos humanos
ra. (Isso no  dito com a inteno de comparar     da histria da Europa, esse fcil otimismo de
invejosamente o valor de um com o do outro;         um sculo afundou. Deixou apenas, como carga
no so comparveis.)                               lanada ao mar, o sorriso idiotizado do ingnuo
    Assim, o tipo inovador de trabalho histrico    gigante transatlntico, os Estados Unidos, que
do sculo XX marginalizou os autores de his-        fez o seu vo de besouro sobre o campo de
tria narrativa. Marginalizou tambm as pes-        batalha apenas por tempo necessrio para deter-
soas humanas, ou efetivamente as desintegrou,       minar o resultado militar imediato, tartamu-
transformando em no-entidades histricas os        deou uma frmula ritual -- "Garantam um
efetivos atores dessas histrias multifacetadas     mundo seguro para a democracia" -- e em
do passado, que haviam sido a maior parte do        seguida se retirou para seu habitual isolamento,
que a maioria dos historiadores escrevera a         tanto espiritual quanto geogrfico.
respeito durante os 100 anos anteriores.                Nos anos do ps-guerra, numa situao de
    No sculo XXI (comeando em 1989), os           dificuldade e de abandono, os melhores intelec-
historiadores podem vir a querer examinar a         tos da Europa voltaram-se para os poucos pro-
confluncia das novas fontes da escrita histrica   fetas do infortnio, os quais, em meio  promes-
do sculo XXI, seus novos temas e as concep-        sa do sculo XIX, haviam percebido sinais de
es, na verdade as ides fixes, que haviam         desgraa iminente. Muitos voltaram-se espe-
conquistado as mentes dos historiadores mais        cialmente para aquela sucesso de profetas que,
influentes da poca. Quanto mais tempo es-          embora percebendo em seu prprio tempo a
perarem, mais a passagem do tempo reduzir          ameaa de catstrofe mundial, enxergaram va-
sua capacidade de empatia com o fascnio du-        gamente no horizonte os sinais de uma aurora
radouro -- feito tanto de atrao quanto de         vermelha que surgiu no incio dos anos 20 --
repulsa --, para os historiadores do sculo XX,     uma nova luz no Leste, a primeira sociedade
desse conjunto particular de idias ao qual em      socialista.
breve retornaremos.                                     Um aps outro, os objetivos socialistas pro-
    A confluncia de fontes, idias e eventos       clamados por Karl Marx em 1848 foram alcan-
ocorreu entre 1914 e 1945. Seu cenrio foram        ados na Unio Sovitica -- a abolio da
duas guerras terrveis, geradas na Europa, que      propriedade privada, a liquidao de uma es-
em 30 anos deixaram desolada aquela civiliza-       trutura de classes arcaica, a ditadura do prole-
o violenta em meio s cinzas de sua prpria       tariado, a destruio daquele pio do povo, a
loucura. Os primeiros anos do sculo XX, por-       religio organizada, e -- com apenas 12 anos
tanto, testemunharam um holocausto das ex-          da fase russa da revoluo mundial -- a introdu-
pectativas, esperanas e aspiraes do sculo       o do planejamento econmico e assim, final-
                                                                                      histria   359


mente, uma sociedade organizada de modo ra-        (1867), Karl Marx determinava a condio pr-
cional para atingir seu objetivo declarado. Nun-   via bsica para uma sociedade comunista, o tipo
ca a capacidade persuasiva do fazer foi mais       de sociedade que ele havia prefigurado no Ma-
eficaz do que naqueles primeiros anos da ex-       nifesto comunista de 1848. Essa condio era a
perincia comunista na Rssia. Essa capaci-        abolio da propriedade privada. Tendo a socie-
dade criava um contraste agudo com os cegos        dade capitalista passado da maturidade para
tropeos do Ocidente nos dez anos anteriores      uma decadncia senil, o proletariado, numa
Segunda Guerra Mundial. De um lado, a mar-         revoluo socialista, derrotaria uma burguesia
cha firme atravs do socialismo rumo a uma         obsoleta e colocaria a sociedade no rumo de sua
sociedade comunista na Unio Sovitica. De         meta comunista. Isso deveria ser atingido atra-
outro, a Grande Depresso, o desemprego ma-        vs da explorao capitalista da classe operria
cio, o colapso dos regimes pseudodemocrti-       pela burguesia antes que uma sociedade es-
cos da Itlia e da Alemanha do pr-guerra no       tivesse pronta para a revoluo socialista. No
fascismo e no nazismo, a paralisia das econo-      final de 1917, porm, sob a liderana de Lenin,
mias capitalistas e a aparente agonia do im-       uma pequena faco comunista tomou o poder
perialismo e da ordem mundial burguesa.            na Rssia. Nos cinco anos que se seguiram o
    Antes da Primeira Guerra Mundial, a pala-      Partido Comunista russo conseguiu, pela pri-
vra marxista fora aplicada a um conjunto poli-     meira vez na histria, abolir a propriedade pri-
cntrico de seitas e faces polticas com dois    vada dos meios de produo. Tambm con-
traos em comum. O primeiro era uma averso        solidou seu prprio domnio sobre quase todo
s estruturas polticas, econmicas ou sociais     o territrio, na Europa e na sia, antes subme-
em meio as quais viviam, e a convico de que      tido aos czares da Rssia, um territrio at ento
essas estruturas eram to exploradoras e opres-    encarado pelos europeus, marxistas ou no, co-
soras da maior parte da humanidade que deve-       mo "atrasado" e "asitico".
riam ser substitudas atravs de quaisquer
                                                       A poca, o lugar e a substncia do triunfo
meios viveis. O segundo era a convico de
que Karl Marx havia efetivamente analisado o       comunista na Unio das Repblicas Socialistas
modo como a humanidade tinha chegado ao            Soviticas, antes o Imprio Russo, conferiu
transe por que passou em 1914; ele havia des-      uma inclinao peculiar e mpar ao que ocorreu
coberto tambm o caminho que ela iria e deve-      no mundo nos 75 anos seguintes.  portanto
ria seguir no futuro, o caminho chamado socia-     adequado iniciar a histria do sculo XX com
lismo rumo ao objetivo chamado comunismo.          o surgimento do socialismo marxista sovitico
Em 1914 os seguidores dos ensinamentos de          e termin-la entre 1989 e 1992, quando, por
Marx, da Rssia  pennsula Ibrica, viviam em     ao oficial, a ex-Unio das Repblicas Socia-
mltiplo desacordo a respeito do que era a         listas Soviticas transformou-se na Comuni-
verdadeira filosofia marxista e da linha de ao   dade dos Estados Independentes. As implica-
que deles se exigia naquele momento. Todos os      es dessa mudana no foram animadoras para
marxistas concordavam, porm, em que os en-        o marxismo, e para o comunismo foram cala-
sinamentos de Marx exigiam que seus segui-         mitosas. Assim, o sculo XX mais curto foi o
dores aplicassem sua doutrina, fosse ela qual      Sculo Marxista. Durante 75 anos a Unio So-
fosse, na esfera da ao; ela fornecia uma lei     vitica, da qual Marx e Lenin eram os cones
cientfica da vida.                                oficiais, apresentou  humanidade a primeira
    Especialmente atravs de seu impacto sobre     "encenao" de socialismo no cenrio mundial.
o marxismo, os acontecimentos da Primeira          Em momentos isolados desse sculo a Gr-
Guerra Mundial produziram um efeito de dis-        Bretanha, os Estados Unidos, a Alemanha na-
toro nas percepes dos historiadores, o qual,   zista, o Japo e a China maosta juntaram-se 
at quase o final desse breve sculo XX, viria a   Unio Sovitica no centro do palco. A Unio
formar ou distorcer a histria escrita durante     Sovitica, primeira grande sociedade explicita-
suas sete dcadas e meia. Nos ltimos anos da      mente fundada em princpios e preceitos mar-
Primeira Guerra Mundial a Musa da Histria         xistas, esteve no entanto, desde seu incio, cons-
pregou uma pea amarga no marxismo e em            tantemente em um dos plos da viso corrente
todas, menos uma, de suas principais seitas. No    que a humanidade tinha do mundo tal como ele
incio mesmo de sua magnum opus, O capital         era e deveria ser.
360   histria


    Para pessoas moderadamente observadoras,         de Marx um sabor picante particular para in-
durante as trs primeiras dcadas do sculo XX       telectuais das poucas democracias livres sobre-
parecia que no mais rigoroso teste humano para       viventes. Muitos dos mais articulados desses
uma pretenso cientfica, o teste da experincia,    intelectuais inclinaram-se, com graus variados
o marxismo havia feito valer a sua afirmativa        de agudeza, ao marxismo. Os que no se sen-
de que era a verdadeira cincia da sociedade         tiram inclinados, mais do aqueles que se sen-
humana, ou pelo menos o local onde essa pre-         tiram, vieram a descobrir que o nus da prova,
tenso estava sendo experimentalmente testa-         nada invejvel, estava caindo em seus ombros.
da. As primeiras previses marxistas sobre o         Alguns deles despenderam muita energia, tal-
colapso iminente do capitalismo estavam sendo        vez energia demais, na demonstrao dos seus
confirmadas pelos acontecimentos no mundo            motivos para no serem marxistas. Isso im-
inteiro. Na Europa, a Guerra de Trinta Anos          plicou afirmar que, do ponto onde se encon-
entre culturas imperialistas, chacais capitalistas   travam, no viam a inevitvel Aurora Vermelha
e hienas fascistas parecia estar rumando para        -- ou, alis, qualquer outra nuana de aurora
uma concluso de destruio mtua garantida.         inevitvel -- de um novo dia para a humani-
    Durante quase todo o sculo XX a Revolu-         dade, o que no era a mensagem que a humani-
o Comunista e o sucesso ou sobrevivncia da        dade achava mais animadora. Despenderam um
Unio Sovitica foram os eventos decisivos no        esforo considervel insistindo na incapacida-
avivamento da imaginao dos historiadores           de dos marxistas e quase marxistas de enfrentar
profissionais, no apenas na Rssia, mas em          os dilemas, paradoxos e contradies inerentes
todo o mundo. Foi esse o caso no apenas com         ao marxismo desde o princpio. Esses historia-
historiadores explicitamente marxistas, mas          dores criticaram em geral os pressupostos mar-
tambm com historiadores descompromissa-             xistas que punham de lado, arbitrariamente,
dos, os quais, inibidamente ou no, encaravam        como indignos de considerao ou secundrios
a histria como uma das cincias da poltica,        (no-bsicos ou sem importncia a longo pra-
visando a melhoria do ser humano. Para eles,         zo), eventos e processos para os quais o marxis-
ela era potencialmente uma fonte de informa-         mo no era capaz de oferecer uma explicao
es cientificamente verificada que apontava         cientfica adequada. Num mundo palpavelmen-
para o rumo correto das aes sociais, econ-        te voltado para o mergulho no naufrgio e na
micas e polticas. Tiveram de ponderar se a          runa, a rejeio da esperana marxista nem
Unio Sovitica estava marcando infalivelmen-        sempre foi popular entre os intelectuais nem
te o caminho que outras sociedades deviam            plausvel para estes.
seguir ou um caminho ao qual deveriam resistir           Agora, com a vantagem da viso retrospec-
e que precisariam reverter. Mesmo nos poucos         tiva, na aurora do sculo XXI, a preocupao
pases onde at 1945 a vocao dos historiado-       dos historiadores do sculo anterior com uma
res no esteve sujeita a uma orientao irresis-     viso da natureza e do destino do homem to
tvel por parte do acima mencionado, muitos          palpavelmente falha em seus fundamentos
historiadores sentiram-se atrados pelo poder        quanto a dos marxistas pode parecer misteriosa
exercido na Unio Sovitica em nome da cin-         ou profundamente ridcula. Quando isso acon-
cia. Outros ficaram hipnotizados pela comple-        tecer -- como com toda certeza acontecer --,
xidade intelectual e pela grandiosidade abran-       os historiadores presentes e futuros devem ten-
gente que o marxismo atingiu em suas misses         tar ver o mundo do incio do sculo XX tal como
simultneas de abarcar o mundo e promover a          os que nele viviam. At 1989 ningum -- nem
quadratura do crculo.                               leigo, nem especialista -- previu o fim do s-
    Seria possvel levantar boa quantidade de        culo XX tal como acabou acontecendo: a im-
provas histricas srias adaptveis a formas         ploso da estrutura sovitica de poder e, junto
congruentes com o marxismo. O mesmo acon-            com ela, da ideologia com que ela estava com-
teceu com o populoso cinturo da terra, do Elba      prometida. No momento em que este artigo est
ao Adritico, em sua fronteira ocidental, se-        sendo escrito, ningum ainda foi capaz de fazer
guindo at o oceano Pacfico e sul do mar da         uma estimativa plausvel da devastao provo-
China, na fronteira oriental. O fascnio terico     cada pelo colapso interno das estruturas ins-
juntou-se a um triunfo poltico que tudo in-         titucionais comunistas em boa parte do mundo,
dicava ser iminente. Isso deu  viso histrica      e de sua provvel e iminente desarticulao na
                                                                                  histria econmica       361


China, a nica rea de grande vulto onde essas         crits sur l'histoire  Carr, E.H. 1961: What is History?
                                                        Collingwood, R.G. 1946: The Idea of History  Hex-
estruturas sobreviveram. L, elas so mantidas
                                                       ter, J.H. 1961: Reappraisals in History  1971: The
vivas apenas pelas manhas de um punhado de             History Primer  Le Roy Ladurie, E. 1973: Le territoire
homens todos com oitenta e poucos anos; o que          de l'historien.
vai acontecer quando esses homens morrerem, o                                                    J.H. HEXTER
que ocorrer em breve, no pode ser adivinhado.
    No  das menores ironias do sculo XX o           histria econmica Descrita por um de seus
fato de as catstrofes ao seu final terem sido         primeiros praticantes como "no tanto o estudo
catstrofes do marxismo, a estrutura intelectual       de uma classe especial de fatos quanto o estudo
que ganhou predomnio no incio deste sculo,          de todos os fatos da histria de uma nao, a
e das estruturas institucionais, as do comunismo       partir de um ponto de vista especial" (W.J.
sovitico, atravs de cuja mediao esse dom-         Cunningham), a histria econmica no tem
nio foi em grande parte mantido. O que esse            fronteiras rigidamente definidas, espalhando-se
vazio nas estruturas institucionais ir acarretar      pela histria social e poltica, bem como pela
 algo que os historiadores podem comear a            economia. Suas maiores preocupaes, no en-
supor, pelo menos at o nvel de imaginar uma          tanto, so a anlise do crescimento do declnio
srie limitada de alternativas para elas e de          econmico e a relao entre a transformao
realizar movimentos exploratrios visando a            econmica e o bem-estar social.
compreenso dessas alternativas.
    Como revisar e substituir de forma eficaz a        Origens
IDEOLOGIA predominante do sculo XX  algo                 Essa disciplina tem suas razes no perodo
que confronta os historiadores com um proble-          em que a importncia do fator econmico para
ma ainda mais desconcertante. Estruturas de            a fora poltica das naes foi pela primeira vez
idias so muito mais durveis do que estruturas       sinceramente percebido -- o perodo do "mer-
institucionais, os seus guardies so mais con-        cantilismo". Essa nova preocupao criou sua
servadores e tm interesses muito mais profun-         nova literatura, escrita pelos chamados "aritm-
damente arraigados em preserv-las. A neces-           ticos polticos", da qual o exemplo ingls mais
sidade de uma rpida remoo de instituies           conhecido foi Natural and Political Observa-
que soltam emanaes sufocantes e no final no         tions on the State and Condition of England, de
produzem mais do que lixo, fraqueza, sofrimen-         Gregory King, publicado em 1688.
to e morte no  mais difcil de perceber, e a             O Iluminismo, com sua crena de que os
demolio tende a ser evidente para os que esto       sistemas e as questes humanas seguiam as
presos nas runas. Sendo intangveis, as ideolo-       regras da natureza, fez surgir uma abordagem
gias agarram-se com mais persistncia e so            mais terica. Nessa evoluo, os textos dos
mais difceis de limpar. Para um historiador --        "fisiocratas" (fisiocracia significando literal-
como para qualquer intelectual que tenha inves-        mente "governo da natureza"), na Frana, e dos
tido sua vida na aquisio de uma especialidade        participantes do "Iluminismo Escocs" se des-
cujo contedo o rumo dos acontecimentos, isto          tacam em particular. Os primeiros deram prio-
, a mudana histrica, transformou num peixe          ridade  agricultura em sua teoria, afirmando
invendvel --, a disposio para registrar, mais       que era ela a nica fonte de "produto lquido" e
ainda para anular, o valor final de uma vida de        classificando a indstria como uma "arte es-
trabalho no  algo fcil. J nos ltimos 30 anos,     tril". Suas figuras de proa foram Franois
 medida que o crdito e a credibilidade das           Quesnay (1694-1774) e A.R.J. Turgot (1727-
experincias soviticas iam afundando, histo-          81). O Tableau conomique, de Quesnay, publi-
riadores que investiram a maioria de seus trun-        cado em 1758, ajudou muito na difuso da idia
                                                       fisiocrtica de que a economia funcionava de
fos intelectuais no comunismo comeavam a
                                                       acordo com regras naturais. Turgot juntou os
buscar meios de reduzir seus prejuzos. Era raro
                                                       papis de terico econmico e de poltico, es-
haver um historiador marxista que dissesse:
                                                       crevendo uma obra, Sobre a histria universal,
"Desperdicei minha vida tentando abrir cami-
                                                       em 1750-1, que introduzia uma nova base para
nho num beco sem sada."
                                                       a diviso da histria em perodos determinados
Leitura sugerida: Barraclough, G. 1964: An Introduc-   em termos de estgios econmicos, tendo che-
tion to Contemporary History  Braudel, F. 1977:        gado  posio de tesoureiro-geral em 1774, na
362   histria econmica


qual tentou, sem sucesso, remodelar a econo-         tivismo se atribuiu, visando reconciliar a abor-
mia francesa a partir de princpios fisiocrticos.   dagem cientfica com as exigncias da ordem
    John Millar (1735-1801) e Adam Smith             social. A histria econmica desempenhou um
(1723-90) foram os dois participantes do Ilumi-      papel nisso -- Saint-Simon (1760-1825) desen-
nismo escocs cuja obra teve maior relevncia        volveu as percepes iniciais de Turgot e Con-
para o desenvolvimento da matria. Smith, em         dorcet (1743-1794) numa teoria materialista da
A riqueza das naes (1776), reagiu contra o         histria, incorporando um elemento revolucio-
excessivo dedutivismo e a inclinao agrcola        nrio e antecipando Marx --, mas seu papel foi
dos fisiocratas. Tal como eles, acreditava que       subordinado. O papel de Saint-Simon, ao con-
havia um padro natural ideal, segundo o qual        trrio do de Smith, no era basicamente for-
uma economia se desenvolvia e no qual a agri-        necer um modelo para o crescimento econmi-
cultura tinha a primazia, mas seu conhecimento       co, mas sim para o poltico -- o de induzir 
de histria e suas observaes na prpria Es-        aceitao de um novo tipo de sociedade domi-
ccia e em suas viagens lhe haviam demons-           nada por industriais e cientistas.
trado que esse padro era raramente seguido.             O momento decisivo foi menos marcante na
    Embora tradies nacionais distintas te-         Alemanha, onde a nfase de Herder (1744-
nham sido detectadas no Iluminismo, sua carac-       1803) no "carter nacional" j contrastava com
terstica dominante foi uma excepcional uni-         o universalismo a-histrico dos autores do Ilu-
dade internacional na prioridade que ela atri-       minismo, mas por outro lado reforou clara-
buiu  razo e em seu otimismo com respeito          mente a tendncia ento existente; a nfase de
ao futuro. As substanciais divises nas tradies    Ranke (1795-1886) em encarar o passado a
intelectuais nacionais podem ser mais bem ob-        partir de dentro, em seus prprios termos, foi
servadas, portanto, como tendo suas fontes nas       considerada como tendo fornecido a base para
duas revolues ocorridas no perodo 1780-           uma "revoluo berlinense nos estudos his-
1815. Estas marcariam a histria econmica tal       tricos" (Marwick, 1970, p.34-40). A combina-
como o fizeram com outras disciplinas acad-         o dessa tradio histrica com o relativo atra-
micas. Primeiro, a Revoluo Industrial des-         so e a diviso poltica da Alemanha, que a levou
truiu alguns dos pressupostos bsicos da teoria      a ter dificuldades em conseguir cedo a indus-
de Smith sobre o crescimento econmico, em           trializao a partir de uma situao de livre
particular a sua crena de que havia um teto         comrcio, fez surgir uma escola de "economia
natural para o processo, estabelecido pelos re-      histrica", com nfase na relao entre o estudo
cursos naturais de uma sociedade. Tambm fez         da economia e o desenvolvimento dos sistemas
surgir, a curto prazo, um aumento na desigual-       econmicos.
dade econmica -- com a Gr-Bretanha alcan-              Os contextos nacionais no eram totalmente
ando extraordinria liderana sobre o resto do      impermeveis, mas eles efetivamente se tor-
mundo em torno de 1850 --, o que tornou um           naram as influncias predominantes no desen-
consenso internacional sobre teoria e histria       volvimento da histria econmica at depois de
econmica muito mais difcil de ser alcanado.       1945.  preciso, portanto, traar vrias trajet-
    Curiosamente, foi no pas cuja histria eco-     rias para a matria, antes de se descrever o
nmica era mais interessante que a matria           impacto do recente e mais intenso intercmbio
sofreu o seu mais srio revs. O prprio sucesso     intelectual.
econmico da Inglaterra, combinado com o fato
de a histria haver-se transformado (diante do       A tradio alem
desafio do racionalismo da Revoluo Fran-               O precursor da "economia histrica" alem
cesa) no brao direito do conservadorismo, con-      foi Friedrich List (1798-1846), militante em
tribuiu para o desenvolvimento e a aceitao da      favor da unidade nacional alem e autor de O
economia dedutiva e a-histrica de David Ri-         sistema nacional de economia poltica, publi-
cardo (1772-1823) (Burrow, 1966, p.59-64). A         cado em 1841, que apresentou uma argumenta-
abordagem histrica sofreu uma experincia           o com base na "infncia da indstria" contra
inversa na Frana. O nvel de ruptura social e       a teoria do livre comrcio. Seus primeiros pra-
poltica refletiu-se na histria e gerou a preo-     ticantes foram Bruno Hildebrand (1812-78),
cupao de se estabelecer uma nova base para         Wilhelm Roscher (1817-49) e Karl Knies
o consenso social. Foi essa a tarefa que o posi-     (1821-98); pode-se dizer que ela surgiu como
                                                                            histria econmica   363


uma "escola" especfica sob a influncia de          sua crena de que a objetividade era alcanvel
Gustav von Schmoller (1838-1917) e seus dis-         atravs do tratamento destes como "coisas".
cpulos, entre os quais se incluam Werner Som-      No era tanto a histria econmica que se estava
bart (1863-1941) e Max Weber (1864-1920).            estabelecendo, mas uma nova definio da his-
Distinguia-se pelo engajamento poltico de seus      tria como matria, na qual o econmico, con-
membros com a reforma social, e rejeitava tanto      jugado com o social e o cultural, recebia impor-
a tradio comteana francesa quanto o compro-        tncia particular e o evento poltico ficava em
misso ingls com o laissez-faire. Sua posio        segundo plano.
poltica era o conservadorismo social. Seus m-          Em 1900 foi fundada a Revue de Synthse
todos eram eclticos -- valendo-se de toda a         Historique, e foi em suas pginas que Lucien
srie de cincias sociais --, e ela promoveu uma     Febvre (1878-1956) e Marc Bloch (1886-
extensa pesquisa histrica, particularmente em       1944), os principais promotores da nova his-
arquivos polticos. Na medida em que desen-          tria, encontraram um primeiro veculo para
volveu uma teoria econmica, esta foi de um          suas idias. A tese de Lucien Febvre, Philippe
tipo predominantemente pragmtico, baseada           II et le Franche-Comt, de 1912, forneceu o
na anlise de exemplos histricos. Embora S-         primeiro exemplo de um aspecto dessa abor-
chmoller viesse a publicar uma obra terica de       dagem -- a mudana rumo a uma "histria
sntese, a relativa fraqueza desse lado terico do   total", na qual se revela no s a vida social,
trabalho da escola serviu de motivo ao
                                                     cultural e econmica de uma regio, mas tam-
METHODENSTREIT, durante a dcada de 1880.
                                                     bm sua vida poltica. Les caractres originaux
Essa disputa, porm, pouco conseguiu sacudir
                                                     de l'histoire rurale franaise, de Marc Bloch
a hegemonia da economia histrica -- Schmol-
                                                     (1931),  ainda mais claramente durkheimiano,
ler havia desenvolvido uma posio institucio-
                                                     usando a mais concreta das provas, os padres
nal impossvel de contestar, dirigindo as prin-
cipais sries de publicaes sobre cincias so-      de campo tirados de velhos levantamentos ca-
ciais na Alemanha e intervindo na maioria das        dastrais, bem como a fotografia area, como sua
indicaes para postos acadmicos em econo-          fonte principal. Em 1929 era fundado o peri-
mia. Isso deteve o desenvolvimento da teoria         dico Annales d'Histoire conomique et Socia-
econmica na Alemanha, mas tambm, a longo           le, que viria a fornecer um nome para a nova
prazo, contaminou a histria econmica; depois       abordagem -- a escola dos ANNALES. Esse pe-
da Primeira Guerra Mundial houve uma reao          ridico foi rebatizado como Annales: Econo-
e a matria tem sofrido muitos anos de ostracis-     mies, Socits, Civilisations, em 1946, e a es-
mo, a histria limitando-se ao estudo do poltico    cola, que tivera origens em universidades de
(J.A. Schumpeter, 1954, p.501-10).                   provncia, ganhou uma base de poder em 1947
                                                     com o estabelecimento da Sexta Seo da cole
A tradio francesa                                  Pratique des Hautes tudes, um centro interdis-
    A tradio francesa veio a se desenvolver        ciplinar para o ensino e a pesquisa em cincias
mais tarde ainda do que a alem, teve maior          sociais. A liderana dessa seo e, com isso, da
durao e veio a exercer enorme influncia. Sua      "escola" foi assumida, na morte de Febvre, em
origem reside numa reao ao conservadorismo         1956, por Fernand Braudel (1902-85). A tese de
da histria, em termos de sua concentrao           Braudel, O Mediterrneo e o mundo mediter-
puramente nos eventos polticos e em sua pe-         rneo na poca de Filipe II (1949), exerceu
netrao por atitudes historicistas alems, tal      influncia na promoo de uma forma de deter-
como ela foi estudada na Frana durante a            minismo geogrfico, pelo modo como diferen-
Terceira Repblica. A principal influncia in-       ciava entre conceitos diversos de tempo e em
telectual por ela sofrida foi a do positivismo --    sua atitude de rejeio aos eventos. Os melhores
o pensamento de Augusto Comte, com sua n-           praticantes da abordagem dos Annales foram
fase na semelhana das cincias humanas com          Emmanuel Le Roy Ladurie e Pierre Goubert,
as cincias naturais e da na possibilidade de       cujas formaes como historiadores, como a de
generalizao e explicao; e, acima de tudo, o      muitos dos Annales, residem na histria regio-
de Emile Durkheim, com sua rejeio das ex-          nal, no caso a do Languedoc e a do Beauvaisis.
plicaes psicolgicas para a mudana social,        Mais recentemente tem sofrido crticas, par-
em detrimento do estudo dos "fatos sociais", e       ticularmente de Franois Furet, por sua falta de
364   histria econmica


teoria e por sua negligncia em relao  pol-     neira brilhante a teoria econmica em seu Prin-
tica (Iggers, 1975, p.43-79).                       ciples of Economics (1890), ampliando sua de-
                                                    finio para incluir boa parte do que preocupava
A tradio britnica                                os economistas histricos (Collini et al., 1983,
    A fora da reao  abordagem histrica foi     p.267-71). O fracasso com respeito a sua ambi-
tal que sua reintroduo a partir do continente     o maior, porm, favoreceu efetivamente o
se tornou necessria. Os principais agentes dis-    desenvolvimento da histria econmica como
so foram John Stuart Mill (1806-1873) e H.S.        disciplina, uma vez que seu estudo havia ganho
Maine (1822-1888), influenciados respectiva-        suficiente mpeto para lhe garantir uma posio
mente pela viso progressista de Comte com          como matria universitria independente. O en-
respeito ao processo histrico e pela filosofia     sino da histria econmica teve destaque na
alem (Collini et al., 1983, p.210-11). Foi o       London School of Economics (fundada em
estabelecimento da histria como matria uni-       1895). Seu primeiro diretor, W.A.S. Hewins
versitria que proporcionou as primeiras aber-      (1865-1931), era um historiador econmico, e
turas para a histria econmica. Esta foi en-       a primeira funo de palestras especficas sobre
sinada e examinada como parte das novas pro-        histria econmica foi criada nessa mesma es-
vas de histria em Oxford, inicialmente junto       cola em 1904. A primeira ctedra da matria foi
com a economia poltica, mais tarde isolada-        estabelecida em Manchester no ano de 1910.
mente. Recebeu o impulso adicional quando os        Seguiram-se outras, em Londres, 1921, Cam-
prprios historiadores ampliaram sua aborda-        bridge, 1928, e Oxford, 1931. Outros marcos
gem para incluir questes econmicas, jurdi-       foram a fundao da Economic History Society
cas e sociais (Harte, 1971, p.xviii-xix; Kadish,    e do peridico The Economic History Review,
1989, p.3-13). Uma vez estabelecida, seu pro-       em 1926 (Harte, 1971, p.xxiv-xxx: Coleman,
gresso foi rpido. Pde beneficiar-se de uma        1987, p.94).
tradio de histrias industriais, bem como de
uma compilao de dados estatsticos que nun-       Perfil da matria
ca fora interrompida, e logo viria a experimen-         Uma quarta e importante tradio da matria
tar uma crescente demanda popular por seus           a marxista. A crena de Marx em que es-
produtos, por parte de um pblico necessitado       truturas econmicas herdadas eram a influncia
de qualificaes profissionais para as quais o      determinante sobre todos os nveis da existn-
estudo da histria econmica se mostrava par-       cia humana, e que a competio entre classes
ticularmente adequado. Era evidentemente            sociais era o motor da histria, evidentemente
uma atividade prtica e tambm relevante num        dava prioridade ao estudo da economia. A teoria
pas cuja histria havia sido to fortemente        de Marx, porm, era a nica abordagem na qual
marcada pelo aspecto econmico. Essa iden-          a histria econmica ganhava o status de mat-
tificao popular com o tema viria a permanecer     ria bsica. Nas outras, conforme destacado aci-
como seu principal esteio (Harte, 1971, p.xxiii-    ma, seu status era evidentemente subordinado,
xxiv).                                              sendo seu desenvolvimento um subproduto de
    A matria subiu a uma posio proeminente       foras intelectuais ou polticas mais amplas, e
em conseqncia de um "methodenstreit" in-          seu perfil era caraterizado por isso. Assim, na
gls, no qual as situaes eram o inverso das da    Alemanha, a subordinao da matria ao desejo
Alemanha, com a economia terica como a             de uma economia histrica e a ligao desta
abordagem estabelecida e a abordagem his-           com o nacionalismo provocaram uma nfase
trica como a desafiante. Seus principais defen-    particular em diferentes formas de sistema eco-
sores foram Arnold Toynbee (1852-83), W.J.          nmico. Na Frana, seu desenvolvimento den-
Ashley (1860-1927) e W.J. Cunningham (1849-         tro de uma corrente positivista -- opondo o
1919). Todos foram influenciados pela escola        papel dos indivduos e os eventos polticos --,
alem, usando sua tcnica de realizar estudos       ao mesmo tempo em que lhe deu o status de
histricos de diferentes pocas a fim de minar      possivelmente a mais importante instncia cau-
as pretenses da economia clssica  univer-        sal em um processo histrico "total", fez com
salidade. Esse ataque, em ltima anlise, fracas-   que ela negligenciasse o problema do desenvol-
sou principalmente devido ao fato de Alfred         vimento econmico em favor da nfase nas
Marshall (1842-1924) ter reformulado de ma-         continuidades -- no surpreende que os me-
                                                                           histria econmica    365


lhores estudos dos Annales tenham sido sobre        um desenvolvimento particularmente rpido no
a economia pr-industrial. Finalmente, o foco       Japo. O padro mpar de industrializao no
central da abordagem inglesa tendeu a ser, de       Japo e sua preocupao em sair o mais rapida-
incio, predominantemente parcial, voltado pa-      mente possvel do atraso provocaram desde
ra destacar o que a matria encarava como os        cedo o interesse pela matria -- havia quase mil
abusos particulares do capitalismo de laissez-      estudiosos se especializando nela em meados
faire. Tambm nos Estados Unidos, onde a            dos anos 80 (Sin-Ichi Yonekawa, 1985, p.107).
matria havia surgido por volta do final do             A fundao da Associao Internacional de
sculo XIX, ela se desenvolvia em conexo           Histria Econmica, em 1960, criou uma or-
com questes de particular relevncia nacional      ganizao especificamente comprometida com
-- Frederick Jackson Turner (1861-1932) de-         a difuso da matria. Ela tem organizado con-
senvolveu a tese da fronteira como uma ex-          ferncias internacionais a intervalos quadrie-
plicao de caractersticas especficas da socie-   nais, e estas, bem como a intensificao geral
dade norte-americana e Charles A. Beard             nos contatos internacionais entre intelectuais e
(1874-1948) defendeu o carter decisivo dos         o estmulo comum de um recurso maior  eco-
interesses econmicos para o perfil da cons-        nomia, resultaram numa crescente interao en-
tituio americana e da poltica do sculo XIX.     tre as diferentes abordagens nacionais. Exem-
    A partir dos anos 30 a histria econmica       plos disso so a colaborao de Fernand Brau-
nos Estados Unidos e na Gr-Bretanha utilizou       del com Immanuel Wallerstein, economista de-
ainda mais a teoria econmica. No caso ingls,      senvolvimentista que passou a trabalhar com a
J.H. Clapham (1873-1946) e T.S. Ashton (1889-       histria econmica do primeiro perodo moder-
1968) foram os principais arquitetos da mudan-      no. Isso influenciou a abordagem de Braudel
a. A partir de meados dos anos 50 os laos         em seu Civilization and Capitalism, 15th-18th
haviam se tornado ainda mais estreitos, com o       Centuries (3 vols., 1967, 1979, 1981-4) e deu
desenvolvimento da "nova histria econmi-          origem  fundao do Fernand Braudel Center
ca", ou "cliomtrica", nos Estados Unidos, on-      for the Study of Economies, Historical Sys-
de a histria econmica tendia a ser ensinada       tems, and Civilizations, na Universidade de
em departamentos de economia e se fazia cam-        Birmingham, em 1977. Influenciou tambm a
panha por uma utilizao mais explcita da          introduo na Inglaterra de tcnicas francesas
teoria econmica e de mtodos quantitativos na      de pesquisa demogrfica, com a fundao do
matria. Essa abordagem difundiu-se para a          Cambridge Group for the Study of Population
Inglaterra nos anos 60, e de forma ainda mais       and Social Structure, nos anos 60. Alm disso,
ampla, posteriormente (McCloskey, 1987,             vrias publicaes pioneiras sobre o tema tm
p.77-84).                                           contribudo para derrubar fronteiras. Entre estas
    Com a preocupao cada vez maior com o          esto Stages of Economic Growth (1960), de
crescimento econmico desde 1945, bem como          W.W. Rostow, uma teoria da histria provoca-
uma expanso geral na educao superior e no        dora e rival da de Marx, e que, embora julgada
estudo das cincias sociais, a matria tem cres-    errnea, deu origem  difuso geral de expres-
cido rapidamente nos ltimos anos. Na dcada        ses como "auto-suficincia econmica" e "era
de 70 havia cerca de duas dzias de professores     de elevado consumo de massa", bem como a
catedrticos de histria econmica e aproxima-      estudos imitativos; Economic Backwardness in
damente o mesmo nmero de departamentos de          Historical Perspective (1962), de A. Gers-
histria econmica em universidades britni-        chenkron, que lanou a histria econmica
cas, e a filiao  Economic History Society        comparada atravs do desenvolvimento de um
havia subido para mais de 5 mil membros. A          modelo que explica sistematicamente o carter
American Economic History Association teve          contrastante da industrializao em diferentes
uma taxa de crescimento semelhante depois de        pases; e Peaceful Conquest: The Industrializa-
1945, chegando a 3.600 membros em meados            tion of Europe, 1760-1960 (1981), de Sidney
dos anos 70 (Harte, 1971, p.xxiv-xxx: Cole-         Pollard, que minava as prprias fundaes da
man, 1987, p.94). Alm disso, a matria difun-      abordagem nacional, afirmando que a indus-
diu-se internacionalmente com a fundao, em        trializao europia foi um processo internacio-
1953, da Scandinavian Economic History Re-          nal em que a dinmica do crescimento ocorreu
view, de uma outra, australiana, em 1967, e de      no plano regional.  a extenso dessa abor-
366   histria social


dagem comparativa que garantir que as reali-           mudava. Essa abordagem continuou popular,
zaes da histria econmica dentro de es-              particularmente nos pases de lngua inglesa,
truturas nacionais sejam consolidadas e sirvam          onde durante 20 anos "oficinas" e "laborat-
de base para novos crescimentos, e que a mat-          rios" de histria exploraram o que E.P. Thom-
ria venha a ser til em um mundo mais do que            pson e outros historiadores do sculo XX cha-
nunca necessitado de um ponto de vista his-             maram de "histria a partir de baixo".
trico.                                                     A histria social est diretamente relaciona-
                                                        da com a experincia e a percepo que dela se
Leitura sugerida: Blaug, M. 1986: Economic History
and the History of Economics  Burke, P. 1990: The       tem, do mesmo modo que com a comunicao.
French Historical Revolution: the Annales School        No entanto houve variedades bvias de abor-
1929-89  Cannadine, D. 1984: "The past and the          dagem,  medida que a busca de provas se
present in the English Industrial Revolution, 1880-     ampliava para incluir paisagens, construes,
1980". Past and Present 103,131-72  Coleman, D.C.       mquinas, artefatos e objetos efmeros, alm de
1987: History and the Economic Past: an Account of      documentos e literatura, e que a teoria era in-
the Rise and Decline of Economic History in Britain
 Harte N., org. 1971: The Study of Economic History:
                                                        jetada na explicao. Alguns historiadores so-
Collected Inaugural Lectures, 1893-1970  Iggers, G.     ciais concentraram-se em temas limitados, ge-
1975: New Directions in European Historiography         ralmente locais. Outros mostraram-se prepara-
 Koot, G.M. 1987: English Historical Economics,         dos para fazer comparaes que atravessavam
1870-1926: the Rise of Economic History and Neomer-     o espao e o tempo. Havia, portanto, um con-
cantilism  Schumpeter, J.A. 1954: A History of Econo-   traste entre "micro" e "macro"-histria.
mic Analysis  Tribe, K. 1988: Governing Economy:
the Reformation of German Economic Discourse 1750-          J no incio do sculo XX ficaram claras
1840  Tuma, E.H. 1971: Economic History and the         diferentes tendncias na prtica da disciplina
Social Sciences: Problems of Methodology.               em diferentes pases, e se fizeram tentativas
                                     J.K.J. THOMSON     ambiciosas de teorizao e explicao. Karl
                                                        Marx abordou "a cincia da sociedade" atravs
histria social Este ramo da histria surgiu            da histria. Isso estimulou uma viso da histria
altamente fortalecido  medida que o estudo             social que a concebia, no em termos de ramos
profissional da histria foi se tornando mais           particulares da histria, o que veio a ser en-
especializado no sculo XX. Recebeu muitas e            carado como crescente especializao como
diferentes definies, desde "histria com a            sub-histrias, mas sim como uma histria sin-
poltica excluda" at "histria econmica com          tetizante. Isso era macro-histria, tendo como
a poltica includa".                                   tema toda a histria das sociedades, em diferen-
    No incio do sculo o contedo da histria          tes estgios de desenvolvimento. Houve preo-
social costumava ser comparado, s vezes favo-          cupao semelhante com o desenvolvimento
ravelmente, outras vezes no, com o da histria         histrico de vulto nos textos de Max Weber. As
constitucional, poltica e militar. Ao contrrio        interpretaes marxistas tm continuado in-
destas, afirmava-se que ela lidava, no com             fluentes no final do sculo XX, no apenas em
detentores do poder, nem com aes do estado,           relao s lutas da classe operria, tal como
nem com batalhas, mas com as "pessoas co-               Marx as identificava, mas tambm a anlises
muns" e com seus modos de vida cotidianos.              mais gerais de estrutura social e de mudana
Para os crticos, o passado estava sendo trivia-        social.
lizado: para os porta-vozes dessa abordagem da              Nas abordagens tanto marxista quanto no-
histria, particularmente os historiadores brit-       marxista da histria social, a matria era geral-
nicos que seguiam os passos de J.R. Green, era          mente equiparada com a histria econmica, e
correto substituir tambores, trompetes e espa-          o estudo dos modos de vida com o dos padres
das por facas e garfos. O passado ganhava vida          de vida. O modo como era equiparada, porm,
mais animada quando os historiadores se con-            era uma questo de discusso que se concen-
centravam na histria "do povo". Quando G.M.            trava no apenas no contedo, mas na metodo-
Trevelyan publicou seu famoso Social History,           logia e na ideologia. A diferena entre infra-es-
em plena guerra, no ano de 1942, estava mais            trutura e superestrutura era bsica para a his-
interessado em descrever cenas, narrar, reviver         tria marxista, tal como a noo de luta atravs
climas e inspirar os leitores do que em explicar        de fases. No entanto houve variedades de mar-
ou teorizar sobre o motivo por que a sociedade          xismo, e a influncia do marxista italiano An-
                                                                                       historicismo     367


tonio Gramsci foi considervel, conforme foi          em especial por Fernand Braudel, para chegar
crescendo o interesse na relao entre histria       a novas snteses, aspirando a apresentar a "his-
social e histria cultural, incluindo a histria da   tria total". No obstante, para Marc Bloch, que
cultura popular. A metodologia no-marxista           explorou muitos perodos da histria e se valeu
tornou-se mais quantitativa no mesmo perodo,         dos mais variados tipos de provas, a histria era
com os desenvolvimentos da DEMOGRAFIA in-             uma pequena cincia conjectural.
fluenciando uma ampla variedade de estudos,               Fora da Frana, houve exploradores vidos
da histria da famlia  histria das cidades.        do "passado inteiro", especialmente Gilberto
    Qualquer quer fosse a ideologia, a economia       Freire no Brasil, o qual integrou arte e literatura
como matria, marxista ou no-marxista, in-            sua histria social das fazendas e da cidade,
fluenciou a histria econmica mais do que a          mas insistindo em que, "ao lidar com o passado
sociologia como matria influenciou a histria        humano,  preciso deixar espao para a dvida
social. De fato, parte da discusso a respeito do     e at para o mistrio".
papel acadmico da histria, particularmente na
                                                      Leitura sugerida: Abrams, P. 1982: Historical Socio-
Alemanha, disse respeito ao relacionamento
                                                      logy  Bloch, Marc 1954: The Historian's Craft  Brau-
entre histria e sociologia, a primeira sendo         del, F. 1977: crits sur l'histoire  Briggs, Asa 1966:
geralmente considerada "idiogrfica", tratando        "History and society". In A Guide to the Social Scien-
do particular e do mpar, e a ltima como "no-        ces, org. por Norman MacKenzie  Burke, Peter 1980:
mottica", tratando do geral e do repetitivo. A       Sociology and History.
distino era intil, j que na prtica os his-                                                ASA BRIGGS
toriadores sociais costumavam generalizar, por
exemplo, quando escreviam a respeito de "feu-         historicismo A nfase na variabilidade his-
dalismo", "capitalismo" ou "industrialismo",          trica de sistemas de idias e prticas, sua su-
enquanto os socilogos em geral tendiam              bordinao a processos de mudanas mais am-
particularizao. Outro tema da discusso dizia       plos, foi uma das principais caractersticas do
respeito ao uso de "tipos" e "modelos".               pensamento do sculo XIX, em especial no
    Traar linhas divisrias entre a histria so-     mundo de lngua germnica. A abordagem con-
cial e a SOCIOLOGIA mostrou-se menos atraente         textualizante do direito e da economia por parte
para a maior parte dos historiadores sociais          das respectivas "escolas histricas" e sua crtica
praticantes do que buscar uma parceria operan-        dos sistemas abstratos com pretenso  univer-
te.  difcil distinguir entre sociologia histrica   salidade ocuparam o centro de importantes con-
e histria social. No entanto a parceria nunca        trovrsias histricas (ver METHODENSTREIT), que
foi simplesmente um caminho de mo dupla.             continuaram no incio do sculo XX -- quando
Outras cincias sociais tambm foram includas        as palavras historismus e historizismus entra-
no que se veio a encarar como uma abordagem           ram em uso geral.  medida que foi declinando
cientfico-social da histria. A antropologia e a     a virulncia dessas disputas e o historicismo foi
psicologia, particularmente a primeira, tm           eclipsado pelo surgimento do POSITIVISMO e da
exercido grande influncia sobre as operaes         FENOMENOLOGIA, pensadores como Ernst Troel-
de um grande nmero de historiadores sociais          tsch (1865-1923) e Friedrich Meinecke (1862-
desde os anos 60.                                     1954) ofereceram avaliaes crticas retrospec-
    Na Frana, a geografia o fizera com freqn-      tivas para o historicismo (para Troeltsch, ver
cia no passado: a escola dos ANNALES, de his-         1922). O princpio de "relacionismo" de Karl
toriadores sociais, formada em 1929 e assim           Mannheim tentou fazer justia a diferenas his-
chamada em homenagem ao seu influente pe-             tricas e outras, em perspectiva, sem cair num
ridico, desenvolveu uma histria conscien-           completo RELATIVISMO.
temente nova. Esta voltava-se para as cincias            Sempre houve uma corrente mais especula-
sociais, tanto para conceitos quanto para tcni-      tiva de pensamento historicista que compreen-
cas, ampliando o repertrio dos historiadores         dia a nfase na mudana e no desenvolvimento,
sociais ao se concentrarem em problemas, mais         no como uma cautela contra a generalizao,
que em eventos e estados de esprito conforme         mas como um convite a construir grandes es-
expressos no comportamento humano. A his-             quemas de desenvolvimento e progresso his-
tria dos eventos foi separada do movimento da        tricos (ver PROCESSOS EVOLUCIONRIOS NA SO-
histria a longo prazo, e foram feitos esforos,      CIEDADE). Karl Popper usou "historicismo" nes-
368   historicismo


se sentido em sua crtica da "profecia" em teoria    "contextualistas" na teoria poltica moderna, as
social, particularmente no MARXISMO. Essa uti-       quais apresentam argumentos em favor de uma
lizao, que, como Popper reconheceu, se ope        abordagem holstica das formas concretas de
diretamente  primeira, tornou-se predominan-        vidas e das tradies, mais que da implementa-
te nas discusses de lngua inglesa, levando         o de princpios morais e polticos distintos.
muitos escritores, incluindo o tradutor do livro     Uma valorizao mais geral da diversidade ou
de Meinecke, a preferir a palavra "historismo".      "diferena" tem sido um tema muito difundido
A crtica de Popper ao "historicismo" marxista,      no recente pensamento ocidental,  medida que
tal como a crtica posterior de Jean-Franois        o legado do imperialismo d lugar a uma cons-
Lyotard s "grandes narrativas" (1979), deu          cincia menos etnocntrica e mais "multicul-
origem a uma discusso considervel dentro da        tural". Mais recentemente o rtulo "novo his-
tradio marxista. Aqui, no entanto, a palavra       toricismo" tem sido aplicado a estudos liter-
tambm  usada para indicar uma nfase no            rios e culturais que, em oposio  teorizao
enraizamento histrico, e da na mutabilidade,       mais abstrata dos anos 70 e incio dos anos 80,
do prprio pensamento marxista, em oposio          se envolvem estreitamente com textos histri-
a verses mais cientficas do marxismo, tais         cos, mas com uma concentrao nos modos
como a defendida durante algum tempo por             como so produzidos e nas complexas media-
Louis Althusser, o qual popularizou esse novo        es atravs das quais temos acesso a eles.
uso em sua crtica de marxistas como Lukcs e        Nesses modos variados e dspares, o legado do
Gramsci (Althusser, 1965).
                                                     historicismo sobrevive, e o que era indicado
    O historicismo ou historismo, no sentido
                                                     pela palavra no sculo XIX e incio do sculo
bsico, tem sido um aspecto importante, ainda
                                                     XX passa a parecer, junto com abordagens mais
que no explcito, da filosofia e da teoria social
das ltimas dcadas do sculo XX. Peter Winch        sistematizantes e universalistas, e em oposio
(1958) enfatizou a necessidade de compreender        a elas, um permanente plo de atrao em filo-
culturas "estrangeiras" em seus prprios ter-        sofia e teoria social.
mos, tornando explcita a sua identificao com      Leitura sugerida: Mannheim, Karl 1952: "Histori-
esse princpio historicista central, com uma ci-     cism". In Essays on the Sociology of Knowledge  Mei-
tao de Nestroy na folha de rosto de seu livro.     necke, Friedrich 1946 (1972): Historism: The Rise of a
Quentin Skinner enfatizou a importncia de           New Historical Outlook  Popper, Karl 1957: The Po-
compreender os textos de teoria poltica no          verty of Historicism  Schndelbach, Herbert 1984:
contexto de suas tradies (ver Skinner, 1978,       Philosophy in Germany 1831-1933, cap.2  Veeser,
e tambm Tuloy, 1988), e essa preocupao            H.A., org. 1989: The New Historicism.
histrica tem afinidades com as abordagens                                         WILLIAM OUTHWAITE
                                                      I
IA Ver INTELIGNCIA ARTIFICIAL.                             constante" (1977, p.135). Foi, porm, o psico-
                                                            historiador Erik Erikson quem mais desenvol-
idade Ver SENECTUDE.                                        veu a idia. Ele viu a identidade como "um
identidade Derivada da raiz latina idem, que                processo `localizado' no cerne do indivduo e,
implica igualdade e continuidade, essa palavra              contudo, tambm no cerne de sua cultura comu-
tem uma longa histria filosfica que examina               nal, um processo que estabelece, na verdade, a
a permanncia em meio  mudana e a unidade                 identidade dessas duas identidades" (1968,
em meio  diversidade, mas no perodo moder-                p.22). Ele desenvolveu a expresso "crise de
no est estreitamente ligada  ascenso do IN-              identidade" durante a Segunda Guerra Mundial
DIVIDUALISMO, e considera-se que sua anlise                com pacientes que haviam "perdido o senso de
tem incio com os textos de John Locke e David              igualdade pessoal e de continuidade histrica"
Hume.  s no sculo XX, porm, que ela entra               (p.17), e posteriormente generalizou-a para
em uso popular, reforado especialmente desde               abranger todo um estgio de vida "como parte
os anos 50, na Amrica do Norte, com a publica-             de seu modelo epigentico de estgio de vida
o de livros como The Lonely Crowd (Riesman                -- os oito estgios do homem". Aqui, a juven-
et al., 1950) e Identity and Anxiety (Stein et al.,         tude  identificada como um perodo universal
1960). Estes, ao lado de muitas outras obras de             de crise, de potencial confuso de identidade,
literatura e teatro, documentavam a crescente               que pode, em ltima anlise, ser resolvido atra-
perda de significado na SOCIEDADE DE MASSA e                vs do engajamento em uma ideologia social
a posterior busca de identidade; e, durante esse            mais ampla: existe "uma necessidade psicol-
perodo, a palavra tornou-se amplamente utili-              gica universal de um sistema de idias que
zada em descries dessa busca de determinar                proporcione uma imagem do mundo convin-
"quem a pessoa realmente ". Tratando inicial-              cente" (p.31). Crise pessoal e momento his-
mente das crises enfrentadas por negros, judeus             trico esto aqui fortemente ligados. Posterior-
e minorias religiosas, ela foi, em ltima anlise,          mente a expresso "crise de identidade" entrou
generalizada para o todo da sociedade moderna.              para a linguagem comum, como de fato acon-
Nos anos 70 Robert Coles podia afirmar que a                teceu com o conceito posterior de crise da meia-
palavra era "o mais puro dos clichs" (Gleason,             idade -- cunhado nos anos 70 atravs dos traba-
1983 p.913).                                                lhos de Gail Sheehey (1976) e Daniel Levinson
    Nas cincias sociais, as discusses sobre               (1978).
identidade assumem duas formas mais impor-                      A tradio sociolgica da teoria da iden-
tantes, a psicodinmica e a sociolgica. A tradi-           tidade est ligada ao INTERACIONISMO SIMBLICO
o psicodinmica surge com a teoria de Sig-                e surge a partir da teoria pragmtica do eu
mund Freud sobre a identificao, atravs da                discutida por William James (1892, cap.3) e
qual a criana vem a assimilar (ou introjetar)              George Herbert Mead (1934). Para James, a
pessoas ou objetos externos (geralmente o su-               identidade se revela quando podemos dizer:
perego de um dos genitores). A teoria psicodi-              "Este  o verdadeiro eu!" (cit. in Erikson, 1968,
nmica enfatiza o cerne de uma estrutura ps-               p.19). O eu  uma capacidade caracteristica-
quica como tendo uma identidade contnua                    mente humana que permite s pessoas ponderar
(embora, em geral, conflitante). Para Lichtens-             de forma reflexiva sobre sua natureza e sobre o
tein, essa continuidade  "a capacidade de per-             mundo social atravs da comunicao e da lin-
manecer a mesma em meio a uma mudana                       guagem. Tanto James quanto Mead encaram o

                                                      369
370   identidade


eu como um processo com duas fases -- o "Eu",       a perda de fronteiras entre eu e cultura e a
que  sabedor, interior, subjetivo, criativo, de-   ascenso da personalidade narcsica, enquanto
terminante e inescrutvel; e o "Eu Mesmo", que      os socilogos vem uma tendncia para a frag-
 a fase mais conhecida, exterior, determinada      mentao, a falta de lar e a falta de significado,
e social. Como diz Mead: "O `Eu'  a reao do      e lamentam a perda de autoridade no mundo
organismo  atitude de outros; o `Eu Mesmo'        pblico com o crescimento do autocentramento
o conjunto de atitudes organizadas dos outros       e do egosmo (Lasch, 1978; Berger et al., 1973;
que a pessoa assume ela mesma" (Mead, 1934,         Bellah et al., 1985). Tudo isso  captado de
p.175).  o "Eu Mesmo" que est mais ligado         forma mais popular no rtulo atribudo aos anos
 identidade -- ao modo pelo qual chegamos a        60 de "Dcada do Eu" (Wolfe, 1976). Qualquer
nos tomar a ns mesmos como objeto atravs          que seja a anlise feita, a maioria concorda em
do ato de vermos a ns mesmos e aos outros.         que houve um deslocamento profundo no eu
Identificao aqui  um processo de outorgao      moderno, tornando-o mais individualista e im-
de nome, de nos colocarmos, ns mesmos, em          pulsivo do que em tempos anteriores.
categorias socialmente construdas, e a lingua-          parte o modo como as idias sobre iden-
gem, nesse processo, torna-se crucial (Strauss,     tidade se formaram tendo por base um grande
1969). Nas obras tardias de Erving Goffmann e       volume de prtica teraputica, elas tambm fi-
Peter Berger, a identidade  evidentemente en-      zeram surgir uma forma caracterstica de pol-
carada como "socialmente outorgada, social-         tica. A poltica da identidade tornou-se cada vez
mente sustentada e socialmente transformada"        mais proeminente dos anos 60 em diante, e est
(Berger, 1966, p.116). As pessoas constroem         particularmente ligada a minorias tnicas e re-
suas identidades pessoais a partir da cultura em    ligiosas, bem como a movimentos feministas,
que vivem.                                          lsbicos e gays. Ele usa tacitamente o modelo
    Tanto a abordagem sociolgica quanto a          de Marx de conscincia de classe, no qual um
abordagem psicodinmica visam ligar o mundo         grupo subordinado desenvolve uma percepo
interior com o exterior, mas suas nfases dife-     autoconsciente de sua posio e se galvaniza
rem. Para ambas, no entanto, o esforo para         para a ao poltica (a diferenciao de Marx
definir o ego est ligado ao modo como uma          entre uma classe em si e uma classe para si).
comunidade constri concepes das pessoas e        Existe aqui um claro movimento, de uma pol-
da vida. No mundo moderno, ambas as perspec-        tica com base nas classes para um conjunto mais
tivas indicam que a comunidade bem dividida,        amplo de alianas. Experincias como as da
compartilhada, em grande parte se dissolveu --      opresso a negros, homossexuais ou mulheres
deixando as pessoas modernas sem um claro           ganham destaque como o foco central para se
senso de identidade (ver tambm ANOMIA). Esse       criar uma identidade grupal distinta -- como a
dilema deu origem a uma enorme literatura,          dos negros, dos gays ou das feministas. Em
incluindo muitas peas e romances em que o          torno desta se desenvolve uma forte cultura de
tema bsico  a "busca da identidade" ou o          apoio e uma anlise poltica comea a tomar
"colapso do eu". Essas narrativas tm verses       forma. (Ver tambm CONTRACULTURA.) Existe,
tanto otimistas quanto pessimistas e podem ge-      a partir da, uma dialtica de cultura, poltica e
rar considervel ambivalncia (Waterman,            identidade que promove a mudana social (ver
1985). Para os otimistas, o mundo moderno           Weeks, 1985). Perto do final do sculo XX
trouxe consigo uma crescente individualidade,       alguns comentaristas ps-modernistas tm per-
bem como um maior mbito de escolhas de             cebido as polticas "de identidade" como um
identidades. Assim, as pessoas tm maiores          padro para o futuro (ver MODERNISMO E PS-
probabilidades de se "auto-atualizar" (Maslow,      MODERNISMO). As tradicionais distines "es-
1987); de descobrir um eu interior que no seja     querda-direita" parecem estar se dissolvendo, 
imposto artificialmente por tradio, cultura ou    medida que novos alinhamentos vo sendo for-
religio; de embarcar na busca de maior in-         jados.
dividualidade, autocompreenso, flexibilidade
                                                    Leitura sugerida: Baumeister, R.F. 1986: Identity:
e diferena.  a "democratizao da pessoa"         Cultural Change and the Struggle for Self  Erikson,
(Clecak, 1983, p.179). Em contraste, os pes-        E.H. 1968: Identity: Youth and Crisis  Lichtenstein,
simistas retratam uma cultura de massa do es-       H. 1977: The Dilemma of Human Identity  Mead, G.H.
tranhamento: a tradio psicodinmica destaca       1934 (1962): Mind, Self and Society  Riesman, D.,
                                                                                          ideologia   371

Glazer, N. e Denny, R. 1950 (1966): The Lonely Crowd     tidos polticos, com seus apelos s massas. As
 Strauss, A. 1969: Mirrors and Masks: the Search
                                                         questes pblicas eram at ento preocupao
for Identity  Wiegert, A.J., Teitge. J.S. e Teitge, D.
1986: Identity and Society.
                                                         de uns poucos privilegiados, que partiam do
                                                         princpio de que sabiam o que era melhor para
                                      KEN PLUMMER        seus inferiores. A seus prprios olhos, o privi-
                                                         lgio de sua posio social dispensava a neces-
ideologia Referindo-se literalmente a uma                sidade de justificarem suas aes. Era tpico que
cincia (ou logos) de idias, a palavra foi usada        conservadores dessa faco acusassem seus
nesse sentido pelo filsofo francs Destut de            oponentes de serem visionrios ideolgicos que
Tracy em seu livro Elments d'idologie, publi-          subvertiam a ordem social atravs de maquina-
cado em 1801. As idias derivam exclusiva-               es abstratas, fora de contato com a realidade.
mente de percepes sensoriais, acreditava ele.          Liberais e radicais, por outro lado, sustentavam
A inteligncia humana  um aspecto da vida               que as questes pblicas eram uma preocupa-
animal e "ideologia" , portanto, parte da zoo-          o do povo e organizavam clubes ou partidos
logia. Tracy e seus colegas achavam que, atra-           polticos para promoverem seus objetivos. J
vs dessa anlise reducionista, no sentido de            por parte destes, era tpico acusar os poucos
atividades mentais serem atribudas a causas             privilegiados de explorarem o povo sob o falso
fisiolgicas subjacentes, haviam chegado  ver-          pretexto da benevolncia. No entanto liberais e
dade cientfica; e exigiram que se fizessem              radicais tambm se acusavam uns aos outros,
reformas educacionais com base nessa nova                pois cada grupo achava que seus oponentes
cincia (ver ILUMINISMO). Quando Napoleo era            escondiam objetivos sectrios sob o disfarce de
general, aceitara com orgulho sua indicao              identific-los com o bem pblico. A conseqn-
para membro do Institut National, formado pe-            cia foi que o uso pejorativo de ideologia se
las sociedades cultas, e -- como os idologues           tornou universal, levando Thomas Carlyle a
-- visitava o salo filosfico de Mme. Hel-              gracejar, dizendo que "ortodoxia  o meu credo,
vtius. Mas, uma vez no poder, Napoleo quis             heterodoxia  o credo alheio". Era o velho
defender a religio contra seus detratores. Da,         paradoxo do mentiroso: um homem diz que
denunciou Tracy e seu crculo como "metafsi-            todos os homens usam idias para enganar; ele
cos nebulosos" e sua cincia de idias como               homem, logo sua prpria afirmao tambm
uma ideologia perigosa: esses inimigos do povo            enganosa.
francs queriam basear uma legislao nas                    Eis a um motivo para a enorme atrao do
"causas primeiras" que alegavam haver des-               MARXISMO, que s agora est diminuindo. Marx
coberto e, da, abolir as leis do corao humano         e Engels denunciaram seus oponentes como
e as lies da histria. Desde ento a palavra           "idelogos" e alm disso elaboraram uma teoria
"ideologia" tornou-se inseparvel da implica-            da "verdade histrica" que afirmava que seus
o pejorativa de que idias estariam sendo              prprios pontos de vista eram cientficos. A
usadas para obscurecer a verdade e manipular             histria  uma histria de lutas de classe, afir-
as pessoas atravs do engano (ver tambm PRO-            maram, brotando da organizao da produo e
PAGANDA). Nesse episdio histrico, encon-               afetando todos os aspectos da conscincia. Mar-
tram-se reunidos todos os significados associa-          x diferencia sucessivas estruturas sociais, tais
dos a "ideologia": uma cincia de idias, a              como feudalismo e capitalismo, em termo das
noo de que as idias se originam de alguma             classes e da conscincia a que elas do origem.
base fundamental, extra-ideacional (fisiologia,          E identifica a VERDADE com o papel histrico da
classe, luta pelo poder e assim por diante), a           classe que, pelo fato de ter sido subjugada no
denncia de idias como visionrias e subver-            passado, tem o futuro progressista em suas
sivas, e da a associao de doutrinas ou mitos          mos. O domnio reacionrio de uma classe (a
a algum grupo ou movimento inclinado a pr               aristocracia no feudalismo, a burguesia no ca-
em ao algum plano poltico ou cultural peri-           pitalismo recente) leva a defesas ideolgicas do
goso.                                                    status quo; o papel progressista de uma classe
    O significado pejorativo de ideologia tor-           (a burguesia no feudalismo, o proletariado no
nou-se um recurso habitual nas lutas polticas           capitalismo)  a fonte da verdade no sentido do
durante o sculo XIX, quando a poltica dos              acesso  compreenso correta de toda a presente
notveis deu lugar ao desenvolvimento de par-            alienao e da emancipao humana no futuro.
372    idiogrfico, mtodo


No passado os filsofos apenas interpretaram o           lados, como na biografia e grande parte da
mundo e produziram reflexes ideolgicas de              histria, enquanto seu oposto, a abordagem no-
relaes de classe desumanizantes, por mais              mottica, busca formular proposies ou "leis"
abstratamente que fosse. No presente e no futu-          (em grego: nomos) gerais. Wildelbrand e Hein-
ro trata-se de destruir de uma vez por todas as          rich Rickert distinguiram o mtodo idiogrfico
condies desumanizantes. Isso s pode ser               da histria e de outras "cincias culturais" da
feito por uma unidade de teoria e prtica tal que,       abordagem nomottica da economia e da so-
na crise final do capitalismo (e devido a essa           ciologia, que classificaram como cincias natu-
crise), os que se identificam com a classe ope-          rais. Reconheceram, porm, que essas classifi-
rria podero e iro compreender "teoricamente           caes tm de ser entendidas como tipos ideais
o movimento histrico como um todo". Na                  (ver TIPO IDEAL). A biologia evolucionista, por
sociedade socialista do futuro, o vu mstico da         exemplo,  em grande parte idiogrfica, e uma
religio e todas as outras distores ideolgicas        abordagem idiogrfica, historicamente espec-
da real condio do homem iro finalmente                fica, da economia e do direito foi defendida
desaparecer, porque "as relaes prticas da             pelas "escolas histricas" correspondentes na
vida cotidiana no oferecem ao homem seno               Alemanha do final do sculo XIX (ver HIS-
relaes perfeitamente inteligveis e racionais          TORICISMO; METHODENSTREIT).
com respeito a seus semelhantes e  natureza".               Na maior parte do sculo XX as abordagens
Essas referncias (Teses sobre Feuerbach,                idiogrficas foram um tanto depreciadas, sob a
1845; O manifesto comunista, 1848; O capital,            influncia do POSITIVISMO e do ESTRUTURALIS-
1867) mostram que, ao longo de sua carreira,             MO, embora tenham continuado a predominar
Marx colocou sua prpria obra no centro de sua           no campo de trabalho etnogrfico (ver ANTRO-
distino histrico-mundial entre ideologia e            POLOGIA) e sido formalizadas na metodologia da
verdade. A idia de estar do "lado certo", e             cincia social como o "mtodo do estudo de
portanto "cientfico", da histria do mundo dis-         caso". Estudos de casos "etnogrficos" e his-
tingue o marxismo de todas as outras teorias             tricos tm desempenhado recentemente um
sociais e polticas.                                     papel cada vez mais importante na sociologia
    Desde Marx, vrias outras concepes de              -- e em especial na SOCIOLOGIA DA CINCIA e na
ideologia foram desenvolvidas, embora fre-               sociologia da educao. Abordagens idiogrfi-
qentemente em relao aos seus pontos de                cas ou de "histria de vida" tambm esto
vista. Essa tendncia persistente no pensamento          atraindo considervel ateno.
ocidental deve-se ao pressuposto bsico de que
                                                         Leitura sugerida: Bertaux, Daniel, org. 1981: Biogra-
as idias no podem nem devem ser tomadas
                                                         phy and Society  Hamel, Jacques, org. 1992: "The case
pelo seu significado manifesto, mas analisadas           study method". Current Sociology 40  Rickert, Hein-
em termos das "foras" que esto por trs delas.         rich 1902 (1986): The Limits of Concept Formation in
Entre elas esto as lutas de classe de Marx, a           Natural Science, ed. resumida.
vontade de poder de Nietzsche, a constituio                                          WILLIAN OUTHWAITE
libidinal da natureza humana de Freud ou uma
preferncia geral por explicaes genticas.             igualdade e desigualdade A crena de que
No o que uma pessoa diz, mas o motivo por               as sociedades deveriam aspirar a tratar seus
que ela o diz  que se tornou o principal centro         membros de maneira mais igualitria, no sen-
de ateno, de forma que um "fim da ideologia"           tido tanto formal quanto material, ocupa uma
no se encontra  vista.                                 posio central no pensamento desenvolvido
Leitura sugerida: Barrett, M. 1991: The Politics of      no sculo XX. A idia de que os seres humanos
Truth  Larrain, J. 1979: The Concept of Ideology         so fundamentalmente iguais entre si , em
 Thompson, J. 1984: Studies in the Theory of Ideology.   contraste, muito antiga. Mas durante sculos
                                  REINHARD BENDIX        essa idia encontrou expresso basicamente na
                                                         crena religiosa, na noo de que todos so
idiogrfico, mtodo A diferena entre m-                iguais aos olhos de Deus. Foi s quando as
todo idiogrfico e mtodo nomottico foi traa-          hierarquias sociais relativamente rgidas do an-
da pela primeira vez pelo filsofo Wilhelm               cien rgime desabaram, dando lugar a socie-
Windelbrand (1848-1915). Uma abordagem                   dades mais frouxas e fluidas, centradas na eco-
idiogrfica preocupa-se com os fenmenos iso-            nomia de mercado, que a igualdade tornou-se
                                                                      igualdade e desigualdade    373


um ideal social com fora prtica. Nos sculos       em seu favor), so incompatveis com a igual-
XVIII e XIX o ideal manifestou-se na exigncia       dade de oportunidades ou so os melhores
de direitos iguais diante da lei e direitos iguais   meios de alcan-la. A igualdade de oportuni-
de participao na poltica. No sculo XX esses      dades nada diz diretamente a respeito de quo
tipos de igualdade j eram dados como certos         amplo ou estreito deveria ser o mbito de resul-
(na teoria, ainda que nem sempre na prtica) em      tados que as pessoas podem alcanar, embora
todas as sociedades avanadas e a ateno se         radicais como R.H. Tawney tenham afirmado
concentrou numa nova exigncia: a igualdade          que isso  algo que no pode ser concebido
social.                                              adequadamente sem que haja antes maior igual-
    Por igualdade social entende-se a idia de       dade de condies (Tawney, 1931).
que as pessoas devem ser tratadas como iguais            Voltando-nos agora para a igualdade de re-
em todas as esferas institucionais que afetam        sultados, existem trs aspectos que precisam ser
suas oportunidades de vida: na educao, no          considerados. O primeiro  "igualdade de qu?"
trabalho, nas oportunidades de consumo, no           -- se as pessoas devem tornar-se materialmente
acesso aos servios sociais, nas relaes doms-     iguais, em que respeitos a sua situao deve ser
ticas e assim por diante. Mas que significa ser      igualada? O segundo  a questo de medida:
tratado com igualdade? Falando de maneira            como devemos julgar o quanto uma distribui-
ampla, houve duas respostas a essa pergunta          o particular de benefcios  igualitria ou
altamente controvertida, que podemos rotular,        no? O terceiro  a questo tica: devemos
respectivamente, de igualdade de oportunida-         valorizar a igualdade de resultados e, caso de-
des e igualdade de resultados.                       vamos, por qu? A maior parte da pesquisa
    A igualdade de oportunidades sustenta que        emprica sobre igualdade tem-se concentrado
todos deveriam ter igual possibilidade de alcan-     na igualdade de ganhos e de riqueza, bem como
ar os vrios benefcios e recompensas que uma       na igualdade de acesso aos servios sociais (ver,
sociedade torna disponveis, que no deveria         por exemplo, Atkinson, 1983; Le Grand, 1982).
haver barreiras artificiais a algumas pessoas,       O objetivo  comparar sociedades diferentes
nem privilgios especiais dando a outras uma         quanto a isso e, em particular, observar at que
vantagem injusta. A posio a que uma pessoa         ponto os programas governamentais tm tido
chega numa sociedade -- o trabalho que essa          sucesso em promover maior igualdade material
pessoa tem, a renda que ela aufere, a pessoa com     (ver BEM-ESTAR SOCIAL). De um ponto de vista
quem ela se casa -- deveria depender apenas          mais terico, porm, esse enfoque est aberto a
dos esforos, das capacidades e da livre escolha     crticas: duas pessoas podem ter a mesma renda,
dessa pessoa. Isso, de sada, elimina a dis-         mas se uma tem necessidades ou responsabili-
criminao formal, tal como o impedimento do         dades especiais que a outra no tem, sero elas
acesso de pessoas de determinado sexo, raa ou       realmente iguais no sentido que de fato conta?
religio a carreiras ou cargos pblicos. Mas         Isso indica que devemos procurar ver por trs
muitos acham que a igualdade de acesso formal        dos recursos externos para saber se as pessoas
no basta para garantir uma genuna igualdade        desfrutam de igual bem-estar. Mas, fora os s-
de oportunidades. As pessoas devem receber           rios problemas prticos que fazer comparaes
um ponto de partida igual, especialmente atra-       interpessoais de bem-estar implica, isso tam-
vs de um sistema educacional comum que d           bm est aberto a objees: a igualdade de
a cada criana igual oportunidade de desenvol-       bem-estar exigiria que dssemos aos que cul-
ver seus talentos. Alm do mais, as barreiras        tivaram gostos dispendiosos recursos extras pa-
podem assumir a forma de preconceitos tcitos        ra satisfazer esses gostos (para uma exposio
e expectativas psicolgicas, que impedem pes-        a respeito, ver Dworkin, 1981a, 1981b; Miller,
soas pertencentes a uma categoria particular de,     1990). Uma terceira indicao  de que as pes-
por exemplo, concorrer a vagas numa univer-          soas deveriam desfrutar de capacidades bsicas
sidade ou ingressar em alguma carreira. Uma          iguais: os recursos seriam distribudos de tal
questo que  objeto de um aceso debate  se as      forma que cada pessoa seria capaz de exercer o
polticas de ao afirmativa, ou compensatria,      mesmo conjunto de capacidades (por exemplo,
que buscam estimular as mulheres e as minorias       ter mobilidade fsica, ser capaz de se alimentar
raciais a aproveitar tais oportunidades (e em        e de se vestir) (Sen, 1982). Essa proposta tem a
alguns casos fazer pesar as exigncias de acesso     vantagem de ser sensvel s diferenas de
374   igualdade e desigualdade


necessidades dos indivduos, mas no aos seus        em favor da completa igualdade. Na verdade,
gostos; no consegue, porm, oferecer uma            essa ltima idia  parte integrante do COMUNIS-
concepo abrangente de igualdade no sentido         MO.
de estabelecer um padro mnimo que todos                Em sua forma mais amadurecida, as idias
deveriam atingir, em vez de identificar uma          comunistas s foram praticadas no sculo XX
distribuio geral.                                  dentro de pequenas comunidades, e nunca no
    Parece que no existe acordo quanto  res-       mbito do estado-nao. Os exemplos mais co-
posta  pergunta: "Em que respeito as pessoas        nhecidos so os kibutzim de Israel, cuja or-
devem ser julgadas mais ou menos iguais?" O          ganizao interna  marcantemente igualitria:
mesmo se aplica  questo da medida. Suponha-        a renda  distribuda igualmente e os membros
se que devamos escolher qual de duas distribui-      recebem todo um mbito de bens e servios em
es de renda  a mais igualitria: que critrio     comum. Em contraste, mesmo as sociedades
deveramos usar? Deveramos considerar o m-         formalmente comprometidas com o comunis-
bito, a distribuio a partir da mdia etc.? (Para   mo como um objetivo a longo prazo, incluindo
um exame do tema, ver Sen, 1973.) Em par-            a ex-Unio Sovitica e seus satlites, nunca
ticular, em que medida, se  que alguma, essa        buscaram, quer na prtica, quer na teoria, elimi-
mensurao deveria refletir a nossa preocupa-        nar todas as desigualdades materiais. Embora
o com as implicaes de bem-estar da des-          suas distribuies de renda no espelhassem
igualdade: deveramos dar maior peso s des-         exatamente as encontradas nas sociedades capi-
igualdades na extremidade inferior da distribui-     talistas ocidentais -- tipos diferentes de trabalho
o do que s situadas na extremidade superior,      atraam pagamentos mais elevados --, o nvel
com o motivo de as primeiras importarem mais         geral de desigualdade de renda era aproximada-
que as ltimas? Isso demonstra que a questo         mente o mesmo. A justificativa apresentada para
da medida no  meramente tcnica, mas reflete       isso era que uma sociedade socialista devia re-
discordncia a respeito da idia precisa de          compensar as pessoas de acordo com o valor do
igualdade que qualquer medida proposta deva          seu trabalho; Stalin, por exemplo, em manifes-
captar.                                              tao que se tornou famosa, descartou a igual-
    Embora a igualdade de oportunidades seja         dade como uma idia "pequeno-burguesa".
um ideal amplamente compartilhado no pen-                Os socialistas das democracias ocidentais
samento do sculo XX -- as diferenas ocor-          tambm tm sido um tanto cautelosos na sua
rendo menos a respeito do ideal em si mesmo          defesa da igualdade. Seu objetivo tem sido res-
do que quanto s polticas necessrias para al-      tringir a distribuio de renda e de riqueza, em
can-lo --, a igualdade de renda, em qualquer       vez de nivel-la completamente. Pode ser mais
de suas verses,  inerentemente controvertida.      proveitoso encarar esse igualitarismo modesto
Os crticos conservadores alegam que a busca         como oriundo de duas fontes; por um lado ele
da igualdade  incompatvel com a LIBERDADE,         surge de uma preocupao com a JUSTIA e da
que ela destri os incentivos sobre os quais se      tentativa de evitar a EXPLORAO: os socialistas
apia a economia de mercado e que , em ltima       alegariam que um capitalismo sem reformas
anlise, ftil, uma vez que novas formas de          logo promove um conjunto de desigualdades
desigualdade inevitavelmente surgiro para           que no podem ser justificadas em termos dos
substituir as que foram suprimidas (ver Flew,        diferentes esforos e capacidades das pessoas.
1981; Letwin, 1983). Os liberais do maior peso      Por outro lado, brota de uma preocupao com
 igualdade de oportunidades e, em geral, s         a comunidade ou a fraternidade: uma sociedade
endossam a igualdade de renda na forma de um         marcada por amplas disparidades nos padres
nvel mnimo de proviso ao qual cada pessoa         de vida tambm , inevitavelmente, uma socie-
tem direito (embora possa haver diferentes pon-      dade em que as pessoas se encontram divididas
tos de vista sobre os modos de estabelecer esse      entre si por barreiras de classe e impedidas de
mnimo, ver POBREZA e PRIVAO RELATIVA). Foi        compreender e sentir solidariedade pela situa-
s dentro da tradio socialista que a igualdade     o umas das outras. De acordo com essa leitu-
de renda se tornou um valor fundamental. Mas,        ra, a rigorosa igualdade de renda no  um valor
mesmo aqui,  preciso haver cautela. Muitos          fundamental sequer para os que tm uma pers-
socialistas tm argumentado em favor da maior        pectiva extremamente igualitria. Podem, em
igualdade de situao material, e muito poucos       vez disso, sentir-se comprometidos com um
                                                                                           Iluminismo      375


ideal de igualdade social que tem os seguintes           The Socialist Idea, org. por L. Kolakowski e S. Ham-
elementos: as diferentes recompensas que as              pshire  Miller, D. 1990: "Equality". In Philosophy and
                                                         Politics, org. por G.M.K. Hunt  Phelps Brown, H.
pessoas recebem devem corresponder a reais               1988: Egalitarianism and the Generation of Inequality
diferenas de esforo e capacidade; ningum               Weale, A. 1979: Equality and Social Policy.
deve ter um padro de vida abaixo de um mni-                                                  DAVID MILLER
mo prescrito; e o mbito da desigualdade no
deve ser to grande a ponto de dar origem a              Iluminismo Mais que um movimento, o Ilu-
divises de classe.                                      minismo foi um modo de pensar. Falando de
    Continua a haver a questo de se at mesmo           maneira geral, foi uma conseqncia da "revo-
uma idia moderada de igualdade desse tipo              luo cientfica" do final do sculo XVII, que
vivel em uma sociedade industrial avanada.             havia transformado a concepo que a maior
Presumindo-se que o mercado continue a de-               parte das pessoas instrudas tinha a respeito do
sempenhar um papel central na produo e                 mundo por elas habitado. Em primeiro lugar,
distribuio de bens e servios, parece inevit-         achava-se que a Natureza era regulada por um
vel que desigualdades substanciais continuem             sistema encadeado de leis universais, das quais
a surgir dos relativos sucessos e fracassos das          a gravitao era um exemplo bsico. At ento
pessoas na concorrncia do mercado, e  muito            ela fora encarada como um conjunto de fen-
difcil controlar diretamente tais desigualdades.        menos no-relacionados, em geral produto da
A estratgia mais vivel pode ser a indicada pela        interveno divina e, da, como fonte de lies
idia de Michael Walzer de "igualdade com-               morais para o Homem. Em segundo lugar, o
plexa". Walzer (1983) afirma que uma socie-              Homem, apesar de possuir uma alma imortal,
dade moderna incorpora certo nmero de es-               em que a maioria dos autores do Iluminismo
feras de distribuio em que diferentes bens so         continuou a acreditar, era em todos os outros
alocados, cada qual de acordo com seu prprio            aspectos uma parte da Natureza. A sociedade
critrio independente. Contanto que as fron-             humana era, portanto, regulada por leis gerais
teiras entre as esferas sejam respeitadas, o des-        -- como as da economia ou da sociologia --
taque de uma pessoa na esfera, digamos, do               que correspondiam s leis cientficas que con-
dinheiro, pode ser compensado pelo prestgio             trolavam o universo material. A compreenso,
social mais elevado de outra e pelo sucesso de           pelo Homem, de si mesmo e da sociedade s
uma terceira no exerccio de um cargo poltico.          podia ser alcanada pelos mtodos cientficos
Dessa forma, o pluralismo social pode levar a            da observao e da deduo, que lhe permitiam
um tipo de igualdade em que nenhuma pessoa               captar os princpios que governavam o compor-
supere decisivamente qualquer outra. O proble-           tamento da matria. O Homem era reconheci-
ma prtico aqui  conter a influncia da posio         damente excepcional por possuir uma inteli-
econmica, a qual, nas sociedades atuais, exer-          gncia altamente desenvolvida que lhe permitia
ce realmente uma influncia marcante sobre a             dedicar-se ao pensamento abstrato e at imagi-
capacidade de uma pessoa obter os outros bens            nar a respeito dele, mas, conforme John Locke
constantes do "catlogo" de Walzer, tais como            alegava ter demonstrado, as idias no eram
reputao, poder poltico, educao e assistn-          produto de uma percepo especial ou da ins-
cia de sade (ver ESTRATIFICAO SOCIAL). Mas,           pirao divina. Eram induzidas pela capacidade
se seguirmos a sugesto de Walzer, a causa da            do Homem de processar a informao que re-
igualdade social pode ser hoje mais bem pro-             cebia atravs dos sentidos.
movida, no por ataques diretos s desigual-                 O Iluminismo foi, portanto, tanto libertador
dades econmicas baseadas no mercado, mas                quanto restritivo. Oferecia a perspectiva de ex-
reforando-se as instituies, pblicas e priva-         panso indefinida do conhecimento, ao mesmo
das, que alocam bens a partir de uma base                tempo em que negava a metafsica. O que no
diferente.                                               se podia observar cientificamente s poderia ser
                                                         objeto de especulao e conjectura. Uma supo-
Leitura sugerida: Baker, J. 1987: Arguing for Equality   sio bsica do Iluminismo era que o universo
 Berlin, I. 1978: "Equality". In Concepts and Catego-
ries  Gutmann, A. 1980: Liberal Equality  Le Grand,
                                                         fora criado por uma Providncia benfica, que
J. 1982: The Strategy of Equality: Redistribution and    as leis cientficas haviam sido criadas visando
the Social Services  Letwin, W., org. 1983: Against      a felicidade humana. A ao racional, portanto,
Equality  Lukes, S. 1974: "Socialism and equality". In   significava conformidade a um sistema que era
376   Iluminismo


moralmente autolegitimado. A "mo invisvel"       bem recebidos pelos seus governos, outras ve-
da Providncia garantia que a busca individual     zes encarados como ameaa a eles. Isso, por sua
de um auto-interesse iluminista conduziria         vez, afetou as concluses polticas que tiravam
sempre ao bem-estar da sociedade como um           de suas teorias. Montesquieu e Burke tinham
todo (ver tambm UTILITARISMO). A cincia que      muito em comum, mas o primeiro foi um dos
sustentava essas crenas era principalmente a      orculos da Revoluo Francesa e o outro, um
fsica; em outras palavras, o estudo das foras    de seus principais oponentes intelectuais.
que agiam num presente atemporal. A biologia,          A crena de que era melhor deixar as ques-
com sua nfase no crescimento e na mudana,        tes econmicas nas mos benficas das leis da
s comearia a fazer progressos substanciais na    Providncia inspirou a concepo quase univer-
segunda metade do sculo XVIII. O pensamen-        sal de que o liberalismo econmico era uma lei
to do Iluminismo, conseqentemente, tendeu a       cientfica. No que dizia respeito  poltica, no
ser um tanto esttico em sua preocupao com       havia tal consenso. Em certa medida, isso se
o modo como as coisas funcionavam, e no com       deveu a pontos de vista divergentes sobre a
o modo como haviam chegado a ser o que eram.       natureza humana que enfatizavam a racionali-
O Ensaio sobre o homem, de Alexander Pope,         dade das pessoas ou o grau em que eram con-
publicado em 1733, oferece um sumrio con-         dicionadas pela sociedade em que cresciam. O
veniente do conjunto de atitudes que eram se-      Iluminismo podia optar pelo domnio autocr-
guidas pela maioria dos homens do Iluminismo.      tico de um governo dedicado  implementao
    Essas suposies comuns assumiram for-         de programas cientficos, o que se assumiu ser
mas diferentes quando pensadores do Iluminis-      o caso, na Prssia, de Frederico II, ou por fazer
mo abordaram os problemas das sociedades           com que o poder poltico refletisse as opinies
especficas em que viviam e nas quais eram bem     e crenas da populao como um todo, ou pelo
recebidos ou de onde eram proscritos. Isso fica    menos dos proprietrios de bens e terras, como
particularmente claro na questo da religio.      se acredita ter acontecido na Gr-Bretanha.
Independentemente de qualquer outra coisa que          Durante a segunda metade do sculo XVIII
ela pudesse implicar, o Iluminismo defendia a      o Iluminismo foi contestado por uma repulsa ao
tolerncia religiosa e a suposio de que qual-    que era visto como uma concepo mecanicista
quer coisa que conduzisse  felicidade humana      do universo, uma negao das verdades da per-
estava tambm de acordo com a vontade de           cepo e da emoo e uma fuga ao conflito entre
Deus. No todo, as igrejas protestantes assimila-   inclinao e dever. Jean-Jacques Rousseau, em
ram-se ao que ento tendia a se tornar uma nova    particular, embora partilhasse alguns dos pres-
ortodoxia. Nesse processo, a concepo de          supostos do Iluminismo, baseou sua teoria da
Deus e do lugar do Homem no mundo susten-          soberania popular em um conceito de regenera-
tada pelo clero evoluiu de maneiras que ten-       o moral do indivduo pela sociedade que
deram a reduzir a distncia entre o secular e o    tirava o seu dinamismo da conscincia e de uma
espiritual. Isso foi especialmente verdadeiro no   moralidade intuitiva. Embora o Iluminismo no
caso da Alemanha luterana e da Inglaterra an-      se tenha identificado em parte alguma com um
glicana. Na Esccia, as atitudes iluministas do    programa de revoluo poltica, ele contribuiu
laicato instrudo -- e anglicizado -- tiveram de   para a crena de que todos os problemas polti-
travar uma luta mais difcil contra a doutrina     cos admitiam solues racionais. Os homens
calvinista. Na Europa catlica, por outro lado,    que se viram no controle da Frana em 1789,
o Iluminismo entrou em choque com uma igreja       em sua esmagadora maioria, partilhavam dos
mais dogmtica e com regimes polticos mais        seus pressupostos. A histria posterior da Re-
inclinados a relacionar estabilidade poltica      voluo Francesa, culminando no Reinado do
com uniformidade intelectual e religiosa.          Terror, foi amplamente, se no de forma total-
    Embora as atitudes iluministas indicassem      mente lgica, tomada por seus oponentes como
algumas concluses gerais -- por exemplo, o        sendo o castigo  presuno humana. Como
liberalismo econmico e a crena de que o tipo     ortodoxia predominante, o Iluminismo expirou
de governo mais adequado a um estado em            durante o perodo revolucionrio e napoleni-
particular era determinado por seu tamanho,        co, dando vez a concepes mais coletivistas
estrutura econmica e situao geogrfica --,      das sociedades, socialistas ou idealistas, a um
os proponentes do Iluminismo eram s vezes         movimento romntico que substituiu as ver-
                                                                                      imperialismo    377


dades da razo pelas da emoo e a uma reto-             nacionalismo proletrio, os seguidores de Marx
mada da religio tradicional.                            foram forados a questionar a suposta predomi-
   Ver tambm RACIONALIDADE E RAZO.                     nncia de um mercado mundial unificado sob a
                                                         ao do estado e a se envolver em uma reviso
Leitura sugerida: Becker, C.L. 1932: The Heavenly
City of the Eighteenth Century Philosophers  Cassirer,
                                                         de grande monta das teorias e doutrinas con-
E. 1951: The Philosophy of the Enlightenment  Gay, P.    sagradas.
1967, 1969: The Enlightenment: an Interpretation, 2          As teorias marxistas do imperialismo in-
vols.  Hampson, N. 1968: The Enlightenment  Ha-          variavelmente se concentraram na relao entre
zard, P. 1935 (1953): The European Mind  1946            o ressurgimento de rivalidades territoriais entre
(1954): European Thought in the Eighteenth Century       estados e o desenvolvimento do capitalismo em
Yolton, John W. et al., orgs. 1991: Blackwell Com-
panion to the Enlightenment.
                                                         escala mundial. No obstante todas as suas
                                                         diferenas, as teorias marxistas do imperialis-
                                 NORMAN HAMPSON
                                                         mo tinham uma tese/hiptese em comum: o
                                                         imperialismo era o resultado do desenvolvi-
imigrantes Ver MIGRAO.
                                                         mento capitalista e uma expresso da sua ma-
imperialismo O conceito de "imperialismo"                turidade. As discordncias diziam respeito 
foi introduzido no incio do sculo XX com o             questo de como e por que o desenvolvimento
objetivo de tratar, na teoria e na prtica, do           capitalista havia gerado o imperialismo, se o
inesperado desenvolvimento da economia                   imperialismo era o "ltimo" ou o "penltimo"
mundial capitalista. Tanto o pensamento liberal          estgio do desenvolvimento capitalista e que
quanto o pensamento socialista do sculo XIX             concluses polticas deveriam ser tiradas da
haviam suposto que a ordem mundial estabele-             hipottica relao entre capitalismo e imperia-
cida, de livre comrcio, sob a hegemonia brit-          lismo. Mas, independente das divergncias, ha-
nica, na primeira metade do sculo, havia che-           via o consenso subjacente de que o ressur-
gado para ficar e que, no decorrer do tempo,             gimento de rivalidades territoriais entre estados
essa ordem iria reforar a tendncia  anulao          era uma conseqncia necessria da maturidade
das rivalidades entre estados por questes de            do capitalismo.
territrio. Nas dcadas finais do sculo ocorreu,            As duas principais variantes das teorias mar-
em vez disso, um importante ressurgimento das            xistas sobre o imperialismo foram as de Rudolf
lutas por territrio entre as grandes potncias do       Hilferding (1910) e Rosa Luxemburgo (1913).
sistema de estados que ameaou destruir a pr-           Hilferding foi buscar as origens do imperialis-
pria unidade do mercado mundial.                         mo numa mutao fundamental nos processos
    O conceito de imperialismo foi introduzido           de acumulao devido a trs tendncias inter-
pela primeira vez por um economista poltico             relacionadas: a crescente concentrao e cen-
liberal (Hobson, 1902), mas, com algumas no-             tralizao do capital; a difuso de prticas mo-
tveis excees (por exemplo, Schumpeter,                nopolistas; e o domnio orgnico do capital
1919), o pensamento social liberal quase sem-            financeiro sobre o capital industrial. Em certo
pre ignorou ou desprezou sua relevncia. Os              estgio de seu desenvolvimento -- afirmou-se
pensadores socialistas que trabalharam na tradi-         --, essas tendncias fizeram crescer as rivali-
o estabelecida por Marx, em contraste, aloca-          dades territoriais entre estados. No obstante,
ram esse conceito no centro de suas anlises e           ao centralizar o controle do aparato industrial
debates. O motivo  bastante simples. O ressur-          nas mos de umas poucas instituies finan-
gimento de rivalidades territoriais entre estados        ceiras, tambm criaram as condies organiza-
minou continuamente a solidariedade do prole-            cionais para uma tomada "socialista" de econo-
tariado mundial, jogando seu variados com-               mias nacionais.
ponentes em alinhamentos nacionais antagni-                 Em contraste com essa teoria, Rosa Luxem-
cos, sob a hegemonia de suas respectivas clas-           burgo viu a incorporao  fora de povos e
ses dominantes. Confrontados com as alter-               territrios em processos de acumulao de ca-
nativas igualmente desagradveis de se agarrar           pital como um aspecto constante da prpria
aos princpios do internacionalismo proletrio,          acumulao do capital, devido s tentativas dos
porm perdendo o apoio de seus eleitorados, ou           agentes dessa acumulao de superar tendn-
seguir as predisposies nacionalistas desses            cias crnicas  superproduo.  medida que o
eleitorados e abandonar os princpios do inter-          desenvolvimento capitalista se aprofundava e
378   imperialismo


se ampliava, a presso para incorporar sempre       sociadas. Em certa medida, esse  um ponto de
novos povos e territrios aumentou, mas a dis-      vista legtimo. Em particular, no pode haver
ponibilidade de povos e territrios ainda no       muita dvida de que no decorrer da primeira
incorporados diminuiu. O imperialismo foi, as-      metade do sculo XX a reconceitualizao da
sim, concebido como "a expresso poltica da        teoria de Hilferding sobre o imperialismo, feita
acumulao de capital em sua luta competitiva       por Lenin, proporcionou um guia de ao pol-
pelo que ainda resta disponvel do meio am-         tica muito melhor que qualquer uma das con-
biente no-capitalista" (Luxemburgo, 1913).         ceitualizaes e teorizaes rivais. No entanto
    Os debates polticos do incio do sculo XX,    isso no significa que a teoria do imperialismo
entre marxistas, sobre o que esperar e o que        de Hilferding-Lenin explicasse com preciso
fazer nas circunstncias sistmico-mundiais         todas as conexes relevantes entre capitalismo
criadas pelo ressurgimento de rivalidades ter-      e imperialismo, ou que conservasse toda a sua
ritoriais entre estados, vieram a se concentrar     relevncia e validade uma vez efetivamente
em torno da teoria de Hilferding, dando pouca       aplicada na luta antiimperialista.
ou nenhuma ateno  de Rosa Luxemburgo.                Ao contrrio, a evoluo da economia mun-
As posies assumidas por Karl Kautsky              dial capitalista desde a Segunda Guerra Mun-
(1913-14) e Lenin (1916) nesses debates basea-      dial tem demonstrado as limitaes histricas
ram-se na teoria de Hilferding. Para Kautsky, as    da teoria do imperialismo de Lenin-Hilferding
tendncias conjuntas  concentrao de capital,     e tornado todo o conjunto do pensamento mar-
a difuso das prticas monopolistas e a domina-     xista do incio do sculo XX sobre esse assunto
o orgnica do capital financeiro sobre o capi-    cada vez mais irrelevante para a compreenso,
tal industrial levariam, no decorrer do tempo,     e ainda mais para a transformao deliberada,
eliminao das rivalidades territoriais entre es-   do atual SISTEMA-MUNDO. Ironicamente, essa
tados e ao desenvolvimento do que ele chamou        crescente irrelevncia das teorias marxistas do
de "ultra-imperialismo". Somente nesse estgio      imperialismo na segunda metade do sculo XX
ultra-imperialista do capitalismo  que estariam    foi, ao menos em parte, resultado de seu sucesso
timas as condies para a transformao so-        como guia para a poltica na primeira metade
cialista do mundo.                                  do sculo. Como Lenin previu, os conflitos
    Para Lenin (1916), em contraste, essas mes-     interimperialistas criaram de fato oportunida-
mas tendncias no se desdobravam num vcuo         des nicas para que movimentos socialistas e
poltico. Em vez disso, desenvolviam-se "sob        de libertao nacional assumissem poderes de
tal tenso, com tal ritmo, com tamanhas con-        estado por todo o planeta (ver tambm MOVI-
tradies, conflitos e convulses -- no apenas     MENTO DE LIBERTAO COLONIAL), e nos anos
econmicos, mas tambm polticos, nacionais         imediatamente posteriores  Segunda Guerra
etc. etc. -- que (...) antes que os respectivos     Mundial o capitalismo mundial de fato parecia
capitais financeiros nacionais tenham formado       estar a ponto de se "transformar no seu oposto".
uma unio mundial do `ultra-imperialismo' o          claro que a revoluo socialista no con-
imperialismo inevitavelmente explodir, o ca-       seguiu deitar razes nos centros de desenvol-
pitalismo se transformar no seu oposto" (pre-      vimento capitalistas mundiais, como era es-
fcio de Lenin, 1915, a Imperialismo e econo-       perado de maneira geral por Lenin e a maioria
mia mundial, de Bukharin). Somente atravs de       dos marxistas no incio do sculo XX. Mas,
uma interveno ativa nessas contradies,          mesmo nesses centros, o poder e a influncia de
conflitos e convulses, ao mesmo tempo sus-         organizaes das classes operrias no final da
tentando os princpios do internacionalismo         Segunda Guerra Mundial tiveram seu maior
proletrio,  que os partidos marxistas poderiam    apogeu em todos os tempos.
ter a esperana de conservar e expandir seus            Sob essas circunstncias o capitalismo so-
eleitorados nacionais e dar incio  transforma-    breviveu descartando-se de seus trajes imperia-
o socialista do mundo.                            listas. A tendncia a rivalidades territoriais entre
    O sucesso das estratgias leninistas de revo-   estados, que havia inspirado a introduo do
luo socialista entre 1917 e 1949 foi encarado     conceito de imperialismo, foi revertida numa
de maneira geral pelos marxistas como forte         onda de descolonizao sem precedentes,
indcio em apoio  validade da teoria do im-        acompanhada pela deslegitimao do expan-
perialismo a que tais estratgias estavam as-       sionismo territorial e a reconstruo do mer-
                                                                                imperialismo    379


cado mundial. No decorrer do tempo ficou ab-        menos limitada que as de Hilferding e de Rosa
solutamente claro que o capitalismo mundial         Luxemburgo. Sua conceitualizao era mais
podia sobreviver e expandir-se ainda mais sem       bem adequada para captar tendncias de longo
estar associado ao tipo de rivalidade territorial   prazo, no plano do sistema, do que a de seus
entre os estados capitalistas mais importantes      equivalentes marxistas. Ele definiu o imperia-
que os marxistas presumiam ser o resultado neces-   lismo como uma de vrias formas do expan-
srio do pleno desenvolvimento capitalista.         sionismo e fez remontar a forma particular que
    Essa capacidade do capitalismo de sobrevi-      o expansionismo assumiu no final do sculo
ver ao imperialismo  o que todas as teorias        XIX s polticas e  estrutura social do poder
marxistas no conseguiram prever. At mesmo         hegemnico em declnio.
a previso de Kautsky de um estgio ultra-im-           Ainda que Hobson tenha antecipado em
perialista do capitalismo mundial, que pode         muitos aspectos tanto Hilferding quanto Lu-
parecer ter chegado perto do que aconteceu          xemburgo, ao fazer remontar o imperialismo ao
depois da Segunda Guerra Mundial, no con-          desenvolvimento capitalista, ele teve o cuidado
seguiu, no mnimo tanto quanto outras pre-          de eliminar qualquer conexo necessria entre
vises marxistas rivais, antecipar o curso da       capitalismo e o expansionismo territorial gene-
histria capitalista no sculo XX. Por um lado,     ralizado do final do sculo XIX. Em sua anlise,
o que passou a existir depois da Segunda Guerra     a ligao era meramente contingente da dis-
Mundial no foi o tipo de estrutura altamente       tribuio de riqueza e poder entre os estados e
centralizada, de monoplio mundial, imagina-        dentro da potncia mundial dominante. Da, a
da pelo ultra-imperialismo de Kautsky, mas sim      ligao podia ser cortada atravs de maior de-
uma economia mundial altamente competitiva.         mocracia poltica e igualdade econmica no
Mais importante ainda, se ultra-imperialista ou     Reino Unido e/ou por uma mudana na lideran-
no, a ordem mundial capitalista estabelecida       a mundial do Reino Unido para um estado
sob a hegemonia dos Estados Unidos no foi o        menos oligrquico.
resultado de um desenvolvimento automtico              O aparato conceitual de Hobson pode ser
do acmulo de capital. Em vez disso, foi o          ampliado sem grandes distores para abranger
resultado de 30 anos de agudos conflitos e          tanto os srios conflitos entre estados, tpicos
convulses no sistema mundial, e da interven-       da primeira metade do sculo XX, quanto a
o ativa nesses conflitos e convulses das van-    descolonizao e recomposio de conflitos en-
guardas revolucionrias socialistas, o que          tre estados tpicos da segunda metade deste
Kautsky no previu nem advogou.                     sculo. Nessa estrutura hobsoniana ampliada, o
    A verdade da questo  que as teorias mar-      imperialismo, tal como originalmente concebi-
xistas sobre o imperialismo, em geral, e a mais     do pelo pensamento liberal e marxista, surge,
influente delas (isto , a de Hilferding), em       no como o mais elevado/mais recente estgio
particular, baseavam-se todas na experincia        do capitalismo, mas como uma fase de um
histrica da Alemanha do final do sculo XIX        longo ciclo de hegemonia mundial caracteriza-
e incio do sculo XX, presumindo que essa          da por forte tendncia evolutiva no sentido da
experincia fosse prototpica do capitalismo        eliminao do expansionismo territorial nas re-
tardio. Na realidade, porm, a relevncia e a       laes entre estados (Arrighi, 1983). Se essa
validade da anlise exemplar de Hilferding so-      caracterizao for corroborada pelas futuras
bre o capital financeiro e o imperialismo limi-     tendncias da economia mundial capitalista, a
tavam-se  Alemanha e outros estados da Euro-       tese de Schumpeter de que no prazo muito
pa continental no perodo de transio da hege-     longo a correlao entre expansionismo ter-
monia britnica para a americana. Nem mesmo         ritorial e capitalismo  negativa, mais do que
a imaginao mais frtil poderia dizer que ela      positiva, pode vir a merecer maior crdito do
dava conta da relao entre capitalismo e ex-       que os marxistas se tm mostrado dispostos a
pansionismo territorial, conforme evidenciada       admitir.
na experincia do poder hegemnico em decl-            At agora, porm, os marxistas vm de-
nio (o Reino Unido), ou do poder hegemnico         monstrando pouca predisposio para um en-
em ascenso (os Estados Unidos).                    volvimento em revises importantes das teorias
    Desse ponto de vista, a pioneira anlise do     consagradas sobre o imperialismo. Sua prin-
imperialismo feita por J.A. Hobson era bem          cipal reao  reverso do expansionismo ter-
380    incerteza


ritorial depois da Segunda Guerra Mundial foi            esto presentes na conscincia. O inconsciente
redefinir o imperialismo a fim de incluir as             tem um contedo que resiste sistematicamente
formas de dominao capitalista mundial que              a ser trazido  conscincia. Acredita-se que essa
foram ressuscitadas ou recriadas sob a hegemo-           represso contnua do contedo do inconsciente
nia dos Estados Unidos. "Imperialismo", nos              desempenha um papel importante na organiza-
textos marxistas, passou portanto a designar o           o interna do psiquismo e, em particular, na
desenvolvimento do subdesenvolvimento e ou-              etiologia de boa parte das doenas mentais. O
tros aspectos internacionais do capitalismo. O           modelo popularizado por Freud  o de que a
resultado foi uma confuso semntica e um                mente "reprime" certos contedos mentais no
impasse analtico (Sutcliffe, 1972, p.313-4) que         inconsciente, que alguns dos contedos assim
nunca foram resolvidos.                                  reprimidos engendram perturbaes mentais e
    As preocupaes tradicionais das teorias so-         que uma cura ou melhora pode ser provocada
bre imperialismo foram assumidas nos ltimos             trazendo-se esse contedo  luz da conscincia.
tempos pela anlise do SISTEMA-MUNDO e pela              Faz parte da noo freudiana de inconsciente o
economia poltica internacional. Dentro dessas           fato de seus contedos serem acumulados desde
perspectivas, a noo de imperialismo foi su-            os primeirssimos momentos da vida de um
perada pelos conceitos de hegemonia e poltica           indivduo. Em algumas verses propostas por
mundial. S se pode esperar que o que continua           membros do movimento mais amplo, esse ac-
relevante e vlido no antigo pensamento social           mulo chega a preceder o nascimento. Os ar-
sobre o imperialismo no se perca nesse proces-          gumentos que Freud props em Totem e tabu
so.                                                      tambm parecem implicar que alguns dos con-
    Ver tambm COLONIALISMO; DIVISO INTER-              tedos so transmitidos de gerao em gerao,
NACIONAL DO TRABALHO.                                    de forma que contedos adquiridos em uma
                                                         gerao so passados para as geraes pos-
Leitura sugerida: Arrighi, G. 1983: The Geometry of      teriores. Freud foi criticado por essa viso im-
Imperalism  Hilferding, Rudolf 1910 (1981): Finance      plicitamente "lamarckiana" da hereditariedade,
Capital  Hobson, J.A. 1902 (1968): Imperalism: a S-
tudy  Kautsky, K. 1913-14: "Der Imperialismus".          assim aplicada ao inconsciente, como incom-
Neue Zeit 32, p.2.908-22  Lenin, V.I. 1916 (1964):       patvel com a gentica moderna.
Imperalism: the Highest Stage of Capitalism  Luxem-          Deixando de lado a doutrina freudiana que
burgo, Rosa 1913 (1951): The Accumulation of Capital     deu destaque ao conceito, e partindo do sentido
 Schumpeter, J.A. 1919 (1951): "The sociology of         inerente  palavra, seria possvel distinguir di-
imperalisms". In Imperalism and Social Classes, org.     ferentes tipos de "inconsciente":
por Paul Sweezy  Sutcliffe, B. 1972: "Conclusion". In
Studies in the Theory of Imperialism, org. por R. Owen       1. Qualquer processo que ocorra dentro da
e B. Sutcliffe.                                                  pessoa humana, mas no seja acessvel 
                                 GIOVANNI ARRIGHI
                                                                 conscincia. A maior parte dos processos
                                                                 psicolgicos enquadra-se nesta catego-
incerteza Ver DECISO, TEORIA DA.                                ria.
                                                             2. Princpios comandando prticas que s
inconsciente A noo de inconsciente tem                         se tornam acessveis  conscincia em
uma longa histria, envolvendo pensadores co-                    resultado de uma busca sria e possivel-
mo G.W. Leibniz, Arthur Schopenhauer, Frie-                      mente rdua. Por exemplo, a maioria dos
drich Nietzsche e Karl von Hartmann. Ela s                      seres humanos fala sem conscincia da
ganha realmente destaque, no entanto, com a                      orientao gramatical, ou de outras re-
obra de Sigmund Freud (1856-1939). Este                         gras, do seu discurso.
geralmente saudado, se no como o descobridor                3. Um inconsciente coletivo, tal como foi
absoluto da noo, pelo menos, e de qualquer                     proposto por C.G. Jung (1875-1961), pa-
forma, como o homem que a colocou no centro                      recido com o de Freud e historicamente
de uma tcnica teraputica e de uma teoria que                   influenciado por suas idias, mas diferin-
era original e surpreendente e que rapidamente                   do deste por ser partilhado por toda uma
se tornou a base de uma nova viso dos seres                     comunidade ou raa. Sendo assim, seus
humanos (ver PSICANLISE). A noo freudiana                     contedos devem,  claro, ter sido reuni-
de inconsciente distingue-o do mero subcons-                     dos de maneira diferente da acumulao
ciente, o qual possui contedos mentais que no                  individual de um inconsciente freudiano
                                                                                 individualismo     381


       (com exceo,  claro, dos elementos          vista: ela constitui um programa social e heurs-
       "lamarckianos").                              tico implcito. Ela invalida no apenas qualquer
    4. Um tipo diferente de inconsciente cole-       teoria que se proponha criticar seus critrios,
       tivo, reprimido no individualmente,          mas tambm todo o resto. Pois, na medida em
       nem racialmente, nem comunalmente,            que se diz que o inconsciente interfere com os
       mas por uma unidade poltica: as regras       indcios referentes  sua prpria existncia e s
       da novilngua, tais como descritas por        suas prprias prticas, somente a tcnica sin-
       George Orwell (1903-50) em 1984, tm          gular pode contrapor-se a seus artifcios e se
       o objetivo de tornar certas idias ou afir-   encontra em posio de decodificar e avaliar
       maes simplesmente inexprimveis nu-         concretamente o indcio. Dessa maneira, a teo-
       ma dada linguagem.                            ria freudiana do inconsciente garante a sua pr-
                                                     pria verdade. Essa teoria prope um mundo tal
    O inconsciente freudiano, que provavel-
                                                     que, dentro dele, somente a prpria teoria pode
mente constitui o sentido mais freqentemente
                                                     realmente pronunciar-se sobre o que  verda-
usado da palavra, difere destes pelo fato de os
                                                     deiro e o que  falso. Assim, a teoria freudiana
contedos do inconsciente serem perfeitamente
                                                     do inconsciente fica aberta  suspeita de ser
acessveis, em princpio, e no serem proscritos     amplamente circular.
nem pela linguagem, nem pela autoridade pol-
tica. Eles so, portanto, reprimidos individual-     Leitura sugerida: MacIntyre, A.C. 1958: The Uncons-
mente, em reao a situaes particulares do         cious.
indivduo, em geral com conseqncias patog-                                         ERNEST GELLNER
nicas. Uma possvel crtica  concepo freu-
diana do inconsciente  de que ele se inspira        individualismo Esta palavra abrange vrias
                                                     idias, doutrinas e atitudes cujo fator comum 
muito fielmente no modelo familiar da mente
                                                     a atribuio de centralidade ao "indivduo". Ela
consciente (cuja gnese e funcionamento pare-
                                                     teve origem no incio do sculo XIX, na Frana
cem ser tidos como no-problemticos): a psi-
                                                     ps-revolucionria, onde significava a dissolu-
cologia freudiana limita-se a acrescentar um
                                                     o dos laos sociais, o abandono, pelos in-
parceiro oculto, mais desregrado, acompanhan-
                                                     divduos, de suas obrigaes e compromissos
do-a e dominando-a, manifestando seus efeitos,       sociais. Em terras alems, seu significado era
de forma caracterstica, em sonhos, "atos fa-        diferente: estava ligada ao romantismo e tendia
lhos" e sintomas neurticos.                         a significar o culto do carter singular e da
     importante tambm enfatizar que a noo        originalidade do indivduo, assim como o flo-
freudiana do inconsciente desempenha um pa-          rescer da individualidade. Na Inglaterra, seu
pel dominante no sistema freudiano total de          significado era mais uma vez distinto, contras-
idias, terapia e organizao da corporao psi-     tava com "coletivismo" e, de maneira tpica,
canaltica. Esse papel ultrapassa em muito o         servia para se referir s virtudes da autoconfian-
mero acrscimo de um item importante ao in-          a e da iniciativa celebradas por Samuel Smiles,
ventrio de nosso equipamento psquico. Im-          na esfera moral, e estava associado ao LIBE-
plcito na noo e no papel a ele atribudo, o       RALISMO nas esferas econmica e poltica. Outra
inconsciente constitui barreira permanente a         influente utilizao no sculo XIX foi a de
um julgamento slido: a no ser que seus segre-      Jacob Burckhardt, para quem o Renascimento
dos sejam penetrados pela tcnica mpar pres-        italiano havia engendrado o individualismo, pe-
crita pela teoria freudiana, as pretenses cog-      lo que ele se referia (entre outras coisas) ao
nitivas de um dado indivduo so suspeitas e,        reconhecimento do carter distinto de indiv-
presumivelmente, pouco slidas. Sendo assim,         duos singulares e ao cultivo da PRIVACIDADE
a noo do inconsciente desvaloriza implicita-       (Burckhardt, 1860). Todos esses significados
mente as pretenses cognitivas de seres huma-        sobreviveram at a nossa poca.
nos que no tenham sido liberados pelo rite de           Talvez a maior influncia sobre seu uso no
passage da psicanlise, da maneira aprovada          sculo XX tenha sido a de Alexis de Tocque-
pela corporao dos seus praticantes. Assim,         ville, o qual escreveu que se tratava de "uma
indireta mas inescapavelmente, a noo, tal          nova expresso nascida a partir de uma nova
como ocorre dentro desse sistema, enquadra           idia (...) um sentimento deliberado e pacfico
tanto os seres humanos quanto seus pontos de         que dispe cada cidado a se isolar de seus
382   individualismo


companheiros e a se apartar com sua famlia e      pendente, porm separam-nas com excessiva
amigos", abandonando "a sociedade mais am-         facilidade de uma teoria plausvel da ao in-
pla", primeiro minando "as virtudes da vida        dividual.
pblica", em seguida atacando e destruindo             Uma outra doutrina diz respeito  delibera-
todas as outras, acabando por ser "absorvido       o prtica:  s vezes chamada de atomismo.
por um puro egosmo" (Tocqueville, 1835-40,        Afirma que os fins das aes so todos in-
livro 2, parte 2, cap.2). Esse uso tem exercido    dividuais e, assim, que os bens sociais no
influncia entre os modernos tericos das socie-   passam de concentraes de bens individuais.
dades de massa e os crticos sociais e culturais   Dessa forma, no existem bens irredutivelmen-
norte-americanos. Ele contrasta com uma outra      te sociais, constitudos em parte ou inteiramente
utilizao, na qual a palavra foi um lema para a   por aes e significados comuns. O UTILITARIS-
livre empresa, o governo limitado, a liberdade     MO e o que hoje pode se chamar de "welfaris-
social e as atitudes, formas de comportamento      mo" exemplificam esse ponto de vista, afirman-
e aspiraes que se acredita sustentarem todas     do que a relativa boa qualidade de um estado de
essas coisas. Essa utilizao foi exemplificada    coisas deve basear-se exclusivamente nas v-
no famoso discurso de campanha de Herbert          rias utilidades individuais que ela contm e ser
Hoover, em 1928, louvando o "sistema norte-        tida como funo destas. Charles Taylor viu o
americano de forte individualismo".                atomismo como enraizado "nas tradies filo-
    Outras e variadas doutrinas tm um carter     sficas (...) que comearam com a postulao
mais abstrato. Uma delas  o individualismo        de um sujeito sem extenso, epistemologica-
metodolgico. Trata-se de uma doutrina a res-      mente uma tabula rasa e politicamente um
peito da explicao que afirma que nenhuma         detentor de direitos sem pressupostos" (Taylor,
explicao em cincia social ou histria pode      1985, p.210). Otto Gierke identificou-o com os
ser adequada (ou, em outra verso, "minima-        pensadores da Lei Natural, de Hobbes a Kant,
mente possvel") a no ser que se expresse em      para os quais todas as formas de vida social
termos que enfatizem plenamente aspectos dos       eram "a criao de indivduos" e meramente "o
indivduos -- suas propriedades, objetivos,        meio para se alcanarem objetivos individuais"
crenas e aes. As totalidades sociais, ou pa-    (Gierke, 1868-1913, p.106, 111).
dres agregados de comportamento, devem ser            Fora estas, ainda podem ser mencionadas
explicadas sempre, ou essencialmente, em ter-      diversas outras variedades. O individualismo
mos de indivduos. Essa doutrina assumiu mui-      epistemolgico coloca a fonte do conhecimento
tas formas e nunca deixou de ser controversa,      dentro do indivduo. Ele foi afirmado, de modos
em geral de maneira apaixonada. Karl Popper        diferentes, por Descartes e por vrias verses
e Friedrich von Hayek encararam a sua defesa       do EMPIRISMO. O individualismo tico encara a
como essencial  defesa liberal de uma socie-      moralidade como essencialmente orientada pa-
dade livre. Outros, de Emile Durkheim em           ra o indivduo -- seja na forma do egosmo
diante, encararam a sua rejeio como o primei-    tico (de acordo com o qual o nico objeto
ro degrau para a compreenso sociolgica de        moral da ao de um indivduo  o seu prprio
realidades que so independentes e limitadoras     benefcio) ou na de um outro e mais radical
dos indivduos. No entanto outros encaram as       conjunto de idias, de que descende o EXISTEN-
controvrsias a respeito dessa doutrina como       CIALISMO, de acordo com o qual o indivduo  a
algo que combina advertncias e perseguies       prpria fonte dos princpios morais, o rbitro
teis com exageros enganosos. Assim, seus de-      supremo dos valores morais e outros.
fensores sensatamente previnem contra a hips-         Finalmente, h um complexo de idias que
tase de entidades sociais e foras coletivas, e    pode ser rotulado de individualismo poltico, o
insistem sabiamente em que a macroexplicao       qual prope vrias conexes entre "o indiv-
exige microfundamentos, mas afirmam com            duo" e o governo: primeiro, uma viso de go-
freqncia que os fatos sociais so na realidade   verno tal como baseada no consenso de seus
fices e que as totalidades sociais so meras     cidados, apresentado individualmente, sua au-
construes de indivduos. Inversamente, seus      toridade derivando desse consenso; segundo,
oponentes afirmam, com justia, que as es-         uma viso da representao poltica, no de
truturas impessoais e o comportamento de co-       ordens, estados, classes ou funes sociais, mas
letividades podem ter fora explicatria inde-     de interesses individuais; e, terceiro, uma viso
                                                                                   industrializao   383


dos propsitos do governo como limitados a                  A tendncia moderna  pensar na indus-
possibilitar que os propsitos dos indivduos           trializao como um modo de crescimento eco-
sejam satisfeitos e que seus direitos sejam pro-        nmico, em vez de um evento ou um pequeno
tegidos, permitindo-lhes um mximo de espao            perodo de tempo. Sua caracterstica essencial
de ao na busca de seus interesses. A primeira          o uso cada vez mais amplo da energia inani-
idia tem razes nas teorias do contrato social,        mada. Ela tem suas origens numa fase anterior
mas, mesmo onde essas teorias so abandona-             de "proto-industrializao", ocorrendo em so-
das,  o centro de justificao para a democracia       ciedades em que a agricultura e o comrcio
liberal, embora anarquistas, desde Henry David          ainda predominam. O sucesso da industrializa-
Thoreau, dela tenham tirado concluses mais             o sofre uma influncia marcante das acumu-
subversivas. A segunda foi crucial para a elabo-        laes de capital que essa primeira fase de
rao da Constituio dos Estados Unidos e              crescimento facilita, dos tipos de fora de traba-
para as propostas dos utilitaristas de reforma          lho e de capacitaes que ela faz surgir, dos
poltica e de constitucionalismo moderno em             lucros com comrcio exterior que ela cria e dos
geral. A terceira, que remonta a John Locke, fala       valores culturais e estruturas polticas que ela
fundo ao corao do liberalismo poltico.               propicia. Alm disso, os cientistas sociais hoje
                                                        em dia no presumem que a industrializao
Leitura sugerida: Hayer, F.A. 1948 (1980): Individua-
lism and Economic Order  Lukes, S. 1973: In-
                                                        tenha um final definido no tempo. Expresses
dividualism  O'Neill, J., org. 1973: Modes of Indivi-   como DESINDUSTRIALIZAO ou "sociedade ps-
dualism and Collectivism  Taylor, C. 1985: "Atomis-     industrial" referem-se  ascenso dos setores da
m". In Philosophical Papers, v.2  Tocqueville, A. de,   sociedade baseados nos servios e na informa-
1835-40: De la dmocratie en Amrique. Especialmen-     o; no implicam que os processos de indus-
te livro 2, parte 2, cap.2.                             trializao se tenham encerrado.
                                     STEVEN LUKES           Os historiadores datam convencionalmente
                                                        o primeiro surgimento da industrializao em
indivduo, socializao do Ver           SOCIALIZA-     torno de meados do sculo XVIII; a maioria dos
O.                                                    locais importantes ficava na Gr-Bretanha. O
indstria Ver DEMOCRACIA INDUSTRIAL; OR-                processo difundiu-se rapidamente depois disso,
                                                        primeiro para regies da Europa Ocidental, da
GANIZAO INDUSTRIAL; RELAES INDUSTRIAIS;
SOCIEDADE INDUSTRIAL; SOCIEDADE PS-IN-
                                                        Amrica do Norte e da Rssia, mais tarde para
                                                        outras partes do mundo. No sculo XX j se
DUSTRIAL; DESINDUSTRIALIZAO.
                                                        havia tornado quase que sinnimo de desenvol-
industrializao Chama-se de industriali-               vimento econmico. Particularmente nos no-
zao o processo pelo qual as sociedades adqui-         vos estados que conquistaram a independncia
rem o equipamento, a organizao e as capa-             nacional depois da Segunda Guerra Mundial, a
citaes necessrias para se dedicarem  produ-         propenso a padres de vida mais elevados 
o em massa, utilizando tecnologia mecnica            essencialmente uma propenso  industrializa-
ou eletroeletrnica. Anteriormente, a expresso         o. Poucos desses estados esto dispostos a
"revoluo industrial" era em geral utilizada.          basear suas esperanas de autonomia poltica e
Os cientistas sociais hoje em dia encaram essa          de padro mais elevado unicamente na produ-
expresso como enganosa, uma vez que ela                o de matrias-primas.
implica uma descontinuidade abrupta. E o re-                As tecnologias de crescimento industrial
gistro estatstico no apia tal suposio. As          mudaram no decorrer do tempo e continuam
economias pr-industriais, uma vez que a maior          mudando. Bem antes do sculo XVIII, a fora
parte da sua produo tem origem na agricul-            do vento e da gua era usada para suplementar
tura, tm poucas probabilidades de passar por           a energia dos seres humanos e outros animais,
um sbito mpeto de crescimento; a inrcia de           mas o uso difundido do carvo para derreter o
seu setor predominante  grande demais; as              ferro e gerar energia a vapor aumentou imen-
descontinuidades ocorrero, se ocorrerem, em            samente o volume de energia utilizado. Um
setores como a manufatura, que so inicialmen-          maior aporte de energia era fundamental para
te muito menores.  a esses setores que se              posteriores aumentos de produo. O carvo, a
deveriam aplicar expresses como "decola-               energia a vapor e o ferro j no desempenham
gem" ou "surtos de crescimento".                        o papel crtico que um dia tiveram no cres-
384   industrializao


cimento industrial, mas a essncia do processo       infra-estrutura social de habitao urbana, edu-
continua inalterada: a industrializao implica      cao e sade pblica  inadequada, em que a
a explorao de fontes de energia inanimada          taxa de crescimento populacional entra em ace-
numa escala sempre crescente. A energia huma-        lerao e em que os trabalhadores ainda esto
na passa a ser usada basicamente para fins de        aprendendo a influenciar os nveis salariais e as
controle.                                            condies de trabalho. Em terceiro lugar, 
    O uso crescente de recursos energticos ina-     tpico ocorrer uma queda no senso de comuni-
nimados foi de importncia crtica, pelo que         dade e uma ascenso da ALIENAO e da ANO-
isso significou para a produtividade homem/          MIA. A industrializao rompe formaes so-
hora. Os lucros reais esto estreitamente ligados    ciais tradicionais, transforma papis sociais tra-
 produtividade, e a industrializao, devido ao     dicionais e mina fontes de autoridades tradicio-
uso da energia inanimada,  um meio garantido        nais. Chamado s vezes de ascenso do in-
de aumentar a produtividade. No  o nico           dividualismo, esse processo seria mais bem
meio. A produtividade tambm pode ser au-            qualificado como de despersonalizao, e nesse
mentada atravs de melhores mercados, melhor         sentido ele  to vlido para as industrializaes
informao, melhor organizao e melhor divi-        dirigidas pelo estado no sculo XX quanto para
so do trabalho. A industrializao, na verdade,     as industrializaes marcadas pelo laissez-faire
exige melhorias nesses dispositivos sociais. S-     do sculo XIX. A tecnologia da industrializao
rios erros de planejamento podem surgir da            a tecnologia da padronizao, da uniformi-
nfase apenas na mudana tecnolgica, quando         dade e dos papis intercambiveis; isso em
se ignoram as mudanas institucionais que de-        geral se aplica tanto a consumidores e operrios
vem acompanh-la. No  possvel alterar dras-       quanto a processos e produtos.
ticamente o modo de produo sem, da mesma               Na esperana de superar esses obstculos, a
forma, transformar a estrutura social em que         industrializao no final do sculo XX tem sido
este ocorre e, em certo grau, a cultura em que       empreendida geralmente, no atravs da toma-
ele est embutido.                                   da de decises por empresrios privados, mas
    Disso brotam muitos dos empecilhos a uma         atravs da direo do estado. Os grupos em-
industrializao bem-sucedida. A resistncia        preendedores no so empresrios e corpora-
industrializao tem origem, no na rejeio da      es privadas, mas polticos, funcionrios p-
sua perspectiva de padres de vida material          blicos e tecnocratas. O impulso  entrar depres-
mais elevados, mas na oposio a seus custos         sa na industrializao, dar o "salto de gigante"
sociais, culturais e polticos. Tal como se difun-   para a modernizao em uma gerao ou me-
diu a industrializao, difundiu-se igualmente       nos. Em parte, isso ocorre por questes de or-
uma constante avaliao desses custos. Eles          gulho nacional. Em parte, na crena de que os
incluem, em primeiro lugar, uma atitude ex-          obstculos s podem ser superados com um
ploradora para com o mundo natural e uma             "forte empurro". E, em parte, na esperana de
propenso a desprezar os danos ecolgicos e          que o crescimento da produo venha a ul-
ambientais que o crescimento industrial pode         trapassar a previsvel exploso populacional, na
provocar. Os custos que no aparecem nos li-         medida em que restries tradicionais  forma-
vros de contabilidade das corporaes ou nos         o da famlia vo cedendo.
gabinetes governamentais de onde se dirige o             Esses so os problemas com que hoje se
processo de industrializao tendem a ser ig-        defrontam muitas sociedades em processo de
norados, pois no incorrem sobre os que tomam        industrializao. Ao mesmo tempo muitas na-
as decises. Em segundo lugar, no passado a          es que fizeram mais cedo a transio para o
industrializao esteve associada a uma atitude      crescimento industrial esto descobrindo que
exploradora com relao ao trabalho. Sob um          suas indstrias mais antigas enfrentam uma
regime de capitalismo industrial, o trabalho         competio muito forte com sociedades de ou-
passa a ser tratado como mercadoria e as ati-        tras partes do globo que se industrializaram
tudes que comandam a explorao de mer-              posteriormente. A tendncia dessas economias
cadorias so transferidas para os seres huma-        "maduras"  empregar uma proporo crescen-
nos. Disso brota um agravamento do conflito de       te da fora de trabalho no setor tercirio ou "de
classes que em geral ocorre durante as fases         servios", em que os aumentos de produtivi-
iniciais de industrializao -- fases em que a       dade so difceis de conseguir, e uma proporo
                                                               informao, teoria e tecnologia da        385


decrescente na produo primria, ou manufa-           cidade e sofisticao. Assim, computadores
tureira,  qual as tecnologias mais antigas se         muito possantes hoje se acomodam com sim-
aplicam mais prontamente. A produo dessas            plicidade em mesas de trabalho individuais,
economias est se tornando concentrada na in-          enquanto 25 anos atrs mquinas com a mesma
formao, em vez de nos recursos ou na mo-            potncia de processamento enchiam uma sala
de-obra. Alguns analistas chamam a isso de             imensa.
ascenso da sociedade ps-industrial. Uma al-              A palavra "revoluo"  aplicada com fre-
ternativa seria dizer que a base tecnolgica da        qncia  TI, e a "revoluo da TI" costuma ser
industrializao est mudando, como sempre             comparada, em relevncia social,  Revoluo
esteve. No final do sculo XIX ela passou do           Industrial de dois sculos atrs. As implicaes
complexo carvo, ferro e energia a vapor para          econmicas, sociais e polticas da revoluo da
o complexo combustveis hidrocarbnicos, ele-          TI hoje em curso so tema de contnuas pes-
tricidade, plsticos e ligas leves. Agora, no final    quisas e debates, mas evidentemente esto
do sculo XX, a base tecnolgica para a nova           ocorrendo algumas mudanas muito importan-
industrializao parece encontrar-se nas inds-        tes na sociedade, em especial no local de traba-
trias da informao, baseadas na eletrnica e no       lho, para no mencionar os lares e escolas (Gui-
computador (ver AUTOMAO; INFORMAO,                 le, 1985; Miles et al., 1988). Um trabalho recen-
TEORIA E TECNOLOGIA DA).                               te, porm, lanou dvidas sobre a importncia
Leitura sugerida: Chenery, H.B., Robinson, S. e Syr-
                                                       "revolucionria" da TI, e alguns a encaram
quin, M. 1986: Industrialization and Growth: a Com-    como parte da contnua evoluo das tecnolo-
parative Study  Kemp, Tom 1978: Historical Patterns    gias de controle que teve incio no sculo pas-
of Industrialization  Kuznets, Simon 1966: Modern      sado (Beniger, 1986). A vantagem em produti-
Economic Growth: Rate, Structure, and Spread  Lan-     vidade da TI tambm est sendo seriamente
des, David S. 1969: The Unbound Prometheus: Techno-    questionada (Forester, 1989).
logical Change and Industrial Development in Western
Europe from 1750 to the Present  Mumford, Lewis            Alguns autores tm aproveitado a oportuni-
1934 (1963) : Technics and Civilization  Rostow, W.    dade para proclamar novos tipos de sociedade
W. 1978: The World Economy: History and Prospect.      que estariam surgindo a partir da revoluo da
                                 HUGH G. J. AITKEN     TI, com a "sociedade da informao" (Bell,
                                                       1979; Masuda, 1980) substituindo a "sociedade
informao, teoria e tecnologia da Uma                 ps-industrial" na posio de vanguarda. Am-
vez que se tornou possvel a digitalizao da          bas as noes tm sido submetidas ao exame
informao atravs da linguagem comum do               crtico (ver Lyon, 1988) e levantam questes
cdigo binrio, voz, dados e vdeo puderam             importantes a respeito das mudanas de "para-
tornar-se fluxos de informao digitalizada, ca-       digmas", do processo de desenvolvimento so-
paz de ser armazenada, manipulada e trans-             cial, do determinismo tecnolgico e da impor-
mitida de forma barata e em grande velocidade          tncia da indstria manufatureira em oposio
pelos computadores digitais. Ao mesmo tempo            ao setor de servios (Cohen e Zysman, 1987).
a indstria eletrnica da computao e a das               Os comentadores da revoluo da TI (tal
telecomunicaes convergiram para se torna-            como acontece com a questo da tecnologia e
rem uma indstria global de tecnologia de in-          da sociedade em geral) tendem a se dividir
formao (TI), tendncia observada mais de             amplamente em "otimistas" -- Bell (1979),
uma dcada atrs (Nora e Minc, 1978; Barron            Toffler (1980) e Kranzberg -- e "pessimistas"
e Curnow, 1979).                                       -- Weizenbaum (1976), Roszak (1986) e Win-
    Muitos autores encaram a TI como uma               ner (1989) --, embora os trs ltimos possam
tecnologia "crucial" e difusa, pelo menos to          ser chamados mais adequadamente de "here-
importante quanto a eletricidade ou a energia a        ges", pois se opem fortemente ao ponto de
vapor e, portanto, provavelmente, o mais im-           vista ortodoxo de que a computadorizao trar
portante desenvolvimento tecnolgico deste s-         efeitos benficos em geral para a sociedade.
culo. A importncia crucial da TI tem origem               Ver tambm INTELIGNCIA ARTIFICIAL.
no fato de que -- ao contrrio de outras tecno-
logias -- os decrscimos no custo do tamanho           Leitura sugerida: Forester, Tom, org. 1985: The Infor-
dos componentes eletrnicos foram acompa-              mation Technology Revolution  1987: High-Tech So-
nhados por acrscimos em sua potncia, velo-           ciety: the Story of the IT Revolution  Forester, Tom e
386   informtica

Morrison, Perry 1990: Computer Ethics: Cautionary   es tende a se absorver na busca de respostas
Tales and Ethical Dilemmas in Computing.            concretas a problemas especficos, os intelec-
                                  TOM FORESTER      tuais, com maior probabilidade, se envolvero
                                                    com esferas mais gerais de significado e de
informtica Ver INTELIGNCIA ARTIFICIAL.            valores, com o cerne sagrado da cultura. Como
intelectuais Esta palavra tem sido objeto de        tal, buscam proporcionar padres morais e
muitas discusses desde que surgiu, na Frana,      manter smbolos comuns significativos. Os in-
no final do sculo XIX, durante os debates entre    telectuais modernos so descendentes dos guar-
os defensores e os adversrios do capito Drey-     dies sacerdotais da tradio sagrada, tal como
fus no famoso Caso Dreyfus. Para muitos, os         tambm se relacionam aos profetas bblicos,
intelectuais so sonhadores pouco prticos, in-     cuja mensagem era muito distante dos valores
capazes de se ajustar s realidades mundanas da     morais e espirituais da corte e da sinagoga,
sociedade e do estado. Para outros, so os de-      criticando asperamente os senhores do poder
fensores bsicos dos valores e padres morais       pela malignidade de seus costumes.
e cognitivos que sustentam os sistemas polti-          Os que encaram os intelectuais dessa manei-
cos democrticos ou liberais.                       ra iro contrapor tambm tratar-se de pessoas
    Certos analistas eruditos tenderam a reunir     que jamais parecem satisfeitas com as coisas
sob o rtulo de "intelectual" todas as pessoas      como elas so, nem com os hbitos e costumes
envolvidas na esfera da cultura, isto , no mun-    predominantes, que questionam a verdade do
do dos smbolos. Mas outros objetaram que essa      momento em termos de uma verdade mais ele-
seria uma definio demasiado ampla, pois in-       vada: que eles se consideram os depositrios
cluiria em seu mbito ganhadores do Prmio          especiais de idias abstratas, tais como verdade
Nobel, por um lado, e professores e jornalistas,    ou justia, e se encaram como guardies dos
por outro, toldando a necessria distino entre    padres morais quando estes so alvo de ataque
os criadores de cultura e os que a distribuem ou    tanto no mercado quanto na sede do poder.
aplicam. Alm disso, cortaria as possibilidades         Os intelectuais no so apenas zeladores de
de avaliar e calcular o status e a influncia dos   idias e mananciais de ideologias, mas, diferen-
criadores de idias em oposio a grupos ou         temente dos eclesisticos medievais ou dos mo-
estratos relacionados. Torna impossvel deter-      dernos fanticos polticos, tendem ao mesmo
minar se os criadores de idias tm um peso         tempo a manter uma atitude crtica. So in-
social diferente do atribudo a outras categorias   divduos que pensam de forma diferente e ten-
de utilizadores de smbolos.                        dem a ser perturbadores da complacncia e da
    Sob essas circunstncias, parece mais razo-    acomodao.
vel definir os intelectuais de maneira mais res-        Foi somente depois do declnio da Idade
trita, e ver neles os homens e mulheres em dadas    Mdia, depois de a Reforma e o Renascimento
sociedades que, embora numericamente pou-           haverem fragmentado a viso unificada e mo-
cos, so ainda assim quantitativamente impor-       nopolista de mundo da Igreja, que os intelec-
tantes como criadores de smbolos, que pos-         tuais puderam comear a erguer uma voz in-
suem atributos no encontrveis no grupo            dependente; somente quando foram surgindo
numericamente bem mais amplo de pessoas             mltiplos poderes religiosos e seculares no ce-
engajadas nas artes, nas cincias, nas profisses   nrio social, passando a disputar a adeso dos
liberais e na religio. Acadmicos ou membros       indivduos, que pde aparecer um estrato de
das profisses liberais no so necessariamente     homens e mulheres cujas idias j no mais se
intelectuais. O intelecto, diferentemente da in-    prendiam  Igreja ou aos patronos seculares.
teligncia exigida nas artes e nas cincias, pre-   Com o surgimento de toda uma variedade de
sume uma capacidade de distanciamento das           centros de poder e influncia, com o der-
questes imediatamente pertinentes, uma mo-         retimento de uma cultura at ento congelada,
bilidade que ultrapassa as tarefas pragmticas      nasceram conflitos de idias mantidos por por-
do momento e um compromisso com valores             ta-vozes independentes de correntes de pen-
centrais que transcendem o envolvimento             samento e tendncias doutrinrias diversas.
profissional ou ocupacional.                            Alguns intelectuais ainda se encontravam,
    Enquanto a maior parte das pessoas envol-       em parte, dependentes de patronos para pode-
vidas nas profisses liberais e em outras ocupa-    rem sustentar-se, at surgir, no sculo XVIII,
                                                                               inteligncia, teste de   387


um pblico letrado de amplo mbito, mas eles             no  meramente a inteligncia de um adulto
tinham pelo menos a possibilidade de escolher            em tamanho pequeno; o desenvolvimento no
os patronos. Do sculo XVIII em diante, porm,           consiste em simplesmente "preencher" a crian-
um contingente leigo comeou a proporcionar              a at o nvel adulto (a metfora da jarra de um
um pblico receptivo aos homens de letras. A             litro). Por exemplo, um beb recm-nascido
partir desse ponto, o estudo dos intelectuais            manifesta um reflexo enraizado por meio do
precisa dar ateno cuidadosa  complicada               qual ele suga o leite;  medida que a criana
rede de relaes entre eles e o mercado de               cresce, esse reflexo  substitudo pelo de mas-
idias, alm de instituies como a universida-          tigar, transformao qualitativa de uma forma
de ou as academias nacionais.  preciso dar              de comportamento adequado em outra. No en-
ateno aos dispositivos sociais como cafs,             tanto, uma forte tradio em psicologia, que
sales, peridicos, censura, burocracias gover-          remonta pelo menos a Francis Galton na dcada
namentais, todos os quais invadem, seja de               de 1860, encara a inteligncia (ou, para Galton,
forma positiva ou negativa, a vida do esprito           a "capacidade mental") como uma propriedade
no mundo da modernidade. Os intelectuais no              individual fixa, que cresce linearmente, com a
mundo moderno, seja no Oriente ou no Ociden-             idade, at a vida adulta, e  expressiva de uma
te, tm assumido posies estratgicas cruciais.         constituio em grande parte herdada.
So em geral cortejados, mas tambm freqen-                 Galton e seu protg Karl Pearson lutaram
temente perseguidos pelos senhores do poder,             para criar mtodos de medir essa capacidade
bem como por interesses econmicos escusos.              mental. Em 1904 o governo francs pediu a
Em certas ocasies sua posio parece razoa-             Alfred Binet que descobrisse meios de detectar
velmente bem firmada, em outras, porm, ainda            crianas mentalmente deficientes. O resultado
parecem uma espcie ameaada. No entanto,                foi uma srie de testes, consistindo em peque-
em ltima anlise, so o que Ezra Pound um dia           nos problemas concebidos para examinar a me-
chamou de "as antenas da raa".                          mria, a facilidade verbal e assim por diante. O
     Ver tambm ILUMINISMO.                              resultado de uma criana nesses testes era usado
                                                         para definir a sua idade mental, descobrindo-se
Leitura sugerida: Coser, Lewis A. 1965: Men of           a mdia de idade das crianas cujo resultado nos
Ideas: A Sociologist's View  Hofstadter, Richard 1963:
Anti-intellectualism in American Life  Mannheim,         testes se equipara. Os testes foram levados para
Karl 1929 (1960): Ideology and Utopia: an Introduction   os Estados Unidos por Henry Goddard em 1908
to the Sociology of Knowledge  Shils, Edward 1972:       e revistos por Lewis Terman, em Stanford, em
The Intellectuals and the Powers and Other Essays        1912, para formar os testes Stanford-Binet, so-
Znaniecki, Florian 1940: The Social Role of the Man of   bre os quais todas as verses posteriores se
Knowledge.                                               basearam. Terman popularizou a abreviatura
                                     LEWIS A. COSER      QI, ou Quociente de Inteligncia, significando
                                                         a relao entre a idade mental de uma criana e
inteligncia, teste de Tal como muitos con-              sua idade cronolgica vezes 100. O QI mdio
ceitos em psicologia, o de inteligncia pode ser         da populao -- de crianas de uma deter-
mais fcil de reconhecer do que de definir ou            minada idade ou, na verso adulta, de toda a
medir. Santo Toms de Aquino props que fosse            populao adulta --  100. Os testes de QI,
"a capacidade de combinar e separar"; nos anos           assim, operacionalizam a definio de in-
20 Charles Spearman props "a capacidade de              teligncia, reduzindo-a a "o que medem os tes-
inferir relaes e correlaes". O problema             tes de QI". Originalmente destinados, nas mos
que a inteligncia  inferida a partir do compor-        de Binet, a prever o desempenho escolar e
tamento e o comportamento  sempre relacio-              identificar, para uma educao corretiva, crian-
nal. A inteligncia, portanto,  mais bem con-           as que estavam tendo um desempenho abaixo
siderada como uma propriedade emergente dos              de sua "idade mental", esses testes, nos anos 20
indivduos em relao a contingncias de seus            e 30, nas mos dos psiclogos norte-americanos
ambientes natural e social. Isto , um compor-           e de seus colegas da Gr-Bretanha, em especial
tamento que  inteligente em determinado con-            Cyril Burt, assumiram um carter cada vez mais
texto pode ser totalmente inadequado em outro.           reificado. Spearman usou-os para deduzir que,
Alm disso,  essencial uma perspectiva desen-           subjacente a todo o desempenho nos testes,
volvimentista. A inteligncia de uma criana             existia um "fator de inteligncia geral" unitrio,
388   inteligncia artificial


que ele chamou de "g", implicando com isso           seu divulgador Hans Eysenck, na Gr-Breta-
que esse fator tinha algo do carter absoluto de     nha, ressuscitou as pretenses  determinao
uma constante nas cincias fsicas. Outros es-       gentica das diferenas de QI, no apenas entre
tabeleceram uma distino entre inteligncia         indivduos, mas tambm entre grupos, em es-
"fluida" e inteligncia "cristalizada", a primeira   pecial brancos e negros vivendo nos Estados
encarada como a capacidade de novo apren-            Unidos. Seguiu-se um vigoroso debate no qual
dizado conceitual e a outra como conhecimento        as bases empricas e tericas dessas pretenses
e habilidades adquiridos. Ao mesmo tempo se          foram intensamente discutidas. Nos anos 80
fizeram esforos para desenvolver testes que         surgiram provas de que, no decorrer dos ltimos
fossem "culturalmente justos", ou independen-        40 anos, houve um substancial aumento na
tes de fatos e habilidades aprendidos. No entan-     mdia dos resultados de QI em grandes grupos
to, como esses testes eram eles prprios padro-      de crianas no Japo, Nova Zelndia, Pases
nizados de acordo com o Stanford-Binet, no          Baixos e Reino Unido. Como tal aumento no
podiam deixar de partilhar muitas de suas pro-       pode ser explicado por meio de nenhum modelo
priedades.                                           gentico conhecido, esse debate pode ser enca-
    A aplicao em massa dos testes comeou a        rado como finalmente concludo. Os avanos
ser feita nos recrutas do exrcito e pretendentes    nas cincias neurolgicas significam que no se
a imigrantes nos Estados Unidos e, mais tarde,       considera mais plausvel falar de comporta-
em escolares no Reino Unido. Revelaram-se            mento inteligente, ou sequer do resultado de
fortes tendenciosidades tnicas e de classes nos     uma pessoa num teste de QI como dependente
resultados dos testes; filhos da classe operria     de uma nica propriedade fundamental e her-
tendiam a ter resultados mais baixos que os da       dada; a dialtica dos ambientes biolgico, so-
classe mdia, imigrantes e negros resultados         cial e natural durante o desenvolvimento sig-
mais baixos que os da populao branca natural       nifica que propriedades complexas como a in-
dos Estados Unidos. As diferenas de gnero,         teligncia no podem, de uma forma que faa
evidentes nas primeiras verses dos testes, fo-      sentido, ser divididas em fraes "genticas" e
ram eliminadas por meio de uma reviso das           "ambientais" distintas.
perguntas em que surgiam as diferenas de                Ver tambm CINCIAS COGNITIVAS.
resultado, mas as diferenas tnicas e de classe
                                                     Leitura sugerida: Blum, F.M. 1978: Pseudoscience
foram amplamente encaradas como indicativas          and Mental Ability  Evans, B. e Waites, B. 1981:
de "reais" diferenas de inteligncia. Afirma-       IQ and Mental Testing: an Unnatural Science and its
es como as de Burt, ostensivamente baseadas        Social History  Rose, Steven et al. 1984: Not in our
na mensurao do QI em gmeos idnticos              Genes.
criados separados (que nos anos 70 se revela-                                          STEVEN P.R. ROSE
ram ser totalmente fraudulentas), de que as
variaes de inteligncia -- ou pelo menos de        inteligncia artificial Esta expresso des-
resultado no teste de QI -- eram, em grande          creve o que  realizado por uma mquina quan-
parte, geneticamente determinadas, deram uma         do esta tenta imitar desempenhos humanos cog-
base racional para as preocupaes eugnicas,        nitivamente sofisticados. As calculadoras me-
amplamente difundidas, de que os diferenciais        cnicas (comeando com os "relgios medi-
de imigrao e de classe nas taxas de natalidade     dores" do sculo XVII) e at mesmo os robs
levariam a um declnio da "inteligncia nacio-       mecnicos dos sculos XVIII e XIX podiam ser
nal". (Ver EUGENIA, CINCIA DA.)                     encarados como exemplos dos primeiros vecu-
    Depois de 1945 as diferenas de grupo nos        los, mas foi na programao de computadores
resultados de QI passaram a ser atribudas de        do sculo XX que a inteligncia artificial come-
forma geral a fatores ambientais e, com a difu-      ou a ser identificada como um campo de es-
so da oferta de educao abrangente a crianas      tudos (Pratt, 1987).
de capacidades mistas, a confiana nos testes            A expresso entrou em uso em seguida a sua
relacionados ao QI para fazer discriminao          utilizao no ttulo de uma conferncia realiza-
entre crianas e para limitar perspectivas edu-      da em 1956 no Darmouth College, New Ham-
cativas se reduziu. A questo do QI voltou a         pshire, apresentada por John McCarthy
ganhar proeminncia depois de 1969, quando           (MacCorduck, 1979). Ela serviu para definir
Arthur Jensen, nos Estados Unidos, seguido por       um conjunto de projetos que tentavam explorar
                                                                         inteligncia artificial   389


o potencial do computador eletrnico, que nas-          O projeto de ensinar ao computador o ingls
cera na Segunda Guerra Mundial e, no incio         (isto , a linguagem natural) comeou igual-
dos anos 50, estava surgindo no mundo civil.        mente sua longa e at agora inconclusa carreira
    Entre os principais projetos da poca in-       com uma tentativa de tornar a mquina mais
cluram-se tentativas de fazer com que mqui-       vantajosa para o usurio e o programador.  um
nas jogassem cartas e xadrez, resolvessem pro-      projeto cuja importncia ganhou aceitao
blemas de geometria e de lgica, reconheces-        mesmo no momento em que sua dificuldade se
sem padres e "entendessem" o ingls comum          fazia sentir sobre os que nele trabalhavam (Al-
(Feigenbaum e Feldman, 1963). Esses projetos        len, 1987; Gazdar e Mellish, 1989). Existe uma
refletiam dois tipos de interesse que se reuniram   concepo de que a percepo visual  mediada
na formao do novo campo e que persistem at       atravs dos conceitos da linguagem natural e 
os dias de hoje. Um  o interesse nos processos     tambm bastante possvel que o conhecimento
psicolgicos humanos, o outro, o de conseguir       seja articulado e memorizado utilizando-se es-
que as mquinas faam coisas cada vez mais          truturas lingsticas (Winograd, 1983).
sofisticadas (e portanto, para seus usurios hu-        Num grau surpreendente, a maior parte des-
manos, mais convenientes). Alguns dos primei-       ses projetos fundamentais tem continuado a
ros programas de Inteligncia Artificial (IA) --    absorver interesse e a desafiar uma soluo
por exemplo, os que criavam provas em lgica        completa. Novos projetos tambm tm sido
-- foram concebidos como um meio de estudar         adotados. Durante a segunda dcada de existn-
a tomada de decises pelos seres humanos.           cia da IA, concentrou-se grande ateno nos
Outros, particularmente programas que joga-         robs, com a tentativa de equipar aparelhos
vam xadrex e cartas, o foram como estudos de        mecnicos com refinados controles motores e
aprendizado. Ultimamente, a perspectiva que         com a capacidade de utilizar dados visuais ob-
encara o crebro como um "processador de            tidos do ambiente em torno para lhes permitir
informaes" criou a psicologia cognitiva (no      movimentar-se nesses ambientes, manipular
tanto um novo ramo de uma velha disciplina,         objetos ou ambas as coisas. Esse trabalho resul-
mas uma proposta para substitu-la) e, a partir     tou nas linhas de montagem automatizadas que
desse ponto de vista, a tentativa de conseguir      hoje se tornaram lugar comum (Engelberg,
imitar o comportamento ou desempenho huma-          1980).
no atravs da programao da mquina cons-              Ultimamente, a grande preocupao da IA
titui uma slida tcnica de pesquisa (Anderson,     vem sendo compreender de que modo o co-
1980).                                              nhecimento humano poderia ser armazenado na
    Os estudos sobre reconhecimento de pa-          mquina, de tal forma a tornar facilmente aces-
dres comearam com a outra motivao --            svel esse conhecimento, bem como quaisquer
com os programadores querendo equipar suas          implicaes que ele possa ter para a soluo de
mquinas com a capacidade de ler datilografia,      problemas cotidianos.  o esforo para cons-
de forma a que fosse possvel alimentar progra-     truir "sistemas especializados" que tomariam o
mas no computador usando esse meio. Des-            lugar de especialistas humanos de vrios tipos
cobriram que, por exemplo, uma letra do alfa-       (professores, procuradores, consultores finan-
beto no deve ser definida por uma configura-       ceiros), ou pelo menos lhes dariam assistncia.
o coordenvel-definvel de pontos, mas que            O futuro provavelmente assistir ao desen-
um nmero indefinido dessas configuraes           volvimento de uma retomada do interesse no
pode ser identificvel pelo olho humano como        potencial de aprendizado das "redes nervosas",
a mesma letra; o que o computador tinha de ser      uma pluralidade de processadores ligados mul-
levado a identificar era o padro no qual se        tiplamente entre si (Hinton e Anderson, 1981).
encaixam as diferentes configuraes. Esse          Rompendo com a estrutura que se tornou a
projeto em particular se concretizou e passou a     norma para o computador, a qual canaliza toda
ser utilizado (em mecanismos pticos de reco-       a ao atravs de um nico processador, a alter-
nhecimento de caracteres, de grande importn-       nativa da "rede nervosa" tenta chegar mais
cia humana), mas o problema de reconhecimen-        perto da estrutura do tecido nervoso orgnico
to de padres em toda uma variedade de outros       (idia perseguida sem sucesso por uma precur-
campos continua significativo e difcil (Fischler   sora da IA, a ciberntica, nos anos 50). A atual
e Firscheim, 1987).                                 esperana  de que as novas estruturas possam
390   inteligncia artificial


vir a proporcionar orientao quanto ao com-        nova como a IA, mas que recebe no trabalho da
portamento futuro de sistemas complexos, no        IA a articulao precisa que a programao
elaborando as vrias leis que comandam em           exige,  decompor o problema que deve ser
conjunto, mas fazendo com que a rede capte o        solucionado em problemas com componentes
padro de comportamento passado e o projete         mais simples, e estes por sua vez em problemas
no futuro. "Cincia da conexo"  uma expres-       mais simples ainda -- e assim por diante, at se
so s vezes usada para definir essa perspectiva    atingir um nvel em que seja possvel encontrar
(Rumelhart et al., 1986; Zeidenberg, 1989).         as solues (Newell e Simon, 1972).
    A idia de uma "heurstica", originalmente          A IA tambm concedeu, particularmente em
aplicada na esfera da busca de provas matem-       seus primeiros anos, o substancial patrocnio 
ticas,  uma noo importante que tem sido          idia de que conceitos e proposies devem ser
desenvolvida no decorrer de vrios projetos de      tratados como listas de smbolos cujos mem-
IA. As solues para certos problemas podem         bros possam ser tomados e manipulados. Uma
ser descobertas, em princpio, repassando-se        linguagem de computador, a LISP (LISt Proces-
uma lista finita de possibilidades. Por exemplo,    sor), foi inventada para facilitar a execuo
num jogo como o xadrez, existe em qualquer          desses processos na mquina e acabou sendo
ponto um nmero finito de movimentos abertos        til de forma to geral para os projetos a que se
a um jogador e, alm disso, cada possvel se-       dedica a comunidade da IA que sua utilizao
qncia de movimentos resultar em algum            quase que serve para definir o campo (McCar-
ponto numa de trs concluses: a vitria para       thy, 1963).
um ou para o outro jogador, ou o empate. Teo-           Desde os primeiros momentos os que traba-
ricamente, portanto, uma abordagem seria tra-       lham com IA perceberam a relevncia da LGI-
balhar com um conjunto completo de conjec-          CA para as suas preocupaes. Ser capaz de
turas do tipo "e se...?". Infelizmente (ou feliz-   raciocinar parece ser um aspecto da posse da
mente -- o xadrez  um belo jogo), mesmo uma        inteligncia, e um meio de se pensar a lgica 
mquina que no levasse mais que 1/1.000.000        como a tentativa de articular as regras do racio-
de segundo para calcular cada posio possvel      cnio vlido, as regras que nos permitem con-
num jogo de 40 movimentos exigiria 1095 anos        cluir, a partir de uma lista de coisas que temos
para descobrir um primeiro movimento (Shan-         como estabelecidas, que certas outras coisas
non, 1954).                                         tambm devem ser verdadeiras. Se a mquina
    O que  necessrio a um programa prtico        pudesse ser levada a manipular proposies de
para um jogo de xadrez so meios de melhorar        acordo com essas regras (supondo-se que sou-
a gerao sistemtica, porm cega, de movi-         bessem o que eram), isso no apenas eliminaria
mentos a serem executados, meios de eliminar        o papel do lgico e do matemtico humanos
sem considerao possibilidades improvveis,        (pois sua funo  demonstrar que tal e tal
se no de positivamente escolher as provveis.      proposio pode ser provada), mas tambm
Seria possvel, por exemplo, ignorar todos os       representaria uma ajuda considervel em todos
movimentos rumo a casas desprotegidas. O m-        os tipos de empreendimentos humanos em que
rito de gerar sistematicamente todas as pos-        o raciocnio a partir de um conhecimento es-
sibilidades  que, com a suficiente perseveran-     tabelecido desempenha algum papel.
a, todas so abrangidas.  esse mrito que tais        Para certo tipo de raciocnio, em resultado
atalhos, ou tal "heurstica", sacrificam: em lu-    dos esforos dos lgicos ao longo dos sculos,
gar da certeza a longo prazo, consegue-se algo      as regras j foram determinadas (Prior, 1962).
menos que a certeza dentro de um espao de          So fceis de representar no computador e,
tempo mais aceitvel.                               portanto, represent-los foi um dos primeirs-
    Mesmo com a ajuda da heurstica, a soluo      simos projetos da IA. Aplicada ao domnio
de problemas pela IA freqentemente implica a       particular do conhecimento mdico, por exem-
conferncia de grande nmero de possibilida-        plo, a implementao dessa parte da lgica
des, e isso colocou em destaque a necessidade       resultou em um programa capaz de oferecer um
de se armazenar a informao de modo a maxi-        diagnstico de condies mdicas. O conhe-
mizar a eficincia da busca. Uma estrutura de       cimento mdico  incorporado ao programa sob
"rvore", ramificada, foi nesse caso um resul-      a forma de regras que expressam as ligaes
tado influente. Outra tcnica, no exatamente       conhecidas entre sintomas e possveis doenas.
                                                                                         interao     391


O paciente  convidado a informar os sintomas         Outro foi a construo de uma nova gerao
de que est efetivamente sofrendo e o programa     de expert system programs, cuja promessa, po-
ento utiliza as regras da lgica que lhe foram    rm, at o presente momento, ainda no foi
dadas para descobrir que diagnstico est im-      concretizada.
plcito (Shortliffe, 1976).                           Ver tambm CINCIA COGNITIVA.
    Sistemas desse tipo no deixam de ter valor
prtico, embora o fato de poderem simular um       Leitura sugerida: Beardon, C. 1989: Artificial In-
                                                   telligence Terminology  Boden, M.A. 1986: Artificial
tipo restrito de raciocnio seja uma limitao     Intelligence and Natural Man, 2ed.  Michie, D. 1974:
grave.  o tipo formulado no que se conhece        On Machine Intelligence  Minsky, M. 1967: Compu-
por clculo proposicional, e a limitao  no     tation: Finite and Infinite Machines  O'Shea, T. e Ei-
poder representar o raciocnio que depende da      senstadt, M., orgs. 1984: Artificial Intelligence  Sha-
estrutura interna das proposies. Por exem-       piro, S., Eckroth, D. e Vallasi, G. 1987: Encyclopedia
plo, o clculo proposicional considera o racio-    of Artificial Intelligence  Sharples, M., Hogg, D., Hut-
                                                   chison, C., Torrance, S. e Young, D. 1989: Computers
cnio do mdico "Se Fulano est com febre,         and Thought  Simon, H.A. 1970: The Sciences of the
deve estar doente" como tendo a forma "Se p        Artificial  Turing, A.M. 1954: "Can a machine
ento q", onde p representa a proposio "Tom      think?". In The World of Mathematics, vol.3, org. por
est com febre" e q "deve estar doente". Mas h    J.R. Newman.
um grande volume de raciocnio que depende                                                VERNON PRATT
da estrutura interna das proposies (por exem-
plo: "Se todo nmero tem um sucessor, ento        interao Na linguagem cotidiana, interao
no existe nenhum nmero que seja maior do         significa atos, aes, atividades e movimentos
que todos os outros nmeros.")                     inter-relacionados de dois ou mais indivduos,
    Os lgicos, no entanto, tambm tm tido        mas tambm de animais e objetos, como as
sucesso com esses outros tipos de raciocnio,      mquinas. Em geral, a palavra significa uma
inspirados pelo trabalho de Gottlob Frege, perto   influncia recproca ativa. Nas cincias sociais
do final do sculo XIX, desenvolvendo o que        e humanas o conceito de "interao"  usado de
se conhece como o clculo predicativo (Kneale      maneira no-uniforme, embora seja um dos
e Kneale, 1962). Por motivos revelados em          temas centrais. Na literatura sociolgica e psi-
famosa obra matemtica por Kurt Gdel e ou-        colgica, a palavra "interao"  usada nos
tros (Davis, 1965), no pode haver certeza pr-    seguintes contextos:
via de que uma representao mecnica do
clculo predicativo v resultar na determinao    Interao social
de toda e qualquer indagao legtima a ele            O comportamento inter-relacionado de in-
apresentada. Ao concluir, a mquina est dando     divduos que influenciam uns aos outros pela
a resposta "sim"  indagao feita (essencial-     comunicao  chamado de interao social. Na
mente, ser que tal e tal proposio do clculo    literatura, interao e comunicao so usadas
predicativo se segue a partir da informao        em geral como sinnimos. Watzlawick, Beavin
disponvel?). Mas, antes que a tenha completa-     e Jackson (1967) definem a interao como
do, o usurio no sabe se isso se d porque a      uma seqncia recproca de comunicaes (isto
resposta  "no" ou porque a resposta nunca ser   , mensagens) entre dois ou mais indivduos. A
determinada. Isso cria um grau indesejvel de      expresso "padres de interao" existe para as
incerteza, mas se imaginaram meios de lidar com    unidades mais complexas da comunicao hu-
essa limitao que no obstante deixam as mqui-   mana. A interao social  por vezes chamada
nas de clculo predicativo com um bom volume       de comunicao interativa. Segundo Hare, in-
de potencial utilitrio (Shepherdson, 1983).       terao significa "todas as palavras, smbolos e
    Um fruto deste trabalho foi a elaborao da    gestos com que as pessoas reagem umas s
linguagem de computador chamada PROLOG             outras" (1976, p.60). Na PSICOLOGIA SOCIAL re-
(de "programao em lgica"), que aplica as        cente, a comunicao no-verbal (expresses
regras do clculo predicativo para descobrir que   faciais, troca de olhares, movimento corporal,
proposies se seguem dos fatos apresentados       comportamento espacial, comportamento ex-
ao sistema, consideradas em conjunto com a         tralingstico e assim por diante)  considerada
"base de conhecimento" com que o sistema foi       de grande importncia para a compreenso da
previamente alimentado (Kowlski, 1979).            interao social (Argyle, 1975; Weick, 1985).
392   interao


    As teorias sociolgicas e psicolgicas sobre      comunicao verbal e a no-verbal. De acordo
a interao no sero tratadas aqui em detalhe.       com a orientao passada, esses procedimentos
Deve ser suficiente mencionar a teoria do inter-      dizem respeito principalmente  codificao de
cmbio social e o INTERACIONISMO SIMBLICO. A         interaes verbais em grupos de duas pessoas
teoria do intercmbio (ver Thibaut e Kelley,          ou pequenos grupos (ver Hare, 1976).
1959) explica a interao social em termos de             A Anlise do Processo de Interao (API/IPA)
recompensas e custos. A teoria dos resultados         desenvolvida por Bales (1950), um dos fun-
da interao de Thibaut-Kelley trata principal-       dadores da pesquisa de pequenos grupos, 
mente de relaes entre duas pessoas. A intera-       ainda considerada o prottipo de um sistema de
o entre duas pessoas (interao dual) forma o       codificao baseado na observao. Esse sis-
paradigma bsico para a maior parte das teorias       tema consiste em 12 categorias e visa revelar
sobre a interao. Com respeito ao estudo em-         padres de interao em grupos de soluo de
prico dos processos de interao de grupo, os        problemas sem liderana, bem como descrever
mtodos de observao at agora desenvol-             esses processos no decorrer do tempo (fases do
vidos comeam na verdade com anlises de              desenvolvimento de grupo). As categorias se-
interaes entre duas pessoas. A teoria do in-        guem um modelo de seqncia de soluo de
teracionismo simblico (ver Blumer, 1969)            problemas. A dupla central de uma categoria
uma influente teoria sociolgica sobre a intera-      ilustra os problemas de coleta de informao na
o, relacionada principalmente ao filsofo e
                                                      fase inicial (categoria 6: D Orientao; cate-
socilogo George Herbert Mead. Faz-se refe-
                                                      goria 7: Pede Orientao). As categorias 5 (D
rncia a ela aqui porque essa teoria e a estratgia
                                                      Opinio) e 8 (Pede Opinio) referem-se  ava-
de pesquisa a ela relacionada tm passado por
                                                      liao da informao; as categorias 4 (D Su-
um certo ressurgimento na psicologia social no
                                                      gesto) e 9 (Pede Sugesto) referem-se ao pro-
decorrer dos ltimos anos. Os pressupostos b-
sicos implicam que os indivduos se comportam         blema do controle. As reas de problemas se-
na base do "significado" que vem das interaes       guintes so: tomada de decises (categoria 3:
sociais. O significado  constantemente modifi-       Concorda; 10: Discorda), regulao da tenso
cado por um processo contnuo de interpretao        (categoria 2: Demonstra Alvio de Tenso; 11:
dos indivduos que participam da interao            Demonstra Tenso) e, na fase final, enfrentar
(Blumer, 1969). O eu  encarado como resultado        problemas scio-emocionais (categoria 1: Pa-
da interao; o comportamento interativo s           rece Amistoso; 12: Parece Inamistoso). O de-
pode ser compreendido na base de atos recpro-        senvolvimento ulterior da abordagem da API,
cos de interpretao entre os parceiros que in-       que levou ao mais recente sistema SYMLOG
teragem em um certo contexto histrico, cultural      (Sistema para a Observao de Grupos em Ml-
e situacional. Na psicologia social europia, de-     tiplos Nveis), ligou as categorias a um modelo
dica-se maior ateno  interao social entre        espacial obtido atravs da anlise de fator e do
membros de diferentes grupos (comportamento           exame do contedo das mensagens (Bales e
intergrupal; relaes intergrupais); ver especial-    Cohen, 1979). A codificao SYMLOG da in-
mente a teoria da identidade social (Tajfel,          terao permite descrever os processos de co-
1978), em que o papel da filiao ao grupo e da       municao em trs nveis: o nvel de compor-
identidade social para comportamento intergru-        tamento verbal e no-verbal observvel, o nvel
pal e o autoconceito constitui o tema central.        de imagens comunicadas e, finalmente, o nvel
                                                      de julgamento de valor que o agente comunica
Anlise de interao                                  atravs das imagens que expressa. As imagens
    Baseada na definio de interao acima           podem ser ento distribudas em seis nveis (Eu,
apresentada, a anlise de interao significa a       Outros, Grupo, Situao, Sociedade, Fantasia).
coleta, o registro, a anlise e a interpretao       O comportamento demonstrado e o contedo
sistemticos da COMUNICAO. Comunicao              expresso podem ser localizados e interpretados
aqui no se refere apenas  comunicao verbal,       em um espao tridimensional (dimenses: do-
mas tambm  no-verbal. Desenvolveu-se               minao versus submisso; positivo versus ne-
uma srie de procedimentos de observao (ver         gativo; orientao para tarefas versus expresso
Simon e Boyer, 1974) e mecanismos de regis-           de emoes). Os dados, que tambm podem ser
tros (Krger et al., 1988) para classificar a         processados com a ajuda de programas de com-
                                                                       interacionismo simblico         393


putao, so apresentados graficamente como         ria e otimista desse persistente debate  apresen-
diagramas de campo.                                 tada por Kenrick & Funder (1988).
    Um sistema de codificao da interao de
                                                    Leitura sugerida: Bales, R.F. 1968: "Interaction pro-
base terica (TEMPO), que parece fcil de           cess analysis". In International Encyclopedia of the
aprender e aplicvel a um vasto mbito de           Social Sciences, vol.7, org. por D.L. Sills, p.465-7.
situaes de desempenho de tarefas em grupo,         Danzinger, K. 1976: Interpersonal Communica-

foi recentemente introduzido por Futuron, Kel-      tion  Duncan, S. e Fiske, W. 1977: Face-to-Face In-
ley e McGrath (1989). A maioria dos mtodos         teraction  Goffman, E. 1959: The Presentation of Self
                                                    in Everyday Life  Homans, G.C. 1961 (1974): Social
de observao publicados  feita de sistemas de     Behavior: its Elementary Forms, ed. rev.  Jaffe, J. e
observao de salas de aula (como Flanders,         Feldstein, S. 1970: Rhythms of Dialogue  Jones, E.E.
1969). Em psicodiagnstico, h um duplo m-         e Gerard, H.B. 1967: Foundations of Social Psychology
bito de conceitos e procedimentos que recebem        Parsons, T. 1968: "Social interaction". In Internatio-

o nome de diagnstico de interao. Nesse qua-      nal Encyclopedia of the Social Sciences, vol.7, org. por
dro de referncia, o comportamento interativo       D.L. Sills, p.429-41.
 provocado por meio de tcnicas experimentais                                     JOHANN F. SCHNEIDER
(testes, tarefas de provocao de problemas e
conflitos, situaes de desempenho de papel) e      interacionismo simblico Ramo da socio-
analisado com a ajuda de sistemas de codificao    logia norte-americana, o interacionismo sim-
da interao (ver McReynolds e DeVoge, 1978).       blico  um produto da ESCOLA SOCIOLGICA
                                                    DE CHICAGO. Durante dcadas foi uma "oposi-
Interao estatstica                               o leal"  teoria predominante de Talcott Par-
   Em pesquisa estatstica, a palavra interao     sons (ver FUNCIONALISMO) e s abordagens em-
est ligada ao mtodo de pesquisa estatstico da    pricas mais quantitativas. Nos anos 60 o in-
"anlise fatorial de variao". Nesse caso, re-     teresse pelo interacionismo simblico tornou-
fere-se a uma possvel fonte de variao, a que     se quase moda e esteve ligado, de modo pouco
se deve  ao conjunta (isto ,  interao) de    claro,  abordagem fenomenolgica e a outras.
                                                    Hoje em dia essa teoria continua, por um lado,
duas ou mais variveis independentes (ver
                                                    relativamente intacta, enquanto que, por outro
Kerlinger, 1973).
                                                    lado, existem tendncias, em primeiro lugar, a
Interacionismo                                      superar a concentrao nos fenmenos micros-
                                                    sociolgicos e, em segundo lugar, conseguir
    A palavra refere-se a um grupo de teorias       uma compreenso histrica de si mesma.
que tratam de efeitos interativos, por exemplo,         A expresso "interao simblica" foi
a relao entre corpo e mente, indivduo e so-      cunhada por Herbert Blumer em 1937. Indica
ciedade, organismo e meio ambiente. Isso pode       que esse ramo da sociologia e da psicologia
ser ilustrado nos exemplos que daremos a se-        social se concentra em processos de INTERAO
guir. Segundo Drever, o interacionismo  "uma       -- ao social imediata reciprocamente orien-
teoria da relao entre a mente e o corpo que       tada -- e tem um conceito bsico de interao
presume interao ou causalidade recproca en-      que lhe enfatiza o carter simbolicamente me-
tre os dois -- que a mente age sobre o corpo e      diado. No se deve pensar aqui em relaes
o corpo sobre a mente -- como soluo para o        sociais nas quais a ao seja mera concretizao
problema psicofsico" (1964, p.142). No campo       de regras preestabelecidas, mas naquelas em
da psicologia diferencial e da psicologia da        que definies comuns e recprocas da relao
PERSONALIDADE, uma coletnea de artigos pu-         so propostas e estabelecidas. As relaes so-
blicados por Enfler e Magnusson (1976) levou        ciais, ento, no surgem como determinadas de
ao chamado debate pessoa-situao, durante o        uma vez por todas, mas como abertas e depen-
qual o interacionismo foi defendido como um         dendo de constante aprovao em comum. Esse
modelo mais apropriado para a teoria e a pes-       princpio bsico do interacionismo simblico
quisa da personalidade. Esse ponto de vista         explica a sua afinidade metodolgica com os
presume que o comportamento efetivo  deter-        chamados mtodos qualitativos, particular-
minado por uma interao contnua e multidi-        mente a abordagem da observao participante
recional entre variveis de pessoa e variveis de   e a utilizao de dados biogrficos. No nvel do
situao (ibid., 1976). Uma avaliao provis-      contedo, processos de interao familiar, pro-
394   interacionismo simblico


cessos de surgimento e definio de compor-             A importncia e a potencialidade do intera-
tamento desviado e subcultural foram abertos        cionismo simblico s podem ser compreen-
como campos de pesquisa.                            didas no contexto da velha Escola de Chicago,
    No entanto seria insuficiente descrever essa    a que o interacionismo simblico sucedeu, mas
abordagem apenas atravs de uma vaga carac-         que tambm limitou. Num determinado sen-
terizao de seus pressupostos bsicos. Acima       tido, ele marca o declnio da livre rede interdis-
de tudo,  preciso observar que o programa de       ciplinar de tericos, pesquisadores sociais e
Blumer  uma condensao mais ou menos              reformadores da Universidade de Chicago, que
simplificadora da complexa obra terica de          possuam certa unidade, embora a coerncia
G.H. Mead, lida com um interesse psicolgico-       ntima dos vrios elementos nunca tenha sido
social. Sem utilizar a expresso, Mead elabora      elaborada -- e sequer reconhecida durante lon-
o conceito de interao simbolicamente media-       go tempo. Essa coerncia tem de ser compreen-
da no quadro de uma teoria antropolgica da         dida como resultado, primeiro, de uma concep-
comunicao -- por exemplo, numa compara-           o da ordem social guiada por idias democr-
o de modos de comunicao e sociabilidade         ticas; segundo, da primazia da sociabilidade
animais e humanos --, enfatizando o signifi-        derivada de uma teoria da ao; e, terceiro, do
cado da autopercepo e da previso do com-         conceito de ao desenvolvido pelo pragmatis-
portamento e demonstrando como essas coisas         mo. Mas  preciso admitir que a anlise de
transformam meras expresses vocais em sm-         problemas sociais nos Estados Unidos, nessa
bolos significativos. Sobre essa base, ele in-      poca, produziu -- por exemplo, na obra de
troduz uma viso transformada da estrutura da       R.E. Park -- um dualismo de tipos de ordem
personalidade e um novo conceito de mente. A        social: uma dominada pela concorrncia, a ou-
capacidade do indivduo de indicar algo a si        tra pela COMUNICAO.
prprio e de interagir consigo mesmo  crucial           importante para reconstruo da histria
em ambos os casos. Segue-se ento uma anlise       do interacionismo simblico verificar se esse
da origem e evoluo ontogentica e filogen-       dualismo foi dissolvido ou meramente disfar-
tica do eu, do pensamento reflexivo e da ao       ado, registringindo-se a pesquisa ao segundo
intencional. Mead considera a integrao do         tipo, a ordem social criada de forma comunica-
comportamento individual na atividade de gru-       tiva. A produtividade dessa tradio -- para
pos atravs de meios de mtua previso de           alm dos fenmenos microssociolgicos -- foi
comportamento, em vez de padres biolgicos         demonstrada na anlise da diviso do trabalho,
fixos, como o aspecto caracterstico da sociabi-    no caso de organizaes profissionais, e na
lidade humana.                                      anlise do comportamento coletivo e de movi-
    A crtica do interacionismo simblico di-       mentos sociais. Isso j seria motivo suficiente para
rige-se principalmente ao programa metodol-        dar a essa abordagem sociolgica, que durante
gico de Blumer, afirmando (1) uma pretensa          dcadas sofreu a falta de uma teoria, uma abor-
reduo dos fenmenos sociais a formas de           dagem terica e autocompreensiva coerente, que
relao interpessoais imediatas; (2) desateno     contribuiria para os atuais debates tericos.
aos aspectos de poder e dominao; (3) uma
conceitualizao de processos macrossociais         Leitura sugerida: Becker, H. 1963: Outsiders: Study
                                                    in the Sociology of Deviance  Blumer, H. 1937: "So-
em termos de meros horizontes para mundos da        cial psychology". In Man and Society, org. por E.P.
vida; (4) total descaso pela dominao humana       Schmidt  1969: Symbolic Interactionism: Perspective
sobre a natureza e pela crescente independncia     and Method  Glaser, B. e Strauss, A. 1967: The Dis-
dos processos sociais em relao s intenes e     covery of Grounded Theory: Strategies for Qualitative
orientaes de agentes individuais e coletivos.     Research  Hughes, E. 1971: The Sociological Eye:
Muitas dessas objees ao programa de Blumer        Selected Papers  Joas, H. 1985: G.H. Mead: a Con-
                                                    temporary Re-examination of his Thought  Mead,
e a seus seguidores podem ser justificadas, pelo    G.H. 1934 (1962): Mind, Self, Society, org. por C.W.
menos em parte, mas parecem estranhas quan-         Morris  1964: Selected Writings, org. por A.J. Reck
do se leva em conta o mbito total das contribui-    Park, R.E. 1967: On Social Control and Collective
es tericas e empricas dessa abordagem, por      Behavior: Selected Papers  Thomas, W.I. e Znaniecki,
exemplo, incluindo a obra de Everett Hughes e       F. 1918 (1974): The Polish Peasant in Europe and
sua escola com relao  sociologia do trabalho     America, 2 vols.
e das profisses liberais.                                                                   HANS JOAS
                                                                                      interesses    395


interesse, grupo de Um grupo de interesse          criticada por alguns por negligenciar ou com-
 uma organizao particular que busca reunir      preender erroneamente os motivos dos indiv-
os valores e preferncias que seus membros tm     duos (Olson, 1965), e por subordinar o papel de
em comum e, articulando-os, tenta influenciar      instituies polticas mais tradicionais (Crick,
tanto a opinio pblica quanto os planos gover-    1959). Outros (Bachrach e Baratz, 1962; Lukes,
namentais.                                         1974) discordaram dos que, como Dahl (1961),
    A expresso genrica grupo de interesse        interpretaram a existncia to difundida de gru-
abrange organizaes que existem basicamente       pos de interesse em competio aberta para
para representar os interesses econmicos de       influenciar planos de ao oficiais como indcio
seus membros (como as associaes de em-           da difuso do poder (ver tambm PLURALISMO).
pregados) e as que buscam promover uma causa       Contestaram essa anlise pluralista afirmando
particular que reflete atitudes comuns de seus     que o poder se concentra nas mos de relativa-
membros diante da vida. Enquanto os grupos de      mente poucos grupos, os quais se envolvem
interesse econmicos so geralmente descritos      com o governo devido a seu papel econmico
como os que defendem interesses setoriais e at    estratgico (Mills, 1956; Lindblom, 1977). O
mesmo egostas, os grupos promocionais so         revigoramento do debate intelectual sobre o
invariavelmente considerados como engajados        conceito de PODER  um resultado direto do
na defesa desprendida de uma causa promovida       estudo de grupos de interesse.
no interesse de todos (por exemplo, os grupos          A literatura sobre grupos de interesse, es-
ambientais). Embora os termos divirjam, a cate-    pecialmente em relao  elaborao de polti-
gorizao dos grupos de interesse nesses dois      cas pblicas (Kimber e Richardson, 1974; Wil-
tipos  caracterstica da literatura acadmica.    son, 1981; Marsh, 1983), levou a um conheci-
    Embora se diferenciem dos partidos polti-     mento mais completo tanto da dinmica quanto
cos por tentarem influenciar o governo, em vez     da substncia das aes governamentais. Alm
de constitu-lo, grupos de interesse tm agido     disso, seu estudo colocou em destaque a neces-
como geradores de partidos polticos (assim, o     sidade de instituies mediadoras entre o cida-
Partido Trabalhista britnico tem origem no        do e o governo, proporcionando aos indiv-
movimento sindical). Alm disso, a diferena       duos tanto a oportunidade quanto o motivo para
entre grupos econmicos e defensores de cau-       uma representao e uma PARTICIPAO polti-
sas nem sempre  muito clara, no mnimo por-       cas atravs de outros meios que no os partidos
que os primeiros se identificam com causas         polticos. Por esses motivos, e devido  questo
mais abrangentes do que os interesses particu-     de eles promoverem ou prejudicarem um go-
laristas de seus membros.                          verno democrtico, os grupos de interesse tor-
    No sculo XX a preocupao com os grupos       naram-se um elemento integrante na anlise dos
de interesse como campo de estudo tem origem,      sistemas polticos.
em grande parte, nos Estados Unidos. Deita             Ver tambm MOVIMENTO SOCIAL.
razes numa tradio de textos sobre o sistema     Leitura sugerida: Bentley, A.F. 1908 (1967): The
poltico norte-americano que sempre interpre-      Process of Government, org. por P. Odergard  Berger,
tou sua pletora de grupos como um testemunho       S.D., org. 1981: Organizing Interests in Western Eu-
tanto da energia de seu povo quanto da vitali-     rope: Pluralism, Corporatism and the Transformation
dade de sua democracia.                            of Politics  Dahl, R. 1961: Who Governs? Democracy
    Nos Estados Unidos (Truman, 1951; La-          and Power in an American City  Jordan, A.G. e
                                                   Richardson, J.J. 1987: Britsh Politics and the Policy
tham, 1952) e um pouco mais tarde no Reino         Process  Olson, M. 1965: The Logic of Collective Ac-
Unido (Mackenzie, 1955; Beer, 1956; Finer,         tion.
1958) e Europa Ocidental (Lapalombara,                                                   R.A. WILFORD
1964), a adoo de uma abordagem centrada no
grupo veio na esteira de Bentley (1908). Este      interesses Dizer que uma ao, uma poltica
havia proposto o estudo de grupos e suas intera-   ou um estado de coisas existe no interesse de
es com o governo como chave para a com-          um indivduo ou da coletividade  indicar que
preenso dos processos polticos mais amplos.      isso promoveria seu bem-estar de alguma forma
    Embora libertasse os estudiosos da preo-       significativa. A atribuio de interesses pode
cupao exclusiva com constituies e institui-    servir a fins normativos ou explanatrios: num
es polticas, a moda dos estudos de grupos foi   caso,  usada para recomendar ou justificar uma
396   interesses


ao tomada em benefcio de outrem, por exem-        plo, trata os interesses e valores "materiais"
plo, por governos, pais ou assistentes sociais;      como fontes independentes de motivao, for-
no outro,  usada para explicar ou prever com-       necendo motivos diferentes e s vezes con-
portamentos.                                         flitantes para a ao. O PLURALISMO norte-ame-
    O uso normativo prope questes sobre as         ricano analisa a vida poltica como uma questo
condies fsicas, psicolgicas e sociais que        de interaes de grupos organizados que se
contribuem para o bem-estar da coletividade ou       associam para a defesa ou promoo de seus
do indivduo em questo. Uma vez que h              interesses. Esse ponto de vista indica que as
pontos de vista diferentes sobre quais poderiam      organizaes aglutinam e expressam interesses
ser essas condies, a atribuio de interesses      existentes de forma independente, mas hoje se
geralmente fica aberta ao debate. No h moti-       reconhece, de maneira geral, que as prprias
vo para supor que indivduos ou coletividades        organizaes desempenham um papel impor-
precisem estar cnscios dos interesses que su-       tante na determinao dos interesses que so
postamente tm. Antes, a questo  que sua           efetivamente representados na vida poltica.
situao social supostamente identifica um in-            Os interesses s vezes so encarados como
teresse vis--vis outras coletividades ou indiv-    passveis de causar efeitos mesmo quando no
duos relevantes: os interesses de uma criana,       so conscientes para os que agem motivados
em contraste com os de seus pais, da classe          por eles. Uma manobra comum  desmascarar
operria em oposio aos da burguesia, de dife-      o que parece ser um comportamento despren-
rentes categorias de contribuintes do Imposto        dido de interesses afirmando revelar seus ver-
de Renda, da comunidade como um todo, em             dadeiros fundamentos em termos de interesses.
vez de interesses meramente setoriais, e assim       Em O 18 Brumrio de Lus Bonaparte, Marx
por diante. A atribuio de interesses, nesse        insiste em afirmar que o que distinguia as fac-
aspecto, implica pouco mais que um argumento
                                                     es legitimista e orleanista dentro do monar-
plausvel relacionando seu bem-estar a alguma
                                                     quismo francs "no era nenhum dos chamados
poltica ou estado de coisas. Nada precisa dizer
                                                     princpios, mas suas condies materiais de
sobre o que est motivando o indivduo ou
coletividade em questo.                             existncia, dois tipos diferentes de propriedade
                                                     (...)" (1852, p.118). Aqui, as condies mate-
    O uso explanatrio prope questes de or-
                                                     riais do origem a interesses que explicam as
dem diferente. Jrgen Habermas apontou que a
                                                     conseqentes idias e aes. Os interesses dis-
experincia humana se organiza em termos de
                                                     tintos das duas faces monarquistas explicam
interesses cognitivos a priori. No entanto a
compreenso mais habitual dos interesses            suas diferenas polticas, bem como as "convic-
como propriedades contingentes, mas relativa-        es, os artigos de f" e coisas do gnero que
mente estveis, de indivduos ou coletividades       elas usam para justificar suas aes.
(diferente de vontades ou desejos transitrios),          Os interesses em questo nessa manobra de
que lhes fornecem os motivos efetivos ou po-         desmascaramento so por vezes descritos como
tenciais para a ao. Muitos autores concor-         objetivos, significando que sua existncia e efi-
dariam com a afirmao de Connolly de que            ccia no dependem necessariamente de ne-
toda "teoria explanatria da poltica inclui (...)   nhuma conscincia subjetiva por parte dos que
pressupostos sobre as pessoas e seus reais in-       tm esses interesses. No uso normativo, no
teresses" (1983, p.73). Os interesses j foram       existe problema maior em tratar os interesses
encarados como uma fonte elementar de con-           como objetivos nesse sentido. No entanto, se a
flito social e de diferenas nas filosofias ou       atribuio de interesses deve servir a um prop-
vises polticas de diferentes classes, e como       sito explanatrio, esses interesses devem for-
explicao de aspectos importantes da cultura        necer algum agente, ou agentes, com motivos
e do conhecimento.                                   para a ao. Essa condio cria vrias dificul-
    Tem havido muitas mudanas no modo co-           dades. Primeiro, interesses que so objetivos
mo se pensa que os interesses se relacionam a        nesse sentido podem muito bem no ser reco-
outras fontes de motivao, mas no perodo           nhecidos pelos que se acredita agirem a partir
moderno a busca de interesses  normalmente          deles. Nesse caso, sua significao explanatria
comparada com o comportamento no-motiva-             obscura, a no ser que se pressuponha que os
do pelo auto-interesse. Max Weber, por exem-         interesses em questo so inconscientes.
                                                                                 internacionalismo    397


    Em segundo lugar, atribuem-se interesses             de Dante, que se acredita datar de 1310. No
objetivos a indivduos ou coletividades em vir-          sculo XX o internacionalismo tomou trs ca-
tude de algum aspecto significativo de sua colo-         minhos diferentes, embora relacionados: a pro-
cao social, como classe, etnia ou sexo. No             moo da ao interfronteiras nacionais pelos
exemplo acima, Marx nos reporta s formas de             que tm opinies e INTERESSES semelhantes (o
propriedade que distinguem os interesses de              que  s vezes chamado de "transnacionalis-
legitimistas e orleanistas. O conceito de interes-       mo"); a oposio, na tradio de J. Bentham, a
se parece ento fornecer um elo explanatrio             polticas de estado estreitamente nacionalistas,
entre as colocaes de indivduos ou coletivi-           como o protecionismo; e o apoio  criao,
dades dentro de uma estrutura de relaes so-            sustentao e reforo de instituies interna-
ciais, por um lado, e suas aes, por outro: suas        cionais.
colocaes lhes proporcionam interesses que,                 Eticamente, a principal discusso se d entre
por sua vez, lhes fornecem motivos para a ao.          os que afirmam que "o estado  fundamental-
Diferentes aspectos da estrutura social podem            mente um nexo de obrigao especial e geral"
muito bem ser usados para especificar conjuntos          (Paskins, 1978, p.163) e os que afirmam que a
diferentes, e s vezes conflitantes, de interesses.      sociedade internacional devia ser estruturada de
A anlise desses interesses conflitantes e de            forma a expressar os direitos e deveres que
seus efeitos tem sido um tema importante em              "cada membro da humanidade pode racional-
vrias tradies da anlise poltica -- por exem-        mente pretender ter" com relao aos outros
plo, na argumentao sobre o "operrio afluen-           (Linklater, 1982, p.9) e encarar todos os "mo-
te" dos anos 60 e em tratamentos mais recentes           ralismos particularistas" como "formas de en-
de contraditrias colocaes de CLASSE.                  tendimento humano a serem superadas com o
    Finalmente, o ponto de vista de que a loca-          tempo,  medida que os homens apreendam a
lizao social d origem a interesses objetivos          natureza de sua capacidade para a autodeter-
coloca um problema de explicao no caso dos             minao" (ibid., p.137).
que no agem a partir dos interesses que esse                O caminho transnacionalista  exemplifi-
ponto de vista lhes atribui. O marxismo conven-          cado pelo MARXISMO, o qual, em sua forma
cionalmente atribui  classe operria o interesse        original, afirmava que o estado era mero ins-
pelo socialismo, mas as classes operrias nas            trumento da burguesia e que "o operrio no
sociedades capitalistas avanadas, em sua                tem ptria"; mas a prpria ocorrncia da Primei-
maioria, no reconhecem tal interesse e nem              ra Guerra Mundial demonstrou a insuficincia
agem a partir dele. O problema consiste ento            da solidariedade proletria internacional.
em explicar o fracasso do suposto elo entre              Quando a Revoluo de Outubro de 1917 na
localizao e ao social, e com freqncia se           Rssia fracassou no intento de provocar uma
d uma resposta em termos de operao de                 insurreio de operrios por todo o sistema
poder, falsa conscincia e ideologia.                    capitalista, o internacionalismo da Segunda In-
Leitura sugerida: Barry, B. 1965: Political Argument     ternacional (fundada em 1889) e suas suces-
 Berger, S.D., org. 1981: Organizing Interests in Wes-   soras se tornou pragmtico, em vez de radical,
tern Europe  Braybrooke, D. 1987: Meeting Needs          e a representao direta dos operrios (dentro
Connolly, W.E. 1983: The Terms of Political Discourse    de delegaes nacionais) na Organizao Inter-
 Habermas, Jrgen 1968 (1971): Knowledge and Hu-         nacional do Trabalho deu aos socialistas algum
man Interests  Hirschman, A.O. 1977: The Passions        espao para a cooperao transnacional. Em
and the Interests  Mannheim, K. 1929 (1960): Ideolo-
gy and Utopia  Moe, T.M. 1980: The Organization of       contraste, a Terceira Internacional, fundada por
Interests: Incentives and the Internal Dynamics of Po-   Lenin, tornou-se um canal atravs do qual a
litical Interest Groups.                                 Unio Sovitica controlava os partidos comu-
                                     BARRY HINDESS       nistas do resto do mundo, at que as interven-
                                                         es soviticas na Hungria (em 1956) e, mais
internacionalismo A insistncia em que os                escandalosamente, na Tcheco-Eslovquia (em
problemas sociais e polticos devem ser con-             1968) liberaram a maioria dos marxistas oci-
siderados a partir de um ponto de vista que              dentais dessa subservincia. Entre as manifes-
transcenda o de qualquer estado isolado no             taes no-marxistas de transnacionalismo no
novo. Hinsley (1963) comea sua histria das             final do sculo XX, incluem-se instituies be-
teorias internacionalistas com o De Monarchia,           neficentes e movimentos como o Oxfam, o
398    inveno


Desarmamento Nuclear Europeu (END), a                     inveno A criao de novas estruturas, pr-
Anistia Internacional e o Greenpeace.                     ticas ou objetos institucionais, bem como qual-
    O segundo caminho, o "benthamista", viu-              quer alterao significativa que estas sofram, 
se cada vez mais contestado neste sculo e, no            um aspecto permanente da histria humana. Por
seu aspecto econmico, no s por parte de                inmeros motivos, no entanto, no sculo XX
nacionalistas. Entre as duas guerras mundiais,            inveno tem sido uma palavra amplamente
os repetidos apelos, vindos de conferncias               reservada para descrever desenvolvimentos
da Liga das Naes, por redues gerais de                cientficos e tecnolgicos (ver MUDANA TECNO-
tarifas, exemplificou o "utopismo" denuncia-              LGICA). Acrescente-se a isso que as teorias com
do por E.H. Carr (1939) (ver RELAES INTER-              base determinista (seja econmica, biolgica,
NACIONAIS). Seguidores do KEYNESIANISMO tam-              psicolgica ou tecnolgica) presumem que mu-
bm encaravam o livre comrcio e o multilate-             danas institucionais ou de atitude so funes
ralismo como equivocados, na ausncia de uma              de exigncias sistmicas. Mas uma teoria que
economia internacional gerenciada, dotada de              atribui  prpria inveno um carter indepen-
mecanismos adequados para sustentar uma de-               dente admite pressupostos mais prometicos
manda efetiva, ponto de vista nominalmente                com respeito  capacidade das pessoas de al-
incorporado nas instituies criadas em Bretton           terarem radicalmente seu meio ambiente. De
Woods para gerir a economia internacional de-             acordo com esse ponto de vista, o soneto e o
pois da Segunda Guerra Mundial, e que J.M.                boto foram ambos invenes, uma cultural e a
Keynes ajudou a negociar. Outro aspecto dessa             outra tecnolgica, ambas representando "tipos
forma de internacionalismo, o princpio da li-            diferentes de criatividade" por parte dos in-
berdade de movimento atravs de fronteiras,               divduos em reao a necessidades detectadas
tambm tem precisado empreender uma ao                  (White, 1963, p.114).
de retaguarda contra controles da imigrao                   As teorias sobre a inveno, concentrando-
cada vez mais restritivos e obstculos cada vez           se em atos criativos tanto tecnolgicos quanto
maiores  concesso de asilo a refugiados.                sociais, econmicos, culturais e polticos, en-
    Na primeira parte do sculo os que tomaram            focam ao mesmo tempo as origens e a natureza
a via "institucional" para o internacionalismo            dos atos inventivos e dos padres de difuso.
(ver Angell, 1908; Woolf, 1916) em geral fize-            Muitos autores enfatizam o fato de as invenes
ram da paz o seu objetivo, embora, conforme               raramente resultarem de um nico ato criativo,
assinalado acima, os organismos recm-criados             mas em geral de uma srie de respostas inova-
comumente assumissem outras tarefas. Com a                doras, por vezes no decorrer de muitos anos, 
entrada de novos estados, quase todos subde-              necessidade de se resolver um problema. Bell
senvolvidos, nas Naes Unidas depois de                  s pde inventar o telefone devido  sua prpria
1950, os internacionalistas tambm buscaram               falta de especializao, uma vez que o inventor
esses organismos para promover "o desenvol-               viu possibilidades para o instrumento como
vimento" e corrigir as pretensas idiossincrasias          aparelho de transmisso da fala que os especia-
do sistema econmico vigente (ver tambm                  listas em telegrafia no conseguiram enxergar
DESENVOLVIMENTO E SUBDESENVOLVIMENTO). Na                 (Hounshell, 1975). A inveno arquitetnica
parte final deste sculo o internacionalismo              resulta da incluso ldica de imagens e estilos
"institucional" acrescentou a suas preocupa-              culturais disparatados (Venturi et al., 1977).
es a defesa mundial dos direitos humanos, a             Alguns autores apontam que o desenvolvimen-
proteo do meio ambiente e o controle dos                to de certos tipos de invenes pode remontar
recursos do mar, encarados como "herana co-              ao Weltanschauung de diferentes perodos his-
mum da humanidade".                                       tricos. Robert Nisbet afirma que a Idade Mdia
                                                          foi rica na criao de invenes sociais (a guil-
Leitura sugerida: Carr, E.H. 1939 (1964): Twenty          da, o mercado, o mosteiro, a universidade),
Years' Crisis  Dower, N. 1983: World Poverty  Hins-
ley, F.H. 1963: Power and the Pursuit of Peace  Lin-      enquanto no sculo XX h escassez de inven-
klater, A. 1982: Men and Citizens in the Theory of        es sociais e preocupao com invenes tec-
International Relations  Paskins, B. 1978: "Obliga-       nolgicas (1975). Outros autores afirmam que
tion and the understanding of international relations".   a inveno ocorre mais freqentemente em pe-
In The Reason of States, org. por M. Donelan.             rodos de convulso poltica, particularmente
                                 RODERICK C. OGLEY        revolues. Georges Sorel, referindo-se  "poe-
                                                                                        islamismo    399


sia social" da atividade revolucionria, discute        crenas e instituies do cristianismo (ver CRIS-
a criao de mitos de uma sociedade futura              T, TEORIA SOCIAL) e do JUDASMO, tais como um
como "expresses da vontade" (1906). Hannah             livro sagrado (o Coro), um profeta tico (Mao-
Arendt afirma que as revolues modernas pro-           m), uma tradio normativa (a Sun), uma
duziram regularmente instituies representati-         doutrina da salvao individual e uma viso do
vas inventadas que, at agora, no conseguiram          isl como uma comunidade social (a Um), que
sobreviver (1965). O papel das fontes institu-           essencial para que os muulmanos pratiquem
cionais de inveno tambm tem sido examina-            plenamente sua religio. As diferenas prin-
do, como no caso do impacto dos laboratrios            cipais, que representam controvrsia entre os
de pesquisa sobre a inveno tecnolgica e no           eruditos, so que o isl tem um senso mais forte
das estruturas ideolgicas sobre as invenes           da natureza indivisvel da lei e da religio, no
polticas. Se importantes mudanas culturais,           tem sacerdote sacramental e seu cerne ortodoxo
tecnolgicas e polticas podem ser concebidas           d pouca ateno ao ritualismo sacramental. O
como invenes, surgem importantes questes             islamismo ortodoxo no tem tradio de batis-
adicionais quanto  natureza da interao entre         mo, eucaristia ou confisso. Onde esse tipo de
invenes e sobre se  possvel categorizar in-         ritualismo se desenvolveu no islamismo foi
venes em geral. Alguns autores afirmam que            associado a tradies mais populares, ou a dis-
as recentes invenes na tecnologia eletrnica          sidncias, como o sufismo.
permitem a inveno de novas prticas demo-                 De uma perspectiva histrica, o islamismo
crticas (Barber, 1984). Outros afirmam que a           surgiu na Arbia, no sculo VII, nas cidades de
inveno tecnolgica atravanca outras formas            Medina e Meca, como conseqncia da prega-
inventivas pela dependncia cultural em rela-           o de Maom (570-632). O profeta recebeu o
o a um "jeito tecnolgico" de resolver proble-        Coro na forma de versos ou captulos (surat)
mas. As prprias invenes tm sido categori-           inspirados que conclamavam todas as pessoas
zadas por seu impacto sobre a sociedade e de            a aceitarem Al como o deus uno e nico,
umas sobre as outras, ou em termos de sua               renunciarem a todos os aspectos de suas reli-
propenso a gerar ou impedir a libertao hu-           gies locais e se unirem em uma comunidade
mana.                                                   (a Nao Islmica) a fim de praticarem cor-
                                                        retamente sua religio. A partir dessas primeiras
Leitura sugerida: Abbott, Philip 1987: Seeking New
Inventions: The Idea of Community in America 
                                                        prticas, desenvolveu-se um ncleo de prtica
Hughes, Thomas 1989: American Genesis: a Century        ortodoxa, chamado os Cinco Pilares do isl --
of Invention and Technological Enthusiasm  Illich,      a renncia  heresia politesta pela proclamao
Ivan 1978: Toward a History of Needs  Nisbet, Robert    de que "h um s Deus (Al) e Maom  o seu
1976: Sociology as an Art Form  Pool, Ithiel de Sola,   Profeta" (Shahad), o jejum durante o ms de
org. 1977: The Social Impact of the Telephone.          Radam, a peregrinao a Meca (Haji), a doa-
                                     PHILIP ABBOTT      o de esmolas (Zak) e a prece diria (Sal).
                                                            O isl desenvolveu-se num nicho geopolti-
islamismo Religio monotesta mundial, o                co entre dois imprios em declnio -- o bizan-
islamismo combina lei divina, revelao prof-          tino e o sassnida. Tendo superado com sucesso
tica e um texto sagrado para formar uma tradi-          a oposio a suas prdicas, a simplicidade da
o religiosa detalhada e abrangente. Embora            mensagem de Maom funcionou como impor-
existam vrias verses do islamismo, h tam-            tante elo social que, enquanto ele viveu, uniu as
bm um cerne ortodoxo que ainda representa              tribos nmades fissparas. O isl difundiu-se
autoridade.                                             rapidamente pelo Oriente Mdio e o Norte da
    Do ponto de vista ortodoxo, o islamismo            frica. Houve muita controvrsia quanto s
atemporal. Como f baseada na total submisso           causas da converso ao islamismo. As crticas
 vontade de Al, o isl no tem princpio nem          enfatizam a importncia da guerra santa (Jihad)
fim. O islamismo  auto-suficiente no sentido           e os benefcios econmicos tanto da converso
de no ter dependido de nenhuma outra religio,         quanto da proteo. O islamismo  encarado,
mas  tambm a ltima religio que aperfeioa           em geral, como uma religio guerreira que se
todas as outras verses de monotesmo. De um            difundiu pela fora, mas  importante reco-
ponto de vista sociolgico, o islamismo  uma           nhecer que a expanso islmica dependeu em
religio abramica, que participa de muitas             grande parte da expanso do comrcio e dos
400   islamismo


laos comerciais como as rotas ao longo das         indireto. Muitos lderes muulmanos do sculo
quais se disseminaram os missionrios islmi-       XX, como o coronel Muammar al-Kadafi, da
cos. O islamismo  essencialmente uma religio      Lbia, encaram a expanso territorial do sculo
urbana de mercadores, no uma f de nmades         XIX como o ltimo estgio das Cruzadas.
do deserto.                                             Entre a expedio egpcia de Napoleo e a
    Depois da morte do Profeta, o islamismo         Primeira Guerra Mundial, o islamismo passou
dividiu-se em uma maioria sunita e um movi-         por trs importantes transformaes sociais. A
mento minoritrio xiita. O sunismo tornou-se a      primeira foi o declnio poltico do Imprio Oto-
ideologia oficial do califado (a instituio cen-   mano em relao  expanso ocidental, resul-
tral da sociedade islmica organizada). Em con-     tando em seu desmembramento depois de
traste, o xiismo, que at veio a se tornar a        1918; em segundo lugar, as economias dos
religio "oficial" da Prsia, baseava-se na idia   vrios estados muulmanos foram incorpora-
de uma sucesso carismtica de lderes religio-     das ao capitalismo global em uma base de de-
sos (ims), cuja legitimidade era determinada       pendncia; e, em terceiro lugar, houve impor-
por descenderem do Profeta. Seu ethos religio-      tantes reaes a esses desenvolvimentos secu-
so dava maior nfase ao sofrimento e ao mar-        lares, sob a forma de movimentos religiosos. O
trio; o sunismo continuou sendo uma prtica        movimento Wahabi, fundado por Muhammad
mais sbria e asctica. Esses dois ramos do         ibn 'Abd al-Wahab (1703-87), buscava criar um
islamismo acabaram por desenvolver diferen-         retorno fundamentalista aos princpios islmi-
tes caractersticas jurdicas e religiosas. O su-   cos. Reaes liberais por parte da intelligentsia
nismo desenvolveu quatro "ritos" principais         urbana, particularmente no Egito, tentaram in-
(hanafita, maliquita, xafiita e hanabalita). Uma    tegrar uma reforma do islamismo com prin-
vez a lei sagrada (xari) plenamente desenvol-      cpios ocidentais de democracia parlamentar e
vida por essas quatro escolas, afirmou-se que       educao secular. A reao islmica  penetra-
nenhuma outra ou nova interpretao dela era        o econmica e cultural do Ocidente foi, assim,
possvel; a porta do julgamento (ijtihad) estava    intensamente ambgua, oscilando entre a aceita-
fechada.                                            o pura e simples da ocidentalizao secular e
    Intelectualmente, o islamismo entrou ento      o violento nacionalismo anticolonialista.
num longo perodo (do sculo X ao XIX) de               No sculo XX esses dilemas sociais e cul-
fossilizao oficial, durante o qual qualquer       turais continuaram, apesar do bem-sucedido
mudana nas doutrinas essenciais enfrentava         processo de descolonizao que ocorreu depois
uma oposio impiedosa. Embora o islamismo          da Segunda Guerra Mundial. Imediatamente
continuasse a se expandir, pela criao de novos    depois da guerra, as sociedades islmicas es-
centros culturais e polticos na Espanha, na        tavam sendo significativamente influenciadas
ndia, na Prsia e na Turquia, cientistas sociais   por vrias formas de NACIONALISMO secular, dos
afirmaram que o fato de ele no conseguir           quais a mistura egpcia, criada por Nasser, de
manter uma vantagem tcnica e militar na Eu-        nacionalismo e PAN-ARABISMO constitui um
ropa tem sua origem nessa rgida oposio          exemplo significativo. Na Arglia, o movimen-
inovao. Depois de uma srie de encruzilhadas      to de libertao teve forte ligao tanto com o
decisivas para o isl -- a perda da Espanha em      nacionalismo quanto com o SOCIALISMO marxis-
1492, as derrotas militares fora dos portes de     ta. Na Indonsia, a luta contra o colonialismo
Viena em 1529 e 1683, e a derrota da marinha        ocidental (especificamente o holands) adotou
otomana na batalha de Lepanto, em 1571 -- o         uma mistura de universalismo islmico, paga-
Ocidente capitalista adquiriu uma estratgica       nismo, nacionalismo e culto  personalidade de
vantagem econmica e militar dentro do sis-         Sukarno. No Ir, o lder intelectual Ali Xariati
tema mundial. Com a expanso do capitalismo         (1933-77) criou uma mistura revolucionria de
e do COLONIALISMO ocidental pela frica, ndia      marxismo e xiismo a fim de inspirar o movi-
e sia, o territrio islmico se viu cercado.       mento de massa para o qual a palavra de Al era
Quando chegou o sculo XIX o islamismo es-          a voz do povo.
tava decididamente na defensiva contra o im-            Esses movimentos anticolonialistas radi-
perialismo ocidental, na medida em que muitas       cais, que combinaram o nacionalismo secular
sociedades muulmanas vieram a ficar sob o          com os princpios sociais islmicos, tm sido
controle europeu (e portanto cristo) direto ou     lenta porm gradualmente desafiados, no final
                                                                                     islamismo    401


do sculo XX, por uma profunda nfase no             rido em 1988, no qual o fundamentalismo isl-
FUNDAMENTALISMO, que rejeita a MODERNIZAO          mico desempenhou seu papel, forou o regime
(tanto capitalista como socialista) e a religiosi-   a adotar reformas sociais de inspirao religiosa
dade popular tradicional das ordens sufitas. No      e a legalizar o partido islmico de oposio (a
Egito, Hassan al-Banna (1906-49) fundou a            Frente Islmica do Salut). No Sudo, um golpe
Ikhwan al-Muslimun (a Irmandade Muulma-             militar contra Sadiq-al-Mahdi foi desfechado
na) para combater o imperialismo, promover a         em 1989 por oficiais prximos  Ikhwan. Na
unidade islmica e desafiar os governos islmi-      Tunsia, grupos islmicos de oposio conse-
cos que colaborassem com o controle ocidental.       guiram 17% dos votos populares em 1989. Nas
A Ikhwan opunha-se aos aspectos secularistas         reas ocupadas da Palestina, as foras islmicas
do nasserismo, tentou obrigar Sadat a promover       tm sido influentes na luta de Intifada contra as
a total islamizao da vida social egpcia e         foras israelenses.
tm-se oposto renhidamente a qualquer proces-            As causas do fundamentalismo islmico so
so de paz com os israelenses. Como a Ikhwan          complexas. Ele representa uma reao aos fra-
tem uma massa de adeptos e amplo apoio no            cassos das tentativas capitalistas de elevar o
exrcito, permanece como fora de oposio           padro real de vida das massas, e tambm s
significativa.                                       tentativas polticas de se impor o comunismo
    No Paquisto, Maulana Abul Ala Mawdudi           secular. A mensagem igualitria islmica de
(1903-79) criou em 1941 a Jamaat-i-Islami, que       luta revolucionria tem tido sucesso na mobili-
originalmente tinha objetivos estritamente reli-     zao das massas rurais e urbanas contra gover-
giosos. No entanto os textos de Mawdudi foram        nos que se mostram simpticos a influncias
assumindo uma direo cada vez mais poltica,        ocidentais, e contra outros que buscaram o
pois ele condenava o nacionalismo como uma           apoio sovitico. O protesto popular contra as
idia ocidental que dividia a comunidade             elites urbanas encontrou uma liderana natural
muulmana. Conclamou  criao de um estado          nos muls, enquanto as mesquitas se tornaram
islmico que deveria basear-se em princpios         pontos estratgicos de reunio da oposio que
exclusivamente religiosos. Nos anos 70 a Ja-         pouqussimos governos tm ousado atacar.
maat desempenhou papel importante na luta                Duas outras mudanas ocorridas no sculo
contra o secularismo do Partido do Povo do           XX foram cruciais. O desenvolvimento de um
Paquisto, do presidente Bhutto, e exerceu           sistema de comunicao mundial permitiu 
presso sobre o general Zia ul Haq para ins-         comunidade muulmana em todo o mundo
taurar o Nizam-e-Mustaf (o sistema islmico).       transformar-se numa fora poltica global mais
    No Ir, a oposio  dinastia Pahlavi e s       unida. A peregrinao a Meca tornou-se um
polticas econmicas ocidentais do x Reza           aspecto crucial da globalizao islmica. Em
encontrou apoio considervel nos grupos fun-         segundo lugar, a presena do isl tornou-se uma
damentalistas que acabaram se reunindo sob a         fora poltica na Europa (em parte como con-
liderana do aiatol Ruholla Musavi Khomeini         seqncia da extensa migrao para a Gr-
(1902-89). Khomeini contestou o governo de           Bretanha, a Frana e a Alemanha) e, em menor
todos os pases muulmanos por no terem             medida, no que era o bloco socialista sovitico.
conseguido manter a Xari, por aceitarem in-         Esses conflitos chegaram a uma crise no caso
fluncias estrangeiras e por descuidarem dos         Salman Rushdie, que envolveu um protesto de
direitos de seus cidados muulmanos. A queda        massa, em 1989, contra o prosseguimento da
do x (1978-79) resultou no triunfo dos juristas     publicao do livro Os versculos satnicos. Essa
e do clero (os muls) no que dizia respeito         luta  um aspecto de uma campanha mais ampla
regulamentao do cotidiano e  imposio de         por escolas muulmanas, currculo islmico, o
prticas e crenas religiosas, especialmente no      direito de usar trajes muulmanos em pblico e o
retorno simblico do vu ao vesturio feminino.      reconhecimento da lei pessoal islmica.
As idias de Khomeini continuam a ter muitos             O islamismo, em resultado de sua ligao
seguidores xiitas leais no Iraque, no Lbano e       com os estados produtores de petrleo, tambm
nos estados do Golfo.                                tem desempenhado um importante papel eco-
    Mudanas religiosas semelhantes, embora          nmico no desenvolvimento de sociedades mu-
menos espetaculares, tm ocorrido por todo o         ulmanas, especialmente no Terceiro Mundo.
mundo islmico. Na Arglia, um levante ocor-         No entanto, a proibio islmica da usura mui-
402   islamismo


tas vezes tem forado lderes comerciais islmi-   Leitura sugerida: Arkoun, M. 1984: Pour une critique
cos a dependerem de intermedirios ocidentais.     de la raison islamique  Cragg, K. 1965: Islamic Sur-
                                                   veys: Counsels in Contemporary Islam  Esposito, J.L.,
Esse relacionamento teve algumas conseqn-        org. 1980: Islam and Development: Religion and Socio-
cias desastrosas, como no caso da derrocada do     political Change  Hodgson, Marshall G.S. 1974: The
BCCI em 1992.                                      Venture of Islam  Hourani, A.H. 1962 (1983): Arabic
    Por fim, o aparente triunfo do fundamenta-     Thought in the Liberal Age 1798-1939  Roff, W.R.,
lismo tem sido contestado, contudo, por inme-     org. 1987: Islam and the Political Economy of Meaning:
ros intelectuais liberais de destaque no isl, e   Comparative Studies of Muslim Discourse  Shariati,
existe considervel oposio por parte de mu-      A. 1980: On the Sociology of Islam  Smith, W.C. 1957:
                                                   Islam in Modern History  Turner, Bryan S. 1974:
lheres muulmanas radicais que rejeitam a tra-     Weber and Islam: a Critical Study  Watt, W.M. 1988:
dicional recluso das mulheres, o uso do vu e     Islamic Fundamentalism and Modernity.
a prtica dos casamentos combinados.                                                  BRYAN S. TURNER
                                                 J
jogos, teoria dos Um grupo de indivduos                   seus fundamentos essenciais, descartando todo
est tomando parte em um jogo sempre que o                 e qualquer detalhe que no seja de imediata
destino de um deles depende no apenas de suas             relevncia. Esses detalhes, na melhor das hip-
prprias aes, mas tambm das aes do res-               teses, so uma distrao e, na pior, podem obs-
tante do grupo. O xadrez  o exemplo tpico. Se            curecer de tal forma as coisas que no se consiga
as brancas ganham, perdem ou empatam, isso                 fazer nenhum progresso.Uma vez afastados to-
depende no s dos movimentos feitos pelas                 dos os detalhes irrelevantes, o jogador fica com
brancas, mas tambm dos movimentos feitos                  um problema de deciso abstrato. A observao
pelas pretas. O bridge e o pquer so outros               de Von Neumann e Morgenstern  que a es-
exemplos, com o interesse adicional de que a               trutura bsica desses problemas de deciso  a
falta de informaes relevantes complica os                mesma, independente de ser derivada de jogos
problemas de deciso dos jogadores.                        de salo ou de jogos da vida real.
    A palavra "jogo"  natural para os exemplos                O surgimento do livro de Von Neumann e
dados acima. Mas, para jogos realmente                     Morgenstern despertou grandes esperanas que
interessantes, no seria costumeiro usar a pala-           s viriam a ser concretizadas consideravelmen-
vra "jogo" na linguagem comum. Considerem-                 te mais tarde. O livro introduziu duas aborda-
se, por exemplo, a guerra, as discusses de um             gens do tema: uma abordagem no-cooperati-
tratado internacional, a competio pela sobre-            va e uma abordagem cooperativa. A aborda-
vivncia entre animais ou por status entre seres           gem mais bem-sucedida e satisfatria  a pri-
humanos, eleies, negociaes salariais ou a              meira, uma vez que busca tirar suas concluses
operao de uma economia de mercado. Todas                 da teoria sobre a tomada racional de decises
essas atividades se enquadram na nossa defini-             por parte de indivduos agindo isoladamente.
o de "jogo". Esse uso no tem inteno de                No entanto a anlise no-cooperativa de Von
implicar que as guerras so divertidas, ou que a           Neumann e Morgenstern s se aplicava a jogos
economia  uma boa distrao. Simplesmente                 de duas pessoas, em que o total de perdas iguala
reflete a descoberta feita por John Von Neu-               o total de ganhos, e nos quais, no importa o que
mann e Oskar Morgenstern em seu livro monu-                um jogador ganhe, o outro perde. Sua teoria
mental The Theory of Games and Economic                    minimax para esses jogos  merecidamente c-
Behavior (1944) de que tanto os jogos de salo             lebre. No obstante, poucos jogos da vida real
quanto os jogos da vida real colocam problemas             tm essa equivalncia de perdas e ganhos. Sua
semelhantes e que uma anlise capaz de funcio-             abordagem cooperativa preocupava-se com a
nar para aqueles pode, portanto, muito bem ser             formao de coalizes. Eles formularam "axio-
relevante para estes.                                      mas" plausveis sobre as estruturas de coalizo
    Isso no significa que os jogos de salo e os          com possibilidades de sobreviver a um exame
da vida real sejam semelhantes em todos os                 racional por parte de jogadores movidos por
aspectos. A analogia observada por Von Neu-                interesse prprio, e exploraram suas conse-
mann e Morgenstern, entre os jogos da vida real            qncias.
e os jogos de salo, reside unicamente em seus                 Embora a abordagem cooperativa seja me-
aspectos estratgicos. Seria inteligente, por par-         nos satisfatria, sustentou-se at perodo relati-
te de uma pessoa que desempenha o papel de                 vamente recente, uma vez que se mostrou muito
jogador em um jogo da vida real, pensar em                 difcil o progresso com a teoria no-cooperati-
reduzir o problema com que se defronta aos                 va. No entanto, no decorrer dos ltimos 15 anos,

                                                     403
404    judasmo


foram feitos grandes avanos na teoria no-co-           nmeno exclusivamente judaico -- o Profeta
operativa. Estes apoiaram-se na idia de equil-         --, fervoroso, aterrador, intransigente, mas
brio Nash, introduzida por Nash (1951). As               sempre proclamando uma tica racional, ensi-
estratgias usadas pelos jogadores constituem            nando  humanidade (segundo Max Weber) os
um equilbrio Nash quando a estratgia de cada           primeiros passos rumo ao desencanto do mun-
jogador  a melhor reao possvel s estrat-           do. Em uma nao de dissidentes, onde at o
gias dos outros.                                         atesmo  resolvido atravs da lei, os conflitos
    Esses avanos revolucionaram a teoria eco-           de princpios, as contendas entre conceitos, as
nmica (ver CINCIA ECONMICA). Tambm se                lutas a respeito de questes tendiam a ter prece-
avanou muito na teoria da concorrncia imper-           dncia sobre as realidades terrenas e a disciplina
feita (Tirole, 1988), na teoria da negociao            poltica.
(Binmore e Dasgupta, 1987) e na economia da                  O preo que pagaram foi elevado. Isso deu
informao (Rasmusen, 1989). Houve progres-              a Israel sua primeira provao do exlio, mas
sos igualmente na biologia evolucionista (May-           deixou intacto o impulso criativo do povo. Na
nard Smith, 1984). Em outras reas das cincias          Babilnia, o templo foi substitudo pela sinago-
sociais, a influncia de novas idias na teoria          ga e as preces dirias tomaram o lugar do culto
dos jogos foi mais tangencial. No entanto o              sacrificial. Apesar de todo o papel central de-
estudo de como pode surgir a colaborao entre           sempenhado pela histria na viso de mundo
indivduos movidos pelo auto-interesse  um              judaica, ela no protegeu a iniciativa judaica de
tema que vem se mantendo em pauta (Axelrod,              cair uma segunda vez na armadilha da derrota
1984). Hoje em dia  difcil sequer contemplar           e da disperso atravs da dissenso interna e do
essa questo sem recorrer  teoria de jogos              antagonismo entre irmos, o que incluiu o sur-
repetidos.                                               gimento de Jesus e o nascimento da cristandade.
    Ver tambm DECISO, TEORIA DA; ESCOLHA               No obstante, a unidade conceitual de Deus-To-
RACIONAL, TEORIA DA.                                     r-Povo-Terra foi mantida e preservada, e os
                                                         transmissores do judasmo -- os judeus --
Leitura sugerida: Aumann, R.J. e Hart, S., orgs. 1992:
The Handbook of Game Theory  Binmore, K. 1990:           tornaram-se, de acordo com a previso da Tor,
Essays on the Foundations of Game Theory.                "objeto de desprezo entre as naes".
                                       KEN BINMORE           A segunda disperso, mais total e mais ex-
                                                         tensa do que a primeira, colocou o judasmo em
judasmo Um sistema de crena que, em                    contato, ainda que limitado e muito mal tolera-
tempos remotos, surgiu com uma idia nica --            do, com uma srie de outras religies e sistemas
o monotesmo -- e, no decorrer do tempo,                 de crena, resultando em muitas mudanas es-
elaborou essa idia construindo imperativos ti-         truturais no judasmo, freqentemente devidas
cos, primeiro para o Deus nico e depois, atra-          ao impacto catalisador das culturas hospedei-
vs da aliana e da revelao, um conjunto de            ras. Sacerdotes e profetas deram lugar a um
leis atemporais (a Tor), que o povo de Israel,          judasmo rabnico -- com os rabinos como
exaltado atravs das experincias da libertao          professores e guardies da lei judaica --, no
e do xodo, endossou e em seguida ampliou                qual as codificaes de uma lei "oral", em
para uma literatura eterna, a Bblia. Com o Deus         oposio  lei "escrita" revelada, ofereciam
nico e a Tor nica, surgiu, simultnea e inse-         uma fonte inesgotvel de adaptao social e
paravelmente, o senso de pertencer a um povo,            intelectual. Isso estabeleceu um contnuo de
de ser o povo eleito, ou melhor, o povo que              tradio e progresso que permitiu ao povo con-
elegia, e a identificao de uma regio como a           ciliar-se com praticamente todas as variantes
nica, a prometida, a Terra Santa. Tempo e               sociais, econmicas ou polticas. Embora obs-
espao, assim, validavam os sonhos efmeros              tinadamente intolerante para com o atesmo e
de nmades do deserto.                                   todas as formas de culto pago, o judasmo teve
    Em uma ingnua dialtica de ambio hu-              mais facilidade em se acomodar s duas reli-
mana e justia social, sofisticao poltica e           gies predominantes na dispora (pases da dis-
fora bruta, aprendizado asctico e prazer sen-          perso) -- o cristianismo e o islamismo --, do
sual, as pessoas viam-se divididas por e entre o         que estas tiveram em se acomodar  religio
poder exterior e a luta interior, guiadas, censu-        matriz. O judasmo rabnico descobriu meios de
radas e eventualmente consoladas por esse fe-            incorporar problemas teolgicos e filosficos
                                                                                    judasmo    405


do Ocidente cristo e o pensamento cientfico e     traste com o misticismo emocionalmente mais
matemtico do Oriente rabe sem, em ambos os        satisfatrio, fez surgir uma crescente alienao
casos, sacrificar sua orientao expressamente      nos judeus social e economicamente desprivile-
judaica. As freqentes hostilidades manifes-        giados da Europa Oriental. Isso levou ao desen-
tadas contra judeus foram utilizadas para criar     volvimento do hassidismo, movimento de ju-
comunidades isoladas e muito coesas, lideradas      deus fervorosamente religiosos, que colocavam
por rabinos com os ps bem firmes na terra e        o servio de Deus antes do estudo de sua lei.
apoiadas pela autonomia espontnea que uma              Embora a criao desses dois movimentos
segregao imposta criava. Assim como a men-        resultasse em considervel conflito e tenso
sagem proftica era deliberadamente racional,       comunitria, no representou um verdadeiro
o mesmo acontecia com o ensino rabnico sobre       desafio s principais normas e valores do ju-
questes prticas e metafsicas: a liberdade       dasmo estabelecido, nem alterou os padres
uma precondio do judasmo, mas s pode            existentes da vida judaica. Foi diferente com o
existir sob o domnio da lei; a igualdade no      prximo grande mpeto de mudana, que dessa
meramente social e econmica, mas tambm            vez veio de fora e ameaou engolir todo o
espiritual -- no pode haver fortes reverncias     sistema judaico. A Revoluo Francesa visava
eclesisticas; a salvao  ela prpria uma so-     reestruturar toda a sociedade, em todos os n-
luo racional do conflito humano, do que re-       veis, no esprito das novas noes de igualdade
sulta que o Messias no  esperado para a           social defendidas pelo Iluminismo. O judeu
salvao individual, seu papel sendo nacional       tambm deveria receber os direitos e privilgios
em primeira instncia, mas s podendo ser na-       da cidadania em uma Europa na qual a maior
cional em um contexto universal. O judasmo         parte deles se encontrava confinada em guetos
aceita, mas no convida, os proslitos, os con-     e limitada por restries mesquinhas que lhes
vertidos. No tem nenhuma doutrina de ver-          garantiam a subservincia. Havia uma expecta-
dade nica -- a no ser a da unidade de Deus        tiva de que, em troca dos direitos civis, eles
-- e insiste em que a virtude, a integridade,      desistiriam dos "maus hbitos" dos tempos an-
uma aspirao humana, e no judaica.                tigos e se adaptariam s exigncias da nova era.
    Durante quase 2 mil anos os judeus viveram      Nem os judeus, nem os povos dos pases hos-
como minorias mais ou menos toleradas na            pedeiros se mostraram ansiosos em aceitar essa
Europa e na sia -- da Esccia e Noruega, no        mudana. Para os rabinos, era uma ameaa 
Norte, at o Marrocos e a Espanha no Oci-           sobrevivncia dos judeus como judeus. Isso
dente, e a Prsia e o Iraque no Oriente. Viveram,   levou a divergentes escolas de pensamento, com
durante a maior parte do tempo, em um mundo         aqueles que se agarravam ao judasmo tradicio-
judaico cujas fronteiras externas raramente se      nal formando um movimento ortodoxo, enquan-
estendiam alm dos limites regulamentares e         to os que viam a necessidade de se conformar
fiscais do pas hospedeiro. Por mais problem-      aos padres do meio gentio desenvolveram um
tica que possa ter sido a existncia material do    movimento de reforma que se inspirava tanto no
povo, o judasmo desfrutou de um longo pero-       culto cristo quanto em suas razes judaicas.
do de consolidao e de inovao criadora, que          Para alguns judeus, a nova era exigia uma
enriqueceu o livro de oraes e intensificou o      reao mais radical. Eles observaram a cres-
discurso interno, mas foi se deslocando cada        cente secularizao da sociedade, a hostilidade
vez mais no sentido de um intelectualismo ra-       depressivamente constante das naes hospe-
cional que fez surgir os dois movimentos dis-       deiras e o interesse cada vez maior em uma ou
sidentes em seu interior. O primeiro deles teve     outra forma de socialismo por toda a Europa.
incio na Palestina, onde os judeus, ento repre-   De uma forma ou de outra, reagiram a um, dois
sentando uma minoria muito pequena e muito          ou todos os trs fatores de maneiras variadas,
mal tolerada, buscaram consolo em uma abor-         abandonando totalmente o judasmo, formando
dagem de Deus mais profunda, secreta e menos        um judasmo nacionalista e/ou socialista ou
formal. O misticismo judaico encontrou ex-          buscando preservar as antigas lealdades sob
presso na Cabala (a literatura da tradio ms-    uma aparncia moderna, atravs de um huma-
tica) e deu incio a uma nova perspectiva na        nismo judaico. A revolta contra a emancipao
tradio judaica. Um pouco mais tarde o mesmo       dos judeus na Europa, que levou ao extermnio
racionalismo rigoroso, agora em marcante con-       de 6 milhes deles (ver ANTI-SEMITISMO), conso-
406    justia


lidou as correntes tanto religiosa quanto secular        necessidade ou escolha) que constituem con-
do judasmo. Isso levou ao retorno dos judeus            cepes rivais de justia. A justia material pode
 sua antiga terra natal, a uma forte polarizao        justificar desigualdades substantivas de renda ou
entre judeus religiosos e no-religiosos e, no           redistribuio entre diferentes grupos sociais. 
esprito de uma Europa reformada, a um plura-            em geral identificada com a justia social.
lismo judaico que pode ser um primeiro passo                 A justia  tida em geral como o valor social
rumo  to desejada era messinica, e que tam-           prioritrio, que supera todas as outras conside-
bm reflete a tolerncia que a maior parte das           raes normativas, tais como a utilidade, pelo
naes hospedeiras hoje demonstra para com os            menos no que diz respeito s instituies bsi-
transmissores da tradio judaica. Enquanto              cas de uma sociedade (Rawls, 1971, p.3). Isso
muitos de seus adeptos se assimilam a suas               torna a escolha dos critrios especficos da dis-
culturas hospedeiras, o judasmo assimila ele            tribuio justa uma questo de controvrsia
prprio boa parte do que  melhor nessas cultu-          normativa (Miller, 1976, p.151ss). Se a priori-
ras, ganhando assim uma vitalidade e uma flexi-          dade normativa da justia no  tida como certa,
bilidade que lhe tm permitido sobreviver em             ento a escolha de uma dessas concepes ri-
um mundo essencialmente hostil.                          vais de justia  em grande parte uma questo
                                                         de convenincia conceitual (Campbell, 1988,
Leitura sugerida: Seleta de uma vasta literatura: Bul-
ka, Reuven P. 1983: Dimensions of Orthodox Judaism.
                                                         p.6ss). No entanto os critrios de justia subs-
Encyclopedia Judaica, 1971, vol.10  Fackenheim,          tantiva esto normalmente limitados a caracte-
Emil 1987: What is Judaism? An Interprtetation for the   rsticas ou propriedades dos indivduos (Honore,
Present Age  Glatzer, N.N., org. 1968: Martin Buber:     1970, p.63). De forma mais restritiva, pode-se
Humanism  Levin, Nora 1978: Jewish Socialist Move-       dizer que os critrios de justia, sempre ou prin-
ments, 1871-1917  Meyer, Michael A. 1988: Response       cipalmente, se referem de um modo ou de outro
to Modernity: a History of the Reform Movement in
Judaism  Rabinowicz, H. 1970: The World of Hasi-
                                                         aos mritos dos que so afetados pela distri-
dism  Scholem, Gershom G. 1961 (1973): Major Trends      buio em questo (Sadurski, 1985, cap.5).
in Jewish Mysticism  Spero, Shubert, 1983: Morality,         Crticos do conceito de justia social afir-
Halakha and the Jewish Tradition  Urbach, E.E. 1975:     mam que a idia de distribuio de acordo com
The Sages, their Concepts and Beliefs, 2 vols.           um padro (um padro tal que o grau e a natu-
                                 JULIUS CARLEBACH        reza das posses de uma pessoa dependam do
                                                         grau e da natureza das suas caractersticas) 
justia As avaliaes das instituies sociais           equivocada porque alcanar tais padres impli-
e polticas bsicas, particularmente com res-            ca uma injustificvel restrio s liberdades dos
peito s conseqentes distribuies de benef-           indivduos. Um modelo de justia alternativo,
cios e nus, so expressas normalmente em                de "habilitao" (Nozick, 1974, parte 2), consi-
termos de justia ou injustia. Em seu sentido           dera justas as posses se so resultado de com-
mais geral, o conceito de justia exige que cada         portamento legtimo. A justia , ento, o resul-
indivduo receba o que lhe  mais devido. Den-           tado de aquisies e transaes que no violam
tro dessa frmula, podemos distinguir entre              os preexistentes direitos morais dos indivduos
justia formal e material.                               ou que corrigem as conseqncias de aqui-
    A justia formal exige distribuies que es-         sies ou transferncias ilegtimas do passado
tejam de acordo com os critrios ou regras               (ver DIREITOS E DEVERES).
existentes ou aceitos.  geralmente identificada             A idia de justia socialista  controvertida
com a justia jurdica ou individual. Isso impli-        no sentido de que a justia, particularmente se
ca padres de justia processual ("rigor proces-         associada a merecimento, pode ser encarada
sual" ou "justia natural"), orientados para a           como um valor burgus baseado em idias er-
eqidade e a preciso na aplicao das regras.           rneas a respeito de responsabilidade indivi-
Acarreta a igualdade formal, caso se assuma              dual. No entanto uma concepo de justia
que todas as pessoas em uma sociedade ou                 radicalmente igualitria pode ser formulada em
grupo devem ser tratadas de acordo com as                termos de distribuio de acordo com a neces-
mesmas regras.                                           sidade, de forma que a justia substantiva favo-
    A justia material (ou substantiva) diz res-         rece resultados em que indivduos ou grupos se
peito  identificao dos critrios distributivos        encontram em posio de igualdade material
adequados (tais como direitos, merecimento,              (ver Buchanan, 1982).
                                                                                         juventude      407


    A mais influente das teorias contempor-            Recentes teorias "comunitrias" afirmam
neas sobre justia busca combinar vrios crit-     que os critrios de justia dependem da "esfera"
rios de justia material sob a idia geral de       em que as distribuies esto sendo considera-
contrato. John Rawls (1971) afirma que os prin-     das, de forma que, por exemplo, a justia eco-
cpios para determinar as instituies bsicas de   nmica e a justia poltica so coisas distintas
uma sociedade que seriam escolhidas em uma          (Walzer, 1983, p.23-5), e os padres de justia
situao processualmente justa ("a posio ori-     so sempre relativos s compreenses e expec-
ginal") e que so endossadas por nossas mais        tativas correntes em sociedades especficas.
firmes intuies reflexivas quanto quilo que      Leitura sugerida: Ackerman, B.A. 1980: Social Jus-
justo so:                                          tice in the Liberal State  Barry, B. 1989: A Treatise on
    1. cada pessoa deve ter um direito igual ao     Social Justice. Vol.1: Theories of Justice  Buchanan,
                                                    A.E. 1982: Marx and Justice  Campbell, T.D. 1988:
       mais abrangente sistema total de liber-      Justice  Honore, A. 1970: "Social justice". In Essays
       dades bsicas compatvel com um sis-         in Legal Philosophy, org. por R.S. Summers, p.61-94
       tema semelhante de liberdade para todos       Nozick, R. 1974: Anarchy, State and Utopia  Rawls,

       (p.250); e                                   John 1971: A Theory of Justice  Sadurski, W. 1985:
                                                    Giving Desert its Due: Social Justice and Legal Theory
    2. as desigualdades sociais e econmicas         Sandel, M.J. 1982: Liberalism and the Limits of Jus-
       devem ser dispostas de tal forma que         tice  Walzer, M. 1983: Spheres of Justice.
       sejam ao mesmo tempo (a) para o maior                                           TOM D. CAMPBELL
       benefcio dos menos privilegiados e (b)
       ligadas a cargos e posies abertos a        juventude Ver CULTURA DA JUVENTUDE; MO-
       todos, sob condies de justa igualdade      VIMENTO DA JUVENTUDE; MOVIMENTO ES-
       de oportunidades (p.83).                     TUDANTIL.
                                                K
kantismo Ver NEOKANTISMO.                                   empresa privada, devia ser concedido pelo es-
                                                            tado diretamente, pela promoo de investi-
keynesianismo Em seu sentido mais amplo,                    mentos, ou atravs do gerenciamento dos mer-
o keynesianismo  uma abordagem das ques-                   cados a fim de induzir as empresas a investir.
tes polticas, sociais e econmicas do capita-                 Esse projeto ganhou mpeto poltico e social
lismo avanado que torna vlido o estado as-                a partir de um desemprego em massa aparente-
sumir um papel de liderana na promoo do                  mente insolvel nos anos 20, culminando na
crescimento e do bem-estar material e na regu-              crise dos anos 30, que colocou em dvida a
lao da sociedade civil. O keynesianismo tem               legitimidade da ordem capitalista e pareceu
tambm um sentido mais preciso, como um                     amea-la de cair no barbarismo ou dar lugar
corpo de teoria econmica que serve de base a               ao socialismo. O keynesianismo pareceu ofere-
polticas macroeconmicas. Ambos os concei-                 cer uma "terceira via" entre o capitalismo de
tos de keynesianismo derivam dos textos de                  LAISSEZ-FAIRE e o SOCIALISMO, a qual, transfor-
John Maynard Keynes no final dos anos 20 e                  mando a sociedade capitalista, iria refor-la e
dos programas que ele tentou implementar a                  preserv-la.
partir do interior dos crculos oficiais britnicos             Os programas de "obras pblicas" -- inves-
nessa poca, bem como durante a Segunda                     timento direto do estado em infra-estrutura --,
Guerra Mundial e a reconstruo do ps-guerra.              que Keynes encarava como um meio de promo-
    A idia fundamental do pensamento keyne-                ver o pleno emprego, estavam na agenda do
siano  que as economias capitalistas sistema-              debate poltico e haviam sido, em parte, imple-
ticamente fracassam no que se refere a gerar                mentados no NEW DEAL de Franklin D. Roose-
crescimento estvel ou utilizar plenamente os               velt nos Estados Unidos antes de Keynes publi-
recursos humanos e fsicos; os mercados, que                car sua principal obra terica, The General
so os principais mecanismos econmicos de                  Theory of Employment, Interest and Money.
auto-regulao e ajuste da sociedade civil, no             Eles ilustram a amplitude do keynesianismo,
conseguem eliminar as crises econmicas, o                  pois, em vez de as obras pblicas serem apenas
desemprego e nem, em verses posteriores, a                 um recurso tcnico de economia, a adoo des-
inflao. No entanto o significado do keynesia-             ses programas exigia uma reconstruo das for-
nismo, seja no sentido amplo ou estreito, encon-            as polticas. Nos Estados Unidos, isso incluiu
tra-se aberto a interpretaes e  tema de cont-           a formao da duradoura coalizo do Partido
nua controvrsia, tal como sua validade.                    Democrata com a classe operria industrial, as
                                                            classes mdias liberais, os grupos tnicos po-
Keynesianismo em sentido amplo                              bres e os interesses sulistas, e sua implementa-
    A idia de que o estado tem um papel es-                o implicou uma expanso das autarquias exe-
pecial na promoo do crescimento e do bem-                 cutivas com sede em Washington. Na Gr-Bre-
estar material antecede Keynes em muitos s-                tanha, a presso por obras publicas financiadas
culos, mas o keynesianismo forneceu uma base                atravs do crdito foi uma luta contra os interes-
intelectual racional para um tipo de projeto de             ses arraigados representados politicamente pelo
estado nunca antes tentado sob o capitalismo.               "ponto de vista do Tesouro".
Nesse projeto, o pleno emprego ganhava prio-                    Os programas de obras pblicas sofreram
ridade como um direito do cidado que, uma                  oposio geral por parte dos interesses banc-
vez que no se podia contar com a prpria                   rios, tanto na Amrica do Norte quanto na Gr-

                                                      408
                                                                               keynesianismo     409


Bretanha, e a adoo de outros elementos dos            Embora o keynesianismo esteja mais es-
programas econmicos keynesianos, tais como         treitamente identificado com as agendas inter-
baixas taxas de juros para estimular o inves-       nas ps-1945 dos Estados Unidos e da Europa
timento privado, exigiram igualmente uma reo-       Ocidental, especialmente com o ESTADO DE BEM-
rientao poltica que reduzia o poder dos finan-   ESTAR da Gr-Bretanha, ele alcanou uma forte
cistas. A construo de um estado corporativista    dimenso internacional no Plano Marshall e na
liberal com laos institucionalizados entre sin-    construo do sistema de Bretton Woods, em
dicatos, organizaes de empregados e autar-        torno do Fundo Monetrio Internacional e do
quias estatais foi uma mudana poltica que         Banco Mundial. Esse sistema baseou-se origi-
parecia compatvel com o keynesianismo; mas         nalmente nas idias keynesianas de gerncia
as obras pblicas e a hostilidade  atividade       governamental das finanas internacionais e
bancria tambm podiam ser encontradas em           das taxas de cmbio e de controle sobre as
estados fascistas construdos sobre um tipo ra-     operaes dos banqueiros. A capacidade de
dicalmente diverso de CORPORATIVISMO. Na            Keynes como estadista na construo do sis-
Gr-Bretanha, os movimentos rumo a uma co-          tema visava facilitar o gerenciamento interno
operao corporativista (dos quais as conver-       das taxas de juros e das finanas do governo
saes Mond-Turner foram os mais famosos)           para promover programas de investimento no
estavam em fermentao nos anos que prepara-        pleno emprego, mas politicamente representou
ram o caminho para a promulgao, por Key-          um realinhamento internacional com o geren-
nes, de sua estratgia econmica, nas audin-       ciamento econmico norte-americano da or-
cias de 1930 da Comisso Macmillan, mas no         dem capitalista.
fizeram nenhum progresso significativo at a
Segunda Guerra Mundial. Ento, o crescimento        Keynesianismo em sentido restrito
de organizaes operrias, social-democratas e          A ampla agenda poltica do keynesianismo
comunistas criou a base para uma reconstruo       tinha razes na revoluo tcnica que Keynes e
do estado no ps-guerra, baseada nos direitos       seus seguidores acreditavam ter ele alcanado
ao pleno emprego e  previdncia social, no         na teoria econmica. Embora vrias idias cen-
controle sobre as instituies e mercados finan-    trais estivessem contidas em seu Treatise on
ceiros, na posse e no investimento do setor         Money, publicado em 1930, a exposio defi-
pblico em indstrias de maior monta. Ao mes-       nitiva de Keynes foi The General Theory of
mo tempo foi construda uma ideologia poltica      Employment, Interest and Money, publicado
do keynesianismo, predominante, partilhada          em 1936. Esse livro pretende demonstrar que,
pelos principais partidos e mantida sem contes-     ao contrrio do raciocnio ortodoxo da "teoria
tao efetiva durante trs dcadas.                 clssica", o sistema capitalista, deixado por sua
    Embora o pleno emprego, organizado por          prpria conta, em geral no produzir o pleno
meio de gastos pblicos e medidas para gerir o      emprego. A chave para essa revoluo teri-
investimento privado, fosse o objetivo em torno     ca foi o desenvolvimento de dois conceitos, o
do qual se construram esse consenso e essas        de preferncia pela liquidez e o de demanda
disposies corporativistas, sua quase consecu-     efetiva.
o fez com que se desse renovada ateno ao            Preferncia pela liquidez  um modelo alta-
controle da inflao, a qual, como M. Kalecki       mente simplificado do funcionamento dos mer-
havia prevenido em 1943, seria usada como um        cados financeiros que forneceu uma base para
argumento contra os programas de pleno em-          a concluso de que estes podem sistematica-
prego. Isso impulsionou o keynesianismo em          mente fazer com que as taxas de juros se encon-
uma nova direo. Na crena de que o pleno          trem em um nvel alto que reduza o inves-
emprego havia sido irrevogavelmente atingido,       timento das indstrias privadas. Sua apresenta-
seu dogma principal tornou-se a realizao do       o formal como a idia de que a demanda pela
crescimento nacional com baixa inflao, e as       reserva de moeda depende da taxa de juros 
disposies corporativistas foram cada vez          hoje parte integrante de toda a economia mo-
mais usadas para gerir o mercado de trabalho        derna, embora a concluso keynesiana da de-
em tentativas de restringir a inflao salarial     rivada no o seja.
(atravs de "programas de rendimentos" e                Demanda efetiva  a idia de que a demanda
"contratos sociais", impostos ou combinados).       agregada, e da a poupana, depende da renda
410   keynesianismo


disponvel; conseqentemente, o pleno empre-       servao do capitalismo; mas, em ltima an-
go pode ser insustentvel porque seu nvel de      lise, ela foi minada mais pela mudana de cir-
produo no  igualado pela demanda agrega-       cunstncias do que pelos ataques polticos que
da. Isso contrasta com o ponto de vista "cls-     recebeu. A hegemonia keynesiana construda
sico", ou mais precisamente neoclssico, de que    depois da Segunda Guerra Mundial perdeu sua
o mecanismo de preos se ajusta automatica-        coeso no final dos anos 70, quando a ordem
mente para garantir a igualdade entre deman-       internacional ancorada pelo dlar norte-ameri-
da e oferta, pois, em vez de a demanda reagir      cano deu lugar a uma finana internacional sem
apenas aos preos, ela reage  venda.              regulao e o consenso social de poltica interna
    Encaixando esses conceitos no arcabouo        em pases capitalistas avanados foi fragmen-
dos conceitos de renda e produo agregada que     tado pelo fenmeno de uma inflao elevada
se tornaram ento a base keynesiana para a         coexistindo com alto desemprego. Foi derruba-
moderna contabilizao da Renda Nacional, o        da como agenda oficial quando Margaret That-
teorema keynesiano afirmava que os planos de       cher subiu ao poder na Gr-Bretanha e Ronald
investimento comercial agregados no iguala-       Reagan nos Estados Unidos, embora porm
ro, em geral, a poupana agregada na produo     elementos importantes tenham sobrevivido. Na
em pleno emprego. Em seu cerne encontra-se a       Gr-Bretanha, a opinio da maioria manteve
incapacidade da taxa de juros de se ajustar        sua fidelidade ao cerne do estado de bem-estar
automaticamente para restaurar a igualdade in-     keynesiano, enquanto os Estados Unidos viviam
vestimento-poupana, condio exigida para o       um longo perodo de expanso gerado pelo
equilbrio. Conseqentemente, com os planos        financiamento, de tipo keynesiano, do dficit de
de investimentos reduzidos, produo e renda       gastos do estado e na Europa Ocidental os tipos
tm de estar a um nvel achatado (com o desem-     keynesianos de gerenciamento do estado pro-
prego em massa como sintoma) para achatarem        moviam o crescimento e a modernizao. No
a poupana ao mesmo nvel.                         obstante, o objetivo que lhes era fundamental,
    Embora tenha permanecido como o cerne do       de eliminar de forma permanente o desemprego
modelo keynesiano, esse modelo de equilbrio       em massa, se perdeu nesse perodo.
do desemprego foi ampliado de vrias manei-            Na teoria econmica, a interpretao do mo-
ras. Aplicando-se o princpio da demanda efe-      delo keynesiano que dominou as primeiras duas
tiva e a idia de que a taxa de juros no deter-   dcadas e meia do ps-guerra foi fundamental-
mina a reserva de capital desejada das empre-      mente contestado, por um lado, pelos prprios
sas, Roy Harrod e Evsey Domar demonstraram         tericos keynesianos e, por outro, pelo MONETA-
que, em uma economia em crescimento, o pleno       RISMO e pela "nova teoria clssica". A interpre-
emprego no  o caso geral. Seu modelo tornou-     tao predominante da teoria de Keynes, a "sn-
se a base do planejamento de desenvolvimento       tese neoclssica" inaugurada por J.R. Hicks em
para o Terceiro Mundo, ocupando posio de         1937 e desenvolvida por A.C. Pigou, F. Modi-
destaque at quatro dcadas depois do surgi-       gliani e D. Patinkin, tentara basear suas con-
mento da General Theory. No entanto, na ma-        cluses na teoria neoclssica dos mercados, na
croeconomia ocidental, a ampliao mais signi-     qual os preos, mais que as quantidades (como
ficativa do modelo keynesiano ocorreu nos          renda e produo), eram os mecanismos de
anos 60, quando foi acrescentada a idia de uma    ajuste. Nessa interpretao, o funcionamento
relao entre o desemprego e a taxa de inflao    azeitado da economia era a norma e o desem-
(a Curva de Phillips). Dentro da teoria econ-     prego surgia como um caso especial resultante
mica, a Curva de Phillips prometia corrigir o      da rigidez de salrios, em contraste com a teoria
silncio do modelo central quanto ao modo          geral de desemprego do prprio Keynes, na
como se determina o nvel de preos, enquanto      qual o pleno emprego era visto como exceo.
em uma perspectiva keynesiana mais ampla ela           Uma escola crtica "neokeynesiana" surgiu
fornecia uma base para polticas de renda.         nos anos 70, enfatizando a importncia das
                                                   quantidades sempre que quaisquer preos no
Divergncias sobre o keynesianismo                 sistema eram menos do que perfeitamente flex-
   A agenda keynesiana mais ampla tinha sido       veis e demonstrando que o desemprego  geral-
atacada desde os seus primeiros dias como so-      mente possvel, enquanto o equilbrio de pleno
cialista, embora seu papel confesso fosse a pre-   emprego  apenas uma de muitas possibilida-
                                                                            keynesianismo, ps-   411


des. Essa escola conserva, embora corrija, os       nos. Como o prprio modelo keynesiano pre-
fundamentos tericos de escolha da sntese neo-     dominante baseava-se em princpios neocls-
clssica. Em contraste, o PS-KEYNESIANISMO         sicos, seus defensores foram incapazes de apre-
tenta retornar ao "verdadeiro Keynes", enfati-      sentar argumentos efetivos contra essa amplia-
zando os fenmenos complexos que minam              o, apesar de sua concluso antikeynesiana.
esses fundamentos. Essa escola d especial          Essa crtica do modelo keynesiano foi levada
ateno ao papel das expectativas comerciais        mais alm pelos "novos autores clssicos", os
inquantificveis,  falta de conexo entre a taxa   quais demonstraram que, em um modelo em
de juros e a produtividade do capital, ao carter   que as expectativas so "expectativas racio-
endgeno do meio circulante -- e no a seu          nais", o desemprego  voluntrio e est em sua
controle pelo banco central --,  importncia       "taxa natural" em todos os momentos, no pe-
do crdito e de toda a estrutura das finanas, em   nas no equilbrio a longo prazo. Embora essa
vez do dinheiro, e  influncia da distribuio     refutao das concluses keynesianas confunda
de renda sobre desenvolvimentos macroecon-         o bom senso e a experincia, a verso neocls-
micos.                                              sica sinttica predominante da teoria keynesia-
    As crticas monetaristas exprimidas por Mil-    na foi incapaz de apresentar uma alternativa
ton Friedman e sua escola durante muitos anos       importante da forma como Keynes tentou. En-
assumiram uma linha nova e vigorosa no final        quanto o desemprego nos nveis que antecede-
da dcada de 60, ao interpretar a teoria keyne-     ram a guerra retornava, a teoria keynesiana
siana como dependente da Curva de Phillips.         predominante aceitava o conceito de taxa natu-
Friedman deu a esta uma fundamentao neo-          ral de desemprego e se preocupava apenas com
clssica, introduzindo expectativas de inflao     a velocidade com que a economia a alcanava.
em um modelo de determinao de salrios, e         Leitura sugerida: Keynes, J.M. 1936: The General
obteve o resultado antikeynesiano de que, a         Theory of Employment, Interest, and Money  Leijo-
longo prazo, o desemprego, por mais alto que        nhufvud, A. 1968: On Keynesian Economics and the
seja, se encontra em sua taxa natural, refletindo   Economics of Keynes  Moggridge, D.E. 1976: Keynes.
a escolha dos trabalhadores, em vez de ser                                         LAURENCE HARRIS
involuntrio, e no  influenciado por progra-
mas de gerenciamento de demanda keynesia-           keynesianismo, ps- Ver PS-KEYNESIANISMO.
                                                         L
labelling Ver ROTULAO.                                            (1879-92), eram considerados adeptos ultrapas-
                                                                    sados de um INDIVIDUALISMO e um DARWINISMO
laissez-faire Esta expresso francesa signifi-                      SOCIAL toscos, e sua idia de que mercados
ca "deixem fazer". A maioria das explicaes                        competitivos e sem restries promoveriam o
atribui o slogan, carregado de conotaes pol-                     crescimento e a estabilidade da economia foi
ticas, "laissez-faire, laissez-passer", que signi-                  destroada pela Grande Depresso dos anos 30.
fica "deixem as pessoas fazerem tal como esco-
                                                                        Desde ento tm surgido novas interpre-
lheram, deixem passar as mercadorias", a Vin-
                                                                    taes dos ciclos e depresses econmicos. Da-
cent de Gournay. Esse slogan tornou-se a pala-
                                                                    da a ideologia da poca, a da Era do Progresso,
vra de ordem entre os defensores do livre co-
mrcio, como Jacques Turgot e outros fisiocra-                      a Depresso foi considerada o resultado da inr-
tas, e foi rapidamente sistematizado em An                          cia inerente do mercado. No entanto desde en-
Inquiry into the Nature and Causes of the Weal-                     to estudiosos tm afirmado que a Grande De-
th of Nations, de Adam Smith, como parte do                         presso pode ter tido origem na poltica mone-
"sistema bvio e simples da liberdade natural"                      tria irresponsvel do Federal Reserve System
(Smith, 1776, livro 4, cap.9). Smith e outros                       (o Tesouro Norte-Americano) (Friedman e Sch-
economistas clssicos ampliaram a noo de                          wartz, 1963; Rothbard, 1972) (ver MONETARIS-
laissez-faire, de um programa de livre comrcio                     MO). A alegao de que a interveno governa-
internacional para uma ampla filosofia social.                      mental pode, em grande parte, explicar graves
Nas palavras de Smith:                                              doenas scio-econmicas, como a Grande De-
   Todo homem, na medida em que no viole as leis da
                                                                    presso, ajudou a reabilitar a posio do laissez-
   justia, deve ter plena e perfeita liberdade para buscar         faire entre alguns crculos intelectuais e a NOVA
   seus prprios interesses, a seu prprio modo, e para             DIREITA.
   concorrer, tanto com seu esforo quanto com seu                      As redefinies contemporneas da filoso-
   capital, com os de qualquer outro homem, ou cate-                fia social do laissez-faire vo do neoconserva-
   goria de homens. O soberano fica totalmente dis-                 dorismo de Milton Friedman (1962) e James
   pensado de um dever se, na tentativa de execut-lo,
    obrigado a estar sempre exposto a inmeros enga-
                                                                    Buchanan (1975), passando pelo libertarianis-
   nos e se, para a adequada execuo desse dever,                  mo de Robert Nozick (1974) e F.A. Hayek
   nenhuma sabedoria ou conhecimento humanos ja-                    (1973, 1976, 1979), at o "anarco-capitalismo"
   mais so suficientes; o dever de supervisionar a                 de Murray Rothbard (1973). Embora idias de
   atividade de particulares e de direcion-la para os              laissez-faire tenham ajudado a colorir a retrica
   empregos deve adequar-se ao interesse da sociedade.              de polticos da Nova Direita no Ocidente, bem
   (Ibid.)                                                          como de reformistas do mercado nos estados
    Os deveres do governo seriam ento limita-                      socialistas do Leste Europeu em transformao,
dos  defesa nacional,  administrao da jus-                      ainda resta ver se governo mnimo e mercados
tia e  proviso de certos bens pblicos.                          desimpedidos so uma real alternativa poltica
    O apelo liberal clssico por um sistema de                      ao estatismo do sculo XX. Recentes crticas
MERCADO sem entraves e por um governo limi-                         marxistas  interveno do estado (como a de
tado nunca foi, contudo, realizado na prtica. O                    Claus Offe, 1984) sustentam que, ainda que o
estado capitalista no conseguiu reduzir-se. Na                     estado intervencionista do bem-estar quebre a
virada do sculo XX defensores contempor-                          ordem do mercado, desmont-lo criaria uma
neos do laissez-faire, como Herbert Spencer                         desordem econmica e social ainda maior e,

                                                              412
                                                                                      legitimidade   413


portanto, a interveno do estado, por proble-          formando-se em domnio tradicional ou cons-
mtica que seja,  irreversvel.                        titucional, ou em alguma combinao dessas
   O debate sobre os limites prticos das aes         duas formas.
do estado por certo continuar durante o prxi-             O paradigma weberiano dominou a cincia
mo sculo.                                              poltica ocidental nas dcadas centrais do scu-
   Ver tambm COMPETIO; LIBERALISMO.                  lo. Proporcionou um quadro til para os estudos
                                                        de CULTURA POLTICA, embora alguns crticos
Leitura sugerida: Eatwell, John, Milgate, Murray e
Newman, Peter, orgs. 1989: The Invisible Hand  Fus-     tenham atacado as implicaes paradoxais e,
feld, Daniel R. 1990: The Age of the Economist, 6ed.   conforme encaravam, cnicas de que a polcia
 Hofstadter, Richard 1945: Social Darwinism in Ame-     secreta e a propaganda podiam contribuir para
rican Thought, 1860-1915  Lepage, Henri 1982: To-       a "legitimidade", nesse sentido "livre de va-
morrow, Capitalism: the Economics of Economic Free-     lores", de um regime (Schaar, 1969; Pitkin,
dom  Prychitko, David 1900: "The welfare state: what    1972, p.280-6). Jrgen Habermas, em sua cls-
is left?". Critical Review 4.
                                                        sica obra programtica (1973), apontou que as
                               DAVID L. PRYCHITKO       sociedades capitalistas avanadas sofriam de
                                                        "crises de legitimao" resultantes do desloca-
lazer Ver CIO.                                         mento de tendncias  crise econmica para as
legitimidade A "legalidade" de uma ordem                esferas da poltica do estado e da motivao
social ou poltica, sua pretenso ao apoio, em          individual. A anlise de Habermas, ao contrrio
vez da mera aquiescncia, por parte dos que a           da de Weber, fundamenta-se em uma concepo
ela esto sujeitos, , evidentemente, um tema           normativa em que a legitimidade de um regime
que impregna toda a teoria poltica, geralmente         depende de ele ser aquilo com que os interes-
formalizado em teorias da "obrigao poltica".         sados teriam concordado em resultado de uma
O pensamento social no sculo XX, alm de dar           discusso livre, plenamente informada e exaus-
continuidade a essa tradio normativa e pres-          tiva (ver Habermas, 1981). A distino entre a
critiva em relao  JUSTIA, liberdade, igual-         legitimidade e uma "lealdade de massa" com
dade etc., preocupou-se muito com a legitimi-           freqncia vista como manipulada tornou-se
dade como conceito emprico ou comporta-                popular na teoria crtica (ver ESCOLA DE FRANK-
mental, de acordo com o qual um regime                 FURT) e de maneira mais geral. No extremo mais
"legtimo" se a populao interessada acredita          conservador do espectro poltico, um modelo
que ele seja legtimo. Essa linha de pensamento,        de legitimao atravs de procedimentos cons-
que relembra O prncipe (1513), de Maquiavel,           titucionais e de outros procedimentos formais
o Discurso sobre a servido voluntria (1575),          (Luhmann, 1969) d continuidade a um dos
de La Botie, e, no sculo XX, as Reflexes             motivos centrais de Max Weber. Essa oposio
sobre a violncia (1906), de Georges Sorel, foi         entre as nfases constitucional-processual e ra-
dominada durante todo o sculo pela distino           dical-democrtica foi mitigada nos anos 90 em
clssica de Max Weber (1921-2) entre "trs              resultado de dois desdobramentos: a derrubada
tipos puros de autoridade legtima". Embora a           dos regimes socialistas estatais e sua substi-
dominao ou autoridade possa basear-se, diz            tuio, em alguns pases, por democracias cons-
Weber, no costume, no interesse, em motivos             titucionais; e um novo interesse entre radicais e
emocionais ou "racionais com relao a valor",          socialistas do Ocidente, em especial na Gr-
uma ordem segura em geral se caracteriza por            Bretanha e na Alemanha, pela reforma cons-
uma crena em sua legitimidade. Esta pode               titucional.
basear-se na tradio, no CARISMA do(s) gover-              O sculo XX tem assistido  consolidao
nante(s) ou em uma aceitao "racional" da              de uma noo que, no incio do sculo, era ainda
legalidade e da ordem. Como sempre ocorre               bastante revolucionria, a de que a legitimidade
com os tipos ideais de Weber, essas formas              de um regime depende de forma mais fun-
puras de legitimidade so encontradas em dife-          damental do apoio, expresso atravs do voto, da
rentes combinaes, mas seria possvel tomar a          maioria de toda a populao adulta -- embora
Arbia Saudita, a Alemanha nazista e a Sua            poucos partidos efetivamente atinjam esse
como ilustrativas dos respectivos tipos. Como           ideal. Em sentido mais amplo, a idia de que
em outras reas da vida social, o carisma tende         toda AUTORIDADE exercida sobre adultos sos
a se tornar rotinizado ou objetificado, trans-          precisaria ser justificada em discusso e debate
414   lei


est ganhando mais destaque na prtica cotidia-             A histria do conceito de lei no sculo XX 
na de muitos pases -- s vezes at em seus             a do aparente desaparecimento das concepes
exrcitos. Lderes polticos e outras figuras de        teolgicas ou naturalistas da ordem legal em
autoridade esto achando mais difcil do que no         favor de uma cincia mundana da lei positiva.
passado evitar dar entrevistas  imprensa, cole-        A represso da tradio doutrinria mais antiga,
tivas ou exclusivas, para justificar seus progra-       tradio que at meados do sculo XIX sim-
mas de ao, embora os especialistas em re-             plesmente definia a lei comum como um des-
laes pblicas tenham se tornado correspon-            dobrar da razo (semblable reason semblable
dentemente hbeis na transformao desses               ley: o que parece ser racional parece ser lei), 
"debates" em rituais manipulados e propagan-            a chave para qualquer compreenso das ca-
dsticos.                                               ractersticas tanto filosficas quanto polticas
    Ver tambm LEI; POSITIVISMO JURDICO.               dos sistemas legais contemporneos. Quer no
                                                        continente europeu, onde as tradies legais
Leitura sugerida: Connolly, William, org. 1984: Legi-   nacionais se baseiam em leis ou cdigos escri-
timacy and the State  Habermas, Jrgen 1973 (1975):     tos que tm seu modelo final na jurisprudncia
Legitimation Crisis  Merquior, J.G. 1980: Rousseau      romana (Watson, 1981), quer na tradio legal
and Weber: a Study in the Theory of Legitimacy 
Schaar, John 1969: "Legitimacy in the modern state".    anglo-americana, baseada historicamente na lei
In Power and Community, org. por P. Green e S. Levin-   no-escrita ou direito consuetudinrio estabe-
son (tambm in Connolly, 1984, acima).                  lecido pelos tribunais (Goodrich, 1990), o scu-
                              WILLIAM OUTHWAITE
                                                        lo XIX foi, em termos legais, uma era de secu-
                                                        larizao. Impelidos de forma mais explcita
                                                        pelo cdigo napolenico, ou Code Civil, de
lei O uso contemporneo exige que a noo               1804, os sistemas legais da Europa transforma-
de "lei" receba uma dupla definio. Em seu             ram sua formao histrica comum no texto
sentido mais amplo, que deriva historicamente           universal do direito romano, o Corpus Iuris
das tradies teolgicas clssicas, mas  usado         Civilis, e traduziram em vernculo a tradio
hoje em dia tambm na psicanlise, a palavra            latina em cdigos nacionais de direito. O cdigo
refere-se a qualquer forma de injuno abso-            deveria agora representar o esprito do povo de
luta: a lei  a lei do pai, seja ele o Deus-pai ou      uma forma escrita, abalizada e acessvel, que
o mandado do inconsciente. Em termos mais               submeteria seus administradores e juzes  von-
pragmticos, mas no obstante relacionados, a           tade popular. Apesar das diferenas de tradio
tradio legal secular em geral define a lei, de        e de forma do direito comum anglo-americano,
maneira tcnica e em parte tautolgica, como            mais particularmente sua falta de referncia
as normas emanadas da hierarquia legal exis-            explcita a fontes romanas e sua resistncia 
tente ou por ela institucionalmente reconhe-            codificao, o sculo XIX foi tambm uma
cidas. Nessa ltima definio profissional, as          poca de reforma e de lei escrita, em que os
regras da lei, ou normas legais, so os elementos       dispositivos estatutrios passaram a predomi-
substantivos de um sistema legal nacional, e sua        nar e os registros legais e a legislao foram
autoridade ou validade legal deriva imediata-           traduzidos do direito latino e do direito francs
mente dessa participao no sistema e s pos-           para uma forma do vernculo. Na parte final do
teriormente da legitimidade constitucional de           sculo XIX o direito consuetudinrio desenvol-
sua efetiva enunciao ou contedo. As duas             veu igualmente um sistema de interpretao
definies apresentadas correspondem, em ter-           tambm conhecido como precedente legal
mos histricos,  diferena entre uma concep-           (stare decisis), de acordo com o qual decises
o de lei natural, a lei, dada externamente, de        anteriores dos tribunais deveriam ser impostas
Deus, da natureza, da razo, do soberano ou de          a todos os futuros tribunais de jurisdio ampla
alguma outra fonte absoluta, e a concepo              ou local, e a partir da buscou transformar a
secular de lei positiva, de uma lei artificial          tradio particularista da lei estabelecida como
criada pelos seres humanos. Este artigo traar         precedente em um sistema de normas conhe-
a complexa relao entre essas duas concepes          cidas e com fora de obrigao.
de lei que competem historicamente, relao                 Acompanhando a reescritura radical das dis-
essa que afeta os debates contemporneos                posies legais europias do sculo XIX, houve
quanto  natureza e  funo da ordem legal.            um movimento correspondente para elaborar os
                                                                                                lei   415


detalhes de uma disciplina plenamente cientfi-      e categorias de prtica jurdica existentes foram
ca a respeito do predomnio legal, da suprema-       sistematizadas de forma exaustiva mas conven-
cia da lei em oposio  supremacia de in-           cional, sem o desenvolvimento de uma teoria
divduos. Dentro da tradio continental, essa       explcita sobre a lgica de classificaes histricas
cincia foi baseada nas faculdades de direito das    tais como contrato, delito civil, direito pblico ou
universidades e nelas desenvolvida, e seu pro-       privado, isso sem mencionar os direitos, deveres,
psito era, de maneira mais ampla, manter a          interesses ou polticas, que havia dominado de
tradio hermenutica especfica e a autoridade      forma pragmtica o desenvolvimento da tradio
profissional da instituio jurdica em uma po-     do direito consuetudinrio (Samuel, 1990). O di-
ca secular e revolucionria. O estudo do direito     reito devia ser compreendido como o corpo exis-
deveria voltar-se mais uma vez para o estudo do      tente de regras substantivas de lei, e nada mais,
texto, e nada alm do texto, sendo o currculo       uma viso bem exposta na prtica dos autores de
inteiro dos estudos jurdicos uma iniciao          tratados e posteriormente apresentada como ju-
complexa na designao e na interpretao aba-       risprudncia positivista na obra de H.L.A. Hart
lizadas das leis escritas (Perelman, 1976). A        (1961) e elaborada com algumas revises por
autoridade da cincia jurdica reside em um          Ronald Dworkin (1978).
conhecimento ntimo dos detalhes textuais,               A principal conseqncia terica da tradio
combinado com um conhecimento bem mais               do sculo XIX foi a aceitao pela jurispru-
clssico das mximas de procedimento e de            dncia de uma crena metafsica implcita na
interpretao adequadas  construo e ao argu-      unidade ou homogeneidade da ordem jurdica
mento legais. Em termos de doutrina, a letra da      como um sistema de regras, uma crena que
lei dominava todas as causas jurdicas e a cin-     evocava mais as antigas tradies do direito
cia textual desse dispositivo literal era o lega-    natural e da f nas escrituras do que alguma
do de jurisprudncia do sculo XIX, um legado        cincia mais moderna (Kantorowicz, 1957).
mais bem expresso no POSITIVISMO JURDICO do         Definida basicamente em termos de sua fonte,
sculo XX e na Teoria Pura do direito.               fosse no Cdigo ou nas diversas enunciaes
    Dentro da tradio do direito consuetudin-      abalizadas do direito consuetudinrio, a expo-
rio, uma herana semelhante data da segunda          sio doutrinria do sistema legal no seria
metade do sculo XIX e de seu surgimento nas         unificada por um princpio mais convincente do
universidades, nas quais, at 1750, o estudo         que a referncia  coletnea de textos, estatutos
erudito do direito era o estudo do direito can-     e relatrios jurdicos. De forma no muito dife-
nico e do direito romano. O movimento para se        rente, a sociologia do direito tendeu a aceitar a
fundar uma cincia do direito consuetudinrio        definio profissional ou cientfica de direito e
fora das prticas educativas desordenadas da         a traduzi-la em uma concepo igualmente uni-
prpria profisso tomou emprestados mtodos          ficada de prtica social: em termos empricos,
do continente europeu e se formou sobre a            o direito era simplesmente o que os advogados
tradio dos tratados institucionais (Cairns,        faziam, enquanto que, em termos tericos, jul-
1984). A tradio que surgiu foi a de uma juris-     gava-se que o sistema jurdico exprimia certos
prudncia de manual, daquilo que era chamado         aspectos estruturais da ordem social, fossem
de leis em "letras gticas". O princpio subja-      estas relaes de propriedade, produo de
cente a essa nova disciplina de estudo jurdico      bens, racionalidade burocrtica, hegemonia
era basicamente o do empirismo. Para conven-         ideolgica ou simplesmente controle social (ver
cer as universidades de que o direito era um         Renner, 1904; Kamenka e Tay, 1980). Uma
tema adequado para o estudo acadmico, em            crena implcita na competncia tcnica e no
oposio ao estudo vocacional, e simultanea-         conhecimento profissional deixou em seu lugar
mente convencer os membros da profisso de           a definio doutrinria do direito como um
que, ao contrrio da prtica tradicional, o estudo   sistema de regras sancionadas, unificadas por
jurdico acadmico podia contribuir para a for-      referncia a fontes exclusivamente jurdicas. Se
mao de advogados competentes, o direito            por um lado a teoria social podia esforar-se por
substantivo existente tinha de ser formalizado       ligar as normas jurdicas a circunstncias his-
de maneira incontroversa (Twining, 1986). O          tricas ou polticas, por examinar os interesses
resultado foi uma tradio arcana, porm limi-       sociais subjacentes a reas especficas de regu-
tada, de escrita de tratados, na qual as divises    lamentao, por avaliar o impacto das normas
416   lei


jurdicas sobre a prtica social ou por criticar os   co dos estudos jurdicos, que teve origem no
preconceitos de classe ou de gnero nas regras        continente europeu nos anos 60 (como critique
jurdicas, a auto-evidncia de um sistema jur-       du droit) e na Amrica do Norte no incio dos
dico unitrio raramente foi contestada (Hunt,         anos 70 (como a conferncia crtica de estudos
1978). Teorias sociolgicas do direito mais re-       jurdicos), a referncia metafisicamente deter-
centes continuam timidamente a tentar descre-         minada dos termos jurdicos e as pretenses
ver uma sistemtica do direito firmada no con-        doutrinrias mais gerais quanto  objetividade
ceito de um sistema jurdico auto-referencial ou      da regulamentao textual e do conhecimento
autocriativo. Em suma, a noo de uma fonte           jurdico viriam a ser criticadas como compo-
absoluta do direito, herdada da tradio clssica     nentes de um paradigma antiquado e hoje ex-
e traduzida em teorias jurisprudentes sobre a         tinto da verdade jurdica.
soberania da legislatura ou do povo, permane-             No lugar da cincia positivista do direito ou
ceu e, em certo grau, permanece no lugar: na          de sistemticas legais, a erudio jurdica con-
teoria do direito, o rei ainda precisa ser decapi-    tempornea concentra-se em reconstrues his-
tado (Foucault, 1975).                                tricas e particulares de reas substantivas da
    O rompimento do paradigma doutrinrio do          regulamentao da lei e daquilo que se designa
direito na teoria jurdica recente tem sido um        como direito informal, a saber, o exerccio do
produto da influncia de tendncias tericas          controle normativo em reas concebidas tradi-
externas aos estudos jurdicos, mais especi-          cionalmente como fora do domnio da regula-
almente na antropologia, na lingstica, na cr-      mentao legal formal. No domnio da teoria, a
tica literria, na semitica e na filosofia. Dentro   jurisprudncia se abriu, em grau considervel,
da tradio anglo-americana, essa influncia          ao esforo de investigao de outras disciplinas,
terica tem sido quase que exclusivamente uma         em particular da antropologia, da histria, da
traduo a partir de fontes do continente euro-       lingstica, da contabilidade, da geografia e da
peu. Em termos filosficos, um ressurgimento          semitica, como intrnsecas ao estudo de reas
do interesse pelo pragmatismo levou, das pri-         substantivas da regulamentao jurdica. Assim
meiras e limitadas obras dos realistas jurdicos      tambm, outras disciplinas passaram a estudar
norte-americanos, passando pelo ressurgimen-          o direito, tanto como regulamentao positiva
to da retrica jurdica no continente, a teses        quanto como a injuno derivada do lugar do
sobre a indeterminao de normas lingsticas         pai. Em termos substantivos, o rompimento do
e jursticas que se encontram atualmente as-          paradigma unitrio da ordem legal acompanha
sociadas ao ps-estruturalismo e  descons-           mudanas significativas nos domnios e nas
truo (ver MODERNISMO E PS-MODERNISMO). A           formas de procedimento da regulamentao le-
primeira figura importante a exercer influncia       gal contempornea. Ao mesmo tempo que seria
no sentido dessa mudana de paradigma foi,            impossvel relacionar todos os parmetros do
sem dvida, Foucault, em seu importante es-           crescimento e da correspondente fragmentao
tudo histrico Vigiar e punir (1975). O principal     das reas e formas substantivas de interveno
impacto dessa obra sobre a jurisprudncia re-         legal, certas observaes gerais podem ser to-
side na perspiccia de conceitualizar o direito       madas como indicativas.
como parte integrante de um conjunto muito                A tendncia principal da regulamentao
mais amplo de formas institucionais de norma-         legal nas jurisdies industrializadas tem sido
tizao que abrangia o asilo, o hospital, a escola,   o crescimento do direito pblico. O sculo pas-
a fbrica e a priso como formas variantes de         sado foi a era do direito estatutrio, e a principal
discurso disciplinar, ou, como ele mais tarde         caracterstica substantiva desse direito era bu-
veio a chamar, de governamentalidade (Rose,           rocrtica e reguladora. As novas reas de direito
1989). Em termos mais literrios, a obra grama-       pblico que se desenvolveram, em grande parte
tolgica de Jacques Derrida e a dos feminismos        de maneira informal, em reao  interveno
franceses por ele influenciados, bem como, em         do estado nos mbitos pblico e privado do
particular a elaborao do conceito de descons-       social, so imensas. Numa ordem conceitual
truo, levaram a um ceticismo mais amplo             frouxa, a primeira rea dessa inveno jurdica
com respeito  construo profissional de um          foi o desenvolvimento do direito administrativo
texto jurdico hermtico, distinto do jogo de         e da categoria jurdica da reviso judicial, atra-
aspectos intertextuais. Para o movimento crti-       vs do que os tribunais criaram o poder de
                                                                                                   lei   417


decidir judicialmente sobre a racionalidade de       interessante conseqncia de que, mesmo den-
uma ao administrativa. Anterior ou simulta-        tro dos limites tradicionais da jurisprudncia, as
neamente a esse desenvolvimento houve toda           formas clssicas de discurso legal esto cada
uma srie de inovaes legislativas, criando         vez mais subordinadas a formas de especia-
uma variedade de regulamentaes estatutrias        lizao psicolgica, mdica, atuarial, poltica e
e organismos de controle da segurana na fbri-      econmica, sendo esses os discursos que in-
ca, da remunerao dos operrios, da sade           fluenciam diretamente os temas substantivos da
pblica, da proteo ao meio ambiente, da esco-      interveno legal (Ewald, 1986).
laridade e do policiamento. Essa tendncia              Resta concluir que essa inverso da ordem
garantia social atravs do direito pblico assis-    dos discursos tem colocado em jogo toda uma
tiu mais tarde  emergncia de organismos de         variedade de teorias sobre o fim do direito. Com
controle estatutrio de relaes sexuais, rela-      toda a certeza, se por direito queremos referir-
es raciais, promoo do bem-estar, relaes        nos aos procedimentos tradicionais de clas-
industriais, leses criminosas, danos  proprie-     sificao temtica, de acordo com fontes legais
dade, indenizaes por acidentes automobils-        de validade, ento a forma de regulamentao
ticos, servios ou utilidades pblicas, transporte   jurdica, ou de supremacia da lei, caracterstica
areo, indstria de diverses, e ainda outras        do Iluminismo j morreu. A verdade sociolgi-
incurses ao direito privado, regulamentando         ca  que toda uma variedade de tipos formais e
relaes contratuais, leses no-criminosas,         informais de controle normativo e de soluo
propriedade privada e padres comerciais. Em         de litgios  muito mais vantajosa e de maior
certo sentido, essa nova forma reguladora do         significao social do que o recurso aos tribu-
direito -- evocada apenas ligeiramente na rela-      nais, que  desgastante, caro e consome um
o acima -- era uma politizao direta de           tempo infinito. O boicote econmico, por
padres tradicionais de regulamentao legal.        exemplo,  de significado prtico bem maior,
No apenas os tribunais deviam julgar sobre a        em termos das relaes comerciais multinacio-
arbitrariedade ou no de praticamente todas as       nais, do que as leis de contratos jamais foram
formas de relaes individuais com o estado,         ou puderam ser. A crena no direito, para vol-
como todos os mecanismos da lei que presidiam        tarmos ao nosso ponto de partida, deve ser
tais decises eram, com maior freqncia, o          compreendida hoje como crena na razo in-
produto de uma legislao delegada, o que sig-       dustrial e no dogmatismo da regulamentao
nifica regras criadas internamente por departa-      econmica (Legendre, 1988). O que resta dos
mentos do governo ou organismos semigover-           procedimentos classificatrios jurdicos tradi-
namentais.                                           cionais  uma srie disparatada de formas prag-
    Com o papel cada vez mais ativo dos tribu-       maticamente orientadas de interveno legal
nais numa ampla variedade de reas controver-        em discursos e prticas nos quais o direito for-
tidas das relaes sociais, foi-se tornando cada     mal est subordinado a formas mais amplas de
vez mais difcil manter a viso cientfica tradi-    regulamentao e manipulao econmica,
cional de que o direito estava, de certa forma,      geopoltica e discursiva. Em outras palavras, o
livre do discurso poltico ou de outras formas       direito no mais reside em seus hbitos discur-
de discurso. Tendo em vista tambm o vasto           sivos tradicionais. Se o direito  definido em
mbito dos domnios substantivos de interven-        termos de injuno absoluta, isto , em termos
o legal -- da negociao de um divrcio ao         da fidelidade das coisas ao seu lugar, ento
julgamento de litgios industriais -- a noo de     dever ser encontrado naqueles discursos ins-
unidade formal do direito foi igualmente abs-        titucionais da verdade responsveis pela polti-
trada a partir da experincia da prtica legal. O   ca demogrfica e pelo controle atuarial.
fato de que a teoria social devia agora explicar
a regulamentao legal em termos de um aml-         Leitura sugerida: Cairns, John 1984: "Blackstone, an
gama de discursos normativos rivais e de fun-        English Institutist". Oxford Journal of Legal Studies 4,
es amplamente poltico-administrativas, em         318  Dworkin, R. 1978: Taking Rights Seriously
                                                      Ewald, Franois 1986: L'tat Providence  Foucault,
determinado nvel, simplesmente reflete o cres-      Michel 1975: Surveiller et punir  Goodrich, Peter
cimento de um direito pblico substancialmen-        1990: Languages of Law: from Logics of Memory to
te preocupado com o controle demogrfico e           Nomadic Masks  Hart, H.L.A. 1961: The Concept of
atuarial das populaes. Isso tem tambm a           Law  Hunt, Alan 1978: The Sociological Movement in
418    leninismo

Law  Kamenka, Eugene e Tay, Alice Erh-Soon 1980:          da revoluo socialista contra ele e do tipo de
"Socialism, anarchism and law". In Law and Society:       instituies de transio que concebia no cami-
the Crisis in Legal Ideals, org. por Kamenka et al.
 Kantorowicz, Ernst 1957: The King's Two Bodies
                                                          nho para uma sociedade sem classes.
 Legendre, Pierre 1988: Le dsir politique de Dieu:
                                                              O pensamento de Lenin sobre a organizao
tude sur les montages de l'tat et du droit  Perelman,   revolucionria tomou forma nos primeiros anos
Chaim 1976: Logique juridique, nouvelle rhtorique        do sculo, em conexo com a campanha do
 Renner, Karl 1904 (1949): The Institutions of Private    jornal Iskra para fundar um partido russo unifi-
Law and their Social Functions, org. com introduo e     cado e com a ruptura que ento dividiu esse
notas de Otto Kahn-Freund  Rose, N. 1989: Gover-
nance of the Soul  Samuel, Geoffrey 1990: "Science,
                                                          partido ainda nascente nas faces bolchevique
law and history". Northern Ireland Legal Quarterly 41,    e menchevique. A viso que Lenin tinha do tipo
1-21  Twining, William 1986: Legal Theory and Com-        de partido necessrio era de uma organizao
mon Law  Watson, Alan 1981: The Civil Law Tradi-          centralizada, tendo em seu ncleo um grupo de
tion.                                                     revolucionrios profissionais e de tempo inte-
                                    PETER GOODRICH        gral cuja formao terica e treinamento polti-
                                                          co permitiriam ao partido agir como vanguarda
leninismo Essa expresso refere-se tanto s               da classe operria. Essa viso, elaborada em
idias de V.I. Lenin, fundador e terico do bol-          Que fazer? (1902) e Um passo  frente, dois
chevismo russo, quanto s inmeras organi-                passos para trs (1904), foi explicada e defen-
zaes e grupos que tm pretendido possuir                dida em termos de quatro teses principais.
direito sobre elas e que tm sido por elas ins-               Primeiro, o partido devia ser guiado pela
pirados. Essa dupla referncia marcou o leni-             teoria mais "avanada", conforme Lenin escre-
nismo com uma ambigidade particular. Como                veu: "Sem teoria revolucionria no pode haver
o pensamento de um homem, foi um corpo de                 movimento revolucionrio." Segundo, os im-
idias e de obras em desenvolvimento, adapt-             pulsos e esforos espontneos das massas da
vel a diferentes circunstncias e  luz de neces-         classe operria no produziriam por si prprios
sidades e preocupaes polticas cambiantes.              uma conscincia revolucionria de classe, de-
Como setor organizado do socialismo interna-              vendo permanecer inevitavelmente confinados
cional, por outro lado, muitas vezes se enrijeceu         nos limites sindicais. Terceiro, a conscincia
na forma de uma doutrina sectria inflexvel e            socialista s podia ser trazida para a luta dos
de uma prtica rgida. Isso tem acontecido es-            operrios a partir de fora. Lenin deu a essa tese
pecialmente onde ele se junta ao seu "ismo"               dois significados diferentes: a fonte da teoria
paterno, na dupla "marxismo-leninismo" --                 socialista, afirmou, era um setor da intelligent-
significando geralmente uma continuidade que              sia burguesa; e o verdadeiro mbito dessa teoria
remonta a Lenin atravs do STALINISMO. Mas                era muito mais amplo que a perspectiva do
isso tambm tem sido vlido, s vezes, para               sindicalismo, implicando uma apreenso geral
grupos politicamente opostos ao stalinismo (ver           das relaes da sociedade burguesa, particular-
TROTSKISMO).                                              mente como enfocadas atravs do estado. Quar-
    Em seu primeiro sentido, o leninismo se               to, a fim de realizar essa tarefa, o partido preci-
desenvolveu necessariamente atravs de um                 sava ser centralizado e disciplinado. Os mem-
processo de permanente acrscimo,  medida                bros, individualmente, deviam estar submeti-
que Lenin ia enfrentando os problemas do mo-              dos s decises democrticas da organizao, e
vimento socialista na Rssia. Desde um primei-            as sees locais e outros organismos coordena-
ro estgio seu nome ficou ligado a uma aborda-            dos pela liderana central, em alinhamento com
gem caracterstica das questes de organizao            um programa de ao convencionado. Essas
partidria e do relacionamento partido-classe.            normas vieram mais tarde ser conhecidas sob a
Isso logo se fundiu com a viso estratgica de            rubrica do "centralismo democrtico".
uma projetada revoluo russa, caracterizada                  No h dvida de que algumas das nfases
por um certo paradoxo interno. Mais tarde,               de Lenin se deveram ao contexto poltico -- e
beira da guerra mundial, Lenin props uma                 polmico -- particular. Ele prprio, posterior-
viso do capitalismo moderno que iria contri-             mente, reconheceu isso. A tese a respeito dos
buir em 1917 para alterar aquela primeira e               limites sindicais da espontaneidade proletria,
paradoxal concepo. Tambm delineou uma                  e seus argumentos em favor de um partido mais
teoria do estado capitalista, do meio necessrio          estreito, clandestino, viriam a se modificar em
                                                                                    leninismo    419


tempos mais revolucionrios. Esse conjunto de       sinato, somente para ter de entreg-lo, no devi-
teses, de qualquer forma, fez surgir julgamentos    do tempo,  burguesia.
grandemente diversos com respeito  significa-          Em 1917 Lenin viria a abandonar essa con-
o do projeto leninista original. Seria simples-   cepo de dois estgios diferentes e, diante da
mente uma tentativa de fornecer um enfoque          oposio de muitos bolcheviques, a alegar en-
organizacional e uma direo ao axiomtico          faticamente que uma revoluo proletria es-
objetivo marxista da auto-emancipao prole-        tava, afinal de contas, na ordem do dia. Seu
tria -- criando um efetivo partido da classe       prprio pensamento sobre essa questo veio a
operria, sua prpria ferramenta de anlise, cr-   coincidir com o de Trotsky. Um fator que o
tica e luta? Ou seria, antes, um projeto de tute-   levou a mudar de idia foi, provavelmente, a
lagem; o partido (aquilo em que tantos preten-      anlise do capitalismo mundial que ele se viu
sos partidos leninistas viriam a se transformar)    impelido a realizar pelo deflagrar da guerra. Em
como o rbitro final da "verdade" marxista; e       Imperialismo, o ltimo estgio do capitalismo
essa vanguarda da classe, na verdade, uma elite     (1916), afirmou que a ordem capitalista con-
disposta a tomar o poder para si prpria em         tempornea era marcada pelo domnio de gran-
nome da classe? Mais uma vez, seria o projeto       des monoplios, a fuso do capital bancrio e
-- em uma interpretao intermediria -- de         industrial e uma feroz competio territorial,
ambio saudvel, libertadora, mas portador         entre as maiores potncias capitalistas, por par-
tambm de potenciais mais negativos que aca-        tes do globo, levadas pela necessidade de ga-
bariam prevalecendo? Tudo isso fez parte de         rantir um campo para a exportao de capital.
uma discusso mais ampla ao longo do sculo         Nessa perspectiva de um sistema internacional
XX: at que ponto o leninismo foi o responsvel     sacudido pela instabilidade competitiva, pela
por Stalin e pelo stalinismo.                       guerra e pela crise, a revoluo russa era agora
    Com a viso leninista do partido, um dos        vista por Lenin como uma ruptura da corrente
dois principais pilares do incio do bolchevismo    capitalista no seu elo mais fraco: a primeira de
estava colocado no lugar. O outro foi moldado       uma srie de revolues proletrias em uma luta
durante o levante de 1905: a concepo da           global pelo socialismo. No entanto, onde o
revoluo russa defendida por Lenin em Duas         leninismo do prprio Lenin conseguiu acomo-
tticas de social-democracia na revoluo de-       dar uma mudana de idia to significativa, os
mocrtica. Em essncia, essa revoluo, segun-      marxismos-leninismos derivativos posteriores
do ele, viria a ser uma revoluo burguesa          fizeram tudo que puderam para obscurec-la.
executada pelo proletariado em aliana com o        Preocupada em fazer com que Lenin estivesse
campesinato. Sua natureza burguesa era um           certo a respeito de tudo, a tradio leninista
pressuposto que ele tinha em comum com os           stalinizada congelou os seus pontos de vista,
mencheviques: as principais tarefas eram lim-       incluindo os que ele havia deixado para trs, em
par o terreno para o livre desenvolvimento do       uma unidade rgida -- tal como ergueu esttuas
capitalismo e criar um estado democrtico, re-      do homem e at lhe embalsamou o cadver.
publicano. No entanto, contra os menchevi-              A guerra mundial e a revoluo na Rssia
ques, Lenin insistia em que o proletariado, e no   induziram a uma reconsiderao mais geral por
as foras burguesas, teria de lider-la -- sendo    parte de Lenin. Isso implicou uma crtica ao
a burguesia demasiado fraca e politicamente         marxismo "ortodoxo" de Karl Kaustsky, a qual
tmida para qualquer transformao radical,         simbolizou o racha histrico que ento se abria
completa. Com base na mesma premissa, Leon          entre a social-democracia e o movimento co-
Trotsky, por sua vez, chegou  tese da REVOLU-      munista mundial, em que o bolchevismo e seu
O PERMANENTE: a idia de que os operrios         apoio internacional logo se transformariam (ver
russos ultrapassariam os objetivos burgueses da     COMUNISMO; SOCIALISMO). A crtica de Lenin
revoluo e iniciariam a transio para o socia-    concentrou-se em afirmaes enfticas a res-
lismo. Lenin resistiu a essa idia. Nas condies   peito da natureza do estado burgus e da ordem
russas, era impossvel, ele pensava, passar do      transicional -- a "ditadura do proletariado" --
primeiro estgio revolucionrio (burgus-de-        que deveria substitu-lo. Uma efetiva estratgia
mocrtico) para o segundo (proletrio-socialis-     socialista, afirmou ele em Estado e revoluo
ta). Sua viso, portanto, em suma, era do prole-    (1917), no podia basear-se em uma simples
tariado tomando o poder poltico com o campe-       tomada das instituies do estado burgus exis-
420   liberalismo


tente. Antes, estas deviam ser destrudas e algo   riamente -- transformando a necessidade em
radicalmente diferente ser criado em seu lugar.    virtude, como na famosa frase de Rosa Luxem-
Pois o estado representativo-parlamentar e sua     burgo --, camuflando, em polmica autojus-
mquina executiva praticamente excluam a          tificativa, a diferena entre governo proletrio
classe operria da influncia do poder, enquanto   e do partido. Mas, igualmente, o fato de o
o socialismo, por sua prpria natureza, exigia     prprio Lenin no ter sido capaz de continuar
para a sua construo instituies muito mais      com isso, muito menos de presidir a isso, o que
diretamente democrticas, do tipo dos conse-       transpirou com o triunfo de Stalin, tambm
lhos operrios. Essa era a concepo de Le-        ficou absolutamente claro. Pouco antes de mor-
nin do governo proletrio: a de um estado          rer, Lenin ficou alarmado com as formas de
de um novo tipo, mais democrtico que qual-        poder arbitrrio em processo de desenvolvi-
quer outro antes dele; uma democracia ativa,       mento  sua volta; buscou control-las e conse-
participativa, para as massas operrias.           guir que Stalin, em particular, fosse removido
    Se seus pontos de vista sobre a organizao    da forte posio de influncia que havia alcan-
do partido foram muitas vezes encarados como       ado. O esforo veio tarde demais e foi em vo.
elitistas, a argumentao de Estado e revoluo,       Hoje em dia as esttuas de Lenin esto sendo
em contraste,  s vezes tida como prxima de      derrubadas naquilo que foram as terras do "mar-
um tipo de anarquismo -- embora Lenin mais         xismo-leninismo". Faz parte da complexa rea-
tarde viesse a se opor vigorosamente, dentro da    lidade que evoluiu sob o rtulo derivado de seu
Internacional Comunista,  viso de estilo anar-   nome -- e  uma ironia pouco observada nos
quista dos chamados comunistas "esquerdis-         comentrios recentes -- o fato de que o prprio
tas", segundo a qual a classe operria e suas      Lenin s poderia ter aplaudido a sua derrubada:
organizaes deviam abster-se totalmente da        uma renncia ao culto enrijecido e autoritrio
participao na poltica parlamentar, mesmo        em que foram transformados o seu projeto re-
em circunstncias no-revolucionrias.             volucionrio e a sua modesta pessoa individual.
    De qualquer forma, o esprito democrtico-     Qualquer que pudesse ser o seu julgamento a
participativo do panfleto de Lenin, escrito na     respeito dos eventos relacionados, o seu aplau-
vspera da revoluo bolchevique, viu-se rapi-     so  derrubada dessas esttuas, pelo menos,
damente submetido a todas as presses com que      parece uma certeza bastante razovel.
se defrontava o novo regime no poder: da guerra
civil, da interveno estrangeira, do desloca-     Leitura sugerida: Carr, E.H. 1950 (1966): The Bolshe-
                                                   vik Revolution, 1917-1923, vol.1, p.15-111  Colletti,
mento econmico e social, da oposio poltica     L. 1972: From Rousseau to Lenin, p.219-27  Harding,
e do descontentamento. Nessa situao, o go-       N. 1977, 1981 (1982): Lenin's Political Thought, 2 vols.
verno bolchevique, sob a orientao de Lenin,      reunidos  Lenin, V.I. (1960-70): Collected Works 
comeou a se fechar em um monoplio auto-          Lewin, M. 1967: Le dernier combat de Lnine  Lieb-
crtico do poder. Outros partidos foram bani-      man, M. 1973: Le lninisme sous Lnine  Luxembur-
dos, alguns, mas no todos, em revolta aberta e    go, R. 1970: "Organizational questions of Russian so-
                                                   cial democracy". In Rosa Luxemburg Speaks, org. por.
violenta contra a nova ordem poltica. As fac-     M.A. Waters, p.114-30  1970: "The Russian revolu-
es dentro do prprio partido de Lenin foram      tion". In Rosa Luxemburg Speaks, org. por M.A.Waters,
ento proibidas, o que nunca havia ocorrido at    p.367-95  Mandel, E. 1977: "The Leninist theory of
ento. Se essas medidas eram apenas expe-          organization". In Revolution and Class Struggle: a Rea-
dientes temporrios e desesperados, ou se, em      der in Marxism Politics, org. por R. Blackburn, p.78-
vez disso, estavam perfeitamente em harmonia       135  Meyer, A.G. 1962: Leninism  Miliband, R.
                                                   1983: Class Power and State Power, p.154-66.
com a lgica "substitucionista" do projeto le-
ninista -- isso, mais uma vez, faz parte da                                              NORMAN GERAS
discusso de dcadas a respeito da relao entre
leninismo e stalinismo.                            liberalismo A doutrina poltica conhecida
    O fato de o leninismo no poder ter lanado     como liberalismo afirma que o propsito do
algumas das bases para a ascenso de Stalin       estado como associao de indivduos indepen-
algo que no se pode negar com facilidade. Ele     dentes  facilitar os projetos (ou a "felicidade")
o fez institucionalmente, ainda que sob intensa    dos seus membros. Os estados no devem im-
presso, ao eliminar os possveis espaos de um    por os seus prprios projetos. Tal como seu
pluralismo poltico. E o fez tambm doutrina-      parceiro doutrinrio, o CONSERVADORISMO, o li-
                                                                                   liberalismo    421


beralismo  uma verso da tradio poltica        Espanha e da Frana, na dcada de 1830, quan-
ocidental e ambos os termos so empregados,        do se tornou corrente a maioria dos rtulos da
de forma um tanto confusa, em sentido tanto        poltica moderna. Ela descrevia o velho Partido
genrico quanto especfico.                        Whig, cujas razes remontavam ao republica-
    Em sentido genrico, "liberalismo" refere-     nismo clssico do sculo XVII. A fluidez dessas
se a toda a moderna tradio ocidental de pen-     idias polticas pode ser ilustrada a partir do
samento e comportamento, em contraste com          apelo de Edmund Burke, na dcada de 1790,
as tradicionais formas de ordem encontradas na     dos "novos whigs", simpticos s doutrinas
sia e na frica. Crticos do mundo ocidental      francesas dos direitos naturais, aos "velhos
moderno, como os marxistas, ou vrios tipos de     whigs", que se pautavam, na viso de Burke,
fundamentalistas religiosos, atacam o liberalis-   pela tradio do acordo de 1688. A fundamen-
mo como o aspecto doutrinrio do capitalismo.      tao doutrinria de Burke para o pensamento
Liberalismo, nesse sentido, refere-se  liberta-   conservador britnico revela bastante a respeito
o dos desejos de um indivduo e de muitas das    dos aspectos em que ele se distingue do libera-
restries de uma ordem tradicional. Mas, den-     lismo. Ele concordava em que a sociedade era
tro da efetiva poltica da Europa e da Amrica,    um contrato, mas rapidamente dissolveu os efe-
liberalismo refere-se a um conjunto especfico     tivos contratos dos homens racionais no "gran-
de idias, que, de tempos em tempos, destacam      de contrato primevo da sociedade eterna", que
seus adeptos dos conservadores e dos socialis-     deixava muito menos ao ativo arbtrio destes.
tas. Exatamente o que constitui essa forma es-     Os liberais, em contraste, mostram-se mais dis-
pecfica de liberalismo muda de uma gerao        postos a adotar as regras e disposies de uma
para a seguinte. No sculo XIX, por exemplo,       associao civil, de forma a estar de acordo com
o liberalismo incorporou idias como o livre       o que atualmente se considera racional. Confor-
comrcio, a democracia e a autodeterminao        me as palavras de Tom Paine, crtico e contem-
nacional. Perto do final desse sculo, no entan-   porneo de Burke, nenhuma gerao tem o
to, surgiu um "novo liberalismo", enfatizando      direito de comprometer suas sucessoras.
que o estado devia ser responsvel por suprir as       Em suas verses de CONTRATO SOCIAL, o li-
necessidades materiais dos pobres, de forma        beralismo explorou toda uma esfera de escolhas
que estes pudessem exercer de maneira mais         privadas (incluindo a conscincia, a opinio e a
efetiva a liberdade de que deveriam desfrutar.     famlia) que os governos no devem invadir.
Essa mediao rumo ao socialismo era eviden-       Muitos desses temas tornaram-se explcitos na
temente incompatvel com o estado mnimo           Reforma protestante do sculo XVI, e uma certa
que muitos dos primeiros liberais haviam con-      tenso entre liberalismo e catolicismo foi um
cebido como a nica garantia de liberdade. Esse    aspecto reconhecido da vida poltica at as l-
liberalismo clssico de meados do sculo XIX       timas dcadas do sculo XX. Uma expresso
foi vigorosamente revivido durante os anos 70      clssica dessa atitude  a censura de John Mil-
e em geral encontrou abrigo em partidos que se     ton, em Areopagitica (1644), ao domnio moral
autoclassificavam como "conservadores".            de seus rebanhos por parte dos padres catlicos.
    Deve ficar claro que qualquer tentativa de     Mas h muito ficou geralmente convencionado
definir liberalismo  como buscar um alvo m-      que os princpios essenciais do liberalismo fo-
vel. O significado de "liberalismo" muda no       ram expressos pela primeira vez no Second
apenas com o seu nvel de abstrao e com o        Treatise of Government (1690), de John Locke.
passar do tempo, mas tambm de pas a pas. O          Nessa obra, Locke afirma que o governo  uma
anticlericalismo, por exemplo, foi um impor-       espcie de custdia estabelecida por indivduos
tante componente do liberalismo francs do         que se juntaram para formar uma sociedade, cujo
sculo XIX, enquanto que o sentimento anti-re-     sentido  garantir a ordem e proteger a proprie-
ligioso foi, na melhor das hipteses, intermi-     dade. "Propriedade", para esses fins, inclui "vida,
tente na Gr-Bretanha e na Amrica do Norte.       liberdade e posses", e seu gerenciamento  um
Todas essas nfases mudam constantemente.          dever a ns imposto por Deus. Os governos exer-
                                                   cem sua prerrogativa de acordo com a lei, e os
A histria das idias liberais                     contornos mais amplos de seus deveres (e seus
   A palavra "liberalismo" que hoje conhe-         limites) so dados pelo que a razo nos diz a
cemos entrou na poltica britnica, vinda da       respeito da natureza humana e dos direitos natu-
422   liberalismo


rais. A autoridade resulta da aquiescncia do        tratas. O prprio Hobbes comparou as leis s
governado, e o povo tem o direito, como ltimo       cercas e aos muros que impedem as pessoas de
recurso, de derrubar o governante que viole          vagar pela propriedade privada. Conforme ob-
essas condies.                                     servou Oakeshott, "sem ser ele prprio um li-
    O Second Treatise de Locke foi uma obra          beral, [Hobbes] tinha em si mais da filosofia do
altamente partidria, disfarada de argumenta-       liberalismo do que a maioria dos seu professos
o filosfica, e os historiadores das idias hoje   defensores".
acreditam que identific-la com a doutrina mui-
to posterior do liberalismo  praticar histria ao   A concepo liberal da vida poltica
estilo dos whigs, no qual os personagens his-            A essncia do liberalismo reside em seu
tricos so compreendidos como animados por          reconhecimento do desejo individual como fato
idias de liberdade que s emergiriam em um          bsico de uma associao civil moderna. No
perodo posterior. Um problema ainda mais            h valores ou normas preponderantes a que o
srio  que o lugar central designado  lei          homem esteja completa e permanentemente
natural na argumentao de Locke limitava se-        obrigado. Mas essa forma  freqentemente mal
veramente o mbito da divergncia poltica           compreendida. No se deve pensar, por exem-
possvel. Mas  da essncia de uma sociedade         plo, que um desejo  o mesmo que um impulso,
liberal caracterizar-se por uma divergncia b-      uma inclinao ou um capricho. O "desejo" do
sica a respeito de todas as questes substantivas.   pensamento liberal, tal como a "felicidade" dos
A partir desse ponto de vista, o pensamento de       tericos utilitrios (ver UTILITARISMO),  alta-
Thomas Hobbes, descartado por muitos crticos        mente racionalizado. A identidade da pessoa no
posteriores como absolutista, na verdade vir-        pensamento liberal deve ser descoberta, no em
tualmente totalitrio, comea a nos dizer um         algum aspecto natural (como raa ou classe),
pouco mais a respeito do liberalismo.                nem em algum relacionamento social (como
    A questo central  que o Leviat (1651), de     status ou condio), mas em uma estrutura de
Hobbes, leva profundamente a srio o fato da         desejos coerentes ou racionalizados. Somente
divergncia entre os membros de um estado            uma pessoa assim pode ser considerada res-
moderno. Tal divergncia ameaa as associa-          ponsvel por suas aes. Tais formulaes in-
es humanas de violncia e rompimento, re-          dicam,  claro, que cada indivduo em um es-
sultado que s pode ser evitado investindo-se        tado liberal  um paradigma de autocriao.
autoridade em um soberano cujas decises em          Todos os estados existentes,  claro, esto im-
questes de lei e negcios pblicos, incluindo       pregnados por uma tessitura viva de sentimen-
doutrina pblica, devem ser encaradas como           tos patriticos e ligaes morais e religiosas
conclusivas. Em vez de basear o estado na            herdadas do passado. O avano do liberalismo,
razo, como fez Locke, Hobbes apoiou-se na           no entanto, reduziu a condio de autoridade
autoridade. O sdito de um estado moderno est       das religies e abriu as ligaes patriticas 
preso a regras que ele pode achar que no so        concorrncia das ligaes universalistas e cos-
racionais, nem desejveis, e sua liberdade se        mopolitas. Essa dissoluo de ligaes herda-
encontra nas reas (que Hobbes assume serem          das (que, segundo os conservadores geralmente
um continente imenso) a cujo respeito a lei se       afirmam, no futuro ir mostrar-se fatal para as
cala. O pensamento liberal posterior enfatizou       modernas sociedades ocidentais) baseou-se em
o fato de que  o carter lgico das regras --       grande parte no crescimento das sociedades
que so abstratas e hipotticas -- que facilita a    modernas como economias, nas quais todos os
liberdade. Tais modificaes "adverbiais" de         membros (em vez dos tradicionais cabeas de
comportamento (para usar uma metfora ade-           famlia do passado) participam do que Adam
quada, que tem origem em Michael Oakeshott)          Smith chamou de "troca, permuta e intercm-
do oportunidade para o engenho e a imagina-         bio". De fato, uma das verses mais convin-
o na busca dos desejos. As leis restringem as      centes do liberalismo -- a proposta por F.A.
aes, mas no as impem, nem as dominam.            Hayek (1960) -- consiste em uma alegao de
O segredo do dinamismo dos estados liberais          que a economia deveria, em substncia, estar
modernos reside em um contnuo dilogo entre         fora do mbito da interferncia poltica.
um governo legislador e uma cidadania recep-             Os crticos do liberalismo geralmente o acu-
tiva, guiada por um conjunto de regras abs-          sam de falsear a realidade social e poltica. Tal
                                                                                   liberalismo    423


crtica com freqncia se baseia em um equvo-      criaturas gerar bens pblicos? Como podem ser
co. A nfase individualista da teoria do contrato   motivadas a se comportar de forma comunit-
social, por exemplo,  amide atacada como          ria, se no  de seu interesse particular faz-lo?
uma forma de atomismo que no reconhece ser         Uma enorme literatura tcnica nessa rea tem
o homem um animal social. Quando o cidado          se concentrado no dilema do prisioneiro e ou-
de um estado liberal  caracterizado como "bur-     tras formas de teoria dos jogos. A idia de
gus" (por exemplo, nas doutrinas marxistas),       escolher princpios sociais bsicos por trs de
em geral  concebido como isolado e em confli-      um "vu de ignorncia", em A Theory of Jus-
to com seus companheiros. Na verdade, a teoria      tice, de John Rawls (1971), tenta determinar
liberal no tem nenhuma dificuldade em reco-        uma estrutura de regras constitucionais inde-
nhecer as relaes sociais, e um dos aspectos       pendentemente da parcialidade que, ao que se
das sociedades liberais que mais impressionam       presume, exibimos na efetiva vida social e po-
 a criatividade flexvel e fluente de sua coope-   ltica. Nesses termos, um estado liberal surge
rao social -- da qual a famosa pletora de         como o que  indiferente ou neutro entre os
associaes voluntrias nas sociedades anglo-       projetos e opinies especficos preferidos por
saxnicas  um bom exemplo. Mais uma vez, a         seus membros. Essa idia "de procedimento"
semelhana entre o individualismo liberal e a       do liberalismo foi recentemente expressa em
teoria das relaes econmicas racionais levou      termos da prioridade do certo sobre o bom.
alguns crticos a concluir que o egosmo e a            Os problemas explorados nessa literatura
ambio esto na base das sociedades liberais.      filosfica so acadmicos no sentido de que as
Essa confuso entre o egosmo (que  uma falha      sociedades liberal-democrticas, para dizer a
moral) e o auto-interesse (que  um critrio        verdade, funcionam, e de fato funcionam muito
formal de comportamento racional)  ao mesmo        bem. Mas os crticos geralmente afirmam que
tempo comum e perniciosa. A melhor maneira          a liberdade e a neutralidade que os liberais
de refut-la  destacar o fato de que, tanto no     alegam existir em seu estado so ilusrias.  por
nvel individual quanto no governamental, as        certo verdade que os crentes religiosos, inteira-
sociedades liberais sempre foram, entre todos       mente convencidos de que somente eles so os
os grupos da histria, as mais espetacularmente     donos da verdade das coisas, podem muito bem
inclinadas a fazer donativos aos menos afortu-      achar o pluralismo de uma sociedade liberal
nados.                                              intolervel, e na verdade a conseqncia de
    As reais deficincias do pensamento liberal     sculos de tal controvrsia na maioria das igre-
s surgem quando ele desemboca em uma es-           jas crists foi induzir a um ecumenismo tole-
pcie de racionalismo que presume terem todos       rante que em geral abandona, no nvel da crena
os seres humanos o mesmo carter racionali-         revelada literal, a pretenso  verdade.  assim
zante. Os autores do final do sculo XIX cujo       provvel que a discusso acadmica sobre o
liberalismo foi fermentado pelo vinho inebrian-     liberalismo conclua que no fim do caminho li-
te do progresso iriam descobrir que a natureza      beral o que se encontra  o niilismo, enquanto
humana, no sculo XX, os decepcionaria ter-         alguns socilogos argumentaram que a nfase
rivelmente. O zelo religioso ideolgico levou a     liberal na liberdade  um cido que dissolve os
conflitos ferozes que muitos liberais acharam,      laos invisveis por meio dos quais se mantm
e em geral ainda acham, difceis de compreen-       a ordem social. Daniel Bell (1979), por exem-
der.                                                plo, afirmou que as sociedades capitalistas mo-
                                                    dernas exigem tanto uma tica protestante aus-
Desdobramentos recentes                             tera e parcimoniosa na rea da produo quanto
   O liberalismo foi um dos maiores benefici-      uma atitude hedonista para com o consumo --
rios da retomada do pensamento poltico nor-        uma propenso tende a destruir a outra.
mativo a partir dos anos 60. As duas idias             Essas exploraes dos meandros do perigo,
morais bsicas em termos das quais o liberalis-     porm, podem muito bem ser consideradas co-
mo  elucidado -- a dos direitos e a da utilidade   mo parte da riqueza de recursos das modernas
-- foram engenhosamente desenvolvidas. A            sociedades liberais, que com certeza vivem pe-
nfase liberal na escolha racional (ver ESCOLHA     rigosamente, mas at agora tm demonstrado
RACIONAL, TEORIA DA) fez reviver a conhecida        uma capacidade considervel para fazer ajustes
questo do contrato social: como podem tais         que as salvaro do desastre.  claro que no
424    liberdade


existe garantia de que tudo isso v continuar.            invocado com freqncia a noo de CIDADA-
Mas esse perigo, do ponto de vista liberal,  um          NIA, implicando o estabelecimento de um amplo
inevitvel aspecto da aventura da modernidade.            mbito de direitos civis, polticos e sociais. O
                                                          crescimento da liberdade  portanto concebido
Leitura sugerida: Barry, Norman P. 1980 (1986): On        como uma evoluo da cidadania. Subjacente a
Classical Liberalism and Libertarianism  Bell, Daniel
1979: The Cultural Contradictions of Capitalism           tal concepo encontra-se o ponto de vista de
 Gray, John 1989: Liberalism  Haakonssen, Knud,           que, se a liberdade no deve ser meramente uma
org. 1988: Traditions of Liberalism  Hayek, F.A. 1960:    noo abstrata e vazia, ento devem existir
The Constitution of Liberty  Hobbes, T. 1651 (1973):      condies nas quais os indivduos possam efe-
Leviathan  Locke, John 1690 (1960): Two Treatises of      tivamente exercer sua liberdade a fim de alcan-
Government, org. por Peter Laslett  Mill, John Stuart     arem o grau mximo de auto-realizao e au-
1859 (1991): On Liberty and Other Essays, org. por
John Gray  Milton, John 1644 (1925): "Areopagitica".      tocomando de que forem capazes.
In Milton's Prose: a Selection  Nozick, R. 1974: Anar-        Em relao a essas questes, existe ainda
chy, State and Utopia  Oakeshott, Michael 1975            uma distino a ser feita entre liberdade in-
(1991): On Human Conduct  1975: Hobbes on Civil           dividual e o que pode ser chamado de liberdade
Association  Rawls, John 1971: A Theory of Justice        coletiva. Os movimentos de libertao ou in-
 Sandel, M. 1982: Liberalism and the Limits of Justice.
                                                          dependncia nacional, os movimentos de clas-
                              KENNETH R. MINOGUE          se, os movimentos das mulheres e outros bus-
                                                          cam garantir maior liberdade, em um sentido
liberdade Este  um conceito que foi inter-               especfico, para categorias inteiras de pessoas,
pretado de diversas maneiras em doutrinas so-             embora isso,  claro, esteja relacionado  conse-
ciais extremamente variadas. Uma distino                cuo de certos tipos de liberdade individual.
inicial pode ser feita entre o que se chamou de           Tais fenmenos tornam evidente o fato de que
concepes "negativa" e "positiva" de liberda-            liberdade, em seu sentido mais universal, de-
de individual. Em seu sentido negativo, liber-            pende de um complexo de instituies sociais,
dade significa a ausncia de "restrio desne-            o qual constitui um tipo particular de ordem
cessria ou danos" (Lewis, 1832, p.154), ou, de           social. Os seres humanos no "nascem livres";
maneira mais ampla, da "interferncia delibe-             nascem dentro de uma rede preexistente de
rada de outros seres humanos em uma rea em               relacionamentos sociais, como sditos de um
que, no fosse isso, eu poderia atuar" (Berlin,           imprio ou membros de uma tribo ou nao, de
1958, p.122), e disso se segue que a liberdade           uma casta ou classe, de um gnero, de uma
maior onde existe menos restrio ou interfe-             comunidade religiosa; e os limites de sua liber-
rncia. Esse  o sentido bsico em que a liber-           dade so condicionados por essas circunstn-
dade (acima de tudo vis  vis os governos) foi            cias. Mas no so totalmente determinados por
compreendida por pensadores liberais como                 isso, pois indivduos e grupos podem lutar e de
J.S. Mill e Alexis de Tocqueville, no sculo              fato lutam por maior liberdade, com mais suces-
XIX, e por seus sucessores no sculo XX. Todos            so na medida em que as foras produtivas hu-
eles reconheceram, porm, que algumas res-                manas e a riqueza da sociedade aumentam. Nas
tries, estabelecidas principalmente pela lei,           sociedades modernas, e particularmente no s-
so necessrias no interesse da coeso, da jus-           culo XX, houve, sem dvida, apesar de inme-
tia e de outros valores sociais, embora tenham           ros movimentos retrgrados, uma considervel
divergido enormemente em seus pontos de vista             ampliao da liberdade como resultado da aqui-
a respeito de quanta restrio  necessria ou            sio de direitos civis, polticos e sociais em
tolervel, e os atuais libertrios (como Hayek,           uma escala muito mais ampla. Esses ganhos so
1973-9) defendem vigorosamente uma severa                 o resultado de muitas lutas coletivas, pelo su-
reduo da legislao restritiva e das atividades         frgio universal, pelos direitos econmicos e
do governo.                                               sociais das mulheres, pela libertao do dom-
    O sentido positivo de liberdade foi defen-            nio colonial e de vrias formas de ditadura
dido por Lewis (p.151-2) como significando a              poltica.
posse de "direitos cujo desfrute  benfico para              Mas  possvel tambm afirmar que a exten-
aquele que os possui", e essa formulao tem              so dos direitos sociais, em particular, nos mo-
uma ressonncia bastante moderna, pois dis-               dernos estados democrticos de bem-estar foi
cusses recentes sobre liberdade positiva tm             atingida ao custo de uma interveno e uma
                                                                                  libertarianismo   425


regulao governamental grandemente amplia-            libertao, teologia da Ver TEOLOGIA DA LI-
das, bem como do crescimento da burocracia,            BERTAO.
que constituem em si mesmos novas limitaes
 liberdade do indivduo. Uma fonte principal          libertarianismo Afirmando que a liberdade
para esses pontos de vista  a exposio feita         individual  o valor poltico bsico e a PROPRIE-
                                                       DADE privada a sua mais importante salvaguar-
por Max Weber dos processos de racionaliza-
o e burocratizao da vida nas sociedades            da institucional, essa palavra entrou em uso nos
industriais modernas, que ele afirmou tenderem         Estados Unidos da Amrica depois da presidn-
a minar a autonomia e a integridade do in-             cia de Franklin Delano Roosevelt (1933-45),
divduo (ver Lwith, 1932; Mommsen, 1974).             cujos partidrios se apropriaram da antiga pala-
Essas no so, porm, as nicas questes que           vra "liberalismo" para o seu ramo de interven-
surgem ao se considerar como mudanas so-              cionismo poltico e econmico. Da, aqueles
                                                       entre os seus oponentes que tambm rejeitavam
ciais com inteno de promover a liberdade
                                                       o conservadorismo comearam a se chamar de
podem, ao mesmo tempo que inicialmente
                                                       "libertrios".
atingem seus objetivos em uma esfera, criar
novas restries em outras. Revolues e re-               Encarando-se como os legtimos herdeiros
                                                       da tradio liberal clssica de John Locke e
formas radicais concebidas como emancipat-
                                                       Adam Smith, a maioria dos libertrios acredita
rias levaram com freqncia a regimes ditato-
                                                       que a liberdade tem valor intrnseco; segundo
riais, enquanto que em sociedades democrti-
                                                       eles,  um direito humano inalienvel, uma
cas existe sempre o perigo daquela tirania da
                                                       exigncia da razo, a condio natural do seres
maioria que Mill analisou.
                                                       humanos. Alguns so inspirados pelo indivi-
    De maneira mais geral,  evidente que a            dualismo romntico do escritor Ayn Rand
liberdade de indivduos ou grupos sempre im-           (1957); outros, na esteira de Locke, baseiam o
plica, ou tem a probabilidade de implicar, algu-       direito  liberdade e  propriedade no princpio
ma limitao da liberdade de outros -- sendo a         de que o indivduo  dono de si prprio. Alguns
expresso mais extrema dessa idia a frase de          libertrios, porm, defendem a liberdade em
Jean-Paul Sartre "O inferno so os outros". A          termos das boas conseqncias que dela pare-
vida humana  necessariamente social, e a liber-       cem fluir. (As duas posies no so mutua-
dade pode ser mais bem concebida como um               mente excludentes.) Acreditam que a liberdade
equilbrio continuamente mutvel entre as pre-          o nico meio de enfrentar a diversidade de
tenses rivais de indivduos e grupos dentro de        valores, pontos de vista e estilos de vida in-
uma sociedade inclusiva cujas fronteiras podem         dividuais: as pessoas podem concordar em dis-
tambm se expandir na medida em que os di-             cordar. Alm disso, esses libertrios (muitos
reitos humanos sejam afirmados em escala glo-          dos quais so influenciados pela ESCOLA AUS-
bal. Da, uma anlise conceitual de liberdade          TRACA DE ECONOMIA ou pela ESCOLA ECONMICA
necessita ser realizada dentro da estrutura de         DE CHICAGO) contrapem que a liberdade de
teorias sociais mais amplas em que tanto o             experimentar, inovar e, inevitavelmente, come-
sentido negativo de liberdade -- preocupado            ter erros  um pr-requisito necessrio do pro-
com as foras que restringem os indivduos de          gresso.
modos e graus diferentes de acordo com sua                 Outra diviso dos libertrios  indicada por
posio social --, quanto seu sentido positivo         seus pontos de vista a respeito do governo.
-- das possibilidades de auto-realizao e auto-       Alguns, como Murray Rothbard (1973) e David
comando, igualmente variveis de acordo com            Friedman (1989), so anarquistas, ou anarco-
as circunstncias sociais --, sejam examinados         capitalistas, considerando o governo desneces-
criticamente.                                          srio (ver ANARQUISMO). Acreditam que os in-
Leitura sugerida: Berlin, I. 1958 (1969): "Two con-
                                                       divduos podem, pelo menos em princpio, rea-
cepts of liberty". In Four Essays on Liberty  Hayek,   lizar atravs de colaborao voluntria todas as
F.A. 1973-9 (1982): Law, Legislation and Liberty       tarefas que so hoje exercidas pelo governo,
 Mill, John Stuart 1859 (1991): "On Liberty". In On    mesmo a previso e a proteo da lei e da ordem
Liberty and Other Essays  Ryan, A., org. 1979: The     e do dinheiro. Apoiando-se na moderna teoria
Idea of Freedom.                                       dos preos, economistas libertrios produziram
                                 TOM BOTTOMORE         muitas e engenhosas solues de livre-mercado
426   liderana


para o problema dos bens pblicos. Outros li-       Leitura sugerida: Barry Norman P. 1980 (1986): On
bertrios, como Robert Nozick (1974), so mi-       Classical Liberalism and Libertarianism  Block, Wal-
                                                    ter 1976: Defending the Undefendable  Friedman, Da-
nimarquistas. Segundo eles, um estado mnimo,       vid 1989: The Machinery of Freedom, 3ed.  Lepage,
limitado a proteger os direitos individuais, e      Henri 1982: Tomorrow, Capitalism  Nozick, Robert
sustentado por impostos,  necessrio. Todos os     1974: Anarchy, State and Utopia  Rand, Ayn 1957:
libertrios concordam, porm, na oposio          Atlas Shrugged  Rothbard, Murray 1973 (1978): For
redistribuio compulsria da renda em nome         a New Liberty: the Libertarian Manifesto, ed. rev.
da "justia social".                                                         HANNES H. GISSURARSON
    Os libertrios acham que a oposio  pros-
peridade privada em geral se origina de uma         liderana Esta palavra corriqueira pode ser
leitura equivocada da histria. Afirmam que as      definida de forma bastante simples como a
condies das classes operrias no foram pio-      qualidade que permite a uma pessoa comandar
radas pelo CAPITALISMO no incio do sculo XIX:     outras. Isso implica que a liderana , acima de
ao contrrio, o capitalismo permitiu que vives-     tudo, uma relao mtua entre lder e liderado,
sem muito mais pessoas do que teriam, de ou-        indivduo e grupo. A palavra tambm indica
tra forma, sobrevivido. Os libertrios tambm       ao. O lder e o grupo fazem alguma coisa
acreditam que a Grande Depresso entre as duas      juntos. Por fim, liderana  evidentemente uma
guerras mundiais no  indcio de nenhuma           relao baseada em aquiescncia, no em coer-
instabilidade inerente  ordem no mercado; ela      o -- o ladro que aponta o revlver para as
foi causada, ou pelo menos grandemente agra-        costas de uma pessoa no  lder desta. Segue-se
vada, por interveno governamental. Os liber-      ento que uma investigao da liderana exige
trios assumem posies igualmente controver-       as percepes da teoria social e psicolgica e 
tidas a respeito de questes atuais; o monoplio    pr-requisito para uma plena apreciao dos
(em geral mantido pelo governo)  exagerado         modos pelos quais se detm, se legitima e se
pelos inimigos da ordem no mercado; os pro-         exerce o poder.
blemas ambientais s vezes podem ser resolvi-           No entanto, apesar da aparente simplicidade
dos atravs do mecanismo de preos; no a           e fertilidade do quadro bsico de definio (ou
ajuda ao desenvolvimento, mas o livre comr-        talvez devido a isso), o estudo da liderana,
cio e o fluxo irrestrito do capital permitiro s   embora volumoso, tem sido marcado por gran-
naes pobres fugir da priso do subdesenvol-       de controvrsia e pouca concordncia -- tanto
vimento; e assim por diante.                        que um conhecido comentarista concluiu, com
    Conservadores e liberais clssicos concor-      desnimo, que "o conceito de liderana, como
dam com muitas dessas posies (ver CONSER-         o de inteligncia geral, perdeu em grande parte
VADORISMO e LIBERALISMO). Mas os liberais cls-     o seu valor para as cincias sociais" (Gibb,
sicos (como Friedrich A. Hayek e Milton Fried-      1968, p.91).
man) so capazes de conceber, alm das fun-             No obstante, o tpico continua a fascinar
es tradicionais do estado mnimo, a impo-         os pensadores sociais e estimulou dois modos
sio da segurana social, por exemplo, uma         rivais de abordagem. Os estudos clssicos da
"rede de segurana" ou uma renda mnima ga-         liderana concentravam-se, basicamente, nas
rantida para os mais pobres. Os conservadores,      personalidades dos grandes homens, retratan-
por outro lado, se opem  busca incessante de      do-os como figuras singulares e hericas, ca-
satisfao particular tolerada pelos libertrios:   pazes de transformar seus discpulos atravs da
ser que adultos permissivos podem realmente        pura fora de vontade. Entre os exemplos des-
fazer o que bem entenderem uns com (ou a) os        ses gnios assoberbantes incluem-se o Grande
outros, incluindo o trfico de drogas e a pros-     Legislador de Jean-Jacques Rousseau, o Super-
tituio, mediante apenas no violarem os di-       Homem de Friedrich Nietzsche, o Heri de
reitos de outras pessoas nesse processo? Para os    Thomas Carlyle e o famoso "Tipo Ideal" do
liberais clssicos, os libertrios respondem en-    lder carismtico (ver CARISMA) de Max Weber.
fatizando a natureza coerciva da caridade pbli-        A idia do lder carismtico ativo dominan-
ca (diferentemente da particular), e algumas de     do um pblico passivo permaneceu bsica no
suas conseqncias indesejveis, porm invo-        final do sculo XIX e incio do sculo XX nos
luntrias. No debate com os conservadores, en-      textos de Gustave Le Bon, psiclogo das mul-
fatizam a diferena entre aceitao e tolerncia.   tides francs, que forneceu conselhos pragm-
                                                                                      liderana    427


ticos para muitos detentores do poder poste-        logo tornaram difcil dizer se os pesquisadores
riores, e na obra de seu companheiro terico        estavam falando a respeito de "liderana" ou
Gabriel Tarde, o fundador da moderna pesquisa       simplesmente de "gerenciamento".
de opinio pblica e consulta poltica da mdia.        Alm disso, logo se levantaram condies
Um conceito semelhante tambm animou o              quanto ao efetivo propsito e carter do grupo
trabalho de Sigmund Freud sobre a psicologia        e s funes da autoridade. Por exemplo, Robert
de massa. Essencialmente, esses pensadores en-      Bales (1953) afirmou que, ao mesmo tempo que
caravam a sociedade como sonambulamente            alguns grupos fazem surgir lderes proficientes,
espera da voz de um lder hipntico que fosse       cujas qualificaes para o comando so habili-
capaz de manipular a profunda nsia humana          dade e especializao, outros tm lderes que
por autoridade e direo (ver SOCIEDADE DE          so basicamente expressivos, transmitindo aos
MASSA). Mas, diferentemente de autores mais         membros um senso de participao emocional
antigos, na tradio herica, os lderes eram       da comunidade. A "tarefa" do lder, nesse caso,
agora retratados, no de forma positiva, mas         simplesmente manter o grupo como grupo.
como figuras teatrais irracionais e carregadas      Ficou evidente tambm que mesmo os que ob-
de emoo, caracterizadas por uma auto-absor-       viamente esto no comando no so neces-
o monomanaca.                                    sariamente lderes; alguns so "cabeas" cujo
    Durante a Segunda Guerra Mundial, o de-         poder deriva unicamente de sua posio em
bate entre os adoradores do heri e seus demo-      uma hierarquia rgida.
nlogos, embora nunca resolvido, foi deixado            Os seguidores tambm puderam ser discri-
de lado em favor da mera concentrao prag-         minados de acordo com vrias premissas: al-
mtica nas necessidades e estruturas do grupo
                                                    guns eram ligados ao lder por causa de expec-
e do contexto situacional que o cercava, e na
                                                    tativas utilitrias de lucro, outros devido  cren-
resultante dinmica entre lderes e seguidores.
                                                    a nos valores do lder e outros por afeio pelo
Essa nova nfase refletia tanto a preocupao
                                                    lder e pelo grupo. Boa parte da literatura de
militar prtica de descobrir e treinar lderes
efetivos para o combate quanto uma repulsa aos      sociologia e psicologia social sobre liderana
estilos de liderana carismticos personaliza-      tornou-se, assim, um esforo para categorizar
dos de Hitler e Mussolini.                          tipos de lderes e seguidores e para destacar as
                                                    infinitas e problemticas vicissitudes de suas
    De acordo com esse ponto de vista,  muito
                                                    inter-relaes em variadas situaes.
raro que lderes sejam intrinsecamente heris
ou extraordinrios; em vez disso, como escre-           Parcialmente em resposta  natureza cada
veu Cecil Gibb, "a liderana no  uma quali-       vez mais tcnica dos estudos situacionais e
dade que um homem possua;  uma funo              interativos, houve um retorno  tradio herica
interativa da personalidade e da situao social"   entre inmeros autores de orientao psicolgi-
(1951, p.284). Na verdade, alguns estudos in-       ca e biogrfica que aceitaram como um dado o
dicam que os lderes, longe de serem incomuns,      comando pessoal do lder sobre seguidores pas-
eram em geral membros dos grupos mais prxi-        sivos. Mas, na tradio de desencanto da psico-
mos da mdia estatstica, cuja prpria mediania     logia de massa, a atrao do lder  retratada
lhes permitia fazer inovaes (ver Hollander,       nesses estudos no como marca de carisma, mas
1958). Mas situaes diferentes originavam ti-      em vez disso como indcio de distrbio psi-
pos menos desejveis de lderes, incluindo al-      colgico. O precursor dessa tradio  Harold
guns que exibiam personalidades autoritrias        Lasswell, o qual afirmou que os lderes, ti-
(conforme documentado em Fiedler, 1964). Os         picamente, deslocam necessidades psquicas
pesquisadores, portanto, dedicaram-se a desco-      frustradas para a arena poltica (1930). Verses
brir a inter-relao entre liderana e contexto,    mais sofisticadas podem ser encontradas nas
com o objetivo pragmtico de desenvolver os         obras altamente influentes de Erik Erikson so-
organizadores de tarefas mais eficientes e de       bre Gandhi (1969) e Lutero (1958), embora
encorajar estilos de liderana democrticos.        Erikson se curve  escola interacionista na tenta-
Mas, apesar dos sucessos empricos da perspec-      tiva de demonstrar por que o pblico devia achar
tiva interativa, a nfase na mudana de circuns-    esses deslocamentos neurticos atraentes; mesmo
tncias e a negao de quaisquer caractersticas    assim, as massas permanecem essencialmente pas-
universais tanto nos grupos como nos lderes        sivas -- refletindo, em vez de agir.
428    linguagem


    Recentes estudos sobre liderana continua-            qual os estudos lingsticos desempenharam
ram a seguir esses caminhos dicotmicos, con-             papel importante, Antonio Gramsci (1891-
centrando-se ou na categorizao de situaes             1937). Ferrucio Lo Piparo (1979) afirmou de
e em questes pragmticas sobre a influncia e            forma convincente que as concepes sobre
a eficincia do lder, ou na psicologia e nas             HEGEMONIA de Gramsci, imensamente influen-
motivaes deste; os esforos para conciliar              tes, so em grande parte informadas pela com-
essas tendncias tericas divergentes, lamenta-           preenso que ele adquiriu como estudante da
velmente, continuam poucos e muito espaa-                histria do desenvolvimento do italiano como
dos, embora haja indcios bem-vindos de uma               lngua nacional. A lingstica que Gramsci es-
sntese, por exemplo, nas obras de Kracke                 tudou era ao mesmo tempo histrica e idealista
(1978), Willner (1984), Tucker (1981) e outros,           em seu carter. Ela enfatizava o papel ativo dos
que combinam uma percepo psicolgica do                 indivduos -- por exemplo, escritores criativos
carter dos lderes e dos seguidores, uma cons-           -- em plasmar o desenvolvimento de uma lin-
cincia do contexto sociocultural em que surge            guagem, mas igualmente reconhecia que a he-
a liderana e um quadro comparativo que tenta             gemonia do italiano "padro" como a lingua-
ir alm do tipolgico.                                    gem de uma Itlia unificada foi resultado de
    Ver tambm AUTORIDADE.                                uma ao coletiva, do conflito e do exerccio do
                                                          poder poltico. O prprio Gramsci, na priso,
Leitura sugerida: Burns, J. 1979: Leadership  Car-
lyle, T. 1904 (1966): On Heroes, Hero-Worship and the
                                                          escreveu a respeito da "questo da linguagem"
Heroic in History, org. por C. Niemeyer  Freud, S.        (ver Gramsci, 1985, p.164-95).
1921 (1959): Group Psychology and the Analysis of the         2. Mais comumente citada  a influncia
Ego  Friedrich, C. 1958: Authority  Gouldner, A.          do ESTRUTURALISMO em lingstica sobre o des-
1950: Studies in Leadership: Leadership and Democra-      envolvimento do pensamento social e, de fato,
tic Action  Hook, S. 1943: The Hero in History: a         sua interseo com importantes correntes da
Study in Limitation and Possibility  Le Bon, G. 1895
(1975): Psychologie des Foules  Nietzsche, F. 1901
                                                          teoria social. Pois no  como se a obra fun-
(1964): The Will to Power  Paige, G. 1977: The Scien-     damental da lingstica estruturalista, o ps-
tific Study of Leadership  Rousseau, J-J. 1762 (1959):    tumo Curso de lingstica geral, de Ferdinand
Du contrat social  Tarde, G. 1903 (1962): The Laws of     de Saussure, publicado em 1916 (ver tambm
Imitation  Weber, Max 1968: On Charisma and Ins-          Culler, 1976), fosse intocado pelo vocabulrio
titution Building, coletnea, org. por S.N. Eisenstadt.   da teoria social. Est cheio deste, e tem sido uma
                              CHARLES T. LINDHOLM         questo bastante debatida saber se Saussure
                                                          teria tirado seu vocabulrio (ou seus conceitos)
linguagem As implicaes desse tema so de                das Regras do mtodo sociolgico (1895) de
mbito to grande, e to variadas, que  possvel         mile Durkheim. Qualquer que seja a gnese
dizer que a linguagem tem sido ao mesmo                   das idias de Saussure,  verdade que no pero-
tempo central e marginal no pensamento social             do ps-1945 ele e outros lingistas estruturalis-
durante o sculo XX. Central na medida em que             tas (em especial, Roman Jakobson, 1895-1982)
concepes sobre a natureza da linguagem e as             proporcionaram aos antroplogos e socilogos
prprias linguagens forneceram idias instigan-           concepes razoavelmente precisas de es-
tes -- ou pelo menos metforas -- para se                 trutura e conveno, e tambm distines mais
pensar sobre a natureza da sociedade. (A idia            ntidas do que as at ento disponveis entre
de que "a sociedade  como uma linguagem"                 estados estruturais (sincrnicos) e processos e
tem tentado a muitos.) Marginal, na medida em             prticas histricos (diacrnicos). Nos anos 60 e
que a sociologia da linguagem, como subdis-               70 tornou-se efetivamente comum pensar que a
ciplina da sociologia, e a SOCIOLINGSTICA, co-          sociedade est estruturada como linguagem e
mo subdisciplina da lingstica, raramente fo-            que toda a ao social  como um discurso, no
ram uma preocupao capital de socilogos ou              sentido de uma prtica conforme s regras ou
lingistas profissionais.                                 violadora das regras, possibilitada pelos recur-
   Trs exemplos mostram como concepes                  sos que a estrutura social -- como uma espcie
da linguagem podem ser capitais para o pensa-             de gramtica -- fornece. Para uma discusso
mento social.                                             crtica, ver Giddens (1979). Para uma anlise
   1. Entre os principais pensadores sociais              filosoficamente profunda do conceito essencial
deste sculo, apenas um teve uma educao na              de conveno, ver Lewis (1969), e para um
                                                                                    linguagem    429


estudo posterior, o alentado On Social Facts        por exemplo, em cenrios educacionais. Isso
(1989), de Margaret Gilbert.                        leva  percepo de que a linguagem tem um
    3. Objeto de comentrios bastante fre-          valor "simblico", alm do seu valor "real" --
qentes, mas raramente desenvolvida, existe         pode ser empregada como marca arbitrria de
uma interseo entre a influente nfase de          identidade em acrscimo a seu uso como um
Noam Chomsky na natureza -- em oposio            meio de comunicao. Tal abordagem  desen-
conveno -- como formadora das linguagens          volvida por Pierre Bourdieu dentro do quadro
que usamos e a teoria social anarquista. Como       de sua teoria do capital cultural: ver, de sua
lingista, Chomsky -- que  tambm anarquis-        autoria, Language and Symbolic Power (1991).
ta -- retrata a natureza humana como uma fonte          Alguns trabalhos de sociolingstica tm, na
tanto de ordem quanto de desordem lingstica.      verdade, preocupaes semelhantes, embora
 pelo fato de os seres humanos dividirem uma       abordados de pontos de vista metodolgicos
herana biolgica to rica que suas linguagens      bastante diferentes. Nesse caso, o estudo do
so to semelhantes -- assim, a natureza  uma      discurso socialmente situado pode revelar co-
fonte de ordem, tal como no ANARQUISMO oti-         mo seu estilo ou registro varia sistematicamente
mista. Mas, igualmente, a natureza  uma fonte      com o cenrio social ou o status social dos que
de desordem, como no anarquismo pessimista.         falam e dos que ouvem. s vezes, isso parece
Pois, com um sistema de gramtica universal         um reflexo "passivo" da operao das variveis
suficientemente elaborado,  ento verdadeiro       sociais "independentes"; outras vezes, parece
que tanto um input limitado de linguagem basta      um esforo ativo por parte dos agentes sociais
para o desenvolvimento de capacidades lin-          para definir e reagir a situaes sociais. Ver o
gsticas individuais complexas e similares,        primeiro dos muitos estudos sociolingsticos
quanto pequenas mudanas de input podem             influentes (e amplamente positivistas) de Wil-
levar a, pelo menos superficialmente, mudan-        liam Labov, The Social Stratification of Lan-
as radicais no sistema de linguagem resultante.    guage Use in New York City (1966).
A percepo aqui  basicamente a mesma re-              Na base de tal pesquisa, fica mais fcil com-
centemente generalizada nas teorias do caos ou      preender alguns dos fracassos dos programas de
da catstrofe, isto , teorias de mudana descon-   educao em linguagem. Nem todos os indi-
tnua originrias dos problemas dos meteorolo-      vduos de lngua inglesa falam com a chamada
gistas com a previso do tempo a longo prazo        Received Pronunciation (RP) [a pronncia con-
(embora o antecedente histrico seja o debate       sagrada], ou escrevem o Standard English [o
entre catastrofistas e uniformitaristas na geolo-   ingls padronizado], no porque sejam burras
gia do sculo XIX). Para os temas de ordem e        ou tenham tido professores incompetentes, mas
desordem na linguagem, ver Chomsky (1986)           porque se mostram ativas na definio de suas
e Bickerton (1981); as idias so recolhidas e      prprias identidades sociais e culturais e no
em seguida aplicadas na teoria da ideologia em      desejam ser aquilo que so designadas para ser.
Pateman (1987).                                     As pessoas no so dependentes culturais. E
    Voltando-nos agora para a sociologia da lin-    nem precisam ser; conseguem comunicar-se
guagem, no seria injusto dizer que grande          precisamente bem -- bem at demais --, com
parte do trabalho feito  metodologicamente         ou sem a RP ou o Standard English. Muitas das
desinteressante, limitando-se a explicar a dis-     questes complexas nessa rea da lingstica
tribuio das linguagens (como o crescimento        educacional so examinadas nos textos de Peter
do ingls como linguagem mundial) como o            Trudgill, comeando com Accent, Dialect and
resultado multideterminado de causas econ-         the School (1975).
micas, polticas e culturais. Igualmente, exis-         Embora boa parte dos trabalhos sociolin-
tem trabalhos sobre a criao ou retomada de        gsticos, incluindo os de Labov e os de Trud-
linguagens como elementos de uma identidade         gill, tenham sido positivistas na letra e no es-
nacional -- como acontece com o galico irlan-      prito, e portanto dbios para o socilogo teori-
ds, o hebraico ou o tok pisin da Papua Nova        camente sofisticado, houve trabalhos no-po-
Guin. Um trabalho sociologicamente mais in-        sitivistas sobre interao lingstica dentro das
teressante  sobre o modo como programas de         tradies da ETNOMETODOLOGIA, em grande par-
padronizao e planejamento centralizado de         te inspirados pela obra do falecido Harvey
linguagens so objeto freqente de resistncia,     Sacks (ver Sacks, 1992). Esta busca extrair e
430    linguagem, filosofia da


formalizar o conjunto completo das regras sin-           cional. A lingstica tambm teve uma intera-
crnicas que governam as interaes em deter-            o frutfera com a lgica formal, a episte-
minado domnio, como as conversas telefni-              mologia, a psicologia cognitiva, a inteligncia
cas (ver tambm CONVERSACIONAL, ANLISE).                artificial e a "cincia cognitiva" em geral.
Aqui se encontra, portanto, um elo com as                    O principal interesse do sculo era o de-
tradies estruturalistas de anlise, embora os          senvolvimento histrico das linguagens, ou a
etnometodologistas tenham em geral insistido             lingstica diacrnica. Uma mudana de nfase
no carter em ltima anlise ad hoc -- o final           ocorreu em associao com Ferdinand de Saus-
aberto ou infinalizao -- da interao social.          sure (1916). Ele distinguiu a lingstica diacr-
Esse  tambm um motivo dominante no atual-              nica do estudo sincrnico, isto , o estudo das
mente influente "dialogismo" de Mikhail                  estruturas de linguagem dos dias atuais. En-
Bakhtin (1895-1975) e na lingstica de seu              carando a linguagem como fenmeno essen-
colega Valentin Volosinov (1895-1936) (ver,              cialmente social, Saussure, em uma distino
para introdues, Holquist, 1990; Morson e               que ficou famosa, diferenciou entre langue, o
Emerson, 1990: Volosinov, 1929). Foge ao m-             sistema abstrato subjacente  linguagem, e pa-
bito deste artigo entrar em dilogo com o dia-           role, o uso observado da linguagem (cf. a di-
logismo, mas, em todo caso, ver tambm Pate-             cotomia psicolgica de Noam Chomsky entre
man (1989).                                              competncia e desempenho). Capital para o
                                                         pensamento de Saussure foi a noo estrutu-
Leitura sugerida: Bickerton, D. 1981: Roots of Lan-
guage  Chomsky, N. 1986: Knowledge of Language:
                                                         ralista de que a essncia da organizao da
Its Nature, Origin and Use  Saussure, F. 1916: Cours     linguagem est em conjuntos de diferenas en-
de linguistique gnrale  Volosinov, V.N. 1929 (1973):   tre termos abstratos em um sistema.
Marxism and the Philosophy of Language.                      O estruturalismo floresceu na Europa e na
                                  TREVOR PATEMAN         Amrica, particularmente nos campos da fono-
                                                         logia (estrutura do som) e da morfologia (es-
linguagem, filosofia da Ver           FILOSOFIA DA       trutura da palavra), em que os conceitos de
LINGUAGEM.                                               fonema e de morfema (o mnimo componente
                                                         significativo de uma palavra) foram desenvol-
lingstica No incio do sculo XX, a "lin-              vidos. O conceito de fonema desempenhou um
gstica" poderia ser caracterizada como "o              papel particularmente importante. Ele  um
estudo da forma e da funo da linguagem",               som da fala concebido abstratamente como
deixando vaga a denotao de "linguagem". Is-            membro de um conjunto de sons contrastantes.
so podia incluir reas como a teoria literria,          Assim, o som de "th" de "those" ("aqueles") 
aspectos filosficos, psicolgicos ou sociolgi-         um fonema em ingls porque contrasta com
cos da "linguagem" e at mesmo a comunica-               outras consoantes, incluindo o "d" de "doze"
o animal. Em seu uso moderno, porm, "lin-             ("soneca"). No entanto, em espanhol castelha-
gstica", tout court, passou a significar "o es-        no, o mesmo som resulta simplesmente em uma
tudo das estruturas gramaticais das linguagens           variante do fonema /d/, quando aparece entre
humanas". Para alguns, isso excluiria a pragm-          duas vogais. Esse som em espanhol, portanto,
tica (a interpretao de elocues em contexto)          no  um fonema em si mesmo.
e at mesmo a semntica. No entanto, estas so,              No trabalho da escola de Praga, anterior 
em geral, includas na esfera da lingstica.            guerra, em especial no de Roman Jakobson e no
    O tema sofreu imensas mudanas durante o             do conde Nikolai Trubetzkoy (1939), a teoria
sculo, resultando em um considervel grau de            fonolgica tornou-se o estudo das diferenas
especializao e no perceptvel aguamento do            fonticas entre fonemas, isolados como aspec-
enfoque das perguntas de pesquisa. Ao mesmo              tos distintivos. Por exemplo, o conjunto /lmr/
tempo, o espao comum entre a lingstica e              se distingue de /fns/ pelo aspecto isolado da
outras reas das relaes sociais e da cognio          articulao sonora. O padro de sons de uma
humana tornou-se srio objeto de indaga-                 linguagem, portanto, baseava-se no em um
o, assistindo ao desenvolvimento de discipli-          inventrio de fonemas, mas no conjunto univer-
nas "hifenadas" como a sociolingstica, a psi-          sal, mais abstrato, dos aspectos caractersticos
colingstica e a neurolingstica, bem como a           com regras particulares da linguagem para
lingstica matemtica e a lingstica computa-          combin-los em "feixes" representando sons
                                                                                      lingstica   431


individuais. Essa viso da fonologia continua a       o conceito de uma gramtica de estrutura da
exercer grande influncia, tendo sido incorpo-        frase (gef). Uma gef  um conjunto de regras
rada  fonologia generativa (Chomsky e Halle,         para a construo de frases, em geral visualiza-
1968).                                                da como diagramas em rvore, representando
    Nos Estados Unidos, o estruturalismo foi          as estruturas hierrquicas implcitas pelas frases
dominado pelas opinies de Bloomfield (1933),         encaixadas. Ele props teoremas demonstrando
que defendeu uma abordagem comportamen-               que uma gef  inadequada para descrever o
talista da lingstica, evitando o apelo a snteses   ingls. Afirmou que a teoria sinttica deveria
mentais. O estruturalismo norte-americano de-         ser capaz de caracterizar formalmente relaes
senvolveu a abordagem do constituinte imedia-         tais como a que existe entre a afirmao O
to ou da estrutura de frase para a sintaxe, por       homem que  visto na foto  norte-americano e
meio da qual a estrutura da sentena  concebi-       a pergunta correspondente  norte-americano
da como um conjunto de frases encaixadas,             o homem que  visto na foto?. Isso exige um
cada qual, em ltima anlise, consistindo em          instrumento analtico mais poderoso, a trans-
palavras e em seguida em morfemas. Assim, as          formao sinttica. Em termos rudimentares,
palavras da sentena Gatos pretos caam ratos         essa  uma regra gramatical que movimenta,
peludos podem ser agrupadas nas seguintes             apaga ou acrescenta partes de rvores sintticas.
frases, ou constituintes: [gatos pretos], [ratos      No presente caso, uma transformao movi-
peludos] e [caam ratos peludos], para dar [[ga-      mentaria o verbo ser (" ") para a frente da
tos pretos] [caam [ratos peludos]]].                 sentena. Uma gramtica assim dotada chama-
    Um aspecto do estruturalismo norte-ameri-         se gramtica transformativa. O exemplo  digno
cano posterior foi a preocupao com os "pro-         de nota porque mostra que as transformaes
cedimentos de descoberta": a alegao era que         tm de apelar  estrutura, nesse caso o fato de a
a anlise lingstica tinha de seguir mecanica-       seqncia o homem que  visto na foto ser uma
mente da fonologia  morfologia, em seguida          frase (funcionando como sujeito da sentena).
sintaxe, sem qualquer "mistura" de nveis, de         A ocorrncia do  no interior dessa frase no
forma que, digamos, uma informao sobre              pode ser passada para a frente, mostrando que
estrutura sinttica no pudesse influenciar de-       a transformao se opera sobre mais do que
cises quanto  estrutura morfolgica.                apenas uma seqncia de palavras. Em um re-
    O estruturalismo foi rapidamente substitu-       finamento posterior (Chomsky, 1965), uma gef
do, como a abordagem dominante da lings-            gera estruturas bsicas de perodos (chamadas
tica, pela teoria da gramtica generativa, que        "estruturas profundas", expresso freqente-
teve incio com Noam Chomsky. Chomsky                 mente confundida como se referindo  lingua-
(1957, 1965) rejeitou a preocupao com os            gem e no a perodos), que so em seguida
"procedimentos de descoberta" como metodo-            modificadas por transformaes.
logicamente no-cientfica, e afirmou que o               A abordagem da linguagem de Chomsky 
objetivo da teoria lingstica devia ser a carac-     totalmente mentalista, como fica claro em sua
terizao explcita do conhecimento gramatical        famosa refutao do comportamentalismo
tcito do falante nativo (idealizado). Esse co-       skinneriano (Chomsky, 1959). Chomsky enca-
nhecimento  tecnicamente chamado de "com-            ra a lingstica como uma janela particular-
petncia", diferenciado do efetivo comporta-          mente importante para a mente humana, afir-
mento de linguagem -- "desempenho" -- tipi-           mando que as linguagens humanas so singu-
ficado por erros e imperfeies de vrios tipos.      lares entre os sistemas de comunicao dos
Para caracterizar tal conhecimento  necessrio       animais por permitirem um conjunto ilimitado
construir uma gramtica, ou um conjunto de            de mensagens usando meios finitos (ou seja, um
regras, que, quando aplicadas algoritmicamen-         vocabulrio finito e um conjunto finito de re-
te, exprimiro todas, e somente, as bem-forma-        gras gramaticais). Ele distinguiu trs tipos de
das ("gramaticais") expresses da linguagem.          "adequaes": uma gramtica  adequada do
Diz-se que tal gramtica "gera" a (as expresses      ponto de vista da observao se gera todos os
da) linguagem.                                        dados certos e nenhum dado errado (onde "da-
    Chomsky (1957) proporcionou uma forma-            do" significa simplesmente uma seqncia de
lizao matemtica da abordagem do consti-            palavras, morfemas ou fonemas);  adequada
tuinte imediato para a sintaxe, desenvolvendo         de um ponto de vista descritivo se gera as
432   lingstica


descries estruturais apropriadas, isto , es-    criana conhece de forma inata um conjunto de
truturas que no so incompatveis com o que       princpios universais que governam as gram-
se sabe sobre a organizao da linguagem ou        ticas da linguagem humana, mas esses princ-
das linguagens em geral (tal como a estrutura      pios esto sujeitos a uma variao sistemtica,
de rvore "correta" para um perodo);  adequa-    fazendo surgir as diferenas de estrutura grama-
da do ponto de vista explicativo se incorpora      tical encontradas nas linguagens do mundo, tais
uma explicao sobre como tais estruturas po-      como a ordem bsica das palavras, ou se a
dem ser adquiridas pela criana que aprende a      linguagem permite a omisso do sujeito da
lngua. A adequao do ponto de vista explica-     frase. Essa variao  chamada de "parametri-
tivo  o mais importante de todos esses objeti-    zao", e aprender uma gramtica  uma ques-
vos, superando os outros como uma questo de       to de fixar valores para esses parmetros.
fato metodolgico pragmtico (da, uma gra-            As incurses mais significativas no estudo
mtica que parece explicativa mas capta er-        do significado da palavra foram motivadas por
radamente alguns fatos no deveria ser neces-      discusso filosfica sobre a natureza da VER-
sariamente rejeitada, caso haja bons motivos       DADE analtica e sinttica e a natureza de "tipos
para se supor que futuros progressos tcnicos      naturais", propriedades essenciais e questes de
permitiro que esses fatos sejam devidamente       DEFINIO. Em particular, Putnam (1962) afir-
explicados). Esse movimento coloca a aquisi-       ma que, uma vez que os tigres no tm proprie-
o da linguagem na linha de frente.               dades essenciais, uma palavra como "tigre" s
    Uma questo bsica de pesquisa para a lin-     pode referir-se a um esteretipo da condio de
gstica  o problema lgico da aquisio da       tigre; a palavra em si mesma escapa  definio.
linguagem: como as crianas aprendem gram-            A semntica dos perodos  geralmente es-
tica rapidamente e sem esforo apesar da com-      tudada dentro do quadro criado por lgicos
plexidade formal da tarefa. Uma questo rela-      formais como G. Frege, Bertrand Russell, A.
cionada  o motivo por que qualquer criana        Tarski e R. Carnap. Os lingistas foram es-
pode aprender qualquer lngua com mais ou          pecialmente influenciados pela abordagem te-
menos a mesma facilidade, apesar das diferen-      rica modelo de Richard Montague (1974). O
as gramaticais superficialmente ilimitadas en-    objetivo principal desses modelos  especificar
tre as lnguas. A abordagem padro desse pro-      condies sob as quais as frases expressam
blema na gramtica generativa  apelar para        proposies verdadeiras ou falsas. Um proble-
proposies universais, propriedades organiza-     ma representativo diz respeito  noo da pr-
cionais altamente abstratas partilhadas por to-    pria verdade, confrontada, digamos, com des-
das as linguagens humanas. Alm disso, pre-        cries definidas no-referenciais (tais como "o
sume-se que essas proposies universais se-       atual rei da Frana", de Russell). Afirmaes a
jam inconsciente e inatamente conhecidas por       respeito de semelhante (no-)entidade podem
todos os seres humanos, sendo em ltima an-       ser verdadeiras ou falsas, ou temos de dizer que
lise parte do legado gentico. A teoria lings-   possuem algum valor de verdade intermedi-
tica, portanto, tem de formular essas propo-       rio? Dedicou-se um esforo considervel  se-
sies universais e dar conta de sua interao     mntica das palavras que exprimem quanti-
com propriedades particulares da linguagem.        dade, como todos, alguns, muitos.
    Surge um problema com a antiga abordagem           As abordagens do significado baseadas na
da gramtica generativa, sob a qual o objeto a     verdade tm dificuldade em lidar com aspectos
ser adquirido pela criana  um conjunto de        funcionais da linguagem, tais como fazer per-
regras (bastante complexo), pois resulta que tal   guntas ou dar ordens. Essas funes, ou atos de
sistema de regras tem propriedades formais (ou     fala, so a provncia do campo em brotao da
seja, matemticas) que as tornam difceis de       pragmtica. Alm disso, a pragmtica lida com
aprender. Ultimamente (Chomsky, 1981, 1986),       o modo como transmitimos contedo implcito
a nfase nas regras foi deixada de lado e subs-    em uma elocuo. Por exemplo, em resposta 
tituda por uma concepo da aquisio da lin-     pergunta "Aceita uma xcara de caf?", a rplica
guagem como o crescimento de um tipo de            "Caf sempre me tira o sono" poderia ser toma-
"rgo mental", a faculdade da linguagem, com      da implicitamente como recusa da oferta (ou
base na experincia ativadora obtida atravs das   aceitao, dependendo do contexto). Igualmen-
elocues a que o aprendiz se v exposto. A        te, uma afirmao como "Parece que caiu uma
                                                                                             literatura   433


bomba no seu escritrio" seria (de maneira                texto; em termos de uma reao esttica por arte
habitual) literalmente falsa, mas em geral inter-         do leitor; e em termos de sua funo social.
pretada, no como mentira, mas como hipr-                    Os formalistas russos das primeiras dcadas
bole. Na verdade, a maioria dos discursos se              do sculo XX buscaram no texto o literrio que
desvia dessas formas de estrita afirmao da               instantaneamente reconhecvel por seu afas-
verdade. Lingistas e filsofos da linguagem,             tamento da linguagem cotidiana (ver FORMALIS-
como J.L. Austin, John Searle e especialmente             MO). A linguagem comum convida o leitor a
Paul Grice (1975), tm investigado essas ques-            enxergar, atravs das palavras, seus significa-
tes em detalhe. Grice afirma que os falantes             dos e referentes, enquanto a linguagem literria
respeitam certas mximas conversacionais, tais             auto-reflexiva, conduzindo a suas prprias
como "fale aquilo que voc acredita ser ver-              qualidades formais como linguagem e, ao faz-
dade", ou "seja relevante", mas que essas mxi-           lo, deslocando, ou "tornando estranha", a com-
mas podem ser transgredidas para efeito espe-             preenso cotidiana do mundo por parte do lei-
cial. Assim, uma afirmao aparentemente irre-            tor. Por esse ponto de vista, o estudo apropria-
levante a respeito de caf zomba da mxima                do da teoria literria  a estrutura da forma
referente  relevncia, mas, quando essa zom-             literria, sua organizao e seus mecanismos
baria  interpretada pelo ouvinte como deli-              (Matejka e Pomorska, 1971).
berada, pode ser usada para transmitir significa-             No entanto, a especificao da literatura em
do implcito. Mais recentemente, D. Sperber e             termos de qualidades intrnsecas ao texto lite-
D. Wilson (1986) afirmaram que a mxima da                rrio foi considerada insuficiente devido a sua
relevncia, junto com outros pressupostos so-             incapacidade de fornecer uma demarcao sa-
bre o modo como se processa a informao,                 tisfatria entre literatura e outros tipos de texto.
poder explicar todos os casos reunidos no con-           At agora no se props nenhuma qualidade
junto original de Grice, e com base nisso pro-            definidora que no tenha o efeito de excluir o
pem uma explicao geral da interpretao e              que  normalmente includo, e vice-versa. As-
cognio do que se fala, a Teoria da Relevncia.          sim, a nfase formalista no jogo lingstico e na
                                                          reflexividade incluiria piadas e at mesmo pa-
Leitura sugerida: Anderson, S.R. 1985: Phonology in
the Twentieth Century  Atkinson, R.M. 1992: Chil-
                                                          lavras cruzadas, mas excluiria a literatura rea-
dren's Syntax  Chomsky, N. 1980: Rules and Repre-         lista. Finalmente, a abordagem formalista no
sentations  Culler, J. 1976 (1986): Sausurre  Lyons,      registra a dimenso avaliadora, seletiva do ter-
J. 1977: Semantics, 2 vols.  Newmeyer, F.J., org. 1988:   mo, que atravessa tipologias de forma literria
Linguistics: the Cambridge Survey, 4 vols.  Partee,       para fazer juzos de bom e mau, separando os
B.H., Meulen, A. e Wall, R. 1990: Mathematical Meth-      textos que merecem um lugar na histria liter-
ods in Linguistics  Piatelli-Palmarini, M., org. 1980:    ria dos que sero excludos, apesar de pertence-
Language and Learning: the Debate between Jean Pia-
get and Noam Chomsky  Robins, R.H. 1979: A Short          rem a um gnero literrio de texto. Mesmo nas
History of Linguistics.                                   abordagens que desprezam a avaliao crtica
                                                          em favor da erudio, como a que prevaleceu
                                   ANDREW SPENCER
                                                          na escola inglesa de Oxford (Bergonzi, 1990),
                                                          existe um julgamento crtico embutido na deter-
literatura Todos os livros impressos cons-                minao dos objetos dignos de estudo erudito.
tituem "literatura" no sentido irrestrito. Mas,               A tentativa de encontrar a marca caracters-
em uso mais restrito, essa palavra se refere a um         tica da literatura na reao esttica provocada
corpo circunscrito de textos escritos com ima-            pelo texto no leitor, ou na adoo por este de
ginao, dentro de uma dada lngua, nao,                uma atitude esttica com relao ao texto, no
perodo de tempo, ou mais amplamente, como                se sai muito melhor. Pois a atitude esttica pode
no conceito de "literatura mundial", que so              ser tomada com relao a praticamente qual-
considerados particularmente dignos de apreo             quer tipo de texto, alm do que a reao esttica
por sua beleza formal, seu poder emocional ou             pode nem sempre produzir-se em todos os lei-
pelas "verdades" que expressam.                           tores, e pode ser produzida em alguns deles por
    Trs tipos amplos de definio so sempre             textos que no so normalmente identificados
encontrados nos textos sobre literatura: em ter-          como literatura. Mas o papel desempenhado
mos de certas qualidades distintivas do texto             pelo leitor na determinao de significados tex-
literrio que o destacam de outros tipos de               tuais tem sido um tema recorrente na teoria
434   literatura


literria do sculo XX, que tambm viu a auto-       liams (1977) e Georg Lukcs (1970), situam a
ridade do autor ser fundamentalmente contes-         literatura em termos de classe, mas reconhecem
tada em vrias abordagens da interpretao li-       funes e valores que transcendem essas ori-
terria. Tericos da receptividade, valendo-se       gens. Existem tradies populares, tambm,
da HERMENUTICA (Iser, 1978; Fish, 1980), de-        que falaram aos interesses do leitor da classe
ram primazia ao momento da leitura, destacan-        operria: autores ingleses como Shakespeare,
do a pluralidade de significado em literatura:       Milton, Bunyan, Dickens e Hardy. Essa litera-
nfase partilhada, de uma perspectiva terica        tura sempre foi gnero de primeira necessidade
muito diferente, pela obra de Barthes (1970).        na educao dos adultos da classe operria.
                                                     Finalmente, a seleo de uma literatura nacio-
A literatura como prtica social                     nal atravs do processo de seleo do cnone
    O terceiro tipo de definio em termos de        literrio desempenha um papel significativo na
funes sociais indica a literatura como prtica     definio da nao (Doyle, 1989).
social institucionalizada e historicamente va-
rivel. Entre as instituies da literatura, in-     Teorias marxistas da literatura
cluem-se as do mercado literrio -- o trabalho           Esse envolvimento da literatura na insti-
editorial, a venda de livros, as resenhas, os        tuio educacional significa que ela  um agen-
peridicos especializados, os prmios liter-        te de SOCIALIZAO e, dentro da terminologia
rios, as igrejinhas e assim por diante (Suther-      marxista, IDEOLOGIA -- a produo e reprodu-
land, 1978). Constitui o que foi chamado de          o de relaes sociais de poder. Mas Williams
mundo artstico (Becker, 1982), um mundo que         afirma que a reduo da literatura a suas fun-
foi obrigado a se posicionar em relao a uma        es ideolgicas coloca tantos problemas quan-
outra prtica institucional poderosa, a da edu-      tos resolve: "a assimilao da `literatura' 
cao. A academia tem desempenhado um pa-
                                                     `ideologia' (...) representou na prtica pouco
pel mais vital em relao ao mundo artstico da
                                                     mais que chocar um conceito inadequado con-
literatura do sculo XX do que qualquer outra
                                                     tra outro" (1977, p.52).
instituio, devido ao papel central que o ensino
das literaturas nacionais veio a desempenhar no          Na verdade, tem havido marcante resistn-
currculo (Mathieson, 1975).                         cia a esse reducionismo na histria da crtica
    A seleo de textos dignos de incluso no        marxista. A crena romntica na literatura e na
currculo envolve um processo mltiplo de de-        arte como redutos de oposio ao capitalismo
finio. Primeiro, a prpria tradio literria     industrial foi assumida por marxistas humanis-
selecionada, definida e perpetuada. Nada fixa        tas como Lukcs, cuja esttica do realismo tinha
mais vigorosamente um texto dentro do cnone         razes no romantismo de esquerda pr-marxis-
literrio do que sua incluso como objeto de         ta. Ele situava na grande literatura um reposit-
estudo em um currculo educativo nacional. Na        rio de aspiraes e valores humanos autnticos,
Gr-Bretanha, o texto nvel-A e os textos es-        criados durante o perodo da burguesia como
tudados nos departamentos de literatura em           classe histrica progressista, at 1848, mas que
instituies de ensino superior constituem, jun-     seria tarefa histrica do socialismo e da classe
tos, o ncleo do cnone literrio. O aforisma de     operria concretizar.
Roland Barthes, de que literatura  aquilo que           Para Lukcs, a grande literatura em si mes-
 ensinado, tem ressonncia nesse caso.              ma no tinha qualquer necessidade de transfor-
    Em segundo lugar, como o processo seletivo       mao radical. Esse conservadorismo foi con-
 avaliador, ele define o bom gosto literrio, que   testado por Bertolt Brecht (1938) e, em um
est sempre enraizado na classe social. A fami-      registro diferente, pelos autores da ESCOLA DE
liaridade com a literatura  parte do que o          FRANKFURT, para os quais uma arte capaz de
socilogo francs Pierre Bourdieu chama de           dizer "no" ao capitalismo e de resistir aos seus
capital cultural (1979). Bourdieu afirma que os      poderes de cooptao tinha de ser intransigen-
valores literrios relacionados  classe social      temente radical, ao ponto da quase total inaces-
so transmitidos ao longo das geraes atravs       sibilidade. Theodor Adorno buscou uma arte
do acesso seletivo  cultura literria dominante,    que fosse "no-afirmativa" na vanguarda, e isso
 medida que se adquire uma srie de refern-        mostrou-se mais atraente para os modernos te-
cias literrias. Outros, como Raymond Wil-           ricos literrios marxistas do que a adeso de
                                                                                       literatura   435


Lukcs ao realismo do sculo XIX (Adorno,            lizados, ou a cujos textos se negou reconhe-
1967).                                               cimento como literatura. Como seria de se es-
    Mas era o estruturalismo que viria a trans-      perar, a historia da literatura foi vasculhada em
formar o marxismo de meados do sculo XX.            busca de obras "perdidas" de membros de gru-
A crtica estruturalista, valendo-se da lings-     pos marginais e, nesse processo, a tradio lite-
tica moderna e do trabalho dos formalistas rus-      rria predominante viu-se questionada. Apre-
sos, analisava o significado de cada parte da        sentaram-se alegaes que ligam manifesta-
obra em termos de seu lugar no todo. Estrutu-        es alternativas, como estratgias narrativas,
ralistas como Roland Barthes, Tzvetan Todo-          estilos de texto etc.,  situao e  identidade do
rov (1973) e Grard Genette (1982) aspiravam         grupo, e ento esses estilos adquirem um valor
a produzir uma "cincia do texto". Mas o apelo       moral e poltico. No passado, era o REALISMO
estruturalista  autoridade da cincia foi de-       que com mais freqncia se via assim valoriza-
saprovado por tericos ps-estruturalistas e         do, num apelo por imagens culturais "mais
desconstrucionistas como Jacques Derrida             realistas" ou "positivas". Mas o realismo saiu
(1967) e Michel Foucault (1969), que rejeita-        de moda e muitos tericos radicais desde o final
ram qualquer distino entre discurso cientfico     dos anos 60 o identificaram com a cultura do-
e ideolgico (ver ESTRUTURALISMO; DISCURSO;          minante, e alinharam os textos de grupos mar-
DESCONSTRUO).                                      ginais com estilos de texto que desafiam e
    O desconstrucionismo pode ser compreen-          implodem o realismo. Hoje, quando se alega
dido como uma tentativa de viver com a verti-        haver uma afinidade entre uma certa catego-
gem estonteante que resulta de um relativismo        ria marginalizada de escritor -- lsbicas, por
to completo. Sua estratgia  olhar para as         exemplo (Zimmerman, 1985), ou negros
margens: para aquilo que um texto recusa, dis-       (Gates, 1984) -- e um estilo caracterstico de
fara ou acha impossvel dizer. No h dvida        texto, o mais provvel  que seja um estilo
de que essa abordagem tem sido extremamente          experimental (ver MODERNISMO E PS-MODER-
produtiva em termos de anlise textual. O des-       NISMO).
construcionista hbil produz leituras do texto           A literatura no sculo XX tem oscilado entre
inesperadas, "contra a corrente", e tambm um        uma prtica que se autocoloca  parte, e outra
maior grau de conscincia da forma em toda           profundamente preocupada com seu prprio
uma srie de textos fora daquilo que  geral-        relacionamento com a sociedade e a poltica.
mente considerado literatura. Mas o sucesso do       Jean-Paul Sartre foi o mais famoso expoente do
desconstrucionismo depende de nunca ficar pa-        engajamento em literatura no sculo XX (Sar-
rado o suficiente para poder ser, por sua vez,       tre, 1948). Ou, mais precisamente, em prosa: ele
desconstrudo: movimentar-se como uma bor-           excluiu a poesia, que classificou junto com a
boleta, picar como uma abelha. O produtor            msica. Todo texto (em prosa), ele afirmou, era
literrio sofisticado reage produzindo um texto      uma forma de "ao secundria", com efeitos
intencionalmente feito para ser desconstrudo.       reais. O homem de letras deve tomar partido,
Segue-se um jogo sofisticado dentro das fron-        colocando conscientemente seu texto a servio
teiras da crtica literria acadmica e, se por um   de uma liberdade que, para Satre, estava pres-
lado, suas regras bsicas so muito diferentes       suposta no prprio ato de escrever e de ler.
das de regimes crticos mais familiares, do New      Somente em uma sociedade sem classes exis-
Criticism norte-americano (Lentricchia, 1978)        tiriam as condies perfeitas para escrever e ler
e dos seguidores ingleses de F.R. Leavis (Mu-        em total liberdade. Na ausncia disso, os graus
lhern, 1979), postos de lado por essas teorias       de engajamento literrio radical variam em di-
mais recentes como "humanistas", por outro ela       ferentes pocas histricas. O distanciamento do
no  mais capaz de se colocar fora, acima e         escritor fin de sicle era impossvel para a gera-
intocada pelo mundo social  sua volta do que        o de Sartre porque esta foi profundamente
foi o humanismo romntico.                           "situada" pela experincia da guerra. Como o
                                                     engajamento consciente do escritor deve ser
A literatura engajada                                sempre com a liberdade, o escritor engajado foi
    Alguns desafios interessantes dentro da teo-     colocado do lado do operrio, do sdito colo-
ria e prtica literria foram feitos por membros     nial, do grupo racialmente oprimido (ver EXIS-
de grupos que se viram excludos ou margina-         TENCIALISMO).
436   literatura


A literatura marginal                                mulher" no pode ser definida. A subjetividade
    Sob o impacto de teorias que questionaram        humana  produzida na linguagem e na cultura,
o status da literatura, o interesse voltou-se para   e est sempre em processo, nunca fixada (Ci-
um mbito mais amplo de formas escritas, in-         xous, 1975, 1976; Kristeva, 1986). A preocupa-
cluindo a autobiografia de classe operria (Vin-     o era menos com o texto das mulheres do que
cent, 1981). Porm, fora do contexto da educa-       com o que Cixous chamou de criture feminine:
o de adultos, o relacionamento da classe ope-      uma forma de escrever fluida, mvel, ldica. A
rria com o texto literrio tem sido, em grande      criture feminine, como a "semitica" de Kris-
parte, de excluso. Ren Balibar (1974) afirma       teva, no  exclusiva das escritoras, e essas
que, na Frana, o nvel educacional alcanado        autoras recm-citadas, notoriamente, deram na
determina habilidades lingsticas diferenciais.     verdade mais ateno a textos escritos por ho-
A familiaridade com o francs literrio diferen-     mens. O texto s  identificado como "femini-
                                                     no" na medida em que tanto "a semitica"
cia os nveis superiores, a que poucos filhos da
                                                     quanto o feminino so marginais  linguagem e
classe operria tm acesso. Assim, o francs
                                                      cultura.
literrio desempenha seu papel na reproduo
                                                         Embora as crticas feministas norte-ameri-
das relaes de classe, sociais e culturais.
                                                     cana e francesa tenham tido razes tericas mui-
    A relao das mulheres (brancas e de classe      to diferentes, a primeira mostrou-se aberta 
mdia) com a literatura tambm tem sido ana-         influncia desta de um modo paralelo  forma
lisada em termos das relaes das mulheres com       como o desconstrucionismo de Derrida atraves-
a linguagem e o texto. A "ginocrtica" norte-        sou o Atlntico (de Man, 1979), vindo a ocorrer
americana -- o estudo dos textos das mulheres        uma sntese (Jardine, 1985). Curiosamente, a
na tentativa de identificar uma esttica "femi-      marginalidade da "mulher" e do feminino na
nina" -- tem enfatizado as dificuldades enfren-      linguagem e na cultura foi transformada em
tadas pelas mulheres quando tentaram a litera-       uma vantagem sob a influncia do feminismo
tura na Inglaterra vitoriana e na Amrica do         francs, por suas prestigiosas formas vanguar-
Norte (Showalter, 1978; Gilbert e Gubar, 1979).      dista, modernista e ps-modernista, reivindi-
 uma abordagem que caracteriza a cultura            cadas como formas femininas.
dominante como uma cultura que  produzida               O que est ausente de ambos os termos da
por homens e que nega s mulheres sua subje-         sntese  a identificao e a localizao da lite-
tividade, de forma que, ao se sentarem para          ratura dentro de um contexto material e his-
escrever, as mulheres assumiram essas subjeti-       toricamente especfico. Para as feministas fran-
vidades culturais alheias.                           cesas, um texto que rompe as estruturas da
    A "ginocrtica" situa a separao das esferas    linguagem "falocntrica"  em si mesmo revo-
pblica e privada no perodo vitoriano como          lucionrio, e gera-se uma associao entre tal
uma causa principal da dificuldade enfrentada        texto de vanguarda e uma variedade de "outros"
pelas mulheres em assumir a identidade do            marginalizados dentro da sociedade e da cultura
escritor profissional, acima e alm da margina-      -- mulheres, minorias tnicas, o Terceiro Mun-
lizao do feminino na linguagem e na cultura.       do, a classe operria.
O novo feminismo francs, a partir dos anos 70,          No entanto a relao das mulheres (brancas
demonstra pouco interesse pelas circunstncias       e de classe mdia) com a literatura e o texto 
sociais sob as quais as mulheres escrevem, mas       em geral muito diferente da relao entre ho-
participa da identificao da "ginocrtica" do       mens e mulheres da classe operria. O gnero
feminino na linguagem e na cultura como mar-         estrutura a relao com o texto e a leitura de
ginal, embora a compreenso da linguagem seja        forma diferente da classe. Na sala de aula, as
mais rigorosa e terica (Marks e Courtivron,         meninas se sentiam em casa: "A escola primria
1980; Moi, 1987). Julia Kristeva, Luce Irigaray      exalta as qualidades que unem as mulheres; mas
(1974) e Hlne Cixous valeram-se da reelabo-        isso no coloca as meninas em desvantagem
rao lacaniana da psicanlise de Freud (Lacan;      educacional. Na verdade, como far qualquer
Mitchell e Rose, orgs., 1982). Ao contrrio das      confirmao do eu conhecido, isso efetivamen-
crticas norte-americanas, elas recusaram vali-      te ajuda o processo de aprendizado" (Steedman,
dade a qualquer busca da identidade das mu-          1982, p.4). Habilidades verbais e literrias so
lheres no texto. Para Cixous e Kristeva, "a          tradicionalmente esperadas e recompensadas
                                                                                              lgica    437


nas meninas e, assim, reforadas. Ento, o sexo      recionar a crtica negra para a conscincia da
per se no  uma barreira  escrita e  leitura do   diferena e da diversidade, em vez da identi-
mesmo modo que a classe, e as mulheres foram         dade.
e continuam a ser agentes fundamentais, mes-
                                                     Leitura sugerida: Bennett, Tony 1979: Formalism
mo que subordinados, no processo de transmis-        and Marxism  Bloch, Ernst et al. 1977: Aesthetics and
so da cultura literria (Lovell, 1987). Ellen       Politics  Eagleton, Terry 1983: Literary Theory: an
Moers (1978) chamou a ateno para os modos          Introduction  Gates, Henry Louis, Jr., org. 1984: Black
como as mulheres, na qualidade de mes com a         Literature and Literary Theory  Jameson, Fredric
responsabilidade pelo cultivo das mentes dos         1972: The Prision-House of Language  Lodge, David,
filhos, ou como professoras e preceptoras, po-       org. 1988: Modern Criticism and Theory: a Reader
                                                      Seldon, Raman 1989: Practising Theory and Reading
diam escrever com considervel autoridade.
                                                     Literature: an Introduction  Showalter, Elaine, org.
Essa autoridade vinda de dentro da cultura do-       1986: The New Feminist Criticism: Essays on Women,
minante pode ser ligada  estreita associao        Literature and Theory  Williams, Raymond 1983:
das mulheres com a ascenso do romance como          Writing and Society.
forma (Spencer, 1986; Armstrong, 1987).                                                    TERRY LOVELL
    A relao dos escritores negros com as ins-
tituies de produo e consumo literrios           lgica Esta  uma disciplina antiga. Tal como
acrescenta maior complexidade, uma vez que           concebida por seu fundador, Aristteles, no s-
os textos dos negros so diferenciados por g-       culo IV a.C., a lgica no era uma cincia
nero, e vice-versa. O rtulo de "negro", como o      terica, como a matemtica ou a fsica, mas uma
de "Terceiro Mundo", rene pessoas cujos ni-        cincia criadora, um organon, ou um instru-
cos atributos culturais comuns podem derivar         mento para a cincia, que estabeleceria os cri-
do racismo ou do domnio imperialista que            trios para um pensamento cientfico adequado.
sofrem conjunta e variadamente. Esse rtulo,         Aristteles tambm chamou de "lgica" a uma
no obstante, foi conscientemente escolhido em       indagao mais restrita sobre a natureza dos
um ato poltico historicamente importante de         argumentos dedutivos (onde as concluses se-
solidariedade oposicionista nos Estados Unidos       guem-se "necessariamente" s premissas), a
e outros centros (Gates, 1984; Spivak, 1988;         qual passou a ser conhecida como lgica pro-
Said, 1983).                                         priamente dita, em oposio  idia de "lgica"
    A crtica negra e a crtica feminista tm        no sentido amplo de uma investigao sobre a
paralelos e divergncias interessantes. Mesmo        natureza e o mtodo do conhecimento em geral.
antes do desenvolvimento de teorias que tor-         Os argumentos que exibem essa caracterstica,
nam a poltica de identidade to problemtica,       para Aristteles, so silogsticos, envolvendo
havia menos probabilidade de a crtica negra         proposies afirmativas ou negativas da forma
escorregar para formas a-histricas de essen-        de sujeito e predicado, quantificadas com ex-
cialismo. Crticos como Edwards (1984), que          presses como "todos" e "alguns". Silogstica
discerniram continuidades entre as literaturas        o estudo sistemtico desses argumentos e dos
africana, afro-americana e caribenha, mostra-        meios de provar suas formas vlidas, atravs de
ram claramente que essas continuidades so           variadas "figuras" e "modos", ou padres de
culturais, e que atributos comuns da literatura      premissas e concluses. A lgica tradicional, ou
negra, variadamente identificados na figurao       a lgica de termos, dominou o currculo durante
(Gates, 1984), na antifonia (Bowen, 1982) ou         a Idade Mdia e foi refinada atravs dos sculos,
em "um topos de (in)denominao" (Benston,           sem qualquer mudana de maior monta. O lugar
1984), so uma funo de posicionamento cul-         da lgica na teoria do conhecimento (ver CO-
tural e social. Esse posicionamento produziu,        NHECIMENTO, TEORIA DO) foi contestado a partir
de forma tpica, uma literatura de "dupla voz",      do sculo XVI, quando o advento da cincia
assevera Gates, valendo-se de -- e falando de        moderna tornou dbio o seu uso para a desco-
dentro de -- mais de uma tradio cultural. A        berta e a sistematizao de verdades cientficas.
crtica negra tem defendido o restabelecimento       A renovao da disciplina ocorreu no sculo
das tradies vernacular e oral negras, alm das     XIX, quando matemticos como George Boole
formas europias dominantes. Mas, como no            (em seu Laws of Thought, 1854) tentaram fazer
caso do "texto das mulheres", o efeito do ps-       derivar as leis da lgica silogstica das leis da
estruturalismo e do desconstrucionismo foi di-       lgebra (tentativa prefigurada por Leibniz).
438   lgica


Mas o advento da lgica moderna data dos            acordo com o qual a consistncia da aritmtica
Begriffsschrift (1879), de G. Frege, em que pela    no pode ser demonstrada. Isso arruinou as
primeira vez a tradicional forma sujeito-predi-     esperanas do programa de Hilbert, mas abriu
cado da preposio foi substituda pela dis-        o caminho para novas evolues na matemtica
tino matemtica entre argumento e funo,         e nos fundamentos da matemtica, do ponto de
fornecendo uma nova anlise de expresses de        vista tanto terico da prova quanto semntico
quantificao que podia explicar um nmero          (terico do modelo). Outra importante reali-
bem maior de inferncias do que a lgica tradi-     zao da lgica contempornea  o estudo das
cional, e em particular a expresso de conceitos    funes recursivas e da computabilidade, o
matemticos, tal como o conceito de nmero.         qual, com autores como mile Post, Alonzo
Frege e logo em seguida Bertrand Russell ten-       Church e Allan Turing, viria a fazer surgir nos
taram derivar conceitos matemticos a partir de     anos 40 a teoria dos algoritmos e autmatos, e
axiomas lgicos, de acordo com o ponto de           levaria ao nascimento da cincia da computao.
vista conhecido como "logicismo", que foi co-           Embora a lgica moderna no pudesse cum-
dificado nos Principia Mathematica (1910-11)        prir sua promessa de servir de fundamentao
de Russell e Whitehead. O programa logicista,       para a matemtica, os filsofos no demoraram
porm, mostrou-se difcil de ser executado:         a perceber sua relevncia para a teoria do co-
Russell descobriu uma contradio no sistema        nhecimento e a FILOSOFIA DA CINCIA, e tenta-
de Frege ("o paradoxo de Russell"), e sua pr-      ram tratar a lgica como um novo organon.
pria teoria de "tipos lgicos", moldada para        Frege, Russell e mais tarde a escola vienense de
evitar a contradio, no foi suficiente para       positivismo mostraram como a lgica podia
permitir que se derivasse a matemtica a partir     ajudar a reformular o programa kantiano da
de leis puramente lgicas. Um dos principais        verdade a priori. O Tractatus logico-philoso-
aspectos da lgica de Frege e de Russell  que      phicus (1921), de Ludwig Wittgenstein, assi-
a lgica  "universal" (van Heijenoort, 1967):     milava verdades lgicas a tautologias, que nada
uma "linguagem" que expressa tudo que existe,       dizem a respeito do mundo, em oposio a
e no um "clculo" no qual as relaes entre o      afirmaes que descrevem fatos. Isso levou 
simbolismo e o mundo, ou as relaes dentro         formulao do critrio empirista lgico de si-
do simbolismo, no podem ser explicitamente         gnificado, de acordo com o qual uma afirmao
representadas. Ao contrrio, os lgicos, a partir   s  significativa se for verdadeira a partir do
dos anos 20, colocaram questes metassiste-         significado dos seus termos apenas (analtica),
mticas, e surgiu a distino entre a teoria da     ou se puder ser verificada por sua relao com
prova e a semntica. David Hilbert e sua escola     a experincia, ou se puder ser deduzida a partir
tentaram provar a consistncia da aritmtica        de afirmaes empricas apenas. Isso  conhe-
caracterizando a lgica apenas em termos de         cido como a teoria "lingstica" das verdades
axiomas e regras de inferncias, ou "teoria da      lgicas, pois afirmaes lgicas, de acordo com
prova", sem usar noes semnticas como ver-        esse ponto de vista, so verdadeiras apenas por
dade e validade (essa viso  conhecida como        convenes lingsticas. De acordo com a filo-
"formalismo"). A principal noo da lgica mo-      sofia positivista da cincia, de autores como
derna  a de um sistema formal, composto de         Carnap, Schlick ou Reichenbach, a lgica serve
um vocabulrio de expresses primitivas, de         no apenas para demarcar a cincia emprica da
um aparato dedutivo de axiomas e/ou regras de       no-emprica, mas tambm para fornecer os
inferncias e de uma semntica, estabelecendo       critrios para a anlise de teorias cientficas (ver
as interpretaes das expresses primitivas. A      tambm POSITIVISMO). De acordo com a viso
formulao precisa de uma semntica, como           neopositivista clssica, uma teoria cientfica
uma teoria de verdade para linguagens formais,      tem uma estrutura dual: compe-se de um "vo-
foi dada por Tarski (1930). Em 1930 Gdel           cabulrio terico" (parcialmente interpretado),
provou o carter completo da parte principal da     consistindo em leis fundamentais que tm um
lgica moderna, a teoria da quantificao, es-      status axiomtico ou de postulao, a partir do
tabelecendo a coincidncia entre o conceito de      qual se derivam teoremas ou previses empri-
deduo semntico e o terico da prova. Em          cas, e de um "vocabulrio de observao", con-
1931 ele provou seu clebre teorema da incom-       sistindo em termos verificveis. As duas lingua-
pletude para a teoria elementar dos nmeros, de     gens esto relacionadas por "regras de corres-
                                                                                          lgica   439


pondncia" que nos permitem interpretar empi-         oposta, conhecida como RELATIVISMO, existem
ricamente os axiomas ou postulados. Mas o             tantas lgicas legtimas quanto so as reas de
ideal positivista da completa substituio da         discurso suscetveis de serem estudadas a partir
linguagem terica por essa linguagem observa-         do ponto de vista das inferncias que elas per-
cional pura de previses empricas a partir dos       mitem.
axiomas nunca pde ser realizado, pois logo se            Esse problema da variedade dos cnones de
admitiu que os termos tericos no podiam ser         inferncia passveis de serem descritos como
eliminados atravs de qualquer procedimento           "lgica" manifesta-se, em muitos domnios, co-
lgico. O prprio Rudolf Carnap nunca renun-          mo a semntica lingstica, em que a complexi-
ciou ao seu projeto de fornecer uma anlise           dade da linguagem natural parece validar uma
puramente lgica da linguagem da cincia e de         variedade de modelos de lgica formal aplic-
formular uma ntida distino entre afirmaes        veis a seus fragmentos (McCawley, 1981). De-
analticas e sintticas. Em seu Logical Foun-         sempenham um papel central tambm na psico-
dation of Probability (1950), buscou definir a        logia, em que se tem questionado se os seres
induo a partir de uma base puramente lgica.        humanos "seguem" as leis da lgica e, nesse
Mas essas esperanas positivistas se mostraram        sentido, so racionais. De acordo com a doutri-
impossveis de realizar. Por um lado, a distino     na da "lgica mental", a capacidade lgica hu-
analtica/sinttica e a teoria do significado sobre   mana deve suas caractersticas a um meio inato
a qual ela se apia vieram a se tornar dbias         (ou adquirido -- Piaget e Inhelder, 1955), co-
atravs da crtica de W.V.O. Quine (1952), e a        dificado no crebro sob a forma de regras de
doutrina convencionalista da verdade lgica           inferncia. Mas o fato de os seres humanos
foi, assim, devidamente contestada. Por outro         cometerem erros lgicos, e ainda por cima sis-
lado, a idia de dar um algoritmo para o mtodo       temticos (Kahneman et al., 1982; Wason,
cientfico, na forma de uma "lgica de confir-
                                                      1968), torna dbia essa doutrina. Alguns au-
mao" ou de induo, enfrenta dificuldades
                                                      tores preferem renunciar  hiptese da lgica
to grandes (Goodman, 1955) que o programa
                                                      mental e tentar explicar o raciocnio sem regras
parece virtualmente invivel.
                                                      moldadas de acordo com clculos lgicos pa-
    A frustrao das esperanas positivistas na
teoria do conhecimento no implica, no entan-         dro (Johnson-Laird, 1983). A objeo comum
to, que a lgica deixe de desempenhar um papel        ao carter normativo da lgica  que a maior
na formao de hipteses a respeito da natureza,      parte do raciocnio humano no se conforma
da racionalidade cognitiva ou da racionalidade        aos padres ideais de racionalidade estabele-
da ao. Esse papel  principalmente normati-         cidos pelas normas da lgica clssica comum.
vo, no sentido de que a lgica estabelece certos      Alguns autores (Stich, 1985; Nisbett e Ross,
padres de interpretao do comportamento             1980) preferem concluir que a avaliao da
humano sem os quais esse comportamento no            racionalidade dos seres humanos  uma questo
pode ser absolutamente interpretado. A princi-        emprica. Outros (Cohen, 1986) querem con-
pal questo  se essas normas podem ser abso-         servar o status normativo da lgica como teoria
lutas ou se so principalmente relativas. Desde       ideal da capacidade humana, que pode no en-
o incio do sculo XX, os lgicos tm demons-         tanto ser revista de acordo com um "mtodo
trado um crescente interesse pela construo de       reflexivo de equilbrio" comparvel  concep-
uma lgica no-clssica, tal como lgica modal,       o semelhante de John Rawls (1971) sobre a
a intuicionista, a do quantum, a da relevncia,       reviso dos padres normativos morais. Proble-
a trivalorizada e assim por diante, que se apiam     mas semelhantes podem ser encontrados em
todas em vrios pontos de partida dos princ-         INTELIGNCIA ARTIFICIAL, uma vez que os sis-
pios lgicos clssicos, tais como a bivalncia, o     temas de IA so construdos de acordo com
meio excludo, ou a extencionalidade. De acor-        certas regras de inferncia lgica que s simu-
do com a doutrina conhecida como "absolutis-          lam os desempenhos inteligentes naturais at
mo" (que era tipicamente a de Frege e Russell),       certo grau. A maioria dos pesquisadores de IA
existe apenas uma lgica, aplicvel a todas as        acha, nesse ponto, que a lgica dedutiva cls-
formas de discurso ou reas de indagao, e as        sica  de pouca utilidade, fazendo amplo uso da
lgicas "desviantes" ou "no-clssicas" no so       lgica no-clssica (nesse particular, a lgica
realmente lgica. De acordo com a doutrina            no-monotnica -- Turner, 1984).
440   lgica


    Nas cincias sociais, o papel normativo da    nas a esquemas de compreenso prprios de
lgica pode ser considerado a partir de dois      determinadas culturas. Para filsofos como
pontos de observao. O primeiro  a formula-     Quine (1960), tais debates s podem ser avali-
o de hipteses a respeito da racionalidade da   ados no contexto de uma adequada teoria de
ao, de acordo com os padres das teorias dos    traduo e significado. Mas o estudo de nossos
jogos, da deciso e da utilidade (von Neumann     critrios de traduo mostram que nem o pleno
e Morgenstern, 1944; Jeffrey, 1965). Em sua       racionalismo nem o relativismo podem ser con-
parte normativa, a lgica da deciso e a lgica   sistentemente mantidos: ao criar um ma nual de
da preferncia estabelecem padres de raciona-    traduo para uma linguagem desconhecida,
lidade ideal que foram utilizados em particular   precisamos apoiar-nos na hiptese geral
por economistas para definir modelos de otimi-    (o "princpio da benevolncia") de que os que
zao do comportamento racional. A adequao      a falam so no todo racionais, coerentes e no
descritiva desses modelos foi contestada, tendo   sustentam crenas contraditrias. Nesse sen-
sido proposta uma teoria de racionalidade "li-    tido, a "pr-logicidade  um trao infundido por
mitada" ou "restrita" (Simon, 1957) para lidar    maus tradutores" (Quine). Mas o relativismo (e
com as situaes mais "da vida real" de escolha   em particular o relativismo lingstico) tambm
individual e coletiva. Os notrios paradoxos da   falha, pois a prpria coerncia da afirmao de
teoria da deciso (o dilema do prisioneiro, o     que pode haver pessoas tendo "esquemas con-
problema de Newcomb) servem aqui como ins-        ceituais" radicalmente diferentes dos nossos
trumentos para a formulao, o teste e as re-     prprios pressupe que podemos impor um gru-
vises da hiptese geral de racionalidade em-     po de coordenadas comum (uma pressuposio
butida nos modelos padro. Nesse ponto, o         geral de racionalidade e coerncia) a fim de
papel de uma lgica da ao individual ou         avaliar a divergncia cultural (Davidson, 1974).
coletiva no  impor rgidos padres ou esque-    Isso no significa que divergncias culturais
mas de explicaes, mas permitir o estudo dos     no possam ser avaliadas em termos psicolgi-
pontos de partida que esses padres podem         cos e sociolgicos, mas que s podem ser ava-
proporcionar. Em particular, um estudo da ir-     liadas dentro de certos limites. Nesse sentido,
racionalidade no comportamento individual e       tambm, a lgica estabelece certas restries
coletivo pode decorrer da anlise de diferentes   mnimas a uma teoria da racionalidade humana.
critrios de racionalidade (Elster, 1983).            Ver tambm RACIONALIDADE E RAZO.
    O segundo ponto de observao  o estudo
                                                  Leitura sugerida: Cohen, L.J. 1986: The Claims of
antropolgico dos significados das crenas cul-   Reason  Elster, J. 1983: Sour Grapes: Studies in the
turais. Em antropologia, a atitude racionalista   Subversion of Rationality  McCawley, J.D. 1981:
de autores como Lucien Lvy-Bruhl, que atri-      Everything that Linguists Have Always Wanted to Know
buiu s sociedades primitivas uma mentalidade     about Logic  Stich, S. 1985: "Is a man a rational ani-
"pr-lgica", foi amplamente contestada por       mal? Notes on the epistemology of rationality". Syn-
um relativismo transcultural, segundo o qual a    thse, 64, 115-35.
racionalidade e a logicidade so relativos ape-                                         PASCAL ENGEL
                                              M
maosmo Esta palavra refere-se ao pensa-                   diam os dspotas militares e o imperialismo
mento e  prtica revolucionrios de Mao Tse-              estrangeiro, Mao tentou transferir o enfoque da
tung (1893-1976), que chefiou o triunfo, em                revoluo das cidades para o campo. Ele criti-
1949, de uma revoluo comunista de base                   cou a timidez da liderana do Partido por sua
camponesa na China, resultando na criao da               atitude negativa para com os "excessos" dos
Repblica Popular, e que em seguida orientou               camponeses e insistiu em afirmar que um cam-
o desenvolvimento do novo estado durante a                 pesinato mobilizado (com ou sem liderana
maior parte dos seus primeiros 25 anos de exis-            partidria) poderia varrer todas as foras reacio-
tncia. O maosmo, portanto, abrange dois as-              nrias (Day, 1975, p.339-47).
pectos: em primeiro lugar, a estratgia singular               Quando a Frente Unida se dissolveu, em
de Mao Tse-tung, da revoluo prolongada em                1927, e a liderana do PCC entrou para a clan-
um pas economicamente atrasado, dominado                  destinidade em Xangai, Mao recuou para o
pelo imperialismo estrangeiro, apoiando-se em              campo e deu incio a um processo de esta-
bases nas reas rurais e no Exrcito Vermelho              belecimento de uma base rural e da criao de
campons, e, em segundo lugar, sua tentativa de            um Exrcito Vermelho, recrutado entre cam-
promover uma "via chinesa para o socialismo",              poneses pobres, trabalhadores agrcolas, anda-
uma vez alcanado o poder poltico, depois de              rilhos e at mesmo ex-bandoleiros. Refletindo
1949. O primeiro aspecto serviu de inspirao              o aspecto voluntarista de seu pensamento, Mao
para lderes radicais do TERCEIRO MUNDO, nos anos          insistia em que tal Exrcito Vermelho, no obs-
50 e 60, que lutavam para alcanar a independn-           tante suas origens de classe, se tornaria "prole-
cia nacional de seus atuais ou antigos senhores            tarizado" atravs do prprio ato da revoluo.
coloniais, e a seus aliados internos (ver MOVIMEN-         A liderana do partido, ainda assumindo que a
TO DE LIBERTAO COLONIAL); enquanto o ltimo              revoluo se ergueria entre as fileiras da classe
aspecto despertou a admirao dos radicais oci-            operria urbana, criticou a "mentalidade cam-
dentais, particularmente nos anos 60.                      ponesa" de Mao e seu "aventureirismo militar
    Mao Tse-tung, que vinha de uma prspera                pequeno-burgus". O fracasso de uma srie de
famlia camponesa e recebera educao secun-               ataques armados s cidades em 1927-30, po-
dria, foi um dos membros fundadores do Par-               rm, s fez convencer Mao de que a revoluo
tido Comunista Chins (PCC) em 1921. Entre                 precisaria ser prolongada, com as reas rurais
1923 e 1927, alinhado com a indicao de                   de base acabando por cercar as cidades.
Moscou de que os partidos comunistas recm-                    Durante o incio dos anos 30, no soviete
criados no mundo colonizado deveriam forjar                rural que estabeleceu na provncia sulista de
alianas com partidos nacionalistas burgueses,             Xiang-xi, Mao formulou suas teorias sobre a
o PCC entrou para uma frente unida com o                   guerra de GUERRILHA e sublinhou a necessidade
muito mais amplo Partido Nacionalista (Ku-                 de elos estreitos entre o exrcito e o povo;
omintang) de Sun Yatsen, cujo objetivo era                 enfatizou o papel de liderana das associaes
derrotar os militaristas e reunificar o campo. Foi         de camponeses pobres nas aldeias, mas subli-
durante esse perodo que Mao, em contraste                 nhando ao mesmo tempo a necessidade de con-
com a maioria da liderana do PCC, comeou                 quistar os camponeses mdios (os que pos-
a enfatizar a importncia do campesinato na                suam a terra que cultivavam) e de adotar uma
revoluo. Ao afirmar que era do sistema "se-              atitude flexvel para com os camponeses ricos;
mifeudal" dos senhores de terras que depen-                e exortou os quadros a se manterem em estreito

                                                     441
442   maosmo


contato com a opinio das bases, abordagem de       para tomar as cidades mantidas pelo Kuomin-
liderana definida mais tarde, em 1943, como a      tang na guerra civil do final dos anos 40, os
"linha de massa".                                   lderes do PCC tambm exaltaram a estratgia
    Ao criticar a abordagem dogmtica dos ri-       maosta da revoluo rural prolongada como
vais treinados em Moscou, e ao afirmar sua          um modelo para as regies colonizadas da sia
liderana tanto ideolgica quanto militar e po-     e da frica, implicando assim que a Unio
ltica, Mao referiu-se  "sinificao do marxis-    Sovitica no deveria ser encarada como a ni-
mo", a necessidade de adaptar o marxismo s         ca fonte de orientao para os movimentos
condies chinesas. Esse conceito desempe-          comunistas mundiais.
nhou um papel significativo na campanha de              Muitos dos aspectos do maosmo, tal como
retificao que Mao lanou em 1942 para con-        ele se desenvolvera at 1949, como a f populis-
firmar sua liderana ideolgica no partido (a-      ta nas massas rurais (ver POPULISMO), a nfase
lm de refletir a determinao de Mao de afir-      voluntarista na vontade humana, um antibu-
mar a independncia do PCC em relao a             rocratismo arraigado e uma suspeita em relao
Moscou). A campanha tambm ilustrou a n-           aos intelectuais, continuariam em evidncia de-
fase maosta na remodelagem ideolgica, um          pois de 1949, quando Mao buscou desbravar a
processo de pequenos grupos de estudo e de          "via chinesa para o socialismo". Circunstncias
autocrtica para provocar mudanas nas atitu-       internas e externas, porm, levaram a Repblica
des subjetivas e no estilo de trabalho. O forma-    Popular a adotar inicialmente o modelo sovi-
lismo e o burocratismo excessivos foram con-        tico de desenvolvimento. No incio dos anos 50,
denados e os quadros partidrios de nvel supe-     portanto, deu-se nfase  centralizao do pla-
rior receberam a enftica recomendao de "i-       nejamento,  indstria pesada e  especializao
rem para o campo" (xiafang) a fim de trabalhar      tcnica.
e viver entre os camponeses. Ao mesmo tempo,            Tal como em 1940, Mao estava firmemente
a campanha exigia maior disciplina central so-      disposto a distinguir a revoluo chinesa da
bre os membros do partido. A iniciativa local       sovitica. Ele se referiu ao novo regime, em
deveria sempre ser contrabalanada pelo con-        1949, como uma Ditadura Democrtica Popu-
trole do centro, o que Mao chamou de "cen-          lar, uma aliana de vrias classes revolucion-
tralismo democrtico". Dos escritores, tam-         rias -- operrios, camponeses, pequena bur-
bm, esperava-se agora que se submetessem a         guesia e burguesia nacional (isto , aquela no-
uma superviso mais minuciosa do partido, re-       associada ao capital estrangeiro) --, lideradas
fletindo a ambivalncia que Mao demonstrou          pelo PCC, que exerceria a "ditadura" sobre as
durante toda a sua vida para com os intelectuais.   classes reacionrias dos remanescentes do Kuo-
    A fim de enfrentar a ameaa japonesa e          mintang, senhores de terras, contra-revolucio-
combater o bloqueio econmico imposto  sua         nrios e direitistas. Mao tambm pretendia rea-
rea de base de Yanan pelo Kuomintang (a            lizar uma transio gradual para o socialismo.
segunda frente unida se rompera em 1940),           A reforma agrria (1950-2), por exemplo, ao
Mao enfatizou a necessidade da independncia        mesmo tempo que eliminava os senhores de
de meios (que implicava iniciativa econmica        terras como classe scio-econmica e redis-
local) e a necessidade de mobilizar a populao     tribua a terra aos camponeses pobres, permitia
inteira em uma genuna "guerra popular". Mao,       que os camponeses ricos conservassem a terra
em seus ltimos anos, viria a evocar com me-        que cultivavam. Nas cidades, o setor privado
lancolia o "esprito de Yanan", que para ele        continuou a existir at 1956.
ficara ligado ao engajamento ideolgico, aos            Em meados da dcada de 50, estava claro
ideais igualitrios e aos elos estreitos forjados   que Mao no se encontrava satisfeito com o
entre o partido e o povo.                           modelo sovitico. O planejamento centralizado
    A constituio do PCC de 1945 proclamou         havia produzido ministrios econmicos pode-
oficialmente o pensamento de Mao como guia          rosos e burocracias do estado e do partido cada
de ao do partido. Isso foi acompanhado pelo       vez mais diferenciadas, simbolizadas por ela-
desenvolvimento de um culto maosta que bus-        boradas escalas de pagamento; a nfase na es-
cou elevar sua personalidade e suas idias aci-     pecializao tcnica diluiu o fervor ideolgico
ma das de seus colegas (Wylie, 1980). Com as        e ameaou criar uma elite tcnica e gerencial
foras comunistas do interior rural preparadas      divorciada das massas; e a prioridade dada ao
                                                                                     maosmo     443


desenvolvimento da indstria pesada levou ao        os limites exigidos e comearam a questionar o
esgotamento dos escassos recursos agrcolas, a      prprio socialismo.
fim de financi-la. Seria no campo, porm, que          O rompimento definitivo com o modelo so-
o maosmo, em seu contexto ps-1949, iria           vitico ocorreu em 1958, quando Mao lanou
exercer o primeiro impacto. Preocupado com a        uma campanha ambiciosa, a do Grande Salto
crescente desigualdade nas aldeias e a influn-     para a Frente, a fim de acelerar a transio do
cia preponderante dos camponeses ricos, Mao,        SOCIALISMO para o COMUNISMO e promover o
em 1955, estimulou a acelerao do processo         rpido progresso econmico. O fundamento ra-
de coletivizao. Rejeitou o argumento deter-       cional dessa campanha era o conceito maosta
minista (ver DETERMINISMO) dos planejadores         de REVOLUO PERMANENTE, a idia de que a
do partido de que uma coletivizao em escala       consecuo do comunismo s poderia ocorrer
integral tinha de esperar a prvia mecanizao      atravs de ondas de luta incessante, nas quais o
e o deslanche industrial (isto , a ascenso das    avano ideolgico radical acompanhava (ou
foras produtivas) e insistiu em que a transio    mesmo era a precondio para) um aumento na
para novas formas socialistas e um aumento da       produo econmica. No que foi descrito como
produo tinham de avanar juntos.                  uma abordagem "utpica" (Meisner, 1982),
    A segunda iniciativa que Mao tomou, pas-        Mao tambm afirmou que o prprio atraso da
sando por cima de seus colegas do partido,          China era uma vantagem muito positiva, uma
revelava o impulso antiburocrtico do maos-        vez que proporcionava mais mbito para o en-
mo. Na Unio Sovitica, a denncia de Stalin        tusiasmo e a iniciativa das massas, outra indica-
por Kruschev, em 1956, levantara a questo da       o da sua f voluntarista na vontade humana.
relao entre partido e povo, e foi com a preo-     Tal entusiasmo, acreditava Mao, poderia ser
cupao de que o PCC estava se tornando uma         mais bem canalizado utilizando-se incentivos
elite burocrtica fortemente arrraigada que         morais (apelando s virtudes do desprendimen-
Mao, no mesmo ano, conclamou os intelectuais        to pessoal, do ascetismo e da preocupao com
a expressarem suas crticas, no que se tornou       o bem-estar coletivo), em vez de incentivos
conhecido como a Campanha das 100 Flores            materiais. O membro ideal dos quadros do par-
(derivada do slogan "Que 100 flores possam          tido deveria ser agora ao mesmo tempo "ver-
desabrochar, que 100 escolas de pensamento          melho e especialista", combinando a correta
possam competir"). A falta de entusiasmo de-        perspectiva ideolgica com a especialidade tc-
monstrada por seus colegas de partido impeliu       nica ou administrativa. Ao mesmo tempo, as
Mao, no incio de 1957, a renovar seu apelo a       comunas estabelecidas durante o Grande Salto
uma "retificao a portas abertas" do partido,      ajudariam a transpor o abismo entre cidade e
em um discurso feito fora dos canais parti-         campo atravs da promoo da industrializao
drios. Advertiu que contradies no-antag-       rural e a expanso de instalaes educacionais
nicas em uma sociedade socialista, como as que      e de sade no campo. O abismo igualmente
ocorrem entre lderes e liderados, poderiam         inquo, do ponto de vista de Mao, que separava
tornar-se antagnicas caso o partido no per-       o trabalho mental do manual, deveria ser elimi-
mitisse a crtica externa a seus equvocos. Um      nado fazendo-se com que os funcionrios qua-
pressuposto maosta capital, na base da campa-      lificados e os intelectuais fossem "mandados
nha, era a idia de que a luta de classes con-      para o campo", por um lado, e, por outro, crian-
tinuaria em uma sociedade socialista, embora        do-se escolas e universidades em regime de
viesse a ser uma luta de classes entre ideologias   metade trabalho, metade estudo, para permitir
rivais e no entre classes scio-econmicas. No     s massas, nas palavras de Mao, tornarem-se
ponto de vista de Mao, o elitismo do partido e      "mestres da tecnologia", em vez de perma-
seu afastamento das massas eram uma expres-         necerem dependentes de uma elite tecnocrtica.
so da ideologia das velhas classes explora-            O Grande Salto teve conseqncias desas-
doras. Somente expondo-se  crtica por parte       trosas. Catstrofes naturais, um sistema de
do povo, que, presumia Mao, apoiava ampla-          transportes ineficaz, a canalizao do trabalho
mente o socialismo, o Partido poderia ser reti-     campons para obras de irrigao em massa e
ficado. Conforme acabou sucedendo, Mao e            projetos irrealistas de industrializao levaram
seus colegas tiveram de encerrar a campanha         a um declnio na produo agrcola e, em ltima
quando as crticas do intelectuais ultrapassaram    anlise,  fome em grande escala. Houve tam-
444   maosmo


bm hostilidade dos camponeses diante das           contra estruturas hierrquicas, na tentativa de
tentativas de funcionrios do partido de impor      fazer reviver um ethos socialista e rejuvenescer
uma sociedade comunista atravs da instituio      a organizao do partido. (Foi esse aspecto que
de um sistema de livre suprimento, da criao       atraiu intelectuais e estudantes radicais do Oci-
de refeitrios e creches comunais e do confisco     dente.) Mao, particularmente, representava um
de todos os bens particulares. No incio dos anos   forte apelo para os jovens, uma vez que, em seu
60, Mao foi obrigado a se retirar da liderana      ponto de vista, estes eram mais receptivos a
ativa, enquanto seus colegas de partido pros-       mudar o status quo; a experincia da luta tam-
seguiam na modificao dos programas do             bm os qualificaria a se tornarem dignos "su-
Grande Salto. Restabeleceu-se o planejamento        cessores revolucionrios". Estudantes secund-
centralizado, reduziram-se as funes scio-        rios e universitrios entraram para a Guarda
econmicas da comuna e restauraram-se a pro-        Vermelha e foram estimulados a atacar todos os
priedade particular de terras e os mercados ru-     vestgios do passado, descritos como os "quatro
rais livres; redirecionaram-se os recursos para     velhos" (idias, cultura, costumes e hbitos),
as cidades e as escolas e clnicas rurais foram     bem como as influncias burguesas "pernici-
fechadas; ser especializado ganhou prioridade       osas" do presente. Como tal, no apenas lderes
sobre ser "vermelho".                               do partido, mas tambm escritores, intelectuais
    Mao criticou essas tendncias como "re-         e professores, viram-se sujeitos a crticas e hu-
visionistas" e avisou que a restaurao das clas-   milhaes. Na esfera da cultura, a filosofia do
ses reacionrias era uma possibilidade na socie-    CONFUCIONISMO e a arte ocidental foram igual-
dade socialista. Em 1965, frustrado em suas         mente condenadas.
tentativas tanto de fazer reviver um esprito           A experincia de Mao na criao de uma
coletivista entre o povo e o partido quanto de      nova cultura socialista terminou quando um
desenraizar o revisionismo no campo cultural,       caos e uma violncia crescentes o obrigaram a
Mao passou a alegar que indivduos dentro da
                                                    convocar o exrcito (1967-8) para restaurar a
liderana do partido estavam tomando a "via
                                                    ordem e supervisionar a reconstruo do par-
capitalista". Foi nesse contexto que Mao lanou
                                                    tido. Desde a morte de Mao, em 1976, e es-
a Revoluo Cultural, em 1966. Afirmando que
                                                    pecialmente desde 1980, seus sucessores tm
a "ideologia burguesa" havia contaminado a
superestrutura (ver BASE E SUPERESTRUTURA),         rejeitado implicitamente muitos aspectos do
Mao convocou as massas a investir contra todas      maosmo: a luta de classes  hoje oficialmente
as formas de autoridade. O principal alvo de        proclamada como concluda e a possibilidade
Mao era o prprio partido, mas ele tambm           de uma contradio antagnica vir a se desen-
atacou as autoridades acadmicas e culturais, as    volver entre o partido e o povo  negada; a
quais, em seu ponto de vista, haviam favorecido     nfase hoje coloca-se no desenvolvimento das
um sistema educacional dividido que enfati-         foras produtivas (a economia), de uma forma
zava os critrios acadmicos sobre os polticos,    que utiliza incentivos materiais e permite dis-
alm de encorajar idias burguesas reacionrias     paridades de riqueza entre indivduos e entre
(elitismo, especializao, neutralidade ideol-     regies; a educao busca criar elites tcnicas e
gica e reduo da importncia da luta de clas-      gerenciais; e a independncia de meios deu
ses).                                               lugar a maiores laos econmicos com o mundo
    Em um sentido imediato, a Revoluo Cul-        capitalista. Essa rejeio teve como paralelo
tural foi o resultado de uma luta de liderana      uma crescente desiluso com o maosmo no
intrapartidria entre Mao e seus oponentes. O       Ocidente.
culto maosta fantico que foi deliberadamente           importante observar, porm, que o maos-
cultivado nessa ocasio (atribuindo ao pensa-       mo foi, e ainda , influente em outras partes do
mento de Mao um poder quase sobrenatural)           mundo. Nos anos 50, Ho Chi Minh no Vietn,
era tambm a culminao grotesca de um pro-         Frantz Fanon na Arglia e Amlcar Cabral na
cesso iniciado nos anos 40, que buscava instalar    Guin-Bissau, para citar apenas alguns, utiliza-
uma sabedoria onisciente na pessoa do prprio       ram as idias maostas de guerra popular, de
Mao. Em um sentido mais amplo, a Revoluo          apoio no campesinato e de uma abordagem
Cultural viria a ser um processo de autoliberta-    voluntarista da revoluo, enquanto o movi-
o, com as massas confrontando e lutando           mento do Sendero Luminoso, no Peru de hoje,
                                                                                             marxismo     445


se autoqualifica, explicitamente, como de ori-              es de produo (o modo como a produo 
entao maosta.                                            organizada e, em particular, a natureza dos gru-
                                                            pos que possuem os instrumentos de produo
Leitura sugerida: Ch'en, J. 1970: Mao Papers  Com-
pton, B. 1952: Mao's China: Party Reform Documents,         ou simplesmente contribuem com seu trabalho
1942-1944  Mao Tse-tung 1986: The Writings of Mao           para o processo produtivo). A partir dessa an-
Zedong, vol.1, org. por M. Kau e J. Leung  Meisner,         lise, surgiram duas idias fundamentais da teo-
M. 1982: Marxism, Maoism and Utopianism  1986:              ria marxista: uma periodizao da histria, con-
Mao's China and After  Schram, S. 1969: The Political       cebida como um movimento progressivo atra-
Thought of Mao Tse-tung, ed. rev.  1989: The Thought        vs dos modos de produo antigo, asitico,
of Mao Tse-tung  org. 1974: Mao Tse-tung Unrehear-
sed  Schwartz, B. 1979: Chinese Communism and
                                                            feudal e capitalista moderno, e uma concepo
the Rise of Mao, ed. rev.  Starr, J. 1979: Continuing the   do papel das classes sociais na constituio e
Revolution  Wylie, R. 1980: The Emergence of                transformao das estruturas sociais.
Maoism.                                                         O segundo elemento  um esquema expla-
                                          PAUL BAILEY       natrio que abrange as mudanas de um tipo de
                                                            sociedade para outro, no qual dois processos
marginalista, escola econmica Ver                ESCO-     tm importncia crucial. Por um aspecto, as
LA ECONMICA MARGINALISTA.                                  mudanas so provocadas pelo progresso da
                                                            tecnologia, e o prprio Marx enfatizou isso
marketing Ver CINCIA DA ADMINISTRAO;                     quando escreveu (1847, cap.2, seo 1) que "o
REVOLUO GERENCIAL.
                                                            moinho manual nos d uma sociedade com
marxismo Corpo de teoria social e doutrina                  senhores feudais, o moinho a vapor, uma so-
poltica derivado da obra de Karl Marx e de seu             ciedade com capitalistas industriais", ou no-
ntimo colaborador Friedrich Engels. Somente                vamente mais tarde, nos Grundrisse (1857-58,
depois da morte de Marx  que o marxismo se                 p.592-4), em que examinou mais amplamente
desenvolveu como uma "viso do mundo" de                    as conseqncias do rpido avano da cincia e
amplo alcance e como a doutrina poltica carac-             da tecnologia para o futuro do capitalismo. Por
terstica de muitos partidos socialistas, inicial-          um outro aspecto, porm, as transformaes
mente pelo trabalho de Engels, que exps a                  sociais so resultado de lutas de classe cons-
"viso marxista do mundo" como a perspectiva                cientes; mas os dois processos esto intima-
da classe operria, comparando seu papel ao da              mente relacionados, uma vez que o desenvol-
filosofia clssica alem em relao  burguesia             vimento das foras produtivas est preso  as-
(Engels, 1888), embora ao mesmo tempo tenha                 censo de uma nova classe, e a classe dominan-
enfatizado seu carter cientfico. Atravs de               te existente torna-se cada vez mais um obs-
seus textos e de sua correspondncia, Engels                tculo a um maior desenvolvimento.
exerceu forte influncia sobre a primeira gera-                 O terceiro elemento  a anlise do capitalis-
o de pensadores marxistas, e no final do                  mo moderno,  qual Marx e marxistas pos-
sculo XIX o marxismo estava firmemente es-                 teriores dedicaram a maior parte de sua ateno.
tabelecido, em grande parte fora das institui-              O capitalismo  concebido como a forma final
es acadmicas, como teoria social e doutrina              da sociedade de classes, em que o conflito entre
poltica de grande importncia, assimilado em               burguesia e proletariado se intensifica conti-
alguns casos a um sistema filosfico geral.                 nuamente junto com as contradies econmi-
    Na teoria social,  possvel distinguir trs            cas do capitalismo, que se manifesta em crises
elementos principais. Primeiro, uma anlise dos             recorrentes, e o processo de SOCIALIZAO DA
principais tipos de sociedade humana e sua                  ECONOMIA  acelerado pelo desenvolvimento de
sucesso histrica, em que se d lugar de des-              cartis e trustes. Essa anlise e o crescimento de
taque  estrutura econmica, ou "modo de pro-               partidos socialistas de massa levaram neces-
duo", na determinao da forma completa da                sariamente a uma preocupao com as formas
vida social: "O modo de produo da vida                    que poderia assumir uma transio para o so-
material determina o carter geral dos processos            cialismo e  elaborao de uma doutrina polti-
sociais, polticos e espirituais da vida" (Marx,            ca marxista que ajudaria a integrar e orientar o
1859, Prefcio). O prprio modo de produo                movimento da classe operria.
definido em termos de dois fatores: as foras                   Desde um estgio inicial, no entanto, houve
produtivas (a tecnologia disponvel) e as rela-             diversas interpretaes do legado de Marx e
446   marxismo


desacordos quantos a seu ulterior desenvol-          MARXISMO). Lenin e os bolcheviques, porm,
vimento. Na Alemanha, em grande parte sob a          com a parcial exceo de Bukharin (1921),
influncia de Karl Kautsky, o marxismo foi           deram pouca ateno a teorias sociais alter-
concebido basicamente como uma teoria cien-          nativas e reagiram s crticas de Bernstein iden-
tfica da evoluo social (sendo fortemente en-      tificando o revisionismo com o REFORMISMO e
fatizadas suas afinidades com o darwinismo), e       com o abandono dos objetivos revolucionrios.
seus aspectos mais deterministas pareciam ser        Suas verses do marxismo concentram-se em
confirmados pelo desenvolvimento do capita-          grande parte na criao de um partido revolu-
lismo e pelo rpido crescimento do movimento         cionrio disciplinado, capaz de liderar a classe
socialista. Na Rssia, por outro lado, onde o        operria e seus aliados (especialmente, no caso
capitalismo mal havia comeado a se desenvol-        russo, o campesinato) rumo a uma bem-sucedi-
ver e no havia movimento socialista de massa,       da conquista do poder. Desse modo, o marxis-
o marxismo foi uma doutrina exposta por pe-          mo foi convertido em uma doutrina que en-
quenos grupos de revolucionrios, e em es-           fatizava a vontade poltica e a liderana do
pecial por Plekhanov, como uma viso de mun-         partido como os fatores cruciais para a mudana
do filosfica, a partir da qual Lenin desenvol-      social.
veu a idia de uma "conscincia socialista"              A revoluo russa, que instalou os bolche-
levada de fora para a classe operria; e esta        viques no poder, criou condies inteiramente
posteriormente se tornou um elemento central         novas para o desenvolvimento do pensamento
na ideologia do partido bolchevique e do estado      marxista. O leninismo e posteriormente o s-
sovitico.                                           talinismo estabeleceram-se como uma ideolo-
    Essa diviso entre interpretaes mais deter-    gia oficial dogmtica que adquiriu grande in-
ministas e mais voluntaristas percorre toda a        fluncia internacional com a fundao de par-
histria posterior do marxismo, em incessantes       tidos comunistas dentro do modelo sovitico
revises e reformulaes da teoria social e da       em outros pases, enquanto o Partido Social-
prtica poltica que, pelo menos em parte, dela      Democrata alemo, profundamente dividido e
derivou. Na primeira dcada do sculo XX o           enfraquecido em resultado da guerra e da der-
marxismo foi tambm confrontado por uma              rota dos levantes revolucionrios de 1918-19,
crescente discusso crtica, tanto vinda de fora,    perdeu sua antiga proeminncia como centro de
nos textos, por exemplo, de Max Weber, mile         teoria e prtica marxista. Nos anos do entre-
Durkheim e Benedetto Croce, quanto de dentro,        guerras e por algum tempo depois da Segunda
em especial na exposio de Bernstein (1899)         Guerra Mundial, o marxismo tornou-se am-
sobre os resultados de seu esforo para "deixar      plamente identificado na mente do pblico com
claro exatamente onde Marx est certo e onde         o marxismo sovitico, embora tenha havido de
est errado", que o levou a criticar vrios aspec-   fato uma profunda ciso no pensamento mar-
tos da ortodoxia marxista, incluindo a viso de      xista, em parte coincidindo com a diviso do
"colapso econmico" para o fim do capitalismo        movimento internacional da classe operria en-
e a idia de uma crescente polarizao da socie-     tre a verso sovitica e o que seria mais tarde
dade entre burguesia e proletariado, e em textos     chamado de "marxismo ocidental". Mas este
posteriores a afirmar que o movimento socialis-      ltimo era ele prprio bastante diversificado.
ta exigia uma doutrina tica tanto quanto uma        Em algumas de suas formas, e especialmente na
teoria social (ver REVISIONISMO).                    obra dos austromarxistas, continuou a se desen-
    Entre os marxistas que reagiram s crticas      volver como um campo de investigao cien-
feitas ao marxismo como cincia social, e de         tfica, analisando as mudanas na sociedade
maneira mais geral a novas concepes em             capitalista depois da Primeira Guerra Mundial,
filosofia e economia, os austromarxistas ga-         a ascenso do fascismo e o desenvolvimento de
nharam uma ntida influncia atravs de sua          uma ditadura poltica e de uma economia estatal
elaborao dos princpios de uma sociologia          totalitria na Unio Sovitica.
marxista e de sua pesquisa inovadora em novos            Outros marxistas ocidentais, porm, que se
campos de investigao, entre os quais se in-        tornaram membros dos recm-formados par-
cluram os estudos do nacionalismo, do direito,      tidos comunistas, rejeitaram a concepo do
e do mais recente desenvolvimento do capitalis-      marxismo como sociologia cientfica e adota-
mo em seu estgio imperialista (ver AUSTRO-          ram dele uma viso mais leninista, como uma
                                                                                    marxismo     447


conscincia revolucionria incorporada em um             Os marxistas ocidentais, no perodo do en-
partido da classe operria, embora tenham exis-      tre-guerras, tiveram de enfrentar uma srie de
tido ou surgido diferenas considerveis entre       problemas: o fracasso dos movimentos revolu-
os principais expoentes desse ponto de vista,        cionrios nos pases capitalistas avanados, a
Korsch (1923), Lukcs (1923) e Gramsci               ascenso do fascismo, o carter mais totalitrio
(1929-35). Korsch, mais tarde (1938), rejeitou       do regime sovitico e ataques crticos a toda a
toda essa perspectiva dizendo que "a principal       idia de uma economia socialista planejada,
tendncia do materialismo histrico no  mais       iniciados por von Mises (1920, 1922), que tive-
`filosfica', mas sim a de um mtodo cientfico      ram seqncia em uma alentada controvrsia
emprico", e as anlises de Gramsci do estado        entre economistas conservadores, como Hayek
e da sociedade civil continham muitos elemen-        (1935) e, do lado do marxismo, especialmente
tos que poderiam ser, e foram, incorporados a        Lange (Lange e Taylor, 1938). No obstante, a
uma teoria sociolgica. Lukcs tambm mudou          influncia do pensamento marxista, predomi-
suas idias e, no prefcio a uma nova edio de      nantemente em uma forma leninista-stalinista,
sua antiga obra (1923 (1971)) referiu-se, de         cresceu durante os anos 30, em grande parte
forma autocrtica, a seu "messianismo revolu-        devido ao contraste entre o desenvolvimento
cionrio, utpico" e expressou dvidas quanto        bastante rpido e prolongado da economia so-
ao contedo e  validade metodolgica do tipo        vitica e as condies de crise econmica e
de marxismo que ele havia ento proposto. Os         depresso no mundo capitalista, bem como ao
primeiros textos de Korsch e Lukcs, porm,          reconhecimento da Unio Sovitica como gran-
tambm ajudaram a promover outra forma do            de oponente dos regimes fascistas. Mas entre os
pensamento marxista, com a criao do Ins-           prprios marxistas a crtica ao socialismo tota-
tituto de Pesquisa Social de Frankfurt, em 1923,     litrio continuou, e houve tambm dvidas
que mais tarde (nos anos 60) floresceu de forma      crescentes, mais vigorosamente expressas pe-
exuberante na teoria crtica da ESCOLA DE FRANK-     los pensadores da Escola de Frankfurt, a res-
FURT.                                                peito do papel poltico revolucionrio da classe
    Os problemas prticos de se construir uma        operria na sociedade capitalista.
sociedade socialista na Rssia ps-revolucio-            Esses temas continuaram a dominar o pen-
nria, em um pas principalmente agrrio e           samento marxista depois de Segunda Guerra
devastado pela Primeira Guerra Mundial, pela         Mundial. A extenso do sistema sovitico pela
guerra civil e pela interveno estrangeira, cria-   Europa Oriental, seguida por uma sucesso de
ram dificuldades de outro tipo para a teoria         levantes contra os novos regimes, dos anos 50
marxista. A maioria dos primeiros marxistas,         aos 80, produziu recentes crticas ao que era
como o prprio Marx, de qualquer maneira,            chamado de "socialismo real" e seus defensores
pouca ateno dera  questo de como uma             ortodoxos, e a influncia do marxismo sovitico
economia socialista e novas instituies sociais     foi se reduzindo incessantemente. Ao mesmo
e polticas seriam efetivamente organizadas,         tempo, a srie variada de teorias e doutrinas
limitando-se a descries gerais, como "o modo       conhecida como marxismo ocidental adquiriu
associado de produo" ou "uma sociedade de          influncia bem maior, incluindo a exercida so-
produtores associados" -- embora Kautsky             bre movimentos dissidentes na Europa Orien-
(1902) e os austromarxistas tenham de fato           tal, mas em condies muito diversas das que
examinado mais amplamente algumas das                predominaram nos anos do entre-guerras. De-
questes implcitas. Na Unio Sovitica, as di-      pois da Segunda Guerra Mundial, o capitalismo
ficuldades do desenvolvimento socialista fo-         entrou em fase de crescimento econmico ex-
ram aumentadas pela necessidade urgente de           cepcionalmente acelerado e prolongado, acom-
restaurao da economia destroada e da pro-         panhado na Europa Ocidental, sob a influncia
moo da rpida industrializao; e esse tor-        de movimentos socialistas que estavam agora
nou-se o ponto central dos intensos debates dos      mais fortes do que nunca, por uma ampliao
anos 20 sobre as polticas e programas do "pe-       da propriedade pblica, certo grau de plane-
rodo de transio", debates que foram final-        jamento econmico e o desenvolvimento do
mente encerrados pela ditadura de Stalin e a         que veio a ser chamado de "estado de bem-es-
imposio impiedosa da industrializao e da         tar". Na Europa Oriental, movimentos de revol-
coletivizao da agricultura.                        ta, especialmente na Hungria, em 1956, e na
448   marxismo


Tchecoslovquia, em 1968, e o rumo intei-            radicais), mas entre duas concepes alterna-
ramente diverso tomado pela Iugoslvia, a par-       tivas que podem ser amplamente categorizadas
tir de 1951, na construo de um sistema de          como "humanista" e "cientfica" (Bottomore,
autogesto operria, pareceram indicar que se        1988, "Introduo"). Os marxistas da primeira
acabaria alcanando, naquela parte da Europa,        categoria enfatizaram o contedo humanista,
uma forma de sociedade socialista democrtica.       democrtico ou emancipatrio da economia
De qualquer forma, contriburam para um no-          marxista, e as aes conscientes e intencionais
tvel reavivamento do pensamento marxista,           de indivduos e grupos sociais, enquanto os da
que agora se tornava amplamente difundido em         segunda estavam basicamente preocupados
pases ocidentais, no apenas na histria, na        com seu carter cientfico, explanatrio, e com
sociologia e na cincia poltica, onde h muito      o esquema conceitual e a teoria do conhecimen-
tinha um tipo de presena, mas na economia e         to caractersticos que lhe esto subjacentes.
na antropologia, na filosofia e na esttica. O       Ambas as orientaes envolveram pensadores
marxismo, assim, tornou-se um ponto focal de         marxistas em controvrsias muito mais amplas
importantes controvrsias que o colocaram em         sobre todo o campo das cincias sociais, da
novo relacionamento com outras correntes do          histria e da filosofia, a respeito de "estrutura"
pensamento social.                                   e "mediao humana" na vida social, da impor-
    Mas esse renascimento tambm aumentou a          tncia relativa de fatores culturais (ou ideolgi-
diversidade de concepes marxistas, influen-        cos) e sociais no desenvolvimento da sociedade
ciada tambm por uma difuso mais ampla de           e de questes metodolgicas fundamentais; e
alguns dos textos menos conhecidos do prprio        eles prprios deram contribuies substanciais
Marx, como os Manuscritos econmicos e filo-         a esses debates.
sficos (1844) e os Grundrisse (1857-58). A              Embora o marxismo tenha conservado um
Escola de Frankfurt, atravs dos textos de Theo-     lugar mais importante no pensamento social do
dor Adorno, Max Horkheimer e Herbert Mar-            que ocupara no incio do sculo, tornou-se me-
cuse, ganhou ampla influncia como crtica           nos influente nos anos 80 do que na dcada
cultural da sociedade burguesa, concebida co-        anterior, e teve de enfrentar problemas impor-
mo dominada pela "racionalidade tecnolgica"         tantes. Um destes  fornecer alguma anlise
e por uma correspondente orientao positivis-       convincente da estabilidade e crescimento do
ta/cientificista das cincias sociais, em vez de o   capitalismo no ps-guerra e,  luz dessa anlise,
ser por uma classe capitalista. Contra isso, o       reconsiderar a natureza, ou de fato a possi-
marxismo estruturalista de Louis Althusser, for-     bilidade, de uma transio para o socialismo
mado em parte pelo movimento estruturalista          como at agora concebido nos pases industriais
mais amplo (ver ESTRUTURALISMO), afirmou a           avanados, levando em conta especialmente o
importncia de se analisarem as estruturas pro-      aparente declnio de polticas especificamente
fundas das sociedades humanas, especialmente         de classe operria e a ascenso de vrias formas
seus modos de produo, e retratou o marxismo        de polticas no-classistas nos novos tipos de
como uma "nova cincia" dos diferentes nveis        MOVIMENTO SOCIAL. Problema ainda maior 
de prtica social, da qual o sujeito humano,         representado pelas mudanas nos pases de "so-
como ser autnomo ativo, foi eliminado. Em           cialismo real", que culminaram, no final dos
outra direo, o grupo Praxis, de filsofos e        anos 80, na derrubada dos regimes comunistas
socilogos iugoslavos, concentrou sua ateno        na maior parte da Europa Oriental e na acelera-
nos problemas de alienao nas sociedades tan-       o de mudanas fundamentais na Unio Sovi-
to capitalista quanto socialista estatal, bem co-    tica, em direo a uma economia mais orientada
mo no desenvolvimento e nas perspectivas do          para o mercado e a um sistema poltico mul-
socialismo autogestionrio, autogerenciado, e        tipartidrio. Uma vez que a maioria dos pases
seus textos exerceram um impacto particular          da Europa Oriental embarcou ento em uma
nos intelectuais da Europa Oriental.                 restaurao do capitalismo,  evidente que a
    O pensamento marxista desse perodo divi-        teoria marxista da histria, que no previu se-
diu-se no apenas entre um vigoroso marxismo         melhante transio inversa, do socialismo para
ocidental e um moribundo marxismo sovitico          o capitalismo, fica necessitando de uma reviso
(como uma breve incurso do maosmo como             drstica, e  uma resposta singularmente inade-
doutrina poltica que cativou alguns estudantes      quada dizer que os pases envolvidos no eram
                                                                             marxismo ocidental     449


realmente socialistas. O que se exige  uma           ca. Nem um terico trotskista como Ernest
anlise muito mais fundamental do desenvol-           Mandel, nem o famoso dissidente Rudolf Bahro
vimento do capitalismo e do socialismo no             so "marxistas ocidentais" no sentido filosfi-
sculo XX, e uma reorientao da teoria mar-          co. Por outro lado, muitos empreendimentos
xista, se isso  possvel, de ser bsica ou at       neomarxistas que se afirmaram a partir dos anos
exclusivamente uma anlise da ascenso, de-           60, como a histria revisionista de Perry Ander-
senvolvimento e prevista superao do capi-           son (1976), a economia de esquerda sraffiana
talismo para uma anlise que d igual ou maior        (isto , neo-ricardiana) da escola de Cambridge
destaque aos estudos do surgimento e desenvol-        e o "marxismo analtico" de Jon Elster e John
vimento do socialismo e das contradies e            Roemer, deveriam ser includos sob a rubrica
crises que podem ocorrer dentro de uma econo-         do marxismo ocidental.
mia e uma sociedade socialistas. Se essa reo-             Qual , ento, a differentia specifica do mar-
rientao de idias vir a ser acomodada dentro       xismo ocidental? O melhor meio de abordar a
de um esquema de pensamento que ainda seja            questo  examinar o contexto histrico de suas
reconhecivelmente uma forma de "marxismo              idias. Ele foi, antes e acima de tudo, um rep-
clssico", ou se marca o incio de uma era            dio ao marxismo da Segunda Internacional (So-
"ps-marxista",  algo que s o futuro dir.         cialista). A teoria marxista, depois da morte de
bvio, pelo menos, que no decorrer das poucas         Marx, havia assumido uma posio cada vez
ltimas dcadas o marxismo j se havia desen-         mais determinista. A partir da dcada de 1890,
volvido de tal modo que seu carter era menos         surgiu a doutrina de que as leis econmicas
o de uma nica e bem amarrada teoria, e mais          objetivas eram a fora motriz da histria e que
o de um amplo, embora ainda caracterstico,           a conscincia no passava de um reflexo da
paradigma dentro do qual diversos tipos de            realidade fsica e social. Nos anos 20 essas
explicao e interpretao so possveis; e          idias ainda eram sustentadas por tericos in-
evidente tambm que, nesse processo, seu papel        fluentes como Karl Kautsky e Nicolai Bukha-
como doutrina poltica, distinta da doutrina do       rin, tal como de fato o eram, em alguns contex-
socialismo em geral, foi grandemente atenuado,        tos, pelo prprio Lenin. Mas esses foram apai-
de forma que, no futuro,  muito provvel que         xonadamente contestados por jovens leninistas
partidos "marxistas" venham a ser uma espcie         do Ocidente: Lukcs, Bloch, Korsch e Gramsci.
de raridade.                                          Este ltimo chegou ao ponto de saudar a ascen-
                                                      so do comunismo ao poder, em 1917, como
Leitura sugerida: Avineri, Shlomo 1968: The Social
and Political Thought of Karl Marx  Bottomore, Tom,   "uma revoluo contra O capital", com o que
org. 1983 (1991): A Dictionary of Marxist Thought     quis dizer que fora um triunfo da histria sobre
 Kolakowski, L. 1978: Main Currents of Marxism        o determinismo histrico.
 Lichtheim, George 1961: Marxism: an Historical and       A expresso de Gramsci indicava a principal
Critical Study  McLellan, David, org. 1983: Marx:     motivao da revolta do marxismo ocidental
The First Hundred Years.
                                                      contra a Segunda Internacional: radicalismo
                                 TOM BOTTOMORE        impaciente, inflamado pela "luz de outubro" e
                                                      ditado por esperanas messinicas de redeno
marxismo, austro- Ver AUSTROMARXISMO.
                                                      humana (e no apenas social) atravs da revolu-
marxismo ocidental Considera-se em geral              o. Politicamente falando, os fundadores do
que esta modalidade de teoria marxista abrange        marxismo ocidental -- o quarteto acima men-
autores to diversos quanto Georg Lukcs, Er-         cionado -- partiram de variadas formas de es-
nst Bloch, Karl Korsch, Antonio Gramsci,              querdismo extremo, tais como o anarco-sin-
membros da Escola de Frankfurt e pensadores           dicalismo ou o comunismo de conselho, para a
franceses, de Jean-Paul Sartre em sua obra tar-       disciplina leninista, a posio final tanto de
dia a Louis Althusser e a primeira parte da obra,     Lukcs quanto de Gramsci, ainda que diferen-
ainda em evoluo, de Jrgen Habermas. Como           temente definida. A poltica leninista s seria
tal, ela cobre todo um corpo terico iniciado em      abandonada bem mais tarde, na Escola de Fran-
torno de 1920 e encerrado por volta de 1970.          kfurt do ps-guerra, com seu principal herdeiro
Nunca significou simplesmente marxismo no             e reformador, Habermas.
Ocidente, ou marxismo vindo do Ocidente para              Originalmente, o marxismo ocidental era o
se opor  ortodoxia marxista na Unio Soviti-        leninismo poltico sem o materialismo deter-
450   marxismo ocidental


minista rudimentar da filosofia leninista-sta-       jetaram no marxismo forte dose de Kulturkritik,
linista. No demorou a manifestar uma epis-          uma recusa baseada em princpios morais, dou-
temologia humanista, insistindo no contraste         trinria e indiscriminada  cultura da MODER-
(estranho igualmente a Marx, Engels, Kautsky         NIDADE. Sentiam-se profundamente constran-
e Lenin) entre a critique e a cincia (social). J   gidos com o industrialismo, indiferentes  de-
no concebia a anlise marxista como uma             mocracia liberal e bastante hostis  cincia e 
crtica da economia burguesa, mas sim como           ideologia. Essa sndrome ideolgica no era de
uma alternativa ao ponto de vista cientfico --      forma alguma predominante nas divergncias
com orgulho de sua dialtica plenamente de-          anteriores, por mais arrojadas que fossem, do
senvolvida. Tanto Kautsky quanto Bukharin            marxismo clssico, como no revisionismo fin-
haviam tacitamente remodelado o marxismo             de-sicle de Eduard Bernstein ou, um pouco
como uma sociologia histrica naturalista mais       mais tarde, no pensamento de Georges Sorel ou
ligada ao evolucionismo do que  dialtica, e        nas pesquisas seminais dos austromarxistas.
da mais prxima de Ernst Haeckel do que de          Ora, o prprio Marx -- como Hegel -- fora
Hegel. Mas os que iniciaram o marxismo oci-          grande admirador da modernidade, de forma
dental eram todos neo-idealistas, to baseados       que o marxismo ocidental, a esse respeito, re-
em Fichte e, acima de tudo, Hegel quanto os          presenta uma enorme inverso de perspectiva
austromarxistas (ver AUSTROMARXISMO) em              histrica dentro do campo marxista. A lgica
Kant, e sua inclinao filosfica lembrava vi-       da tese histrica, como o materialismo, foi por
vamente o hegelianismo de esquerda das dca-         gua abaixo.
das de 1830 e 1840.                                      O marxismo ocidental nasceu em forma de
    A redescoberta de fontes idealistas acompa-      livro com os ensaios coligidos por Lukcs em
nhou emprstimos tomados da cultura burguesa         Histria e conscincia de classe (como jus-
e, enquanto o jovem Lukcs devia muito a             tificativa da revoluo de Lenin) e em Marxis-
Georg Simmel, Wilhelm Dilthey e Max Weber,           mo e filosofia, de Korsch, ambos publicados em
Gramsci era influenciado por Benedetto Croce         1923. O heri conceitual de ambos os livros 
e os tericos italianos da elite, e os pensadores    um sujeito social, a conscincia revolucionria
da Escola de Frankfurt combinavam o tema da          do proletariado. A objetificao simplesmente
alienao com elementos nietzschianos, pers-         reflete os hbitos do sujeito: assim, enquanto a
pectivas freudianas e motivos modernistas.           reificao (m objetificao) reflete o mau su-
Quanto ao marxismo francs, a enorme sombra          jeito, isto , o capitalismo e a cultura burguesa,
de Heidegger assomava sempre ao fundo. Esse          o paraso revolucionrio se instalar to logo o
ecletismo funcionava em um esprito idealista,       proletariado atinja uma apreenso da totali-
e o mais comum era que fosse aplicado  anlise      dade. O "ponto de vista da totalidade"  para
de problemas culturais em vez de poltico-eco-       Lukcs a prpria essncia do marxismo, muito
nmicos (embora Gramsci se tenha especia-            mais importante que os "temas econmicos". O
lizado em cultura poltica). Tanto assim que        senso de totalidade  uma PRXIS consciente, e
possvel dizer da maior parte do marxismo oci-       a totalidade como prxis  autovitalizante -- 
dental que  um marxismo da superestrutura           um sujeito histrico global. E o sentido fun-
(ver BASE E SUPERESTRUTURA). Lukcs, Walter          damental do presente  revolucionrio porque
Benjamin, Theodor Adorno e Sartre esto entre        o trabalho alienado compreende diretamente a
os crticos literrios e estetas mais notveis de    reificao, isto , a desumanizao, como a
nossa poca. A conjuno de tema cultural e          alma do capitalismo.
epistemologia humanista aproxima o marxismo              Na verdade, o proletariado pode ou no exi-
ocidental da tradio hermenutica como uma          bir conscincia da totalidade; porm, se no o
busca neo-idealista mais de significados do que      faz, no importa, pois Lukcs achava que havia
de causas, e a maior parte dela  intencional-       uma "vontade coletiva destinada a fazer surgir
mente interpretativa e no explanatria.             a real liberdade" -- o Partido Comunista. Os
    Um ltimo aspecto geral do marxismo oci-         primeiros trabalhos de Lukcs haviam exposto
dental (notavelmente ausente, porm, em Kors-        uma mstica tica como sada para a decadncia
ch, Gramsci ou Althusser) foi a hostilidade         e, ao abraar o marxismo, ele preservou um
civilizao moderna. O jovem Lukcs, Bloch e,        moralismo messinico. Max Weber, de quem
mais especialmente, a Escola de Frankfurt in-        ele se tornou amigo em Heidelberg, descreveu-
                                                                          marxismo ocidental     451


o como um caso perfeito de "tica da convic-        Marcuse comeava a flertar com a rebeldia
o", muito longe do realismo responsvel. A        estudantil e os movimentos da contracultura. Os
revoluo foi quase separada das preocupaes       exilados da Escola de Frankfurt haviam trans-
materiais, enquanto o comunismo era levado a        formado o marxismo ocidental em mais um
personificar uma idia elevada da cultura como      romantismo do desespero. Sartre e Marcuse
o reino de uma vida significativa. Conforme o       estavam determinados a reanim-lo como um
prprio Lukcs mais velho reconheceu, a obra        romantismo da revolta.
inteira estava permeada de um "anticapitalismo          A onda seguinte, a do marxismo estruturalis-
romntico".                                         ta (ver ESTRUTURALISMO), liderada por Louis
    O romance do marxismo com a Kulturkritik        Althusser, reagiu asperamente ao primado da
continuou com os herdeiros de Lukcs, os fil-      conscincia em Lukcs e Sartre, mas acabou
sofos de Frankfurt Max Horkheimer e Theodor         produzindo um fundamentalismo altamente es-
Adorno. O livro que escreveram juntos, Dial-       colstico em torno do ideal da histria como
tica do esclarecimento (1947), tornou-se o se-      cincia. Duas evolues neomarxistas -- o de-
gundo evangelho do marxismo ocidental. O            bate anglo-francs sobre modos de produo e
programa de Horkheimer era "filosofia social":      o anglo-germnico sobre a natureza do estado
uma teorizao da mentalidade emprica, em-         capitalista -- comearam como derivaes de
bora diferente da cincia social "positivista" em   categorias althusserianas. Politicamente falan-
seu compromisso lukcsiano com a "apreenso         do, enquanto Sartre e Marcuse eram "esquer-
do todo". Mas os pensadores de Frankfurt dei-       distas", os althusserianos eram em geral maos-
xaram de lado o utopismo de Lukcs, bem como        tas e o prprio Althusser foi um dos ltimos
sua metafsica do sujeito e, com ela, o mito do     marxistas que renunciaram  ditadura do prole-
proletariado revolucionrio. Nos anos 40, es-       tariado.
tudaram o anti-semitismo em conexo com o               Gramsci era muito diferente, e seus Cader-
fascismo e a "personalidade autoritria", e de-     nos do crcere, escritos de 1929 a 1935, contm
pois da guerra abstiveram-se da anlise de clas-    peas soberbas, ainda que necessariamente
se, concentrando-se em uma condenao abran-        fragmentadas, de sociologia poltica, analisan-
gente da cultura moderna como "traio da           do de forma sutil a influncia recproca entre
razo". A razo como instrumento (a cincia)        mudana poltica e estrutura de classe. As ob-
foi acusada de trocar a emancipao pela re-        servaes de Gramsci sobre hegemonia de clas-
presso no sentido instintual, freudiano, e o       se e coligaes de classe, sobre tipos de revolu-
papel da "teoria crtica" tornou-se uma espcie     o e modernizao e sobre o papel dos intelec-
de resistncia pessimista  cultura de massa,       tuais so revigorantemente livres do rude deter-
tanto ao capitalismo quanto ao socialismo. Pos-     minismo econmico do marxismo vulgar, sem
teriormente esses dois regimes seriam equacio-      carem na teorizao rida de grande parte do
nados como formas repressivas, "unidimensi-         marxismo ocidental. Ao mesmo tempo que par-
onais" de sociedade por Herbert Marcuse. Nas        ticipava de sua rejeio ao determinismo e ao
mos de Adorno, a dialtica tornou-se a eptome     historicismo, ele foi diferente dos pensadores
de um marxismo arcano em seu livro Dialtica        alemes por estar isento do pathos da Kul-
negativa (1966). Surgiu um estranho "marxis-        turkritik; e, embora leninista, tentou seriamente
mo sem proletariado", desprovido de luta de         orientar o comunismo em uma direo no-sec-
classes e de otimismo histrico. O fim de Hor-      tria, protodemocrtica, misturando socialismo
kheimer foi um retorno a Schopenhauer e            e cultura popular. Suas posies viriam a ins-
religio.                                           pirar o eurocomunismo, meio sculo depois de
    O radicalismo marxista ocidental, no entan-     sua morte em seguida a um longo perodo de
to, no havia morrido. J o talentoso ensasta      crcere nas mos do regime fascista.
Walter Benjamin combinava ou alternava uma              Tanto o esprito democrtico quanto a eli-
poltica radical com uma epistemologia irracio-     minao da Kulturkritik tambm destacam os
nalista e o mais profundo pessimismo histrico      textos copiosos do principal pensador da Escola
indisfarado em suas "Teses sobre a filosofia da    de Frankfurt, Jrgen Habermas. O mago da sua
histria" (1939-40, in Benjamin, 1955). Nos         reconstruo da teoria crtica  uma tentativa de
anos 60, enquanto Jean-Paul Sartre tentava uma      garantir o conhecimento como emancipao
fuso do existencialismo com o marxismo,            atravs de uma tica comunicativa: "O paradig-
452   massa, cultura de


ma no  mais a observao, mas o dilogo." A           sculo XX afirmava que a mente consiste em
teoria crtica sofre uma "virada lingstica" si-       aes ou mesmo movimentos externos. No ter-
milar  do ltimo Wittgenstein ou  hermenu-           ceiro quartel do sculo, ficou claro que o com-
tica de Gadamer. Diferentemente desses auto-            portamentalismo aproveitou-se, para dizer o
res, Habermas no  nenhum relativista -- na            mnimo, de uma confuso entre significado e
verdade, ele  hoje em dia o principal contes-          fundamentos empricos. A forma predominante
tador do pensamento arqui-relativista e ctico          de materialismo, o materialismo do estado cen-
de pensadores ps-estruturalistas como Fou-             tral (MEC), defendido por D. Armstrong, U.T.
cault, Derrida e Lyotard. Em sua obra recente           Place e J.J.C. Smart, implicava trs estgios: (1)
(1981), o marxismo ocidental, do abandonar os           a anlise de afirmaes mentais prima facie,
ltimos vestgios da luta de classes, dilui-se em       tais como "estou pensando agora", como "to-
um neo-evolucionismo enciclopdico, centra-             picamente neutras", isto , nada dizendo a res-
do na macro-histria da "ao comunicativa".            peito da natureza do processo envolvido; (2) a
Leitura sugerida: Anderson, P. 1976: Considerations
                                                        definio de um estado mental, tanto em oposi-
on Western Marxism  Geuss, Raymond 1981: The Idea       o  viso clssica como arena interna quanto
of a Critical Theory: Habermas and the Frankfurt        ao comportamentalismo como ato externo, co-
School  Held, D. 1980: Introduction to Critical Theo-   mo um estado (real) de uma pessoa apta 
ry: Horkheimer to Habermas  Jacoby, Russell 1981:       produo de certos tipos de comportamento
Dialectic of Defeat: Contours of Western Marxism        fsico, de forma que a mente  vista como uma
 Jay, Martin 1973: The Dialectical Imagination: a
History of the Frankfurt School and the Institute of
                                                        arena interna identificada por suas relaes cau-
Social Research, 1923-50  Merquior, J.G. 1986: O        sais com o ato externo; e (3) a identificao
marxismo ocidental.                                     especulativa desses processos internos com os
                                     J.G. MERQUIOR      procedimentos fsico-qumicos do crebro ou,
                                                        mais completamente, do sistema nervoso cen-
massa, cultura de Ver CULTURA DE MASSA.                 tral. O MEC  mais plausivelmente interpretado
                                                        como um princpio regulador ou programa de
massa, sociedade de Ver SOCIEDADE           DE MAS-
                                                        pesquisa, apoiado por comprovaes neurofi-
SA.
                                                        siolgicas. Mas a comprovao da reduo im-
materialismo Em seu sentido mais amplo, o               plcita no estgio 3  suspeita; e afirmou-se que
materialismo afirma que qualquer coisa que              o MEC enfrenta dificuldades insuperveis de
exista  apenas matria, ou pelo menos depende          anlise, bem como para sustentar a causalidade
dela. (Em sua forma mais geral, ele pretende            e a interao social (Bhaskar, 1979 (1989),
que toda a realidade seja essencialmente mate-          cap.4, sees 4 e 5). O materialismo eliminat-
rial; em sua forma mais especfica, que a reali-        rio (M El), possivelmente defendido de forma
dade humana assim .) Na tradio marxista, o           mais convincente por P. Churchland, inves-
materialismo normalmente  do tipo no-redu-            tigando em maior profundidade os textos de P.
tivo mais fraco. O materialismo pode ser en-            Feyerabend, W.V.O. Quine e R. Rorty, rejeita a
carado como uma "operao de conteno"                 anlise "topicamente neutra" (estgio 1), no
contra formas de idealismo que afirmem a exis-          oferecendo uma anlise revisionista de termos
tncia de entidades abstratas, tais como valores        mentalsticos prima facie, mas negando que as
universais (a no ser que identificados como            afirmaes nas quais eles ocorrem possam ser
propriedades de coisas materiais), seres ou             verdadeiras. Mas no fica claro que o M El
mentes sobrenaturais (a no ser que identifica-         possa ser coerentemente expresso. Outros fil-
dos com, ou pelo menos baseados em, proces-             sofos realistas, opondo-se s implicaes deter-
sos corpreos); e contra explicaes que in-            ministas e reducionistas tanto do MEC quanto
voquem tais entidades. Os materialistas, assim,         do M El, contrapuseram a isso uma viso das
excluem a possibilidade da existncia incor-            mentes como formas de matria causalmente
prea e so metafisicamente orientados contra           (e taxonomicamente) irredutveis, porm de-
o dualismo. Neste artigo, considerarei primeiro         pendentes. Por exemplo, na posio do ma-
o materialismo na esfera da filosofia da mente,         terialismo de poderes emergentes sincrnicos
antes de passar ao materialismo marxista.               (MPES), apresentada por R. Bashkar, a mente
    Opondo-se ao cartesianismo clssico, o               concebida, no como uma substncia, seja
COMPORTAMENTALISMO de incio e meados do                material ou imaterial, mas como um complexo
                                                                                  materialismo     453


de foras. Isso tem analogias com o "funciona-      a incapacidade de distinguir () e () como dois
lismo" de H. Putnam.                                aspectos da unidade de objetos conhecidos le-
    As "teorias de duplo aspecto", revividas por    vou a tendncias tanto ao idealismo episte-
P. Strawson, costumam ser encaradas como            molgico (reduo de () a () de Georg Lu-
espcies de materialismo -- devido a elas, men-     kcs e Antonio Gramsci a Leszek Kolakowski
te e matria so dois modos de uma nica            e Alfred Schmidt), quanto  reverso ao ma-
substncia. Mas sofrem de um compromisso            terialismo contemplativo tradicional (reduo
ontolgico ambivalente. Se os atributos men-        de () a () de Engels e Lenin a Della Volpe e
tais so reais (irredutvel e causalmente efi-      os expoentes contemporneos da "teoria da re-
cazes), ento representam MPES; se no, MEC.        flexo"). E, adequadamente, a incapacidade de
Por outro lado, se a questo  evitada, ento no   distinguir () e () como dois aspectos da uni-
existe nenhum critrio no-subjetivo para a atri-   dade da atividade transformadora (ou como a
buio de quaisquer estados mentais. O epi-         dualidade de prxis e estrutura) resultou tanto
fenomenalismo, s vezes ainda apoiado, tem          em individualismo e voluntarismo sociolgico
dificuldades em fazer justia ao fenmeno de        (reduo de () a () como em, por exemplo,
nossa mediao.                                     Jean-Paul Sartre) quanto em determinismo e
    Foi isso que o primeiro Marx enfatizou ao       reificao (reduo de () a () como em, por
elaborar seu materialismo prtico (MP), afir-       exemplo, Louis Althusser).
mando o papel constitutivo da mediao trans-           O marco da tradio materialista dialtica
formadora humana na reproduo e transforma-        (ver tambm MATERIALISMO DIALTICO) foi a
o de formas sociais. O materialismo histrico     combinao de uma dialtica da natureza com
(MH), afirmando a primazia causal do MODO DE        uma teoria reflexionista do conhecimento. Am-
PRODUO dos seres humanos e de seu ser natu-       bas foram rejeitadas por Lukcs no texto semi-
ral (fsico), ou do processo de trabalho de ma-     nal do marxismo ocidental, Histria e cons-
neira mais geral, no desenvolvimento da his-        cincia de classe (1923), em que tambm se
tria humana, consiste em uma elaborao            afirmava que eram mutuamente incompatveis.
substantiva do MP. Tem razes no materialismo       Em geral, quando o marxismo ocidental foi
ontolgico (MO), afirmando a dependncia            simptico a motifs dialticos, foi hostil ao ma-
unilateral do ser social sobre o ser biolgico (e   terialismo. Por outro lado, quando o marxismo
mais geralmente fsico), o surgimento do pri-       ocidental apregoou seu materialismo, este era
meiro a partir do ltimo e a subseqente eficcia   em geral de um tipo exclusivamente episte-
causal do primeiro sobre o ltimo (cf. MPES).       molgico, como em Althusser, Della Volpe e
E pressupe um materialismo realista cient-        Lucio Colletti; e onde foram abordados tpicos
fico, ou materialismo epistemolgico (ME),          ontolgicos, como na reenfatizao por S. Tim-
afirmando a existncia independente e a efic-      panaro do papel da natureza na vida social, a
cia transfactual de pelo menos alguns dos obje-     discusso era em geral comprometida por um
tos do pensamento cientfico.                       irrefletido realismo emprico.
    S podemos tratar aqui, com algum deta-             Em qualquer discusso do materialismo, es-
lhamento, do MP. A "Primeira Tese sobre             preita o problema de uma definio de matria.
Feuerbach" (ver Marx, Early Writings, 1975,         Para o MP de Marx, que se restringe  esfera
p.421-2) implica uma distino entre (), obje-      social (incluindo,  claro, a cincia natural) e no
tividade ou externalidade como tal, e (), obje-     qual "materialismo" deve ser entendido como
tificao como a produo de um sujeito ou, na      "prtica social", no surge nenhuma dificul-
terminologia do realismo cientfico moderno,        dade. Mas de Engels em diante o materialismo
entre os objetos intransitivos do conhecimento      marxista teve pretenses mais globais, e surge
e a atividade transitiva da produo do co-         ento a dificuldade de que, se uma coisa mate-
nhecimento. A "Sexta Tese" (ibid., p.423) acar-     rial  encarada como um ocupante duradouro
reta uma distino entre (), a atividade inten-     de espao capaz de ser perceptivamente iden-
cional humana, e (), a reproduo ou transfor-      tificado e reidentificado, os muitos objetos do
mao das formas historicamente sociais e pre-      conhecimento cientfico, embora dependentes
viamente existentes, dadas como condies e         de coisas materiais para sua identificao, so
veculos dessa atividade, mas reproduzidas ou       imateriais. Fica claro que, quando se distingue
transformadas somente nela. Adequadamente,          entre ontologias cientficas e filosficas, tais
454   materialismo dialtico


consideraes no necessitam, conforme viram           uma tentativa de evitar o reducionismo sem
tanto Bertrand Russell quanto Lenin, refutar o         reverter ao dualismo. Isso normalmente provo-
materialismo filosfico. Mas qual , ento, o          cou uma guerra de posies em duas frentes --
seu contedo? Alguns "materialistas" aderiram          contra variados tipos de "objetivismo" e contra
 idia da cognoscibilidade exaustiva do mundo         variados tipos, formalmente contrapostos, mas
pela cincia. Essa parece uma presuno ex-            efetivamente complementares ou interdepen-
traordinariamente antropocntrica -- at mes-          dentes, de "subjetivismo" (Bhaskar, 1989,
mo idealista. Por outro lado, a suposio mais         p.131-2). Seria ento a inteno do materialis-
fraca de que qualquer coisa cognoscvel deve           mo marxista transformar a problemtica co-
ser cognoscvel pela cincia, se no  tautol-        mum, colocando dessa forma em destaque tanto
gica, apenas desloca a verdade do materialismo         os erros quanto as percepes parciais da velha
para a viabilidade do NATURALISMO em dom-             simbiose.
nios particulares.
                                                       Leitura sugerida: Armstrong, D. 1968: A Materialist
    Por tais motivos, seria possvel sentir-se ten-    Theory of Mind  Bhaskar, Roy 1979 (1989): The Pos-
tado a tratar o materialismo mais como prise de        sibility of Naturalism, 2ed.  Churchland, P. 1979:
position do que como conjunto de teses quase           Scientific Realism and the Plasticity of Mind  Labica,
descritivas, e mais especificamente como: (a)          G. 1976: Le statut marxiste de la philosophie  Putnam,
uma srie de negativas, em grande parte (lem-          H. 1976: "The mental life of some machines". In The
                                                       Philosophy of Mind, org. por J. Glover  Rorty, R.
brando que Hegel pde plausivelmente afirmar
                                                       1980: Philosophy and the Mirror of Nature, parte 1
que a histria da filosofia  a histria do idealis-    Soper, Kate 1981: On Human Needs  Timpanaro, S.
mo) de afirmativas da filosofia tradicional, com       1976: On Materialism.
respeito  existncia de Deus, almas, formas,                                                ROY BHASKAR
idias, dados sensoriais, deveres, o absoluto e
assim por diante, ou a impossibilidade (ou s-          materialismo dialtico Elaborada pela pri-
tatus inferior) da cincia ou da felicidade ter-       meira vez por Lenin e G. Plekhanov, no contex-
rena; e (b) como base indispensvel para tais          to da luta revolucionria na Rssia, para desig-
negativas, um compromisso com sua explica-             nar a filosofia marxista, essa expresso  tam-
o cientfica como modos de conscincia ou            bm usada para identificar as partes da filosofia
ideologia falsos ou inadequados. No entanto tal        marxista que lidam com a ontologia, a metaf-
orientao ainda pressupe alguma explicao           sica e a teoria do conhecimento, mas excluindo
positiva da cincia (ideologia etc.). Na verdade,      o "materialismo histrico" (filosofia social), a
pode ser mais fcil justificar o materialismo,         esttica e a tica. Houve ainda uma utilizao
como explicao da cincia e do cientificismo          ritualstica da expresso, como um selo afixado
do que justific-lo per se; e talvez apenas essa       a textos aprovados pelas, ou pretendendo a
explicao e essa defesa especficas do                aprovao das, autoridades na Unio Sovitica,
materialismo sejam compatveis com a crtica           na Repblica Popular da China e nos pases
de Marx ao pensamento hipostasiado e abstrato          "socialistas" do Leste Europeu (o que era "ofi-
(por exemplo, na "Segunda Tese sobre Feuer-            cial" ou "aprovado" variava de pas a pas e no
bach" (ibid., p.422)).  significativo, neste pon-     correr do tempo). Os dogmas bsicos do ma-
to, que uma explicao realista transcendental         terialismo dialtico so o materialismo filos-
do materialismo seja congruente com uma                fico, a possibilidade do conhecimento, a aceita-
emergente orientao naturalista para os po-           o do desenvolvimento (e, assim, a aceitao
deres.                                                 de propriedades emergentes e da irredutibili-
    A importncia dessa ltima considerao           dade de algumas diferenas).
que, desde Marx e Engels, o marxismo tem                   O "materialismo" presume que a matria, ou
conduzido uma dupla polmica: contra o idea-           corpo, tem "primazia" em relao  mente ou
lismo e contra um materialismo vulgar, redu-           esprito. "Primazia" significa que as mentes no
cionista ou "no-dialtico" -- (isto , mate-          so capazes de existir sem corpos, enquanto
rialismo contemplativo (Marx) ou mecnico              estes podem existir sem serem continuamente
(Engels). E o projeto de elaborar uma explica-         dependentes das mentes como condio neces-
o ou crtica "materialista" satisfatria de al-      sria a sua existncia. Marx atribuiu o pen-
gum tema, caracteristicamente louvado pelo             samento  categoria das atividades corpreas (o
idealismo, na prtica tem significado, em geral,       pensamento sendo a atividade do crebro, en-
                                                                         materialismo dialtico     455


quanto o caminhar envolve outras partes do          pensamento humano entre objetos do pensa-
corpo). As expresses "matria" e "realidade        mento sejam ao mesmo tempo relativas e reais.
objetiva" so plenamente intercambiveis.           O conceito de desenvolvimento no  neces-
Aceitam-se as relaes de retroalimentao en-      sariamente aplicado ao mundo como um todo e
tre corpos e idias. O materialismo  tido como     no h necessidade de se aceitar uma histria
um pressuposto bsico da cincia moderna, e         unilinear do desenvolvimento.
considera-se que o sucesso das utilizaes tec-         Ningum efetivamente conseguiu produzir
nolgicas das cincias naturais fornece motivos     uma teoria especfica e sistemtica que una, de
bsicos para o apoio ao materialismo. A aceita-     maneira no trivial, dialtica e materialismo.
o do primado da matria sobre a mente  visto     Georg Lukcs, Della Volpe e muitos filsofos
como resultado no apenas de uma prova, mas         da Unio Sovitica apresentaram razes hege-
tambm de uma escolha pessoal que logica-           lianas para tal teoria. M. Cornforth interpretou
mente precede o raciocnio filosfico.              o materialismo dialtico como um programa de
    Os marxistas utilizam as palavras "agnos-       pesquisa ou um conjunto de restries e condi-
ticismo" e "ceticismo" para designar filosofias     es capacitantes paradigmticas. Alguns mar-
que negam a possibilidade do conhecimento.          xistas britnicos e soviticos opuseram-se 
Muitos marxistas ocidentais descrevem sua           "dialtica da natureza" e s vezes restringiram
prpria posio como uma variedade de realis-       o materialismo dialtico  filosofia social. Es-
mo, enquanto filsofos soviticos no aplica-       sas posies implicam que as filosofias po-
ram qualquer rtulo para descrever sua prpria      dem ser dialticas e materialistas, mas que no
posio dentro da teoria do conhecimento (ver       pode haver um materialismo dialtico. Assim,
CONHECIMENTO, TEORIA DO). A posio da maio-        algumas filosofias analticas podem ser rotula-
ria era de que tudo pode ser conhecido em           das como dialticas e materialistas, enquanto
princpio, contanto que haja evidncias dis-        outros textos analticos podem ser dialticos e
ponveis, mas o conhecimento absoluto  ina-        idealistas ( parte os casos limtrofes e o ecletis-
tingvel por indivduos particulares. Considera-    mo). Muitos tratados soviticos sobre dialtica
se que a prova dessa proposio  alcanvel        restringiram-se a dar exemplos de aplicao
fora da esfera do pensamento. A capacidade          para algum conceito dialtico, embora esse uso
humana de usar uma teoria para produzir al-         seja publicamente condenado at pelos que o
guma coisa prevista por essa teoria significa que   praticam.
alguns aspectos desta constituem conhecimen-            Karl Marx tentou, em 1843-44, substituir o
to de seus objetos.                                 idealismo hegeliano por uma filosofia mate-
    "Desenvolvimento"  em geral compreen-          rialista. Por volta de 1845 ou 1846, comeou a
dido com a ajuda de conceitos dialticos (cha-      atribuir a filosofia  "ideologia", isto , uma
mados de "categorias de dialtica"): diferena,     forma de pensamento usada para discutir ques-
oposio, conflito, contradio, qualidade e        tes reais como questes dentro daquela forma
quantidade, essncia e aparncia, condio e        de pensamento (a substituio  feita incons-
causa, efetivo e possvel, e assim por diante. O    cientemente). As formas ideolgicas eram as
conjunto de categorias  um conjunto aberto.        nicas disponveis  humanidade antes do ca-
Geralmente se incluem conceitos discutidos por      pitalismo. Marx agora alegava que a ideologia
Aristteles e Hegel, mas os filsofos esto         tinha de ser substituda pela cincia emprica.
constantemente tentando acrescentar novos           Nem Marx nem seu principal colaborador, En-
conceitos. As categorias so encaradas como         gels, estavam interessados em construir uma
correspondentes a alguns aspectos da realidade;     teoria sistemtica do conhecimento, e no acha-
assim, fala-se de dialtica objetiva (desenvol-     vam que esta fosse uma parte importante da
vimento no mundo real), dialtica subjetiva         filosofia.
(desenvolvimento de idias) e dialtica como            Foram autores russos do final do sculo XIX
"teoria" (um modo de entender o desenvol-           e incio do sculo XX (Plekhanov, A.M. Debo-
vimento). A palavra "metafsica"  s vezes         rin, Lenin) que desenvolveram o materialismo
usada como um nome para modos de pen-               dialtico, e depois da revoluo bolchevique
samento que reduzem o desenvolvimento a mu-         passou a haver ocupaes pagas para filsofos
dana, ou no aceitam mudana alguma, ou no        que aceitassem o materialismo dialtico, de
aceitam que as distines estabelecidas pelo        modo que seus textos se tornaram mais nume-
456    mediao


rosos. Entre 1930 e 1955, as discusses filos-          mediao Ver AO E MEDIAO.
ficas entre marxistas eram reprimidas, a pu-
blicao de livros e artigos tornou-se prati-            medicina Todas as sociedades tm meios de
camente inexistente e o ensino da filosofia na           interpretar e compreender o fenmeno da doen-
Unio Sovitica foi grandemente reduzido. A              a. Fatores to diversos quanto os astros, os
filosofia sovitica reemergiu da obscuridade             pecados, o tempo e a constituio de uma pes-
entre 1955 e 1970. A teoria do conhecimento              soa foram usados no passado como base para
tornou-se parte importante da filosofia e evo-           arcabouos explanatrios; mas a explicao
luiu para uma espcie de realismo pragmtico,            predominante, no sculo XX, no Ocidente -- e
lidando com a cincia moderna. Outros temas              cada vez mais em todo o mundo -- baseia-se
importantes foram o status ontolgico da men-            em uma teoria da doena que apareceu pela
te, as relaes mente-corpo e o significado e            primeira vez no final do sculo XVIII nos hos-
mbito da dialtica. Os autores soviticos mais          pitais parisienses (Ackerknecht, 1967).
influentes foram Kedrov, Kopnin, Lektorski,                  Se, por um lado, a perspectiva mdica an-
Ilienkov. Filsofos poloneses e alemes orien-           terior havia sustentado que uma caracterstica
tais desempenharam papel importante nesses               importante da doena era o seu movimento, a
desdobramentos; Schaff e G. Klaus foram os               nova medicina dos hospitais fazia a afirmao
mais notveis do Leste Europeu. Textos italia-           radical de que ela podia ser localizada em ano-
nos, franceses e ingleses desenvolveram-se des-          malias especficas de estruturas anatmicas --
de 1945 (com algumas excees, raramente                 as chamadas leses patolgicas -- dentro do
eram conhecidos na Unio Sovitica ou na Eu-             corpo, e a elas atribuda. Essa anlise, ao mesmo
ropa Oriental). Autores britnicos e norte-ame-          tempo, justificava a hospitalizao do paciente
ricanos tentaram produzir uma teoria analtica           (ou seja, colocao do corpo em um cenrio
e materialista dialtica do conhecimento (M.W.           neutro) para que mdicos profissionais pudes-
Wartofsky, R. Bhaskar, A. Callinicos).                   sem praticar suas recm-descobertas habilida-
    O hegelianismo era forte na Unio Soviti-           des no exame clnico (a localizao da leso) e
ca, enquanto Bachelard e Michel Foucault so             na autpsia (que permitia que a verdade sobre
populares entre os que superaram a viso de que          a leso se revelasse aos olhos do mdico) (Fou-
Hegel fornece o paradigma ideal de como se               cault, 1963).
deve fazer filosofia. Na Unio Sovitica e na                Esse novo modelo de doena foi extraor-
Polnia, a teoria do conhecimento era em geral           dinariamente bem-sucedido: sistemas rivais de
analtica, usando a lgica como instrumento              medicina foram rapidamente eliminados, en-
mais importante. Houve numerosas crticas aos            quanto se construam hospitais por toda a Eu-
filsofos no-marxistas. Para os filsofos dos           ropa e Amrica do Norte, e a profisso mdica
pases "socialistas", essas crticas em geral pro-       organizava sistemas de credenciamento pelo
porcionavam um meio de substituir a filosofia            estado para marginalizar e eliminar os "inqua-
supostamente sob crtica pelo materialismo dia-          lificados" no tratamento dos doentes (Starr,
ltico. O marxismo analtico ocidental tem tido          1982). Assim, no incio do sculo XX uma forte
um desenvolvimento importante desde os anos              biomedicina (como  geralmente chamada)
70. Ele deixou de lado o essencialismo dialti-          com base na patologia estava firmemente esta-
co e o apoio nos conceitos tradicionais de dia-          belecida e em posio de se beneficiar do e-
ltica. S  dialtico no sentido amplo em que           norme aumento de recursos dedicados  assis-
toda a filosofia analtica moderna  dialtica.          tncia e sade durante o resto do sculo, em
                                                         particular atravs do empenho dos governos em
Leitura sugerida: Callinicos, A. 1983: Marxism and       programas pblicos de assistncia de sade pa-
Philosophy  Cornforth, M. 1980: Communism and Phi-       ra suas populaes (ver SADE).
losophy: Contemporary Dogmas and Revisions of Mar-
                                                             Apesar da continuidade e do predomnio de
xism  Della Volpe, G. 1950 (1980): Logic as a Positive
Science  Graham, L.R. 1987: Science, Philosophy and      uma abordagem biomdica da doena por todo
Human Behaviour in the Soviet Union  Scanlan, J.P.       o sculo XX -- com seu olhar estreito voltado
1985: Marxism in the URSS: A Critical Study of Current   para a leso patolgica bem no fundo do corpo
Soviet Thought  Wartofsky, M.W. 1979: Models: Rep-       --, surgiu um interesse paralelo pelo mundo
resentation and the Scientific Understanding.            social e psicolgico do paciente (Armstrong,
                                        EERO LOONE       1983). Durante meados do sculo XIX, o mo-
                                                                                     medicina     457


vimento de sade pblica havia obtido sucesso          Outros comentaristas tm se mostrado mais
em melhorar as condies de vida da populao      crticos. Se uma medicina dos corpos podia ser
atravs de medidas voltadas para a higiene am-     censurada por objetificar esses mesmos corpos,
biental, tais como saneamento, inspeo dos        ento uma medicina que monitora o funcio-
alimentos e descontaminao da gua potvel.       namento psicossocial do paciente tem efeitos
De fato, chegou-se a afirmar que os progressos     anlogos sobre a totalidade do paciente. Em
nas condies de sade da populao desde          suma, a medicina permanece acusada de medi-
meados do sculo XIX so resultado desses          calizar a vida social, reduzindo os sentimentos,
programas de ao social, mais que das aes       as cognies e o comportamento a apenas ou-
dos mdicos tomadas isoladamente (McKe-            tros "fatores" que necessitam de adequada
own, 1979). Depois de sua "idade de ouro", a       orientao e tratamento (Arney e Bergen,
sade pblica rotinizou-se e foi negligenciada;    1984). Por um lado, diz-se que isso retira a
foi porm revivida nos primeiros anos do sculo    responsabilidade dos pacientes autnomos,
XX com a descoberta do social como um novo         convencendo-os a buscar o conselho mdico e
espao no qual a doena podia manifestar-se. O     a se tornarem dependentes deste para todos os
reconhecimento de um elo entre "fatores so-        aspectos da vida (Illich, 1978); e, por outro lado,
ciais" e enfermidades tais como a tuberculose e    a mudana no sentido de enfatizar a auto-res-
as doenas venreas formou a base dessa nova       ponsabilidade pela sade significa uma carga
medicina social. Em sua forma mais recente,        adicional de estigmatizao quando as pessoas
geralmente chamada de "nova sade pblica",        "fracassam" nessa tarefa (Crawford, 1977).
a nfase  atribuda  regulao de estilos de
                                                       Uma terceira reao  expanso da esfera
vida atravs de atividades para a promoo da
sade, e h uma crena em que os indivduos        da medicina para o mundo psicossocial do
deveriam comear a assumir a responsabilidade      paciente foi trat-la como nem libertadora nem
pela manuteno de sua prpria sade (Martin       repressiva, mas como refletindo outra faceta da
e McQueen, 1989).                                  relao multplice entre medicina e sociedade.
    Paralelamente ao surgimento de preocupa-       Desde o significado das doenas mdicas, tais
es com a sade geral da populao, a medi-       como o cncer e a tuberculose, como metforas
cina clnica comeou a reconhecer a importn-      no pensamento leigo (Sontag, 1979), at o
cia do mundo psicossocial do paciente como         impacto dos modelos orgnicos de equilbrio
indivduo. Essa mudana pode ser observada         na teoria social, as idias mdicas tm alimen-
particularmente na psiquiatria, que se afastou     tado o social. As influncias na direo oposta
de sua preocupao exclusiva com a insani-         so mais sutis, porm mais profundas. Vo do
dade, conforme ocorria no sculo XIX, voltan-      reconhecimento de que grande parte do que
do-se para os problemas de superao das difi-     passa por conhecimento esotrico e tcnico na
culdades cotidianas, como encontrados nos          verdade se baseia no conhecimento leigo
problemas clnicos da ansiedade e da depresso     (Hughes, 1977), at a afirmao de que todo o
(ver PSIQUIATRIA E DOENA MENTAL; DEPRESSO        conhecimento mdico incorpora representa-
CLNICA).                                          es sociais. Assim, a categoria de doena que
    A ampliao da medicina para reas da vida     a medicina l como fenmeno biolgico  ela
social, atravs tanto da medicina social quanto    prpria um artefato social: a diferena entre
das preocupaes de uma medicina clnica cada      normal e anormal na medicina (fisiologia e
vez mais orientada para o psicossocial, provo-     patologia) precisa estar enraizada em afirma-
cou inmeras reaes. Uma delas foi a boa          es normativas sobre como o corpo deve fun-
acolhida da mudana de nfase como huma-           cionar. Nesse sentido, todas as doenas, apesar
nizante e libertadora. Em vez de objetificar os    de sua manifestao biolgica, codificam ava-
pacientes como nada alm de corpos fsicos, o      liaes sociais do que deve contar como normal
reconhecimento dos aspectos psicossociais da       em qualquer sociedade particular. Uma amplia-
doena significa que os pacientes tm sua auto-    o adicional dessa abordagem  o argumento
nomia e sua dignidade respeitadas; a identifica-   de que no apenas a fronteira entre o normal e
o, no final do sculo XX, do paciente como       o anormal tem derivao social como o prprio
consumidor  apenas um componente dessa            contedo da patologia reflete um modo his-
viso mais orientada para o paciente.              toricamente posicionado de ler a natureza do
458   meios de comunicao


corpo (Armstrong, 1983) e da mente (Rose,               A? A desigualdade social  maior no pas A do
1990).                                                  que no B? A mobilidade social intergeraes
    Durante o final do sculo XX, a medicina            vem aumentando ou decrescendo, no pas A, na
tem mantido uma ascendncia sobre uma cada              ltima dcada?
vez mais complexa diviso do trabalho pela                  Enquanto essas perguntas demonstram que
sade: de muitas maneiras, a mudana para as            as cincias sociais no tm como evitar a men-
reas psicossociais pode ser encarada como              surao, ilustram tambm as dificuldades de
parte de uma estratgia de manuteno da he-            mensurao nessas cincias. Etnometodlogos
gemonia sobre a provncia da doena. No obs-           e fenomenlogos tm afirmado com razo que
tante, j se vem sinais de independncia por           medir, digamos, taxas de suicdio pode ser uma
parte de outros profissionais de assistncia de         coisa sem sentido, uma vez que a definio
sade, como as enfermeiras, e uma utilizao            social de suicdio varia no tempo e no espao,
crescente, por parte do pblico, de mdicos             e registrar uma morte como suicdio  uma
alternativos e complementares; ao mesmo tem-            deciso social influenciada por muitos fatores.
po, a biomedicina est tendo de enfrentar de-           Essas objees, no entanto, deveriam ser relativi-
safios  sua efetividade e eficincia (Cochrane,        zadas: se por um lado  verdade que medidas
1972), bem como restries importantes em seu           como as das taxas de suicdio no devem ser
futuro financiamento. Tomadas em conjunto,              aceitas pelo que de imediato paream ser, podem
essas observaes indicam um crescente de-              proporcionar afirmaes comparativas "fracas"
safio ao quadro predominante da medicina no             confiveis (como em: "as taxas de suicdio pare-
qual a doena  conceitualizada.                        cem aumentar do tempo 1 para o tempo 2"; "So
Leitura sugerida: Armstrong, D. 1983: The Political     maiores no pas A do que no pas B").
Anatomy of the Body: Medical Knowledge in Britain in        Uma segunda dificuldade metodolgica 
the Twentieth Century  Arney, W.R. e Bergen, B.J.       ainda mais crucial. Comprimentos podem ser
1984: Medicine and the Management of Living: Taming
                                                        medidos em polegadas ou centmetros: se uma
the Last Great Beast  Foucault, M. 1963: Naissance de
la clinique  Illich, Ivan 1978: Medical Nemesis: The    vara parece to comprida quanto outra em po-
Expropriation of Health  Starr, P. 1982: The Social     legadas, ser mais comprida tambm em cen-
Transformation of American Medicine.                    tmetros. No entanto essa propriedade de medi-
                                DAVID ARMSTRONG         das fsicas alternativas (de acordo com a qual
                                                        elas so monotonicamente relacionadas uma 
meios de comunicao Ver             COMUNICAO        outra) em geral se perde no caso das medidas
DE MASSA.                                               usadas nas cincias sociais. Assim, a mobili-
                                                        dade social pode ser medida pelo chamado
mensurao Afirmaes tais como "A 
                                                        ndice Glass, pelo ndice Yasuda ou por muitos
mais X do que B" ou "A  n vezes mais X do
que B" parecem fundamentadas quando se de-              outros ndices (Boudon, 1973). Da mesma for-
finem os procedimentos adequados de men-                ma, a igualdade/desigualdade de renda, a igual-
surao, graas aos quais um conjunto A, B,             dade/desigualdade educacional, e assim por di-
C... de objetos pode ser comparado com res-             ante, podem ser medidas de vrias maneiras.
peito a X. Assim,  possvel dizer que uma              Ora,  teoricamente possvel que, digamos, uma
vareta A  mais comprida que B uma vez                  sociedade A parea mais mvel ou mais igual
definida uma medida de comprimento e apli-              do que B com respeito a alguma varivel quan-
cada a A e B. Da mesma forma, uma sociedade             do se usa uma medida, enquanto que o oposto
A ser considerada socialmente mais mvel,              ser verdadeiro com outra medida.
uma vez definida uma medida de mobilidade                   Isso significa que conceitos como "mobili-
social.                                                 dade social" ou "desigualdade" so na verdade
    A mensurao  uma operao corrente nas            muito mais ambguos do que "comprimento"
cincias sociais, tanto quanto nas naturais. Sem        ou "temperatura": os vrios ndices dispon-
mensurao,  impossvel responder a pergun-            veis correspondem, na verdade, a vrias in-
tas sociolgicas descritivas to simples quanto:        terpretaes dessas noes. Na prtica, porm,
as taxas de suicdio so maiores hoje, no pas          essas variadas medidas em geral parecem con-
A, do que 20 anos atrs? A desigualdade social          vergentes.
est aumentando ou diminuindo na sociedade                  Ver tambm ESTATSTICA SOCIAL.
                                                                                         mercado     459

Leitura sugerida: Douglas, J. 1967 (1970): The Social       De acordo com alguns tericos marxistas, a
Meanings of Suicide  Pawson, Ray 1989: A Measure        interveno governamental destinada a mani-
for Measures.                                           pular e melhorar o sistema de mercado no ser
                                RAYMOND BOUDON          suficiente para impedir as recesses e depres-
                                                        ses. Somente a abolio total da propriedade
mercado Como a instituio social na qual               privada, da produo de mercadorias e do di-
as pessoas trocam livremente mercadorias                nheiro -- em suma, o abandono de todo o
(bens, recursos e servios), em geral usando            sistema de mercado -- resolver. Em vez de
como meio o dinheiro, o mercado pressupe               concorrncia de mercado, as atividades econ-
uma diviso social do trabalho (ver DIVISO             micas sero coordenadas atravs de um pla-
SOCIAL DO TRABALHO) e (pelo menos de facto) a           nejamento econmico abrangente (ver PLANE-
propriedade privada dos meios de produo. A            JAMENTO ECONMICO NACIONAL).
natureza do sistema de mercado tem sido objeto
                                                        O mercado como estado final
de muitos debates no decorrer do sculo XX,
com respeito tanto ao papel terico do mercado              A escola de ECONOMIA NEOCLSSICA, prin-
na coordenao da atividade econmica quanto            cipal escola de pensamento econmico do s-
 possibilidade prtica de melhorar o sistema de        culo XX, levanta a hiptese de que o sistema de
mercado atravs de polticas monetrias e fis-          mercado funciona como um mecanismo que
cais do governo ou de planejamento econmico            tende a um equilbrio econmico geral no qual
totalmente abrangente. Podemos identificar              todas as ofertas e demandas de bens e servios
trs escolas de pensamento a esse respeito.             escassos so perfeitamente coordenadas. Em
                                                        vez de encarar o mercado como anrquico,
O mercado como inerentemente dominado                   cheio de conflitos e inerentemente sujeito a
por crises                                              crises, os economistas neoclssicos tendem a
                                                        explicar os mercados de forma esttica, newto-
    A idia de que o sistema de mercado 
                                                        niana, como se todos os participantes dele (pro-
fundamentalmente anrquico e essencialmente             dutores, consumidores, operrios) dispusessem
dominado por crises encontra sua expresso              de plena e completa informao e fossem guia-
mais completa no MARXISMO. Os marxistas afir-           dos por preos que igualam as ofertas de mer-
mam que a forma mercantil da troca em mer-              cado com as demandas. O modelo de equilbrio
cado, na qual bens so produzidos por trabalho          geral formal j no  considerado pelos prin-
assalariado e vendidos por capitalistas com in-         cipais economistas neoclssicos (como Frank
teno de garantir o lucro monetrio, aliena os         Hahn, 1973) como uma descrio precisa dos
operrios e promove o conflito de classes. Alm         mercados no mundo real, ou sequer como pos-
do mais, uma vez que o dinheiro funciona como           sibilidade prtica. Em vez disso, a explicao
um nexo de pagamento que separa a produo              neoclssica padro para os mercados  hoje
de mercadorias de suas utilizaes finais, as           compreendida como uma construo imagin-
crises peridicas so inevitveis. Os capitalis-        ria de equilbrio econmico como tal, no se
tas, isoladamente, que no estejam plenamente           referindo  efetiva operao de mercados que
informados a respeito das demandas do consu-            realmente existam.
midor, podem ser forados a vender seus bens                A variante keynesiana da economia neocls-
a preos de mercado que estejam abaixo de seus          sica (Keynes, 1936; Samuelson, 1976) difere no
valores. Conforme afirmou Karl Marx (1885),             sentido de explicar o mercado atravs da inte-
e explicou mais tarde Rudolf Hilferding (1910),         rao de variveis agregadas (macroeconmi-
isso pode levar a amplas despropores entre            cas), em oposio a variveis decompostas (mi-
oferta e demanda dentro de vrias indstrias e          croeconmicas) (ver KEYNESIANISMO). A abor-
a uma queda na taxa mdia de lucros (ver CICLO          dagem keynesiana tenta explicar a falha ma-
ECONMICO). As falncias aumentaro e o n-             croeconmica do mercado, principalmente o
mero de desempregados crescer. No decorrer             fenmeno da depresso econmica, como uma
do tempo, a crise se tornar mais grave e, aco-         falha da Lei de Say. A teoria keynesiana critica
plada com uma alienao e um conflito de                o argumento de Jean Baptiste Say (1803) de que
classes crescentes, as condies acabaro pro-          a oferta cria a sua prpria demanda em um sistema
pcias a uma revoluo proletria.                      de mercado desimpedido. As expectativas dos
460   mercado, socialismo de


participantes do mercado quanto aos futuros         de produo e consumo. De acordo com a ex-
eventos econmicos, conforme mostradas atra-        plicao do processo de mercado, um sistema
vs de decises de poupana e investimento,         de mercado desimpedido dissemina o conheci-
no precisam sempre combinar. Devido  in-          mento a respeito da relativa escassez de bens e
flexibilidade institucional dos salrios em di-     servios entre os participantes do mercado, que
nheiro (particularmente a indisposio dos ope-     usam clculos econmicos monetrios e con-
rrios a aceitarem redues no dinheiro dos         tabilidade de partida dobrada para interpretar a
salrios), alm do potencial dos indivduos a en-   informao embutida em preos competitivos
tesourar dinheiro, os keynesianos afirmam que a     (ver COMPETIO). Sem um sistema de mercado,
demanda agregada pode vir a ser menor que a         a sociedade no seria capaz de calcular racio-
oferta agregada, e o mercado pode atolar-se na      nalmente os valores de bens escassos.
depresso, um "equilbrio de desemprego", por           Os que propem a viso de que o mercado 
assim dizer (a DEPRESSO ECONMICA dos anos 30      um processo espontneo e ordenado admitem que
 considerada exemplar). Os keynesianos no vo     o mercado  essencialmente anrquico no sentido
to longe quanto os marxistas no que diz respeito   no-pejorativo de que no se encontra sob o con-
a programas de ao -- eles receitam uma mistura    trole deliberado de ningum. Em geral, explicam
de programas monetrios e fiscais para afinar a     os colapsos no sistema de mercado, incluindo
economia de mercado, em vez de um planejamento      recesses e depresses, como conseqncias in-
abrangente.                                         voluntrias de interveno do governo (tais como
                                                    controles de salrios e preos, crescimento exces-
O mercado como processo                             sivo do meio circulante e polticas monetrias e
    Uma viso alternativa do mercado s veio a      fiscais keynesianas), que distorcem os preos re-
ganhar fora a partir de meados do sculo XX.       lativos, em vez de serem um aspecto inerente do
Basicamente ligada a Ludwig von Mises (1949)        sistema de mercado como tal. Das trs escolas de
e F.A. Hayek (1948), a ESCOLA AUSTRACA DE          pensamento, a abordagem do processo de mer-
ECONOMIA afirma que o mercado funciona como         cado tende a defender a instncia extrema do
um processo competitivo de descoberta, pro-         LAISSEZ-FAIRE com respeito ao papel do governo
cesso que  posto em movimento pela mirade         na ordem do mercado.
de planos e atividades de produtores e consu-
                                                    Leitura sugerida: Buchanan, J.M. 1982: "Order defi-
midores que colaboram e concorrem sob a di-         ned in the process of its emergence". Literature of
viso social do trabalho. O processo de mercado     Liberty 5, 5  Cowen, Tyler 1982: "Say's law and Key-
 o resultado de todas as atividades de seus        nesian economics". In Supply-Side Economics: a Criti-
participantes, mas no  produto nem do desg-      cal Appraisal, org. por Richard H. Fink  Hayek, F.A.
nio nem da deliberao de ningum em par-           1978: "Competition as a discovery procedure". In New
ticular. Em vez disso, a ordem do mercado          Studies in Philosophy, Politics, Economics and the His-
                                                    tory of Ideas, org. por F.A. Hayek  Kirzner, I.M. 1973:
uma conseqncia involuntria da busca pelos        Competition and Entrepreneurship  Lachmann, Lud-
indivduos de seus prprios interesses. A noo     wig M. 1986: The Market as an Economic Process
de que o mercado  um processo no-deliberado        Lavoie, Don 1986: "The market as a procedure for
e dinmico difere marcantemente da idia de         discovery and conveyance of inarticulate knowledge".
ser ele um estado final de equilbrio. A partir     Comparative Economic Studies, 28, 1-19  O'Driscoll,
dessa perspectiva, a economia de mercado nem        Jr. Gerald P. e Rizzo, Mario J. 1985: The Economics of
                                                    Time and Ignorance  Offe, C. 1985: Disorganized Ca-
comea em equilbrio geral, nem poder jamais       pitalism, org. por John Keane  Roberts, Paul Craig e
alcan-lo. Em vez disso, prov espontanea-         Stephenson, Matthew A. 1971: Marx's Theory of Ex-
mente uma ordem sempre em evoluo, um              change, Alienation, and Crisis  Weintraub, Sidney,
padro discernvel de acontecimentos (ver PRO-      org. 1977: Modern Economic Thought.
CESSOS EVOLUCIONRIOS NA ECONOMIA). Como a                                          DAVID L. PRYCHITKO
complexidade da ordem do mercado est acima
do que qualquer mente pode dominar,  impos-        mercado, socialismo de Ver SOCIALISMO DE
svel para qualquer pessoa conhecer todas as        MERCADO.
utilizaes alternativas dos recursos. Os par-
ticipantes do mercado, portanto, devem apoiar-      mercado de trabalho Este  um conceito
se nos preos do mercado livre para expor mer-      abstrato, usado para descrever os variados ar-
cados relativos e promover um ajuste dos planos     ranjos institucionais que comandam a alocao
                                                                    mercadoria, fetichismo da      461


e os preos dos servios de trabalho nas econo-     vam trabalhadores restringindo o uso do traba-
mias capitalistas. Os economistas em geral u-       lho infantil e feminino e a durao da jornada
sam a analogia de um mercado de frutas para         de trabalho. Entre outros e mais recentes exem-
elaborar a estrutura e o funcionamento do mer-      plos de interveno do estado nos mercados de
cado para o trabalho. Tal como mas e pras,       trabalho incluem-se as tentativas de formar o
o trabalho  dado como comprado e vendido           processo de determinao de salrios atravs de
sob concorrncia e seus salrios estabelecidos      programas de renda, e as relaes de poder entre
pela interao de oferta e demanda. Simples de      trabalhadores e empregadores atravs da decre-
compreender e notavelmente duradoura como           tao de leis sobre o emprego e os sindicatos.
ponto de referncia conceitual, essa aborda-            Um aspecto institucional vital da relao
gem, no entanto, esconde vrios aspectos dis-       salrio-trabalho no sculo XX foi o surgimento
tintivos da transao de trabalho.                  do mercado de trabalho interno. Descrio dos
    O mais crucial  que os salrios so trocados   geralmente elaborados sistemas de emprego,
pelas capacidades mentais e fsicas do traba-       salrio e promoo comumente encontrados em
lhador, e no por uma quantidade e uma quali-       grandes organizaes, o mercado interno de-
dade definidas de produto acabado. A produti-       senvolveu-se primeiro nas empresas dos Esta-
vidade do trabalho  socialmente determinada        dos Unidos para impedir o crescimento do sin-
atravs de um processo de trabalho coletivo,        dicalismo. Os empregados recebiam ofertas de
depois que as capacidades humanas foram de-         carreira dentro de suas organizaes e de me-
vidamente obtidas. Dizendo de outra maneira,        lhoras constantes no pagamento e no status, em
a relao entre salrios e trabalho  determi-      troca de um nvel mais elevado de compromisso
nada, no no mercado, mas no local de trabalho,     e lealdade. As funes essenciais do mercado
dentro de um conjunto especfico de relaes        de trabalho foram, em outras palavras, progres-
sociais que transcendem as foras de oferta e       sivamente internalizadas, resultando em uma
demanda. O mais comum  que a organizao           redefinio das fronteiras entre o mercado e a
do local de trabalho seja hierarquicamente es-      organizao hierrquica. A crescente significa-
truturada, com os empregadores exercendo            o do mercado de trabalho interno para os
controle e autoridade sobre seus trabalhadores.     sistemas de emprego foi extensamente docu-
    As comparaes com o mercado de frutas          mentada na literatura de pesquisa e hoje forma
tambm tendem a obscurecer o fato de que as         o ponto de partida para a anlise do DESEM-
instituies do mercado de trabalho so his-        PREGO, da desigualdade e da discriminao no
toricamente especficas. Em sociedades pr-         mercado de trabalho e do gerenciamento e de-
capitalistas, o comrcio dos produtos do traba-     senvolvimento de pessoal.
lho era bem estabelecido, mas o mercado para
                                                    Leitura sugerida: Dobb, M. 1946: Studies in the De-
os servios de trabalho s veio a surgir quando a   velopment of Capitalism  Doeringer, P. e Piore, M.
ordem feudal e suas respectivas restries         1971: Internal Labor Markets and Manpower Analysis
mobilidade do trabalho foram progressivamen-         Williamson, O. 1975: Markets and Hierarchies: Ana-
te desmontadas. O trabalho assalariado desen-       lysis and Anti-Trust Implications.
volveu-se rapidamente, a partir do sculo XVI,                                           PETER NOLAN
nos crescentes centros rurais e industriais ur-
banos. Seu crescimento foi acelerado pelo mo-       mercadoria, fetichismo da Uma caracte-
vimento de conteno que negava ao grosso da        rstica da sociedade capitalista, identificada pe-
populao o acesso direto  terra e aos meios de    la primeira vez por Marx. Em uma sociedade
subsistncia, da tornando-a dependente, para       baseada na propriedade privada, na qual predo-
sua sobrevivncia, do emprego pago dentro do        minam as relaes de mercado, os processos de
sistema fabril emergente.                           produo so independentes uns dos outros,
    Esse desenvolvimento histrico dos mer-         separados e privados.  somente no mercado
cados de trabalho tem sido condicionado pela        que os trabalhos executados nesses processos
interao de estado, trabalho e instituies em-    so mensurados uns em relao aos outros,
pregadoras. Com as Factory Acts (Leis Fabris)       atravs da reduo ao padro comum do di-
em meados do sculo XIX, o estado, por exem-        nheiro -- desse modo, o trabalho privado 
plo, buscou regular os termos de acordo com os      tornado social. Mas a relao entre trabalho
quais os empregadores contratavam e utiliza-        privado e social surge como propriedade obje-
462   messianismo


tiva da prpria produo da mercadoria, como        noo de diferena sistmica, em vez de apenas
em uma frase do tipo "esta mercadoria vale 10       perceptiva, entre essncia e aparncia.
libras". As relaes sociais, estabelecidas em          Uma segunda abordagem tambm questio-
processos historicamente especficos de produ-      na se a realidade  constituda por um conjunto
o de coisas, desaparecem de vista e ressur-       de aparncias que podem ser removidas para
gem, em vez disso, como algo diferente, como        revelar sua essncia interior, mas a partir de um
relaes entre indivduos a-histricos aquisiti-    ponto de vista racionalista que insiste na distin-
vos e as mercadorias que eles buscam adquirir       o entre o objeto do conhecimento e o objeto
como consumidores. As relaes de produo          real, e na apropriao cognitiva deste ltimo
dissolvem-se em relaes de mercado, as rela-       pelo primeiro, atravs da prtica. Mas, simul-
es de classe dissolvem-se em um individua-        taneamente, os indivduos que em um nvel so
lismo de maximizao da utilidade e os produ-       apenas os portadores de estruturas sistmicas
tos inanimados do trabalho parecem possuir as       tambm, subjetivamente, vivenciam e se rela-
propriedades animadas dos que os produziram,        cionam com as suas condies de existncia;
bem como exercer domnio sobre eles. Marx           fazem isso atravs de um sistema de representa-
interpretou isso como uma inverso do sujeito       es, e esse processo os transforma em sujeitos. O
em objeto, produzida pela alienao, ou separa-     contraste entre essncia e aparncia  assim nega-
o, dos produtores com relao aos produtos        do e em seu lugar se coloca um contraste entre
de seu trabalho na sociedade capitalista, e con-    existncia sistmica e experiencial. No entanto
siderou qualquer anlise que reproduzisse essa      esta ltima deve ser uma propriedade de qualquer
inverso, personificando coisas e objetificando     sociedade, em contraste com a restrio da primei-
pessoas, como algo que necessariamente apia        ra  sociedade capitalista.
o capitalismo, em vez de critic-lo.                    Uma abordagem bastante diversa surge da
    O fato de o mundo social do capitalismo         reflexo sobre a experincia sovitica. Primei-
constituir-se de um conjunto de aparncias que      ro, e de fato, se l os fenmenos de mercado tm
so diferentes da realidade subjacente  ob-        formas e funes diferentes de suas contrapar-
viamente o fundamento para qualquer teoria da       tidas na sociedade capitalista, vrias geraes
IDEOLOGIA. Conseqentemente, o fato de a apa-       de experincia sovitica ps-1917 no parecem
rncia ou forma ser diferente da essncia ou        ter erradicado a ALIENAO caracterstica do
substncia implicava para Marx um esforo           fetichismo da mercadoria. Segundo, e em teo-
cientfico (atravs de um processo de abstrao)    ria, ao reformar o planejamento centralizado no
para livrar a essncia das impresses sensoriais    sentido de alguma variante do socialismo de
produzidas pela aparncia. Finalmente, ele con-     mercado, uma questo  se o fetichismo da
siderou que, quando as relaes de produo         mercadoria surgiria necessariamente como um
fossem socializadas de forma a no haver pro-       produto de maior apoio nas foras de mercado.
priedade privada dos meios de produo, o           Em parte, isso depende de as relaes de mer-
contraste entre essncia e aparncia desapare-      cado poderem ser desligadas das relaes de
ceria; as relaes sociais no seriam mais me-      propriedade privada -- isto , se um mercado
diadas atravs das relaes de mercado, mas         socializado faz sentido, no conceito ou na pr-
imediatamente transparentes na coordenao          tica. Isso tem implicaes bvias para qualquer
democrtica e consciente da atividade do traba-     teorizao sobre o que o socialismo pode sig-
lho.                                                nificar, na medida em que o sculo XX chega
    O sculo XX viu isso ser questionado de trs    ao fim.
maneiras diferentes. Primeiro, os positivistas
                                                    Leitura sugerida: Geras, N. 1971: "Essence and ap-
negaram a existncia de qualquer distino sig-     pearence: aspects of fetishism in Marx's Capital". New
nificativa entre essncia e aparncia. As aparn-   Left Review 65, 69-86  Marx, K. 1867 (1976): Capital,
cias da realidade so exatamente aquilo que a       vol.1, especialmente caps. 1, 6, 19, 23, 24  Rubin, I.I.
realidade , e as nicas iluses ou equvocos que   1928 (1973): Essays on Marx's Theory of Value.
existem so ou invenes de tericos sociais                                               SIMON MOHUN
mal orientados ou confuses psicolgicas do
observador social. No entanto, baseando-se em       messianismo Aguarda-se a vinda de um re-
premissas diferentes, essa crtica no se ajusta    dentor que transformar a presente ordem,
com o realismo filosfico do marxismo e da a       substituindo-a por um reino de harmonia e bem-
                                                                                  Methodenstreit      463


aventurana universal. Essa idia "messinica"       mica  particularmente desenvolvido pelo ramo
 crucial para o complexo cultural que surge da      xiita.
histria mediterrnea. O messianismo, embora             O racionalismo moderno contestou a trans-
tendo origem na Mesopotmia, assumiu di-             cendncia. O simbolismo religioso foi portanto
ferentes formas nos contextos judaico, cristo e     traduzido em termos imanentes e supostamente
islmico, e diferentes significados nos tempos       conceituais. No entanto a expectativa messi-
modernos.                                            nica no foi esquecida. Em vez disso, foi rein-
    Os livros profticos do Velho Testamento         terpretada e reintegrada nas ideologias carac-
contm os aspectos da expectativa messinica:        tersticas da modernidade, formando o horizon-
a centralidade da prpria profecia; uma atitude      te histrico de "naes", "raas" e "classes
ativa, em vez de contemplativa; a percepo das      sociais".
condies presentes como insuportveis ("cati-           A expanso planetria da cultura moderna
veiro" ou "exlio"); uma viso linear da histria,   generalizou esse horizonte, que se tornou refra-
em que o sofrimento presente olha para o pas-        tado em uma grande variedade de tradies
sado em busca de harmonia e para o futuro em         locais. Viajantes, missionrios, mercadores e
busca de redeno; a natureza visvel e coletiva     antroplogos deram notcias de "movimentos
dessa transformao; a ampliao de seu m-          messinicos" em outros povos, tais como o
bito para limites universais, envolvendo todas       "culto da carga" da Melansia, ou a "terra sem
as pessoas, amigas ou inimigas, e toda a natu-       mal" dos guaranis na Amrica do Sul. A idia
reza, selvagem ou domstica, terrena ou cs-         messinica foi assim expandida para incluir
mica; a afinidade entre o messianismo e a lite-      crenas de uma dimenso trans-histrica e
ratura apocalptica posterior, simbolizando as       transcultural. Esse uso mais generalizado da
passagens traumticas desta para a outra ordem       palavra, contudo, ocorreu em um contexto dis-
de mundo; a redeno como um feito extraor-          cursivo, trazido por viajantes, carregado de
dinrio que transcende as capacidades humanas        lembranas e expectativas ocidentais.
em todos os sentidos; a natureza pessoal do              Embora fundamental, o messianismo nunca
significado extremo da realidade, enquadrado         dominou inteiramente a cultura da qual  parte.
entre a soberania divina e a inquietao huma-       Lei e tradio, por um lado, contemplao e
na; a personalizao da palavra e do ato da          magia, por outro, sempre formaram contrapon-
redeno, tornado real pela chegada do "Mes-         tos fundamentais  expectativa messinica. Sa-
sias".                                               cerdotes, legisladores, mercadores e filsofos
                                                     tradicionalmente se mostram desconfiados da
    A tradio judaica projeta a Sua vinda para
                                                     profecia. Mesmo hoje, a maior parte dos cien-
o fim dos tempos, quando todas as naes reco-
                                                     tistas sociais estuda o messianismo como uma
nhecero o Deus de Israel. Os cristos acredi-
                                                     idiossincrasia polmica, recordando os resul-
tam que o Messias j esteve entre ns, e con-
                                                     tados catastrficos que podem advir das pro-
tinua a conviver conosco atravs de meios sa-        messas radicais de redeno imediata. Esse tipo
cramentais e carismticos (ver tambm CARIS-         de crtica  to antigo quanto o prprio mes-
MA). A humanidade est, portanto, eternamente
                                                     sianismo.
dividida entre o reconhecimento e a ignorncia,
ou negao, de Sua presena, vivendo um tem-         Leitura sugerida: Cohn, Norman 1970: The Pursuit of
po de transio entre Seus primeiro e segundo        the Millennium, ed. rev. e ampl.  Sachedina, A.A.
adventos, quando todas as divises sero supe-       1980: Islamic Messianism: The Idea of the Mahdi in
                                                     Twelver Shi'ism, ed. rev. e ampl.  Scholem, Gershom
radas.                                               G. 1961 (1973): Major Trends in Jewish Mysticism, ed.
    O isl sublinha o elemento proftico dessa       rev.  Wallis, Wilson D. 1943: Messiahs: their Role in
tradio, incluindo e subordinando a memria         Civilization  Worsley, Peter 1957 (1970): The Trumpet
judaica e crist como parte de uma revelao         Shall Sound: a Study of `Cargo' Cults in Melanesia.
que atinge seu ponto extremo com e aps Mao-                                 RUBEM CSAR FERNANDES
m. O juzo universal, no final da histria, 
reafirmado e dramatizado nas lutas atuais (Ji-       Methodenstreit Formalmente, a "discusso
had, Guerra Santa) entre os fiis e os que no       sobre o mtodo" data da crtica de Carl Menger
querem curvar-se ao nico e verdadeiro Deus.          economia histrica alem, tal como exposta
O elemento messinico comum  cultura isl-          em seu Untersuchungen ber die Methode der
464   Methodenstreit


Sozialwissenschaften (1883), e da resenha des-     de fato aspirar  revelao de princpios econ-
se livro por Schmoller (1883), junto com Ein-      micos gerais: "Os fenmenos econmicos so
leitung in die Geisteswissenschaften, de Dil-      resultado de desejos econmicos individuais e
they, que foi publicado no mesmo ano (ver          devem, portanto, ser considerados a partir desse
Dilthey, 1923). Menger chamou a ateno em         ponto de vista", afirmou. Esse enfoque de alto
seu livro para a ausncia de uma apreciao        interesse era necessariamente um enfoque com-
metodolgica sistemtica da ECONOMIA POLTI-       pleto, identificado somente dentro do tecido da
CA, especialmente na Alemanha. Parte impor-        atividade social. Apenas nessa base prtica,
tante de sua obra foi dedicada a crticas es-      concreta e historicizante era possvel avanar-
pecficas da economia histrica alem, e foi       se para princpios firmes que permitiriam ento
esse aspecto do livro que veio a caracterizar a    um grau de raciocnio dedutivo sobre as formas.
natureza da discusso. A crtica de Menger e a     Schmoller afirmou ainda que a reforma propos-
rpida resposta de Schmoller deram incio a        ta por Menger devia muito  "lgica cientfica
uma discusso sobre a natureza e relao do        natural" de John Stuart Mill, apontando uma
conhecimento terico e prtico nas cincias        dimenso da controvrsia que viria a se desen-
sociais, discusso essa que se prolonga at        volver na dcada seguinte.
hoje.                                                  Uma dificuldade na avaliao das questes
    Menger afirmou no prefcio a sua crtica que   levantadas pelas contendas entre Menger e S-
a economia poltica contempornea se carac-        chmoller  que o primeiro no se parece em
terizava por uma pluralidade de mtodos que        nenhum aspecto com nossas idias modernas
era derivada da incapacidade de distinguir de      preconcebidas de um economista abstrato, en-
forma consistente entre os preceitos da ECONO-     quanto a "economia histrica" do ltimo  al-
MIA terica e os mtodos a serem seguidos na
                                                   tamente difusa. Alm do mais, como autores
investigao prtica das formas econmicas.        posteriores destacaram, enquanto Roscher, co-
Como conseqncia, havia uma falta de clareza
                                                   mo fundador da escola histrica alem de eco-
e de acordo com respeito  natureza e propsito
                                                   nomia, afirmou claramente sua crena na exis-
da economia poltica que estava se tornando
                                                   tncia de leis de desenvolvimento econmico,
cada vez mais problemtica. Seu tratado bus-
                                                   Schmoller s vezes negou tal regularidade eco-
cava corrigir isso atravs de uma crtica sis-
temtica da concepo de que os princpios da      nmica. Menger foi capaz de montar uma crti-
economia podiam ser desenvolvidos com base         ca epistemolgica precisa  maneira como "his-
em um estudo prtico das economias nacionais       tria" e "economia" se combinavam na obra de
-- ou, como afirmara Wilhelm Roscher em            Schmoller, mas jamais Schmoller formulou u-
1843, que as leis da economia podiam ser reve-     ma defesa to concisa do "mtodo histrico".
ladas atravs de um estudo da formao dos         Se por um lado isso pode ser atribudo a uma
sistemas econmicos. Menger chamou a aten-         falta de clareza do prprio Schmoller com res-
o para o fato de haver uma falta de simetria     peito  natureza do mtodo histrico econmi-
entre o mtodo histrico, tal como praticado no    co, por outro a defesa lgica do mtodo his-
direito, e o mtodo tal como praticado na eco-     trico  uma tarefa formidvel.
nomia. Expoentes do primeiro eram capazes de           Max Weber confessou-se ele prprio mem-
identificar princpios claros que, persistente-    bro da "escola histrica mais jovem" da econo-
mente, escapavam a expoentes do ltimo, como       mia alem, no incio da dcada de 1890, mas o
Schmoller, Roscher e Karl Knies. Em muitos         princpio metodolgico da VERSTEHEN que ele
aspectos,  claro, as linhas de sua argumentao   viria a desenvolver em seus textos deve mais
recapitulam aspectos do debate metodolgico        aos princpios adotados por Menger do que a
desde o incio do sculo, mas Menger no situa     qualquer compreenso histrica da ao social.
seu argumento por meio de referncia aos de-       A atual falta de uma exposio detalhada da
bates francs e ingls sobre economia poltica     economia alem no final do sculo XIX torna
"indutiva" versus "dedutiva", debates esses li-    difcil apreciar os aspectos mais refinados da
gados aos nomes de David Ricardo, Thomas           controvrsia, mas  possvel julgar os seus efei-
Malthus e Richard Jones.                           tos tal como foram transmitidos atravs da obra
    Schmoller, em sua resenha, rejeitou a idia    de Weber, bem como pela existncia de uma
de que uma Nationalkonomie terica pudesse        traduo da crtica original de Menger.
                                                                                       metodologia    465

Leitura sugerida: Hasbach, W. 1895: "Zur Geschichte       blicaes, especialmente no volume que or-
des Methodenstreites in der politischen konomie". In     ganizou em colaborao com M. Rosenberg,
Jahrbuch fr Gesetzgebung, Verwaltung und Volkswir-
tschaft NF Jg. 19, 465-90, 751-808  Hutchison, T.W.:
                                                          The Language of Social Research, ele tentou
1981: "Carl Menger on philosophy and method". In The      ilustrar e institucionalizar a metodologia. In-
Politics and Philosophy of Economics  Menger, C.          felizmente, a prpria noo de metodologia 
1883 (1985): Investigations in the Method of the Social   em geral mal compreendida: e isso pode ser
Sciences with Special Reference to Economics  Sch-        prontamente confirmado pelo fato de em mui-
moller, G. 1883: "Zur Methodologie der Staats- und        tos lugares os cursos de metodologia serem na
Sozial-Wissenschaften". In Jahrbuch fr Gesetzge-         verdade cursos de tecnologia.
bung, Verwaltung und Volkswirtschaft NF Jg. 7, 975-94.
                                                              Uns poucos exemplos demonstraro que a
                                         KEITH TRIBE      metodologia pode efetivamente exercer um im-
                                                          pacto importante sobre as cincias sociais. As-
metodologia Esta noo, que descreve a ati-               sim, o estudo do desenvolvimento scio-econ-
vidade crtica dirigida pelos cientistas para os          mico tomou novo rumo quando o significado
procedimentos, teorias, conceitos e/ou desco-             das mdias agregadas do chamado produto na-
bertas produzidos pela pesquisa cientfica, no           cional foi criticado e esclarecido, e quando se
deve ser confundida com "tecnologia", isto , a           percebeu que o PNB de um pas cresceria tre-
atividade de lidar com as tcnicas, dispositivos          mendamente, dado o modo como essa quan-
e frmulas utilizados pela pesquisa cientfica.           tidade  definida, se cada cidado limpasse o
    A metodologia  importante por um simples             carro do vizinho, em vez do seu prprio. Da
motivo: nas cincias humanas e sociais, bem               mesma forma, mostrou-se que a desigualdade
como nas cincias naturais, ela representa um             de renda pode ser medida de vrias maneiras e
caminho essencial (embora,  claro, no ex-               que no h nenhuma garantia de que todas as
clusivo) atravs do qual se efetua o progresso            medidas levem  mesma concluso. Enquanto
cientfico.  possvel conseguir-se uma melhor            a vareta A ser sempre mais longa do que a
compreenso do mundo,  maneira de Karl                   vareta B, independentemente do modo como as
Popper, gerando teorias e tentando torn-las o            duas varetas so medidas, as rendas podem
mais compatveis possvel com dados da obser-             parecer mais desigualmente distribudas na so-
vao. Mas essa compreenso tambm pode ser               ciedade A do que na sociedade B quando se usa
obtida atravs de uma viso crtica reflexiva             um dado ndice, enquanto parecem mais igual-
dirigida pelo cientista para a sua prpria ativi-         mente distribudas em A com relao a outro
dade. Assim, a teoria especial da relatividade            ndice aceitvel. Na medida em que no se
provavelmente nasceu, em parte, do fracasso da            percebe este aspecto, muitas concluses mal
experincia Michelson-Morley, mas tambm                  fundamentadas podem ser tiradas das medidas
da anlise crtica da noo de simultaneidade             de desigualdade (ver MENSURAO).
por Albert Einstein. Enquanto anteriormente a                 Uma das questes metodolgicas desenvol-
maioria das pessoas tratava essa noo como               vidas por Lazarsfeld tornou-se particularmente
no-problemtica, Einstein percebeu que ela s            famosa: que uma correlao entre x e y pode ser
era clara e sem ambigidades na medida em que             espria, isto , no corresponder a nenhuma
no ocorressem eventos em corpos mveis a-                influncia causal entre x e y. Na verdade, po-
fastando-se -- ou aproximando-se -- um dos                dem-se mencionar vrios estudos importantes,
outros a uma velocidade significativa em rela-            cujo impacto deriva do fato de terem demons-
o  velocidade da luz. Essa anlise crtica de          trado o carter esprio de correlaes que ha-
uma noo familiar produziu, como bem se                  viam sido interpretadas de maneira causal. As-
sabe, uma revoluo em nossa representao do             sim, a controvrsia ps-weberiana sobre A tica
mundo fsico.                                             protestante demonstrou que, enquanto Weber
    Entre os socilogos clssicos, Max Weber,             via uma influncia direta do ethos puritano
bem como mile Durkheim, deu grande aten-                 sobre o desenvolvimento do esprito capitalista,
o  metodologia e dedicou textos importantes            essa correlao deveria ser antes interpretada
a esse campo. P. Lazarsfeld, entre os socilogos          como o produto de vrios efeitos indiretos.
modernos, insistiu com nfase particular na               Autores como H. Lthy e H.R. Trevor Roper
importncia da metodologia para o desenvol-               demonstraram, por exemplo, que os pases que
vimento das cincias sociais. Em diversas pu-             foram receptivos  nova f foram tambm mais
466   mdia


abertos aos negcios. O prprio Weber j havia          Ver tambm FILOSOFIA DA CINCIA; FILOSOFIA
reconhecido que os huguenotes franceses eram         DA CINCIA SOCIAL.
ativos nos negcios porque outras oportuni-
                                                     Leitura sugerida: Boudon, Raymond 1979: "Genera-
dades profissionais, especialmente culturais ou      ting models as a research strategy". In Qualitative and
polticas, lhes estavam fechadas, oficialmente       Quantitative Social Research, org. por R. Merton et al.
ou na prtica.                                        Durkheim, mile, 1895 (1982): Les rgles de la m-

    Como no caso da noo de simultaneidade          thode sociologique  Lazarsfeld, P.F. e Rosenberg,
em fsica, a metodologia pode em geral assumir       Morris 1955: The Language of Social Research  Paw-
                                                     son, Ray 1979: A Measure for Measures  Pellicani,
a forma de uma anlise crtica das noes atual-     Luciano 1988: "Weber and the myth of Calvinism".
mente usadas nas cincias sociais. Assim, Dur-       Telos 75 (primavera), 57-85  Weber, Max, 1922
kheim no estava satisfeito com a noo de           (1968): Gesammelte Aufstze zur Wissenschaftslehre.
"mentalidade primitiva" usada por Lvy-Bruhl                                          RAYMOND BOUDON
para explicar as crenas na magia, provavel-
mente porque nela detectou um carter ad hoc         mdia Ver COMUNICAO DE MASSA.
e circular. De qualquer forma, ele desenvolveu
a sua prpria teoria (prxima da de Weber), em       migrao Os movimentos de povos de um
que tentou demonstrar que a magia podia ser          lugar para outro so um fenmeno extrema-
explicada por bons motivos sem se pressupor          mente antigo. Invases, conquistas, xodos,
que o "primitivo" seguia regras lgicas e pro-       mudanas sazonais e estabelecimentos definiti-
cedimentos mentais diferentes dos nossos. Essa       vos em outros territrios e em diferentes socie-
crtica pode ser generalizada: muitos autores        dades pontuam a histria humana. Hoje em dia
contemporneos mostram-se crticos para com          so muito poucas as sociedades que no foram
as vises irracionais, "supersocializadas" do        formadas pela integrao de grupos e culturas
homem, dos agentes sociais e do comportamen-         que vieram se agregando durante eras. As so-
to social, e propuseram, seguindo nesse aspecto      ciedades europias -- a Espanha do sculo
a tradio weberiana, interpretar comportamen-       XVI, em seguida as sociedades industriais, com
to e crenas como inspirados por motivos, pelo       exceo notvel da Frana -- assistiram s
menos na medida em que no se possa apresen-         primeiras migraes importantes para as "terras
                                                     virgens" da Amrica, da Austrlia e dos im-
tar nenhuma prova em contrrio. Na verdade, a
                                                     prios coloniais. Esses movimentos migrat-
importncia da sociologia da religio de Weber
                                                     rios para novas terras foram explicados pelos
 acima de tudo metodolgica: sua principal
                                                     mesmos motivos que se adequam hoje: a su-
inovao reside no fato de ela demonstrar, atra-
                                                     perpopulao e a privao que predominavam
vs de muitos exemplos, que at mesmo crenas
                                                     em certas regies da Europa, como a Irlanda, a
aparentemente as mais estranhas podem ser            Esccia ou o Sul da Itlia, e a desorganizao
explicadas como inspiradas por motivos. As-          das economias tradicionais devido a uma am-
sim, os funcionrios pblicos romanos tinham         pliao do mercado capitalista, principalmente
bons motivos para se sentirem atrados pelo          na Gr-Bretanha. Ocasionalmente, as imigra-
culto de Mitra: este inclua valores hierrquicos    es resultavam de causas polticas ou religio-
prximos da prpria administrao romana.            sas: minorias, oprimidas por motivos polticos,
    A metodologia pode assumir a forma de uma        tnicos ou religiosos fogem dos regimes que as
crtica sistemtica das noes, conceitos, infe-     ameaam. Para minorias de judeus e protestan-
rncias a partir de dados estatsticos ou qualita-   tes, para armnios, refugiados polticos e ou-
tivos, ou modelos de comportamento compos-           tros, os novos pases so smbolo tanto de liber-
tos pelas cincias sociais. Pode tambm discutir     dade quanto de riqueza.
a prpria natureza da explicao nas cincias            A sociologia das migraes dedica-se essen-
sociais. Assim, para alguns autores, as cin-        cialmente  imigrao, ao processo de integra-
cias sociais deveriam considerar-se interpreta-      o e assimilao de uma comunidade estran-
tivas, mais do que explanatrias (ver VERSTE-        geira na sociedade que a recebe. No surpreen-
HEN). Para outros, construir ou gerar modelos       de que os Estados Unidos sejam o pas no qual
uma importante atividade das cincias sociais,       essa sociologia pela primeira vez se desenvol-
bem como das naturais, e define a prpria noo      veu, uma vez que a imigrao coincidiu com o
de explicao.                                       prprio nascimento da sociedade norte-ameri-
                                                                                    migrao    467


cana. Na Europa, desde meados deste sculo, a       canismos de "aculturao" e de transformao
tendncia migratria foi a inversa, com os pa-      cultural sofridos pelo migrante que tem de mu-
ses originais de emigrao na Europa industrial    dar de uma sociedade rural para uma sociedade
primeiro recebendo trabalhadores, em seguida        urbana, de uma comunidade estruturada por
suas famlias, vindos do Sul da Europa, em          seus valores religiosos para a diversidade da
seguida da frica, das Antilhas, do Sudeste         cidade, do reconhecimento para o anonimato.
Asitico e da Indonsia, e das antigas colnias.    A ruptura violenta de laos tradicionais, o i-
Quando os fluxos migratrios comearam a se         solamento e as incertezas normativas podem
estabilizar e as populaes a se estabelecer, as    transformar a imigrao em uma experincia de
economias europias entraram em perodo de          desorganizao social, levando aos compor-
dificuldades, durante os anos 70, e os estudos      tamentos de desvio e marginalidade em geral
econmicos, demogrficos, culturais e polti-       associados  imigrao.
cos da imigrao se expandiram.                         Mas o migrante nem sempre est sozinho,
    Nos anos 20 os socilogos da ESCOLA SOCIO-      uma vez que pode tambm pertencer a uma
LGICA DE CHICAGO trataram a imigrao em ter-      comunidade que ainda mantm coerncia em
mos de integrao urbana, de mudana do modo        seu novo lugar,  capaz de receber bem os
de vida tradicional para o moderno. Como  que      recm-chegados, de lhes oferecer recursos, um
as comunidades migrantes vindas do Sul ru-          senso de segurana e de continuidade na sua
ral, a comunidade negra entre outras, ou de         identidade, e de fazer com que a provao da
vrias partes do mundo, se integram na cidade,      mudana cultural seja mais fcil para ele. Na
de maneira espacial, e na modernidade, de um        verdade, a assimilao total de um grupo 
ponto de vista cultural? Robert Park e Ernest       cultura hospedeira ainda na segunda ou terceira
Burgess estudaram as trajetrias dos variados       gerao  coisa rara, e muitas sociedades reve-
grupos no espao urbano, isolando ciclos e          lam-se uma miscelnea de comunidades cujas
processos regulares que vo da segregao          relaes de reciprocidade transformam pouco a
integrao, atravs de um processo transicional     pouco a cultura da sociedade hospedeira. A
de relaes de progressiva reciprocidade com a      imigrao deve ser encarada como um processo
sociedade que os recebe. Esses estudos provam       de progressiva assimilao, durante o qual as
que o padro do cadinho de raas e culturas, a      identidades dos agentes que se encontram pre-
mistura na cultura norte-americana, admite ex-      sentes esto mudando e se misturando sem
cees bastante numerosas: acontece de alguns       jamais fundir-se totalmente, e no faltam es-
imigrantes fracassarem em seus planos de se         tudos histricos que revelam a natureza dinmi-
estabelecerem, e voltarem ento a sua terra         ca e enriquecedora de todo esse "trabalho" cul-
natal; outros no conseguem colocar um ponto        tural.
final na segregao e no obstculo do PRECON-           O processo de assimilao, no entanto, nem
CEITO; outros ainda permanecem em um espao         sempre se d de modo mais ou menos har-
comunitrio fechado; e, finalmente, alguns se       mnico. Grupos de migrantes, mesmo os que
incorporam  cidade moderna. Com o passar           so hoje os mais bem assimilados e integrados,
dos anos, os sinais de segregao urbana nas        defrontaram-se praticamente todos com a hos-
cidades norte-americanas muito pouco muda-          tilidade de movimentos racistas ou xenfobos,
ram, e a segregao dos variados grupos, prin-      com variados graus de violncia, dependendo
cipalmente entre os grupos negros e brancos,        de circunstncias econmicas e polticas. Em
ainda  a regra padro.                             tempos de dificuldade econmica, os imigran-
    A imigrao pode ser encarada como um           tes podem ser vistos como perigosos concorren-
processo de transformao cultural, como uma        tes econmicos que tomam empregos dos ope-
provao sofrida pelo agente que v as normas,      rrios no pas que os recebe, e grupos inseguros
valores e identificaes de seu grupo de origem     ou decadentes os usam como bodes expiatrios
desaparecendo, sem contudo adotar os padres        para suas prprias dificuldades, culpando-os
da sociedade que o recebe e sem se sentir aceito.   por ameaarem a unidade do pas ou da "raa".
O famoso estudo de Thomas e Znaniecki, The          As polticas de estado variam de forma notvel
Polish Peasant (1918), sobre as histrias de        de acordo com essas circunstncias, indo de
vida de emigrantes poloneses que chegaram a         tentativas de atrair mo-de-obra ou de aumentar
Chicago no incio do sculo, descreve os me-        a populao at severas restries  imigrao
468   militares


sob a presso de grupos xenfobos. Nos Es-              militares As definies dos militares so de
tados Unidos, desde o final do sculo passado,          mbito bastante amplo. Biderman (1971) es-
e na Europa, em anos recentes, as comunidades           tipula que os militares so uma instituio es-
imigrantes tentaram aumentar sua capacidade             pecializada para a guarda e a segurana do valor
de negociao poltica e participao social. De        extremo e mais sagrado da sociedade. Hackett
modo geral, surgem trs estratgias entre os            (1983) concentra-se na funo da profisso das
movimentos de imigrantes. Os imigrantes po-             armas -- a aplicao ordenada da fora na
dem entrar para os movimentos sociais existen-          soluo de um problema social. Em contraste,
tes e assim tomar parte na vida poltica do pas,       a definio de Lasswell, mais antiga, identifica
estratgia geralmente escolhida por operrios           os militares com a direo e o controle da
imigrantes que participam do sindicalismo. Ou           violncia (1941).
podem identificar-se com movimentos demo-                   Convencionalmente, a anlise dos militares
crticos que defendem os direitos civis e lutam         est ligada a trs temas principais; primeiro, o
contra o racismo. Por outro lado, podem lutar           status dos militares como organizao; segun-
para alcanar o reconhecimento e o respeito por         do, seu papel como profisso; e, finalmente, sua
suas identidades culturais e, em vez de en-             relao com a sociedade a que pertencem. Essa
fatizarem sua semelhana com a sociedade que            diviso baseia-se em conceitos previamente
os recebe, enfatizam suas diferenas e sua ETNI-        postulados e cada rea de interesse reflete face-
CIDADE, uma "etnia" graas  qual podem ser             tas da teoria sociolgica predominante (van
reconhecidos e tornar-se agentes polticos. No          Doorn, 1975).
final, os grupos que so economicamente in-                 A avaliao dos militares como organizao
tegrados, porm conservam laos comunitrios            reconhece que as foras armadas so uma es-
com um empreendimento comercial ou uma                  trutura altamente complexa e burocratizada. O
cultura tnicos, podem formar lobbies, em es-           quadro conceitual bsico est ligado ao modelo
pecial nos Estados Unidos.                              do tipo ideal weberiano de BUROCRACIA. Bem
    Antiga terra de emigrao, a Europa Oci-            de acordo com isso, uma permanente rea de
dental  hoje uma terra de imigrao, devido ao         interesse  a estrutura dos militares. So iden-
desequilbrio entre pases ricos e pobres; assim,       tificados trs modelos bsicos: o exrcito de
os pases europeus tornam-se cada vez mais              massa, o exrcito de cidados e a fora ex-
multitnicos. Em uma poca em que a econo-              clusivamente de voluntrios. No entanto, ape-
mia e a cultura transcendem seus limites nacio-         sar das diferenas de formato institucional, d-
nais, os movimentos migratrios participam de           se considervel nfase aos aspectos estruturais
uma notvel transformao do padro europeu,            comuns de todas as organizaes militares. Es-
no qual o estado-nao definia uma cultura, um          tes identificam a estabilidade, a continuidade e
territrio e um quadro poltico. Conseqente-           a homogeneidade de valores como sendo de
mente, o "problema dos imigrantes"  em geral           importncia crtica. Tambm enfatizam o grau
um problema das sociedades que os recebem.              de centralizao de autoridade a ser encontrado
                                                        entre os militares. O modelo  simples. A hie-
Leitura sugerida: Brubaker, W.R., org. 1989: Immi-      rarquia apia-se sobre uma ampla base de re-
gration and the Politics of Citizenship in Europe and
North America  Castles, Stephen e Kosack, G. 1973:
                                                        crutas essencialmente sem especializao, sob
Immigrant Workers and Class Structure in Western        o comando de um oficial, assistido por alguns
Europe  Duchac, R. 1974: La sociologie des migra-       suboficiais de confiana para supervisionar a
tions aux tats Unis  Eisenstadt, S.N. 1955: The Ab-    execuo de ordens. A cada sucessivo escalo
sorption of Immigrants  Miles, R. 1982: Racism and      ou grau, existe um oficial de patente mais ele-
Migrant Labour: a Critical Text  Myrdal, G. 1944        vada. Essa estrutura de patentes cria a tradicio-
(1962): An American Dilemma  Noiriel, G. 1988: Le       nal pirmide hierrquica que  uma caracters-
creuset franais  Park, Robert E. e Burgess, R.W.
1929: Introduction to the Science of Sociology  Rose,   tica definidora de todas as organizaes buro-
A.M. 1970: "Distance of migration and socio-economic    cratizadas. Um dos problemas secundrios que
status of migrants". In Readings in the Sociology of    a sua existncia prope, contudo,  a complexa
Migration, org. por C.J. Jansen  Thomas, W.I. e Zna-    questo da relao entre esses detentores de
niecki, F. 1918 (1958, 1974): The Polish Peasant in     postos oficiais e a equipe de especialistas neces-
Europe and America.                                     sria para assisti-los no controle das unidades
                                  FRANOIS DUBET        subordinadas.
                                                                                               mito    469


    Esses especialistas so, essencialmente, pro-    praticamente do monoplio das armas, possuin-
fissionais. Suas atividades refletem o papel dos     do uma sofisticada rede de comunicaes e
militares como profisso plenamente desenvol-        construdos como uma organizao altamente
vida que exibe trs caractersticas identificado-    consciente de seu propsito, os militares con-
ras do modelo profissional de tipo ideal: espe-      tinuam a ser um aspecto predominante na so-
cializao, esprito corporativo e responsabili-     ciedade contempornea. Dados o estado de es-
dade (Huntington, 1957). Janowitz, ao tratar os      prito, a motivao e a disposio, os militares
militares como sistema social, enfatiza no en-       podem interferir no domnio do poder civil. De
tanto que essas caractersticas profissionais tm    maneira mais geral, continuam a ser um impor-
mudado no decorrer do tempo. O que  mais            tante usurio de recursos escassos, convidando
importante, enfatiza que o conceito de profis-       com isso a discusses crticas sobre seu papel
sionalismo abrange normas e especializaes          na sociedade contempornea.
que incluem, porm excedem, o papel bsico               Ver tambm GUERRILHA.
dos militares -- isto , a direo e o controle da
violncia. Ao mesmo tempo que reconhece as           Leitura sugerida: Abrahamsson, B. 1972: Military
                                                     Professionalization and Political Power  Edmonds,
caractersticas que fazem dos militares uma          M. 1988: Armed Services and Society  Finer, S.E.
profisso -- especializao, longa instruo,        1962: The Man on Horseback: the Role of the Military
identidade de grupo, tica e padres de desem-       in Politics  Harries-Jenkins, G. e Moskos, C.C. 1981:
penho --, ele identifica a profisso, no como       "Armed forces and society". Current Sociology 29,
um modelo esttico, mas como uma instituio         1-170  Janowitz, M. 1975: Military Conflict: Essays
dinmica que muda no decorrer do tempo em            in the Institutional Analysis of War and Peace  1977:
                                                     Military Institutions and Coercion in the Developing
resposta a mudanas de condies. Essa viso         Nations  org. 1981: Civil-Military Relations: Regional
reconhece at que ponto a forma das organiza-        Perspectives  Little, R.W., org. 1971: Handbook of
es militares existentes e dos quadros oficiais     Military Institutions  Moskos, C.C. 1976: "The milita-
profissionalizados foi ditada pelo impacto de        ry". Annual Review of Sociology 2, 55-77.
amplas transformaes sociais desde a virada                                    GWYN HARRIES-JENKINS
do sculo. Mais especificamente, implica que
as foras armadas esto vivenciando uma trans-       mito Narrativa sacra envolvendo seres sobre-
formao de longo prazo rumo  convergncia          naturais e incorporando a conscience collective,
com as estruturas e normas civis (Janowitz,          o mito  entretecido de crenas populares a
1960).                                               respeito da humanidade e do mundo social,
    O significado dessas mudanas  reconhe-         bem como da natureza e significado do univer-
cido em inmeros estudos. Moskos enfatiza que        so. As teorias do mito no sculo XX podem ser
os militares esto hoje passando de um formato       divididas em psicolgicas, funcionalistas, es-
organizacional predominantemente institucio-         truturalistas e polticas.
nal para outro formato que est se tornando              Os antroplogos do sculo XIX interessados
cada vez mais ocupacional (1988). O primeiro         na EVOLUO e difuso de culturas buscaram
 legitimado em termos de valores e normas,          descobrir as origens dos mitos, interpretando-os
isto , de um propsito que transcende o inte-       como pensamento no-cientfico e registros in-
resse prprio do indivduo em favor de um            completos de eventos histricos. As abordagens
pressuposto bem mais elevado. Os membros             psicanalticas desenvolvidas por Sigmund
so encarados como seguidores de um chamado          Freud (ver PSICANLISE), em vez disso, ten-
identificado com palavras como dever, honra,         deram a buscar no mito temas de conflito ps-
pas (Harries-Jenkins, 1977). O modelo ocupa-        quico universal (represso, tabu do incesto, in-
cional, em contraste, est identificado com a        veja dos irmos, complexo de dipo), ou ima-
economia e os princpios do mercado. A lei de        gens arquetpicas brotando do "inconsciente
oferta e demanda, mais que um valor norma-           coletivo" (Jung, 1964).
tivo,  de suprema importncia. A prioridade do          A tradio antropolgica funcionalista, mais
interesse prprio substitui o conceito de servio    bem representada por Malinowski, criticou es-
altrusta.                                           sas teorias por abstrarem os mitos de seu con-
    No obstante a significao de tais mudan-       texto social. A partir de estudos empricos dos
as, a importncia dos militares na sociedade a      ilhus de Trobriand, Malinowski afirmou que
que pertencem continua inalterada. Dotados           "o mito preenche, na cultura primitiva, uma
470   mobilidade social


funo indispensvel":  produto de uma f          deno e salvao do que em argumentos ba-
viva que serve para codificar e reforar normas     seados em princpios abstratos (Tudor, 1972,
grupais, salvaguardar as regras e a moralidade      p.130).
e promover a coeso social (1948, p.79) (ver            Crucial para a maior parte das teorias  a
FUNCIONALISMO).                                     idia de que os mitos no esto relacionados
    As abordagens contemporneas, incluindo         com o espao e o tempo comuns, mas se encon-
as de Leach (ver Leach e Aycock, 1983) e            tram fora deles. "Era uma vez", a "Idade de
Barthes (1957), tm sido fortemente influen-        Ouro", a "Aurora dos Tempos" ou o "fim da
ciadas pelo ESTRUTURALISMO e, em particular,        histria", tudo isso implica eventos passados ou
por Lvi-Strauss (1964-72). Usando teorias de-      futuros que no esto diacronicamente ligados
senvolvidas na psicanlise e na lingstica, L-    ao presente. Nesse aspecto, os mitos tm sido
vi-Strauss interpretou os mitos, no como guias     interpretados como "fenmenos liminares",
de ao fornecendo explicaes ou legitimao       contados em pocas ou lugares que ficam "em
para disposies sociais existentes, mas como       um grau intermedirio" entre os estados nor-
sistemas de signos -- uma linguagem cujo sen-       mais do ser (Turner, 1968, p.578). Assim,
tido  codificado e se encontra sob a superfcie    segundo Eliade (1957, [1968, p.34]), os que
narrativa. Os mitos so um expediente cog-          participam do mito so transportados tempo-
nitivo usado para reflexo e resoluo das con-     rariamente do mundo cotidiano para um plano
tradies e princpios subjacentes em todas as      onde o tempo  considerado "sacro", "concen-
sociedades humanas, cada mito sendo uma va-         trado" e de "intensidade ampliada".
riao sobre temas universais, recombinando
                                                    Leitura sugerida: Barthes, Roland 1957: Mithologies
incessantemente os elementos simblicos cons-        Eliade, M. 1957: Mythes, rves et mystres  Leach,
titudos por grupos de oposies binrias           E.R. 1970: Lvi-Strauss  Leach, E.R e Aycock, Alan
(me/pai, natureza/cultura, fmea/macho,            1983: Structural Interpretations of Biblical Myth  L-
cru/cozido), que supostamente refletem as ca-       vi-Strauss, C. 1964-72 (1970-78): Mythologiques, 3
tegorias fundamentais da mente humana. As           vols.  Malinowski, B. 1925 (1948): Magic, Science
tcnicas estruturalistas de Lvi-Strauss tm        and Religion and Other Essays  Sorel, Georges 1906:
                                                    Reflexions sur la violence  Tudor, H. 1972: Political
proporcionado percepes teis dos motivos          Myth  Turner, Victor 1968: "Myth and symbol". In
subjacentes aos mitos, mas os crticos alegam       International Encyclopedia of the Social Sciences, org.
que essa abordagem  reducionista, uma es-          por D. Sills, vols. 9-10.
pcie de "malabarismo verbal com uma fr-                                                     CRIS SHORE
mula generalizada" que "no nos pode mostrar
a verdade" (Leach, 1970, p.82).                     mobilidade social Os movimentos de pes-
    Em cincia poltica, o significado da palavra   soas que passam da condio de membros de
tem sido s vezes ampliado para a filosofia         uma categoria social para outra -- os mais
poltica, a IDEOLOGIA e a religio. O autor mais    tpicos so os movimentos entre classes sociais
famoso nessa tradio foi Sorel, para quem os       -- tm sido estudados pelos socilogos sob a
mitos (incluindo a Greve Geral e a Revoluo        rubrica da mobilidade social. Embora tenha
Proletria) eram imagens capazes de invocar         havido um interesse anterior por esses movi-
instintivamente todos os sentimentos que per-       mentos, como uma faceta da anlise de classes,
mitem a um povo, partido ou classe colocar em       particularmente em reao  proposta de Vilfre-
jogo suas energias para a ao poltica. Para       do Pareto de uma circulao de elites (Botto-
Sorel (1906), todos os grandes movimentos           more, 1964), foi a publicao de Social Mobi-
sociais desenvolvem-se atravs da busca de um       lity, de Sorokin, em 1927, que trouxe o primeiro
mito que fornece o idealismo necessrio para        tratamento conceitual sistemtico. Sua viso
reunir e unir as pessoas atrs de uma causa. A      ampla de um complexo de movimentos atravs
idia do mito como elemento essencial urdido        de muitas e diferentes dimenses sociais foi
no tecido de uma ideologia geral teve eco na        depois reenfocada, de maneira mais restrita, na
concepo mussoliniana do fascismo como             mobilidade atravs da educao e do emprego,
uma f viva. O mito poltico  um recurso           atravs da obra fundamental empreendida pela
mobilizador, uma celebrao dos impulsos ir-        London School of Economics (LSE) e publica-
racionais, cujo apelo aos fabricantes de mitos      da em 1954 como Social Mobility in Britain
reside mais na viso lcida e instigante de re-     (Glass, 1954). Essa obra estabeleceu um para-
                                                                             mobilidade social   471


digma para posteriores anlises da mobilidade,      substanciais  ascenso social. No exterior, no-
estimulou estudos comparveis em outras na-         vos estudos acenderam o debate a respeito da
es e proporcionou a prova emprica para sub-      abertura da sociedade americana e outras, bem
seqentes avaliaes das fronteiras de classe, da   como dos padres de mobilidade associados 
rigidez da hierarquia social e da mobilidade        social-democracia e ao capitalismo liberal. Na
entre classes na Gr-Bretanha (ver tambm           Gr-Bretanha, praticamente no se coletou ne-
CLASSE; ESTRATIFICAO SOCIAL; ESTRUTURA-           nhum dado emprico novo; os resultados dos
O). Tambm promoveu o uso da expresso            estudos Oxford e Aberdeen s se tornaram reco-
mobilidade social na linguagem popular e na         nhecidos no final dos anos 70 (Payne, 1989).
retrica poltica. Levantamentos sociais de             Esses e outros estudos apontam taxas mais
grande monta realizados na Gr-Bretanha nos         elevadas de mobilidade, incluindo movimentos
anos 70 fizeram reviver o interesse por esse        do fundo para bem perto do topo da hierarquia
campo, introduzindo novas tcnicas de pes-          profissional, lanando dvidas sobre a confia-
quisa, gerando novos dados e estimulando a          bilidade dos dados originais de Glass. Uma
renovao do debate a respeito das causas, ta-      simples contagem de pessoas em processo de
xas, conseqncias e formas de mobilidade (ver      mobilidade, por exemplo, mostra 28% em as-
Goldthorpe, 1980; Payne, 1987, 1989).               censo no estudo de Glass, 40% no estudo
    Glass e seus colegas tinham dois interesses     Oxford e 42% no estudo Essex de 1984. A classe
principais. Primeiro, quais eram as caractersti-   mdia alta, ou "de servios", tem 19%, 28% e
cas sociais dos funcionrios pblicos mais gra-     33% recrutados entre os filhos de trabalhadores
duados que podiam ser encarados como uma            manuais nesses mesmos trs estudos (Payne,
poderosa elite na sociedade britnica? Segun-       1989, p.476-7).
do, at onde a reforma na educao (a Lei de            No entanto seria enganador concluir, a partir
Educao de 1944) e a crescente importncia         desses dois exemplos entre as muitas mensu-
da qualificao educacional para a obteno de      raes disponveis de mobilidade inter- e in-
empregos produzem a igualdade de oportuni-          trageracional, que um novo consenso considera
dades, permitindo com isso que os filhos da         mais aberta a sociedade britnica. Goldthorpe,
classe operria obtenham "melhores" empre-          em particular, afirmou que a medida importan-
gos de classe mdia nos quais seus talentos         te de mobilidades no  o nmero de pessoas
sejam plenamente utilizados? Comparando as          nesse processo ("mobilidade absoluta"), mas as
posies dos pais com as de seus filhos agora       oportunidades "relativas" de mobilidade para
adultos, o estudo da LSE mostrou pouco movi-        pessoas de origens diferentes. O motivo disso
mento ascendente dos setores inferiores da hie-      que ele deseja examinar a mobilidade como
rarquia social, embora tenha havido consider-      um produto de relaes de classe e reformas
vel mobilidade de pequeno alcance. As desco-        de bem-estar, enquanto as crescentes taxas ab-
bertas implicavam que a classe mdia alta esta-     solutas de mobilidade devem mais  expanso
va socialmente fechada aos de baixo, e que a        estrutural dos novos empregos de colarinho
reforma na educao levaria algum tempo para        branco, caracterstica das sociedades ps-in-
alterar as desigualdades sociais estruturadas e-    dustriais.
xistentes na Gr-Bretanha do ps-guerra.                Sua posio tem sido contestada pela Nova
    No decorrer dos 25 anos seguintes, essa         Direita. Saunders (1990) afirma que Gold-
abordagem bsica foi desenvolvida de trs mo-       thorpe minimiza as altas taxas absolutas de
dos principais. A.H. Halsey, Jean Floud, John       mobilidade devido a um desejo politicamente
Westergaard e outros demonstraram que as re-        tendencioso de apoiar uma viso negativa do
formas do sistema de bem-estar social benefi-       capitalismo. Afirma tambm que os padres de
ciaram tanto os filhos da classe mdia quanto       vida cresceram; como resultado, uma compara-
os da classe operria, e que a mudana para o       o entre geraes mostrando imobilidade na
sistema de credenciais educativas em si mesma       classe operria pode significar melhora mate-
no igualou as oportunidades. Autores como          rial at mesmo para os que no conseguem a
Tom Bottomore, Ralph Miliband, Frank Parkin,        ascenso social. Ao mesmo tempo que existem
Anthony Giddens e Westergaard usaram as evi-        fallhas considerveis na argumentao de
dncias empricas de Glass para elaborar mode-      Saunders,  possvel mostrar que mesmo as
los de uma estrutura de classes com bloqueios       taxas de mobilidade relativas esto mudando no
472    modelo


sentido de maior igualdade de oportunidades:              com a posio de Duhem de que uma teoria
enquanto em 1972 os filhos de homens da classe            consistia em uma estrutura dedutivamente or-
de servios tinham chances 3,5 vezes maiores              ganizada de leis empricas, Norman Campbell
de conseguir um emprego nessa mesma classe                no obstante afirmou, em seu Physics, the Ele-
do que os filhos de trabalhadores manuais, 12             ments (1920), que, para ser intelectualmente
anos depois esse nmero cara para 3.                     satisfatria ou capaz de crescer, uma teoria deve
    Uma contestao mais substancial  viso              tambm implicar uma relao (no-dedutiva)
de Goldthorpe tem vindo dos que desejam am-               de analogia com algum campo conhecido de
pliar a definio de mobilidade, na tradio de           fenmenos. Assim, do ponto de vista de Cam-
Sorokin. Equipes de pesquisa em Cambridge,                pbell, no  apenas a considerao de que a lei
Essex, Surrey e Plymouth tm se apoiado nas               de Boyle, a lei de Charles e a lei de Graham
idias de MERCADO DE TRABALHO, grupo fami-                eram todas conseqncias dedutivas da teoria
liar, herana material, mudana ocupacional e             cintica dos gases, mas  o modelo corpuscular
estudos de gnero para questionar se  adequada           associado a essa teoria -- em virtude do qual se
a concepo da mobilidade como movimento                  imagina que as molculas de gs sejam, em
em termos de uma idia no-diferenciada de                certos aspectos (a analogia positiva), como bo-
classe social. A ausncia de uma relao estreita         las de bilhar ricocheteando umas nas outras e
entre a experincia da mobilidade e o compor-             passando adiante seu impulso atravs do impac-
tamento e as atitudes polticas ou de classe             to -- o que garante a nossa concordncia in-
considerada uma prova em apoio dessa viso.               telectual com ela. Na teoria, o aspecto no qual
O surgimento de uma nova obra ir, em certa               as molculas de gs so diferentes das bolas de
medida, retificar a outra limitao importante 
                                                          bilhar, isto , cor e tamanho (a analogia negati-
compreenso da mobilidade social, a saber, a
                                                          va),  simplesmente ignorado, enquanto os as-
virtual ausncia das mulheres nos relatrios dos
                                                          pectos em que no sabemos se as molculas de
estudos mais importantes (Payne e Abbott,
                                                          gs so ou no como as bolas de bilhar (a
1991).
                                                          analogia neutra) so usados como fonte de "sig-
Leitura sugerida: Heath, A. 1981: Social Mobility         nificado excedente (ou ilimitado)" para apontar
 Marshall, G., Newby, H., Rose, D. e Vogler, C. 1988:
                                                          maneiras pelas quais a teoria pode ser refinada.
Social Class in Modern Britain  Payne, G. 1987: Em-
ployment and Opportunity  1991: "Competing views
                                                              No positivismo que caracterizou a FILOSOFIA
of contemporary social mobility and social divisions".    DA CINCIA at o final dos anos 60, a abordagem
In Class and Consumption, org. por R. Burrows e C.        de Duhem foi triunfante. Alm do mais, houve
Marsh  Payne, G. e Abbott, P. 1991: The Social Mobi-      dificuldades substanciais com a posio do pr-
lity of Women  Westergaard, J. e Resler, H. 1975: Class   prio Campbell. Assim, Braith afirmou que a
in a Capitalist Society.
                                                          natureza intelectualmente satisfatria dos mo-
                                        GEOFF PAYNE
                                                          delos no podia justificar a escolha de qualquer
modelo Interpretao de um sistema formal                 modelo em particular. Alm disso, a noo im-
e/ou representao, normalmente por analogia              plcita de explicao -- como reduo do es-
(mas s vezes por metfora ou mesmo meton-               tranho ou desconhecido ao familiar --  suspei-
mia), de uma coisa por alguma outra coisa (por            ta. Pois revolues cientficas podem implicar
exemplo, para fins heursticos, explanatrios ou          transformaes na nossa concepo do que 
de teste). O sculo inaugurou-se com um ataque            plausvel. No cerne desses problemas encontra-
contundente de Pierre Duhem, em seu La Tho-              se o contnuo REALISMO e dedutivismo emprico
rie physique: son objet, sa structure (ver Du-            de Campbell, e em particular sua relutncia em
hem, 1906), aos modelos mecnicos (e s men-              admitir os modelos, conforme insistiram Max
tes ilustrativas, "amplas porm superficiais")            Black, Mary Hesse, Rom Harr e Roy Bhaskar,
dos fsicos ingleses, como James Clark Max-               como exposies possveis ou hipotticas de
well, lorde Kelvin e Oliver Lodge, em apoio a             uma realidade desconhecida porm passvel de
sua prpria concepo cartesiana de cincia. A            ser conhecida, e em conseqncia ver a cincia
teoria deve amarrar as leis experimentais, mas            como essencialmente em desenvolvimento. As-
qualquer modelo associado ao sistema de axio-             sim, o realismo transcendental de Bhaskar en-
mas (parcialmente) interpretado  lgica e epis-          cara a dedutibilidade como no sendo nem ne-
temologicamente redundante. Concordando                   cessria nem suficiente para a explicao, e
                                                                                       modernidade     473


admite que no processo cientfico at mesmo a             d.C., a palavra latina tardia modernus expres-
analogia positiva pode ser subvertida.                    sava a rejeio do paganismo e a inaugurao
    Qualquer modelo de um objeto possui uma               da nova era crist. Os pensadores do Renas-
fonte (que pode ser ela prpria um modelo). Os            cimento, recuperando o humanismo clssico,
modelos podem ser convencionalmente dividi-               fundiram-na com cristandade para fazer a dis-
dos entre aqueles em que o tpico  o mesmo               tino entre estados e sociedades "antigos" e
que a fonte, os homeomorfos, e aqueles em que             "modernos". O Iluminismo do sculo XVIII
 diferente, os paramorfos. Uma boneca  o                no apenas interps "medieval" entre "antigo"
modelo de um beb, modelado a partir de um                e "moderno" como fez a identificao cru-
beb. Os homeomorfos podem ser classificados              cial do moderno com o aqui e agora. Isso acres-
em modelos em escala, representantes de                   centou nova fluidez ao conceito. Da em diante
classe, idealizaes e abstraes. Mas  clara-           a sociedade moderna era a nossa sociedade, o
mente a construo paramrfica de modelo, isto            tipo de sociedades em que vivamos, fosse no
, a construo de um modelo utilizando recur-            sculo XVIII ou no sculo XX. A sociedade
sos cognitivos anteriormente disponveis (os              ocidental, como fortemente contrastante com
"emprstimos cientficos" de Bachelard) para              sociedades anteriores ou outras sociedades --
um tpico desconhecido (cuja realidade pode               as duas coisas passaram a parecer sinnimas --,
acabar sendo empiricamente verificada), o que             tornou-se o emblema da modernidade. Essa
 extremamente importante na cincia criativa,            evoluo determinou os contornos da moder-
ampliadora de conhecimentos. Tais modelos                 nidade. Modernizar era ocidentalizar.
podem basear-se em uma, mais de uma, ou                       A sociedade moderna, portanto, carrega os
apenas em aspectos de uma fonte, isto , para-            marcos da sociedade ocidental desde o sculo
morfos individualmente ligados, multipla-                 XVIII. Foi industrial e foi cientfica. Sua forma
mente ligados e semiligados, respectivamente,             poltica foi o estado-nao, legitimado por al-
conforme exemplificado pelas teorias cintica,            gumas espcies de soberania popular. Atribuiu
darwiniana e freudiana. Assim, Darwin traba-              um papel sem precedentes  economia e ao
lhou a teoria da seleo domstica e a teoria de          crescimento econmico. Suas filosofias de tra-
Malthus sobre a populao junto com os fatos              balho eram o racionalismo (ver RACIONALIDADE
da variao natural, formando uma nova teoria             E RAZO) e o UTILITARISMO. Em todas essas
sobre um novo tipo de processo: a seleo                 formas, ela rejeitava no apenas o seu prprio
natural. Harr afirmou que paramorfos multi-              passado, mas todas as outras culturas que no
plamente ligados devem levar  postulao de              se mostravam  altura de sua autocompreenso.
novos tipos de entidades ou processos. Mas a               errado dizer que a modernidade nega a his-
construo imaginosa de modelos, to essencial            tria, na medida em que o contraste com o
 cincia, est sempre sujeita a rigoroso teste           passado -- uma entidade constantemente em
emprico.                                                 mudana -- permanece como um ponto de
Leitura sugerida: Bhaskar, Roy 1975 (1978): A Rea-
                                                          referncia necessrio. Mas  verdade que a
list Theory of Science, 2ed., especialmente cap.3, se-   modernidade sente que o passado no tem li-
o 2  Campbell, N.R. 1953: What is Science?  Du-         es para ela; seu impulso  constantemente em
hem, P. 1906 (1962): The Aim and Structure of Physical    direo ao futuro. Ao contrrio de outras socie-
Theory  Harr, R. 1970: The Principles of Scientific      dades, a sociedade moderna recebe bem e pro-
Thinking, especialmente cap.2  Hesse, M.B. 1966:          move a novidade.  possvel dizer que ela in-
Models and Analogies in Science  Losee, J. 1980: A
                                                          ventou a "tradio do novo".
Historical Introduction to the Philosophy of Science,
especialmente cap.9.                                          A modernidade -- a moderna SOCIEDADE
                                       ROY BHASKAR        INDUSTRIAL -- recebeu uma anlise abrangente
                                                          dos principais tericos sociais do sculo XIX:
modernidade Este  um "conceito de con-                   Hegel, Marx, Tocqueville, Weber, Simmel e
traste". Extrai seu significado tanto do que nega         Durkheim. Suas anlises permanecem relevan-
como do que afirma. Da a palavra poder apa-              tes em muitos aspectos para as sociedades dos
recer em diferentes pocas com significados               dias atuais -- Marx includo, apesar do fracasso
amplamente diversos, dependendo do que est               do socialismo de estado em vrias partes do
sendo negado e, em contraste, do que est sendo           mundo. Mas o crescimento de certos aspectos
afirmado. Para Santo Agostinho, no sculo V               em nosso tempo -- a globalizao da econo-
474   modernismo e ps-modernismo


mia, o declnio do estado-nao, as grandes        sua fora. Ao mesmo tempo, o industrialismo
migraes populacionais -- levaram alguns          est ameaando os sistemas de apoio  vida do
pensadores a postular o fim da modernidade tal     planeta.  nesse ponto que o industrialismo
como esta sempre foi em geral compreendida.        pode esbarrar em seus limites; e o repensamento
Geoffrey Barraclough props "histria contem-      e redirecionamento que isso implicaria pode
pornea" como algo diferente de "histria mo-      muito bem desmontar algumas das correntes
derna"; outros foram mais alm e anunciaram a      fundamentais da modernidade. Se isso nos le-
"era ps-moderna".                                 varia para "alm da modernidade",  algo que
    Nenhuma dessas alegaes transmite con-        ainda no podemos dizer.
vico.  possvel demonstrar que quase todas
                                                   Leitura sugerida: Berman, Marshall, 1983: All that is
as evolues escolhidas tm suas razes fir-       Solid Melts into Air: the Experience of Modernity
memente cravadas na modernidade clssica.           Bradbury, Malcolm e McFarlane, James, orgs. 1976:
Isso  particularmente vlido para a renovada      Modernism 1890-1930  Frisby, David, 1988: Frag-
nfase na transitoriedade, na fragmentao e na    ments of Modernity  Giddens, A. 1990: The Con-
perda de um senso de significado do processo       sequences of Modernity  Habermas, Jrgen 1990: The
histrico. Pensadores como Baudelaire, Nietzs-     Philosophical Discourse of Modernity  Kumar, K.
che e Burckhardt j haviam observado essas         1988: The Rise of Modern Society.
tendncias em sua poca. O "ltimo homem"                                             KRISHAN KUMAR
de Nietzsche j vivenciava as dificuldades e
dilemas do homem "ps-moderno".                    modernismo e ps-modernismo Modernis-
    A modernidade nunca foi toda da mesma          mo, como termo geral na histria cultural, in-
espcie, como Max Weber e Georg Simmel em          dica um conjunto ricamente variado de rupturas
particular se esforaram por enfatizar. Seu di-    estticas com a tradio realista europia de
namismo constantemente jogava suas partes          meados do sculo XIX em diante. O realismo
em conflito umas com as outras -- a sociedade      tem suas premissas em uma identidade entre a
politicamente organizada contra a economia, a      obra de arte e a natureza ou a sociedade externa
cultura contra a racionalidade utilitria. Boa     com a qual ela lida, identidade que  secre-
parte do que aparece como "ps-modernidade"        tamente garantida pela metfora do espelho que
encontrou sua primeira expresso na revolta        se encontra no prprio cerne da ESTTICA realis-
cultural contra a modernidade que marcou o         ta. A obra de arte realista prope-se modes-
movimento do "modernismo" na virada do s-         tamente "refletir" a realidade que se coloca
culo (ver MODERNISMO E PS-MODERNISMO). O          diante dela, no lhe acrescentando nem lhe
modernismo certamente fez eco  modernidade        subtraindo coisa alguma. A metfora do "re-
em sua nfase no funcionalismo e na sofistica-     flexo no espelho" busca garantir a objetividade
o tecnolgica; mas da mesma forma, em cor-       e a impessoalidade da obra, evitando as distor-
rente como o surrealismo e o dadasmo, ele         es potenciais do capricho pessoal ou da ten-
subverteu certos dogmas da modernidade, ao         dncia de classe por parte do autor.
abraar as alegaes do "princpio do prazer"          Os artistas modernistas, a partir de toda uma
contra as do "princpio da realidade".             variedade de posies, rejeitaram esses dogmas
     inegvel que a sociedade moderna de hoje,    realistas bsicos. A esttica reflexionista, argu-
de vrias maneiras, no  a sociedade moderna      mentaram, era inaceitavelmente passiva, redu-
do tempo de Marx ou Weber. Mas a moder-            zindo a obra de arte a um eco ou "fantasma"
nidade no  a sociedade ocidental em nenhuma      vazio de processos sociais mais fundamentais,
de suas fases particulares. Ela  o princpio da   exaurindo-a e ressecando-a de qualquer subs-
sociedade ocidental como tal. O compromisso        tncia distintiva prpria. Essa substncia, em
com o crescimento e a inovao contnuos           seu ponto de vista, residia no no contedo da
exige que as formas existentes sejam encaradas     obra, que necessariamente lhe vinha de outro
como provisrias.  portanto inteiramente de se    ponto (histria, natureza, psicologia), mas em
esperar que surjam novos aspectos. A questo       sua forma, na rearrumao estilstica ou tcnica
importante  at que ponto o dinamismo essen-      de suas matrias-primas. A forma , portanto, a
cial do industrialismo foi contido ou redirecio-   palavra central da esttica modernista -- com
nado. A difuso mundial do modo de vida in-        o FORMALISMO russo, muito adequadamente,
dustrial  um testemunho da continuidade de        sendo uma de suas principais escolas --, e  a
                                                                  modernismo e ps-modernismo       475


nfase prtica e terica na forma que garante a      crebro dos vivos. A obra modernista deve en-
"autonomia" da obra de arte, aquela dimenso         to, atravs de imenso esforo de imaginao
irredutivelmente esttica que a impede de ser        tecnolgica, erguer-se dessa turba de estilos
um mero documento histrico (romance realis-         passados mortos, inautnticos, e purg-los atra-
ta) ou expresso emocional (poema lrico ro-         vs do rigor impiedoso de seu "funcionalismo".
mntico).                                            Tal  a lgica esttica da arquitetura modernista
    Mas, assim que comeamos a tentar datar as       de Le Corbusier e do Estilo Internacional ou de
origens da "virada para a forma" modernista,         Walter Gropius e sua Bauhaus. Alternativamen-
vemos que esse no  um simples debate interno       te, o artista modernista pode buscar foras de
sobre teoria esttica, mas em si mesmo uma           dinamismo j em funcionamento dentro da so-
complexa "reflexo" de ansiedades sociais pro-       ciedade e alinhar-se com elas na tentativa de
fundas (ver tambm SOCIOLOGIA DA ARTE). Se           liquidar as teias de aranha sufocantes do passa-
Charles Baudelaire e Gustave Flaubert forem          do cultural e poltico. Tal  o projeto do futuris-
tomados como pioneiros, ento as origens do          mo italiano e russo que celebra as vastas ener-
modernismo podem ser atribudas (como em             gias da cincia e da produo contemporneas:
geral tm sido por crticos marxistas) ao ano        transatlnticos, aeroplanos, automveis; fbri-
politicamente sangrento de 1848; a represso         cas e arranha-cus; metralhadoras e tanques.
brutal das revolues daquele ano  vista como       Essas prodigiosas "foras de produo", bran-
lanando o pretenso universalismo do texto           didas pela raa nova e dinmica dos homens e
clssico ou realista em uma crise terminal. Al-      mulheres modernos que a vida urbana estava
ternativamente,  possvel buscar as origens em      gerando, liquidaria as "relaes de produo"
movimentos, em vez de indivduos, e ver o            sociais claustrofbicas que os restringiam na
modernismo como s se pondo verdadeiramen-           sociedade burguesa. Tal esttica,  evidente,
te a caminho com a srie acelerada de ex-            implica imediatamente uma poltica revolucio-
perimentalismos vanguardistas da dcada de           nria, mas o futurismo (na pessoa de Filippo
1880 em diante: naturalismo, simbolismo, cu-         Marinetti) pde servir  causa da contra-revolu-
bismo, expressionismo, futurismo, surrealis-         o fascista to entusiasticamente quanto serviu
mo, construtivismo e outros. Os fatores sociais      (atravs de Vladimir Mayakovsky e outros) ao
que formam a matriz desse grande carnaval de         projeto socialista bolchevique.
experincias estticas incluiria ento a ascenso        Se, com o futurismo e a arquitetura do Estilo
da cultura de massa, a militncia e a revoluo      Internacional,  possvel julgar o presente como
da classe operria, a agitao poltica feminista,   "inautntico" em nome do futuro, ento isso
as novas tecnologias da segunda Revoluo            tambm  possvel em nome do passado longn-
Industrial, a guerra imperialista entre 1914 e       quo. A histria contempornea, para essa outra
1918 e -- colocando tudo isso sob um intenso         ala do modernismo,  um pesadelo em seu
foco de experincia -- o dinamismo e a aliena-       cnico racionalismo e em sua crassa cultura de
o da vida nas grandes cidades europias:           massa; e contra esse presente to degradado a
Paris, Londres, Berlim, Viena, So Petersburgo.      obra de arte deve, tanto no tema quanto na
    "A histria  um pesadelo do qual estou          forma, reativar as foras da memria. Esse pro-
tentando despertar", diz Stephen Dedalus em          jeto assume muitas e variadas formas espe-
Ulisses de James Joyce (que data de 1922). Para      cficas. A obra pode apelar a um passado pes-
a maior parte dos modernismos, a histria con-       soal, um temps perdu proustiano, ou uma in-
tempornea , de uma forma ou de outra, hor-         tegralidade perdida, atravs da qual possa con-
ripilante como um pesadelo, ou (em outra cate-       denar um presente adulto desenraizado; ou po-
goria essencial da esttica modernista) "inau-       de, como no caso das representaes das cate-
tntica", e a obra de arte busca "despertar" dela    drais gticas medievais em alguns dos grandes
para um modo de ser mais autntico, ou at           textos do perodo, voltar o olhar para um pas-
utpico. No entanto essas nfases gerais podem       sado cultural perdido, uma poca de sensi-
ser postas a descoberto em detalhe de modos          bilidade unificada e "comunidade orgnica", ou
violentamente contraditrios. A histria pode        Gemeinschaft, antes da "queda" no individu-
ser vista como sufocada pela mo morta da            alismo burgus. De forma alternativa, pequenos
tradio, por um conservadorismo social e es-        focos de "memria" de um ser autntico podem
ttico que pesa como um pesadelo sobre o             ainda existir residualmente no presente capi-
476   modernismo e ps-modernismo


talista: em cantos geograficamente remotos da      investe pesadamente no localismo, no parti-
terra, em dimenses negligenciadas de nossa        cularismo, no regionalismo, reinventando os
experincia fsica, ou em um inconsciente co-      estilos tradicionalistas e vernculos e construin-
letivo junguiano, informado pelo mito, a que a     do com materiais que a esttica modernista
obra modernista, em virtude de seus deslo-         havia jogado na lata de lixo da histria. As
camentos da forma, pode recorrer.                  superfcies brancas e os telhados planos da Ra-
    A forma deslocada, perceptvel, pode ento     zo universal podem satisfazer o arquiteto de
representar tanto o dinamismo do futuro quanto     vanguarda, mas no so, objeta o ps-moder-
o inquietante retorno do passado arcaico, mas a    nismo, nem um pouco agradveis para mais
forma perceptvel tambm caracteriza outra         ningum, incluindo os que tm de viver neles.
corrente do modernismo que repudia qualquer        Alguns dos mais famosos manifestos ps-mo-
revestimento ideolgico da inovao tcnica.       dernistas, incluindo Learning from Las Vegas,
Para essa veia do modernismo, de Gustave           de Robert Venturi, nos anos 70, e From Bauhaus
Flaubert e Henry James em diante, a histria      to Our House, de Tom Wolfe, publicado em
um fluxo catico que deve ser redimido atravs     1982, lanam assim um ataque populista ao
das simetrias formais da obra de arte. Em vir-     elitismo da arquitetura no Estilo Internacional;
tude de seu intenso artesanato, sua busca obses-   e esse ataque implica no apenas a defesa dos
siva pelo mot juste, ou a complexidade cons-       estilos tradicionalistas de construo dos quais
ciente da trama, a obra transcende a histria,     por acaso as pessoas gostam, mas tambm o
construindo uma esfera de autonomia esttica       louvor ao esprito e  vitalidade dos estilos
que no tem relao alguma com passado, pre-       comerciais da cultura de massa. A obra ps-
sente ou futuro. Tal esttica transcendental --    moderna, insiste Venturi, deve "aprender com"
s vezes chamada de "esteticismo" ou "auto-        essas formas, incorporando-as com satisfao a
modernismo" -- veio a contrastar com a "van-       sua prpria substncia em vez de neg-las com
guarda histrica" (futurismo, surrealismo, da-     austeridade. Essa dissoluo da rgida distino
dasmo) que busca romper esse reino hermtico      modernista entre "cultura elevada" e CULTURA
de valor esttico e devolver a esttica  vida     DE MASSA, que se manifestou pela primeira vez
cotidiana (ver Brger, 1984).                      na arquitetura, encontra equivalncia em mui-
    Se o modernismo  mais um fenmeno ml-        tos outros campos culturais, e  na verdade
tiplo do que unitrio, ento o ps-modernismo      citada com freqncia como a caracterstica
do final dos anos 50 ou incio dos anos 60 em      central da cultura ps-moderna.
diante no ser menos polissemntico: sua for-         O elitismo da arte modernista reside na difi-
a em qualquer contexto particular vai depen-      culdade de suas formas, aquela "violncia or-
der precisamente de qual verso do modernis-       ganizada sobre a linguagem comum", ou sobre
mo ele presume negar. O conceito de ps-mo-        as convenes, que para Roman Jakobson defi-
dernismo surgiu em primeiro lugar na arquite-      niam o modernismo como tal. Qualquer ataque
tura, mas desde ento se generalizou para pra-     a seu elitismo , em conseqncia, necessa-
ticamente todos os campos da cultura. A arqui-     riamente uma crtica a sua obsesso com a
tetura ps-moderna  um ataque, acima de tudo      forma. Nesse sentido, a arte ps-moderna pode
ao Estilo Internacional. Se no repudia a nfase   ser encarada como o "retorno do contedo", um
na inovao tecnolgica encontrada em Le Cor-      contedo que era ou radicalmente subordinado
busier ou Walter Gropius, efetivamente proble-     pela preocupao modernista com a forma ou,
matiza alguns dos valores essenciais ligados ao    ocasionalmente, por ela totalmente abolido. Tal
avano tecnolgico na arquitetura modernista:      modelo, extrapolado a partir das evolues na
universalismo, elitismo, formalismo. As facha-     arquitetura,  excelentemente desenvolvido por
das brancas austeras e retilneas, e os telhados   Linda Hutcheon em A Poetics of Postmoder-
planos, caractersticos do Estilo Internacional,   nism (1988). Ela definiu o romance ps-moder-
pretendem ser formas arquitetnicas univer-        no, exemplificado por autores como Gabriel
sais, aderindo aos cnones de uma razo pura,      Garca Mrquez, Gnter Grass, John Fowles,
cientfica, independente das idiossincrasias de    E.L. Doctorow e outros, como "metafico his-
qualquer tempo ou lugar em particular. O ps-      toriogrfica". Esses romances voltam a ques-
modernismo acha essas pretenses arrogantes        tes de enredo, histria e referncia, que um dia
ou at mesmo autoritrias e, em vez disso,         pareceram ter explodido em funo da preo-
                                                                                    modernizao        477


cupao da fico moderna com a autonomia           contra o Primeiro Mundo assolado de imagens
textual e a conscincia de si mesma, mas sem        no qual vivemos, qual , ento, a base da crtica
simplesmente abandonar essas preocupaes           poltica -- acima de tudo na esteira do colapso
"metaficcionais". Esse modelo sugestivo pode        de um projeto comunista que parece ter par-
ser prontamente ampliado para outras reas,         ticipado justamente do universalismo e elitismo
incluindo o retorno da representao e do corpo     da prpria cultura modernista?
na pintura, e assim por diante.                         Tais ambivalncias a respeito do valor da
    O ataque ao universalismo, ao elitismo e ao     cultura ps-moderna tambm se infiltram em
formalismo modernistas constitui o que pode-        qualquer tentativa de esboar a matriz social da
ramos chamar de momento atraentemente              qual ela emerge. Por consenso geral, o ps-
"ecolgico" do ps-modernismo, sua abertura         modernismo comea a existir quando o ca-
descentralista a estilos ou experincias reprimi-   pitalismo passa de seu momento fordista para o
dos e  cultura do Outro, do Diferente (mu-         ps-fordista (ver FORDISMO E PS-FORDISMO), dos
lheres, gays, negros, Terceiro Mundo). No en-       produtos padronizados das linhas de produo
tanto construir um chal com telhado de sap        monolticas em fbricas gigantescas para o uso
ou narrar uma histria de amor vitoriana em         descentralizado de uma tecnologia da informa-
1990 no  o mesmo que montar esses artefatos       o sofisticada o suficiente para permitir uma
no sculo XVII, ou XIX. Trata-se, na verdade,       "especializao flexvel". Essa mudana do
de construir uma imagem ou simulacro de tais        Um para o Muitos dentro do prprio capitalis-
entidades; e esse  o ponto em que as reservas      mo, portanto, coloca novas questes a respeito
a respeito da cultura ps-moderna tendem a vir      das tendncias ao pluralismo e  diferena que
para o primeiro plano. A obsesso modernista        observamos na cultura ps-moderna. Sero
com o tempo d lugar, no ps-moderno, a uma         passos autnticos no sentido de uma democra-
preocupao com o espao e a geografia, com         tizao do absolutismo inaceitvel de algu-
as diferenas sincrnicas, em vez das diacrni-     mas formas de modernismo, ou sero antes,
cas. Existe nisso muita coisa que  liberadora,     talvez, apenas os mais recentes ardis de um
uma vez que a modernidade ocidental abandona        sistema econmico global que, tendo se livrado
sua arrogncia imperialista para com as culturas    de seu antagonista comunista, agora nos tem em
"primitivas" que a cercam; mas tambm pode          seu poder mais firmemente do que nunca?
haver um "congelamento" da histria, uma per-       Leitura sugerida: Berman, Marshall 1983: All that is
da de imaginao e, assim, da possibilidade         Solid Melts into Air: the Experience of Modernity
prtica de mudana social radical. Os estilos do     Bradbury, Malcolm e McFarlane, James, orgs. 1976:
passado podem ser agradavelmente reinven-           Modernism 1890-1930  Brger, Peter 1984: Theory of
tados, mas talvez apenas como imagens uni-          the Avant-Garde  Connor, Steven 1989: Postmoder-
dimensionais na "indstria da herana" de um        nist Culture: an Introduction to Theories of the Contem-
                                                    porary  Harvey, D. 1989: The Condition of Postmo-
eterno presente. Em um mundo dominado pela
                                                    dernity  Jameson, Fredric 1991: Postmodernism, or
comunicao de massa e pelas tecnologias da         The Cultural Logic of Late Capitalism  Lyotard, J.-F.
reproduo cultural, o sonho modernista de u-       1979: La condition postmoderne  Williams, Raymond
ma experincia utpica, "autntica", para alm      1989: The Politics of Modernism.
da cultura de massa, desaparece. Saturados co-                                             TONY PINKNEY
mo estamos, desde o nascimento, pelas ima-
gens, esteretipos e paradigmas narrativos de       modernizao Processo de mudana econ-
uma cultura de massa ubqua, h muito tempo         mica, poltica, social e cultural que ocorre em
vivemos a "morte do sujeito" que o ps-es-          pases subdesenvolvidos, na medida em que se
truturalismo recentemente articulou no plano        direcionam para padres mais avanados e
da teoria. Mais uma vez, existem dimenses          complexos de organizao social e poltica. Foi
progressivas para esse desenvolvimento; jun-        minuciosamente estudado e definido nas teorias
tamente com o sonho da autenticidade, o des-        sociolgicas norte-americanas do ps-guerra
prezo do modernismo pela gente comum tam-           que partem da referncia implcita ou explcita
bm desapareceu. Mas, se no podemos mais           a uma dicotomia entre dois tipos ideais: a socie-
apelar para a Natureza ou o inconsciente, para      dade tradicional (que em algumas verses tam-
a autntica sexualidade lawrenciana ou para         bm pode ser chamada de "rural", "atrasada" ou
redutos pr-capitalistas no Terceiro Mundo          "subdesenvolvida") e a sociedade moderna (ou
478   modernizao


"urbana", "desenvolvida", "industrial"). Esses           As verses psicolgicas enfatizam fatores
tipos de estrutura social esto, de certa forma,     internos e motivos psicolgicos como as foras
historicamente ligados por meio de um con-           motoras da transio. Assim, McClelland
tnuo processo evolutivo que segue certas leis       (1961) prope a "necessidade de realizao",
gerais. A idia  que todas as sociedades seguem     um desejo de fazer bem, como motivao cru-
um caminho histrico semelhante, de crescente        cial que, difundindo-se entre os empresrios de
diferenciao e complexidade e de um tipo            um pas, leva ao desenvolvimento econmico.
polar a outro.                                       Essa motivao no  inata nem hereditria, e
    Como algumas sociedades j se industri-          pode ser desenvolvida em um pas em transio
alizaram, elas se tornam a base sobre a qual         para a modernidade por meio da educao.
podem ser construdos o paradigma da socie-              A verso econmica  bem representada por
dade moderna e o processo de transio tpico        Rostow (1960) e sua teoria de estgios do cres-
ideal. Algumas teorias enfatizam a natureza          cimento econmico. Ele afirma que todas as
endgena do processo de mudana (Rostow,             sociedades passam por cinco estgios: socie-
1960; Hoselitz, 1965; Parsons, 1951), enquanto       dade tradicional, precondies para o desenvol-
outras enfatizam a importncia de fatores hex-      vimento auto-sustentado, desenvolvimento au-
genos, tais como a difuso de valores, tecnolo-      to-sustentado, o caminho para a maturidade e a
gia, especializaes e formas de organizao de      era do elevado consumo de massa. Rostow
naes avanadas do Ocidente para naes po-         acredita que o processo de desenvolvimento
bres do Terceiro Mundo (Lerner, 1958). Mas,          que ocorre no momento na sia, Amrica Lati-
de qualquer forma, supe-se que as sociedades        na, frica e Oriente Mdio  anlogo aos es-
tradicionais sigam o mesmo padro de mudan-          tgios de precondies e de desenvolvimento
as por que passaram antes as naes desenvol-       auto-sustentado vividos nas sociedades ociden-
vidas. As teorias da modernizao, portanto,         tais no final do sculo XVIII e durante o sculo
buscam identificar na organizao e/ou histria      XIX.
dos pases industriais as variveis sociais e os         As teorias da modernizao tm sido criti-
fatores institucionais cuja mudana foi crucial      cadas de inmeras maneiras. As mais importan-
para o seu processo de desenvolvimento a fim         tes so as acusaes de abstrao e falta de
de facilitar esse processo nos pases em desen-      perspectiva histrica. Primeiro,  um erro tratar
volvimento recente.                                  o subdesenvolvimento como situao original
    Uma classificao conveniente das teorias        universal, como falta de desenvolvimento em
da modernizao  a que distingue as verses         geral, como um estgio pelo qual todos os pa-
sociolgica, econmica e psicolgica. As ver-        ses desenvolvidos passaram um dia. Segundo,
ses sociolgicas do destaque ao papel de uma       as anlises da modernizao tendem a assumir
ampla variedade de variveis sociais e insti-        um carter prescritivo e, em vez de estudar
tucionais no processo de mudana. Assim, Ger-        historicamente o contexto estrutural dos aspec-
mani (1965) descreve o processo em termos de         tos especficos das sociedades subdesenvolvi-
mudanas, de aes prescritivas a aes eleti-       das, buscam apenas estabelecer se esses aspec-
vas, da institucionalizao do tradicional para a    tos seguem ou partem do modelo ocidental
institucionalizao da mudana; e de uma con-        ideal que supostamente  a norma. Terceiro,
juno de instituies relativamente indiferen-      est implcita em todas as teorias da moderniza-
ciadas para sua crescente diferenciao e es-        o a idia de que os pases em desenvolvimen-
pecializao. A maioria dessas verses foi in-       to dos tempos atuais deveriam passar pelos
fluenciada por Max Weber, atravs da inter-          mesmos estgios e processos pelos quais os
pretao dada por Talcott Parsons a suas idias,     pases desenvolvidos passaram anteriormente.
e usa as VARIVEIS PADRO para descrever a           Mesmo quando reconhecem a existncia de
estrutura social tpica ideal das sociedades "tra-   algumas diferenas histricas (Germani, 1965,
dicionais" e "modernas": afetividade versus          e Rostow, 1960, as reconhecem), recusam-se a
neutralidade afetiva, atribuio versus reali-       aceitar que possam alterar essencialmente o
zao, difuso versus especificidade, particu-       padro de mudana. A histria pode ser repeti-
larismo versus universalismo e orientao para       da, os pases em desenvolvimento podem in-
os interesses coletivos versus orientao para os    dustrializar-se do mesmo modo que pases in-
interesses privados.                                 dustriais mais antigos e em certo aspectos tm
                                                                                 modo de produo     479


at mais vantagem em faz-lo. Mal existe uma              quanto conceituais. As relaes de produo
discusso sobre a ordem internacional como um             referem-se s relaes sociais sob as quais a
sistema dominado e manipulado por certos pa-             produo  organizada: como os recursos e
ses industriais em seu prprio interesse. As              os trabalhos so alocados, como o processo
teorias da modernizao assumem que o pro-                de trabalho  organizado e como os produtos so
cesso da modernizao e industrializao  ine-           distribudos.  a combinao especfica tan-
vitvel e que os pases em desenvolvimento                to das foras produtivas quanto das relaes
recente tm as mesmas, se no melhores, opor-             de produo que define o padro de relaes de
tunidades de se industrializar. Conforme as pa-           classe em qualquer sociedade e, assim, sua di-
lavras de Hoogvelt, transformaram a histria              nmica interna.
abstrada e generalizada do desenvolvimento                   No marxismo, as classes so definidas por
europeu em uma lgica (Hoogvelt, 1982,                    sua relao com o processo de produo, em
p.116).                                                   particular com a produo de um sobreproduto.
    Ver tambm DESENVOLVIMENTO E SUBDESEN-                Um sobreproduto  produzido em qualquer mo-
VOLVIMENTO.                                               do de produo no qual nem todo o tempo de
                                                          trabalho disponvel  necessrio para atender s
Leitura sugerida: Eisenstadt, S.N. 1961: Essays on
Sociological Aspects of Political and Economic Deve-      necessidades diretas de consumo da populao,
lopment  Frank, A.G. 1972: "Sociology of develop-         e alguns membros da sociedade trabalham mais
ment and underdevelopment of sociology". In Depen-        horas do que as necessrias para produzir seus
dence and Underdevelopment, org. por J.D. Cockcroft,      prprios meios de subsistncia. Se os produ-
A.G. Frank e D.L. Johnson  Larrain, J. 1989: Theories     tores do sobreproduto e os que controlam o seu
of Development  Smelser, N.J. 1964: "Toward a theory      uso so diferentes, tais sociedades tero pelo
of modernization". In Social Change, org. por A. Etzio-
ni e E. Etzioni.                                          menos duas classes. A classe dominante de
                                     JORGE LARRAIN
                                                          qualquer modo de produo  aquela que tem o
                                                          controle do sobreproduto, possuindo parte dele,
modo de produo De acordo com a maior                    mas tambm usando-o de outras maneiras para
parte das compreenses do MARXISMO no sculo              aumentar seu prprio poder e incrementar o seu
XX, a histria pode ser dividida em perodos,             processo de extrao ou EXPLORAO.
conforme diferentes modos de produo, cada                   O modo especfico como o sobreproduto 
qual com sua prpria dialtica interna de luta de         extrado pela classe dominante  que define um
classes. Essa "concepo materialista" da his-            modo de produo em particular. Por exemplo,
tria foi esboada em A ideologia alem (Marx             no capitalismo, a propriedade dos meios de
e Engels, 1845-6) e desenvolvida em obras                 produo pela burguesia permite-lhe empregar
posteriores, tanto por Marx quanto por Engels,            operrios por menos do que o valor do seu
embora eles nem sempre tenham usado o con-                produto e, assim, extrair um sobreproduto sob
ceito de modo de produo dessa maneira. No               a forma de lucro. Esse mtodo de extrao do
sculo XX tornou-se o conceito central do que             sobreproduto , portanto, puramente econmi-
ficou conhecido como "materialismo dialti-               co, baseado em regras de troca aparentemente
co", e a adeso a alguma verso desse conceito            justas. Em outros modos de produo, como o
continua a distinguir o pensamento marxista de            feudalismo, o mtodo de extrao do sobrepro-
outras formas de pensamento social (ver MA-               duto, inicialmente o trabalho direto nas terras
TERIALISMO).                                              do senhor, mais tarde o pagamento de um alu-
    Segundo essa viso da histria, a diferena           guel,  devido ao direito consuetudinrio, a-
fundamental entre tipos de sociedade ocorre no            poiado, quando necessrio, no uso da fora.
modo como se d a produo. O "modo de                        Todos os modos de produo de classe, ou
produo" de qualquer sociedade consiste em               criadores de sobreproduto, trazem dentro de si
dois elementos: suas foras produtivas e suas             as sementes de sua prpria destruio. Relaes
relaes de produo. As foras produtivas re-            particulares de produo sero adequadas a um
ferem-se s capacidades produtivas da socie-              estgio particular de desenvolvimento das for-
dade, no apenas em sentido tecnolgico, mas              as produtivas. Um modo de produo ser
tambm em sentido social, e incluem no ape-              relativamente estvel quando suas foras pro-
nas os meios materiais de produo, mas tam-              dutivas e relaes de produo so adequadas
bm as capacidades humanas, tanto fsicas                 umas s outras, permitindo sua mtua reprodu-
480   modo de produo


o. No entanto, atravs da existncia de um        expresso "modo de produo" era mais varia-
sobreproduto e, assim, do potencial de mudan-       da e sua exposio da histria, menos rgida.
a, as foras produtivas se desenvolvero em            Existem vrios problemas com a verso ofi-
todos os modos de produo, por mais len-           cial. Primeiro, ela pode ser criticada por seu
tamente que seja. Em ltima anlise, ser alcan-    determinismo tecnolgico. Embora mediado
ado um ponto no qual as relaes de produo       por uma considerao das relaes de produ-
existentes se tornaro um obstculo  ulterior      o, e pela classe, o desenvolvimento das foras
expanso das foras produtivas, e o modo de         produtivas por si s constitui a fora motriz
produo ser derrubado para dar lugar a um         definitiva da histria, e parece que a revoluo
outro, novo, sob o qual essas ltimas podero        no apenas possvel, mas inevitvel, no es-
continuar a se desenvolver.                         tgio apropriado do seu desenvolvimento. A
    O processo atravs do qual isso ocorre  a      histria do incio do sculo XX, com o sucesso
luta de classes. As classes, definidas no sentido   da revoluo em uma Rssia atrasada, mas com
marxista como existentes apenas onde existe         o seu fracasso na Alemanha avanada, deveria
um sobreproduto a ser disputado, so ineren-        lanar dvidas a esse respeito -- embora os
temente antagnicas, e travam uma luta pelo         eventos na Unio Sovitica mais perto do final
nvel e controle desse sobreproduto. Isso for-      do sculo possam ser interpretados como a-
nece a dinmica interna dos meios de produo,      poiando a viso de que a revoluo em um pas
uma dinmica interna que acaba levando  re-        atrasado estaria, em ltima anlise, condenada
voluo, quando uma classe anteriormente su-        ao fracasso.
bordinada derruba as relaes de produo e-            De forma mais fundamental, porm, a im-
xistentes para se estabelecer como a nova classe    previsibilidade do processo revolucionrio le-
dominante, baseada em um novo modo de pro-          vou a um questionamento de todo o papel do
duo mais adequado ao ulterior desenvolvi-         econmico, isto , das relaes de produo e
mento das foras de produo. Assim, por e-         das foras produtivas, na exposio acima. Pois
xemplo, a classe capitalista em ascenso, porm     no pareceu possvel mapear o processo de luta
subordinada, derrubou as relaes feudais de        de classes no nvel das mudanas no modo de
produo quando suas restries ao mercado de       produo de forma to ntida quanto a analogia
trabalho detiveram o desenvolvimento de m-         base/superestrutura implicaria. Em particular,
todos capitalistas mais eficientes de extrao de   parece que o papel da conscincia foi s vezes
sobreproduto.                                       crucial e que os fatores aparentemente "supe-
    A exposio acima, bastante determinista,       restruturais" da ideologia e da poltica podem
da concepo materialista da histria s se tor-    afetar o econmico a ponto de provocar ou
nou moeda corrente no sculo XX. A Segunda          impedir uma transformao do modo de produ-
Internacional, a organizao internacional dos      o.
partidos social-democratas, que se desfez em            Uma tentativa altamente influente de en-
estilhaos nacionalistas em 1914, promulgou         frentar esse problema foi feita nos anos 60 pelos
um marxismo oficial que, influenciado pelas         marxistas estruturalistas franceses, Althusser e
interpretaes de Engels, tendeu ao economi-        Balibar (1966, 1970), que tentaram descobrir
cismo. De acordo com essa viso oficial, o          um meio de conservar a centralidade do con-
modo de produo formava uma "base" econ-          ceito de modo de produo, ao mesmo tempo
mica, que determinava todos os outros aspectos      dispensando o modelo rudimentar de base/su-
"superestruturais" da sociedade (ver tambm         perestrutura. Em sua viso, uma "formao so-
BASE E SUPERESTRUTURA). Essa viso foi adota-       cial"  reproduzida em certo nmero de nveis
da tambm pela Terceira Internacional ou            diferentes: ideolgico e poltico, bem como
Comintern, fundada para unir os nascentes par-      econmico. Eles substituram a noo de deter-
tidos comunistas, depois da Revoluo Russa,        minao pela de causalidade estrutural entre
e reafirmada por Stalin (1938) como a com-          nveis, na qual os nveis no-econmicos so
preenso correta, tornando-se assim o funda-        tambm necessrios  reproduo da "formao
mento do "Diamat" (de "materialismo dialti-        social" inteira, incluindo o seu modo de produ-
co"). Embora haja evidncias nos textos de          o. No entanto, no interior de tal totalidade
Marx em apoio a essa leitura particular do          estruturada interdependente, o econmico es-
processo histrico, sua prpria utilizao da       tabelece limites dentro dos quais os outros n-
                                                                                       monarquia     481


veis podem ser apenas "relativamente autno-             monarquia Se monarquia  a instituio do
mos", pois tm de funcionar de formas que                governo de um estado pelo chefe de uma famlia
reproduzem o modo de produo. A revoluo               hereditria, monarquismo  a doutrina que es-
ocorre quando esse processo se torna "sobre-             tabelece ser isso o melhor. Monarquia ou reale-
determinado" -- as contradies entre os n-             za  um dos mais antigos tipos de governo e, at
veis, mais do que no interior do econmico               este sculo, o mais comum. A mais antiga alega-
apenas, fornecem o motor da mudana.                     o de direito  AUTORIDADE  ou que o rei 
    Mas essa formulao foi criticada por lhe            descendente de um deus ou que o cargo  sagra-
faltar o elemento dialtico da concepo ma-             do. Isso faz da obedincia um direito natural.
terialista da histria de Marx, ao exagerar uma          Mas o poder dos reis no era considerado abso-
separao conceitual entre o modo de produo            luto ou soberano. At o sculo XVII no havia
(o nvel econmico) e as condies (no-eco-             nenhuma idia ntida de soberania absoluta:
nmicas) de sua reproduo (Clarke, 1980).               pois se a monarquia era uma instituio divina,
Tornar os nveis relativamente "autnomos"               os prprios reis estavam obrigados a obedecer
no poderia resolver o problema do determinis-           s leis de Deus. Os monarcas medievais na
mo econmico porque todos os outros nveis               Europa eram encarados como administradores
permaneciam restritos a um nvel econmico,              ou guardies do reino em nome de Deus. A
privilegiado, e nem isso apreendia a idia mar-          cristandade havia mesmo introduzido uma
xista da dialtica como consistindo em elemen-           complicao potencialmente civilizada para as
tos interconectados, pois os nveis eram des-            pretenses simples a uma autoridade absoluta:
conectados.                                              Cristo havia pregado que algumas coisas eram
    Na noo de nvel econmico de Althusser             de Csar e outras, de Deus. A teologia era
e Balibar, o modo de produo era definido               dualista: a Igreja arrogava-se um alto grau de
como consistindo em dois conjuntos de rela-              autonomia, mas at leigos (se poderosos) po-
es, os da "real apropriao da natureza" (rela-        diam questionar se o poder secular estava sendo
es de produo) e os da "expropriao do               corretamente utilizado.
produto" (as relaes de propriedade e as de                 Sob a monarquia, havia sempre algumas
distribuio). Assim, nessa formulao, a pro-           justificativas para a rebelio e algumas am-
duo  hipostasiada para consistir apenas em            bigidades quanto  sucesso. Tanto no mundo
relaes com a natureza, enquanto o mbito das           cristo quanto no muulmano, um filho mais
relaes sociais  encontrado apenas no modo             velho incompetente podia ser preterido em fa-
de expropriao do produto, as relaes de pro-          vor de outro membro da famlia imediata. No
priedade e distribuio. Mas isso, de acordo             califado, a sucesso era em geral determinada
com seus crticos,  no perceber o que Marx             por assassinato ou guerra limitada entre irmos
fundamentalmente percebeu: que no apenas as             ou primos reais.
relaes de distribuio so socialmente es-                 No sculo XVII tornou-se comum a idia,
pecficas, mas que o prprio processo de traba-          formulada mais rigorosamente por Thomas
lho forma o cerne das relaes sociais do modo           Hobbes, de que, em benefcio da paz e para
de produo capitalista, e, na verdade, de uma           evitar a guerra civil, uma entidade abstrata,
forma diferente de qualquer outro modo de                chamada de ESTADO, deveria exercer todo o
produo.                                                poder e ser o objeto exclusivo da lealdade. No
Leitura sugerida: Althusser, L. e Balibar, E. 1966:      mais "obra em nome do rei!", mas "em nome
Lire le Capital  Banaji, J. 1977: "Modes of production   do estado". A doutrina do "direito divino dos
in a materialist conception of history". Capital and     reis" foi uma tentativa tardia e em grande parte
Class 2  Bettelheim, C. 1974: Les luttes de classes en   malsucedida de reclamar essa soberania para a
URSS  Brenner, Robert 1977: "The origins of capita-      pessoa do monarca. Lus XIV podia dizer que
list development: a critique of neo-Smithian Marxism".
New Left Review 104  Clarke, Simon 1980: "Althus-
                                                         "L'tat c'est moi ", mas se tratava de um para-
serian Marxism". In One Dimensional Marxism: Al-         doxo consciente. Pois a essa altura a monarquia,
thusser and the Politics of Culture  Cohen, G.A. 1978:   em toda parte, j comeava a ser vista como um
Karl Marx's Theory of History: a Defence  Colletti, L.   cargo a ser exercido mediante conselho e de
1972: From Rousseau to Lenin.                            maneira prudente, e no como a propriedade
                              SUSAN F. HIMMELWEIT        disponvel de uma pessoa ou dinastia.
482   monetarismo


    A lealdade a pessoas era a grande virtude          de 1956 (tendo incio com Milton Friedman)
pregada pelos apologistas da realeza, mas nos          (ver tambm ESCOLA ECONMICA DE CHICAGO).
tempos modernos isso se mostrou mais fcil                 Essa proposta da teoria quantitativa est li-
quando os poderes dessas pessoas foram limi-           gada  idia de que a quantidade de produo
tados. Walter Bagehot (1867) fez uma distino         ou volume de atividade no varia em reao a
famosa entre os "poderes solenes" da rainha            aumentos do meio circulante, pois seno o efei-
Vitria e seus "poderes efetivos", que ele acre-       to deste ltimo aumentaria em parte o volume
ditava serem poucos. Os poderes solenes, sim-          de bens produzidos, em vez de se fazer sentir
blicos ou rituais eram um foco de lealdade e          completamente sobre os seus preos; a quanti-
continuidade para a nao, de resto difcil de         dade de bens pode ser tratada como se fosse
situar em um sistema partidrio competitivo,           sempre igual  quantidade produzida com pleno
especialmente em um estado multinacional.              emprego do trabalho. Essa idia (a Lei de Say)
Nos Estados Unidos, a prpria Constituio  o         raramente foi sustentada em forma absoluta e,
smbolo da unidade, e no o presidente eleito.         ao resgatar a teoria quantitativa da demolio
    Umas poucas monarquias constitucionais             da Lei de Say, feita por Keynes, a reexposio
sobrevivem, nenhuma delas exercendo real po-           de Friedman, em 1956, deixou-a explicitamen-
der poltico, mas algumas (como a britnica)           te de lado, afirmando que o meio circulante
servindo para legitimar uma ordem social hie-          afeta ou a produo ou o nvel de preos. No
rrquica; outras, como na Holanda, Dinamarca           entanto um trabalho posterior de Friedman e
e Noruega, buscam parecer mais democrticas            seus sucessores utiliza a relao direta moeda-
em estilo, e so mais burguesas que aristo-            preo to freqentemente quanto a idia mais
crticas. Os tericos sociais modernos demons-         geral de que a moeda afeta ou os preos ou a
tram um interesse surpreendentemente peque-            produo.
no em entender por que perduram esses aparen-              Essas idias servem de base  concentrao
tes anacronismos.                                      monetarista no controle da inflao atravs do
                                                       controle do meio circulante, que  geralmente
Leitura sugerida: Cannadine, D. 1983: "Context, per-   contraposta ao enfoque keynesiano de controle
formance and meaning of ritual: the British monarchy
and the invention of tradition, c.1820-1977". In The
                                                       do desemprego atravs de uma poltica fiscal
Invention of Tradition, org. por E. Hobsbawm e T.      (oramentria) (ver KEYNESIANISMO). Essa pol-
Ranger  Martin, K. 1937: The Magic of Monarchy         tica caracterstica leva o monetarismo a ser
 1962: The Crown and the Establishment  Nairn, T.      amplamente identificado com os programas de-
1988: The Enchanted Glass: Britain and its Monarchy    flacionrios que induzem  recesso, mas os
 Shils, Edward e Young, M. 1953: "The meaning of the   economistas monetaristas aplicam suas crenas
coronation". Sociological Review 1, 63-81.             em ambas as direes; por exemplo, estudos
                                   BERNARD CRICK       monetaristas seminais dos anos 30 concluram
                                                       que a depresso poderia ter sido evitada atravs
monetarismo Este  o nome moderno, da-                 de polticas voltadas para reverter uma queda
tando de 1968, para vrias doutrinas econmi-          na emisso do meio circulante.
cas antigas ligadas  "teoria quantitativa do              No obstante, em poltica o rtulo moneta-
dinheiro", bem como para o projeto poltico e          rista est ligado a governos de direita, cujos
social a elas associado.                               programas tm uma inclinao deflacionria --
   A proposta bsica do monetarismo  que a            em geral, fortemente deflacionria. Sua ideolo-
taxa de crescimento do meio circulante em uma          gia de controle da inflao est ligada a uma
economia determina a taxa de inflao dos pre-         crena na reduo dos gastos e emprstimos do
os; essa  a proposta da teoria quantitativa,         estado, que pretende ter duas bases intelectuais:
cujas origens podem remontar pelo menos aos            primeiro, a idia de que o controle dos emprs-
ensaios de David Hume de 1750-2. Posterior-            timos do estado produz controle do meio cir-
mente a idia e seus fundamentos foram refina-         culante; e, segundo, a idia de que reduzir os
dos e desenvolvidos, em especial nos primeiros         gastos e emprstimos por parte do estado libera
40 anos do sculo XIX (David Ricardo, atravs          o dinamismo do capital privado em esferas
da escola da circulao), nos primeiros 30 anos        expandidas.
do sculo XX (especialmente K. Wicksell, A.C.              Uma vez que o controle do meio circulante
Pigou e I. Fisher) e no quarto de sculo a partir      se mostrou uma quimera nas sociedades ca-
                                                                                        moralidade    483


pitalistas avanadas, o projeto monetarista vem           a da Alemanha nazista, puderam desenvolver-
sendo cada vez mais definido em termos resi-              se, enquanto socilogos tentaram explicar e
duais como hostilidade aos gastos do estado,              analisar a moralidade em geral.
especialmente aos gastos do "estado de bem-es-                Durkheim (1925) afirma que existem trs
tar", promoo do capital privado sem regula-             elementos na moralidade: um aspecto de carter
o e hostilidade s organizaes trabalhistas.           imperativo, a ligao a grupos sociais e a auto-
Dessas maneiras, o monetarismo tem definido               nomia dos agentes morais (cf. a "tica da res-
os pontos de vista estratgicos de muitos gover-          ponsabilidade" de Max Weber). Como Durk-
nos e elites polticas, durante longos perodos,          heim, Westermarck (1906) buscou uma expli-
desde 1975. No obstante, a base racional ar-             cao no-individualista para a origem das
ticulada para isso, especialmente pelo Fundo              crenas morais, sendo influenciado tambm por
Monetrio Internacional durante longo perodo,            William Sumner, Ferdinand Tnnies e Vilfredo
continua a depender do controle do meio cir-              Pareto na nfase atribuda  importncia dos
culante, apesar da impraticabilidade de tais con-         sentimentos. As idias morais tm suas razes
troles em uma economia complexa e em cres-                no costume e se desenvolvem  luz da razo.
cimento.                                                  Autores modernos tm-se concentrado na mo-
                                                          ralidade da modernidade; ver, por exemplo, a
Leitura sugerida: Friedman, M. 1968: "Quantity theo-
ry". In International Encyclopedia of the Social Scien-   viso de P. Berger, B. Berger e H. Kellner
ces, vol.10, p.432-47  Friedman, M. e Schwartz, A.        (1973) de que a moralidade moderna deve ser
1963: A Monetary History of the United States, 1867-      compreendida em termos da pluralizao de
1960  Mayer, T., org. 1978: The Structure of Mone-        "mundos da vida".
tarism.                                                       Tambm se apresentaram explicaes de por
                                  LAURENCE HARRIS         que os seres humanos tendem a desenvolver
                                                          crenas morais. Freud (1923) afirmou que a
monopolista, capitalismo Ver CAPITALISMO                  moralidade consiste na internalizao de ordens
MONOPOLISTA.
                                                          paternas na forma de demandas feitas pelo su-
moralidade Em seu sentido prescritivo, a                  perego. Ele sups um desenvolvimento, da me-
moralidade  aquela considerao, ou conjunto             ra obedincia a essas ordens at a moralidade
de consideraes, que fornece os motivos mais             reflexiva do ideal do ego. Lvi-Strauss (1949)
fortes para se viver de certo modo especificado;          enfatizou a importncia da reciprocidade e do
em seu sentido descritivo, tal considerao ou            intercmbio no desenvolvimento de institui-
conjunto de tais consideraes que alguma pes-            es como o casamento, que so parcialmente
soa ou grupo reconhece ou ao qual adere. (Ver             constitudas por expectativas e crenas morais.
tambm VALORES.)                                          Defensores da teoria dos jogos colocaram no
    Assim, se assumirmos que os Dez Man-                  centro noes de cooperao: muitas institui-
damentos so uma interpretao correta das                es morais, como as promessas, podem ser
exigncias da moralidade, a moralidade (pres-             encaradas como solues sociais para proble-
critiva) exige de ns que vivamos sem matar               mas de coordenao e colaborao, tais como o
uns aos outros, que observemos o dia de sbado            Dilema do Prisioneiro (ver Elster, 1989).
e assim por diante; ao mesmo tempo que, mes-                  O trabalho filosfico sobre a moralidade
mo se assumimos que o Declogo  um equvo-               prescritiva pode ser categorizado, grosso modo,
co, podemos descrev-lo como constituindo a               como de segunda ordem (metatico) ou de pri-
moralidade (descritiva) de qualquer pessoa que            meira ordem. (Ver TICA.) A metatica tem se
o reconhea, ou que viva por suas regras.                 ocupado de trs questes principais: o valor de
    O trabalho a respeito da moralidade des-              veracidade dos julgamentos morais, a natureza
critiva, neste sculo, tem-se concentrado no              da realidade moral e a epistemologia moral.
contedo e explicao das crenas morais. Os                  A.J. Ayer (1936) introduziu o positivismo
antroplogos continuaram a documentar os sis-             lgico do crculo de Viena (ver VIENA, CRCULO
temas morais de outras culturas e subculturas.            DE) na corrente predominante da filosofia nor-
Um deles (Turnbull, 1973) descreveu a aparen-             te-americana. De acordo com sua posio e-
te ausncia de moralidade entre o povo Ik. Os             motivista, os julgamentos morais no tm valor
historiadores das idias tentaram explicar de             algum como verdade, sendo meras expresses
que modo ideologias morais particulares, como             de atitudes (a "teoria da vaia e do aplauso").
484   movimento cooperativo


Atravs dos textos de R.M. Hare (1981), o           consideraes de interesse prprio ou de es-
prescritivismo -- a viso de que os julgamentos     ttica? (Williams, 1985.)
morais so essencialmente de natureza impera-           A moderna filosofia moral de primeira or-
tiva -- ganhou influncia. J.L. Mackie (1977)       dem foi dominada pelo desenvolvimento de
afirmou que todos os julgamentos morais so         teorias morais, segundo as quais a moralidade
falsos, uma vez que no existe uma realidade        consiste em uma considerao pertinente ou em
moral objetiva que lhes sirva de referncia.        um pequeno nmero delas. De acordo com o
    A viso de Mackie demonstra a interligao      utilitarismo, conforme abraado, por exemplo,
dos trs temas metaticos mencionados. A dis-       por Moore e Hare, a nica considerao di-
cusso sobre a natureza da realidade moral gi-      retamente relevante  questo de como viver 
rou em torno da chamada "distino entre fato       a maximizao geral do bem-estar.
e valor". G.E. Moore (1903) afirmou que os              As teorias no-utilitrias tenderam a se en-
fatos sujeitos a avaliao so diferentes dos       raizar na obra de Kant. Tais teorias tm sido
fatos que constituem a matria das cincias         descritas como deontolgicas (do grego deon
naturais. Certamente, ser uma boa coisa  uma       " preciso", "deve ser feito"). Um exemplo  o
propriedade no-natural da coisa. Um ponto de       de Ross, o qual achava que devamos, por e-
vista mais comum era que no havia fatos su-        xemplo, cumprir promessas por motivos in-
jeitos a avaliao: o mundo  neutro do ponto       dependentes do bem-estar.
de vista avaliativo e deve ser descrito em termos       Desde a publicao do artigo "Modern mo-
cientficos. Essa viso,  claro, proporcionou o    ral philosophy", de Elizabeth Anscombe
mpeto para a considerao dos julgamentos          (1958), surgiu uma nova corrente na teoria mo-
morais como no sendo basicamente categri-         ral, dando maior nfase  natureza do carter
cos, como o emotivismo. Na Amrica do norte         moral e s virtudes (ver French et al., 1988).
houve um recente redespertar do naturalismo             Devido ao predomnio da metatica, os fil-
realista, de acordo com o qual os fatos morais      sofos da primeira metade deste sculo dedica-
                                                    ram pouca ateno acadmica a problemas mo-
so fatos naturais do mesmo tipo genrico, di-
                                                    rais prticos de primeira ordem. Desde a Guerra
gamos, dos fatos qumicos ou biolgicos (ver
                                                    do Vietn isso tem mudado, e as discusses
Brink, 1989).
                                                    sobre temas como o aborto, a guerra e o meio
    A discusso em epistemologia moral tem          ambiente so hoje amplamente difundidas (ver
girado em torno da questo de como seria pos-       Singer, 1986).
svel dizer que conhecemos fatos morais, bem            Ver tambm JUSTIA; NORMA; DIREITOS E DE-
como da natureza do conhecimento moral. O           VERES.
intuicionismo predominou depois de Moore.
Considera-se que possumos um "senso moral"         Leitura sugerida: Anscombe, G.E.M. 1958: "Modern
                                                    moral philosophy". Philosophy 33, 1-19  Hare, R.M.
que nos permite intuir o carter correto ou bom
                                                    1981: Moral Thinking  MacIntyre, A. 1981: After Vir-
de particulares concretos, ou de certos prin-       tue  Mackie, J.L. 1977: Ethics  Moore, G.E. 1903:
cpios morais fundamentais (ver Ross, 1939).        Principia Ethica  Ross, W.D. 1939: Foundations of
Essa  uma forma de fundacionalismo moral.          Ethics  Singer, P., org. 1986: Applied Ethics  Wester-
De acordo com o coerentismo, o conhecimento         marck, E. 1906: The Origin and Development of the
moral consiste no conjunto mais consistente e       Moral Ideas  Williams, B. 1985: Ethics and the Limits
                                                    of Philosophy.
coerente de crenas morais (ver Brink, 1989).
                                                                                            ROGER CRISP
    Na tica de primeira ordem, foram levan-
tadas questes sobre a natureza da moralidade       movimento cooperativo Associaes de
com uma relao mais bvia a como devera-          pessoas trabalhando juntas para a produo e
mos viver. Uma questo central foi a do RELA-       distribuies de bens, as cooperativas assumi-
TIVISMO: existe uma moralidade autenticamente       ram uma variedade de formas em diferentes
universal, ou sero as moralidades relativas,       contextos nacionais. A International Coopera-
talvez, por se fundamentarem em prticas so-        tive Alliance, representando quase 600 milhes
ciais (ou formas de vida) especficas? (Ver         de membros em todo o mundo, destacou seis
MacIntyre, 1981.) E tambm, que importncia         princpios essenciais: filiao voluntria e aber-
tm consideraes morais especificamente            ta, controle democrtico, rendimento limitado
concernentes a outros, em oposio a, digamos,      sobre o capital, ganhos excedentes pertencendo
                                                                       movimento cooperativo      485


aos membros, educao e cooperao entre as          da classe operria em uma poca em que o
cooperativas (Comisso da ICA, 1967). O con-         confronto direto com o estado capitalista come-
trole democrtico  a diferena essencial entre      ava a se tornar menos factvel. Mulheres ope-
as formas de propriedade capitalista e coopera-      rrias tiveram grande medida de controle sobre
tiva. Ao contrrio da empresa acionria, cada        as estratgias de consumo e conseqentemente
membro tem os mesmos direitos de voto, in-           conseguiram grande destaque dentro do mo-
dependente do nmero de quotas que possua; a         vimento desde o incio e no decorrer de sua
PARTICIPAO  poder, e no a posse individual       histria posterior.
do trabalho abstrato e fossilizado de outras pes-        A natureza "essencialmente contestadora"
soas.                                                da cooperao tornou-se evidente desde essa
    Uma caracterstica comum sempre foi o im-        fase inicial. At cerca de 1848, "cooperao",
pulso tico, idealista. Desde o incio, a coopera-   "comunismo" e "socialismo" eram palavras in-
o foi encarada como um meio de construir           tercambiveis e carregavam uma nfase an-
uma alternativa ao capitalismo, de baixo para        ticapitalista semelhante (Bestor, 1948). Esses
cima, substituindo o INDIVIDUALISMO burgus          conceitos tm sido campos de batalhas com-
por uma sociedade baseada na reciprocidade e         plexas e prolongadas durante os dois ltimos
na solidariedade social. Um cooperativista in-       sculos. Reformadores burgueses em toda a
gls, em 1907, definiu o ideal da seguinte ma-       Europa Ocidental tentaram separar "coopera-
neira: "Por meio da associao mtua, eliminar       o" do que era encarado como modos mais
o atual sistema industrial e substituir o bem        "revolucionrios" de mudana social, especial-
comum pela Cooperao mtua, como base de            mente depois das revolues de 1848. Socialis-
toda a sociedade humana" (Webb, 1904, p.2).          tas cristos de classe mdia, como E.V. Neale e
    O movimento teve origem na Gr-Bretanha,         J.M. Ludlow, foram defensores fervorosos das
durante o desenvolvimento do capitalismo in-         cooperativas de produtores e da diviso de lu-
dustrial, no final do sculo XVIII; foram fun-       cros, acreditando que essas formas "humaniza-
dadas manufaturas cooperativas a partir da d-       riam" o operrio e harmonizariam as relaes
cada de 1790, indcio do confronto entre a           capital/trabalho (Backstrom, 1974). Ludlow
"economia moral" dos trabalhadores pobres e a        minutou a Lei das Sociedades Industriais e
ideologia e prtica do LAISSEZ-FAIRE (Thom-          Previdenciais de 1852, que regulava (no sentido
pson, 1991). O incio do sculo XIX foi en-          de proteo e conteno) as relaes entre o
tremeado por ondas de experincia cooperativa;       estado e as cooperativas. Essa tentativa de ajus-
durante as agitaes dos luddistas, em 1811-13,      tar o significado de cooperao foi contestada
criaram-se cooperativas que tiveram curta dura-      com eficcia pelos CWS ingleses e escoceses
o; lojas owenistas e chartistas (cartistas) fo-    (estabelecidos em 1863 e 1868), que articu-
ram fundadas a partir da dcada de 1820 e            laram uma ambio neo-owenista, baseada no
durante toda a dcada de 1830. Embora o so-          princpio da cooperao de consumidores (Yeo,
cialista utpico Robert Owen tenha sido geral-       1987, p.231). Essa estratgia, teorizada por
mente encarado como o "pai" do movimento             Charles Gide na Frana, continha as suas pr-
cooperativo, essas iniciativas no foram nem         prias contradies, e a constante tenso entre os
inspiradas, nem irrestritamente apoiadas pelo        direitos e deveres de produtores e consumidores
paternalista Owen, que preferia modos de trans-      marcou a posterior ideologia e prtica coopera-
formao social impostos a partir de cima (Tay-      tiva na Gr-Bretanha e em outros centros.
lor, 1983, p.120).                                       Em 1914 a cooperao j se enraizara pro-
    Em 1844, teceles de inspirao owenista         fundamente nas comunidades de classe oper-
formaram a Rochdale Society of Equitable Pio-        ria, particularmente no Norte da Inglaterra. U-
neers. Essa sociedade redistribua o excedente       ma contracultura, compreendendo um amplo
comercial entre os membros de acordo com o           repertrio de formas educativas e recreativas,
valor de suas aquisies, o chamado "dividen-        cresceu em torno do movimento; foi um e-
do", embora o objetivo extremo ainda fosse a         quivalente da construo cultural que carac-
fundao de "uma colnia auto-suficiente de          terizou o Partido Social-Democrata alemo
interesses unidos" (Webb, 1904, p.69). A socie-      antes da Primeira Guerra Mundial (Gurney,
dade expandiu-se a um ritmo fenomenal e de-          1989). O "desmantelamento" dessa cultura faz
monstrou a utilidade dessa forma de associao       parte daquela histria social do sculo XX que
486   movimento cooperativo


nunca foi escrita. O movimento teve que lutar       que isolado, da eficcia de uma "cultura coope-
no apenas com o seu prprio projeto, mas           rativa". Isso levou alguns comentaristas a des-
tambm contra poderosas foras externas for-        crever Mondragon como "um novo fenmeno
madas contra ele. Mudanas no modo capitalis-       na histria cooperativa" (Thomas e Logan,
ta de consumo (Aglietta, 1976), em particular o     1982, p.76).
desenvolvimento do "capitalismo de consumo"             Os princpios de filiao voluntria e con-
em seu sentido mais amplo, prejudicaram o           trole democrtico servem amplamente para jus-
progresso cooperativo na Gr-Bretanha e no          tificar que no se incluam nessa discusso for-
Ocidente de maneira geral. O estado capitalista     mas de empreendimento coletivo desenvolvi-
foi freqentemente hostil e houve repetidas ten-    das por estados socialistas e comunistas. Sua
tativas de taxar o "excedente" (para os crticos,   generalizada falta de sucesso indica a incom-
lucros) cooperativo. Em 1933 associaes mu-        patibilidade entre a cooperao e as formas
tualistas foram assimiladas a empresas acion-      estatistas de transformao social. Isso fica bem
rias e reservas cooperativas foram taxadas da       ilustrado pelo kolkhoz, ou fazenda coletiva rus-
mesma forma que as firmas capitalistas (Kil-        sa, que sofreu um fracasso espetacular na ten-
lingback, 1988). Essa hostilidade foi patente       tativa de resolver os problemas da produo
mesmo quando o poder poltico esteve nas            agrcola na antiga Unio Sovitica. O mesmo
mos do Partido Trabalhista; o antagonismo          se pode dizer da aldeia de Ujamaa, na Tanznia,
entre diferentes alas do movimento trabalhista      imposta de cima por Julius Nyerere nos anos
foi um constante fator incapacitante, resultado     60. No entanto, essa regra no deixa de ter a sua
das identidades fragmentadas dos operrios co-      exceo: as iniciativas de AUTOGESTO de ope-
mo produtores/consumidores, homens/mu-              rrios na ex-Iugoslvia e a comuna chinesa
lheres, voluntaristas/estatistas.                   podem ser encaradas sob luz mais favorvel. As
    O movimento britnico inspirou um desen-        comunas, formadas tanto nos distritos rurais
volvimento cooperativo atravs da Europa e          quanto urbanos depois do Grande Salto para a
Amrica do Norte. Surgiram vigorosos mo-            Frente, em 1958, organizaram e regularam a
vimentos nacionais na Frana, Alemanha, us-        produo, o consumo, a defesa e a educao.
tria, Sucia, Dinamarca, Blgica e Itlia, cada     Alguns comentaristas as encararam como a rea-
qual com suas peculiaridades. As cooperativas       lizao parcial de uma utopia comunista (Mel-
de crdito desempenharam papel importante no        nyk, 1985, p.43). Os ganhos positivos represen-
movimento alemo, e seu fundador, Schulze-          tados por essas experincias correm o perigo de
Delitsch, considerava a cooperao como um          se perderem, na medida em que a Europa Orien-
antdoto para a social-democracia marxista. O       tal e a China buscam modos ocidentais de mo-
movimento francs, influenciado pelas idias        dernizao capitalista.
do socialista utpico Charles Fourier e mais            Dois dos mais promissores movimentos a-
tarde pelo anarquismo de Pierre Proudhon e o        tuais podem ser encontrados na ndia e no Ja-
socialismo moderado de Louis Blanc, foi mol-        po. Existem cooperativas em praticamente to-
dado pela experincia revolucionria de 1848 e      das as aldeias da ndia. Mais de 1/4 de milho
1871. As cooperativas agrcolas predominaram        de sociedades, com 140 milhes de membros,
na Rssia e desempenharam um papel vital na         tm alcanado grande sucesso, particularmente
Revoluo de 1917, antes da coletivizao sob       em granjas leiteiras e na produo de acar e
Stalin (Carr, 1952).                                fertilizantes. Fundado inicialmente pelos brit-
    Hoje em dia mais de 100 milhes de pessoas      nicos e usado para escorar o poder colonial no
pertencem a cooperativas na Europa e Amrica        campo, o movimento continua a sofrer do seu
do norte. A experincia mais promissora desde       legado de corrupo. Os partidos polticos tm
a Segunda Guerra Mundial  o complexo de            interferido com freqncia nas questes coope-
Mondragon, na regio basca do Norte da Espa-        rativas e indicado lderes contra os desejos dos
nha. Fundado em 1958 por Arizmendi, um pa-          associados. O resultado tem sido alienar o mo-
dre socialista, consiste atualmente em mais de      vimento de seus membros (Sharma, 1989). Em
100 cooperativas empregando mais de 19 mil          contraste, o movimento japons, que teve ori-
operrios/proprietrios, e provem servio ban-     gem no final do sculo XIX, desenvolveu uma
crio, habitao, educao, bem-estar social e      forte estrutura democrtica, com sua base cen-
bens de consumo -- um exemplo vivo, ainda           trada no "Han", ou grupo comunitrio. Fundado
                                                                           movimento da juventude     487


no final dos anos 50, o Han  um pequeno grupo           A discrepncia entre as necessidades ou aspira-
de consumidores (dez ou 12 famlias) que as-             es individuais da gerao mais jovem e as
sina contrato com os fornecedores atravs da             condies sociais, culturais e polticas existen-
cooperativa dos consumidores locais e regula a           tes esto na raiz da inquietao juvenil (ver
qualidade e a distribuio. Essa forma garantiu          MOVIMENTO SOCIAL).
alta participao dos membros e, junto com o                 Os movimentos da juventude no so mera-
boom econmico posterior  Segunda Guerra                mente formas aleatrias de comportamento co-
Mundial, ajuda a explicar o crescimento do               letivo, mas sim reaes diretas a eventos e
movimento; o Japo tem hoje a maior organiza-            foras histricos. A atividade poltica juvenil
o cooperativa de consumidores do mundo,                tem mais probabilidade de ocorrer em pases
com mais de 11 milhes de membros, e um                  que passam por transformao rpida, onde, por
movimento prximo dos 13 milhes de dlares              toda uma variedade de motivos, a mistura par-
em 1986 (Hasselman, 1989).                               ticular de circunstncias pe  prova a capaci-
    Muitos defensores da cooperao conti-               dade do sistema poltico de executar funes e
nuam a encar-la como uma alternativa vivel             servios necessrios. As sociedades que sofrem
tanto ao socialismo de estado quanto ao ca-              de instabilidade institucional juntamente com
pitalismo monopolista; da a importncia atri-           enfraquecimento da legitimidade e da eficcia
buda  regenerao do movimento russo pelo              proporcionam o ambiente ideal para um com-
presidente Gorbachev, no final dos anos 80               portamento de protesto. Alm dos protestos
(Gorbachev, 1988). O setor foi conseqente-              polticos, os movimentos da juventude podem
mente revitalizado durante a perestroika, mas            assumir outras formas, incluindo movimentos
em conseqncia do fracasso desta iniciativa            estudantis, movimentos culturais (literrios,
improvvel que ele venha a desempenhar o                 artsticos, musicais), movimentos religiosos e
papel transformador um dia vislumbrado. A                de base tnica, movimentos ambientais, movi-
longo prazo, os problemas que hoje confrontam            mentos de paz/antiblicos e movimentos con-
o sistema econmico mundial podem, de ma-                traculturais (ver MOVIMENTO ESTUDANTIL; CULTU-
neira geral, servir para destacar novamente a            RA DA JUVENTUDE; PAZ, MOVIMENTO PELA; CON-
relevncia das formas cooperativas sociais e             TRACULTURA).
econmicas.                                                  Se o problema da rebeldia dos jovens e de
                                                         suas manifestaes contra a sociedade adulta
Leitura sugerida: Bonner, A. 1961: British Co-opera-
tion  Cole, G.D.H. 1945: A Century of Co-operation       pode remontar  Antigidade, os movimentos
 Desroche, H. 1964: Coopration et dveloppement:        organizados da juventude -- como foras cons-
mouvements co-opratifs et strategie du dveloppe-       cientemente mobilizadas para a mudana --
ment  Furlough, E. e Strikwerda, C., orgs. (no prelo):   so um fenmeno relativamente recente na his-
Consumer Co-operation in Europa and America              tria moderna, que teve origem com a tendncia
 Jones, B. 1894: Co-operative Production  Laidlaw,
                                                         ao nacionalismo. Desde o incio do sculo XIX,
A.F. 1981: Co-operation in the Year 2000  Sapelli, G.,
org. 1981: Il movimento co-operativo in Italia  Wat-
                                                         houve cinco perodos destacveis de extraor-
kins, W.H. 1970: The International Co-operative          dinria atividade de movimento da juventude:
Alliance, 1895-1970  Webb, C. 1927: The Woman with       Jovem Europa (1815 a 1848, 1860 a 1890);
the Basket.                                              Ps-Vitoriano (1890 a 1910): Grande Depres-
                                     PETER GURNEY        so (1930 a 1940); Gerao 60 (1960 a 1970);
                                                         e Gerao 80 (1980 a 1990). O que comeou
movimento da juventude Envolvendo a ten-                 como uma erupo sem precedentes de mo-
tativa organizada e consciente, por parte de             vimento da juventude quase dois sculos atrs,
jovens (entre o final da adolescncia e o incio         nos anos 60 j havia atingido uma escala global
da idade adulta), de promover mudanas sociais           (Braungart e Braungart, 1990b; Esler, 1971).
e polticas ou resistir a elas, o movimento da               Os movimentos da juventude so lutas de
juventude pode surgir quando as instituies             gerao que incluem formas de conflito tanto
tradicionais no conseguem atender s neces-             inter- quanto intrageracionais. O conflito in-
sidades de um grupo etrio na sociedade, e               tergeracional implica dois processos dinmi-
quando um nmero crtico de jovens toma cons-            cos. Primeiro, jovens denunciam instituies
cincia de suas dificuldades comuns e sente que          adultas por suas falhas e fraquezas. Em seguida,
algo pode ser feito para aliviar seus problemas.         baseados em sua capacidade de mobilizao,
488   movimento da juventude


jovens autorizam sua prpria gerao a promo-       valores e experincias em comum que os tor-
ver a mudana desejada. A existncia do con-        nam uma gerao excepcional, e quando en-
flito intergeracional como fora desestabiliza-     frentam certas descontinuidades histricas e
dora na sociedade aumenta a probabilidade do        tm oportunidade de mobilizao (Esler, 1971;
conflito intrageracional, que ocorre quando u-      Moller, 1968). Um quadro interativo substan-
nidades de gerao dentro da mesma gerao          cial para o estudo e comparao de movimentos
competem pelo poder e o controle (Mannheim,         da juventude inclui a consideraes dos efeitos
1952). Essas unidades de gerao rivais podem       de ciclo de vida, grupo e perodo histrico, e o
ser espontneas (iniciadas pelos prprios jo-       modo como essas foras se combinam (Braun-
vens) ou promovidas por organizaes adultas.       gart e Braungart, 1989).
As unidades de gerao representam o espectro           Estudos empricos dos movimentos da ju-
de orientaes polticas, indo da esquerda         ventude e seus participantes ganharam a aten-
direita e de grupos moderados a grupos radicais     o mundial durante os anos 60, ateno que
(ver tambm NOVA ESQUERDA; NOVA DIREITA).           tem continuado desde ento. Algumas das prin-
    As explicaes para os movimentos da ju-        cipais descobertas so que o desenvolvimento
ventude tm vindo de diferentes disciplinas. As     do curso de vida dos jovens -- a direo de seus
explicaes psicolgicas sociais concentram-se      pontos de vista polticos e se so radicais ou
nas caractersticas de desenvolvimento dos jo-      mais moderados --  fortemente influenciado
vens que promovem conflitos com base etria         por experincias de socializao poltica em
e orientaes polticas discrepantes, nas hist-    famlia. Alm disso, os valores geracionais, os
rias familiares especficas e nos traos de per-    laos sociais e as orientaes polticas expres-
sonalidade de jovens ativistas polticos, bem       sas durante seus anos juvenis como ativistas
como nas atitudes e comportamentos de parti-        tm probabilidades de continuar pela vida adul-
cipantes de um movimento da juventude. O            ta, em vez de mudar ou desaparecer com o
motivo fundamental pelo qual os jovens so to      tempo (Braungart e Braungart, 1990a; Whalen
receptivos a formar movimentos da juventude         e Flacks, 1989).
e se engajar neles envolve as tendncias de ciclo       O estudo dos movimentos da juventude be-
de vida do final da adolescncia e incio da        neficia-se da abordagem interdisciplinar e in-
idade adulta, particularmente os avanos no         terativa que tenta descobrir como os efeitos do
pensamento cognitivo, uma recm-adquirida           curso de vida, do grupo e do perodo se com-
conscincia social e poltica, a busca de iden-     binam para produzir a atividade do movimento
tidade, o desejo de autodeterminao e inde-        da juventude. A anlise pode ser realizada em
pendncia e a necessidade de coerncia entre        inmeros nveis: histrico, internacional, na-
crena e comportamento (Erikson, 1968; Ke-          cional, local, grupal e individual. So adequa-
niston, 1971).                                      das tanto a metodologia quantitativa quanto a
    As explicaes sociolgicas para os movi-       qualitativa e recomendadas as metodologias
mentos da juventude enfatizam a importncia         qualitativas. As investigaes de pesquisa in-
da socializao poltica (especialmente famlia,    dicam que os movimentos da juventude surgem
companheiros, escola e meios de comunica-           em parte devido  incapacidade dos regimes
o), as experincias vividas em comum por um       polticos e da sociedade adulta de resolver ve-
grupo de jovens crescendo juntos em uma so-         lhos problemas e de se adaptar a novas condi-
ciedade em rpida transformao e as condi-         es. O significado histrico e a difuso global
es de sociedade e estruturas de oportunidade      dos movimentos da juventude so o testemunho
que facilitam a formao de movimentos da           da persistncia dos jovens como fora crtica e
juventude (Heberle, 1951; Jenkins, 1987). De        renovadora na histria moderna.
forma semelhante, as explicaes histricas
concentram-se na natureza nica e eruptiva dos      Leitura sugerida: Altbach, P.G. 1989: Student Politi-
movimentos da juventude e identificam algu-         cal Activism: an International Reference Handbook
                                                     Braungart, R.G. e Braungart, M.M. 1986: "Life-cour-
mas de suas caractersticas cclicas. Cientistas
                                                    se and generational politics". Annual Review of Socio-
sociais e historiadores tm observado igual-        logy 12, 205-31  1989: "Generational conflict and in-
mente que os movimentos da juventude tendem         tergroup relations as the foundation for political gene-
a surgir quando um grupo de jovens relati-          rations". In Advances in Group Process, vol.6, org. por
vamente grande sente que tem um conjunto de         E.J. Lawler e B. Markovsky, p.179-203  Eisenstadt,
                                                                  movimento de libertao colonial   489

S.N. 1956: From Generation to Generation  Feuer,        dos, como Guilherme Tell ou Garibaldi. Alguns
Lewis S. 1969: The Conflict of Generations  Lipset,     de seus pases herdaram pelo menos um senso
S.M. e Altbach, P.G., orgs. 1969: Students in Revolt.
                                                        incipiente de nacionalidade, como fez o Vietn
                        RICHARD G. BRAUNGART E          com suas lembranas tenazes de ataques chi-
                        MARGARET M. BRAUNGART           neses repelidos muitos anos atrs. Outros, como
                                                        a ndia e muitos pases da frica, tinham pouca
movimento de libertao colonial Em par-                ou nenhuma conscincia desse tipo, embora a
te alguma o governo colonial proporcionou al-           ocupao britnica da ndia tivesse sido obriga-
guma reconstruo radical da sociedade. Os que          da a superar uma rgida resistncia regional. O
estavam na base da pirmide tenderam a afun-            governo ocidental gerava descontentamentos
dar ainda mais, enquanto os benefcios da nova          por um lado, ambies por outro. Ambas as
ordem iam para os que j se encontravam em              coisas podiam levar  convico de que o que
melhor situao. Fundaram-se universidades,             era necessrio a um povo era transformar-se em
abrindo oportunidades para os que podiam en-            nao e rumar para a liberdade.
trar nelas, mas pouco se fez no campo da educa-             Tal idia s podia surgir, a princpio, em
o primria. Em todas as colnias, o anal-             mentes com acesso  educao e ao exemplo
fabetismo continuou a ser o destino comum; as           estrangeiros; para reunir fora, ela precisava
mulheres continuaram a ser, em grande parte, o          expandir-se muito mais. Os lderes potenciais
"segundo sexo". Novas elites, ocupando o pri-           tinham que convencer seu povo de que o so-
meiro plano, derivavam em grande parte das              frimento de muitos de seus membros se devia 
antigas, embora -- como no Japo em processo            injustia estrangeira. O que era conhecido nos
de modernizao -- no de suas camadas mais             crculos nacionalistas indianos no incio deste
elevadas e fossilizadas.                                sculo como a "teoria do sorvedouro" (criada
    Mesmo assim houve mudanas reais, afe-              em parte por simpatizantes britnicos) ensinava
tando todas as classes. Novos meios de trans-           que a ndia era pobre devido ao tributo car-
porte e comunicao aceleraram a difuso de             regado ano aps ano para a Gr-Bretanha. Esse
idias. A educao ocidental abriu muitas jane-         argumento, e seus muitos paralelos em outros
las, ainda que a princpio apenas para uns pou-         lugares, tinha base em fatos, bem como alguns
cos; os povos coloniais foram colocados em              exageros; disfarava, o que era igualmente ver-
contato mais estreito uns com os outros, bem            dade, o fato de muitssimos indianos, e outros,
como com a Europa. Surgiram novos tipos de              serem explorados por seus prprios conterr-
atividade comercial; novas profisses, como o           neos. Se evidentemente esses conterrneos to-
direito ao estilo ocidental, a medicina e o jor-        mavam o lado do estrangeiro quando de alguma
nalismo, fizeram surgir uma intelligentsia mo-          luta decisiva, sua m conduta social e sua ati-
derna. Dentro de suas fileiras, pde nascer uma         tude impatritica poderiam muito bem receber
conscincia nacional, inspirando interesse pela         a devida nfase.
histria, a lngua e a cultura de uma nao. A              Os ressentimentos assumiam muitas formas
ndia rapidamente demonstrou um gnio es-               especficas, todas ampliadas pelo impacto psi-
pecial para o pensamento jurdico, uma de-              colgico do governo estrangeiro, da arrogncia
monstrao de quanta capacidade mental jazia            do homem branco e de sua indisfarada crena
sem uso na sia, com culturas requintadas e             na inferioridade dos que se encontravam sob
vida poltica semibrbara. Os advogados viriam          sua por vezes spera autoridade. Muitos dos que
a desempenhar um papel imenso nos movimen-              tinham qualificaes modernas, maiores ou
tos nacionais do tipo mais pacfico. Na ndia,          menores, tinham de competir por cargos no
Gandhi, Nehru e Jinnah eram todos formados              governo, que eram sempre muito poucos,  falta
em direito.                                             de outro tipo de emprego. Os mais qualificados
    A idia nacional teve origem na Europa              queriam que colocaes melhores, civis e mili-
Ocidental e da por diante sempre houve --              tares, lhes fossem abertas, em vez de serem
como ainda h -- europeus lutando por uma               reservadas aos brancos. Desejavam uma par-
independncia nacional. Quando patriotas em             ticipao no governo, a princpio bastante mo-
terra distante comearam a examinar o seu pr-          desta. Conseguiam encontrar aliados entre os
prio mundo, encontraram uma ideologia pronta            empresrios de tipo mais novo, aprendendo os
para ser assumida e heris para serem emula-            mtodos dos negociantes e industriais estran-
490   movimento de libertao colonial


geiros, aspirando em seguida a com eles rivali-        A exploso de 1857 pertenceu mais a uma
zar, tal como fizeram nos anos 20 na indstria     ndia antiga do que  nova e no conseguiu
de juta em Bengala. Era uma queixa cada vez        espalhar-se para alm do vale do Ganges. Ela
mais insistente a de que a indstria nativa no    efetivamente reuniu muulmanos e hindus e,
era protegida por tarifas, como acontecia nas      neste sculo, foi encarada como o ponto de
naes industrializadas do Ocidente.               partida para o nacionalismo indiano. A maior
    Em nvel inferior, e freqentemente irrom-     parte das provncias, no entanto, permaneceu
pendo em pequenas revoltas ou distrbios lo-       quieta durante longos perodos depois de sua
cais, em geral totalmente isoladas de qualquer     conquista, de forma que o governo britnico
movimento nacional organizado, havia protes-       pde assumir um aspecto de naturalidade e
tos contra impostos rurais pagos por campo-        permanncia. Uma gerao depois do Motim,
neses ou, em algumas colnias africanas, im-       agitava-se um sentimento de um novo tipo po-
postos individuais; a eroso dos direitos con-     ltico, a princpio dentro de uma elite que rece-
suetudinrios sobre as terras incultas ou nas      bera educao britnica, nutrida pelos anais
florestas; o trabalho compulsrio e, em alguns     histricos ingleses, de Hampden a Gladstone.
imprios, especialmente o francs, o recruta-      Em 1885 fundou-se o Congresso Nacional In-
mento para os exrcitos que todos os imprios      diano, com algum estmulo britnico. A prin-
formavam em suas colnias e geralmente usa-        cpio no passava de uma associao de mem-
vam no exterior, at mesmo, durante as duas        bros da pequena elite profissional, tomada de
guerras mundiais, na Europa.                       esprito pblico, com educao e idias ingle-
                                                   sas, que se reunia anualmente para discutir as
    A deciso de modificar e por fim encerrar o
                                                   necessidades do pas; pouco a pouco essa pe-
domnio colonial podia seguir um caminho ba-
                                                   quena elite aprendeu a mobilizar um amplo
sicamente pacfico, "constitucional", ou recor-
                                                   apoio popular para suas propostas e cresceu,
rer  fora. O caminho tomado dependia tanto
                                                   transformando-se em partido poltico regular,
da histria, da estrutura social e da cultura de   primeiro e maior da ndia. A reao oficial foi
um pas quanto da atitude da potncia gover-       providenciar cautelosas vlvulas de segurana.
nante. As tticas de Gandhi, com seu colorido      Uma delas foi a publicao de um jornal, tole-
emocionalmente religioso, foram peculiares        rado, embora atentamente vigiado. Estabele-
ndia hindu; s seriam praticveis sob um re-      ceram-se corpos governamentais locais, eleitos
gime comparativamente liberal e moderado,          para um mbito reduzido de atuao e aos quais
como o britnico. Um vice-rei francs ou ale-      mais tarde se concedeu maior margem opera-
mo em Dli teria dado ao Mahatma uma res-         cional; estes proporcionaram a polticos, mui-
posta bem mais rude. A oficialidade britnica      tos deles advogados, sua primeira plataforma.
tinha de procurar estar em harmonia com a          Os ministros da Coroa foram deixando tcito,
corrente de opinio da Inglaterra, dando um        embora sem assumir compromisso algum, que
pouco de tempo ao tempo. J tinha havido           a ndia estava sendo treinada para se autogover-
deslizes graves antes: na Irlanda em 1798, na      nar em algum futuro no especificado.
ndia em 1857-8, durante o Motim, na Jamaica           Esse reformismo moderado, respeitado por
em 1865.  preciso acrescentar que os ingleses     ambas as partes, do lado indiano foi acompa-
estavam contaminados, mais que a maioria dos       nhado por manifestaes eloqentes e no-in-
europeus, pelo preconceito racial. Mesmo as-       sinceras de lealdade  ligao com a Gr-Breta-
sim, depois de 1858, s por uma vez, no Punjab,    nha. No obstante, a impacincia crescia. Todas
em 1919, em um caso de histeria de fim de          as colnias britnicas de populao branca j se
guerra, os ingleses e a ndia tiveram uma con-     autogovernavam: foi um processo paralelo 
frontao feroz. O temperamento francs era        ampliao dos direitos de voto na Inglaterra, e
mais militarista. A autoridade francesa na In-     a revoluo norte-americana servira de aviso
dochina apoiava-se de modo demasiadamente          contra as postergaes. Mas os indianos no
pesado na Legio Estrangeira; no Norte da fri-    podiam deixar de perguntar por que, nesse as-
ca, essa autoridade notoriamente pertencia mais    pecto, tinham de ser preteridos aos africnderes,
ao exrcito de ocupao do que ao governo em       bem poucos anos depois da Guerra dos Beres,
Paris. Uma oposio sria s poderia assumir       quando estes j haviam sido denunciados como
uma forma, a da insurreio.                       piores do que brbaros. Bengala, a mais antiga
                                                              movimento de libertao colonial   491


provncia britnica, foi a primeira a comear a         Depois da guerra a independncia era inevi-
se insurgir, nos anos anteriores a 1914, com um     tvel, no mnimo porque a Inglaterra estava
boicote s mercadorias britnicas e alguma ati-     cansada e no podia mais contar com a lealdade
vidade terrorista limitada. Nesse caso, a Irlanda   das agora enormes foras armadas indianas. O
foi o modelo. No perodo 1914-18, o Congresso       governo trabalhista, eleito em 1945, teve sen-
Nacional tanto se expandiu quanto assumiu           sibilidade suficiente para reconhecer esse fato,
feio mais radical. Isso foi um reflexo das        e a independncia veio em 1947; mas vieram
presses do tempo de guerra sobre a ndia.          tambm as divises e os massacres comunais
Economicamente, houve um boom, que for-             em uma escala horrenda, o mergulho em um
taleceu os setores comercial e industrial, ao       derramamento de sangue que a poltica gan-
mesmo tempo que os preos altos e a escassez        dhiana havia sido criada para impedir. Com a
infligiam graves sofrimentos ao povo. Poli-         perda da ndia, seguiram-se necessariamente a
ticamente, falava-se muito do lado aliado que       Birmnia e o Ceilo. Os ministros trabalhistas
aquela era uma guerra pela liberdade e o pro-       demoraram a perceber que a frica estava des-
gresso; nacionalistas de muitos pases, to dis-    pertando, mas em 1960, quando a Nigria foi
tantes at quanto a Coria, imaginaram que o        libertada, os tris ingleses tambm concorda-
estabelecimento, ao final da guerra, da Liga das    ram em que no havia alternativa. Fizeram uma
Naes era o arauto de uma nova era.                exceo para as colnias onde ocorrera o es-
    Gandhi era agora o esprito mobilizador         tabelecimento de populaes brancas. Na fri-
no Congresso, com sua ttica de mobilizao de      ca Ocidental, o clima e as doenas haviam
massas combinada  no-violncia e  "de-           impedido que isso acontecesse. No Qunia e na
sobedincia civil". Essas tticas tiveram mais      Rodsia, travaram-se guerras de guerrilha.
apelo junto s classes mdias; operrios e cam-         Por toda parte no mundo colonial, os anos
poneses estavam se organizando dentro de li-        de colapso, em torno de 1930, foram uma poca
nhas diferentes, com liderana parcialmente co-     calamitosa e intensificaram o desagrado com
munista, e os pontos crticos em suas lutas no     relao ao domnio ocidental. Na Indonsia e
coincidiam com os do movimento nacional.            na Indochina houve tentativas de levantes ar-
Para esse movimento, isso era uma fraqueza,         mados. Depois de 1945, os holandeses lutaram
mas ao mesmo tempo preservou o congresso da         em vo para recuperar o controle da Indonsia,
diviso de classes interna e da contaminao        onde o partido nacionalista se havia ampliado,
socialista. Empresrios ricos, sempre avessos       como na Birmnia, sob o patronato japons.
ao nacionalismo de esquerda, no tardaram,          Desacreditado pela queda da Frana durante a
portanto, a oferecer apoio financeiro. Tinham       guerra, o imprio francs no conseguiu res-
muitas esperanas na independncia. Outra de-       tabelecer-se nem atravs de massacres na Ar-
ficincia do Congresso era que, permanecendo        glia e em Madagascar, nem por meio da inau-
de vrios modos como um organismo social-           gurao, em 1946, de uma "Unio Francesa",
mente conservador, tinha uma ala direitista so-     que do imprio s diferia no nome. No Vietn,
lidamente hindu e antimuulmana. Jawaharlal         havia muitos motivos de descontentamento, en-
Nehru, com suas simpatias socialistas, queria       tre eles a tomada da terra a ser transformada em
que o Congresso atrasse as massas muul-           plantaes pelos colonos franceses e os maus-
manas, atendendo as suas queixas sociais e          tratos impostos aos trabalhadores. A restaura-
econmicas; isso era algo que o Congresso no       o do poder francs sofreu resistncia imedia-
podia fazer, pois essas queixas se dirigiam con-    ta, no Norte, a iniciativa foi rapidamente toma-
tra os hindus mais ricos, bem como contra os        da por Ho Chi Minh e os comunistas, os quais,
britnicos. A partir do final dos anos 30 os        tal como na Malasia, haviam combatido os
comunalistas muulmanos que pregavam a se-          japoneses (enquanto os franceses se haviam
parao comearam a ganhar terreno. Durante         submetido a eles). Eram recrutados principal-
os anos da guerra, a Liga Muulmana, enca-          mente entre o campesinato, mas, como em mui-
beada por Jinnah, teve plena liberdade para        tos pases, receberam a adeso de estudantes e,
difundir sua propaganda, enquanto o Congresso       de forma mais gradual, de boa parte da in-
ficava na oposio e seus lderes, depois da        telligentsia, desatualizada e predominantemen-
derrota do "Levante de Agosto" de 1942, es-         te rural. Operaes de guerrilha levaram, em
tavam na priso.                                    estgios,  criao do exrcito que, em 1954,
492   movimento de libertao colonial


derrotou e capturou um exrcito francs em          de guerra e, conseqentemente,  Unio Sovi-
Dien-Bien-Phu.                                      tica. Com isso, perderam boa parte do respeito
    Os franceses desistiram e se retiraram, mas     do pblico.
seu lugar foi rapidamente tomado pelos norte-           Muito do valor dos movimentos de liberta-
americanos, que at 1972 persistiram na ten-        o colonial reside no efeito que tiveram sobre
tativa terrivelmente destrutiva de esmagar o        estruturas sociais arcaicas, sacudindo-as mais
movimento nacional. Nesse intervalo, poucos         intensamente que o governo colonial -- em
meses depois de Dien-Bien-Phu, prorrompeu a         alguns sentidos fossilizante -- conseguira fa-
revolta argelina, liderada pela FLN (Frente de      zer. As mulheres, por exemplo, assumiram pa-
Libertao Nacional). Os argelinos tambm ha-       pel considervel nas atividades tanto polticas
viam sido privados de grande parte de sua terra     quanto militares. O esforo armado exigia que
para dar lugar a fazendeiros franceses ou cos-      as energias populares fossem plenamente recru-
mopolitas. A Arglia era, na teoria ou na fico    tadas. Onde ele triunfou, os colaboradores na-
legal, parte da Frana, no uma colnia, e os       tivos do regime colonial foram varridos junto
colonizadores, apoiados pelo exrcito, vetaram      com o prprio regime -- embora uma guerra
qualquer idia de retirada. Em 1958 caiu a          to devastadora quanto a do Vietn possa deixar
Quarta Repblica do ps-guerra e De Gaulle          um pas exaurido demais para qualquer espcie
voltou ao poder. Em 1961 ele, por sua vez, foi      de recuperao rpida. Por outro lado, quanto
quase derrubado pelo exrcito, mas em 1962          mais superficial o esforo, mais probabilidades
estava suficientemente forte, alm de suficien-     de o governo imperial ser trocado apenas por
temente racional, para abandonar o conflito. A      um governo neoliberal. As colnias que se vi-
luta no havia ultrapassado o nvel da guerrilha,   ram sozinhas sem preparo algum, como as da
mas j havia infligido um dano imenso ao povo       frica subsaariana, largadas por De Gaulle, ou
argelino.                                           o Congo, pela Blgica, ficaram em estado de
    Em 1919 a Terceira Internacional, ou Inter-     estagnao ou de caos. A Malasia permaneceu
nacional Comunista, foi estabelecida em Mos-        sonolenta desde que os britnicos, depois de
cou, com um programa de atividade nas col-         derrotarem um levante de guerrilha por parte da
nias, bem como no Ocidente. O socialismo,           metade chinesa da populao, confiaram o po-
geralmente em sua forma comunista, tornou-se        der aos malaios nativos e a seus chefes cau-
fator de agitao nacionalista praticamente por     telosamente conservadores.
toda parte, especialmente quando havia luta             Quando a ndia se tornou livre, o servio
envolvida. Era-lhe possvel assumir o primeiro      pblico, treinado pelos ingleses, que se mos-
plano ou porque, como no Vietn e na China,         trara leal at o ltimo momento aos antigos
os partidos de classe mdia no conseguiam          senhores, foi assumido inalterado por seus su-
mostrar as qualidades necessrias, ou porque        cessores; mas sua inrcia foi contrabalanada
no existiam essas classes ou partidos, como na     pela perspectiva radical de Nehru e da ala mais
frica portuguesa. Dentro de vrios movimen-        progressista do Congresso. A ndia permaneceu
tos nacionalistas havia uma controvrsia crni-     fiel ao modelo britnico de governo parlamen-
ca quanto a se a filiao ou colaborao co-        tar. Depois de conflitos armados, como na Chi-
munista deveria ser aceita, e dentro dos partidos   na e em Cuba, o resultado mais provvel era
comunistas quanto a se deviam colaborar com         alguma forma de ditadura de esquerda. Onde
"nacionalistas burgueses" ou se manter  parte      no houve nenhuma luta popular significativa,
e organizar a classe operria e o campesinato       como nas Filipinas, no Paquisto ou no Congo,
separadamente. Na ndia, os comunistas foram        o resultado foi uma ditadura de direita.
sempre encarados com suspeita pelos conser-             Ver tambm COLONIALISMO.
vadores do Congresso e seus aliados capitalis-
tas, bem como pelos zelotes religiosos, e eles      Leitura sugerida: Betts, Raymond F. 1985: Uncertain
prprios encaravam o Congresso e Gandhi, pes-       Dimensions: Western Overseas Empires in the Twen-
soalmente, como timidamente reformistas e           tieth Century  Davidson, Basil 1955: The African A-
                                                    wakening  Fanon, Frantz 1961 (1983): The Wretched
conciliadores. Ficaram de fora do levante de        of the Earth  Gupta, Partha Sarathi 1975: Imperialism
1942, quando o Congresso esteve mais perto de       and the British Labour Movement, 1914-64  Hodgkin,
adotar tticas revolucionrias como as deles        Thomas 1981: Vietnam: the Revolutionary Path  Kier-
prprios, pois isso seria prejudicial ao esforo    nan, V.G. 1982: From Conquest to Collapse: European
                                                                         movimento de mulheres     493

Empires from 1815 to 1960  Mansfield, Peter 1971:      algumas com partidos polticos. As idias de
The British in Egypt  Sarkar, Sunit 1989: Modern In-   emancipao das mulheres eram particular-
dia, 1885-1947  Seal, Anil 1968: The Emergence of
Indian Nationalism  Wolf, Eric R. 1971: Peasant Wars
                                                       mente atraentes queles inspirados pelas idias
of the Twentieth Century.                              do Iluminismo. Movimentos nacionalistas libe-
                                      V.G. KIERNAN
                                                       rais, socialistas e modernizantes foram foras
                                                       importantes em apoio a mudanas jurdicas e
movimento de mulheres Evocando uma co-                 sociais na posio das mulheres, tendo atrado
letividade de mulheres que se mobilizam para           muitas ativistas para suas fileiras. Apesar de
protestar ou para sair em busca de objetivos em        todas as suas diferenas ideolgicas, elas ti-
comum, essa descrio  usada, em geral,               nham em comum um amplo compromisso com
simultaneamente com movimento feminista,               a construo de uma sociedade moderna na qual
mas os movimentos de mulheres antecedem o              as estruturas tradicionais da sociedade patriar-
FEMINISMO e podem ser diferentes dele. So             cal e as formas de estado associadas  opresso
movimentos sociais que exibem uma heteroge-            das mulheres seriam substitudas por uma for-
neidade de objetivos e formas de associao ou         ma de administrao civil mais racional, justa
de organizao (ver tambm MOVIMENTO SO-               e igualitria.
CIAL).                                                     Embora idias e textos feministas possam
    Os movimentos de mulheres tm surgido em           ser encontrados em muitos sculos anteriores,
todas as regies do mundo e so mencionados            foi tambm no sculo XIX que o feminismo
na maior parte da histria documentada. O Co-          pela primeira vez surgiu como fora ideolgica
ro refere-se a um levante de mulheres no Sul          e poltica influente. A palavra feminista foi
da Arbia, as quais, segundo os estudiosos,            usada por militantes pelos direitos das mulheres
estavam protestando contra a proibio, por            no apenas nos Estados Unidos e na Europa,
Maom, de que as mulheres exercessem o co-             mas tambm em pases como Japo, Turquia,
mrcio. A histria da Amrica Latina e da fri-        Rssia, Argentina, Filipinas e ndia. Embora
ca coloniais contm exemplos de escravas e             abrigasse divergncias em seus objetivos e es-
camponesas rebelando-se contra as leis ou pr-         tratgias e, portanto, estivesse aberto a uma
ticas do estado imperial, ou mobilizando-se            variedade de interpretaes, o feminismo, em
para defender seus interesses econmicos. Na           diferentes contextos regionais e culturais, es-
Europa do sculo XVIII mulheres formaram               tava associado a um compromisso com o fim
suas prprias associaes, algumas das quais           da desigualdade sexual e a emancipao das
participaram da Revoluo Francesa. Mais tar-          mulheres da opresso. Os primeiros movimen-
de, no tumulto revolucionrio da dcada de             tos feministas, como a Associao Feminista
1840, os movimentos de mulheres se desenvol-           Filipina, fundada em 1905, ou o Seito (Meia
veram, e foi fundado um jornal em defesa dos           Azul), estabelecido no Japo em 1911, fizeram
direitos das mulheres, Les Voix des Femmes (As         campanha pelo voto e o acesso  educao, ao
Vozes das Mulheres). Embora houvesse com-              mesmo tempo em que se opunham  discrimi-
parativamente poucos desses primeiros movi-            nao baseada no sexo e buscavam melhorar a
mentos, e eles tenham permanecido isolados e           situao jurdica das mulheres. Essas associa-
espordicos, sua incidncia, volume e mpeto           es de mulheres buscavam seus objetivos a
cresceram nos sculos XIX e XX,  medida que           partir de uma variedade de diferentes pontos de
a sociedade civil se desenvolvia e que as restri-      vista. Alguns, como a Sociedade das Mulheres
es que inibiam as mulheres de entrar na vida         Persas, de 1911, enfrentaram atitudes e leis
social e poltica iam se enfraquecendo.                religiosas profundamente entranhadas; outros
    Foi no sculo XIX que mulheres de muitas           trabalharam dentro do contexto de estados libe-
regies do mundo comearam a se organizar              rais por maior igualdade jurdica e pelo voto;
contra as desigualdades baseadas no sexo e a           outros ainda ligaram sua luta por igualdade a
exigir reformas jurdicas visando remover os           uma revoluo socialista. Em regies menos
controles patriarcais na famlia e na sociedade        desenvolvidas do mundo, como Turquia, ndia,
em geral. Algumas dessas iniciativas foram to-         China e Egito, as associaes feministas viam
madas por indivduos ou grupos independentes,          seus interesses representados dentro do projeto
algumas elaboradas em associao com mo-               de um nacionalismo modernizante, enquanto
vimentos mais amplos por mudanas sociais,             outras permaneciam independentes dos parti-
494   movimento de mulheres


dos polticos, comprometidas com uma inter-          pelo aborto voluntrio se tornou uma questo
pretao mais radical da idia de libertao das     mobilizadora to importante quanto havia sido
mulheres que ia alm da igualdade dos direitos       o sufrgio para a primeira onda feminista.
para abraar questes de sexualidade e relaes          A segunda onda feminista foi um dos movi-
interpessoais.                                       mentos sociais mais importantes do perodo do
    A histria do feminismo divide-se em dois        ps-guerra, tendo sido capaz de mobilizar gran-
perodos amplos. A "primeira onda", como s          de nmero de mulheres. Em 1985, nos Estados
vezes  chamada,  a do perodo de 1860 a 1920.      Unidos, a National Organization of Women
 representada acima de tudo por direitos iguais     (NOW), reformista, tinha em seu quadro 1/4 de
e movimentos reformistas, os maiores e mais          milho de associadas, enquanto que na Gr-
bem-sucedidos dos quais foram os dos Estados         Bretanha, Itlia e Frana as manifestaes de
Unidos e Gr-Bretanha. A primeira conveno          mulheres em campanhas por questes espec-
pelos direitos das mulheres na Amrica do Nor-       ficas podiam atingir 3/4 de milho. Fora do
te foi realizada em 19-20 de julho de 1848, em       mundo anglo-saxo, as feministas tambm co-
Seneca Falls, e  s vezes encarada como o           mearam a se organizar a partir do incio dos
momento fundador do feminismo ocidental. Na          anos 70; surgiram grupos feministas na Iugos-
Gr-Bretanha, a primeira onda feminista alcan-       lvia, Mxico, Peru, ndia e at na Unio Sovi-
ou sua mobilizao mais significativa no in-       tica. Algumas dessas iniciativas evoluram para
cio do sculo XX, com as lutas pelo sufrgio         movimentos sociais significativos nos anos 80.
feminino, que culminaram com a vitria em                Foi s em tempos comparativamente recen-
1918.                                                tes, em seguida ao advento da "segunda onda
    O segundo perodo de maior fora organiza-       feminista", que os movimentos de mulheres
cional do feminismo comeou no final dos anos        comearam a receber a ateno dos estudiosos.
60. Brotou do clima de radicalismo estudantil        Analistas de fenmenos polticos como movi-
na Europa, e nos Estados Unidos fez parte do         mentos sociais urbanos, revolues e levantes
movimento pelos direitos civis. O feminismo          populares tendiam a concentrar a ateno na
da segunda onda ergueu-se a partir das percep-       dinmica de classe e a ignorar de maneira geral
es de algumas das primeiras tericas, como         o conflito quanto s linhas de gnero e etnia.
Simone de Beauvoir, e gerou maior diversidade        Como resultado, raramente reconheciam a pre-
de abordagens tericas, objetivos e estratgias      sena de mulheres nesses movimentos ou con-
do que seus predecessores. Os movimentos fe-         sideravam as caractersticas especficas con-
ministas desse perodo so convencionalmente         feridas por sua participao e pelos prprios
divididos em duas correntes principais; uma,         esforos independentes de organizao das mu-
tipificada como movimento reformista, preocu-        lheres. Historiadoras e cientistas sociais femi-
pava-se principalmente em obter direitos iguais      nistas encarregaram-se de reparar essa ausn-
e em eliminar a discriminao contra as mu-          cia a fim de recuperar o que, na expresso de
lheres; a outra, caracterizada como a tendncia      Sheila Rowbotham, havia sido "escondido da
de libertao das mulheres, preocupava-se em         histria".
realizar um programa mais radical de mudana             O crescente interesse pelos movimentos de
social e continha correntes radicais e revolucio-    mulheres tem gerado estudos dos vrios tipos
nrias. Enquanto a primeira corrente, tpica da      de ao coletiva feminina que tm ocorrido e
tendncia dominante nos Estados Unidos, es-          isso vem revelando a amplitude de atividades
tava ligada a uma maior integrao e influncia      polticas em que as mulheres se engajam. Essa
sobre o sistema poltico e  realizao de uma       atividade variou dos movimentos espontneos
srie substancial de reformas jurdicas, a ltima,   de protesto de tipos variados at campanhas
mais caracterstica dos movimentos europeus,         feministas por direitos iguais e, nos anos 80,
mostrava-se mais crtica quanto s medidas           mobilizaes conservadoras ou fundamentalis-
reformistas e defendia iniciativas de auto-ajuda     tas de mulheres nos Estados Unidos e no mundo
local dentro de uma forma de associao an-          islmico. Tal variedade de mobilizaes de-
tielitista e descentralizada. Ambas as varieda-      monstra que as mulheres no apenas foram
des, porm, partilhavam uma perspectiva co-          agentes polticos significativos, como tambm
mum com relao a algumas questes e certos          se mobilizaram coletivamente na busca de uma
objetivos, e em ambos os casos a campanha            ampla variedade de objetivos: s vezes a prio-
                                                                       movimento de mulheres     495


ridade era alcanar maior igualdade sexual; em      global", foi criticado por feministas negras e do
outras ocasies era dar apoio a objetivos polti-   Terceiro Mundo por presumir que mulheres de
cos mais amplos; e em outras ainda era apoiar       todas as classes e de todas as religies neces-
mudanas jurdicas que, por motivos religio-        sariamente partilhavam interesses e laos de
sos, exigiam uma definio e, s vezes, como        solidariedade comuns. Elas propunham uma
no caso dos movimentos antiaborto, uma restri-      viso mais diferenciada dos interesses das mu-
o de seus direitos anteriores.                    lheres como sendo formados por fatores tais
    Esse trabalho de descoberta tem levado a        como classe e etnia, de modo que podiam levar
uma reavaliao da participao poltica das        a relaes de dominao e subordinao entre
mulheres e ajudado a minar a viso comumente        mulheres. Seguiu-se que os objetivos do femi-
aceita de que as mulheres no so agentes pol-     nismo estariam sujeitos a alguma variao, e
ticos e de que sua esfera adequada de influncia    diferentes movimentos formularam suas priori-
 dentro do domnio natural da esfera privada.      dades de acordo com isso. Embora tal reco-
Se estudiosas feministas reconheceram a mas-        nhecimento no precisasse negar que seria pos-
culinizao do espao poltico e a excluso his-    svel criar alguma base para a ao coletiva e
trica das mulheres desse espao, tambm des-       objetivos comuns, significava que a solidarie-
tacaram que o feminismo ampliou o significado       dade entre mulheres no era dada somente pelo
da prpria poltica, passando a incluir resistn-   fator do gnero.
cia e confronto com respeito a relaes de poder        Embora a diversidade de lutas feministas
tanto no mbito privado quanto na sociedade         dentro de um dado pas ou regio do mundo
como um todo. Em geral, a anlise dos               torne enganosas as generalizaes simples, cer-
movimentos de mulheres tem levado alguns            tas diferenas tm destacado a variedade oci-
autores a propor que eles representam acima de      dental da maior parte das outras variedades de
tudo desafios informais  corrente poltica pre-    feminismo, incluindo seu maior compromisso
dominante. Tal como outros "novos movimen-          com a auto-realizao individual, dentro do
tos sociais", o desafio representado pelos mo-      qual questes de sexualidade, linguagem e cul-
vimentos de mulheres se estende tambm s           tura tm sido postas em destaque. Em contraste,
concepes ortodoxas sobre o contedo e do-         muitas feministas das regies ps-coloniais do
mnio apropriado da poltica, contido no slogan     mundo formularam seus objetivos dentro de
feminista "O pessoal  poltico".                   uma estratgia geral que d prioridade ao traba-
    A variedade e o carter do movimento de         lho entre os pobres,  independncia nacional e
mulheres tm colocado vrias questes analti-       mudana econmica e social.
cas ainda por resolver. A primeira diz respeito         Uma terceira questo, correlata, gira em tor-
 necessidade de diferenciao entre os varia-      no dos objetivos que os movimentos de mu-
dos graus de ao social (coletiva), de tal forma   lheres, em oposio aos confessadamente femi-
que movimento significa um avano qualitativo       nistas, tm tendido a buscar. Historicamente e
e quantitativo com respeito a formas de solida-     em uma perspectiva transcultural, uma forma
riedade ou de associao que podem ser peque-       recorrente de movimento de mulheres surgiu
nas em escala, dispersas e relativamente de         com base nos papis das mulheres na famlia.
pouco poder. Essas ltimas formas, que pode-        Esses movimentos, tipicamente, implicam lutar
riam surgir com base em uma acanhada "cultura       pela proviso de necessidades bsicas ou por
de mulheres", incluem redes de comunicao,         direitos de CIDADANIA. Tais movimentos tm
clubes e crculos literrios. Se por um lado elas   duas caractersticas principais. Esto estreita-
podem marcar o incio de um movimento, ou           mente identificados com construes sociais
formar uma parte dele, so analiticamente dis-      particulares de feminilidade e maternidade, e
tintas dele com respeito a fora numrica, poder    esto ligados a essas identidades de modo im-
organizacional e impacto social.                    portante. As mulheres que participam desses
    Uma segunda questo  se o feminismo pode       movimentos ou aes em geral encaram seu
ou deve gerar objetivos capazes de ter uma          envolvimento poltico como uma extenso na-
aplicao universal. Virginia Woolf escreveu:       tural de seus papis na famlia e como baseado
"Como mulher, no tenho ptria. Como mulher,        em sentimentos primordiais, intrinsecamente
no tenho necessidade de uma ptria." O slogan      femininos. Em segundo lugar, como funo
de Robin Morgan nos anos 70, "A irmandade          disso, as participantes dessas formas de luta
496   movimento ecolgico


tendem a formular o objetivos de suas aes em      o de me e inclua exigncias tais como a
termos amplamente altrustas, e no em termos       reviso do planejamento urbano, o pagamento
destinados a promover seus interesses pessoais      de penses para as que tomavam conta da casa,
como mulheres. Na maioria dos casos, seus           emprego flexvel, maior tempo de lazer e faci-
interesses se identificam estreitamente com o       litao da atividade poltica para as mes.
lar, o bem-estar de seus membros e suas condi-          Embora se afirme s vezes que movimentos
es de existncia na comunidade. Exemplos          desse tipo com base no papel das mulheres so
de tais movimentos "baseados no papel da mu-        os exemplos extremos da poltica de mulheres,
lher" so as mobilizaes de mulheres nas gran-     existe um recurso ao NATURALISMO em sua ca-
des favelas da Amrica Latina, exigindo como-       racterizao das mulheres como mais ticas que
didades bsicas, e os movimentos "de mes"          os homens, mais dispostas a conciliar, mais
surgidos de forma atpica, porm no-exclu-         democrticas e mais amantes da paz. Essa abor-
siva, em regies onde a maternidade desfruta de     dagem tem sido criticada por idealizar e essen-
um status social especial conferido pela religio   cializar atributos de gnero; em geral tambm
e pela cultura. Movimentos "de mes", como as       exclui uma considerao da construo social
Madres de la Plaza de Mayo, na Argentina, ou        desses atributos e de outras formas de participa-
iniciativas em favor da paz, como as "Mulheres      o poltica feminina que no se conformam ao
de Luto", que surgiram em inmeros pases,          modelo comportamental o mesmo o contradi-
incluindo Israel, so essencialmente movimen-       zem plenamente.
tos de protesto contra a violncia do estado, e     Leitura sugerida: Jayawardena, Kumari 1986: Femi-
seus membros tendem a ser arregimentados            nism and Nationalism in the Third World  Rowbo-
entre parentes (em geral, mes e avs) de vti-     tham, Sheila 1974: Women, Resistance and Revolution.
mas da represso ou da guerra. Tais movimen-                                       MAXINE MOLYNEUX
tos de protestos tm surgido, em geral, em
contextos onde a represso ou violncia de          movimento ecolgico Formada no final dos
estado esmagou outras formas de oposio or-        anos 70, a Aliana Poltica Alternativa alem
ganizada.                                           ocidental, ou "Partido Verde", foi amplamente
    Essas formas de mobilizao feminina, an-       saudada como um importante novo caminho na
teriormente consideradas a anttese do feminis-     poltica europia. O movimento reuniu rema-
mo autoconsciente, sofreram certa reavaliao       nescentes das radicalizaes estudantis dos
nos anos 80. A pluralizao dos pontos de vista     anos 60, alguns elementos da esquerda marxista
a respeito de como caracterizar os interesses das   extraparlamentar, "iniciativas dos cidados" lo-
mulheres foi acompanhada por um questio-            cais e "novos movimentos sociais", como o dos
namento dos modelos de libertao das mu-           ativistas pelos direitos dos homossexuais, eco-
lheres, visando eliminar diferenas entre os pa-    logistas, feministas e militantes antinucleares e
pis sociais de mulheres e homens. Em vez de        pela paz, junto com elementos mais conser-
as mulheres se adaptarem aos papis dos ho-         vadores e libertrios.
mens, algumas feministas defenderam a reco-             No final dos anos 80 havia partidos polticos
locao e a reavaliao da feminilidade e dos       verdes em praticamente todos os pases euro-
papis tradicionais das mulheres dentro da fa-      peus, incluindo o Reino Unido, onde o mins-
mlia. Uma conseqncia foi o fortalecimento        culo Ecology Party mudou o nome para Green
da convico, dentro de algumas correntes do        Party [Partido Verde] em 1985. At agora, a
feminismo, de que algumas mulheres eram do-         conquista eleitoral mais destacada dos verdes
tadas de atributos especiais (seja pela natureza    britnicos foi seu resultado nas eleies de 1989
ou pela "socializao"), e que estes estavam        para o parlamento europeu, quando seus can-
ligados  condio de me, atividade que pre-       didatos receberam um total de 3,25 milhes de
dispunha as mulheres  criao e explicava suas     votos.
preocupaes polticas com questes como paz,           Embora as manifestaes mais visveis do
vida social e democracia. Um dos indcios mais      movimento verde sejam os partidos verdes e os
claros dessa tendncia foi o Manifesto das          grupos de presso dos ambientalistas radicais,
Mes, emitido por uma sesso do Partido Verde        importante ter em vista certa distino entre o
alemo ocidental em 1987, que exigia o reco-        movimento e suas expresses polticas. Muitos
nhecimento da importncia poltica da condi-        verdes continuam desconfiados e at hostis com
                                                                          movimento ecolgico      497


relao aos partidos polticos, mesmo nos casos      esquerda do Partido Social-Democrata (SPD)
em que o partido proclama ser um tipo de             e, se no so eleitores pela primeira vez, prova-
partido radicalmente novo. Tambm as conces-         velmente tm uma histria de apoio ao SPD.
ses de estrutura e dos programas partidrios,       Refletindo os valores democrticos radicais dos
impostas pelas vicissitudes da poltica eleitoral,   membros do movimento verde, o Partido Verde
levaram alguns partidos verdes a se afasta-          partiu para ser um partido de "novo tipo", com
rem das concepes verdes radicais de muitos         uma constituio criada para manter um con-
de seus membros e defensores mais "funda-            trole popular descentralizado sobre programas
mentalistas". O tema unificador do movimento         de ao, liderana, representantes parlamen-
 uma inquietao profunda quanto s con-            tares e alocao de recursos, e tambm para
seqncias ambientais do fornecimento de pa-         garantir plena participao por parte dos mem-
dres de crescimento econmico em escala glo-        bros femininos.
bal. Diferentemente dos ambientalistas que               Os programas dos verdes so uma concilia-
buscam a reforma, os verdes no fazem f em          o entre as diferentes tradies polticas reuni-
avanos tecnolgicos nem em melhorias do             das no movimento. No campo da defesa, a
gerenciamento ambiental. Para eles, a crise am-      oposio s armas nucleares combina-se  viso
biental demanda nada mais nada menos que             de uma Europa no-alinhada, e ao rompimento
uma profunda transformao da vida poltica,         dos principais blocos militares. O programa
social e econmica: a criao de uma sociedade       econmico dos verdes favorece a descentraliza-
sustentvel. Existe muita coisa em comum en-         o, a autogesto dos trabalhadores e uma reo-
tre os verdes, mas  questionvel se determina-      rientao da produo para atender a neces-
do programa poltico decorre dessas preocupa-        sidades de acordo com os mecanismos auto-re-
es, e  verdade que  possvel encontrar par-      guladores da natureza. O compromisso pura-
tidos com pretenso o rtulo de "verde" abra-        mente quantitativo com o crescimento, mantido
ando programas tradicionalmente associados          tanto pelo regime "socialista" de estado quanto
com a esquerda e a direita do espectro poltico.     pelo capitalista,  rejeitado em favor de uma
    O Partido Verde alemo tem sido um dos           abordagem seletiva ligada  necessidade,  sus-
mais bem-sucedidos e tambm tem exercido             tentatibilidade e  qualidade da vida. Esses
muita influncia como modelo para partidos           valores democrticos e igualitrios so evi-
verdes em outros pases. Seu programa poltico       dentes tambm no apoio dos verdes aos objeti-
relaciona uma transformao econmica ecolo-         vos feministas,  ampliao das liberdades civis
gicamente necessria com questes de justia         e aos movimentos de libertao do Terceiro
social, direitos das mulheres, paz, autonomia        Mundo.
regional e local, liberdades civis e democracia          Werner Hlsberg distinguiu quatro tendn-
radical. Tentando combinar ao extraparla-          cias principais dentro dos verdes da Alemanha
mentar com poltica eleitoral, os verdes es-         Ocidental. Os "eco-socialistas" favorecem a
tabeleceram-se como um partido poltico de           consolidao dos verdes como fora poltica 
mbito federal na Alemanha Ocidental em              esquerda do SPD, insistem no apoio s lutas
1980. Seus primeiros desempenhos nas urnas           defensivas dos trabalhadores e defendem um
foram irregulares, refletindo diferenas locais      socialismo de orientao ecolgica, construdo
em termos de conscincia popular e do preexis-       sobre uma nova base tcnico-material. Os "fun-
tente equilbrio de foras, bem como divises        damentalistas" defendem a necessidade de uma
entre faces de esquerda e de direita dentro dos    revoluo "cultural" ou "espiritual" em que as
prprios verdes. Depois da sada dos principais      falsas necessidades de consumo engendradas
grupamentos de direita, os verdes consolidaram       pelo capitalismo sejam abandonadas em favor
e expandiram seu apoio eleitoral, rompendo a         de um modo de vida qualitativamente diferente.
barreira dos 5% para entrar no parlamento fe-        Comunidades pequenas, autogeridas e de gran-
deral nas eleies de 1983. Sua base eleitoral       de sociabilidade seriam responsveis pelo aten-
tem sido ampla, embora conseguida despropor-         dimento de suas prprias necessidades bsicas,
cionalmente entre os setores mais jovens, mais       e a vida seria sustentada com um nvel muito
bem instrudos, de classe mdia e profissionais      menor de consumo material. O pensador mais
liberais. Nas questes sociais e econmicas, os      influente dessa tendncia  Rudolf Bahro. Os
defensores do Partido Verde ficam em geral          "eco-libertrios" so um grupamento diverso,
498   movimento estudantil


que favorece as propostas em favor de uma               ficou formas importantes de renovao cul-
"renda bsica" no-relacionada com o trabalho           tural. Os movimentos estudantis, porm, foram
e de uma economia "dual" que permitiria aos             suprimidos ou desintegrados depois de uma
indivduos mais liberdade para o autodesenvol-          dcada de protestos e desde essa ocasio no se
vimento, o estudo e o trabalho autnomo. No             impuseram sobre a sociedade de forma to
decorrer dos anos 80 os verdes da Alemanha              conspcua. No obstante, lanaram as funda-
Ocidental serviram de modelo para os movi-              es sobre as quais os futuros movimentos dos
mentos verdes que foram surgindo em toda a              anos 70 e 80 viriam parcialmente a se erguer
Europa Ocidental, e existem paralelos estreitos,        (ver MOVIMENTO SOCIAL).
bem como laos diretos, entre esses movimen-               Tanto os tericos sociais como os agentes
tos e os movimentos ambientais de protesto da           estudantis tm apresentado diferentes interpre-
Europa Oriental. Embora sejam at agora um              taes para o protesto estudantil, concebido
fenmeno predominantemente europeu, exis-               como expresso ao mesmo tempo de crise e de
tem movimentos verdes comparveis nos Es-               conflito.
tados Unidos, Austrlia, Nova Zelndia, Japo
e em inmeros pases do Terceiro Mundo.                 A crise da universidade
    Ver tambm AMBIENTALISMO.                               A anlises funcionalista buscou uma ex-
                                                        plicao para o emergente movimento estudan-
Leitura sugerida: Bahro, R. 1984: From Red to Green
 Capra, F. e Spretnak, C. 1984: Green Politics  Hls-
                                                        til basicamente em termos de uma crise ins-
berg, W. 1988: The German Greens  Parkin, S. 1989:      titucional da universidade. A mudana de fun-
Green Parties: an International Guide  Porritt, J.      o das universidades, de instituies educacio-
1984: Seeing Green  Ryle, M. 1988: Ecology and          nais da elite para a produo em massa e o
Socialism.                                              profissionalismo (Jencks e Riesman, 1968),
                                       TED BENTON       acarretou problemas internos na universidade,
                                                        disfunes e declnio da comunidade acadmi-
movimento estudantil Se os recentes mo-                 ca, o que foi usado para explicar a inquietao
vimentos de base estudantil surgiram em es-             estudantil. Os estudantes criticaram a institui-
treita relao com problemas internos da uni-           o universitria por suas estruturas tecnocrti-
versidade, logo se concentraram de maneira              cas em grande escala e suas burocracias impes-
crtica em aspectos mais gerais da sociedade.           soais -- que dificilmente se mostravam in-
Durante os anos 60 os movimentos estudantis             clinadas a satisfazer as preocupaes de educa-
tornaram-se um fenmeno social macio. A                o e pesquisa --, por seu mandarinato intelec-
campanha da Livre Expresso, em 1964, no                tual e suas atitudes antidemocrticas (Lipset e
campus de Berkeley, na Califrnia, deflagrou o          Wolin, 1965). No todo, a crise da universidade
movimento, e a inquietao e o ativismo es-             foi vista como algo provocado por um processo
tudantis se difundiram por universidades em             de modernizao da educao superior.
todos os Estados Unidos, Europa. Extremo
Oriente e Amrica Latina. Os movimentos es-             O significado social do protesto estudantil
tudantis desenvolveram novas formas de pro-                 Nos anos 60 muitas discusses acaloradas,
testo: sit-ins, piquetes em massa, greves de            tanto entre estudantes quanto entre os tericos
braos cruzados, happenings e reunies de mas-          sociais, relacionavam-se  questo do tipo de
sa eram ocorrncias quase que dirias. Os estu-         agentes sociais que eram os estudantes. Deviam
dantes envolveram-se profundamente no mo-               ser considerados em termos de classe social?
vimento pelos direitos civis dos negros, or-            Seriam agentes revolucionrios? Essas contro-
ganizaram reunies-monstro em oposio                 vrsias marcaram profundamente a chamada
Guerra do Vietn e se manifestaram em apoio a           Nova Esquerda no movimento estudantil. Para
movimentos de libertao nacional do Terceiro           alguns, os estudantes eram vistos como aliados
Mundo. Na Frana, o governo de Charles de               do movimento operrio. Amplos setores do mo-
Gaulle foi substitudo na esteira do movimento          vimento estudantil obtiveram sua autocons-
estudantil de maio de 1968. Em outros centros,          cincia a partir das anlises tericas neomarxis-
Londres, Roma, Berlim Ocidental, Tquio, o              tas que os consideravam agentes revolucion-
protesto estudantil em geral desempenhou um             rios engajados em uma luta anticapitalista, an-
papel-chave na vida poltica e social, e corpori-       tiestado e antiimperialista. O movimento es-
                                                                           movimento estudantil         499


tudantil no suplantou o movimento operrio,        as condies de um movimento social na medi-
mas agiu como sua vanguarda, tornando-se o          da em que no designava a tecnocracia como
guardio da conscincia proletria, derivando       seu principal componente, no desenvolvia
sua significao social do fato de lutar em nome    uma viso clara de sua prpria identidade e no
do proletariado, com vistas ao rompimento total     considerava o conhecimento produzido em uni-
com as instituies e a cultura burguesas. Ou-      versidades como base principal do conflito
tros viam os estudantes como um elemento            (Touraine, 1968).
perifrico potencialmente revolucionrio. O
pressuposto da teoria crtica (ver ESCOLA DE        O movimento estudantil como crtica
FRANKFURT) era que, devido  cincia e  tecno-     cultural
logia, a desgraa social fora amplamente redu-          Vrios tericos consideraram o movimento
zida e as condies que de forma objetiva moti-     estudantil como um protesto contracultural em
vam uma revoluo se esvaram. Altamente in-        oposio a certos aspectos culturais e estru-
tegrada, manipulada e dominada por estruturas       turais das sociedades contemporneas. Dessa
tecnocrticas em grande escala, a sociedade ca-     forma, encarava-se uma nova cultura poltica
pitalista avanada permitia que seus crticos po-   como iniciada pelo movimento estudantil dos
tenciais se originassem apenas nas periferias do    anos 60. A democracia direta tornou-se a pala-
sistema integrado. Estes podiam ser estudantes,     vra de ordem. Estar pessoalmente preocupado,
hippies, minorias sexuais e outros grupos sociais   engajar-se na participao popular eram meca-
marginais. Escapando em certa medida  do-          nismos essenciais sobre os quais se baseava a
minao total, sua recusa subjetiva s estruturas   nova cultura poltica. Por meio de formas de
e  dependncia em relao a necessidades exis-     ao extra-institucional, como sit-ins, desobe-
tentes os transformava em categorias potencial-     dincia civil e solidariedade, os movimentos
mente revolucionrias (Marcuse, 1964).              estudantis tentaram democratizar a vida social
    Criticando as interpretaes acima, o movi-     e poltica atravs da conquista da ateno do
mento estudantil foi colocado, em vez disso, no     pblico. Estavam comprometidos com novos
reino do simblico, no sentido de ser visto como    modos de fazer poltica fora dos canais ins-
criador de novas sensibilidades e ampliador do      titucionais.
espao pblico. O protesto estudantil foi com-          A nova cultura poltica tinha uma relao
preendido como altamente significativo por          estreita com o protesto cultural, denunciando
motivos simblicos, contanto que permaneces-        atitudes autoritrias e estruturas sociais. O mo-
se no-violento e os ativistas estudantis no se    vimento estudantil tentou alterar as relaes
confundissem como sendo agentes diretamente         sociais existentes na vida cotidiana. As muitas
revolucionrios (Habermas, 1969).                   crticas levantadas contra a natureza opressora
    Finalmente, o protesto estudantil foi inter-    das estruturas autoritrias de famlia, da repres-
pretado como um movimento social. Essa abor-        so sexual, da subordinao das mulheres, dos
dagem terica afirmava que as sociedades mo-        valores do trabalho e da sociedade industrial
dernas estavam entrando em um estgio ps-in-       tinham em geral um fundamento psicanaltico.
dustrial em que no era mais a fbrica, e sim       O protesto antiautoritrio pretendia romper
reas culturais, como educao, sade, comu-        com o modelo patriarcal de cultura que dava
nicao de massa, informao, que se estavam        destaque aos valores masculinos de sociedade
tornando o ponto central do conflito social. Foi    e a estruturas sociais hierrquicas.
essa perspectiva que conferiu um significado            Alm disso, o movimento estudantil afirma-
social potencialmente crucial aos movimentos        va que as universidades tinham de reconhecer
estudantis. O protesto estudantil foi portanto      sua responsabilidade social e no deviam per-
examinado para se descobrir nele a possvel         der o interesse nas aplicaes sociais do co-
presena de um novo movimento social, vale          nhecimento cientfico; e criticava a apropriao
dizer, perguntar se ele implicava conflito entre    ilegtima das universidades pelo estado, o es-
adversrios sociais pelo controle de um campo       tablishment militar e as grandes organizaes.
cultural. Anlises minuciosas de dados sobre o      Leitura sugerida: Bergmann, O., Dutschke, R., Lefeb-
movimento de maio na Frana mostraram, no           vre, W. e Rabehl, B. 1968: Rebellion der Studenten oder
entanto, que o movimento estudantil conser-         die neue Opposition  Flacks, Richard 1967: "The libe-
vava uma significao mltipla. No satisfazia      rated generation: an exploration of the roots of student
500    movimento operrio

protest". Journal of Social Issues 23,52-75  Keniston,   nvel descritivo  bastante conveniente, mas 
Kenneth 1965: The Uncommitted Alienated Youth in         de se recomendar um uso conceitual mais res-
American Society  Morin, Edgar, Lefort, C. e Coudray,
J.-M. 1968: Mai 68: la brche  Touraine, Alain 1972
                                                         tritivo. Tal como a maioria das noes das
(1974): The Academic System in American Society.         cincias sociais, a de movimento social no
                                                         descreve parte da realidade, mas  um elemento
                                    KARIN D. RENON
                                                         de um modo especfico de construir a realidade
                                                         social.
movimento operrio Ver SINDICATOS.
                                                             Os paradigmas tericos dos movimentos so-
movimento social A maioria dos tericos                  ciais podem ser considerados sob diferentes
sociais concorda em que este modo de ao                rubricas. Alm do paradigma neomarxista, as
coletiva engloba um tipo especfico de relao           abordagens tericas predominantes at o incio
socialmente conflitiva. O tipo clssico  o mo-          dos anos 70 so a concepo interacionista do
vimento operrio que marcou a sociedade in-              comportamento coletivo e dos movimentos so-
dustrial do sculo XIX ao incio do sculo XX.           ciais da Escola de Chicago e o modelo es-
Mais recentemente, nos anos 60, a maioria dos            trutural-funcional. Este ltimo paradigma, com
pases do Ocidente vivenciou importantes mo-             suas muitas variantes, foi a perspectiva mais
vimentos sociais, tais como o MOVIMENTO ES-              amplamente adotada para os movimentos so-
TUDANTIL, os movimentos pelos direitos civis e           ciais naquela poca. Nos anos 70 as teorias da
os movimento pela paz, enquanto que em pases            mobilizao de recursos propem uma abor-
do Terceiro Mundo surgiram movimentos de                 dagem neo-utilitarista, racionalista, para o es-
libertao nacional. Durante os anos 70 e incio         tudo dos movimentos sociais. So, porm, se-
dos anos 80 um grande nmero de movimentos               veramente criticadas por abordagens de orien-
sociais proliferou atravs da Amrica do Norte           tao mais hermenutica, que tentam concei-
e da Europa -- movimentos de mulheres, eco-              tualizar o que  novo nos novos movimentos
lgicos, antinucleares e pela paz, bem como              sociais. E a abordagem da sociologia da ao
movimentos por autonomia regional. Em outras             acrescenta uma perspectiva terica abrangente
partes, surgiram movimentos fundamentalistas             ao estudo dos movimentos sociais.
enfatizando a especificidade cultural. A China,
em 1989, passou por um movimento de de-                  Neomarxismo
mocratizao que foi reprimido; e na Europa                  A importante influncia das abordagens
Oriental movimentos populares derrubaram os              marxista e neomarxista para o estudo dos mo-
regimes comunistas. Muitos movimentos so-                vimentos sociais  bastante conhecida e ser
ciais desafiam estruturas institucionais, modos          examinada aqui apenas resumidamente (ver
de vida e de pensar, normas e cdigos morais.            MARXISMO; NOVA ESQUERDA). A teoria marxista
Na verdade, os movimentos sociais esto in-              afirma que, na sociedade industrial, os mo-
timamente ligados  mudana social, e vrios             vimentos sociais e a revoluo brotam da con-
aspectos das sociedades contemporneas so               tradio estrutural central entre capital e traba-
provavelmente conseqncias das aes dos                lho. Os principais agentes dos movimentos so-
movimentos sociais.                                      ciais -- classes sociais antagnicas -- so de-
    De um ponto de vista terico, tambm os              finidos por essa contradio sistmica funda-
movimentos sociais se colocam no centro da               mental. No entanto so tambm considerados
discusso cientfica social. Herbert Blumer              agentes histricos e, como tal, devem tornar-se
(1939) j havia afirmado que comportamento               conscientes de seu papel e destino histricos.
coletivo e movimentos sociais so conceitos              Por esse motivo, as pesquisas sociais so exigi-
centrais da teoria sociolgica, tal como afirma          das no apenas para se estudarem as condies
hoje Alain Touraine. O fato de o uso atual da            objetivas, mas tambm para explicar processos
expresso ser bastante impreciso, mesmo na               mais subjetivos atravs dos quais surgem os
literatura profissional, pode dever-se em grande         movimentos sociais.
parte  excessiva variedade de fenmenos em-
pricos aos quais essa noo potencialmente se           Interacionismo
aplica. Podero todos os diversos movimentos                Der Streit (o conflito) foi compreendido por
que acabamos de mencionar ser abrangidos                 Simmel (1908) como um processo de interao.
pelo mesmo conceito? Empregar essa noo em              Nos anos 20 tericos do INTERACIONISMO SIM-
                                                                             movimento social    501


BLICO da Escola de Chicago adotaram uma            pondncia entre os valores e as prticas efetivas
abordagem semelhante para o estudo do com-          da sociedade, o bloqueio do funcionamento
portamento coletivo e dos movimentos sociais.       institucional, elementos disfuncionais desa-
Partindo do pressuposto de que indivduos e         fiando a sobrevivncia do sistema, todos esses
grupos de pessoas agem com base em com-             so aspectos que podem colocar o sistema so-
preenses e expectativas comuns, afirmaram          cial em desequilbrio e provocar tenses es-
que os movimentos sociais surgem em situa-          truturais que, por sua vez, deflagram movimen-
es no-estruturadas. Estas so situaes em       tos sociais.
que faltam linhas mestras culturais comuns, ou          As teorias da privao relativa so uma
em que essas linhas mestras foram rompidas e        espcie de variante sociopsicolgicas das teo-
devem ser novamente (re)definidas. Os mo-           rias da tenso. A tenso no  dada objetivamen-
vimentos sociais so a expresso de tais recons-    te por discrepncias estruturais, mas  uma
trues coletivas de situaes sociais, so "em-    condio sentida subjetivamente: as pessoas
preendimentos coletivos para estabelecer uma        sentem-se desprivilegiadas com relao s suas
nova ordem de vida" (Blumer, 1939).                 expectativas. No h correspondncia entre a
    A abordagem interacionista simblica para       satisfao de necessidades esperada e a que
o estudo dos movimentos sociais sofre do fato       efetivamente ocorre. A melhora de condies
de seu paradigma terico permanecer insufi-         econmicas e polticas, acarretando crescentes
cientemente desenvolvido. No total, essa abor-      expectativas em alguns grupos,  particular-
dagem ainda est recebendo crescente ateno,       mente favorvel ao surgimento de movimentos
pois enfatiza aspectos sociopsicolgicos da a-      sociais, quando a realidade parece no acompa-
o coletiva, tais como emoo, sentimentos de      nhar as expectativas. A insatisfao e a frustra-
solidariedade, comportamento expressivo e co-       o logo se seguem, levando  formao de
municao, por um lado, enquanto, por outro,        movimentos sociais.
coloca o surgimento dos movimentos sociais
dentro de um processo em desenvolvimento de             Apesar do fato de o modelo estrutural-fun-
relaes e interaes sociais.                      cional alegadamente proporcionar uma teoria
                                                    causal sobre o surgimento de movimentos so-
Estrutural-funcionalismo                            ciais, ele no d nenhuma explicao precisa
    Trs variantes podem ser distinguidas den-      sobre como ocorre a passagem do isolamento,
tro do modelo estrutural-funcional de movi-         tenso e frustrao para a ao do movimento.
mentos sociais. Embora muito diferentes em          No se pode presumir que essa passagem seja
sua abordagem bsica da lgica dos movimen-         automtica.
tos sociais baseada na interao, esse modelo
                                                    Mobilizao de recursos
no est, contudo, to distante quanto pode
parecer do marxismo, em seu modo analtico,             As abordagens neo-utilitaristas no estudo
ainda que proponha uma viso bastante diversa       dos movimentos sociais surgiram nos anos 70
da vida social.                                     e desde ento se expandiram rapidamente. Seu
    As teorias de massa da sociedade postulam       pressuposto bsico  que os movimentos sociais
o indivduo atomizado (Kornhauser, 1959). De-       se desenvolvem na esteira de uma atividade
senraizado pela rpida mudana social, a ur-        organizacional consciente -- se conseguem
banizao e a perda de elos tradicionais, isolado   mobilizar recursos materiais simblicos que
das relaes de grupo e de grupos de referncia     lhes esto disponveis, tais como dinheiro, o
normativa, o indivduo na sociedade de massa        tempo das pessoas e a legitimidade. Os movi-
est ao mesmo tempo livre e disposto a par-         mentos sociais so, portanto, explicados em
ticipar de novos tipos de grupos sociais, tais      termos de oportunidades, estratgias, modos de
como movimentos sociais, que portanto encon-        comunicao, formas sofisticadas de organiza-
tram nas sociedades de massa um solo frtil         o e competio com grupos e autoridades que
para se desenvolver.                                tm interesses opostos. Tal raciocnio acrescen-
    As teorias da tenso estrutural encontram o     ta alguns indcios para a compreenso de como
motivo principal para o surgimento de movi-         surgem os movimentos sociais, mas dificilmen-
mentos sociais no equilbrio distorcido de sis-     te consegue elucidar o significado que as mo-
temas sociais (Smelser, 1962). A no-corres-        bilizaes sociais coletivas podem ter.
502   movimento social


    As diferentes variantes (Olson, 1965;            de vida e ao social. Um esboo sistemtico
Oberschall, 1973; Tilly, 1978) dentro da pers-       dessa crescente reflexividade dos movimentos
pectiva da mobilizao de recursos tm uma           sociais pode ser encontrado no paradigma da
lgica em comum: consideram que os movi-             racionalidade comunicacional. O processo de
mentos sociais empregam um raciocnio es-            racionalizao comunicacional do mundo da
tratgico-instrumental, clculos de custos-be-       vida  proposto aqui como um aspecto cons-
nefcios e buscam seus objetivos e interesses        pcuo da modernidade, correndo paralelo a pro-
racionalmente. Tm em comum ainda outro              cessos de racionalizao sistmica (Habermas,
aspecto importante: para elas, os movimentos         1981). Dentro dessa estrutura terica, os movi-
sociais no so ocorrncias anormais, mas parte      mentos sociais so colocados em dupla pers-
da vida social normal, que  encarada como           pectiva. Como expresso de racionalizao co-
cheia de conflitos potenciais. Por esse motivo,      municacional, os novos movimentos sociais co-
rejeitam a idia de que a tenso ou o desconten-     locam em questo a validade dos padres exis-
tamento possa explicar o surgimento de movi-         tentes do mundo da vida, tais como normas e
mentos sociais; ao contrrio, so os movimen-        legitimidade, e posteriormente ampliam o es-
tos sociais que colocam em evidncia a tenso        pao pblico. Simultaneamente, como movi-
e o descontentamento. Se o movimento ser            mentos defensivos, oferecem resistncia  in-
capaz de fazer isso, vai depender, porm, de         truso patolgica em um mundo de vida que
suas capacidades organizacionais.                    est sendo colonizado por mecanismos sistmi-
                                                     cos de racionalizao, econmicos e polticos,
Novos movimentos sociais                             que anulam processos de comunicao.
    Vrios tericos sociais atualmente usam a
expresso "novos movimentos sociais" para se         Sociologia da ao
referir  grande variedade de movimentos de             Uma perspectiva terica elaborada e com-
protesto durante os anos 70 e incio dos anos 80     plexa sobre os movimentos sociais  proposta
no Ocidente. Falando de maneira ampla, esses         pela sociologia da ao, que busca integrar
movimentos formam uma rede informal de con-          vrias abordagens em uma representao geral
testao e de estilos de vida alternativos, mas      da vida social definida como a autoproduo
tambm entraram na poltica oficial (ver MO-         conflitiva (Touraine, 1973). Nessa viso, o pr-
VIMENTO ECOLGICO).                                  prio centro da vida social  a luta permanente
    O que constitui a novidade dos novos mo-         pelo uso de novas tecnologias e pelo controle
vimentos sociais? A maioria dos tericos os          social das prprias capacidades de transforma-
concebe em termos de comportamento coletivo          o da sociedade. Por esse motivo, os movi-
conflitivo que abre espaos sociais e culturais.     mentos sociais, considerados agentes essen-
So encarados como instituies politizantes da      ciais de conflito, so a importante preocupao
sociedade civil, dessa forma redefinindo as          dos cientistas sociais.
fronteiras da poltica institucional (Claus Offe);      Da, os movimentos sociais so conceituali-
oferecendo, atravs de sua prpria existncia,       zados como agentes sociais envolvidos em um
um modo diferente de designar o mundo e              conflito pelo controle social dos principais pa-
desafiar os cdigos culturais predominantes so-      dres sociais, que so conhecimento, inves-
bre bases simblicas (Alberto Melucci); crian-       timento e tica. Trs componente, I (identida-
do novas identidades que compreendem exi-            de), O (oponente), T (totalidade), fornecem o
gncias inegociveis (Jean L. Chen); expres-         paradigma que descreve analiticamente o cam-
sando processos de aprendizado coletivo evo-         po de conflito, que  portanto compreendido em
lutivo (Klaus Eder); constituindo novas arti-        termos relacionais. Vale dizer que os advers-
culaes sociais que cristalizam novas expe-         rios que se opem entre si (I-O) partilham, no
rincias e problemas em comum, na esteira de         obstante, um campo cultural comum, consistin-
uma desintegrao geral da experincia basea-        do no que est em jogo em seu conflito (T). Em
da na classe econmica (Ulrich Beck). O sig-         outras palavras, o conflito social no deve ser
nificado geral que as formulaes acima con-         separado das orientaes culturais na anlise de
ferem aos novos movimentos sociais  que eles        movimentos sociais.
ganharam maior conscincia de sua capacidade            Alm do mais,  necessrio diferenciar entre
de produzir novos significados e novas formas        variados tipos de conflitos sociais e coloc-los
                                                                                   mudana social    503


em diferentes nveis de anlise. Movimentos             tsia moderna que se sentiram deslocados com a
que defendem exigncias econmicas agem em              chegada de uma era de alfabetizao macia: a
um nvel organizacional: grupos de presso po-          perda de prestgio resultante estimulou aspira-
ltica e movimentos em defesa de minorias               es romnticas e ingnuas por vrios tipos de
agem em um nvel poltico; o nvel mais eleva-          estabilidade comunitria.
do  o de sistema de ao histrica, no qual os             A maioria dos trabalhos na rea de mudana
movimentos sociais agem tanto contestando               social tem buscado explicar as causas, a natu-
quanto criando padres culturais. A ao his-           reza e o rumo da mudana social.  possvel
trica, ou historicidade,  ento a capacidade          conseguir alguma indicao dos debates mais
das sociedades de desenvolver e alterar suas            importantes, examinando-se primeiro os teri-
prprias orientaes, de gerar sua normativida-         cos fundamentais do sculo XX, em seguida os
de e seus objetivos por meio de um conflito             avanos tericos recentes e finalmente (e o mais
social central, do qual os movimentos sociais           crucial) a mudana social fora do mundo indus-
so a principal expresso (Touraine, 1981). Um          trial avanado.
mtodo especfico de interveno sociolgica                Muitos conceitos de mudana social tm
foi desenvolvido para avaliar esses diferentes          sido apresentados durante o sculo XX: a aten-
significados que so sempre combinados em               o dirige-se, variadamente,  aculturao, 
um movimento emprico concreto e para cal-              difuso,  inovao tecnolgica,  DEMOGRAFIA
cular at que ponto um dado movimento pode              e  MIGRAO como causas fundamentais de
ser considerado um movimento social definido            mudana social. Alguns desses elementos sem
nos termos acima.                                       dvida fazem sentido, sendo impossvel, por
Leitura sugerida: Boschi, R. 1988: A arte da associa-
                                                        exemplo, compreender a criao de Israel sem
o  Hobsbawm, E.J. 1959: Primitive Rebels  Nel-        se considerar o fenmeno da migrao, ou pre-
kin, Dorothy e Pollak, Michael 1981: The Atom Besie-    ver o seu futuro sem dar ateno s taxas dife-
ged  Oberschall, Anthony 1973: Social Conflict and      renciais de fertilidade. No obstante, o conceito
Social Movements  Scott, Alan 1990: Ideology and the    de mudana social  mais bem abordado quando
New Social Movements  "Social movements". Social        se examina, em ordem cronolgica aproximada,
Research 52 (1985), 660-890  Tilly, C. 1978: From
                                                        um punhado de teorias gerais importantes.
Mobilization to Revolution  Touraine, Alain 1984: Le
retour de l'acteur  Turner, R. H. e Killian, M. 1957:       O estudo da mudana social foi, e provavel-
Collective Behavior  Zald, Mayer N. e McCarthy,         mente continua sendo, dominado por pressu-
John D., orgs. 1979: The Dynamics of Social Move-       postos evolucionistas. Isso no  de surpreen-
ments.                                                  der, dado que boa parte do pensamento moder-
                                   KARIN D. RENON       no ainda tem sua semente no Iluminismo. No
                                                        liberalismo otimista de pensadores como L.T.
mudana social O sculo XX tem assistido                Hobbhouse e J.A. Hobson, o curso da evoluo
a uma mudana social macia e no surpreende            social garantiria a paz, a prosperidade e a difu-
descobrir que esse conceito vem denominando             so da racionalidade. Essas esperanas foram
boa parte da moderna investigao social. Hou-          gravemente contundidas pelos conflitos geopo-
ve certa ambivalncia no modo como a mudan-             lticos do perodo de 1914 a 1945. Em contraste,
a foi encarada. No fundo das mentes da maio-           as idias marxistas (que partilham grande parte
ria dos tericos, por um lado, estava a expanso        das esperanas liberais, com a exceo crucial
prometica de poder coletivo do sculo XIX,             de presumir que paz e prosperidade s se se-
ocasionada pela Revoluo Industrial; isso le-          guem em conjuno com o modo socialista de
vou  suposio implcita de que mudana               produo) ganharam mais crdito durante a
"bom" e at natural, de tal forma que as ordens         primeira metade do sculo XX, especialmente
sociais que no a permitem so vistas como, de          quando perodos de crise econmica pareciam
certa forma, "falhas". Mas houve por outro lado         indicar que a Unio Sovitica podia ser capaz
um nmero considervel de tericos que duvi-            de promover uma prosperidade que escapava ao
daram das virtudes da mudana, em grande                capitalismo. O marxismo, de qualquer forma,
parte porque a estabilidade bem-firmada  um            tem uma vantagem sobre a maioria das teorias
valor igualmente apreciado e que tambm vale            evolucionistas, uma vez que pode especificar o
a pena defender. Esse ponto de vista teve um            mecanismo, o do conflito de classes, por meio
apelo particular para os membros da intelligen-         do qual ocorre a mudana social. Os anos do
504   mudana tecnolgica


entre-guerras tambm testemunharam o sur-          constitui a agenda dos estudos de mudana
gimento de outra grande fora revolucionria,      social no presente momento.
o fascismo. Em princpio, essa teoria, especial-       A mudana social fora do continente euro-
mente na obra de Oswald Spengler, opunha-se        peu e seus rebentos culturais, isto , a busca por
 mudana social -- ou, mais precisamente,         parte de pases do Terceiro Mundo, especial-
encarava toda mudana como meramente ccli-        mente desde 1945, do desenvolvimento e da
ca, sem contribuio desenvolvimentista. Na        segurana,  de importncia histrica mundial
prtica, no entanto, o fascismo era um moder-      inquestionada. A fundao de tais pases foi
nismo reacionrio, buscando combinar a cer-        resultado do nacionalismo, provavelmente a
teza ideolgica pr-industrial com a tecnologia    mais notvel fora de mudana isolada no s-
moderna. Foi uma mistura poderosa e instvel.      culo XX, ainda que a notvel manuteno das
    A vida intelectual depende de eventos geo-     fronteiras estabelecidas em 1945 seja resultado
polticos. Depois de 1945, o estudo da mudana     tanto do impasse das superpotncias quanto do
social foi dominado por categorias norte-ame-      acordo generalizado no tocante  norma de
ricanas e marxistas. O pensamento norte-ame-       no-interveno. Tem havido muitas discus-
ricano, conforme exemplificado por Talcott         ses quanto a se as economias avanadas con-
Parsons, dava espao para a reforma incremen-      trolam o Terceiro Mundo atravs de meios eco-
tadora, mas tinha pouco a dizer a respeito da      nmicos informais. Que essa "teoria da depen-
mudana social fundamental (embora muito a         dncia" no pode ser verdadeira em nenhum
desaprovar quanto a ela). Isso levou ao sur-       sentido completo  algo que fica claro dada a
gimento de vrias sociologias de conflito, mui-    notvel ascenso do industrialismo no Leste
tas vezes influenciadas por Marx, porm, de        Asitico. Mas existe muita verdade nessa viso
maneira mais geral, em dvida com a obra de        geral precisamente porque to poucos pases
                                                   escaparam  DEPENDNCIA: as excees, cujas
Max Weber. No entanto a estabilidade da era do
                                                   extraordinrias credenciais sociais esto sendo
ps-guerra significou no haver nenhum grande
                                                   agora investigadas, confirmam a regra. No
avano no estudo da mudana social.
                                                   obstante, a fraqueza econmica da maior parte
    Hoje em dia esto sendo feitos avanos con-    dos estados do Terceiro Mundo no significa
ceituais. O primeiro diz respeito ao impacto das   que eles no venham a efetuar a mudana social
foras polticas. A mudana social nem sempre,     em grande escala. Tais pases em breve pos-
como presumem tanto os evolucionistas libe-        suiro armas nucleares; isso fatalmente influen-
rais quanto os marxistas, emana de condies       ciar os arranjos econmicos.
scio-econmicas: antes, os eventos polticos
so capazes de forar a sociedade a mudar.         Leitura sugerida: Collins, Randall 1975: Conflict So-
Assim, a derrota geopoltica na guerra levou      ciology  Gellner, E. 1983: Nations and Nationalism
                                                    Hoffer, E. 1963: The Ordeal of Change  Mann, M.
democratizao tanto da Alemanha quanto do         1986: The Sources of Social Power. Vol.1, A History of
Japo. De maneira mais geral, estamos come-        Power from the Beginning to 1760 AD  Smith, A.D.
ando a compreender que o carter dos movi-        1973: The Concept of Social Change.
mentos sociais em geral resulta do regime com                                             JOHN A. HALL
que esto em contato: existem poucas revolu-
es dentro do capitalismo, mas as que existem,    mudana tecnolgica A alterao experi-
seja em circunstncias agrrias ou industriais,    mental do meio ambiente atravs da soluo
parecem causadas pela excluso poltica. O se-     cientfica de problemas sempre fez parte do
gundo avano diz respeito ao capitalismo. A        esforo humano. Mas o mbito, a taxa e a
maior parte do pensamento social foi produzida     difuso de mudana tecnolgica tm sido to
em oposio  economia poltica e buscou ul-       impressionantes no sculo XX (particularmen-
trapass-la. Mas a velocidade da mudana den-      te nas reas do bem-estar, da engenharia civil,
tro do capitalismo e a extenso do seu alcance     dos transportes, da comunicao e da medicina)
social so sempre e cada vez mais surpreenden-     que alguns autores propuseram teorias distintas
tes. As relaes entre sociedade capitalista e     para explicar e avaliar esse tipo particular de
estado-naes -- estes ltimos, de forma cru-      alterao. Um elemento predominante nessas
cial, tendo de descobrir um modo de viver          teorias  o determinismo tecnolgico. O deter-
dentro da sociedade mais ampla da primeira --      minismo tecnolgico afirma que a mudana
                                                                                          msica     505


tecnolgica explica mudanas na cultura, na          assegurar a melhoria da sade. A mudana tec-
poltica e na economia. Uma verso modificada        nolgica conhecida como progresso foi um
dessa teoria  o interacionismo tecnolgico, o       pressuposto de pensadores do sculo XIX como
qual afirma que h uma relao mtua entre           Saint-Simon e Marx, e  um axioma para figu-
mudana tecnolgica e social. Thorstein Ve-          ras to diversas quanto V.I. Lenin, Frederick
blen, por exemplo, afirmou que a mudana             Taylor, Le Corbusier e B.F. Skinnner, no sculo
tecnolgica  modificada e restringida por cren-     XX. Um grupo um tanto diferente de defensores
as e estruturas sociais (defasagem cultural).       da mudana tecnolgica enfatiza os aspectos
Quando, porm, uma inovao ou inveno             positivos de algumas mudanas tecnolgicas,
introduzida em uma outra sociedade, ela se v        chamadas variadamente de "tecnologia dos po-
livre de restries culturais e altera outras ins-   vos", "tecnologia soft" ou "tecnologia inter-
tituies e prticas (Veblen, 1914, p.135).          mediria". Esses autores, entre os quais se in-
    Os autores que aceitaram uma ou outra des-       cluem Marshall McLuhan, E.F. Schumacher e
sas teorias tendem a se dividir em dois grupos,      Buckminster Fuller, apiam a introduo e o
na sua avaliao do mrito da mudana tecno-         desenvolvimento de mudanas tecnolgicas
lgica. Uma posio questiona o valor dessas         que permitam um uso pessoal e inesperada-
mudanas a partir de um padro utilitrio ou         mente criativo (tais como rdios transistoriza-
moral. Um dos crticos mais severos da mudan-        dos e computadores pessoais), e afirmam que a
a tecnolgica foi o filsofo alemo Martin          mudana tecnolgica adequadamente direcio-
Heidegger, que traou uma ntida distino en-       nada pode concretizar as vises democrticas e
tre a natureza da mudana tecnolgica antiga e       utpicas de Gandhi e Jefferson.
medieval, por um lado, e a moderna, por outro.          Ver tambm INFORMAO, TEORIA E TECNO-
A caracterstica central desta ltima era a trans-   LOGIA DA; INVENO; REVOLUO CIENTFICO-TEC-
formao do mundo inteiro em um objeto de            NOLGICA.
"reserva disponvel" para manipulao, em que
os seres humanos so eles prprios "enquadra-        Leitura sugerida: Boorstin, Daniel 1978: The Repu-
                                                     blic of Technology  Ellul, Jacques 1954 (1965): The
dos" em um sistema (Heidegger, 1954). Assim,         Technological Society  Hughes, Thomas A. 1989:
para Heidegger, o Reno  transformado, sob           American Genesis: A Century of Invention and Techno-
imperativos tecnolgicos modernos, de paisa-         logical Enthusiasm  Mumford, Lewis 1934 (1963):
gem em fonte de energia. Outros autores tam-         Technics and Civilization  1967: The Myth of the Ma-
bm enfatizaram a natureza autnoma e isolada        chine  Teich, Albert H., org. 1977: Technology and
dos sistemas tecnolgicos (como colees de          Man's Future.
laboratrios de pesquisas pblicos e privados),                                         PHILLIP ABBOTT
que criam incessantemente, mudana aps mu-
dana, sem levar em considerao as conse-           mundo, sistema- Ver SISTEMA-MUNDO.
qncias. Os crticos, assim, enfatizam os efei-
tos inesperados da mudana tecnolgica, es-          msica Ao mesmo tempo em que a relao
pecialmente em termos do meio ambiente na-           entre a msica e a sociedade foi estudada por
tural, do dano negligenciado, por exemplo, das       musiclogos, etnomusiclogos e socilogos, o
doenas iatrognicas, do impacto psicolgico e       progresso nessas trs abordagens foi, em maior
cultural de uma mudana rpida e constante, do       ou menor extenso, fragmentrio e caracteriza-
uso da especializao tecnolgica como fonte         do por problemas tericos fundamentais.
de isolamento da avaliao e do controle demo-           A musicologia e a anlise musical, concen-
crticos. Alguns pedem a dissoluo dos sis-         trando-se no estudo da msica erudita ociden-
temas tecnolgicos, alm de medidas para inter-      tal, foram orientadas para a explicao das pro-
romper a mudana tecnolgica (Berry, 1977).          priedades formais inerentes  obra musical. Es-
    Avaliaes mais positivas enfatizam a natu-      sa preocupao com a estrutura levou a uma
reza racional da mudana tecnolgica e seu           concepo da obra musical como divorciada de
impacto libertador. Livre das restries da cul-     seu contexto social ou cultural. Conseqen-
tura e da tradio, a produo econmica pode        temente, o pesquisador social deve estabelecer
ser organizada de forma mais racional e eficien-     algum elo explicativo ou analtico entre as es-
te, aliviando assim a pobreza e proporcionando       truturas musicais e a sociedade ou redefinir e
oportunidades mais amplos de lazer, alm de          marginalizar, o conceito da msica autnoma.
506   msica


    O estudo histrico da msica tem sido in-        tramusicais que ocorrem na presena da msica
fluenciado pelo formalismo da musicologia. A         ou que determinam sua produo, consumo e
msica  apreendida atravs de um desenvol-          distribuio. A msica em si mesma no  nem
vimento estilstico, de tal forma que a obra de      explicada nem interpretada.
qualquer dado perodo  compreendida em ter-             Um compromisso com o formalismo ocorre
mos de um estilo que est formalmente relacio-       de forma mais profunda, embora no exclusiva,
nado ao estilo do perodo anterior, o qual desen-    na obra de Max Weber e Theodor Adorno.
volve logicamente. A referncia  histria social    Weber utilizou a msica para ilustrar e explorar
diz respeito apenas s condies ambientais em       as limitaes da RACIONALIZAO. O sistema
que ocorreu a criao musical, com pouca ou          musical de uma dada cultura  examinado em
nenhuma considerao para com qualquer elo           termos do grau em que ele manifesta uma ra-
explicativo entre a sociedade e o produto musi-      cionalizao dos fenmenos musicais naturais.
cal. S recentemente houve uma mudana sig-          Adorno, de forma semelhante, rompeu com a
nificativa de nfase, afastando-se do formalis-      abordagem formalista, apontando que a msica
mo e voltando-se para a considerao da msica       tanto  autnoma quanto  um fato social. O
dentro de uma "teia de cultura" (Tomlinson,          desenvolvimento aparentemente autnomo da
1984). A histria social da msica  encarada        msica, mapeado pela histria musical ortodo-
cada vez mais em termos do objetivo de recupe-       xa,  sociologicamente decodificado atravs do
rar o significado de uma dada pea musical por       reconhecimento da base social dos materiais e
meio da considerao dos valores culturalmente       formas de pensamento que a msica utiliza,
especficos que lhe informaram a produo, o         ainda que esta manifeste um desenvolvimento
consumo e a disseminao. Se a anlise formal        desse material autonomamente dos objetivos
no  abandonada, a nfase muda para o reco-         econmicos abrangentes da sociedade capita-
nhecimento dos valores e significados atribu-       lista.
dos  msica em uma CULTURA especfica.                  A FENOMENOLOGIA, a SEMITICA e o ESTRUTU-
    A etnomusicologia divide-se entre inclina-       RALISMO tm exercido uma crescente influncia
es mais ou menos explcitas pela musicolo-         sobre a sociologia da msica, permitindo an-
gia, e como tal pela anlise da estrutura inerente   lises mais sofisticadas do significado social, em
das msicas no-ocidentais, e pela antropolo-        termos de sua construo social dentro de situa-
gia, e assim pela considerao da msica dentro      es especficas, e de sua determinao atravs
de seu contexto cultural. Essa ltima aborda-        de cdigos culturalmente especficos.
gem levou a se desafiar a universalidade das             Mais recentemente lanou-se um ataque
concepes ocidentais da msica. De uma preo-        mais organizado contra os pressupostos da mu-
cupao inicial com a comparao de msica           sicologia tradicional. Direta ou indiretamente,
de diferentes culturas, apresentaram-se explica-     a etnomusicologia e a sociologia levaram a um
es cada vez mais sofisticadas em termos dos        novo questionamento, dentro da musicologia,
usos a que a msica  submetida por grupos, e        do pressuposto da autonomia esttica da obra
das funes que exerce para a sociedade como         musical. A msica  cada vez mais vista como
um todo. Mais recentemente, e em harmonia            produzida e definida dentro de um contexto
com os desenvolvimentos na histria social, a        social, indicando que as noes de "autonomia"
msica tem sido interpretada como parte inte-        no passam de construes ideolgicas.
grante de uma cultura simbolicamente expres-
sa. Ampliou-se, portanto, o mbito para a in-        Leitura sugerida: Adorno, Theodor W. 1976: Intro-
terpretao da msica, em oposio  sua ex-         duction to the Sociology of Music  Frith, S. 1978: The
plicao causal ou funcional.                        Sociology of Rock  Leppert, R. e McClary. S., orgs.
                                                     1987: Music and Society: the Politics of Composition,
    A sociologia da msica tem se inclinado a        Performance and Reception  Nattiez, J.J. 1983: Chro-
se preocupar com uma documentao positi-            nologie et dialogue sur la musique  Nettl, B. 1983: The
vista das condies sociais da atividade musi-       Study of Ethnomusicology  Supicic, I. 1987: Music in
cal. Nesse ponto, a definio formalista de m-      Society: a Guide to the Sociology of Music  Weber,
sica  mais ignorada do que contestada. No que       Max 1958: The Rational and Social Foundations of
tem de mais fraco, a preocupao se d ex-           Music.
clusivamente com os fenmenos sociais ex-                                                 ANDREW EDGAR
                                             N
nao No h, e provavelmente no pode                   das e avalizadas por seus membros podem s
haver, uma definio universalmente unnime,             vezes ser chamadas de naes, mesmo quando
neutra, por assim dizer, para este termo. A na-          multiculturais:  natural falar da nao sua,
tureza inerentemente contestada da definio            apesar das diferenas lingstico-culturais den-
conseqncia da natureza complexa, complica-             tro dela ou da presena, no interior da sociedade
da mesmo, da matria-prima a que o termo                 organizada, de subgrupos politicamente signi-
se aplica. A humanidade subdivide-se em mui-             ficativos, os "cantes".
tas e diversas culturas (grupos que se diferen-              Da mesma forma, no corresponderia  efe-
ciam por linguagem, costumes, f e assim por             tiva utilizao que se faz aceitar que qualquer
diante), e em diversas unidades polticas (gru-          diferenciao cultural dada defina uma nao.
pos comprometidos com a ajuda mtua, divi-               Os dialetos rabes divergem ao ponto da inin-
dindo uma estrutura de autoridade e assim por            teligibilidade mtua, mas isso, por si s, nem
diante). Nem as fronteiras culturais nem as po-          prejudica a idia de uma nao rabe nem trans-
lticas so em geral ntidas; traos culturais           forma automaticamente os que falam um diale-
como linguagem, devoo religiosa ou costume             to caracterizvel em uma nao. Qual , ento,
popular freqentemente se entrecruzam. As ju-            a resposta?
risdies polticas podem constituir-se em ml-              Em tempos pr-modernos essa pergunta era
tiplas camadas, de forma que a obedincia a              no apenas desprovida de uma resposta geral,
uma autoridade local em alguns contextos pode            mas -- o que  mais significativo -- raramente
coexistir, para outros fins, com a submisso a           feita. Os seres humanos eram membros de gru-
uma autoridade superior mais geral. As frontei-          pos de parentesco, ou de organizaes locais,
ras polticas e culturais raramente so conver-          sditos de dinastias, adeptos de tipos de f em
gentes.                                                  geral ligados a uma legitimao poltica, mem-
     impossvel aplicar o termo "nao" a todas         bros de estratos sociais ritual ou juridicamente
as unidades que so cultural ou politicamente            definidos, e assim por diante. A identificao
caracterizveis, e existe muito pouco interesse          cultural e a lealdade poltica eram complexas e
em faz-lo. Se fosse esse o caso, um nmero ex-          variveis. A pergunta sobre a nao raramente
cessivo de naes e indivduos em demasia                era feita, e s se torna difundida e insistente no
teriam mltiplas identidades nacionais. A ques-          contexto de um tipo especial de organizao
to : quais dos grupamentos cultural ou politi-         sociopoltica que, por sua vez, se tornou difun-
camente caracterizveis so de fato plausivel-           dido a partir da virada do sculo XVIII para o
mente chamados de "naes"?                              XIX.
    A mera existncia de uma unidade poltica                 caracterstico desse tipo de sociedade a
no d origem, na maioria dos casos, ao pres-            substituio de uma base econmica agrria por
suposto de que suas fronteiras definem uma               outra, industrial. As pessoas que trabalham a
nao.  caracterstico que muitas unidades              terra tornam-se minoria, s vezes muito peque-
polticas histricas sejam menores ou maiores            na e, alm disso, j no mais marcadamente di-
do que aquilo que se chama normalmente de                ferencivel do restante da populao. Boa parte
naes: os imprios so multinacionais; as ci-           do trabalho  semntico, envolvendo a manipu-
dades-estados ou segmentos tribais so me-               lao de significados e pessoas, em vez de
nores do que uma nao. No obstante, uni-               objetos fsicos. A mobilidade ocupacional  a
dades polticas que so evidentemente deseja-            norma. Tanto a natureza do trabalho (implican-

                                                   507
508   nacionalismo


do comunicao constante e annima com mui-          Somente o destino histrico, e no algum crit-
tas pessoas, principalmente estranhos) quanto a      rio independente, pode resolver essa questo.
natureza de todo o contato social pressupem a           A palavra "nao" ocorre efetivamente em
alfabetizao quase universal e uma boa pro-         contextos pr-modernos, descrevendo, por
poro de educao formal. Tal educao deixa        exemplo, corporaes de estudantes, com bases
de ser um privilgio e se torna, em vez disso,       regionais, nas universidades medievais, ou a
a precondio da efetividade, aceitabilidade         totalidade da pequena nobreza em uma dada
e utilidade sociais. Nessas circunstncias, uma      unidade poltica (Polnia). Mas, no interesse
cultura comum a todos e padronizada, baseada         da ordem lgica,  melhor restringir o termo
na educao, torna-se efetivamente o principal       ao fenmeno moderno de uma ampla popula-
critrio de identidade social; um dos princi-        o annima tanto compartilhando uma cultura
pais papis do estado  a manuteno e a prote-      erudita quanto dotada da tendncia de possuir
o de tal cultura. Os seres humanos identifi-       uma nica autoridade poltica (embora s vezes
cam-se com sua cultura erudita, e os estados         um ou outro desses dois elementos possa pre-
protegem tais culturas. O estado, por sua vez,      dominar). Essa definio no pode proporcio-
legitimado ao dar proteo a uma cultura nacio-      nar-nos a capacidade de dizer, antes do fato,
nal, e os smbolos que ele basicamente emprega       exatamente que grupamentos pr-modernos te-
so mais nacionais do que dinsticos ou religio-     ro ou no sucesso em se tornar naes. Os
sos.                                                 nacionalistas, imbudos de um forte senso da
    Nesse tipo de mundo, uma "nao"  uma           justia de sua causa, tendem a achar que sua
populao ampla, annima, que tanto partilha         cultura realmente, "objetivamente", define
uma CULTURA comum quanto tem, ou aspira a            uma nao (ver NACIONALISMO): mas essa idia
ter, seu prprio espao poltico (ver tambm         engendra a realidade histrica da nao, em vez
ESTADO). A identidade "nacional" torna-se preo-      de ser, como supe o nacionalista, seu reflexo.
cupao geral e critrio de legitimidade polti-
                                                     Leitura sugerida: Armstrong, John 1982: Nations be-
ca. Tanto o critrio exterior de uma cultura         fore Nationalism  Bauer, Otto 1907 (1924): Die Natio-
compartilhada quanto o critrio subjetivo da         nalittenfrage und die Sozialdemokratie, 2ed. ampl.
vontade poltica esto presentes nessa defi-         com novo prefcio  Gellner, E. 1983: Nations and
nio, embora seu peso relativo possa variar.        Nationalism  Smith, A.D. 1991: National Identity.
Os suos, conforme j observado, definem-se                                           ERNEST GELLNER
mais por uma tendncia compartilhada do que
por uma cultura: o mesmo critrio tambm             nacionalismo Essa doutrina exige que o gru-
transforma em escoceses os habitantes das Ter-       po poltico e o grupo tnico sejam congruentes.
ras Altas da Esccia, de lngua galica, no         De forma mais especfica e concreta, o nacio-
obstante sua peculiaridade lingstica.              nalismo sustenta que o estado nacional, identi-
    As aplicaes dessa definio continuam          ficado como uma cultura nacional e comprome-
polmicas. As discordncias no so por falha        tido com a sua proteo,  a unidade poltica
da definio, mas inerentes  situao. A ques-      natural; e que  um escndalo que grandes
to  que, no caminho para a fundao de es-         nmeros de membros da comunidade nacional
tados-naes, cada qual proporcionando um es-        sejam obrigados a viver fora das fronteiras do
pao poltico isolado para uma cultura comum         estado nacional. O nacionalismo tambm no
isolada, ocorrem conflitos, em geral de enorme       se mostra muito bem-disposto para com a pre-
gravidade, com respeito a exatamente quais           sena, dentro das fronteiras do estado-nao, de
culturas preexistentes devem ter direito a um        grandes nmeros de no-nacionais. Mas a situa-
estado, ou quais unidades polticas preexisten-      o poltica que escandaliza de maneira muito
tes devem ter direito a uma cultura como sua         especial os nacionalistas  aquela em que o
proteo e sua raison d'tre. Se de um pon-          estrato governante de uma unidade poltica per-
to de vista terico  essencial distinguir entre     tence a um grupo tnico outro que no o da
"naes" modernas, por um lado, e "meras"            maioria da populao (ver tambm NAO).
tribos, castas, dialetos, minorias religiosas, por       O princpio do nacionalismo, conforme aqui
outro, isso no nos diz quais dessas mltiplas       esboado,  sustentado muito amplamente e, o
diferenciaes pr-modernas devem ter per-           que  ainda mais comum, dado como certo no
misso de se transformar em nao moderna.           mundo moderno. Para uma proporo muito
                                                                                nacionalismo    509


grande de nossos contemporneos, parece sim-             se ressentir de sua proximidade (espe-
plesmente bvio e auto-evidente que as pessoas           cialmente em grandes nmeros) e ainda
prefiram viver em unidades polticas com com-            mais fortemente do governo de estran-
panheiros da mesma "nacionalidade" ou cultu-             geiros. O redespertar desses impulsos
ra e, acima de tudo, que achem o governo por             pode ser atribudo a vrias causas, tais
parte de estrangeiros uma coisa afrontosa. A             como o declnio da f religiosa, as des-
unidade nacional e poltica  aquela que repre-          agregaes da vida moderna ou uma ten-
senta e expressa a vontade da maioria de uma             dncia geral ao retorno a uma viso "na-
nao, protege seus interesses e garante a per-          turalista" dos seres humanos.
petuao de sua cultura.                            2.   O impacto do nacionalismo deve-se 
    Sob o impacto do nacionalismo, o mapa                formulao e disseminao da ideologia
tanto etnogrfico quanto poltico da Europa e,           nacionalista, elaborada por vrios pensa-
de forma diferente, o do resto do mundo vieram           dores na virada do sculo XVIII para o
a ser redesenhados. Os princpios que haviam             XIX, em seguida ainda mais elaborada e
governado o traado do mapa da Europa em                 posteriormente disseminada. O principal
1815, depois das guerras napolenicas, eram              proponente desta teoria  Elie Kedourie.
dinsticos ou religiosos: pouca ateno se dava,    3.   Uma teoria sustentada por muitos mar-
se  que se dava alguma, a harmonizar a nacio-           xistas, no sentido de que o verdadeiro
nalidade de sditos e governantes. Em muitas             conflito subjacente  histria ocorre entre
partes da Europa, isso teria sido, de qualquer           classes, de forma que o conflito intert-
forma, impossvel: o mapa tnico de boa parte            nico  uma irrelevncia; apesar disso,
do continente era extremamente complexo, e               ganha importncia porque as classes do-
implementar os princpios nacionalistas para             minantes estimulam o sentimento nacio-
respeit-lo teria exigido que o mapa poltico            nalista a fim de distrair a ateno da-
se parecesse com um quebra-cabea de ar-                 queles a quem dominam dos seus verda-
mar. Alm do mais, era em geral impossvel               deiros interesses. O nacionalismo  uma
projetar as fronteiras tnicas em um mapa                conspirao para impedir os oprimidos
territorial: os grupos tnicos, culturais e reli-        de combater seus reais inimigos. (Mas
giosos estavam freqentemente separados                  ver tambm Bauer, 1907.)
no por territrio, mas por sua posio em          4.   O nacionalismo surge no decorrer do
uma estrutura social. Em geral habitavam o               "desenvolvimento" econmico, isto ,
mesmo territrio, mas o seu papel na socie-              durante a difuso do industrialismo, in-
dade era diferente.                                      terpretando-se essa palavra amplamente
                                                         como uma economia baseada em uma
     importante observar que os estilos de tra-
                                                         tecnologia muito possante e de rpido
ar fronteiras polticas que respeitavam elos
                                                         crescimento. A difuso de tal economia
dinsticos, religiosos ou de comunidade, mas
                                                         leva a que reas "atrasadas" e suas popu-
que ignoravam o princpio da nacionalidade,
                                                         laes sejam incorporadas  economia
eram naquela poca e nas pocas anteriores               industrial em termos desvantajosos para
considerados bvios. Raramente eram contes-              elas, tanto econmica quanto socialmen-
tados ou considerados afrontosos. Coloca-se a            te. A fim de se proteger, precisam orga-
questo do motivo por que um princpio, antes            nizar-se com vistas a criar suas prprias
amplamente ignorado ou fraco, veio, no decor-            unidades polticas, unidades essas capa-
rer dos sculos XIX e XX, a se tornar to                zes de orientar seu desenvolvimento eco-
absolutamente forte e efetivo. Propuseram-se             nmico, especialmente durante seus pri-
inmeras respostas para essa pergunta impor-             meiros e mais frgeis estgios.
tante e crucial:                                    5.   O nacionalismo  um subproduto de con-
    1. Existe nos seres humanos um impulso               dies predominantes no mundo moder-
       instintivo atvico que os leva a querer           no, quando a maioria das pessoas no
       estar perto de outros do mesmo "sangue"           mais vive em comunidades aldes fecha-
       ou cultura (ou ambos) e a ocupar ter-             das, quando o trabalho  semntico, e no
       ritrio juntos, e que tambm os leva a            fsico, e exige a capacidade de se comu-
       detestar os que consideram estranhos, a           nicar em um idioma e uma escrita co-
510   nacionalizao


       muns, razoavelmente livres de contexto,          No entanto a questo no est de forma
       quando a estrutura empregatcia muda          alguma fechada, e os indcios empricos ou
       rapidamente e no pode tolerar com fa-        histricos so mais do que ambguos. As teorias
       cilidade uma diviso tnica do trabalho,      preferidas por este autor aplicam-se melhor 
       e quando o contato com grandes burocra-       Europa do que a grande parte do Terceiro Mun-
       cias, tanto polticas quanto econmicas,      do, onde o nacionalismo certamente levou a um
       e a dependncia em relao a elas per-        forte movimento anticolonial (ver MOVIMENTO
       meiam todos os aspectos da vida. Nessas       DE LIBERTAO COLONIAL; NACIONAL POPULAR,
       condies, a alfabetizao geral e o uso      REGIME), mas onde posteriormente as fronteiras
       de cdigos padronizados tornam-se a           coloniais foram, em medida notvel, perpetua-
       norma. O domnio de tal cdigo por uma        das e mantidas. Sociedades organizadas, plurais
       pessoa torna-se seu trunfo mais impor-        e multitnicas tambm sobreviveram, tal como
       tante e tambm seu mais importante            sobreviveu uma proliferao de estados parti-
       meio de acesso ao emprego,  participa-       lhando a mesma cultura (estados rabes e his-
       o social e poltica,  aceitabilidade e    pano-americanos). A ligao da proeminncia
       dignidade. Somente o estado pode prote-       poltica da nacionalidade com a era industrial
       ger e manter a homogeneidade cultural         tambm foi contestada, por exemplo, por um
       exigida, e o princpio um estado, uma         dos mais ativos e srios estudiosos do naciona-
       cultura tende a entrar em funcionamento.      lismo, Anthony Smith.
       Torna-se ento de grande interesse para       Leitura sugerida: Anderson, Benedict 1983: Imagined
       qualquer indivduo que o estado em cujo       Communities: Reflections on the Origin and Spread
       territrio esse indivduo reside use a mes-   of Nationalism  Armstrong, John 1982: Nations be-
       ma cultura em que o indivduo em ques-        fore Nationalism  Breuilly, J. 1982: Nationalism and
                                                     the State  Deutsch, K.W. 1966: Nationalism and So-
       to est engajado. Os indivduos se esfor-    cial Communication, 2ed.  Hobsbawm, E.J. 1990:
       aro para que se alcance essa congrun-      Nations and Nationalism since 1780  Kedourie, Elie
       cia, seja assimilando-se  cultura domi-      1960: Nationalism  Kohn, H. 1962: The Age of Natio-
       nante, seja tentando transformar a sua        nalism  Renan, Ernest 1945: "Qu'est-ce qu'une na-
       prpria cultura na cultura dominante.         tion". In Ernest Renan et l'Allemagne, org. por mile
                                                     Bure  Seton-Watson, Hugh 1977: Nations and States
       Ho de se esforar por criar novos es-         Smith, A.D. 1971: Theories of Nationalism  1979:
       tados em torno dessa cultura preferida        Nationalist Movements in the Twentieth Century
       e/ou modificar as fronteiras polticas         1991: National Identity.
       existentes.                                                                     ERNEST GELLNER
   Este autor inclina-se a acreditar que a ver-
dade da questo pode ser encontrada em uma           nacionalizao        Ver SOCIALIZAO.
combinao das posies (4) e (5). A objeo        nacional popular, regime Um sistema de
teoria "atvica"  que os obscuros impulsos          governo que extrai sua legitimidade de afir-
instintivos dos seres humanos, por mais pode-        maes de apoio popular de massa e da defesa
rosos que sejam, no impediram no passa-             dos interesses nacionais, ao mesmo tempo que
do uma intensidade de dio e homicdio entre         no segue com extrema rigidez as regras da
membros do mesmo "sangue" ou do mesmos               democracia liberal, pode ser considerado um
grupos culturais. No h um bom motivo para          regime nacional popular. Pases em processo de
se acreditar que o apelo do Blut und Boden           desenvolvimento, na maior parte da sia, fri-
("sangue e terra") se tenha tornado mais pos-        ca e Amrica Latina, como tambm foi o caso
sante em nossa poca. A explicao "ideolgi-        da Europa Ocidental antes da Segunda Guerra
ca" no consegue explicar por que exatamente         Mundial, esto especialmente sujeitos a esse
essas idias, em uma poca de superproduo          tipo de governo. Suas origens podem ser basi-
de idias, teriam mais apelo que suas rivais,        camente de dois tipos. Em alguns casos, sis-
estas ltimas em geral difundidas por pensa-         temas polticos conservadores ou sob domnio
dores e autores mais zelosos e talentosos. Algu-     estrangeiro so derrubados por um golpe vio-
mas teorias marxistas sobre o nacionalismo           lento promovido por setores alienados da elite
como manobra ardilosa das classes dominantes         -- em geral, militares -- que usam o aparelho
parecem ter pouco apoio nos fatos.                   de estado para reorientar as polticas de ao
                                                                     nacional popular, regime   511


econmica e social e conquistam o apoio das         partido dominante foi se tornando cada vez
massas. Em outros casos, os movimentos de           mais conservador, enquanto a oposio, tanto
massa so organizados a partir de baixo e so-       de direita quanto de esquerda, foi crescendo e
mente depois de longo perodo de poltica opo-      se tornando capaz de desafiar o regime. Como
sicionista, seja reformista ou revolucionria,     resultado,  possvel observar tendncias  con-
que tm acesso ao poder.                            solidao de um sistema poltico mais compe-
    No primeiro caso, isto , quando o regime       titivo e livre, a menos que um golpe militar
nacional popular foi instaurado a partir de cima,   interrompa esse processo.
o resultado  em geral de tipo altamente autori-        Na Arglia, o regime estabelecido em 1962
trio, com um acrscimo de manifestaes de         baseou-se em uma bem-sucedida insurreio
massa oficialmente controladas. Muitos pases       nacional que teve de travar prolongada luta
do Oriente Mdio vm seguindo esse padro           contra o colonialismo francs. A conseqente
desde a Segunda Guerra Mundial, o mesmo             legitimidade dos combatentes pela liberdade
tendo acontecido, em menor extenso, com a          deu-lhes amplo crdito por parte das massas e
Turquia desde os tempos de Mustaf Kemal            das novas elites e lhes permitiu estabelecer
Ataturk, nos anos 20. O componente de massa         reformas importantes e elementos de uma eco-
do regime geralmente assume a forma de parti-       nomia socialista. No Ir, a revoluo islmica
do nico oficial. Na Turquia, porm, o regime       fundamentalista de 1979 entronizou uma ver-
acabou gerando um sistema de partidos compe-        so religiosa e altamente belicosa de regime
titivos, em um lento processo de liberalizao      nacional popular, ao que tudo indica bastante
marcado por constantes intervenes militares.      capaz de receber apoio popular contnuo, ainda
     difcil avaliar o grau de apoio popular       que arregimentado.
obtido por regimes nacionais populares, uma             Os regimes nacionais populares, particular-
vez que isso no  testado com veracidade em        mente os que se originam a partir de baixo,
eleies livres. Em geral, esse apoio tambm        podem evoluir em uma direo socialista ou, no
est presente, em particular no incio dos pri-     mnimo, adotar uma fraseologia socialista, na
meiros perodos de consolidao, como resul-        tentativa de conservar o apoio das massas ou
tado de programas nacionalistas, revolucion-       dos setores mdios radicalizados e da intelli-
rios ou radicalmente reformistas e do monop-       gentsia. Alguns regimes socialistas revolucio-
lio ou quase monoplio da comunicao de            nrios, como os de Cuba e, de 1979 a 1990, o
massa. A opinio pblica  em geral polarizada      da Nicargua, subiram ao poder com um padro
por esses programas de ao, e um amplo setor       complexo de apoio social e compartilham al-
das classes anteriormente dominantes  atirado      guns traos dos regimes nacionais populares,
na oposio ou no exlio, enquanto se forma         incluindo o culto da personalidade e a prefern-
uma nova classe dominante, com base na de-          cia pelo sistema de partido nico.
mocracia, nos militares e nos novos capitalistas.       Alguns exemplos de regimes nacionais po-
    No segundo caso considerado, isto , quan-      pulares so uma mistura dos dois tipos polares
do um regime nacional popular tem origem em         antes considerados, os que se originam a partir
insurreies a partir de baixo, a poltica de       de cima e os que se originam a partir de baixo.
massa assume um carter um tanto diferente          Na Argentina, o golpe militar de 1943, com
devido  natureza mais autntica ou espont-        Juan D. Pern como figura de proa, estabeleceu
nea do partido que representa a revoluo. No       um regime com caractersticas nacionais popu-
entanto restries estruturais determinam uma       lares. Forado pela oposio a garantir eleies
convergncia na natureza desses regimes com         livres, o partido poltico formado por Pern
a dos que se originam a partir de cima. No          revalidou suas credenciais de representante das
Mxico, onde se pode considerar que a revolu-       massas. As conseqentes presidncias constitu-
o de 1910 gerou, depois de uns poucos anos        cionais de Pern (1946-55) assistiram a uma
de guerra civil, o primeiro regime nacional         progressiva deteriorao do sistema liberal de-
popular do sculo XX, a formao de um parti-       mocrtico recentemente restabelecido, termi-
do dominante levou quase duas dcadas e foi         nando em um golpe militar em 1955. O pero-
compatvel com a existncia de partidos de          nismo na oposio conservou seu carter de
oposio bem menores. O regime desenvolveu-         partido de massa e desde ento se tornou um
se em uma direo claramente capitalista e o        aspecto permanente do sistema poltico argen-
512    nacional-socialismo


tino. Em outros pases latino-americanos, da               lanam sobre aspectos particulares ou como
mesma forma, governos que tiveram origem a                 incentivos a novas reflexes e anlises. Parece
partir de cima, ou de uma combinao de foras             problemtico hoje em dia saber se o nacional-
civis e militares (como o de Vargas em 1930),              socialismo dos anos 20, tal como desenvolvido,
evoluram rumo a se tornarem a base de partidos            sob a liderana de Adolf Hittler, na Alemanha
populares capazes de manter a sua fora em um              capitalista-industrial, o qual estabeleceu uma
regime democrtico reconstitudo.                          ditadura (1933-45) que trouxe sofrimento a
    Na Europa Oriental, entre as duas guerras              grande parte da humanidade atravs da Segun-
mundiais, vrios governos exibiram as caracte-             da Guerra Mundial e dos programas de exter-
rsticas aqui atribudas aos regimes nacionais             mnio em massa, pode ser classificado sim-
populares, bem como as do fascismo. Os re-                 plesmente sob a categoria geral de fascismo,
gimes nacionais populares ou seus partidos po-             mesmo estando historicamente associado a ele
pulistas associados foram rotulados com fre-               (ver Larsen et al., 1980).
qncia de fascistas.  verdade que em alguns                  Uma das razes do nacional-socialismo na
deles os elementos fascistas esto presentes,              histria europia pode ser encontrada nos esfor-
mas as caractersticas dos dois sistemas so bem           os intelectuais e polticos, mesmo antes da
diversas. No entanto no  provvel que seja               virada do sculo, na Frana e na Europa Central,
coincidncia o fato de os componentes fascistas            no sentido de unir um nacionalismo belicoso a
dos regimes nacionais populares serem maiores              uma poltica de massa na primeira fase de de-
em pases relativamente mais desenvolvidos,                mocratizao, e tambm a concepes socialis-
tais como a Argentina, o Brasil e pases da                tas. Embora esse "novo nacionalismo" ainda
Europa Oriental. A presena de caractersticas             no plenamente realizado por partidos to di-
autoritrias e de mobilizao de massas no               versos quanto o "Partido Social Cristo dos
suficiente para caracterizar um regime como                Operrios", de Adolf Stoecker, em Berlim, ou
fascista, uma vez que esses traos esto pre-              os pan-germnicos de Georg von Schnerer, em
sentes tambm em pases comunistas. Eles es-               Viena, seja em geral assimilado no pensamento
tabelecem na verdade um contraste com a de-                poltico tradicional  extrema direita, ele na
mocracia liberal, mas a experincia latino-ame-            verdade, como o fascismo de maneira genrica,
ricana demonstra que os herdeiros desses re-               escapou a esse esquema de esquerda-direita
gimes podem tornar-se participantes permanen-              (ver O'Sullivan, 1983, caps. 2 e 3). Essa atitude
tes de um processo poltico competitivo, no                ambivalente tambm explica por que persistiu
qual ocupam uma posio mais prxima da                    entre cientistas sociais e historiadores a contro-
esquerda do que da direita.                                vrsia quanto a se o nacional-socialismo devia
    Ver tambm POPULISMO; NACIONALISMO.                    ser encarado como revolucionrio ou reacion-
Leitura sugerida: Almond, Gabriel e Coleman, James
                                                           rio, passadista ou modernizante (ver Prinz e
S., orgs. 1960: The Politics of Developing Areas  Apter,   Zitelmann, 1991), como uma tentativa de alcan-
D.E. 1965: The Politics of Modernization  Dahl, R.A.,      ar a estabilidade social por meios reacionrios
org. 1973: Regimes and Oppositions  Linz, Juan e           ou como uma modernizao "involuntria" da
Stepan, Alfred, orgs. 1978: The Breakdown of Demo-         economia e da sociedade obtida por uma re-
cratic Regimes  O'Donnell, Guillermo, Schmitter,           voluo poltica "conservadora" (ver Schoen-
Phillipe e Whitehead, Lawrence, orgs. 1986: Tran-
                                                           baum, 1966).
sitions from Authoritarian Rule: Prospects for Demo-
cracy.                                                         Em contraste com o fascismo mediterrneo
                               TORCUATO S. DI TELLA        e da Europa Ocidental, o nacional-socialismo
                                                           comeou a partir de uma cultura nacional que
nacional-socialismo A confiana inicial nas                se caracterizava por concepes de uma ascen-
explicaes gerais do nacional-socialismo --               dncia mtica comum, de "sangue e terra", da
como movimento, ideologia e regime poltico                "raa" e do "Volk". Outro elemento essencial foi
-- tem sido minada pelo progresso da pesquisa              o ANTI-SEMITISMO "moderno", baseado em tra-
detalhada e o surgimento de paradigmas "ps-               dies crists. Esses elementos uniram-se de
modernistas". As teorias do hitlerismo, do TO-             modo caracterstico na Alemanha desde a poca
TALITARISMO, do FASCISMO ou o Sonderweg ale-               da unificao nacional "a partir de cima", em
mo (ver Grebing, 1986; Blackbourn e Eley,                 1871. A crena no "Volk" alemo, expressa
1984) hoje parecem teis apenas pela luz que               atravs de monumentos nacionais, festivais p-
                                                                          nacional-socialismo    513


blicos, romances e textos populares e das peras    dores como a formulao principal da ideologia
de Wagner, estabeleceu-se como uma espcie          nacional-socialista. Seus princpios bsicos so
de "religio secular" em muitos setores da so-      a luta pela existncia (ver DARWINISMO SOCIAL),
ciedade alem (ver Mosse, 1964). Essa "ideo-        a crena na superioridade da "raa ariana" e
logia alem" foi comunicada em smbolos e           uma viso elitista dos indivduos. Os principais
formas litrgicas como uma "poltica teatral".      objetivos estabelecidos so a conquista de "es-
Essa foi uma outra e ainda mais importante          pao vital no Leste" e uma radical "remoo dos
fonte do nacional-socialismo, e ao mesmo tem-       judeus" da sociedade, o que na prtica se mis-
po uma precondio para sua difuso quando a        turou  luta contra o "bolchevismo judeu". Di-
sociedade alem se viu sacudida pelas crises        ferentemente dos romnticos rurais do nacio-
econmicas e sociais dos anos do entre-guerras.     nal-socialismo, Richard Darr (1895-1953) e
    Os precursores do nacional-socialismo, tan-     Heinrich Himmler (1900-45), Hitler, que acei-
to no nome quanto na organizao, surgiram          tava a existncia da propriedade privada, embo-
antes de 1918, nas lutas nacionalistas na Bo-      ra desejando-a subordinada a uma "comuni-
mia alem, dentro do imprio multinacional          dade do povo", concebeu a Alemanha futura-
dos Habsburgo (1903 assistiu  fundao do          mente transformada como uma sociedade
Partido Operrio Alemo), e depois da Primei-       altamente industrializada e tecnologicamente
ra Guerra Mundial ressurgiram na ustria, na        avanada (ver Zitelmann, 1987; Kershaw,
Tchecoslovquia e na Alemanha. O movimento          1991, cap.1 e concluso).
nacional-socialista foi a princpio apenas um           Os princpios de uma liderana carismti-
partido dissidente dos operrios "vlkisch" na      ca, da violenta agitao antidemocrtica e "an-
Munique do ps-guerra, mas logo encontrou           timarxista" e de uma poltica paramilitar (o
em Hitler um notvel propagandista e, afinal,       "exrcito privado" das SA e mais tarde a "pol-
um lder miticamente transfigurado. Como Par-       cia particular" das SS) foram aperfeioados
tido Nacional-Socialista dos Trabalhadores          pelo NSDAP depois do fracassado Putsch da
Alemes (NSDAP), adotou, em 1920, um pro-           Cervejaria de Munique, em 1923, embora a
grama no qual pretenses nacionalistas e im-        liderana do partido contivesse muitas tendn-
perialistas radicais, bem como exigncias de        cias combativas "revolucionrias" entre seus
uma reviso da ordem internacional e doms-         membros militantes e evitasse qualquer aparn-
tica do ps-guerra, se uniram a questes anti-      cia de tentativa de tomada inconstitucional do
semticas de longo alcance e a exigncias so-       poder. Os quadros do partido e os que o apoia-
ciais e de classe mdia (tais como a nacionali-     vam nas urnas no incio dos anos 30 davam a
zao dos trustes, a participao no lucro das      impresso de um partido do povo, moderno,
grandes empresas, a comunalizao dos dis-          ainda que assimtrico, muito mais que um par-
tribuidores atacadistas e a diviso das grandes     tido de classe mdia ou pequeno-burgus, o que
propriedades de terra), agregadas sob a noo       muitos marxistas e tericos liberais do fascismo
abrangente de uma "comunidade do povo" des-         enfatizavam. Igualmente dbias so as supo-
tituda de classes. O carter heterogneo desse     sies quanto ao financiamento da ascenso
programa foi de fato constantemente enfatizado      do NSDAP, principalmente pelo "alto capital",
por contemporneos e por historiadores, e pou-      mas a tomada e a consolidao do poder em
co significado se atribuiu a ele na prtica pol-   1933 dificilmente podem ser concebidas sem
tica do nacional-socialismo. No obstante, o        um apoio das elites nacionais e conservadoras
programa permitiu ao NSDAP apresentar-se            da recentemente extinta Repblica de Weimar
como no-engajado com grupos sociais espec-        (a aristocracia agrria prussiana, os lderes mi-
ficos e, durante a crise econmica mundial,         litares e os altos funcionrios).
reagir a elementos contraditrios de insatisfa-         O estabelecimento do domnio nacional-so-
o e protesto, unindo-os em um movimento de        cialista levanta questes fundamentais a res-
massa.                                              peito de sua estrutura e funcionamento. Em
    A viso de mundo de Hitler (exposta em          particular, os historiadores alemes debateram
1925 em Mein Kampf), que se formou na Viena         nos anos 80 se o "Terceiro Reich" dependia de
do final da monarquia Habsburgo e se refinou        fato da vontade de ver Hitler como lder onipo-
no clima contra-revolucionrio da Munique do        tente, ou se era uma poliarquia de lderes e
ps-guerra, serve em certa medida aos historia-     burocracias subordinados e rivais, a qual, em
514   naturalismo


ltima anlise, pode ser reduzida  dicotomia              Kershaw Ian 1989: The Nazi Dictatorship, 2ed.
estrutural de fatores "de estado" e "de partido"           Mayer, Arno J. 1988: Why Did the Heavens Not
                                                        Darken?  Mosse, George L. 1975: The Nationaliza-
na estrutura de poder da ditadura nazista ("es-         tion of the Masses  Noakes, Jeremy e Pridham, G.,
tado dual") (ver Fraenkel, 1941, e Neumann,             orgs. 1983-8: Nazism 1919-1945: a Documentary Rea-
1942). No mesmo contexto, diferentes respos-            der, 3 vols.(vol.4 no prelo)  Peukert, Detlev (1987):
tas foram dadas  pergunta quanto a se, no              Inside Nazi Germany.
regime nazista,  possvel perceber uma reali-                                              GERHARD BOTZ
zao direta do programa nacional-socialista ou
do de Hitler, ou se a realidade brutal do "Ter-         naturalismo No presente sculo, naturalis-
ceiro Reich",  falta de adequada fundamenta-           mo indica usualmente trs idias afins:
o em uma ideologia caracterstica, foi conse-
qncia de um processo no-planejado de auto-              1. a dependncia em que a vida social e,
radicalizao, resultante de tendncias latentes               mais genericamente, humana se encontra
na sociedade alem ou em qualquer sociedade                    em relao  natureza, isto , o materia-
moderna. Acima de tudo, ao explicar as origens                 lismo;
da "soluo final" para a questo judaica, esse            2. a suscetibilidade dessas idias a uma ex-
debate deu margens a avaliaes diametralmen-                  plicao formulada essencialmente do
te opostas e politicamente diversas, s quais                  mesmo modo, isto , em termos cient-
correspondem diferentes avaliaes da reali-                   ficos;
dade cotidiana do sistema nacional-socialista:             3. o carter cognato de enunciado de fato e
como uma ditadura totalitria terrorista,  qual               de valor, e, em particular, a ausncia de
toda a populao estava sujeita (Arendt, 1951),                um abismo lgico intransponvel entre
ou como um regime de consenso, parcial "resis-                 eles, do gnero sustentado por David
tncia popular" e grau significativo de latitude               Hume, Max Weber e G.E. Moore, isto ,
na vida privada, que ficava de fora dos rituais                o naturalismo tico.
pblicos de consentimento e dos eventos hor-               Este verbete est interessado principalmente
rveis de perseguio de oponentes polticos e          no segundo sentido. Foi a questo dominante
judeus, bem como -- durante longo tempo --              na filosofia, e uma questo controvertida na
dos efeitos da guerra.                                  prtica, das cincias humanas. Nesse sentido,
    Esses limites apontados  penetrao "tota-         cumpre distinguir o naturalismo de suas duas
litria" da sociedade alem pelo nacional-socia-        espcies extremas, a saber, o cientificismo, que
lismo criaram a impresso, depois da derrota de         se diz possuidor de uma completa unidade, e o
1945, de que mal houvesse existido nacional-            reducionismo, que afirma uma identidade con-
socialistas convictos, mas apenas companhei-            creta de objeto de estudo entre as cincias na-
ros de viagem, oportunistas e indivduos desilu-        turais e sociais.
didos. A "desnazificao" do ps-guerra, im-               Trs amplas posies podem ser delineadas:
plementada pelos Aliados ocupantes, foi limi-           (a) um naturalismo mais ou menos irrestrito,
tada na Alemanha Ocidental e superficial na             usualmente associado ao POSITIVISMO, domi-
Oriental, mas houve poucos ressurgimentos de            nante na filosofia e prtica das cincias sociais
idias nacional-socialistas no sentido mais cor-        (pelo menos no mundo anglfono) at cerca de
reto. As organizaes e partidos neonazistas            1970; (b) o antinaturalismo, baseado em uma
exerceram pouca influncia, exceto por breve            distinta concepo do carter mpar da reali-
perodo no final dos anos 60, com o surgimento          dade social, isto , como dotada de um carter
do Partido Nacional-Democrata Alemo (que               pr-interpretado, conceptualizado e lingstico
no era neonazista em sentido pleno) e, mais            -- a HERMENUTICA, a "oposio oficial" ao
recentemente, desde 1990, embora os "republi-           positivismo, forte no mundo germnico e na
canos" sejam mais nacionalistas de direita do           prtica das humanidades; e (c) mais recente-
que neonazistas (ver Benz, 1989).                       mente, um naturalismo crtico limitado, fun-
                                                        damentado em uma concepo essencialmente
Leitura sugerida: Baldwin, Peter 1990: "Social inter-
pretations of Nazism". Journal of Contemporary His-
                                                        realista de cincia e em uma concepo trans-
tory 25, 5-37  Bracher, K. D. 1970: The German Dic-     formativa da atividade social, a qual comeou
tatorship  Broszat, Martin 1981: The Hitler State       a adquirir destaque no ltimo quartel do sculo
 Jckel, Eberhard 1972: Hitler's Weltanschauung         (ver REALISMO).
                                                                                  naturalismo   515


             Sociedade                                      Sociedade



             Indivduo                                      Indivduo
             1. O esteretipo weberiano                     2. O esteretipo durkheimiano
             "Voluntarismo"                                 "Reificao"

                                             Sociedade



                           socializao                     reproduo/transformao

                                             Indivduos


                          3. O modelo transformativo de atividade social


    O positivismo encontra expresso na tradi-      desenvolvida por numerosos autores, incluindo
o sociolgica durkheimiana e no behavioris-       Russell Keat, Ted Benton, William Outhwaite
mo, no funcionalismo e no estruturalismo. Seus      e Peter Manicas. A maioria desses autores loca-
antecedentes filosficos imediatos situam-se na     liza uma primeira expresso sociolgica dessa
obra de David Hume, J.S. Mill, Ernst Mach e         concepo em certos aspectos da obra de Marx
do Crculo de Viena, fornecendo a espinha dor-      e, mais recentemente, em uma teoria social
sal da concepo ortodoxa de cincia. A an-         (marxista e no-marxista) que visa aproximar
cestralidade filosfica imediata da hermenuti-     as tradies estruturalista e "verstehende" de
ca deriva de Wilhelm Dilthey, Georg Simmel,         um modo geo-histrico e ecologicamente in-
Heinrich Rickert e Max Weber. Estes fundiram        formado. No  fcil caracterizar a obra de
as distines kantianas e hegelianas de modo a      pensadores ps-estruturalistas e, mais geral-
produzir um contraste entre o mundo fenome-         mente, ps-modernistas. Em sua maioria,
nal da natureza e o mundo inteligvel da liber-     adotam uma perspectiva epistemolgica
dade, fundamentando distines entre explica-       nietzscheana sobre uma base ontolgica hu-
o causal (Erklren) e entendimento interpre-      meana ou positivista.
tativo (Verstehen), o nomottico e o idiogrfico        Enquanto os positivistas basearam seu natu-
(ver IDIOGRFICO, MTODO), o repetvel e o ni-     ralismo em uma teoria epistemolgica relativa-
co, os domnios da fsica e da histria. Isso       mente apriorstica, os hermeneutas fundamen-
encontra expresso na tradio sociolgica we-      taram seu antinaturalismo em consideraes
beriana e nos estudos fenomenolgicos, etno-        ontolgicas que dizem respeito, em particular,
metodolgicos e interpretativos em geral. Uma       ao carter significativo ou governado por regras
discriminao deve ser feita, dentro desse se-      da realidade social. Alm disso, ao passo que
gundo campo, entre os que procuram sintetizar       os positivistas insistem em que as hipteses
ou combinar princpios positivistas e herme-        acerca de tais caractersticas devem submeter-
nuticos, como Weber ou Jrgen Habermas, e          se aos procedimentos normais de qualquer cin-
os dualistas que negam ao positivismo qualquer      cia emprica, os hermeneutas, por seu lado,
aplicabilidade na esfera humana, como H.G.          podem corretamente apontar para a completa
Gadamer ou P. Winch. A terceira tradio na-        ausncia de leis e explicaes em conformidade
turalista crtica baseia-se imediatamente na fi-    com o cnone positivista. Em resposta a isso, os
losofia realista da cincia desenvolvida por        positivistas alegam que o mundo social  muito
Rom Harr, E.H. Madden, Roy Bhaskar e ou-           mais complexo que o mundo natural, ou que as
tros, e na concepo de atividade social inde-      leis que o governam s podem ser identificadas
pendentemente proposta por Pierre Bourdieu,         em algum nvel mais bsico, por exemplo, o
Anthony Giddens e Bhaskar. Foi adotada e            nvel neurofisiolgico. Positivistas e herme-
516   naturalismo


neutas aceitaram uma descrio fundamental-        em oposio ao ponto de vista dos positivistas,
mente positivista da cincia natural.              as exposies dos atores formam o indispen-
    Se isso  falso, como afirmam os realistas,    svel ponto de partida da investigao social. O
ento os positivistas tm de formular argumen-     modelo transformativo assinala que a vida so-
tos especiais que justifiquem por que o positi-    cial possui um carter recursivo e no-teleol-
vismo deveria ser aplicvel de modo singular (e    gico, uma vez que os agentes reproduzem e
sumamente implausvel) no domnio humano;          transformam as prprias estruturas que utilizam
e os hermeneutas, por sua parte, tm de reava-     (e pelas quais so coagidos) em suas atividades
liar seus contrastes. Assim, os dois principais    substantivas. Tambm indica uma concepo
argumentos de Winch so parasitas de uma           relacional do objeto de estudo da cincia social,
ontologia positivista. Conjunes constantes de    em contraste com as concepes metodolgicas
eventos no so necessrias nem suficientes        individualistas e coletivistas caractersticas das
para o entendimento cientfico natural ou para     tradies utilitria (e weberiana) e durkheimia-
o social: ambos esto igualmente interessados      na de teoria social.
na descoberta de conexes inteligveis em seu          Certas caractersticas visveis dos sistemas
objeto de estudo. O conceitual e o emprico        sociais que, na invocao de um critrio causal
tampouco esgotam conjuntamente o real. O           para descrever a realidade, podem ser conside-
realismo pode admitir que a conceitualidade       radas como limites ontolgicos do naturalismo,
caracterstica da vida social sem supor que a      so imediatamente derivveis desse modelo.
esgota. Alm disso, os realistas afirmaram que     Podemos descrev-las sumariamente como de-
os temas positivistas transpostos ingressam di-    pendncia de conceito, dependncia de ativi-
retamente nas metateorias substantivas dos her-    dade e maior especificidade espao-temporal
meneutas.                                          de estruturas sociais. A interdependncia causal
    A defesa do naturalismo crtico gira em tor-   entre a cincia social e seu objeto de estudo
no da extenso em que uma anlise indepen-         especifica um limite relacional, enquanto que
dente dos objetos de conhecimento social e         a condio pela qual os sistemas sociais so
psicolgico  compatvel com uma teoria realis-    intrinsecamente abertos -- o importantssimo
ta da cincia. Assim, enquanto que na tradio     limite epistemolgico -- explica a ausncia de
weberiana os objetos sociais so vistos como       cruciais ou decisivas situaes de teste em prin-
resultados do (ou constitudos pelo) comporta-     cpio, requerendo confiana em critrios exclu-
mento intencional ou significativo, inclinando-    sivamente explicativos (no-preditivos) para a
se para o voluntarismo (ver figura 1), e na        avaliao racional da teoria. Embora sujeitas a
tradio durkheimiana os objetos sociais so       essas restries (e, poder-se-ia argumentar, jus-
considerados detentores de vida prpria, exter-    tamente em virtude disso), as modalidades ca-
nos em relao ao indivduo e coercivos para       ractersticas de explicao terica e prtica que
este, com tendncia  reificao (ver figura 2),   os realistas especificam (ver FILOSOFIA DA CIN-
na concepo naturalista crtica, por seu turno,   CIA SOCIAL) mostram-se possveis tanto na esfe-
a sociedade  considerada no s uma condio      ra social quanto na natural. No naturalismo
preexistente e (transcendente e causalmente)       crtico, portanto, as cincias sociais podem ser
necessria para a mediao intencional (intui-     "cincias" exatamente no mesmo sentido que
o de Durkheim), mas que, alm disso, tem         as naturais, mas de maneiras que so to dife-
existncia e consistncia unicamente em vir-       rentes (e especficas) quanto os seus objetos de
tude dela (ver figura 3).                          estudo.
    Nessa concepo, portanto, a sociedade  a         Uma quarta diferena crtica, requerida pela
condio e o resultado de mediao humana (a       considerao de que o objeto de estudo da
dualidade de estrutura), e a mediao humana       cincia social inclui no s objetos sociais, mas
produz e reproduz (ou transforma) a sociedade      tambm crenas acerca desses objetos, torna
(a dualidade de estrutura). Nesse modelo, em       possvel uma crtica explicativa da conscincia
contraste com a perspectiva hermenutica, as       (e do ser), a qual envolve juzos de valor e de
explicaes dos atores so corrigveis e limita-   ao sem paralelo no domnio das cincias na-
das pela existncia de condies irreconheci-      turais, justificando uma forma modificada de
das, conseqncias no-premeditadas, habili-       naturalismo tico substantivo, ou seja, o sentido
dades tcitas e motivaes inconscientes; mas,     (3) acima. Entretanto, parece vital ver tal cr-
                                                                                    natureza humana      517


tica, e a cincia social de um modo geral, con-             rarquias e territorialidade, por exemplo -- tm
dicionada pela dependncia dos seres humanos                suas contrapartes na sociedade humana (ver
da ordem natural, que  materialismo ou natu-               ETOLOGIA).
ralismo no sentido (1) acima.
                                                            Comportamentalismo Embora os autores dessa
Leitura sugerida: Benton, T. 1981 (1985): "Realism          escola no questionem os princpios do neodar-
and social science". In A Radical Philosophy Reader,        winismo, seu enfoque recai diretamente sobre
org. por R. Edgley e P. Osborne  Bhaskar, Roy 1989:         o comportamento humano. Esse comportamen-
The Possibility of Naturalism, 2ed.  Giddens, A.           to, como qualquer outro fenmeno natural, tem
1976: New Rules of Sociological Method  Harr, R., e
Secord, P. 1972: The Explanation of Social Behaviour        causas antecedentes que determinam necessa-
 Keat, R. 1971: "Positivism, naturalism and anti-natu-      riamente certos efeitos. Na terminologia de B.F.
ralism in the social sciences". Journal for the Theory of   Skinner (1971), o comportamento humano est
Social Behaviour 1.3  Outhwaite, William 1983: Con-         sujeito ao condicionamento operante. Uma
cept Formation in Social Science.                           conseqncia disso, acredita Skinner,  que
                                        ROY BHASKAR         muitas instituies e prticas sociais correntes,
                                                            como a punio para crimes, so obsoletas e
natureza humana H muitas definies ri-                    deveriam ser substitudas por uma apropriada
vais desta noo. Cada definio no s assume              tecnologia do comportamento (ver COMPORTA-
determinada posio, mas tambm reivindica                  MENTALISMO).
para si uma perspectiva excepcionalmente pri-                   O que a posio de Skinner revela, e que
vilegiada que exclui todas as alternativas. Esse            tambm est presente nas outras duas escolas,
zelo nada tem de acidental, porquanto alguma                 a convico de que enunciados supostamente
noo de natureza humana  um componente                    cientficos tm significativas implicaes tanto
indispensvel do pensamento social. As mais                 sociais quanto morais e polticas. Todas as trs
significativas contribuies do sculo XX po-               pressupem que a natureza humana  um objeto
dem ser divididas em dois grupos principais: o              apropriado de estudo "cientfico" e tambm que
"cientfico" e o "humanstico".                             qualquer pensamento social que no seja com-
                                                            patvel com as descobertas desses estudos 
Interpretaes cientficas                                  insustentvel. Apesar do grande prestgio des-
Sociobiologia E.O. Wilson define a natureza                 frutado pela cincia, a exatido de todo esse
humana como "uma miscelnea de adaptaes                   conjunto de suposies tem sido severamente
genticas em um meio ambiente largamente                    impugnada. No mago dessas impugnaes es-
desaparecido, o mundo do caador e coletor da               t a convico contrria de que  a humanidade
Idade Glacial" (1978, p.196). Em SOCIOBIOLO-                da natureza humana (e no a sua "natureza")
GIA, a finalidade  estudar a natureza humana               que deveria ser o objeto de investigao.
como uma rea das cincias naturais mediante
                                                            Interpretaes humanistas
a criao de uma rede internamente coerente de
explicao causal entre cincias biolgicas e               Contextualismo De acordo com essa descri-
sociais. O ponto nodal dessa rede  a noo de              o, a natureza humana  especificada ou con-
regras epigenticas. Toda a sociedade  gover-              cretizada pelo contexto em que necessariamen-
nada por essas regras, as quais cobrem tudo,                te se encontra. Fora desse contexto, s so
desde sua poltica econmica at seus princ-               possveis generalizaes abstratas e no-infor-
pios morais e suas prticas de puericultura (Wil-           mativas (como o nmero de cromossomos).
son e Lumsden, 1981).                                       Nenhuma distino significativa pode ser feita
                                                            entre os seres humanos e suas culturas espe-
Etologia Os autores dessa escola, como K.
                                                            cficas, uma vez que, como escreveu Clifford
Lorenz (1966) e I. Eibl-Eibesfeldt (1971), con-
                                                            Geertz, os seres humanos so "artefatos cultu-
centram-se no fato de o gentipo humano com-
                                                            rais" (1972, p.50).
partilhar 99% de sua histria com o do chim-
panz. A aparente exigidade dessa diferena                Simbolismo Ernst Cassirer define o "homem"
significa que a espcie biolgica Homo sapiens              como animal symbolicum (1944, p.26). O modo
s recentemente surgiu no tempo evolutivo. Os               de entender o que  essencialmente humano
etologistas sustentam que os padres de com-                consiste em examinar o que  caracterstico e o
portamento dos primatas -- agressividade, hie-              que est implcito no fato de s os seres huma-
518   necessidades


nos serem seres lingsticos. A realidade huma-     inevitvel da natureza humana  criticada por
na no  a dos padres de comportamento, mas        se tratar, antes, de uma defesa ideolgica do
a da ao simblica manifesta em mitos, arte,       status quo, uma vez que exclui futuros huma-
religio etc.                                       namente possveis. Esses exemplos ilustram
    Grandes questes esto envolvidas nas dife-     por que  impossvel qualquer definio incon-
renas entre as vrias concepes cientficas e     troversa.
humanistas de natureza humana.  claro, ne-
                                                    Leitura sugerida: Benthall, J., org. 1973: The Limits
nhuma dessas posies nega o papel desempe-         of Human Nature  Berry, C.J. 1986: Human Nature
nhado pelas outras, e uma das explicaes mais       Forbes, I. e Smith, S., orgs. 1983: Politics and Human
importantes e de maior alcance do sculo XX         Nature  Hollis, M. 1977: Models of Man  Jaggar, A.
pode ser interpretada como um empreendimen-         1983: Feminist Politics and Human Nature  Midgley,
to para anular as diferenas. A premissa da         M. 1978: Beast and Man  Platt, J.R., org. 1965: New
explicao psicanaltica da natureza humana de      Views of the Nature of Man  Rothblatt, B. org. 1968:
                                                    Changing Perspectives on Man  Stevenson, L. 1974:
Freud (1915-17, 1923) diz que os seus compo-        Seven Theories of Human Nature  Trigg, R. 1982: The
nentes bsicos s podem ser revelados por uma       Shaping of Man.
descrio cientfica do modo como o Incons-                                       CHRISTOPHER J. BERRY
ciente funciona. Mas todo o esforo de Freud 
no sentido de desvendar patologias nesse fun-       necessidades Termo para designar exign-
cionamento e de fornecer remdios que me-           cias humanas essenciais, requisitos indispen-
lhorem a vida individual e social -- a religio,    sveis  subsistncia, as necessidades s se
por exemplo,  por ele considerada uma "rel-       tornaram realmente objeto de teoria no sculo
quia neurtica" (1927, p.72) (ver PSICANLISE).     XX. Anteriormente os filsofos tinham argu-
    Todos os pontos de vista examinados at         mentado que a necessidade era um conceito
aqui aceitam que a natureza humana  um con-        essencialmente contestado ou que no havia
ceito significativo. Talvez o ponto de vista mais   distino essencial entre necessidades e carn-
caracterstico do sculo XX sobre este tpico       cias. Pensadores to antigos quanto Plato e
tenha sido um ataque desfechado contra essa         Aristteles postularam as necessidades huma-
significao. A mais famosa verso  a do EXIS-     nas como a base da cidade (polis), agregado
TENCIALISMO de Sartre (1946). De acordo com         social cujo alicerce econmico era a troca no
Sartre, a natureza humana no existe porque         mercado. Mas to indefinido era o conceito
nada h "fora" dela (como seja Deus) para lhe       grego de necessidade, que se traduzia freqen-
conferir uma "natureza" ou essncia. Nos seres      temente como "demanda". Autores esticos e
humanos, a existncia precede a essncia; ao        epicuristas do perodo helenstico usaram as
contrrio dos objetos naturais, que meramente       necessidades como critrio para distinguir entre
existem, os seres humanos decidem existir. Ou-      vidas virtuosas e corruptas, promovendo o ideal
tra crtica do conceito  que ele somente existe    do "homem de poucas necessidades". Pensa-
no interior de certos discursos historicamente      dores como Epicteto e Sneca provaram que as
especficos, de modo que M. Foucault (1966)         necessidades tm uma elasticidade tal que lhes
est apto a afirmar que o conceito s surgiu no     permite proliferar se a vontade moral no inter-
final do sculo XVIII e no , por conseguinte,     vier para refre-las. Foi essa a linha de pensa-
uma idia trans-histrica universal.                mento adotada por pensadores do Iluminismo
    No mbito dos discursos do sculo XX, a         como Jean-Jacques Rousseau que, nos seus Pri-
natureza humana desempenha papel de des-            meiro e Segundo Discursos, acompanha Sneca
taque na argumentao ideolgica. Por exem-         ao afirmar que a anlise do declnio da civiliza-
plo, um aspecto essencial no que se refere s       o gravita em torno da distino entre neces-
diferenas entre as concepes socialista e libe-   sidades "naturais" e "artificiais". Os psiclogos
ral de "boa sociedade"  apurar o que  verda-      ambientalistas e os primeiros socialistas fran-
deiramente central na natureza humana, se a         ceses do final do sculo XVIII e comeos do
cooperao ou a competio. De modo menos           XIX, como Helvtius, Holbach e La Mettrie,
aberto, a diferena entre as explicaes cient-    extraram uma concluso bvia dessa distino:
fica e humanista  analogamente polmica. Por       que a boa sociedade depende da apropriada
exemplo, a alegao cientfica de que o altrus-    formao de necessidades no indivduo (com-
mo  impossvel porque o egosmo  um fato          parar com SOCIEDADE AFLUENTE).
                                                                                  neodarwinismo        519


    A ruptura entre os antigos tratamentos mo-      estudos de polticas pblicas. Tericos da edu-
ralistas e assistemticos das necessidades e o      cao, urbanistas, assistentes sociais e servi-
uso do conceito de um modo quase tcnico            dores pblicos dedicam-se a polticas pblicas
ocorreu com Hegel na Filosofia do direito.          "baseadas na necessidade". Os limiares das ne-
Influenciado, sem dvida, pelos economistas         cessidades e os critrios para discriminar entre
polticos escoceses, Hegel definiu a sociedade      necessidades conflitantes impem a ateno em
civil como "um sistema de necessidades", re-        suas teorias. A distino entre verdadeiras e
ferindo-se  funo econmica da sociedade          falsas necessidades, tal como formulada pelos
como provedora do necessrio  subsistncia         neomarxistas,  hoje vista, de modo geral, como
atravs do mecanismo de trocas mercantis. Em-       essencialmente moralista e no-cientfica, ser-
bora essa opinio remonte a Aristteles, que na     vindo de esteio  "ditadura sobre as neces-
Poltica j fizera a distino entre valor de uso   sidades" (Fehr et al., 1983) estabelecida pelas
e valor de troca, Hegel produziu uma concepo      economias de comando dos pases socialistas.
mais ampla da sociedade como um tecido de           Com a obra imaginativa de Michael Ignatieff
instituies e estruturas criadas no processo da    (1984), os tericos concentraram-se uma vez
satisfao de necessidades. Marx, que tanto         mais no problema das necessidades dos pobres,
devia a Hegel, ampliou essa noo no conceito       aqueles para quem as instituies de proprie-
de modo de produo, base da sociedade sobre        dade privada no deixam espao pblico, es-
a qual se erigem as superestruturas institucio-     premidos pelo nus da dvida criada pelo con-
nais de acordo com o que as necessidades im-        luio das economias capitalistas do Primeiro
pem. Entretanto Marx tambm deixou de de-          Mundo com as ditaduras do Terceiro Mundo. O
finir as necessidades ou de lhes dar uma aten-      ESTADO DE BEM-ESTAR, cuja legitimidade assenta
o especfica. Nos Manuscritos de 1844, por        em sua afirmao de que garante a subsistncia
exemplo, ele faz uma distino rousseauniana        e a seguridade, no pode deixar de abordar os
entre necessidades humanas e no-humanas, ao        problemas criados pelo pobres e os sem-teto,
passo que em O capital se refere s neces-          cujas necessidades so desesperadoras.
sidades como indistinguveis das demandas,
                                                    Leitura sugerida: Heller, A. 1976: The Theory of Need
acrescentando que no importa se so neces-         in Marx  Ignatieff, M. 1984: Needs of Strangers
sidades reais ou se brotam da imaginao em          Leiss, W. 1976: The Limits to Satisfaction: an Essay
termos de seu efeito no sistema (Springborg,        on the Problem of Needs and Commodities  Soper,
1981, cap.6).                                       Kate 1981: On Human Needs: Open and Closed Theo-
    No sculo XX o enfoque das necessidades         ries in a Marxist Perspective  Springborg, P. 1981: The
humanas foi instigado por duas consideraes:       Problem of Human Needs and the Critique of Civiliza-
                                                    tion.
problemas na teoria marxista e questes nas
polticas pblicas. Os marxistas clssicos ti-                                    PATRICIA SPRINGBORG
nham que explicar a inesperada longevidade do
capitalismo, previsto para desmoronar em con-       neoclssica, economia Ver            ECONOMIA NEO-
seqncia da superproduo e do subconsumo.         CLSSICA.
Alguns revisionistas marxistas, casando noes      neocolonialismo Ver COLONIALISMO.
freudianas de desejos instintivos com obser-
vaes acerca do papel da mdia por tericos da     neodarwinismo A teoria sinttica da evolu-
sociedade de massas, propuseram uma explica-        o (Huxley, 1974), combinando as idias de
o em termos de "falsas necessidades". Co-         Charles Darwin sobre SELEO NATURAL com as
meando com Erich Fromm, que foi o primeiro         de Gregor Mendel sobre gentica, constitui a
a expor essa idia nos anos 30, e incluindo         base do neodarwinismo, o qual oferece, predo-
Wilhelm Reich, Herbert Marcuse e membros da         minantemente atravs das tcnicas estatsticas
escola de Frankfurt, esses pensadores argumen-      de gentica de populaes, uma descrio da
taram que o capitalismo tem uma capacidade          adaptao de organismos a meios ambientes.
inigualvel de introjetar na psique de seus sdi-      O neodarwinismo  um avano sobre a pr-
tos as necessidades que ele precisa que eles        pria teoria da evoluo de Darwin, a qual de-
tenham a fim de que o sistema sobreviva.            pendia dos conceitos de variao e herana que,
    Um segundo estmulo  discusso terica         no seu tempo, eram sofrivelmente entendidos.
das necessidades foi o desenvolvimento dos          Os resultados de Mendel forneceram uma base
520   neokantismo


para distinguir entre a constituio de um orga-      Questes importantes acerca do neodarwi-
nismo (gentipo) e seus traos fisiolgicos e      nismo incluem o seu status cientfico (Ruse,
comportamentais (fentipos), assim como para       1973, seo 3.2) e sua adequao, particular-
o nosso entendimento da recombinao genti-       mente em relao  SOCIOBIOLOGIA, para expli-
ca durante a reproduo, hoje reconhecida co-      car disposies geneticamente baseadas para
mo a fonte primria da variao transmissvel,     o comportamento altrusta (Maynard Smith,
da qual dependem os processos seletivos.           1975, cap.12).
    Cumpre distinguir o neodarwinismo das          Leitura sugerida:  Dawkins, R. 1986 (1988): The
teorias neolamarckistas de EVOLUO, efmera       Blind Watchmaker  Simpson, G.G. 1949: The Mea-
e tragicamente dominantes na Rssia (Medve-        ning of Evolution.
dev, 1969), de acordo com as quais a m adap-                                     FRED D'AGOSTINO
tao do organismo ao meio ambiente provoca
uma resposta pelo organismo que resulta em sua     neokantismo O termo pode ser aplicado a
aquisio de um trao que se ajusta melhor ao      qualquer filosofia ou teoria social que se inter-
seu meio ambiente e que ser herdado por sua       prete a si prpria como desenvolvimento e re-
prognie. De acordo com essa descrio, o meio     viso dos mtodos analticos propostos por Im-
ambiente "instrui" o organismo. Essa idia        manuel Kant (1724-1804) ou como resposta aos
repudiada no neodarwinismo, segundo o qual         problemas, por exemplo de epistemologia e
os processos de recombinao e mutao pro-        tica, por ele expostos. O termo  usado com
duzem aleatoriamente variantes de todos os         extrema preciso em referncia a um movimen-
tipos, melhores e piores do ponto de vista da      to no seio da filosofia alem, anterior  Primeira
adaptao, dentre as quais so "selecionadas"      Guerra Mundial. Esse movimento consistiu em
as que melhor ajustam o organismo ao meio          duas principais escolas, sediadas em Marburgo
ambiente (Maynard Smith, 1958, cap.2).             e em Heidelberg, sendo esta ltima significativa
    Trs equvocos comuns da evoluo foram        por sua influncia sobre Max Weber. Outros
elucidados pelo neodarwinismo.                     socilogos, como Georg Simmel e mile Durk-
                                                   heim, embora no se apresentassem explicita-
    Em primeiro lugar, a seleo natural no
                                                   mente como neokantianos, podem ser conside-
otimiza o ajustamento organismo-meio ambi-
                                                   rados promotores de uma sociologia cujo de-
ente, mas tende meramente a melhor-lo. Por-
                                                   senvolvimento refletiu as tentativas de desco-
tanto, muito mais correto do que o grau timo
                                                   brir na sociedade as precondies para as regras
de aptido preconizado por Herbert Spencer         a priori de Kant.
seria a "sobrevivncia dos mais aptos" expressa        O retorno a Kant na dcada de 1860 foi uma
em termos comparativos. A evoluo no alcan-      resposta ao evidente fracasso das filosofias ide-
a a otimizao, em parte porque s pode sele-     alista e materialista ps-kantianas. Foi uma ten-
cionar a partir de variantes que ocorrem na        tativa de reconstruo da filosofia, no atravs
realidade, as quais  improvvel que incluam a     da imitao servil de Kant, mas procurando
variante otimamente adaptativa (Simon, 1983,       reinterpret-lo  luz das geraes precedentes
cap.2).                                            de crticos kantianos. As escolas neokantianas
    Em segundo lugar, o neodarwinismo no          caracterizam-se tanto pelo que rejeitam quanto
afirma que todos os traos tenham sido selecio-    pelo que adotam em Kant.
nados por sua superioridade adaptativa. Traos         Hermann Cohen (1842-1918) e Paul Natorp
distintos podem estar geneticamente "engata-       (1854-1924) foram as principais figuras da es-
dos", permitindo que traos neutros ou de adap-    cola de Marburgo. Sua obra est centralmente
tao defeituosa recebam "carona" de traos de     interessada na epistemologia e especificamente
valor adaptativo positivo (Gould, 1983, cap.3).    na construo do domnio objetivo das distintas
    Em terceiro lugar, a evoluo no  neces-     cincias naturais. Entretanto isso acarreta um
sariamente uma "luta pela sobrevivncia" en-       movimento de distanciamento da anlise trans-
volvendo competio direta entre organismos;       cendental de Kant, no sentido da formao de
algumas espcies podem estabelecer ou ocupar       uma lgica geral. A investigao transcendental
nichos ambientais at ento desocupados e evi-     envolve a explicao das precondies neces-
tar assim o conflito com outras (Hutchinson,       srias  possibilidade de experincia. Para Kant,
1965).                                             as regras a priori determinaram a sntese de
                                                                                  neokantismo     521


sensaes em objetos de experincia. Por con-        lado, o sujeito no cria valores, pois a cultura,
seguinte, s quando uma sensao subjetiva          como sistema de valores predominantes,  a
legitimamente subordinada a particulares e ca-       precondio transcendental da possibilidade de
tegorias apriorsticas (de acordo com o que          apreender bens culturais. Rickert procura escla-
Kant designa por esquemas) ela passa a ser           recer a sua posio distinguindo entre os juzos
objetiva, e somente assim o sujeito adquire          de valor de um ator histrico e a atividade do
conhecimento da realidade objetiva. Portanto,        historiador. O ator  guiado pelo que acredita
a anlise transcendental pressupe que as regras     que "deve ser". O historiador, contudo, s res-
a priori so necessariamente aplicadas na expe-      ponde a valores na medida em que estes so
rincia. Mas a lgica formal ou geral que Cohen      realmente aceitos pelos atores. Isso serve, de
e Natorp procuraram desenvolver  explicada          fato, para abalar a natureza transcendental do
independentemente da experincia. Trata-se           argumento de Rickert. A comparao com a
mais de metodologias para a conceitualizao         constituio da natureza fracassa, pois o sujeito
dos objetos de cincias particulares e, assim,       histrico, assim como o terico, cria ativamente
no so aplicveis  experincia em geral. Alm      valores. Desse modo, a constituio da cultura
disso, essa lgica  apresentada como um con-        ocorre de modo emprico, no de modo trans-
junto de regras a priori mais desejveis do que      cendental.
necessrias. Isso leva  "tarefa interminvel" de        Weber desenvolve os argumentos de Ri-
aperfeioar a constituio do domnio do objeto      ckert, mas no contexto de uma sociologia em-
cientfico at que o pensamento conceitual pas-      prica. Weber no aceita que o ator social apenas
se a corresponder  coisa-em-si (Ding an sich).      crie ativamente valores, mas vai alm para afir-
    Os principais representantes da escola de        mar que, no racionalizado e desencantado mun-
Heidelberg (ou Baden) so Wilhelm Windel-            do moderno, os atores geram uma proliferao
band (1848-1915) e Heinrich Rickert (1863-           de valores concorrentes. Na medida em que a
1936). Ao conferirem primazia  Crtica da           racionalizao pode ser vista como o predom-
razo prtica de Kant, eles ofereceram uma           nio da razo terica, deixam de existir os meios
anlise da constituio do conhecimento fun-         comumente aceitos de avaliao de valores
damentada em valores. Windelband afirmava            concorrentes. A metodologia de Weber do TIPO
que todos os juzos, em lgica, tica e esttica,    IDEAL pode ser considerada um desenvolvimen-
so guiados pela pressuposio do sujeito dos        to da anlise de Rickert da atividade do his-
valores universais de verdade, bondade e bele-       toriador. Um tipo ideal  heurstico e, portanto,
za. Os prprios valores no podem ser aprova-        sem significao transcendental. Ele "cons-
dos, na medida em que esto, como sustentava         titui", porm, o significado do fenmeno cultu-
Kant, para alm da jurisdio da razo terica.      ral para o terico. O valor  dado ao fenmeno
Portanto, o sujeito emprico no  visto como        cultural somente atravs do reconhecimento
criador de valores, pois os valores so pos-         dos valores que so realmente aceitos pelos
tulados por uma conscincia transcendental pa-       atores.
ra alm de qualquer conscincia emprica.               Elementos neokantianos tambm podem ser
mantida a diviso kantiana entre razo prtica       vistos na obra de Simmel. Ele responde ao
e terica, mas transformada na medida em que         problema da constituio transcendental da so-
se faz dos valores a precondio transcendental      ciedade com uma teoria de formas de socializa-
da razo terica.                                    o. Simmel reconhece que a unidade da socie-
    A escola de Heidelberg concentrou-se na          dade  constituda pelos atores sociais e no
metodologia das cincias culturais. Rickert, em      meramente pelo terico. O seu conceito de for-
uma tentativa de superao do dualismo fato-         mas refere-se, portanto,  multido de tipos
valor inerente  filosofia de Windelband, pos-       gerais que os atores usam para constituir uma
tula um "terceiro domnio" da cultura, no qual       totalidade estruturada a partir da diversidade da
esto contidos tanto o fato quanto o valor. Atra-    vida social, e ao entendimento que o socilogo
vs do juzo prtico, os sujeitos criam bens         adquire desses tipos como processos que origi-
culturais. Isso significa que objetos sensveis, e   nam a "conscincia de socializao" dos atores.
por conseguinte objetos acessveis  razo te-      Entretanto a relao entre processos transcen-
rica, so colocados em relao a valores e rece-     dentais e empricos torna-se mais uma vez am-
bem assim uma dimenso axiolgica. Por outro         bgua.
522    New Deal


    Finalmente, a sociologia de Durkheim, e em                  depois racionalizado em termos tericos
especial a sociologia da religio,  um exemplo                 pela cincia econmica keynesiana (ver
da tentativa de alicerar as categorias a priori de             KEYNESIANISMO).
entendimento de Kant em algum substrato so-                  3. O comeo do ESTADO DE BEM-ESTAR nos
cial. Durkheim, na esteira de Kant, aceita a                    Estados Unidos, em nvel federal. Os
realidade de categorias e valores, mas procura                  seus principais ingredientes foram:
definir as condies de sua possibilidade na                    (a) o sistema de seguridade social, for-
sociedade como uma realidade sui generis. As-                       necendo benefcios de aposentadoria
sim, a sociedade torna-se uma fora moral,                          para trabalhadores;
dotada de uma objetividade transcendental.                      (b) o sistema de seguro-desemprego;
Com essa abordagem, Durkheim pode descre-                       (c) o fornecimento de auxlio financeiro
ver variaes nas categorias de entendimento,                       a famlias pobres com filhos depen-
mediante referncia a variaes concretas entre                     dentes.
sociedades.                                                  4. Interveno do governo para controlar
Leitura sugerida: Arato, A. 1974: "The neo-idealist             preos e produo na agricultura.
defence of subjectivity". Telos 21, 108-61  Coples-          5. Promoo governamental da organiza-
tone, F. 1963: A History of Philosophy, 9 vols.,Vol.7:          o sindical.
Fichte to Nietzsche, p.361-73  Durkheim, . 1912
(1968): Les formes lmentaires de la vie religieuse         6. Novo ou ampliado controle governa-
 Habermas, Jrgen 1968 (1971): Knowledge and Hu-                mental de preos, tarifas ou outros as-
man Interests  Rickert, H. 1962: Science and History:           pectos dos transportes, energia, comuni-
a Critique of Positivist Epistemology  Rose, G. 1981:           caes e indstria financeira.
Hegel Contra Sociology  Simmel, Georg 1959: Georg            7. Movimento no sentido de uma poltica
Simmel 1858-1918: a Collection of Essays with Trans-
lations and a Bibliography, org. por K.H. Wolff  We-
                                                                mais liberal de comrcio internacional.
ber. M. 1904 (1949): Methodology of the Social Scien-        As medidas fiscais e monetrias ajudaram a
ces, org. e trad. por E.A. Shils e H.A. Finch.           realizar a recuperao da economia norte-ame-
                                    ANDREW EDGAR         ricana, embora as medidas fiscais fossem d-
                                                         beis e vacilantes. Algumas das outras medi-
New Deal Conjunto de medidas de poltica                 das provavelmente retardaram a recuperao
econmica tomadas nos Estados Unidos entre               ao elevarem os custos e aumentarem a incerteza
1933 e 1940, sob a liderana do presidente               na comunidade empresarial. A recuperao ain-
Franklin Roosevelt, com a finalidade de produ-           da estava incompleta e o desemprego ainda era
zir a recuperao da Grande Depresso e cor-             grande quando a Segunda Guerra Mundial se
rigir defeitos no sistema que se acreditava terem        tornou um fator dominante na economia.
sido por ela revelados. No h uma teoria nica              Todas as medidas do New Deal foram con-
subjacente nas medidas tomadas. Todas as es-             testadas com vemencia na poca, principal-
pcies de coisas foram experimentadas. Muitas            mente com base em se tratar de interferncias
medidas foram descartadas porque as condi-               imprprias na liberdade econmica. Por outro
es a que se destinavam tinham sido ultrapas-           lado, havia queixas de que o New Deal estava
sadas, por terem fracassado ou por se revelarem          sustentando um sistema basicamente imperfei-
inconstitucionais. Entre as mais duradouras              to que necessitava de reestruturao mais radi-
mudanas polticas estavam:                              cal. Mas as medidas foram avassaladoramente
    1. Substancial libertao da poltica mone-          populares, como evidenciado pelos xitos elei-
       tria das restries do padro-ouro e             torais de Roosevelt.
       maior aceitao da responsabilidade da                Cinqenta anos depois a poltica norte-ame-
       poltica monetria para a estabilizao da        ricana foi muito alm do New Deal em quase
       economia.                                         todos os aspectos -- mais regulamentao,
    2. Crescente confiana na poltica ora-             mais pagamentos de transferncia para a segu-
       mentria governamental para levar a ca-           ridade social, seguro-desemprego e assistncia
       bo e manter altos nveis de emprego. Isso         mdica, e uma poltica fiscal e monetria mais
       ocorreu primeiro pragmaticamente na               ativa. Mesmo os que esto sumamente preocu-
       forma de programas de obras pblicas e            pados com o crescente poder do governo na
       outros programas de emergncia e foi              economia considerariam um retorno ao New
                                                                                    nomenklatura     523


Deal como um retorno ao governo pequeno e               klatura, incluindo os dos sindicatos, organiza-
limitado. Na perspectiva da dcada de 90, a             es da juventude, associaes de escritores e
queixa a respeito do New Deal, se  que signi-          movimento oficial pela paz. Isso significava
fica uma queixa, no se refere s medidas toma-         que os lderes dessas agremiaes no depen-
das na dcada de 30, mas ao caminho pelo qual           diam de seus prprios movimentos ou organi-
o governo federal ento enveredou.                      zaes, mas de vrias instituies partidrias. O
Leitura sugerida: Lehergott, S. 1984: The Americans:
                                                        renascimento da SOCIEDADE CIVIL que est ocor-
an Economic Record, p.453-65  Stein, H. 1969: The       rendo nos pases do Leste Europeu libertou os
Fiscal Revolution in America  1988: Presidential Eco-   lderes dessas organizaes da velha estrutura
nomics: the Making of Economic Policy from Roose-       da nomenklatura e, desse modo, surge a opor-
velt to Reagan and Beyond, p.27-64.                     tunidade de os lderes serem eleitos democrati-
                                    HERBERT STEIN       camente e de as organizaes obterem sua pr-
                                                        pria independncia.
New Left Ver NOVA ESQUERDA.                                 A nomenklatura tambm desempenhou um
New Right       Ver NOVA DIREITA.                       papel altamente significativo na cultura e nos
                                                        meios de comunicao de massa por causa do
nomenklatura Este sistema de nomes de-                  tpico bloqueio de informao do sistema sta-
sempenhou um papel muito importante nos m-             linista (ver tambm ELITES, TEORIA DAS). Isso era
todos de controle de socialismo tipo monoltico         mais importante que os diferentes servios de
e stalinista (ver tambm TOTALITARISMO); sua            censura. Todos os lderes de instituies que
reviso e mudana radical tornaram-se os prin-          formavam a opinio pblica dependiam para
cipais problemas nos esforos para realizar re-         sua existncia de diferentes rgos partidrios,
formas democrticas.                                    os quais impediam em grande parte a aspirao
    De acordo com as decises de rgos diri-           dos intelectuais  glasnost.
gentes, a nomenklatura inclua uma lista de                 Arrojadas concluses tericas tm sido de-
cargos ou postos de diferentes rgos nos quais
                                                        senvolvidas a respeito da nomenklatura como
as mudanas de pessoal (nomeaes, processos
                                                        importante componente do STALINISMO mono-
disciplinares etc.) eram decididas pelo Partido
                                                        ltico. De especial importncia entre elas  a
em diferentes nveis (das instituies locais s
de mais alto nvel). Os mais importantes cargos         obra intitulada Nomenklatura, de Vozlensky,
cobertos pela nomenklatura eram os da cadeia            que considera os pertencentes  nomenklatura
funcional atravs da qual os lderes a serem            como a classe dominante dessas sociedades.
eleitos pelos rgos do Partido em nveis infe-         Trata-se, na realidade, da concretizao da teo-
riores eram determinados pelo nvel superior            ria de Milovan Djilas da "nova classe" que se
seguinte. Isso deu  democracia de partido ni-         desenvolveu em tais sociedades.
co um carter puramente formal, o qual, durante             Tais teorias, porm, ignoram as principais
as crises polticas que precederam as mais re-          caractersticas dos detentores do poder, pelo
centes varreduras de regimes de partido nico,          que pode ser questionado o uso do termo "clas-
provocou a revolta de alguns membros do Par-            se" para designar essas camadas.  precisa-
tido (Hungria em 1956 e 1988; Polnia em 1956           mente a sua incluso na nomenklatura que in-
e 1980; Tchecoslovquia em 1968).                       dica que a sua existncia depende do rgo
    As nomeaes para vrias funes estatais e         qualificado do partido, e se quem perde a con-
econmicas tambm eram decididas por rgos             fiana deste  destitudo da situao de poder.
do Partido. Com freqncia, requisitos racio-           Um desses contra-argumentos  que, em con-
nais, habilitaes e proficincia eram preteridos       traste com as classes dominantes em outras
em favor da confiabilidade poltica. Na vida do         formaes scio-econmicas, a posio no po-
Estado e na vida econmica, essa contra-sele-           de ser passada  gerao seguinte, embora os
o pelo aparelho reduziu a eficincia da eco-          filhos dos que pertencem  nomenklatura come-
nomia. Assim, era natural que um objetivo das           cem na vida com melhores oportunidades. Com
reformas econmicas fosse libertar a liderana          freqncia, a tendncia destes  evitar empre-
econmica da presso da nomenklatura.                   gos pertencentes  nomenklatura. Em vez disso,
    Os lderes nomeados e eleitos das organi-           escolhem profisses que proporcionem mais
zaes de massa tambm pertenciam  nomen-              independncia e maior renda.
524    norma

Leitura sugerida: Deutscher, I. 1954: The Prophet Ar-    of Usages, Manners, Customs, Mores and Mo-
med: Trotsky, 1879-1921  Djilas, M. 1957: The New        rals (1906). Sublinhou a variedade de conte-
Class: an Analysis of the Communist System  Lozovs-
ky, S. 1925: Lenin i professional 'noe dvizhenie  Voz-
                                                         dos que as normas podem ter e a diferena em
lensky, Michail 1985: Nomenklatura.                      importncia que pode ser atribuda a diferentes
                                  ANDRS HEGEDS
                                                         normas: assim, somente as leis recebem a "san-
                                                         o especfica do grupo quando politicamente
norma Em sua acepo mais geral, a idia de              organizado" (p.56).
norma  a de um modelo ou padro. So duas                   As normas podem relacionar-se a qualquer
as principais maneiras como essa idia foi de-           rea da vida humana, desde as saudaes coti-
senvolvida em teoria social, quando as normas            dianas e o vesturio at a conduta sexual e os
sociais constituram o foco de interesse. Em             processos polticos. Em Les rgles de la m-
primeiro lugar, h a idia de norma como mo-             thode sociologique (1895), Durkheim assinalou
delo real de comportamento, como o que                  a existncia de uma continuidade entre as nor-
"normal" no sentido de ser regular ou modelar-           mas "fixas" da lei escrita e normas no-codifi-
mente feito por membros de uma populao.                cadas e at efmeras, como as da etiqueta. Em
(Os rtulos "hbitos sociais" e "uso" so em-            Le suicide (1897), enfatizou a importncia das
pregados a respeito de alguns de tais modelos.)          normas como quadro de referncia para a vida
Em segundo lugar, h a idia de norma como               humana. Muitos tm sublinhado a necessidade
padro prescrito, como o que  considerado ser,          de alguns padres prescritos como um modo de
em uma dada populao, a coisa a fazer. (Os              produzir e manter a ordem social em um contex-
rtulos "conveno", "regra social" e LEI so            to em que os impulsos instintivos so insufi-
usados a respeito de certos padres nessa cate-          cientemente restringidos (como em problemas
goria.)                                                  de coordenao, ver adiante) ou quando os de-
    As normas sociais so freqentemente asso-           sejos das pessoas esto em conflito (como no
ciadas a expectativas. Cumpre distinguir duas            tipo de situao do "dilema do prisioneiro").
diferentes espcies de expectativa: as expecta-          Em Le suicide, Durkheim usou o termo ANOMIA
tivas preditivas acerca do que ser efetivamente         para descrever um estado da sociedade em que
feito por membros de uma populao e as ex-              havia relativamente poucas normas ntidas. Tal
pectativas normativas ou denticas. As norma-            estado, conjecturou ele, pode causar um aumen-
tivas envolvem a crena em que o comporta-               to na taxa de suicdios de uma sociedade. As
mento "esperado" deve ocorrer, em algum sen-             normas so, pois, importantes para o bem-estar
tido mais do que meramente preditivo. Os pa-             psicolgico humano. Uma forma de reduzir a
dres reais so suscetveis de se associar a             taxa de suicdios, apontou Durkheim,  fortale-
expectativas preditivas e os padres prescritos,         cer os vnculos do indivduo com grupos me-
a expectativas normativas.                               nores, como a famlia conjugal e os grupos
    O prprio termo "norma"  relativamente              profissionais. As normas podem,  claro, carac-
recente no uso da teoria social corrente. Os             terizar sociedades em grande escala e grupos
termos mais estabelecidos, "costume", "tradi-            pequenos, como o casal marital ou a guilda
o", "conveno", "lei" etc., tendem a ser usa-         medieval.
dos para tipos especficos de normas. Todos tm              Em Les rgles, Durkheim props que, em-
sido definidos de variadas maneiras por dife-            bora as normas sociais estejam associadas a
rentes autores em sociologia, filosofia e outras         sanes "externas" que vo desde a crtica in-
reas. Em todo caso, podemos fazer muitas                formal e o ostracismo por outros at as penas
distines entre normas. Por exemplo, h os              legais por conduta desviante, um fator impor-
padres prescritos que so vistos como espe-             tante para produzir a submisso a normas  o
ciais para o grupo e o tipificam, como "o que            processo de SOCIALIZAO, por meio do qual os
fazemos" ou "o nosso modo" (costumes?), e os             indivduos passam a internalizar normas: a obe-
que so considerados tpicos do grupo em vir-            dincia  norma converte-se em uma "segunda
tude de uma longa histria passada de submis-            natureza" e as coaes externas da sociedade s
so e conformidade (tradies?).                         continuam atuando relativamente raras vezes.
    W.G. Sumner distinguiu e examinou uma                    Max Weber, embora diferindo de Durkheim
ampla variedade de tipos de norma em Folk-               em muitos aspectos da teoria social, tambm
ways: A Study of the Sociological Importance             enfatizou a importncia das normas em seu
                                                                                        norma    525


exame de conceitos sociolgicos fundamentais        dres que surgem desse modo, o autor refere-se
(1921-2, p.29-36). Weber distinguiu "costu-         como "convenes". Ao tipo de situao em
mes" e "uso" de conveno, quando a submis-         questo, chama Lewis um "problema de coor-
so  considerada to vinculatria para o in-       denao". Tais problemas so comuns na vida
divduo quanto no caso de uma lei. Com a            social humana. Um exemplo em pequena escala
conveno, qualquer membro da populao              o de duas pessoas cujo telefonema foi cortado.
pertinente pode aplicar sanes por conduta         Quem deve voltar a ligar? Em tais situaes, as
desviante. Com a lei, espera-se que um "qua-        pessoas podem chegar a um desfecho bem-su-
dro" limitado de pessoas administre as sanes,     cedido por mero acaso, no comeo, depois sero
sejam elas fsicas ou psicolgicas. Mais recen-     propensas a repetir o que funcionou da ltima
temente Parsones defendeu o papel crucial das       vez ou a esperar que outros o faam. Assim,
normas e valores em sociedade; em especial,         pode surgir um "sistema autoperpetuante" de
habilitam as pessoas a predizer o que outras        expectativas de submisso, preferncias para
faro, o que se reveste de enorme importncia       submisso e submisso por todos a uma certa
prtica.                                            regularidade (como voltar a ligar o que foi o
    Haver numerosas normas sociais em qual-        autor da ligao original) (Lewis, p.42). Lewis
quer grupo social. Durkheim, Parsons e outros       aponta que uma crena geral em que essa regu-
enfatizaram a importncia, para o funciona-         laridade deve ser obedecida  suscetvel de sur-
mento da sociedade, da harmonia ou integrao       gir nesse caso (p.97). Entretanto, ele viu o apa-
entre essas normas.                                 recimento de um padro de comportamento
    Muitas questes podem ser suscitadas acer-      como o fenmeno bsico -- a prescrio geral
ca das normas em geral e de tipos de norma em       de conformidade ou submisso  meramente
particular. As normas podem mudar e mudam           uma conseqncia provvel. Lewis no faz com
com o decorrer do tempo, ou deixam de existir.      que qualquer espcie de prescrio seja parte de
Qualquer teoria da mudana social precisar         sua definio de conveno.
explicar como isso ocorre. Por vezes (como no           Os crticos afirmaram que Lewis no captou
caso de algumas normas que regem os papis          o conceito vernculo de conveno social, co-
do gnero), necessidades importantes de um
                                                    mo havia esperado. Entre outras coisas, no
grupo na sociedade podem ser negligenciadas
                                                    parece que as convenes somente surjam no
ou ignoradas pelas normas vigentes. A consci-
                                                    contexto de problemas anteriores de coordena-
ncia disso pode acarretar presses por mudan-
                                                    o; a questo de etiologia no  antecipada por
as, as quais sero bem-sucedidas ou no. Os
                                                    definio. Alm disso, uma conveno parece
fatores envolvidos em tais processos de mudan-
a sero complexos. Outros tpicos importan-        envolver uma prescrio em seu mago.
tes incluem o desvio em relao s normas               Que  para um grupo ter uma regra ou pres-
estabelecidas (com que freqncia ocorre,           crio acerca da ao? De acordo com Hart
quem  desviante e por qu?), o conflito entre      (1961), os membros devem adotar certa "ati-
as normas e a gnese de normas.                     tude reflexiva crtica" em relao a algum pa-
    Subsiste a questo da melhor maneira de         dro de comportamento. Devem consider-lo
compreender a noo de modelo ou padro             uma norma a que todos os membros se sujeita-
prescrito. Na filosofia, jurisprudncia e cincia   ro. Hart sublinha que a maioria dos membros
econmica recentes, tem se prestado cuidadosa       deve acreditar pessoalmente que tem o direito
ateno s questes afins de como analisar as       de se criticar mutuamente por desvio da norma,
noes cotidianas de conveno social e de          e que lhe cumpre exigir submisso se houver
regra social.                                       ameaa de conduta desviante.
    A abordagem terica do jogo  exemplifica-          Apresenta-se ento a questo de qual  a
da pela influente obra de Lewis (1969), que         base para tal crena? No seria obviamente
adota uma sugesto de Schelling (1960). Lewis       justificada pelo simples fato de cada membro
concentra-se em um tipo especial de situao        acreditar pessoalmente que todos os membros
envolvendo mais de uma pessoa e afirma que,         deviam sujeitar-se  norma, por exemplo. Por
quando uma situao desse tipo se repete em         certo, o direito de chamar algum  ordem por
uma populao, pode-se esperar que da resulte      conduta desviante no decorre diretamente da
um efetivo padro de comportamento. Aos pa-         norma ou da sua prpria aceitao por algum.
526    Nova Direita


    A descrio de Gilbert dos princpios con-            neira geral na dcada de 80 para assinalar uma
juntamente aceitos (1989 a, especialmente                 vasta reao, entre intelectuais ocidentais, ao
p.373ss.) mostra como um tipo especial de acei-           SOCIALISMO, ideologia que fora antes subscrita
tao de uma norma pode gerar diretamente o               por muitos deles e que, em forma diluda, ins-
direito a criticar outros por desvios. A aceitao        pirou o consenso democrtico no ps-guerra. A
conjunta de uma norma ou princpio envolve                designao, porm,  enganadora, sobretudo na
um processo semelhante a um acordo, em vir-               simetria que sugere com a NOVA ESQUERDA. Em
tude do qual os envolvidos se entendem mutua-             primeiro lugar, a "Nova Direita"  ainda mais
mente obrigados a manter a norma e, por conse-            diversa que o socialismo como um todo. Em
guinte, submeter-se a ela. Quem se desvia da              segundo lugar, embora com uma inclinao
norma viola as suas obrigaes para com ou-               ideolgica (caracterstica a que deve o seu xito
trem. Isso d ao outro base para queixas ou               intelectual), no  um "movimento" autocons-
crticas. Parece que o acordo explcito no              ciente e est unido por poucos artigos de f para
essencial para esse processo. O que  necessrio          alm de uma antipatia comum pelo socialismo.
 que as partes indiquem umas s outras estarem           Em terceiro lugar, poucos neodireitistas aceita-
dispostas a se comprometer de um modo perti-              riam esse ttulo ou o considerariam til (em
nente, ou seja, de um modo substancialmente               contraste com a "Nova Esquerda", termo auto-
anlogo ao dos compromissos envolvidos em                 atribudo por seus adeptos). Finalmente, a
um acordo explcito. Uma forma de fazer isso              maior parte do pensamento da Nova Direita no
 concordar com as crticas e exigncias do tipo           nova nem particularmente "direitista".
descrito por Hart. (Comparar com Williams,                    Os rivais histricos do socialismo so o
1968, p.207). Um modo plausvel de analisar a             CONSERVADORISMO e o LIBERALISMO, e o pensa-
idia de que um grupo tem uma regra , portan-            mento da Nova Direita  usualmente um ou
to, em termos da aceitao conjunta dessa regra.          outro, ou uma mistura deles. H quatro escolas
    Gilbert (1990, ver tambm 1989b) afirmou              principais.
que algo semelhante a um acordo  requerido
para o surgimento de uma regularidade estvel             Neoliberalismo
no comportamento entre os agentes puramente               (ou "liberal-conservadorismo")
racionais da teoria clssica dos jogos quando                 De todas as doutrinas da Nova Direita, o
existe um problema recorrente de coordenao.             neoliberalismo tem sido, de longe, a mais in-
Os agentes que so levados  ao na base de              fluente nos governos (mesmo em alguns gover-
razes para agir, em contraste com o instinto ou          nos socialistas e comunistas). Figuras eminen-
hbito, no podem recorrer  existncia de um             tes incluem F.A. Hayek, Karl Popper e Milton
precedente bem-sucedido, nem  proeminncia               Friedman (que tambm manifesta tendncias
de uma dada soluo, uma vez que estes no                libertarianistas: ver adiante). Todos apreciam a
fornecem, por si mesmos, razes para a escolha            "ordem espontnea" supostamente exemplifi-
da opo precedente ou proeminente. Na medi-              cada nos mercados livres, no direito consuetu-
da em que os seres humanos funcionam como                 dinrio e (os mais conservadores acrescenta-
agentes racionais, os princpios conjuntamente            riam) na tradio, e deploram qualquer poltica
aceitos so passveis de constituir, portanto,            (mormente o socialismo) que alegue um co-
uma importante fora na organizao da vida               nhecimento definitivo das necessidades huma-
deles em sociedade.                                       nas. Tal conhecimento absoluto no  acessvel
    Ver tambm VALORES.                                   a nenhum observador central e, por conseguin-
                                                          te, a nenhum governo. No obstante, ele existe,
Leitura sugerida: Gibbs, J.P. 1965: "Norms: the pro-
blem of definition and classification"  American
                                                          mas somente difundido na mirade de transa-
Journal of Sociology 70, 586-94  Parsons, T. 1937:        es imprevisveis entre indivduos que vivem
The Structure of Social Action  Raz, J. 1975: Practical   em uma SOCIEDADE ABERTA ou livre. Portanto, o
Reason and Norms  Ullman-Margalit, E. 1977: The           maior nmero possvel de decises deve ser
Emergency of Norms.                                       transferido para o mercado, o qual, em uma
                                MARGARET GILBERT          opo maximizante,  a nica democracia ge-
                                                          nuna. Quando insuficientemente restringida
Nova Direita (New Right) Esta expresso                   por lei ou disposies constitucionais, a demo-
originalmente esquerdista foi adotada de ma-              cracia formal converte-se em um mercado po-
                                                                                    Nova Direita    527


ltico, no qual os votos so negociados contra        retrica neoconservadora, mas a pouco de sua
benefcios de bem-estar, subsdios, privilgios       orientao poltica.
sindicais etc., e o custo, na forma de excessiva
tributao ou inflao ou ambas, recai conjun-        Libertarianismo (ou "anarco-capitalismo")
tamente sobre os membros mais produtivos e os             Esta engenhosa doutrina est largamente
mais fracos e politicamente menos organizados         confinada aos Estados Unidos. Exceto em cin-
da sociedade (Ver tambm ECONOMIA NEOCLS-            cia econmica, a sua influncia sobre o governo
SICA).                                                tem sido mnima. Isso no surpreende, uma vez
                                                      que os libertrios consideram que a maior parte
Neoconservadorismo                                    da ao do estado, salvo fazer respeitar os direi-
   Este ttulo denota duas abordagens um tanto        tos de propriedade,  desnecessria ou ilegti-
divergentes:                                          ma.
                                                          As seguintes prescries so tpicas: aboli-
   1. o conservadorismo representado no Rei-
                                                      o de todas as restries estatutrias referentes
       no Unido pela Salisbury Review (dirigida
                                                      a planejamento, poluio, segurana industrial,
       por Roger Scruton), a qual, no obstante,
                                                      drogas e sexo (a ao pertinente estar a cargo
       abre espao para quase todos os matizes
                                                      das partes interessadas); privatizao de toda a
       de opinio da Nova Direita, e nos Estados
                                                      propriedade e infra-estrutura pblica (como as
       Unidos pela National Review (dirigida
                                                      estradas); privatizao da previdncia social, lei
       por William F. Buckley). Burkeano e
                                                      e ordem e defesa (a serem fornecidas atravs de
       antiindividualista, ele destaca, no os di-
                                                      seguros privados e de agncias de proteo). O
       reitos ou a liberdade abstrata e irrestrita,
                                                      libertarianismo  o INDIVIDUALISMO em sua for-
       mas o dever, a autoridade, a moralidade,
                                                      ma extrema e sublinha eqitativamente a liber-
       a religio, a tradio, a cultura, a socie-
                                                      dade e a responsabilidade pessoal pelas pr-
       dade e a identidade nacional. Essas coi-
                                                      prias aes. Seus santos padroeiros so John
       sas resistem  traduo para convenin-
                                                      Locke e Ludwig von Mises, e seu princpio
       cias de "mercado" e so, assim, objetos
                                                      fundamental  o slogan do romancista-filsofo
       adequados de preocupao poltica, es-
                                                      norte-americano Ayn Rand, "Hands off!" (Ti-
       tando sob ameaa tanto por parte do ca-
                                                      rem as mos!) (A mxima tambm se aplica 
       pitalismo desenfreado e das doutrinas
                                                      poltica externa libertria, que  isolacionista.)
       liberais que o promovem quanto do so-
                                                      Outras figuras representativas so Murray Ro-
       cialismo. Sobretudo nos Estados Unidos,
                                                      thbard e Robert Nozick.
       alguns pensadores desse cunho (como
       Russell Kirk) idealizam a pequena COMU-        Anticomunismo francs e europeu oriental
       NIDADE agrria sob governo patrimonial
       ou aristocrtico.                                  H numerosos elos entre essas duas con-
                                                      cepes: (1) o existencialismo continental; (2)
   2. O ethos do jornal judaico Commentary,           a experincia do marxismo (ou como antigos
       de Nova York, que  anticomunista, fe-         crentes ou como seus sditos); (3) a influncia
       rozmente patritico, "falco" em ques-         de Alexandre Soljenitsyn (especialmente O ar-
       tes internacionais (sobretudo no que se       quiplago Gulag). Os nouveaux philosophes
       refere a Israel) e geralmente liberal ou       franceses (como B-H. Lvy e A. Glucksmann)
       social-democrata em questes internas.         so, em sua maior parte, antigos estudantes
       Descendentes, com freqncia, de imi-          radicais de 1968 que, ao rejeitarem Marx, Sartre
       grantes desesperadamente pobres, os            e a tradio revolucionria francesa, aderiram
       membros desse crculo tm compreensi-          um tanto ingenuamente a um misto do neolibe-
       velmente uma perspectiva urbana, escas-        ralismo e do neoconservadorismo descritos aci-
       sa nostalgia pela tradio e grande res-       ma. A Nova Direita da Europa Oriental pode ser
       peito pelo capitalismo, em virtude da ri-      dividida entre os mais velhos ex-comunistas
       queza e mobilidade social que este gera.       emigrs (como o filsofo polons Leszek Ko-
   Nos intervalos de seus experimentos econ-         lakowski e o escritor Czeslaw Milosz), que hoje
micos (que tm sido predominantemente neoli-          so, em sua maioria, neoliberais ou sociais-de-
berais), os recentes governos norte-americanos        mocratas, e os dissidentes mais jovens. Estes
e britnicos tm recorrido at agora a muito da       ltimos so predominantemente neoconserva-
528    nova economia clssica


dores de simpatias mais populares do que aris-           ferncias, determinados dotes iniciais e acesso
tocrticas que, depois da derrocada do imprio           a determinada tecnologia, cada um dos quais
sovitico, obtiveram quase todos posies de             otimizou seus objetivos (utilidade pblica ou
considervel poder em seus diversos pases.              lucro) em mercados competitivos na base de
(Talvez o mais notvel deles seja o dramaturgo           preos paramtricos. Os prprios preos eram
Vclav Havel, que se tornou presidente da                ento determinados pela interao de todos os
Tchecoslovquia). Preocupados com questes               indivduos em conjunto, ou seja, pela oferta e
culturais e religiosas, eles desconfiam visceral-        procura. Se os mercados so competitivos, se,
mente de toda a poltica instrumental dirigida           portanto, oferta e procura no esto equilibra-
para determinadas metas, embora seja duvidoso            das, as flutuaes nos preos levaro indivduos
se as condies recm-democrticas em que                otimizantes a alterar suas aes e, por conse-
vivem lhes permitiro continuar a faz-lo por            guinte, ofertas e procuras. Somente quando a
muito tempo. Para eles, a poltica dirigida para         oferta e a procura esto equilibradas  que os
metas inclui no s o comunismo, mas tambm              preos deixam de flutuar; em tal situao, os
a sociedade de consumo ocidental e at o mis-            preos so preos em "equilbrio" e considera-
ticismo eslavfilo que Soljenitsyn (quanto ao            se que "estabilizam" o mercado. A teoria eco-
mais uma figura admirada) promove contra                 nmica baseada em indivduos otimizantes e
ambos.                                                   preos de concorrncia em estado de equilbrio
    Essas vrias doutrinas constituem o credo            estacionrio foi chamada, por J.M. Keynes de
positivo de apenas uma minoria e ainda so,              "economia clssica", para designar a concep-
com muita freqncia, insultadas (especial-              o da qual ele estava tentando escapar na
mente por littrateurs no-familiarizados com            dcada de 30. Tambm  conhecida como teoria
os minuciosos argumentos usados para sus-
                                                         pr-keynesiana e teoria walrasiana.
tent-las). No obstante, a Nova Direita, de mo-
mento, arrebatou completamente a iniciativa ao               Uma implicao desse corpo terico  que
socialismo e logrou, por fim, esvaziar as su-            produo, emprego e salrios reais so determi-
posies seculares e antes inexpugnveis que             nados pelo mercado de trabalho. Um empres-
constituam parcela no pequena de seus atrati-          rio que pretenda maximizar o lucro contratar
vos. Mas, apesar de tudo isso, os fatores real-          mo-de-obra at o ponto em que a receita obtida
mente cruciais no eclipse do socialismo foram            com a venda do produto fabricado pela ltima
os seus antecedentes histricos. A Nova Direita          pessoa contratada seja igual ao salrio pago a
ainda tem que passar por esse teste, ou mesmo            essa pessoa (o produto marginal iguala o salrio
enfrent-lo abertamente, apesar do fato de mui-          real); um indivduo maximizando a utilidade
tas de suas prescries polticas j terem tido          fornecer mo-de-obra at que sua taxa psico-
dramticas (e discutveis) conseqncias a cur-          lgica de cmbio entre lazer e horas trabalhadas
to prazo.                                                corresponda exatamente ao que  ganho em
                                                         termos de mercadorias pelo trabalho de uma
Leitura sugerida: Friedman, M. e Friedman, R. 1962:      hora extra (taxa marginal de substituio de
Capitalism and Freedom  Havel, Vclav et al. 1967:
                                                         lazer por consumo igual ao salrio real). Em um
Vclav Havel or Living in Truth, org. por J. Vladislaw
 Hayek, F.A. 1944 (1962): The Road to Serfdom 
                                                         mercado de trabalho competitivo, as flutuaes
1960: The Constitution of Liberty  Kirk, Russell, org.   no salrio real ordenaro o mercado e o equil-
1982: The Portable Conservative Reader  Nozick, R.       brio na demanda e oferta de mo-de-obra 
1974: Anarchy, State and Utopia  Oakeshott, Michael      ento suficiente para determinar a produo
1962 (1974): Rationalism in Politics and Other Essays    agregada obtida. Finalmente, dadas as insti-
 Popper, Karl R. 1945 (1966): The Open Society and
its Enemies  Scruton, Roger 1980 (1984): The Mea-        tuies e disposies monetrias vigentes, com
ning of Conservatism  org . 1 98 8: Conservative         a produo determinada no mercado de traba-
Thought. Essays from the Salisbury Review.               lho, a oferta de dinheiro serve para determinar
                                     ROBERT GRANT        o nvel de preos e a taxa de juros iguala a oferta
                                                         e procura de fundos emprestveis. Esta  a
nova economia clssica Na esteira da revo-               dicotomia clssica: as variveis reais so deter-
luo marginalista da dcada de 1870, a es-              minadas no mercado de trabalho e as variveis
trutura da ortodoxia econmica constitui um              monetrias, pela teoria quantitativa de moeda.
conjunto de indivduos com determinadas pre-             E talvez a sua mais impressionante implicao
                                                                        nova economia clssica       529


seja que todo desemprego  necessariamente         da mudana. Por conseguinte, no se pode es-
voluntrio.                                        perar que os parmetros dos modelos macroe-
    Keynes rejeitou essa anlise na dcada de 30   cnomicos permaneam invariantes quando a
e a substituiu por uma macroeconomia com           poltica muda e, assim, os modelos existentes
mercados interdependentes em que as quanti-        no podem ser usados para avaliar os efeitos de
dades se ajustavam mais depressa do que os         tais mudanas. A influncia dessa crtica alcan-
preos, e com interveno governamental para       a todas as escolas da macroeconomia contem-
impedir um equilbrio com desemprego invo-         pornea de base micro.
luntrio (ver tambm KEYNESIANISMO). Embora            A segunda proposio  o resultado da inva-
os detalhes tericos continuem sendo objeto de     rincia poltica. Como os indivduos otimizam
contnua controvrsia, a era do ps-guerra foi     e se presume o pleno equilbrio, as alteraes
de evidente sucesso keynesiano em adminis-         previsveis na oferta de dinheiro no podem ter
trao macroeconmica. Entretanto o fim do         efeito na produo ou emprego reais, cujo com-
boom do ps-guerra coincidiu com o fim desse       portamento no  afetado por qualquer poltica
sucesso, e as inovaes keynesianas comea-        contracclica previsvel das autoridades mone-
ram a ser questionadas. Particularmente im-        trias. Somente movimentos imprevistos no es-
portante foi o divrcio entre a macroeconomia      toque monetrio podem afetar a produo; eles
keynesiana convencional e qualquer funda-          criam flutuaes aleatrias na produo em
mentao no comportamento de indivduos no         torno do nvel de pleno emprego. A dicotomia
nvel microeconmico. Este ltimo foi crescen-     clssica  assim reproduzida.
temente enfatizado no final da dcada de 60 e          A terceira proposio refere-se ao modo co-
durante toda a dcada de 70.                       mo se entende o DESEMPREGO. Os indivduos
    Dois caminhos foram adotados para os fun-      otimizantes formulam juzos sobre se as mu-
damentos microeconmicos da macroecono-            danas de preos percebidas so temporrias ou
mia. Ambos retiveram o ponto de partida de         permanentes. No primeiro caso, existem opor-
indivduos otimizantes, mas um deles conside-      tunidades de arbitragem que sero exploradas.
rou esses indivduos operando em mercados          Logo, os indivduos especulam intertemporal-
imperfeitamente competitivos nos quais os pre-     mente e assumem mais lazer quando o preo
os de mercado em equilbrio estacionrio no      deste  inferior. O chamado desemprego invo-
eram necessariamente estabelecidos, enquanto       luntrio  apenas uma substituio intertempo-
que o outro fez uma virtude dos pressupostos       ral maximizante da utilidade do trabalho pelo
walrasianos clssicos de concorrncia perfeita     lazer.
e nenhuma transao fora do equilbrio, portan-        A nova teoria clssica foi muito influente
to, com ajustes instantneos para o pleno equi-    nas dcadas de 70 e 80, em suas implicaes de
lbrio. A essa ltima abordagem chama-se "no-      LAISSEZ-FAIRE e nfases do lado da oferta predo-
va macroeconomia clssica", macroeconomia          minantes nos pases capitalistas avanados.
walrasiana ou, por vezes, de forma ligeiramente    Mas os resultados da nova economia clssica
equvoca, "macroeconomia de expectativas ra-       so crucialmente dependentes da suposio
cionais" (ver tambm EXPECTATIVAS RACIONAIS,       walrasiana de equilbrio estacionrio do merca-
HIPTESE DAS), e est especialmente associada     do e do ponto de partida de indivduos otimi-
obra de Robert E. Lucas e Thomas J. Sargent        zantes. Os economistas de outras correntes do-
nos Estados Unidos.                                minantes rejeitam a primeira, e os economistas
    A abordagem tem muitas e bvias seme-          marxistas e de outras tendncias radicais tam-
lhanas com a teoria pr-keynesiana, mas          bm rejeitam o segundo.
muito rigorosa e, com freqncia, matematica-
mente exigente em sua anlise detalhada. Trs      Leitura sugerida: Begg, D.K.H. 1982: The Rational
                                                   Expectations Revolution in Macroeconomis  Blan-
proposies se destacam. A primeira  a crtica    chard, O.J., e Fischer, F. 1989: Lectures on Macroeco-
de Lucas  modelao economtrica (ver ECO-        nomics  Hahn, F.H. 1984: Equilibrium and Macroeco-
NOMETRIA). Se os indviduos otimizam, ento        nomics, caps.15/16  Lucas, R.E. 1981: Studies in
deve ser-lhes permitido levar em conta as mu-      Business Cycle Theory  Sargent, T.J. 1987: Macroeco-
danas na poltica do governo; e, assim, no novo   nomic Theory, 2ed.  Sheffrin, S.M. 1983: Rational
equilbrio conseqente de uma mudana de po-       Expectations.
ltica, o comportamento no ser o que era antes                                         SIMON MOHUN
530   Nova Esquerda


Nova Esquerda (New Left) Expresso des-                 Ao mesmo tempo houve um renascimento
critiva aplicado de modo mais ou menos impre-       geral do pensamento marxista em filosofia e
ciso a uma grande variedade de doutrinas pol-      cincias sociais, influenciado pelos primeiros
ticas e movimentos sociais que surgiram no          escritos de Georg Lukcs e Antonio Gramsci,
final da dcada de 50, depois da insurreio de     agora redescobertos e amplamente lidos, pe-
1956 na Hungria, em seguida registraram forte       lo novo marxismo "estruturalista" de Louis
desenvolvimento durante a dcada de 60, so-         Althusser e pelas idias da ESCOLA DE FRANK-
bretudo em oposio  interveno norte-ame-        FURT de teoria crtica. Estas ltimas exerceram
ricana no Vietn e  ocupao militar da Tche-      provavelmente a maior influncia atravs dos
coslovquia por pases do Pacto de Varsvia. A      escritos de Herbert Marcuse, nos Estados Uni-
Nova Esquerda juntou em uma aliana irrequie-       dos, Theodor Adorno, Max Horkheimer e (na
ta diversos movimentos sociais -- estudantes        segunda gerao) Jrgen Habermas, na Alema-
radicais, setores do movimento pacifista e os       nha. Suas obras ventilaram muitos dos mais
primeiros movimentos feministas e ecolgicos        agudos problemas enfrentados pelos movimen-
-- com intelectuais de origens e orientaes        tos radicais nos anos 60: o papel poltico da
extremamente variadas, incluindo comunistas         classe trabalhadora em relao aos novos mo-
dissidentes, anarquistas, socialistas de esquerda   vimentos sociais que no tinham por base uma
e crticos culturais.                               classe; o poder da cultura e da ideologia de
    Uma grande riqueza de idias floresceu nes-     massa na sustentao das estruturas de domina-
ses movimentos, entre elas duas que tinham um       o, e sua conexo com a orientao cientfica
                                                    e tecnolgica das sociedades modernas e a ne-
atrativo mais ou menos universal: "democracia
                                                    cessidade de uma anlise crtica da base do
participativa" e crtica radical do que era cha-
                                                    socialismo autoritrio-burocrtico. Mas a pr-
mado "o sistema". Eram idias estreitamente
                                                    pria crtica se tornou mais multiforme e, entre
relacionadas, uma vez que a democracia parti-
                                                    a gerao mais velha de pensadores, cada vez
cipativa significava o pleno e contnuo envol-
                                                    mais pessimista e no-poltica, engajada em
vimento de todos os indivduos na tomada de         uma desesperada crtica cultural em que as
decises que afetassem suas vidas, enquanto         esperanas de surgimento de uma "contracultu-
que o sistema que estava sendo contestado era       ra" eram cada vez mais tnues. Seja como for,
elitista e exclua os que lhe estavam subordina-    o marxismo em suas formas revividas e diver-
dos de qualquer papel efetivo no controle ou        samente reconstrudas foi apenas uma das
determinao de suas polticas. A universali-       influncias intelectuais (sobretudo entre os
dade dessas idias era ilustrada de forma im-       estudantes) da Nova Esquerda, a par do anar-
pressionante por sua difuso tanto nos pases de    quismo, do socialismo utpico e das novas
"socialismo real" quanto em pases capitalistas,    idias da ecologia e do feminismo.
refletindo o fato de em ambos os tipos de socie-        A Nova Esquerda alcanou o apogeu de seu
dade prevalecerem formas elitistas de domina-       desenvolvimento nos Estados Unidos no final
o, quer a das grandes empresas e do "com-         da dcada de 60, no movimento pelos direitos
plexo militar-industrial", quer a dos funcion-     civis e na oposio  guerra do Vietn, na
rios e burocratas do Partido, com excluso de       Europa em 1968, com a generalizao dos pro-
qualquer participao genuna dos cidados co-      testos estudantis, especialmente o "movimento
muns. Somente na Iugoslvia (e, por curto pe-       de maio" na Frana, e com a "primavera de
rodo, na China, onde as comunas agrcolas e a      Praga" na Tchecoslovquia. Depois a sua in-
"revoluo cultural" foram vistas por alguns        fluncia diminuiu gradualmente, sendo o come-
como a materializao da poltica de envolvi-       o de seu declnio marcado pelo fracasso dos
mento popular na tomada de decises) seriam         movimentos estudantis na Frana, Alemanha
observados elementos de democracia participa-       Ocidental e em outros pases em levar a efeito
tiva no sistema de autogesto, e a experincia      substanciais mudanas sociais, e pela supresso
iugoslava, tal como foi interpretada e discutida    do movimento de reforma tchecoslovaco em
principalmente pelo grupo Praxis de filsofos       agosto de 1968, embora as suas idias tenham
e socilogos (Markovic e Cohen, 1975), tor-         contribudo para o xito final dos movimentos
nou-se importante influncia em alguns setores      de oposio na Europa Oriental em 1989. A sua
da Nova Esquerda.                                   ulterior desintegrao nos pases capitalistas
                                                                                Nova Esquerda       531


ocidentais, durante a dcada de 80, teve co-       tal durante a dcada passada e surgiram mais
mo contrapartida um forte restabelecimento de      recentemente na Europa Oriental.
doutrinas conservadoras na NOVA DIREITA. No
obstante, embora a Nova Esquerda como amplo        Leitura sugerida: Caute, David 1988: Sixty-Eight: the
                                                   Year of the Barricades  Habermas, Jrgen 1968-9
movimento tivesse deixado de existir, alguns
                                                   (1970): Toward a Rational Society  Jacobs, Paul e
dos seus elementos componentes continuaram         Landau, Saul, orgs. 1966: The New Radicals: a Report
a se desenvolver sob outras formas, em particu-    with Documents  Marcuse, Herbert 1964: One-Di-
lar atravs dos movimentos pacifistas, feminis-    mensional Man  Markovic, Mihailo e Cohen, Robert
tas e ecolgicos, e a idia central de "democra-   S. 1975: Yugoslavia: the Rise and Fall of Socialist
cia participativa" est longe de ter esgotado a    Humanism  Touraine, Alain 1968: Le communisme
sua influncia, sobretudo nos partidos verdes      utopique. Le mouvement de mai.
que cresceram rapidamente na Europa Ociden-                                          TOM BOTTOMORE
                                              O
observao participante Neste mtodo, o                   cilogo, na medida em que o pesquisador tem
investigador est envolvido no sistema de re-             que estar em contato com os objetos de estudos
laes, na comunidade ou na organizao que               e compreender suas orientaes e sensibilida-
estuda. Os esforos do socilogo para participar          des. Qualquer investigao dessa natureza en-
das experincias dos atores levam-no a se as-             volve o pesquisador em uma relao com as
sociar a eles em suas vidas cotidianas e, ocasio-         pessoas ou a sociedade sob observao, e isso
nalmente, a se tornar um deles. A maioria dos              tambm um relacionamento social. Por outro
estudos antropolgicos recorre a esse mtodo,             lado, a observao participante no fornece os
visto ser importante que o pesquisador seja               meios para controlar as tcnicas que o pesqui-
aceito e reconhecido pelos que so estudados e            sador usa ou as mudanas no objeto de estudo
que pertencem a uma diferente cultura. Por                introduzidas pela prpria presena do pesquisa-
vezes,  um membro do prprio grupo estudado              dor. Este, com freqncia, tem status social
que se torna um socilogo. Na vasta esfera de             superior ao dos atores estudados, e a busca de
influncia da ESCOLA SOCIOLGICA DE CHICAGO,              um relacionamento estreito no impede neces-
algumas importantes monografias de sociolo-               sariamente os preconceitos etnocntricos. Ou o
gia concederam um lugar de destaque  obser-              socilogo pode identificar-se como os atores e
vao participante. Por exemplo, F.W. White               ser convertido em seu defensor e idelogo, mais
pde descrever e analisar a vida de gangues de            ou menos manipulado pelo grupo. A observa-
adolescentes ao participar da vida dos habi-              o participante pode apresentar-se como uma
tantes de um subrbio italiano pobre de uma               fase necessria do estudo, mas sem ser um
cidade norte-americana. Alm disso, tentou de-            mtodo idneo para o todo, uma vez que no 
rivar alguns princpios gerais a partir desse             independente da sociologia espontnea dos su-
mtodo, como preferir poucos informantes re-              jeitos e das distores que isso introduz, que ela
gulares, no pretender a total assimilao e               incapaz de avaliar ou controlar.
evitar qualquer interveno direta nos assuntos               Entretanto, apesar desses pontos fracos me-
do grupo. O mtodo tem sido usado em vrios               todolgicos, muitas das mais convincentes
campos. Os primeiros estudos de sociologia do             obras de sociologia usam esse mtodo de pes-
trabalho na fbrica da Western Eletrics utiliza-          quisa como base. Nesses casos, o socilogo ou
ram esse mtodo. Na dcada de 60, novos mo-               antroplogo empreendeu a anlise e crtica de
vimentos tericos, empenhados em compreen-                seus prprios valores e antecedentes culturais,
der a interao social e o processo de ROTULA-            e empregou o mtodo com talento e, sobretudo,
O, insuflaram novo mpeto no mtodo de                  com o desejo de se considerar tambm a si
observao participante. H.S. Becker estudou              prprio como o objeto da pesquisa.
alguns tipos de comportamento marginal com-                   Ver tambm ETNOMETODOLOGIA; ANTROPOLO-
partilhando a experincia de certo nmero de              GIA; SOCIOLOGIA.
grupos e Erving Goffman, principalmente, re-
novou a anlise e descrio da interao e do             Leitura sugerida: Becker, H.S. 1963: Outsiders: Stu-
"espetculo" sociais quando se tornou um                  dies in the Sociology of Deviance  Goffman, E. 1961:
                                                          Asylums: Essays on the Social Situation of Mental
membro pleno na vida cotidiana das trocas.                Patients and Other Inmates  1967: Interaction Ritual.
    O status metodolgico da observao parti-            Essays in Face-to-Face Behavior  Lewis, O. 1961:
cipante est longe de ser bvio. Por um lado, a           The Children of Sanchez: Autobiography of a Mexican
observao participante  essencial para o so-            Family  Roethlisberger, F.J., e Dickson, W.J. 1939


                                                    532
                                                                                                 cio   533

(1961): Management and the Workers: an Account of a        dvida, uma esfera de luta social, cultural e
Research Program Conducted in the Western Eletrics         poltica.
Company, Hawthorne Works, Chicago  Whyte, W.F.
1943 (1965): Street Corner Society: the Social Structure
                                                               Os verdadeiramente "ociosos" eram os que
of an Italian Slum  1951: "Observational field-work        no tinham necessidade de trabalhar: a elite
methods". In Research Methods in Social Relations:         privilegiada para quem uma vida de cio era um
with Special Reference to Prejudice, org. por Jahoda,      srio projeto de vida e a faculdade de exercer
p.496-501.                                                 uma atividade "quando lhe for mais conve-
                                    FRANOIS DUBET         niente" era sinal de status. Esse sentido de cio
                                                           como meio de consumo conspcuo informou o
cio Mesmo no pensamento grego, a noo                    primeiro tratado genuinamente sociolgico so-
de cio estava articulada  de trabalho; para              bre cio, a satrica obra de Thorstein Veblen A
Aristteles, o cio era um assunto deveras srio:          teoria da classe ociosa (1989).
"Realizamos negcios a fim de poder desfrutar                  O "problema" do cio tem sido regular-
do cio", escreveu ele. Nesse sentido, o cio             mente redescoberto, em geral durante pero-
um estado ideal a que o cidado pode aspirar,              dos de agitao potencialmente disseminada ou
no qual viver uma vida de cio pressupe redu-             DESEMPREGO. Na dcada de 20 uma gama fasci-
zir ao mnimo as necessidades e assegurar o                nantemente ampla de autores norte-america-
mximo possvel de tempo livre (Barrett, 1989,             nos esteve preocupada com o cio. Hunnicutt
p.14).                                                     (1988) descreve uma figura conservadora como
    O TRABALHO, a partir do sculo XIV, estava             a que considera o cio "o mais srio problema
ficando mais estritamente definido como tempo              educacional e social" da dcada de 20, e cita
pago, como tarefa medida e contratada me-                  outro comentarista da poca: "Alfred Lloyd, um
diante salrio, e as atividades de tempo ocioso            socilogo da Universidade de Michigan, pen-
eram vistas como as espcies de atividade a que            sou que o cio era essencialmente um caminho
uma pessoa poderia dedicar-se longe das obri-              para a cultura democrtica" (p.104). Esses re-
gaes de trabalho. Mas no decisivo perodo de             formadores bem-intencionados enxertaram um
transio que criou os alicerces da moderna                idealismo humanista no modelo de recreao
sociedade industrial (na Gr-Bretanha, pelo                racional. Outros, como Hunnicutt tambm ob-
menos) era evidente que a relao entre trabalho           serva (1988, p.130), viram o cio como criati-
e cio podia estar bem longe de ser harmoniosa             vidade: "A sociedade tinha que fornecer aos
e para muitos adeptos fervorosos da nova ordem             indviduos a oportunidade de serem criativos e
industrial o cio era um problema potencial. Se            de encontrarem um modo prtico de dirigir os
os novos trabalhadores industriais exibissem               impulsos sexuais para formas criativas. O cio
inicialmente os costumes recreativos e ociosos             ofereceu essa oportunidade."
da cultura pr-industrial, as formas desejadas da              Na Gr-Bretanha, o movimento trabalhista
nova disciplina de trabalho poderiam muito                 nessa poca viu o cio mais em tenso com
bem estar ameaadas. Foi esse o motivo pelo                o dinheiro do que com os impulsos sexuais
qual a supresso e a marginalizao das for-               (Cross, 1986). Nos anos 20 os sindicalistas dos
mas recreativas tradicionais foram um dos re-              Correios perceberam a "distribuio de cio e
quisitos preliminares da nova ordem industrial             o aperfeioamento da vida" como "mais vitais
(Thompson, 1967). Considerou-se que novas                  que o dinheiro". Os grficos adotaram o mesmo
formas de trabalho e de existncia cotidiana               ponto de vista e os pintores defenderam um
exigiam novas formas de cio: para os traba-               pacto tripartite: prolongada educao antes do
lhadores, a recreao racional (formas respei-             ingresso no mercado de trabalho, semana de
tveis e, com freqncia, edificantes de ativi-            trabalho mais curta e frias pagas (Jones, 1986).
dade no ligada ao trabalho) foi desenvolvida              No perodo que se seguiu ao fim da Primeira
pelas classes reformadoras como uma resposta               Guerra Mundial o sindicalismo obtivera para
(Bailey, 1978): para a burguesia vitoriana emer-           seus membros consideravelmente mais tempo
gente, havia possibilidades cada vez mais am-              livre e em 1920, 7 milhes de trabalhadores na
plas no crescente mercado de consumo (Camp-                Gr-Bretanha tinham conseguido uma reduo
bell, 1987). Entretanto a atividade ociosa no              de seis horas e meia na semana de trabalho,
comeo do perodo industrial moderno era, sem              enquanto que a 1,5 milho de trabalhadores era
534   oligarquia


concedido o direito a frias pagas. A legislao         sexo masculino (McIntosh, 1981, p.93 ss.;
sobre frias pagas foi promulgada em 1938.               Wimbush e Talbot, 1988); e de perspectivas
    O declaradamente desocupado sempre foi               crticas (Horne et al., 1987; Rojek, 1989).
alvo de alguns reformadores sociais. O cres-                 Afirmou-se convincentemente que os teri-
cente desemprego na Gr-Bretanha na dcada               cos sociais formativos da era moderna estavam
de 80 provocou apreenses, e foram desenvol-             preocupados no apenas com o capitalismo e o
vidos programas de lazer que pudessem com-               processo de trabalho, mas tambm, embora de
pensar a falta de trabalho e at promover formas         forma implcita, com a natureza do cio (Rojek,
de responsabilidade social e comunitria. En-            1985). Os debates sobre ps-modernismo e glo-
tretanto,                                                balizao focalizam o cio; o consumidor con-
   raramente se concretizaram as esperanas de confiar   temporneo constri o apropriado estilo ocioso
   a implementao de programas a lderes desempre-      de vida  sua moda fragmentadamente livre
   gados pagos ou voluntrios. Os desempregados, se-     (Rojek, 1990) -- no lar ou em qualquer parte
   gundo parece, tm coisas mais importantes a fazer     do mapa turstico do mundo (Urry, 1990). As
   com o seu tempo livre -- ou levam umas vidas to      indstrias do lazer e da cultura so, na verdade,
   amorfas que se sentem incapazes de assumir qual-      um grande negcio que desafia os cientistas
   quer espcie de compromisso. (Glyptis, 1989, p.157)   sociais a reverem velhos modelos da dinmica
    Na esfera educacional, os jovens da classe           produo/consumo e, em particular, o processo
trabalhadora tm sido freqentemente vistos              de consumo (Tomlinson, 1990 e 1991; Warde,
como um problema potencial (Clark e Critcher,            1990). (Ver tambm SOCIEDADE DE CONSUMO;
1985, p.129):                                            CULTURA DE MASSA.) Essas questes tambm
   em resposta, para os dirigentes preocupados, a edu-   cristalizam debates sobre liberdade e coero,
   cao para o cio tem como objetivo ampliar a mente   mediao e estrutura. Seria o cio uma esfera
   dos jovens, apresentando-lhes oportunidades para      em que temos liberdade de escolha? Caso no
   um cio construtivo, e fornecer as aptides sociais   seja, qual  a natureza das coeres sobre as
   necessrias para tirar proveito das possibilidades    nossas escolhas? O estudo do cio pode ser uma
   existentes.                                           forma de anlise tanto poltica quanto social,
    A retrica do cio tem sido freqentemente           elucidando processos e relaes de poder e
individualista, mas, ironicamente, a preocupa-           privilgio. A ordem social no  mantida coesa,
o com o cio levou os comentaristas liberais           ameaada ou negociada exclusivamente no lo-
a adotar com freqncia o tom paternalista do            cal de trabalho, mas tambm no cio (Elias e
moralismo crtico. David Riesman apontou pa-             Dunning, 1986), em que novas identidades po-
ra "os melhores dos nossos estudantes univer-            dem ser procuradas e a autonomia cultural local
sitrios" como exemplos de um admirvel uso              pode expressar-se (Finnegan, 1989; Bishop e
do tempo de lazer -- em seu "srio interesse por         Hoggett, 1986; Willis et al., 1990); em que
questes correntes, por leitura e companhei-             podem ajustar-se transaes entre interesses
rismo, e freqentemente um forte interesse pela          contestados e grupos contestadores; em que
msica, teatro, literatura e natureza" (Riesman,         desigualdades podem ser reproduzidas e for-
1964, p.190-1).                                          mas de autoridade reafirmadas.
    Uma importante nfase sociolgica na rela-           Leitura sugerida: Barrett, Cyril 1989: "The concept of
o trabalho-cio incentivou considervel so-            leisure: idea and ideal". In The Philosophy of Leisure,
ma de debates e pesquisas (Parker, 1976; Ro-             org. por Cyril Barrett e Tom Winnifrith  Clarke, John
berts, 1981), e poucos especialistas discorda-           e Critcher, Chas 1985: The Devil Makes Work: Leisure
riam da afirmao de que "o estudo do tempo              in Capitalist Britain  Finnegan, Ruth 1989: The Hid-
                                                         den Musicians: Music-making in an English Town
de cio deve (...) ser abordado dentro do contex-         Rojek, Chris, org. 1989: Leisure for Leisure: Critical
to da reduo da semana de trabalho, assim               Essays  Wimbush, Erica e Talbot, Margaret, orgs.
como das normas sociais que lhe esto as-                1988: Relative Freedoms: Women and Leisure.
sociadas e do desejado equilbrio entre trabalho,                                           ALAN TOMLINSON
famlia e lazer" (Pronovost, 1989, p.57). Al-
gumas das mais inovadoras anlises sociais               oligarquia Tal como originalmente definido
do cio foram feitas desde um ponto de vista             por Plato e Aristteles, esse termo para desig-
feminista, desafiando freqentemente as pr-             nar o governo por poucos, baseado em geral na
prias categorias empregadas por socilogos do            posse de riqueza, era contrastado com monar-
                                                                                          ontologia     535


quia (governo por uma nica pessoa) e demo-          conseqncias do crescimento da administra-
cracia (governo pelo povo). No pensamento            o burocrtica que ocorreram os recentes es-
social moderno, o termo foi amplamente deslo-        tudos crticos da oligarquia e, mais freqente-
cado pelo de elite (ver ELITES, TEORIA DAS), em-     mente, das elites.
bora referncias a tendncias oligrquicas ainda
sejam feitas ao se analisar a estrutura de poder     Leitura sugerida: Beetham, David 1981: "Michels
                                                     and his critics". European Journal of sociology 22.1,
em organizaes de vrios tipos.                     81-99  Brym, Robert J. 1980: Intellectuals and Poli-
    O uso mais conhecido do termo do pensa-          tics  Michels, Robert 1911 (1962): Political Parties: a
mento social do sculo XX  por Robert Mi-           Sociological Study of the Oligarchical Tendencies of
chels (1911), o que afirmou, a partir do seu         Modern Democracy  Mommsen, W.J. 1981: "Max
estudo do Partido Social-Democrata alemo,           Weber and Robert Michels: an asymmetrical partner-
                                                     ship". European Journal of Sociology 22.1, 100-16.
que uma ntida distino entre os principais
dirigentes e a militncia, resultando no governo                                        TOM BOTTOMORE
por poucos, se desenvolveu necessariamente
em todas das grandes organizaes (inclusive         ontologia Podem-se atribuir ao termo dois
socialistas). Esse ponto de vista, formulado co-     sentidos distintos: ou (1) o ramo da filosofia que
mo a "lei de ferro da oligarquia", est clara-       trata da natureza da existncia ou do ser como
mente relacionado com a proposio de Gaeta-         ser, independentemente de quaisquer objetos
no Mosca segundo a qual a "minoria organiza-         existentes (ontologia filosfica); ou (2) as enti-
da" sempre dominar a maioria desorganizada;         dades postuladas ou pressupostas por alguma
e Michels passa depois a examinar as "causas         teoria cientfica substantiva (ontologia cientfi-
tcnicas e administrativas" que produziram tal       ca). O sentido (2) est relativamente livre de
dominao. A concepo de Michels foi ampla-         problemas e pode ser generalizado para contex-
mente derivada dos tericos das elites e se          tos extracientficos. A ontologia filosfica tra-
desenvolveu depois em uma forma particular-          dicional refletiu-se sobre a natureza e as re-
mente antidemocrtica quando ele se tornou           laes entre diferentes espcies de existentes --
adepto de Mussolini e do movimento fascista,         o sentido em que, por exemplo, se poderia dizer
invocando a noo de Max Weber do "lder             que nmeros, mentes e qualidades existem. Im-
carismtico" para explicar a sua nova adeso         manuel Kant e David Hume criticaram tais
(Mommsen, 1981).                                     investigaes como tentativas necessariamente
    A lei de ferro da oligarquia tem sido contes-    indecidveis ou mesmo inexpressivas de trans-
tada de vrias maneiras pelos numerosos crti-       por os limites da experincia possvel e propu-
cos das teorias das elites, com destaque para os     seram uma rejeio da ontologia no apenas nos
pensadores marxistas cuja teoria das classes         estilos praticados por Leibniz ou John Locke,
considera a criao final de uma "sociedade          mas de um modo geral.
sem classes", e por outros que concebem a                Na corrente predominante da filosofia ana-
possibilidade de uma ampliao da democracia,        ltica, a proibio imposta  ontologia tem sido
ou mesmo de uma "democracia participativa"           geralmente sustentada ao longo do sculo XX.
de grande extenso, a qual manteria em cheque        Mas, trabalhando no interior dessa tradio,
as tendncias elitistas e oligrquicas das gran-     Roy Bhaskar afirmou recentemente que a onto-
des organizaes. Entre os ltimos, alguns co-       logia filosfica no precisa ser dogmtica e
mentadores da lei de Michels questionaram a          transcendente, mas pode ser condicional e ima-
opinio de que a organizao se faz necessa-         nente, uma vez que adota como objeto de estudo
riamente acompanhar pela oligarquia, sobretu-        no um mundo distinto daquele que a cincia
do no caso dos partidos socialistas (Beetham,        investiga (um domnio noumnico platnico
1981), e chamaram a ateno para a existncia        ou lockeano-leibnizeano), mas justamente esse
de foras contra-atuantes, de modo que  pos-        mundo desde o ponto de vista do que pode ser
svel, em alguns casos, falar de uma "lei de ferro   estabelecido a seu respeito por a priori con-
da democracia" e, de modo mais geral, de um          dicional ou argumento transcendental. Bhaskar
fluxo e refluxo das tendncias oligrquicas e        afirmou, ademais, que qualquer teoria do co-
democrticas em organizaes polticas e ou-         nhecimento (ver CONHECIMENTO, TEORIA DO)
tras (Brym, 1980, cap.3).  em relao com tais      pressupe uma ontologia do que o mundo deve
tendncias antagnicas e, sobretudo, com as          parecer para que o conhecimento, de acordo
536   operacional, pesquisa


com as descries que lhe so feitas pela teoria,    em sua infncia e muita coisa resta por fazer --
seja possvel. Assim, a teoria humeana de leis       em outras categorias tais como negao ou
causais pressupe, nas palavras de J.S. Mill, que    reflexividade, nos pressupostos tericos de no-
"o que acontece uma vez acontecer de novo,          vas cincias e nos das prticas sociais alm da
sob um suficiente grau de similaridade de cir-       cincia.
cunstncias", ou seja, que existem conjunes            Fora da tradio analtica, o filsofo do ser
constantes ou casos paralelos na natureza.           foi Martin Heidegger. Em um de seus primeiros
    Dessa perspectiva, o dogma ps-humeano           escritos, Sein und Zeit (1927) [O ser e o tempo],
de que os enunciados sobre o ser podem ser           Heidegger argumentou que a ontologia fun-
sempre analisados como declaraes acerca do         damental ou a "cincia" do ser, como inves-
nosso conhecimento do ser  um equvoco --           tigao do ser, era ela prpria dependente do ser
aquilo que Bhaskar chama a "falcia epist-          humano ou Dasein. As filosofias tradicionais
mica". Trata-se, porm, de um equvoco com           esqueceram as caractersticas salientes do ser
conseqncias. No primeiro caso, limita-se a         humano como ser-no-mundo -- desde a nossa
comentar a criao de uma ontologia implcita        manipulao de ferramentas at a autenticidade
-- no dominante (no sculo XX) caso humea-           a respeito da nossa finitude. Em suas obras
no, de eventos atomsticos e sistemas fechados       subseqentes, Heidegger transitou de um in-
-- e a fortiori de um realismo implcito (nesse      teresse pela ontologia para o que se poderia
caso, de um realismo emprico). Em segundo           chamar uma metaontologia -- por exemplo,
lugar, esconde uma estranha inclinao antro-        por que  que existe ser em vez de nada? -- e
pocntrica em filosofias da cincia no-(expli-      para uma meta-histria das pocas do ser, co-
citamente) realistas, subjacentes s quais est o    meando com os meros vestgios de ser nos
que podemos chamar a falcia antropomrfica          pr-socrticos e culminando na era contempo-
-- a anlise do ser em termos do ser humano.         rnea de niilismo e tecnologia. Nesse ponto, a
Em terceiro lugar, coexiste com uma naturali-        sua crtica coincide em grande parte com as
zao esotrica do conhecimento -- por exem-         tradies tericas lukcsianas e crticas do mar-
plo, no caso humano, atravs da reificao de        xismo ocidental. H a interessantes conexes
fatos e do fetichismo de suas conjunes; ou         histricas. Heidegger conhecia a obra de Lu-
seja, com a determinao compulsiva do ser           kcs e Jrgen Habermas iniciou a sua carreira
pelo ser -- na falcia ntica recproca. Final-      filosfica fortemente influenciado por Heideg-
mente, transposto para o domnio social e em         ger, apesar de todo o seu ulterior desdm pela
tom hermenutico, se no lingistificado, o co-      ontologia.
lapso do que os realistas crticos chamam a
                                                     Leitura sugerida: Bhaskar, Roy 1975 (1978): A
"dimenso intransitiva (ou ontolgica)" assu-        Realist Theory of Science, 2ed.  1989: Reclaiming
me a forma da anlise do ser em termos de nosso      Reality  Habermas, Jrgen 1971 (1976): Theory and
discurso sobre o ser -- a falcia lingstica.       Practice  Heidegger, Martim 1927 (1962, 1970):
Com efeito, a falcia lingstica  a forma na       Being and Time  1947 (1971): "Letter on humanism",
qual, em linguagem comum ou FILOSOFIA DA             In Poetry, Language and Thought  Lukcs, G. 1923
LINGUAGEM por um lado, e no pensamento ps-          (1971): History and Class Consciousness.
estruturalista e, mais geralmente, ps-moder-                                           ROY BHASKAR
nista (por exemplo, na "anlise do discurso"),
por outro, a falcia epistmica  mais caracteris-   operacional, pesquisa Ver        CINCIA DA AD-
ticamente cometida.                                  MINISTRAO.
    Em termos substantivos, na ontologia realis-     operariado Ver      CLASSE OPERRIA    e   SINDICA-
ta transcendental, o mundo apresenta-se como         TOS.
estruturado, diferenciado e cambiante. Aplica-
da ao domnio social, essa ontologia requer,         opinio Entre as muitas e diferentes defi-
como naturalismo crtico, uma elaborao adi-        nies, dois elementos so comumente encon-
cional, por exemplo, incorporar o que foi deno-      trados: que as opinies giram em torno de as-
minado a dualidade de estrutura e prxis e uma       suntos controversos ou discutveis e que so
concepo relacional do objeto de estudo da          capazes de justificao racional.
cincia social. No programa de pesquisa realista         O primeiro aspecto crtico  que no se pode
crtica, a ontologia transcendental est apenas      ter uma opinio acerca de um assunto de ver-
                                                                                     organizao      537


dade ou falsidade demonstrvel. No se pode          pela necessidade de lhe dar um expresso irre-
ter a "opinio" de que os trs ngulos de um         torquvel. A prpria atitude  outra idia com-
tringulo so iguais a dois ngulos retos, nem       plexa na qual certos elementos comuns partici-
se pode legitimamente sustentar a opinio de         pam de dezenas de definies detalhadas. O
que a Austrlia no existe. Isso no  to simples   primeiro ponto  que atitudes so estados men-
quanto possa parecer. Deparamo-nos regular-          tais internos, refletidos na inclinao a respon-
mente com a natureza conjectural e probatria        der a estmulos externos de maneira favorvel
do conhecimento, porquanto o universo no  o        ou desfavorvel. As atitudes consubstanciam
lugar determinado e infalvel que muitos su-         uma avaliao bsica do mundo -- uma com-
pem ser. Mesmo dentro de um contexto es-            binao de crenas acerca da "realidade", em
pao-temporal especfico, em que um conjunto         conjunto com julgamentos morais de aprova-
de "fatos" estabelecidos no  seriamente con-       o ou desaprovao, simpatias e averses.
testado e, portanto, no constitui matria de            No existe correlao exata entre o conjunto
opinio, as circunstncias mudam de tal modo         de atitudes de um indivduo e a sua opinio
que o que estava estabelecido pode tornar-se         expressa a respeito de uma situao especfica.
discutvel. Muitos fatos outrora supostamente        Isso porque a opinio pronunciada pode derivar
incontestveis -- por exemplo, a indivisibili-       de duas atitudes possivelmente conflitantes --
dade do tomo -- provaram estar errados. Pode        uma em relao ao prprio estmulo e a outra
muito bem desenvolver-se uma controvrsia            s circunstncias em que deve ser expressa.
sobre se uma questo antes indiscutvel  agora          Ver tambm IDEOLOGIA; PROPAGANDA.
controversa. Muitos que sustentam pontos de
vista sobre matrias controversas negam firme-       Leitura sugerida: Childs, H.L. 1965: Public Opinion:
                                                     Nature, Formation and Role  Lippmann, Walter 1922:
mente a existncia de qualquer coisa que seja        Public Opinion  Petty, R.E. e Cacioppo, J.T. 1981:
sequer remotamente questionvel ou discut-          Attitudes and Persuasion  Qualter, T.H. 1985: Opinion
vel a respeito de suas convices.  questo         Control in the Democracies.
de opinio se um assunto  ou no questo de                                       TERENCE H. QUALTER
opinio. Em uma sociedade cada vez mais so-
fisticada, quando a mais antiga e mais homog-       organizao O ponto de partida para essa
nea ordem de coisas passa a ser desafiada,           noo cada vez mais freqentemente usada nas
amplia-se consideravelmente a gama daquelas          cincias sociais  a analogia entre organismos
sobre as quais podemos ter opinies. Todas as        animados e sociedade. Em biologia, o organis-
novas reas de pensamento, todos os reexames         mo  uma entidade produtora de seres seme-
de ortodoxia suscitam questes de opinio.           lhantes a ele prprio, enquanto que em socie-
    O segundo elemento prope que as opinies        dade a organizao apresenta-se como uma uni-
so os modos de ver capazes de serem aceitos         dade de pessoas e grupos separados pela diviso
como verdadeiros pela mente racional. Isso no       de trabalho mas tambm cooperando mutua-
significa indicar que cada opinio, proposta por     mente.
cada indivduo, tem um fundamento logica-                As organizaes que emergem na sociedade
mente racional. As opinies podem ser adquiri-       podem ser classificadas de muitas maneiras
das de muitas maneiras, dentre as quais as de-       diferentes, e a classificao a ser adotada pode
dues lgicas a partir de premissas objetivas       ser decidida na base das exigncias de uma
ou observaes empricas constituem, por ve-         abordagem de pesquisa especfica. Ferdinand
zes, apenas um fator. Muitos sustentam suas          Tnnies estabeleceu uma diferenciao cls-
opinies por hbito, ou as aceitam com base na       sica entre dois tipos de organizao social que
autoridade de outros. O requisito essencial         ainda esto em uso: Gemeinschaft, que  carac-
que em seu contedo interno elas sejam com-          terizado por se nascer em alguma coisa e nela
patveis com alguma interpretao defensvel         se viver a vida, por exemplo, as comunidades
de dados pblicos, e que possam ser obtidas          aldes e as subculturas tnicas; e Gesellschaft,
pelos processos normais da razo.                    um tipo de organizao que existe por vontade
    Sejam formuladas ou adquiridas, as opi-          consciente dos participantes, onde a filiao 
nies tm suas razes no conceito afim de ati-       normalmente decidida pela livre deciso das
tudes. Uma opinio pode, de fato, ser descrita       pessoas interessadas (ver tambm ESTRUTURA
como uma atitude expressa, talvez modificada         SOCIAL). Uma caracterstica essencial das socie-
538   organizao industrial


dades modernas  a diversidade dessas organi-      tanto, est crescendo nessas organizaes o sig-
zaes, as quais se propagam cada vez mais por     nificado da proteo ambiental e a eliminao
toda a vida social. Tambm podem ser clas-         dos problemas causados pela crise ecolgica
sificadas de numerosos pontos de vista, e isso     (ver tambm SOCIEDADE CIVIL).
constitui um tema importante da teoria da orga-        Organizaes religiosas, as quais so orga-
nizao. As mais importantes diferenciaes        nizadas em parte no seio das igrejas oficiais e
so as seguintes.                                  em parte fora delas. Especialmente importantes
    Organizaes militares, uma forma de orga-     entre as ltimas so as comunidades de base,
nizao muito antiga na histria, na qual se       como indicadoras de um possvel futuro da
afirma uma estreita relao de liderana e su-     religio.
bordinao, embora em tempos recentes a com-            claro, esta lista poderia prolongar-se e,
petncia profissional esteja ganhando terreno e    dentro de cada categoria novas subcategorias
paralelamente com isso os elementos funcio-        poderiam distinguir-se. Em vez disso,  mais
nais estejam sendo reforados a par da cadeia      til sublinhar aqui a significao de dois as-
linear de comando.                                 pectos das organizaes atravs dos quais elas
    Organizaes de trabalho, das quais um tipo    podem ser classificadas e analisadas. Em pri-
principal  a empresa hierarquicamente estrutu-    meiro lugar, o grau de burocratizao da orga-
rada (ver CINCIA DA ADMINISTRAO). Esta for-     nizao (ver tambm BUROCRACIA). Trs grupos
ma  predominante na vida econmica e, como        principais podem ser diferenciados: (a) a orga-
resultado de vrios esforos reformistas, est     nizao burocrtica que  claramente governa-
assumindo um carter cada vez mais humano,         da por subordinao burocrtica; (b) a organi-
perdendo gradualmente sua rigidez original.        zao dicotmica, onde os principais rgos
    Partidos polticos e organizaes polticas.   burocrticos so operados por pessoas leigas;
Nas sociedades ocidentais, o parlamentarismo       (c) a organizao totalmente administrada por
promoveu  categoria da mais importante orga-      pessoas leigas (autogerncia). Em segundo lu-
nizao das sociedades civis os partidos polti-   gar, o relacionamento entre a organizao e o
cos, os quais, na base de eleies gerais, gozam   poder do Estado. Trs tipos principais podem
de maior ou menor participao no poder. Al-       ser tambm diferenciados neste caso: (a) orga-
guns deles no tm a chance de adquirir poder      nizao subordinada ao poder do Estado e iden-
efetivo mas, como instituies para manter o       tificada com ele; (b) organizao em oposio
executivo sujeito  prestao de contas, podem     ao poder do Estado; (c) organizao neutra no
ter um papel relevante na sociedade. Esse papel    tocante ao poder do Estado.
foi especialmente importante no processo de            Ver tambm FORDISMO E PS-FORDISMO; ORGA-
reforma dos pases socialistas, onde a introdu-    NIZAO INDUSTRIAL; COMPORTAMENTO ORGANI-
o do parlamentarismo se defrontou com obs-       ZACIONAL; ORGANIZACIONAL, TEORIA; SISTEMA,
tculos muito srios na constelao do poder.      TEORIA DE.
    Organizaes de proteo de interesse pro-
                                                   Leitura sugerida: Simpson, R.L. 1959: "Vertical and
fissional, das quais a mais tpica forma  a dos   horizontal communication in formal organizations".
SINDICATOS organizados por profisso. Eles de-     Administrative Science Quarterly 4  Tnnies,
sempenham um importante papel no s na            Ferdinand, 1887 (1955): Community and Association 
proteo dos interesses dos trabalhadores mas      Whyte, W.H. 1960: The Organization Man.
tambm como mediadores entre os detentores                                         ANDRS HEGEDS
do poder e as massas. Na URSS, o stalinismo
enfatizou somente o papel de mediador dos          organizao industrial Esta denominao
sindicatos, mas no decorrer de recentes refor-     engloba a anlise sistemtica das empresas co-
mas o papel de proteo de interesses est au-     merciais ou industriais e os agrupamentos de
mentando e contra a organizao na base de         tais empresas. Essa anlise inclui, grosso modo:
setores econmicos adquire maior destaque o        (1) aquisio, organizao e apresentao de
princpio de organizao profissional.             dados; (2) teoria econmica, freqentemente
    Organizaes de proteo de interesses lo-     expressa em uma forma matemtica ou elegan-
cais, as quais esto freqentemente ligadas       temente literria ou geomtrica; e (3) anlise
conservao de monumentos histricos na base       estatstica ou economtrica (ver ECONOMETRIA),
do patriotismo local. Mais recentemente, entre-    envolvendo testes dessa teoria econmica sobre
                                                                       organizao industrial     539


os dados requeridos. Um sinnimo comum para        mente analisada de acordo com duas dimen-
organizao industrial  economia industrial, a    ses, a saber, o grau de diferenciao do produto
qual deixa claro que o objeto de estudo  a        (isto , na medida em que os produtos produzi-
indstria estudada do ponto de vista do eco-       dos so homogneos ou se distinguem por pe-
nomista.                                           quenas variaes de design, embalagem ou lo-
    O estudo de uma indstria envolve a busca      calizao) e a extenso e natureza das inter-
de regularidades no comportamento tanto de         aes entre firmas. Assim, a competio perfei-
cada empresa, em suas mltiplas formas, quan-      ta diz respeito a situao em que muitas firmas,
to do conjunto de tais empresas que constitui      todas produzindo um artigo homogneo, no
uma indstria. Ou seja, interessa-se pela firma    esto em interao significativa. O oligoplio
no nvel individual e pelas variedades de com-     heterogneo diz respeito a situaes em que
petio no nvel de grupo. Tal anlise no est    poucas firmas, produzindo produtos diferena-
confinada s economias industrializadas ou ca-     dos, esto em interao significativa. Natural-
pitalistas, mas abrange tambm as economias        mente, os mtodos empregados para analisar a
central ou indicativamente planejadas em v-       primeira so mais simples do que para o segun-
rios estgios do desenvolvimento econmico.        do, e o progresso da teoria da organizao in-
O espectro das formas industriais examinadas       dustrial do sculo XX ocorreu desde as mais
 amplo, variando do tipo fortemente descen-       antigas e rigorosas anlises de competio per-
tralizado, quase exclusivamente orientado pelo     feita, como em Knight (1921), Hicks (1939) e
mercado, at o tipo altamente centralizado, pre-   Debreu (1959), at as mais recentes e no me-
dominantemente burocrtico.                        nos rigorosas anlises de oligoplio, como em
    Dado o permanente interesse no controle e      Fellner (1960), Telser (1972) e Shubik (1984).
monitorao da indstria no mbito da poltica     Ao observarem as estruturas mais complexas
econmica em todos os tipos de economia, os        dos oligoplios, onde surgem consideraes
dados de organizao industrial so, em geral,     estratgicas, os tericos da organizao indus-
ricos e bem sustentados por rgos governa-        trial trabalharam extensamente com os instru-
mentais. A classificao industrial padronizada    mentos matemticos da teoria dos jogos (ver
(standard industrial classification) (SIC)  am-   JOGOS, TEORIA DOS).
plamente aceita no plano internacional e for-          A comprovao das teorias da organizao
nece uma abrangente diviso de indstrias, des-    industrial engloba muitos mtodos que variam
de os vastos agrupamentos, como transporte e       do estudo de caso a uma abordagem econom-
servios, at os agrupamentos restritos de alta    trica de sistema de equaes. Durante todo o seu
qualidade, baseados em limitadas gamas de          desenvolvimento a organizao industrial deste
produtos. Entretanto tais dados nem sempre         sculo distinguiu-se de muitas reas da inves-
esto em uma forma perfeita para testar teorias    tigao econmica por sua adeso a um mtodo
econmicas da indstria, e a coleta de dados de    cientfico no-degenerado, o qual insistiu sem-
fontes primrias tem sido sempre uma impor-        pre em que a teoria deve ser cotejada com as
tante atividade dos economistas industriais, so-   provas. Um sistema bsico e sumamente in-
bretudo dos que so favorveis  abordagem de      fluente para o teste de teorias foi o de estrutura,
estudo de casos (por exemplo, Fisher et al.,       conduta e desempenho (S/C/P), tal como desen-
1983).                                             volvido por Mason (1939) e codificado por
    A teoria da organizao industrial concen-     Scherer e outros (Scherer e Ross, 1990). Em sua
tra-se na firma e na competio. Ao passo que      forma mais simples, sustenta que a estrutura
nas formas mais abstratas de teoria econmica      (como nmero de firmas, grau de diferenciao
o tipo de firma pode no ser especificado, na      do produto) determina a conduta (como ma-
teoria da organizao social ele  crucial. As-    ximizao do lucro, extenso do conluio), a
sim, a pequena firma dirigida por um empres-      qual, por sua vez, determina o desempenho (por
rio (ver EMPRESARIAL, FUNO)  analisada de       exemplo, fornecimento de bens de qualidade e
modo diferente (cf. Reid e Jacobsen, 1988) de      as quantidades determinadas por preferncias
uma grande sociedade annima (cf. Jensen e         do consumidor). Essa abordagem simples pode
Meckling, 1976). A competio assume uma           ser ampliada e modificada para abranger for-
variedade imensa de formas na prtica, mas na      mas mais complexas de causalidade, incluindo
teoria da organizao social ela  freqente-      feedback e efeitos bidirecionais, e uma grande
540   organizacional, comportamento


variedade de tipos de estrutura, conduta e de-          fragmentou-se em certo nmero de diferentes
sempenho. A flexibilidade explica a sua dura-           reas de estudo, incluindo COMPORTAMENTO OR-
bilidade e, adequadamente modificada, pode              GANIZACIONAL e estudos interpretativos e radi-
aplicar-se s modernas teorias da indstria e da        cais da organizao. Enquanto o comportamen-
firma do final do sculo XX, incluindo as resul-        to organizacional  mais emprico e menos
tantes da teoria matemtica dos jogos e da              formal e prescritivo do que a teoria organi-
abordagem especialmente associada a William-            zacional, os estudos interpretativos e radicais
son (1985), a qual enfatiza os custos de transa-        da organizao focalizam, respectivamente, a
es. Entretanto, o quadro de referncia S/C/P,         construo da realidade do ponto de vista do
embora largamente usado e respeitado, no               ator e a organizao como um locus de luta
exerce uma influncia dogmtica sobre a inves-          poltica, explorao do trabalho e dominao e
tigao emprica na organizao industrial, cujo        controle de classe.
enfoque continua sendo eminentemente plu-                   Tradicionalmente, a teoria organizacional
ralista.                                                tem se preocupado com o relacionamento ou
Leitura sugerida: Davies, S. et al., 1988: Economics
                                                        "ajustamento" entre a personalidade individual,
of Industrial Organization  Krause, C.G. 1990: Theo-    a estrutura da autoridade, a organizao do
ry of Industrial Economics  Reid, G.C. 1987: Theories   trabalho e o papel da tecnologia, assim como
of Industrial Organization  Scherer, F.M. e Ross, D.    com questes relacionadas com o pequeno gru-
1990: Industrial Market Structure and Economic Per-     po, metas, motivao, liderana, comunicao,
formance, 3ed.  Schmalensse, R. e Willig, R., orgs.    tomada de decises, sistemas organizacionais e
1989: Handbook of Industrial Organization.
                                                        suborganizacionais, e o "meio ambiente" das
                                      GAVIN C. REID     organizaes. Presente em todas essas preocu-
                                                        paes est a questo de apurar se a personali-
organizacional, comportamento Ver
                                                        dade, o papel ou a capacidade decisria cons-
COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL.
                                                        titui a melhor base conceitual para levar a efeito
organizacional, teoria Agregado interdisci-             a pesquisa e teoria no campo. Mais recente-
plinar de conhecimentas com estreitos vnculos          mente revistas importantes na rea da teoria e
com a sociologia, a psicologia, a cincia poltica      do comportamento organizacionais comearam
e a cincia econmica. Originou-se principal-           a tratar ambas as reas como formas de teoria e
mente nos Estados Unidos, Frana e Alemanha             pesquisa social, derrubando assim, em muito
no perodo que se seguiu ao final da Primeira           maior extenso do que ocorreu nos anos 50, as
Guerra Mundial, em parte como resposta  ne-            fronteiras entre a teoria organizacional e o es-
cessidade de conhecimentos tanto prticos e             tudo de problemas relacionados com as es-
profissionais quanto tericos dos gerentes e            truturas e processos sociais, econmicos e po-
administradores em setores pblicos e priva-            lticos.
dos. A contribuio americana concentrou-se                 Essa tendncia intensificou-se a partir do
em problemas de organizao industrial e cres-          final da dcada de 70 em conseqncia da as-
cimento do estado administrativo depois de              censo do neoconservadorismo, da retirada do
1933, a francesa na organizao industrial co-          governo e do setor pblico de funes tradicio-
mo rea de problemas-chaves da diviso social           nais e estabelecidas de servios e atividade
de trabalho, na esteira da obra de mile Dur-           reguladora, e o conseqente recrudescimento
kheim, e a alem no fenmeno da burocracia              de estratgias de privatizao de vrias esp-
como a encarnao organizacional do que Max             cies, especialmente nos Estados Unidos, Gr-
Weber chamou a autoridade "legal-racional" do           Bretanha e Austrlia. Seja qual for a razo, essas
estado e da grande empresa.                             tendncias parecem constituir um retorno ao
    Essas trs linhas de investigao, estudo e         foco em que, desde o incio, a Frana e a Alema-
aconselhamento profissional a gerentes e ad-            nha foram pioneiras, pois em ambos os casos o
ministradores s comearam a se conjugar em             estudo de organizaes formais ou complexas
uma forma relativamente coesa depois da Se-             estava intimamente relacionado a preocupa-
gunda Guerra Mundial, e alcanaram pleno re-            es de natureza mais ampla no tocante  orga-
conhecimento como campo distinto de pesqui-             nizao social, ao estado e  economia, como
sa, ensino e treinamento em meados da dcada            alienao, anomia, racionalidade, classe e con-
de 50. A partir de 1970, a teoria organizacional        flito de classes, poder, autoridade e controle.
                                                                                      orientalismo    541


Nesse meio tempo, a teoria da administrao,            Mesopotmia e a Sria representavam culturas
outrora parte central da teoria organizacional,         venerveis e respeitadas, com as quais se viam
continua constituindo um corpo distinto de co-          competindo, no era incomum que eles reescre-
nhecimento, apesar de lhe ter sido tambm re-           vessem a histria de tal modo que, nas lutas
querido que se mostre sensvel a preocupa-              entre os "gigantes" e os "brbaros", eles eram
es sociais, polticas e econmicas relaciona-         sempre os vencedores. Por exemplo, Plato, no
das com a globalizao, a responsabilidade so-          Timeu e no Crtias, que narram a histria da
cial e a tica.                                         lendria Atlntida, hoje identificada, ao que se
   Ver tambm CINCIA DA ADMINISTRAO.                 presume, com Creta, cuja civilizao foi des-
                                                        truda pela erupo do Tera, a que Plato se
Leitura sugerida: Burrel, Gibson e Morgan, Gareth
1979: Sociological Paradigms and Organizational         refere em termos alegricos, inverte claramente
Analysis  Etzioni, Amitai 1969: A Sociological Reader   o resultado da batalha entre os exrcitos do
on Complex Organizations  Krupp, Sherman 1961:          egpcio Ramss III e os gregos em favor destes
Pattern of Organization Analysis  March, James e Si-    ltimos. Plato, que consta ter viajado para o
mon, Herbert 1958: Organizations  Perrow, Charles       Egito e l ter permanecido, talvez, por trs anos,
1967: "A framework for the comparative analysis of      faz ao mesmo tempo numerosas referncias
organizations". American Sociological Review 32 
Thompson, James 1967: Organizations in Action           favorveis quele pas como tendo inventado
Thompson, Victor 1961: Modern Organization.             "nmero e clculo, geometria e astronomia,
                                        H.T. WILSON     para no falar do jogo de damas e de dados, e
                                                        sobretudo a escrita" (Fedro, 27c-d; Filebo 18b-
orientalismo Termo que entrou recentemente              d ), e por j mostrar 10 mil anos de continuidade
em voga por causa da obra de Anouar Abdel-              em religio, arte e direito na poca em que ele
Malek (1963) e Edward Said (1978), "orienta-            escreveu (Leis, 656-7). O Egito, de fato, afirma
lismo" refere-se  perspectiva peculiar sobre o         ele, preservou melhor os registros histricos
Leste de estudiosos do Oriente representando            gregos do que os prprios gregos, em virtude
as antigas potncias coloniais. A viso dos "ori-       das devastaes que se seguiram  erupo do
entalistas" clssicos era dirigida do "centro"          Tera (Timeu, 22-3). Herdoto, a nossa principal
para a "periferia"; uma viso do Oriente como           autoridade antiga sobre Egito e Mesopotmia,
o "outro", a caa e a presa do Ocidente triun-          sustentou que a Grcia adquiriu seus deuses e
fante e civilizador. Said (1978, p.222) mostrou         prticas de culto do Egito como o repositrio da
muito bem como o Oriente era visto pelos orien-         sabedoria antiga (Herdoto, Histrias, 2.44-5).
talistas -- usando esse termo tecnicamente para         Embora a opinio de Herdoto fosse depois
se referir aos estudiosos do Oriente -- como um         desacreditada por Plutarco, que se referiu de-
campo para o especialista cujo papel na socie-          preciativamente a ele como "o pai das menti-
dade era interpret-lo para compatriotas. Uma           ras" ou "um amante de brbaro" que atribui a
extensa linha de pensamento, desde as histrias         no-gregos mais qualidades do que a qualquer
de viagens escritas por cavalheiros europeus at        grego; o prprio Plutarco, em seu sis e Osris
os eruditos tratados de missionrios jesutas e         (Moralia, Livro 5) e outras obras, mostrou-se
obras representativas do Iluminismo ocidental,          familiarizado com as culturas altamente desen-
contriburam para essa imagem muito precon-             volvidas do Egito e da Prsia, e revelou certa
ceituosa do Oriente. O que nada tem de sur-             admirao por elas.
preendente, porquanto o apogeu do orientalis-               No perodo de restaurao da cultura cls-
mo coincide com o poderio do COLONIALISMO               sica, o Renascimento europeu dos sculos XIV
no seu auge.                                            e XV, no encontramos, como se poderia es-
    De fato,  possvel mostrar que a noo do          perar, uma transferncia das atitudes xenfobas
Oriente como terreno de caa do Ocidente e              gregas. Isso explica-se, em parte, porque o Re-
como o "outro" remonta  Antigidade clssica,          nascimento italiano foi de inspirao mais ro-
nos comentrios de Aristteles sobre os "servis         mana do que grega, o que no surpreende, uma
asiticos" (na Poltica) e nas especulaes de          vez que se tratava tambm de um movimento
filsofos e oradores gregos sobre o Grande Rei          nacionalista. O Oriente estava to longe de ser
persa e o motivo por que ele governava os seus          estigmatizado como "desptico" no Renasci-
sditos como escravos. Embora fosse evidente            mento europeu, perodo que mostrou fascnio
que para os gregos a antiga Prsia, o Egito, a          pelo poder em todos os seus modos, que temos,
542   orientalismo


de fato, numerosas indicaes de que ele foi,        tivas com uma literatura extica, desde a Grcia
pelo contrrio, uma fonte de inspirao e de         e Roma at o antigo Oriente Prximo. A litera-
modelos polticos. Com efeito, o papel do            tura clssica constituiu o repertrio de exem-
Oriente em "regenerar o Ocidente" foi um con-        plos dos quais eram extrados os modelos e,
ceito repetido que, com o tempo, se consolidou,      nessa base, as primeiras faces dinmicas mo-
at chegar a ser, por exemplo, um sonho do           dernas nos estados da Europa Ocidental persua-
romancista Gustave Flaubert em seus ltimos          diram os seus monarcas, alguns sob presso, a
anos. Nicolau Maquiavel foi, segundo parece,         converter os conselhos de cls aristocrticos em
representativo dos humanistas florentinos re-        assemblias representativas de acordo com os
nascentistas em sua admirao pelos antigos          modelos grego e romano. O fato de terem xito
imprios do Leste e pelos esforos de Alexan-        em faz-lo deveu-se, em no pequena medida,
dre, o Grande para os conquistar e depois re-        s ameaas constantes dos muulmanos, es-
constituir. O humanismo florentino do Quattro-       pecialmente dos temidos mouros que, na bata-
cento ficou devendo muito aos eruditos bizan-        lha de Poitiers, foram rechaados do prprio
tinos responsveis pela reintroduo da lngua       corao da Europa, e cujas tradies e ins-
e dos textos clssicos gregos, alguns deles, em      tituies eram consideradas a prpria anttese
especial Gemistus Pletho, versado nos comen-         de tudo o que a Europa Ocidental defendia e
trios rabes, tal como o humanismo medieval         simbolizava.
tinha devido aos rabes sua rica fonte de textos         As alegaes contra o Oriente so clara-
clssicos gregos.                                    mente apresentadas nos escritos de James Har-
    A segunda fase na ascenso do "orientalis-       rington e Edward Gibbon, que compararam a
mo" como fenmeno especfico data, precisa-          "indolente efeminao dos srios e egpcios" 
mente, do surgimento dos estados-mes oci-           "feroz independncia dos germanos e caled-
dentais a partir do sculo XVI e da tradio da      nios", recorrendo ao celebrado louvor de Tcito
teoria republicana clssica em termos da qual         probidade teutnica. Montesquieu, por sua
eles se legitimavam.  peculiar faanha dessa        parte, usa o turco como bicho-papo a fim de
tradio da teoria poltica ocidental ter conse-     advertir a corte de Lus XIV contra os riscos do
guido caracterizar as grandes monarquias agr-       despotismo. Na mar montante de um etnocen-
rias da Europa Ocidental como essencialmente         trismo de base fisiolgica que produziu o "mo-
"democrticas" e as polticas orientais, as quais    delo ariano" como o instrumento decisivo para
tinham muito provavelmente sido pioneiras no         a diviso entre gregos e brbaros, essa antiga
estabelecimento de formas sociais republicanas       gigantomaquia atingiu novas alturas. Teorias
-- assemblia bicameral, votao por escrut-        climatolgicas, teorias sobre os movimentos
nio e por sorteio, lista de magistraturas vlidas    migratrios de povos e as origens da civilizao
por um ano, a liturgia e o sistema judicial ba-      na estepe iraniana combinaram-se para favore-
seado no direito consuetudinrio e sujeito  ju-     cer as culturas indo-europias em oposio s
risdio dos tribunais -- como essencialmente        semticas (Bernal, 1987). Aqui temos o contex-
"despticas". Desde Thomas Hobbes, James             to para o "orientalismo" como disposio aca-
Harrington e John Locke at Jean Bodin, Jean-        dmica profissional em relao ao Oriente teo-
Jacques Rousseau e Montesquieu, embora fos-          rizada como o "modo de produo asitico" por
se muito diferente o contedo especfico da          pensadores do sculo XIX e comeos do atual,
obra de cada um desses tericos polticos, o         to influentes quanto James Mill em The His-
resultado lquido foi petrificar as fronteiras en-   tory of British India, J.S. Mill em Dissertations
tre Ocidente e Oriente como sendo entre re-          and Discussions, Karl Marx e Antonio Grams-
gimes representativos e despticos, respectiva-      ci. A crena em que as cidades orientais dife-
mente (ver tambm DESPOTISMO ORIENTAL). A            riam das cidades ocidentais antigas ou medie-
luta pelo manto da autoridade na plis tornou-se     vais por serem fundadas a partir do "acampa-
a arena na qual se levou a efeito a formao do      mento militar", e em que  sociedade oriental,
estado ocidental. Entre as condies propcias       exemplificada pela ndia, faltava "histria" em
estava a circunstncia fortuita de que a Igreja,     sua imutabilidade (Karl Marx, in Grundrisse e
ela prpria uma instituio cujas fontes estavam     O capital ), combinou idias de atraso e imobi-
no Oriente, e responsvel pela funo educacio-      lidade que favoreciam a sociedade ocidental em
nal no Ocidente, tinha alimentado as elites na-      termos de darwinismo social, ento em voga,
                                                                                    orientalismo       543


legitimando os empreendimentos coloniais das      Branco], foram substudos por organismos de
potncias do sculo XIX.                          ajuda internacional, fortemente comprometi-
    No h dvida de que os esteretipos ori-     dos com uma "misso civilizadora" que inclui
entalistas contaminaram boa parte da literatura   o "desenvolvimento", ou seja, a educao oci-
do "desenvolvimento" que analisa as polticas     dental, o "crescimento" econmico e poltico,
do Terceiro Mundo em relao ao Primeiro          a difuso da cultura e dos valores ocidentais e
Mundo, como se evidencia pelo prprio concei-     a integrao de economias no-ocidentais no
to de "subdesenvolvimento", disposio para       mercado mundial.
atribuir traos de carter nacional ao diagns-   Leitura sugerida: Abdel-Malek, Anouar 1963 (1981):
tico de fraquezas sistmicas e para a trans-      Civilization and Social Theory  Bernal, Martin 1987:
posio em bloco de instituies ocidentais co-   Black Athena: the Afro-Asiatic Roots of Classical Civi-
mo panacias polticas e econmicas (ver tam-     lization  Said, E. 1978: Orientalism  Springborg, P.
bm DESENVOLVIMENTO E SUBDESENVOLVIMEN-           1986: "Politics, primordialism and orientalism: Marx,
TO). O orientalismo  uma forma de racismo que    Aristotle and the myth of Gemeinschaft". American
                                                  Political Science Review 80, 185-211  1992: Western
nos sculos XIX e XX, tal como no apogeu do       Republicanism and the Oriental Prince  Turner, Bryan
imperialismo romano, teve forte apoio institu-    1978: Marx and the End of Orientalism  1984: "Orien-
cional nas estruturas administrativas coloniais   talism and the problem of civil society". In Orientalism,
e neocoloniais. Assim, departamentos como o       Islam and Islamists, org. por Asaf Hussain et al.  Witt-
Ministrio das Colnias, que outrora susten-      fogel, K.A. 1957: Oriental Despotism.
taram o White Man's Burden [Fardo do Homem                                        PATRICIA SPRINGBORG
                                              P
pacifismo O prolongado morticnio da Pri-                a militar  suficiente para assegurar a imuni-
meira Guerra Mundial deu renovado impulso               dade.
velha doutrina de que o recurso  guerra, mesmo              Assim, a viabilidade do pacifismo depende
em resposta a uma agresso,  sempre um erro.            muito da eficcia da no-violncia. As campa-
Os seus adeptos do sculo XX tm enfrentado,             nhas de "desobedincia civil" de Gandhi contra
porm, dilemas particularmente agudos. Em                o domnio britnico na ndia nos anos entre as
face de ameaas, concretas ou potenciais, de             duas guerras mundiais, e os desafios organiza-
regimes brutalmente ditatoriais, capazes, em             dos pela National Association for the Advance-
alguns casos, de genocdio, surge a interro-             ment of Colored Peoples, sob a liderana de
gao: como pode um estado que se priva de               Martin Luther King, contra a segregao e a
seu arsenal militar sobreviver ou cumprir suas           privao dos direitos civis dos negros no sul dos
obrigaes para com seu prprio povo e os                Estados Unidos, pareceram mostrar que a no-
outros? E, se no sobrevive, como pode o seu             violncia pode, por vezes, conseguir mudar a
povo preservar seus valores? No sculo XX a              mentalidade de adversrios poderosos e fre-
guerra tornou-se uma obscenidade moral, mas              qentemente brutais, embora outros fatores es-
o mesmo pode ser dito, com freqncia, das               tivessem sem dvida atuando e em cada caso os
alternativas a ela.                                      ativistas pudessem apelar para uma opinio
    Salvo os que obedecem  injuno bblica             pblica democrtica que, em ltima instncia,
                                                         exercia o controle sobre os seus opressores.
de "no guardar pensamentos para o dia se-
                                                         Pessoalmente, Ghandi no era um pacifista,
guinte", os pacifistas respondem a isso de duas
                                                         mas suas campanhas, que fizeram muito uso de
maneiras. Em primeiro lugar, afirmam ser im-
                                                         greves de fome, renunciaram sistematicamente
provvel que algum ataque um estado ma-
                                                          violncia e desautorizaram qualquer ato vio-
nifestamente indefeso. Em segundo lugar, sus-
                                                         lento a que seus declarados adeptos recorres-
tentam que, se tal ataque viesse a ocorrer, a
                                                         sem. Seus ensinamentos baseavam-se sobretu-
populao poderia preservar os valores de sua            do nos textos religiosos hindus. "O caminho do
sociedade e, em ltima instncia, induzir o in-          esprito (...)  o do desprendimento, da auto-ab-
vasor a se retirar por meio de uma resistncia           negao, de ficar livre de todo o desejo" (ver
no-violenta organizada.                                 Gandhi, 1951, p.26).
     possvel citar casos em abono da primeira              Gene Sharp (1971) relatou ter identificado
alegao. A Costa Rica sobrevive h muito                125 formas diferentes de no-violncia, repar-
tempo sem exrcito e a ustria, embora por               tidas em trs categorias principais: -- protesto,
certo no seja pacifista, deve sua sobrevivncia         no-cooperao e interveno --, e distinguiu
e segurana, desde o Tratado de 1955, mais ao            trs mecanismos de mudana, -- converso,
seu reconhecido status de pas neutro no-               acomodao e coero. Dado que os resistentes
agressivo e construtivo do que  sua capacidade          so capazes de explicar as razes de sua resis-
de se defender das alianas militares tanto da           tncia, que Sharp v como um sine qua non, a
OTAN, no Ocidente, quanto do Pacto de Vars-             no-violncia deles e o respeito que obtm por
via, no Leste; mas, dado o destino da Dinamarca          sua disposio para sofrer, se necessrio s suas
em 1940, da Tchecoslovquia em 1968 e de                 convices, faro com que os seus adversrios,
Granada em 1983, no se pode manter de forma             afirma o autor, se mostrem mais dispostos a
convincente que o fato de no representar amea-          reconsiderar sua poltica. Alternativamente, tal

                                                   544
                                                                                   pan-africanismo   545


resistncia pode induzir a acomodao em um               ambicioso, o pan-africanismo procura criar um
adversrio que, embora no convencido ainda               governo nico para toda a frica, combinado a
na justia da causa deles, est preparado para            fortes vnculos econmicos e polticos com pes-
ceder s exigncias dos ativistas porque "o pro-          soas de ascendncia africana em outras partes
blema no vale os inconvenientes e dissabores             do mundo.
causados pela luta" (p.156). A COERO pode                   O pan-africanismo pode adotar a forma de
ser aplicada quando a resistncia est suficien-          emoes, idias ou aes. Quando afro-ameri-
temente difundida e prolongada, de modo a                 canos irromperam no Conselho de Segurana
"conseguir conter, direta ou indiretamente, as            das Naes Unidas, em 1961, interrompendo a
necessrias fontes do poder poltico do gover-            sesso para protestar contra o assassinato do
nante". Thomas Schelling (1971, p.179), que               ex-premier Patrice Lumumba no Congo (hoje
em seus escritos anteriores tinha analisado fria-         Zaire), esse irado protesto constituiu emoes
mente a lgica da coero violenta, admitiu que           pan-africanas traduzidas em ao poltica.
"o potencial de no-violncia  enorme [com]              Quando um ativista dos direitos civis, o reve-
implicaes para a paz, a guerra, a estabilidade,         rendo Jesse Jackson, recomendou em 1989 que
o terror, a confiana e a poltica interna que            a expresso "negro americano" fosse substi-
ainda no so fceis de avaliar".                         tuda por "afro-americano", essa foi uma idia
    O pacifismo nuclear, o qual sustenta que o            pan-africana que no tardou a ser amplamente
uso de armas nucleares  sempre um erro, mes-             adotada como norma poltica por muitas ins-
mo em retaliao, e exige, portanto, a sua re-            tituies pblicas nos Estados Unidos. Na pr-
nncia, unilateralmente se necessrio, oferece            pria frica, as manifestaes pan-africanas tm
uma perspectiva menos drstica. Tais armas no            variado desde os protestos de estudantes nige-
voltaram a ser usadas desde a fase final da               rianos contra o assassinato do lder da cons-
guerra contra o Japo, em 1945, e no se pode             cincia negra Steve Biko na frica do Sul at
afirmar que estados que no esto habilitados a           experincias econmicas regionais como a ex-
confiar em seu prprio potencial nuclear ou no            tinta Comunidade do Leste Africano (EAC) e a
de seus aliados, so impotentes. O Vietn, por            mais recente Comunidade Econmica da fri-
exemplo, no dispunha de tal potencial, mas               ca Ocidental (Ecowas). O pan-africanismo po-
isso no o impediu de derrotar a mais avanada            de ser primordialmente subsaariano (concen-
potncia nuclear do mundo. A oposio ao seu              trando-se principalmente nos africanos negros
uso invoca hoje, com freqncia, a teoria da              ao Sul do Saara, como quando, na dcada de 80,
"guerra justa", por meio da qual, para que a              o presidente Mobutu Sese Seko, do Zaire, reco-
fora militar seja legtima, no s o objetivo            mendou a criao de uma organizao que con-
deve ser bom (e alcanvel), mas a violncia              tivesse somente estados africanos negros), ou
deve ser restringida aos que esto realmente              transaariano (visando a unio da frica negra
resistindo a essa fora, ou seja, os combatentes.         com a frica rabe), ou transatlntico (solida-
                                                          riedade entre africanos e negros do hemisfrio
Leitura sugerida: Bondurant, J.V., org. 1971: Conflict:
Violence and Non-Violence  Ceadel, M. 1987: Thin-
                                                          ocidental) ou global (sentimento de identidade
king about Peace and War  Hinton, J. 1989: Protests       compartilhada entre pessoas de ascendncia
and Visions  Roberts, A., org. 1967: The Strategy of      africana em todo o mundo). Os descendentes de
Civilian Defence  Sharp, G. 1973: The Politics of Non-    africanos que esto localizados fora da frica
Violent Action.                                           constituem o que  freqentemente chamado "a
                                 RODERICK C. OGLEY        dispora africana" ou "a diaspra negra".

padro, variveis Ver VARIVEIS PADRO.                   Histria do pan-africanismo
padro de vida Ver QUALIDADE DE VIDA.                        Na virada do sculo os povos negros es-
                                                          tavam sofrendo opresso poltica, explorao
pan-africanismo Pode ser definido como                    econmica e degradao social sob o COLONIA-
um sentimento de solidariedade entre africanos            LISMO e a sistemtica discriminao racial. Com
e povos de ancestralidade africana. Essa cons-            exceo da Etipia, do Haiti e da Libria, go-
cincia de identidade compartilhada foi, por              vernados por negros, as vidas de pessoas de
vezes, intelectualizada em uma teoria ou tradu-           origem africana estavam sob o controle de eu-
zida para a ao poltica. Em seu grau mais               ropeus. A dominao pan-europia promoveu a
546   pan-africanismo


crena em que a libertao dos negros dependia               necessrio requisito preliminar para a completa
de sua unidade poltica. Alm disso, os movi-                emancipao social, econmica e poltica" (Le-
mentos "pan" estiveram em moda desde mea-                    gum, 1976, p.137). Essa mudana para o an-
dos do sculo XIX at a ecloso da Segunda                   ticolonialismo foi particularmente importante
Guerra Mundial; dentre eles, destacaram-se o                 para a frica e o Caribe, que ainda estavam sob
pan-eslavismo, o pan-germanismo, o pan-ara-                  domnio imperial.
bismo, o pan-turanismo, o pan-islamismo e o                      A obteno da independncia de Gana em
pan-asianismo (ver tambm NACIONALISMO).                     1957 reforou essa dramtica mudana para
    Em 1900 teve lugar em Londres a primeira                 uma luta anticolonial e um enfoque continental
Conferncia Pan-Africana, organizada pela                    no pensamento pan-africano. Como conse-
African Association fundada por Henry Sylves-                qncia, a All-African Peoples' Organization
ter Williams. A sesso preparatria, em 1899,                criada por Kwame Nkrumah, de Gana, a qual
contou com a presena, entre outros, de Booker               se reuniu pela primeira vez em Acra, em 1958,
T. Washington. A conferncia teve cerca de 60                e depois teve reunies em Tnis e no Cairo,
participantes dos Estados Unidos, Caribe, Gr-               limitou a participao plena a residentes da
Bretanha e frica, incluindo W.E.B. Du Bois e                frica. As All-African Peoples' Conferences
o bispo Alexander Walters. As resolues trata-              no estavam restritas a governos, mas incluam
ram de escravatura, trabalho forado, segrega-               movimentos de libertao e sindicalistas. Suas
o e outras violaes dos direitos humanos.                 resolues propiciaram um novo avano no
Em apelo s "naes do mundo", a conferncia                 pensamento pan-africano: tinha que haver a
declarou:                                                    "personalidade africana" em questes interna-
   O problema do sculo XX  o problema da fronteira         cionais e o "neocolonialismo" devia ser com-
   da cor, a questo de saber at que ponto as diferenas    batido.
   de raa (...) iro constituir (...) a base para negar a       A maior ambio do pan-africanismo conti-
   mais de metade do mundo o direito a compartilhar,         nental era criar um supra-estado africano. A
   at o limite de suas capacidades, das oportunidades       criao da Organizao da Unidade Africana
   e privilgios da humanidade moderna. (Geiss, 1974,        (OAU) em 1963 foi um modesto meio-termo
   p.190.)                                                   porque, em parte, a sua carta inclui as seguintes
    Depois da Primeira Guerra Mundial come-                  estipulaes: no-interferncia nos assuntos in-
ou o movimento do Congresso Pan-Africano.                   ternos dos estados-membros, assim como res-
Deu origem a uma srie de reunies celebradas                peito pela soberania e integridade territorial de
em 1919 (Paris), 1921 (Londres, Bruxelas e                   cada estado. Essa organizao intergoverna-
Paris), 1923 (Londres e Lisboa), 1927 (Nova                  mental no realizou progressos significativos
York), 1945 (Manchester) e 1974 (Dar-es-Sa-                  no rumo da criao dos Estados Unidos da
laam). O instigador e principal organizador das              frica. Com efeito, no seio da OAU, existe a
conferncias nos anos entre as duas guerras foi              tenso adicional entre o pan-africanismo e o
W.E.B. Du Bois. A mais importante delas foi o                pan-arabismo.
V Congresso Pan-Africano de Manchester em                        Pode-se traar uma distino entre pan-afri-
1945; muitos dos que participaram (por exem-                 canismo de libertao e pan-africanismo de
plo, Obafemi Awolowo, Hastings Banda, Jomo                   integrao. O pan-africanismo de libertao 
Kenyatta e Kwame Nkrumah) tornaram-se im-                    uma solidariedade em busca de liberdade e
portantes figuras polticas na frica ps-in-                autodeterminao. O pan-africanismo de inte-
dependncia. As resolues de Manchester es-                 grao  uma solidariedade em busca de inte-
tabeleceram a agenda para a corrente principal               grao regional, econmica e poltica. O pan-
do pensamento pan-africano da em diante. As                 africanismo de libertao  uma histria de
principais posies dos anteriores Congressos                sucesso; uma voz africana unida pelo anticolo-
Pan-Africanos tinham sido: promover o bem-                   nialismo e o anti-apartheid ajudou a mobilizar
estar e a unidade dos povos de origem africana,              o resto do mundo. O pan-africanismo de inte-
exigir a sua autodeterminao, insistir na abo-              grao ainda , como assinalamos, um fracasso.
lio da discriminao racial e condenar o ca-                   O pan-africanismo transatlntico declinou
pitalismo. O Congresso de Manchester tambm                  na segunda metade do sculo XX. No obs-
declarou: "A luta pelo poder poltico dos povos              tante, W.E.B. Du Bois, dos Estados Unidos, e
coloniais e subjugados  o primeiro passo e o                George Padmore, do Caribe, tornaram-se cida-
                                                                                pan-africanismo       547


dos ganenses depois da independncia. Mal-          vimento de elites. A principal exceo a isso na
colm X e outros muulmanos negros eram, com          dispora foi o movimento de Marcus Garvey.
freqncia, pan-islamistas e pan-africanos. O        Garvey era jamaicano; seus seguidores eram,
movimento dos direitos civis nos Estados Uni-        principalmente, centenas de milhares de afro-
dos tinha vinculaes com a poltica de desco-       americanos. Os objetivos do movimento eram
lonizao na frica. O movimento Rastafari na        pan-africanos, mas fora dos Estados Unidos no
Jamaica identificou-se com a Etipia como a          havia uma filiao macia.
Terra Prometida e Hail Selassi como o Rei              O pan-africanismo no sentido continental
Divino. O pan-africanismo cultural na dispora       tambm no logrou tornar-se um movimento de
tem variado desde a adoo de rituais religiosos     massa. A inspirao do pan-africanismo, nesse
africanos at a popularidade do estilo de cabe-      sentido, no reside na solidariedade nacional,
leiras africanas, desde a adoo de nomes pes-       mas continental; entretanto, por essa mesma
soais africanos at a proclamao de um subs-        razo, o impacto do pan-africanismo continen-
tituto africano para o Natal (o festival afro-ame-   tal foi contrariado pela diversidade cultural,
ricano do Kwaanza, baseado em uma palavra            econmica e poltica entre os vrios estados
suale que significa o comeo). O pan-afri-          africanos que se manifestou depois da indepen-
canismo transatlntico incluiu, no campo das         dncia. Para a maioria dos nigerianos, etopes e
artes, os festivais peridicos de artes e culturas   zambianos, para mencionar apenas alguns, o
que tm sido realizados na frica e na dispora.     pan-africanismo estava destinado a ser uma
O mais famoso desses eventos artsticos foi o        prioridade secundria em relao  "construo
Festac, realizado em Lagos, Nigria, em 1976.        nacional" de cada estado. Isso, contudo, leva a
Cantores, danarinos, poetas, teatrlogos, per-      um outro problema; o pan-africanismo e esse
cussionistas e outros convergiram para Lagos.        gnero de construo da nao conflitavam mu-
    Depois de um interregno de quase 30 anos,        tuamente. Como disse Nyerere:
uma "convocao para o VI Congresso Pan-                A verdade  que,  medida que cada um de ns
Africano" foi divulgada por intelectuais radi-          desenvolve o seu prprio estado, erguemos um n-
cais da dispora que tinham ficado desencanta-          mero cada vez maior de barreiras entre ns. Conso-
dos com o pan-africanismo continental. Mais             lidamos diferenas que herdamos do perodo colo-
de 500 delegados e observadores reuniram-se             nial e desenvolvemos outras novas. Sobretudo, de-
em Dar-es-Salaam em 1974. Foi o primeiro                senvolvemos um orgulho nacional que poder facil-
congresso realizado na frica e, embora consis-         mente ser hostil ao desenvolvimento de um orgulho
                                                        pela frica. (Nyerere, 1968, p.211.)
tisse predominantemente em funcionrios go-
vernamentais, incluiu tambm movimentos de              O pan-africanismo nunca foi um movimento
libertao e destacados intelectuais africanos e     unificado, pois, alm das divises j menciona-
da dispora. Foi, assim, o mais abrangente de        das, sempre houve verses liberais e radicais,
todos os Congressos Pan-Africanos. O congres-        representando diferentes organizaes. H tam-
so foi uma importante tentativa de atualizao       bm a diviso dispora/nativo. Sempre houve o
do pensamento pan-africano. Enquanto que o V         divisor de guas negro/rabe e a diviso fran-
Congresso Pan-Africano, em 1945, tinha resul-        cfono/anglfono. Com exceo do VI Con-
tado na reduo do foco pan-africano ao conti-       gresso Pan-Africano, realizado em Dar-es-Sa-
nente africano (em vez do mundo negro como           laam em 1974, todas as outras tendncias (in-
um todo), o VI Congresso, em 1974, ampliou o         cluindo as que culminaram na formao da
nmero de elementos participantes de modo a          OAU) tm manifestado essas tenses. No obs-
abranger os povos oprimidos de qualquer parte        tante, inmeras pessoas identificam-se com os
do mundo. Em Dar-es-Salaam, o pan-africanis-         ideais do pan-africanismo sem aderir a qualquer
mo estava tentando converter-se na pedra angu-       das organizaes pan-africanas.
lar do "pan-humanismo". Um debate central foi
se classe era mais importante do que raa na         O pan-africanismo como ideologia
luta global contra a opresso e a explorao.           O pan-africanismo  menos que uma ideo-
                                                     logia plena por no ser uma explicao sis-
Movimentos pan-africanos                             temtica de fenmenos polticos nem um pro-
  O pan-africanismo raramente foi um movi-           grama especfico para mudanas polticas. Ne-
mento de massa;  principalmente um mo-              nhum terico forneceu um conjunto de princ-
548    pan-arabismo


pios e definies interligados que organize con-         pan-arabismo Como ideologia, o pan-ara-
ceitualmente, de forma sistemtica, a condio           bismo  um desenvolvimento do NACIONALISMO
dos africanos e dos da dispora. Nem sempre              rabe, o qual se manifestou inicialmente como
W.E.B. Du Bois, apesar de todos os seus escri-           fenmeno literrio e poltico nas provncias
tos sobre o pan-africanismo, fornece tal ideolo-         rabes do Imprio Otomano em fins do sculo
gia. Tambm existe discordncia sobre o que             XIX. O prprio nacionalismo rabe surgiu, em
o pan-africanismo. Alguns afirmaram que os               parte, como conseqncia do movimento de
seus conceitos constituintes so os seguintes: a         renovao literria e lingstica conhecido co-
frica como verdadeira ptria de todas as pes-           mo nahda, o qual comeou na Grande Sria.
soas de origem africana, onde quer que elas              Uma onda de redescobertas, compilao e pu-
estejam agora; solidariedade entre pessoas de            blicao de textos rabes clssicos, assim como
origem africana; crena em uma distinta "per-            de atividade lexicogrfica, encorajou os inte-
sonalidade africana"; reabilitao do passado            lectuais rabes a refletir sobre a sua passada
da frica e respeito pela cultura africana; a            grandeza e sua presente fraqueza sob a domina-
frica para os africanos em termos de sobera-            o otomana.
nia; e a esperana de uma frica unida. Entre-               No incio do sculo XX a legitimidade do
tanto, com base nas resolues dos Congressos            domnio otomano sobre as provncias rabes
Pan-Africanos, poder-se-ia justificadamente              estava comeando a ser contestada por muul-
afirmar que existem apenas quatro componen-              manos e cristos indistintamente. Certo nmero
tes essenciais do pan-africanismo:                       de escritores e pensadores muulmanos, cada
    1. preocupao com os problemas comuns               vez mais conscientes do relativo atraso do mun-
        de todos os povos africanos, onde quer           do islmico e, mais especificamente, do Imp-
        que estejam;                                     rio Otomano em face da Europa, aferrou-se 
    2. autodeterminao para todos os povos              noo de que o declnio e a decadncia do
        africanos;                                       ISLAMISMO se deviam  usurpao do califado
                                                         pelos turcos. Para que o isl fosse revitalizado,
    3. orgulho de ser africano e pelas coisas
                                                         pensavam alguns, o califado tinha que ser res-
        africanas; e
                                                         titudo aos rabes e, mais tarde, por extenso,
    4. insistncia em que o sistema econmico            as terras rabes deviam ser libertadas dos "gri-
        que governa os povos africanos seja so-          lhes do domnio turco". Por sua vez, certo
        cialista.                                        nmero de intelectuais cristos, na companhia
    Existe significativamente maior consenso             de alguns muulmanos de mentalidade mais
em torno de 1, 2 e 3 do que de 4. Embora o               secular, acreditava que os ideais de liberdade e
pan-africanismo no seja ainda uma ideologia             igualdade, nos quais imaginavam basear-se a
completa, constitui j um conjunto de idias e           prosperidade e o progresso da Europa do seu
valores interligados suficientemente abran-              tempo, eram francamente incompatveis com o
gente para contribuir para uma cosmoviso em             estilo e a substncia do domnio otomano.
busca de um terico.                                         Na teoria e, em considervel grau, na prti-
                                                         ca, o Imprio Otomano era um estado islmico
Leitura sugerida: Ajala, A. 1973: Pan-Africanism:        teocrtico, no qual o grupo majoritrio, os mu-
Evolution, Progress and Prospects  Du Bois, W.E.B.
1965: The World and Africa: an Inquiry into the Part     ulmanos sunitas, gozava de um status privile-
which Africa has Played in World History  Geiss, I.      giado difcil de ser contestado em face da ideo-
1974: The Pan-African Movement: a History of Pan-        logia religiosa do imprio. Se, em vez da reli-
Africanism in America, Europe and Africa  Legun, C.      gio, a linguagem, a etnicidade e a co-residn-
1976: Pan-Africanism: a Short Political Guide  Maz-      cia passassem a ser os critrios de associao,
rui, A.A. 1977: Africa's International Relations: the    os rabes poderiam associar-se politicamente
Diplomacy of Dependency and Change  Nkrumah, K.
1963: Africa Must Unite  Nyerere, J. 1968: Freedom       entre si em termos iguais, para alm das fron-
and Socialism  Padmore, G. 1972: Pan-Africanism or       teiras de religio e seita, e dar origem a uma
Communism  Resolutions and Selected Speeches from        sociedade secular na qual nenhum grupo teria
the Sixth Pan-African Congress 1976  Thompson,           superioridade intrnseca em relao a qualquer
V.B. 1969: Africa and Unity: the Evolution of the Pan-   outro. Como previa uma sociedade em que no
Africanism.                                              seriam inferiores em status a quem quer que
                  ALI A. MAZRUI e A. M. SHARAKIYA        fosse, essa noo era particularmente atraente
                                                                                    pan-arabismo        549


para os cristos rabes, sobretudo os ortodoxos     (1882-1968),  que a idia de "nao rabe",
gregos da Grande Sria, que se consideravam,        talvez o mais importante princpio da ideologia
em certo sentido, mais autenticamente rabes        pan-rabe, comeou a ganhar forma.  impor-
do que seus correligionrios maronitas e cat-      tante sublinhar isso, uma vez que certas carac-
licos, uma vez que a intimidade da associao       tersticas do pensamento nacionalista rabe fo-
destes ltimos com a Frana, como sua prote-        ram implantadas nas mentes de geraes sub-
tora, era vista como comprometendo sua in-          seqentes como se fossem verdades axiomti-
dependncia e seu "arabismo".                       cas e quase eternas, de modo a obscurecer o
    Quando a Primeira Guerra Mundial se tor-        carter recente de sua origem. Conseqente-
nou iminente, ficou claro que alguns rabes         mente, o pan-arabismo, ao postular a existncia
estavam preparados para buscar a ajuda de po-       a priori de uma s nao rabe, foi formulado
tncias ocidentais a fim de realizarem seu obje-    precisamente no momento em que nasceu o
tivo de independncia dos otomanos; parado-         sistema de estado rabe moderno.
xalmente, no Egito, que tinha estado sob ocu-           Os princpios bsicos do pan-arabismo so
pao britnica desde 1882, muitos nacionalis-      que o mundo rabe, do Atlntico ao golfo da
tas tinham querido angariar a ajuda dos otoma-      Arbia, formam uma NAO; que essa nao foi
nos para obter a independncia da Gr-Breta-        artificialmente dividida, primeiro pelos otoma-
nha. Vale a pena mencionar aqui que, nessa fase,    nos e mais recentemente pelo imperialismo
a noo de uma "nao rabe" estava geral-
                                                    rabe. Na formulao de al-Husri, "os rabes"
mente circunscrita  Grande Sria: assim, a um
                                                    so definidos nos seguintes termos um tanto
egpcio que quis participar do primeiro Con-
                                                    totalitrios:
gresso Nacional rabe, realizado em Paris em
1913, foi recusada a permisso a contribuir para       Todas as pessoas que falam rabe so rabes. Todas
os debates.                                            as que esto intimamente relacionadas com essas
    O Imprio Otomano desmoronou no final da           pessoas so rabes. Se no sabem disso ou se no
                                                       nutrem com desvelo o seu arabismo, ento devemos
Primeira Guerra Mundial, mas, embora muitos
                                                       estudar as razes que as levam a tal posio. Pode ser
rabes tivessem lutado ao lado da Gr-Bretanha         fruto da ignorncia -- nesse caso, devemos contar-
na Revolta rabe contra os otomanos, supondo           lhes a verdade. Talvez seja porque no tm conscin-
que ganhariam, em conseqncia disso, alguma           cia disso ou foram iludidas -- nesse caso, devemos
independncia poltica, esse objetivo no seria        despert-las e tranqiliz-las. Pode ser resultado do
alcanado por vrias dcadas. Alm disso, em           egosmo -- ento devemos trabalhar para limitar o
vez de ser criada uma nica entidade poltica          seu egosmo.
nas antigas provncias rabes do Imprio Oto-
mano, como alguns rabes esperavam que                  Evidentemente, a noo de que os rabes
acontecesse, o acordo de paz deu origem aos         constituem uma s nao  mais uma assero
estados que hoje so o Iraque, a Sria, o Lbano,   do que a expresso de uma realidade histrica.
Israel/Palestina e Transjordnia (hoje Jordnia).   Independentemente do fato de que "a nao"
Esses territrios receberam a designao de         como idia no antecede o ltimo quartel do
mandatos e forma confiados  tutela da Gr-         sculo XVIII, mesmo no apogeu do imprio
Bretanha e da Frana, sob a superviso geral da     rabe medieval, existe apenas uma acepo
Liga das Naes. Assim, com a exceo da            muito limitada em que essa regio pde ser
Arbia Saudita e do Imen do Norte, todo o          considerada uma s entidade poltica. O mais
mundo rabe estava agora sob controle euro-         superficial relance por um atlas histrico ou
peu: o Egito, embora no fosse um territrio sob    manual cronolgico mostra a ascenso e queda
mandato, era governado pela Gr-Bretanha de         de numerosas dinastias com base territorial em
modo bastante semelhante, enquanto que a L-        reas tais como "o Maghreb", "Tnis", "Egito",
bia era colnia italiana desde 1910, o Marrocos     "Sria" etc.  claro que, como tm indicado
e a Tunsia, protetorados franceses desde 1881      todos os analistas contemporneos do naciona-
e 1912, e a Arglia fora anexada  Frana em        lismo, a historiografia nacionalista comprome-
1848.                                               tida, nesse caso a historiografia nacionalista
    Somente a partir do perodo entre as guerras,   rabe, deve ser vista mais como contribuio 
predominantemente sob a influncia dos es-          formao de um mito do que como parte de um
critos do pedagogo e publicista Sati' al-Husri      discurso histrico objetivo.
550   pan-arabismo


    Talvez as duas manifestaes mais visveis     massa a fim de se atriburem legitimidade. A
do pan-arabismo tenham sido o "nasserismo" e       ideologia do pan-arabismo  suficientemente
o "baathismo". Jamal Abd al-Nasir (Nasser), o      vaga para ter habilitado ambos os regimes a
lder dos Oficiais Livres que tomou o poder no     justificarem em seus termos uma grande varie-
Egito em 1952 e se tornou subseqentemente o       dade de aes polticas -- a tal ponto que tanto
presidente do pas at sua morte prematura em      a incurso da Sria no Lbano em 1976 como a
1970, tinha profunda desconfiana dos partidos     invaso do Ir pelo Iraque em 1980 puderam ser
polticos e no estimulou a criao de quaisquer   caracterizadas como objetivando "preservar a
organizaes pan-rabes formais, mas os fun-       integridade da nao rabe".
dadores do Partido Baath na Sria, na dcada de        Em nvel popular, a idia de unidade rabe
40, viram a sua organizao como genuina-          tem exercido considervel atrao no mundo
mente pan-rabe, e nas dcadas de 50 e 60          rabe, uma vez que a grande maioria da popu-
sucursais do partido foram estabelecidas em        lao fala o rabe,  muulmana e compartilha
cada pas rabe, ou "regio da nao rabe", no    uma vasta gama de pressupostos culturais e
jargo do partido. O atrativo de Nasser foi        atitudes sociais comuns. Em termos prticos,
provavelmente menos puro, do ponto de vista        entretanto, a fraqueza, a falta de legitimidade e
ideolgico, na medida em que o apoio que           a natureza profundamente antidemocrtica ou
atraiu provinha de suas faanhas como o pri-       no-democrtica de quase todos os regimes
meiro lder rabe a apresentar um significativo    rabes, conjugadas com o fato de os estados
desafio ao Ocidente; ele era, sobretudo, um        nacionais existentes se encontrarem em est-
populista-nacionalista, fundindo-se com a "na-     gios muito diferentes de desenvolvimento s-
o", simultaneamente egpcio e rabe. A mais      cio-econmico e poltico, significavam que, por
completa expresso poltica de pan-arabismo        mais imediatamente desejvel que a idia possa
foi a Repblica rabe Unida do Egito e da Sria,   ser, a realizao prtica do pan-arabismo est
que durou de 1958 a 1961; no incio, criada        hoje to distante quanto estava nos anos 20,
precipitadamente como um desesperado expe-         quando al-Husri a formulou pela primeira vez.
diente do Baath srio, que temia o efeito da       Alm disso,  provavelmente verdadeiro dizer
popularidade comunista na Sria sobre o seu        que a busca, ou a desculpa, do pan-arabismo
prprio destino, a RAU converteu-se rapida-        tem tido um efeito geralmente negativo no
mente em artifcio usado pelo Egito para explo-    mundo rabe, uma vez que este se tem mostrado
rar economicamente o seu parceiro menor e, em      propenso a concentrar a ateno em um distante
conseqncia, tornou-se profundamente impo-        inimigo externo, e no nos flagrantes problemas
pular na Sria.                                    de pobreza, desigualdade e ausncia do dom-
    Apesar do slogan baathista "Uma nao ra-     nio da lei dentro dos estados existentes.
be com uma misso eterna", a realidade foi             Alm disso, uma das caractersticas mais
muito diferente. O Partido Baath cindiu-se em      visveis dos desenvolvimentos polticos na re-
1966 e suas duas faces tm estado no poder       gio nas ltimas dcadas -- sublinhada pela
em Damasco desde ento e em Bagd desde            crise do Golfo de 1990-91 --  a gradual adoo
1968. As dcadas de 70 e 80 caracterizaram-se      de polticas mais autnomas e mais autocentra-
por uma acirrada batalha em torno da legitimi-     das por parte de todos os regimes rabes, no
dade ideolgica entre as duas faces rivais; em   obstante os sonoros protestos pblicos em con-
um importante sentido, a legitimidade de uma       trrio. Os acontecimentos em um estado rabe
era definida em funo da ilegitimidade da         j no assumem necessariamente o carter de
outra. De fato, o nico destino lgico para os     assuntos de fundamental preocupao para os
dois estados (em termos da ideologia que cada      outros estados rabes, a menos que estes consi-
um professava) teria sido a fuso. Em ambos os     derem estar em jogo os seus prprios interesses
casos, o poder poltico foi tomado por pequenas    vitais, com o resultado de que prioridades mais
faces polticas bem organizadas, cujos mem-      "nacionais" do que "rabes" passaram a ocupar
bros compartilhavam elementos de uma ideo-         a maior parte da arena poltica, indicando que
logia comum, mas cuja preocupao principal        os estados-naes "artificiais" do mundo rabe
era a conquista do poder. Assim que o conse-       esto convertendo-se gradualmente em enti-
guiram, tanto em Damasco quanto em Bagd,          dades distintas -- como os estados sul-ameri-
apressaram-se em montar partidos polticos de      canos -- e cada vez mais separadas em vez de
                                                                                         papel social   551


mais unidas. Somente a essa luz  que se pode             claro, adotado da literatura e, em sculos mais
compreender a debilidade da resposta "rabe"            recentes, do teatro. Como tal, os indivduos so
invaso israelense do Lbano em 1982, as atitudes        vistos como intrpretes que orquestram seus
ambguas dos estados rabes em relao  Pales-          gestos de acordo com um script no palco, diante
tina e aos palestinos, e as reaes geralmente           de um pblico formado por outros que julgam
racionais e "polticas" dos vrios estados rabes       e avaliam seu desempenho. Conforme exami-
invaso do Kuwait por Saddam Hussein.                    nado adiante, cada elemento desse retrato de
    Embora alguns escritores polticos rabes            papis teatrais -- atores assumindo persona-
defendam o conceito de pan-arabismo, este de-            gens, orquestrando seus gestos em uma repre-
ve ser encarado como uma fora amplamente                sentao, seguindo um script, atuando em um
esgotada; a Liga rabe, fundada em 1944,                palco e para uma platia -- tem sido um ponto
mais um frum para a discusso de assuntos de            de debate entre cientistas sociais. Expresso em
interesse comum do que um mecanismo para a               termos mais positivos, cada um desses elemen-
integrao rabe. O apogeu do pan-arabismo               tos tem sido alvo de considervel elaborao
chegou ao fim em junho de 1967, quando o                 conceitual e investigao emprica, refinando
balo da retrica nacionalista foi maciamente           assim o conceito muito alm de suas conotaes
perfurado pela devastadora derrota imposta por           mais literrias e teatrais.
Israel ao Egito, Jordnia e Sria. Talvez a Pales-           Qual  a natureza dos indivduos que de-
tina seja o smbolo quintessencial do fracasso           sempenham papis? Numerosas tradies inte-
do pan-arabismo, no sentido de fornecer um               lectuais -- utilitarismo, COMPORTAMENTALISMO,
constante lembrete da contnua incapacidade              pragmatismo, interacionismo e FENOMENOLO-
dos estados rabes em apresentar uma frente              GIA -- tm influenciado a conceituao das
comum ou unida que pudesse colocar as ques-              capacidades comportamentais dos indivduos
tes no caminho de uma resoluo. A razo                que so cruciais para desempenhar papis. O
desse fracasso no  difcil de apontar; por mais        retrato compsito que emerge produz uma ima-
"artificiais" que fossem as fronteiras traadas          gem dos indivduos como (1) possuidores de
antes e depois da Primeira Guerra Mundial, elas          capacidades calculadoras, deliberativas e mani-
j existem h cerca de 70 anos, e conjuntos de           puladoras; (2) desejosos de recompensas e evi-
interesses egostas avolumaram-se tanto em               tando custos; (3) tentando ajustar-se e adaptar-
torno delas que fazem a manuteno da exis-              se a situaes; (4) usando reservas implcitas de
tncia de um Lbano separado ou de uma Jor-              informao acerca de pessoas e situaes para
dnia separada -- para no mencionar um Ku-              assim proceder; e (5) mantendo uma concepo
wait separado -- ter precedncia sobre o esfor-          de si prprios como certas espcies de indiv-
o para dar expresso concreta  idia de um             duos. Essas imagens apresentam-se em toda a
vasto superestado. Se esse fenmeno  para ser           teoria e pesquisa de papis, embora alguns ele-
deplorado ou aplaudido,  menos importante do            mentos sejam mais enfatizados do que outros
que o fato de que deveria ser reconhecido como           por vrios investigadores (J.H. Turner, 1991).
tendo lugar -- ou, mais exatamente, como ten-                Qual  a natureza dos personagens que os
do tido lugar.                                           indivduos assumem? Essa pergunta envolve o
Leitura sugerida: Ajami, Fuad 1981: The Arab Predi-      problema da fora ou foras que coagem os
cament: Arab Political Trought and Practice since 1967   indivduos a atuar de certas maneiras. Para al-
 Antonius, G. 1938 (1969): The Arab Awakening            guns (Parsons, 1951; Liston, 1936, p.28), o
 Haim, S. 1962 (1976): Arab Nationalism: an Antho-       indivduo  visto como algum que se comporta
logy  Hourani, A.H. 1962 (1983): Arabic Thought in       dos modos apropriados  incumbncia em uma
the Liberal Age, 1798-1939  1991: A History of the
Arab Peoples  Tibi, B. 1981: Arab Nationalism: a
                                                         posio de status em um sistema de posies
Critical Enquiry  Zubaida, S. 1988: Islam: the People    interligadas que constituem uma estrutura so-
and the State.                                           cial -- trabalhador, pai, professor, estudante
                                   PETER SLUGLETT        etc. Para outros, os indivduos so vistos como
                                                         conduzindo-se ainda quando ocupam uma clara
papel social Assinalando seqncias de com-              posio de status, de forma a obter recompen-
portamento expressas por indivduos que ocu-             sas, evitar custos e sustentar o prprio eu; e, por
pam, ou procuram ocupar, determinada posio             conseguinte, os indivduos so conceituados
em uma situao social, o conceito de papel foi,         mais como criadores ativos de um personagem
552   papel social


do que como tendo meramente assumido um             tentaro criar para si mesmos um gnero parti-
que lhes  atribudo em virtude de ocuparem         cular de papel -- o bom estudante, a me sen-
determinada posio (R.H. Turner, 1974 e            svel, o trabalhador incansvel etc. Tal capaci-
1962; Strauss, 1978). Como o papel  tipica-        dade de criao de papis pressupe que os
mente considerado o ponto de interface entre a      indivduos -- os que criam e adotam papis --
pessoa individual e a estrutura social mais am-     possuem concepes de sndromes de gestos
pla, a postura assumida nessa questo subenten-     que marcam certos gneros de papis; e os
de concepes muito diferentes sobre os seres       indivduos em INTERAO buscam reciproca-
humanos e a sociedade (Handel, 1979). Se o          mente descobrir o papel subjacente caracteriza-
papel  o comportamento associado  incum-          do pelos gestos de outros. H certa discordn-
bncia (e ditado por ela) nas posies da es-       cia, porm, sobre se os papis nesses invent-
trutura social, ento os seres humanos so me-      rios envolvem a compreenso de seqncias
nos espontneos e criativos, ao passo que o         delicadamente harmonizadas de gestos ou op-
poder da estrutura social  preoeminente. Em        tem por Gestalten mais livremente estruturadas
contrapartida, se o papel  o comportamento         de gestos que denotam significados mais gen-
expresso em negocio com o eu, com as neces-       ricos e imprecisos a serem finalizados no decor-
sidades ou utilidades idiossincrsicas e as pres-   rer da criao de papis (ver J.H. Turner, 1988;
cries posicionais de outros, ento os in-         R.H. Turner, 1962).
divduos so ontologicamente mais significati-          Qual  a natureza do script que guia o com-
vos do que a estrutura social.                      portamento do papel? Alguns estudiosos do
    Quais so as dinmicas dos gestos? Foram        assunto (Parsons, 1951; Linton, 1936) afirmam
os filosfos pragmatistas americanos que reali-     haver normas (expectativas de comportamento
zaram os importantes avanos iniciais nesse         apropriado) ligadas a cada posio de status em
tpico. Em particular, George Herbert Mead          uma estrutura social; e assim os papis so
(1934) reconheceu que os gestos assinalam dis-      simplesmente o comportamento de pessoas em
posies, sentimentos e provveis rumos de          determinadas posies de acordo com um script
ao das pessoas. Para Mead, portanto, um           normativo. Outros (R.H. Turner, 1962, Turner
papel  uma seqncia de gestos que denotam         e Colomy, 1987; Handel, 1979) no contes-
e realam as disposies e aes de um in-          tariam a existncia de normas guiando o com-
divduo. Mead apresentou o conceito de atribui-     portamento, mas sustentariam que as normas
o de papis (role-taking) para enfatizar que,     so apenas amplos parmetros dentro dos quais
quando os seres humanos lem os gestos uns          os indviduos criam papis que confirmam o eu
dos outros, assumem a perspectiva de orienta-       e satisfazem suas necessidades. E, se h um
o recproca e, por conseguinte, esto mais        script para a interao,  mais provvel que se
aptos a prever as aes mtuas. O fenomenlo-       inspire nos inventrios de papis que os in-
go Alfred Schutz (1932) realizou observaes        divduos levam consigo e usam na criao e
semelhantes acerca da leitura mtua de sinais e     adoo de papis. Ainda outros (Blumer, 1969)
gestos significativos de seres humanos para se      iriam mais longe e veriam as normas como um
obter um sentido de intersubjetividade. Mas,        dos muitos objetos em uma situao que os
como reconheceram todas essas figuras das pri-      indivduos podem ou no levar em conta quan-
meiras dcadas do sculo XX, um indivduo            do planejam em detalhe uma linha de conduta.
reage e interpreta os gestos de outro prisma do         Uma das ltimas e importantes idias teri-
seu prprio eu, das necessidades e reservas de      cas de Erving Goffman (1974) foi a noo de
conhecimento acumulado. Por conseguinte, a          "molduras", que so demarcaes cognitivas (
adoo de papis  sempre um tanto reflexiva.       semelhana do material fsico que cerca uma
    Os indivduos no s adotam e assumem           pintura) usadas pelos indivduos para delimitar
papis, mas, nos termos de Ralph H. Turner          o alcance e o tipo de respostas em seus papis.
(1962), tambm os criam. Ou seja, orquestram        A interao envolve, afirmou Goffman, a orien-
gestos a fim de sustentar um papel em uma           tao e reorientao (isto , o ordenamento e
situao que satisfaz suas necessidades e afirma    depois o reordenamento) de uma interao, mu-
suas concepes sobre si prprios. Esse proces-     dando os papis a serem desempenhados  me-
so ocorre at em situaes altamente estrutura-     dida que  mudada a moldura. Por exemplo,
das, em que indivduos em posies de status        quando uma conversa passa de um dilogo
                                                                                       papel social     553


polido e convencional para um nvel pessoal          avaliao e o planejamento detalhado de cursos
mais ntimo, d-se uma mudana de molduras           de ao (Hyman e Singer, 1968).
que, por sua vez, reescreve o script para cada           Assim, o trabalho cientfico social sobre
ator em seus respectivos papis. Outros amplia-      papis tem acompanhado a analogia com a
ram as idias de Goffman de maneiras que             dramaturgia e o teatro -- talvez mais do que
postulam certos tipos bsicos de molduras e          freqentemente se reconhece. Alm desse tra-
processos de orientao (J.H. Turner, 1988).         balho sobre os processos do papel social nor-
    Qual  natureza do palco? A partir do exame      mal, uma vasta tradio de pesquisa terica
do ritual religioso por mile Durkheim no co-        examina os processos de papel social proble-
meo do sculo XX (1912), numerosos pensa-           mtico e desviante. Os primeiros trabalhos
dores ampliaram a anlise de como a co-presen-       (Goode, 1960; Merton, 1957) focalizaram si-
a, per se, influencia o curso da interao nor-     tuaes problemticas, sobretudo as que envol-
mal. Erving Goffman (1959, 1967) foi o primei-       vem tenses do papel (dificuldades em satisfa-
ro a reconhecer que a distribuio de atores no      zer as expectativas do script para um papel) e
espao, seu posicionamento, seus movimentos          conflito de papis (exigncias incompatveis
nos palcos sociais e seu uso de acessrios fsicos   entre os vrios papis que os indivduos re-
determinam que papis as pessoas desempe-            presentam). Outra grande tradio de pesquisa
nham e como querem apresentar-se s outras.          concentrou-se em papis sociais desviantes
Mais recentemente Randall Collins (1988,             (crime, doena mental e condutas sexuais, por
p.223-6, e 1975) recorreu a Durkheim (1912) e        exemplo) que violam normas institucionais ge-
Goffman (1959) para enfatizar que o compor-          rais a respeito do comportamento apropriado.
tamento ritual em cenrios de interao normal       Algumas pesquisas nessa rea enfatizam as for-
 primordialmente influenciado pela densidade        as estruturais e culturais que impelem os in-
dos indivduos co-presentes no palco e por pa-       divduos para papis desviantes (Merton, 1938;
dres de desigualdade em seus respectivos re-        Quinney, 1979), enquanto outras obras exami-
cursos (por exemplo, quanto maiores a densi-         nam o modo como microinteraes podem ro-
dade e a desigualdade entre indivduos, mais os      tular e canalizar as pessoas para papis des-
rituais cotidianos so formais, explcitos, es-      viantes (Lemert, 1951; Goffmam, 1961; Scheff,
tereotipados e de curto prazo).                      1966).
    Qual  a natureza do pblico? Obviamente,            Em suma, o conceito de papel , pois, um
os indivduos co-presentes em uma situao           dos construtos mais centrais na cincia social
constituem um pblico e, dependendo dos re-          moderna.  considerado o ponto onde as es-
quisitos de montagem cnica, influenciam o           truturas sociais mais abrangentes incidem sobre
comportamento do papel -- adoo de papel,           os indivduos e, reciprocamente, uma fora cen-
criao de papel, moldura, ritual e conscincia      tral na construo de comportamentos que pro-
de normas. Entretanto, em uma tendncia con-         duzem, reproduzem ou mudam as estruturas
vergente com a anlise da conscincia coletiva       sociais. O trabalho sobre os processos do papel
por Durkheim (1893), George Herbert Mead             social est presente em todas as reas das cin-
(1934) afirmou que os indivduos representam         cias sociais, embora seja mais proeminente em
papis no s com outros que esto presentes         pesquisas sociolgicas e de psicologia social. Em-
em uma situao, mas tambm com outros que           bora as conotaes leigas de um conceito ainda
no esto presentes e, alm disso, com comuni-       influenciem o modo como os papis so concei-
dades de atitudes ou outros generalizados. Es-       tuados e investigados na cincia social, o conceito
ses outros especficos que no esto fisicamente     ampliou-se de forma considervel para alm de
co-presentes e esses outros generalizados que        seus usos literrios e teatrais originais.
personificam as perspectivas apropriadas a uma           Ver tambm INTERACIONISMO SIMBLICO.
situao constituem parte importante do pbli-
co para auto-avaliaes dos indivduos e repre-      Leitura sugerida: Bandon, M. 1965: Roles: an Intro-
sentao de papis no palco. Essas idias pro-       duction to the Study of Social Behavior  Biddle, B.S.
                                                     1979: Role Theory: Expectations, Identities and Beha-
moveram uma grande tradio de pesquisa so-          vior  Heiss, J. 1981: "Social Roles". In Social Psycho-
bre grupos de referncia, que so os tipos vari-    logy: Sociological Perspectives, org. por M. Rosemberg
veis de agrupamentos que os indivduos empre-        e R.H. Turner  Stryker, S. 1980: Symbolic Interactio-
gam como quadros de referncia para a auto-          nism  Turner, J.H. 1988: A Theory of Social Interac-
554    paradigma

tion  1991: The Structure of Sociological Theory,         vimento da tradio disciplinar. Finalmente,
5ed., caps.18-23  Turner, R.H. 1968: "Role: sociolo-     quando aparecem suficientes anomalias, ocorre
gical aspects". In International Encyclopedia of the
Social Sciences, vol.13, org. por David L. Sills  1979:
                                                          uma crise e se inicia ento um perodo de cin-
"Strategy for developing an integrated role theory".      cia revolucionria at que se forma um novo
Humboldt Journal of Social Relations 7, 114-22.           paradigma em torno do qual a comunidade
                               JONATHAN H. TURNER         cientfica (ora mudada) poder uma vez mais
                                                          manter-se coesa. O relato de Kuhn gerou vasta
paradigma Definido geralmente como mo-                    literatura secundria, na qual se afirmou, inter
delo, exemplar ou padro, este conceito  im-             alia, que a cincia normal estava longe de ser
portante para o pensamento social do sculo               to monoltica quanto Kuhn a descreveu, que as
XX em dois contextos: (1) no desenvolvimento              suas afirmaes acerca da "incomensurabili-
dos "argumentos baseados em casos paradig-                dade" dos paradigmas eram exageradas, que as
mticos", como passaram a ser chamados; (2)               revolues eram (ou, pelo menos, podiam ser)
por sua centralidade no livro imensamente in-             assuntos muito racionais, no converses quase
fluente de T.S. Kuhn intitulado The Structure of          religiosas, e que sua obra sofria de um siste-
Scientific Revolutions (1962).                            mtico equvoco realista/superidealista.
    Os argumentos de casos paradigmticos fo-                 S disponho aqui de espao para tratar das
ram usados pela escola de Oxford de FILOSOFIA             ltimas duas questes. Kuhn usa em muitos
DA LINGUAGEM em meados do sculo e se pode                lugares, de modo deliberadamente paradoxal, a
sustentar que eles, ou parentes prximos deles,           metfora dos cientistas que, depois de uma
tambm se encontram na obra do ltimo                     convulso revolucionria, ficam trabalhando
Wittgenstein. O argumento infere-se do fato de            em "diferentes mundos". Ora, parece claro que,
que uma palavra  ensinada por referncia a               depois de uma convulso revolucionria, faz
casos claros paradigmticos de que devem exis-            sentido falar de cientistas trabalhando em um
tir exemplos da coisa ou estado (tais como                diferente mundo cognitivo ou social -- na ter-
objetos materiais, livre-arbtrio) designado por          minologia do realismo crtico moderno, na di-
essa palavra. Parece vulnervel  objeo bvia           menso transitiva --, mas procurando ainda
de que o nosso jogo lingstico pode estar ba-            explicar para a maioria o mesmo mundo obje-
seado em mistificao ou iluso, como no caso             tivo ou natural -- ou seja, na dimenso intran-
do uso da palavra "bruxa" no sculo XVII.                 sitiva. O fato de Kuhn no ter efetuado essa
    O uso por Kuhn da palavra "paradigma" em              distino  que estava na origem do seu para-
The Structure of Scientific Revolutions foi sub-          doxo. Em segundo lugar, Kuhn formula em
metido a uma exaustiva anlise por Margaret               vrios lugares critrios para julgamento "ulte-
Masterman, que diferencia 21 sentidos do ter-             rior" de um novo paradigma, incluindo o nme-
mo na primeira edio do livro. No seu ps-es-            ro de problemas solucionados, a exatido das
crito para a segunda edio (1970), o prprio             predies etc., mas se abstm de qualific-lo de
Kuhn distingue dois significados principais: (a)          "melhor". Isso parece duplamente errado. Em
"a constelao inteira de crenas, valores, tc-          primeiro lugar, ignora a possibilidade de regres-
nicas etc. compartilhados pelos membros de                so histrica. Em segundo lugar, passa por alto
determinada comunidade", ou seja, uma matriz              a considerao de que o relativismo epistmico
disciplinar; e (b) "uma espcie de elemento               poderia conjugar-se, especialmente se associa-
dessa constelao, as solues concretas de               do ao realismo ontolgico, com o racionalismo
quebra-cabeas que, empregadas como mode-                 assertivo (conforme sustentado pelos realistas
los ou exemplos, podem substituir regras expl-           crticos). Os critrios de Kuhn para a ulteriori-
citas como base para a soluo dos restantes              dade histrica so de fato, pelo contrrio, crit-
quebra-cabeas da cincia normal", ou seja, um            rios (parciais) para a escolha racional.
exemplar. Exemplos desse ltimo significado
so os Principia Mathematica (1687), de Isaac             Leitura sugerida: Austin, John 1961: Philosophical
Newton, e New System of Chemical Philosophy               Papers  Bhaskar, Roy 1989: Reclaiming Reality, es-
                                                          pecialmente cap.3  Gellner, E. 1959 (1968): Words
(1808), de John Dalton. Essas obras fornecem              and Things  Kuhn, Thomas S. 1962 (1970): The
os paradigmas para o trabalho da cincia normal           Structure of Scientific Revolutions  Lakatos, I. 1970:
-- recursos a serem explorados, no hipteses             "Falsification and the methodology of scientific re-
a serem testadas -- na elaborao e desenvol-             search programmes". In Criticism and the Growth of
                                                                                        parentesco    555

Knowledge, org. por I. Lakatos e A. Musgrave  Mas-       refletem formas de estrutura social que se ex-
terman, M. 1970: "The nature of a paradigm". In Criti-   tinguiram. Prope a sua tese com uma vasta
cism and the Growth of Knowledge, org. por I. Lakatos
e A. Musgrave.
                                                         coleo de dados etnogrficos coligidos no
                                                         mundo inteiro, por instigao sua, e a partir do
                                      ROY BHASKAR
                                                         seu prprio conhecimento em profundidade do
parentesco Um interesse predominante dos                 iroqus, povo matrilinear nativo do Estado de
antroplogos desde o final do sculo XIX, o              Nova York.
parentesco continua sendo uma pedra angular                  As idias de McLennan sobre exogamia res-
para a compreenso das sociedades e um ins-              surgiram no sculo XX como fundamento da
trumento atravs do qual  possvel examinar             teoria da aliana (ver adiante). As idias de
questes tericas tais como a evoluo humana,           Morgan e, em especial, o seu interesse pelas
a organizao social e o pensamento "primiti-            terminologias de relacionamento permanece-
vo". Tambm  um tpico de interesse em ou-              ram importantes nos estudos de parentesco du-
tros campos, incluindo a psicologia, a sociolo-          rante todo o sculo seguinte. Entretanto adqui-
gia e a histria econmica e social.                     riram um significado mais amplo porque ele
                                                         considera o desenvolvimento da propriedade
O final do sculo XIX                                    privada a mais importante causa da evoluo
    A importncia do parentesco no final do              social, principalmente na mudana da descen-
sculo XIX estava relacionada com o seu sig-             dncia matrilinear para a patrilinear. Isso inte-
nificado para a teoria da evoluo social. Um            ressou a Karl Marx e Friedrich Engels, que
dos primeiros debates desenrolou-se em torno             ajudaram a popularizar as idias de Morgan fora
da precedncia histrica da organizao social           do domnio dos estudos de parentesco (ver, em
patrilinear (descendncia atravs dos homens)            especial, Engels, 1884).
versus matrilinear (descendncia atravs das
mulheres). Alguns autores do sculo XIX apre-            Teoria da descendncia
sentaram argumentos favorveis  primazia da                 No sculo XX os interesses voltaram-se para
descendncia patrilinear, tal como  encontra-           a compreenso de determinados sistemas de
da, por exemplo, na antiga Roma, na fundao             parentesco. O evolucionismo declinou entre os
da sociedade. Outros afirmaram que o casamen-            antroplogos quando a nova gerao se empe-
to no grupo e a organizao social matrilinear           nhou diretamente na pesquisa de campo, prtica
-- e at matriarcal (com a autoridade nas mos           seguida por poucos pensadores do sculo XIX.
das mulheres) -- precederam o desenvolvi-                Esse fato, somado ao impacto das abordagens
mento de grupos patrilineares e as regras de             sincrnicas, a-histricas, que estavam ganhan-
herana. Entre os principais pensadores que              do destaque tanto em lingstica e sociologia
sustentaram esse ponto de vista estavam John             quanto em antropologia, levou ao desenvolvi-
F. McLennan e Lewis Henry Morgan. A verso               mento da idia do parentesco como o alicerce
de McLennan (1865) da teoria baseava-se na               da organizao social e at mesmo do pensa-
suposio de que as pessoas conheciam seu                mento indgena dos povos que os antroplogos
relacionamento com as respectivas mes antes             estudaram. Nas tradies americana e britnica,
de entender o papel desempenhado pelos pais              as idias tericas bsicas que informaram a
na concepo. Isso, argumentou ele, levou               gerao seguinte de estudos do parentesco ori-
poliandria (o casamento de uma mulher com                ginaram-se com a escola funcionalista.
mais de um homem), depois  captura da noiva                 A idia central dessa escola, especialmente
e, finalmente,  exogamia (casamento fora do             o seu ramo estrutural-funcionalista, era a de que
grupo). Morgan concordava com McLennan                   uma sociedade se compunha de "sistemas":
sobre a precedncia da descendncia matrili-             econmico, poltico, religioso e de parentesco
near, mas apontou erros na linha de raciocnio           (por exemplo, Radcliffe-Brown, 1952, p.49-89,
de McLennan. Preferiu sustentar que a melhor             178-87). Os sistemas de parentesco passaram a
prova para as formas primitivas de organizao           ser considerados essenciais para o funciona-
social ser encontrada atravs do estudo da              mento da sociedade em geral, na medida em que
classificao de parentes (Morgan, 1871 e                as instituies sociais no interior do sistema de
1877). A sua suposio era de que as termino-            parentesco afetavam a estrutura das que es-
logias de relacionamento so conservadoras e             tavam fora desse domnio. Por exemplo, o pre-
556   parentesco


o da noiva (pagamento, usualmente em gado,         pos e categorias, e as implicaes dessas re-
feito por um noivo  famlia da noiva) tem          laes para o ordenamento das estruturas so-
implicaes para as relaes polticas no seio      ciais e cosmolgicas. Na raiz da aliana esto o
de -- e entre -- grupos de parentes que trocam      tabu do incesto e a idia de exogamia.
bens e pessoas em casamento.                            As sociedades de especial significao para
    O tema dominante que resultou dos estudos       os tericos da aliana eram aquelas em que de
nessa tradio passou a ser conhecido mais          fato a aliana ordena, em grande medida, tais
tarde como a teoria da descendncia, em oposi-      relaes. Incluem as da Austrlia aborgene,
o  teoria da aliana, a qual se desenvolveu      Amrica do Sul e partes da ndia, onde se requer
nas dcadas seguintes ao fim da Segunda Guer-       dos indivduos que se casem com parentes e
ra Mundial. Os tericos da descendncia es-         uma categoria especificada que inclui membros
tavam primordialmente interessados nas rela-        de ambos os lados da famlia (ver, por exemplo,
es dentro dos grupos de parentesco. Subli-        Dumont, 1975). Essa categoria  geralmente a
nharam a idia dos grupos como unidades aut-       do primo cruzado (filho do irmo da me ou da
nomas ou proprietrias de bens. Tal "proprie-       irm do pai) e de equivalentes terminolgicos
dade" podia assumir vrias formas: bens m-         mais distantes (como primos em segundo grau).
veis, terras, locais sagrados, status rituais ou    Em algumas dessas sociedades, por exemplo,
simplesmente um nome de grupo e sua exclu-          as da Austrlia aborgene, a aliana marital 
siva identidade. A filiao do grupo podia deri-    freqentemente parte de um sistema de ordem
var da descendncia atravs do pai, da me, de      mundial mais vasto, definido em termos in-
ambos ou de um outro (acarretando neste lti-       dgenas, no qual se considera que as relaes
mo caso um elemento de escolha individual).         entre grupos aparentados duplicam as relaes
As pessoas poderiam ser incorporadas ao grupo       entre animais, seres mticos e elementos do
ou permanecer membros de seus grupos natais,        cosmo, tais como o sol e a lua (Maddock, 1973).
segundo o costume. Os grupos podiam ser lo-             Outras sociedades de interesse para os te-
calizados ou largamente dispersos. Essas va-        ricos da aliana encontram-se em regies do Sul
riaes foram de grande importncia para os         e Sudeste Asiticos, onde se exige dos indiv-
pesquisadores de campo desde a dcada de 20         duos que se casem com parentes de um deter-
at comeos dos anos 60. Isso era especial-         minado lado da famlia. A forma tpica  uma
mente verdadeiro para os que, na tradio bri-      em que um homem se casa com um membro da
tnica, realizavam suas pesquisas entre povos       categoria classificatria que influi a filha do
patrilineares do continente africano (por exem-     irmo da me. Tal sistema  propcio  gerao
plo, Fortes, 1949; Evans-Printchard, 1951).         e manuteno da hierarquia social, na medida
                                                    em que define relaes absolutas entre grupos
Teoria da aliana                                   aparentados como "tomadores de esposas" e
    Enquanto a teoria da descendncia domina-       "doadores de esposas" a respeito um do outro.
va o pensamento antropolgico sobre parentes-       Nas sociedades hindus, os "tomadores de es-
co na Gr-Bretanha e pases na Comunidade, a        posas so considerados inferiores. Em outras
teoria da aliana estava se desenvolvendo na        sociedades, os "doadores de esposas" so fren-
Frana e, em certa medida, na Holanda, onde os      qentemente vistos como superiores. Quando o
scholars tinham antevisto a tendncia atravs       preo da noiva  pago, acumula-se nas mos dos
de estudos em profundidade dos sistemas de          grupos de parentes que do suas irms em ca-
parentesco das ndias Orientais. Na Frana,         samento em troca dessa riqueza (por exemplo,
Claude Lvi-Strauss era pensador de maior pro-      Leach, 1961, p.54-104, 114-23).
jeo, principalmente atravs do seu influente          Uma terceira possibilidade lgica envolve-
livro Les Structures lmentaires de la parent     ria o casamento de um homem com um membro
(1949). Lvi-Strauss e seus discpulos estrutu-     da categoria da filha do irmo de seu pai. Essa
ralistas sublinharam o significado da aliana       possibilidade no foi amplamente testada na
marital, dando-lhe preferncia sobre a forma-       literatura etnogrfica, em parte porque lhe falta
o de grupos de descendncia. A prpria pala-      a lgica do sistema simtrico de casamento de
vra aliana tem simplesmente o significado de       primos cruzados, que promove o igualitarismo,
"casamento". Na teoria da aliana,  aceito         e a do sistema assimtrico de casamento da filha
inferir relaes atravs do casamento, entre gru-   do irmo da me, que promove as relaes
                                                                                    parentesco     557


hierrquicas. Por motivos formais, o repetido      "masculino" (o que distingue uncle, tio, de
casamento da filha da irm do pai resultaria em    aunt, tia), "colateral" (o que distingue uncle, tio,
relaes assimtricas dentro de qualquer nvel     de father, pai) e "primeira gerao ascendente"
genealgico dado, mas em relaes simtricas       (o que distingue uncle, tio, de cousin, primo, e
entre quaisquer dois grupos ao longo do tempo      nephew, sobrinho). Analistas transformacio-
(Needham, 1962, p.101-26). Entretanto mere-        nais (como Scheffer e Lounsbury, 1971) adota-
ceu o interesse dos tericos (sobretudo de L-     ram abordagem muito diferente. Caracterizada
vi-Strauss) precisamente por ser uma possibili-    pela premissa de que alguns pontos genealgi-
dade lgica e no prtica.                         cos de referncia so mais fundamentais do que
    Um interesse mais recente dos tericos da      outros para a definio de uma categoria. Por
aliana incidiu sobre os sistemas, incluindo a     exemplo, nos sistemas "Crow-Omaha" do tipo
maior parte deles no mundo, que definem as         "Crow", a irm do pai, a filha da irm do pai, e
categorias com que um indivduo no deve           a filha da filha da irm do pai (todas membros
casar-se (por exemplo, a de parentes prximos).    do grupo matrilinear da irm do pai) podem ser
Esses sistemas mais "complexos" so vistos em      designadas por um nico termo de parentesco.
oposio aos "elementares", onde existe menos      Esse termo pode ser simplesmente rotulado
escolha (Hritier, 1981, p.137-67). Finalmente,    como "irm do pai" pelo analista, que deve
sistemas conhecidos como "semicomplexos"           ento explicar com lgica pseudomatemtica o
ou "Crow-Omaha" (do nome de duas tribos            mecanismo pelo qual o termo  "ampliado".
norte-americanas) envolvem proibies to ex-      Para os que adotam essas abordagens, o lugar
tensas que foram descritos como constituindo       da estrutura social na determinao da clas-
um tipo intermedrio (Hritier, 1981, p.73-        sificao de parentes era uma questo discutvel
136). Ironicamente, a existncia de sistemas       ou, em alguns casos, considerada simplesmente
semicomplexos na Amrica do Norte e na fri-       irrelevante.
ca facilitou o pedido de Lvi-Strauss (1966) de        Outros antroplogos norte-americanos su-
reconhecimento de todos os sistemas reais de       blinharam a variedade de formas de classifica-
parentesco como sendo apenas aproximaes          o acima de suas propriedades formais. O
dos seus tipos ideais. Isso precipitou um spero   principal deles foi George Peter Murdock, que,
confronto entre ele e os empiristas que, nas       tal como Morgan antes dele, viu nas teorias de
dcadas de 50 e 60, adotaram a abordagem da        relacionamento um reflexo da evoluo social.
teoria de aliana.                                 Murdock (1949) identificou seis tipos de es-
                                                   trutura de terminologia de relacionamento. De-
Terminologias de relacionamento                    nominou-os de acordo com entidades tribais ou
    Nos Estados Unidos, o interesse dominante      geogrficas, em alguns casos no muito acura-
no sculo XX no foi a descendncia nem a          damente, mas a sua inteno, em todo caso, era
aliana, mas o estudo de terminologias de pa-      que os nomes fossem considerados mais como
rentesco ou relacionamento. No obstante,          exemplares do que como totalmente abrangen-
houve ausncia de acordo quanto  natureza das     tes. Por exemplo, a estrutura "havaiana" clas-
estruturas da terminologia de relacionamento.      sifica todos os irmos do mesmo sexo e todos
A.L. Kroeber (1909) afirmou que elas repre-        os primos do mesmo sexo por um dado termo
sentam, no a "sociologia", mas a "psicologia",    nico, diferentemente, digamos, da estrutura
com o que quis referir-se s propriedades for-     "esquim" (tanto a da lngua inglesa quanto a
mais do pensamento humano. Nesse sentido e         das lnguas inuit ou esquim), a qual distingue
em certa medida, ele antecedeu Lvi-Strauss.       irmo e irm de primo e prima. O tipo "havaia-
Entretanto os seus mais diretos descendentes       no", estruturalmente o mais simples,  encon-
intelectuais eram os praticantes da anlise com-   trado no s no Hava, mas tambm, por exem-
ponencial e transformacional das dcadas de 50     plo, na frica Ocidental. Para Murdock e seus
e 60. Os analistas componenciais (como Goo-        seguidores, cada tipo representava uma estru-
denough, 1956) basearam-se em idias da lin-       tura terminolgica que podia refletir determina-
gstica para desenvolver mtodos com que          do estgio ou estgios da evoluo humana,
analisar os componentes semnticos de termos       mas no implicava necessariamente uma ori-
de relacionamento. A palavra uncle em ingls,      gem lingstica ou cultural comum de todos os
por exemplo, compreende os componentes             povos que a possuem.
558    participao


Desenvolvimentos recentes                                quanto a prpria democracia, mas se tornou
    No final do sculo XX a tendncia tem sido           imensamente mais difcil em conseqncia da
para snteses das abordagens do passado e para           escala e abrangncia do governo moderno, bem
o refinamento de idias tericas com os para-            como pela necessidade de decises precisas e
digmas de descendncia, aliana e terminolo-             rpidas -- cuja omisso  motivo de protesto
gia. Os tericos da aliana, em particular, ten-         por parte dos que exigem maior participao.
taram atacar o problema da relao entre os mo-          No perodo do ps-guerra a tendncia foi para
delos altamente tericos apresentados por L-            estender a participao a outros campos alm
vi-Strauss e os dados etnogrficos (por exem-            do poltico -- por exemplo,  educao supe-
plo, Needham, 1973 e 1986; Good, 1981).                  rior, onde era a principal exigncia de todos os
    Outros desenvolvimentos incluram o inte-            protestos estudantis no final da dcada de 60 e
resse nas implicaes sociais da fertilizao in         de novo no final dos anos 80; e, de muito maior
vitro por doador, me de aluguel e adoo (ver           importncia e alcance,  indstria,  atividade
FAMLIA). Todas essas preocupaes de natureza           comercial e, a partir do final da dcada de 70,
prtica refletem um interesse terico em expli-          aos governos locais. Foi nessa fase que o "sig-
car a variao transcultural no conceito de "pa-         nificado fraco" de participao comeou a se
rentesco" e em compreender a rea cinzenta que           desenvolver. A prtica pela qual os empregados
separa a natureza da cultura (ver Hritier-Aug,         assumem uma participao maior nas decises
1985).                                                   administrativas foi introduzida na dcada de 50
    Ver tambm ANTROPOLOGIA.                             pelo governo federal na Alemanha Ocidental;
                                                         ela propagou-se, sob vrias formas, a outros
Leitura sugerida: Barnard, A. e Good, A. 1984: Re-       pases da Europa Ocidental (uma deciso seme-
search Practices in the Study of Kinship  Bohannan, P.
e Middleton, J., orgs. 1968: Kinship and Social Orga-
                                                         lhante na Itlia data do comeo dos anos 70 e
nization  Dumont, L. 1971: Introduction  deux tho-     na Frana, do final dos anos 80) e foi adotada
ries d'anthropologie sociale  Fox, R. 1967: Kinship      como um objetivo, ainda no inteiramente al-
and Marriage: an Anthropological Perspective  Goo-       canado, pela Comunidade Europia a fim de
dy, J.R., org. 1971: Kinship: Selected Readings  org.    expressar o que esta chama de "imperativo
1973: The Character of Kinship  Graburn, N., org.        democrtico", definido como o princpio se-
1971: Reading in Kinship and Social Structure  Nee-
dham, R., org. 1971: Rethinking Kinship and Marriage
                                                         gundo o qual "os que sero substancialmente
 Schneider, D.M. 1984: A Critique of the Study of
                                                         afetados por decises tomadas por instituies
Kinship.                                                 sociais e polticas dever ser envolvidos na for-
                                    ALAN BARNARD         mulao dessas decises". No Reino Unido, o
                                                         muito influente Relatrio Bullock sobre DEMO-
participao Conceito ambguo nas cin-                  CRACIA INDUSTRIAL, propondo uma variante do
cias sociais, participao pode ter um significa-        sistema alemo do Mitbestimmung, foi rejeita-
do forte e fraco. No primeiro, significa que, em         do pelos empregadores. Desde ento os sin-
virtude das dimenses e da complexidade das              dicatos tm fracassado redondamente nos es-
sociedades de massa contemporneas, da cen-              foros para se chegar a uma poltica comum.
tralizao do poder poltico, do crescimento da          Outras formas de participao, por exemplo, o
burocracia e da concentrao do poder econ-             recrudescimento do interesse em cooperativas
mico, as garantias tradicionais da democracia            e em programas de participao nos lucros e de
precisam ser fortalecidas, protegidas e amplia-          propriedade compartilhada superaram a inicia-
das a fim de contrabalanar a tendncia para um          tiva da Comunidade Europia. Dentro da CEE,
nmero cada vez maior de decises a serem                o conceito de "parceiros sociais" tentou forne-
tomadas por pequenos grupos e que afetam a               cer uma plataforma para a participao em to-
vida das pessoas; esses grupos so freqente-            dos os nveis.
mente remotos e no facilmente identificveis                Mais recentemente uma participao mais
ou responsabilizados, uma vez que atuam em               ampla dos trabalhadores na mudana tecnol-
nome do estado, de uma autoridade local ou de            gica apresentou-se como soluo realista para
alguma grande empresa comercial ou indus-                os numerosos conflitos que estavam sendo ge-
trial. (Ver tambm PARTICIPAO POLTICA.)               rados pela vasta adoo de "tecnologias de
    Nesse sentido, e no que diz respeito  pol-         informao". A fim de prevenir ou reduzir a
tica, o princpio da participao  to antigo           importncia do conflito, desenvolveram-se
                                                                           participao poltica   559


"mtodos participativos" de mudana tecnol-         participao poltica Significa o nmero e
gica, variando de acordo com as diferentes con-      a intensidade de indivduos e grupos envolvidos
dies scio-econmicas e com a fora dos            na tomada de decises. Desde o tempo dos
sindicatos na Europa, Estados Unidos e Japo;        antigos gregos, consistiu idealmente no encon-
assim, "esquema participativo" e "participao       tro de cidados livres debatendo publicamente
em escolhas tecnolgicas" converteram-se em          e votando sobre decises de governo. A teoria
expresses cabalsticas largamente usadas, mas       mais simples sempre foi que o bom governo
de contedo e significado extremamente vagos         depende de altos nveis de participao. Mas
para a grande maioria. As solues propostas         isso  difcil de conseguir fora de pequenas
para evitar as esperadas conseqncias da mu-        unidades, pelo que a participao ocorre em
dana tecnolgica podem dividir-se em duas           modos indiretos -- a distino entre DEMOCRA-
categorias: processuais e substantivas. As pri-      CIA representativa e direta -- e em modos m-
meiras so mais um conjunto normativo de             nimos, como a votao simples em eleies
regulamentaes baseadas em legislao, nor-         ocasionais. A grande maioria das decises dos
mas e regras, defendidas sobretudo pelos sin-        governos  tomada independentemente dos de-
dicatos e preocupadas com os mtodos de intro-       sejos dos seus cidados. Para tentar superar esse
duo de novas tecnologias. As questes subs-        gigantesco abismo entre o poder do estado e a
tantivas relacionam-se mais com as condies         autenticidade do indivduo, Jean-Jacques Rous-
operacionais, uma vez implementadas as mu-           seau props a sua famosa doutrina da Vontade
danas tecnolgicas. O objetivo fundamental          Geral: uma pessoa s pode ser verdadeiramente
dos mtodos participativos  estabelecer um          um cidado (com todos os direitos e deveres
                                                     pertinentes) quando quer o bem geral, no o seu
forte consenso em torno da mudana tecnolgi-
                                                     bem particular. Embora essa doutrina seja de-
ca; para tanto, promete-se a elaborao de um
                                                     mocrtica no sentido de que qualquer ser huma-
processo mais democrtico de tomada de de-
                                                     no, por mais ignorante que seja, pode expressar
cises e o fornecimento de informao aos sin-       a vontade geral, ela no faz a virtude constar da
dicatos, em uma etapa inicial do processo, mui-      prova.
to antes de ser tomada a deciso final e enquanto        Os tericos liberais do sculo XIX fizeram
ainda for possvel influenciar a escolha; criam-     da educao o teste de competncia para a
se cmaras setoriais em que sindicatos e patres     participao; no sculo XX o poder democrti-
discutem, negociam e fiscalizam as mudanas,         co tem requerido simplesmente a instruo pri-
com a possibilidade de consultar especialistas       mria e secundria compulsria. Embora a cres-
independentes; e estimula-se o envolvimento          cente participao popular fosse vista como a
dos usurios no planejamento da futura organi-       fora do governo representativo, alguns preo-
zao e, em parte, no uso da tecnologia.             cupavam-se com o fato de tal participao das
    As questes substantivas so orientadas para     massas estar cada vez mais vulnervel  mani-
a proteo do status, do salrio e das qualifi-      pulao pelas elites (ver ELITES, TEORIA DAS). A
caes existentes, e para garantir que o mesmo       antiga autocracia seguiu o adgio ou teoria de
nvel de emprego ser mantido; os deslocamen-        governo, "deixem quieto o co adormecido" --
tos internos s sero permitidos se associados a     nada mais era necessrio alm da obedincia
programas substanciais de treinamento e reci-        passiva; mas os lderes polticos modernos, tan-
clagem.                                              to de esquerda quanto de direita, exigiram en-
    Apesar de resultados significativos, em es-      tusiasmo positivo, "mobilizando as massas" pa-
pecial a reduo do nmero e da intensidade de       ra criar um poder sem precedentes com vistas 
conflitos sociais concretos e visveis, eviden-      transformao social. Assim, as teorias da par-
cia-se que os "mtodos participativos" revela-       ticipao adotaram formas totalitrias e formas
ram alguns problemas novos, de soluo mais          democrticas.
difcil.                                                 Robert Michels (1911) postulou uma "lei de
                                                     ferro da oligarquia": acima de toda a base de-
Leitura sugerida: Pateman, Carole 1970: Participa-   mocrtica situava-se uma hierarquia burocrti-
tion and Democratic Theory  Poole, Michael 1978:     ca. Outros afirmavam que isso no  neces-
Worker's Participation in Industry.                  sariamente antidemocrtico, desde que essas
                                    MARCO DIANI      elites sejam competitivas, circulem ou sejam
560   partido poltico


penetrveis. Sindicalistas, socialistas corporati-      Amrica do Norte oitocentistas coincidiu com
vos, anarquistas e pluralistas, todos eles, entre-      o surgimento de sistemas polticos baseados na
tanto, negaram a premissa de que as sociedades          soberania popular, quando era necessrio um
so simples hierarquias de lderes e massas,            vnculo entre governantes e governados. Quan-
vendo-as mais como uma pluralidade de grupos            do a poltica tem lugar exclusivamente no m-
que constituem comunidades participativas e             bito de uma elite fechada que no  responsvel
parcialmente sobrepostas.                               perante o restante da populao, os partidos no
    Alguns pensadores (especialmente os da tra-         existem; onde, pelo contrrio, existe alguma
dio federalista americana) sustentam que a            forma de representao, mesmo que muito li-
participao deve ser limitada por controles            mitada ou reprimida, surgem os partidos. Eles
institucionais, que s as normas legais e uma           desenvolvem-se plenamente, porm, quando se
estrutura constitucional criam uma SOCIEDADE            preenchem trs condies, as quais tendem a
CIVIL justa. Outros (especialmente os da tradi-         estar presentes por quase toda parte no mundo
o revolucionria francesa) defendem que a             contemporneo. A primeira condio  a exis-
sociedade civil nada mais  que uma evoluo            tncia de segmentaes sociais (tnicas, religio-
desembaraada da participao popular.                  sas ou baseadas em classe, por exemplo) -- pois
    A necessidade de uma classe trabalhadora            caso contrrio os partidos tendem a ser coteries
qualificada e instruda nas modernas socieda-           pessoais e caudilhescas; a segunda condio 
des industriais fora as classes governantes a          que o governo se baseie no apoio popular, mes-
tolerar, e at a encorajar, altos nveis de partici-    mo que este se d mais por palavras do que por
pao, seja ela controlada por um movimento             atos; e a terceira  que precisa haver a crena
de massa de partido nico ou por movimentos             em que a vitria s ser obtida se a massa da
abertos, voluntrios e habituais. Alguns ainda          populao, ou pelo menos uma substancial pro-
afirmam, porm, que altos nveis de apatia po-          poro dela, estiver organizada -- pequenas
ltica denotam estabilidade social; mas essa            conspiraes, portanto, so tidas por inadequa-
idia  duvidosa e as estatsticas que pretendem        das.
prov-la medem usualmente a participao                    Essas trs condies no foram preenchidas
atravs dos partidos polticos formais, e no em        na maior parte da Europa Ocidental na primeira
toda a gama de grupos sociais em que as taxas           parte do sculo XIX. Por isso, a tendncia dos
de participao so mais elevadas.                      partidos era para serem dominados por peque-
    Ver tambm AUTOGESTO; PARTICIPAO.                nas faces ou por membros da antiga elite
                                                        social; eram partidos de cadre. Sob a presso da
Leitura sugerida: Keane, J., org. 1988: Democracy
                                                        ampliao do sufrgio, as organizaes partid-
and Civil Society  Kornhauser, W. 1959: The Politics
of Mass Society  Michels, Robert 1911 (1962): Politi-   rias comearam a se expandir, adquiriram filia-
cal Parties  Pateman, Carole 1970: Participation and    dos e nomearam substanciais contingentes de
Democratic Theory  Schumpeter, J.A. 1942 (1987):        funcionrios, recrutados cada vez mais nas fi-
Capitalism, Socialism and Democracy.                    leiras da classe mdia comum e at da classe
                                   BERNARD CRICK        trabalhadora; tornaram-se partidos de "massa",
                                                        dos quais os melhores exemplos foram os par-
partido poltico Para cumprir seus objeti-              tidos trabalhistas ou sociais-democratas fun-
vos de conquistar o poder ou de impedir que             dados no final do sculo XIX. Eram ostensiva-
outros o tomem, os partidos polticos montam            mente democrticos na medida em que seus
tipicamente grandes organizaes com ramifi-            programas de ao poltica eram oficialmente
caes por todo o pas, adotam programas que            decididos por congressos que representavam os
so propostos ou impostos  populao e recru-          filiados; na prtica, os lderes exerciam consi-
tam futuras geraes de polticos.                      dervel poder e eram freqentemente acusados
    Os partidos polticos constituem, essencial-        de praticar um controle burocrtico. A fim de
mente, uma inovao do sculo XIX. Existiram            combater com eficcia os seus novos advers-
antes espasmodicamente, mas em certos tipos             rios, os partidos da direita e do centro adotaram
de comunidades politicamente organizadas, co-           gradualmente muitas das caractersticas de or-
mo a Repblica romana, as cidades do Renas-             ganizao dos seus concorrentes. A era do par-
cimento italiano ou a Inglaterra dos Stuart e dos       tido de massa parecia ter chegado com o sculo
Hanover. Sua expanso na Europa Ocidental e             XX.
                                                                                       patriarquia     561


    Ao mesmo tempo, contudo, outro tipo de           tidrias intermdias e as estruturas partidrias
partido poltico, com finalidade um tanto dife-      em geral esto ficando redundantes. Enquanto
rente, comeou a ganhar razes, primeiro na          isso est ocorrendo no Ocidente, o colapso de
Europa Oriental e Central e, depois de 1945, em      muitos sistemas de partido nico e, em especial,
muitos estados recm-independentes do Tercei-        da maioria dos sistemas de partido nico comu-
ro Mundo. Esse tipo de partido foi criado para       nista constitui um severo golpe no prestgio dos
servir de esteio a governos que queriam impor        partidos como organizaes mobilizadoras.
seu domnio autoritrio, ou mesmo totalitrio,           Entretanto no existem substitutos reais para
quer de direita (sendo o fascismo e o nazismo        os partidos no mundo contemporneo, quer nos
os casos mais claros), quer de esquerda (o co-       pases industriais, quer nos pases em desenvol-
munismo, mas tambm as vrias formas de              vimento. Algum relacionamento entre o povo e
"populismo" do Terceiro Mundo). Nesses re-           o governo tem que existir, ainda que os vnculos
gimes, o partido nico era o instrumento da          estejam ficando menos apertados; tambm tem
ditadura, porquanto fornecia um meio de divul-       que haver um lugar onde programas e polticas
gao da mensagem dos governantes por todo           sejam formalmente adotados e divulgados, e
o pas. A finalidade era, essencialmente, mobi-      onde as exigncias de grupos possam ser apre-
lizar a populao e control-la, embora esses        sentadas e discutidas; e tem que haver um canal
esforos precisassem, tipicamente, ser combi-        atravs do qual futuros polticos possam ser
nados com a popularidade de um lder "caris-         recrutados. Por todas essas razes, os partidos
mtico" (ver CARISMA). Entretanto, mesmo nes-        continuaro desempenhando um importante
ses casos, o sucesso do partido nico foi fre-       papel na vida poltica de nossas sociedades,
qentemente efmero e raras vezes verdadeira-        mesmo que o entusiasmo que caracterizou os
mente duradouro: a queda dos regimes comu-           primeiros tempos de seu desenvolvimento te-
nistas na Europa Oriental e Unio Sovitica,         nha cedido lugar a um apoio carente de entu-
depois de muitas dcadas de poder aparente-          siasmo e at a contnuas crticas.
mente inabalvel, mostrou a fraqueza intrnseca
do sistema de partido nico.                         Leitura sugerida: Castles, F.C., org. 1982: The Impact
                                                     of Parties  Duverger, M. 1951: Les partis politiques
    Os sistemas de partidos competitivos pare-        Janda, K. 1980: Political Parties: a Cross-National
cem mais estveis, de modo geral, pelo menos         Survey  Michels, Robert 1911 (1949): Political Par-
na Europa Ocidental e na Amrica do Norte.           ties  Randall, V., org. 1988: Political Parties in the
Alastraram-se para outras partes do mundo,           Third World  Sartori, G. 1976: Parties and Party Sys-
com variveis graus de sucesso, tendo a Am-         tems  Wolinetz, S., org. 1988: Parties and Party
rica Latina, em particular, conhecido intermi-       Systems in Liberal Democracies.
tentemente perodos de poltica competitiva se-                                               J. BLONDEL
guidos de perodos de governo militar. Com
efeito, mesmo na Europa Ocidental os sistemas        patriarquia As mulheres so sistematica-
de partidos competitivos tm sido objeto de          mente prejudicadas na sociedade do sculo XX
importantes crticas e reavaliaes. Est em         na maioria das arenas da vida social. A patriar-
questo a estabilidade do partido de massa, com      quia  um sistema social em que os homens
o declnio da "identificao" partidria e o cres-   dominam, oprimem e exploram as mulheres. 
cimento da "independncia" do eleitorado. Os         um conceito que enfatiza a inter-relao entre
programas partidrios perderam muito de sua          os vrios modos em que os homens tm PODER
clareza quando comearam a levar cada vez            sobre as mulheres. Considera-se que as relaes
mais em conta as exigncias feitas por grupos        sociais atravs das quais os homens dominam
que apresentam novas questes "ps-moder-            as mulheres incluem a reproduo, a violncia,
nas", sobretudo a respeito do meio ambiente.         a sexualidade, o trabalho, a cultura e o estado
    Esses desenvolvimentos tm redundado no          (Walby, 1990). Outros preferem considerar que
questionamento do papel dos partidos. Sua fun-       o conceito de patriarquia no  a melhor forma
o programtica parece estar encolhendo; eles       de teorizar sobre a desigualdade de GNERO.
so s vezes postos de lado por apelos diretos          A abordagem tradicional da patriarquia ca-
s pessoas atravs de referendos; a personaliza-     racterizava-a como baseada na posio do ho-
o de lderes, instigada pela mdia, em parti-      mem como dono da casa e chefe de famlia. Um
cular pela televiso, significa que as elites par-   uso mais recente inclinou-se, embora no ex-
562   paz


clusivamente, para a ampliao do significado         Adrienne 1980: "Compulsory heterosexuality and les-
de patriarquia, de modo que essa abordagem em         bian existence". Signs 5.4, 631-60  Walby, S. 1990:
                                                      Theorizing Patriarchy.
termos de famlia  meramente vista como um
dos aspectos ou formas do sistema. Todas as                                              SYLVIA WALBY
teorias da patriarquia consideram existir uma
fundamental diviso de interesses entre a maio-       paz Uma estrita concepo de paz, como a
ria dos homens e a maioria das mulheres como          anttese de GUERRA, a "transformao de es-
resultado da estruturao social das relaes de      padas em relhas de arados",  intelectualmente
gnero. Algumas delas fazem referncia aos            mais fecunda do que uma que dilate o seu
aspectos biolgicos da reproduo (por exem-          significado ao ponto de faz-la sinnimo de
plo, Firestone, 1970), mas isso  incomum,            utopia.
principalmente em escritos mais recentes. Uma             Grande parte do pensamento do sculo XX
caracterstica mais freqente de tais anlises       sobre a paz assumiu a forma de receitas para a
o controle das mulheres atravs da sexualidade,       criao ou transformao de instituies inter-
com referncia  instituio da heterossexuali-       nacionais em resposta s duas guerras mun-
dade (Rich, 1980) e a fenmenos tais como a           diais. Inis Claude (1956) relacionou seis abor-
pornografia (Dworkin, 1981). A violncia mas-         dagens da paz atravs da organizao interna-
culina como base do controle da mulher pelo           cional: soluo pacfica de disputas, segurana
homem  o enfoque adotado por algumas an-            coletiva, desarmamento, o "solene debate", cu-
lises da patriarquia (Brownmiller, 1976; Daly,        radoria e funcionalismo. Mais tarde, na terceira
1978). Outras anlises tm uma nfase mais            edio do seu livro, ele acrescentou uma stima
materialista, com o exame do modo como os             abordagem, a diplomacia preventiva. A soluo
homens se beneficiam da mo-de-obra femini-           pacfica envolve a tarefa de persuadir os estados
na, como trabalho domstico no-remunerado            a adiarem respostas violentas a situaes de alta
e mo-de-obra mal paga no mercado de traba-           tenso para que se possam esfriar as paixes,
lho. Essas anlises so freqentemente integra-       investigar imparcialmente os fatos e ponderar
das com outras estruturas de desigualdade so-         as solues alternativas. A segurana coletiva,
cial, como o capitalismo, em um estudo abran-         mais ambiciosamente, sublinha a "indivisibili-
gente da patriarquia (Hartmann, 1979).                dade da paz", prometendo dissuadir os atos de
    O conceito de patriarquia  controvertido.        agresso, donde quer que provenham, mediante
Alguns crticos, por exemplo, apontavam que           o compromisso de todos os estados de que
ele leva a uma depreciao de outras formas de        resistiro a eles. O desarmamento pressupe
desigualdade social, como classe e "raa". Isso       que as corridas armamentistas ameaam a paz
 rebatido por autores como Hartmann, que             na medida em que nutrem e favorecem a beli-
combina uma anlise da patriarquia com a do           gerncia e (em uma era nuclear) tornam mais
capitalismo em uma teoria de sistemas mistos.         provvel uma guerra no-premeditada. Claude
    Essencialismo, falso universalismo e a-his-        ctico quanto a essas trs abordagens, as quais
toricismo so outras crticas a indicar que o         remontam todas  criao da Liga das Naes
termo no permite uma apreciao adequada da          e at antes. Ele v mais potencial nas outras. O
variedade de formas das relaes de gnero            valor do "solene debate", sintetizado pelas atas
entre culturas, grupos tnicos e diferentes pe-       da Assemblia Geral das Naes Unidas, reside
rodos histricos. Em resposta, desenvolveram-        em dotar os estados de feedback acerca dos
se estudos que analisam a variedade das formas        modos como suas aes polticas so vistas
de patriarquia e como elas mudam com o passar         pelos outros, induzindo assim a ajustamentos e
do tempo.                                             concesses mtuas. A curadoria, tal como
    A utilidade do conceito est em fornecer um       Claude a define, inclui todas as tentativas, desde
foco para teorizar as relaes de gnero que leva     a Liga em diante, de superviso internacional
em conta a interligao dos diferentes aspectos       do domnio colonial. A sua avaliao das nota-
da opresso das mulheres pelos homens.                velmente bem-sucedidas presses das Naes
Leitura sugerida: Daly, Mary 1978: Gyn/Ecology: The
                                                      Unidas em prol da descolonizao como "pos-
Metaethics of Radical Feminism  Mies, Maria 1986:     sivelmente a ltima oportunidade ao alcance da
Patriarchy and Accumulation on a World Scale: Women   civilizao europia de expiar o seu passado
in the International Division of Labour  Rich,        sombrio no trato com povos no-europeus" pa-
                                                                           paz, movimento pela      563


rece agora excessivamente otimista. A descolo-      reunidos em particular e cada um deles infor-
nizao no trouxe, por certo, a paz em sua         malmente encorajado a expressar as suas pr-
esteira. O funcionalismo, exposto por David         prias alegaes, escutar o que a outra parte tem
Mitrany (1946), sustenta que, se for permitido      a dizer e, finalmente, formular sugestes, no
a especialistas de vrias nacionalidades, livres    para um "compromisso", mas para uma "reso-
da interferncia dos responsveis pela poltica     luo". Essa nfase sobre uma negociao "in-
externa dos governos, colaborarem na soluo        tegrativa" promove uma abordagem criativa
de problemas econmicos e sociais internacio-       para a soluo de conflitos, mas seria uma
nais, entre outros, eles estabelecero, mais cedo   noo desnecessariamente rigorosa desta lti-
ou mais tarde, as fundaes de uma paz mais         ma a que negasse qualquer papel  negociao
duradoura, gerando novas lealdades internacio-      "distributiva" no processo de pacificao.
nais nas populaes pertinentes para substituir        Ver tambm PACIFISMO; RELAES INTERNA-
a tendncia dissentnea das antigas lealdades       CIONAIS.
nacionais. Finalmente, a diplomacia preventiva
                                                    Leitura sugerida: Claude, I.L. 1956 (1964): Swords
representa a inovadora resposta da ONU a            into Plowshares, 3ed.  Curle, A. 1971: Making Peace
crises, atravs do envio de foras, misses e        Deutsch, K.W., Burrell, S.A., Kann, R.A., Lee, M.,
representantes e a interveno ativa do secret-    Lichterman, M., Lindgren, R.E., Loewenheim, F.L., e
rio-geral, depois do dramtico precedente cria-     Van Wagenen, R.W. 1957: Political Community and the
do durante a crise de Suez em 1956.                 North Atlantic Area  Hinsley, F.H. 1963: Power and
                                                    the Pursuit of Peace  Mitchell, C.R. 1981: Peacema-
    Diferentemente de federalistas mundiais co-     king and the Consultant's Role  Mitrany, D. 1946: A
mo Emery Reeves (1945), Claude acredita cla-        Working Peace System.
ramente que a paz  possvel sem a tentativa de                                    RODERICK C. OGLEY
criao de um estado mundial. Esse ponto de
vista recebeu o forte apoio de um estudo reali-     paz, movimento pela Algo que pode ser iden-
zado por Karl Deutsch e seus colegas (1957)         tificado como um movimento pela paz existe na
que examina o crescimento e a desintegrao         Europa h, pelo menos, dois sculos, se no
de comunidades na "rea do Atlntico Norte"         mais. Entretanto, ao contrrio de outros movi-
desde a Idade Mdia. Eles procuram identificar      mentos, como o movimento trabalhista, por
"comunidades de segurana" caracterizadas           exemplo, ou o liberalismo, o movimento pela
pela capacidade de garantir, por um "extenso"       paz no tem memria coletiva (ver tambm
perodo, expectativas fidedignas de que os pro-     AO COLETIVA). Baseou-se sempre nas ener-
blemas sociais sero resolvidos sem se recorrer     gias de voluntrios e, com a respeitvel exceo
 fora fsica em grande escala, e mostram que      dos quacres, nunca teve instituies perma-
a fuso (incluindo a federao) no  necessria    nentes. Cada novo surto de protestos pacifistas
nem suficiente para o estabelecimento de tais       teve que descobrir para si mesmo suas idias,
comunidades. Assim, o Canad e os Estados           mtodos e slogans. H muito pouca coisa em
Unidos formam uma "comunidade de seguran-           termos de uma tradio pacifista contnua.
a pluralista" e os pases escandinavos (e talvez        O surgimento do movimento pacifista coin-
agora a maior parte da Europa Ocidental,            cidiu com a asceno do capitalismo e a cons-
incluindo no-membros da Comunidade Euro-           truo de um sistema de estados europeus. As-
pia), uma outra. Os elementos cruciais so         sim como a cincia econmica e a poltica
redes de comunicao, mltiplos pontos de           passaram a ser esferas de atividades distintas,
contato e "instituies e prticas" que sejam       tambm durante esse perodo o conceito de paz
confiveis e flexveis.                             se tornou nitidamente diferencivel do conceito
    Outros tericos da paz tm se dedicado aos      de guerra. A guerra passou a ser uma atividade
processos pelos quais ela pode ser instaurada       social distinta em dois aspectos. Em primeiro
em situaes internacionais (e intercomunais)       lugar, tornou-se uma atividade externa dirigida
extremamente tensas. O recurso de John Burton       contra outros estados. Foi um perodo em que
da "comunicao controlada", bem articulado         se eliminaram os exrcitos particulares, res-
por Mitchell (1981), aborda o conflito humano       tringiu-se cada vez mais a violncia nas rela-
"como fenmeno essencialmente subjetivo" e,         es sociais internas e as foras armadas foram
portanto, dinmico e malevel. Os represen-         profissionalizadas e monopolizadas pelos es-
tantes das partes em um conflito especfico so     tados. Em segundo lugar, a guerra transformou-
564   paz, movimento pela


se em atividade temporria, exceo, estado de     ambiciosos que sejam, os projetos de paz inter-
coisas anormal. Com o aumento de toda a es-        nacional no podem ser implementados a me-
pcie de relaes e tratados, regulamentos acei-   nos que os seres humanos, como indivduos e
tos, congressos etc. entre os estados europeus     animais sociais, adquiram uma mentalidade
-- o que se tornou conhecido como o "direito       mais apreciadora da paz. A partir dessa pers-
pblico da Europa" --, as guerras foram se         pectiva, a construo da paz, seja no interior das
tornando menos freqentes, alternando-se com       naes ou em nvel internacional, no  tanto
longos perodos de PAZ. Foi a partir dessa expe-   conseqncia do estabelecimento de alguma
rincia de paz, internamente e por perodos        espcie de autoridade governamental ou inter-
prolongados, que uma srie de atividades, dis-     governamental responsvel por assegurar a paz
cusses e campanhas que poderiam ser chama-        e a segurana -- tem muito mais a ver com
das de movimento pela paz se conjugaram para       valores individuais e relaes sociais.
trabalhar pelo que Kant chamou a "paz perp-           Essa linha de pensamento inclui a tradio
tua".                                              do PACIFISMO absoluto, ou seja, o compromisso
    Entretanto, embora seja possvel identificar   individual com a no-violncia, que vamos en-
um interesse comum em evitar a guerra em           contrar nos cristos primitivos, nos quacres,
geral, ou guerras particulares, a expresso "mo-   cujo movimento foi fundado durante a Guerra
vimento pela paz" engloba vasta gama de opi-       Civil inglesa, nos objetores de conscincia e em
nies, tendncias, teorias e at assuntos. De      organizaes como a War Resisters Internatio-
modo geral, podem-se distinguir duas linhas de     nal, e foi apresentada por autores como Lev
pensamento no movimento pela paz. Uma delas        Tolstoi e Mahatma Gandhi. Tambm inclui vas-
relaciona-se com a poltica governamental, pro-    ta gama de teorias ou crenas que pem em foco
jetos, planos ou normas a serem executados ou      as causas sociais da guerra e o militarismo.
seguidos por governos a fim de se desenvolve-          No incio do sculo XIX o movimento pela
rem mecanismos pacficos para regular as re-       paz era freqentemente sinnimo do movimen-
laes entre os estados. Essa abordagem remon-     to de livre comrcio. Era uma proposio larga-
ta  poca dos projetos de paz internacional do    mente sustentada que a eliminao dos ves-
fim do sculo XVIII e incio do sculo XIX         tgios de feudalismo, as classes guerreiras, eli-
apresentados por pensadores como Immanuel          minaria tambm a guerra. Viagens, comrcio e
Kant, Abb St. Pierre, Emeric Cruc ou Jeremy      democracia erradicariam as causas dos desen-
Bentham, para mencionar apenas alguns; todos       tendimentos internacionais. Entretanto a ascen-
eles contemplavam a ampliao da sociedade         so do nacionalismo e do militarismo no final
civil e do governo da lei  arena internacional.   do sculo XIX questionou essas suposies.
O estabelecimento da Liga das Naes depois        Antimilitaristas de tendncia socialista, autores
da Primeira Guerra Mundial e das Naes Uni-       como Rosa Luxemburgo ou Karl Liebknecht,
das depois da Segunda deve muito a essas pro-      atriburam as guerras e as corridas armamentis-
postas.                                            tas s rivalidades capitalistas e  corrida por
    Durante o sculo XX essa linha de pensa-       mercados e fontes de matrias-primas. Espera-
mento pacifista concentrou-se cada vez mais no     va-se que a vitria das classes operrias garan-
desarmamento. A expanso (quase) infinita da       tisse a paz. "Sabem o que  proletariado?",
capacidade de destruio, em conseqncia da       perguntou o socialista francs Jean Jaurs em
aplicao da cincia e da tecnologia a fins mi-    1912. "Massas de homens que coletivamente
litares, concentrou as atenes dos que se opem   amam a paz e abominam a guerra".
 guerra nas corridas armamentistas e na natu-         O surgimento do movimento das mulheres
reza ameaadora do potencial de destruio. O      pela paz, no sculo XX, introduziu outro ele-
crescimento da pesquisa pacifista depois da        mento nessa linha de pensamento do movimen-
Segunda Guerra Mundial foi amplamente dedi-        to pacifista: a noo de que as causas da guerra
cado ao estudo de armamentos e mtodos para        tinham razes na diviso de gneros da socie-
limit-los.                                        dade moderna e, em particular, de que podiam
    A segunda linha de pensamento do movi-         estar ligadas  violncia domstica, isto , en-
mento pela paz preocupou-se muito mais com         contrar-se no seio da famlia.
o que se poderia descrever como cultura pacifis-       O chamado novo movimento pela paz, que
ta, a noo de que, por mais engenhosos ou         surgiu na Europa Ocidental e, em menor exten-
                                                                          paz, movimento pela     565


so, na Amrica do Norte, Japo e Australsia       questes internas imediatas -- o militarismo
durante a dcada de 80, talvez no tivesse pre-     imperante em suas sociedades (educao mili-
cendentes em sua escala e natureza transnacio-      tar-patritica, servio militar obrigatrio, brin-
nal. (Embora valha a pena notar que o movi-         quedos e jogos de guerra), a no-violncia e o
mento pela paz sempre foi internacional; con-       vnculo entre paz e democracia. Para eles, a
gressos europeus regulares foram realizados em      preocupao com a guerra nuclear tinha todo o
meados do sculo XIX.) Cerca de 5 milhes de        aspecto de um luxo abstrato; tinham menos
pessoas protestaram contra a introduo de uma      receio de morrer do que de viver sob o totalita-
nova gerao de armas nucleares na Europa no        rismo, que consideravam inseparvel da guerra
outono de 1981 e de novo em 1983. Um movi-          e do militarismo. Criticavam os movimentos
mento pela paz desenvolveu-se tambm na Eu-         pacifistas ocidentais pela excessiva preocupa-
ropa Oriental e iria desempenhar importante         o com sintomas, como os armamentos, e no
papel nas revolues pacficas de 1989 que          com as causas. Nesse sentido, podia-se dizer
derrubaram os regimes comunistas e marcaram         que os movimentos do Leste Europeu tinham
o fim da Guerra Fria.                               redescoberto algumas das tradies do movi-
    Mas o movimento pela paz no Ocidente foi        mento pela paz do sculo XIX.
muito diferente do movimento pela paz no Les-           No final da dcada de 80 o dilogo entre
te. O primeiro era, principalmente, um movi-        setores dos movimentos pela paz no Leste e no
mento pr-desarmamento, um movimento anti-          Oeste culminou em algumas abordagens co-
nuclear. Pertencia  primeira linha acima citada    muns. Por um lado, parcelas do movimento
de pensamento do movimento pela paz e seu           ocidental pela paz deram nfase crescente 
interesse primordial estava voltado para a ao     "dtente de baixo para cima", ao dilogo entre
poltica em nvel internacional. Talvez se possa    os movimentos de cidados do Leste e no Oeste
dizer que, durante o perodo do ps-guerra, a       e  necessidade de apoiar os movimentos demo-
separao entre guerra e paz tornou-se rgida. A
                                                    crticos como forma de terminar a Guerra Fria
sociedade ocidental apresentava-se abertamen-
                                                    e iniciar um processo de desarmamento. Por
te menos militarizada, havia menos nfase no
                                                    outro lado, os movimentos pela paz e partes dos
patriotismo, na disciplina ou na educao mili-
                                                    movimentos pela democracia no Leste, com
tar. As bases de msseis eram escondidas bem
longe no campo. A guerra tornou-se remota e         destaque para a Carta 77 na Tchecoslovquia,
abstrata -- em parte porque a guerra na Europa      interessaram-se por abordagens alternativas pa-
era impensvel e em parte porque a guerra na        ra a segurana europia, pelo conceito de "se-
Terceiro Mundo, algo concreto e onipresente,        gurana comum" e pelas propostas para forta-
tornou-se uma espcie de espetculo para ser        lecer a Conferncia sobre Segurana e Coope-
visto na televiso e difcil de distinguir de um    rao na Europa, mais conhecida como o Pro-
filme de fico. Os ativistas ocidentais pela paz   cesso de Helsinque. Isso porque os projetos de
estavam protestando contra uma realidade ex-        paz europia desse tipo ofereciam potencial-
terna, a qual no era, obviamente, de importn-     mente um quadro de referncia no qual os es-
cia imediata para a vida cotidiana. Isso no quer   foros para transformar a sociedade e lutar pela
dizer que no houvesse interesse no desenvol-       democracia podiam ser protegidos de uma rea-
vimento de uma cultura da paz, mas sob a            o militar punitiva.
rubrica do antinuclearismo. De especial impor-          No rescaldo da Guerra Fria, as energias em
tncia era o papel desempenhado por mulheres        prol da paz ficaram exauridas. Entretanto, ape-
que instalaram um acampamento a longo prazo         sar do fim do confronto Leste-Oeste e do come-
fora da base de msseis em Greenham Com-            o de um processo de desarmamento, a paz
mon; elas foram pioneiras de uma nova forma         perptua no brotou nem mesmo na Europa. A
de protesto.                                        ascenso do nacionalismo, do populismo e do
    Em contraste, os movimentos que surgiram        fundamentalismo, a guerra de 1991 no Golfo e
na Europa Oriental, como "Espadas em Ara-           os conflitos na Iugoslvia parecem anunciar
dos" na Alemanha Oriental, "Liberdade e Paz"        uma era turbulenta. Ser que podemos esperar
na Polnia, o grupo "Dilogo" na Hungria e a        uma fuso das idias de paz, como resultado da
Associao Independente pela Paz na Tchecos-        abertura da Europa Oriental, que seja capaz de
lovquia, estavam muito mais interessados em        fornecer uma base conceitual para futuros pro-
566    penal, instituio


testos? Ou as idias da dcada de 80 sero               sim como mecanismos de defesa inconscientes;
esquecidas uma vez mais?                                 processos do id, incluindo as necessidades bio-
Leitura sugerida: Brock, P. 1968: Pacifism in the Uni-
                                                         lgicas, busca do prazer e experincias reprimi-
ted States  Carter, April 1992: Peace Movements: In-     das, todas inconscientes; e processos do super-
ternational Protest and World Politics since 1945        ego, ou seja, a aplicao a si mesmo de padres
 Gallie, W.B. 1978: Philosophers of War and Peace        morais interiorizados. Essa concepo da es-
 Hinton, J. 1989: Protests and Visions: Peace Politics   trutura da personalidade  uma reminiscncia
in Twentieth Century Britain.                            da classificao de Aristteles dos objetivos
                                      MARY KALDOR        bsicos nas aes humanas como proveito, pra-
penal, instituio Ver PUNIO.                          zer e moralidade. Em sua interao dinmica,
                                                         os trs tipos de processos podem impulsionar
personalidade "H muito pouca diferena                  em direes diferentes e explicar assim a expe-
entre um homem e outro homem", disse Wil-                rincia de conflito interior, bem como os dis-
liam James no comeo deste sculo, "mas, ape-            trbios de personalidade.
sar de pouca,  muito importante." Esse aspecto              As idias bsicas de Freud sobre estrutura da
muito importante  a personalidade. Compe-              personalidade foram elaboradas e modificadas
se de atributos e processos biolgicos e psico-          parcialmente por ele prprio, mas tambm, em
lgicos, cada um deles, quanto tomado isolada-           grande parte, por seus seguidores, incluindo sua
mente, compartilhado com todos ou apenas                 filha Anna, que identificou mecanismos de de-
com alguns outros seres humanos, mas singular            fesa adicionais, por Heinz Hartmann, que pos-
no indivduo em sua configurao global. Os              tulou a autonomia dos processos do ego, e por
tericos da personalidade deparam-se, portan-            Erik Erikson, que colocou o desenvolvimento
to, com uma vasta gama de abordagens: podem              do ego em seu contexto social e descreveu as
concentrar-se na estrutura da configurao ou            suas fases ao longo do ciclo de vida.
selecionar, da enorme quantidade possvel de                 Alfred Adler e Carl Jung, dois dos primeiros
atributos e processos, os que consideram signi-          seguidores mas depois crticos de Freud, desen-
ficativos para a compreenso de diferenas in-           volveram seus prprios conceitos de personali-
dividuais. O fato de eles terem aproveitado              dade. Adler, pai da expresso "complexo de
plenamente essa liberdade de escolha foi docu-
                                                         inferioridade", entendeu a personalidade como
mentado por Gordon Allport (1937), que iden-
                                                         a maneira habitual adquirida desde muito cedo
tificou quase 50 concepes diferentes de per-
                                                         pela criana a fim de superar o seu inevitvel
sonalidade ento em uso.
                                                         sentimento de inferioridade, experincia que
    H, porm, uma abordagem que tem domi-
nado o pensamento sobre a personalidade ao               tende a se repetir em face de novos encontros
longo de todo o sculo: a de Sigmund Freud               sociais e exigncias externas. Em contraste com
(1923, por exemplo). No que tenha sido uma              o pessimismo de Freud, Adler considerava o
abordagem universalmente aceita; pelo contr-            impulso para conquistar uma posio de supe-
rio, poder-se-ia defender a tese de que sua du-          rioridade, a vontade de poder, como a raiz de
radoura influncia se deve tanto aos seus detra-         todos os progressos nos assuntos humanos.
tores (como Eysenck, 1947, 1982) quanto aos                  Jung desviou-se um pouco menos que Adler
seus proponentes. Impregnou as humanidades               no conceito bsico de Freud, embora o seu novo
e, freqentemente em forma vulgarizada, toda             e imaginativo vocabulrio para os processos
a cultura. Em todo caso, dificilmente se encon-          psicolgicos, matizado com idias msticas,
trar uma abordagem sistemtica do pensamen-             conseguisse disfarar as semelhanas. Adicio-
to sobre personalidade que no se refira, positi-        nou ao modelo de Freud a noo de um incons-
va ou negativamente,  concepo global de               ciente coletivo transmitido dos nossos ances-
Freud. A essncia dessa abordagem reside em              trais, compartilhado por todos e contendo os
sua noo de uma trplice estrutura da persona-          arqutipos do pensamento e da emoo. Tam-
lidade, a qual  uma classificao abrangente de         bm introduziu os termos "extroverso" e "in-
processos psicolgicos continuamente interatu-           troverso" na psicologia da personalidade, os
antes: processos do ego, ou seja, transaes com         quais comearam mais tarde a desempenhar um
o mundo real, incluindo percepo, aprendiza-            importante papel em uma abordagem muito
gem, memria, pensamento e desempenho, as-               diferente.
                                                                              personalidade   567


    Muitas outras modificaes do modelo psi-      centraram-se em pessoas normais no seu habitat
codinmico foram e ainda esto sendo propos-       natural, com seus interesses e preocupaes
tas. No obstante as diferenas e, com freqn-    naturais; ambos consideraram a motivao o
cia, os antagonismos entre eles, os seus propo-    centro em torno do qual a personalidade  orga-
nentes participam de algumas caractersticas e     nizada. Murray, reconhecendo influncias de
suposies comuns: tratam da pessoa como um        Freud e Jung, rejeitou dois motivos bsicos de
todo, no de aspectos isolados; admitem que a      Freud -- as pulses de vida e de morte -- como
personalidade tem mais profundidade do que         excessivamente limitados. Props cerca de 20
parece; desenvolvem suas idias depois de pro-     necessidades com origens no crebro, as quais
longado contato com os indivduos; a maior         interatuam com "premncias", isto , proprie-
parte deles enfatiza o componente social na        dades do meio ambiente social que realam ou
constituio da personalidade; so terapeutas      estorvam a satisfao de necessidades. Allport
praticantes e funcionam  margem das ins-          foi muito mais crtico do modelo freudiano.
tituies acadmicas.                              Considerou a personalidade motivada por tra-
    A oposio intelectual ao modelo psicodin-    os relativamente duradouros e intenes racio-
mico cresceu dentro e fora da psicologia e         nais a cuja organizao combinada chamou o
dentro e fora do establishment acadmico, ba-      "proprium", com o que quis significar um sis-
seada em dois principais argumentos: objees      tema psicofsico que tende para a autonomia
ao determinismo desde a mais tenra infncia e      funcional de motivos (independente da motiva-
aos processos inconscientes, por um lado; e        o infantil).
objees aos mtodos "no-cientficos" da psi-         Ambos os tericos da personalidade cons-
canlise, por outro.                               truram mtodos engenhosos para coletar pro-
    As primeiras deram origem  psicologia hu-     vas empricas. A contribuio de Murray nessa
manista, considerada por algum tempo a ter-        rea foi, sobretudo, o Teste de Apercepo Te-
ceira fora em psicologia entre a PSICANLISE e    mtica (TAT) e a de Allport, a defesa e prtica
o COMPORTAMENTALISMO. Sob a influncia do          de mtodos ideogrficos, embora ele tambm
existencialismo de Jean-Paul Sartre e da feno-     fosse inventivo na criao de mtodos nomot-
menologia de Martin Heidegger, a idia de          ticos.
inconsciente foi rejeitada em favor da admisso
do livre-arbtrio, da mediao, do ser-no-mun-         A influncia desses dois tericos da perso-
do e do vir-a-ser como aspectos centrais da        nalidade sobre os seus estudantes foi profunda,
personalidade. Ludwig Binswanger na Sua,         mas suas idias a respeito da estrutura da per-
Carl Rogers e Abraham Maslow nos Estados           sonalidade no foram mais desenvolvidas. Em
Unidos e Ronald Laing na Gr-Bretanha foram        vez disso, construram-se e padronizaram-se
os principais expoentes dessa concepo; se ela    inventrios e escalas de personalidade em gran-
sobreviver  morte deles,  uma questo em        de nmero. Existem hoje instrumentos para
aberto.                                            muitos atributos de personalidade, como extro-
    Objetar s concepes psicodinmicas por       verso/introverso, ansiedade, depresso, ma-
serem "no-cientficas" pressupe a adeso a       quiavelismo, anomia, julgamento moral, va-
uma idia particular de cincia que exclui o       lores, preconceito e outros mais. So ampla-
pensamento sistemtico, a menos que este leve      mente usados para comparaes entre grupos,
a hipteses que possam ser experimentalmente       com menos freqncia para comparaes du-
testadas. Embora no haja dvida,  claro, de      rante um certo perodo de tempo, embora pos-
que a experimentao oferece um rigoroso teste     sam ajudar a esclarecer idias sobre a natureza
de idias (na prtica, algumas das idias de       duradoura ou flexvel de tais disposies.
Freud foram testadas em centenas de experi-            Os que postulam um grande componente
mentos), as abordagens bsicas so notoria-        hereditrio na personalidade satisfazem-se, 
mente difceis, quando no impossveis, de tes-    claro, com uma medida definitiva; a nfase por
tar experimentalmente.                             eles atribuda  determinao biolgica do tipo
    Henry Murray (1959) e Gordon Allport           de personalidade tomou diferentes rumos. Wil-
(1961) deram significativas contribuies aos      liam Sheldon (1942) viu a personalidade como
pressupostos bsicos acerca da estrutura da per-   determinada pela estrutura do corpo; Hans Ey-
sonalidade, e tambm aos mtodos. Ambos con-       senck (1982), pelo sistema nervoso.
568    planejamento econmico


    Seguindo uma tradio que remonta a Hip-             planejamento econmico nacional Os eco-
crates, Sheldon considerou o temperamento a               nomistas clssicos no passado e os economistas
essncia da personalidade, postulou a sua de-             neoclssicos em termos modernos interessa-
pendncia em relao ao tipo somtico de uma              ram-se principalmente pelo comportamento e
pessoa e encontrou, de fato, correlaes muito            as interaes de dois grupos de protagonistas
grandes entre essas duas variveis. Para Ey-              econmicos: as empresas e as famlias. Presu-
senck, a essncia da personalidade  determina-           mia-se tipicamente que os protagonistas procu-
da por processos cerebrais ainda no muito bem            rariam maximizar benefcios privados, lucros e
entendidos, cujo resultado pode, contudo, ser             servios pblicos, respectivamente. Eles inter-
medido por quatro dimenses contnuas que so             atuam negociando bens e servios privados em
mutuamente independentes. So elas: extrover-             termos determinados em mercados competiti-
so/introverso, neuroticismo, psicoticismo e             vos (macroeconmicos ou internacionais).
inteligncia. As escalas de Eysenck para trs                 Bsico para a defesa tradicional do planeja-
dessas dimenses so hoje largamente usadas               mento econmico nacional  o reconhecimento
em pesquisa, mesmo pelos que no comparti-                de que, independentemente dos bens privados,
lham sua abordagem geral.                                 interesses privados e preferncias individuais,
    O principal compndio sobre teorias da per-           tambm existem, e em qualquer sociedade mo-
sonalidade (Hall et al., 1985) apresenta muitos           derna ainda com mais motivos, bens no-priva-
outros colaboradores, incluindo vrios tericos,          dos, interesses comuns e preferncias sociais.
da aprendizagem, entre os quais se destaca B.F.           Os mercados para tais bens ou no existem ou
Skinner.  discutvel, porm, se ele e outros             podem ser de flagrante ineficincia. As decises
behavioristas deram uma contribuio ao pen-              acerca dos recursos econmicos necessrios pa-
samento sobre personalidade, por mais impor-              ra satisfazer esses interesses comuns devem,
tante que ela tenha sido em outros contextos;             portanto, ser tomadas de modo diferente. Os
eles certamente no tm pretenses a isso. Su-            responsveis pelo planejamento nacional so,
por uma organizao interna que explique a                ou se supe que sejam, os representantes de tais
interpretao do mundo externo, como cumpre               interesses, atuando em nome da sociedade co-
aos tericos da personalidade, parece contradi-           mo um todo. Esses representantes formam o
zer toda a forma de pensar de Skinner.                    terceiro grupo de protagonistas econmicos.
    No final do sculo XX no existe, portanto,           Eles so ou deveriam ser os representantes elei-
uma abordagem geralmente aceita para com-                 tos da sociedade, atuando em seus papis de
preender a personalidade. A principal diviso            alocao de recursos atravs das vrias agncias
entre os modelos psicodinmicos, com sua su-              do governo nacional. Essas agncias burocrti-
posio de eventos mentais inconscientes, e os            cas e o processo de negociao que os planeja-
outros modelos, embora haja controvrsia tam-             dores nacionais iniciam e presidem constituem
bm dentro de cada lado. Esforos para superar            as contrapartes, respectivamente, das institui-
o grande hiato foram periodicamente envidados             es do mercado e da competio de mercado.
ao longo do sculo; fracassaram. O mais recente           As regulamentaes e as decises de alocao
esforo nessa direo (Westen, 1985)  uma                direta de recursos das agncias so o que se
demonstrao da compatibilidade dos resulta-              pode chamar a mo visvel da burocracia, ou o
dos da rigorosa pesquisa emprica com as idias           mecanismo de coordenao burocrtica, a con-
psicodinmicas realizada por uma pessoa que              traparte da mo invisvel do mecanismo de
qualificada em ambas as reas. Se ser mais               preo de Adam Smith, ou o mecanismo de
bem-sucedido do que os seus precursores  o               coordenao do mercado (Kornai, 1980).
que ainda resta ver.                                          Ao longo do sculo XX, excetuando-se a
                                                          dcada de 80 e provavelmente a de 90, a ten-
Leitura sugerida: Hall, C., Lindzey, G., Loehlin, J.C.,   dncia mundial foi no sentido de os governos
e Manosevitz, M. 1985: Introduction to Theories of        dedicarem uma crescente proporo dos recur-
Personality  Westen, D. 1985: Self and Society.
                                                          sos nacionais ao fornecimento de bens pblicos,
                                      MARIE JAHODA        tais como a defesa nacional, o transporte pbli-
                                                          co, lei e ordem, e ao suprimento de bens de
planejamento econmico Ver PLANEJAMEN-                    qualidade, como sade, educao e habitao.
TO ECONMICO NACIONAL.                                    Os planos nacionais, embora de tipo limitado,
                                                            planejamento econmico nacional     569


so necessrios para o fim de se chegar a de-      dores e a autonomia das empresas sofriam for-
cises sobre o tamanho e a composio das          tes restries. Em contraste com as economias
verbas correntes e para investimentos nessas       de mercado, em que ofertas e demandas esto
reas no decorrer do tempo.                        intimamente relacionadas, em qualquer econo-
    Entretanto, um avano verdadeiramente es-      mia centralmente administrada (ECA) a direo
petacular do planejamento econmico nacional       de causalidade tende a fluir dos recursos para
ocorreu nos pases socialistas com economias       as ofertas e da para as demandas. Em particular,
centralmente administradas e, em menor grau,       as ofertas ao consumidor refletiriam as prefe-
em pases recm-industrializados com econo-        rncias dos planejadores e poderiam desviar-se
mias baseadas no mercado. As origens desse         consideravelmente dos nveis em que existi-
avano podem ser atribudas, em grande parte,      riam se fossem livremente determinadas pelo
 propagao da doutrina socialista durante o      mercado. Subsdios e preos administrados te-
sculo XX, promovendo a propriedade no-pri-       riam sido usados para colocar os nveis de
vada como socialmente superior e defendendo        demanda de consumo mais prximos dos de
o novo papel das autoridades estatais como         oferta (Kuchnirsky, 1982).
empresrios eclticos ou paralelamente aos em-         Os planos nacionais em uma ECA variam
presrios privados, ou em sua substituio, ou     em funo dos perodos de tempo que cobrem
na ausncia deles (Gomulka, 1986, cap.1). O        e em funo do grau de agregao. Os planos
planejamento nacional nesses pases tornou-se      anuais so os mais operacionais e os mais desa-
tambm macroeconmico, preocupado no              gregados. Esses planos eram subdivididos em
apenas com setores ou regies individuais, mas     trimestrais e mensais. Os planos a mdio prazo,
com o desenvolvimento da economia em seu           usualmente para perodos de cinco anos, eram
todo, levando em conta as mtuas relaes in-      mais agregados e, com freqncia, mais indica-
tersetoriais e intertemporais. Os planejadores     tivos do que obrigatrios. Puramente indicati-
socialistas nacionais tenderam a considerar que    vos e sumamente agregados eram os planos
os mercados fracassaram na mobilizao de          nacionais a longo prazo. Para facilitar a tarefa
adequadas poupanas financeiras e de recursos      de formulao do plano e sua subseqente im-
humanos para o desenvolvimento, e favorecen-       plementao, as empresas estatais que produ-
do um comportamento mope e errtico dos           zem bens semelhantes agrupavam-se tipica-
investidores, redundando em subinvestimentos       mente para formar uma associao de produ-
potencialmente srios, sobretudo em atividades     o, vrias associaes formavam um departa-
em que os benefcios sociais excedem os lucros     mento, chefiado por um ministro, e as ativi-
privados. Um importante impulso para a expan-      dades das indstrias eram coordenadas pela
so do planejamento nacional em economias de       autoridade de planejamento central. Essas em-
mercado foi dado tambm pela Grande Depres-        presas negociavam com suas autoridades supe-
so da dcada de 30 e pelo envolvimento direto     riores os planos de produo que especificavam
e bem-sucedido dos governos do lado da oferta      as metas mnimas de produo (output) e as
das economias durante a Segunda Guerra Mun-        quotas mximas de investimento (input), in-
dial.                                              cluindo novas inverses de capital. Esses pla-
    Nos pases onde prevalece a propriedade do     nos especficos por empresas so elaborados
estado, o mbito, os fins e os instrumentos do     em funo de um limitado nmero de produtos,
planejamento nacional dependem predominan-         variando no total entre 5 mil e 50 mil no nvel
temente da autonomia do poder decisrio das        da associao e entre 200 e 2 mil no nvel cen-
empresas estatais e da extenso em que as pre-     tral. A maioria desses "produtos"  formada por
ferncias da comunidade, na verdade prefern-      grandes grupos de artigos similares, usual-
cias dos planejadores, predominam sobre as         mente expressos nos termos fsicos (toneladas,
preferncias dos consumidores individuais na       metros quadrados etc.) e de valor. O objetivo
determinao das demandas de uma economia          imediato dos planejadores centrais  selecionar,
aberta. Sob o tradicional sistema do tipo sovi-   de um conjunto de alternativas exeqveis, os
tico (a Unio Sovitica entre 1928 e 1990),        volumes de demandas e ofertas especficas de
grande parte da atividade de produo e inves-     tais produtos por empresa, de um modo que
timento era planejada e administrada a partir do   assegure o equilbrio no nvel da economia
centro, enquanto que a soberania dos consumi-      aberta para cada um dos produtos. O objetivo
570   planejamento econmico nacional


adicional e mais exigente  obter o equilbrio     towski, 1988, para uma estimativa da propen-
nacional de modo a que os outputs finais ou        so). A maioria dos preos de produtos nas
lquidos da economia maximizem algum tipo          ECAs era rgida e imposta pelo estado, reagindo
de ndice do bem-estar nacional ou, de qualquer    pouco aos desequilbrios do mercado. Tais pre-
forma, que esses outputs satisfaam os objeti-     os ad hoc so passveis de diferir substan-
vos dos planejadores de maneira considerada        cialmente do custo social marginal de produ-
satisfatria (Manove, 1971; Heal, 1973; Ell-       o. Para reduzir o seu papel alocativo e como
man, 1979).                                        resposta ao comportamento das empresas de
    Crucial para o funcionamento eficiente de      minimizar o esforo, os planejadores centrais
tal economia planejada  o comportamento das       fixavam tipicamente elevadas metas de produ-
empresas. Uma vez que as metas de produo         o e baixas quotas de investimento, de modo
e as quotas de investimento so tipicamente        a que o leque de opes de uma empresa fosse
grandes agregados, um plano especfico para a      pequeno. Essa prtica de "planejamento rgido"
empresa, imposto de cima, pode ser visto como      tenta pr em evidncia o papel alocativo das
representativo de um conjunto de restries (de    quantidades, que para os planejadores so signi-
recursos, de demanda e financeiras) que defi-      ficativas e diminuem o papel dos preos. Entre-
nem o conjunto de opes ainda acessvel          tanto preos inflexveis acarretam persistentes
empresa. A escolha de seu prprio plano de         e generalizados desequilbrios microeconmi-
empresa (agente) depende, por sua vez, do sis-     cos, e isso gera, por sua vez, o fenmeno da
tema de incentivos imposto pelo centro (dire-      "substituio forada" (de artigos escassos por
tor), sobretudo da credibilidade de suas amea-     artigos excedentes). Dada a pobre qualidade
as disciplinadoras (Schaffer, 1989). Os termos    dos preos, no se podia confiar nos lucros
do plano imposto e do sistema de incentivo so     como medida de desempenho. Essa caracters-
especficos para cada empresa e, portanto, aber-   tica das ECAs levou  prtica de tolerar a pro-
tos  barganha entre a empresa e o centro. O       duo de perdas. Essa tolerncia ajudou a des-
trunfo nas mos da empresa para a negociao       envolver (e foi ela prpria instigada por) "ati-
est no limitado acesso  informao sobre as      tudes paternalistas" do centro em relao s
suas verdadeiras possibilidades de produo        empresas (Kornaim 1980).
por parte do centro. Portanto, no processo de          Apesar da presena generalizada de dese-
barganha, as empresas esto em uma posio         quilbrios e ineficincia microeconmicos, os
que lhes permite desejar maiores quotas de         planejadores centrais socialistas eram, de forma
investimento do que lhes  necessrio e metas      geral, capazes de manter o controle macroeco-
de produo mais baixas do que lhes  possvel     nmico. Mantiveram os salrios baixos e isso
atingir. Tambm esto tipicamente mais bem         garantiu que as margens de lucro fossem excep-
situadas pelo fato de no revelarem possibili-     cionalmente altas pelos padres internacionais.
dades concretas de produo, uma vez que essa      Esses lucros eram usados para financiar uma
informao pode ser usada pelo centro para         grande atividade de investimento e assegurar
aumentar as futuras metas de produo. Essa        fundos para as despesas correntes do oramento
prtica de planejamento pela qual os nveis        do estado, uma considervel proporo das
alcanados de desempenho so usados como           quais era representada por subsdios ao consu-
ponto de partida para determinar novas metas      mo. Exceto na Iugoslvia, os planejadores cen-
conhecida como a aplicao do "princpio de        trais tambm puderam controlar bem o cresci-
catraca" (Berliner, 1976; Cave e Harem, 1981).     mento dos salrios e outras rendas, e desse
    Quando muitos bens dessemelhantes so in-      modo limitar a inflao de preos a taxas tipi-
cludos em metas compsitas de produo, es-       camente inferiores a 10% ao ano (Wiles, 1980).
sas metas tm que se expressar em termos de        Entretanto, em alguns pases e em certos pero-
valor. O produtor tem interesse, nesse caso,       dos, esse controle foi seriamente erodido ou
dado o princpio de custo-mais da formao de      quase perdido (Polnia em 1950-1, 1980-1 e
preo, em usar inverses dispendiosas a fim de     1988-9, Unio Sovitica 1989-91), redundando
minimizar o esforo necessrio para implemen-      em surtos do que Kolodko e McMahon (1987)
tar um dado plano. Isso leva a uma propenso       chamam "inflao de escassez" (shortageflation).
nas ECAs a fabricar produtos com elevado           Tentativas politicamente motivadas de manter
emprego de material (ver Gomulka e Ros-            os preos controlados pelo estado abaixo dos
                                                                             planejamento social        571


nveis de compensao do mercado levaram,           tificados (ver Lavoie, 1985, para uma recente
por seu turno, ao recrudescimento dos mer-          crtica desses argumentos).
cados negros e ao fenmeno da "poupana for-            Houve uma mudana paralela nas econo-
ada".                                              mias de mercado desenvolvidas da Europa Oci-
     Os primeiros reformadores das ECAs, na         dental e do Japo, assim como na maioria dos
busca da combinao de eficincia econmica         pases em desenvolvimento recm-industria-
com princpios socialistas, no advogaram a         lizados do mundo inteiro, distanciando-se do
reduo da propriedade do estado nem o plane-       ativo e extensivo planejamento central "indica-
jamento central, mas meramente a abolio de        tivo" (Brada e Estrin, 1990). Em muitos pases,
planos especficos para cada empresa. Por con-      a poltica de privatizao reduziu tambm o
seguinte, as empresas seriam independentes do       tamanho do setor pblico. Entretanto o papel
ponto de vista financeiro e gerencial. Para obter   econmico mais tradicional das autoridades
melhor desempenho, era vital que elas funcio-       centrais no fornecimento de bens pblicos e de
nassem tambm em um ambiente de mercado             mrito, assim como a administrao, as regula-
competitivo. Entretanto, de acordo com os re-       mentaes e a execuo da estabilizao ma-
formadores, os preos-chaves, os critrios de       croeconmica, permanecem amplamente intac-
desempenho e os incentivos seriam fixados pe-       tos tanto no Leste quanto no Oeste.
lo centro para induzir as empresas a produzir,          Ver tambm SOCIALISTA, TEORIA ECONMICA;
                                                    SOCIALIZAO DA ECONOMIA.
embora no mais individualmente, mas em con-
junto, o que o centro queria que produzissem.       Leitura sugerida: Cave, J. e Hare, P. 1981: Alternative
Nessa "economia socialista planejada com um         Approaches to Economic Planning  Ellman, M. 1979:
mercado regulado" (Brus, 1961), a inteno era      Socialist Planning  Gomulka, S. 1986: Growth, Inno-
                                                    vation and Reform in Eastern Europe  Heal, G.M.
usar o mecanismo de mercado competitivo co-         1973: The Theory of Economic Planning  Johansen, L.
mo instrumento para implementar os planos           1978: Lectures on Macroeconomic Planning, vols.1 e 2
centrais (Malinvaud, 1967, props uma pos-           Kuchinsky, F.I. 1982: Soviet Economic Planning,
svel implementao dessa idia em um modelo        1965-80.
matemtico inteiramente desenvolvido; para                                        STANISLAW GOMULKA
um levantamento de possveis implementa-
es, ver Heal, 1973). Essa idia de planeja-       planejamento social Existem muitas inter-
mento central indireto ou paramtrico estava no     pretaes do planejamento em geral e do plane-
mago da reforma hngara entre 1958 e 1990,         jamento social em particular. Na abordagem
da reforma polonesa de 1982 a 1989 e da refor-      mais simples, planejamento social  planeja-
ma chinesa iniciada em 1982. Sob a gide des-       mento aplicado a instituies e recursos sociais.
sas reformas, os problemas de escassez foram        Pode referir-se a objetivos globais ou parciais.
reduzidos e a flexibilidade de preos aumentou.     Pode abranger o planejamento para todo um
                                                    sistema social ou referir apenas ao planejamen-
Entretanto, os mercados competitivos no fo-
                                                    to de aspectos especficos de um projeto em
ram estabelecidos, persistindo paternalistas e
                                                    uma agncia de servio social. O prprio plane-
intervencionistas as atitudes do estado proprie-
                                                    jamento tem que ser descrito com maiores deta-
trio em relao s empresas e, em resultado de     lhes para evitar a circularidade nessa definio.
antigas deficincias, inalterados a ineficcia      De acordo com H.J. Gans:
particularmente elevada e o baixo ndice de
                                                       Em seu sentido genrico, planejamento  um mtodo
inovao. Esse fracasso das reformas no inte-
                                                       de tomada de decises que prope ou identifica
rior do sistema levou ulteriormente, na Europa         metas ou fins e determina os meios ou programas que
Oriental e na antiga Unio Sovitica, a um             realizam ou se pensa que realizam esses fins, o que
ataque frontal contra os pilares gmeos do pr-        ocorre mediante a aplicao de tcnicas analticas
prio sistema: o planejamento central e a proprie-      para descobrir a adequao entre os fins e os meios e
dade do estado. Na Europa Oriental e na ex-            as conseqncias da implementao de fins e meios
Unio Sovitica, o planejamento central foi            alternativos. (Gans, 1968b, p.129.)
abandonado no perodo 1989-92. Os argumen-             A racionalidade  uma das caractersticas do
tos originais de von Mises (1935) contra a          planejamento (ver tambm ESCOLHA RACIONAL,
viabilidade do clculo econmico racional na        TEORIA DA). Na abordagem do planejamento,
"Comunidade Socialista" parecem ter sido jus-       racionalidade e clculo so de primordial im-
572   planejamento social


portncia. A elaborao sensvel de polticas e    da crise mundial de 1929 em algumas socie-
planejamento significa "projetar um sistema        dades capitalistas, principalmente no-demo-
pelo qual a sociedade pode ponderar racional-      crticas, como a Alemanha nazista em 1933
mente os custos e benefcios da[s] alternati-      (Madge, 1968). Um planejamento mais abran-
va[s](...) " (Owen e Schultze, 1976, p.10). Em     gente foi desenvolvido depois da Segunda
uma perspectiva sociolgica, a racionalidade       Guerra Mundial. Uma tendncia descrita pela
do planejamento depende, porm, da natureza        primeira vez por Chandler (1977)  a crescente
do alvo e da sociedade em que o plano funciona.    coordenao entre as grandes companhias (cor-
A tomada de decises em matrias sociais cons-     porations ), de tal modo que a sua "produo e
titui um processo poltico em que os valores e     distribuio, hoje em dia, so cada vez mais
interesses dos participantes desempenham um        determinadas, no por foras do mercado, mas
papel predominante, se bem que nem sempre          pelo planejamento e a coordenao admi-
ostensivo. Alm disso, a realizao do plano      nistrativa" (Himmelstrand, 1981, p.201). A ou-
um processo social que raras vezes  totalmente    tra tendncia foi o surgimento do planejamento
guiado, se  que alguma vez o foi, pelas in-       estatal funcionando em nvel macro (Kahn, 1969).
tenes dos planejadores. Vrios atores sociais        Nas (antigas) sociedades de socialismo de
operando em outros nveis de intencionalidade      estado, a tendncia foi invertida. Os planos
participam desses processos. O resultado, por-     globais, em nveis macro, elaborados pelos r-
tanto, depender do vigor e da solidez das aes   gos centrais, predominaram desde o incio (ver
no planejadas e as chamadas conseqncias         tambm PLANEJAMENTO ECONMICO NACIONAL).
no-premeditadas ocorrero inevitavelmente.        Planos parciais iniciados de baixo para cima
Da perspectiva do planejador, elas podem ser       foram inexistentes. Em conformidade com
vistas como espontneas. A divergncia entre       princpios ideolgicos, o mercado foi abrupta-
plano e resultado depende de certo nmero de       mente substitudo pelo planejamento central (o
fatores. Alguns dos mais importantes so a         primeiro plano qinqenal teve incio em 1928
complexidade do sistema-alvo, as contradies      na Unio Sovitica). O planejamento props-se
internas e os conflitos entre componentes do       eliminar a operao espontnea do mercado e
sistema-alvo, o impacto de foras exteriores       substituir pela "racionalidade central" todas as
(como as naturais) ou a natureza estocstica dos   outras iniciativas e racionalidades em todos os
vnculos intra-sistmicos em uma sociedade         campos da vida social. O papel exclusivo do
(Sztompka, 1981).                                  planejamento central foi questionado por vrias
                                                   vezes por reformadores econmicos desde o
Nveis e atores do planejamento                    incio da dcada de 20, mas sem sucesso dura-
   Teoricamente, todos os atores sociais podem     douro. O colapso final do socialismo de estado
tomar decises mais ou menos racionais acerca      em 1989-90 pode ser atribudo, em grande me-
de sua prpria ao e conduta futura. Assim,       dida, ao planejamento central, que imps racio-
planos podem ser feitos por famlias, firmas e     nalidade exclusivamente poltica em todos os
outras organizaes, comunidades locais e uni-     subsistemas sociais e assim prejudicou a racio-
dades dotadas de governo prprio, at o corpo      nalidade e a eficincia, os princpios bsicos da
central dos responsveis pelas decises. Es-       democracia poltica etc.
tamos interessados aqui no planejamento que
vai alm das fronteiras de uma unidade autno-     Tipos de planejamento
ma, auto-suficiente, como uma famlia ou fir-         Existem formas de planejamento mais rigo-
ma, e em especial no planejamento em nvel         rosas e mais moderadas, mais "imperativas" ou
global, implicando a sociedade como um todo.       mais "liberais" (Rostow, 1962, p.22). Na prtica
   Nas sociedades de mercado, o planejamento       do socialismo de estado, o planejamento por
surgiu como resposta a vrios fracassos do mer-    ordens diretas foi predominante por largo pe-
cado. Por um largo perodo de tempo, manteve-      rodo de tempo. Nesse caso, inputs, outputs e
se parcial ou orientado para programas espec-     todas as condies de atividade de todas as
ficos, como  ilustrado pelo planejamento urba-    unidades eram centralmente fixados. Nos lti-
no, que apareceu em alguns pases no final do      mos 20 anos apareceu o planejamento indireto.
sculo XIX. Os planos em nveis macro --           Este ainda significa metas centralmente defini-
quatro ou cinco anos -- originaram-se depois       das, mas as ordens diretas foram substitudas
                                                                          planejamento social    573


por reguladores fiscais e outros. Esse mtodo       Planejamento social
foi seguido por pases que tinham aceito, como          Quando o planejamento social se caracteriza
a Hungria de 1968 em diante, o "mercado regu-       por suas vastas ambies, pode ser denominado
lado pelo plano" (Brus, 1961). Na realidade,        planejamento "societal": "O planejamento so-
sob as condies polticas dadas, o mercado         cietal ocupa-se da avaliao de metas sociais e
continuou sendo um mercado "simulado" e no         do desenvolvimento em linhas gerais dos tipos
poderia produzir o resultado esperado. A mu-        de programas adequados  realizao das metas
dana do sistema poltico traz a promessa de        escolhidas" (Gans, 1968b, p.129). Planejamen-
libertao dos subsistemas sociais, incluindo a    to parcial, planejamento urbano ou comunit-
o mercado. Como reao s prticas anteriores,      rio, planejamento de projetos de bem-estar, tm
todas as formas de planejamento tornaram-se         sido de h muito as principais formas de plane-
ilegtimas nessas sociedades. Nas sociedades        jamento social em sociedades de mercado. Esse
(de mercado) capitalistas, o estado pode aceitar    tipo de planejamento tem sido freqentemente
alguma forma de planejamento indicativo, su-        discutido, incluindo-se os problemas de coor-
blinhando metas sem insistir em meios espec-
                                                    denao, a concorrncia para a obteno de
ficos (por exemplo, a Frana), ou adotar apenas
                                                    verbas e a maquinaria de planejamento (Gans,
"objetivos amplos e polticas vagamente defi-
                                                    1968a; Rein, 1968; Kahn, 1969).
nidas, que os encaminharo, segundo se espera,
na direo geral desejada" (Kahn, 1969, p.44).          O surgimento do ESTADO DE BEM-ESTAR e,
                                                    ainda mais, a idia de uma sociedade de bem-
Tcnicas de planejamento                            estar colocaram em pauta questes mais abran-
                                                    gentes. Nesse caso, o planejamento social pode
    As etapas de planejamento podem ser defi-       ou deve tornar-se o processo de desenvolvi-
nidas como o desenvolvimento de uma poltica,       mento, implementao e avaliao de polticas
a implementao dessa poltica e sua avaliao
                                                    sociais, sendo a sua essncia a determinao de
(Rein, 1968). Em todas as etapas,  de suma
                                                    prioridades sociais. Em outras palavras, o pla-
importncia um adequado conhecimento das
                                                    nejamento social tem que se ocupar da "dis-
condies e relaes afetadas pelo plano, bem
                                                    tribuio de bem-estar e da formao de re-
como uma fluxo contnuo de informao.
                                                    laes estruturais" (Walker, 1984, p.3). Essa
Desde o comeo da dcada de 70 o aperfeioa-
                                                    questo , do ponto de vista social, bastante
mento da administrao e a avaliao de proje-
                                                    controvertida, de modo que, pelo menos para
tos atraram considervel ateno e grande so-
ma de verbas (Meyers, 1981). Uma das tcnicas       parcelas da intelligentsia e da oposio, o pla-
 o sistema planejamento-programao-provi-         nejamento social se converteu em um campo de
so oramentria (sppp), o qual serve simulta-      luta ideolgica por meio da qual "tentaram
neamente para a fixao e a avaliao de metas      descobrir os meios de superar as desigualdades
(Kahn, 1969, p.43). Os estudos de avaliao         promovidas pelo desenvolvimento econmico"
tornaram-se um ramo praticamente autnomo           (Jobert, 1981, p.238).
da pesquisa social. A partir de finais da dcada        Nas antigas sociedades socialistas, o plane-
de 70, anlise de custos-benefcios, mtodo ba-     jamento econmico estatal costumava ser pre-
seado na lgica da teoria econmica do bem-es-      dominante. O pressuposto ideolgico era que o
tar (ver tambm BEM-ESTAR, TEORIA ECONMICA         desenvolvimento econmico acarretaria auto-
DO),  cada vez mais usada em decises acerca       maticamente o progresso social e a realizao
de projetos sociais e na avaliao de seus resul-   de objetivos socialistas como a elevao do
tados. Todos esses instrumentos parecem ser         nvel de bem-estar do povo, a melhoria do estilo
teis no caso de projetos parciais que esto bem    e da qualidade de vida, a reduo da diferencia-
circunscritos, mas no se adaptam to bem aos       o entre classes e grupos, o aperfeioamento
programas abrangentes de nvel macro. Cum-          das relaes sociais e, finalmente, a criao das
pre lembrar tambm que esses mtodos no            condies necessrias para o desenvolvimento
podem resolver o problema poltico de conflitos     pessoal multiforme oferecido a todos os cida-
de valor e interesses divergentes. As decises      dos (Zalavskaya, 1981, p.192).
sobre os fatores a incluir em vrias anlises, ou       Apesar das metas sociais ambiciosas e fre-
a excluir destas, continuam sendo influenciadas     qentemente radicais, em ambos os tipos de
por consideraes sociais e polticas.              sociedade o planejamento social se manteve
574   pluralismo


no raras vezes estreitamente burocrtico, cen-       dncias mundiais parecem acentuar as desi-
tralizado, insensvel s reais necessidades e su-     gualdades de desenvolvimento entre os trs
bordinado  poltica e ao planejamento econ-         mundos.
micos (Walker, 1984). O abismo entre metas e              As conseqncias espontneas tinham de
realidade costumava ser particularmente pro-          ser enfrentadas para se evitar o recudrescimento
fundo na maioria das sociedades de socialismo         das tenses em nvel tanto nacional quanto
de estado. Essa falha tinha muitas razes. A          internacional. Nas condies polticas corren-
razo tcnica era que, no caso do planejamento        tes,  muito pouco provvel que isso ocorra. Os
direto, as metas tinham que ser numrica e            planos sociais so ainda mais discutveis que o
exatamente definidas. Portanto, o planejamento        planejamento econmico, em parte porque as
social estava restrito a metas que pudessem ser       intervenes em questes sociais so especial-
definidas desse modo, como o nmero de leitos         mente suspeitas de "dirigismo" e, em parte,
hospitalares ou de vagas nos jardins de infncia,     porque os riscos so grandes: os resultados
desprezando a qualidade dos servios ofereci-         podem afetar diretamente muitos indivduos
dos. A razo ideolgica era a nfase no desen-        sociais. A eficcia dos planos sociais depender
volvimento econmico, que se supunha acar-            de as sociedades poderem encontrar formas de
retar automaticamente o desenvolvimento so-           democratizar e descentralizar os processos de
cial. A principal razo poltica ou estrutural era,   planejamento e implementao, de poderem
porm, o prprio sistema poltico. O planeja-         envolver os cidados nesses processos -- pode-
mento bem-sucedido para mudanas e o plane-           rem, em suma, construir um sistema de plane-
jamento para necessidades tm que se basear na        jamento de baixo para cima.
participao democrtica do planejamento e no
seu controle, ou seja, em direitos sociais e eco-     Leitura sugerida: Balogh, T. 1965: Planning for Pro-
nmicos. O necessrio -- mesmo que no seja           gress: a Strategy for Labour  Booth, T.A., org. 1979:
                                                      Planning for Welfare  Gans, H.J. 1968a: People and
o suficiente -- requisito prvio desses direitos      Plans  Hall, P. 1981: Great Planning Disasters  Him-
 a existncia de direitos civis e polticos. Como    melstrand, U., org. 1981: Spontaneity and Planning in
estes so subdesenvolvidos ou ausentes nos            Social Development  Kahn, A.J. 1969: Theory and
sistemas totalitrios, o planejamento represen-       Practice of Social Planning  Marris, P. 1982: Commu-
tou, de fato, uma "ditadura sobre as neces-           nity Planning and Conceptions of Change  Mayer,
sidades". A ausncia de democracia poltica           R.H. 1972: Social Planning and Social Change  Paris,
                                                      C., org. 1982: Critical Readings in Planning Theory 
retirava toda a legitimidade do planejamento e        Walker, A. 1984: Social Planning.
de seus resultados, mesmo que o padro de vida
ou os seus componentes tivessem objetivamen-                                               ZSUZSA FERGE
te melhorado.
    De modo mais amplo, desde a crise do so-          pluralismo A mesma palavra designa trs
cialismo no Leste Europeu e a propagao do           grupos muito diferentes de idias nas cincias
neoliberalismo, o planejamento em geral e o           sociais. Um deles pode ser tratado de forma
planejamento social em particular perderam            bastante breve: o pluralismo nessa primeira
grande parte de sua legitimidade e atrao an-        acepo refere-se a um padro institucional em
teriores (Johnson, 1987). A negao do plane-         uma sociedade pr-industrial no-ocidental,
jamento pode, contudo, intensificar as deficin-      sob domnio colonial ou ps-colonial. Socie-
cias de mecanismos sociais "automticos", co-         dade plural  um conceito proposto por J.S.
mo o mercado. As mudanas tecnolgicas, por           Furnivall (1948) e ulteriormente desenvolvido
exemplo, parecem acarretar desemprego em              por L. Kuper e M.G. Smith (1969). Em tal
grande escala, com graves conseqncias para          sociedade, grupos sociais auto-regulados e fe-
a distribuio de renda. Em geral, as estruturas      chados vivem lado a lado, mas cada um tem
sociais hierrquicas e desiguais, se deixadas a       uma existncia comunitria distinta. Esses gru-
si mesmas, reproduzem-se de modo automtico           pos esto externamente ligados pelo estado e
e espontneo, usualmente com o aumento das            pelo mercado. Tal padro de pluralismo no
desigualdades, o fortalecimento das hierarquias       subentende igualdade de influncia ou impor-
e o agravamento da situao dos grupos mais           tncia entre os grupos; pelo contrrio, so tpi-
fracos da sociedade. Isso  verdadeiro at mes-       cas as relaes de hierarquia ou dominao.
mo em nvel internacional. As recentes ten-           Relaes comunalistas desse gnero so um
                                                                                     pluralismo    575


obstculo ao desenvolvimento do moderno es-         Preface to Democratic Theory (1956). Nas
tado-nao ou da moderna economia integrada.        mos de Dahl, o pluralismo torna-se uma teoria
                                                    da competio poltica estvel e relativamente
Pluralismo norte-americano                          aberta e das condies institucionais e norma-
    O segundo sentido de pluralismo , sem          tivas que a sustentam. Poder e influncia s se
dvida, o mais influente e o que melhor se          dispersam sob condies sociais e polticas de-
conhece, uma vez que as referncias  "aborda-      finidas: a participao poltica deve incluir, pelo
gem pluralista" ou ao "pluralismo" significam,      menos potencialmente, todos os cidados adul-
quase invariavelmente, a teoria pluralista norte-   tos que gozem dos mesmos direitos formais; a
americana da democracia poltica. Essa teoria       formao de grupos de interesses e partidos
pretende desenvolver os insights proporciona-       concorrentes, independentes do controle do es-
dos por certo nmero de fontes pr-modernas         tado, no deve ser sistematicamente monopo-
do pensamento poltico. The Federalist Papers       lizada por um grupo minoritrio. Alm disso, a
de 1787-88 so freqentemente citados, mas o        maioria dos grupos concorrentes que almejam
mais importante precursor  Alexis de Tocque-       controlar ou influenciar a tomada de decises
ville, o qual afirmou em De la dmocratie en        deve subscrever as normas de uma cultura po-
Amrique (1835-40) que um governo democr-          ltica democrtica, ou seja, aceitar a alternncia
tico  sustentado por uma sociedade em que as       de poder, o direito de outros grupos  existncia
condies de influncia poltica plural estejam     e os limites dos mtodos de competio poltica
asseguradas e perpetuadas. Ou seja, a democra-      (ver INTERESSE, GRUPO DE). As modernas socie-
cia, no sentido de oportunidades amplas e com-      dades industriais ocidentais e alguns pases do
partilhadas de modo relativamente uniforme          Terceiro Mundo, como a ndia, tendem a satis-
para influenciar a opinio pblica e a tomada de    fazer essas condies em grau suficiente para
decises governamentais, depende menos de           que possam ser classificadas como exemplos de
mecanismos constitucionais formais, como            uma "poliarquia" funcionando satisfatoria-
eleies representativas, do que da existncia      mente.  pouco provvel que algum estado
de uma pluraridade de associaes secundrias       logre cumprir todas as condies ideais tpicas
na SOCIEDADE CIVIL, separadas do estado e no       de uma democracia funcionando plenamente. A
controladas por este. Tal disperso social de       democracia existe sob condies modernas na
opinio e influncia, tais organizaes rivais de   forma de "poliarquia", ou seja, a influncia
cidados impedem a democracia majoritria de        plural e sucessiva de grupos de interesse. As
se tornar tirnica ou o estado de exercer o         democracias modernas so formadas por cons-
controle exclusivo das vidas e lealdades dos        telaes concorrentes de tais grupos, no o go-
cidados. As idias de Tocqueville esto em         verno formal dos representantes das opinies de
direta oposio s de Jean-Jacques Rousseau, o      uma maioria de cidados individuais. O plura-
qual sustentou que todas as organizaes que        rismo  o governo das minorias. No mnimo,
intervieram entre o estado e o cidado indivi-      cada uma dessas minorias tem alguma influn-
dual perverteram a democracia majoritria e         cia sobre as questes que lhe interessam. Na
asseguraram o domnio de faces movidas por        medida em que isso  verdadeiro, que os grupos
interesses egostas. Que a Revoluo Francesa       consideram que a disputa por influncia  sufi-
e o Terror tinham interferido  claramente um       cientemente aberta para valer a pena competir
fato de extrema relevncia. Tocqueville viu que,    e que nenhum deles busca ou adquire um mono-
se a sociedade poltica for composta de mino-       plio de influncia, ento o sistema  pluralista.
rias competindo entre si, nenhuma delas apta a      O pluralismo no requer a absoluta igualdade
prevalecer em toda e qualquer questo sobre as      de influncia para todos os grupos nem supe
demais, ela estar relativamente segura contra      que a poltica seja isenta de conflitos; tenta
a tirania.                                          provar que a desigualdade e o conflito tm que
    Esses pontos de vista foram desenvolvidos       ser confinados abaixo de um limiar definido
mais formalmente por cientistas polticos norte-    para que o sistema seja polirquico. Portanto, 
americanos, sobretudo a partir da dcada de 40.     perfeitamente possvel a um sistema pluralista
Notveis tericos pluralistas foram Talcott Par-    fracassar na dimenso da inclusividade, quando
sons (1969) e David Truman (1951). A formu-         passa ento a ser um sistema oligrquico, ou na
lao mais rigorosa  a de R.A. Dahl em A           dimenso da competio, quando se converte
576   pluralismo


em uma "hegemonia inclusiva", ou seja, o po-        1958), assim como s abordagens marxistas da
der  monopolizado por um grupo minoritrio         democracia (1948). A sabedoria convencional
especfico.                                         dos radicais da dcada de 60 dizia que o plura-
    Dahl  o mais explcito dos pluralistas, no     lismo era uma ideologia obsoleta; pelo contr-
sentido de construir um modelo terico das          rio, o pluralismo sobreviveu at os anos 80 e se
condies que uma comunidade poltica deve          conservou melhor do que as idias de seus
satisfazer para garantir um mnimo de compe-        crticos.
tio democrtica para influncia e exerccio de        A crtica radical e marxista do pluralismo 
funes. O papel desse modelo consiste em           compreensvel no contexto da Guerra Fria. O
mostrar o grau em que as sociedades concretas       pluralismo era freqentemente usado com com-
se aproximam das condies tpicas de uma           placncia como apologia e endosso das demo-
poliarquia. O pluralismo, e a obra de Dahl em       cracias ocidentais. A explorao ideolgica de
particular, tem sido alvo de muitas crticas hos-   uma teoria pode claramente comprometer o seu
tis por parte de radicais como C. Wright Mills      valor explicativo. Rigorosamente especificada,
(1956) e de marxistas como R. Miliband (1969).      a teoria pluralista permite-nos ver at que ponto
Afirmam eles que o pluralismo  uma apologia        muitas democracias ocidentais esto distantes
sistemtica das sociedades capitalistas ociden-     de uma poliarquia em pleno funcionamento.
tais, que os pluralistas proclamam erradamen-       Cumpre dizer que, com a exceo das mais
te que o poder e a influncia esto amplamente      recentes obras de Dahl (1982; 1985), ela rara-
distribudos e cometem grave equvoco ao sus-       mente foi usada dessa maneira. Quando usado
tentar que no existe desigualdade sistemtica      em comparaes com a Unio Sovitica, o plu-
no acesso  competio poltica. Mills e Mili-      ralismo pde mostrar que as democracias oci-
band afirmam que o poder est, de fato, mono-       dentais tm exibido incomparavelmente maior
polizado e que uma minoria est apta a controlar    influncia poltica e competitividade poltica
todas as decises importantes que influam em        aberta. Entretanto isso encorajou e criou um
seus interesses. Bachrach e Baratz (1962) sus-      alvo fcil para os crticos hostis, todos eles por
tentam que o grupo dominante  suficiente-          demais conhecedores dos limites do funciona-
mente poderoso para poder definir a agenda          mento democrtico do Ocidente.
poltica, de tal modo que questes importantes          Acrescente-se que o pluralismo  rigoroso
para outros grupos simplesmente nunca che-          somente como teoria especfica da competio
gam a ser mterias formais de deciso poltica.     poltica, e no como abordagem geral da cincia
    De fato, que nos seja permitido discordar       poltica. Possui, de fato, importantes limitaes
dos crticos, tudo que os pluralistas precisam      explicativas, sendo a principal delas a de tender
afirmar  que uma poliarquia existe se grupos       a tratar o estado e rgos governamentais como
menos bem-sucedidos ainda considerarem va-          se nada mais fossem do que um veculo atravs
ler a pena competir e que, com o passar do          do qual grupos influentes so capazes de con-
tempo, o sistema mostra uma tendncia a se          cretizar seus objetivos. Assim, o estado  uma
tornar mais inclusivo e mais abertamente com-       rede intermediria atravs da qual grupos con-
petitivo. Dahl aponta que, em ambos os as-          correntes lutam por influenciar a ao poltica
pectos, as sociedades ocidentais se mostram         e a tomada de decises, refletindo ele em suas
minimamente pluralistas. Cita o crescimento da      aes os objetivos do interesse organizado pre-
influncia dos partidos e movimentos trabalhis-     dominante em qualquer questo. Isso poderia
tas na Europa -- tendo sido previamente exclu-     ser chamado, de modo um tanto irreverente, a
dos, concorreram e chegaram ao poder e pas-         teoria do estado como central telefnica.  ex-
saram a exercer influncia -- e, nos Estados        tremamente difcil acomodar na teoria pluralis-
Unidos, a incluso dos negros no sistema pol-      ta as proposies de que o estado  uma ins-
tico e a destruio do sistema de segregao no     tituio sumamente exclusiva e de que os gru-
Sul. De modo geral, tem faltado aos crticos        pos e agncias dentro dele tm distintos interes-
radicais e marxistas a sofisticao metodolgi-     ses e objetivos prprios. Entretanto a teoria da
ca necessria para construir um srio teste em-     classe dominante ou a teoria marxista da classe
prico do modelo pluralista, enquanto que Dahl,     dominante no , em absoluto, um substitutivo
em especial, apresentara poderosas crticas ao      eficaz, uma vez que se trata de teorias genera-
modelo de Mills de uma elite do poder (Dahl,        lizantes que, por sua vez, subestimam o papel
                                                                                   pluralismo    577


da competio poltica e da influncia poltica     land, seu colaborador o ministro da igreja an-
plural. Elas, por sua vez, consideram o estado      glicana John Figgis e os intelectuais socialis-
impermevel e homogneo demais, bem como            tas G.D.H. Cole e Harold J. Laski. Maitland e
subserviente demais em relao ao grupo social      Figgis foram diretamente influenciados pelo
minoritrio dominante: o complexo industrial-       terico alemo do direito Otto von Gierke e sua
militar ou a classe capitalista. Embora o plura-    teoria das associaes (1900). Eles desafiaram
lismo desafie corretamente a concepo de so-       a "fico" terica da personalidade jurdica e a
ma-zero do poder como quantidade fixa, tende        concepo concessionista do direito legal de
a ignorar a rigidez institucional do governo que    associaes. Tais concepes promanaram da
impede que a influncia seja infinitamente pro-     opinio de que as ltimas organizaes legti-
longvel.                                           mas na sociedade so o estado, representando a
    Uma importante rea de pesquisa emprica        vontade do povo, e os indivduos como porta-
pluralista foi a anlise do poder da comunidade.    dores de direito. A concesso de personalidade
Pluralistas e neo-elitistas argumentaram pr e      jurdica  dependente do estado e a classe assim
contra a proposio de que o poder em regies       formada  limitada em seu poder por seus ar-
e cidades americanas est largamente difundi-       tigos de associao. Figgis, em sua princi-
do, sendo de Dahl (1961) a declarao pluralista    pal obra, Churches in the Modern State (1913),
clssica e de Floyd Hunter (1953) a declarao      sustentou vigorosamente que esse ponto de vis-
clssica da monopolizao do poder. Para um         ta deve inibir o livre desenvolvimento dos in-
levantamento geral desse debate, ver Nelson W.      divduos e a democracia interna das associa-
Polsby (1963) e Arnold M. Rose (1967).              es. Afirmam que os indivduos s podem
                                                    esforar-se por concretizar algumas de suas
Pluralismo poltico ingls                          mais importantes liberdades e desfrutar delas
    O terceiro sentido de pluralismo  o do         em associao com outros, e que o ponto de
pluralismo poltico ingls. Essa corrente em        vista concessionista inibiu a autonomia de as-
teoria poltica foi muito influente na Gr-Breta-   sociaes com governo prprio, como igrejas e
nha e internacionalmente no primeiro quartel        sindicatos.
deste sculo, aps o que sofreu um rpido e             A noo de soberania do estado foi desafiada
radical eclipse. O pluralismo nesse sentido        por todos os pluralistas. Por "soberania" enten-
menos uma doutrina da competio poltica,          deram eles que uma determinada corporao
como a norte-americana, do que uma crtica da       poltica, tipicamente uma legislatura, reivindi-
estrutura do estado e da base da autoridade         cava para si mesma a plenitude do poder e o
deste. Os pluralistas ingleses desafiaram a teo-    direito a exercer o controle e a promulgar leis
ria da ilimitada soberania do estado e a concep-    para todas as pessoas, agncias e circunstncias
o de um estado unitrio centralizado              dentro de um territrio definido. Soberania 
corporificando tal poder soberano em uma hie-       um conceito defectivo, visto que nenhuma cor-
rarquia de autoridade exclusivamente controla-      porao pode realmente possuir tal plenitude de
da. Os pluralistas ingleses atriburam um papel     poder e que, ao pretender reinvidic-la, a sua
central a associaes voluntariamente forma-        tendncia era no sentido de atacar as fontes
das de cidados na sociedade civil, mas seu         plurais de poder, influncia e administrao em
propsito bsico a esse respeito era normativo,     uma sociedade. Laski (1921) resumiu bem essa
ou seja, sustentar que o estado soberano res-       oposio ao sustentar que, nas sociedades mo-
tringiu e inibiu o crescimento e a liberdade de     dernas, todo poder e toda organizao so ne-
tais associaes, que o estado era um obstculo     cessariamente e de facto federativos. O estado
 existncia de associaes plurais autnomas       deve, pois, conceder autonomia e independn-
e, portanto, devia ele prprio ser "pluralizado"    cia s agncias e associaes mais apropriadas
a fim de corresponder mais de perto s neces-       ao desempenho de determinada tarefa -- afir-
sidades das associaes livres em uma socie-        mou aquele autor que, como "as estradas de
dade livre. O pluralismo americano, pelo con-       ferro so to reais quanto o Lancashire", deveria
trrio, sustenta que a difuso de poder  um fato   ser-lhes consentido que conduzissem seus pr-
e presta pouca ateno  estrutura do estado.       prios negcios pelo menos da mesma forma que
    Os principais pensadores pluralistas ingle-     se permite ao condado cuidar dos dele. Cole e
ses foram o historiador do direito F.W. Mait-       Laski defenderam com veemncia a participa-
578   pobreza


o dos trabalhadores na gesto de suas inds-         1975: The Pluralist State  Polsby, N.W. 1980: Com-
trias e a criao por estas, em moldes federati-       munity Power and Political Theory, 2ed.  Rose, A.M.
                                                       1967: The Power Structure.
vos, de padres de co-determinao e colabora-
o mtua que fossem reputados necessrios e                                         PAUL QUENTIN HIRST
apropriados. Cole ligou explicitamente a plura-
lizao da autoridade do estado  administrao        pobreza O uso deste conceito, em vez de
da indstria pela Guilda Socialista em Guild           diminuir, cresceu com o passar dos anos.  um
Socialism Re-stated (1920).                            dos conceitos organizadores para declaraes
    Os pluralistas acreditavam na disperso do         sobre "a condio social" -- quer se aplique a
poder do estado em domnios de autoridade              sociedades ricas ou pobres, e neste final do
distintos e funcionalmente autnomos. Por cau-         sculo XX a coerncia de significado em todas
sa disso, opuseram-se fortemente  legitimao         as sociedades tornou-se uma questo cientfica
democrtica representativa do estado centrali-         crtica. Os livros sobre a pobreza no Terceiro
zado,  pretenso de que somente tal organiza-         Mundo durante esse perodo foram mais crti-
o poderia representar a vontade do povo,             cos e teoricamente mais radicais do que os
sendo outras organizaes parciais e egocn-           escritos a respeito da pobreza no Primeiro Mun-
tricas. Cole, em especial, desafiou veemente-          do. As divergncias de significado produziram,
mente esse ponto de vista, afirmando ser impos-        ou refletiram, divergncias na metodologia, nos
svel a representao das vontades reais de to        modos de explicao e nas estratgias de me-
multiforme e diversa massa de cidados. Os             lhoramento.
pluralistas negaram que a sociedade pudesse                O conceito tem atrado interesse intelectual
dar origem a uma vontade geral, afirmando,             e poltico durante muitos sculos (ver Himmel-
pelo contrrio, que os interesses dos cidados         farb, 1984; Woolf, 1987), na medida em que os
eram especficos e diversos. Embora todos os           governos e as classes dominantes acabaram,
pluralistas acreditassem que o poder do estado         ainda que relutantemente, sentindo-se obriga-
centralizado deveria ser disperso e que as as-         dos a definir as necessidades dos pobres em
sociaes deveriam gozar da maior medida de            relao  renda destes. Assim, na Gr-Bretanha
liberdade compatvel com a liberdade de outros,        e boa parte da Europa os responsveis por pe-
no concordavam sobre a natureza do poder              quenas reas, como parquias, desenvolveram
pblico restante em tal sistema. Cole, em parti-       formas de auxlio a indigentes, em asilos ou fora
cular, favoreceu claramente a substituio do          deles, muito antes da Revoluo Industrial, mas
sistema de democracia representativa por um sis-       as economias recm-baseadas na indstria ma-
tema de democracia funcional baseado nas guil-         nufatureira e no sistema de incentivo salarial
das industriais. Laski era favorvel a uma com-        criaram novos problemas de regulao dos
binao do sistema territorial representativo          montantes a serem recebidos pelo pobres tanto
com o autogoverno funcional.                           fora quanto dentro das instituies de assis-
    O pluralismo declinou depois de meados da          tncia social. Os custos de manuteno das
dcada de 20. O colapso financeiro de 1929             instituies e de seus internados tinham causa-
desferiu-lhe o golpe de misericrdia, quando os        do preocupaes aos grupos dominantes e, na
radicais advogaram mais uma vez de menos               formulao de um novo programa para admi-
ao estatal central para revitalizar a economia       nistrar a pobreza a partir de 1834 na Gr-Breta-
-- Cole e Laski entre eles. Est retornando           nha, por exemplo, o princpio de "menos elegi-
proeminncia intelectual agora, quando a cen-          bilidade" desempenhou um papel crucial no
tralizao est perdendo apoio e a devoluo de        pensamento dos polticos e dos responsveis
poder parece mais atraente nos pases ociden-          por investigaes cientficas. (Report...of the
tais. Para uma excelente exposio sobre o plu-        Poor Laws, 1834, p.228).
ralismo ingls, ver Nicholls (1975).                       Havia presso para definir as necessidades
                                                       mnimas dos internados institucionais e dos
Leitura sugerida: Dahl, R.A. 1956 (1966): A Preface    pobres fisicamente capazes fora de instituies,
to Democratic Theory  Hirst, P.Q., org. 1989: The
Pluralist Theory of the States: Selected Writings of
                                                       e os primeiros trabalhos de nutricionistas na
G.D.H. Cole, J.N. Figgs and H.J. Laski  Hunter, F.     Alemanha, Estados Unidos e Gr-Bretanha fo-
1953: Community Power Structure  Kuper, L. e Smith,    ram dedicados a tais questes. (Para a Alema-
M.G., orgs. 1969: Pluralism in Africa  Nicolls, D.     nha, ver, por exemplo, Leibfried, 1982; Leib-
                                                                                            pobreza      579


fried e Tennstedt, 1985; para os Estados Unidos,     to, moradia e vesturio --, em vez de neces-
Aronson, 1984.)                                      sidades sociais.
    Durante o sculo XX, trs concepes alter-          Uma segunda formulao -- a de "neces-
nativas de pobreza foram desenvolvidas como          sidades bsicas" -- foi adotada na dcada de
base para um trabalho internacional e compara-       70, embora estritamente a idia tivesse uma
tivo. Elas dependem principalmente das idias        histria mais extensa (Drewnowski e Scott,
de subsistncia, necessidades bsicas e priva-       1966). Considerou-se que as necessidades b-
o relativa. Na Gr-Bretanha, o padro de           sicas incluem dois elementos:
"subsistncia" veio  luz em duas etapas, pri-          Em primeiro lugar, incluem certas exigncias mni-
meiro em conjuno com pesquisas levadas a              mas de uma famlia no tocante ao consumo privado:
efeito por empresrios como Rowntree (1901 e            alimentao, moradia e vesturio adequados, assim
1918) e depois nos anos de guerra, 1939-45, por         como certo mobilirio e utenslios domsticos. Em
meio de um relatrio sobre segurana social             segundo lugar, incluem servios essenciais forneci-
redigido por Beveridge (1942). Como resultado           dos pela e para a comunidade em geral, como gua
                                                        potvel, saneamento, transporte pblico e servios de
de um trabalho incentivado por nutricionistas,          sade, educacionais e culturais. (Organizao Inter-
as famlias foram ento definidas em situao           nacional do Trabalho, 1976, p.24-5; ver tambm
de pobreza quando suas rendas no eram "sufi-           ibid., 1977.)
cientes para a manuteno da mera eficincia
fsica" (Rowntree, 1901, p.86). Uma famlia era          Esse conceito tem desempenhado um papel
tratada como pobre se a sua renda menos alu-         proeminente em uma sucesso de planos nacio-
guel ficasse abaixo da linha de pobreza. Embora      nais (Ghai et al., 1977; Ghai e Lisk, 1979) e em
se fizesse um abatimento na renda para ves-          relatrios internacionais (Unesco, 1978; Bran-
turio, combustvel e alguns outros itens, esse      dt, 1980). A expresso  claramente uma am-
                                                     pliao do conceito de subsistncia. A nfase
abatimento era muito pequeno e a alimentao
                                                     recai sobre os servios mnimos requeridos por
era responsvel pela maior parcela da subsis-
                                                     comunidades locais como um todo, e no ape-
tncia.
                                                     nas necessidades individuais e familiares para
    A formulao de Rowtree, A.L. Bowley e           a sobrevivncia e a eficincia fsicas. Entretanto
outros durante a dcada de 1890 e as primeiras       os proponentes do conceito tiveram grande di-
dcadas do sculo XX teve poderosa influncia        ficuldade em produzir critrios aceitveis para
tanto sobre a prtica cientfica quanto sobre as     a escolha e definio dos itens includos. Um
polticas nacionais, e internacionais, sendo         dos atrativos do conceito de "subsistncia" para
exemplos disso as medidas estatsticas adotadas      alguns pensadores foi o seu mbito limitado e,
para descrever as condies sociais em cada          portanto, suas limitadas implicaes para a re-
pas e, mais tarde, utilizadas por organismos        forma das estruturas sociais, bem como sua
internacionais como o Banco Mundial. A inter-        mais fcil conciliao com a forte nfase atri-
pretao pessoal de Beveridge de "subsistn-         buda ao individualismo dentro do pluralismo
cia" foi mantida depois de 1945 como forma de        liberal. Um dos atrativos intelectuais do concei-
justificar os baixos ndices de assistncia nacio-   to de "necessidades bsicas", por outro lado, foi
nal e seguridade nacional ento adotados. A          a sua nfase no estabelecimento de, pelo menos,
idia de subsistncia tambm foi livremente          algumas das condies prvias para a sobrevi-
exportada para estados-membros do antigo Im-         vncia e a prosperidade das comunidades em
prio Britnico (Pillay, 1973; Maasdorp e Hum-       todos os pases.
phreys, 1975). Nos Estados Unidos, "subsis-              Por tais razes, alguns cientistas sociais vol-
tncia" continua sendo a palavra-chave das me-       taram-se para uma terceira formulao social,
didas governamentais em relao  pobreza            mais abrangente e rigorosa, do significado de
(U.S. Departament of Health, Education and           pobreza -- a de PRIVAO RELATIVA (Townsend,
Welfare, 1976). O uso de "subsistncia" para         1979, 1985 e 1992; Chow, 1982; Bokor, 1984;
definir a pobreza tem sido maciamente critica-      Mack e Lansley, 1984; Ferge e Miller, 1987;
do (Rein, 1970; Townsend, 1979), sobretudo           Desai e Shah, 1988; Luttgens e Perelman, 1988;
com base no fato de as necessidades humanas          Listner, 1991). As sociedades passam por mu-
serem interpretadas como sendo predominante-         danas to rpidas que qualquer padro criado
mente necessidades fsicas -- isto , de alimen-     em alguma data histrica no passado dificil-
580   poder


mente se justifica em novas condies. As pes-     que sofrem de escassez, pois os indivduos
soas esto sujeitas a novas leis e obrigaes, e   desempenham diferentes papis durante suas
consomem diferentes bens e servios. Portanto,     vidas e podem ter complexos padres de as-
as rendas no podem ser ajustadas por um n-       sociao.
dice de preos. A pobreza pode ser mais bem           Estamos em uma etapa relativamente pre-
entendida como referente no apenas aos que        coce do reconhecimento das necessidades so-
so vtimas da m distribuio de recursos,        ciais dos indivduos, e os efeitos sociais plenos
porm, mais exatamente, queles cujos recur-       da baixa renda ainda esto por ser sistematica-
sos no permitem, em primeiro lugar, satisfazer    mente descritos e cientificamente investigados,
as refinadas exigncias e normas sociais impos-    mas essa no  uma etapa desconhecida na
tas aos cidados dessa sociedade. Esse  um        evoluo da definio e da teoria cientficas.
critrio que se presta a observaes, medies        Ver tambm ESTADO DE BEM-ESTAR; ESTATS-
e anlises cientficas.                            TICA SOCIAL; NECESSIDADES.
    A motivao que impulsionou a apresenta-
o da pobreza como "privao relativa" pode-      Leitura sugerida: Atkinson, A. 1989: Poverty and So-
                                                   cial Security  George, V. 1988: Wealth, Poverty and
ria considerar-se cientfica e internacional. H   Starvation  Sen, A. 1981: Poverty and Famines: An
aspectos em que o conceito de "subsistncia"       Essay in Entitlement and Deprivation  Townsend, P.
minimiza a amplitude e a profundidade da ne-       1979: Poverty in the United Kingdom  1992: The In-
cessidade humana, tal como o conceito de "ne-      ternational Analysis of Poverty.
cessidades bsicas" est basicamente restrito                                       PETER TOWNSEND
aos servios de utilidade pblica das comuni-
dades do Terceiro Mundo. As pessoas sofrem         poder Em seu significado mais genrico, po-
uma privao relativa se no podem obter re-       der  a capacidade de produzir ou contribuir
gime alimentar, confortos, padres e servios      para resultados -- fazer com que ocorra algo
-- que lhes permitam desempenhar os papis,        que faz diferena para o mundo. Na vida social,
participar das relaes e ter o comportamento      podemos dizer que poder  a capacidade de
habitual que se espera delas como membros da       fazer isso atravs de relaes sociais:  a capa-
sociedade. As pessoas podem sofrer privaes       cidade de produzir ou contribuir para resultados
em qualquer ou em todas as principais esferas      que afetem significativamente um outro ou ou-
da vida -- no trabalho, onde so ganhos os         tros. Essas amplas definies gerais oferecem
meios que determinam predominantemente as          um quadro de referncia para caracterizar algu-
posies ocupadas em outras esferas; no lar, na    mas das principais diferenas no modo como o
famlia e na comunidade; nas viagens; em uma       poder tem sido visto em debates no sculo XX.
gama de atividades sociais e individuais fora do   Focalizando o poder social, podemos formular
trabalho, do lar ou da comunidade, no desempe-     vrias questes.
nho de uma variedade de papis em cumpri-             Em primeiro lugar, quem ou o que possui
mento de obrigaes sociais.                       poder? Muitos viram o poder como uma capa-
    Tal como em qualquer formulao, h pro-       cidade de agentes, individuais ou coletivos,
blemas na definio da pobreza em termos ope-      embora haja quem o considere uma propriedade
racionais. Sob o enfoque da "privao relativa",   impessoal: a capacidade dos sistemas sociais de
concebe-se um limiar de renda, de acordo com       realizar objetivos coletivamente vinculatrios
o tamanho e o tipo de famlia, abaixo do qual a    (Talcott Parsons) ou de reduzir a complexidade
retirada ou excluso da participao ativa na      (Niklas Luhman), ou dos mecanismos sociais
sociedade torna-se desproporcionalmente            de "disciplinar" indivduos, modelando seu dis-
acentuada. Se esse limiar existe, depende das      curso, seus desejos, a bem dizer, a sua prpria
provas cientficas que podem ser reunidas em       "subjetividade" (Michel Foucault). Mas  des-
seu favor (para uma apresentao da controvr-     necessrio falar de tais estruturas impessoais
sia, ver Townsend 1979, cap.6; Desai e Shah,       como "tendo poder": todas essas concepes
1988; Desai, 1986; Sen, 1983 e 1985; e             "estruturalistas" so reformulveis como enun-
Townsend, 1985). Uma detalhada e abrangente        ciados de vrias condies que facilitam ou
observao cientfica  necessria para            reduzem o poder de agentes para atuar, seja
demonstrar a extenso e a severidade da no-       como indivduo, seja coletivamente (ver AO
participao entre as pessoas de baixa renda e     E MEDIAO).
                                                                                        poder    581


     Em segundo lugar, que resultados contam        me ofereceu). Outros, como Hannah Arendt,
como efeitos do poder? Muitos concordam com         vem as relaes de poder como essencial-
Bertrand Russel e Max Weber, que insistiram         mente cooperativas, definindo o poder como "a
em que os resultados sejam intencionais. Para       capacidade humana de atuar em harmonia", em
Russell, poder  "a produo de efeitos preten-     contraste com a violncia e a fora, e com "a
didos" (1938, p.25); para Weber,  "a probabi-      relao comando-obedincia": o poder, nessa
lidade de que um ator em uma relao social         concepo, "pertence a um grupo e continua
esteja em posio de levar a efeito a sua von-      existindo somente enquanto o grupo se manti-
tade, independentemente da base em que essa         ver coeso" (1970, p.44, 40). Outros tentam com-
probabilidade assenta" (1921-2). Mas a inten-       binar ambos os aspectos em uma concepo mais
o  suficiente? Que dizer se,  semelhana dos    abrangente, sublinhando tanto a necessidade dos
esticos, quero somente o que posso obter, ou,      poderosos de atrair a cooperao e formar co-
 semelhana de um conformista, somente o           alizes quanto a de evitar ou superar a oposio.
que os outros querem, ou,  semelhana de um            Em quarto lugar, como  concebida a capa-
sicofante, somente o que (penso eu) os outros       cidade em questo? O "poder" identifica o que
querem que eu queira? Sou poderoso em opo-          um agente pode fazer sob vrias condies ou
sio a voc se os efeitos que posso intencio-      somente nas condies realmente existentes?
nalmente produzir so produzidos porque voc        Na primeira hiptese, so poderosos os que
me ameaou ou induziu, ou porque previ que          podem produzir os resultados apropriados em
voc faria isso, ou se posso apenas produzi-los     uma vasta gama de circunstncias possveis; na
a um enorme custo (digamos, sacrificando a          segunda, s se as circunstncias vigentes lhes
minha vida ou o que lhe d valor), ou se nada       permitirem assim proceder (por exemplo, uma
posso produzir alm de efeitos triviais? E as       determinada configurao de preferncias de
intenes so reais ou hipotticas? O poder no     voto habilita a pessoa a decidir o resultado). A
 tambm a capacidade de realizar o que pode-       primeira alternativa identifica uma capacidade
ria, mas realmente no quero? E a inteno         que pode ser desenvolvida em uma srie de
necessria? Todos os efeitos do poder devem         contextos, ao passo que na segunda  identifi-
ser intencionais? Ser que o poder pode no ser     cado o que pode ser feito em um tempo e lugar
exercido de forma rotineira ou irrefletida, como    especficos. Uma concepo adicional (comum
quando, ao tomar decises de investimento,          entre socilogos adeptos da estratificao) in-
privo pessoas desconhecidas de trabalho ou o        cluiria como parte do poder o acesso a, ou a
proporciono a elas? Talvez, mais exatamente,        capacidade de controlar, resultados desejados
os resultados do poder devam ser identificados      (como recursos ou privilgios), seja o que for
como os que afetam os interesses dos poderosos      que o agente faa. Nessa concepo, o poder
e daqueles que o poder destes afeta. Que os         pode ser visto como a capacidade de obter
primeiros s so promovidos  custa dos segun-      vantagens sem esforo. Mas outros consideram
dos  uma suposio injustificadamente res-         que  prefervel conceber isso mais como ques-
tritiva encontrada em grande parte da literatura    to de sorte do que de poder.
existente sobre poder, embora essa seja clara-          Finalmente, em quinto lugar, como  pos-
mente uma possibilidade apenas.                     svel identificar ou medir o poder? Robert Dahl
     Em terceiro lugar, que distingue as relaes   e seus seguidores analisaram o que prevalece
de poder? De que maneiras podem os poderosos        em uma tomada de decises quando h interes-
afetar significativamente outros para produzir      ses conflitantes; Peter Bachrach e Morton Ba-
ou contribuir para resultados? Alguns, ainda        ratz recomendaram um enfoque adicional na
como Weber, concentraram-se nas relaes de         composio da agenda (1970); e Steven Lukes
dominao -- no poder sobre um outro ou             apontou ainda que o poder pode envolver a
outros, na garantia de submisso por meios que      formao de crenas e desejos, os quais, por seu
podem ir desde a VIOLNCIA e a fora, passando      turno, podem no ser deliberados (1974). Al-
pela manipulao, at a AUTORIDADE e a persua-      guns concentraram-se na posse de recursos co-
so racional (embora seja discutvel se esta        mo um "ndice de poder", outros na capacidade
ltima  uma forma de poder e dependa de voc       de criar uma diferena decisiva, como um "pi-
pensar ou no que, ao me persuadir, minha           v", nas deliberaes por voto, outros na medi-
mente foi alterada por voc ou pelas razes que     o dos custos de oportunidade da tentativa de
582    polcia


assegurar submisso, em contraste com os cus-              policiamento  de gerar culturas reacionrias,
tos do fracasso dessa tentativa. Simplesmente,             defensivas e centrfugas, resistindo  crtica e 
a resposta a essa ltima questo depende de                reforma. Tipicamente, a polcia  uma fora
como respondemos todas as outras.                          armada, uniformizada e masculina.
                                                               No chega a surpreender que as teorias sobre
Leitura sugerida: Arendt, Hannah 1970: On Violence
 Dahl, R.A. 1961: Who governs? Democracy and Po-
                                                           a polcia estejam intimamente relacionadas
wer in an American City  Lukes, S. 1974: Power: a          com ideologias polticas mais amplas (ver IDEO-
Radical View  Morris, P. 1987: Power: a Philosophi-        LOGIA). Podemos distinguir trs abordagens: (a)
cal Analysis  Weber, Max 1921-2 (1978): Economy            uma viso conservadora focaliza a polcia como
and Society, trad. e org. por G. Roth e C. Wittich, esp.   formada de combatentes contra o crime, enfati-
cap.10.                                                    zando e (implicitamente) apoiando o papel in-
                                       STEVEN LUKES        tegrativo que ela desempenha na promoo da
                                                           harmonia social; (b) uma viso radical (como o
polcia Quer em referncia  funo de man-                marxismo) encara a polcia como uma agncia
ter o controle social na sociedade (policiamen-            repressora do estado, funcionando necessaria-
to) ou  instituio estabelecida para executar            mente nos interesses da classe dominante no
essa funo (a polcia), estamos lidando com               controle da resistncia da classe trabalhadora
uma questo complexa, controversa e suma-                  contra a explorao, ou seja, a polcia  vista
mente emocional. Embora sejamos todos poli-                como um inimigo a ser abolido; (c) uma abor-
ciados de algum modo (a sociedade requer, para             dagem orientada para um programa de ao
persistir, um mnimo de organizao e confor-              poltica (que surgiu mais recentemente) aceita
midade), a questo de quem  policiado, por                a necessidade do policiamento e examina vrios
quem, de que maneira(s) e com que justificao             estilos e mtodos de policiamento de modo
(ou justificaes) est no cerne dos debates               mais emprico, utilizando critrios como efi-
acerca dos processos sociais e polticos (ver              cincia, eficcia e aceitao pelo pblico (Mor-
ESTADO; PODER; SOCIEDADE) O policiamento po-               gan e Smith, 1989).
de ser: formal ou informal, pblico ou privado,                Dois desenvolvimentos em curso indicam
aberto ou secreto, local ou centralmente contro-           possveis fontes de mudana. Em primeiro lu-
lado, reativo ou proativo, pacfico ou violento,           gar, os valores masculinos predominantes na
baseado na comunidade ou paramilitar, por                  polcia, enfatizando a rudeza, a agresso, o
consentimento ou a despeito de oposio e re-              machismo, a bebida, o brio etc., esto sendo
sistncia. Tradicionalmente, o policiamento foi            agora desafiados por feministas que destacam
legitimado (ver LEGITIMIDADE) pela necessidade             que os interesses e as preocupaes das mu-
de controlar a criminalidade e prender o trans-            lheres na polcia e em serem policiadas so
gressor da lei. Entretanto muito trabalho poli-            vergonhosamente negligenciados. Entretanto,
cial no est relacionado com o crime, e a                 com mais mulheres alistando-se na polcia, per-
polcia tambm desempenha um papel central                 manece em aberto a questo de se "a imagem
na manuteno da ordem pblica e no controle               do policial tradicional estar prestes a mudar
da dissidncia poltica.                                   fundamentalmente" (Chassyne, 1989, p.20), ou
    Histrica e transculturalmente, existem va-            se as mulheres simplesmente se integraro 
riaes em termos de estruturas, poderes e                 "cultura machista dos tiras" que se encontra
desempenho policiais. Nas sociedades pr-in-               arraigada no mundo todo. Em segundo lugar,
dustriais, o controle da criminalidade tendia a            recentes mudanas radicais na organizao so-
ser executado por toda a comunidade, sem uma               cial e poltica na Europa Oriental podem muito
fora policial organizada. Com a crescente di-             bem ter aberto o caminho para um estilo mais
ferenciao (ver INDUSTRIALIZAO), funcion-              democrtico e responsvel de policiamento em
rios especficos so nomeados para manter a                pases at aqui dominados pela represso. Isso
ordem, o que redunda na proliferao de foras             pode desafiar pressupostos convencionais so-
especialistas. Como acontece com qualquer                  bre a relativa abertura do policiamento no Oci-
grupo detentor de considervel poder, h o pe-             dente e acrescentar um novo e interessante ru-
rigo onipresente de corrupo, violncia e ra-             mo aos debates sobre poderes, responsabilidade
cismo, e isso forma um importante foco de                  e aceitabilidade.
debates sobre o policiamento. A tendncia do                   Ver tambm CRIME E TRANSGRESSO.
                                                                                    poltica cientfica   583

Leitura sugerida: Benyon, J. e Burne, C., orgs. 1986:      havia,  claro, organizaes como a Royal So-
The Police: Powers, Procedures and Proprieties  Du-        ciety, academias de cincia e outras sociedades
nhill, C., org. 1989: The Boys in Blue: Women's Chal-
lenge to the Police  Hanmer, J., Radford, J., e Stanko,
                                                           e revistas cientficas florescentes (Price, 1963).
E.A., orgs. 1989: Women, Policing and Male Violence:       Algumas delas eram reconhecidas como de im-
International Perspectives  Morgan, R. e Smith, D.J.,      portncia nacional e havia formas embrionrias
orgs. 1989: Coming to Terms with Policing  Reiner, R.      de patrocnio e de assistncia governamental
1985: The Politics of the Police  Roach, J. e Thoma-       mesmo antes do sculo XVII. A promoo de
neck, J., orgs. 1985: Police and Public Order in Europe.   invenes atravs da legislao sobre patentes
                              CHARLES R. M. WILSON         e as tentativas de limitao da transferncia de
                                                           know-how tcnico tambm remontam a muitos
poltica Ver CINCIA POLTICA; CULTURA POL-               sculos. Mas foi na parte final do sculo XIX
TICA; ECONOMIA POLTICA; SOCIOLOGIA POLTICA;              que a profissionalizao das atividades de P &
TEORIA POLTICA.                                           D e seu rpido crescimento levaram  presso
                                                           por um processo mais consistente e metdico
poltica, participao Ver PARTICIPAO PO-                de formulao de polticas nos principais pases
LTICA; PARTIDO POLTICO.
                                                           industriais, sobretudo na Alemanha e na Gr-
poltica cientfica No plano da formulao                 Bretanha. Poole e Andrews (1972) documenta-
de programas de ao poltica, a poltica cien-            ram esse crescimento do envolvimento gover-
tfica  usualmente definida como o conjunto               namental no perodo de 1875 a 1939 de um
de medidas projetadas para influenciar a aloca-            modo particularmente esclarecedor, usando
o de recursos destinados s atividades de                material original colhido em fontes seleciona-
natureza cientfica e tcnica, a comprovao da            das. De especial interesse  o 8 Relatrio da
eficcia de tais alocaes e suas conseqncias            Royal Commission on Scientific Instruction
sociais. No que diz respeito  pesquisa acad-             and Advancement of Science que, em 1875,
mica, pode ser definida como o estudo dessas               recomendou o estabelecimento de um Minis-
atividades, apoiado na histria, na cincia eco-           trio da Cincia e fez vrias outras propostas
nmica, na sociologia e na filosofia da cincia,           que tiveram de esperar entre 30 e 90 anos antes
assim como na observao e anlise contempo-               de sua implementao.
rnea do processo de formulao de polticas.                  Entretanto, o envolvimento governamental
No h coerncia de uso no tocante  tecnolo-              com a cincia continou aumentando antes, du-
gia. Alguns autores (e alguns governos) limitam            rante e depois da Primeira Guerra Mundial,
a expresso "poltica cientfica" exclusiva-               instigado pela concorrncia industrial e pela
mente  cincia stricto sensu. Outros usam-na              rivalidade militar. O estabelecimento de labo-
englobando toda a poltica pblica nos campos              ratrios de P & D privados, primeiro na inds-
da cincia e da tecnologia.  nesse ltimo sen-            tria qumica alem na dcada de 1870, mas
tido que a expresso  aqui usada. Tentativas              depois disso em muitas outras empresas indus-
frustradas foram feitas em vrias pocas para              triais, intensificou a competio tecnolgica e
introduzir outras designaes, como "cincia               acelerou o crescimento do profissionalismo em
da cincia" (Goldsmith e Mackay, 1964), mas                uma vasta gama de atividades cientficas e tc-
em geral elas caram em desuso. A maioria dos              nicas. Ao mesmo tempo os departamentos de
envolvidos, quer na anlise terica, quer na               cincias das universidades e as escolas tcnicas
formulao prtica de planos de ao, no se               tornaram-se objetos de crescente interesse in-
sente  vontade com expresses que possam                  dustrial e governamental, em funo de seu
veicular uma impresso demasiado forte de                  duplo papel como promotores de pesquisas e
certeza e coerncia em uma rea de tanta incer-            fonte de tcnicos e profissionais cientficos pre-
teza e controvrsia.                                       parados.
    O surgimento da poltica cientfica como                   Esse novo complexo, em rpido crescimen-
rea distingvel e significativa da formulao            to, de atividades cientficas governamentais,
de programas e de interesse acadmico relacio-             industriais e universitrias  que foi o tema do
nou-se intimamente com a profissionalizao e              livro pioneiro de J.D. Bernal, Social Function
o crescimento de vrias atividades cientficas e           of Science (1939). Sem dvida, foi esse o mais
tcnicas, especialmente a pesquisa e desenvol-             influente livro sobre poltica cientfica na pri-
vimento (P & D). J nos sculos XVII e XVIII               meira metade do sculo XX. O livro est divi-
584   poltica cientfica


dido em duas partes que combinaram os interes-        no tardou muito para que ministrios "da Cin-
ses cientficos do autor e o seu compromisso,         cia", de "Educao e Cincia" ou de "Cincia e
como marxista, com a ao poltica: "O que a          Tecnologia" passassem a ser uma caracterstica
cincia faz" e "O que a cincia poderia fazer".       bastante normal dos governos. Organizaes
Na primeira parte, Bernal realizou uma tentati-       internacionais, como a Unesco e mais ainda a
va de medio da escala de todas as atividades        Organizao para a Cooperao e Desenvolvi-
de P & D na Gr-Bretanha nessa poca. So-             mento Econmico (OCDE), desempenharam
mente na dcada de 50  que os governos es-           um papel muito importante na padronizao das
tabeleceram as primeiras medidas oficiais de          estatsticas (OCDE, 1963a), no estmulo  pes-
P & D, as quais se tornaram desde ento uma           quisa sobre programas de ao poltica visando
caracterstica regular das estatsticas sociais e     o progresso cientfico e no intercmbio de ex-
um importante instrumento de anlise em gran-         perincias em reunies governamentais (ver,
de parte da pesquisa sobre poltica cientfica.       por exemplo, OCDE, 1963b). Tambm organi-
Na segunda parte, o autor props um aumento           zaram um reexame peridico da poltica cient-
macio na escala de P & D e atividades cient-        fica de vrios pases-membros, conduzido por
ficas afins, e um redirecionamento dos recursos,      "especialistas" de fora (formuladores de polti-
transferindo-os da rea militar para objetivos de     cas governamentais e investigadores acadmi-
bem-estar e humansticos. As suas propos-             cos), conferindo assim a essa poltica parte da
tas para aumentar a escala de P & D em, pelo          ateno normalmente dedicada s polticas eco-
menos, uma ordem de grandeza, embora na               nmica, social e externa dos governos.
poca parecessem ambiciosas e inviveis, fo-              O recrudescimento da pesquisa sobre polti-
ram de fato implementadas na maioria dos              ca cientfica acompanhou e interagiu com esse
pases industriais depois da Segunda Guerra           rpido crescimento da P & D e das instituies
Mundial. As suas propostas fundamentais para          dedicadas  poltica para essa rea. Esse esforo
a reorientao e reorganizao das atividades         foi e  realizado por scholars de vrias discipli-
cientficas ainda aguardam implementao e            nas (por exemplo, Merton, 1973: Nelson, 1987;
continuam sendo tema de profunda controvr-           Price, 1963) e cada vez mais por grupos de
sia, indo das metas de P & D industrial em            pesquisa multidisciplinar em universidades e
grandes empresas at o planejamento da cincia        outras instituies (ver, por exemplo, Spiegel-
e os perigos da tecnocracia, passando pela res-       Rsing e Price, 1977). Enquanto que boa parte
ponsabilidade social dos cientistas.                  do impulso inicial proveio de fsicos como J.D.
    As idias de Bernal foram fortemente criti-       Bernal ou bilogos como Julian Huxley, os
cadas (ver, por exemplo, Baker, 1942) por causa       cientistas sociais tm se envolvido, cada vez
da sua defesa do planejamento e sua admirao         mais freqentemente, em grupos de pesquisa
incondicional pela poltica sovitica para a          multidisciplinar, como a Science Policy Re-
cincia. Entretanto a sua insistncia na neces-       search Unit, estabelecida na Universidade de
sidade de o governo desempenhar um impor-             Sussex em 1965, ou em instituies similares
tante papel na poltica cientfica e sua viso um     em Manchester, Lund, Heidelberg, Karlsruhe,
tanto utpica da enorme contribuio potencial        no MIT, em Limburg, Tquio e outros centros.
da cincia para derrotar a pobreza e o subdesen-          Entre as muitas correntes de pesquisa que
volvimento permaneceram como influncia du-           floresceram nas dcadas de 70 e 80, registram-
radoura na pesquisa sobre poltica cientfica. As     se as crescentes tentativas de usar os chamados
pavorosas realizaes da pesquisa cientfica du-      "indicadores de output" de cincia e tecnologia,
rante a Segunda Guerra Mundial marcaram o             incluindo indicadores bibliomtricos de publi-
reconhecimento universal de que a cincia era         cao e citao, estatsticas de patentes e ci-
agora uma das mais poderosas influncias na           taes de patentes, medidas de inovao e difu-
sociedade, de modo geral, e levaram  aceitao       so. Obviamente, tais indicadores so suscet-
de um papel altamente ampliado da poltica            veis de muitos abusos e interpretaes equivo-
cientfica, papel esse que teria sido muito difcil   cadas, ao mesmo tempo em que fornecem pistas
de conseguir no clima de idias predominante          valiosas para ajudar na formulao de polticas.
na maioria dos pases antes da guerra.                Portanto, uma grande soma de pesquisa  dedi-
    Conselhos e comisses de assessoria e con-        cada  avaliao crtica e ao desenvolvimento
sultoria proliferaram nas dcadas de 50 e 60, e       desses indicadores (ver, por exemplo, Research
                                                                                  poltica e terrorismo   585


Policy, 1987). Com o seu amadurecimento, a                abandona depois de um processo de "inverso"
pesquisa sobre poltica cientfica tambm co-             (Wieviorka, 1988, p.95-118) envolvendo a sua
meou a ter maior influncia recproca sobre              ideologia e o seu relacionamento com aqueles
outras disciplinas, como, por exemplo, na refor-          de quem pretende ser parte. As ideologias ter-
mulao da teoria econmica atravs dos fa-               roristas no prolongam diretamente uma ideo-
tores econmicos da mudana tcnica (Dosi e               logia anterior; alteram-na consideravelmente,
outros, 1988).                                            como pode ser visto nos numerosos grupos em
   Ver tambm PLANEJAMENTO SOCIAL; REVOLU-                todo o mundo que, desde a dcada de 60, preten-
O CIENTFICO-TECNOLGICA.                               dem ser marxistas-leninistas, mas romperam
                                                          com o pensamento de Lenin ou mesmo com as
Leitura sugerida: Annerstedt, J. e Jamieson, A. 1988:
From Research Policy to Social Intelligence: Essays for   do comunismo clssico. A comunidade a que
Stevan Dedijer  Bernal, J.D. 1939: The Social Func-       tais terroristas se referem  um paraso artificial,
tion of Science  Dickson, D. 1984: The New Politics of    a prpria referncia  um sonho, como se pode
Science  Freeman, C. 1987: Technology Policy and          observar em certos casos de terrorismo nacio-
Economic Performance: Lessons from Japan  Krauch,         nalista que perdeu todas as razes -- e todo
H. 1970: Prioritten fr die Forschungspolitik  La-       pblico significativo -- na comunidade de re-
koff, S.A. 1966: Knowledge and Power: Essays on
Science and Government  Mowery, D.C. e Rosenberg,
                                                          ferncia. Isso tambm  vlido a respeito de um
N. 1989: Technology and the Pursuit of Economic           terrorismo de extrema esquerda que usualmente
Growth  Nelson, R.H. 1987: Understanding Technical        deixou a classe trabalhadora (se  que essa
Change as an Evolutionary Process  Poole, J.B. e          classe, em defesa da qual as aes so executa-
Andrews, K. 1972: The Government of Science in Bri-       das, realmente existe) indiferente, quando no
tain  Ravetz, J. 1971: Scientific Knowledge and its       hostil.
Social Problems  Spiegel-Rsing, I. e Price, D. de
Solla 1977: Science, Technology and Society: a Cross-         De acordo com uma tese corrente inspirada
Disciplinary Perspective.                                 no funcionalismo, o terrorismo surge quando
                            CHRISTOPHER FREEMAN
                                                          existe uma crise, sobretudo uma crise poltica.
                                                          Numerosos autores propuseram-se explicar o
poltica e terrorismo Cumpre distinguir dois              surgimento de um processo terrorista pela crise
tipos principais de comportamento terrorista.             de um estado esfacelado (citando o Lbano),
Em primeiro lugar, o terrorismo pode ser uma              corrupto (citando a Itlia) ou excessivamente
mtodo de ao que um agente usa para realizar            repressivo (citando a Alemanha Ocidental).
objetivos precisos. Nesse caso, a violncia              Outros formularam argumentos baseados na
pragmtica, mais ou menos sob controle do                 observao de que o sistema poltico est blo-
agente, que pode, se as circunstncias muda-              queado (como aconteceu na Itlia durante a
rem, abandonar esse mtodo e recorrer a outras            dcada de 70, em virtude do "compromisso
estratgias, no necessariamente violentas. O             histrico" entre os Partidos Democrata Cristo
terrorismo como mtodo de ao  um fenme-               e Comunista). Essas explicaes devem ser
no especificamente poltico situado no interior           consideradas mais seriamente do que aquelas
de uma fronteira que pode circunscrever um                que, sem provas evidentes, consideram o ter-
pas ou delimitar um espao internacional, geo-           rorismo o resultado de manipulaes condu-
poltico. Pode ser obra de grupos ou movimen-             zidas por potncias distantes. Tm a vantagem
tos, mas tambm de governos.                              de explicar as condies propcias ao surgimen-
    Em segundo lugar, o terrorismo pode ser               to de lgicas terroristas de ao, mas deixam de
uma lgica de ao -- no mais o ltimo ou                lado um importante aspecto, qual seja, o traba-
conjuntural meio de ao de um agente poltico,           lho de inteno gestora que os agentes polticos
mas uma combinao poltica e ideolgica de               ou intelectuais desempenham com referncia a
pensamento e ao, um fenmeno no qual a                  uma realidade social ou comunitria que , de
"classe dos letrados" tem um papel concreto na            fato, indefinvel.
organizao de aes terroristas. Nesse caso, a               O terrorismo afeta o sistema poltico, e seus
violncia inverte os meios e os fins, e o agente          efeitos so ainda mais espetaculares sempre que
parece ser colhido em uma reao em cadeia                ataca uma democracia. Seja interno ou interna-
que  interminvel, a menos que seja detido por           cional, o terrorismo altera o equilbrio dentro de
represso, priso ou morte. Esse agente nasceu            cada um dos trs ramos (executivo, legislativo
em um espao politicamente limitado, mas o                e judicirio) de governo, e tambm causa tenso
586   poltica social


entre eles. Em especial, torna mais difcil para   exigncias formuladas pelas foras polticas
cada um dos poderes manter a autonomia. A          (Wieviorka e Wolton, 1987).
menos que ocorra uma crise geral do estado, a         Todos esses problemas definem um consi-
principal conseqncia do terrorismo  reforar    dervel campo de pesquisa nas cincias sociais.
o poder do executivo  custa, principalmente,      Entretanto poucos investigadores tm se debru-
do judicirio, que pode ser forado a assumir      ado sobre esse tema e a maioria das pesquisas
uma posio muito subordinada. Por essa razo,     tem sido de carter jornalstico com base prin-
o terrorismo  um desafio para as democracias      cipalmente na informao policial ou nos depoi-
(Dror, 1983).                                      mentos de antigos terroristas e lderes polticos.
    Como pode um governo reagir? Essa ques-
                                                   Leitura sugerida: Crenshaw, M., org. 1983: Terrorism,
to quase no foi explorada ainda pela cincia     Legitimacy and Power  Della Porta, D. e Pasquino, G.
social ou pela cincia poltica. Fazer cumprir a   1983: Terrorismo e violenza politica  Fetscher, I. e
lei  o meio essencial para lidar com ameaas      Rohrmoser, G. 1981: Ideologien und Strategien: Ana-
internas da extrema esquerda, da extrema direi-    lysen zum Terrorismus, vol.1  Hacker, F. 1976: Crusa-
ta ou de grupos separatistas. Apia-se em nu-      ders, Criminals, Crazies: Terror and Terrorism in our
merosos mtodos de comprovada eficincia,          Time  Laqueur, W. 1977: Terrorism  O'Sullivan, N.,
                                                   org. 1986: Terrorism, Ideology and Revolution  Wie-
alguns dos quais so universais (infiltrao po-   viorka, M. 1988: Socits et terrorisme  Wieviorka, M e
licial e fichrio de suspeitos), enquanto outros   Wolton, D. 1987: Terrorisme  la une.
podem no ser aceitos em certas culturas pol-                                      MICHEL WIEVIORKA
ticas. Por exemplo, o que na Alemanha Ociden-
tal se considera uma ao cvica (a participao
da populao em descobrir e denunciar sus-         poltica social No existe uma definio
peitos)  tido na Frana como coisa de "alca-      universalmente aceita de poltica social. As des-
gete" ou "dedo-duro". Medidas econmicas,         cries baseadas na prtica e no mbito his-
sociais e polticas tambm podem ser teis para    toricamente variveis das polticas sociais po-
privar os terroristas de uma base popular ou das   dem completar-se e complementar-se mutua-
possibilidades de manipulao das condies        mente. As explicaes com pensamento ideo-
                                                   lgico podem oferecer enunciados conflitantes.
que geram a VIOLNCIA.
                                                   As prprias abordagens podem ser agrupadas
    Em resposta ao terrorismo internacional, os    de diferentes modos.
governos tm se mostrado espontaneamente
propensos, desde longa data, a assumir uma         Abordagens pragmticas
posio aparentemente firme aos olhos da opi-
                                                       A poltica social pode ser concebida como
nio pblica internacional, mas tbia nos bas-     um campo de ao que consiste em instituies
tidores. Em anos recentes desenvolveu-se con-      e atividades que afetam positivamente o bem-
sidervel esforo no sentido de reforar a co-     estar dos indivduos. O mbito da ao  usual-
operao internacional, e alguns pases (sobre-    mente limitado a servios de bem-estar publi-
tudo Estados Unidos e Gr-Bretanha) tm pres-      camente fornecidos, isto ,  interveno do
sionado seriamente os governos acusados de         estado no domnio da distribuio ou redis-
encorajar e at mesmo praticar o terrorismo.       tribuio. De acordo com T.H. Marshall, por
    O terrorismo desencadeia-se esporadica-        exemplo, a poltica social  "a poltica de go-
mente e o prprio evento pode precipitar uma       vernos relativa  ao que tem um impacto
crise geral em um pas. Se isso ocorre, uma        direto no bem-estar dos cidados ao dot-los de
variedade de atores -- autoridades polticas,      servios ou renda" (Marshall, 1967, p.6). Inclui
funcionrios da justia e polcia, mas tambm      em geral o "fornecimento pelo estado de segu-
partidos polticos, opinio pblica e mdia --    ridade social, moradia, sade, servios sociais
afetada. Suas complexas interaes so deter-      pessoais e educao" (Walker, 1984, p.15). A
minadas, sobretudo, pela capacidade do gover-      esses setores, considerados o mago da poltica
no de controlar a situao. Quanto menos o         social, alguns outros acrescentam os servios de
governo consegue fazer, mais a mdia amplia o      emprego e outros ainda o tratamento do crime.
evento, mais autnoma a polcia se torna, mais     Equiparar a poltica social com a diviso admi-
rgida e tomada de pnico se mostra a opinio      nistrativa formal dos servios do estado  a
pblica, e cada vez menos compatveis so as       tradio predominante na administrao social
                                                                                poltica social   587


britnica, freqentemente qualificada como a        dos problemas sociais e nas respostas que lhes
"definio de compndio" de poltica social.        foram dadas. Podem ser assim identificadas as
    A abordagem descritiva pode ser til na         diferentes etapas da evoluo da poltica social.
anlise do funcionamento de uma lgica admi-
nistrativa e pode promover a anlise em profun-     Perodos histricos
didade de vrias instituies. Entretanto  pos-        A poltica social das sociedades pr-capita-
svel critic-la em muitos terrenos, como subli-    listas no tem sido sistematicamente estudada,
nharam Titmuss (1958) e Townsend (1975).            mas existem muitas anlises teis das diferentes
Assim,  modelada pela tradio e, portanto,        instituies de assistncia social, como a Igreja
insensvel a novos desenvolvimentos (como,          Catlica (ver Troeltsch, 1912) ou instituies
por exemplo, a crescente importncia de servi-      feudais (ver Bloch, 1940) ou de tratamento da
os jurdicos gratuitos). No revela o seu pr-     pobreza em geral (Mollat, 1978). Um quadro de
prio fundamento lgico subjacente. No expli-       referncia terico para uma possvel tipologia 
ca, por exemplo, por que deixa de fora a inter-     oferecida pelos "padres de integrao" de Karl
veno indireta do estado na distribuio de        Polnyi (1944), os quais nos ajudam a com-
recursos por meio da poltica fiscal, ou por que    preender o acesso  satisfao de necessidades
se concentra no bem-estar individual, deixando      em sociedades primitivas em funo de recipro-
de fora todas as atividades centrais ou locais no   cidade, ou redistribuio ou produo para o
estado que afetam a qualidade de vida das co-       prprio uso de cada um.
munidades, como todos os servios comunit-             H mais concordncia sobre as etapas de
rios, desde a construo de estradas at o forne-   desenvolvimento depois do advento da socie-
cimento de gua ou, mais recentemente, a pol-      dade de mercado. De um modo geral, concor-
tica ambiental. No esclarece por que ignora        da-se em que o estado passou a intervir depois
todos os esforos no-estatais para influir no      da desintegrao das redes feudais e locais, e
bem-estar dos cidados ou de suas comuni-           que a sua interveno serviu simultaneamente
dades, desde o bem-estar ocupacional at as         a fins de policiamento e de ajuda, "dissuaso e
atividades de agncias voluntrias.                 terapia" (Pinker, 1971). Nesse primeiro pero-
                                                    do, a ao estatal concentrou-se unicamente nos
A abordagem funcionalista                           pobres e se manteve fragmentria, marginal e,
    Os proponentes desta abordagem concen-          com muita freqncia, desumana. Essa poltica
tram-se nos problemas que, em qualquer mo-          da POBREZA foi, de modo geral, predominante
mento dado, tm perturbado a reproduo regu-       at meados do sculo XIX.
lar de sistemas sociais, sobretudo depois do            A rpida industrializao acarretou o surgi-
advento do capitalismo. Segundo George e Wil-       mento da classe trabalhadora, e seus movimen-
ding (1976, p.7), "mudanas no sistema indus-       tos polticos e sociais pressionaram o estado
trial perturbam o equilbrio existente entre as     para que agisse contra novas formas de misria
vrias partes do sistema social e econmico, da    e infelicidade e novas incertezas. Alm disso, o
resultando que medidas de poltica social se        funcionamento aceitvel do novo sistema tor-
tornam necessrias para restabelecer a estabili-    nou necessrio, pelo menos, algum nvel de
dade e o equilbrio". O defeito nessa abordagem     sade pblica, educao pblica, moradia p-
 a suposio subjacente de que o estado normal     blica etc. A mais importante instituio de bem-
de coisas  o equilbrio social, e que a ins-       estar criada nesse perodo foi -- com toda
tabilidade e os desequilbrios so sinais de de-    probabilidade -- o seguro social ou seguridade
sorganizao e desvio sociais (ibid.).  til, no   social. Os dispositivos de poltica social propa-
entanto, na medida em que v a poltica social      garam-se consideravelmente, dando cobertura
como um elemento sistmico que opera no             na maioria dos pases europeus a uma percen-
contexto da reproduo social e econmica, e        tagem entre um tero e metade de toda a popu-
em que prova que todas as sociedades tiveram        lao.
"problemas sociais" e, por conseguinte, pos-            A Segunda Guerra Mundial criou uma Eu-
suram todas alguma espcie de poltica social.     ropa dividida. O ESTADO DE BEM-ESTAR desenvol-
Alm disso, a nfase na mudana favorece a          veu-se nas economias de mercado ocidentais,
anlise da poltica social em perspectiva his-      graas ao efeito de certo nmero de fatores. A
trica, identificando as variaes na natureza      guerra forjou novas solidariedades. O desafio
588   poltica social


do bloco socialista no Leste deflagrou a com-       Construes ideolgicas e tericas
petio no campo do bem-estar. Os partidos              Existem profundas divises na percepo do
socialistas ou trabalhistas aumentaram sua in-      papel da poltica social que so formadas por
fluncia na poltica, por vezes como maioria        valores e ideologias conflitantes. George e Wil-
parlamentar. E, da maior importncia, as eco-       ding (1976) distinguem os "anticoletivistas",
nomias passaram por um perodo de crescimen-        que rejeitam toda a interferncia no mercado em
to econmico sem precedente durante os "glo-        nome da liberdade e da eficincia; os "coleti-
riosos 30 anos" entre o fim da guerra e o pri-      vistas relutantes", que se apercebem da im-
meiro choque do petrleo. O estado de bem-es-       possibilidade de um mercado auto-regulador e
tar transformou muitos dos anteriores disposi-      aceitam alguma interveno estatal na reduo
tivos assistenciais de natureza seletiva ou cor-    das principais injustias e ineficincias; os so-
porativa em servios universais. Sistemas de        cialistas (fabianos) que esto comprometidos
sade pblica e redes de educao pblica subs-     com os trs valores socialistas centrais -- igual-
tituram amplamente as solues de mercado ou       dade, liberdade e solidariedade -- e atribuem
de comprovao de carncia de meios de sus-         um papel positivo ao estado na otimizao de
tento. As sociedades aceitaram em grande esca-      sua ao recproca de um modo democrtico e
la o "direito  existncia", ou seja, o direito     gradual; e alguns marxistas que participam dos
vivel a um mnimo social. Em meados da             valores socialistas, mas rejeitam a possibilidade
dcada de 70 os pases do Ocidente indus-           de uma reforma pacfica da sociedade.
trializados gastaram de 15 a 30% de seu Produto         De outra perspectiva, h a distino feita por
Interno Bruto em bem-estar social estatal           Wilensky e Lebeaux entre "duas concepes do
(OCDE, 1988). A partir da crise do petrleo,        bem-estar social(...) a residual e a institucional.
registrou-se uma diferenciao entre os pases      A primeira sustenta que as instituies de bem-
ocidentais. Em alguns deles, a crise de legitimi-   estar social s deveriam intervir ante a falncia
dade do bem-estar tornou-se aguda e o neolibe-      das estruturas normais de oferta. A segunda, em
ralismo se converteu na ideologia dominante.        contraste, considera os servios de bem-estar
Em outros, as novas ideologias ainda no acar-      funes normais, de `primeira linha' da moder-
retaram qualquer mudana significativa. Em          na sociedade industrial" (1965, p.138).
apenas alguns deles, a idia de uma "sociedade          Um dos importantes debates interessa-se pe-
do bem-estar" desenvolveu-se caracterizada          la relao entre a poltica social e a economia.
por uma combinao de descentralizao, par-        A poltica social pode ser diferenciada da eco-
ticipao, "pluralismo de bem-estar" (Johnson,      nomia ou estar mais ou menos integrada com
1987) e compromisso do estado com as medi-          ela (Mishra, 1981). Em outro enfoque, o inte-
das de bem-estar (Wiman, 1987).                     resse econmico pode dominar o interesse so-
                                                    cial; ou pode adquirir, de forma geral, uma
    Nos pases socialistas da Europa Oriental, a
                                                    posio de igualdade se houver suficiente apoio
poltica social foi largamente inserida no fun-
                                                    social para limitar a extenso do mercado ou os
cionamento da economia por meio do pleno            interesses no lucro. O predomnio do interesse
emprego formal, dos preos subsidiados etc. Os      social sobre a economia tem se mantido at hoje
dispositivos sociais tambm foram a conside-       apenas como possibilidade terica, pressupon-
ravelmente expandidos, se bem que, na maioria       do a substituio da racionalidade econmica
dos pases, com a defasagem que sempre existiu      formal por uma economia guiada pelos mais
entre as promessas ideolgicas e a realidade.       elevados valores humanos, ou economia subs-
Com o colapso do socialismo, ficou evidente         tantiva, preocupada essencialmente com a sa-
que as prticas totalitrias retiraram ao sistema   tisfao de necessidades (Polnyi, 1944: Four-
toda a legitimidade e praticamente anularam         nier e Questiaux, 1979).
todas as suas realizaes. Novas solues tm
de ser agora encontradas. Um importante ele-        Abordagens estruturais
mento das mudanas esperadas  a emancipa-             As abordagens pragmtica e funcionalista
o das polticas econmica e social do domnio     no tm considerado, em grande parte, os pro-
da poltica, e a criao de uma esfera autnoma     cessos sociais que deflagram as mudanas na
de poltica social a par de um mercado autno-      poltica social. As tenses e os conflitos sociais
mo.                                                 sempre desempenharam importante papel nos
                                                                                       populao    589


processos de definio das necessidades a se-           para um endgeno, nos sistemas de pensamento
rem cobertas por procedimentos alheios ao               social, caracteriza a maioria dos novos insights
mercado e, em especial, na enfatizao da im-           relacionados com a populao neste sculo. As
portncia de que se reserva  reduo das desi-         influncias sociais na populao e as influn-
gualdades sociais. Em conseqncia dessas lu-           cias demogrficas na sociedade (ver tambm
tas, a caridade foi transformada em direitos. A         DEMOGRAFIA) repartem-se entre trs subcate-
existncia de direitos civis e polticos ajudou a       gorias gerais, concentradas em nascimentos,
formular os "direitos sociais", os direitos a ren-      mortes e MIGRAO.
das, habitao, sade e cultura decentes (Mars-
hall, 1965). Os direitos sociais relacionam-se          Influncias sociais sobre a populao
com as necessidades dos consumidores e po-                  As foras sociais que formam as taxas de
dem ser satisfeitos pela interveno na esfera da       mortalidade constituem a mais antiga dimenso
distribuio. Os "direitos econmicos" expres-          do pensamento social sobre determinantes po-
sam as necessidades dos produtores no s de            pulacionais, datando da obra de John Graunt
um trabalho socialmente aceitvel, mas tam-             (1662), h mais de trs sculos. No sculo XX
bm de participar na vida econmica no nvel            essa herana terica foi ampliada e aplicada a
da firma (a chamada democracia industrial) ou           uma gama cada vez mais ampla de tendncias
no nvel macro (democracia econmica). Mas              e diferenciais especficos de mortalidade. A
essa extenso do campo de elementos no-mer-            teoria da transio epidemiolgica (Omran,
cadolgicos na poltica social de reproduo            1971) ilustra essa integrao da mortalidade em
social e econmica  convertida em poltica             uma perspectiva terica social. Prossegue tam-
societal ou estrutural (Ferge, 1979). Todas essas       bm a busca de um entendimento mais claro das
lutas podem ser vistas como tendo por objetivo          razes sociais dos diferenciais de mortalidade
a descomodificao (decommodification ) das             entre sexos, raas, grupos profissionais,
necessidades (Esping-Anderson, 1985).                   denominaes religiosas, residentes urbanos e
    A poltica social descrita em termos estrutu-       rurais, regies geogrficas dentro de naes, e
rais significa que: "As polticas sociais so as        diferentes naes do mundo.
que determinam a distribuio de recursos, sta-             O sculo XX mudou fundamentalmente o
tus e poder entre diferentes grupos" (Walker,           lugar da migrao humana no pensamento so-
1984, p.39). A natureza dual e contraditria da         cial, no tanto a partir de novos insights ou
poltica social tambm se torna evidente se             debates tericos quanto de mudanas no pr-
forem levadas em conta as foras estruturais: "a        prio fenmeno demogrfico. O incio do sculo
poltica social  no s um dos meios da ordem          XX separa mais ou menos as eras de migrao
social vigente.  tambm o locus onde tenses           livre e controlada. Fronteiras fechadas, con-
e injustias relacionadas com essa ordem so            troladas por uma multiplicidade de estados-
reveladas da maneira mais evidente" (Jobert,            naes, reduzem o volume de migrao e mu-
1981).                                                  dam o seu carter para um pinga-pinga de dois
    Ver tambm PLANEJAMENTO SOCIAL.                     extremos: refugiados e mo-de-obra qualifica-
                                                        da. Essa mudana refora a direo caracters-
Leitura sugerida: Beveridge, W.H. 1942: Social Insu-
rance and Allied Services. Cmnd 6404  Evers, A. e
                                                        tica do pensamento social no sculo XX no que
Wintersberger, H. 1988: Shifts in the Welfare Mix       diz respeito  populao, enfatizando o controle
 George, V., e Wilding, P. 1984: The Impact of Social   da sociedade sobre os fluxos migratrios.
Policy  Greffe, X. 1975: La politique du social             O entendimento socialmente baseado da re-
 Klein, R. e O'Higgins, M. 1985: The Future of Wel-     produo , sem dvida, a maior mudana e
fare  Miller, S.M. e Riessman, F. 1968: Social Class    contribuio para as teorias da populao no
and Social Policy  Piven, F.F. e Cloward, R.A. 1971:
Regulating the Poor  Rein, M. 1979: Social Policy       sculo XX. Para Thomas Malthus (1798), assim
 Rimlinger, G.V. 1971: Welfare Policy and Industria-    como para Johann Sssmilch (1761-62) antes
lization in Europe, America and Russia  Titmuss,        dele e para Karl Marx (1867) depois, a fertili-
R.M. 1968: Commitment to Welfare.                       dade humana era um fato da natureza. As conse-
                                     ZSUZSA FERGE       qncias de um contnuo caudal de bebs po-
                                                        diam ser louvadas ou lamentadas, mas o caudal
populao A transformao da questo dos                em si flua de um inconteste manancial situado
nmeros humanos de um elemento exgeno                  em algum ponto para alm do domnio das
590   populao


interaes sociais. Kingsley Davis e Judith        lhecimento demogrfico devido a baixas taxas
Blake (1956) forneceram a mais sucinta reviso     de natalidade. Alguns estudiosos temem uma
dessa deficincia no pensamento social feita no    possvel ausncia de flexibilidade (seja em ter-
sculo XX. As altas taxas de natalidade, assim     mos de idias, de mobilidade de mo-de-obra
como as baixas, devem ser agora explicadas         ou outros) em sociedades em processo de enve-
como resultados sociais, como produtos de di-      lhecimento (ver tambm SENECTUDE), e consi-
ferentes constelaes de foras sociais.           deram as baixas taxas de natalidade e o enve-
                                                   lhecimento da populao problemas sociais que
Influncias demogrficas sobre a sociedade         necessitam de remdios.
    As conseqncias das baixas taxas de mor-
talidade (sobretudo as taxas de mortalidade in-    A populao como ameaa ou patrimnio?
fantil) figuram de maneira proeminente no pen-         Em todas as suas manifestaes, a popula-
samento social do sculo XX. Philippe Aris        o continua figurando no pensamento social
(1960, 1962 ) atribuiu assim um papel crucial      em duas interpretaes contrastantes. Um pon-
ao declnio da mortalidade na transformao da     to de vista sustenta, com Jean Bodin, que "s
instituio da famlia. O declnio da mortali-     nos homens existe riqueza e fora", e defende
dade em conjunto com a fertilidade inalterada      o crescimento populacional como um meio para
gera um rpido crescimento populacional e uma      vrios fins que se congregam sob a designao
estrutura etria mais jovem. Esses dois resulta-   geral de progresso. O outro ponto de vista sus-
dos assumem lugar de destaque nas teorias da       tenta, com Malthus, que o crescimento popula-
modernizao, da mudana social e da estabili-     cional constitui um obstculo ao progresso, pro-
dade das sociedades.                               vocando dificuldades que "devem necessaria-
    A migrao e os migrantes figuram no pen-      mente ser sentidas com severidade por vasta
samento social do sculo XX em duas interpre-      parcela da humanidade". Ambas as abordagens
taes muito diferentes. Robert Park (1928)        tratam a populao (seu tamanho, disperso ou
considerou a posio social marginal dos mi-       concentrao, estrutura etria etc.), no como
grantes como uma fonte de inovaes poten-         um fim em si, mas um parmetro a ser manipu-
ciais, de transformao e progresso nas socie-     lado com vistas a outras metas. Em certa medi-
dades. Outros scholars levam mais adiante essa     da, essas duas concepes de populao tam-
viso basicamente positiva dos migrantes como      bm refletem a distino clssica do filsofo
catalisadores de transformao societal. Por ou-   francs Auguste Comte entre esttica social e
tro lado, Oscar Handlin (1951) e outros apre-      dinmica social.
sentam um quadro de migrantes e migrao               A opinio de que o progresso  mais bem
como fontes de desorganizao social, desvio,      servido restringindo-se a populao ganhou po-
anomia, crime e doena mental. Ambas as tra-       pularidade em todo o mundo durante o sculo
dies sublinham o papel marginal dos mi-          XX. Esse elemento restritivo no pensamento
grantes, mas traam concluses diferentes so-      social refere-se principalmente aos aspectos di-
bre o impacto dessa marginalidade sobre a so-      nmicos da populao, ao sustentar que taxas
ciedade como um todo e sobre os prprios           elevadas de crescimento populacional geram
migrantes.                                         numerosos problemas.
    Para grande parte do mundo, o crescimento          O outro ponto de vista sublinha as vantagens
populacional devido s taxas de natalidade con-    de uma populao numerosa, como maior divi-
tinuamente elevadas e s taxas declinantes de      so de trabalho, mercados econmicos mais
mortalidade cria um srio problema social. As      vastos ou at maior potencial humano para fins
teorias sociais enfatizam geralmente os resulta-   militares. Essa viso esttica da populao no
dos positivos esperados de taxas de natalidade     est usualmente interessada nos papis que cul-
mais baixas: menor consumo por jovens depen-       minam em grandes agregaes de pessoas, mas
dentes, menos dependentes por adulto produti-      o crescimento populacional tambm foi pos-
vo, menos restrio s atividades das mulheres     tulado por alguns tericos do sculo XX como
e crescimento populacional mais lento. Para        um motor de transformao social (Boserup,
alm dessa perspectiva predominante, contudo,      1965; Clark, 1968).
outro debate terico de longa data diz respeito        O equilbrio entre essas duas orientaes em
s conseqncias para a sociedade do enve-         face da populao depende da posio de cada
                                                                                         populismo    591


um na sociedade e da estrutura dessa sociedade.           tgio de desenvolvimento usualmente encon-
Os governantes absolutos e as elites dominan-             trado na Amrica Latina. Na sia e na frica,
tes, isolados de suas populaes sditas, res-            o populismo como forma de organizao pol-
saltam mais freqentemente os aspectos positi-            tica livre e competitiva  menos comum que na
vos dos grandes contingentes populacionais e              Amrica Latina, embora alguns traos sejam
ignoram os custos sociais do rpido crescimen-            encontrados em um regime nacional popular
to populacional. Na medida em que tais elites             (ver NACIONAL POPULAR, REGIME).
isoladas so substitudas por estruturas sociais              A revoluo mexicana, iniciada em 1910, foi
mais abertas, pluralistas ou democrticas, o              um dos primeiros exemplos de rebelio com
pensamento social passa a dar maior ateno               extensa massa de seguidores e apoio de vrias
aos custos do crescimento populacional e me-              classes, acompanhada por uma ideologia ecl-
nor apoio  maximizao das quantidades de                tica que inclua elementos de liberalismo, na-
pessoas. Esse deslocamento do equilbrio for-             cionalismo e socialismo. O Partido Aprista pe-
nece uma chave para a compreenso de boa                  ruano, fundado por Victor Ral Haya de la Torre
parte da retrica cambiante a respeito de popu-           no exlio em 1924, foi parcialmente inspirado
lao no sculo XX.                                       pela experincia mexicana e  usualmente con-
                                                          siderado um dos principais exemplos de popu-
Leitura sugerida: Aris, P. 1960: Histoire sociale de
l'enfant et de la famille  Boserup, Ester 1965: The       lismo. Em oposio a Lenin, Haya argumentou
Conditions of Agricultural Growth  Davis, Kingsley e      que, em pases tipicamente do Terceiro Mundo,
Blake, Judith 1956: "Social Structure and fertility: an   o imperialismo  o primeiro e no o ltimo
analytic framework". Economic Development and Cul-        estgio do capitalismo; por conseguinte, uma
tural Change 4, 211-3  Handlin, Oscar 1951: The           estratgia peculiar tem que ser usada a fim de
Uprooted  Malthus, Thomas 1798 (1970): An Essay on        utilizar as potencialidades econmicas deste, ao
the Principle of Population  Omran, A. 1971: "The
epidemiologic transition: a theory of the epidemiology    mesmo tempo em que se impedem as suas
of population change". Milbank Memorial Fund Quar-        tentativas de dominao poltica. Props-se
terly 49, 509-38  Park, Robert 1928: "Human migra-        uma aliana explcita entre as classes mdias, o
tion and the marginal man". American Journal of So-       campesinato e os trabalhadores manuais, em
ciology 33, 881-93  Sssmilch, Johann 1761-2: Die         contradio, uma vez mais, com a frmula mar-
gttlich Ordnung in den Vernderungen des mensch-         xista para os pases desenvolvidos, que enfati-
lichen Geschlechts aus der Geburt, dem Tode, und der
Fortpflanzung desselben Erwiesen, 2ed.
                                                          zava o papel do protelariado urbano. O ramo
                                                          peruano do que se esperava que fosse uma
                                  ELWOOD CARLSON
                                                          Internacional Latino-Americana foi fundado
                                                          em 1930 e no tardou a adquirir um importante
populismo Os movimentos polticos com al-
                                                          contingente de seguidores entre sindicalistas e
ta capacidade de obter apoio popular, mas sem
                                                          comunidades indgenas, embora sua espinha
os traos tpicos do socialismo europeu, rece-
                                                          dorsal fosse formada pelas empobrecidas clas-
beram o nome de populistas, especialmente na
                                                          ses mdias provincianas. Depois das tentativas
Amrica Latina durante o sculo XX. O que
                                                          de violenta derrubada dos regimes autoritrios
eles tm em comum  o seguinte:
                                                          -- freqentemente militaristas -- em vrios
    1. a presena de uma massa socialmente                pases, o "aprismo" tornou-se mais moderado
       mobilizada com pouca ou nenhuma or-                depois da Segunda Guerra Mundial e em 1985
       ganizao autnoma de classe;                      alcanou a presidncia no Peru. Outros partidos
    2. uma liderana predominantemente ori-               com caractersticas similares ao aprismo so a
       unda de setores da classe alta ou mdia; e         Accin Democrtica da Venezuela, a Libera-
    3. um tipo carismtico de ligao entre l-           cin Nacional da Costa Rica, o Revolucionario
       deres e adeptos.                                   Dominicano da Repblica Dominica e, um pou-
    As alteraes demogrficas resultantes da             co mais distante, o Movimiento Nacionalista
rpida expanso urbana, adiantando-se com                 Revolucionario da Bolvia.
folga ao crescimento industrial, e os efeitos da              No Brasil, em 1930, um movimento civil-
"revoluo das expectativas crescentes", coli-            militar levou Getlio Vargas ao poder, onde
dindo com a mentalidade das elites, fizeram               permaneceu durante 15 anos. Tinha sido um
com que esse tipo de expresso poltica se                governador pragmtico de um dos estados do
tornasse altamente provvel em pases no es-              regime anterior, eminentemente federativo, e
592   ps-industrial, sociedade


pragmtico continuou. Obteve o apoio de um             No Chile, o movimento da classe traba-
importante grupo de jovens oficiais conhecidos     lhadora provou ser razoavelmente imune ao
como "os tenentes", empenhados em reformas,        populismo. Desde os seus primeiros dias, orga-
com uma mistura de convices ideolgicas          nizou-se em partidos marxistas, baseados na
que iam do liberalismo ao nacionalismo e ver-      atividade da militncia e com pouca ou ne-
ses locais do fascismo, considerado um regime     nhuma burocracia. A esquerda no Chile , pois,
desenvolvimentista adequado para pases em         claramente associacionista em vez de mobiliza-
processo de transio de uma sociedade predo-      cionista, mas em outros pases latino-america-
minantemente rural para uma sociedade urbana       nos o socialismo, sobretudo o de credo leninis-
e industrial. Vargas governou o pas com mo       ta, pode assumir tambm formas populistas,
de ferro, promulgando em 1937 uma cons-            como em Cuba sob o comando de Fidel Castro.
tituio inspirada no CORPORATIVISMO de Mus-           Em alguns pases da rea, o populismo tem
solini. Nos anos finais da Segunda Guerra Mun-     perdido considervel parcela de sua ascendn-
dial o Brasil conheceu um importante avano        cia sobre a classe trabalhadora, permitindo que
em sua industrializao e Vargas aproveitou a      uma esquerda marxista cresa em seus flancos.
oportunidade para apelar  massa de novos          Por outro lado, com a aculturao em modos de
participantes da fora de trabalho urbana, ini-    vida urbanos e industriais, padres sociais-demo-
ciando a fase populista de seu governo. Isso       crticos de organizao e ideologia tendem a se
redundou em uma reao conservadora-militar        desenvolver no seio dos partidos populistas.
contra ele, em 1945, mas depois de cinco anos      Leitura sugerida: Di Tella, Torquato S. 1989: Latin
Vargas retornou ao poder em eleies livres.       American Politics: a Theoretical Approach  Germani,
Com Vargas, os sindicatos obtiveram legislao     Gino 1978: Authoritarianism, Fascism and National
favorvel e apoio do estado, embora  custa do     Populism  Ionescu, Ghita e Gellner, Ernest, orgs.
                                                   1969: Populism: its Meaning and National Charac-
controle administrativo e de se verem submeti-     teristics  Laclau, Ernesto 1977 (1979): Poltica e ideo-
dos a uma liderana corrupta.                      logia na teoria marxista  Murmis, Miguel e Portantie-
    Na Argentina, o populismo expressa-se no       ro, Juan Carlos 1971: Estudios sobre los orgenes del
peronismo, um movimento poltico lanado pe-       peronismo  Weffort, Francisco 1978: O populismo na
lo ento coronel Juan D. Pern, enquanto minis-    poltica brasileira.
tro do Trabalho no regime militar nacionalista                                    TORCUATO S. DI TELLA
de 1943-46. Teve xito em forjar uma aliana
entre militares, alguns setores industriais e as   ps-industrial, sociedade Ver              SOCIEDADE
classes populares, entre as quais grandes con-     PS-INDUSTRIAL.
tingentes de novos migrantes do interior rural     positivismo De um modo muito parecido
que tinham chegado s grandes cidades, embo-       com o conceito de ideologia, que tambm co-
ra obtivesse tambm a adeso de alguns antigos     meou tendo amplo curso e aceitao mais ou
lderes sindicais. O peronismo combinou ele-       menos no mesmo perodo, a noo de positivis-
mentos ideolgicos da intelligentsia catlica e    mo vangloria-se de uma controversa e irnica
da direita nacionalista, incluindo alguns com      trajetria. Originando-se como autodesignao
simpatias claramente fascistas, em conjunto        positiva nos escritos de Auguste Comte, ofere-
com elementos socialistas pragmticos ou           cido como uma "filosofia para acabar com to-
tradicionais, e alguns polticos centristas        das as filosofias" pelo crculo de Viena (ver
oriundos do Partido Radical. O movimento           VIENA, CRCULO DE) e equiparada  cincia tout
passou por um perodo de radicalizao e           court pelos defensores do FUNCIONALISMO e do
violncia na dcada de 70, gerando em seu          COMPORTAMENTALISMO nos Estados Unidos do
prprio seio uma formao guerrilheira, os         ps-guerra, o positivismo tornou-se um termo
Montoneros, finalmente expulsos em 1974.           de acusao polmica, quando no insultuoso,
Em 1989, depois de muitos anos de mudanas         na cincia social contempornea -- muito pou-
internas e de democratizao, o peronismo          cos sociolgos reivindicariam ou acolheriam
recuperou-se do impacto causado pela morte         com agrado o rtulo de positivistas. E, tal como
de seu lder e chegou  presidncia, com um        a ideologia, assumiu uma multiplicidade de
programa de reforma moderada e respeito s         significados, de modo que existem quase tantas
liberdades civis.                                  definies de positivismo quantas as crticas de
                                                                                    positivismo    593


que  alvo; Halfpenny (1982), por exemplo,           das causas ltimas dos fatos  abandonada em
distingue nada menos que 12 subespcies. A           favor do estabelecimento de suas "leis", ou seja,
disperso e a inverso da carga semntica da         as "relaes invariveis de sucesso e seme-
palavra so indicativas das mudanas que trans-      lhana" que os ligam. Comte criou o termo
formaram a FILOSOFIA DA CINCIA desde a dcada       "sociologia" para designar a cincia que sinte-
de 60 e desafiaram a longa hegemonia do posi-        tizaria todo o conhecimento possvel, desven-
tivismo na investigao social ao suscitar uma       daria os mistrios da esttica e da dinmica da
vez mais a questo do "dualismo das cincias         sociedade, e orientaria a formao do governo
naturais e culturais" (Habermas, 1967).              positivo.
    Em seu mais amplo sentido filosfico, o              Durkheim abandonou a substncia da filo-
positivismo refere-se  teoria do conhecimento       sofia de Comte, mas reteve o seu mtodo, insis-
proposta por Francis Bacon, John Locke e Isaac       tindo na continuidade lgica entre as cincias
Newton, a qual afirma a primazia da observao       sociais e naturais e na aplicao  sociedade do
e a busca da explicao causal por meio da           princpio de causalidade natural. "O nosso prin-
generalizao indutiva (Kolakowski, 1966).           cipal objetivo", escreveu ele em Les rgles de
Nas cincias sociais, ficou associado a trs prin-   la mthode sociologique (Durkheim, 1895), seu
cpios afins: o princpio ontolgico do fenome-      manifesto revolucionrio em prol da explicao
nalismo, de acordo com o qual o conhecimento         sociolgica cientfica, " estender o racionalis-
s pode fundamentar-se na experincia (beiran-       mo cientfico  conduta humana(...). Aquilo a
do a fetichizao dos "fatos" como imediata-         que chamam o nosso positivismo nada mais 
mente acessveis  percepo sensorial); o prin-     que uma conseqncia desse racionalismo."
cpio metodolgico da unidade do mtodo cien-        Para estabelecer a independncia definitiva da
tfico, o qual proclama que os procedimentos da      sociologia de toda a filosofia e, assim, a sua
cincia natural so diretamente aplicveis ao        autonomia como campo cientfico distinto,
mundo social com o objetivo de estabelecer leis      Durkheim props uma concepo da sociedade
invariantes ou generalizaes semelhantes a          como uma realidade objetiva sui generis cujos
leis sobre fenmenos sociais; e o princpo axio-     componentes, estrutura e funcionamento, obe-
lgico da neutralidade, que se recusa a conce-       decem a regularidades que se impem aos in-
der aos enunciados normativos o status de            divduos como "necessidades inelutveis", in-
conhecimento e mantm uma rgida separao           dependentes de sua volio e conscincia. Tam-
entre fatos e valores.                               bm props um conjunto de princpios metodo-
    Trs amplas tradies sucessivas do posi-        lgicos condensados na famosa recomendao
tivismo podem ser esquematicamente distin-           de "tratar os fatos sociais como coisas": rejeitar
guidas: a francesa, a alem e a americana. A         as preconcepes comuns em favor de defi-
linhagem francesa origina-se com Auguste             nies objetivas, explicar um fato social so-
Comte e o seu mentor Saint-Simon (que, por           mente por outro fato social, distinguir a causa
sua vez, era devedor de Condorcet), e est           eficiente da funo e os estados sociais normais
exemplificada, da melhor maneira, pela socio-        dos patolgicos etc. Esses princpios foram
logia de mile Durkheim. A ambio de Comte          convincentemente ilustrados em Le suicide,
era fundar uma cincia naturalista da sociedade      modelo inegvel do positivismo francs, no
capaz de explicar o passado da espcie humana        qual Durkheim (1897) se absteve de analisar o
e predizer o seu futuro aplicando os mesmos          significado do suicdio em favor da revelao
mtodos de investigao que tinham provado           de seus tipos e causas sociais via uma anlise
ser to bem-sucedidos no estudo da natureza, a       estatstica dos correlatos e variaes de seu
saber, observao, experimentao e compa-           grupo.
rao. No seu Cours de philosophie positive              A tradio germano-austraca de positivis-
(Comte, 6 vols., 1830-42), ele sustentou que o       mo encontra suas razes no METHODENSTREIT
esprito humano tinha evoludo atravs de trs       ("conflito sobre mtodo"), o qual envolveu eco-
fases necessrias. Na fase "teolgica ou fict-      nomistas neoclssicos e histricos e filsofos
cia", os fenmenos so explicados pela inter-        neokantianos desde a dcada de 1880 em torno
veno de entidades sobrenaturais; na fase "me-      da questo de apurar se a vida social  passvel
tafsica ou abstrata", mediante referncia a abs-    de explicao causal ou apenas de entendi-
traes; na fase "cientfica ou positiva", a busca   mento interpretativo, como na filosofia da VER-
594   positivismo


STEHEN. O grupo de filsofos, matemticos e           dida em que os instrumentos de investigao
cientistas analticos (entre eles, Moritz Schlick,    determinam as questes formuladas, a defini-
Ernest Mach, Rudolf Carnap, Carl Hempel e             o de conceitos (atravs da construo de in-
Otto Neurath) que se tornou conhecido como o          dicadores empricos) e, assim, o conhecimento
Crculo de Viena nos anos de 1923-36 tomou o          produzido, com a testabilidade, a replicabili-
partido da explicao e unidade da cincia. Sua       dade e a viabilidade tcnica suplantando a teoria
finalidade era efetuar uma sntese de empirismo       como guias idneos da prtica e da avaliao
humano, positivismo comteano e anlise lgica         cientficas.
que livrasse para sempre a filosofia das ocas             O positivismo instrumental foi inicialmente
especulaes da metafsica ao fundamentar fir-        articulado por George Lundberg, que adaptou
memente todo o conhecimento na experincia            da fsica a doutrina de "operacionalismo" de
(Ayer, 1959). De acordo com esse positivismo          P.W. Bridgman (a qual sustenta que o significa-
lgico, o conhecimento cientfico assenta em          do de uma varivel  definido pelas operaes
uma slida base de fatos formulada por meio de        necessrias para medi-la), e por William F. Og-
"sentenas protocolares" (Mach) que fornecem          burn (1930), que equiparou a sociologia cient-
um registro genuno porque imediato da expe-          fica  verificao e acumulao quantitativas de
rincia sensorial, ou elaborada atravs de "re-       "pequenos fragmentos e peas de novo co-
gras de correspondncia" (Carnap), formando           nhecimento" e orgulhosamente vaticinou que
uma ponte entre a linguagem terica e a lingua-       todos os socilogos seriam um dia estatsticos.
gem da observao.  parte as proposies             Mas coube a um scholar vienense no exlio,
analticas da lgica, os nicos enunciados signi-     Paul Lazarsfeld, institucionalizar o positivismo
ficativos so os que podem estar sujeitos ao          na universidade americana. Lazarsfeld no s
"princpio de verificao", ou seja, ser compro-      introduziu na sociologia uma srie de inovaes
vados por observao. Em oposio frontal            metodolgicas (anlise multivariada, amostra-
idia de Geisteswissenschaften, pressuposta em        gem em bola de neve e anlise de estrutura
um cisma entre as cincias da natureza e as           latente, entre outras) e tcnicas adotadas da
culturais, o Crculo de Viena afirmou que a           pesquisa de mercado, como os estudos de pai-
explicao cientfica em sociologia ou histria       nel, mas inventou o veculo organizacional que
obedece  mesma "lei explanatria" ou modelo          promoveria a profissionalizao, burocratiza-
"dedutivo-nomolgico" que as cincias natu-           o e comercializao da pesquisa social posi-
rais (Hempel, 1965), em que um explanandum            tivista nos Estados Unidos e seus pases sat-
 deduzido de uma combinao de condies             lites: o "escritrio de pesquisa aplicada" (Pol-
iniciais e de uma lei e explicao universais         lack, 1979).
sinnimas de previso.                                    A ascenso e o domnio do positivismo en-
    Nos Estados Unidos, uma compreenso se-           frentaram crticas e oposio de duas espcies:
melhante da cincia social evoluiu para o que         a antipositivista e a ps-positivista. Os dis-
Bryant (1985) chama o positivismo instrumen-          sidentes antipositivistas sustentaram h muito
tal, tradio incrementalista, naturalista, da pes-   que as cincias naturais e humanas so ontol-
quisa social empenhada em atingir padres de          gicas e logicamente discrepantes e que a prpria
rigor comparveis aos da fsica ou biologia.          idia de uma cincia explicativa da sociedade 
Baseada em uma concepo nominalista e vo-            insustentvel (Winch, 1958). Os proponentes
luntarista da sociedade como mero agregado de         da HERMENUTICA e da sociologia "interpretati-
indivduos, essa tradio reinou absoluta desde       va" -- recentemente reforados pelos defen-
a dcada de 30 at a de 60, englobando uma            sores do ps-modernismo e da DESCONSTRUO
variedade de orientaes tericas, e continua         -- sustentam que descries causais do com-
impregnando a sociologia norte-americana.             portamento social no podem ser construdas
Distingue-se por sua preocupao com ques-            porque as prticas, instituies e crenas huma-
tes de mtodo e de mensurao, incluindo o           nas so inerentemente significativas, ou me-
refinamento de tcnicas estatsticas, a nfase na     lhor, constitudas pelos entendimentos que os
operacionalizao e na verificao (Zetterberg,       participantes tm delas (Taylor, 197). Portanto,
1954) e a prioridade que confere a projetos           a tarefa dos "estudos humanos" no pode ser a
experimentais, levantamentos quantitativos e          especificao de leis invariantes do comporta-
pesquisas por equipe.  "instrumental" na me-         mento humano, mas fazer com que esse com-
                                                                                  positivismo    595


portamento seja inteligvel mediante a sua in-     1982) ao demonstrarem que as teorias cientfi-
terpretao em relao com intenes subjeti-      cas no so construdas indutivamente nem tes-
vas. Para Gadamer (1960), alm disso, todas        tadas individualmente na base exclusiva da evi-
essas interpretaes envolvem uma projeo de      dncia fenomenal, pois se h coisa que no
preconceitos culturais baseados em uma rede        existe  a observao teoricamente neutra. Nem
ou "horizonte" de expectativas e suposies         o seu julgamento formulado estritamente em
constitutivas de uma tradio cultural. Segue-se   bases racionais, na medida em que teorias rivais
que a meta da sociologia interpretativa no        so sempre "escoradas" por dados e participam
pode se duplicar ou confirmar pesquisas pr-       geralmente de "paradigmas" ou amplos qua-
vias, mas rever preconceitos pela elucidao de    dros de referncia cientficos cujos critrios de
novas dimenses de um fenmeno.                    avaliao so incomensurveis (Giddens,
    As crticas feministas do positivismo que      1978). O REALISMO de Bhaskar (1975) tambm
proliferaram na dcada de 80 aderem a esse         repudia o fenomenalismo e o verificacionismo,
ataque, mas por uma razo diferente. Afirman-      diferenciando trs nveis de realidade (o real, o
do que a cincia  uma instituio afetada pelo    efetivo e o emprico) e afirmando a existncia
gnero que reflete o ponto de vista truncado e     de estruturas e mecanismos ocultos que podem
opressivo dos homens, as feministas evoluram      funcionar independentemente do nosso conhe-
de uma perspectiva reformista que procurava        cimento deles, mas cujos poderes e respon-
realizar a paridade de gneros no campo cient-    sabilidades so, no obstante, empiricamente
fico para uma postura revolucionria que visava    investigveis. O "racionalismo aplicado" de
proceder a uma reviso geral dos prprios ali-     Pierre Bourdieu -- resultante da importao
cerces da cincia a fim de erradicar o seu "an-    pela sociologia da epistemologia historicista de
drocentrismo" constitutivo (Harding, 1984).        A. Koyr, G. Bachelard e C. Canguilhem --
Essas crticas percorrem toda uma gama que vai
                                                   derruba tambm a estrutura epistemolgica do
do empirismo feminista (para o qual o sexismo
                                                   positivismo ao postular que os fatos cientficos
pode ser corrigido pela imposio mais rigorosa
                                                   so "conquistados, construdos e constatados"
dos ditames metodolgicos padronizados da
                                                   (Bourdieu et al., 1968) atravs da ruptura com
investigao cientfica) ao ponto de vista epis-
temolgico (o qual sustenta que a subjugao       o senso comum de leigos e eruditos, a aplicao
das mulheres as coloca em situao privilegiada    sistemtica de conceitos relacionais e o con-
para produzir o verdadeiro conhecimento) e ao      fronto metdico do modelo construdo com as
feminismo ps-moderno, que questiona as pr-       provas geradas por diferentes metodologias. A
prias noes de universalidade e razo que ser-    teoria crtica da ESCOLA DE FRANKFURT combina
vem de base  cincia. Para Sandra Harding, os     elementos das crticas antipositivista e ps-po-
princpios aceitos de imparcialidade, neutra-      sitivista na rejeio do CIENTIFICISMO (a idia de
lidade dos valores e objetividade so instru-      que somente a cincia produz conhecimento),
mentos de controle social que esto a servio      na fuso de explicao com previso por meio
dos homens em seu projeto de fazer da cincia      de leis universais e na dicotomizao de fatos e
uma prerrogativa masculina. A genuna objeti-      valores, ao mesmo tempo em que combate,
vidade, sustenta ela, no decorre da adeso       porm, o idealismo da hermenutica e se recusa
idia "patriarcal" da unidade do mtodo cient-    a abandonar as pretenses  VERDADE cientfica.
fico, mas de um compromisso com os "valores        Assim, Habermas (1968) afirma que, para no
participantes" do anti-racismo, do anticlassis-    se tornar cmplice da racionalidade que sus-
mo e do anti-sexismo. Portanto, no  a cincia,   tenta o positivismo e o converte em outro ins-
mas a discusso moral e poltica que fornece um    trumento ideolgico de dominao, a cincia
paradigma para a investigao racional.            social no pode ater-se a uma anlise das re-
    Em vez de o rejeitar abertamente, os ex-       laes causais externas. Sendo o universo social
poentes do ps-positivismo procuraram refor-       um mundo "pr-interpretado", cabe-lhes expli-
mar o entendimento recebido de cincia. Os         car tambm as relaes internas de significado
ataques de W.V.O. Quine, Karl Popper, Thomas       e propsito e, portanto, reconstruir o conceito
Kuhn, Paul Feyerabend e Imre Lakatos conver-       de objetividade legado pelas cincias naturais
giram para abalar as prprias fundaes da fi-     de um modo que recupere a dimenso crtica da
losofia positiva da cincia natural (Chalmers,     cincia como instrumento para a emancipao.
596    positivismo jurdico


    Eclipse no  morte: o positivismo pode ter                Em sua definio inicial, o positivismo jur-
sido desacreditado como filosofia da cincia,              dico est associado na tradio inglesa aos es-
mas ainda informa ativamente e, pode-se at                critos de Thomas Hobbes e, mais tarde, dos
dizer, domina os projetos e a implementao de             filsofos do direito do sculo XIX, Jeremy Ben-
pesquisas sociais empricas. E promete sobre-              tham e John Austin. O positivismo desses pen-
viver, se no prosperar, como um contraste e               sadores consistia em definir a lei muito simples-
uma sub-reptcia epistemologia operante en-                mente como a ordem do soberano e, uma vez
quanto o projeto de Max Weber de colocar a                 isolada essa nica fonte ou orculo do direito
interpretao e a explicao "sob um s teto"              nacional, podiam sustentar que a tarefa ou pro-
no for plenamente realizado na prtica cotidia-           vncia da jurisprudncia era a determinao
na dos cientistas sociais.                                 cientfica da linhagem e coerncia lgica da
                                                           ordem jurdica estabelecida. A filosofia positi-
Leitura sugerida: Adorno, T., Albert, H., Dahrendorf,
R., Habermas, J., Pilot, H., e Popper, K.R. 1969 (1976):
                                                           vista do direito era, assim, um discurso sis-
The Positivist Dispute in German Sociology  Alexan-        tematizador; um discurso que considerava o
der, J.C. 1982: Theoretical Logic in Sociology, vol.1:     contedo da lei como "dado" ou axiomtico e
Positivism, Presuppositions, and Current Controver-        estava meramente interessado em organizar as
sies  Apel, K.O. 1979 (1984): Understanding and            fontes e instituies do sistema jurdico em uma
Explanation: a Transcendental-Pragmatic Perspective        ordem normativa formalmente definida, ou
 Fuller, Steve 1988: Social Epistemology  Giddens,
A. org. 1974: Positivism and Sociology  Harding, San-
                                                           "domnio da lei".
dra e Hintinkka, Merrill, orgs. 1983: Discovering Rea-         Na jurisprudncia europia continental, uma
lity: Feminist Perspective on Epistemology, Methodo-       tradio igualmente dogmtica de filosofia po-
logy and Philosophy of Science  Keat, R. e Urry, J.        sitivista do direito remonta  assimilao do
1978: Social Theory as Science  Outhwaite, William         direito romano -- Corpus Iuris Civilis -- na
1987: New Philosophies of Social Science: Realism,         Europa do final do sculo XI. Para a tradio
Hermeneutics, and Critical Theory  Philips, D.C.
1987: Philosophy, Science and Social Inquiry  Simon,       continental ou "civil", havia um s direito e
Walter M. 1963: European Positivism in the Nineteenth      uma s fonte de direito para toda a Europa, a
Century.                                                   saber, a coleo das leis codificadas no incio
                                 LOC J.D. WACQUANT        do sculo XI pelo imperador Justiniano. Admi-
                                                           tida tal fonte unitria e universal do direito, a
positivismo jurdico O termo refere-se a                   tradio civilista da jurisprudncia dogmtica
qualquer filosofia do direito dirigida para a              podia facilmente adotar uma filosofia jurdica
descrio, isenta de valor, das instituies jur-         positivista ao sustentar a coincidncia do direito
dicas ocidentais em termos de um sistema dis-              e da razo nos textos -- a razo escrita (ratio
tinto de regras sociais (ver LEI). Em sua defini-          scripta) -- do cdigo. As ulteriores codifica-
o mais ampla, o positivismo jurdico est                es europias dos sculos XVIII e XIX assis-
associado  crena na possibilidade de uma                 tiram, em geral, a um ressurgimento do positi-
cincia do direito, classicamente uma geome-               vismo jurdico, da crena na disponibilidade de
tria da ordem jurdica, e a uma correspondente             todo o direito no cdigo, no mundo lgico e
adeso  separao metodolgica de questes                distinto do Texto.
de fato e questes de valor, da lei e da morali-               O positivismo jurdico moderno apresenta
dade.                                                      uma verso freqentemente simplificada e con-
    As razes dessa filosofia doutrinal do direito         sideravelmente mais abstrata da filosofia dos
residem na distino medieval entre direito di-            advogados tradicionais do direito secular. O seu
vino ou natural e direito secular ou positivo,             principal proponente filosfico no continente
sendo este ltimo denominado ius positum, di-              europeu (embora ulteriormente domiciliado
reito por posio ou, mais pragmaticamente,                nos Estados Unidos) foi um filsofo neokantia-
direito estabelecido por um soberano humano.               no do direito, o austraco Hans Kelsen. Em uma
Nessa descrio genrica, a ordem do direito               srie de obras altamente influentes, Kelsen ten-
positivo  identificada como um sistema dis-               tou construir uma "teoria pura do direito" ou
tinto de regras por referncia  sua fonte supre-          cincia estrutural da ordem jurdica. Substi-
ma: o direito positivo era direito que emanava             tuindo a nica e soberana fonte do direito pelo
do monarca, do Leviat, da comunidade ou,                  pressuposto lgico da "norma bsica" ou
mais recentemente, da legislatura.                         Grundnorm como fundao unitria de qual-
                                                                               ps-keynesianismo       597


quer sistema jurdico, Kelsen postulou as con-       tivas ou intertextuais que possam ameaar o
dies de qualquer cincia jurdica positivista      valor supremo do "domnio da lei".
em funo do estudo exclusivo da coerncia               Ver tambm POSITIVISMO.
interna da ordem normativa. Os problemas ju-         Leitura sugerida: Austin, John 1885 (1955 ): The Pro-
rdicos deviam ser estudados como problemas          vince of Jurisprudence Determined and the Uses of the
normativos, como questes estruturais de or-         Study of Jurisprudence  Bentham, Jeremy c.1780-82
dem, e desse modo a cincia jurdica podia ser       (1970): Of Laws in General  Goodrich, Peter 1986:
separada das disciplinas "pr-cientficas", co-      Reading the Law  Hart, H.L.A. 1961: The Concept of
mo a sociologia, a psicologia, a histria a eco-     Law  Hobbes, T. 1651 (1973): Leviathan  Kairys,
                                                     David, org. 1982: The Politics of Law  Legendre, Pier-
nomia ou a tica, que combinavam o estudo de         re 1983: L'empire de la vrit  Moles, Robert 1987:
regras jurdicas com o estudo de valores, ques-      Definition and Rule in Legal Theory.
tes do que "" com questes do que "deve ser".                                         PETER GOODRICH
Uma cincia do direito propriamente positivista
estudaria a linhagem da "autorizao formal"         ps-keynesianismo Termo que engloba uma
da norma jurdica ou, em termos mais pragm-         variedade de tentativas de construir uma alter-
ticos, estudaria o texto da lei, mas simplesmente    nativa  microeconomia e  macroeconomia
em funo de sua participao no sistema.            ortodoxas, o ps-keynesianismo no  uma
    No mundo do direito consuetudinrio, o po-       escola unificada de pensamento, mas um aml-
sitivismo jurdico moderno baseia-se na obra de      gama de elementos extrados de diferentes tra-
Kelsnen, mas est principalmente associado          dies em economia poltica, com seus propo-
obra do filsofo do direito analtico e jurista      nentes freqentemente divergindo sobre que
Herbert Hart e seu livro The Concept of Law,         elementos destacar.
publicado em 1961. Em um trabalho ampla-                 Comuns a todos os proponentes so a rejei-
mente sinttico, Hart elaborou uma filosofia         o da anlise de equilbrio em favor de consi-
jurdica positivista em termos do estudo do          deraes de crescimento desequilibrado e, por
direito como o estudo de um sistema distinto de      conseguinte, uma postura poltica mais inter-
regras primrias e secundrias. A separao da       vencionista do que de LAISSEZ-FAIRE; e uma
ordem jurdica de outros sistemas normativos         rejeio das explicaes microeconmicas de
, na verso de Hart do positivismo jurdico,        determinao de preo em termos de oferta e
atribuda a uma "regra de reconhecimento" por        demanda. Portanto, a teoria ortodoxa da dis-
meio da qual os funcionrios do sistema jurdi-      tribuio (funcional) de renda (determinada por
                                                     programas de oferta e demanda criados por
co identificam e aceitam a fonte e as caracters-
                                                     decises de otimizao individuais e, por con-
ticas distintas das regras jurdicas. Essas regras
                                                     seguinte, envolvendo geralmente considera-
so estudadas como conhecimento oficial ou
                                                     es de produtividade marginal)  rejeitada em
profissional, e podem ser formalmente identifi-      favor de uma teoria macroeconmica da dis-
cadas e analiticamente descritas sem refrencia      tribuio de renda relacionada com o cresci-
a quaisquer consideraes de avaliao contex-       mento da demanda agregada e do produto na-
tual, no-normativa ou outras. A existncia da       cional: aforisticamente, os trabalhadores gas-
lei, para o positivista jurdico,  uma coisa, seu   tam o que ganham e os capitalistas ganham o
mrito ou demrito  algo inteiramente distinto.     que eles (os capitalistas) gastam. Do mesmo
    Em termos crticos, o positivismo jurdico       modo, qualquer entendimento do mercado de
pode ser descrito como a filosofia inata, ou de      trabalho em termos de anlise de oferta e de-
senso comum, da profisso jurdica. Nesse sen-       manda  rejeitado, pelo que se explica o nvel
tido,  uma fisolofia dogmtica, que procura         de desemprego, no em funo da mo-de-obra
legitimar um conhecimento profissional na ba-        forar uma alta de salrios que a coloca fora do
se da auto-representao da profisso. Cumpre        mercado, mas em relao com o volume ma-
assinalar, a esse respeito, que o positivismo        croeconmico de produo; e sua incidncia 
jurdico procura isolar o direito de seus contex-    explicada em termos de uma fora de trabalho
tos polticos e administrativos. Estuda o direito    que est segmentada pela estrutura industrial de
como atividade  parte dos outros fenmenos          um ncleo oligopolstico e, portanto, protegido,
sociais e como um discurso incomparavel-             e de uma periferia competitiva e, portanto, ex-
mente livre de quaisquer caractersticas subje-      posta. No mbito de tal estrutura, os preos so
598   ps-modernismo


determinados pela remarcao oligopolstica         menos que os divorciemos das estruturas teri-
para cima, estando o tamanho da remarcao          cas em que esto implantados e das quais deri-
relacionado com a necessidade de obter lucros       vam seu significado.
suficientes para financiar futuros investimentos
                                                    Leitura sugerida: Eichner, A.S., org. 1979: A Guide to
em um mundo de inerente incerteza. Final-           Post-Keynesian Economics  Harcourt, G.C. 1982:
mente, a ortodoxia  criticada por sua aborda-      "Post-Keynesianism: quite wrong and/or nothing
gem do sistema econmico em termos de es-           new?". Thames Papers in Political Economy, vero 
cambo; os ps-keynesianos consideram es-            Kalecki, M. 1971: Selected Essays on the Dynamics of
sencial integrar a moeda na teoria do funciona-     the Capitalist Economy  Minsky, H. 1975: John May-
mento da economia desde o comeo. No nvel          nard Keynes.
macro, a oferta de moeda  considerada en-                                                SIMON MOHUN
dgena, ajustando-se passivamente a qualquer
nvel que seja necessrio para sustentar os n-     ps-modernismo Ver            MODERNISMO E PS-
                                                    MODERNISMO.
veis correntes de produo. A inflao no ,
pois, interpretada como o resultado de uma          pragmatismo  este o nome usualmente
excessiva expanso da oferta de dinheiro, mas       atribudo ao movimento filosfico clssico nos
 vista, antes, como o resultado da luta entre      Estados Unidos. Surgiu nas ltimas dcadas do
classes contendoras em torno da diviso do          sculo XIX e alcanou certa hegemonia na vida
produto nacional em salrios e lucros.              intelectual do pas durante e imediatamente
    Grande parte do ps-keynesianismo remon-        aps a chamada Era Progressiva (1896-1914).
ta sua ancestralidade a J.M. Keynes, mas enfa-      A partir da dcada de 30, e ainda mais depois
tizando o enfoque de Keynes da incerteza e          de 1945, foi largamente suplantado por outras
instabilidade como o ponto de partida de sua        correntes de pensamento em filosofia, nas cin-
anlise. A ulterior cincia econmica keynesia-     cias sociais e no discurso poltico pblico. O
na (ver KEYNESIANISMO) tendeu a desprezar esse      pragmatismo americano tambm atraiu consi-
ponto de partida e por essa razo, de acordo com    dervel ateno na Europa, especialmente em
os ps-keynesianos, interpretou erroneamente        torno de 1910, embora a exposio e a discus-
a importncia da anlise de Keynes. Essa nfase     so crtica do pragmatismo mostrassem o pre-
em um futuro incerto alia-se, portanto, a uma       domnio de interpretaes equivocadas e a ten-
anlise de investimento e lucratividade adota-      dncia a depreci-lo, reduzindo-o a uma expres-
da, em grande parte, da obra de M. Kalecki: o       so de alegadas caractersticas nacionais norte-
investimento corrente determina a taxa de cres-     americanas.
cimento, enquanto que o futuro investimento            O sentido cotidiano do termo "pragmtico"
determinado pelos lucros que as firmas ante-        certamente contribuiu para esses equvocos, su-
vem atravs da apropriada remarcao de pre-       gerindo uma espcie de "confuso bem-sucedi-
os acima de seus custos. Acrescente-se a isso      da" que  orientada para a satisfao de neces-
uma explicao sociolgica de conflito de clas-     sidades imediatas, ignora princpios tericos ou
ses inspirada na tradio marxista, mas reduzi-     morais e trata as caractersticas dadas da situa-
da a um conflito em torno de salrios e lucros      o simplesmente como parte de um clculo. O
como uma luta que tem por fulcro a distribuio     termo pragmatismo tem a mesma raiz grega de
do que  excedente em relao aos requisitos de     PRXIS, prtico etc. O fundador do pragmatis-
uma exata reproduo da economia em estado          mo, Charles Sanders Peirce (1839-1914), criou
estacionrio.                                       o termo em conseqncia de suas reflexes
    O ps-keynesianismo no , pois, uma abor-      sobre o uso por Kant dos adjetivos "pragmti-
dagem singular e rigorosa, mas uma coleo de       co" e "prtico". As conferncias e os escritos de
temas que os proponentes consideram enfatizar       Peirce, por volta de 1878, so hoje considerados
a esterilidade e a irrelevncia da cincia econ-   os documentos originais do pragmatismo. No
mica ortodoxa, em contraste com o realismo e        comeo ficaram conhecidos apenas por um es-
a aplicabilidade das alternativas ps-keynesia-     treito crculo de intelectuais de Cambridge,
nas. Mas o prprio ecletismo destas ltimas        Massachusetts, e s obtiveram maior notorie-
tambm uma importante fraqueza, porquanto          dade uns 20 anos depois, quando William James
duvidoso se os interesses marxistas e keynesia-     (1842-1910) realizou conferncias sobre o
nos podem ser aliados com tanta facilidade, a       "Pragmatismo". Peirce acabou distanciando-se
                                                                                  pragmatismo      599


do pragmatismo de James e deu  sua prpria          forma irrefletida. Assim, os pragmatistas vem
filosofia o nome de "pragmaticismo".                 toda a ao humana na oposio entre hbitos
    A par de Peirce e James, o ncleo central do     de ao irrefletidos e realizaes criativas. Isso
pragmatismo inclui usualmente John Dewey             significa tambm que a criatividade  vista,
(1859-1952) e George Herbert Mead (1863-             nesse caso, como o que caracteriza realizaes
1931). As diferenas entre todos esses pensa-        em situaes que exigem uma soluo, mais do
dores eram to evidentes, pelo menos para os         que como a criao irrestrita de algo novo sem
prprios "pragmatistas", que a sua reunio em        um background constitutivo em hbitos irrefle-
uma nica escola ou movimento tem sido cons-         tidos.
tantemente questionada. O ponto de vista mais            Desse modelo bsico de pragmatismo, no
amplamente aceito, contudo,  que, apesar das        qual ao e cognio se combinam de um modo
diferenas, existe um ncleo de idias comuns        particular, podemos derivar as outras reivin-
suficiente para justificar que se fale do "prag-     dicaes centrais do pragmatismo. Na metaf-
matismo" como uma orientao filosfica dis-         sica do pragmatismo, a realidade no  determi-
tinta.                                               nstica; pelo contrrio, permite e exige uma
    Quais so os temas bsicos do pragmatis-         ao criativa. Na epistemologia do pragmatis-
mo? A abordagem de Peirce comea com sua             mo, o conhecimento no  a reproduo da
crtica do princpio metodolgico da dvida          realidade, mas um instrumento para trat-la
radical de Descartes e do programa resultante        com xito. A semntica do pragmatismo locali-
de fazer da certeza de si mesmo do ego pensante      za o significado de conceitos nas conseqncias
o slido alicerce de uma nova filosofia. O prag-     prticas para a ao resultantes de seu uso ou de
matista questiona a significao da dvida car-      sua diferena em relao a outros conceitos.
tesiana, no a fim de defender as autoridades        Assim, na teoria da verdade do pragmatismo, a
indiscutveis contra a pretenso emancipadora        veracidade de sentenas s pode ser determina-
do ego pensante, mas para argumentar em favor        da por meio de um processo de concordncia
de uma dvida mais substancial, ou seja, o           sobre o xito da ao nelas baseada e no,
assentamento da cognio em situaes proble-
                                                     digamos, na sua correspondncia com uma rea-
mticas reais. No pragmatismo, a idia-guia do
                                                     lidade no-interpretada. A incompreenso do
ego dubitativo  substituda pela idia de uma
                                                     pragmatismo quando o consideram um movi-
busca cooperativa da VERDADE para superar os
                                                     mento que visa principalmente a destruio do
reais problemas da ao (ver AO E MEDIAO).
                                                     ideal de conhecimento verdadeiro resultou, so-
A dvida real ocorre na ao, concebida como
uma sucesso cclica de fases. Assim, toda e         bretudo, do isolamento de certas sentenas, co-
qualquer percepo do mundo e toda e qualquer        mo os enunciados de William James acerca da
ao nele realizada esto radicadas em uma           verdade, de todo o complexo de pensamento
crena irrefletida nas condies auto-evidentes      pragmatista.
e nos hbitos bem-sucedidos. Mas esses modos             Os principais representantes do pragmatis-
habituais de atuar defrontam-se constante-           mo contriburam para diferentes campos de
mente com a resistncia do mundo, que  consi-       investigao. Peirce estava principalmente in-
derada a fonte da destruio das expectativas        teressado no desenvolvimento de uma teoria
irrefletidas.                                        geral do conhecimento cientfico e em uma
    A fase resultante de dvida real leva a uma      teoria amplamente concebida dos signos ou
reconstruo do contexto interrompido. A per-        SEMITICA. Sua obra multifacetada, que  difcil
cepo deve apreender aspectos novos ou dife-        de resumir, inclui importantes pensamentos so-
rentes da realidade; a ao deve ligar-se a outros   bre o uso intersubjetivo de signos e sobre a
elementos do mundo ou reorganizar a sua pr-         produo criativa de hipteses ("abduo"). Es-
pria estrutura. Essa reconstruo  uma realiza-     sa teoria dos signos, especialmente em sua n-
o criativa do ator. Se tiver xito, atravs de     fase no "discurso" dos cientistas em uma comu-
uma mudana na percepo, de uma atuao             nidade experimental, foi de importncia decisi-
diferente, e retomar, assim, a iniciativa, ento     va para o "discurso tico" desenvolvido por
algo de novo ocorreu no mundo: uma nova              Karl-Otto Apel e Jrgen Habermas (ver DISCUR-
maneira de atuar que pode ser institucionaliza-      SO; TICA) e para a "teoria da ao comunicati-
da e se converte em uma rotina seguida de            va" de Habermas.
600   prxis


    William James trabalhou principalmente na         SIMBLICO em sociologia. A influncia dos ou-
rea da psicologia, na qual viu a perspectiva de      tros pragmatistas sobre a sociologia, fora da
uma sada do dilema entre a crena, de base           escola de Chicago e do interacionismo simb-
religiosa, no livre-arbtrio do agente moral e a      lico, tem sido at agora relativamente escassa,
imagem cientfica do mundo como um universo           apesar de algumas excees espetaculares, co-
governado por processos causais. A soluo,           mo C. Wright Mills e Jrgen Habermas. O
para James, reside na funcionalidade para a           inequvoco renascimento do pragmatismo em
sobrevivncia do organismo humano em seu              filosofia no tem, at o momento, paralelos
meio ambiente, que ele viu na capacidade hu-          igualmente impressionantes em sociologia.
mana de prestar ateno deliberada a impres-
ses perceptivas e escolher entre cursos alter-       Leitura sugerida: Joas, H. 1985: G.H. Mead: a Con-
                                                      temporary Re-examination of his Thought  1993:
nativos de ao. Uma psicologia "funcionalis-         Pragmatism and Social Theory  Mead, G.H. 1934:
ta" (ver FUNCIONALISMO) podia avanar pelo            Mind, Self and Society  Smith, John E. 1978: Purpose
entendimento de todas as realizaes mentais          and Thought: the Meaning of Pragmatism  Thayer,
em termos de sua funo para o domnio ativo          Horace S. 1981: Meaning and Action: a Critical History
pelo organismo do seu meio ambiente.                  of Pragmatism, 2ed.
    John Dewey, cujo pensamento de incio se                                                    HANS JOAS
desenvolveu independentemente dos primeiros
pragmatistas, abandonou sua anterior aborda-          prxis A definio (1), em Aristteles,  a de
gem neo-hegeliana e procurou cada vez mais            atos desempenhados como um fim em si mes-
ligar-se aos aspectos epistemolgicos e psico-        mos, no interesse deles prprios; distingue-se
lgicos do pragmatismo, tal como foram desen-         de poiesis, que significa a atividade produtiva
volvidos por Peirce e James. Seu intuito era          dedicada  realizao de fins, bem como de
construir uma filosofia que estendesse as idias      theoria ou contemplao. So essas as trs ati-
centrais do pragmatismo a todos os domnios           vidades ou ocupaes bsicas dos seres huma-
tradicionais da filosofia (metafsica, lgica, ti-   nos (Lobkowicz, 1967). O significado (2) em
ca e esttica), e em particular ao campo da           Marx e nos escritos de numerosos filsofos no
filosofia social e poltica. Deu nfase mais ex-      mbito do MARXISMO OCIDENTAL : (a) um tipo
plcita do que os outros a uma verso radical de      de atividade prtica criativa peculiar dos seres
democracia como ncleo normativo do prag-             humanos, por meio da qual eles constroem seu
matismo.                                              mundo, uma idia bsica no modelo de Marx
    George Herbert Mead, amigo de Dewey,              de NATUREZA HUMANA; (b) uma categoria epis-
empenhou-se ao mximo em desenvolver a es-            temolgica que descreve a atividade prtica,
tratgia de James na traduo de temas pragma-        constitutiva do objeto, dos indivduos humanos
tistas para o programa de uma cincia social          em seu confronto com a natureza, que Marx
emprica de base biolgica. A sua contribuio        denominou a "atividade prtica do senso huma-
decisiva para o teoria social consiste em sua         no" (Marx, 1845, p.83); e (c) como prxis "re-
teoria das caractersticas especficas da comu-       volucionria" (Marx, ibid.), o suposto ponto de
nicao humana e, como sua decorrncia, na            transio social fundamental de acordo com o
tentativa de tematizar a constituio das es-         qual se diz que, na prtica, as circunstncias
truturas da personalidade na dinmica das re-         sociais objetivas do proletariado coincidem
laes interpessoais. Mead atacou a suposio         com o completo entendimento delas.
de um eu (self ) substancial pr-social e a subs-        Embora os trs sentidos marxistas distintos
tituiu por uma teoria da gnese do eu em que          tenham ficado estabelecidos no moderno pen-
at a interao de uma pessoa consigo mesma           samento social, o conceito permanece, de modo
 conceituada como o resultado de estruturas          geral, impreciso, obscuro e elstico em sua
sociais. Mead tambm explorou essa linha de           aplicao. Em parte, isso  porque ele foi as-
pensamento na direo dos problemas do de-            sociado aos slogans da NOVA ESQUERDA em tem-
senvolvimento cognitivo, tais como a constitui-       pos recentes e, tambm em parte, porque as suas
o de objetos permanentes na experincia e a         origens se situam nas obscuridade da filosofia
constituio de estruturas de tempo.                  da ao elaborada pelos Jovens Hegelianos da
    Alguns dos conceitos e modelos de Mead            dcada de 1840, como Arnold Ruge, August
formaram a base da escola de INTERACIONISMO           von Cieszkowski, Moses Hess e o prprio Marx
                                                                                         prxis   601


(Stepelevich, 1983). Alm disso, os primeiros       atravs do trabalho produtivo ao longo de mui-
escritos de Marx sobre esse assunto foram,          tas geraes. Ao trabalharmos a natureza a fim
predominantemente, rascunhos no-publica-           de satisfazer nossas necessidades, acabamos
dos, e uma srie de importantes passagens sobre     por conhec-la, mas somente em uma forma
o tpico est sujeita a interpretao.              "humanizada". Assim, a natureza adquiriu um
    Por vezes, afirma-se que a expresso "a         cunho social e, ao mesmo tempo, tem um papel
unidade de teoria e prtica"  o significado do     autnomo nos assuntos humanos (Kolakowski,
conceito de prxis e ela parece, de fato, apreen-   1971).
der -- ainda que de forma imprecisa -- o                A teoria social cientfica do conhecimento
significado especulativo 2(c). Com efeito, a        que Marx desenvolveu a partir dessas reflexes
expresso  empregada no MARXISMO ortodoxo          abstratas foi o modelo de BASE e SUPERESTRU-
e se refere s seqncias concorrentes da teoria    TURA da conscincia social. Apesar de suas pri-
poltica organizada, do marxismo-leninismo na       meiras ambies, esse modelo est viciado por
antiga Unio Sovitica. A idia de prxis, por      uma ONTOLOGIA dualista e tambm sofre em
outro lado, sobretudo no sentido 2(a), foi proe-    virtude da excessiva nfase nas relaes econ-
minente nos pases socialistas da Europa Orien-     micas; e Marx tambm projetou no COMUNISMO
tal, como parte do arsenal ideolgico das crti-    no s a superao das principais antinomias
cas dos dissidentes desses regimes (Markovic ,      epistemolgicas, mas tambm solues prti-
1974).                                              cas para todos os outros problemas tericos
    O uso (2a) relaciona-se com a imagem dos        (Marx, 1844, p.95, 102, 114). No obstante, foi
seres humanos ou modelo da natureza humana          esse um esforo pioneiro. Ao transferir o pro-
que encontramos em Marx: "a atividade livre e       blema do conhecimento para o campo da ati-
consciente  a qualidade caracterstica da es-      vidade social prtica, estruturada, retirando-o
pcie humana" e "Ao criar um mundo objetivo         do individualismo da tradicional epistemologia
por sua atividade prtica (...) o homem prova       sujeito-objeto, Marx contribuiu para a crescente
que  um ser consciente de sua espcie" (Marx,      compreenso da natureza social do processo de
1844, p.171). A prxis, nesse sentido, est vin-    conhecimento (ver SOCIOLOGIA DO CONHECIMEN-
culada  ALIENAO como um processo his-            TO).
trico geral em que os seres humanos, em sua            A prxis revolucionria (2c) constitui a di-
criao da histria e da sociedade humanas, se      menso mais especulativa, envolvendo no s
tornaram sucessivamente divorciados da natu-        o conhecimento, mas tambm a TICA. A teoria
reza e dos produtos objetivos de sua prxis de      de Marx sobreviveu em sua forma no-cor-
trabalho.                                           rigida e mais mitolgica nos extravagantes flo-
    A categoria da prxis (2b) como ao huma-      reios milenaristas de marxistas posteriores, co-
na constituinte do objeto nos primeiros escritos    mo Gyrgy Lukcs, Karl Korsch e Antonio
de Marx (em especial, 1844, 1845 e 1845-6)          Gramsci na dcada de 20 (Kilminster, 1979).
pode ser interpretada, em uma viso a pos-          Para eles, em vrias verses, a conscincia da
teriori, como contribuio  epistemologia (ver     classe proletria derruba a objetividade da pr-
CONHECIMENTO, TEORIA DO); em especial, para a       pria sociedade. Tambm identificaram (erro-
superao do idealismo e materialismo e para        neamente) toda a cincia social com o POSITIVIS-
uma abordagem sociolgica (Kilminster, 1982).       MO, concebido como a articulao da experin-
Marx viu que o materialismo tradicional era         cia social dominante em uma sociedade capita-
implicitamente individualista e subentendia         lista e alienada. Portanto, as leis sociais podiam
uma viso passiva dos seres humanos, ao passo       ser falsificadas pela ao de massa ou por mu-
que o idealismo de Hegel sublinhava a dimen-        danas culturais e polticas cumulativas.
so ativa, histrica e cultural do saber humano,        Existe alguma evidncia de que a idia da
mas restringia essa atividade ao domnio da         Esquerda Hegeliana de "realizaes da filosofia
conscincia. A verso social do materialismo        na prtica" foi um importante motivo na forma-
em Marx realizou uma nova sntese. Os seres         o das idias de Marx. Os radicais hegelianos
humanos so parte integrante da natureza e a        compararam a realidade social tal como  com
objetividade do seu mundo social  resultado de     o que idealmente deve ser, mas Marx pensava
sua atividade prtica, dotada de sentido coleti-    que isso era um radicalismo verbal infrutfero
vo, na apropriao da natureza no-humana           que no mudava coisa alguma e recomendou,
602   preconceito


em seu lugar, uma "atividade prtica-crtica",        Leitura sugerida: Habermas, Jrgen 1971 (1976):
ou seja, o projeto de trazer a realidade para o       Theory and Practice  Kilminster, Richard 1979:
                                                      Praxis and Method: a Sociological Dialogue with Lu-
que ela deve ser na prtica:                          kcs, Gramsci and the Early Frankfurt School  1982:
   Para ns, o comunismo no  um estado de coisas    "Theory and Practice in Marx and Marxism". In Marx
   que tem de ser estabelecido, um ideal ao qual a    and Marxisms, org. por G.H.R. Parkinson  Kolakows-
   prpria realidade ter que se ajustar. Chamamos    ki, L. 1971: "Karl Marx and the classical definition of
   comunismo ao movimento real que suprime o pre-     truth". In Marxism and Beyond  Lobkowicz, Nicholas
   sente estado de coisas. (Marx e Engels, 1845-46,   1967: Theory and Practice: History of a Concept from
   p.48.)                                             Aristotle to Marx  Lukes, S. 1985: Marxism and Mo-
                                                      rality  Markovic, Mihailo 1974: From Affluence to
    O comunismo seria efetivamente uma socie-         Praxis: Philosophy and Social Criticism  Roten-
dade que no precisaria mais de tica porque          streich, Nathan 1965: Basic Problems of Marx's Philo-
deixaria de haver, na realidade das vidas das         sophy  Stepelevich, Lawrence S., org. 1983: The
                                                      Young Hegelians: an Anthology.
pessoas, qualquer discrepncia significativa en-
tre o modo como viviam e o modo como pen-                                            RICHARD KILMINSTER
savam que poderiam idealmente viver. Na ver-
so materialista de Marx da filosofia da histria     preconceito Definido aqui como um julga-
de Hegel, no havia necessidade de desenvolver        mento prvio rgido e negativo sobre um in-
uma justificativa tica distinta para o socialis-     divduo ou grupo, o conceito deriva do latim
mo ou o comunismo. A teoria econmica cien-           prejudicium, que designa um julgamento ou
tfica que descreve os estgios histricos do         deciso anterior, um precedente ou um prejuzo.
desenvolvimento humano e a convenincia mo-           As conotaes bsicas incluem inclinao, par-
ral do estgio final do comunismo so essen-          cialidade, predisposio, preveno. No uso
cialmente a mesma coisa. S os direitos e a           moderno, o termo veicula muitos significados
                                                      variantes. Comuns  maioria deles, contudo,
moralidade burgueses  que eram ideolgicos
                                                      so as noes de julgamento prvio desfavor-
(Lukes, 1985).
                                                      vel, efetuado antes de um exame ponderado e
    Mais tarde a teoria de Marx prestou-se a          completo, e mantido rigidamente mesmo em
sustentar o poder das elites burocrticas na          face de provas que o contradizem.
antiga Unio Sovitica e na Europa Oriental,             Por causa de seu amplo alcance e de suas
onde as dissidncias eram sufocadas procla-           conotaes complexas na linguagem comum, o
mando-se que essas elites no s tinham sua           termo deve ser sempre interpretado no contexto
poltica baseada em uma correta anlise cien-         especfico em que  usado (ver Williams, 1964,
tfica marxista, mas tambm estavam, por              p.28-9). Na cincia social moderna, o uso tpico
definio, moralmente corretas. Em oposio           refere-se a julgamentos categricos antecipa-
a essas pretenses, o modelo de Marx de               dos que tm componentes cognitivos (crenas,
homem-como-prxis foi enfatizado como a               esteretipos), componentes afetivos (antipatia,
consubstanciao da "autntica" viso mar-            averso) e aspectos avaliatrios ou volitivos
xista da vida humana.                                 (como as disposies para polticas pblicas)
    A morte da idia da inevitabilidade histrica     (ver Blalok, 1967, p.7; Klineberg, 1968, p.439).
do socialismo, somada  experincia do TOTALI-           As definies de preconceito so necessaria-
TARISMO no sculo XX, teve importantes conse-         mente definies com certo limite de variao,
qncias. O fundamento das questes morais            selecionadas de um leque mais amplo de outras
no podia continuar sendo descartado pela in-         caractersticas. Por exemplo, algumas autorida-
cluso de sua futura soluo em um necessrio         des especificam que os preconceitos so no
movimento histrico ou, antes disso, na infali-       apenas desfavorveis e categricos, mas tam-
bilidade cientfica, poltica e moral do Partido.     bm inflexveis, rgidos e baseados em conhe-
Essa compreenso constitui o ponto de partida         cimento inadequado ou falso juzo. Assim, All-
para o projeto neomarxista de teoria crtica          port (1967, p.515-6) sustenta que os precon-
(Habermas, 1974) e, depois do colapso do co-          ceitos so atitudes supergeneralizadas e err-
munismo na Europa Oriental em 1989 e da               neas -- concepes equivocadas que no se
fragmentao da Unio Sovitica, a questo da         revertem em funo de novos conhecimentos.
boa sociedade volta a figurar em posio de           Por outro lado, Klineberg (1968, p.440) afirma
destaque na ordem do dia.                             que a reversibilidade devido a novos conheci-
                                                                                    preconceito    603


mentos no  um critrio apropriado de precon-       mas menos intensas, o etnocentrismo pode sig-
ceito. Assim, parece prefervel considerar a re-     nificar to-somente uma atitude positiva em
versibilidade como um correlato para estudo          relao ao prprio grupo a que se pertence e s
emprico, e no como parte de uma definio          suas formas de conduta. De modo geral, porm,
formal do conceito.                                  o termo tambm implica alguns sentimentos de
    Numerosos dados de pesquisas mostram             superioridade do grupo em comparao com
que as atitudes usualmente rotuladas como pre-       outros grupos a que no se pertena. Nos dois
conceitos na fala comum podem ser especficas        casos, o etnocentrismo varia muito em intensi-
para um grupo ou generalizadas para muitos;          dade e em especificidade (Levine e Campbell,
podem ser primordialmente cognitivas, afetivas       1972). No obstante, h uma acentuada ten-
ou avaliatrias; podem referir-se unicamente a       dncia emprica para que o etnocentrismo se
interaes sociais pessoais ou dirigir-se a am-      torne generalizado -- no caso extremo, o nosso
plas polticas pblicas; e podem ser importantes     prprio grupo  superior a todos os outros em
ou perifricas para o ator individual. Diante        todos os aspectos importantes (ver Williams,
dessas variaes, a pesquisa de cincia social       1964, p.22-8). Em geral, os estudos histricos
concentrou-se, de modo geral, em orientaes         e comparativos indicam que, quanto mais pre-
desfavorveis dirigidas a grupos ou categorias,      ponderantes e intensas em uma sociedade so
deixando outras caractersticas correlatas para      as crenas na superioridade do grupo a que se
serem investigadas com fins particulares (Wil-       pertence, maior ser a probabilidade de se res-
liams, 1964, p.22-77); Klineberg, 1968, p.439).      ponsabilizar os membros de outros grupos por
As provas acumuladas por pesquisas estabele-         quaisquer condies ou acontecimentos indese-
ceram um grande nmero de generalizaes             jveis. Quanto mais o etnocentrismo se torna
empricas referentes ao preconceito nesse sen-       rgido, incondicional e emocionalmente inten-
tido. Entre as mais importantes concluses es-       so, maior  a possibilidade de conflito com
to as seguintes:                                    outros grupos; tais conflitos, por sua vez, refor-
    1. Tais preconceitos negativos, embora ge-       am e acentuam o etnocentrismo. Desse modo,
       neralizados, no so universais.              o etnocentrismo difuso converte-se freqente-
    2. O preconceito no  monoplio desta ou        mente em forte preconceito.
       daquela sociedade, desta ou daquela cul-
       tura.                                         Os objetos do etnocentrismo e do preconceito
    3. O preconceito no  inato, mas deve ser           As categorias tnicas e raciais so cons-
       aprendido.                                    trues sociais (ver tambm ETNICIDADE; RACIS-
    4. Os preconceitos em relao a diferentes       MO). Desenvolvem-se reciprocamente com a
       grupos tendem a andar juntos: as pessoas      diferenciao social e a interao entre pessoas
       que manifestam preconceito para com           que, segundo se presume, se tornaram inicial-
       um grupo tnico mostram tipicamente           mente distintas por parentesco, comunidade
       atitudes semelhantes para com outros          geogrfica ou modos de subsistncia. As inte-
       "grupos de fora".                             raes entre pessoas ligadas por redes de paren-
    5. Os indivduos variam imensamente na in-       tesco e casamento, e vivendo em estreita proxi-
       tensidade e espcie de seus preconceitos.     midade, produzem inevitavelmente caracters-
    6. Os preconceitos encorajam os comporta-        ticas culturais distintas. Quando tais grupos
       mentos discriminatrios e as orientaes      entram em contato com outros que diferem
       dadas s polticas pblicas, e so por eles   deles de maneiras evidentes, est lanada a base
       gerados.                                      para as relaes tnicas. Quando o comrcio a
    7. Preconceitos e comportamento no pre-         grande distncia, as conquistas militares, as
       cisam ser congruentes; situaes espe-        migraes e outros movimentos populacionais
       cficas podem afetar consideravelmente        se desenvolvem, a gama de diferenas sociocul-
       a conduta, apesar de atitudes generaliza-     turais potencialmente evidentes se amplia e,
       das (ver tambm Pettigrew, 1976, p.525).      quando as populaes que entram em contato
                                                     diferem em cultura e em caractersticas fsicas
Etnocentrismo                                        bvias, h a possibilidade de que as relaes
   Um conceito estreitamente relacionado com         tnicas se definam como "raciais". Assim, as
o preconceito  o etnocentrismo. Em suas for-        chamadas relaes raciais modernas so decor-
604   pr-histria


rncia da expanso mundial do comrcio e das        "tradio" cultural de preconceito pode adquirir
interaes polticas depois das "viagens de des-    grande fora e persistncia.
cobrimento" dos sculos XV e XVI (Williams,
                                                    Leitura sugerida: Blalock, H.M. Jr. 1982: Race and
1977).                                              Ethnic Relations  Ehrlich, H.J. 1973: The Social Psy-
                                                    chology of Prejudice  Francis, E.K. 1976: Interethnic
Fontes de preconceito                               Relations: an Essay in Sociological Theory  Rex, J.
    Quando grupos tnicos e raciais distintos       1983: Race Relations in Sociological Theory  Van der
entraram em contato, a COMPETIO econmica         Berghe, Pierre Louis 1981: The Ethnic Phenomenon
                                                     Williams, R.M. 1977: Mutual Accomodation: Ethnic
estimulou o preconceito. Do mesmo modo, as          Conflict and Cooperation.
fronteiras entre grupos e as atitudes negativas
                                                                                ROBIN M. WILLIAMS, JR.
so acentuadas por lutas pelo poder poltico ou
pela conquista de prestgio e deferncia sociais.
Portanto, as ameaas a interesses egostas em
                                                    pr-histria Ver       ARQUEOLOGIA E PR-HIST-
                                                    RIA.
valores to escassos so potentes estmulos para
o conflito entre grupos. Numerosas pesquisas        presso, grupo de Ver INTERESSE, GRUPO DE.
revelaram processos psicolgicos (frustrao,
deslocamento, racionalizao, entre eles) que       previso Como a determinao dos estudos
so importantes no desenvolvimento e manu-          futuros de um sistema fsico ou social, a previ-
teno do preconceito em indivduos (LeVine e       so  uma importante questo epistemolgica
Campbell, 1972; Simpson e Yinger, 1952).            porque a capacidade de produzir previses acu-
Mas, deixando de lado as fontes psicolgicas,       radas e idneas  considerada, com freqncia,
que condies sociais afetam a extenso e a         o critrio definitivo pelo qual a cincia deve
intensidade dos preconceitos categricos?           distinguir-se de outros tipos de atividade inte-
                                                    lectual.
    O preconceito negativo e a discriminao
reforam-se mutuamente. Sejam quais forem as             inegvel que previses podem ser e fre-
                                                    qentemente so feitas com xito nas cincias
causas, o aumento das hostilidades, os estere-
                                                    sociais: assim, previses a curto ou mdio prazo
tipos negativos e as atitudes de distanciamento
                                                    de emprego, de taxas de natalidade ou mortali-
social levam ao recrudescimento da discrimina-
                                                    dade, ou de oportunidades educacionais so, na
o, incluindo a excluso e a segregao impos-     maioria das vezes, fidedignas (ver tambm ES-
ta. Na seqncia recproca, o aumento da dis-       TATSTICA SOCIAL). De modo geral, as cincias
criminao leva a um preconceito mais profun-       sociais desenvolveram com xito uma dimen-
do e mais intenso. A experincia nos Estados        so atuarial. A distino crucial entre previso
Unidos tem sido que a discriminao reduzida        e profecia, contudo, nem sempre  feita com
contra pessoas negras (principalmente atravs       clareza pelas cincias sociais. No comeo deste
de aes jurdicas e polticas)  freqentemente    sculo W. Sombart previu que um poderoso
seguida por reduzido preconceito. Em suma, a        movimento socialista se desenvolveria nos Es-
discriminao gera e refora o preconceito; o       tados Unidos. Em meados da dcada de 80,
preconceito cria uma base para a discriminao      muitos socilogos e cientistas polticos previ-
e sua racionalizao (ver tambm IDEOLOGIA).        ram longa vida para os regimes comunistas nos
    Uma vez formado, determinado preconceito        pases do Leste Europeu. Como Anthony Gid-
tnico, como um complexo conjunto de cren-          dens (1990) mostrou muito bem, as previses
as, valores e sentimentos, pode difundir-se e      de Karl Marx e Max Weber sobre sociedades
tornar-se normativo em uma populao atravs        modernas devem ser seriamente relativizadas.
dos processos comuns de SOCIALIZAO e con-             No passado recente os cientistas sociais ad-
formismo. Atravs da doutrinao e do exem-         quiriram uma conscincia cada vez maior das
plo, as crianas aprendem preconceitos como         dificuldades com que se defronta a previso nas
parte do repertrio cultural total absorvido em     cincias sociais. Isso pode ser visto no fato de
famlia e em outros grupos a que pertencem.         os "futurlogos" j no pretenderem dizer-nos
Quando tais preconceitos passam a ser norma-        que so capazes de prever com preciso mudan-
tivos, as expectativas e exigncias encadeadas      as sociais e optarem, em vez disso, por desen-
de autoridades e de pares criam presses e          volver plausveis "roteiros" alternativos sobre
indues ao conformismo. Dessa forma, uma           futuros estgios de sistemas sociais. Essa ati-
                                                                               privao relativa   605


tude mais modesta em relao  possibilidade          objetivamente em boa situao no exrcito
de previso deve-se principalmente ao declnio        americano estavam descontentes (Stouffer et
do positivismo nas cincias sociais e ao pro-         al., 1949, p.125). A expresso foi aproveitada
gresso da idia de que os fatos sociais so o         por psiclogos sociais, socilogos e cientistas
produto de aes, comportamentos e (ou) cren-         polticos (Merton, 1949,  um exemplo) a fim
as individuais. Enquanto que alguns sistemas         de chamar a ateno para as diferenas de sen-
de interao so to previsveis quanto os sis-       timento entre grupos e para as diferenas entre
temas fsicos, outros no o sero. Assim, os          sentimento e realidade. Sentimentos de priva-
"jogos de cooperao" so exatamente previs-         o relativa diante de alguma condio ou si-
veis, ao passo que as estruturas de interao do      tuao percebida como atingvel ou realizvel,
"repetido dilema do prisioneiro" ou da do "jogo       independentemente das condies ou da situa-
da galinha" (chiken game ) so altamente im-          o real das pessoas, eram claramente impor-
previsveis (Boudon, 1986; Boudon e Bour-             tantes para grande parte da vida social. A dis-
ricaud, 1989). Por outro lado, a investigao         tino ajudou a explicar variaes de opinio,
sobre mudana social levou  noo de que             mas tambm protestos espontneos e a organi-
fatores contingentes no podem ser ignorados.         zao de aes coletivas. Runciman (1966,
Alm disso, muitas profecias apresentam-se co-        p.10, e 1989, especialmente p.36 e 97) aplicou
mo essencialmente autodestrutivas: se  feita a       o termo rigorosamente aos problemas de es-
previso de que alguma catstrofe social  imi-       trutura de classe, status de minorias e variao
nente, algo ser provavelmente feito para evi-        entre culturas.
t-la, de modo que ela talvez no venha a ocor-           Em segundo lugar, surgiu subseqentemen-
rer. De modo geral, a antiga tendncia a definir      te a necessidade de se usar o termo em um
a cincia por sua capacidade de previso  hoje       sentido objetivo, e no apenas em um sentido
considerada ingnua; o objetivo da cincia ,         individual ou coletivamente subjetivo. A pes-
principalmente, adquirir conhecimento e com-          quisa sobre hierarquia social, classe, mobili-
preenso do mundo, e s secundariamente pre-          dade social, distribuio de renda, pobreza e
ver seus estados futuros.  importante saber,         padres de doena na populao dirigiu as aten-
digamos, que uma dada estrutura de interao          es para a importncia de medir, por exemplo,
 imprevisvel ou que o curso de determinado          a distncia social, as condies materiais e so-
processo pode ser afetado por contingncias,          ciais de diferentes grupos e classes na popula-
embora esse conhecimento torne impossvel a           o e a disjuno entre necessidades satisfeitas
previso.                                             e no-satisfeitas. Nesse processo, o prprio si-
    Ver tambm CAUSALIDADE; MENSURAO.               gnificado de "privao" foi alvo de uma inves-
                                                      tigao mais minuciosa. Ela foi diferenciada de
Leitura sugerida: Boudon, Raymond 1986: Theories
of Social Change  Ferkiss, Victor, 1977: Futurology   idias como POBREZA, sendo aplicada mais di-
 Giddens, A. 1990: The Consequences of Modernity.     retamente s inadequaes materiais e sociais
                               RAYMOND BOUDON         do que indiretamente s baixas rendas que po-
                                                      dem ou no estar na base dessas inadequaes.
privao relativa Este conceito adquiriu des-         Alguns autores distinguiram entre formas obje-
taque primeiro em termos subjetivos e, mais           tivas de privao material e social, assim como
tarde, objetivos -- com significados alternati-       entre formas subjetivas de privao individual
vos, mas muito distintos. As pessoas podem            e coletiva (por exemplo, Townsend, 1979, p.46-
sentir-se privadas em relao a outras e tambm       53, e 1987).
em relao s suas condies ou situaes ob-             Deve-se elucidar contexto social ou estrutu-
servadas. Alternativamente, as pessoas podem          ra de referncia objetiva para a determinao e
ser privadas em relao a outras: suas condies      compreenso de queixas e ressentimentos in-
so comprovadamente piores que as de outras.          dividuais e grupais da espcie preferida pelos
Em primeiro lugar, os sentimentos das pessoas,        estudos dos sentimentos de privao. Assim,
ou o seu comportamento decorrente desses sen-         um grupo de trabalhadores manuais qualifica-
timentos, podem provocar surpresas e at pare-        dos pode sentir-se destitudo em relao a um
cer irracionais. "Privao relativa"  uma ex-        grupo de funcionrios administrativos. Antes
presso que foi originalmente criada para aju-        de se concluir precipitadamente que os estados
dar a explicar por que motivo alguns soldados         subjetivos e objetivos so discordantes, devem-
606   privacidade


se coletar detalhadas informaes a respeito de      guerrilhas urbanas dos dias atuais. Essas formas
salrios, mas tambm de muitas outras caracte-       extremas de comportamento social colocam em
rsticas sumamente importantes na vida de tra-       relevo a verdade sobre muitas outras mais co-
balho e social. E isso pode envolver uma inves-      muns. Exibem um mecanismo por meio do qual
tigao muito mais ampla das condies de            indivduos que se retiraram para uma concha
trabalho, segurana de emprego, perspectivas         particular de inrcia so capazes de se reunir e
de promoo, benefcios adicionais e posio         realizar uma identidade coletiva com o objetivo
social do que podem sugerir as descobertas           de enfrentar as mltiplas invases promovidas
originais sobre sentimentos de privao. A an-      pela realidade externa.  dentro da trama da
lise da histria do conceito mostra que a impor-     vida cotidiana, imune  esfera da poltica, com
tncia da privao subjetiva ou coletiva como        todos os seus slogans e jogos de poder, que se
varivel explicativa no pode ser avaliada in-       localiza a soberania social. Poder-se-ia at afir-
dependentemente da privao real.                    mar que ela deriva todo o seu vigor do fato de
                                                     permanecer escondida, de ser uma fora oculta
Leitura sugerida: Runcinam, W.G. 1989: A Treatise
on Social Theory, vol.2: Substantive Social Theory   que nada tem a ver com a aparncia de poder.
 Townsend, P. 1979: Poverty in the United Kingdom.       Outro exemplo de privacidade pode ser visto
                                PETER TOWNSEND       na "cultura do pobre", descrita com tanta pers-
                                                     piccia por Richard Hoggarth (1957). O vasto
privacidade Um modo de entender este con-            repertrio de chistes, provrbios, mximas,
ceito  como o laboratrio de um alquimista          adgios e grias, teatro satrico ou literatura
alojando os minsculos processos criativos que       popular, tem sido corretamente apresentado por
marcam o COTIDIANO, os quais contribuem para         muitos observadores como um espao social
a "diverso" do eu e para a manuteno de um         que preserva uma efetiva tradio de resistncia
sentido de IDENTIDADE sem o qual a resilio e       (ver tambm CULTURA DE MASSA). Acrescente-
a resistncia pessoais seriam impossveis. Esse      se que tal resistncia funciona precisamente
fenmeno ressalta claramente de uma pesquisa         porque os seus gestos de desafio s podem ser
realizada com jovens. Ao analisar a chamada          executados com alguma significao em um
"emigrao interna", a pesquisa ps em relevo        nvel simblico, onde atuam como fatores de
o modo como indivduos buscam "nichos" no            socializao. So as senhas atravs das quais se
tempo que lhes permitam perodos dirios de          d o reconhecimento mtuo. Reconhecimento
afastamento do mundo  sua volta (Duvignaud,         de si mesmo via reconhecimento pelo grupo.
1975, p.233). Poder-se-ia ampliar essa anlise       Trata-se, de fato, de uma antiga realidade antro-
mostrando como, ainda que suas manifestaes         polgica; os etnlogos documentaram o que o
no sejam previsveis em detalhe, esses nichos       shalako dos ndios Zuni, o candombl (Bahia),
privados so uma constante em todas as es-           o Kula (Melansia), para mencionar apenas
truturas sociais. Subjacente na tradio de          alguns exemplos, representam em suas respec-
smucke dei heim ("decore o seu lar") dos pases      tivas estruturaes sociais.
nrdicos, nos jardins de trabalhadores ou na             Existe, no uso da palavra por Gaston Bache-
predileo pelo Kitsch, que foram extensamen-        lard, uma "potica" da privacidade que, embora
te estudados, para no mencionar o gosto por         nunca tenha sido oficialmente reconhecida,
velhos casares rurais convertidos, pode-se per-     sancionada ou canonizada, continua sendo um
ceber a mesma busca, inclusive no refgio ute-       valioso gerador de socializao. Tal "potica" 
rino do "reino noturno" (G. Durand), de uma          composta de todas aquelas triviais atividades
privacidade que persiste apesar de (ou em des-       sociais, viagens para visitar algum, conversas
afio a) qualquer espcie de mitologia progres-       de botequim, "faa voc mesmo", cozinhar,
sista. (Ver tambm MODERNISMO E PS-MODER-           passear, sair para comprar roupas etc., atravs
NISMO.)                                              das quais os indivduos se reconhecem como
    Essa regeneradora retirada do mundo,  bom       pertencentes a um dado grupo social. Esse reco-
lembrar, est ligada ao que poderia chamar-se        nhecimento ou sentimento de identidade, longe
"a volta  floresta" (Ernst Jnger), a qual apre-    de ser homogneo e estvel, est em constante
senta uma ilustre linhagem que vai desde "Ro-        fluxo, mas, no obstante, constitui, para alm
bin Hood" at os muitos grupos de resistncia        da pluralidade de suas expresses, uma densa
clandestina da histria moderna e culmina nas        trama, to variada em textura e colorido quanto
                                                                                  problema social   607


os fios que, em suas mltiplas urdiduras, for-          problema social Pode ser definido como uma
mam o resistente tecido da realidade familiar           condio danosa identificada por um nmero
cotidiana. Em A alma e as formas (1910), Lu-            significativo de pessoas e reconhecida politica-
kcs, na tentativa de inventariar essa voltil mas      mente como necessitando de melhoria. O dano
intensa comunidade, fala de uma "socialidade            ocorre em muitas formas: os interesses econ-
interna" que se manifesta no lirismo das re-            micos das pessoas, seus interesses polticos,
laes humanas.                                         seus valores morais, o meio ambiente e um
    O lirismo encontrado nas canes pop, na            incontvel nmero de outros fenmenos podem
fico escapista e nas estrias das revistas para       ser afetados. Em todo caso, para ser expresso
adolescentes  muito esclarecedor a esse res-           como um problema social, o dano deve consistir
peito. No  o contedo de tal lirismo que conta,       em uma situao factual cujas dimenses inter-
mas o seu significante. O que est sendo dito           nacionais, histricas, psicossociais e outras
no  to importante, desde que seja algo que           possam ser observadas de modo sistemtico e
possa dar estrutura  comunidade, uma forma             objetivo. Os fatos so importantes porque for-
de estruturao para o qual o "discreto" nicho          necem uma base realista para a ao. Alm
uterino da pequena comunidade local ou da               disso, a ignorncia pode ser custosa, visto que
                                                        o que as pessoas no sabem pode ainda ser-lhes
aldeia  particularmente propcio.
                                                        nocivo (Merton, 1961). No obstante, mostrar
    Assim, pode-se perceber que o recurso              meramente a natureza danosa de um fenmeno
privacidade  extremamente comum e repre-               no  suficiente, em si mesmo, para identificar
senta a renovao dos vnculos com a comuni-            um problema social. Condies que envolvem
dade que pode ser assinalada ao longo de toda           pouco dano, como as mortes por uso de drogas
a histria humana e sem a qual no poderia              (cerca de 4 mil por ano nos Estados Unidos),
ocorrer nenhuma das cristalizaes especficas          so freqentemente definidas como problemas
da vida social (tais como as civilizaes, os           sociais, ao passo que condies envolvendo
costumes, as instituies e os governos). Mas           grandes danos, como as mortes em acidentes de
enquanto que essas cristalizaes deram origem          automvel (cerca de 50 mil por ano), no so
a uma historiografia capaz de as articular, a           assim definidas.
privacidade que as alicera no tem outra ga-               Alm do dano, um nmero significativo de
rantia de sobrevivncia alm de sua prpria             pessoas deve identificar um problema social e
persistncia.  a fora do abismo, o reino das          debat-lo politicamente (Spector e Kitsuse,
sombras, a via negativa, a tenebrosa noite da           1987). Embora tenha havido uma controvrsia
alma, o buraco negro da astrofsica. Seja qual          sobre quanto seria "significativo", essa questo
for o nome que lhe  dado por diferentes sculos        pode ser resolvida notando-se o feedback entre
e mitologias, esse substrato constantemente re-         o nmero de pessoas que afirmam que uma dada
primido da vida social continua fazendo com             condio  prejudicial e a sua localizao na
que pensadores lcidos e exigentes se defron-           sociedade. Por vezes, uma situao  identifi-
tem com novas metamorfoses que so, simples-            cada como danosa por grupos de cidados, por
mente, to poderosas quanto sempre foram.               vtimas ou por indivduos influentes, e outros
Hoje em dia parece que estamos presenciando             respondem tratando a questo politicamente.
uma outra e vigorosa ressurreio do "privado",         De modo distinto, por vezes a pesquisa revela
fato que no pode deixar o socilogo indife-            uma condio que suscita clamor pblico e a
rente.                                                  causa  assumida por defensores politicamente
    Ver tambm ESFERA PBLICA; SOCIEDADE CI-            significativos. Para fins de identificao de um
                                                        problema social, no importa por que razo uma
VIL.
                                                        questo  considerada prejudicial ou quem ori-
Leitura sugerida: Durand, G. 1969: Les structures an-   gina a preocupao a seu respeito: as pessoas
thropologiques de l'imaginaire  Duvignaud, J. 1975:     podem ser motivadas por valores morais, inte-
La plante des jeunes  Hoggart, R. 1957: The Uses of    resses econmicos ou outros fatores.
Literacy  Lukcs, G. 1910 (1974): The Soul and the          Entretanto, os motivos das pessoas so im-
Forms  Maffesoli, M. 1976: Logique de la domina-        portantes, uma vez que no existem critrios
tion.                                                   cientficos para decidir que uma condio da-
                                MICHEL MAFFESOLI        nosa  um problema social, mas uma outra no
608   problema social


. A vida pblica, pelo menos em sociedades        rais, a soluo de uma pessoa , com freqncia,
democrticas,  um processo competitivo em         o problema de outra (Merton, 1961).
que indivduos e grupos rivalizam para atrair a        Um problema social pode ser estudado de,
ateno dos lderes polticos e dos cidados       pelo menos, trs ngulos. O primeiro  a SOCIO-
comuns. A tarefa envolve a transformao dos       LOGIA DO CONHECIMENTO, o processo pelo qual a
dilemas prejudiciais vivenciados por indiv-       realidade  socialmente construda (Berger e
duos como dissabores privados em questes          Luckmann, 1966). Nesse caso, a tarefa consiste
pblicas em problemas sociais que podem ser        em entender como e por que uma condio
melhorados (Mills, 1959). Esse processo pol-      danosa e no outra  identificada como proble-
tico significa que os problemas sociais mudam      ma social. Spector e Kitsuse (1987) propuseram
com o tempo, freqentemente sem referncia a       um modelo para o estudo desse processo que se
mudanas na extenso do dano. Por vezes, uma       concentra nas reclamaes que as pessoas fa-
condio conhecida aceita em determinado           zem a respeito dos danos causados por alguma
ponto torna-se posteriormente inaceitvel e, por   condio e no debate poltico que se segue. A
conseguinte, um problema social. Por exemplo,      segunda perspectiva  a da PSICOLOGIA SOCIAL,
a desigualdade que  intrnseca em casamentos      o modo como as pessoas interagem, como in-
tradicionais passou recentemente a ser um pro-     fluenciam os grupos a que pertencem e so
blema social. s vezes uma condio conheci-       influenciadas por grupos. Assim,  possvel es-
da definida como prejudicial em um momento         pecificar como os pais e amigos de indivduos,
dado torna-se mais tarde aceitvel; por exem-      e outros que so importantes para eles, os in-
plo, o uso da maconha. Finalmente, uma con-        fluenciam para ficarem pobres, usarem drogas,
dio prejudicial previamente desconhecida         conseguirem um aborto ou praticarem qualquer
ganha notoriedade em virtude de novos dados        ao identificada como problema social. A ter-
cientficos e se converte por isso em um pro-      ceira abordagem  em termos da ESTRUTURA
blema social, como o aquecimento global. Os        SOCIAL, o modo como a organizao social in-
exemplos apontam o dinamismo subentendido          fluencia os ndices de comportamento. Por
na identificao de problemas sociais.             exemplo, a elevada taxa de pobreza nos Estados
    Essa contnua atividade reflete uma crena     Unidos reflete o impacto da estrutura do proces-
na possibilidade de aperfeioamento. Na cultu-     so eleitoral, a poltica macroeconmica e outros
ra ocidental, as pessoas tendem a ser otimistas,   fatores que tm pouco a ver com os motivos
a alimentar o sentimento de que suas vidas e a     pelos quais os indivduos empobrecem (Bee-
sociedade em geral podem melhorar e a crena       ghley, 1989). De modo mais geral,  possvel
em que esse progresso ocorreu (Nisbet, 1969).      mostrar como a estrutura social influencia a
A cincia social pode ser imensamente til nes-    taxa de uso de drogas, de abortos ou de qual-
se contexto, pois pode fornecer anlises razoa-    quer outra questo definida como problema
velmente objetivas das dimenses de uma con-       social. Uma abordagem estrutural de um pro-
dio danosa, avaliar as conseqncias poten-      blema social  til como meio de descobrir
ciais, para os indivduos e as sociedades, das     suas dimenses ocultas, especialmente a dis-
vrias estratgias para resolver o problema e      tribuio de interesses e benefcios confli-
indicar os possveis efeitos colaterais de uma     tantes em uma sociedade (Merton, 1949).
reduo concreta do dano. A sabedoria, contu-      Quando se renem os insights oriundos de
do, no se segue necessariamente ao conheci-       todos os trs ngulos de viso, surge um
mento e nenhuma garantia existe de que as          quadro relativamente completo de um proble-
anlises cientficas sociais conduzam  me-        ma social.
lhoria de um problema social (Rule, 1978). Em
                                                   Leitura sugerida: Beeghley, L. 1989: The Structure of
parte, isso acontece porque muitas condies       Social Stratification in the United States  Merton,
danosas so resultados involuntrios, no pre-     R.K. 1949 (1968): "Manifest and latent functions". In
meditados, do progresso histrico e proporcio-     Social Theory and Social Structure, org. por R.K. Mer-
nam benefcios a certos segmentos da popula-       ton  Mills, C.W. 1959: The Sociological Imagination
o. Por conseguinte, as pessoas discordam so-      Spector, M. e Kitsuse, J.I. 1987: Constructing Social

bre o que significa "melhoria" e, dependendo       Problems.
de seus interesses econmicos ou valores mo-                                      LEONARD BEEGHLEY
                                                       processos evolucionrios na economia         609


problemtica O conceito refere-se  confi-            processos evolucionrios na economia
gurao de conceitos tericos pressupostos em         O surgimento e a destruio de relaes econ-
um texto ou discurso. A problemtica define o         micas podem ser descritos como evolucionrios
"campo" de questes que podem ser formula-            se forem resultantes da reteno seletiva de
das e as formas que as respostas devem adotar.        inovaes. Modelos evolucionrios inspirados
Tambm exclui a apresentao de certas ques-          na biologia comeam a atrair a ateno de eco-
tes, torna alguns problemas impensveis e al-        nomistas como alternativas viveis s abstra-
guns objetos "invisveis". O conceito surgiu no       es nada realistas dos modelos de equilbrio.
final da dcada de 40 na obra do historiador e        Estes ltimos sustentam que, a um certo preo,
filsofo da cincia francs Gaston Bachelard.         a oferta e a demanda se equilibraro, mas no
Nela, o conceito foi usado em oposio ao             podem explicar como acontecem realmente os
ponto de vista dos conceitos cientficos e seus       preos de equilbrio. A possibilidade de preos
referentes no mundo real. Sustentava-se que os        de equilbrio depende de muitos pressupostos
conceitos cientficos adquirem seu significado        que, com freqncia, s so implicitamente
especfico a partir do lugar que ocupam dentro        formulados: todos os participantes da economia
de um todo terico estruturado, assumindo os          devem ter perfeito conhecimento e completa
avanos cientficos a forma de reorganizaes         anteviso das circunstncias futuras, precisam
fundamentais de problemticas tericas.               maximizar lucros e vantagens, e tem que haver
    O conceito obteve ampla circulao nos de-        uma competio ilimitada. Quando os modelos
                                                      de equilbrio foram assentes em uma rigorosa
bates sociais e tericos das dcadas de 60 e 70
                                                      base matemtica e esses pressupostos implci-
atravs de sua utilizao pelo filsofo marxista
                                                      tos se tornaram explcitos, a aplicao de tais
francs Louis Althusser, que fez uso das afini-
                                                      modelos a sistemas econmicos concretos re-
dades entre o conceito de problemtica e as
                                                      sultou menos esclarecedora do que a maioria
abordagens estruturalistas ento em voga na           dos economistas tinha esperado (Hahn, 1981).
lingstica e na psicanlise (ver ESTRUTURALIS-       As precondies um tanto improvveis para a
MO). Na obra de Althusser, o uso primordial do
                                                      existncia de um equilbrio econmico impem
conceito  para realizar uma periodizao dos         severas limitaes a uma aplicao significati-
escritos de Marx em termos de transformaes          va de modelos de equilbrio.
subjacentes em suas problemticas. Central                Ao inverter todo o quadro de referncia
nessa periodizao  o contraste entre as pro-        terico, os modelos evolucionrios abordam de
blemticas "humanistas" dos primeiros escritos        outro modo o problema bsico da ordem eco-
de Marx e a problemtica "cientfica" do mate-        nmica. Eles incorporam a informao incom-
rialismo histrico que foi constituda de 1845        pleta e a anteviso incerta como axiomas e
em diante. Correspondncias verbais entre os          prescindem da idia clssica do homem econ-
primeiros e os ltimos textos podem ser conci-        mico como agente maximizante de lucro e van-
liadas com essa tese de um "corte epistemol-         tagens. Em artigo pioneiro (1950), A.A. Al-
gico", na condio de que seja empregada uma          chian esboou os princpios bsicos de um mo-
"leitura sintomal": a "superfcie emprica" de        delo evolucionrio. Ele identifica as contra-
um texto no expe imediatamente a sua pro-           partes econmicas dos mecanismos biolgicos
blemtica. A obra terica (tendo por modelo           da evoluo -- mutao, seleo natural e he-
uma investigao psicanaltica) tem que ser           reditariedade gentica -- como inovao, rea-
realizada para expor as determinantes tericas,       lizao de lucros positivos e imitao. Alchian
freqentemente contraditrias, subjacentes nos        concentra-se no mecanismo seletivo da econo-
textos. Althusser e seus colegas tambm empre-        mia como um sistema social em que as moti-
garam o conceito de problemtica como forma           vaes individuais deixaram de ser essenciais.
de representar a estrutura lgica da prpria cr-     Seja qual for a natureza da motivao indivi-
tica de Marx, em O capital,  economia poltica       dual e mesmo que as decises econmicas se-
clssica.                                             jam completamente aleatrias, s os partici-
                                                      pantes que realizarem lucros positivos conti-
Leitura sugerida: Althusser, Louis 1965: Pour Marx,   nuaro no processo econmico. Enquanto tal
especialmente o verbete do glossrio.                 comportamento econmico for considerado
                                      TED BENTON      aleatrio ou fruto de tentativa e erro, no poder
610   processos evolucionrios na sociedade


explicar mais do que variaes cegas. Que va-      verbal, mas isso  agora compensado em grau
riao acabar sendo, por fim, uma inovao,       crescente pela construo e teste de modelos de
seja ela deliberadamente obtida ou no, s pode    computador que visam simular os processos
ser descoberto quando ela tiver sido bem-suce-     estocsticos da evoluo econmica.
dida. As inovaes s podem ser identificadas         Ver tambm CRESCIMENTO ECONMICO; ESCO-
a posteriori, depois de terem sido selecionadas.   LHA RACIONAL, TEORIA DA; EVOLUO; DIVISO DO
Trabalhando com variao e seleo, Alchian        TRABALHO.
incorporou a esse modelo mais um mecanismo
                                                   Leitura sugerida: Nelson, Richard R. e Winter, Sid-
a fim de explicar a uniformidade observada         ney G. 1981: An Evolutionary Theory of Economic
entre as variaes selecionadas e bem-sucedi-      Change.
das na economia. Esse mecanismo pode ser                                                  KAY JUNGE
considerado o adequado para a reteno. Fun-
ciona na base da imitao. A imitao dos pa-      processos evolucionrios na sociedade
dres de ao associados a xitos pretritos       So as mudanas causadas no interior da es-
parece servir como boa estratgia para os atores   trutura social por uma reteno seletiva de va-
que enfrentam um meio ambiente incerto e           riaes aleatrias desviantes. A explicao dos
demasiado complexo.                                processos evolucionrios passou a ser um
    Em uma veia semelhante, H.C. White             empreendimento interdisciplinar muito abran-
(1981) apontou que a diferenciao de merca-       gente na cincia moderna. Nas cincias sociais,
dos pode ser entendida em termos da observa-       s recentemente se libertou de uma noo pro-
o e imitao do comportamento bem-sucedi-        videncialista, unilinear, da histria humana que
do. Essa espcie de orientao gera "paneli-       dominou o pensamento social do sculo XIX
nhas" de firmas auto-reprodutoras. Um merca-       (Auguste Comte, Karl Marx, Herbert Spencer).
do deixa ento de ser entendido e definido como    Essa espcie de evolucionismo tinha a ambio,
um conjunto de compradores, mas pode ser           por vezes manifesta, de vir a ser uma nova
visto como uma estrutura historicamente for-       forma de religio secular. Ainda hoje o termo
mada de papis distribudos entre um conjunto      "evoluo"  usado, embora com menos fre-
estvel de firmas produtoras, ou como uma          qncia, em seu sentido pr-darwiniano, como
"ecologia de nichos em meio a uma multido         sinnimo de desenvolvimento e progresso, e
de organismos concorrentes" (White, 1981,          quase todos os crticos pensam em tais aborda-
p.526). Qualquer inovao dentro de tal contex-    gens como sendo seu alvo (Nisbet, 1986). Para
to destruir, pelo menos em parte, a ecologia de   evitar semelhantes crticas, as mais recentes
nichos existente e lhe dar novo formato. As       tentativas ps-darwinianas concebem um pro-
inovaes tornam-se bem-sucedidas atravs de       cesso evolucionrio que se desenrola de modo
um processo evolucionrio de "destruio cria-     mais limitado e operacionalmente especificado
tiva" (Schumpeter, 1942). Os processos evolu-      (Toulmin, 1972, p.319-56). Para observar um
cionrios em economia so processos de deriva      processo evolucionrio, cumpre distinguir en-
que formam sua prpria histria mediante a         tre um mecanismo de variao cega e um me-
seleo de variaes aleatrias. No pode haver    canismo de reteno seletiva. S essa distino
garantia antecipada de que algumas delas no       nos permite reconhecer o carter evolucionrio
redundem em desastre. Entretanto, embora se-       de um processo social e no meramente algum
jam construdos nos terrenos precrios do alea-    tipo de desenvolvimento auto-expansivo.
trio, esses processos fornecem, no obstante,         A maioria dos socilogos restringe-se hoje
estruturas temporariamente estveis e idneas      a sistemas de significado e  sua realizao
que podem orientar o comportamento econmi-        comunicativa. Eles mostram-se extremamente
co.                                                cautelosos a respeito da mais ampla interao
    Observar a economia como um sistema es-        possvel entre a evoluo biolgica e a social, e
truturado por processos evolucionrios tem a       consideram essas matrias irrelevantes para a
vantagem de uma apreenso mais completa dos        anlise da sociedade. Entretanto, isso foi certa-
aspectos cruciais da vida econmica do que a       mente diferente durante os mais recuados es-
maioria dos outros modelos de equilbrio pode-     tgios da evoluo humana, e alguns bilogos
ria manipular. At recentemente essa vantagem      e antroplogos comearam a focalizar em
s podia ser obtida ao preo da impreciso         maior detalhe a co-evoluo e a conjugao
                                                      processos evolucionrios na sociedade        611


estrutural entre os sistemas de herana ou nveis       Toda e qualquer comunicao pode ser ne-
de seleo gentica e cultural (Boyd e Richer-      gada, e uma comunicao desviante, em es-
son, 1985).                                         pecial, corre o risco de ser rejeitada. A aceitabi-
    Os processos evolucionrios, em um certo        lidade de comunicaes desviantes, ou seja, a
-- mas freqentemente subestimado -- grau,          sua seleo para serem integradas no padro
no podem ser calculados de antemo. Qual-          geral de expectativas,  altamente improvvel
quer teoria sociolgica que tente observ-los,      em uma estrutura social que esteja limitada
pode, no mximo, avaliar o mbito de futuras        pelas restries da interao face a face. Essas
possibilidades e tipos de avanos decisivos po-     limitaes dissolveram-se historicamente com
tenciais, enquanto que o desfecho definitivo        a expanso das possibilidades comunicativas
ser necessariamente uma questo de acaso.          para alm do mbito de tal interao, como
Eles podem criar uma nova ordem temporaria-         resultado da inveno da escrita, dos sistemas
mente estvel baseada na seleo de tais va-        de escrita fontica ou seus equivalentes, da
riaes aleatrias, enquanto essa nova ordem        imprensa e, em grau ainda no observvel, da
muda de novo e talvez aumente a probabilidade       inveno da mdia eletrnica. Esses recursos
de uma seleo de eventos que, antes dessa          tornaram possvel um desligamento do meca-
ordem existir, tinha que ser considerada inteira-   nismo evolucionrio de variao e estimularam
mente impossvel. Toda a seleo de uma nova        a evoluo de meios de comunicao simboli-
variao condiciona a gama de futuras pos-          camente generalizados com novos mecanismos
sibilidades admissveis. Um processo evolucio-      de seleo. Esses meios, por exemplo, dinheiro,
nrio no  necessariamente direcional e nunca      poder simblico, verdade cientfica ou amor
 unidirecional. A evoluo no subentende a        romntico, tornaram a comunicao desviante
inevitvel seleo do mais complexo (Axelrod,       aceitvel desde que adira aos padres especfi-
1984) nem tende para a adaptao ambiental.         cos de comportamento definidos por um dos
No existe controle de padres pelos quais ela      diferentes cdigos desses meios. Sendo assim,
possa ser aferida de antemo, embora tais pa-       pode-se ento esperar que, por exemplo, o c-
dres possam existir nos olhos do observador        digo monetrio venha a ter xito, apesar de
ou ser sobrepostos aos dados ex post facto          costumes locais e advertncias morais, que o
(Weick, 1979; Luhmann, 1982).                       poder poltico estabelea os seus prprios pa-
    A evoluo acelerada da sociedade no mun-       dres ticos independentemente de preocupa-
do moderno pode ser avaliada considerando-se        es religiosas, que a verdade cientfica se li-
a crescente diferenciao entre os mecanismos       berte da influncia poltica imediata, que o
bsicos da prpria evoluo, ou seja, a separa-     amor triunfe a despeito das obrigaes de status
o de variao, seleo e reteno (Luhmann,       etc. Tais cdigos facilitam a autonomia de sub-
1982). Essa evoluo da evoluo dentro da          sistemas especficos da sociedade na medida
sociedade, isto , dentro de um sistema de co-      em que impem sua reproduo recursiva. Es-
municao, no pode ser adequadamente enten-        ses subsistemas adquirem novos graus de liber-
dida contando-se com pessoas (ver DARWINISMO        dade que lhes eram inacessveis antes da ocor-
SOCIAL) ou idias como os elementos de sele-        rncia desse processo de desligamento evolu-
o. Uma variao no processo de comunicao        cionrio. A diferenciao da sociedade em v-
deve ser uma diferena que tem importncia no       rios subsistemas mais ou menos autnomos
contexto de novas comunicaes. Pode ser            estabiliza os procedimentos seletivos de seus
identificada como uma comunicao desviante,        diferentes meios e os adota, desse modo, com
isto , que no obedece ao padro de expectati-     um mecanismo de reteno.
vas vigente. Esses atos podem ser caracteriza-          Desde o seu desligamento evolucionrio, os
dos como cegos ou aleatrios porque a sua           muitos subsistemas da sociedade no mundo
justificao sempre ocorre somente depois de        moderno tornaram-se cada vez mais autnomos
terem sido gerados e testados (Weick, 1979),        e imprevisveis, no s em relao uns aos
p.123). Usualmente, tais atos sero punidos,        outros mas at para eles mesmos. Os processos
mas a experincia de atos desviantes de comu-       evolucionrios em sociedade diferenciam-se e
nicao tambm poderia causar uma mudana           aceleram-se, e, com essa evoluo da evoluo
na estrutura de expectativas e ser finalmente       a sociedade moderna perde um centro e se torna
incorporada a ela.                                  cada vez menos conservadora. O que uma teoria
612    profisses liberais


da evoluo social tem a oferecer  um melhor             o como um processo crucial para o surgi-
entendimento desses processos evolucionrios              mento da sociedade moderna, com a ascenso
que formam a sociedade do mundo moderno.                  de profisses caracterizadas por critrios "ra-
Ela pode demonstrar a improbabilidade de sua              cionais" de recrutamento e desempenho. Essa
deriva evolucionria e refletir os numerosos              questo est inserida tambm na abordagem de
riscos de distines diferentes que poderiam              "trao" da anlise das profisses. A segunda e
funcionar como diretrizes para a autodescrio            frtil questo apresentou o problema: as profis-
da sociedade. Entretanto a evoluo prosse-               ses liberais desempenham um papel ou funo
guir como um processo indirigvel.                       especial na sociedade moderna? As implica-
    Ver tambm DIFERENCIAO SOCIAL; EVOLU-               es gerais dessa questo foram exploradas por
O; HISTORICISMO; SOCIEDADE ABERTA.                      mile Durkheim (1950), o qual afirmou que,
                                                          em sociedades em processo de industrializao,
Leitura sugerida: Luhmann, N. 1982: "The differen-
tiation of society". In The Differentiation of Society,
                                                          cada vez mais fragmentadas por uma diviso
p.229-54  Schmid, Michael e Wuketits, Franz, orgs.        "forada" do trabalho, a "corporao profis-
1987: Evolutionary Theory in Social Science.              sional" era a nica instituio social capaz de
                                          KAY JUNGE       gerar uma nova ordem moral, mediando entre
                                                          a regulamentao burocrtica do estado moder-
profisses liberais No existe uma nica                  no e o indivduo anmico. Uma vez mais, po-
definio geralmente aceita de profisso liberal.         rm, essa questo viu-se freqentemente redu-
Na verdade, h uma considervel literatura --             zida  busca de alguma qualidade essencial
freqentemente citada como a perspectiva de               compartilhada por todos os profissionais libe-
"trao" ou de "atribuio" -- que consiste na             rais, com seu altrusmo coletivo ou sua orienta-
tentativa, em grande parte estril, de identificar        o para o servio (Parsons, 1951). Essa pers-
os elementos comuns a todas essas ocupaes               pectiva indica que os nveis relativamente ele-
(Greenwood, 1957; Millerson, 1964). A des-                vados de status e poder de que desfrutam os
peito das dificuldades envolvidas em se chegar            profissionais liberais explicam-se por sua auto-
a um acordo sobre o que  uma profisso liberal,          ridade e competncia, e que o reconhecimento
reconhece-se geralmente que o sculo XX foi               dessa superioridade de saber torna o cliente
marcado por um grande aumento no nmero de                vulnervel e explorvel. Do mesmo modo, o
profisses que reivindicam o status de liberais,          altrusmo coletivo de uma profisso liberal
desejando assegurar-se monoplios jurdicos               pode ser observado no fato de o cliente estar
de ttulo e exerccio e tentando criar sistemas de        protegido, a comunidade servida e os privil-
controle de colegas sobre a admisso e o treina-          gios do profissional justificados, em ltima an-
mento. Tambm se concorda que esse processo               lise, pelos cdigos de tica de conduta impostos
de profissionalizao vem adquirindo impulso,             pelos colegas.
desde o comeo do sculo XIX, em associao                   A viso "altrusta" ou "funcional" das pro-
com a crescente complexidade da DIVISO DO                fisses (ver FUNCIONALISMO) tem razes na obra
TRABALHO. A literatura est, porm, profunda-             de Durkheim sobre a diviso do trabalho (1893)
mente dividida em torno da questo do poder               e em The Professions, de Carr-Saunders e Wil-
profissional. H os que, como Daniel Bell                 son, publicado em 1933, mesmo ano em que
(1974), identificaram os profissionais liberais           saa a primeira edio em ingls de De la divi-
com os novos e poderosos detentores de co-                sion du travail social, de Durkheim (com o
nhecimentos da sociedade ps-industrial, en-              ttulo de The Division of Labour in Society ).
quanto outros (Haug, 1973) assinalaram o de-              Durkheim procurou encorajar o desenvolvi-
clnio em status e poder dos profissionais libe-          mento de associaes profissionais em todas as
rais em uma era cada vez mais burocrtica e               reas de trabalho fragmentado e especializado,
ctica.                                                   substituindo assim o parentesco como a princi-
    Duas questes tm caracteristicamente regi-           pal fonte de solidariedade social. Carr-Saunders
do o pensamento social a respeito das profisses          e Wilson consideraram as profisses liberais
liberais modernas. Em primeiro lugar, em que              inglesas igualmente fundamentais para o bem-
medida as profisses liberais constituem um               estar da sociedade democrtica, identificando
produto mpar da diviso do trabalho? Weber               em seus cdigos de tica e suas formas de
(1921-22), por exemplo, viu a profissionaliza-            autoridade corporativa -- em contraste com a
                                                                            profisses liberais   613


burocrtica -- a melhor defesa contra as "foras    dentes, mais significativas na formao da di-
grosseiras que ameaam a constante e pacfica       viso do trabalho do que um produto dela --
evoluo da sociedade", a saber, o estado e os      parte do processo mais amplo de formao de
"exploradores" da opinio pblica.                  classes (Parkin, 1979).
    Esses temas "funcionalistas" foram ainda            Embora os tericos do "monoplio" concor-
mais desenvolvidos no perodo posterior  Se-       dem geralmente com os "funcionalistas" em
gunda Guerra Mundial por socilogos norte-          que uma estratgia de profissionalismo bem-su-
americanos que enfatizaram as funes positi-       cedida est associada a uma reivindicao ocu-
vas desempenhadas por associaes de colegas        pacional de conhecimentos e qualificaes es-
profissionais para assegurar que os sistemas de     peciais, exigindo muito anos de estudo e treina-
conhecimento que exerceram um "poderoso             mento, eles tendem a discordar quanto  direo
controle sobre a natureza e a sociedade" (Bar-      do vnculo causal. Ou seja, enquanto os "fun-
ber, 1963, p.672) fossem mobilizados no inte-       cionalistas" sustentam que conhecimento eso-
resse da comunidade e do indivduo. Tambm          trico e escassa eficincia prtica so as con-
se sustentou que, como s os profissionais libe-    dies primrias para garantir o privilgio pro-
rais entendiam plenamente as implicaes de         fissional, os tericos do "monoplio" invertem
sua prpria prtica, tambm era natural que lhes    a assero, sustentando que o poder profissional
fosse atribudo um papel predominante no con-       de controlar o mercado -- freqentemente com
trole do seu exerccio e os recompensassem          apoio do estado -- levou  aceitao pblica do
generosamente em termos materiais e de status       conhecimento bsico e  legitimao de quali-
por assim procederem.                               ficaes jurisdicionais (Abbott, 1988). As im-
    Entretanto, a partir de meados da dcada de     plicaes de tal perspectiva levaram a uma
60, tem havido uma perda de f no altrusmo         focalizao no egosmo inerente  estratgia de
profissional, um crescente foco sobre o poder       profissionalizao, assim como no potencial
profissional monopolstico como fora de ex-        para uma relao de explorao entre o profis-
plorao e um ceticismo quanto aos efeitos          sional liberal e o cliente.
benficos do profissionalismo como estratgia           Em face de discordncias to fundamentais,
para o avano ou mobilidade ocupacional cole-       a ausncia de uma definio unanimemente
tiva. Essa perspectiva "radical" tem se concen-     aceita de profisso liberal no causa surpresa.
trado nos efeitos disfuncionais do profissiona-     A tentativa mais bem-sucedida de superar as
lismo como mecanismo de dominao do mer-           aparentes contradies encontra-se na obra de
cado e como produto de um relacionamento            Eliot Freidson, que, em sua anlise da profisso
conspiratrio entre o estado e o profissional       mdica norte-americana, afirma ser possvel a
liberal, gerando estruturas de controle social      uma profisso liberal permanecer autnoma
(Gilb, 1966, Navarro, 1976). Uma fonte in-          mesmo quando se submete  "custdia proteto-
fluente dessa tradio alternativa  o liberalis-   ra" do estado (1970, p.24), pois os estados
mo clssico de Adam Smith, com sua hos-             modernos, sejam quais forem as suas incli-
tilidade a todos os clubes, corporaes, "igreji-   naes ideolgicas, deixam uniformemente nas
nhas", "cabalas" e cartis que ameaavam o          mos dos profissionais liberais o controle dos
livre funcionamento do mercado; uma tradio        aspectos tcnicos de seu trabalho (ver tambm
expressa nos escritos de economistas como           TECNOCRACIA). Por conseguinte, a interveno
Milton Friedman (1962), assim como na polti-       estatal em medicina no abala a autonomia do
ca da dcada de 80 associada ao thatcherismo        julgamento profissional.
no Reino Unido e ao reaganismo nos Estados              Entretanto, embora a maioria dos analistas
Unidos.                                             aceite que a medicina e o direito so profisses
    O ceticismo tambm tem caracterizado o          autnomas "clssicas", na acepo de Freidson,
pensamento sociolgico mais recente, sobretu-       h pouca unanimidade para alm desse ponto.
do com o surgimento do que se designou como         As dificuldades so encontradas quando se pre-
teoria da "dominao" ou do "monoplio". Es-        tende equiparar o profissionalismo liberal "ver-
sa literatura identifica o profissionalismo como    dadeiro" com o ethos comercial do farmacuti-
uma estratgia coletivista para o controle mo-      co, os locais de trabalho burocrtico do conta-
nopolstico de jurisdies profissionais (Lar-      bilista, a submisso do arquiteto ao patrocnio
son, 1977) e um sistema de prticas exclu-          do seu cliente ou o papel de funcionrio pblico
614    progresso


do servidor civil. Por conseguinte, desenvol-               freqentemente de um grupo organizado, guia-
veu-se toda uma gama de conceitos para lidar                do pelo conhecimento crescente da natureza,
com o problema das "semiprofisses", das pro-               pudesse realizar metas definidas de melhoria da
fisses "marginais" e "burocrticas", das "sub-             "condio humana" de forma objetivamente
profisses" e das "pseudoprofisses". Tais ter-             mensurvel -- e de que tal esforo  de grande
mos tm sido aplicados  maioria das ocu-                   valor moral e espiritual. Essa idia, a par das
paes hbridas que tm reivindicado o status               instituies de governo representativo baseadas
de profisso liberal ao longo do sculo XX. Os              no sufrgio universal, tem sido a fora de mais
tericos do "monoplio" reagiram afirmando                  duradoura influncia no mundo moderno.
que a identificao de uma ocupao como                        O progresso, como idia e ideal, surgiu de
profisso liberal tem menos a ver com a reali-              sbito no sculo XVII, na Inglaterra, e seu
dade de uma diviso do trabalho em que uma                  formulador clssico foi sir Francis Bacon que,
associao de classe controla efetivamente as               em A nova Atlntida (obra publicada de 1627),
suas prprias prticas profissionais do que com             exigiu um grande empreendimento, mobilizan-
a estratgia coletiva de profissionalismo como              do oficinas, laboratrios etc., que propiciasse 
meio de promoo ocupacional (Johnson, 1984).               espcie humana um conhecimento da natureza
Leitura sugerida: Abbott, Andrew 1988: The System
                                                            altamente ampliado e corrigido, e pusesse fim
of Profession: an Essay on the Division of Expert Labor      estagnao de muitos sculos. Ento, a infeliz
 Bell D. 1974: The Coming of Post-industrial Society:       humanidade, como uma herdeira por largo tem-
a Venture in Social Forecasting  Carr-Saunders, A.M.        po rejeitada, ganharia seu prprio rumo e sua
e Wilson, P.A. 1933 (1964): The Professions  Durk-          independncia: "poder e domnio absoluto da
heim, mile 1950: Leons de sociologie. Physique des        humanidade em geral sobre o universo inteiro".
moeurs et du droit  Freidson, Eliot 1970: Profession of
                                                            A soluo para tudo est concentrada em uma
Medicine: a Study in the Sociology of Applied Know-
ledge  Greenwood, E. 1957: "Attributes of a profes-         operao coerentemente planejada e dirigida.
sion". Social Work 3, 44-55  Haug, M.R. 1973: "De-          Um corolrio significativo  que esses em-
professionalization: an alternative hypothesis for the      preendedores, diferentemente de seus humildes
future". Sociological Review Monograph 20, 195-211          predecessores de eras passadas, tornar-se-iam
 Johnson, Terry 1972: Professions and Power  Kar-           com efeito heris culturais.
son, Magali Sarfatti 1977: The Rise of Professionalism:
a Sociological Analysis  Parsons, J. 1949: "The pro-            Bacon, enfaticamente, no considerou esse
fessions and social structure". In Essays in Sociological   grande empreendimento como parte de qual-
Theory Pure and Applied.                                    quer padro de histria, em movimento ascen-
                                      TERRY JOHNSON         dente, fosse ocorrido no passado ou em direo
                                                            ao futuro. Postulou ciclos, altos e baixos, tanto
progresso Saltos  frente tm ocorrido ao longo             para as naes quanto para os indivduos; mas,
de toda a experincia humana. Mesmo na Idade                diferentemente da noo medieval de fortuna,
Mdia, que por muito tempo se pensou ter sido               a sua teoria sups que os ciclos podiam ser
um perodo de quase estagnao, foram realiza-              controlados por esforo consciente. No podia
dos importantes avanos em tecnologia.                      haver qualquer garantia de que a grande mudan-
Houve, por exemplo, os grandes progressos na                a por ele entrevista duraria para sempre; so-
arquitetura e engenharia requeridos para cons-              mente a vigilncia constante pode impedir o
truir as catedrais gticas. Francis Bacon citou             retrocesso. Por outro lado, a sua investigao da
trs deles ocorridos antes do seu tempo: as                 natureza no  o que chamaramos cincia pura.
invenes da bssola, da plvora e da imprensa.             Com efeito, os filsofos naturais da Idade M-
Mas ocorreram, por assim dizer, inconsciente-               dia, com uma atitude aristocrtica em relao a
mente. Nenhum deles foi pensado como "pro-                  seus estudos e limitados pela autoridade para-
gresso" -- eram simplesmente engenhosos ex-                 lisante de Aristteles, tinham sido excessiva-
pedientes criados por pessoas, na maior parte               mente "puros", mantendo-se isolados das preo-
annimas, para satisfazer necessidades imedia-              cupaes prticas da sociedade. O teste do es-
tas. A filosofia, o raciocnio acerca das leis da           foro cientfico  pragmtico: "o que  mais til
natureza, no tinha qualquer participao, e os             em funcionamento, esse  o conhecimento mais
seus criadores eram artesos ou mecnicos.                  verdadeiro". Essa viso das possibilidades do
    Faltava a idia de progresso, por exemplo, a            progresso humano, obtida por intermdio de
idia de que o esforo intencional, concentrado,            Thomas Hobbes, tornou-se a inspirao da
                                                                                     progresso    615


Royal Society (fundada em 1660). Foi predo-         tem sido o mais influente de todos os livros da
minante no Iluminismo, que na verdade contri-       Bblia na maior parte da cristandade. Pensou-se
buiu muito para cri-la. A idia de progresso       que predizia o constante recrudescimento do
representa uma das grandes mudanas na cons-        mal e o declnio geral at a interveno divina
cincia humana em todos os tempos; entretanto       com o julgamento, aps o que a histria cessaria
teria sido inconcebvel em qualquer lugar, em       e a Terra seria transformada. Esse modelo linear
qualquer poca, antes da Gr-Bretanha seiscen-      da histria do mundo substituiu o modelo cls-
tista. E o seu domnio em naes "desenvolvi-       sico de uma interminvel sucesso de ciclos e
das"  a mais importante diferena entre elas e     mudanas sem significado. O padro linear
as outras.                                          apocalptico foi substitudo, depois da Refor-
    Os imensos benefcios que essa idia pro-       ma, por outro modelo linear, dessa vez na dire-
porcionou indiretamente so to evidentes que       o oposta: que Deus est julgando e guiando
os problemas que ela tambm originou tendem         os eventos histricos em uma progressiva eli-
a ser obscurecidos; entretanto, situam-se entre     minao dos males, at que se estabelea, en-
os mais importantes do final do sculo XX. O        fim, uma era milenar de paz, prosperidade e
"progresso" tornou-se o ideal que expulsa todos     justia. A Reforma e a Guerra Civil americana
os outros, como a espiritualidade e o aprimora-     foram interpretadas por muitos protestantes co-
mento pessoal. O fato de que deve ser determi-      mo dois grandes exemplos da ao de Deus na
nado por padres objetivos, inevitavelmente         histria.
quase quantitativos,  de extrema importncia.          Esquemas de interpretao histrica que so
Produziu um culto da mudana (ver tambm            no-religiosos, ou at opostos  religio --
MUDANA SOCIAL; MUDANA TECNOLGICA), im-           como o comtismo, o hegelianismo e o marxis-
portante fonte de alienao entre as naes oci-    mo --, devem dois elementos essenciais a essa
dentais e outras para as quais a preservao de     mudana de interpretao histrica. Em primei-
herana, de um modo de vida divinamente re-         ro lugar, a histria  vista como linear, seguindo
velado,  o objetivo primordial. A invocao do     um rumo ascendente. Em segundo lugar, as
mundo mgico contm a sua prpria justifica-        teorias apocalpticas consideram os grandes
o: assim, partidos polticos apropriaram-se da    acontecimentos predeterminados, cabendo ao
palavra "progressista", pois sua presena nos       indivduo a obrigao de desempenhar o papel
nomes deles era garantia automtica da exce-        que lhe foi destinado no grande drama. Confli-
lncia e legitimidade de seus programas e metas     tos de vrias espcies, como as grandes batalhas
de governo. A sua preponderncia acarretou o        do Apocalipse, so os motores desse progresso
desprezo, at mesmo a rejeio do passado. Tal      universal. (Ver tambm HISTORICISMO.)
atitude estendeu-se, inclusive, a campos em que         Por fim, a idia de progresso propriamente
a mudana e os padres objetivos de "avano"        dito tampouco deve ser confundida com pro-
no so os critrios principais -- como progres-    gresso atravs da EVOLUO. Assim, Erasmus
so em poesia, progresso em religio.                Darwin, na Zoonomia, escrita em 1794-96, de-
    Essa idia de progresso promovida pelo Ilu-     lineou um determinado movimento evolutivo
minismo deveria distinguir-se claramente de         ascendente ao longo da Grande Cadeia do Ser.
outro conceito de progresso, com o qual  usual-    Embora seu neto Charles abalasse de maneira
mente confundida -- a noo de um inevitvel        eficaz essa viso de otimismo com a sua teoria
progresso atravs da histria ou mesmo do cos-      da seleo natural, a idia de evoluo progres-
mo, rumo a uma utopia terminal. O mestre-           siva perdurou, culminando na filosofia de Tei-
escola Deasey, no Ulisses de James Joyce, pro-      lhard de Chardin, que v o universo caminhan-
clama que "toda a histria humana caminha           do para um Ponto mega, a fuso da conscin-
para uma grande meta, a manifestao de             cia do indivduo com a do Cristo. Entretanto,
Deus". Essa idia  tambm "moderna"; teria         por diferentes que sejam essas concepes de
sido inconcebvel em qualquer poca anterior        "progresso", elas tm em comum a atmosfera
aos tempos recentes. A sua raiz no est na idia   de otimismo que emergiu no sculo XVII, com
baconiana de progresso como possibilidade           a f no valor supremo da mudana.
apenas, mas nos padres apocalpticos da his-           As duas idias de progresso acima definidas
tria. O Livro do Apocalipse, que supostamente      dominaram a histria do sculo XX. A limitada,
prev o futuro com base na autoridade divina,       baconiana, foi empregada, com efeito, in-
616   propaganda


meras vezes, produzindo imensos avanos em          Leitura sugerida: Bury, J.B. 1923: The Idea of Pro-
reas que vo da medicina  guerra. Pode ser        gress  Giuberg, Achsch 1986: The Map of Time: Se-
                                                    venteenth Century English Literature and Ideas of Pat-
uma das razes principais do grande sucesso         terns in History  Jones, Richard Foster 1961 (1982):
tecnolgico nas naes da Europa Ocidental e        Ancients and Moderns: a Study in the Rise of the Scien-
nos Estados Unidos, em contraste com outras         tific Movement in Seventeenth Century England  Ku-
que s recentemente depararam com essa idia.       mar, K. 1987: Utopia and Anti-Utopia in Modern Times
                                                     Nisbet, Robert 1980: History of the Idea of Progress
    A f no progresso teleolgico histrico teve,
                                                     Rossi, Paolo 1968: Francis Bacon: from Magic to
em contraste, uma influncia determinante e         Science  Tuveson, Ernest Lee 1949 (1964): Millen-
geralmente negativa na histria do sculo. Est     nium and Utopia: a Study in the Background of the Idea
no mago das grandes ideologias -- Destino          of Progress  1968: Redeemer Nation: the Idea of Ame-
Manifesto, comunismos nacionais, nazismo --,        rica's Millennial Role  Webster, Charles 1975: The
todas baseadas em alguma noo de movimen-          Great Instauration.
to predeterminado rumo a uma UTOPIA, por                                               ERNEST TUVESON
muito que as concepes dessa utopia possam
variar. Essas metanarrativas, dominando e de-       propaganda Pode ser definida como a tenta-
terminando todos os aspectos da sociedade e da      tiva deliberada de uns poucos de influenciar as
cultura, so em essncia variantes do original      atitudes e o comportamento de muitos pela
padro apocalptico, como, por exemplo, o           manipulao da comunicao simblica. Em
Reich nazista, feito "para durar mil anos",        ingls, em maior grau do que em outras lnguas
uma verso do Milnio. Essas ideologias con-        europias, a palavra "propaganda" tem uma
templam o padro fixo de aes, destinadas          conotao pejorativa que torna a sua anlise
inevitavelmente ao sucesso, mas suscetveis de      objetiva extremamente difcil.
serem estorvadas e retardadas por pessoas ou            Suas origens, na organizao seiscentista da
grupos "malvolos", como os judeus na Alema-        Igreja Catlica Romana responsvel pelas ati-
nha, os "burgueses" e a religio nos pases         vidades missionrias no Novo Mundo e pela
comunistas etc. Tais indivduos e grupos devem      defesa da f no Velho Mundo, foram predomi-
ser eliminados, pois esto impedindo a realiza-     nantemente neutras. Mas na Inglaterra protes-
o da gloriosa culminao da histria, com         tante a promoo do catolicismo tinha matizes
suas infinitas vantagens para todos. A profunda     sinistros. Assim, quando a propaganda come-
desiluso do ps-modernismo com a "narrativa        ou a atrair a ateno durante a Primeira Guerra
grandiloqente" , em grande parte, uma rejei-      Mundial, tanto como atividade institucionaliza-
                                                    da, em grande escala, quanto como tema de
o aos esquemas tirnicos do "progresso" (ver
                                                    estudo acadmico, foi fcil concentrar o foco
MODERNISMO E PS-MODERNISMO).
                                                    sobre suas associaes sombrias. Embora a
    A influncia do progresso teleolgico his-      Gr-Bretanha tivesse, durante algum tempo,
trico em um pas democrtico  demonstrada         um Departamento para Propaganda em Pases
pelo fato de ele ter sido incorporado ao direito    Inimigos, no se tardou em adotar a poltica de
constitucional estadunidense. Em deciso re-        conceder ao inimigo o uso exclusivo do termo.
cente, a Suprema Corte dos Estados Unidos           Contra a "propaganda" dele, disseminaramos
mencionou "a evoluo dos padres de decn-         "informao e verdade". Hoje, a propaganda
cia que marcam o progresso de uma sociedade         ainda  amplamente considerada um expedi-
em amadurecimento" (Hudson v. McMillan,             ente para abalar a credibilidade dos adversrios.
1992). Assim, parece pressupor-se que o pro-        Seus argumentos, desacreditados pelo rtulo de
gresso moral acompanha o envelhecimento de          propaganda, no merecem refutao racional.
uma sociedade, representando cada fase um           Podem ser simplesmente desprezados, por de-
refinamento da sensibilidade em relao s an-      finio, como desonestos e invlidos. Quando
tecedentes -- pressuposto que  passvel de         somos acusados de propagandistas, passamos
questionamento, como a histria da Alemanha         logo  defensiva, tentando refutar essa alega-
neste sculo indicaria.                             o.
    O colapso da ideologia do progresso inevi-          Outra dificuldade resulta da permanente
tvel deixou um enorme vazio cujo preenchi-         imagem idealista da poltica democrtica libe-
mento talvez seja a principal tarefa do prximo     ral, a qual combina a liberdade para persuadir
sculo.                                             com o receio de ser persuadido. Apesar das
                                                                                   propaganda     617


provas evidentes fornecidas pela conduta de         uma comunicao e de um pblico, atravs de
todas as campanhas eleitorais, em todas as de-      um veculo especfico, em determinado am-
mocracias liberais, pelo menos nos ltimos 100      biente cultural e ideolgico, em um tempo e um
anos, os inocentes ainda sonham com um mun-         lugar determinados.
do poltico perfeito, no qual as escolhas so           Parece haver cinco elementos-chaves que
decididas pela avaliao racional da informa-       so comuns a toda a propaganda, seja qual for
o objetiva, isenta de presses.                   a sua inclinao ideolgica ou a causa defen-
     As definies mais populares concentram-       dida, seja qual for a ttica ou os nveis de
se na tentativa de distinguir a "verdade" que       honestidade, duplicidade ou irracionalidade en-
sustentamos das "falsidades" ou propaganda do       volvidos, e independentemente da nobreza ou
outro lado.  invariavelmente um exerccio f-      torpeza de seus objetivos. , primeiro, algo
til, pois verdade e falsidade no so as dicoto-    consciente ou deliberadamente feito para atin-
mias objetivas que muitos acreditam serem. Em       gir determinadas metas. Todos os propagandis-
sua maior parte, as asseres de fato oferecidas    tas esto tentando influenciar um pblico. Ne-
em toda a boa f so asseres de opinies ou       nhum deles tem o monoplio de qualquer tc-
crenas sobre fatos que outros, igualmente de       nica ou virtude especial. Qualquer ato de pro-
boa f, poderiam discutir. Alm disso, "os fa-      moo pode ser propaganda, e ser propaganda
tos" raramente so o mesmo que "a verdade".         na medida em que for parte de uma campanha
Muito depende dos conhecimentos de quem             deliberada para influenciar o comportamento.
fala e de quem ouve. Uma afirmao incorreta        Em segundo lugar, a propaganda tenta afetar o
feita por algum que acredita sinceramente ser      comportamento atravs da modificao de ati-
essa a verdade no  uma mentira. Uma decla-        tudes, em vez de recorrer ao emprego direto da
rao objetivamente verdadeira, feita com a         fora,  intimidao ou ao suborno. Busca a
inteno de enganar, por algum que a julgava       aparente complacncia de seus ouvintes. E pre-
falsa, pode muito bem s-lo. H ainda uma outra     sume que, embora cada indivduo possa ter um
dificuldade: uma pessoa pode aderir estrita-        conjunto singular de atitudes que lhe so pr-
mente aos fatos e ser mesmo assim mentirosa.        prias, o background nacional, cultural, social ou
Ao apresentar apenas alguns dos fatos, ignorar      econmico comum far com que ele comparti-
os contra-fatos incmodos, exagerar ou mini-        lhe suficientes atitudes coletivas para responder
mizar o significado dos fatos ou afirmar como       de forma significativa a estmulos orientados
atributos exclusivos de um lado fatos que so       para o grupo. Em terceiro lugar,  o comporta-
comuns a ambos, a pessoa pode distorcer ou          mento que constitui a principal preocupao.
enganar totalmente, embora no diga nada que        Atitudes e opinies s so importantes porque
seja, na realidade, inverdico. Dois elementos      se presume estarem na raiz da ao.  o que as
parecem ser necessrios para uma mentira:           pessoas fazem, no o que elas pensam, o que
deve-se acreditar que a declarao  falsa  luz    importa em ltima instncia. Em quarto lugar,
dos conhecimentos correntemente disponveis         a propaganda  de interesse poltico e socio-
e ela deve ser feita com a inteno de enganar.     lgico por ser, essencialmente, um fenmeno
Essas condies fazem com que seja extrema-         elitista.  a tentativa de uns poucos que tm
mente difcil determinar se um locutor  menti-     acesso  mdia como disseminadores de in-
roso ou no. O mesmo gnero de objees pode        fluenciar os muitos que s tm acesso a ela
ser feito s tentativas de descrever a propaganda   como pblico ouvinte. Finalmente, o vnculo
em funo de declaraes irracionais, contro-       entre o propagandista e o pblico se estabelece
versas ou disfuncionais.                            atravs de smbolos: objetos que podem ser
     Uma sria conseqncia da tentativa de         percebidos pelos sentidos para alm de sua pr-
identificar a propaganda por algum elemento do      pria existncia fsica; significados que lhes so
seu contedo -- uma mentira, um expediente          atribudos por seus usurios. Os smbolos incluem
capcioso ou um exagero --  a suposio de que      todas as formas de linguagem, todas as repre-
se pode torn-la ineficaz expondo os seus ardis.    sentaes grficas, msica, exposies, arte e, de
Mas a propaganda envolve muito mais que o           modo geral, tudo que pode ser percebido. O em-
contedo da mensagem.  uma comunicao             prego deliberado de smbolos com o propsito de
persuasiva situada em determinado contexto. O       se obter algum efeito pretendido pode ser chama-
efeito da propaganda decorre da interao de        do a manipulao de smbolos. Todos esses ele-
618   propriedade


mentos esto contidos na definio que encabe-          e responsabilidade comunitrios; ao passo que
a o presente verbete.                                  a propriedade para o poder e a ilimitada aquisi-
   Ver tambm OPINIO.                                  o de riqueza individual atingiram o auge na
                                                        Europa e na Amrica do Norte capitalistas do
Leitura sugerida: Altheide, D.L. e Johnson, J.M.
1980 : Bureaucratic Propaganda  Chandler, R.W.          sculo XIX. Durante o sculo XX, contudo,
1981: War of Ideas: the U.S. Propaganda Campaign in     novas restries e limitaes foram impostas 
Vietnam  Choukas, M. 1965: Propaganda Comes of          propriedade privada, e de vrias maneiras.
Age  Ellul, Jacques, 1965: Propaganda: the Forma-           Uma delas  atravs do desenvolvimento da
tion of Men's Attitudes  Jowett, G.S. e O'Donnell, V.   cidadania democrtica e a expanso dos direitos
1986: Propaganda and Persuasion  Qualter, T.H.
                                                        sociais que dotam a populao toda com um
1962: Propaganda and Psychological Warfare  1985:
Opinion Control in the Democracies.                     mnimo bsico de controle sobre os recursos
                              TERENCE H. QUALTER
                                                        para consumo pessoal. Outra  a redistribuio
                                                        de recursos atravs da tributao progressiva e
propriedade Como instituio social, regu-              da transferncia de alguns meios de produo
lamentada pelo direito e/ou pelo costume, a             importantes da propriedade privada para a p-
propriedade tem assumido formas muito diver-            blica (ver SOCIALIZAO DA ECONOMIA). Acom-
sas em diferentes tipos de sociedade. De acordo         panhando essas mudanas, houve um envolvi-
com Hobhouse (1913, p.6), a propriedade "deve           mento geralmente crescente do estado (em n-
ser concebida em termos do controle do homem            vel local, regional e nacional) na regulamenta-
sobre coisas", um controle que  reconhecido            o da economia para realizar vrios objetivos
pela sociedade, mais ou menos permanente e              polticos, entre eles a limitao da desigualdade
exclusivo; e pode ser propriedade privada (in-          econmica. As economias industriais modernas
dividual ou coletiva) ou comum (pblica). Em            e os movimentos polticos a que deram origem
todas as sociedades existe alguma propriedade           transformaram o contexto no qual a idia de
privada pessoal e, como observou Lowie (1950,           propriedade era debatida e, como apontou um
cap.6) em um estudo em que usou material                historiador (Schlatter, 1951, p.273):
comparativo de sociedades tribais e de socie-              Os direitos de propriedade no podem continuar
dades mais recentes organizadas em estados, a              sendo definidos como uma relao entre o indivduo
propriedade pessoal entre as primeiras pode                e os objetos materiais que ele criou; devem ser
incluir coisas como nomes, danas, mitos, in-              definidos como direitos sociais que determinam as
sgnias cerimoniais, presentes, armas e utens-            relaes dos vrios grupos de proprietrios e no-
lios domsticos. Por outro lado, os principais             proprietrios com o sistema de produo e prescre-
                                                           vem qual ser a participao de cada grupo no pro-
recursos econmicos (e em especial a terra) so
                                                           duto social.
propriedade comum em muitas sociedades tri-
bais, mas, com o desenvolvimento da agricul-                No obstante, apesar das medidas de redis-
tura e ainda mais, em tempos modernos, com o            tribuio e do recrudescimento dos servios de
crescimento da indstria e o surgimento do              bem-estar social, tem persistido e, sob alguns
capitalismo, a propriedade privada passa a pre-         aspectos, aumentado a grande desigualdade na
dominar.                                                distribuio de propriedade nas sociedades in-
    A distino entre propriedade pessoal (que,         dustriais. H uma concentrao macia de ca-
nas sociedades industriais avanadas no final           pital produtivo em grandes companhias, e gran-
do sculo XX, pode ser considervel para gran-          de parte desse capital  detido ou controlado por
de parcela da populao) e propriedade privada          um pequeno nmero de indivduos e famlias
dos meios de produo por uma pequena mino-             possuidores de grandes fortunas; a propriedade
ria de pessoas tem sido central nas doutrinas dos       da terra continua muito desigual em alguns
partidos socialistas e na controvrsia poltica         pases (e de maneira notria na Gr-Bretanha);
desde o sculo XIX, influenciando profunda-             e ser ou no ser proprietrio ainda determina
mente o pensamento e a poltica sociais. Os             grandes diferenas nos padres de vida (ver
sistemas de propriedade anteriores, mostrou             IGUALDADE E DESIGUALDADE). Assim, no pensa-
Hobhouse (1913), diziam respeito principal-             mento social do sculo XX, as controvrsias
mente  propriedade para o uso e, mesmo onde            sobre propriedade tm envolvido sobretudo um
a propriedade privada estava muito desenvolvi-          confronto entre CAPITALISMO e SOCIALISMO co-
da, subsistia um grau significativo de controle         mo formas alternativas de organizao econ-
                                                                                          psicanlise   619


mica e social, e esse confronto ficou mais inten-         psicanlise Como um dos movimentos inte-
so quando se estabeleceram sociedades socia-              lectuais mais significativos do sculo XX, 
listas, primeiro na Rssia e, depois de 1945, em          defensvel a tese de que a psicanlise  supera-
outros pases do Leste Europeu, na China e                da somente pelo marxismo na amplitude do seu
alhures. Mas essas sociedades desenvolveram-              impacto sobre o pensamento e a linguagem do
se subseqentemente na base de mtodos --                 mundo ocidental. A elaborao e formulao
envolvendo ditadura e represso polticas, pla-           das idias desse movimento foram, em grande
nejamento autoritrio (e, com freqncia, ine-            parte, obra de um homem, Sigmund Freud
ficiente) e formao de novos grupos privile-             (1856-1939). Embora o freudismo, diferente-
giados e dominantes -- que suscitaram genera-             mente do marxismo, nunca se tornasse o credo
lizada oposio popular, culminando finalmen-             oficial de nenhum estado,  concebvel que a
te, na Europa Oriental, no colapso de tais re-            sua influncia possa sobreviver  do marxismo.
gimes; e, como conseqncia, concepes mais                   Os ancestrais intelectuais de Freud, que pre-
individualistas de direitos de propriedade, en-           nunciaram suas idias gerais, foram Arthur
fatizando a liberdade de mercado e a iniciativa           Schopenhauer (1788-1860) e Friedrich Nietz-
privada, tm sido vigorosamente reafirmadas a             sche (1844-1900). Se Freud realmente os es-
partir da dcada de 80.                                   tudou e foi diretamente influenciado por seus
    Portanto, na dcada final do sculo XX, os            escritos, ou se, como ele prprio afirmou, se
termos em que os direitos de propriedade so              manteve deliberadamente distante deles (o que
analisados e debatidos alteraram-se de forma              no impediria uma influncia indireta atravs
significativa. De acordo com alguns pensado-              do "clima" intelectual), eis uma questo que
res, a propriedade pblica mostrou ser um fra-            nunca ficou bem esclarecida. Schopenhauer en-
casso, no s econmica mas tambm social-                sinou que a realidade subjacente do mundo, a
mente, na medida em que engendra novas (e por             coisa-em-si-mesma sobre cuja natureza o seu
vezes mais onerosas) estruturas de poder; mas             predecessor Kant indicou ser agnstica, era
outros sustentam que, em sistemas polticos               uma Vontade sombria, cega, inacessvel  razo
democrticos, certo grau de propriedade pbli-            e que nunca recebe qualquer satisfao real. Por
ca e de investimento pblico em servios infra-           vezes a Vontade gravita em torno de si mesma,
estruturais bsicos tem obtido resultados mani-           mas no se pode esperar salvao alguma, quer
festamente benficos, e que uma sociedade tec-            cedendo ou se opondo a ela. O pessimismo de
nologicamente avanada de fato depende, de                Schopenhauer combinava elementos extrados
modo substancial, de um alto nvel de forneci-            da biologia, da filosofia indiana, da teoria kan-
mento de tais servios, muito especialmente no            tiana do conhecimento e do esteticismo ociden-
campo da educao. As questes apresentadas               tal.
em recentes discusses sobre a propriedade en-                 Nietzsche aceitou o quadro geral de Scho-
volvem, pois, a natureza de um desejvel e                penhauer mas inverteu a avaliao: se a Vontade
efetivo equilbrio entre propriedade pblica e            era tudo, por que no endoss-la em vez de a
privada em alguma forma de "economia mista";              condenar? Nietzsche relacionou o tema da Von-
o grau tolervel de desigualdades de riqueza e            tade que gravita em torno de si mesma com uma
poder em uma sociedade democrtica; e, sobre-             descrio mais histrica do surgimento dos
tudo na dcada passada, a necessidade de maior            princpios morais da resignao e da submisso,
regulamentao pblica do uso da propriedade              que ele viu no cristianismo primitivo e no que
produtiva a fim de salvaguardar o meio am-                considerou ser a sua moderna continuao se-
biente natural.                                           cular, os ideais humanitrios socialistas. Toda a
                                                          tradio de Schopenhauer e Nietzsche ofere-
Leitura sugerida: Hegeds, A. 1976: Socialism and         ceu, sobretudo, uma sensibilidade para a natu-
Bureaucracy, cap.6  Hobhouse, L.T. 1913: "The his-
torical evolution of property, in fact and in idea". In
                                                          reza irracional, dominada pelo instinto e ator-
Property: its Duties and Rights, org. por Charles Gore    mentada por conflitos, e para a superficialidade
(bispo de Oxford)  Ryan, A. 1984: The Political Theo-     e inadequao das vises complacentes e oti-
ry of Property  Schlatter, Richard 1951: Private Pro-     mistas que prometem contentamento na base da
perty: the History of an Idea  Scott, John 1982: The      razo, fraternidade ou prosperidade.
Upper Classes: Property and Privilege in Britain.              A imagem freudiana ou psicanaltica dos
                                   TOM BOTTOMORE          seres humanos abalou de vez qualquer otimis-
620   psicanlise


mo mais fcil e perpetuou esse reconhecimento        cos convencionais estejam presentes no treina-
sombrio de realidades implacveis; mas tam-          mento de um analista -- seminrios, confern-
bm os dotou de uma nova e inconfundvel             cias, leituras --,  indiscutvel que o lugar cen-
direo, a qual lhes propiciou um pblico in-        tral e crucial  ocupado pela "anlise didtica",
comparavelmente mais vasto. Schopenhauer e           a anlise a que o candidato se submete com um
Nietzsche eram meramente escritores e filso-        analista mais antigo. O pressuposto inerente na
fos; mas Sigmund Freud era mdico e professor        doutrina  que o que faz um analista no  a
de medicina, e adotava, alm disso, uma viso        informao fria e abstrata adquirida, mas a
bastante materialista, positivista ou cientfica     transformao de sua prpria psique, obtida por
do mundo. Ademais, suas idias no eram apre-        sua prpria e bem-sucedida anlise. Tendo pe-
sentadas em termos abstratos, mas no contexto        netrado em seu prprio Inconsciente, e no mais
de uma tcnica teraputica definida, visando o       vtima das iluses que ele impunha, o analista
tratamento e a cura de distrbios neurticos         adequadamente treinado  agora capaz de evitar
especficos. Freud no disse meramente que os        erros auto-induzidos e de ajudar os seus pa-
seres humanos eram vtimas de impulsos vio-          cientes, por seu turno, a alcanarem finalmente
lentos, poderosos e inconscientes; ele descre-       um esclarecimento anlogo. Indiscutivelmente
veu os alegados mecanismos dessas operaes,         pressuposto em psicanlise, embora nunca de-
e a tcnica de explorao era, ao mesmo tempo,       clarado ou defendido formalmente,  o fato de
apresentada como a tcnica da cura.                  existir nela uma teoria do conhecimento muito
    Freud descobriu uma nova tcnica que pre-        clara, a saber: a aquisio da verdade no ,
tendia penetrar nas defesas da esfera do INCONS-     basicamente, problemtica (pelo menos nas es-
CIENTE, no interior do qual se forja nosso destino   feras psquicas), desde que no haja interfern-
psquico, e oferecer um acesso aos seus segre-       cia dos ardis e estratagemas do Inconsciente. A
dos, garantindo assim a obteno de resultados       remoo desses obstculos leva ao reconheci-
teraputicos; o paciente executa a "livre as-        mento da verdade, e a verdade liberta a psique
sociao" sem ter que enfrentar, idealmente,         do sofrimento desnecessrio. Por conseguinte,
constrangimentos ou embaraos de qualquer            o segredo  evitar esses erros intimamente im-
espcie, na presena do analista-terapeuta que,      postos, e o resto ser, da por diante, pura bo-
depois de certo tempo, lhe prope interpre-          nana.
taes a ttulo probatrio. Quando essas inter-          Essa excntrica teoria do conhecimento po-
pretaes, ou algumas delas, recebem final-          de ser tambm apresentada como uma nova
mente a concordncia e a aceitao por parte do      verso da abordagem socrtica, adaptada no
analisando, est a caminho uma cura. O pro-          mais a uma viso racionalista do homem, mas
cesso  intensivo e demorado: uma hora cin-          a uma viso irracional e mais plausvel sob
co vezes por semana, estendendo-se por cinco         mltiplos aspectos. O mtodo socrtico de per-
anos,  considerado bastante normal. Acres-          guntas e respostas baseava-se na suposio de
cente-se que, durante os primeiros anos do mo-       que a verdade no ser obtida por uma inves-
vimento, as anlises-iniciaes eram, com fre-       tigao externa, mas extrada do ntimo de cada
qncia, muito mais breves; que nenhuma data         um; as perguntas e respostas, por assim dizer,
terminal pode ser dada antes da concluso; e         trazem  luz, mediante um partejo lgico, os
que tanto na teoria quanto na prtica se verifica    conceitos que sempre estiveram presentes. A
freqentemente que a psicanlise no tem con-        variante freudiana do partejo no faz surgir a
cluso.                                              verdade mediante um interrogatrio preciso,
    Freud no se limitou a inventar uma nova         mas pela livre associao irrestrita, um antino-
tcnica investigativa e teraputica (que  o que     mismo cognitivo, mais adequado a um Incons-
psicanlise principalmente significa); tambm        ciente que  apaixonado e indisciplinado. Os
criou, de fato, uma nova e importante organiza-      sinais caractersticos da verdade finalmente
o em torno dela, a qual constitui, efetiva-        desvendada so o reconhecimento emocional e
mente, a corporao de psicanalistas profis-         o xito teraputico, em vez da irrefutabilidade
sionais, como tal qualificados e reconhecidos.       lgica.
A mais significativa e interessante caracters-          Seja qual for a eficcia teraputica ou inves-
tica dessa corporao  a maneira como se            tigativa desse mtodo (matria sumamente con-
impe a iniciao. Embora mtodos pedaggi-          troversa), no pode haver dvidas quanto 
                                                                                    psicanlise   621


verdade de uma doutrina psicanaltica especfi-      idias e tcnicas centrais, contudo, permane-
ca, a saber, a da "transferncia". A tcnica tera-   cem devedoras da inspirao freudiana, mesmo
putica descrita produziria um poderoso vncu-       quando a modificam de vrios modos. No
lo emocional entre os dois parceiros nela envol-     pode haver dvida de que esses movimentos
vidos. Em uma vasta proporo de casos, parece       encamparam uma parte deveras importante do
ser isso o que realmente ocorre. Tudo indica que     que poderia ser chamada a misso pastoral em
a "transferncia" assim produzida tambm se-         uma sociedade industrial instvel e agnstica.
ria, portanto, o vnculo social da organizao       A influncia das idias  ainda mais penetrante
produzida por Freud. Entretanto sustenta-se          na literatura, na linguagem corrente, nas huma-
(plausivelmente) que a transferncia pode ser        nidades e nas cincias sociais.  correto afirmar
positiva e negativa, tanto em sucesso quanto        que a terminologia freudiana se tornou a lingua-
simultaneamente. O movimento psicanaltico          gem na qual as pessoas discutem suas psiques
marcado, correspondentemente, no s pela po-        e relaes pessoais.
derosa coeso, mas tambm por uma srie de               No existe um modo simples de avaliar as
cises igualmente caractersticas, acompanha-        asseres da doutrina psicanaltica e a prtica
das de mtuas denncias. O fato de a teoria          teraputica. Sua capacidade de persuaso no 
fazer a verdade depender, no de critrios ex-       a mesma em todas as esferas e talvez seja
ternos e pblicos, mas da posse de uma psique        melhor examinar separadamente vrios aspec-
pura e esclarecida, por assim dizer, significa que   tos:
as crticas mtuas tendem a ser construdas mais
                                                     Idioma A psicanlise no conquistou mera-
em funo dos defeitos e imperfeies ntimos
                                                     mente a nossa linguagem, mas, se poderia dizer,
dos adversrios do que recorrendo  lgica ou
                                                     f-lo corretamente. O reconhecimento simult-
s provas evidentes. As cises que ocorreram
                                                     neo da importncia das pulses instintivas e da
no movimento foram de duas espcies: ou re-
                                                     complexidade e tortuosidade das formas se-
dundaram no permanente divrcio da seita dis-
                                                     mnticas em que elas se apresentam na cons-
sidente (secesso de Carl Jung e de Alfred
                                                     cincia parece fazer jus  verdade.
Adler) ou em um sectarismo mais ameno conti-
do no interior de uma igreja mais vasta (por         Teorias especficas As doutrinas mais espec-
exemplo, a existncia de um grupo freudiano          ficas encontradas dentro da psicanlise so di-
ortodoxo, um grupo kleiniano e um grupo "in-         fceis de avaliar por causa da superdotao do
termedirio" dentro da corporao psicanaltica      sistema com prticas evasivas quando se de-
britnica, continuando a trabalhar no seio da        fronta com evidente falsificao. A vaga e at
mesma organizao na base do entendimento            destacvel operacionalizao de seus concei-
de que nenhum dos trs segmentos ser o do-          tos, a pronta e eficaz acessibilidade de evases
minante). As vrias guildas nacionais (pelo me-      ad hoc fazem com que essas teorias sobrevivam
nos um pas, os Estados Unidos, tem mais de          com grande desenvoltura a refutaes evi-
uma) esto vagamente ligadas em uma associa-         dentes.
o internacional. Uma das questes prticas
                                                     Sucesso teraputico Pesquisas realizadas no
que dividem o movimento  se os analistas
                                                     corroboram, de fato, a idia de que a tcnica 
devem ser mdicos ou  possvel permitir a
                                                     terapeuticamente eficaz, ou mesmo de que seja
existncia de "analistas leigos".
                                                     prefervel a "nenhum tratamento". Embora o
     parte as corporaes psicanalticas razoa-
                                                     impacto inicial da psicanlise estivesse relacio-
velmente disciplinadas e bem-organizadas, es-
                                                     nado com seu envolvimento clnico e sua plau-
forando-se (nem sempre com xito) por reter
                                                     svel promessa teraputica, as pretenses nessa
o monoplio do ttulo de "psicanalista", h
                                                     esfera esto agora mudas e cuidadosamente
tambm um mundo enorme, voltil, fluido,
                                                     confinadas.
mal-definido e ainda largamente desconhecido
de psicoterapeutas e "conselheiros", organiza-       Teoria do conhecimento e mtodo Esto no s
dos em vrios agrupamentos, grandes ou pe-           em discrepncia com os padres consagrados
quenos, por vezes independentes e misturando         em outras esferas da investigao cientfica,
a doutrina em vrias formas e propores com         mas so excessivamente estranhos e pouqus-
outros sistemas de idias (existencialismo, fe-      simo defensveis quando submetidos a uma
nomenologia, religio convencional etc.). As         investigao imparcial.
622   psicologia


Ontologia A imagem subjacente dos seres hu-            clogos clnicos ou educacionais. A maioria dos
manos, sublinhando a importncia das pulses           psiclogos acadmicos no foi treinada para a
instintivas e a extrema complexidade, tortuosi-        prtica profissional.
dade e simulao de sua expresso consciente,              A psicologia, como disciplina acadmica e
pode ser considerada muito mais convincente            como atividade profissional, estabeleceu-se fir-
do que os seus modelos rivais disponveis, co-         memente durante o sculo XX. Hoje em dia a
mo a psicologia "associacionista". No est            maior parte das universidades do mundo oci-
claro se esse modelo  tambm uma boa base             dental oferece cursos de graduao em psicolo-
para uma psicologia mais genuinamente expla-           gia; no entanto, no comeo do sculo, havia
natria.                                               pouco ensino formal da matria. O nmero de
                                                       pessoas que se intitulavam "psiclogos" au-
Utilidade pastoral Em uma sociedade compe-
                                                       mentou consideravelmente. Por exemplo, a
titiva, fluida, atomizada, em que as relaes
                                                       American Psychological Society, fundada em
pessoais so extremamente importantes, no
                                                       1892, cresceu de uma pequena "sociedade eru-
sendo fornecidas ou preparadas de antemo
                                                       dita" para uma organizao que conta atual-
nem prescritas por uma estrutura social estvel,
                                                       mente com mais de 55 mil filiados; em concor-
e onde so objeto de grande ansiedade, a tcnica
                                                       dncia com a natureza dual da psicologia, esses
psicanaltica de encorajar as pessoas a falar
                                                       membros incluem tanto os que exercem a ativi-
livremente para um atento ouvinte profissional,
                                                       dade na rea acadmica como os que a adotam
na expectativa de que a interao proporcione
                                                       como profisso na vida prtica. Tambm h
esclarecimento e uma direo de propsito in-
                                                       pessoas sem as qualificaes oficiais concedi-
teriormente sancionada, parece mais atraente
                                                       das pelas organizaes profissionais, mas que
ou, de qualquer modo, ter um atrativo mais
                                                       se intitulam psiclogos e oferecem servios ao
amplo que qualquer alternativa existente.
                                                       pblico contra pagamento.
Leitura sugerida: Gellner, Ernest 1985: The Psychoa-       Na primeira parte deste sculo os psiclogos
nalytic Movement  Jones, Ernest 1963: The Life and     acadmicos estiveram empenhados em criar
Work of Sigmund Freud, ed. condensada, org. por Lio-   uma disciplina independente que fosse separa-
nel Trilling e Steven Marcus  MacIntyre, A.C. 1958:
The Unconscious  Magee, Bryan 1983: The Philoso-
                                                       da da filosofia. Os psiclogos proclamaram
phy of Schopenhauer  Malcolm, Janet 1982: Psychoa-     estar examinando cientificamente matrias que
nalysis: the Impossible Profession  Rycroft, Charles   at ento haviam sido objeto apenas de es-
1966: Psychoanalysis Observed  Sulloway, Frank J.      peculao filosfica. Apesar da concordncia
1980: Freud: Biologist of the Mind.                    em que a cincia emprica deveria substituir o
                                  ERNEST GELLNER       filosofar, havia escasso acordo quanto ao perfil
                                                       da nova cincia. Nessa poca a psicologia aca-
psicologia O termo  usado para descrever              dmica caracterizava-se pelas profundas divi-
tanto uma disciplina acadmica quanto uma              ses entre escolas concorrentes, tais como o
atividade profissional. Os psiclogos acadmi-         associacionismo, o comportamentalismo, a eu-
cos dedicam-se ao estudo do comportamento              genia/psicometria e a psicanlise. Cada uma
e/ou da vida mental. Tm usado grande varie-           dessas escolas afirmava ter descoberto os prin-
dade de teorias e metodologias para esse fim.          cpios bsicos da psicologia, mas havia profun-
Embora a maioria dos psiclogos acadmicos             da discordncia acerca de tais princpios. Em
tenha procurado conferir um status cientfico         suma, elas possuam diferentes filosofias da
sua disciplina, tm ocorrido discordncias fun-        psicologia.
damentais sobre a natureza da investigao psi-
colgica. Os psiclogos profissionais tm es-          Associacionismo
tado envolvidos em diferentes atividades, desde            Dominante na Alemanha no comeo do s-
o diagnstico e tratamento de problemas men-           culo, o associacionismo concentrou-se na an-
tais ou comportamentais at a seleo de in-           lise do contedo da vida mental. Usando tcni-
divduos para fins industriais e educacionais.         cas de laboratrio, os psiclogos associacionis-
Tipicamente, os psiclogos profissionais estu-         tas estavam interessados em investigar as ima-
daram psicologia acadmica; possuem normal-            gens e os estados mentais observados sob dife-
mente outras qualificaes profissionais que os        rentes condies experimentais. Estavam es-
habilitam a trabalhar, por exemplo, como psi-          pecialmente empenhados em descobrir os ele-
                                                                                   psicologia   623


mentos da experincia e, sobretudo, em decom-     caractersticas psicolgicas eram herdadas, mas
por a experincia perceptiva em seus compo-       se pensava tambm que eram mensurveis.
nentes bsicos. Os pressupostos tericos dos      Atribuiu-se grande nfase  "psicometria", ou
associacionistas foram vigorosamente questio-     construo de testes para medir diferenas in-
nados pelos psiclogos gestaltistas. Estes, em-   dividuais na personalidade, inteligncia, apti-
bora concordassem quanto  importncia do         des vocacionais etc. Com base nos resultados
estudo da experincia, especialmente atravs de   de testes, psiclogos como Charles Spearman
experimentos de laboratrio, sublinharam a ne-    afirmaram que o QI ("quociente de intelign-
cessidade de considerar o padro total de per-    cia") era predominantemente herdado, e Ray-
cepo, em vez de decompor a experincia em       mond Cattell produziu argumentos semelhan-
seus elementos individuais (ver GESTALT, PSICO-   tes para os traos de personalidade. Alm do
LOGIA DA).                                        argumento de que alguns indivduos eram cons-
                                                  titucionalmente mais inteligentes do que ou-
Comportamentalismo                                tros, havia tambm temas raciais: alegou-se
    Em reao ao associacionismo, os compor-      haver algumas "raas" mais ou menos inteli-
tamentalistas negaram a validade do estudo da     gentes do que outras. Essa escola de psicologia
experincia. Afirmaram que os psiclogos cien-    foi menos otimista que o comportamentalismo
tficos deveriam interessar-se apenas pelo com-   em sua abordagem de questes sociais: presu-
portamento exteriormente observvel e rejeita-    mindo-se que as caractersticas psicolgicas
ram o estudo da experincia interior como in-     eram, em sua maior parte, geneticamente fixa-
trinsecamente no-cientfica. Todos os concei-    das, os problemas sociais no seriam solucio-
tos mentalsticos seriam rigidamente excludos    nados mudando-se o meio ambiente. Alguns
do vocabulrio do psiclogo comportamenta-        psiclogos defenderam a eugenia, sugerindo
lista. Nos Estados Unidos, essa posio foi de-   polticas que restringissem os padres de pro-
fendida primeiro por John B. Watson (1878-        criao dos "menos aptos" e encorajassem os
1958) e mais tarde por B.F. Skinner (n.1904).     "mais aptos" a se reproduzirem. Esses temas,
Um programa no-mentalista similar foi desen-     em conjunto com os de diferenas raciais e
volvido na Unio Sovitica por Ivan Pavlov        individuais, foram adotados na dcada de 30
(1849-1936). Ambos os programas atribuam         pelos polticos fascistas (ver EUGENIA, CINCIA
grande nfase ao estudo experimental da apren-    DA; INTELIGNCIA, TESTE DE).
dizagem, com Watson, mais que Pavlov, des-
tacando o papel das recompensas e punies.       Psicanlise
Comportamentalismo e pavlovianismo afirma-            Esta escola de psicologia est associada 
ram ter descoberto, atravs de cuidadosa expe-    obra de Sigmund Freud (1856-1939), que, em
rimentao, os princpios fundamentais para se    Viena na virada do sculo, formulou uma teoria
modificar o comportamento. Afirmou-se que         da mente e uma prtica teraputica. Tal como o
esses princpios forneciam a base no s para a   associacionismo, a psicanlise interessou-se
psicologia cientfica, mas tambm para a solu-    mais pela vida mental dos indivduos do que
o de problemas sociais: se os princpios da     pelos padres manifestos e mensurveis do
aprendizagem fossem descobertos, ento have-      comportamento. Entretanto os psicanalistas
ria possibilidades ilimitadas de mudar o com-     sustentaram que os elementos mais importantes
portamento mediante a alterao do meio am-       da vida mental eram os inconscientes. De acor-
biente (ver COMPORTAMENTALISMO).                  do com a teoria psicanaltica, a mente est
                                                  fundamentalmente dividida: o inconsciente, a
Eugenia/psicometria                               parte instintiva da mente (o "id") est em per-
   Essa escola de pensamento ficou devendo        ptuo conflito com o "ego" (os elementos cons-
muito  obra pioneira de Francis Galton (1822-    cientes, racionais) e com o "superego" (o senti-
1911) e teve grande impacto no desenvolvi-        mento de conscincia). Distrbios psicolgicos
mento da psicologia britnica. Diferentemente     como neuroses e lapsos de memria podem ser
do comportamentalismo, partiu do princpio de     atribudos ao conflito entre as foras instintivas
que as possibilidades de mudana de compor-       inconscientes, principalmente a sexualidade, e
tamento estavam estritamente limitadas pela       as do ego e do superego. A terapia psicanaltica
herana gentica. No s se pressupunha que as    visa dar ao paciente um insight sobre a sua vida
624   psicologia


mental inconsciente. Freud tambm props             experincia e criticaram a filosofia do compor-
uma psicologia social psicanaltica, a qual ten-     tamentalismo.
tou explicar o crescimento da civilizao em             Durante o apogeu comportamentalista, a
funo dos sentimentos reprimidos da criana         psicanlise era um interesse predominantemen-
em relao aos pais. (Ver PSICANLISE.)              te perifrico dentro das universidades. Entre-
    Essas quatro escolas de pensamento repre-        tanto a propenso dos psicanalistas era para
sentaram vises concorrentes do que a psicolo-       ganhar a vida mais como terapeutas do que
gia deveria ser. Embora concordassem em que          como professores universitrios, e eles estabe-
a psicologia devia ser uma cincia, propuseram       leceram suas prprias organizaes profissio-
mtodos muito diferentes para a conduo da          nais. Durante a dcada de 30 o movimento
pesquisa psicolgica. Alm disso, cada uma           psicanaltico americano foi consideravelmente
indicou que os psiclogos deveriam estudar           aumentado com a chegada de grande nmero
fenmenos diferentes: experincia consciente,        de eminentes refugiados judeus, escapando s
comportamento, aptides genticas, sentimen-         perseguies nazistas na Alemanha e na us-
tos inconscientes. Propuseram ainda tipos mui-       tria. Apesar de preconceitos intelectuais e ou-
to diferentes de treinamento para psiclogos         tros, esses refugiados lograram transferir o prin-
profissionais e consideraram papis desseme-         cipal foco da psicanlise da Europa para os
                                                     Estados Unidos.
lhantes para eles no seio da sociedade.
                                                         O crescimento da psicologia comportamen-
    No mundo da psicologia acadmica, o pe-
                                                     talista coincidiu com outro desenvolvimento na
rodo de 1930 a 1960 testemunhou o contnuo
                                                     psicologia, o qual assegurou que, a longo prazo,
triunfo da escola comportamentalista, especial-
                                                     nenhum sistema, nem o comportamentalismo
mente nos Estados Unidos. As principais revis-
                                                     nem qualquer outro, obteria a completa hege-
tas de psicologia refletiram uma crescente preo-
                                                     monia. Houve um crescimento e uma separao
cupao com a experimentao comportamen-            de especialidades. Estas incluam a psicologia
tal e com os processos de aprendizagem. A anlise    fisiolgica, apoiando-se nos novos progressos
da experincia era considerada cada vez mais         da neurologia e da bioqumica, e procurando
obsoleta, at pr-cientfica, quando o que os psi-   identificar os mecanismos fisiolgicos subja-
clogos queriam era descobrir experimentalmen-       centes nos processos psicolgicos; o desenvol-
te as respostas comportamentais aos estmulos.       vimento infantil, que teve como pioneiro o psi-
Uma vez que o objetivo era construir uma psico-      clogo suo Jean Piaget (1896-1980), cuja obra
logia geral estmulo-resposta, pouco importava se    foi predominantemente dedicada  anlise das
os sujeitos experimentais eram humanos ou no.       etapas do desenvolvimento mental das crian-
Houve um considervel incremento da experi-          as; e a psicologia social, intelectualmente mais
mentao animal, com os psiclogos acumulando        prxima das cincias sociais que das cincias
vastas quantidades de dados laboratoriais sobre a    biolgicas. Novas revistas foram lanadas para
freqncia com que ratos famintos acionavam          essas subdisciplinas e se desenvolveram voca-
alavancas em busca de alimento.                      bulrios tcnicos. Deixou de ser possvel a um
    O triunfo do comportamentalismo no foi,         s indivduo tomar conhecimento e familiari-
de maneira alguma, absoluto ou universal. A          zar-se com todos os desenvolvimentos em psi-
tradio psicomtrica permaneceu forte, espe-        cologia, muito menos entend-los.  medida
cialmente na Gr-Bretanha e em partes dos            que a psicologia se tornava mais difusa, as
Estados Unidos, onde A.R. Jensen continuou           probabilidades de criao de uma disciplina
sustentando que os afro-americanos eram gene-        integrada, unificada em torno de uma nica
ticamente menos inteligentes que os brancos.         perspectiva terica, tornaram-se mais remotas.
Os testes psicomtricos tinham grande procura            Algumas das especialidades em desenvol-
por parte de educadores, industriais e autori-       vimento foram diretamente influenciadas por
dades militares, que queriam dispor de procedi-      idias no-comportamentalistas. Havia uma
mentos convenientes e cientificamente garanti-       pronunciada influncia gestaltista na psicologia
dos para classificar grande quantidades de pes-      social, porquanto os investigadores procura-
soas. Alm disso, esse perodo assistiu  publi-     vam descobrir a estrutura e funo de atitudes,
cao de algumas obras clssicas da psicologia       valores e papis (ver PSICOLOGIA SOCIAL). Foi
da Gestalt, as quais analisaram diretamente a        mais a lingstica do que a teoria psicolgica
                                                                                psicologia social    625


tradicional que forneceu boa parte do impulso      cipal deles  auxiliar na construo de mquinas
para o estudo da linguagem que se desenvolveu      que possam reconhecer padres ou "ler" docu-
na dcada de 60, e a nfase incidia mais sobre     mentos (ver INTELIGNCIA ARTIFICIAL).
o estudo dos processos mentais do que sobre o          A influncia direta das idias psicolgicas
comportamento manifesto (Miller, 1981). No        sobre a teoria social no tem sido to grande
obstante, a maioria das novas especialidades       quanto se poderia esperar. Embora alguns te-
compartilhava um compromisso com a meto-           ricos sociais de esquerda tenham adotado no-
dologia experimental, e os estilos comporta-       es psicanalticas (ver ESCOLA DE FRANK-
mentalistas de investigao eram freqente-        FURT), outros socilogos preferiram criar sua
mente retidos. Nesse sentido, havia mais uni-      prpria psicologia social em vez de recorrer em
dade metodolgica na disciplina da psicologia      massa s obras de psiclogos (ver INTERACIONIS-
acadmica do que unidade terica.                  MO SIMBLICO). Por outro lado, a influncia das
    A partir dos anos 60 esse compromisso me-      idias piagetianas sobre a teoria e a prtica
todolgico com o experimento de laboratrio        educacionais foi muito ampla. Alm disso, a
se enfraqueceu. Houve certo nmero de ataques      psicologia tem tido grande influncia na socie-
diretos. Os psiclogos "humanistas" queixa-        dade como um todo, atravs das atividades dos
ram-se de que a abordagem experimental re-         profissionais dessa rea e do treinamento de
dundara na trivializao da psicologia e na de-    educadores, gerentes de pessoal e publicitrios.
sumanizao do seu objeto de estudo (Shotter,      Acima de tais influncias diretas, houve o im-
1975). Alguns psiclogos sociais e do desen-       pacto mais difuso de noes psicolgicas nas
volvimento tambm reagiram ao compromisso          formas correntes, no-especialistas, de pensar.
com a experimentao laboratorial. Insistiam       Esse impacto  ilustrado pela maneira como
em que o comportamento devia ser estudado em       frases e expresses tcnicas entraram para o
seu contexto social (Harr e Secord, 1972), com    vocabulrio leigo: extrovertido, QI, neurtico,
especial ateno ao estudo da conversao na-      ato falho etc. Tais conceitos podem no ser
tural (Potter e Wetherell, 1987).                  elementos na espcie de teoria cientfica unifi-
    O maior enfraquecimento da tradio com-       cada em que os primeiros psiclogos tinham
portamentalista no foi provocado por crticos     posto suas esperanas; mas agora pertencem ao
s margens da disciplina, mas por uma mudana      senso comum do sculo XX e isso demonstra
central de interesse. Os ltimos 15 anos assis-    por si s o significado social da psicologia.
tiram ao desenvolvimento da psicologia cogni-      Leitura sugerida: Ash, M.G. e Woodward, W.R., orgs.
tiva, dedicada ao estudo dos processos de pen-     1987: Psychology in Twentieth Century Thought and
samento (Neisser, 1976). Muitos termos men-        Society  Freud, S. 1933 (1964): "New Introductory
talistas, que os comportamentalistas tinham de-    Lectures on Psycho-Analysis". In Standard Edition of
sejado erradicar do vocabulrio psicolgico,       the Complete Psychological Works of Sigmund Freud,
so hoje lugar-comum, e foram at incorpora-       vol.22, org. por J. Strachey  Hearnshaw, L.S. 1987:
                                                   The Shaping of Modern Psychology  Khler, W. 1947:
dos aos seus escritos pelos "neocomportamen-       Gestalt Psychology  Norman, D.A., org. 1981: Pers-
talistas". O crescimento da psicologia cognitiva   pectives on Cognitive Science  Pavlov, Ivan 1932
foi estimulado pelos desenvolvimentos na tec-      (1958): Experimental Psychology and Other Essays
nologia da informao. Construram-se mode-         Piaget, J. e Inhelder, B. 1955: Le dveloppement des

los de pensamento, sendo o crebro humano          quantits physiques chez l'enfant  Skinner, B.F. 1953:
visto como uma forma de processamento de           Science and Human Behaviour  Spearman, C.E. 1927:
                                                   The Abilities of Man.
informao em computador, embora um
                                                                                       MICHAEL BILLIG
computador muitssimo mais complexo do que
qualquer um criado por mos humanas (Newell        psicologia da Gestalt Ver GESTALT, PSICOLO-
e Simon, 1972; Marr, 1982). Um nmero signi-       GIA DA.
ficativo de psiclogos cognitivos preferiu pro-
jetar e criar modelos computadorizados de pen-     psicologia social Em termos gerais, a tarefa
samento em vez de realizar os tradicionais ex-     central da psicologia social  o estudo sistem-
perimentos de laboratrio (Winograd, 1972).       tico da relao entre fenmenos individuais e
questo controvertida se tais modelos revelam      coletivos. Essa impressionante tarefa coincide
os processos mentais que realmente ocorrem         em parte com a de outras cincias sociais, em
quando as pessoas pensam, ou se o valor prin-      particular a SOCIOLOGIA. Entretanto, a corrente
626   psicologia social


dominante da psicologia social mostra clara-        pertence e, por conseguinte, o favoritismo em
mente sua origem na psicologia. Tal como a sua      relao aos interesses e atitudes do prprio gru-
disciplina-me, encara a cincia como um em-        po foram colocados em uma base mais ampla.
preendimento hipottico-dedutivo; interpreta a      Henri Tajfel (1981) postulou ser essa uma pre-
sua tarefa central psicologicamente como o es-      disposio cognitiva universal, sejam quais fo-
tudo de indivduos sob a influncia da presena     rem os atributos definidores do grupo a que se
real, implcita ou imaginada, de outros. Seu        pertence ou dos membros dos outros grupos.
fenomenal incremento em produtividade come-         (Ver tambm GRUPO.)
ou na dcada de 30, quando o centro geogr-            Uma segunda linha de interesses desenvol-
fico de toda a psicologia se transferiu da Europa   veu-se sob a poderosa influncia de Kurt Le-
para os Estados Unidos. L, a concentrao nos      win: o estudo de pequenos grupos. A dinmica
indivduos foi ainda mais fortalecida pelo in-      de grupo investigou a influncia de estilos de
dividualismo ideolgico da cultura americana.       liderana sobre a produtividade e a coeso de
    Desde os seus comeos, a corrente principal     grupos, identificou padres de comunicao,
da psicologia social adotou uma orientao          comparou juzos individuais com decises de
cognitiva. O conceito central da disciplina  a     grupo, documentou o surgimento regular de
"atitude", j reconhecida em 1935 como indis-       papis informais na continuidade de grupos e
pensvel para o pensamento scio-psicolgico        outros aspectos estruturais. A repetida demons-
(Allport, 1935). A atitude  definida como uma      trao experimental de que a presso do grupo
combinao de crenas, sentimentos e intera-        pode induzir indivduos a negarem a evidncia
es de agir em face de aspectos do mundo           fornecida pelos seus prprios sentidos (Asch,
externo ou do prprio eu. Embora todas as           1952) fez do conformismo um tema muito es-
cincias sociais usem esse conceito, foi a psico-   tudado. Durante certo tempo, o interesse pelo
logia social que o esclareceu e o tornou mensu-     estudo experimental do funcionamento do gru-
rvel e estudado por si mesmo, no como com-        po declinou, embora a aplicao de tudo o que
plemento de outros interesses.                      tinha sido aprendido frutificasse em reas como
    Como as atitudes em relao a grupos mino-      o treinamento e a terapia de grupo. O interesse
ritrios, sobretudo o preconceito de cor e o        ressurgiu agora no estudo de liderana e em
anti-semitismo, eram uma caracterstica to         duas questes antes negligenciadas: a polariza-
perturbadora da cena social no s nos Estados      o de opinies em um grupo (em contraste com
Unidos, mas tambm nos regimes totalitrios         a nfase anterior no consenso grupal); e o poder
da Europa, o seu estudo tornou-se, e continua       de uma minoria determinada de influenciar a
sendo, um dos principais focos da pesquisa          maioria.
scio-psicolgica. A estrutura das atitudes, sua        Em virtude do compromisso da corrente
origem, influncia sobre o comportamento,           principal da psicologia social com os procedi-
propenso e relutncia para mudar foram             mentos hipottico-dedutivos, o trabalho sobre
exaustivamente documentadas. A mais conhe-          essas linhas principais e muitas linhas secun-
cida contribuio substantiva ao estudo de ati-     drias  guiado, em geral, por teorias de alcance
tudes imbudas de preconceito  The Authori-        mdio, formuladas especificamente para tpi-
tarian Personality (Adorno et al., 1950). Essa      cos da psicologia social, embora as principais
obra influente, mas tambm muito criticada,         teorias da PSICOLOGIA geral -- comportamenta-
concebeu as atitudes autoritrias como mani-        lismo, teorias da aprendizagem, psicologia da
festaes de personalidade -- e no apenas          Gestalt e psicanlise -- tambm tenham forne-
como opinies superficiais --, no inatas, mas      cido hipteses. As teorias predominantes na
inculcadas em famlias autoritrias que, por sua    psicologia social tm duas caractersticas co-
vez, refletem aspectos da cena social.              muns: seu objeto de estudo  a busca de equil-
    O pensamento corrente nesse campo am-           brio quando diante de informao discordante;
pliou a abordagem em duas direes: h uma          e, em segundo lugar, a sua origem comum
crescente percepo de que aspectos da es-          reside na obra fecunda de Fritz Heider (1958),
trutura social em cujo seio se mantm tais ati-     que analisou a psicologia do senso comum e
tudes devem formar parte de sua explicao          nela descobriu uma tendncia a evitar contra-
(Hewstone e Brown, 1986). Em segundo lugar,         dies e relaes assimtricas. Existem nume-
a identificao com o grupo a que um indivduo      rosos modelos de busca de coerncia, equil-
                                                                                psicologia social   627


brio, conformidade e trocas simtricas, os quais     de mtodos. As matrias substantivas agora se
diferem uns dos outros mais em terminologia          baseiam menos em situaes sociais hipotticas
do que em substncia. As teorias da dissonncia      e so mais freqentemente estudadas onde so,
e da atribuio criaram um dos mais volumosos        na realidade, vivenciadas. A teoria da atribuio
conjuntos de trabalho experimental.                  orienta agora a pesquisa em uma vasta gama de
    A teoria da dissonncia cognitiva (Festinger,    circunstncias com pessoas oriundas de muitas
1957) prope que, quando se defrontam com            profisses e condies de vida. A distino
duas informaes mutuamente contraditrias,          entre o conceito biolgico de "sexo" e o concei-
as pessoas sentem-se constrangidas, inquietas e      to scio-psicolgico de "gnero" est produzin-
procuram, por conseguinte, eliminar tais senti-      do um corretivo necessrio nos resultados das
mentos desconsiderando uma das informaes           pesquisas. Algumas reas de investigao que
ou minimizando o seu significado. Numerosos          sempre tinham sido estudadas em seu ambiente
experimentos engenhosamente planejados de-           natural, como a psicologia social da doena e
monstram ser isso o que de fato ocorre com a         da sade, ou do emprego e desemprego, rece-
maior parte dos sujeitos experimentais.              beram novo impulso.
    A teoria da atribuio (Kelley, 1967) refere-        Paralelamente a essa florescente corrente
se  maneira como as pessoas analisam eventos        principal, est hoje ganhando destaque um no-
sociais e lhes atribuem razes ou causas. Essa       vo e radical pensamento acerca de algumas
 a abordagem terica atualmente predomi-            questes fundamentais da psicologia social.
nante; est em contnuo desenvolvimento e           Embora a maioria dessas abordagens contem-
usada na investigao de uma grande variedade        porneas ainda tenha que provar seu valor con-
de tpicos. Deve a sua posio no campo ao           tribuindo com conhecimentos substantivos
nvel relativamente elevado de abstrao em          acerca da interao em mo dupla entre in-
que est formulada. Teorias mais especficas,        divduos e o mundo social, as idias que elas
como a da "sociedade justa", que explica a           propem encontram adeptos, sobretudo na Eu-
tendncia a culpar a vtima, ou a teoria do          ropa, mas tambm nos Estados Unidos, e do
"desvalimento aprendido", podem facilmente           origem a muita discusso e controvrsia. Em
ser includas na atribuio de causas ou razes      geral, afastam-se da corrente dominante da psi-
para qualquer estado de coisas dado.                 cologia social e passam s formulaes progra-
    O progressivo refinamento da teoria da atri-     mticas.
buio foi estimulado, em parte, por vozes dis-          Kenneth Gergen (1973) sustenta que a cor-
sidentes no seio da disciplina que se ergueram       rente dominante  insensvel  passagem do
no s nos Estados Unidos, mas tambm na             tempo; as teorias so formuladas como se apon-
Europa. Depois de meados do sculo, essas            tassem para regularidades eternas, mas as ob-
vozes ganharam mpeto e iniciaram um auto-           servaes empricas que as sustentam esto ine-
exame crtico em ambos os continentes. A cor-        vitavelmente vinculadas ao tempo da inves-
rente dominante da psicologia social enfatizou-      tigao e no podem reivindicar validade trans-
se nesse amplo debate, tinha sublinhado de           histrica. Segundo Gergen, a psicologia social
forma preponderante os processos cognitivos          , portanto, uma disciplina histrica e no-cien-
individuais e negligenciara o contexto social;       tfica. Isso est em ntido contraste com a disci-
apoiara-se quase que exclusivamente em expe-         plina-me, a qual se prope descobrir univer-
rimentos realizados em ambiente de laborat-         sais no funcionamento de organismos humanos
rio, restringindo assim o lado social da discipli-   e animais.
na, e tinha pressuposto a universalidade cultural        Tal como ocorre com a despreocupao com
e temporal de suas descobertas. Os eventos que       o tempo, afirmam outros, tambm a despreocu-
tiveram lugar na maioria das universidades du-       pao com a cultura necessita de correo; a
rante os ltimos anos da dcada de 60 deram          psicologia social americana, em particular, 
fora  exigncia de reorientao e a corrobo-       freqentemente acusada de um provincianismo
raram.                                               que se identifica, de forma equivocada, com
    De modo geral, essa autocrtica foi salutar.     uma conduta  margem da cultura. Uma vez
A corrente principal da psicologia social tor-       mais,  questo de saber se os psiclogos sociais
nou-se muito mais pertinente para a compreen-        podem aspirar  descoberta de universais ou
so da vida cotidiana e ampliou seu repertrio       tero que "arranjar-se" com especficos.
628   psicolgica, depresso


    De diversas reas chega o pedido de que se       uma psicologia social mais unificada ou a maior
mude a maneira de teorizar na disciplina. Ori-       separao, somente o tempo nos dir.
ginando-se na Escola de Frankfurt, est sendo
                                                     Leitura sugerida: Brown, R. 1986: Social Psycholo-
defendida a construo de uma teoria crtica         gy, 2ed.  Israel, J. e Tajfel, H. 1972: The Context of
(denominada "gerativa" nos Estados Unidos),          Social Psychology.
ou seja, uma teoria, no sobre o que , mas sobre
                                                                                           MARIE JAHODA
o que poderia ser; na verso de Frankfurt, para
todas as cincias sociais, na formulao ameri-
cana, por e para psiclogos sociais.                 psicolgica, depresso Ver           DEPRESSO CL-
                                                     NICA.
    A relativa negligncia, largamente reconhe-
cida, do contexto social na corrente principal da    psiquiatria e doena mental A psiquiatria,
psicologia social est sendo agora desafiada de      uma forma de definir e de tratar a doena men-
vrias maneiras. Alguns psiclogos sociais es-       tal, tem conhecido importantes mudanas,
to finalmente eliminando a distncia entre os       desde a Segunda Guerra Mundial, em sua pr-
ramos psicolgicos e sociolgicos da discipli-       tica e em suas razes intelectuais. Isso inclui um
na. O estudo das representaes sociais, ou seja,    papel consideravelmente reduzido para o pen-
idias, valores e regras compartilhados por um       samento psicanaltico (ver PSICANLISE), sobre-
grupo ou cultura que so a tal ponto poderosos       tudo nos Estados Unidos, onde ele fora uma
que os indivduos os consideram incontest-          influncia dominante. Com isso, assistiu-se a
veis, tornou-se centro de uma nova abordagem.        um interesse crescente pelas origens biolgicas
Talvez as representaes sociais mais larga-         da ampla gama de distrbios que constituem a
mente compartilhadas estejam condensadas em          prtica psiquitrica. Durante os ltimos 20 anos
uma linguagem comum; estudos modernos de-            voltou a complexa tarefa de sua classificao,
monstraram que os hbitos lingsticos, grama-       em conjunto com a sua perspectiva biolgica,
ticais e semnticos podem explicar alguns fe-        ao centro das atenes psiquitricas, como se
nmenos psicolgicos.                                viu na altamente influente terceira edio, em
    Outra abordagem do estudo das influncias        1980, do Diagnostic and Statistical Manual of
sociais sobre as atitudes e o comportamento dis-     Mental Disorders (DSM-III), da American Psy-
tingue nveis de explicao, cada um deles le-       chiatric Association. A conjuno de nosologia
gtimo por sua autoridade prpria, mas s            (classificao de doenas) com biologia foi par-
produzindo pleno entendimento quando se con-         cialmente estimulada, sem a menor dvida, pe-
sideram todos os nveis. Os fenmenos psico-         lo xito de tratamentos farmacolgicos e a es-
lgicos podem ser explicados em, pelo menos,         perana de que provassem ser especficos para
quatro nveis: por atributos pessoais, pela situa-   certos diagnsticos. O DSM-III reflete ampla-
o real em que o fenmeno psicolgico              mente mais a experincia clnica do que os
estudado, por referncia  posio social das        dados obtidos em pesquisas, e  possvel encon-
pessoas e pelas ideologias ou sistemas de cren-      trar nele descritos estados bem-reconhecidos
as a que elas aderem. O modo como a comple-         como graves doenas mentais (psicoses), mor-
mentaridade, em vez do conflito, entre as explica-   mente a esquizofrenia e a psicose manaco-
es nesses nveis pode ser conseguida em tra-       depressiva, as neuroses e perturbaes emocio-
balho emprico  ainda uma questo em aberto.        nais menos graves, os distrbios psicossom-
    Embora esses e outros desenvolvimentos           ticos, os estados orgnicos de demncia, o re-
recentes no sejam necessariamente compat-          tardamento mental e as anomalias de compor-
veis entre si, todos eles possuem caractersticas    tamento, como os vcios. Mas existem com-
e funes comuns. Todos eles transcendem uma         plexidades em todos os pontos. Os estados neu-
definio estreita de psicologia social; todos       rticos, por exemplo, podem na prtica gerar
requerem que seus proponentes sejam versados         srios inconvenientes e desvantagens durante
em uma ou mais disciplinas vizinhas, sobretudo       um longo perodo, ao passo que a esquizofrenia
a sociologia e a psicologia cognitiva, mas tam-      pode representar um episdio passageiro de
bm a ANTROPOLOGIA, a cincia poltica, a filo-      "loucura" com uma completa recuperao. H
sofia ou a lingstica; todas elas contribuem        tambm uma inquietante preocupao essen-
para a vitalidade intelectual do campo, em todos     cialista no pensamento do DSM-III. Por exem-
os seus ramos. Se o debate entre elas levar a       plo, a sua definio de esquizofrenia requer
                                                                   psiquiatria e doena mental   629


sinais contnuos de distrbio durante, pelo me-     ambulatoriais -- muitos dos quais nunca teriam
nos, seis meses, mas isso elimina a possibili-      tido contato com um psiquiatra nem mesmo uns
dade de estabelecer possveis fatores ambien-       40 anos atrs. Isso, somado ao reconhecimento
tais que redundem em um episdio breve. Alm        de que h ainda mais pacientes potenciais na
disso, pressupe que algo tenha sido realmente      clnica geral particular e na medicina geral hos-
estabelecido acerca da natureza da entidade         pitalar, deixou claro que os pacientes de hos-
patolgica envolvida. Isso no  certamente o       pitais psiquitricos formam apenas uma peque-
que se verifica, embora haja uma razovel soma      na minoria dos que poderiam ser classificados
de conhecimentos a respeito do grupo um tanto       como portadores de distrbio psiquitrico clini-
dspar de condies correntemente classifica-       camente pertinente -- em especial, a depresso
das como esquizofrnicas.                           ou a ansiedade. Essa variedade diagnstica e o
    Mas deixando de lado essas questes tcni-      fato de cada psiquiatra poder ter a experincia
cas de definio, os distrbios psicticos envol-   de apenas uma amostra selecionada de paci-
vem, em sua maioria, formas particularmente         entes potenciais permitiram o surgimento de
desagradveis de sofrimento e, na medida em         idias muito diversas acerca da etiologia --
que podem ser encarados como um exagero das         embora a maioria delas possa ser formulada em
reaes comuns de natureza afetiva e emocio-        termos biolgicos ou psicodinmicos. Uma
nal s experincias da vida, representam uma        perspectiva social sobre esses assuntos nunca
importante via para a compreenso da socie-         foi central em psiquiatria, mas os desenvolvi-
dade em geral -- algo,  claro, reconhecido por     mentos ocorridos desde o final da Segunda
mile Durkheim em seu clssico estudo O sui-        Guerra Mundial tornaram mais difcil ignor-
cdio, publicado no final do sculo XIX. Entre-     lo. Os primeiros esforos consistiram, predomi-
tanto essa continua constituindo uma rea de        nantemente, em especulaes de autores de
controvrsia, no sendo uma das menores cau-        orientao psicodinmica, as quais, embora in-
sas o fato de as provas que evidenciam influ-       fluentes, por vezes careciam de base emprica.
ncias psicossociais tenderem inevitavelmente       A noo de "me esquizofrenicognica", por
para distanciar um pouco a psiquiatria do seu       exemplo (considerada por alguns, nas dcadas
tradicional papel mdico.  significativo que os    de 40 e 50, fundamental na etiologia da esqui-
psiquiatras se qualifiquem primeiro em medici-      zofrenia), no sobreviveu a uma verificao
na e passem considervel parte do seu treina-       sistemtica. Felizmente, tem havido desenvol-
mento subseqente envolvidos na assistncia e       vimentos um pouco mais slidos.
tratamento de estados graves em um ambiente             Um deles teve origem nas bvias deficin-
de hospital psiquitrico. Embora a etiologia de     cias dos grandes hospitais psiquitricos. A cres-
estados nucleares como a esquizofrenia e a          cente populao dos hospitais psiquitricos,
depresso manaca permanea um tanto indefi-        seguindo-se ao declnio nas taxas de mortali-
nida, a sua peculiar gravidade encoraja uma         dade por infeces supervenientes em meados
perspectiva biolgica. O fato de sintomas simi-     do sculo, provocou uma superlotao, envol-
lares poderem ser produzidos por drogas, tu-        vendo em especial a internao a longo prazo
mores, epilepsia e mudanas metablicas e hor-      de pacientes esquizofrnicos, e as terrveis re-
monais s estimula os apetites mdicos para         velaes sobre os campos de concentrao eu-
mais do que os freqentemente excitantes de-        ropeus talvez tenham provocado um certo im-
senvolvimentos em neurocincia e tratamento         pacto na opinio pblica. Na dcada de 50 al-
fsico. A expresso "modelo mdico", nesse          guns superintendentes mdicos no Reino Unido
contexto,  usada com maior freqncia por          iniciaram uma poltica de alta antecipada e
cientistas sociais do que por mdicos, uma vez      comearam a desenvolver idias de como o
que o agrupamento de sintomas e indcios em         hospital poderia ser uma comunidade genuina-
sndromes que podem ento ser correlacionadas       mente teraputica. Com a introduo das mais
com presumidos distrbios biolgicos  a tal        importantes drogas tranqilizantes em meados
ponto intrnseco na prtica clnica que raras       da dcada de 50, essas mudanas propagaram-
vezes  explicado.                                  se a outros hospitais psiquitricos. (O movi-
    Entretanto, os pacientes vistos por psiquia-    mento iniciou-se muito mais tarde nos Estados
tras vm mudando muito e  bem maior o              Unidos.) Nesse clima, o movimento antipsi-
nmero dos que so examinados em clnicas           quitrico liderado por figuras como R.D. Laing
630   psiquiatria e doena mental


teve um importante impacto sobre a opinio          fluncias do ambiente externo e, em particular,
pblica em geral e sobre a acadmica em parti-      da qualidade dos vnculos interpessoais nu-
cular. Entretanto, suas excessivas pretenses e     cleares. (A questo da crise original permanece
a quase total ausncia de preocupao com           mais obscura.) A importncia de considerar os
provas acarretaram um impacto limitado sobre        fatores sociais em funo do curso da doena
a prpria psiquiatria. No obstante, tudo pon-      foi confirmada por estudos transculturais em
derado,  possvel perceber que uma mensagem        que o resultado a longo prazo da esquizofrenia
foi importante -- que mesmo aqueles com as          parece ser mais favorvel nos pases em desen-
mais graves doenas mentais ainda continuam         volvimento. Dada a eficcia um tanto aleatria
sendo seres humanos, e responder a essa huma-       dos tratamentos fsicos (incluindo-se os efeitos
nidade pode influenciar de maneira importante       iatrognicos a longo prazo), a significao des-
o curso de suas enfermidades. Com efeito,          sas concluses tem sido cada vez mais reco-
uma experincia extraordinria ver um paciente      nhecida, bem como a necessidade de utilizar tal
que antes era uma pessoa gravemente incapaci-       conhecimento na prtica clnica cotidiana. Uma
tada agindo agora com confiana e algum dis-        segunda concluso que surgiu  que os dis-
cernimento, apesar de contnuas "vozes" e de-       trbios afetivos (que constituem a grande maio-
lrios, em um ambiente dedicado a encorajar a       ria das condies psiquitricas) so comuns na
independncia, o orgulho e as atividades voca-      populao geral, e fatores sociais, incluindo ex-
cionais. No obstante, a preocupao, durante       perincias adversas na infncia e adolescncia,
esse perodo, de muitos nas cincias sociais em     desempenham provavelmente um papel impor-
pr em dvida a pertinncia de rtulos diagns-     tante na deflagrao e no curso da patologia.
ticos e em demonstrar o seu provvel efeito
                                                    Tambm h, com freqncia, uma ligao com
pernicioso contrariou totalmente a crescente
                                                    a classe social baixa: por exemplo, nas reas
preocupao de psiquiatras em melhorar e sis-
                                                    centrais de Londres, quase 1/5 das mulheres de
tematizar o seu uso diagnstico. Lamentavel-
                                                    classe operria com filhos em casa parece sofrer
mente, um dos efeitos foi aumentar a distncia
entre a corrente dominante da cincia social e a    de um distrbio psiquitrico clinicamente im-
psiquiatria.                                        portante dentro do espao de um ano e a maioria
    Outro desenvolvimento do ps-guerra foi o       delas tem um significativo componente depres-
interesse em registrar as taxas de distrbio psi-   sivo (ver DEPRESSO CLNICA).
quitrico em amostras da populao geral. Sur-          Embora alguns discutam determinados as-
preendentemente, as primeiras pesquisas in-         pectos de tais afirmaes, j existe uma concor-
dicaram elevadas taxas, sobretudo entre popu-       dncia bastante ampla, dentro da psiquiatria,
laes da classe trabalhadora. Apesar de boa        acerca da importncia do mundo social e da
dose de ceticismo dentro da psiquiatria, o inte-    necessidade de uma perspectiva genuinamente
resse persistiu. Introduziram-se novas entrevis-    biopsicossocial. Alguns deprimidos por moti-
tas do tipo clnico (em vez de questionrios), as   vos sociais podem ainda responder  terapia
quais podiam ser usadas na populao geral em       farmacolgica e no h razo, em tais circuns-
conjunto com medidas mais refinadas para in-        tncias, para que as probabilidades de incio (e
vestigar o papel de fatores sociais. Quanto s      de um curso deteriorante) no sejam tambm
ltimas, houve interesse em tratar do signifi-      influenciadas por fatores biolgicos subjacen-
cado da experincia, algo que era ignorado          tes. O impulso em prol de uma perspectiva
pela epidemiologia tradicional, e isso acarretou    biopsicossocial foi sublinhado pelas idias de
maior sensibilidade para a medio do estresse.     John Bowlby sobre a importncia do sistema de
    Os estudos realizados em hospitais mentais      apego na gnese dos distrbios afetivos e de
concentraram-se na questo do impacto da or-        como o sistema, embora muito influenciado
ganizao sobre o curso da doena, e os estudos     pela experincia pretrita, tem essencialmente
realizados fora (sobretudo sobre o papel da         uma base evolutiva e biolgica. Ficou claro que
famlia) consideraram os fatores que influen-       os sistemas biolgico e social servem para criar
ciavam a deflagrao e o curso. Duas coisas se      significado e freqentemente o fazem em m-
destacaram. Primeiro, que condies que so,        tua dependncia. Somada a essa conjugao de
quase com certeza, essencialmente biolgicas,       perspectivas dspares, h uma crescente percep-
como a esquizofrenia, sofrem importantes in-        o de que  possvel adquirir de maneiras
                                                                                          punio     631


muito diferentes o que, na verdade, constitui o      nhecido, so suficientemente seguros para for-
mesmo distrbio.                                     mar uma base propcia  expanso, e h tambm
     claro que tais desenvolvimentos tm im-        alguns indcios de que o enfoque limitado e o
plicaes para a prtica clnica. Se as alegaes    paroquialismo das disciplinas pertinentes da
correntes sobre o papel das influncias psicos-      cincia social poderiam declinar. H uma per-
sociais forem comprovadamente corretas, de           cepo crescente de que cada uma tem que fazer
modo geral, os mtodos de interveno basea-         mais do que desenvolver sedutoras e esti-
dos na populao estaro muito alm dos li-          mulantes idias para consumo pelos seus pr-
mites da psiquiatria propriamente dita. Tambm       prios estudantes. As idias precisam ser testadas
ficou claro que a to debatida poltica de "assis-   no contexto da prtica psiquitrica. At agora,
tncia comunitria" foi, predominantemente,          sempre que isso foi feito, provou ser difcil
um assunto de conversa. Com exceo de meia          sustentar idias unilaterais que foram to popu-
dzia de impressionantes iniciativas locais, os      lares em disciplinas individuais (como a nfase,
procedimentos para enfrentar a decadncia dos        em sociologia, no papel-chave da rotulao em
hospitais psiquitricos tm sido ad hoc e sem o      produzir distrbios mentais). Entretanto cum-
menor planejamento -- resultado de presses          pre reconhecer que existe considervel inrcia,
por uma reforma liberal, mudana dos regimes         se no oposio, no tocante  espcie de ten-
de tratamento e decises mal coordenadas no          dncias integrativas que foram descritas em
tocante a um plano de ao de nvel superior.        linhas gerais, e  muito possvel que se tenha
Isso teve srias conseqncias para os porta-        atribudo um peso excessivo ao provvel im-
dores de deficincias a longo prazo. Ainda ca-       pacto sobre o pensamento e a prtica psiquitri-
recemos de servios baseados em princpios           cas de generalizaes empricas razoavelmente
razoavelmente bem-fundamentados, focalizan-          bem-estabelecidas. A atrao da receita de um
do as vulnerabilidades de determinadas classes       remdio para um mdico muito atarefado conti-
de pacientes, e servios que sejam capazes de        nuar sendo considervel. Mas, ao mesmo tem-
permanecer em contato com indivduos, se ne-         po, a psiquiatria, ao longo de toda a sua histria,
cessrio, por longos perodos de tempo. Es-          tem sido a mais aberta das especialidades m-
tamos ainda mais distantes de quaisquer meios        dicas s idias sociais e, por hora, no existem
efetivos de ajuda a grandes quantidades de pes-      razes para um pessimismo declarado sobre o
soas sofredoras na populao geral, sobretudo        desenvolvimento de uma perspectiva social
as submetidas a estados crnicos, muito poucas       efetiva no mbito da psiquiatria.
das quais recorrem a psiquiatras e provavel-         Leitura sugerida: Bebbington, P. e McGuffin, P. 1988:
mente metade das quais  reconhecida por um          Schizophrenia: the Major Issues  Gelder, M., Gath, D.
mdico como psiquiatricamente perturbada.            e Mayou, R. 1986: Oxford Textbook of Psychiatry
    A psiquiatria requer, sem dvida, o apoio da      Newton, J. 1988: Preventing Mental Illness

cincia social; felizmente, essa colaborao es-                                      GEORGE W. BROWN
t fadada a ser til  prpria cincia social. 
difcil levar a efeito investigaes etiolgicas     pblica, escolha Ver ESCOLHA PBLICA.
nessa rea sem enfrentar rapidamente questes        pblica, esfera Ver ESFERA PBLICA.
tericas fundamentais -- digamos, acerca da
natureza do apoio social ou da pertinncia de        punio Punir  impor uma pena em resposta
conceitos tradicionais como integrao ou alie-       violao de uma regra ou em condenao de
nao.  duvidoso se a extrema nfase atual          quem assim procedeu. O processo de punio
sobre a base biolgica da psiquiatria se manter     , pois, a imposio deliberada de alguma forma
por muito tempo, uma vez que uma parte es-           de tratamento duro, inflexvel, e a estigmatiza-
pecialmente importante dela proveio de um            o de um agente responsvel pela violao de
determinado clima poltico nos Estados Uni-          uma norma. As penas a que falta qualquer ele-
dos. Os processos biolgicos de possvel re-         mento de condenao -- como no caso das
levncia esto se revelando de extraordinria        multas -- no so, stricto sensu, punies. Nem
complexidade, e benefcios importantes so           medidas como a "deteno preventiva", impos-
mais provveis a longo do que a curto prazo. Os      tas com base mais na previso da conduta futura
resultados da pesquisa social corrente, embora       do que em delitos passados. O status das medi-
modestos em termos do que precisa ser co-            das compulsrias de assistncia e tratamento,
632   punio


quando estas so impostas em resposta a uma        justificada como a resposta adequada a certos
conduta desviante -- por exemplo, por um           malefcios, pois a justia, ou o direito natural,
juizado de menores --,  ambguo. Tais medi-       ou o contrato social, exige que os crimes sejam
das podem ser experimentadas como punitivas        vingados e que se imponha o devido castigo.
e estigmatizantes por causa do seu contexto ou     Portanto, a finalidade da punio deve ser as-
uso, embora se proponham fornecer ajuda ou         segurar o apropriado ou "merecido castigo",
terapia ao receptor.                               sendo tais medidas retaliatrias moralmente
    A punio ocorre em uma variedade de con-      imperativas, quer se possa ou no provar que
textos sociais e, de um modo ou de outro,         so instrumentalmente proveitosas.
provavelmente uma propriedade intrnseca de            Na prtica, medidas e instituies penais
todas as formas estabelecidas de associao        pretendem usualmente atingir muitos desses
humana. Famlias, escolas, locais de trabalho,     objetivos simultaneamente, embora as inves-
crculos de amizade ou at estados-naes, to-     tigaes empricas indiquem que somente os
dos punem seus membros desviantes de tempos        propsitos mais negativos (retaliao, denn-
em tempos, usando sanes que podem ir de          cia, incapacitao) podem ser perseguidos com
uma reprimenda moderada a uma ofensiva mi-         alguma probabilidade de xito. As tentativas de
litar em grande escala. Entretanto o processo      alcanar fins reformativos por meio de sanes
central de punio na sociedade moderna  a        penais s tm tido xito em uma pequena mi-
punio judicial -- o processo jurdico pelo       noria de casos. De modo anlogo, embora a
qual os violadores do direito penal recebem        existncia de um sistema penal que faz respeitar
sanes de acordo com regras e procedimentos       as normas sociais produza um bsico efeito
jurdicos especificados em cdigos, e se subme-    dissuasivo (em comparao com a sua inobser-
tem a uma punio administrada por funcion-       vncia), os efeitos dissuasivos de sanes es-
rios do estado. Assim, a punio judicial  que    pecficas, ou nveis especficos de punio, pa-
constituiu o foco de ateno da maior parte do     recem deveras limitados. Os delinqentes ra-
pensamento moderno sobre punio, embora os        cionais, calculistas, que acreditam na possibili-
efeitos benficos da punio em outros contex-     dade de serem detidos e punidos, e para quem
tos fossem objeto de muita pesquisa psicolgi-     esse risco  inaceitvel, so os melhores alvos
ca.                                                para a dissuaso.
A filosofia da punio                             A prtica da punio
    Como a punio judicial acarreta a delibera-       Durante boa parte do sculo XX os sistemas
da cominao de danos por funcionrios do          penais adotaram, em maior ou menor grau, a
estado a cidados individuais,  uma prtica       ideologia da "reabilitao", a qual insistia em
social suscetvel de crticas e que necessita de   que os delinqentes deveriam ser tratados
legitimao. Copiosa literatura filosfica de-     de modo positivo, com propsitos de reforma,
senvolveu-se em torno dessa questo, expondo       adaptando medidas de tratamento e treinamen-
argumentos justificativos em favor da institui-    to s necessidades individuais e pondo de lado
o, identificando circunstncias em que o po-     preocupaes punitivas. De modo caracters-
der penal deve ser exercido e descrevendo os       tico, houve a introduo de modalidades mais
propsitos apropriados que as punies devem       refinadas de avaliao e classificao de delin-
almejar. Neste ponto, o principal debate tende     qentes, um repertrio ampliado de instituies
a ser entre as abordagens utilitria e deontol-   especializadas, legislao para permitir o julga-
gica do problema. A primeira sustenta que a        mento com sentena indeterminada e o empre-
punio  em si mesma um mal e s se justifica     go de peritos em pontos-chaves do sistema.
quando e na medida em que pode produzir            Essa abordagem de "bem-estar penal" nunca
efeitos teis -- como a defesa social ou a pre-    desalojou completamente preocupaes mais
veno de futuros crimes (ver tambm CRIME E       antigas com punies e castigos merecidos,
TRANSGRESSO). Coibio, incapacitao, refor-     nem mesmo na esfera da justia juvenil, onde
ma e denncia so, pois, objetivos aceitveis      as filosofias de tratamento estavam mais conso-
nessa concepo e devem ser usados na medida       lidadas. A partir de 1960 verificou-se um acen-
em que se possa mostrar a sua eficcia. Contra     tuado afastamento da abordagem da reabilita-
isso, a posio rival sustenta que a punio      o e um ressurgimento do interesse explcito
                                                                                       punio    633


pelos mtodos de retaliao e dissuaso por          lho, cdigos morais diversificados e um com-
parte de legisladores, polticos e criminologis-     promisso com os valores do individualismo
tas. (Ver tambm CRIMINOLOGIA.)                      liberal, so assim mais propensas a desenvolver
    Os sistemas contemporneos de punio uti-       sistemas de punio mais clementes, organiza-
lizam uma gama diversificada de sanes, for-        dos em torno da privao da liberdade indivi-
necendo uma hierarquia de medidas que per-           dual.
mite uma escala de severidade em conjunto                Em contraste, as interpretaes marxistas
com uma srie horizontal de alternativas adap-       retratam a punio como um instrumento de
tadas a diferentes tipos de delinqentes. Esses      controle pelo estado, funcionando repressiva e
sistemas incluem multas, prestao de servios       ideologicamente a fim de preservar o domnio
 comunidade e vrias formas de superviso (as       da classe governante e sendo configurada pri-
quais podem ser orientadas para o aconselha-         mordialmente pelo MODO DE PRODUO. A cen-
mento e apoio ou para a vigilncia e controle),      tralidade da multa na penalidade moderna; a
ordens psiquitricas, sentenas custodiais de        nfase no trabalho nas prises; o princpio de
um tipo de ou de outro e, em algumas juris-          "menos aceitabilidade", o qual insiste em que
dies, a execuo judicial. H grande diversi-      as condies prisionais devem ser fixadas
dade nos padres de sano e nveis de punio       abaixo das classes mais pobres da sociedade; a
vigentes em pases que, em outros aspectos           prpria idia de que os delitos devem ser "cam-
(incluindo as taxas de criminalidade), so muito     biados" por uma pena equivalente, medida em
semelhantes. As taxas de priso, por exemplo,        unidades abstratas de tempo -- todas essas
esto sujeitas a enorme variao entre estados       caractersticas so citadas como provas evi-
e dentro da mesma jurisdio no transcurso do        dentes de que a punio  modelada tanto pela
tempo. Do mesmo modo, os nveis de punio           estrutura da sociedade de mercado quanto pelas
considerados apropriados para determinados           exigncias de controle do crime.
delitos podem variar de forma acentuada de um            A mais recente interpretao de punio --
pas para o outro.                                   desenvolvida por Michel Foucault -- enfatiza
                                                     os aspectos "disciplinares" e "normalizadores"
A sociologia da punio                              dos modernos mtodos penais, e salienta os
    A pesquisa sociolgica e histrica tem-se        modos pelos quais um aparelho penal cada vez
empenhado em explicar essas variaes nos            mais sagaz est apto a exercer modalidades
padres penais, examinando usualmente as fun-        mais profundas e mais positivas de controle
es sociais e determinantes da punio e os         sobre os que so apanhados pelo sistema. A
modos como as instituies penais esto rela-        punio, nesse caso,  vista como uma forma de
cionadas com configuraes sociais mais am-          poder e autoridade, atuando por meio de prin-
plas. mile Durkheim sustentou que a punio         cpios detalhados de vigilncia, inspeo e in-
representa uma resposta coletiva a atos que          dividuao, em que a preocupao  menos
transgridem os sentimentos e valores comparti-       "punir" delinqentes do que moldar-lhes o
lhados pela sociedade.  uma reao veemente         comportamento e dominar os riscos que eles
que expressa sentimentos coletivos e, ao mes-        coletivamente representam. O regime "panp-
mo tempo, reafirma a fora de costumes e pr-        tico" da priso moderna -- o qual submete os
ticas sociais. Os rituais de punio constituem,     reclusos  vigilncia contnua a fim de identifi-
pois, um meio pelo qual se sustenta a ordem          car e corrigir qualquer desvio das normas ins-
moral, se refora a solidariedade social e se        titucionais --  considerado representativo de
retraa a fronteira entre conduta aceitvel e ina-   um modelo das espcies de relaes de "poder-
ceitvel (embora, como sublinhou G.H. Mead,          conhecimento" que preponderam na sociedade
essa forma de solidariedade se baseie na hos-        contempornea.
tilidade e possa promover a intolerncia). Na             amplamente reconhecido que, como tc-
opinio de Durkheim, a punio constitui um          nica de controle, a punio tem srias limi-
importante elemento no mbito moral da socie-        taes. Os psiclogos sublinham que os refor-
dade, e a forma e intensidade das sanes penais     os positivos so, com freqncia, meios mais
sero determinadas pelo carter da vida moral        eficazes de modelar a conduta, que os efeitos da
da sociedade. As sociedades avanadas, carac-        punio so freqentemente efmeros e que os
terizando-se por uma extensa diviso do traba-       punidos tendem a desenvolver uma resistncia
634   punio


 punio. Na mesma linha, os criminologistas      sendo dada atualmente  dinmica social sub-
sustentam que a capacidade do sistema penal de     jacente na instituio da punio.
transformar indivduos ou reduzir taxas de cri-
                                                   Leitura sugerida: Christie, N. 1982: Limits to Pain
minalidade est seriamente restrita. Os crticos    Cohen, S. 1985: Visions of Social Control  Durk-
da punio afirmam que a justia penal devia       heim, . 1893: De la division du travail social  Fou-
confiar menos em uma resposta punitiva e mais      cault, M. 1975: Surveiller et punir  Garland, D. 1980:
em mtodos alternativos de lidar com os confli-    Punishment and Modern Society  Mead, G.H. 1918:
tos sociais e os indivduos inconvenientes, co-    "The psychology of punitive justice". American Jour-
mo a mediao, a reparao e a preveno do        nal of Sociology, 23, 577-602  Rusche, G., e Kirch-
                                                   heimer, O. 1968: Punishment and Social Structure
crime. O fato de tais crticas terem tido to       Sharpe, J.A. 1990: Judicial Punishment in England
pouco impacto nos modernos sistemas penais         Walker, N. 1980: Punishment, Danger and Stigma.
uma das razes pelas quais tanta ateno est                                          DAVID GARLAND
                                             Q
Q.I. Ver INTELIGNCIA, TESTE DE.                         tanto diferentes -- por exemplo, o acesso  gua
                                                         corrente e potvel pode ser um problema para
qualidade de vida Supe-se geralmente que                grande parte da populao, e a composio
a justificativa para atividades que visam ao             precisa da cesta bsica alimentar pode ser me-
desenvolvimento econmico  a melhoria do                nos importante que a distncia a que se encon-
bem-estar da populao. Por seu turno, o desen-          tram os indivduos de um padro nutricional
volvimento econmico  avaliado por meios                bsico.)
como o Produto Nacional Bruto (PNB), e a                     A "qualidade de vida"  comumente usada
comparao dos nveis de PNB ou de PNB per               em referncia s reais condies de vida, em-
capita tornou-se prtica estabelecida como base          bora em meados da dcada de 50 uma comisso
primria para uma estimativa do desempenho e             de especialistas das Naes Unidas recomen-
do progresso comparativo dos pases ao longo             dasse o uso, para esse fim, de "nvel de vida".
do tempo. Entretanto o PNB  uma medida de               Qualidade de vida referir-se-ia, portanto, s
atividade da economia formal (assalariada) e             aspiraes ou expectativas das pessoas no to-
no foi originalmente construdo como medida             cante s suas condies de vida. A literatura
de bem-estar. No trata da IGUALDADE E DESI-             tcnica s vezes aceita essa distino, mas a sua
GUALDADE social, da produo econmica in-               omisso  muito mais freqente; entretanto es-
formal, da sustentabilidade ambiental, nem de            tudos estatsticos por vezes colocam em con-
uma srie de outros aspectos igualmente impor-           traste os nveis reais de renda com os requeridos
tantes do bem-estar.                                     para satisfazer determinadas exigncias de ali-
    Os conceitos de "nvel de vida" e "qualidade         mentao, habitao etc., e os nveis de consu-
de vida" referem-se s condies de populaes           mo so freqentemente contrastados com um
e subgrupos de populaes, e esto refletidos            dado padro (tipicamente, um nvel mnimo, se
em estatsticas que procuram index-las direta-          bem que, por vezes, o nvel mdio ou a situao
mente em vez de inferi-las da atividade econ-           em um grupo social ou pas de referncia).
mica. Tais ESTATSTICAS SOCIAIS so tipicamente              O foco central de tais dados pode ser consi-
obtidas por investigao direta atravs de pes-          derado ainda excessivamente economstico e
quisas de porta em porta e de censos. Conven-            no tm faltado as tentativas de desenvolver
cionalmente, interessam-se por questes co-              conjuntos de indicadores que englobem aspec-
mo renda familiar, condies de moradia (por             tos mais amplos das condies de vida -- como
exemplo, se existe acesso a um banheiro e, no            o acesso  educao e aos servios de sade, a
caso afirmativo, se este se localiza dentro ou           expectativa de vida, a mobilidade e at as opor-
fora de casa), posses materiais (como a proprie-         tunidades culturais. Entretanto, o mais comum
dade de equipamentos domsticos) e prticas de            que a "qualidade de vida" se restrinja ao pa-
consumo (incluindo os alimentos que esto sen-           dro de bem-estar material e seja indexada em
do consumidos).  prtica comum que muitas               termos de posse de bens e de acesso a confortos
estatsticas de tal natureza sejam rotineiras e          bsicos.
freqentemente produzidas na maioria dos pa-                Vrios outros termos foram introduzidos no
ses industrializados, no sendo esse o caso,             esforo para ir alm desses ndices, sobretudo
porm, nas regies mais pobres do mundo.                 nestas ltimas dcadas do presente sculo, de
(Tambm nos pases menos industrializados as             modo a incluir dimenses ambientais das con-
questes especficas formuladas podem ser um             dies de vida, como a exposio a vrias for-

                                                   635
636   qualidade de vida


mas de poluio e degradao do meio am-           gente das maneiras de viver das pessoas. As
biente -- substncias qumicas, radiao, lixos,   questes que preocupam os estudos convencio-
rudo etc. O termo "qualidade de vida"  facil-    nais do padro de vida ainda esto represen-
mente o mais usado.  freqentemente contra-       tadas em tais compilaes, porquanto no dimi-
posto a "padro de vida" com o intuito explcito   nuiu a importncia fundamental do bem-estar
de sublinhar que existe na vida muito mais que     material em nossas vidas. Algumas das preocu-
a mera acumulao de bens materiais. Nesse         paes mais novas -- como os danos do meio
papel, o seu significado positivo, em oposio     ambiente -- tambm podem muito bem ter um
s crticas dos limites da perspectiva econmi-    impacto sobre o bem-estar material a longo
ca, permanece muito aberto e sem restries        prazo; e muitas delas podem levar-nos a repen-
previamente estabelecidas. Em alguns pases, o     sar uma leitura simplista dos dados quantitati-
termo foi associado a certos movimentos pol-      vos, a qual indica que ter mais de uma merca-
ticos (por exemplo, as campanhas contra os         doria (por exemplo, vrios automveis)  ne-
excessos da SOCIEDADE DE CONSUMO), em outros       cessariamente melhor.
significa a nfase de grupos religiosos em ques-   Leitura sugerida: Ekins, P. e Marx-Neef M., orgs.
tes espirituais etc. Apesar desse campo prop-    1992: Real-Life Economics  Miles, I. 1985: Social In-
cio ao equvoco e ao mal-entendido, tem havido     dicators for Human Development  Moll, Peter 1991:
um trabalho substancial no desenvolvimento de      From Scarcity to Sustainability: Future Studies and the
conjuntos mais amplos de indicadores sociais e     Environment.
ambientais que possam captar uma viso abran-                                               IAN D. MILES
                                               R
raa Este conceito, tal como tem sido popu-               3. As maiores populaes distinguveis fo-
larmente usado em poltica, teve profundos                   ram designadas como raas e h razovel
efeitos na histria mundial recente. Os nacio-               concordncia entre os antroplogos em
nal-socialistas na Alemanha acreditavam na                   que a humanidade pode ser dividida em
existncia de uma raa superior ariana, assim                trs grupos principais: (a) o mongolide,
como na existncia de raas inferiores. Tambm               (b) o negride e (c) o caucaside. Os
consideravam os judeus uma raa e se empe-                   mongolides tm cabelo escorrido e p-
nharam na tentativa de extermin-los. Na fri-               los corporais relativamente ralos. A pele
ca do Sul, em tempos recentes, o domnio pol-               tem um tom amarelado e, na maioria dos
tico dos brancos era justificado em termos de                casos, h uma dobra de pele (dobra epi-
uma doutrina de superioridade racial deles so-               cntica) acima da abertura do olho. Os
bre os negros. Em muitos outros pases houve                 negrides tm pele castanho-escura. O
evolues semelhantes, ainda que menos dra-                  cabelo  do tipo crespo e densamente
mticas, em que a luta entre grupos tnicos                  encaracolado. Possuem bem poucos p-
propiciou o surgimento de teorias segundo as                 los corporais. Suas cabeas tendem a ser
quais esses grupos so raas. A implicao do                oblongas, o nariz  freqentemente acha-
uso do termo "raa" em todos esses casos  que               tado com narinas largas, os lbios so
as desigualdades efetivas existentes entre gru-              usualmente espessos e revirados e h
pos so inevitveis porque so naturalmente                  uma ligeira projeo para diante do ma-
dadas. Tais concepes, contudo, esto em con-               xilar superior. Os caucasides tm gran-
flito com o conhecimento cientfico.                         de variedade de formas capilares. Os p-
    Em 1950 a Unesco convocou uma reunio                    los no rosto e por todo o corpo so bem-
de especialistas a fim de proceder a uma reca-               desenvolvidos. A cor da pele varia do
pitulao de tudo o que era cientificamente                  branco ao castanho-claro. O nariz  es-
conhecido sobre raas e indicar como o termo                 treito e os lbios delgados.
"raa" deveria ser usado de modo cientfico (ver          4. Dentro desses grupos principais podem
Montagu, 1972). Essa comisso de "especialis-                distinguir-se muitos subgrupos, mas h
tas" chegou s seguintes concluses:                         muito menos concordncia entre os an-
    1. Todos os seres humanos pertencem                     troplogos sobre as suas caractersticas
       mesma espcie, Homo sapiens; tambm                   especficas.
       so provavelmente originrios do mes-              5. Ao estabelecerem essas classificaes,
       mo tronco. As diferenas que existem                  as nicas caractersticas que os antrop-
       entre grupos de seres humanos se devem                logos usam como base para a classifica-
       ao "isolamento,  deriva e  fixao alea-            o so fsicas e fisiolgicas. De acordo
       tria de partculas materiais que con-                com os conhecimentos atuais, no h
       trolam a hereditariedade (os genes), a                prova de que os grupos humanos difiram
       mudanas na estrutura dessas partculas,              em suas caractersticas mentais inatas,
        hibridizao e  seleo natural.                   tanto no que se refere  inteligncia quan-
    2. O Homo sapiens  constitudo por certo                to no que diz respeito ao temperamento.
       nmero de populaes, cada uma das                 6. As diferenas sociais e culturais entre os
       quais diferindo das outras na freqncia              grupos no so geneticamente determi-
       da ocorrncia de um ou mais genes.                    nadas, e os desenvolvimentos sociais e

                                                    637
638   raa


        culturais so independentes de mudanas       situaes de conflito, se as diferenas forem
        na constituio inata.                        explicadas em funo de teorias racistas. As-
    7. Os diferentes grupos raciais so capazes       sim, ele sustenta que uma situao de relaes
        de cruzamentos entre si e de produzir         raciais tem trs aspectos:
        proles frteis. Alm disso, no h provas          1. a situao  de acirrada competio, ex-
        de que os cruzamentos inter-raciais pro-              plorao, opresso ou discriminao, in-
        duzam resultados adversos do ponto de                 do muito alm da que se observa em
        vista biolgico.                                      situaes de livre mercado (sendo os li-
    Entretanto, a concluso final e de suma im-               vres mercados vistos aqui como produ-
portncia  enunciada nos seguintes termos:                   tores de situaes de relacionamento
    Todos os seres humanos normais so ca-                    mais de classe do que de raa);
pazes de aprender a participar de uma vida                 2. as relaes que existem so entre grupos
comum, de entender a natureza do servio m-                  fechados e  impossvel ou, pelos menos,
tuo e da reciprocidade, e de respeitar obrigaes             muito difcil para um indivduo mudar
e contratos sociais. As diferenas biolgicas                 sua filiao de um grupo para outro;
existentes entre membros de diferentes grupos              3. todo o sistema  justificado por grupos
tnicos no tm a menor relevncia para os                    dominantes em termos de algum gnero
problemas de organizao social e poltica, vida              de teoria determinstica, usualmente de
moral e comunicao entre os seres humanos.                   natureza biolgica.
(in Montagu, 1972)                                         Assinale-se neste ponto que, tanto na defini-
    Est muito claro, portanto, que no existe        o das espcies de grupos envolvidos quanto
justificao alguma na cincia biolgica para o       nas teorias a que se refere na terceira parte, Rex
uso popular do termo "raa". No devemos              no se restringe aos fatores genotpicos ou mes-
falar de alemes, franceses e britnicos, ou de       mo biolgicos. O que ele procura fazer  en-
rabes e judeus, ou de protestantes, muul-           fatizar que as teorias "determinsticas" e, em
manos ou israelitas como raas. Trata-se, de          especial, as teorias racistas do gnero biolgico
fato, de grupos nacionais, tnicos ou religiosos      surgem quando o relacionamento do grupo b-
(ver ETNICIDADE) ligados pela organizao pol-       sico  seriamente conflitante. Isso chama a aten-
tica e a cultura comum.                               o para um importante aspecto do uso popular
    No obstante, mesmo que no tenha jus-            do termo "raa", a saber, que ele surge em
tificao, a existncia do uso popular do termo       situaes de conflito e  usado para justificar o
"raa" suscita problemas para o socilogo. H         domnio exercido por um determinado grupo.
uma diferena entre as situaes em que grupos             Essa definio de uma situao de relaes
tnicos e nacionais simplesmente interatuam           raciais envolve, contudo, uma nfase delibera-
uns com outros e aquelas em que essa interao        damente exagerada a fim de reunir todas as
 vista como racial. Nessas ltimas situaes         numerosas espcies de situao que popular-
est presente um elemento de RACISMO.                 mente se pensa estarem baseadas em raa. In-
    Numerosos socilogos tm procurado expli-         clui a situao dos judeus na Alemanha antes da
car o uso popular do termo "raa" e a existncia      guerra e a que prevalece entre catlicos e protes-
de racismo definindo "relaes raciais" ou situa-     tantes na Irlanda do Norte, no por aceitar que os
es de relacionamento racial. O primeiro deles      grupos envolvidos sejam raas, na acepo cien-
van den Berghe (1978), que v as relaes raciais     tfica, mas porque eles so popularmente des-
como uma das bases em que os sistemas sociais         critos, por vezes, como raas (no ltimo caso, na
fazem "distines odiosas" entre indivduos. Es-      prpria Irlanda do Norte), e as situaes conflitan-
sas distines odiosas e injustas levam ao sur-       tes entre grupos distinguidos pelo fentipo.
gimento dos sistemas de status. As relaes raciais        Esclarecido este aspecto, porm, e com o
existem onde as distines odiosas se baseiam em      reconhecimento de que as situaes de relacio-
diferenas de fentipo (aparncia fsica).            namento racial envolvem sempre sria "com-
    Rex (1983, 1986), por outro lado, aponta que      petio, conflito, explorao, opresso ou dis-
uma situao de relaes raciais pode ocorrer         criminao", a questo poderia, no obstante,
no apenas entre grupos que se distinguem pelo        ficar ainda mais clara se fosse reconhecido que
fentipo, mas entre quaisquer grupos em certas        podem estar envolvidos dois tipos de grupos,
                                                                                                 raa     639


um que se distingue por caractersticas cul-           em condies menos favorveis do que a mais
turais. O aspecto essencial sublinhado por Rex         baixa classe nativa. Esses imigrantes podem
foi que as "situaes de relacionamento social"        ento formar o que , por vezes, chamado uma
sempre se referiam mais a situaes de conflito        subclasse e ser submetidos a uma explorao e
do que de cooperao harmoniosa. O ponto de            opresso mais severas do que a sofrida no mer-
vista geral entre os socilogos, porm, seria que      cado de trabalho pelos trabalhadores do prprio
 proveitoso distinguir as situaes em que o          pas (ver MIGRAO). Com muita freqncia
fentipo est envolvido como as verdadeiras            nessas circunstncias, os imigrantes podem ser
relaes raciais e reconhecer uma categoria dis-       definidos como racialmente diferentes pelos
tinta de situaes de conflito tnico.                 grupos dominantes. Tais distines podem ba-
    Mas, dito isso, deve-se ainda mencionar que        sear-se no reconhecimento de diferenas fsi-
tanto as situaes de relacionamento racial quanto     cas, mas tambm ocorrem quando as distines
as situaes de relacionamento tnico podem ser        so culturais, assentes na falsa suposio de que
justificadas por grupos dominantes em termos de        as caractersticas mentais e culturais so biolo-
teorias determinsticas, incluindo as raciais. O que   gicamente herdadas. Finalmente, h outras si-
o uso popular do termo "raa" faz  precisamente       tuaes em que um grupo racial ou tnico no
ampliar esse uso para incluir situaes baseadas        uma subclasse, mas desempenha um papel de
em diferenas culturais. De um ponto de vista          pria impopular na sociedade, como no caso
sociolgico,  importante reconhecer a existncia      clssico dos judeus na Europa medieval e dos
de um grupo de situaes conflitantes que  mar-       comerciantes secundrios indianos ou libane-
cado pelo racismo. So situaes de relaciona-         ses em sociedades coloniais. Em pocas de
mento racial, embora os grupos envolvidos no          tenso poltica, econmica e social, um desses
sejam, em um sentido cientfico, raas.                grupos pode converter-se em bode expiatrio
    Em uma reunio mais recente de especialis-         para os males da sociedade. Se isso ocorrer,
tas convocada pela Unesco foi reconhecido que          mesmo que se trate de um grupo tnico e no
um dos principais tipos de situao propiciado-        de uma populao racialmente distinta, ele po-
ra de definies racistas  o que deriva do            der ficar sujeito a uma definio racista e a
colonialismo (as duas declaraes da Unesco,           situao de bode expiatrio se converte em uma
de 1953 e de 1967, in Montagu, 1972). Tais             situao de relacionamento racial, conforme foi
definies so particularmente evidentes no            acima definido. Foi isso que aconteceu no caso
que Furnivall (1939) e Smith (1963) denomina-          dos judeus europeus na Alemanha nazista.
ram sociedades plurais. Tais sociedades, de                Em suma, o que se pode ser dito para a
acordo com Furnivall, envolvem grupos cul-             definio do termo "raa"  que, corretamente
turalmente distintos que s se renem no campo         usado em um sentido cientfico,  um termo
dos negcios, de modo que, enquanto as rela-           taxonmico de limitada utilidade.  irrelevante
es entre indivduos dentro de qualquer grupo         para a explicao de diferenas polticas entre
so harmoniosas e cooperativas, as relaes            seres humanos. O uso popular de terminologia
entre os grupos so brutais e opressivas. Por          racista significa, porm, que existem muitas
outro lado, segundo Smith, cada grupo tem um           situaes em que grupos fsica e culturalmente
quase completo sistema institucional em si             distinguveis so definidos como raas, e quan-
mesmo, mas a instituio poltica liga todos eles      do tais definies so adotadas temos o que se
sob o domnio de um grupo. So os gneros de           pode chamar situaes de relacionamento ra-
situaes a que Rex se refere como sendo mar-          cial, mesmo que os grupos envolvidos no se-
cadas por severa competio, conflito, explora-        jam raa em um sentido cientfico.
o, opresso e discriminao, e quase sempre
do origem a definies racistas que produzem          Leitura sugerida: Furnivall, John Sydenham 1939:
                                                       Netherlands India: a Study of Plural Economy  Mon-
situaes de relacionamento racista.
                                                       tagu, Ashley 1972: Statement on Race  Rex, J. 1983:
    Se o colonialismo  peculiarmente produtor         Rare Relations in Sociological Theory  1986: Race
de racismo, no , porm a nica circunstncia         and Ethnicity  Smith, Michael Garfield 1963: The Plu-
sob a qual ele pode ocorrer. Outra situao            ral Society in the British West Indies  van den Berghe,
comum tem lugar quando sociedades com sis-             Pierre Louis 1978: Race and Racism: a Comparative
temas vigentes de classes e conflito de classes        Perspective.
atraem imigrantes que ingressam na sociedade                                                       JOHN REX
640   racionalidade e razo


racionalidade e razo Os pensadores do Ilu-           que o pensamento cientfico  governado por
minismo declararam que a mente e a sociedade          "paradigmas" sugere um tema semelhante para
humanas so to racionais quanto as outras            uma sociologia do conhecimento.
operaes da natureza e to sujeitas quanto               Em terceiro lugar, h um racionalismo que
estas  razo cientfica. A histria das cincias     se baseia na suposio de que o comportamento
sociais poderia ser escrita como um intermin-        humano  racional. O principal exemplo  o da
vel debate em torno da verdade dessa conjec-          microeconomia, em que os agentes so racio-
tura. Definies de "racionalidade" e de "ra-         nais, na medida em que calculam sempre o
zo" seriam parte do debate e, portanto, no          modo mais eficaz de satisfazer suas prefern-
podem ser proveitosamente apresentadas no             cias. Eles so os maximizadores da utilidade na
incio deste verbete.                                 teoria da deciso, na teoria da escolha racional
    A conjectura  "racionalista" em trs sen-        e na teoria dos jogos, agentes cuja racionalidade
tidos muito diferentes. Em primeiro lugar, en-         de uma espcie instrumental, meios-para-
volve uma ampla assero, a de que a natureza         dados-fins. Agir racionalmente  maximizar
 um sistema racional (no sentido de ordenado)        uma funo objetiva sujeita a coaes. A supo-
de causas e efeitos, regido por leis que um           sio de racionalidade  freqentemente in-
mtodo cientfico (Razo) pode descobrir. Seja        terpretada como se indicasse que os agentes so
qual for o processo exato pelo qual essa causa-       egostas, preocupados com seus interesses pes-
lidade  construda, ele exclui o significado e o     soais. Entretanto isso apenas significa, estrita-
propsito das operaes da natureza, e absolve        mente, que eles buscam realizar seus prprios
a cincia de pensar nesses termos mais antigos        objetivos de um modo maximizador (ou satis-
acerca dos desgnios de Deus. Tambm exclui           fatrio) sistemtico, deixando em aberto se so
o acaso; mas h campo para um relutante meio-         ou no egostas (ver ESCOLHA RACIONAL, TEORIA
termo atravs da teoria da probabilidade, a qual      DA).
permite um elemento limitado de imprevisi-                O poder e a elegncia das teorias econmi-
bilidade. O "positivismo", como o termo  usa-        cas baseadas em pressupostos de racionalidade
do nas cincias sociais, aplica essa ampla filo-      tm atrado outras cincias sociais. Existem
sofia da natureza e da cincia ao mundo social.       teorias "econmicas", por exemplo, da demo-
    Aos filsofos, porm, "positivismo" sugere        cracia, das relaes internacionais, das relaes
"positivismo lgico", uma forma bem-definida          raciais, da doao de presentes, da amizade e do
de empirismo e, por conseguinte, oposta ao            casamento, todas tratadas como transaes en-
racionalismo. Nesse segundo sentido, os racio-        tre negociantes racionais. Essas teorias so in-
nalistas pensam as leis causais em termos de          dividualistas e, em seu nvel mais ambicioso,
foras e necessidades ocultas, no esprito dos        tentam explicar o surgimento das instituies
sistemas cartesiano e newtoniano do sculo            em cujo seio ocorrem as transaes. O mais
XVII. A razo  o poder da mente de penetrar          impressionante exemplo  a teoria do contrato
no vu da percepo e o seu modelo  a mate-          social, rejuvenescida recentemente por Rawls
mtica. Os empiristas replicam que a observa-         (1971), a qual analisa o prprio ser da sociedade
o, o experimento e as generalizaes estats-       como normas que, para os indivduos,  racional
ticas fornecem as nicas garantias da cincia e,      criar ou aceitar para sua vantagem mtua.
por conseguinte, as "leis" causais so projees          Alternativamente, porm, o comportamento
da experincia sustentadas pela experincia.          humano pode ser considerado racional no sen-
Essa disputa prossegue nas cincias sociais,          tido diferente de se submeter s regras e proce-
com, em termos gerais, as abordagens sis-             dimentos institucionais. Foi assim que Max
tmicas, estruturais e fortemente funcionais do       Weber viu os sistemas racionais-jurdicos do
lado racionalista e os enfoques comportamen-          mundo moderno e, em especial, as atividades
tais e estatsticos do lado empirista. Analise-se,    dos burocratas. Tambm suscita a sugesto re-
porm, ser possvel discordar de ambas as par-        lativista de que toda cultura ou instituio 
tes. Por exemplo, Quine (ver, a ttulo ilustrativo,   racional em seus prprios termos e deve, por-
1951) afirmou que a experincia no pode ser          tanto, ser entendida mediante a identificao de
descrita sem invocar uma teoria prvia e que o        suas regras de dentro para fora. Discusses
modo como a teia terica  tecida  uma questo       sobre se se deve tomar a ao racional como
de conveno. A afirmao de Kuhn (1962) de           instrumental ou governada por regras, ou se se
                                                                                     racionalizao   641


deve dar campo ou no para ambas as leituras,           razo, racionalidade e racionalismo, da qual 
esto notavelmente vivas em antropologia, mas           reflexo (ver RACIONALIDADE E RAZO). Por
tambm se encontram em outras reas, mesmo              causa dessa ambigidade,  impossvel dar uma
na cincia econmica.                                   definio geral de racionalizao. Dois grupos
    Sustenta-se usualmente que a leitura "eco-          de significado podem, contudo, ser iden-
nmica"  coerente com o positivismo, e, por            tificados, refletindo o que chamaramos as con-
conseguinte, permite o comportamento inten-             cepes especial e geral de racionalizao.
cional nos seres humanos sem ameaar a uni-             (Uma terceira concepo de racionalizao,
dade do mtodo cientfico. A outra leitura inicia       sem vnculos com as duas primeiras, no ser
uma disputa entre positivismo e hermenutica            aqui tratada: a racionalizao como explicao
(ou "interpretao" como chave para o enten-            ou justificao falsa ou egosta das crenas ou
dimento da ao), a qual desafia o alcance da           prticas de um indivduo ou grupo.)
explicao causal no mundo social. Pode-se                  A concepo especial de racionalizao, res-
perceber um corte entre "natureza" e "cultura"          trita ao domnio econmico, desenvolveu-se na
e, concomitantemente, entre as cincias natu-           Alemanha no final da dcada de 20. "Raciona-
rais e as sociais. Assim sendo, a "razo" tem que       lizao" tornou-se palavra de ordem muito po-
estar vinculada  "interpretao" para a com-           pular durante esses anos de recuperao e reor-
preenso social. Para um ponto de partida, ver          ganizao econmicas espetaculares, usada pa-
Weber (1921-22) sobre a adequao no nvel do           ra caracterizar -- e promover -- o desenvol-
significado e a adequao causal.                       vimento de novas instncias de coordenao,
    As questes de mtodo cientfico so distin-        integrao, padronizao e planejamento inter-
tas das questes historicamente especficas so-         firmas, por um lado, e a sistemtica explorao
bre as formas e os limites da racionalidade             institucionalizada da pesquisa, conhecimentos,
humana, tal como foram tratadas no sculo XX,           tcnicas, mtodos e atitudes cientficos na pro-
por exemplo, pela psicanlise freudiana, o com-         duo, administrao, distribuio e finanas,
portamentalismo de B.F. Skinner, a lingstica          por outro. Logo ficou claro, porm, que o que
chomskyana ou os modelos computacionais da              era racional de um ponto de vista poderia ser
mente. Talvez o mais vasto de todos seja o              irracional de outro. A racionalizao tcnica
problema de Weber da modernidade e se a                 podia ser economicamente irracional; a racio-
expanso da ordem racional-jurdica, neces-             nalidade administrativa do planejamento coor-
sria ao capitalismo, pode sustentar-se em um           denado podia ser irracional do ponto de vista da
mundo totalmente secular. Pode ser que apurar           eficincia do mercado; a racionalizao orga-
se a mente e a sociedade humanas so to                nizacional para reprimir a capacidade excessiva
racionais quanto as outras operaes da nature-         podia ser socialmente irracional. Talvez por
za dependa de os seres humanos as fazerem ou            causa dessa inevitvel ambigidade, passou ra-
no assim -- um pensamento perturbador que              pidamente a voga da "racionalizao" como
coloca a discusso abstrata das definies de           ponto de convergncia programtica. O termo
"racionalidade" e "razo" abruptamente no ter-          foi adotado em outros pases, mas nunca teve a
reno das realidades prticas.                           mesma aceitao de que desfrutava na Alema-
Leitura sugerida: Chomsky, N. 1966: Cartesian Lin-
                                                        nha. Em ingls, o termo tem tido, geralmente,
guistics: a Chapter in the History of Rationalist       um significado mais estreito, referindo-se so-
Thought  Hollis, M. e Lukes., S., orgs. 1982: Ratio-    bretudo a mudanas organizacionais que visam
nalism and Relativism  Kuhn, Thomas S. 1962 (1970):     reduzir a ineficincia, o desperdcio ou o exces-
The Structure of Scientific Revolutions  Quine,         so de capacidade.
W.V.O. 1951 (1963): "Two dogmas of empiricism. In
                                                            A concepo geral de racionalizao tem um
From a Logical Point of View  Rawls, John 1971: A
Theory of Justice  Weber, M. 1921-22 (1979): Econo-     quadro de referncia mais amplo. As foras de
my and Society  Wilson, B.R., org. 1970: Rationality.   racionalizao -- cincia e tecnologia, mer-
                                    MARTIN HOLLIS       cados e burocracias, disciplina e autodisciplina
                                                        -- so entendidas como algo que impregna
racionalizao  um conceito fartamente am-             todas as esferas da vida: a cultura, a sexualidade
bguo, englobando "todo um mundo de coisas              e a prpria personalidade, tanto quanto a produ-
diferentes" (Weber, 1904-05). A sua am-                 o, a guerra, o direito e a administrao. Essa
bigidade equipara-se  dos conceitos afins de          ampla concepo civilizatria da racionaliza-
642   racionalizao


o deve quase tudo a Weber, cuja obra pode          tivos. O que  "especfico e peculiar" no modelo
ser toda lida como uma tentativa de caracterizar     ocidental de racionalizao , portanto, o fato
e explicar em perspectiva histrica mundial o        de o "fim" em funo do qual a ordem social 
"racionalismo especfico e peculiar" da moder-       racionalizada -- calculabilidade mxima --
na civilizao ocidental (1904-5). Como Weber        no ser realmente um fim, mas um meio gene-
demonstrou em detalhe, modos extremamente            ralizado que facilita indiscriminadamente a
variados de racionalizao tm existido em to-       busca deliberada de todos os fins substantivos.
das as esferas da vida e em todas as grandes             Em suas investigaes do racionalismo e da
civilizaes. Alm disso, em qualquer domnio        racionalizao, Weber reformula em termos so-
que se aborde, observam-se modos concorren-          ciolgicos um problema pertencente original-
tes de racionalizao, orientados para diferentes    mente  filosofia da histria. Assim fazendo, ele
fins e valores. Por exemplo, Weber sublinhou o       rompeu decisivamente com a f do Iluminismo
racionalismo do confucionismo e do protestan-        -- e com a de Hegel -- na realizao da razo
tismo, mas assinalou que o primeiro impunha o        na histria. O sonho da razo, apontou Weber,
"ajustamento racional ao mundo" e o segundo,         poderia redundar em pesadelo: a racionalizao
o "domnio racional do mundo" (Weber, 1951,          poderia engendrar um mundo sem significado,
p.248).                                              sem caritas, sem liberdade, dominado por po-
    O interesse de Weber, portanto, no era con-     derosas burocracias e pela "jaula de ferro" da
trapor a racionalizao no Ocidente  sua ausn-     economia capitalista.  esse estado de esprito
cia alhures, mas especificar e explicar o carter    de pessimismo cultural -- representando, por
distinto do modelo ocidental de racionalizao.      certo, apenas um aspecto da resposta profun-
Esse modelo distinto envolve seis processos          damente ambivalente de Weber ao moderno
sociais e culturais fundamentais e largamente        racionalismo ocidental -- que vai imbuir o
ramificados:                                         subseqente desenvolvimento da concepo
    1. o desencanto e a intelectualizao do mun-    geral de racionalizao na obra de Max Hork-
        do, e a resultante tendncia a ver o mundo   heimer e Theodor Adorno. Mais recentemente
        como um mecanismo causal sujeito, em         Jrgen Habermas empreendeu uma reconstru-
        princpio, ao controle racional;             o sistemtica das noes de racionalidade e
    2. o surgimento de um ethos de realizao        racionalizao, visando ligar a preocupao fi-
        secular impessoal, historicamente alicer-    losfica normativa com a razo e a preocupao
        ado na tica puritana da vocao;           histrico-sociolgica emprica com a raciona-
                                                     lizao. Baseando essa reconstruo na distin-
    3. a crescente importncia do conhecimen-        o entre racionalidade cognitivo-instrumental
        to tcnico especializado em economia,        e racionalidade comunicativa, Habermas chega
        administrao e educao;                    a uma avaliao mais diferenciada e menos
    4. a objetificao e despersonalizao do        pessimista do curso da racionalizao oci-
        direito, da economia e da organizao        dental do que a dos tericos da ESCOLA DE
        poltica do estado, e o conseqente recru-   FRANKFURT, embora retendo e ampliando a cr-
        descimento da regularidade e da calcula-     tica por eles feita  razo instrumental.
        bilidade da ao nesses domnios;                Ver tambm MODERNIZAO; REVOLUO
    5. o progressivo desenvolvimento dos             CIENTFICO-TECNOLGICA.
        meios tecnicamente racionais de contro-
        le sobre o homem e a natureza; e             Leitura sugerida: Brandy, R. 1933: The Rationaliza-
                                                     tion Movement in German Industry  Brubaker, R.
    6. a tendncia ao deslocamento da orienta-       1984: The Limits of Rationality: an Essay on the Social
        o da ao tradicional e assente em va-     and Moral Thouhgt of Max Weber  Habermas, J. 1981
        lores racionais (wertrational) para a ao   (1984, 1989): The Theory of Communicative Action, 2
        puramente instrumental (zweckrational).      vols.  Horkheimer, Max 1947: The Eclipse of Reason
                                                      Levine, D.N. 1985: "Rationality and freedom, in-
    Apesar de suas diferentes razes histricas,     veterate multivolcals". In The Fight from Ambiguity:
esses processos esto ligados pelo fato de todos     Essays in Social and Cultural Theory  Weber, Max
eles favorecerem mais a racionalidade formal         1921-22 (1978): Economy and Society, org. por G. Roth
do que a substantiva. Ou seja, eles estimulam a      e C. Wittich  1920 (1946): From Max Weber: Essays
calculabilidade da ao enquanto permanecem          in Sociology.
indiferentes aos seus fins ou valores informa-                              WILLIAM ROGERS BRUBAKER
                                                                                       racismo    643


racismo Qualquer conjunto de crenas que            superioridade e inferioridade moral e cultural
classifique a humanidade em coletividades dis-      resultantes dessa diferena.
tintas, definidas em funo de atributos naturais       Entretanto, a principal noo moderna de
e/ou culturais, e que organize esses atributos em   raa desenvolveu-se nos sculos XVII e XIX,
uma hierarquia de superioridade e inferiori-        baseada na idia de tipos de humanidade biolo-
dade, pode ser descrita como racista. Sob con-      gicamente distintos. Os exploradores geogrfi-
dies sociais e polticas que lhes sejam favo-     cos e europeus e, depois, a expanso colonial
rveis, essas crenas so associadas a conjuntos    aumentaram a curiosidade e o interesse por
de prticas e instituies discriminatrias que     povos diferentes. O perodo ulterior dessa ex-
favorecem determinada coletividade em detri-        panso coincidiu com a intensificao da ativi-
mento de outra, de acordo com a suposta dife-       dade cientfica e o crescente prestgio da cin-
rena e superioridade.                              cia. Sistemas de classificao e, mais tarde,
    O "racismo"  uma noo europia que en-        teorias da evoluo marcaram as cincias bio-
trou em uso na dcada de 30 para designar as        lgicas. A classificao de raas humanas foi
crenas e prticas do regime nazista da Alema-      vista como uma extenso desse esforo cien-
nha, baseadas na suposta superioridade da raa      tfico. Com base nos critrios de classificao,
"ariana", na importncia da "pureza" racial e na    desenvolveram-se categorias ordenadas em
conseqente poltica de "purificao" que cul-      uma escala de superioridade/inferioridade, em
minou nos horrores do Holocausto (ver ANTI-         que os europeus, naturalmente, se viam como
SEMITISMO; NACIONAL-SOCIALISMO). Nesse caso,
                                                    superiores. As classificaes, porm, no para-
o racismo era dirigido principalmente (mas no      ram por a e acabaram se estendendo ao interior
                                                    das diferentes naes europias. Por exemplo,
exclusivamente) contra os judeus. As idias
                                                    o esteretipo negativo do irlands na Inglaterra
subentendidas nessa hostilidade formaram um
                                                    do sculo XIX foi incorporado nessa classifica-
sistema de classificao de "raas" na base de
                                                    o racista de diferena e atribuio de in-
constituies biolgicas supostamente distin-
                                                    ferioridade.
tas, as quais, por sua vez, estavam ligadas a
                                                        Foi essa idia biolgica de hierarquia racial
distintas qualidades morais e culturais. Sub-
                                                    que animou o mpeto racista do nazismo e do
seqentemente, o "racismo" foi generalizado
                                                    fascismo na Europa, nas dcadas de 20 e 30. As
para designar outras idias sobre diferenas
                                                    atrocidades cometidas por esses regimes de
sistemticas de superioridade/inferioridade en-     acordo com a orientao de suas ideologias
tre grupos, mais comumente as que dizem res-        racistas alertaram o mundo liberal para os peri-
peito s relaes entre brancos e negros na         gos dessas crenas e, como vimos, levaram 
frica do Sul, Estados Unidos e Europa Oci-         formulao do prprio conceito de "racismo".
dental.                                             Depois da derrota nazista, a opinio do mundo
    O "racismo",  claro, est ligado  noo de    liberal preocupou-se em garantir que esses con-
RAA como princpio de classificao da huma-       ceitos nunca mais voltariam a ser empregados
nidade. Essa noo tem sido altamente varivel      para fins polticos. Com esse propsito, durante
em contedo, de acordo com os contextos pol-       as dcadas de 50 e 60 a Unesco tomou a inicia-
ticos e culturais de seu uso. Nos perodos mais     tiva de realizar quatro reunies de cientistas
antigos da histria europia, anteriores ao scu-   eminentes (da biologia e cincias sociais) para
lo XVIII, "raa" referia-se geralmente  "es-       que se pronunciassem sobre o status cientfico
tirpe" nacional, digamos, os franceses distintos    do conceito de "raa". As suas concluses fo-
dos ingleses, uns e outros tendo atributos, cos-    ram pela inexistncia de base cientfica para as
tumes e tradies prprios. S se pode falar de     teorias raciais. Essa posio foi facilitada pelos
"racismo" nesse contexto em termos gerais e         desenvolvimentos da cincia biolgica, espe-
vagos de "orgulho nacional". Sobrepondo-se a        cialmente da gentica, em funo dos quais as
essa diferenciao entre naes europias havia     classificaes baseadas em caractersticas "fe-
a distino, na base da religio, entre o cristo   notpicas", como a cor da pele, so arbitrrias
e o pago. O principal adversrio no-cristo       (Montagu, 1972).
era o mundo do isl. Como tal, os esteretipos          As reaes aos horrores nazistas conver-
negativos de outros eram formulados na base         teram o "racismo" em um estigma de reprova-
da diferena religiosa e dos pressupostos de        o moral e poltica. O quase consenso da opi-
644   racismo


nio cientfica sobre a invalidade do conceito      legais ou administrativas. Sem embargo, uma
de "raa" abalou a credibilidade assim como a       nova forma de idias explcitas sobre "relaes
respeitabilidade das teorias e crenas racistas.    raciais", que alguns consideram racistas, est
Para alguns autores que trataram do tema, isso      sendo cada vez mais expressa por setores res-
significou o fim do racismo biolgico e, portan-    peitveis da "Nova Direita". Essas idias afir-
to, do racismo como tal, mas no do "etnocen-       mam a propenso comum das pessoas a preferir
trismo" (Banton, 1970, p.31-2). Outros discor-      o intercurso com as de "sua prpria espcie", o
daram dessa concluso (Miles, 1989, p.42-8).        que  definido em termos culturais e nacionais.
Em primeiro lugar, a extino de classificaes     Segue-se que  desejvel segregar cultural e
biolgicas nos nveis intelectual e oficial no     etnicamente diferentes populaes nos inte-
acarretou seu desaparecimento nos nveis da         resses da paz e da harmonia. Os proponentes
cultura popular e dos conhecimentos ditados         dessas idias negariam peremptoriamente que
pelo "senso comum". Em segundo lugar, o ra-         so racistas: classificam diferenas de humani-
cismo biolgico no  a nica forma possvel:       dade, mas sem afirmar a superioridade ou in-
existem muitas crenas e ideologias no mundo        ferioridade de diferentes categorias, meramen-
moderno que classificam pessoas e as avaliam        te a convenincia de sua segregao. Foram
na base de diferenas culturais e "tnicas". Sus-   essas, contudo, as justificativas explcitas para
tenta-se que essas crenas funcionam de manei-      o apartheid na frica do Sul, hoje universal-
ras semelhantes s crenas biolgicas: se a hos-    mente condenado.
tilidade aos judeus e aos negros se baseia na
crena em sua inferioridade biolgica ou em         Explicaes do racismo
sua inferioridade tnico-cultural, pouca dife-          Por que sentimentos e aes hostis so diri-
rena faz. Com efeito, os termos "raa" e           gidos contra certos grupos, sob condies par-
"relaes raciais" continuam gozando de am-         ticulares, com base em sua suposta inferiorida-
pla aceitao. Por outro lado, afirmou-se que       de ou nocividade natural ou cultural? Vrias
esse uso mais amplo de "racismo" no o              explicaes tm sido propostas.
distingue de "etnocentrismo" ou at mesmo
de nacionalismo. A discusso gravita, pois,         Explicaes psicolgicas Estas so estruturadas
em torno de uma escolha de definies, bem          em funo de padres de reaes emocionais
como da necessidade de se distinguir entre          por determinados tipos de personalidade, qua-
conceitos estreitamente relacionados, e, em         lificados em um conjunto de estudos da dcada
todo caso, fluidos.                                 de 50 como a "personalidade autoritria"
    Um importante contexto sociopoltico para       (Adorno et al, 1950), com efeito um tipo de
a atuao de idias racistas  constitudo atual-   psicopatologia gerado por certos padres de
mente pelas sociedades da Europa Ocidental          experincias infantis. Sejam quais forem os
que contm comunidades afro-antilhanas, asi-       mritos dessa explicao, ela no pode explicar
ticas, norte-africanas e do Sul da Europa origi-    situaes, como a da Alemanha nazista, em que
nadas pelas ondas de mo-de-obra migrante na        toda uma cultura poltica, a qual deve incluir
histria recente. Conflitos polticos e tenses     muitos tipos diferentes de personalidade,  ori-
comunitrias em torno desse fenmeno expuse-        entada para levar a efeito violentas campanhas
ram uma vasta gama de idias racistas. Dadas        racistas.
as conotaes poltica e moralmente negativas
do racismo, apenas alguns grupos de extrema         Explicaes em termos de tenses sociais Neste ca-
direita geralmente desacreditados reconhece-        so, a idia  que o racismo deriva de deter-
riam ser "racistas". A maioria das formas de        minados conflitos e tenses sociais que geram
hostilidade ou discriminao contra esses "gru-     a necessidade de "bodes expiatrios". As frus-
pos tnicos" so disfaradas ou encobertas, so-     traes sociais levam  agresso generalizada,
bretudo quando praticadas por governos e or-        a qual no pode ser dirigida contra as fontes de
ganismos oficiais. Um bom exemplo so os            frustrao porque estas so poderosas demais
controles britnicos de imigrao, notoriamen-      ou no so claramente identificveis. A agres-
te considerados racistas em seus efeitos, mas       so  ento dirigida contra grupos minoritrios
que, no obstante, no usam categorias raciais      vulnerveis, acusados de responsveis por ma-
ou tnicas explcitas em suas especificaes        les econmicos e sociais.
                                                                                      radicalismo    645


Explicaes estruturais Se certos grupos mino-          radicalismo A palavra  de origem latina e
ritrios esto regularmente sob ataque em toda          significa literalmente "de ou pertencente a uma
uma gama de diferentes situaes, ento, afir-          raiz, ou a razes". No surpreende que o seu
ma-se, devem existir processos sociais sistem-         significado tenha sido ampliado para aludir ao
ticos que ativem e institucionalizem esses sen-         que  central, essencial, fundamental, primrio,
timentos e aes. A inferiorizao de comuni-           ou  fonte e origem de qualquer fenmeno.
dades negras e asiticas nos Estados Unidos e           Coerentemente com essa ampla conotao, a
na Europa Ocidental, sublinha-se,  o produto           palavra adquiriu significados tcnicos em ma-
de uma longa histria de dominao europia,            temtica, geometria, filologia, msica, botnica
primeiro em situaes coloniais em que as po-           e qumica.
pulaes nativas eram exploradas, depois nos                A palavra e seus derivados passaram a ser
prprios pases metropolitanos para onde elas           aplicados tambm em poltica ao que era per-
foram importadas como conveniente mo-de-               cebido como reformas de grande alcance e de
obra, por vezes como escravos e, mais recen-            natureza fundamental, aos que as desejavam e
temente, como mo-de-obra migrante barata. A             sua defesa como sistema de crenas mais ou
frgil posio econmica e poltica dessas mi-          menos ordenado. Esse uso originou-se na pol-
norias torna-as vulnerveis  categorizao ra-         tica inglesa em fins do sculo XVIII e comeos
cial e  situao de "bodes expiatrios". Isso          de XIX, durante a efervescncia provocada pela
serviria, portanto, para legitimar sua explorao       Revoluo Francesa, e se tornou mais tarde
e desvantagem na sociedade dominante. Os                proeminente tambm na Frana. No incio o
crticos dessa linha de pensamento enfatiza-            radicalismo referia-se unicamente  esquerda
ram que os grupos em questo no constituem             poltica, ou seja, a propostas, programas e ideo-
categorias econmicas ou sociais uniformes,             logias que defendiam mudanas nas institui-
mas ocupam posies variadas que vo desde              es e prticas vigentes (a prpria distino
os trabalhadores mal pagos at prsperos ho-            esquerda-direita teve origem na poltica da Re-
mens de negcios que so, por vezes, os pa-             voluo Francesa).
tres e senhorios dos indivduos mais pobres.               "Radical" pode ser usado para caracterizar
Uma anlise mais complexa do racismo,                   o contedo das mudanas desejadas, ou os m-
combinando "classe" com fatores comunit-               todos recomendados para realiz-las, mtodos
rios,  advogada por alguns autores (para uma           que se considera irem muito alm das normas
exposio dessas questes, ver Miles, 1982,             convencionais que regulam o conflito poltico,
1989).                                                  ou ambas as coisas em combinao contem-
    Um exame da ampla e variada gama de                 plando uma transformao "totalstica" da or-
situaes histricas e modernas do racismo in-          dem poltica ou social a ser obtida atravs da
dicaria que no se trata de um fenmeno unifor-         luta armada ou a REVOLUO violenta. Nesse
me, suscetvel de uma explicao comum. Exis-           sentido, "radical" distingue-se de "moderado",
tem muitos e diferentes fenmenos de racismo,           "convencional" e at de "legal", termos que
caracterizados pelos fatores scio-econmicos           tambm podem ser aplicados aos fins e aos
e culturais dos quais formam uma parte. As              meios adotados por um movimento poltico.
explicaes do racismo devem resultar da an-           Portanto, falta ao radicalismo um contedo
lise de cada situao.                                  substantivo especfico. Descreve uma proprie-
Leitura sugerida: Adam, Heribert 1971: Modernizing
                                                        dade abstrata de uma crena ou programa, a de
Racial Domination  Banton, M. 1987: Racial Theories     se opor e desejar substituir caractersticas de
 Benedict, R. 1983: Race and Racism  Castles, S.,       uma origem vigente que so vistas como cen-
Booth, H. e Wallace, T. 1984: Here for Good: Western    trais e at definitivas.
Europe's New Ethnic Minorities  Fanon, Frantz 1961          "Radicalismo" assemelha-se a rtulos pol-
(1983): The Wretched of the Earth  Husband, C., org.    ticos como "esquerda", "direita", "conserva-
1982: "Race". In Britain: Continuity and Change 
Miles, R. 1982: Racism and Migrant Labour: a Critical
                                                        dor", "progressista", na medida em que iden-
Text  1989: Racism  Mosse, George L. 1978: Toward       tifica um ponto de vista poltico somente por
the Final Solution: a History of European Racism        sua atitude em face de mudanas ou sua relao
Rex, J. 1983: Race Relations in Sociological Theory     com outras posies polticas. Radicalismo in-
Zubaida, S. 1970: Race and Racialism.                   dica um compromisso mais extremo, absoluto
                                     SAMI ZUBAIDA       e intransigente; alm disso,  abrangente, en-
646   radicalismo


globando grande nmero de questes concretas         se touchent" -- os extremos se tocam. Movi-
na rbita de sua condenao ou adeso. Assim         mentos reacionrios ou de direita assemelha-
entendido, o "radicalismo" situa-se em contras-      ram-se ocasionalmente  esquerda revolucion-
te com rtulos como "liberalismo", "socialis-        ria em sua vigorosa rejeio do status quo, sua
mo", "comunismo", ou "anarquismo", os quais          disposio de favorecer novos mtodos de
possuem um contedo definido apontando para          avano poltico, at mesmo extralegais, e sua
concepes substantivas de uma ordem poltica        inclinao para ver os seus projetos polticos
ou social desejvel, por mais distorcidas e am-      como expresses de ideologias ou Weltans-
bguas que essas concepes possam ter ficado        chauungen universais que se propem explicar
no decorrer de quase dois sculos de contesta-       a natureza, a sociedade e a histria humanas. Os
o poltica a respeito do seu significado. Uma      movimentos fascistas do entre-guerras foram
vez que radical como rtulo  vazio, no trans-      chamados radicais, o que no surpreende, uma
mitindo qualquer imagem concreta da ordem            vez que adotaram por modelo, em grande parte,
institucional que procura instaurar, enquanto        os movimentos de massa da esquerda radical e
que, simultaneamente, indica a rejeio extre-       foram freqentemente liderados por renegados
ma da ordem existente, seja ela qual for, rara-      esquerdistas. O termo "direita radical" entrou
mente foi adotado como nome auto-suficiente          em uso na dcada de 50, quando foi aplicado
por partidos e movimentos desejosos de poder.        por numerosos e bem-conhecidos socilogos
Nisso difere de outros rtulos para todos os fins,   polticos e intelectuais americanos ao macartis-
igualmente no-especficos, como "progressis-        mo -- a explorao indiscriminada pela ala
ta", "populista", ou "democrtico", o primeiro       conservadora e isolacionista do Partido Repu-
indicando no mais que uma predisposio ge-         blicano do sentimento anticomunista como ar-
ral para a mudana, os outros dois meramente         ma contra os democratas no poder e contra a
refletindo a vontade do povo ou de uma maio-         esquerda em geral.
ria. Esses termos so, com freqncia, os favo-          Quando foi citada por Seymour Martin Lip-
ritos de partidos em busca de votos na poltica      set, a expresso "direita radical" possua a res-
democrtica, precisamente por causa de sua           sonncia de um oxmoro. Ela refletia, porm, o
vacuidade e capacidade de significar todas as        sentimento geral, antes e imediatamente depois
coisas para todas as pessoas, ao passo que nuan-     da Segunda Guerra Mundial, de que movimen-
as tanto de extremismo quanto de elitismo           tos como o fascismo e o comunismo, e at
aderem inevitavelmente ao radicalismo, exce-         reflexos mais plidos deles, como a tendncia
to, talvez, em tempos de crise social aguda.         macartista nos Estados Unidos, tinham traos
    No obstante, o Partido Radical (mais tarde      comuns que transcendiam as "normais" divi-
Partido Socialista Radical) foi o principal par-     ses de interesses esquerda-direita da poltica
tido poltico da Terceira Repblica francesa e       democrtica. Portanto, o radicalismo passou a
sobreviveu at a Quarta Repblica. Partidos          simbolizar certo estilo de poltica que se carac-
semelhantes, com o mesmo nome e o mesmo              teriza por imagens extremas e conspiratrias do
ponto de vista, existiram em muitos pases eu-       inimigo e pela disposio de recorrer a mtodos
ropeus menores na primeira metade do presente        no-democrticos de conflito poltico e a outros
sculo. Os radicais franceses reivindicaram pa-      de discutvel legalidade.
ra si a herana jacobina do REPUBLICANISMO.              Depois da dcada de 50 as mais antigas
Eram fortemente anticlericais, opostos s elites     implicaes, basicamente esquerdistas, do "ra-
conservadoras tradicionais e tambm ao capita-       dicalismo" foram restabelecidas. Com efeito,
lismo em grande escala e ao coletivismo socia-       era o objetivo dos movimentos da NOVA ESQUER-
lista. Embora constitussem basicamente um           DA nas principais democracias ocidentais rein-
partido conservador na dcada de 20, os radi-        tegrar a diviso esquerda-direita como o eixo
cais franceses participaram do governo de es-        principal do conflito poltico e expurgar o rtulo
querda da Frente Popular em 1936/7.                  "radical" das implicaes totalitrias que ele
    Apesar de sua restrio original  esquerda,     adquirira na era fascista e no incio da Guerra
certas tendncias polticas que no so, em          Fria. No final da dcada de 80, contudo, o
sentido algum, esquerdistas foram tambm des-        colapso do comunismo voltou, uma vez mais,
critas como radicais em reconhecimento da ver-       a dar ao termo um carter ambguo, pois alguns
dade da sentena segundo a qual "les extrmes        dos adversrios do domnio comunista na
                                                                                           realismo   647


Unio Sovitica e na Europa Central foram                    Assim, a virada do sculo assistiu ao incio
freqentemente descritos -- e se descreveram             de uma reao aos idealismos reinantes -- na
-- como "radicais" ou "esquerdistas", embora             Gr-Bretanha, especialmente na obra de G.E.
desejassem estabelecer em seus prprios pases           Moore e (por algum tempo) Bertrand Russell,
governos democrticos e economias de merca-              e nos Estados Unidos, na de William James.
do capitalistas, de acordo com o modelo ociden-          Moore, ao defender o realismo do senso co-
tal.                                                     mum, prefigurou o devastador ataque ao feno-
     Apesar de sua natureza abstrata e formal, a         menalismo fornecido em meados de sculo pelo
tendncia do radicalismo foi sempre a de adqui-          ltimo Wittgenstein e pela Escola de Oxford de
rir certa colorao ideolgica proveniente dos           FILOSOFIA DA LINGUAGEM, liderada principal-
principais eventos histricos de um perodo. O           mente por J. Austin, G. Ryle e F. Waismann.
seu significado em uso, por conseguinte, sem-            Mas a forma teoricamente dominante de realis-
pre foi propenso a ser altamente relativo e de-          mo perceptivo na primeira metade do sculo era
pendente do contexto.                                    o "realismo representativo", o qual postulava
                                                         uma cadeia causal entre objeto e produto mental
Leitura sugerida: Bell, Daniel, org. 1963: The Radical   da percepo, mediada pela sensao ou sensa,
Right  Lasky, M.J. 1976: Utopia and Revolution 
                                                         em virtude da qual alguns produtos mentais da
Lipset, S.M. 1960 (1981): Political Man, ed. ampliada
 Mannheim, Karl 1929 (1960): Ideology and Utopia.
                                                         percepo (percepts) eram como os seus obje-
                                                         tos. Isso sofria do defeito de ser inverificvel,
                                  DENNIS H. WRONG
                                                         uma vez que, no realismo representativo, no
                                                         havia como objeto e produto mental da percep-
razo Ver RACIONALIDADE E RAZO.                         o poderem ser diretamente comparados. Por
                                                         essa razo, a epistemologia dominante, o POSI-
realismo De modo geral, o "realismo" em                  TIVISMO, era normalmente formulada em termos
filosofia afirma a existncia de alguma espcie          fenomenalistas (ou seja, os objetos materiais
controvertida de entidade (como universais, ob-          eram analisados como dados sensoriais reais ou
jetos materiais, leis causais; proposies, n-          possveis) -- embora recebesse ocasionalmen-
meros, probabilidades; estrutura social, fatos           te declinaes fisicalistas (por exemplo, por O.
morais). Mas os trs tipos historicamente mais           Neurath) ou operacionalistas (por exemplo, por
importantes de realismo so:                             P.W. Bridgman). O fenomenalismo, contudo,
    1. realismo predicativo, afirmando a exis-           era pelo menos to insustentvel quanto o rea-
       tncia de universais independentemente            lismo representativo, pois no havia outro mo-
       (Plato) ou como propriedades (Aris-              do de definir os dados sensoriais a no ser em
       tteles) de certas coisas materiais;              termos de objeto material. ("Parece-me estar
    2. realismo perceptivo, afirmando a exis-            vendo" -- ou "Estou percebendo" -- "agora
       tncia de objetos materiais no espao e           um elefante cor-de-rosa".) Uma sada para esse
       no tempo, independentemente de sua                impasse parecia ter sido fornecida, no entender
       percepo; e                                      de muitos realistas do final do sculo, pela
    3. realismo cientfico, afirmando a existn-         teoria da percepo ecolgica de J.J. Gibson e
       cia e a operao de objetos de investiga-         sua escola. De acordo com essa teoria, os seres
       o cientfica absoluta (em sua maioria           humanos eram organismos que procuravam ati-
       na cincia natural) ou relativamente (em          vamente invariantes -- como recursos propor-
       sua maior parte na cincia social) in-            cionados (por exemplo, este queijo como co-
       dependentes da investigao ou, de mo-            mestvel) em seu meio ambiente. Muitos sau-
       do mais geral, da atividade humana.               daram isso como um revoluo darwiniana em
    O moderno realismo cientfico (final do s-          (2).
culo XX) acarreta, mas  irredutvel a, posies             O moderno realismo cientfico separa-se da
realistas em (1) e (2). Este verbete estar interes-     crtica do positivismo lgico dos anos 20 e 30
sado principalmente em (3) e na FILOSOFIA DA             que constituiu a base da noo admitida de
CINCIA em geral. (Mas ver tambm FILOSOFIA              cincia at o final dos anos 60. Um dos primei-
DA CINCIA SOCIAL; NATURALISMO.) Mas na pri-             ros ataques decisivos contra isso foi desen-
meira metade do sculo atual era (2) que estava          cadeado por W.V.O. Quine, que criticou as dis-
em primeiro plano no debate filosfico.                  tines cannicas analtico/emprico e teo-
648   realismo


ria/fato para uma concepo holstica do co-        transfactual envolvem o que um autor recente
nhecimento como, com efeito, "um campo de           chamou, na esteira de Mandelbaum, de "trans-
fora cujas condies limtrofes so a experin-    dio", isto , a inferncia para (na prtica e em
cia". Apoiando-se nisso, Mary Hesse e outros        princpio) o inobservvel (Manicas, 1987,
afirmavam que a linguagem cientfica deve ser       p.10). muitos saudaram isso como uma revolu-
vista como um sistema dinmico em constante         o copernicana em (3).
crescimento por fora da extenso metafrica            Os argumentos para (3) podem ser divididos
da linguagem natural. Os predicados obser-          em trs tipos gerais: (a) argumentos transcen-
vacionais no so isomorfos de objetos (fsicos,    dentais decorrentes da possibilidade de prticas
sensuais ou instrumentais), mas "ns" que pren-     sociais especificadas (como as de Bhaskar); (b)
dem a rede ao mundo objetal de maneira mut-        argumentos indutivos decorrentes dos xitos
vel e dependente da teoria.                         das cincias; e (c) reductiones ad absurdum de
    Isso foi poderosamente reforado por uma        posies irrealistas (no-realistas). Um exem-
crescente conscincia, induzida pela obra de        plo de (b)  o argumento de Putnam e Boyd de
Karl Popper, T.S. Kuhn, I. Lakatos, P.K. Feye-      que o carter cumulativo do crescimento cien-
rabend e, na Frana, G. Bachelard e A. Koyr,       tfico indica fortemente que as teorias so ten-
da realidade da mudana cientfica. As teorias      tativas (falveis) de descrever estados e estru-
eram construes sociais, oferecendo descri-        turas reais tal como se sucedem umas s outras
es e explicaes rivais de um mundo in-           a fim de fornecer melhores (mais completas)
dependente da teoria. Rom Harr, invocando a        descries de uma realidade independente da
tradio de W. Whewell e N.R. Campbell, cha-        teoria. (Putnam [1978, p.25] rejeita agora esse
mou a ateno para o papel de modelos no            argumento baseando-se na possibilidade de
crescimento da teoria. Entidades e processos        uma "desastrosa meta-induo" resultante da
tericos, inicialmente postulados, de modo          falta de referncia em alguns casos reais, por
imaginativo, como explicaes plausveis de         exemplo, o flogisto. Hesse tambm o criticou
fenmenos observados, puderam vir a ser es-         com o fundamento de que a histria da cincia
tabelecidos como reais atravs da construo de     no revela convergncia.) Outro exemplo  o
equipamentos de extenso sensorial ou de ins-       argumento de Harr e Aronson decorrente do
trumentos de deteco dos efeitos dos fenme-       resultado determinado de buscas de seres
nos tericos (nesse ltimo caso, invocando um       presumidos por hiptese para um realismo de
critrio causal para atribuio de realidade).      orientao pragmtica. Exemplos de (c) so os
Tudo isso apontou fortemente um realismo            paradoxos, antinomias e aporias em que caem
"terico" vertical, o qual veio a ser corroborado   as filosofias irrealistas, como  o caso do pro-
pelas teses lingsticas de Saul Kripke e H.        blema da induo (ver CONHECIMENTO, TEORIA
Putnam, segundo as quais o uso de termos de         DO). Um tipo de problema pode ser especifica-
espcie natural, como "ouro" e "gua", pres-        mente mencionado. Se o realismo  transcen-
supe que essas substncias tenham essncias        dental e axiologicamente necessrio, isso sig-
reais, embora no necessariamente do nosso          nifica que as explicaes irrealistas pressupem-
conhecimento.                                       se na prtica alguma ontologia e, por conseguin-
    Pouco depois Roy Bhaskar apresentou, em         te, um ou outro tipo de realismo (por exemplo,
seu sistema de realismo transcendental ou cr-      um realismo emprico ou um realismo concei-
tico, um argumento favorvel a um realismo          tual subjetivo ou objetivo). Alm disso, se 
"transfactual" ou nmico horizontal, a par do       necessria uma forma particular de realismo,
realismo terico j estabelecido. Sustentou ele     como o realismo transcendental, isso indica que
que  uma condio da possibilidade de ativi-       filosofias realmente geradas e historicamente
dade experimental e aplicada que os objetos de      eficazes adotaro sempre a forma de formaes
investigao cientfica (leis causais, mecanis-     de compromisso internamente inconsistentes.
mos gerativos, coisas estruturadas) no s exis-    Nesse ponto, a filosofia, ao empreender sua
tam, mas atuem independentemente dessa ati-         crtica, deve aliar-se  sociologia do conheci-
vidade -- transfactualmente, sem distino al-      mento empiricamente fundamentada.
guma entre sistemas abertos e sistemas ex-              At data muito recente a maioria dos debates
perimentalmente (ou de algum outro modo)            sobre realismo girou mais em torno da questo
fechados. Tanto o realismo terico quanto o         epistemolgica da verdade do nosso conhe-
                                                                                          reformismo    649


cimento do que da questo ontolgica da reali-              burgus. Luxemburgo apoiou a estratgia da
dade de estruturas e coisas (conforme foi defi-             greve de massa para desenvolver uma conscin-
nida no incio deste verbete). Mas os realistas             cia revolucionria. Os que adotaram o reformis-
crticos sustentaram que o realismo ontolgico              mo, como Eduard Bernstein (1850-1932), afir-
 compatvel com o relativismo epistemolgico               mavam que a transio para o socialismo podia
(e que este ltimo no acarreta o relativismo               ser conseguida por meios pacficos, por exem-
judicativo). Conhecemos o mesmo mundo, mas                  plo, pela vitria eleitoral da classe operria
sob descries irredutivelmente histricas (e               organizada no seio da democracia liberal.
melhores ou piores).                                            Depois da morte de Marx, o MARXISMO tor-
    Uma palavra final sobre objetos sociais.                nou-se a ideologia oficial do Partido Social-De-
Bhaskar (1989, p.47) afirmou que, embora os                 mocrata (SPD), o qual representava a classe
processos do desenvolvimento do conhecimen-                 operria alem. Sob a influncia de Bernstein,
to e seus objetos sejam causalmente interdepen-             a ala reformista do SPD aceitou gradualmente
dentes, os ltimos devem ainda ser vistos como              a posio de que uma crise da economia capi-
existencialmente intransitivos, pelo que o rea-             talista deixara de ser eminente ou inevitvel, e
lismo, nessa acepo modificada, se apresenta               que poderia haver uma reforma evolutiva do
como condio a priori de qualquer investiga-               capitalismo resultando no socialismo. Berns-
o, independentemente do domnio. (Assim,                  tein publicou uma srie de importantes artigos
ele aplica-se, por exemplo, at  "dvida car-              em Die Neue Zeit, Sozialdemokrat e Justice, na
tesiana", ibid., p.92-2.)                                   dcada de 1890, abordando os problemas gerais
                                                            do socialismo. Assinalou que, como o capitalis-
Leitura sugerida: Bhaskar, Roy 1986: Scientific Rea-
lism and Human Emancipation  Gibson, J.J. 1966: The         mo se tornava um sistema social mais complexo
Senses Considered as Percentual Systems  Harr,             e diferenciado, as divises de classe social ti-
Rom 1986: Varieties of Realism  Hesse, M. 1974: The         nham ficado igualmente complexas. Por con-
Structure of Scientific Inference  Isaac, J. 1900: "Rea-    seguinte, a probabilidade de uma violenta luta
lism and reality: some realistic considerations". Journal   de classes entre capitalistas e trabalhadores se
for the Theory of Social Behaviour 20.1  Outhwaite,         tornara mais remota. As classes mdias estavam
William 1900: "Realism, naturalism and social beha-
viour". Journal for the Theory of Social Behaviour
                                                            prosperando, o padro de vida dos operrios
20.4  Putnam, H. 1983: Philosophical Papers, vol.3          tinha melhorado e a classe dominante aceitava
Quine, W.V.O. 1952 (1963): From a Logical Point of          relutantemente o papel de uma oposio so-
View.                                                       cialista no sistema parlamentar. Bernstein sus-
                                        ROY BHASKAR         tentou que o marxismo era um conjunto de
                                                            guias teis mas probatrios para a ao e, em
reformismo Inicialmente um debate no seio                   vez de desempenhar um papel cientfico, o so-
do SOCIALISMO ocidental em fins do sculo XIX               cialismo tinha de fornecer liderana moral para
e comeos do atual acerca dos mtodos mais                  neutralizar os efeitos negativos das condies
apropriados e desejveis para se efetuar a trans-           de fbrica sobre as vidas da classe operria. Em
formao do CAPITALISMO e a transio para o                suma, o programa de Bernstein para a reforma
socialismo, o reformismo adotou a idia de um               social do sistema capitalista estava tambm
roteiro pacfico.                                           associado ao REVISIONISMO, pois rejeitava o de-
    Como Karl Marx (1818-83) no tinha deixa-               terminismo econmico.
do uma teoria clara ou peremptria explicando                   A questo do reformismo que dominou os
os processos sociais pelos quais o socialismo               debates socialistas no perodo de 1890-1918
substitui o capitalismo, foi inevitvel a con-              no est em absoluto resolvida. Questes an-
trovrsia poltica. Entretanto havia, em linhas             logas ressurgiram depois da Segunda Guerra
gerais, dois pontos de vista opostos. Os marxis-            Mundial na social-democracia e no euroco-
tas ortodoxos, como Rosa Luxemburgo (1871-                  munismo. A integrao poltica e econmica da
1919) e Karl Kautsky (1854-1938), afirmavam                 Europa produziu uma importante elevao nas
que o capitalismo s poderia ser finalmente                 rendas reais, tornando assim cada vez mais
destrudo por mtodos revolucionrios violen-               remotas as possibilidades de insurreio ar-
tos. A revoluo era necessria para o estabe-              mada contra o estado capitalista. Em uma de-
lecimento da ditadura do proletariado, a destrui-           mocracia liberal, o comunismo s podia ganhar
o do estado capitalista e o fim do direito                votos adotando uma estratgia mais reformista,
650   regionalismo


legalista e, por conseguinte, deslocando-se para     laissez-faire. Embora essas crticas sejam ob-
uma posio mais central. Muitos cientistas          viamente contestadas,  importante comparar
sociais passaram a acreditar que o ABURGUESA-        diferentes modelos de reforma social, pois h,
MENTO dos trabalhadores os afastaria cada vez        dentro do capitalismo, considerveis diferenas
mais do socialismo. O ESTADO DE BEM-ESTAR era        entre, por exemplo, a Sucia, a Gr-Bretanha, o
uma alternativa  revoluo, pois transformava       Japo e os Estados Unidos em termos da relao
as relaes de explorao entre capital e traba-     entre desigualdade, crescimento econmico e
lho; o operrio j no se via diante da escolha      gastos com o bem-estar.
entre fome e emprego.
                                                     Leitura sugerida: Anderson, P. 1976: Considerations
    A gradual desestalinizao da Europa Ori-        on Western Marxism  Mann, M. 1988: "Ruling class
ental, as crises da Hungria e da Tchecos-            strategies and citizenship". Sociology 21, 339-54  Ma-
lovquia, a ciso entre as verses chinesa e         ravall, J.M. 1979: "The limits of reformism: parliamen-
russa de socialismo, e os problemas contnuos        tary socialism and the Marxist theory of the state".
do planejamento econmico centralizado na            British Journal of Sociology 30, 267-90  Marshall,
dcada de 60 contriburam para o surgimento          T.H. 1981: The Right to Welfare and Other Essays 
                                                     Schram, S.G. e Turbett, J.P. 1983: "Civil disorder and
da NOVA ESQUERDA, a qual rejeitou a tradio da      the welfare explosion: a two-step process". American
violncia poltica revolucionria, pela qual        Sociological Review 48, 408-14  Tudor, H. e Tudor,
classe operria caberia a responsabilidade ex-       J.M., orgs. 1988: Marxism and Social Democracy: the
clusiva de destruir o capitalismo atravs de um      Revisionist Debate 1896-1898  Turner, Bryan S.
ataque direto. A reforma progressiva do capi-        1986: Citizenship and Capitalism: the Debate over
talismo exigiria, de fato, a participao de todos   Reformism.
os grupos sociais oprimidos -- negros, mu-                                              BRYAN S. TURNER
lheres e estudantes --, e no apenas dos traba-
lhadores militantes.                                 regionalismo Este termo  usado para in-
    O evidente colapso das economias de co-          dicar um movimento sociopoltico inspirado
mando do bloco sovitico, a eroso da legitimi-      pela cultura de determinada regio e que tem
dade do Partido Comunista e a restaurao da         por objetivo impedir que a identidade local
democracia multipartidria em 1989-90 trans-         venha a submergir na homogeneidade nacional,
formaram uma vez mais o carter do debate            assim como tornar a regio mais independente
poltico. A idia de que o capitalismo poderia       do governo central.
ser destrudo pela violncia revolucionria              O regionalismo  um fenmeno particular-
deixou de estar em pauta. Os reformadores            mente forte e recorrente nos pases em que a
sociais da Europa Oriental preferiram retornar       formao do estado-nao (Tilly, 1975) no
 tarefa de recuperao da vitalidade da socie-      obliterou diversas identidades culturais regio-
dade civil, enquanto que no capitalismo ociden-      nais, mas, antes, alimentou estratgias do go-
tal as tentativas de reforma da sociedade so        verno centralizado de reprimir ou subordinar
freqentemente enunciadas em termos de uma           essas identidades aos padres nacionais unifor-
revitalizao dos princpios liberais de CIDADA-     mes e unificados. Os movimentos regionalistas
NIA como fundamento essencial dos direitos ao        so ampliados pelo relativo isolamento geogr-
bem-estar; tais reformas deixaram de ser per-        fico, como no caso de grandes ilhas como a
cebidas como passos necessrios no rumo do           Crsega e a Sardenha, ou distritos montanhosos
socialismo. Entretanto os crticos do capitalis-     como a Savia ou o vale de Aosta, ou por
mo ainda continuam afirmando que as reformas         especficos fatores religiosos -- Irlanda do Nor-
fundamentais da sociedade (em termos de sa-         te, Kossovo, Azerbaijo -- socioculturais ou
de, educao e bem-estar) no podem ser reali-       scio-tnicos -- Catalunha, o Pas Basco, Que-
zadas sem um ataque radical  desigualdade           bec -- ou tnico-nacionais -- os movimentos
subjacente de propriedade e poder que carac-         dos curdos ou armnios em vrios pases do
teriza o sistema de livre mercado. Os crticos       Oriente Mdio. Em muitos casos em que h
radicais afirmam que a expanso da cidadania         uma acumulao de condies de diversidade
e do bem-estar  meramente uma cooptao da          regional,  difcil distinguir entre a identidade
discordncia e do no-conformismo radical e          regional e um movimento nacional separatista,
que, portanto, o estado do bem-estar no , de       sobretudo em naes que historicamente en-
fato, uma importante reforma da economia do          globaram regies com diferentes tradies reli-
                                                                                          regulao     651


giosas, lingsticas e culturais; so exemplos o        parative Perspective  Tilly, C., org. 1975: The For-
Pas Basco e, sobretudo, a maioria dos estados          mation of National States in Western Europe.
locais que formavam antes as repblicas fede-                                              ENZO MINGIONE
rais da Iugoslvia e da Unio Sovitica. Recen-
tes acontecimentos nestas ltimas mostram co-           regulao A "perspectiva da regulao" para
mo  difcil traar uma linha divisria entre o         a anlise do capitalismo contemporneo deriva
regionalismo e o separatismo,  parte os desen-         de um grupo dspar de marxistas franceses que
volvimentos histricos concretos que testemu-           escreveram em finais da dcada de 70 e comeo
nharam, pelo menos nas repblicas blticas,             da de 80. As economias so analisadas como
uma rpida transio do regionalismo para os            combinaes estruturais mais ou menos coesas
movimentos separatistas nacionais.                      de sistemas produtivos bissetoriais (meios de
    Quando o conflito entre regionalismo e go-          produo e meios de consumo), uma relao
vernos nacionais no adquire implicaes sepa-          salarial, uma relao monetria e uma estrutura
ratistas, as organizaes polticas regionalistas       bancria, e uma relao estatal, tudo isso envol-
reivindicam como seu objetivo a devoluo de            vido por uma diviso internacional do trabalho
amplos poderes governamentais a um nvel in-            de produo e finana.
termedirio entre o nvel nacional, de um lado,             Primordialmente, a teoria da regulao iden-
e os nveis provincial e municipal de outro (ver        tifica os "regimes de acumulao" como exten-
Rousseau e Zariski, 1987).                              sivos ou intensivos, e as "formas de regulao"
    Os movimentos regionais so, com freqn-           como competitivas ou monopolsticas. Essas
cia, ampliados tambm por acentuados dese-              distines tm interpretaes mais estreitas ou
quilbrios resultantes do desenvolvimento eco-          mais amplas. Assim, em uma interpretao es-
nmico (ver Holland, 1967). Isso aplica-se tan-         treita, um regime extensivo de acumulao 
to a regies menos desenvolvidas, como a Itlia         aquele em que a acumulao no altera a tecno-
meridional, quanto s que so afetadas por forte        logia de produo (pelo menos no setor de bens
crescimento econmico e acabam vendo o cen-             de consumo) e em que o crescimento da produ-
tralismo nacional como um limite s suas pr-           tividade  lento, ao passo que um regime inten-
prias perspectivas de desenvolvimento, como             sivo altera continuamente as organizaes tc-
no caso da Eslovnia. Perodos ou tendncias            nica e social do trabalho em busca de um rpido
altamente desequilibradas de desenvolvimento            crescimento da produtividade. E ainda em uma
regional podem dar origem a casos de regiona-           interpretao estreita, as formas de regulao
lismo at mesmo em contextos em que a hete-             referem-se s prticas predominantes de forma-
rogeneidade cultural  limitada, como na Fran-          o de preos: a livre flutuao de preos admi-
a, ou em que  forte a autonomia regional              nistrados so caractersticas da forma monopo-
federativa, como nos Estados Unidos (ver tam-           lstica de regulao. Interpretaes mais amplas
                                                        desses termos tambm so usadas para des-
bm FEDERALISMO).
                                                        crever a estrutura social como um todo.
    Embora esse fenmeno traga mais freqen-
                                                            Nessa base, a histria capitalista  periodi-
temente  idia os pases industrializados, tam-
                                                        zada, com especial nfase nas mudanas que
bm  verificado em muitos pases subdesen-
                                                        ocorrem na organizao do trabalho e no modo
volvidos, sobretudo na sia e na frica. Neles,
                                                        como o sistema de salrios facilita a realizao
a formao de estados-naes sob a dominante
                                                        de produtos de atividade laboral. Assim, desde
influncia do colonialismo levou  agregao
                                                        meados do sculo XIX at 1914 temos um
de entidades locais extremamente diversas em            regime extensivo de acumulao com regula-
frgeis estados centralizados, continuamente            o competitiva. O perodo entre as guerras 
assediados por dificuldades econmicas; veja-           uma fase de transio na qual uma organizao
se, por exemplo, a ndia, o Paquisto ou as             do trabalho conhecida como "administrao
Filipinas, onde o mapa regional coincide com            cientfica" ou taylorismo  generalizada nos
profundas divises tnicas, religiosas, lings-        Estados Unidos e parcialmente adotada na Eu-
ticas e culturais.                                      ropa. Alm disso, acontece a incorporao, de
Leitura sugerida: Holland, Stuart 1976: Capital ver-    forma embrionria, de princpios tayloristas aos
sus the Regions  Rousseau, Mark O. e Zariski, Raphael   sistemas automticos de produo, conhecidos
1987: Regionalism and Regional Devolution in Com-       como fordismo. Mas as rpidas taxas de cres-
652   reificao


cimento da produtividade engendradas desse          dominada pelos Estados Unidos e, na era de
modo no foram estendidas ao poder de compra        transio ps-1970, nem os Estados Unidos,
do salrio, cujo crescimento era comparativa-       nem a Comunidade Europia, nem o Japo so
mente modesto. Da as crises econmicas que         capazes de regular sem ambigidade a econo-
caracterizaram o capitalismo mundial depois de      mia mundial atravs do domnio econmico
1929 no serem vistas em termos do conven-          internacional que exercem.
cional ciclo de negcios, mas antes como um             A teoria da regulao  totalmente abrangen-
colapso estrutural: o desenvolvimento do re-        te.  mais forte na descrio do que na anlise,
gime intensivo de acumulao no pde es-           pois  difcil conceber uma nica descrio
tabelecer-se apropriadamente na base da regu-       analtica da ampla variedade de diferentes ex-
lao competitiva, mas exigiu uma poltica de       perincias nacionais e suas formas institucio-
regulao ativa da prpria relao salarial. Isso   nais. Portanto,  mais bem entendida como
foi realizado pela reconstruo ps-1945 e pelo     agenda indicativa ou sugestiva de pesquisa do
prolongado boom subseqente: os mtodos for-        que como teoria polida e acabada. Cabe  pes-
distas de produo de massa puderam estabele-       quisa detalhada confirmar ou invalidar as pre-
cer-se como a organizao de trabalho prepon-       missas e concluses da teoria da regulao, e
derante devido ao consumo de massa concedido        essa tarefa ainda est em sua infncia.
 classe operria pela variedade de formas ins-
                                                    Leitura sugerida: Aglietta, M. 1976 (1979): A Theory
titucionais que constituem coletivamente a re-      of Capitalist Regulations: the U.S. Experience  1982:
gulao monopolstica. Particularmente impor-       "World capitalism in the eighties". New Left Review
tantes nesse ponto foram os acordos salariais       136, 5-42  Boyer, R. 1979: "Wage formation in his-
coletivos, apoiados pelas disposies atinentes     torical perspective: the French experience". Cambridge
 seguridade social e ao seguro-desemprego do       Journal of Economics 3.2, 99-118  De Vroey, M.
ESTADO DE BEM-ESTAR e pelo gigantesco recru-        1984: "A regulation approach interpretation of contem-
                                                    porary crisis". Capital & Class 23, 45-66  Lipietz, A.
descimento das intervenes econmicas do           1986: "Behind the crisis: the exhaustion of a regime of
estado (consideradas no tanto em termos de         accumulation: a `regulation school' perspective on
poltica de gastos pblicos keynesiana, mas         some French empirical works". Review of Radical Po-
sobretudo do gerenciamento monetrio e da           litical Economics 18. 1-12, 13-32.
reproduo da fora de trabalho). Assim, a acu-                                           SIMON MOHUN
mulao intensiva (a generalizao do fordismo
na produo) e a regulao monopolstica (a         reificao Este termo refere-se ao processo
administrao do consumo de massa atravs do        pelo qual os produtos da ao subjetiva de seres
estabelecimento do estado de bem-estar e da         humanos passam a se apresentar como objeti-
incorporao parcial dos sindicatos  gerncia      vos e, portanto, autnomos em relao  huma-
econmica) caracterizam a "idade de ouro" do        nidade. Entretanto podem ser identificados dois
capitalismo nas dcadas de 50 e 60. Finalmente,     amplos usos do termo. Na tradio marxista, o
os problemas da dcada de 70 so vistos como        termo  usado criticamente para descrever um
o colapso dessa poca dourada; o fordismo est      processo que  especfico do capitalismo e que
em processo de ceder  especializao flexvel      serve para manter as desigualdades de uma
do ps-fordismo. Isso requer uma organizao        sociedade capitalista mediante a ocultao dos
do consumo que est em curso de elaborao          processos reais de explorao. Na tradio no-
nas dcadas de 80-90, atravs da alterao do       marxista e, em especial, nas abordagens feno-
papel econmico do estado, da privatizao, do      menolgicas (ver FENOMENOLOGIA), a reificao
desemprego em massa e da reestruturao da           apresentada como caracterstica inevitvel de
fora de trabalho, assim como da alterao da       todas as sociedades, como parte da construo
estrutura legislativa que define a atividade sin-   social da realidade.
dical e os limites e esfera de ao do estado de       Dentro do marxismo, o termo "reificao"
bem-estar.                                          ocorre como a traduo normal do alemo Ver-
    H tambm uma dimenso internacional. A         dinglichung, que foi introduzido por Lukcs
era pr-1914 est caracterizada pela hegemonia      (1923, p.83-222) e no ocorre nos escritos de
britnica e a era de transio entre as guerras     Marx. A teoria de reificao de Lukcs  uma
pela rivalidade internacional e o isolacionismo     generalizao da teoria de Marx do fetichismo
norte-americano; a idade de ouro at 1970          da mercadoria (ver MERCADORIA, FETICHISMO
                                                                              relaes industriais    653


DA). Para Marx, o processo de troca dos produ-      consegue atingir alguma permanncia. Assim,
tos do trabalho humano em um mercado de             a reificao torna-se uma caracterstica neces-
mercadorias faz com que as relaes sociais         sria da sociedade, em vez de ser algo indese-
entre pessoas se paream com uma relao entre      jvel.
coisas (Marx, 1867, p.163-5). Lucks tenta am-
                                                    Leitura sugerida: Adorno, Theodor W. 1966 (1973):
pliar a anlise econmica de Marx, estendendo-      Negative Dialectics  Berger, P.L. e Luckmann, Tho-
a  vida total da sociedade. Consegue faz-la       mas 1961: The Social Construction of Reality: a Trea-
atravs da referncia  anlise de Weber do         tise in the Sociology of Knowledge  Lukcs, G. 1923
crescimento da racionalidade. A racionalidade       (1971): History and Class Consciousness: Studies in
instrumental  essencial ao desenvolvimento da      Marxist Dialetics  Rose, G. 1978: The Melancholy
economia capitalista e reflete, alm disso, o       Science: an Introduction to the Thought of Theodor W.
                                                    Adorno  Thomason, Burke C. 1982: Making Sense of
processo de troca de mercadorias, na medida         Reification: Alfred Schutz and Constructionist Theory.
em que facilita a equiparao de diferentes ob-
                                                                                        ANDREW EDGAR
jetos. Para Lukcs, essa equiparao s fun-
ciona ao se enfatizarem as caractersticas quan-    relaes industriais A expresso deriva prin-
titativas do objeto  custa das qualitativas. Lu-   cipalmente da obra de um grupo de inves-
kcs sugere que esses aspectos qualitativos so     tigadores norte-americanos, Clark Kerr, John T.
as propriedades incomparavelmente humanas           Dunlop, Frederick Harbison e Charles A.
do objeto e da serem sistematicamente escon-       Myers; na dcada de 50 eles empreenderam,
didas pela reificao.                              com o apoio financeiro da Fundao Ford, um
    Embora a reificao seja amplamente refe-       vasto programa de pesquisas sobre relaes de
rida em escritos marxistas, a teoria foi desen-     trabalho, "The Inter-University Study of Labor
volvida com extrema preciso por Theodor            Problems in Economic Development".
Adorno. A reificao converte-se em uma teoria          A importncia dessa abordagem tem que ser
da determinao social da linguagem e do pen-       entendida atravs da pesquisa da escola de rela-
samento. Isso enfatiza a relao entre conceitos    es humanas, levada a efeito por Elton Mayo
e os objetos a que eles se referem. Na medida       e seus colegas, com experimentos e observa-
em que os conceitos so produtos de processos       es em grande escala sobre a Western Electric
sociais, no se pode pressupor que correspon-       Company a partir de 1927. Entre os seus prin-
dam totalmente aos seus objetos. Sob a reifica-     cipais resultados, esses pesquisadores sublinha-
o, os conceitos servem ou para atribuir pro-      ram a importncia das relaes entre operrios
priedades ao objeto que esto ausentes (como,       e supervisores. Mayo e seus colegas tambm
por exemplo, o conceito de "liberdade") ou para     descobriram que os operrios eram propensos
esconder ou distorcer propriedades existentes,      a restringir a produo mesmo que seus salrios
de modo a que paream mais objetivas do que         fossem baseados no nvel de produo: o grupo,
subjetivas (Adorno, 1966, p.183-92).                de modo informal, fixava a produo para cada
    Enquanto que a tradio marxista v a reifi-    operrio e construa um sistema de controle
cao como um fenmeno historicamente es-           social. Esse sistema, protegendo os operrios de
pecfico que  de imediato indesejvel, mas         fora para dentro e de dentro para fora, fun-
potencialmente aberto a mudanas, a tradio        cionava como um poder informal contra o po-
no-marxista usa o termo para se referir a um       der formal dos gerentes (Mayo, 1933 e 1945).
processo mais geral pelo qual os seres humanos      Esses dados diferem consideravelmente da
chegam a esquecer a autoria humana do mundo         idia de F.W. Taylor de "administrao cien-
social. Como tal, a reificao no est unica-      tfica", de acordo com a qual a principal motiva-
mente situada em relao  teoria de Marx do        o dos operrios era a maximizao da renda.
fetichismo da mercadoria. Pelo contrrio, afir-     Os estudos da escola de relaes humanas, con-
ma-se que toda a realidade social  construda      tudo, suscitaram muitos comentrios e crticas.
por atores sociais e que a reificao  meramen-        Em comparao com a escola de relaes
te "um passo extremo no processo de objetifica-     humanas, os investigadores de relaes indus-
o" (Berger e Luckmann, 1967, p.89). Alm          triais esto orientados para o efeito do meio
disso, pode-se afirmar que somente na medida        ambiente extraorganizacional sobre as atitudes
em que os seres humanos esquecem que a rea-         de operrios e patres. Para eles, as condies
lidade social  construda  que essa realidade     do negcio tm uma influncia direta sobre
654   relaes internacionais


matrias como rotatividade, absentesmo e exi-          Os estudos de C. Kerr e seus colegas deram
gncias trabalhistas. A abordagem de relaes       origem  teoria da convergncia, na qual o
industriais considera os operrios no s como      mundo era percebido como ingressando na "era
membros de grupos de trabalho, tal como a           da industrializao total".
abordagem de relaes humanas, mas tambm               As obras de E. Mayo deram lugar a outras
como membros de outros grupos sociais, mor-         crticas e desenvolvimentos tericos. Por um
mente os grupos profissionais, as famlias e os     lado, a sociologia das organizaes  uma ten-
grupos econmicos ou polticos. Esse sistema        tativa de explicar as relaes complexas entre
de relaes tem efeito sobre as atitudes dos        estrutura organizacional e informal (por exem-
operrios em relao ao seu trabalho, em rela-      plo, Gouldner, 1954; Etzioni, 1961, Crozier,
o aos gerentes ou  organizao.                  1964). Por outro lado, h a sociologie du travail
    Os tericos das relaes industriais criticam   (sociologia do trabalho) francesa, na qual o
a concepo da empresa como sistema social          trabalho passa a ser uma manifestao das rela-
global, proposta pela escola de relaes huma-      es sociais (Friedmann e Naville, 1961-2). Em
nas. Na opinio deles, isso ignora o conflito e     uma anlise mais ampla, o conflito converte-se
glorifica uma estrutura monoltica na qual se       em um dos principais temas, com os atores
presume que a indstria fornea aos indivduos      sociais lutando pelo controle do desenvolvi-
uma ordem social integrada (Kerr e Fischer,         mento social: o campo aberto para a negociao
1957).                                               ilimitado (Touraine, 1965).
    J. Dunlop assinala as inter-relaes dos ato-       Ver tambm COMPORTAMENTO ORGANIZACIO-
res no sistema social e mostra que as caracters-   NAL.
ticas tecnolgicas do local de trabalho so fre-
                                                    Leitura sugerida: Dunlop, John T. 1958: Industrial
qentemente comuns a indstrias inteiras, a         Relations Systems  Etzioni, Amitai 1961: A Compa-
setores econmicos inteiros, por vezes para         rative Analysis of Complex Organizations: On Power,
alm de fronteiras nacionais, caractersticas que   Involvement and their Correlates  Gouldner, A.W.
se revestem de primordial importncia. Para         1954: Patterns of Industrial Bureaucracy  Kerr, Clark,
esse autor, a distribuio de poder na sociedade    Dunlop, John T., Harbison, Frederick e Myers, Charles
                                                    A. 1960 (1973): Industrialism and Industrial Man: the
contribui para a estruturao das prprias rela-    Problems of Labour and Management in Economic
es industriais. Dunlop concebe os sindicatos      Growth  Mayo, Elton 1933 (1946): The Human Pro-
como uma espcie de equivalente das firmas,         blems of an Industrial Civilization 2ed.  1945: The
com lderes sindicais que tm de se adaptar ao      Social Problems of an Industrial Civilization.
mercado de trabalho a fim de maximizar melhor                                           SYLVAINE TRINH
os ganhos dos operrios (Dunlop, 1950 e 1958;
Dunlop e Whyte, 1950).                              relaes internacionais Todos os fenme-
    Os estudos de relaes industriais mostram      nos sociais no confinados em um nico estado
que as atitudes dos operrios dependem de fa-       -- as relaes mtuas entre estados, as aes de
tores muito alm do controle dos empregadores       entidades no estatais, como organizaes in-
e que os protestos dos operrios tm um impac-      ternacionais, empresas multinacionais e mo-
to positivo no processo de industrializao         vimentos religiosos, e o impacto de abstraes
(Kerr et al., 1960). Eles discordam da concep-      como a economia internacional -- enquadram-
o de um movimento trabalhista como respos-        se no mbito das relaes internacionais. O seu
ta ao capitalismo e consideram esse movimento       estudo foi estimulado, no presente sculo, por
como um todo, oferecendo uma anlise muito          acontecimentos como as duas guerras mun-
mais ampla que os seus predecessores. Anali-        diais, a Revoluo Russa e suas repercusses
sam-no como uma resposta  INDUSTRIALIZA-           globais, o colapso econmico de 1931, a inven-
O, em suas dimenses econmicas e sociais.        o de armas nucleares em 1945 e seu aparen-
Assim, os meios de ao e organizao dos           temente interminvel refinamento, a descoloni-
movimentos trabalhistas tm de ser entendidos       zao da sia, frica e outros lugares, o sub-
em funo de diferentes aspectos da indus-          seqente confronto entre Norte e Sul, e a mul-
trializao, como o mercado de trabalho, as         tiplicao de novas formas de organizao in-
fontes de investimentos, o ritmo de desenvol-       ternacional, global e regional, incluindo a Co-
vimento ou os tipos de governantes.                 munidade Europia.
                                                                        relaes internacionais   655


    Durante e aps a Primeira Guerra Mundial,        todo. Em vez de substiturem um conjunto de
as relaes internacionais, como objeto de es-       dogmas e prescries por outro, afirmou-se, os
tudo, foram freqentemente vistas como ser-          especialistas deveria investigar a realidade das
vidoras do INTERNACIONALISMO, encarregado de         relaes internacionais aplicando as tcnicas e
ajudar os estados a civilizarem a conduta de         a filosofia da cincia, de acordo com as quais
suas relaes mtuas e a evitarem guerras futu-      as teorias se mantm ou caem de acordo com o
ras. Nessa perspectiva, que veio a ser conhecida     peso das evidncias empricas pr ou contra
como "racionalismo" ou "utopismo", conferia-         elas, e os conceitos so definidos to rigoro-
se muita nfase  necessidade de sustentar e         samente que, antes de se iniciar uma investiga-
ampliar as regras e procedimentos da Liga das        o, j est claro que concluses se consideram
Naes. Com a ecloso da Segunda Guerra              favorveis a uma dada teoria ou hiptese e quais
Mundial e, pouco depois, da Guerra da Coria,        lhe so contrrias, de modo que outros possam
em que 16 estados, sob a bandeira das Naes         reproduzir a investigao. As relaes inter-
Unidas, se alinharam  Repblica da Coria           nacionais tambm foram amplamente conside-
(Coria do Sul), o "racionalismo" viu-se alvo        radas como nada mais que um caso especial de
de fulminantes ataques desfechados pelos "rea-       relaes humanas, ao qual deviam aplicar-se as
listas" e, em particular, por E.H. Carr e Hans       concluses adequadamente modificadas de ou-
Morgenthau.                                          tras cincias sociais, com destaque para a cin-
    Carr vinha insistindo h muito em que as         cia econmica, a sociologia e a psicologia. A
regras de conduta poltica e econmica da Liga       abordagem cientfica faz muito uso de modelos,
refletiam no a harmonia subjacente de interes-      ou seja, tentativas de retratar o processo causal
ses entre estados, mas simplesmente as dos que       subentendido em uma teoria de forma abstrata
eram mais fortes e "satisfeitos" desde o incio.     e, com freqncia, matemtica, e assim pr em
Quando os que antes eram fracos adquiriram           foco os pressupostos empricos em que se as-
fora, passaram naturalmente a desafiar essas        senta.
regras. Para os "satisfeitos", a sabedoria estava,       A obra de Lewis Fry Richardson sobre a
no em tratar todo e qualquer desafio como um        GUERRA foi uma precursora desse modo de in-
crime, mas em decidir a quem resistir e com          vestigao e sua publicao pstuma em forma
quem acomodar-se; "uma poltica externa bem-         de livro coincidiu com o aparecimento de mui-
sucedida deve oscilar entre os plos eviden-         tas obras novas e importantes nessa mesma
temente opostos da fora e do apaziguamento"         linha (Kaplan, 1957; Rapoport, 1960; Boul-
(1939, cap.13). Para Hans Morgenthau (1951),         ding, 1962). Na subseqente controvrsia me-
a "necessidade poltica" e o "dever moral" di-       todolgica, cujo tom  bem captado em Knorr
tavam que o nico guia para a poltica externa       e Rousseau (1969), o estudo de Hedley Bull
devia ser o interesse nacional. Na Guerra da         "International theory: the case for a classical
Coria, seduzidos pela noo de agresso nor-        approach" (publicado naquele volume) foi um
te-coreana e da suposta obrigao de resistir a      manifesto ponto de reagrupamento para os tra-
ela, os Estados Unidos, sustentou Morgenthau,        dicionalistas. Em conjunto, os cientistas ven-
tinham posto de lado essa verdade central.           ceram, pelo menos na medida em que os mri-
    Assim, os realistas promoveram a nfase          tos de suas contribuies sobre o assunto foram
mais nos estados do que nas organizaes inter-      reconhecidos e aceitos.
nacionais ou em outros atores no-estatais;              Um notvel campo para isso foi o dos "sis-
mais nos interesses daqueles do que nas suas         temas" internacionais, em cujo funcionamento,
doutrinas ou as crenas dos seus lderes; na         a estabilidade ou instabilidade, os tericos de-
normalidade da fora e, por conseguinte, na          tectaram os efeitos de atributos holsticos deri-
importncia de consideraes estratgicas; na        vados das tendncias comportamentais das uni-
distribuio de poder no sistema internacional       dades que os compem (tal como os economis-
e na necessidade de obter ou manter um "equi-        tas vem o "mercado" para uma dada mer-
lbrio". Nas dcadas que se seguiram todas           cadoria como um fato holstico derivado me-
essas facetas do realismo foram vigorosamente        diante a agregao das reaes provveis dos
desafiadas.                                          clientes da mercadoria). Kaplan (1957) especi-
    Inicialmente, porm, o debate em torno da        ficou o que, em sua concepo, eram as diferen-
substncia foi ofuscado por outro sobre o m-        as cruciais entre o sistema de "equilbrio de
656   relaes internacionais


foras" do sculo XIX e o "impreciso sistema         tas violentos e ao terrorismo transnacional, mas,
bipolar" ps-1945, e examinou mais quatro sis-       em grande medida, sobreviveram, no porque
temas que poderiam concebivelmente surgir.           fossem defensveis, mas, em parte porque as
Deutsch e Singer (1964) afirmaram que, em            redes organizacionais que os sustentavam per-
geral, os sistemas multipolares tinham maiores       maneciam em plena atividade, capazes de cor-
possibilidades de serem estveis e pacficos do      tar as asas da maioria dos atores alternativos, e,
que os bipolares; Waltz (1979, cap.8) sustentou      tambm em parte, em funo daquilo que os
o inverso. Embora difcil,  possvel e instrutivo   cidados da maioria dos estados tm em comum
descrever os diferentes pressupostos que levam       -- cultura, religio, lngua, raa ou at um senso
a tais concluses diametralmente opostas.            puramente subjetivo de identidade comum. O
    A substncia do realismo foi alvo de ataques     defeito est na premissa hobbesiana.
provenientes de quatro reas principais. Primei-         No obstante, embora a substituio de es-
ro, as teorias da sociedade internacional, entre     tados territoriais por um governo mundial no
elas a de Bull (1977), afirmaram existir mais        esteja nem remotamente  vista, eles passaram
nas relaes entre estados do que uma incessan-      a dividir seus poderes, em significativa medida,
te luta pelo poder. Bull, seguindo uma clas-         com outros organismos. Enquanto que outrora
sificao que Martin Wight tinha usado em suas       os tratados s podiam ser concludos entre es-
aulas na London School of Economics, deli-           tados, a Lei da Conveno Martima das Naes
neou trs tradies de pensamento acerca de          Unidas, por exemplo, teve que ser franqueada
relaes internacionais: a hobbesiana, corres-       para assinatura no apenas por membros da
pondente ao realismo; a kantiana, uma concep-        Comunidade Europia, mas tambm pela pr-
o "revolucionria" baseada na centralidade         pria Comunidade, em funo das Normas de
dos vnculos transacionais que tornam os po-         Direito de Pesca em guas Internacionais, que
vos, como povos, parte da comunidade huma-           eram centralmente administradas pela ltima.
na; e a grociana (do jurista do sculo XVII Hugo     Tambm quase todas as partes signatrias da
Grotius), afirmando a existncia de uma socie-       Conveno Europia sobre Direitos Humanos,
dade de estados ligada por um conjunto de            no que uma gerao antes teria parecido um
normas manifestas no direito internacional e na      cerceamento inconcebvel de sua soberania,
diplomacia. Embora reconhecendo que ele-             aceitaram o direito de seus cidados de apelar
mentos de todas as trs tradies eram discer-       para um organismo internacional capaz de der-
nveis no mundo contemporneo, Bull conside-         rubar decises dos supremos tribunais de seus
rou que a concepo grociana era a predomi-          respectivos pases e at mesmo de anular legis-
nante. De uma perspectiva um tanto diferente,        laes nacionais incompatveis com a Conven-
Keohane e Nye (1977) reforaram essa crtica         o.
do realismo ao mostrar que os "regimes" inter-           O "interesse nacional" foi o alvo do terceiro
nacionais -- as regras aceitas como aplicveis       desafio ao realismo. A abordagem ciberntica
a um dado conjunto de questes internacionais        de Karl Deutsch (1963) tentou uma explicao
-- no refletiram simplesmente as preferncias       mais fundamental da poltica estatal.  seme-
dos mais poderosos.                                  lhana de outros atores, os estados, quando
    Um segundo alvo foi a assero de que os         reagem a circunstncias em constante mudan-
estados so e, no futuro previsvel, continuaro     a, necessitam manifestamente de combinar a
sendo os atores centrais das relaes internacio-    receptividade a novos interesses e a novos va-
nais. Para atac-la, Herz (1959) usou um axio-       lores com a fidelidade aos antigos. O seu de-
ma realista, na verdade hobbesiano, que diz que      sempenho, como o dos motoristas, depende
as lealdades polticas somente so dadas em          substancialmente das redes de comunicao 
troca de segurana. Uma vez que a guerra eco-        disposio dos detentores do poder decisrio:
nmica, a penetrao ideolgica, o bombardeio        de at onde podem enxergar  sua frente ("dire-
areo e, finalmente, a inveno de armas nu-         o"), com que rapidez suas decises so im-
cleares tinham tornado o estado vulnervel e         plementadas ("defasagem"), quanto dados con-
indefensvel, Herz proclamou a sua extino.         correm para atrair sua ateno ("carga"), com
Como ele prprio admitiu mais tarde, esse obi-       que eles podem ser empregados na direo
turio foi prematuro. De fato, os estados tinham     desejada ("ganho" -- uma forma refinada de
se tornado vulnerveis a movimentos separatis-       poder) e com que rapidez e preciso podem
                                                                                       relativismo    657


avaliar os resultados de suas decises (feed-        vencional" ou mesmo nuclear,  inevitavelmen-
back). O estado que no pode enfrentar o seu         te incompleta, o que sublinha a insistncia de
meio ambiente  o que apresenta maiores pro-         Deutsch em que o primeiro requisito preliminar
babilidades de recorrer  fora em sua forma         de tais sistemas  a "transparncia".
mais rudimentar, "a capacidade de no ter que
                                                     Leitura sugerida: Aron, Raymond 1962: Paix et guer-
aprender". Inversamente, os estados cujos cida-      re entre les nations  Bull, H. 1977: The Anarchical
dos esto ligados entre si em uma grande            Society  Carr, E.H. 1939 (1964): Twenty Years' Crisis
variedade de redes compactas, oficiais e no-         Claude, I.L. 1962: Power in International Relations 
oficiais, podem criar "comunidades de seguran-       Deutsch, K.W. 1963: The Nerves of Government  Ka-
a" no interior das quais a PAZ esteja assegurada.   plan, M.A. 1957: System and Process in International
    Os estados retm enormes arsenais mili-          Politics  Keohane, R.O. e Nye, J.S. 1977: Power and
                                                     Independence  Knorr, K. e Resenau J.N., orgs. 1969:
tares, mas so menos preponderantes do que           Contending Approaches to International Politics 
eram, ou do que o realismo postulava. Suas           Linklater, A. 1982: Men and Citizens in the Theory of
funes e seu poder esto sendo crescentemente       International Relations  Wight, M. 1979: Power Poli-
circunscritos por outras camadas de autoridade,      tics.
intragovernamentais, no-governamentais e lo-                                       RODERICK C. OGLEY
cais, freqentemente em um relacionamento
desordenado. Bull advertiu que, se o padro          relativismo Se a crena verdadeira  defini-
grociano de uma sociedade de estados fosse           da como uma crena que condiz com uma rea-
assim posto de lado, o que pensava ser im-           lidade independente, o relativismo nega que as
provvel, isso poderia dar origem  condio         crenas possam ser, ou possam ser conhecidas
possivelmente mais violenta de um "novo me-          como sendo, verdadeiras nesse sentido. "O que
dievalismo".                                          verdade de um lado dos Pireneus  erro do
    O quarto ataque ao realismo partiu dos mar-      outro lado", observou Pascal secamente em
xistas, que procuraram retratar a sociedade hu-      seus Pensamentos (V294), ao comentar a diver-
mana, incluindo a sociedade global, da perspec-      sidade das crenas morais. O apotegma serve
tiva dos pobres e dos fracos, na qual as unidades    tambm para captar um relativismo mais am-
bsicas so as classes, no os estados ou naes.    plo, o qual afirma a relatividade de toda a
Os acontecimentos, porm, no corroboraram           cognio. No entanto, vale a pena comear
algumas asseres marxistas fundamentais, es-        pelas alegaes em defesa do relativismo mo-
pecialmente sobre a guerra, e as explicaes do      ral. A verdade tica dentro das sociedades e
imperialismo e outros aspectos da poltica           entre elas  um fato inegvel que, embora no
externa em funo dos interesses econmicos          prove a inexistncia de uma verdade absoluta
no foram, de modo geral, convincentes, mas          ou objetiva na tica, tende a sugeri-la. A ascen-
a profecia marxista da crescente concentra-          so da cincia acarretou uma ntida distino
o do poder econmico sob o capitalismo foi         fato/valor, a qual parece resultar na frustrao
confirmada pela aparente falta de limite na-         das crenas morais. As cincias sociais ofere-
tural para o tamanho das empresas, e  difcil       cem modos de explicar sua variedade como
imaginar que tal poder no acarrete um cres-         funo de sistemas sociais correspondentemen-
cente poder poltico, sobretudo no Terceiro          te variados. A filosofia ps em dvida a prpria
Mundo.                                               idia de conhecimento moral em termos depre-
    Tem-se verificado, assim, que o realismo         ciativos por Nietzsche ou analticos pelo
simplificou excessivamente a complexidade            emotivismo. Em suma, as tradicionais preten-
das relaes internacionais; mas o mesmo ocor-       ses  verdade em tica foram vtimas naturais
re com a maioria das abordagens alternativas.        da "modernidade", com a Razo abalando ago-
A mais frtil contraparte para isso talvez prove     ra o que antes costumava apoiar.
ser a ciberntica, a qual nos ensina a avaliar os        Entretanto, mesmo na tica o relativismo
sistemas polticos e outros em funo de sua         nem sempre teve o intuito de subverter toda a
capacidade de identificar problemas globais e        objetividade. Tal como no caso dos utilitaristas,
responder-lhes de modo adequado. Qualquer            ele pode pedir apenas que as preferncias locais
lista de tais problemas, a qual incluiria fomes,     sejam respeitadas, quando se est decidindo o
epidemias, riscos ambientais, a exausto de re-      que  certo fazer. Assim, cumpre distinguir um
cursos e os constantes perigos de guerra "con-       relativismo limitado, o qual, com efeito, injeta
658   relativismo


um elemento de perspectiva no que pretende           tos de linguagem do grupo" (Sapir, 1929), su-
continuar sendo um ponto de vista objetivo, de       bentendendo-se, talvez, que os que tm teorias
um ceticismo mais radical, o qual contextualiza      ou linguagens profundamente diferentes habi-
todo e qualquer ponto de vista a fim de negar        tam "mundos diferentes" (Kuhn, 1962; cf. Win-
que exista seja o que for de objetivo ou universal   ch, 1958).
sob o sol. O primeiro  sintomtico do pen-              Em terceiro lugar, um irrefrevel relativismo
samento social no esprito do Iluminismo, o          epistmico contextualiza at os critrios de ver-
qual trata as crenas e relaes humanas como        dade e lgica. Se podem existir lgicas fun-
objetivos de estudo cientfico. O segundo,           damentalmente alternativas, ento os princpios
atraente para os crticos do racionalismo ilu-       bsicos da lgica aristotlica perdem seu ttulo
minista (ver RACIONALIDADE E RAZO), no ser        de serem "as leis do pensamento". Se a verdade
meramente destrutivo se abrir caminho para a         , em ltima instncia, "um exrcito mvel de
hermenutica ou para vrias formas de "ps-          metforas, metonmias e antropomorfismos" e
modernismo". A questo crucial  se um rela-         "as verdades so iluses a cujo respeito es-
tivismo limitado pode encontrar um lugar de-         quecemos que isso  que elas so" (Nietzsche,
fensvel de conteno.                               1873), ento  impossvel a existncia de aces-
    A tese da relatividade de toda cognio         srios cognitivos bsicos. A questo  encora-
mais bem examinada em trs estgios. O pri-          jada tanto por disputas filosficas acerca da
meiro  o relativismo conceitual, que parte da       verdade, as quais perturbam assim a possibili-
enorme diversidade de esquemas classificat-         dade de um critrio neutro, quanto pelas provas
rios e explicativos. Os fatos da experincia         antropolgicas de que, poderamos dizer ecoan-
nunca determinam plenamente o que  racional         do Pascal, o que  uma boa razo (para qualquer
acreditar a respeito da ordem na (ou subjacente      crena ou ao) de um lado dos Pireneus  uma
) experincia. Classificar ou explicar  aplicar    pssima razo em qualquer outro lado. Sendo
os conceitos em uso local. Assim, o conceito de      assim, toda cognio , ao fim e ao cabo, sus-
"yakt" dos Karam agrupa os morcegos com a            tentada por si mesma, sem ajuda alguma de
minoria dos pssaros, mas exclui os casuares         fora.
(Bulmer, 1967); a fsica emprega conceitos co-           Ao contextualizar ou internalizar o pensa-
mo "ter" ou "flogisto" em dado momento e os         mento, estamos tornando-o relativo a qu? As
abandona em outro. Cada esquema de clas-             respostas dividem-se, de modo geral, em mate-
sificao impe uma grade, escorada por con-         rialistas e idealistas. As primeiras relacionam a
ceitos tericos que, em ltima instncia, se ba-     cognio a algo exterior a ela -- condiciona-
seiam em conceitos categricos como tempo,           mento comportamental ou neural, talvez, ou
deidade, causao de mediao. Esse no  um         estrutura ou relaes sociais, construdas in-
pensamento subversivo, desde que a cincia           dependentemente de quaisquer crenas que elas
possa ser distinguida e se demonstre que ela        determinem. As segundas relacionam a cogni-
progressiva. O pensamento subversivo diz que         o com ela prpria  maneira de uma rede,
os conceitos categricos so essencialmente          internalizando com efeito as relaes sociais,
contestveis dentro do seu prprio esquema           ou at mesmo a natureza, tambm para a rede.
conceitual, e que os esquemas conceituais so        Talvez diferentes linguagens sejam, em ltima
incomensurveis, por exemplo, porque se              anlise, diferentes redes. Talvez "o que tem de
apiam em "pressupostos absolutos" (Collin-          ser aceito, o dado, seja, por assim dizer, formas
gwood, 1940) ou "paradigmas" (Kuhn, 1962),           de vida" (Wittgenstein, 1953). As respostas ma-
os quais tm o status de mitos.                      terialistas envolvem um lugar para pausa, para
    A existncia de quaisquer fatos de experin-     que o observador cientfico possa estabelecer a
cia dados  negada, em segundo lugar, pelo           uma perspectiva relativista, presumivelmente
relativismo perceptivo. Quine (1960) sustenta        uma que isente o pensamento propriamente
que "algo como notcias puras, sem adornos,         cientfico da contextualizao. As respostas
coisa que no existe". Mesmo para descrever,         idealistas tendem a recusar isenes e, assim,
temos que interpretar com a ajuda de teorias e       conduzem facilmente, por exemplo,  substitui-
em uma linguagem impregnada de teoria. As-           o de toda objetividade tradicional por uma
sim, segundo parece, "o `mundo real' , em           "conversao de humanidade" ps-moderna
grande medida, construdo com base nos hbi-         (Rorty, 1980).
                                                                                              religio   659


   Por um lado, se existe sob o sol alguma coisa           proeminncia, aplicabilidade, coerncia, con-
universal, isso est longe de ser bvio. Por               sistncia, sistematizao, emocionalidade e in-
outro, a variedade nunca , em si mesma, uma               tegrao com outros fenmenos sociais.
prova de que todos os pontos de vista so igual-               Judasmo, cristianismo e islamismo tendem
mente vlidos e, se o fossem, um relativismo               a dicotomizar o religioso e o secular, tratando-
global no seria mais vlido do que a sua nega-            os como domnios categoricamente distintos.
o. As disputas continuam proliferando, uma               Mas o hindusmo, o budismo, o xintosmo e
vez que uma distino entre o cognitivo e o                numerosas culturas tribais ou populares con-
social, com o propsito de explicar um em                  sideram a religio uma qualidade imanente de
termos do outro, no  fcil de traar nem de              toda a existncia. No obstante, todas as reli-
defender.                                                  gies simbolizam e "administram" os pontos de
                                                           disjuno ou continuidade entre os registros
Leitura sugerida: Bernstein, R. 1983: Beyond Objec-        secular e religioso do significado por meio de
tivism and Relativism  Bulmer, R. 1967: "Why is the
cassowary not a bird?". Man, NS, 2  Collingwood,           mito, smbolo, ritual, texto sagrado e conceitos
R.G. 1940: An Essay on Metaphysics  Hollis, M. e           de espao sagrado, tempo, comunidade e ser.
Lukes, S., orgs. 1982: Rationality and Relativism              Se for objetado que esse modo abrangente e
Kuhn, Thomas S. 1962 (1970): Structure of Scientific       relativista de conceituar a religio corre o risco
Revolution  Nietzsche, F. 1873 (1954): "On truth and       de confundir a experincia religiosa com outras
lie in an extra-moral sense". In The Portable Nietzsche,
org. por W. Kaufman  Quine, W.V.O. 1960: Word and
                                                           espcies de experincias intensas ou profundas,
Object  Rorty, R. 1980: Philosophy and the Mirror of       a resposta ser que a atribuio de significado
Nature  Sapir, E. 1929: "The status of linguistics as a    religioso , ela prpria, uma varivel cultural e,
science". Language 5  Winch, Peter 1958 (1976): The        por conseguinte, ir variar com a extenso em
Idea of a Social Science  Wittgenstein, Ludwig 1953:       que os significados religiosos tenham sido iden-
Philosophical Investigations.                              tificados, simbolizados e codificados em qual-
                                      MARTIN HOLLIS        quer cultura particular. Assim, os significados
                                                           religiosos de, por exemplo, dar  luz um filho
religio Ao se referir a experincias, senti-              ou ir para a guerra no so fixados, mas, depen-
mentos e idias que indicam a possibilidade de             dendo do contexto, podem ser mais ou menos
existir uma dimenso cotidiana ou terrena, a               salientes, sistemticos ou caractersticos. Isso
religio interessa-se, de modo inconfundvel,              quer dizer que no h justificao para confinar
por questes de significao fundamental, co-              o termo "religio" a determinadas crenas ou
mo o sentido da vida, do sofrimento e da morte,            experincias, se bem que, em coerncia com o
e os meios adequados para se manter a esperan-             cnone do agnosticismo metodolgico, se deva
a em um futuro melhor. Essa outra dimenso,               admitir a possibilidade de que poderes ou agen-
ou dimenso "adicionada", adota formas am-                 tes no-humanos afetem diretamente os sig-
plamente diferentes em diferentes culturas e               nificados atribudos a eventos humanos.
est sujeita,  claro, a diferentes sensibilidades             Uma das principais contribuies do sculo
e interpretaes dos indivduos. No so me-               XX ao entendimento da religio  o reconheci-
nores as variaes nas formas sociais em que a             mento de que uma nica definio do fenmeno
dimenso religiosa se concretiza. A sedimenta-             no pode se adequada para todos os fins. Em
o desses significados, adicionados em formas             contraste com as presunosas caracterizaes
culturais, vivenciais e sociais, durante longos            da religio produzidas por muitos pensadores
perodos de tempo, ajudou a estabelecer a reli-            ocidentais do final do sculo XIX, tem havido
gio como instituio poderosa e duradoura em              no sculo atual uma tendncia a preferir defini-
virtualmente todas as sociedades conhecidas,               es mais nuanadas e mais sensveis ao cres-
embora no seja necessrio que os indivduos a             cente volume de conhecimento adquirido sobre
compreendam e aceitem. Em outras palavras, a               culturas que no so as dominadas pelo cris-
religio  uma qualidade potencial da experin-            tianismo, o judasmo ou islamismo, e sobre as
cia humana para a qual nenhum limite pode ser              variedades de expresso religiosa em diferentes
fixado por definio. Pelo contrrio, tem lgica           nveis de cultura. Assim, enquanto as geraes
pensar a seu respeito em funo de graus vari-            fundadoras da antropologia e da sociologia pa-
veis de coisas tais como inteligibilidade, sig-            receram contentar-se em reduzir a religio a
nificao, formalidade, possibilidade, alcance,            uma questo de "teoria geral do mundo" (Karl
660   religio


Marx), "crena em seres espirituais" (E. Taylor)               O sculo XX presenciou a fruio de dis-
ou propiciao ou conciliao de poderes supe-             ciplinas acadmicas que representaram a reli-
riores aos humanos (J. Frazer),  hoje comum               gio de maneiras muito distintas. As disciplinas
entre os cientistas sociais a adoo de uma                mais antigas, como histria das religies, teo-
abordagem mais relativista e menos intelec-                logia e religio comparada, tendem a conceder
tualista.                                                  prioridade aos aspectos filolgicos, histricos,
    A fora do pensamento evolucionista, racio-            filosficos e doutrinrios. Mas a crescente in-
nalista e organicista declinou lentamente neste            fluncia do pensamento fenomenolgico na d-
sculo, mas no existe unanimidade entre os                cada de 30 inspirou estudos mais intuitivos da
pensadores do sculo XX. O pensamento cor-                 experincia religiosa, do sagrado ritual e da
rente enquadra-se, de modo geral, em duas                  santidade (ver Otto, 1950; van der Leeuw, 1938;
categorias. Por um lado, h pensadores que                 Wach, 1958; Eliade, 1958; Sharpe, 1975). Nes-
insistem na necessidade de conceber a religio             se meio tempo, as abordagens psicolgicas e
em termos substantivos de crena em certas                 psicanalticas viram-se favorecidas, mormente
espcies de espritos, divindades ou outras for-           entre os especialistas dessas reas envolvidos
mas transcendentes. A definio de Robertson               no treinamento de profissionais religiosos para
 representativa dessa abordagem:                          funes litrgicas, de aconselhamento e de as-
                                                           sistncia social (ver Rieff, 1966). A influncia
   Cultura religiosa  o conjunto de crenas e smbolos
   (e valores que derivam diretamente da) pertinentes
                                                           do pensamento sociolgico aumentou espeta-
    distino entre uma realidade emprica e uma su-      cularmente na dcada de 60, quando denomina-
   peremprica, transcendente, os assuntos do ser trans-   es liberais americanas estavam no caminho
   cendente sendo subordinados ao no-emprico             de perder parte de sua popularidade (Berger,
   (1970, p.47).                                           1961) e quando, inesperadamente, igrejas con-
                                                           servadoras e novos movimentos comearam a
    Por outro lado, h uma longa tradio de               crescer em tamanho e impacto pblico (Kelley,
pensamento sobre a religio em termos de suas              1972; Wilson, 1976). Mas foi a voga do es-
pretensas funes ou propsitos. Exemplo in-               truturalismo nas cincias humanas o que deu,
fluente dessa abordagem  a afirmao de que               provavelmente, um destaque superlativo ao es-
"a religio  um sistema de crenas e prticas             tudo da religio nas formas de mito, ritual,
por meio das quais um grupo de pessoas enfren-             simbolismo e processos de sacralizao. Final-
ta os problemas essenciais da vida humana                  mente, os estudos religiosos, como abordagem
(Yinger, 1957, p.9).                                       deliberadamente interdisciplinar, comearam a
    Embora a abordagem substantiva oferea a               proliferar na dcada de 70 e promoveram, em
vantagem de parecer ater-se estritamente ao que            especial, uma atitude mais crtica em relao a
muitas pessoas relatam sobre religio, tambm              questes metodolgicas, assim como uma pos-
 vulnervel  crtica de que enfatiza arbitraria-         tura orientada mais para os aspectos polticos
mente a crena ou o conhecimento, cria uma                 no contexto cada vez mais multicultural e etni-
fronteira artificial entre religio e magia e             camente diversificado das sociedades indus-
insensvel s diferenas transculturais entre re-          triais avanadas e para a redescoberta pelas
ligies. Em contraste, a abordagem funcionalis-            ex-colnias de sua herana religiosa.
ta beneficia-se de sua aplicabilidade transcul-                Quanto s contribuies que as religies
tural e de sua abstrao do nvel de detalhe               deram s principais correntes de pensamento do
emprico, mas tambm incorre em custos que,                sculo XX, cumpre reconhecer que elas no
segundo os seus crticos, anulam seus benef-              esto, provavelmente, entre as influncias mais
cios. Em particular, tende a atrair crticas por           formativas. Quer no nvel das ideologias que
atribuir teleologia a disposies de carter so-           deram forma a estados-naes e a conflitos
cial e cultural, por reduzir o significado da              internacionais (como o fascismo clerical, a de-
religio s suas conseqncias e por dar a en-             mocracia crist, o nacionalismo hindu ou ja-
tender que tudo que existe deve, somente por               pons e o antiimperialismo islmico), quer no
essa razo, preencher uma funo. As foras e              nvel das modas cambiantes em filosofia (como
fraquezas relativas dessas abordagens bsicas              a fenomenologia catlica, o existencialismo
so analisadas em Spiro (1966), Berger (1974)              cristo ou as teologias da libertao), as con-
e Bellah (1970).                                           tribuies das idias e sentimentos religiosos
                                                                                     republicanismo    661


foram, em alguns casos, importantes, mas                  republicanismo A expresso romana res pu-
raramente decisivas. E, pelo menos no mundo               blica subentende que as coisas que so pblicas
ocidental, os temas religiosos tm inspirado              devem ser de interesse pblico: quem deve gerir
relativamente poucas realizaes artsticas de            o estado so os cidados ativos, no os reis, as
notrio mrito no sculo XX.                              oligarquias aristocrticas ou mesmo um par-
    Esses desenvolvimentos harmonizam-se                  tido. Os cidados tratam-se mutuamente como
com as interpretaes dominantes da moder-                iguais. A cultura pblica da poltica  muito
nidade, a saber, que a religio deixou de servir          diferente da tomada particular de desises em
como o "plio sagrado" para a existncia mo-              autocracias. Mas o corpo de cidados, at o
derna (Berger, 1967), como o principal ins-               presente sculo, sempre excluiu as mulheres e
trumento de integrao cultural e social (Wil-            os escravos, e usualmente excluiu os devedores,
son, 1982) ou como a forma de o sistema social            os criados e os analfabetos. O republicanismo
elaborar reflexes sobre a sua prpria integri-           no  necessariamente democrtico, mas  mais
dade (Luhmann, 1977). Por outro lado, a reli-             participativo no esprito do que o liberalismo
gio que no  orientada por uma igreja pode              individualista.
estar ainda implcita em processos bsicos de                 Maquiavel forneceu a teoria clssica do re-
socializao (Luckmann, 1967), e pode fun-                publicanismo em seus Dircorsi (ed. inglesa
cionar como uma metalinguagem que transcen-               Crick, Discourses, 1970). Um estado  mais
de o domnio dos fatos objetivos (Bellah, 1989)           forte se pode confiar armas a uma classe de
ou que permite que coisas "srias" sejam ditas            cidados. Liberdade significa tolerar conflitos
de "modo direto" (Fenn, 1981).                            sociais, mas o conflito, se bem administrado, se
    Com efeito, quando o sculo se avizinha do            conduzido mediante concesses mtuas, pode
seu fim, h indcios de que o pensamento e o              ser uma fonte de energia e de poder; confere
sentimento religiosos podem estar reafirman-              vigor  vida poltica. Essa reformulao realista
do-se em relao  possibilidade de comunica-             de um quadro renascentista idealizado da rep-
o e destruio genuinamente globais (Robert-            blica romana foi imensamente influente, sobre-
son, 1985), e de que temas religiosos estejam             tudo na Repblica holandesa, na Sucia, In-
voltando  superfcie em movimentos sociais               glaterra e Esccia das guerras civis, nas col-
preocupados com questes de escala global                 nias britnicas da Amrica do Norte e, sobretu-
como a paz, os direitos humanos, o genocdio e            do, na Revoluo Francesa. Antonio Gramsci
a proteo do meio ambiente natural (Beckford,            produziu uma variante comunista, em parte pa-
1989, p.143-65). A religio tambm est pro-              ra refutar a obsesso de Lenin com o estado e o
vando ser um veculo notavelmente duradouro               partido, sustentando que a cooperao partici-
e eficaz para o cultivo e a expresso de iden-            pativa do trabalhador industrial qualificado era
tidades tnicas e nacionais em pases to dife-           agora a chave para a ascenso e queda das
rentes quanto a Polnia, a Nicargua, o Ir e o           sociedades, em lugar dos cidados armados de
Sri Lanka. Dependendo das circunstncias his-             Maquiavel.
tricas, os resultados podem ser integradores ou              O republicanismo era muito forte no incio
desintegradores.                                          dos Estados Unidos, onde a ideologia da demo-
    Ver tambm CRIST, TEORIA SOCIAL; TEOLO-              cracia jeffersoniana se baseava no culto da CI-
GIA; TEOLOGIA DA LIBERTAO.                              DADANIA ativa, fazendo com que a simplicidade

Leitura sugerida: Berger, P.L. 1967: The Sacred Ca-
                                                          de maneiras, a fala despretensiosa e clara e as
nopy: Elements of s Sociological Theory of Religion       virtudes da sinceridade se universalizassem pe-
Bowker, J. 1973: The Sense of God  Durkheim, mile        lo exemplo pessoal. O nome do moderno Par-
1912 (1968): Les formes lmentaires de la vie reli-      tido Republicano nos Estados Unidos  en-
gieuse  Glock, C.Y. e Hammond, P.E., orgs. 1973:          ganoso, como  tambm o caso do "IRA" (Exr-
Beyond the Classics? Essays in the Scientific Study of    cito Republicano Irlands), exceto no sentido
Religion  Smart, N. 1973: The Science of Religion and
the Sociology of Knowledge  Waardenburg, J., org.
                                                          estrito de se oporem  Coroa Britnica. Em uma
1973-74: Classical Approaches to the Study of Religion:   Monarquia o termo tem essa conotao mais
Aims, Methods and Theories of Research, 2 vols.           estreita. Mas o republicanismo no  neces-
Wilson, B.R. 1982: Religion in Sociological Perspec-      sariamente antimonrquico;  essencialmente
tive.                                                     aristocrtico. O "republicanismo vermelho", na
                                 JAMES A. BECKFORD        tradio jacobina,  ferozmente igualitrio e
662    revisionismo


populista no esprito, em deliberado contraste              concentrao de capital em grandes compa-
com o republicanismo burgus, que cuida me-                 nhias, havia um surto de novas empresas de
nos da "soberania popular" e mais do "domnio               pequeno e mdio porte, o aumento da difuso
da lei" e da "constituio". Mas nenhum deles               da propriedade de bens de raiz, a elevao do
desenvolveu, como o socialismo, uma teoria                  nvel geral de vida, o aumento de nmero de
econmica distributiva; ambos aceitaram a                   membros da classe mdia, o surgimento de um
cincia econmica liberal, porque, historica-               sistema mais complexo e diferenciado de estra-
mente, ela tinha substitudo a poltica mercan-             tificao na sociedade capitalista e a diminuio
tilista aristocrtica.                                      na escala e intensidade das crises econmicas.
    O republicanismo  compatvel com o socia-                  No decorrer desse debate, o revisionismo
lismo democrtico e o liberalismo radical, mas             acabou identificado com o REFORMISMO e com
mais bem entendido por contraste com o gnero               o abandono das metas revolucionrias, ou mes-
de liberalismo que v o estado como garantia dos            mo de qualquer compromisso forte com a rea-
direitos do indivduo a levar uma vida privada              lizao do socialismo. Mas os adversrios do
protegida por salvaguardas jurdicas tanto do pr-          revisionismo tambm estavam eles prprios di-
prio estado quanto de terceiros. O esprito repu-           vididos, com Kautsky e os austromarxistas ten-
blicano diz que essas leis devem ser feitas e               tando incorporar vrios fenmenos novos  vi-
mudadas por cidados ativos trabalhando em har-             so marxista ortodoxa de desenvolvimento do
monia; o preo da liberdade no  simplesmente              capitalismo, enquanto Rosa Luxemburgo e Le-
a eterna vigilncia, mas tambm a perptua ativi-           nin expunham uma doutrina poltica revolucio-
dade cvica. Entre o estado e o indivduo existe o          nria em cujos termos alguns outros crticos do
criativo tumulto da SOCIEDADE CIVIL.
                                                            revisionismo eram igualmente tratados, eles
Leitura sugerida: Bock, G., Skinner, Q. e Viroli, M.,       prprios, como revisionistas.
orgs. 1990: Machiavelli and Republicanism  Crick,               A denncia do revisionismo como contra-
B.R. 1992: In Defense of Politics. 3ed.  Keane, J., org.
                                                            revolucionrio atingiu o auge com a ecloso da
1988: Democracy and Civil Society  McWilliams,
W.C. 1973. The Idea of Fraternity in America  Pocock,       Primeira Guerra Mundial em 1914 e o colapso
J.G.A. 1975:  The Machiavellian Moment: Florentine          da Segunda Internacional, e esse uso do termo
Political Thought and the Atlantic Republic Tradition       como injria foi perpetuado pela consolidao
Williams, G.A. 1989: Artisans and Sans-Cullotes: Po-        do bolchevismo como nova ortodoxia na Unio
pular Movements in France and Britain during the            Sovitica e logo, depois de 1945, na Europa
French Revolution, 2ed.
                                                            Oriental. Em finais da dcada de 80, contudo,
                                      BERNARD CRICK
                                                            era a prpria ortodoxia bolchevista que entrava,
revisionismo Termo que foi introduzido no                   por sua vez, em colapso, totalmente em sua
pensamento marxista no final do sculo XIX                  forma stalinista e em grande medida na forma
em referncia s reavaliaes e reformulaes               leninista; e, em perspectiva histrica, o revi-
crticas das idias de Marx e, em particular, das           sionismo pode ser visto agora como uma suces-
que diziam respeito ao desenvolvimento do                   so de modificaes da teoria da sociedade de
capitalismo e  natureza de uma transio para              Marx e de suas implicaes para a prtica pol-
o socialismo. Obteve grande voga no debate                  tica, resultante de importantes mudanas nas
revisionista iniciado pelos artigos de Eduard               sociedades capitalista e socialista, de deter-
Bernstein (escritos entre 1896 e 1898), depois              minadas circunstncias histricas e de altera-
ampliados em livro (1899), sobre os problemas               es nos conhecimentos e nas idias. O que
do socialismo, nos quais ele tentou "tornar claro           outrora era chamado revisionismo  hoje
simplesmente onde Marx est certo e onde est               mais bem descrito como o desenvolvimento
errado". Os principais alvos das crticas de Ber-           de numerosas e diversas escolas de pensa-
nstein eram a teoria do fim do capitalismo pelo             mento marxista (e, de modo mais geral, de
"colapso econmico" e a idia de uma crescente              pensamento socialista) em resposta a vrias
polarizao da sociedade entre burguesia e pro-             mudanas de condies; ou seja, como carac-
letariado, acompanhada pela intensificao do               terstica normal no interminvel esforo para
conflito de classes. Contra essas doutrinas, que            compreender, atravs de conceitos de teoria
tinham passado a ser parte integrante da or-                social, uma realidade histrica em permanen-
todoxia marxista, ele afirmou que, a par da                 te mudana.
                                                                                        revoluo    663

Leitura sugerida: Bernstein, Eduard 1899 (1961):      Bretanha do sculo XVIII e a srie de movimen-
Evolutionary Socialism  Gay, Peter 1952: The Dilem-   tos revivalistas que transformaram vrias igre-
ma of Democratic Socialism  Kolakowski, L. 1978:
Main Currents of Marxism, vol.2, cap.4  Labedz, L.,
                                                      jas protestantes do Estado de Nova York na
org. 1962: Revisionism.                               primeira metade do sculo XIX (Cross, 1950).
                                 TOM BOTTOMORE
                                                          Nas sociedades industriais avanadas onde
                                                      o cristianismo tem sido a forma dominante de
revivalismo A idia de que as tradies reli-         religio, o revivalismo do sculo XX tem se
giosas tendem para a entropia, a menos que            limitado a movimentos ocasionais de elevada
sejam periodicamente revitalizadas, seja pelo         emoo, sentimentos intensificados de culpa e
retorno a verdades primitivas ou pela injeo de      expresses espontneas de f pessoal no poder
novas verdades,  central para muitos signifi-        de Jesus Cristo de redimir o pecado e curar
cados de revivalismo, especialmente em cul-           mentes e corpos. Pregadores itinerantes, reu-
turas afetadas pelo cristianismo. As renovaes,      nies campais e arautos das chamas do inferno
como buscas coletivas de um mundo radical-            para os pecadores foram todos precursores do
mente melhor, provm, portanto, de razes re-         moderno revivalismo protestante, e as inova-
ligiosas para a insatisfao comum com o atual        es atuais incluem a renovao carismtica, o
estado de coisas. Podem adotar formas to va-         televangelismo e a Maioria Moral. A Igreja
riadas quanto os movimentos milenaristas,             Catlica teve renovaes lideradas pelos bene-
messinicos, profticos, nacionalistas, evan-         ditinos e os cistercienses, e Dolan (1978) docu-
glicos ou carismticos, mas em cada caso a           mentou a forma especificamente catlica de
nfase incide sobre os processos por meio dos         revivalismo nos Estados Unidos do sculo XIX.
quais a vitalidade e a criatividade so instiladas        Estudos de atuais campanhas para reafirmar
em uma tradio supostamente declinante ou            o poder do isl em alguns pases tambm mos-
ameaada. Tambm foi dito que os movimentos           tram que os ativistas tendem a ter recuperado,
religiosos revivalistas anunciam perodos de          em vez de adquirido pela primeira vez, suas
reformas sociais de grande alcance e, no caso         fortes convices religiosas. Alm disso, os
dos Great Awakenings [Grandes Despertares]            efeitos transformadores do moderno revivalis-
americanos, prolongados ciclos de renovao           mo tendem a ser efmeros. No obstante, e
espiritual e reconstruo social (McLoughlin,         diferentemente da maioria das expectativas a
1978).                                                respeito da modernizao, as renovaes cole-
    Na elaborao dessas idias, Barkun (1974)        tivas do fervor islmico tm desenvolvimentos
interpretou os movimentos milenaristas como           sociais e polticos poderosamente configura-
respostas a desastres, enquanto Lanternari            dos, por exemplo, no Ir, no Sudo, no Paquis-
(1963) e Worsley (1957) sustentaram que as            to e na Malsia em um passado recente (Es-
renovaes quilisticas em sociedades pr-in-         posito, 1980). O revivalismo hindu tambm se
dustriais so respostas criativas  explorao e      tornou fator importante na poltica indiana, e as
 opresso scio-econmicas. Outras teorias           renovaes budistas marcaram a histria de
sublinharam a privao relativa, a busca de           muitas naes na sia Meridional.
caminhos mais curtos para se alcanar rapida-             Ver tambm FUNDAMENTALISMO.
mente o poder mgico e curativo, a psicologia         Leitura sugerida: Barkun, M. 1974: Disaster and the
do "verdadeiro crente", a dissonncia cognitiva       Millennium  Burridge, K. 1969: New Heaven, New
e a parania coletiva. Entretanto parece haver        Earth  McLoughlin, W. 1959: Modern Revivalism 
concordncia entre essas interpretaes concor-       1978: Revivals, Awakenings and Reform.
rentes em que a renovao bem-sucedida requer                                       JAMES A. BECKFORD
o enfraquecimento de velhos significados e
compromissos antes de ocorrer a transio para        revoluo No pensamento poltico, o termo
novos valores e identidades (Burridge, 1969).         refere-se  tomada ilegal, usualmente violenta,
Exceto em sociedades tribais de pequena es-           do poder que produz uma mudana fundamen-
cala, o revivalismo religioso raramente trans-        tal nas instituies de governo. Entretanto o
forma uma sociedade inteira, sendo mais pro-          conceito de revoluo tem sido usado de muitas
vvel que fique confinado a determinados mo-          maneiras, com algumas variaes de signifi-
vimentos, ordens, seitas ou igrejas. Exemplos         cado. "Revoluo" usa-se, por vezes, para des-
disso incluem as renovaes metodistas na Gr-        crever qualquer mudana fundamental, quer
664   revoluo


seja ou no violenta ou sbita. Nesse sentido,      perodo inclui comumente guerras civis e inter-
falamos de "Revoluo Industrial" ou de "revo-      nacionais, e com freqncia um perodo de
luo cientfica". Mudanas fundamentais do         "terror" interno contra os inimigos da revolu-
governo que ocorrem atravs de eleies, em         o. Uma revoluo vitoriosa leva ento  con-
lugar de conquistas violentas do poder, tambm      solidao do poder e  construo de novas
so por vezes descritas como revolues, por        instituies polticas. Como esse processo pode
exemplo, a "revoluo nazista" na Alemanha          levar dcadas, a datao das revolues  fre-
em seguida  vitria eleitoral de Hitler em 1933.   qentemente imprecisa. Entretanto, por ques-
    Na maioria das revolues, a tomada do          to de comodidade, as revolues so tipica-
poder depende de sublevaes por multides          mente datadas do ano em que cai o antigo
urbanas ou por camponeses concentrados em           regime -- portanto, a Revoluo Francesa de
reas rurais.  a essas insurreies a que nos      1789, a revoluo comunista chinesa de 1949
referimos quando mencionamos "revolues".          --, muito embora as lutas revolucionrias e a
Em alguns casos, contudo, os grupos populares       reconstruo do estado possam continuar ainda
fazem muito pouco, ao passo que um indivduo        por vrias dcadas depois dessas datas.
ou um pequeno grupo da elite toma o poder e             O conceito de revoluo como mudana
implementa amplas mudanas polticas (como          fundamental  estritamente um desenvolvimen-
na revoluo turca liderada por Atatrk em          to moderno. Da Grcia antiga ao Renascimento,
1921, ou na revoluo egpcia sob a liderana       "revoluo" significou um movimento cclico,
de Nasser em 1952). Tais eventos so freqen-       como a revoluo ou rotao dos planetas. Em
temente descritos como "revolues das elites"      poltica, o termo "revoluo" tambm suben-
ou "revolues de cima para baixo" (Trimber-        tendia, portanto, um padro cclico, um mo-
ger, 1978).                                         vimento da aristocracia rumo  democracia e 
    As revolues variam em sua amplitude. As       tirania e de volta, em um crculo interminvel.
que mudam somente as instituies governa-          Somente no sculo XVIII, sobretudo depois da
mentais so denominadas, por vezes, "revolu-        Revoluo Francesa de 1789,  que o termo
es polticas". As que tambm mudam a dis-         "revoluo" passou a se referir a uma mudana
tribuio da riqueza e do status em uma socie-      permanente e fundamental, em vez de cclica.
dade -- por exemplo, destruindo as vantagens
de uma nobreza -- so freqentemente chama-         Avaliaes morais
das de "revolues sociais" ou "grandes revolu-         O conceito de revoluo  freqentemente
es". Quando grupos que pretendem realizar         usado com implicaes tanto morais como des-
mudanas fundamentais tentam a tomada do            critivas. Muitos pensadores, sobretudo os ins-
poder, mas essa tentativa fracassa, falamos de      pirados em Karl Marx, usam o termo "revolu-
"revolues frustradas" como no caso da             o" para assinalar uma mudana que seja va-
revoluo de 1848 na Alemanha. (Um ataque a         liosa e progressiva. Em poltica, isso significa
um governo com o nico objetivo de mudar os         usualmente reduzir a desigualdade e propor-
governantes ou a poltica dominante, mas sem        cionar maior justia; em outros campos, quer
tentar qualquer mudana fundamental nas ins-        simplesmente dizer progresso no conhecimento
tituies,  usualmente considerado uma "rebe-      ou na produtividade -- como nos casos de
lio" em vez de "revoluo".)                       "revoluo agrcola" ou "revoluo da infor-
    A revoluo , propriamente falando, mais       mtica". Esses pensadores consideram as revo-
um processo do que um evento. H um perodo         lues necessrias para se realizar o progresso
inicial em que se avolumam as crticas ao estado    social; com efeito, sustentam freqentemente
e em que os adversrios do governo se esforam      que a revoluo  o nico caminho para der-
por obter o mximo de apoio. Segue-se ento         rubar idias ou instituies estabelecidas.
um perodo de confronto entre o governo e seus          Outros, porm, usam o termo para indicar
adversrios; isso pode acarretar uma prolon-        um perodo de caos, de luta desenfreada pelo
gada guerra de guerrilhas ou redundar em uma        poder com conseqncias destrutivas. Vem a
sbita exploso de tumultos populares. Se o         revoluo como um violento e perigoso afas-
governo fracassa, segue-se um perodo em que        tamento do curso normal da vida poltica. Esses
os lderes revolucionrios disputam o poder         pensadores consideram que as revolues so
entre si e com os adeptos do antigo regime; esse    algo a ser evitado; advogam que a desejada
                                                                                   revoluo    665


mudana social deve ser conseguida atravs de      tudiosos para os recursos do estado. Sublinha-
uma reforma gradual.                               ram que os prprios recursos do estado pode-
   Essa discusso vem de longa data e est         riam ser exauridos pelos custos da guerra ou do
longe de ser decidida. Diferentes autores con-     desenvolvimento econmico, debilitando o es-
tinuam vendo as revolues com otimismo ou         tado e criando oportunidades para os seus opo-
pessimismo, dependendo de sua avaliao in-        sitores. Alm disso, assinalaram que os con-
dividual sobre se os benefcios resultantes da     flitos no seio da elite poltica e econmica eram
mudana revolucionria compensam os custos.        freqentemente cruciais na reduo da eficcia
Debates adicionais sobre a natureza das revolu-    do estado em se defender e no fornecimento da
es tm se concentrado em duas questes: por      liderana para grupos adversrios.
que ocorrem revolues? O que foi que elas             A noo que predomina atualmente sobre as
realizaram?                                        causas da revoluo est consubstanciada na
                                                   teoria "estrutural". Essa prope uma ateno
Causas de revoluo                                combinada  mobilizao de recursos e aos
     Pensar sobre as causas de revoluo tornou-   recursos do estado. De acordo com essa concep-
se mais refinado ao longo do sculo XX. Os         o, as revolues s ocorreriam quando uma
primeiros pensadores concentraram-se princi-       combinao de fatores criasse uma "situao
palmente nas multides, considerando a revolu-     estrutural" favorvel  revoluo. Tal situao
o o produto de um incontrolado e espontneo      inclui um governo enfraquecido, elites inter-
entusiasmo popular. Essa ao da multido po-      namente divididas e alienadas, e uma oposio
dia ser deflagrada por um surto de penria         dotada de liderana, recursos (incluindo o apoio
econmica ou por um ato particularmente fla-       popular) e organizao. Considera-se que as
grante de corrupo ou opresso governamen-        ideologias revolucionrias -- as quais pode-
tal.                                               riam incluir o comunismo, o liberalismo ou o
     Nas dcadas de 50 e 60 havia grande preo-     fundamentalismo islmico -- s so capazes de
cupao com a possibilidade de que revolues      obter ampla adeso quando surge uma situao
fossem desencadeadas em pases que estavam         estrutural que favorece a revoluo.
mudando de padres mais tradicionais para ou-
tros mais modernos de vida econmica e pol-       Conseqncias da revoluo
tica. As populaes apanhadas "no meio", entre         O pensamento sobre as conseqncias da
os velhos estilos de vida e os recm-implan-       revoluo est menos avanado que pensamen-
tados, eram consideradas incomumente vulne-        tos sobre suas causas. Apenas duas concluses
rveis  frustrao e ao entusiasmo populares      parecem bem estabelecidas. Primeiro, as revo-
em funo da rpida mudana. Havia tambm          lues produzem geralmente um recrudesci-
preocupao em torno de ideologias -- como o       mento do poder do estado, porquanto a tendn-
comunismo -- que pudessem levar multides a        cia dos regimes ps-revolucionrios  de atacar
adotar um comportamento extremista e violen-       o problema da fraqueza do estado dotando-o
to. As razes da revoluo eram apontadas na       com um exrcito e uma burocracia muito maio-
modernizao e na subverso ideolgica.            res que no regime pr-revolucionrio. Segundo,
     Mas na dcada de 70, sobretudo em resul-      as revolues aumentam geralmente a proba-
tado da obra de Charles Tilly (1978), os es-       bilidade de guerras internacionais, uma vez que
tudiosos da matria tinham adquirido conscin-     a mudana de regime em geral resulta na
cia de que o comportamento da multido revo-       mudana de alianas internacionais. Isso leva
lucionria no era simplesmente espontneo ou      com freqncia a testes para avaliar a fora e a
emocional. Pelo contrrio, constatou-se que a      solidez do novo regime ou das novas alianas,
atividade revolucionria requeria liderana, or-   atravs de uma agresso internacional que pode
ganizao e mobilizao na luta pela realizao    ser iniciada tanto pelo novo regime quanto por
de objetivos polticos. Esse conceito de "mo-      seus adversrios.
bilizao de recursos" levou os scholars a pro-        Sobre um grande nmero de outras questes
curarem as causas das revolues em mudanas       importantes, tais como, se as revolues podem
de recursos entre grupos politicamente ativos.     criar democracias estveis, reduzir a desigual-
     Alm disso, Theda Skocpol (1979) e Jack       dade ou incentivar o desenvolvimento econ-
Goldstone (1990) chamaram a ateno dos es-        mico, as indicaes so sumamente ambguas.
666    revoluo cientfico-tecnolgica


O estudo sistemtico dessas matrias est ape-              tions of the Late 20th Century  Paige, J. 1975: Agra-
nas comeando.                                              rian Revolution  Walton, J. 1984: Reluctant Rebels.
    As metas no tocante s conseqncias so o                                             JACK A. GOLDSTONE
que diferencia as "rebelies" das "revolues".
Nas rebelies, as metas dos adversrios do es-              revoluo cientfico-tecnolgica Uma das
tado no vo usualmente muito alm da retifica-             transformaes mais significativas da era mo-
o de um determinado motivo de queixa, ou                  derna foi a revoluo na cincia e tecnologia no
de forar uma mudana do pessoal ou da pol-                sculo XX. Representa uma transformao fun-
tica do estado. Nas revolues, porm, os opo-              damental na cincia, na ligao entre cincia e
sitores do estado so motivados por uma ideo-               tecnologia e nas relaes entre cincia e socie-
logia que descreve as instituies vigentes co-             dade. As diferenas em relao a pocas an-
mo fundamentalmente defeituosas ou perver-                  teriores incluem os mecanismos sociais de
sas, necessitando de total substituio ou re-              apoio  pesquisa, os ambientes em que os pes-
construo. Embora as causas da rebelio e da               quisadores trabalham, os mtodos pelos quais
revoluo possam ser semelhantes -- fraqueza                se procede ao seu recrutamento, a organizao
do estado, divises na elite e mobilizao po-              da pesquisa cientfico/tecnolgica, a maneira
pular --, o impacto da ideologia revolucionria             como os problemas so formulados, escolhidos
sobre a promoo de metas e conseqncias                   ou designados, e as estruturas de recompensa
radicais torna as revolues distintas.                     que orientam, em grande parte, a busca de
                                                            conhecimentos. Em essncia, as relaes entre
Perspectivas futuras de revoluo                           cincia e sociedade foram substancialmente al-
    Do incio at meados do sculo XX, quando               teradas neste sculo, e um aspecto disso est nos
as revolues eram consideradas o produto de                crescentes esforos para ligar a cincia mais
uma reao emocional popular s tenses gera-               estreitamente  tecnologia, na tentativa de rea-
                                                            lizar metas econmicas ou outros objetivos na-
das pela modernizao, esperava-se que as
                                                            cionais.
revolues se tornassem menos comuns  me-
dida que o mundo fosse ficando mais racional                    Como ocorre com a maioria das transforma-
                                                            es que afetam a esfera intelectual, transcor-
e desenvolvido. Entretanto a percepo de que
                                                            rer ainda algum tempo antes que toda a impor-
as revolues esto baseadas na busca racional
                                                            tncia e todo o significado da revoluo sejam
de realizao de objetivos polticos, e surgem
                                                            reconhecidos e interpretados. Entretanto, mes-
quando ocorrem transferncias de poder entre
                                                            mo antes que ela tenha concludo seu curso, 
estados, elites e grupos populares, alterou essa
                                                            evidente que no s a cincia e a tecnologia
expectativa. As mudanas em tecnologia, pol-               foram afetadas, mas tambm todo o processo
tica internacional e economia mundial colocam               pelo qual o pensamento social adquire forma e
novos recursos nas mos de vrios grupos, ao                -- na verdade -- talvez a prpria substncia do
mesmo tempo em que fortalecem alguns es-                    futuro pensamento social.
tados e enfraquecem outros. Tais mudanas
                                                                A revoluo cientfica anterior, no comeo
foram particularmente acentuadas nos pases                 da era moderna, fornece uma til base de com-
seriamente envolvidos na competio estratgi-              parao. A revoluo dos sculos XVI e XVII
ca entre os Estados Unidos e a Unio Sovitica.             foi uma revoluo cognitiva. Transformaram-
Assim, revolues (e tentativas de revoluo)               se os modos de pensar sobre a natureza, os tipos
tm sido freqentes no final do sculo XX --                de perguntas formuladas e os mtodos de buscar
no Ir, Nicargua, Afeganisto, Polnia, Filipi-            respostas (vlidas). Antes dos cientistas dessa
nas -- e provavelmente continuaro a ser uma                era, a escolstica reinava como senhora absolu-
caracterstica recorrente da poltica mundial.              ta -- com seu culto do pensamento clssico
    Ver tambm AO COLETIVA; MARXISMO; RE-                 antigo e seu desdm pelo trabalho emprico.
VOLUO PERMANENTE.                                         Com essa revoluo cientfica veio a formula-
                                                            o de teorias (idealmente expressas em termos
Leitura sugerida: Dix, R. 1983: "Varieties of revolu-
tion". Comparative Politics 15, 281-93  Eckstein, S.        matemticos) testveis por observaes em-
1982: "The impact of revolution on social welfare in        pricas (obtidas, onde possvel, a partir de ex-
Latin America". Theory and Society II, 33-94  Golds-        perimentos). A obra de Galileu, no sculo XVII,
tone, J.A., Gurr, T.R. e Moshiri, F., orgs. 1990: Revolu-   foi uma contribuio pioneira que estimulou,
                                                              revoluo cientfico-tecnolgica   667


materializou e definiu essa revoluo cientfica.   tecnologia. Alm disso, em muitas sociedades,
Mudanas polticas acompanharam essa revo-          a relevncia -- especialmente a relevncia para
luo cognitiva e, em ltima instncia, a cincia   a prosperidade econmica dos que contribuem
ganhou alguma independncia em relao             para o financiamento de pesquisas atravs de
superviso do estado (na poca, da Igreja).         seus impostos, cujo grau de satisfao pode
    Depois surgiram ou amadureceram cincias        determinar o destino dos governos em socie-
mais novas, mas, embora pudessem ter variado        dades democrticas -- tornou-se um critrio de
de perspectiva ou abordagem em relao s           alguma importncia na avaliao da cincia.
cincias anteriormente estabelecidas, cada uma          A incansvel busca de racionalidade econ-
delas era formada em conformidade com o             mica em parte alguma foi mais evidente do que
padro de teoria-observao, cada uma delas         na burocratizao da pesquisa. Para os cientis-
era um produto da revoluo anterior. Exem-         tas, no plano individual, isso significou uma
plos incluem a epidemiologia, a cincia mdica      transformao de exploradores independentes
e a ecologia. O mesmo pode ser dito da aplica-      em empregados bem-posicionados na escala
o de mtodos cientficos ao estudo da socie-      hierrquica de carreiras em grandes organiza-
dade, incluindo o uso de experimentos delibe-       es, de profissionais eclticos de amplo espec-
radamente planejados de natureza social ou          tro em especialistas cada vez mais restritos e de
econmica. Nesse caso, so feitas suposies        participantes pessoais em comunidades auto-
simplificadoras acerca da natureza dos atores       reguladoras em membros annimos de grandes
sociais, e o pressuposto  que a pesquisa social    associaes. (Ver tambm BUROCRACIA.)
orientada por padro teoria-observao ade-             Historicamente, numerosos fatores tm aju-
quadamente adaptado pode levar a um melhor          dado a alimentar essa revoluo. Por exemplo,
entendimento da ao social -- em mdia -- e        o reconhecimento -- sobretudo a partir do co-
da sociedade.                                       meo do sculo XX -- de que a tecnologia e a
    Em contraste, a recente revoluo cientfica    cincia podiam ser utilizadas para a produo
e tecnolgica teve um carter inteiramente di-      de armas forneceu um estmulo  revoluo e,
ferente. Sob o confuso frenesi de descobertas e     em considervel medida, orientou o seu curso
invenes aparentemente infindveis, houve          subseqente. Quando cientistas ou engenhei-
uma revoluo na organizao. O que mudou           ros, estudando a natureza da matria ou de
mais radicalmente neste sculo foi a organiza-      materiais, puderam fornecer um expertise til
o social da cincia, e  isso o que constitui     para projetar e criar armas vencedoras de guer-
uma transformao fundamental. Muitas das           ras, tornou-se necessrio pouco esforo para
tendncias que culminaram na atual revoluo        convencer governos a prover a amplo finan-
-- como a maior especializao, a ligao mais      ciamento. Alm disso, a crena de que a cincia
estreita entre cincia e estado -- vinham sendo     e a tecnologia podiam elevar consideravelmen-
visveis h algum tempo. No sculo atual, po-       te o bem-estar das naes, definido em termos
rm, mudanas interligadas de natureza cumu-        materiais e medido com indicadores econmi-
lativa produziram um efeito de limiar -- uma        cos, serviu de estmulo adicional para a trans-
revoluo em cincia e tecnologia.                  formao da cincia e da tecnologia. (Ver tam-
    Em sua forma geral, essa nova revoluo foi     bm CRESCIMENTO ECONMICO.)
conseqncia do impulso pela racionalidade              O resultado foi que a cincia e a tecnologia
que foi uma fora motivadora da ascenso do         tm recebido mais apoio financeiro do que nun-
Ocidente, em especial desde a Reforma pro-          ca e que a pesquisa tem sido executada em
testante (ver tambm TICA PROTESTANTE, TESE        laboratrios industriais ou governamentais em
DA). Os mtodos de contabilidade que tornaram       uma extenso muito maior do que antes, fre-
possvel a empresa capitalista foram ampliados      qentemente com sua direo determinada de
e aplicados inicialmente  tecnologia e depois      antemo por decises organizacionais ou em
 cincia. Conceitos que antes se pensava per-      cumprimento de obrigaes contratuais. A pes-
tencerem ao mundo dos negcios -- contratos,        quisa, dentro e fora das universidades, conver-
oramentos de tempo e gerncia de tempo, pro-       teu-se em grande parte em pesquisa de equipe,
dutividade, fluxos de produo, propriedade         e o empreendimento cientfico-tecnolgico jus-
etc. -- passaram a figurar com destaque na          tificou-se em termos de produo... de patentes,
administrao (agora gerncia) da cincia e da      de publicaes, de pessoal. O foco da pesquisa
668   revoluo cientfico-tecnolgica


transferiu-se do problema cientfico para o ar-    dicadores contemporneos de desempenho,
tigo ou ensaio publicado ou para a patente.        mas tambm resultariam inevitavelmente taxas
Enquanto que em tempos passados um cientista       inferiores de descobertas cientficas e inova-
ou tecnlogo -- um pensador independente --        es tecnolgicas significativas. Ao fim e ao
podia debater-se com um nico problema du-         cabo, acompanhando a transformao de sua
rante alguns anos, as exigncias de prestao de   organizao social, a cincia e a tecnologia no
contas impostas s organizaes (e aos seus        podem produzir suficientes obras de qualidade
empregados) e as aspiraes de carreira dos        para sustentar a sociedade industrial. Em essn-
homens e mulheres de cincia e tecnologia          cia, a sociedade moderna contm em seus va-
combinaram-se para assegurar a ampla aceita-       lores fundamentais as sementes de sua prpria
o dos nmeros de publicaes ou patentes         extino.
(e/ou contagem do total de pginas, ou pedidos         Encarada historicamente, a mesma raciona-
de bolsas bem-sucedidos, ou contratos, ou cita-    lidade que possibilitou a Revoluo Industrial
es, ou estudantes) por ano como indicadores      no Ocidente propagou-se de seu foco inicial --
vlidos de adequadas taxas de produo.            predominantemente comercial -- para todas as
    Qualquer considerao da revoluo cien-       outras reas da sociedade. Nenhuma rea es-
tfico-tecnolgica do sculo XX deve reconhe-      capou  sua influncia. Entretanto, levada ao
cer uma de suas principais caractersticas: seu    seu extremo, a racionalidade econmica con-
evidente sucesso. Quer os problemas tenham         duz ao consumo -- sem possibilidade de reno-
sido indicados por grandes empresas capitalis-     vao -- dos prprios recursos que possibilita-
tas ou pelo estado, ou escolhidos por sua per-     ram a sociedade moderna: as contribuies de
tinncia para os interesses do momento, dis-       cientistas, engenheiros, pensadores indepen-
ciplinares ou sociais, a cincia e a tecnologia    dentes impelidos por irrefrevel curiosidade,
tm se mostrado, no seu todo, notavelmente         por um interesse em idias motivado pelo sim-
capacitadas a oferecer solues aceitas pela       ples amor s idias, por uma paixo por com-
grande maioria.                                    preender... ou por outras motivaes "irracio-
    Uma questo crtica, porm,  se essa or-      nais" semelhantes. as pessoas com tais motiva-
ganizao social presente permitir as espcies    es no desapareceram, mas a revoluo do
de transformaes no pensamento cientfico e       sculo XX na organizao social -- afetando
social associadas a cientistas pioneiros da es-    laboratrios empresariais e governamentais,
tirpe de Coprnico, Kepler, Galileu, Newton,       institutos de pesquisa e universidades -- de-
Faraday, Snow, Darwin, Mendel, Pasteur e           fine a maioria das pessoas com esses tipos de
Einstein, ou a Adam Smith, Marx, Durkheim,         motivaes como improdutivas, no merece-
Weber e outros fecundos cientistas sociais.        doras de sria considerao ou de apoio fi-
    Como est claro que a organizao social da    nanceiro e -- na melhor das hipteses -- as
cincia e da tecnologia usualmente no esti-       marginaliza.
mula -- na verdade, desencoraja com freqn-           Em ltima anlise, a questo consiste em
cia -- o trabalho realmente inovador, uma tese     saber se a organizao social da cincia e tec-
sombria vem  tona. Em termos simples: como        nologia -- e da criao de conhecimento, de
a populao humana -- crescendo em nmeros         modo mais geral, permitir qualquer contribui-
e em consumo material -- exerce uma presso        o efetiva para a revoluo no pensamento
cada vez maior sobre os limites da capacidade      social e nos valores da sociedade que ser re-
do ecossistema planetrio, surgem problemas        querida com vistas  sobrevivncia a longo
srios e aumenta a presso para que a cincia e    prazo da espcie humana, com uma razovel
a tecnologia produzam solues. Como resul-        qualidade de vida, dentro de seu meio ambiente
tado da revoluo cientfico-tecnolgica do s-    natural. Como a cincia e tecnologia esto cada
culo XX, mecanismos traduzem essa presso          vez mais solidamente submetidas  maquinaria
em exigncias de maior racionalidade econ-        de produo do capitalismo atual, como as ca-
mica -- mais responsabilidade, mais eficincia,    pacidades crticas de cientistas, engenheiros e
mais produtividade -- no uso de recursos alo-      -- de modo mais geral -- intelectuais esto
cados pela sociedade para pesquisa. Podem          cada vez mais anestesiadas (muitas vezes por
resultar nveis mais elevados de produtividade     suas prprias ambies pessoais de xito, ou
cientfica-tecnolgica, quando medidos por in-     necessidades de sobrevivncia, dentro do atual
                                                                                  revoluo gerencial   669


sistema), como as sociedades em todo o planeta             uma fase no movimento de afastamento do
se esforam ao mximo por imitar os modelos                tradicional controle pelo dono e de encami-
de consumo de massa do Ocidente materialista,              nhamento para um sistema de "controle geren-
assim se fecham as janelas de oportunidade                 cial" em que as atividades de negcios pode-
possivelmente restantes.                                   riam ser mais facilmente submetidas ao interes-
    Ver tambm MUDANA TECNOLGICA; RACIO-                 se pblico. Em 1933, Roosevelt iniciou o New
NALIZAO; SOCIOLOGIA DA CINCIA; TECNOCRA-                Deal, a sua poltica econmica e social des-
CIA.                                                       tinada a superar os problemas econmicos pre-
                                                           cipitados pelo colapso financeiro de 1929. Ber-
Leitura sugerida: Bernard, C. 1865 (1961): An Intro-       le foi recrutado para o brain trust -- grupo
duction to the Study of Experimental Medicine  Harr,
R. 1981: Great Scientific Experiments: Twenty Experi-      organizado pelo presidente para realizar es-
ments that Changed our View of the World  Internatio-      tudos e solucionar problemas e que apresentou
nal Sociological Association 1977: Scientific-Technolo-    numerosas idias e polticas aproveitadas por
gical Revolution: Social Aspects  Kanigel, R. 1986:        Roosevelt. desse modo, a tese da revoluo
Appendice to Genius: The Making of a Scientific Dynas-     gerencial passou a ter um significativo impacto
ty  Kuhn, Thomas S. 1961: The Structure of Scientific      no pensamento oficial e empresarial nos Es-
Revolutions  Latour, Bruno e Woogar, Steve 1979:
Laboratory Life, The Construction of Scientific Facts 
                                                           tados Unidos.
Lemaine, G., Darmon, G. e Nemer, S. 1982: Noopolis:            Berle e Means sustentaram que a escala
les laboratoires de recherche fondamentale: de l'atelier   crescente da empresa comercial e industrial
 l'usine  Martin, B.M., Baker, C.M.A., Manwell, C.        significava que as companhias teriam que re-
e Pugh, C. 1986: Intellectual Suppression: Australian      correr a pools mais vastos de capital para finan-
Case Histories, Analysis and Responses  Merton, R.K.       ciar suas atividades. Por conseguinte, a proprie-
1973: The Sociology of Science: Theorical and Em-
pirical Investigations  Pirsig, R. 1974: Zen and the Art   dade das aes das companhias ficaria cada vez
of Motorcycle Maintenance: an Inquiry into Values          mais dispersa. Os donos de uma companhia
Szent-Gyorgyi, A. 1971: "Lookin back". Perspectives        possuiriam uma percentagem decrescente das
in Biology and Medicine 15, 1-5.                           aes e deixariam de poder exercer a espcie de
                                ALDEN S. KLOVDAHL          controle que era possvel quando detinham a
                                                           propriedade pessoal do empreendimento como
revoluo gerencial A expresso refere-se,                 um todo. Eles poderiam exercer inicialmente o
lato sensu, ao processo pelo qual a propriedade            "controle majoritrio", mas, quando sua par-
e o controle da indstria teriam passado, em               ticipao acionria ficasse abaixo de 50%, pas-
tese, de empresrios e famlias para gerentes              sariam a exercer somente um "controle minori-
profissionais assalariados; tambm tem sido                trio". Finalmente, seus valores mobilirios se
usada em referncia a mudanas na base do                  tornariam to diminutos que eles desaparece-
domnio poltico em termos de classes. Nessa               riam na massa de pequenos acionistas. Nessa
ltima acepo, designa o processo pelo qual               situao, o capital  subscrito por um grande
uma classe capitalista dominante  substituda             nmero de indivduos, cada qual com uma per-
por uma nova classe dominante de gerentes                  centagem muito pequena do total, e nenhum
financeiros e tcnicos.                                    acionista possui suficientes aes para exercer
    A mais antiga formulao da tese geral da              o controle da companhia. Os diretores e prin-
revoluo gerencial na indstria pode ser en-              cipais executivos -- a "gerncia" -- deixam de
contrada na obra de Berle e Means (1912). Esse             ser coagidos pelos interesses dos seus acionistas
livro nasceu de uma preocupao nos crculos               e  concretizado o "controle gerencial".
liberais norte-americanos a respeito do poder                  A obra de James Burnham (1941) deu uma
industrial exercido por banqueiros de Nova                 inclinao mais radical a essa tese, ao con-
York. Tal preocupao expressou-se na idia de             sider-la a base da ascenso ao poder de uma
um "truste monetrio" atravs do qual financis-            nova classe dominante. Burnham afirmou que
tas como J.P. Morgan estavam controlando a                 o crescimento da empresa era mais que uma
indstria na base de grandes participaes acio-           simples questo de escala. Havia tambm uma
nrias, emprstimos e diretorias interligadas.             crescente complexidade tcnica dos meios de
Adolf Berle, advogado independente, e Gar-                 produo, e o autor sustentou que o controle
diner Means, economista, foram mais otimistas              sobre a indstria estava se transferindo dos
a esse respeito, considerando que era apenas               grupos dependentes da estrutura da propriedade
670   revoluo permanente


e lucratividade privadas (acionistas e financis-       A tese da revoluo gerencial, conforme
tas) para os que possuem as necessrias quali-     expressa nas teorias da sociedade ps-indus-
ficaes e os conhecimentos indispensveis pa-     trial, tem sido alvo de considerveis crticas nos
ra dirigir os novos meios de produo. Qualifi-    ltimos 20 anos. Provou-se que era infundada
caes organizacionais e conhecimentos tcni-      a crena em que a participao acionria estava
cos constituam a base do poder gerencial. Bur-    se tornando irrelevante para o controle. A situa-
nham considerou que a base de conhecimento         o observada por Berle e Means no incio da
dos gerentes est expressa na nova CINCIA DA      dcada de 30 foi, na melhor das hipteses, um
ADMINISTRAO. O poder dos gerentes na inds-      perodo transitrio. Desde essa poca tem se
tria confere-lhes um papel de destaque na so-      registrado um macio crescimento das carteiras
ciedade como agentes de um sistema de pro-         acionrias de instituies financeiras -- ban-
priedade estatal em evoluo -- o seu poder na     cos, companhias de seguro e fundos de penses.
indstria corresponde ao crescente poder dos       A posse de aes tornou-se mais concentrada,
"gerentes" no estado. As vastas e complexas        no mais disseminada. Isso aumentou o poder
burocracias do estado moderno, sustentou ele,      de diretores das principais instituies finan-
exigiam administradores altamente qualifica-       ceiras, que compreendem um "crculo restrito"
dos que suplantassem cada vez mais os polti-      de lderes empresariais (Zeitlin, 1989; Useem,
cos eleitos no preenchimento de cargos. Portan-    1984). As pesquisas tambm indicaram que o
to, a revoluo gerencial foi o processo pelo      evolucionismo e a inevitabilidade da posio
qual os gerentes na indstria e no estado con-     gerencialista devem ser questionadas e se deve
solidaram seu poder e se tornaram uma nova         dar mais ateno s variaes entre pases em
                                                   suas respectivas experincias de desenvolvi-
classe governante. Burnham, escrevendo na d-
                                                   mento da administrao empresarial (Scott,
cada de 40, percebeu que isso tinha sido reali-
                                                   1985).
zado na Unio Sovitica, na Itlia fascista e na
Alemanha nazista. A Gr-Bretanha e os Estados      Leitura sugerida: Berle, A.A. e Means, G.C. 1932:
Unidos, afirmou ele, caminhariam em breve na       The Modern Cooperative and Private Property  Bur-
mesma direo.                                     nham, J. 1941: The Managerial Revolution  Florence,
                                                   P.S. 1951: Ownership, Control and Success in Large
    No perodo do ps-guerra a tese de Burnham     Companies  Gordon D. 1945: Business Leadership in
foi especialmente influente entre os analistas     Large Corporations  Herman, E.O. 1981: Corporate
dos estados comunistas emergentes, encontran-      Control, Corporate Power  Mintz, B. e Schwartz, M.
do sua expresso em vrias noes de "totalita-    1985: The Power Structure of American Business 
rismo" e na conceituao por Djilas (1957) da      Scott, John 1985: Corporations, Classes, and Capita-
                                                   lism, 2ed.  1986: Capitalist Property and Financial
nova classe burocrtica da Europa Oriental.
                                                   Power  Useem, M. 1984: The Inner Circle  Zeitlin,
Entre os autores sobre o capitalismo ocidental,    M.R. 1989: The Large Corporation and Contemporary
contudo, foi a formulao de Berle e Means a       Classes.
mais influente de todas. Essa concepo estava                                            JOHN SCOTT
associada, porm,  afirmao de que a revolu-
o gerencial estava transformando a sociedade     revoluo permanente Esta expresso pas-
industrial e criando uma nova sociedade em que     sou a representar a conjuno, em um processo
no haveria divises de classe. Os gerentes, na    contnuo, de dois tipos de transformao revo-
opinio de autores to diversos quanto Bell        lucionria. De origem obscura, foi introduzida
(1961) e Galbraith (1967), eram meramente os       no pensamento marxista pelo prprio Karl Mar-
ocupantes atuais de posies em um sistema         x. Mas a teoria completa da revoluo per-
aberto e meritocrtico. Elevadas taxas de mobi-    manente est associada ao nome de Leon Trots-
lidade social asseguravam que eles no for-        ky que, desde 1905 at sua morte em 1940,
mariam uma classe social fechada, e seu            desenvolveu, defendeu e sistematizou a idia
isolamento das exigncias de propriedade e         dessa transformao revolucionria dupla para
lucro garantiam que iriam atuar no interesse       pases em estgio inicial de desenvolvimento
social geral. Essa concepo da SOCIEDADE PS-     capitalista.
INDUSTRIAL tornou-se, na maior parte das dca-        A prpria expresso no  inteiramente ade-
das de 50 e 60, a principal perspectiva sociol-   quada para o significado que adquiriu, parecen-
gica sobre a sociedade moderna.                    do apontar, antes, uma perspectiva de inter-
                                                                          revoluo permanente      671


minvel convulso poltica e social ou de            social capitalista, como uma etapa distinta an-
mudana radical. Exceto quando caricaturada          terior a qualquer revoluo socialista.
por adversrios, contudo, a expresso no foi            Nessa relativa harmonia, uma nica voz pro-
proposta com esse sentido. O exame por Marx          jetou uma nota discordante. O que para Marx
das perspectivas da Alemanha em meados do            fora apenas uma linha ocasional de pensamento
sculo XIX indica os temas principais. Uma           recebia agora uma base independente fornecida
REVOLUO meramente democrtica, ou "de-             pelo jovem Trotsky; a resultante teoria da revo-
mocrtico-burguesa" -- ou seja, uma revoluo        luo permanente serviu-lhe como diretriz para
dirigida contra a autocracia poltica e as rela-     o resto da vida. Formulada inicialmente depois
es econmicas pr-capitalistas -- era, pen-        da derrotada revoluo russa de 1905, seu ponto
sava ele, problemtica naquele pas, uma vez         de partida foi o que Trotsky chamaria mais tarde
que ao principal beneficirio de tal revoluo       a "lei do desenvolvimento combinado e de-
parcial, a burguesia, faltava a vontade poltica     sigual". O grau e o ritmo desiguais do desen-
para lev-la adiante, por causa do medo que          volvimento capitalista em pases diferentes, em
sentia da classe abaixo dela, o proletariado. Este   conjunto com a tendncia do capitalismo a
ltimo, como a nica classe verdadeiramente          transpor fronteiras nacionais, levando consigo
radical, podia e devia tomar a iniciativa: lutar     seus produtos, seus mtodos, sua tecnologia e
embora no apenas pela revoluo democrtica         suas comunicaes, tinham o efeito, em regies
que era necessria para uma Alemanha ainda           economicamente menos desenvolvidas, susten-
atrasada libertar-se da herana da Idade Mdia,      tou ele, de produzir uma distinta "combinao"
mas para uma emancipao mais completa,              histrica: de arcaicas estruturas sociais e polti-
envolvendo a abolio da propriedade privada         cas pr-capitalistas, por um lado, com um rela-
e das classes. Foi a juno dessas duas etapas       tivamente avanado, embora pequeno, setor de
revolucionrias -- a democrtico-burguesa e a        indstria capitalista, por outro. A Rssia estava
                                                     nesse caso: l o capitalismo tinha sido promo-
socialista -- em um processo mais ou menos
                                                     vido pelo prprio estado e acelerado pelo inves-
ininterrupto que constitua a "permanncia" da
                                                     timento estrangeiro que ele encorajava. Os mais
revoluo. Marx tambm previu que os esforos
                                                     modernos mtodos de produo tinham sido
polticos do operariado alemo seriam ajudados       projetados subitamente em um meio economi-
por uma vitria do proletariado na Frana.           camente atrasado, em vez de se desenvolverem
    Apesar da presena desses temas na obra de       organicamente com a evoluo mais gradual de
Marx, foi um ponto de vista diferente, que           uma classe empresarial nacional. Por conse-
tambm pode ser nela encontrado, que veio a          guinte, a burguesia e o liberalismo russos eram
definir a "ortodoxia" marxista e, concomitan-        fracos e temerosos de uma revoluo popular,
temente, a expectativa comum dos marxistas           enquanto que a classe operria estava altamente
russos nos primeiro anos do sculo XX. Esse          concentrada, era politicamente militante e au-
ponto de vista dizia que, antes de as relaes       toconfiante. Embora pequena, essa classe teria,
econmicas existentes poderem ser substitu-         sustentava Trotsky, que liderar os camponeses
das por outras mais avanadas, j deviam ter         contra o czarismo; o campesinato era extrema-
amadurecido as foras e condies materiais          mente heterogneo e estava geograficamente
apropriadas. O socialismo deve basear-se em          disperso demais para poder ele prprio assumir
um alto nvel de progresso capitalista. Assim,       a liderana.
as duas principais correntes no interior do mo-          Foi a partir dessa hiptese da liderana po-
vimento socialista russo, embora discordassem        ltica proletria na Rssia que Trotsky derivou
acerca do papel do proletariado em uma futura        a ento heterodoxa projeo de que a primeira
revoluo russa -- os bolcheviques vendo-o em        revoluo anticapitalista poderia muito bem
um papel de liderana, os mencheviques em um         ocorrer fora do mundo capitalista avanado.
papel meramente coadjuvante --, estavam uni-         Pois se os representantes da classe operria
das em pensar que essa revoluo s podia ser        chegassem ao poder atravs da revoluo, eles
democrtico-burguesa no contedo: seus obje-         no poderiam limitar-se a realizar os objetivos
tivos, em um pas atrasado e predominantemen-        de um programa democrtico-burgus. A din-
te agrrio, tinham que ser a democracia poltica     mica da luta de classes oporia importantes for-
e um perodo de desenvolvimento econmico e          as burguesas at mesmo a esse programa "m-
672   riqueza


nimo", compelindo a classe operria a atacar as      ramente superestimadas. Trotsky, por outro la-
prprias bases da riqueza e do poder capitalis-      do, subestimou a capacidade de um regime
tas, se a revoluo no quisesse fracassar em        ps-revolucionrio na Rssia sobreviver isola-
seus mais elementares objetivos. No haveria,        do; tendo preconizado inicialmente a sua queda
portanto, qualquer diviso estrita entre as etapas   iminente, viria mais tarde a se referir, em rela-
democrtico-burguesa e socialista. O contedo        o ao governo de Stalin,  prolongada degene-
das duas revolues iria fundir-se em um s.         rao do regime. Mas se a ausncia de revolu-
    Se a Rssia, contudo, podia iniciar a transi-    es socialistas no mundo capitalista avanado
o para o socialismo, no poderia complet-la       deixa, de certo modo, um ponto de interrogao
sozinha. Nesse ponto, Trotsky sustentou a tese       geral sobre a teoria da revoluo permanente
marxista ortodoxa de que o socialismo requer         (como, na verdade, sobre uma expectativa mar-
uma estrutura internacional e um alto nvel de       xista clssica central), os acontecimentos que se
desenvolvimento das foras produtivas. A me-         desenrolam agora na ex-Unio Sovitica e na
nos que a revoluo na Rssia fosse logo segui-      Europa Oriental podem, de outra maneira, con-
da -- como ele confiantemente esperava que           firmar tardiamente a teoria, se levarem ao pleno
ocorresse -- de revolues em outros pases-         restabelecimento do capitalismo nesses pases.
chaves europeus, produzindo conjuntamente                Ver tambm TROTSKISMO.
um projeto internacional de transio socialista,
                                                     Leitura sugerida: Deutscher, I. 1954: The Prophet Ar-
o novo estado dos trabalhadores na Rssia es-        med; Trotsky; 1879-1921  Geras, N. 1976: The Legacy
taria condenado ao fracasso em curto espao de       of Rosa Luxemburg  Knei-Paz, B. 1978: The Social
tempo. Esse era o segundo componente da teo-         and Political Thought of Leon Trotsky  Lwy, M.
ria da revoluo permanente: a insistncia na        1981: The Politics of Combined and Uneven Develop-
urgncia de vitrias socialistas em outros pa-      ment  Marx, K. 1843 (1975): "Contribution to the
ses. Menos saliente antes de 1917 do que a           critique of Hegel's philosophy of law: introduction". In
                                                     K. Marx e F. Engels, Collected Works, vol.3, p.175-87
discusso em torno da fuso das etapas revolu-        Trotsky, L. 1906, 1930 (1962): The Permanent Revo-
cionrias, tornou-se nas dcadas de 20 e 30 um       lution and Results and Prospects  1922 (1972): 1905 
dos temas principais na oposio  defesa por        1932 (1977): History of the Russian Revolution.
Stalin do "socialismo em um s pas".                                                      NORMAN GERAS
    Apesar de alguns paralelos entre suas pr-
prias concepes sobre a Rssia e as de outros       riqueza No moderno pensamento social, o
pensadores (Rosa Luxemburgo, por exemplo),           conceito econmico de riqueza -- qualquer
acerca da questo crucial da dinmica anticapi-      PROPRIEDADE que tenha um valor negocivel ou
talista da iminente revoluo russa, Trotsky         valor de troca -- tem sido normalmente tratado
permaneceu sozinho entre os marxistas durante        como uma dimenso importante e fundamental
mais de uma dcada. Rejeitando a sua teoria at      da desigualdade social ou econmica, e fre-
1917, Lenin e o Partido Bolchevista que o            qentemente discutido ou empregado por crti-
apoiava adotaram ento uma perspectiva idn-         cos esquerdistas do capitalismo ou da ordem
tica, em todos os aspectos essenciais,  de Trots-   social existente. Para os marxistas, as concen-
ky, como o programa da Revoluo de Outubro.         traes privadas de posses de riquezas so parte
Isso tem sido negado freqentemente pelos            integrante do processo de controle pela classe
apologistas do stalinismo e, de modo geral, na       burguesa dos meios de produo, distribuio e
tradio do COMUNISMO ortodoxo; mas a nega-          troca, e eles em geral tm considerado a questo
o carece de credibilidade intelectual.             da posse de riquezas no contexto da propriedade
    A perspectiva de revoluo permanente foi,       do capital produtivo por uma classe, minimi-
em um aspecto, notavelmente presciente, an-          zando a importncia de outras formas de patri-
tecipando em linhas gerais o que estava real-        mnio. Radicais no-marxistas como R.H.
mente para acontecer na Rssia, em face de uma       Tawney (1880-1962) e Anthony Crosland
forte e rgida ortodoxia que teria parecido          (1918-77) conferiram maior nfase ao papel da
absurdo prever. Nessa perspectiva, ao mesmo          posse de riquezas, especialmente as concentra-
tempo -- como no marxismo clssico, em ter-          es significativas de riqueza herdada, na ma-
mos genricos --, a facilidade e a rapidez com       nuteno da desigualdade poltica e social das
que a revoluo socialista poderia propagar-se       modernas sociedades capitalistas. Uma terceira
de uma arena nacional para outras foram cla-         corrente, representada por cientistas sociais co-
                                                                                   ritual poltico   673


mo Thorstein Veblen (1857-1929), Joseph             da "ascenso da pequena nobreza rural, a gen-
Schumpeter (1882-1950) e C. Wright Mills            try", no perodo inicial da Inglaterra moderna,
(1916-62), examinou a categoria social das pes-     levado a efeito por R.H. Tawney, Lawrence
soas ricas, especialmente aquelas com substan-      Stone, J.H. Hexter, Hugh Trevor-Roper e ou-
cial patrimnio herdado. Veblen foi o primeiro      tros, examinou com detalhes as fortunas econ-
a pr em relevo a exibio vulgar de "consumo       micas da aristocracia e da gentry na Gr-Breta-
conspcuo" entre os ricos; Schumpeter exami-        nha desde 1800, empreendido por W.D. Ru-
nou os efeitos pretensamente deletrios da ri-      binstein, mostrou que, na mais importante rea
queza herdada sobre a capacidade empresarial        industrial da Gr-Bretanha, se adquiria muito
entre os herdeiros de self-made men; Mills for-     mais riquezas nas finanas e no comrcio, es-
mulou o conceito de "elite do poder" para en-       pecialmente na City de Londres, do que em
globar a superposio de pessoal entre o grande     manufaturas; isso ocasionou um debate sobre
empresariado, o governo, os militares e outros      as implicaes do "capitalismo dividido" pela
elementos que discerniu na Amrica ps-1945.        geografia na Gr-Bretanha. Outros estudos das
    Economistas e outros, trabalhando a partir      classes mdias inglesas, empregando fontes pa-
de um quadro de referncia neoclssico ou key-      trimoniais semelhantes, foram publicados por
nesiano, tm se dedicado cada vez mais a exa-       Leonore Davidoff, Catherine Hall e Robert
minar questes de concentrao e distribuio       Morris, ao lado de uma literatura em constante
de renda e riqueza sob aspectos de relevncia       aumento sobre os ricos nos Estados Unidos,
para a teoria social. Na dcada de 50 Simon         Frana, Alemanha e outros pases.
Kuznets exps a teoria -- verificada, ao que
                                                    Leitura sugerida: Daumard, Adeline 1973: Les for-
tudo indica, por pesquisadores subseqentes         tunes franaises au XIXe sicle  Davidoff, Leonore e
como Lee Soltow, Jeffrey Williamson e Peter         Hall, Catherine 1986: Family Fortunes  Lundberg,
Lindert -- de que a concentrao de renda (e,       Ferdinand 1968: The Rich and the Super-Rich  Mills,
por implicao, de riqueza) em mos particula-      C.W. 1956: The Power Elite  Pessen, Edward 1973:
res se torna mais desigual durante e imediata-      Riches, Class and Power before the Civil War  org.
mente aps o perodo de industrializao de         1974: Three Centuries of Social Mobility in America 
                                                    org. 1980: Wealth and the Wealthy in the Modern World
uma nao e, em seguida, cada vez mais igua-         Rubinstein, W.D. 1986: Wealth and Inequality in Bri-
lizada (em contraste com a teoria marxista cls-    tain  Schumpeter, J.A. 1942 (1987): Capitalism, So-
sica). No tocante  Gr-Bretanha, a pesquisa        cialism and Democracy  Stone, Lawrence e Stone,
emprica revelou que a m distribuio de renda     Jeanne Fawtier 1984: An Open Elite? England 1540-
atingiu o seu ponto mximo no perodo entre         1880  Veblen, Thorstein, 1899 (1953): The Theory of
1870 e 1914, e que a renda foi ficando progres-     the Leisure Class.
sivamente distribuda de forma menos desigual                                          W.D. RUBINSTEIN
desde o final da Primeira Guerra Mundial. O
grau de concentrao de posse de riqueza (me-       ritual poltico Como atividade formal ou
dida pelo registro de sucesses) acompanhou o       padronizada tipicamente desempenhada em
de rendas em se tornar mais igual, depois, ob-      certos momentos e locais especficos, o ritual
viamente, do intervalo de uma gerao. No          difere dos hbitos e costumes por ser simblico
est esclarecido se isso ocorreu por causa de       e, com freqncia, dramtico, expressando e
processos econmicos "naturais" -- a criao        comunicando no s idias, mas tambm pode-
de uma sociedade afluente de consumo de mas-        rosos sentimentos. Isso  feito atravs de cenas,
sa -- ou especificamente em funo de medidas       atos e palavras simblicas que renem idias
tributrias redistribucionistas e atividades sin-   diversas. Um nico smbolo pode freqente-
dicais.                                             mente representar muitas idias, e a interpreta-
    Os historiadores sociais tambm tm exami-      o do simbolismo ritual  muitas vezes am-
nado com crescente freqncia os ricos como         bgua. Os rituais polticos ocorrem tipicamente
categoria social, assim como a evoluo da          diante do pblico; o que eles expressam e co-
posse de riqueza em sociedades modernas, prin-      municam diz respeito ou ajuda a configurar
cipalmente por meio dos registros de sucesses      interesses centrais dos que neles participam e
e outros dados tributrios que permitem adqui-      dos que os observam. Desse modo, podem con-
rir-se o conhecimento da identidade e nvel de      tribuir para determinar o que  politicamente
riqueza de pessoas falecidas. O debate em torno     significativo em uma comunidade, representan-
674   rotulao


do o seu passado e o seu futuro, bem como as         dinrias, como quando se observa, digamos, um
relaes sociais dentro dela. (Ver tambm CUL-       aspecto ritual no processo oramentrio.
TURA POLTICA.)
                                                     Leitura sugerida: Edelman, M. 1971: Politics as Sym-
    Os efeitos do ritual poltico so difceis de    bolic Action  Kertzer, D.I. 1988: Ritual Politics and
avaliar, mas  provvel que sejam cognitivos e       Power  Moore, S.E. e Myerhoff, B.G., orgs. 1977:
emocionais, veiculando certa imagem estereo-         Secular Ritual.
tipada do mundo social e poltico e das iden-                                             STEVEN LUKES
tidades dos que o habitam, por um lado, e, por
outro, fortes sentimentos associados a essa ima-     rotulao Em um contexto sociolgico ou
gem, induzindo ou reforando freqentemente          criminolgico, a palavra deveria ser usualmen-
slidas lealdades e, por vezes, hostilidades. (Ver   te lida como referncia a um conjunto especial
tambm IDENTIDADE.) O resultado pode ser so-         de idias sobre a interao entre linguagem e o
cialmente coesivo ou divisivo. Os rituais pol-      eu-mesmo (self) na formao da identidade, em
ticos podem ser integrativos, um meio de legi-       particular da identidade desviante. Cumpre ain-
timao, inculcando e consolidando uma reli-         da assinalar que os mais destacados tericos da
gio civil como, digamos, se presume que ocor-       "rotulao" no manifestam realmente grande
ra em cerimnias de coroao ou no Memorial          apreo pelo termo e o associam s simplifica-
Day, quando os americanos comemoram os               es criadas por seus crticos.
seus mortos em guerras (ver Warner, 1959), ou            A prpria teoria da rotulao pode ser tratada
conflitantes, como quando, por exemplo, os           como um elemento da sociologia interacionista
Apprentice Boys protestantes desfilam em             e fenomenolgica simblica (ver FENOMENOLO-
reas catlicas da Irlanda do Norte ou os es-        GIA; INTERACIONISMO SIMBLICO) que foi inserido
tudantes chineses erguem uma Esttua da Li-          nas anlises de desvio e controle em 1938 por
berdade na Praa Tienannen; podem ainda ser-         Crime and the Comunity, de Tannenbaum, em
vir para marcar e, assim, reforar divises em       1951 por Social Pathology, de Lemert, e em
uma sociedade plural, como nos desfiles tnicos      1963 por Outsiders, o livro sumamente impor-
ou nos desfiles comemorativos do 1 de Maio          tante de Becker.  fruto da preocupao in-
em sociedades capitalistas.                          teracionista com o eu-mesmo que resultou de
                                                     uma resposta filosfica a Hegel formulada por
    Dizer que os rituais polticos so expres-
                                                     C.S. Peirce, J. Dewey, W. James e G.H. Mead
sivos no  negar que possam ser instrumental
                                                     (ver PRAGMATISMO).
ou estrategicamente usados, seja para consoli-
                                                         O eu-mesmo, sustentam os interacionistas,
dar o poder ou resistir a ele, ou a fim de expres-
                                                      um processo reflexivo na conscincia, uma
sar uma oposio limitada  ordem social exis-       diviso da subjetividade em fases ligadas, um
tente. Alm disso, a sua interpretao , com        voltar-se a mente para si mesma de modo a que
freqncia, motivo de contestao, at mesmo         se torne simultaneamente observadora e obser-
de luta. Tampouco se suponha que ritual polti-      vada, "Eu" e "a mim". Manifesta-se na conduta.
co  "meramente ritual, uma iluso essencial-        As pessoas falam sobre si mesmas e sobre as
mente irrelevante para as questes "concretas"       atividades em que esto envolvidas. Podem
da poltica. Tanto ditadores quanto revolucio-       recordar e rever-se como eram no passado, pro-
nrios tm acreditado claramente no grande           jetar-se em novas situaes, apurar algo de mo-
poder de seus efeitos -- at mesmo os lderes        do a que outros as vejam, ensaiar suas prprias
racionalistas da Revoluo Francesa pensaram         respostas a esses outros e antever o que estes,
ser importante estabelecer requintados rituais       por sua vez, podem voltar a lhes dizer. Sero
da Razo, obliterando assim o simbolismo do          definidas por outros, e "assumir o papel do
passado catlico (ver o captulo de L. Hunter in     outro"  uma atividade substitutiva que permite
Alexander, 1988).                                    uma perspectiva sobre as identidades social-
    Os rituais polticos podem ser ocasies tanto    mente situadas de cada um. As pessoas tornam-
solenes como festivas, como coroaes ou des-        se sociais nesse processo, entrelaando-se na
files. Podem ser atividades de aparncia no-ri-     ao projetada de outros, incorporando as pers-
tual, como as eleies, que so interpretadas        pectivas dos outros nas suas prprias. No que
ento como rituais polticos. E podem ser consi-     foi chamado o "gesto significativo", elas podem
derados aspectos de atividades polticas or-         assumir mltiplas identidades interatuantes que
                                                                                     rotulao   675


so encenadas ao longo do tempo; elas mesmas        emergentes. Examina a interao dentro de si
e os outros esto contracenando em um ato que       mesmo, entre o "eu" e o "a mim", analisa-a
se desenrola por toda parte. Assim, os eus-mes-     como dilogo. Uma pessoa pode ser ouvida
mos criam outros eus-mesmos e por eles so          interrogando-se a si mesma, elogiando-se, mos-
criados, so construdos de modo cooperativo        trando-se em comunho consigo mesma de mo-
com "outros importantes" que ajudam a definir       do conversacional.  uma pessoa falando com
quem e o que cada um  em um dado momento.          outras.
    Os eus-mesmos so objetos simblicos e o            Como em todas as conversaes, uma pes-
principal veculo de objetificao  a lingua-      soa raramente recebe uma resposta completa: o
gem. A linguagem separa, classifica, generali-      conhecimento de si mesma  incompleto, me-
za, anonimiza, registra e preserva. Permite aos     diado e situado. Est sendo interminavelmente
usurios desligarem-se de sua prpria subjeti-      descoberto. A pessoa tenta estabelecer quem 
vidade, coisificando-a. Permite  pessoa reagir     e o que est fazendo captando um relance de
a si mesma como reagiria a uma outra. O carter     seus prprios gestos e as reaes que os outros
de um eu-mesmo  fixado pela linguagem;             tm a eles. O eu-mesmo  uma inferncia, uma
observou Peirce: "A minha linguagem  a soma        questo de conjectura baseada em uma rpida
total de mim". A pessoa pode adotar tantas          suposio ou suspeita e em uma rudimentar
posturas em relao a si mesma quantos nomes        descrio operacional. E, como qualquer outra
existam, e assumir um novo nome induzir na         inferncia, no necessita ser "correta", "verdi-
pessoa uma transformao de si mesma. O be-         ca" ou penetrante. A compreenso que uma
bedor pode tornar-se um alcolatra; o magro,        pessoa tem de si mesma e dos outros  freqen-
um anorxico; o comedor, um gluto. Os ttulos      temente fornecida por categorias que possuem
do forma ao eu-mesmo; contudo, a mera oferta       mais de caricatura e esteretipo do que de deta-
de um ttulo no obriga ningum a aceit-lo:        lhe ou nuana. O "a mim"  uma reificao
uma pessoa  repetidamente bombardeada com          confrontando-se e trabalhando com outros que
ofertas de identidade por parte de associaes,     foram analogamente reificados. Um relaciona-
partidos, ocupaes, crticos e amigos, e no       mento social no pode ser um encontro entre
aceita todas elas. O que conta  possuir um         pessoas reveladas em toda a plenitude de seus
senso dos limites, da plausabilidade e das pos-     "verdadeiros" eus. Ele  mediado por interpre-
sibilidades dos caracteres que se apresentam,       taes que se desenvolvem e interatuam, e que
tanto em ns mesmos quanto nos outros; so os       ostentam as marcas dos participantes. De modo
efeitos que a mudana pde operar no mundo          geral, faltam s pessoas o tempo e a curiosidade
social de cada um, a vinculao de cada um         para aprofundar muito a sua prpria histria e
pessoa ou grupo que faz a oferta e a capacidade     as dos outros, seus motivos e ambies. H uma
de cada um de resistir ou se modificar a si-mes-    tendncia a fornecer to-somente os detalhes
mo.                                                 suficientes para manter viva a interao. A vida
    Existe outro modo em que a organizao de       est baseada em rtulos rudimentares e prontos.
um eu-mesmo espelha a linguagem. Os in-                 A teoria da rotulao , na realidade, pouco
teracionistas adotaram a conversao como           mais que uma extenso dessa idia do eu-mes-
modelo de sua prpria lgica de explicao (ver     mo  arena da violao de regras e do controle
CONVERSACIONAL, ANLISE). A conversao             social (ver tambm CRIME E TRANSGRESSO).
avana  medida que vai produzindo indicaes       Tornar-se transgressor  um processo transfor-
que captam, criam e ordenam a vida social,          mativo que gravita em torno da aquisio de
reage a essas indicaes, apia-se nelas, funde-    nomes, significados, motivos e perspectivas. 
se, dilui-se nelas e fabrica a sua prpria e dis-   mediado pela linguagem e pelas identidades e
tinta realidade simblica. A fala de diferentes     interpretaes que a linguagem confere.  as-
pessoas pode combinar-se ao longo do tempo,         sistido e, por vezes, forado pelos outros sig-
tornando-se uma forma de propriedade coleti-        nificativos que povoam os ambientes onde se
va. Pode reportar-se e responder a si mesma,        movimenta o transgressor emergente. O trans-
constituindo-se reflexivamente. Por sua vez, o      gressor, em suma, est profundamente implica-
interacionismo descreve a vida social como          do em definies negociadas de pessoas e com-
sendo ativamente mediada por processos con-         portamentos. As reaes  transgresso do-lhe
versacionais que so interativos, dialticos e      organizao simblica e identidade pblica. No
676   rotulao


enunciado central de sua tese, Becker (1963)              devedores acreditem que ainda so honestos.
disse:                                                    Alguns transgressores tornam-se penitentes ou
   Os grupos sociais criam a transgresso ao for-         aceitam um papel de doente, no qual se mos-
   mularem regras cuja infrao constitui transgresso    tram temporariamente invlidos.
   e ao aplicar essas regras a determinadas pessoas que       As identidades desprezadas tambm podem
   passam a ser rotuladas como marginais. Desse ponto     mudar seus eus. O rtulo formal de transgressor
   de vista, a transgresso no  uma qualidade do ato    tende a ser indesejvel; reifica e "supercatego-
   que a pessoa comete, mas antes uma conseqncia        riza" os seus sujeitos; as caractersticas sin-
   da aplicao, por outros, de regras e sanes a um     gulares de uma pessoa ou fenmeno ficaro
   "infrator". O transgressor  algum a quem esse
   rtulo foi aplicado com xito; comportamento
                                                          toldadas ou perdidas e materiais putativos sero
   transgressor  comportamento que as pessoas assim      adicionados. As pessoas podero resistir, prefe-
   rotularam.                                             rindo descrever-se por outros nomes; e a suposi-
                                                          o de identidade desviante ser freqentemen-
    O que torna singular a transgresso  que se          te forada e, por conseqncia, teatral, acar-
trata de um status moralmente desvalorizado,              retando o que Harold Garfinkel chamou uma
acompanhado pela imposio real ou ameaada               "cerimnia de degradao de status", a qual
de sanes. Importantes instituies so dedi-            culmina na recomposio coercitiva do eu-
cadas  descoberta, policiamento, investigao            mesmo. De modo muito tpico, a transgresso
e punio de transgressores. Os que se tornam             torna-se ainda mais pronunciada em tal obra
delinqentes podem muito bem desejar escapar              dramatrgica, adquirindo centralidade simbli-
 pena tornando-se foragidos.                             ca, tornando-se exagerada em sua denncia,
    A maioria dos transgressores consegue es-             constituindo o "status dominante" de uma pes-
capar s atenes. Contudo, mesmo quando                  soa e fechando o acesso a outros eus e papis.
passam despercebidos ou so tolerados, ainda                  Muitas caractersticas desviantes podem
faro conjecturas acerca do significado de suas           realmente ser explicadas pela forma e contedo
aes e de si mesmos, recorrendo a tipificaes           do processo de rotulao. Assim, Schur (1971)
pblicas mais amplas de conduta e formulando              sustentou que a identidade dos usurios de dro-
intenes em trocas com cmplices, amigos,                gas  formada tanto pelo controle social quanto
parentes e vtimas. A transgresso foi com-               pelas qualidades "intrnsecas" das prprias dro-
parada ao comportamento cujo roteiro foi ela-             gas ilcitas; Goffman (1961) descreveu a loucu-
borado em interao.                                      ra como um papel que recebe definio nas
    Quando os transgressores no escapam, a               estratgias de administrao dos manicmios;
rotulao pode ser insinuada publicamente a               e Scott (1969) escreveu sobre a cegueira como
fim de operar importantes transformaes de               incapacidade aprendida. No  suficiente des-
identidade. Tribunais, polcia e prises so in-          crever as caractersticas do transgressor e o ato
vestidos de um terrvel simbolismo: eles "dra-            desviante per se; os interacionistas manteriam
matizam o mal", na frase de Tannenbaum. Tor-              ser imprescindvel tambm o reconhecimento
nar-se publicamente um transgressor pode ser              dos componentes e conseqncias simblicos
deveras funesto. No mnimo, impor a neces-               da experincia de transgresso.
sidade de fazer uma acomodao com a reao
pblica suscitada pela violao das regras, em-           Leitura sugerida: Becker, H. 1963: Outsiders  org.
bora a acomodao possa assumir diferentes                1964: The Other Side  Goffman, E. 1961: Asylums 
                                                          Lemert, E. 1951: Social Psychology  Plumer, K. 1979:
formas e nem todas as reaes ampliem o con-              "Misunderstanding labelling perspectives". In Deviant
flito. De fato, alguns rtulos tm realmente o            Interpretations, org. por D. Downes e P. Rock  Rains,
efeito irnico de preservar o amor-prprio do             P. 1971: Becoming an Unwed Mother  Schur, E. 1971:
transgressor: as mes solteiras descritas por             Labelling Deviant Behaviour  Scott, R. 1969: The
Rains (1971) eram encorajadas a se imaginarem             Making of Blind Men  Tannenbaum, F. 1938: Crime
como mulheres virtuosas que tinham sucum-                 and the Community.
bido, e  til aos credores fazer com que seus                                                     PAUL ROCK
                                             S
sade Em 1948 a Organizao Mundial da                  Doena
Sade promulgou uma definio da sade co-                  Os prprios conceitos de doena mudaram,
mo "estado de completo bem-estar fsico, men-           com um desafio s suposies principais -- a
tal e social, no meramente a ausncia de doen-         definio de doena como desvio da normali-
a ou enfermidade". Essa definio amplamen-            dade, a doutrina da etiologia especfica, a uni-
te usada, embora muitas vezes criticada como            versalidade da taxonomia da doena, a neutra-
superabrangente e de difcil realizao, chama          lidade cientfica da cincia mdica -- que ti-
a ateno para a importante mudana que teve            nham dado forma  medicina moderna durante
lugar na segunda metade do sculo XX: a subs-           o sculo XIX (Dubos, 1961). A convico de
tituio de um modelo estritamente biomdico            que o universo da doena  finito e de que para
de sade por um conceito mais holstico e so-           toda doena existem uma causa nica e uma
cial.                                                   cura a ser encontrada foi abalada pelo advento
    Isso no  novo, sendo como  um eco do             de novas doenas (como a Aids) e pelo reconhe-
clssico modelo platnico de sade como har-            cimento das causas mltiplas e interativas de
monia ou do conceito de Galeno de doena                muitas formas de enfermidade. Alm disso,
como perturbao do equilbrio. Algumas ra-             aponta-se que a definio e a categorizao da
zes para o seu reaparecimento em pases de-            doena constituem um processo tanto social
senvolvidos durante este sculo, contudo, se-           quanto cientfico, e que a normalidade pode ser
riam a maior importncia da doena crnica em           apenas um conceito relativo. A influncia de
populaes "idosas", a erradicao de muitas            Michel Foucault, argumentando contra a ing-
doenas "calamitosas" e a melhoria geral das            nua aceitao dos modelos tericos da "cincia
condies de vida, o que d mais nfase                do homem", foi muito forte na criao da con-
QUALIDADE DE VIDA do que  simples sobrevi-             cepo segundo a qual o conhecimento mdico
vncia. O movimento da ecologia humana tam-             (no menos que a prtica mdica)  socialmente
bm  relevante, encorajando o foco sobre a             construdo e vinculado aos mais amplos desen-
sade como um estado de equilbrio entre os             volvimentos do pensamento social: ele no po-
seres humanos e seu meio ambiente. Outro                de simplesmente ser aceito como um dado in-
elemento no desenvolvimento de conceitos                contestvel.
holsticos foi o crescente conhecimento das
ligaes mente-corpo: no comeo enfatizava-             Enfermidade
se o lugar de fatores psicossociais na causa de             Do mesmo modo, a experincia da enfermi-
doena; mais recentemente conceitos de es-              dade envolve significados culturais e relaes
tresse, integrao social, capacidade de en-            sociais. Uma importante questo, abordada em
frentamento, "sentido de coerncia" (Anto-              considervel nmero de pesquisas nas reas da
novsky, 1987) ou "suscetibilidade generali-             antropologia social e da sociologia mdica nos
zada" (Marmot, Shipley e Rose, 1984) foram              ltimos 30 ou 40 anos, diz respeito  percepo
considerados no s como causas de sade                e ao significado de sade e enfermidade entre
precria, mas como partes integrantes do con-           os que as conhecem por experincia prpria.
ceito de sade social. Assim, a sade  hoje            Estados e mudanas corporais so interpretados
concebida, de modo geral, como multidimen-              de modos diferentes em culturas e perodos di-
sional, englobando a ausncia de doena, mas            ferentes: como observou Mary Douglas (1970),
no se confinando a esta.                               o corpo social condiciona o modo como o corpo

                                                  677
678   secularismo


fsico  percebido. Muitos estudos, na esteira da   vimento de "sade pblica" dos primeiros anos
obra pioneira de Claudine Herzlich (1973), tm      do sculo, com sua nfase em causas especfi-
mapeado o conceito de sade alimentado por          cas de enfermidades no meio ambiente fsico e
pessoas leigas. Foram vrios os que apuraram        social, mas agora informado pelas teorias mais
uma diviso tripla: sade como aptido positiva     complexas dos modelos holsticos.
ou bem-estar, como "reserva" ou "equilbrio"           Ver tambm PSIQUIATRIA E DOENA MENTAL.
("sade como ter"); sade como capacidade
de funcionar ou desempenhar papis sociais          Leitura sugerida: Armstrong, D. 1983: The Political
                                                    Anatomy of the Body  Bury, M.R. 1986: "Social cons-
("sade como fazer"); e sade simplesmente          tructionism and the development of medical sociolo-
como ausncia de sintomas de enfermidade            gy". Sociology of Health and Illness 8, 137-69  Fou-
("sade como ser"). O conceito mais positivo        cault, Michel 1963: Naissance de la clinique  Fox, J.,
de sade encontra-se geralmente associado a         org. 1989: Health Inequalities of European Countries 
melhor educao ou circunstncias sociais mais      Sontag, S. 1979: Illness as Metaphor.
favorveis. Uma caracterstica de todos esses                                        MILDRED BLAXTER
estudos  o forte significado moral comprova-
damente associado ao conceito de sade.             secularismo A doutrina pode ser definida
                                                    como a tentativa de estabelecimento de um
Promoo da sade e comportamento                   conjunto de princpios relativos ao comporta-
saudvel                                            mento humano baseados mais no conhecimento
    Crescentes expectativas pblicas tm sido       e na experincia racionais do que na TEOLOGIA
associadas a uma acentuada tendncia nas so-        ou no sobrenatural. Procura essencialmente
ciedades ocidentais a enfatizar os aspectos po-     melhorar a condio humana apenas por meios
sitivos da sade e da promoo da sade. A          materiais e registrou o seu maior triunfo na
partir de meados do sculo a pesquisa tem           Gr-Bretanha do sculo XIX, depois da pro-
envolvido fortemente comportamentos pes-            mulgao do Reform Bill de 1832. Foi um
soais -- fumo, dieta, falta de exerccio -- como    movimento de protesto, adotando uma teoria
agentes na causa de doenas crnicas. Conju-        positivista do conhecimento vinculada a uma
gando-se com a profunda noo de sade como         filosofia utilitarista e reagindo contra a hege-
questo moral, promoveram-se novos concei-          monia da riqueza e da religio institucionaliza-
tos de doena como "auto-infligida" e de sade      da que prevaleceu nos anos intermdios do
como "responsabilidade pessoal". A medicina         sculo. O seu principal proponente foi G.J.
"marginal" e alternativa e os movimentos de         Holyoake (1817-1906), que, embora criado em
auto-ajuda prosperam nesse ambiente, assim          uma famlia religiosa de artesos, tornou-se um
como a comercializao da promoo da sade.        "missionrio social" owenista e agnstico
As crticas  "medicalizao" da sociedade (Il-     confesso, com estreitas ligaes com o Movi-
lich, 1975) alimentaram essa tendncia, o mes-      mento Cooperativo (Waterhouse, 1920).
mo ocorrendo, de diferentes perspectivas, com           Como doutrina, o secularismo no era ates-
as crticas  eficcia da medicina (Cochrane,       ta, embora parte do seu xito ulterior se devesse
1972; McKeown, 1976). Nas dcadas de 70 e           s suas associaes com os movimentos anti-
80 houve, porm, alguma reao ao modelo de         religiosos do final do sculo XIX, atravs da
promoo da sade que enfatiza unicamente a         obra de Charles Bradlaugh. Em certos aspectos,
mudana de estilo de vida e o comportamento          prefervel consider-lo como parte da tese de
voluntrio. O movimento de responsabilidade         desoficializao proveniente da Reforma. H
pessoal, afirmou-se, pode conferir poderes ao       estreitas semelhanas com o conceito francs
indivduo, mas tambm pode reforar a culpa e       da laicizao resultante do Iluminismo e da
favorecer a censura  vtima (Crawford, 1977).      Revoluo Francesa (Bosworth, 1962). Igreja e
    Assim, a pesquisa recomeou a enfatizar as      estado tornaram-se claramente entidades dis-
limitaes sociais e ambientais em funo das       tintas, com o estado mantendo uma posio
quais o comportamento saudvel  determina-         de neutralidade religiosa, em vez de promover
do. O conceito de "desigualdade social" em          uma filosofia anti-religiosa.
sade ressurgiu com fora na Gr-Bretanha e             Na Frana, a separao constitucional da
em outros pases da Europa (DHSS, 1980). Em         Igreja e do ESTADO s se completou no incio do
certo sentido, isso representa uma volta ao mo-     sculo atual. A instruo religiosa em escolas
                                                                                  secularizao   679


do estado tinha sido abolida em 1882, subs-           sos atravs dos quais o pensamento, a prtica e
tituda pela instruo moral. Ocorrncias seme-       as instituies religiosas perdem seu significa-
lhantes tiveram lugar em outros pases, incluin-      do social (Wilson, 1966). Essa definio pres-
do alguns do "terceiro mundo" (Smith, 1971),          supe a existncia de um ponto na histria em
a Turquia (Beckes, 1964), o Japo (Bellah,            que tais aspectos desempenharam um papel
1970) e,  claro, os Estados Unidos (Parsons,         significativo na vida social. Tambm subenten-
1958). O secularismo visto como laicizao           de no ser mais esse o caso. Muitos autores,
concebido, portanto, como uma doutrina de             sobretudo os socilogos da religio, tm co-
completa liberdade e no-interferncia das reli-      mentado a respeito das dificuldades de se usar
gies.                                                tal conceito, uma vez que ele est necessria e
    Em outros lugares, contudo, o secularismo         intimamente relacionado com as definies de
estava mais intimamente associado a tentativas        religio e de mudana religiosa, em torno das
deliberadas de substituio da religio pela con-     quais h muita divergncia. De fato, a seculari-
fiana nos ditames da razo e da experincia          zao passou a ser vista como um conceito
humanas. Isso pode ser comprovado, por exem-          multidimensional que engloba a grande varie-
plo, na obra de Saint-Simon e Auguste Comte,          dade de formas do envolvimento religioso na
em fins do sculo XIX, que desenvolveram uma          sociedade em uma estrutura classificatria uni-
nova religio da humanidade e viram a socie-          ficada (Dobbelaere, 1981).
dade reorganizada segundo princpios racionais            A maioria das definies de religio enqua-
positivistas. Max Weber considerou que o de-          dra-se em uma de trs categorias -- institucio-
senvolvimento tecnolgico estava transfor-            nal, normativa ou cognitiva --, as quais forne-
mando no s o mundo fsico do espao e da            cem uma base para se analisar a variedade de
matria, mas os prprios seres humanos. Esse          significados includos no processo de seculari-
desencanto do mundo significa que os indiv-          zao. Assim, um exemplo de religio definida
duos passaram a dominar o seu meio ambiente           em termos basicamente institucionais  o loca-
sem recorrer ao sobrenatural. Tal processo de         lizado na tradio judaico-crist e designado
racionalizao  anti-religioso, parte inexorvel     como igreja. Muitas das religies msticas do
do desenvolvimento de uma sociedade enraiza-          Oriente, por outro lado, baseiam-se em regras
da na tradio judaico-crist.                        normativas de comportamento. As definies
    A sociedade atual ainda possui os seus des-       cognitivas de religio permitem que conceitos
crentes, os seus cticos, que no querem expe-        como o de sagrado forneam a base para orga-
rimentar o sagrado nem se sentir submetidos          nizaes religiosas. Os processos de seculariza-
autoridade deste. Em que medida eles so um           o relacionados com essas trs diferentes
fruto direto do movimento secularista do sculo       concepes de religio tambm iro variar, pro-
anterior  uma questo mais difcil de apurar.        porcionando uma base para as alegaes apre-
Movimentos seculares como o comunismo tm             sentadas desde longa data no sentido de se
sido citados como exemplos de manifestaes           prescindir totalmente do conceito por causa das
modernas de secularismo (Glock, 1971; Camp-           confuses que ele gera (Martin, 1969). Outra
bell, 1971). Entretanto a semelhana funcional        alegao diz respeito aos duvidosos suportes
entre tais exemplos e a religio de que so uma       metodolgicos do conceito: idealizao do pas-
forma secularizada torna mais difcil decidir se      sado, pressupostos sobre a homogeneidade re-
a irreligio e a descrena so verdadeiramente        ligiosa dentro da sociedade e uma preocupao
as herdeiras do legado de Holyoake.                   com as categorias histricas da experincia re-
    Ver tambm RACIONALIZAO; SECULARIZA-            ligiosa (Glasner, 1977).
O.                                                      Numerosas formas de secularizao pro-
Leitura sugerida: Campbell, C. 1971: Towards a So-
                                                      vem de uma definio de religio em termos
ciology of Irreligion  Caporale, R. e Grumelli, A.,   primordialmente institucionais, incluindo a
orgs. 1971: The Culture of Unbelief  Holyoake, G.J.   convencional definio de declnio acima men-
1986: The Origin and Nature of Secularism.            cionada. As principais variveis usadas para
                                PETER S. GLASNER      discutir o processo incluem normalmente as
                                                      prticas religiosas formais, o denominacionis-
secularizao Este conceito, tal como  con-          mo, o ecumenismo e o movimento litrgico.
vencionalmente definido, descreve os proces-          Entende-se por prtica religiosa a que inclui
680   secularizao


aspectos do cristianismo convencional como          do que em sua diferenciao institucional. As-
batismo, crisma, casamento, freqncia  esco-      sim, diz-se que as normas e valores religiosos
la de catequese, comunho pascal, filiao e        exercem prescries especficas de baixo nvel
freqncia regular  igreja. Esses aspectos so     a respeito do comportamento social em socie-
usados como indicadores para se elaborar o          dades tradicionais, quando quase tudo, desde os
quadro do declnio geral da prtica religiosa a     detalhes dos cosmticos at o vesturio usado
partir da Revoluo Industrial. O denominacio-      por pessoas comuns, era julgado em termos
nismo, se bem que possivelmente constitusse        religiosos. Em sociedades modernas, seculari-
um sinal de revitalizao religiosa no seu come-    zadas,  mais apropriado um sistema generali-
o, fornece, pelo menos na Gr-Bretanha, um         zado, abrangente e integrativo que reconhea a
exemplo do processo de secularizao iniciado       diferenciao e a diversidade. Assim, uma igre-
com a Reforma. Como as organizaes fracas,         ja universal, unificada,  substituda por uma
no as fortes, so as que buscam a fuso, o         religio civil (Bellah, 1967) ou, nos Estados
movimento ecumnico  mais um exemplo do            Unidos, por um sistema tri-f protestante-cat-
processo de secularizao, combinado com o          lico-judeu (Herbert, 1955).
apelo pela volta aos padres profissionais tra-         Outras formas de sistemas normativos
dicionais de culto exemplificados no movimen-       abrangentes tm sido usadas para ilustrar um
to litrgico.                                       processo de secularizao baseado na transfor-
    Outra forma de secularizao, baseada na        mao de valores religiosos, alicerados no po-
religio institucionalmente definida, relaciona-    der divino, em valores especificamente mun-
se com a dicotomia de igreja e SEITA, examinada     danos. A emancipao do capitalismo do con-
pela primeira vez por Max Weber (1904-05) e         trole tico  apenas um exemplo, quando a fora
Ernst Troeltsch (1931). A igreja  definida no      propulsora da tica puritana deu origem a uma
caso limite como parte integrante da ordem          vida sbria e metdica, dedicada  acumulao
social vigente. Isso  tipicamente rejeitado pela   e ao investimento de riqueza (ver TICA PROTES-
organizao sectria, a qual objeta com vee-        TANTE, TESE DA). A nfase protestante na liber-
mncia  necessria rotinizao que a organiza-     dade individual e na independncia de pensa-
o eclesistica subentende. Autores mais re-       mento transforma a autoridade religiosa so-
centes ampliaram essa tipologia para apontar        bre aspectos da vida como a educao, a mo-
que as seitas so as menos secularizadas e as       ralidade e o trabalho em um estado secular
igrejas e denominaes, as mais secularizadas       (Troeltsch, 1912).
formas de organizao religiosa (Herberg,               A secularizao que se origina de definies
1955).                                              de religio com base cognitiva  um processo
    Uma viso mais evolucionista do processo        de mudana que usa, talvez, a mais elaborada
de secularizao considera que esta  uma for-      distino nessa rea do pensamento social: a
ma de diferenciao  medida que a sociedade        sociedade  vista como deixando de ser basica-
se desenvolve e se torna mais complexa. Afir-       mente sagrada no seu carter, com elementos
ma-se que, quando a sociedade se moderniza, a       associados de ritualismo, tradio, participao
organizao religiosa fica menos hierrquica, o     em interesses comuns e harmonia, para ser pri-
simbolismo fica mais variado, o individualismo      mordialmente secular ou profana, passando a
mais significativo e, por conseguinte, a religio   reinar a individualidade, a racionalidade e a
institucional acaba se atrofiando (Bellah,          especificidade. Essa distino est ligada a um
1964). Subjacente a esse exame da evoluo da       contnuo de Gemeinschaft para Gesellschaft
sociedade estava a idia de que as comunidades      (Tnnies, 1887), de vnculos de solidariedade
social e religiosa, outrora idnticas, tornaram-    mecnica para orgnica (Durkheim, 1912) e de
se diferenciadas, de modo que os aspectos se-       sociedade tradicional para urbana (Redfield,
culares da vida se apresentam com uma nova          1947). Entretanto, nenhuma sociedade exibe
ordem de legitimao religiosa.                     um tipo polar com excluso de todos os outros,
    Um ponto de vista semelhante cobre o pro-       de modo que diferentes equilbrios e misturas
cesso de secularizao, desenvolvido a partir de    do origem  diversidade emprica observada
uma definio de religio com razes na esfera      na histria do mundo.
normativa, concentra-se mais na ampliada ge-             claro, portanto, que a secularizao no ,
neralidade da dimenso religiosa na sociedade       em absoluto, um conceito unitrio no pensa-
                                                                                               seita   681


mento social do sculo XX. Suas vrias mani-             americanos em particular. Ernst Troeltsch, co-
festaes decorrem de seu relacionamento com             lega de Weber, preferiu enfatizar a capacidade
as diferentes definies de religio e das limi-         do tipo sectrio de coletividade religiosa em
taes metodolgicas apresentadas pela tenta-            promover certas espcies de "doutrinas sociais"
tiva de operacionaliz-la. O cuidadoso uso do            (1912) que eram distintas das do tipo igreja e
termo de um modo genrico, baseado em um                 do misticismo. Esse foco na interao entre os
amplo sistema de classificao, poderia forne-           aspectos sociolgico, doutrinal e tico de cole-
cer, contudo, a base para a sua incluso perma-          tividades religiosas inspirou subseqentemente
nente por cientistas sociais em seu arsenal con-         muitos estudos das relaes entre o exclusivis-
ceitual.                                                 mo das seitas religiosas e o background social,
    Ver tambm PROCESSOS EVOLUCIONRIOS NA               os gostos culturais e as disposies polticas de
SOCIEDADE; RACIONALIZAO; SECULARISMO.                  seus membros (ver, por exemplo, Niebuhr,
                                                         1929; Wilson, 1961; Beckford, 1975). Tambm
Leitura sugerida: Bellah, R.N. 1970: Beyond Belief:
Essays on Religion in a Post-Tradicional World  Dob-     houve tentativas de explicar a permanente po-
belaere, K. 1981: "Secularization: a multi-dimensional   pularidade de seitas como Testemunhas de Jeo-
concept". Current Sociology 29.2  Fenn, R.K. 1978:       v e Adventistas do Stimo Dia, no s na
Toward a Theory of Secularization  Glasner, P.E.         Europa Ocidental e na Amrica do Norte, mas
1977: The Sociology of Secularization: a Critique of a   tambm na Amrica Latina, no Japo e na fri-
Concept  Luckmann, T. 1967: The Invisible Religion:      ca ao sul do Saara, em funo de suas ofertas de
the Problem of Religion in Modern Society  Martin,
David A. 1978: A General Theory of Secularization 
                                                         certeza tica e doutrinria em uma poca de
Wilson, B.R. 1976: Contemporary Transformations of       ampla indiferena religiosa (Wilson, 1976), ou
Religion.                                                em funo de suas formas fortemente comuni-
                                  PETER E. GLASNER       trias de organizao e atividade (Lalive d'Epi-
                                                         nay, 1969).
seita Na raiz da maioria dos usos do termo                   Por extenso, O'Toole (1977) tentou expli-
"seita" no sculo XX est a noo de uma                 car a dinmica interna e as relaes externas de
coletividade voluntria que se separou da cor-           algumas organizaes polticas extremistas em
rente principal de idias religiosas ou polticas        funo de suas caractersticas sectrias; e Jones
e que ciosamente preserva a sua exclusividade            (1984) observou tendncias sectrias em alguns
social, cultural e ideolgica. O contraste impl-        grupos psicoteraputicos. Assim, embora o
cito  usualmente com a posio mais extensa,            contraste implcito com o tipo igreja e com o
abrangente e universalista do tipo igreja, com a         misticismo tenha perdido muito de sua perti-
"denominao" representando um ponto inter-              nncia em sociedades secularizantes, o concei-
medirio entre seita e igreja. Igreja, seita e           to de seita ainda pode servir como til ponto de
denominao, com refinamentos tais como a                referncia em estudos de organizaes religio-
seita e o culto institucionalizados, formaram o          sas, polticas e ideolgicas exclusivistas. A uti-
quadro de referncia conceitual para numerosos           lidade do conceito foi ainda mais ressaltada pela
estudos da dinmica organizacional e ideolgi-           especificao de Wilson (1970) de nada menos
ca dos grupos religiosos.                                de sete subtipos de seitas e pelas tentativas de
    Max Weber (1864-1920) salientou o fato de            compreenso dos processos pelos quais apenas
que a filiao a uma seita era no s voluntria,        alguns tipos de seita parecem perder seu exclu-
mas tambm condicionada  exibio de quali-             sivismo e tornar-se suficientemente pluralistas
ficaes especficas. O papel dos lderes caris-         e tolerantes para justificar o rtulo de denomi-
mticos em algumas seitas religiosas tambm              nao (Yinger, 1970). Entretanto, a partir da
formou uma ponte para a sua teorizao acerca            dcada de 70, notou-se uma tendncia a aplicar
do funcionamento de todas as organizaes                os termos "culto" e "novo movimento religio-
sociais. E, em combinao com os seus proce-             so" a grupos que se afastam da corrente reli-
dimentos rigorosos para preservar a pureza,              giosa principal sem exibirem necessariamente
Weber (1920) creditou o tipo seita de organiza-          elevados graus de exclusivismo social, doutri-
o protestante com a capacidade de instilar o           nrio ou tico (ver, por exemplo, Wallis, 1975
gnero de ascetismo secular que tinha forte              e 1976; Westley, 1983). No obstante, nas so-
afinidade com o esprito do capitalismo em               ciedades industriais avanadas em que a reli-
geral e com a tica dos pequenos negcios                gio organizada perdeu muito do seu antigo
682    seleo natural


poder, as atividades de grupos sectrios dinmi-             Alguns desenvolvimentos notveis no pen-
cos e, em alguns casos, intolerantes tm provo-          samento social recente mostram sinais da in-
cado reaes hostis e vigorosos esforos para            fluncia da idia de seleo natural. A ecologia
os controlar. As atenes sociolgicas tm se            cultural explora, antropologicamente, a adapta-
concentrado, em particular, nas formas como a            o ao meio ambiente da ideologia e de outros
mdia retrata os movimentos de natureza sect-           aspectos da cultura (Sahlins e Service, 1960) e
ria e nos dilemas com que se defrontam os                tira partido, analogicamente, da idia de sele-
rgos de estados supostamente seculares que             o, como no caso da teoria de Talcott Parsons
intervm em controvrsias religiosas (Wallis,            (1966), associada ao seu funcionalismo, a qual
1976; Beckford, 1985). Esse novo enfoque para            descreve a promoo a um nvel superior de
estudos do tipo seita enfraquece os vnculos             adaptao via diferenciao (ver PROCESSOS
conceituais com a teologia e com a tica.                EVOLUCIONRIOS NA SOCIEDADE).
    O conceito de seita tambm tem sido aplica-              A idia de adaptao via variao e seleo
do a outras formas de religio alm do cris-             forneceu um modelo para o COMPORTAMENTA-
tianismo, mas os resultados so imprecisos. Por          LISMO, como B.F. Skinner reconhece (1971,
um lado, os conceitos podem servir como teis            cap.1), e  citada por F.A. Hayek (1973) para
snteses de complicadas configuraes de dou-            explicar o desenvolvimento do mercado (ver
trinas, ticas e formas de organizao. Mas, por         PROCESSOS EVOLUCIONRIOS NA ECONOMIA) e jus-
outro lado, introduzem ilicitamente pressupos-           tificar a SOCIEDADE ABERTA. Essa idia, que tam-
tos cristos na anlise de culturas que assentam,        bm forneceu inspirao para a epistemologia
na realidade, em bases muito diferentes. Assim,          evolucionista de Karl Popper (1972), tinha an-
embora existam, sem dvida, caractersticas sec-         teriormente servido de base ao PRAGMATISMO de
trias (como o separatismo e o exclusivismo) em          John Dewey (1938) e, no domnio biolgico,
alguns movimentos de reforma no hindusmo                proporcionou as fundaes tericas para a SO-
(Bhatt, 1968) e no budismo (Ling, 1980), seria           CIOBIOLOGIA e a ETOLOGIA.
enganoso esperar que eles se ajustassem em                   Idias sobre adaptao atravs da seleo
outros aspectos ao tipo ideal de uma seita crist.       foram invocadas pelos defensores do DARWINIS-
    Ver tambm RELIGIO; REVIVALISMO.                    MO SOCIAL para sustentar as desigualdades ge-
Leitura sugerida: Beckford, J.A. 1975: The Trumpet       radas pela competio econmica irrestrita, e
of Prophecy: a Sociological Study of Jehovah's Witnes-   pelos defensores da eugenia para justificar pro-
ses  1985: Cult Controversies: the Societal Response     gramas de reproduo restritiva.
to the New Religious Movements  Wallis, R. 1976: The         A mais importante influncia a longo prazo
Road to Total Freedom: a Sociological Analysis of
Scientology  org. 1975: Sectarianism  Wilson, B.R.       da idia de seleo natural talvez seja sua con-
1970: Religious Sects  1976: Contemporary Transfor-      tribuio para o processo de SECULARIZAO.
mations of Religion  org. 1967: Patterns of Sectaria-    Com efeito, para a explicao da adaptao de
nism.                                                    organismos ao seu meio ambiente e uns aos
                                JAMES A. BECKFORD        outros, a seleo fornece uma alternativa
                                                         ao criacionismo associado ao fundamentalismo
seleo natural De acordo com o             NEODAR-      religioso.
WINISMO,  a seleo natural  o mecanismo pri-               Cumpre assinalar um equvoco comum a
mrio em funo do qual se explica a adaptao           respeito da seleo natural. Os processos de
dos organismos ao seu meio ambiente. Depen-              evoluo impulsionados pela seleo no esto
de de trs mecanismos subsidirios: variao,            orientados para uma meta final e no necessi-
herana e COMPETIO. Os organismos indi-                tam gerar qualquer seqncia fixada de estgios
viduais variam em muitos de seus traos, estan-          no qual o PROGRESSO seja manifesto. Assim, a
do algumas variantes mais adaptadas no meio              teoria da seleo natural ope-se ao HISTORICISMO,
ambiente do que outras. Dada a competio por            com o qual  freqentemente identificada.
recursos escassos, os indivduos mais adapta-
dos prevalecero sobre os menos adaptados e,             Leitura sugerida: Darwin, Charles 1859: The Origin
se a variante superior for transmissvel, passar        of Species  Gould, S.J. 1980: Ever Since Darwin 
a ser mais comum em geraes sucessoras, e a             Maynard Smith, J. 1958 (1975): The Theory of Evolu-
espcie a estar mais adaptada ao seu meio am-            tion.
biente.                                                                                  FRED D'AGOSTINO
                                                                                            semitica     683


semitica O termo foi cunhado por John                 conveno para um tipo, como uma expresso
Locke a fim de captar uma longa tradio do            verbal), ndice (por exemplo, fumaa como n-
pensamento ocidental sobre significao que            dice de fogo) ou cone (um mapa ou diagrama
remonta  filosofia grega. No pensamento mo-           que tem semelhana estrutural com o objeto que
derno, a semitica refere-se especificamente s        representa). Como sistema total, a semitica
teorias do sculo XX de signos e sistemas de           ligaria os signos "naturais" e os "artificiais".
signos, bem como ao seu papel na COMUNICA-                 A semiologia refere-se usualmente a uma
O. Embora alguns autores incluam na semi-            tradio europia baseada na obra do lingista
tica o estudo dos sinais naturais -- zoosse-          suo Saussure (ver LINGSTICA; ESTRUTURALIS-
mitica para a comunicao animal e at fitos-         MO). Saussure postulou, embora no a desen-
semitica para redes de plantas e animais de           volvesse ele prprio, uma nova cincia da se-
ligao (ver Sebeok, 1976; Krampen, 1981;              miologia que estudaria os sistemas de signos
discusso em Deely, 1990, caps.5 e 6) --, a            em sociedade. (Ver a edio de 1974 de Saus-
semitica concentra-se usualmente no estudo            sure baseada em suas lies de 1906 a 1911).
dos sistemas de comunicao humana. A esse             Para Saussure, a semiologia era parte, portanto,
respeito, a semitica confere prioridade  lin-        da psicologia social.
guagem ou ao cdigo lingstico, o qual  usado
como paradigma para outros signos no-lin-                 Os termos semitica e semiologia so fre-
gsticos de microfenmenos e macrofenme-             qentemente usados de forma intercambivel;
nos culturais, largamente diferentes, de nature-       ambas as palavras se baseiam no vocbulo gre-
za especfica ou geral. Assim, transpe as fron-       go para "signo", semeion, embora difiram no
teiras entre as artes e as cincias sociais, criando   papel prioritrio que Saussure, mais do que
um quadro de referncia abrangente para o              Peirce, confere ao paradigma lingstico na for-
estudo de sistemas de signos que,  parte a            mulao de leis comuns. O signo lingstico de
lingstica, tambm incluem, por exemplo, a            Saussure divide-se em duas partes: o signifiant
"linguagem" dos gestos, da dana, da moda, da          (usualmente traduzido como significante/som-
msica, do cinema, dos sinais de trnsito, da          imagem/expresso) e o signifi (traduzido co-
arquitetura, das rinhas, dos sistemas de paren-        mo significado/conceito/contedo). Os signos
tesco etc. (ver, por exemplo, as diferentes an-       so arbitrrios, isto , a conexo entre signifi-
lises semiticas de Roland Barthes, Umberto            cante e significado no  motivada e se baseia
Eco, Claude Lvi-Strauss, Clifford Geertz e            em conveno, no em uma ligao natural
outros). Eco (1976) diferencia entre semitica         entre forma e significao (ver FORMALISMO).
especfica e geral. A semitica especfica pro-            A crtica da suposta independncia do signo
pe-se produzir "a gramtica de um sistema             lingstico em relao ao seu contexto parte
especfico de signos", "um dado campo de fe-           especialmente da semitica social, um desen-
nmenos de comunicao, regido por um sis-             volvimento anglo-australiano baseado na lin-
tema de significao". A semitica geral, em           gstica hallidaiana (ver, por exemplo, Halli-
contraste, procuraria apurar leis sistemticas         day, 1978; Hodge e Kress, 1988). A semitica
comuns para todas as semiticas especficas.           social explora mais fortemente o papel do con-
"Uma semitica geral  simplesmente uma fi-            texto, a interconexo entre o sistema social e o
losofia da linguagem que sublinha a abordagem          modo como  realizado em linguagem (= texto)
comparativa e sistemtica das linguagens ex-           ou outros signos semiticos.
plorando os resultados de investigaes mais
locais" (Eco, 1976, Introduo).                          Uma realidade social (ou cultura)  ela prpria um
    Existem atualmente trs principais tendn-            edifcio de significaes -- uma construo semiti-
                                                          ca. Nessa perspectiva, a linguagem  um dos sistemas
cias na semitica, com parcela considervel de
                                                          semiticos que constituem uma cultura; um sistema
superposio, em especial entre as duas primei-           que  distinto na medida em que tambm serve como
ras. A semitica, na tradio do filsofo norte-          sistema codificador para muitos dos outros (embora
americano C.S. Peirce,  parte integrante da              nem todos) (...) a "linguagem como semitica social"
lgica e da filosofia (ver PRAGMATISMO). Peirce           (...) significa interpretar a linguagem dentro de um
e Morris (Morris, 1971) postulam um tringulo             contexto sociocultural, no qual a prpria cultura 
semitico de signo, objeto e interpretante. Os            interpretada em termos semiticos -- como um sis-
signos so diferenados como smbolo (= uma               tema de informao (Halliday, 1978, p.2).
684   senectude


    A semitica social descreve a correspon-            grao social, papis reduzidos e at "morte
dncia entre sistema social e discurso/texto, em        social" podem ocorrer mais cedo na classe tra-
que este ltimo  visto como a realizao siste-        balhadora do que nas classes superiores, uma
mtica de um "significado potencial" (ver DIS-          vez que as pessoas destas ltimas podem tirar
CURSO). Em anos recentes a semitica social foi         proveito de seus recursos sociais (contatos, edu-
influenciada pela obra de V. Volosinov e sua            cao etc.) a fim de prolongar os papis e
crtica do "objetivismo abstrato" (isto , es-          funes que assumiram na maturidade (Guille-
truturalismo), a qual data de 1929 mas s se            mard, 1982).
tornou acessvel em ingls em 1973; ele insiste,            A par do crescimento da sociedade indus-
pelo contrrio, na natureza ideolgica do signo         trial, os sistemas de penso foram estabelecidos
(Hodge e Kress, 1988).                                  e ampliados, com a conseqncia de que a idade
                                                        de aposentadoria se tornou um limiar significa-
Leitura sugerida: Deely, J. 1990: Basics of Semiotics   tivo para o ingresso na senectude. A aposenta-
 Eco, U. 1976 (1984): A Theory of Semiotics  Halli-
day, M.A.K. 1978: Language as Social Semiotic           doria configura, assim, essa ltima fase da vida,
Peirce, C.S. 1931-58: Collected Papers  Saussure, F.    a qual foi gradualmente dividida em velhice e
de 1906-11 (1974): Cours de linguistique gnrale       senectude extrema -- categorias que refletem
Volosinov, V.N. 1929 (1973): Marxism and the Philo-     tanto a consideravelmente mais longa durao
sophy of Language.                                      da vida (na Frana, a expectativa de vida aos 60
                                  ULRIKE MEINHOF        anos de idade  de cerca de 20 anos) quanto o
                                                        fato de a velhice ser considerada um problema
senectude Como a pesquisa antropolgica                 social e no apenas um assunto privado, fami-
tem demonstrado, cada sociedade divide a du-            liar. As intervenes crescentes do ESTADO DE
rao da vida em certo nmero de fases inseri-          BEM-ESTAR e da sociedade em favor dos idosos
das na cultura. Atribui um significado a essas          acarretaram a distino entre uma velhice de-
fases e define, para os indivduos, as condies        pendente de instituies sociais e mdicas e
de transio de uma fase para a seguinte durante        uma velhice autnoma e apoiada por programas
o curso da vida, ou seja, a durao da vida             de servio social que visam a integrao (Guil-
socialmente organizada. A senectude designa a           lemard, 1983). As polticas sociais tm parte
ltima fase e, assim, tem que ser entendida co-         ativa na redefinio do curso da vida e da
mo uma construo social continuamente rea-             velhice. Medidas que provem uma retirada
justada. No pode ser reduzida a uma realidade          mais cedo da fora de trabalho, as quais foram
biolgica de decrepitude e invalidez resultante         adotadas na maioria dos pases industriais du-
do envelhecimento. Durante cada poca de sua            rante a ltima dcada, esto transformando a
histria uma sociedade reinterpreta as diferen-         velhice e abaixando o seu limiar pela cons-
as cronolgicas e biolgicas entre os indiv-          truo de uma categoria de "velhice ocupacio-
duos de modo a organizar o curso da vida e              nal" que comea antes da idade de aposentado-
atribuir status e papis sociais especficos a          ria (e, com freqncia, j aos 55 anos) (Kohli e
cada grupo etrio (Balandier, 1974). Os his-            outros, 1991). Por conseguinte, a senectude est
toriadores mostraram como os papis e o status          sendo cada vez mais "socialmente definida"
dos idosos tm flutuado (Laslett, 1976; Minois,         como uma poca de inutilidade social, quando
1987). Aos idosos em sociedades pr-indus-              os idosos podem tornar-se tutelados depen-
triais no se atribua sistematicamente um sta-         dentes e proscritos sociais (Guillemard, 1986a,
tus prestigioso, nem um valor estava sempre             1986b).
ligado  sua sabedoria e  experincia. Embora          Leitura sugerida: Balandier, Georges 1974: Anthro-
a industrializao mostrasse uma tendncia a            po-logiques  Guillemard, Anne-Marie 1982: "Old age,
reduzir o status social dos idosos, isso no           retirement and the social class structure: toward an
igualmente verdadeiro para todas as classes             analysis of the structural dynamics of the later stage of
sociais. Por exemplo, ficar velho em nossa so-          life". In Ageing and the Life Course, org. por T. Hareven
                                                         1986a: Le dclin du social: formation et crise des
ciedade, processo caracterizado pelo ingresso
                                                        politiques de la vieilesse  1986b: "State, society and
na populao economicamente inativa, assim              old-age policy in France from 1945 to the current cri-
como pela perda do papel parental e de vnculos         sis". Social Science ad Medicine, 23, 1319-26  org.
sociais, ocorre em diferentes idades cronolgi-         1983: Old Age and the Welfare State  Kohli, Rein et al.
cas, dependendo da classe social. Menor inte-           1991: Time for Retirement: Comparative Studies of
                                                                                              sexo   685

Early Exit from the Labor Force  Laslett, Peter 1976:    comportamento sexual por sua capacidade de
"Societal development and ageing". In Handbook of        expressar e servir a motivos no-sexuais quanto
Ageing and the Social Sciences, org. por R. Binstock e
D. Shanas  Minois, Georges 1987 (1989): History of
                                                         o inverso" (Gagnon e Simon, 1973, p.17).
Old Age: From Antiquity to the Renaissance.                  Todas as sociedades estabelecem alguma
                         ANNE-MARIE GUILLEMARD
                                                         espcie de diferena entre o tipo "certo" e o
                                                         "errado" de sexo. Essas prescries normativas
sexo O termo refere-se a sexualidade, reaes,           so freqentemente formuladas em linguagem
motivos e comportamentos erotossexuais e suas            mdico-biolgica, de modo que a conduta ou
representaes culturais (ver tambm GNERO).            orientao moral ou socialmente desaprovada 
No sculo XIX era concebido como um impul-               rotulada de "anormal" e "patolgica". Mas al-
so instintivo cujas razes mergulhavam na bio-           guns padres de comportamento que so obvia-
logia reprodutiva e s externamente era regula-          mente disfuncionais ou incorretos em um con-
do por normas sociais e culturais. A sexologia           texto, por exemplo, o contexto de reproduo
contempornea , porm, um campo multidis-               ou de manuteno das relaes de famlia, po-
ciplinar, uma espcie de tringulo eqiltero            dem ser inteiramente funcionais e teis em
que une perspectivas mdico-biolgicas, socio-           outro contexto (digamos, proporcionar satisfa-
culturais e psicolgicas. Diferentes disciplinas         o emocional, sensao de bem-estar). Por trs
enfatizam aspectos especficos do sexo: fisiol-         de quaisquer definies normativas de sexuali-
gicos, evolutivos, antropolgicos, etolgicos,           dade "certa" e "errada" esto sempre ocultas
socionormativos, cognitivos, motivacionais,              relaes de poder, tais como o controle social
semiticos etc. Essas abordagens so comple-             dos homens sobre as mulheres, dos pais sobre
mentares, apesar da velha oposio entre o re-           os filhos, do estado sobre os indivduos. A luta
ducionismo biolgico e o construtivismo socio-           em torno dessas regras e definies  o cerne de
lgico.                                                  toda a histria da sexualidade.
    A sexualidade humana no  um simples                    Essa luta est sendo particularmente acerba
dado biolgico que pode ser explicado em ter-            nos dias atuais. A "revoluo sexual" da segun-
mos de biologia reprodutiva. Mesmo entre os              da metade do sculo XX  resultado de vrias
animais superiores, o sexo  um comportamen-             tendncias macrossociais, incluindo o colapso
to multifuncional, pressupondo alguma espcie            de um sistema tradicional de estratificao dos
de socializao, aprendizagem social, etiqueta.          gneros baseado no domnio masculino; mu-
At algumas reaes sexuais elementares, co-             danas nos esteretipos de masculinidade/fe-
mo a ereo ou a exibio do pnis, podem                minilidade e nas correspondentes prescries e
servir a fins no-sexuais, significando relaes         expectativas do papel sexual; maior instabili-
de poder, agresso, amizade etc. A sexualidade           dade e psicologizao das relaes conjugais;
humana  uma espcie de construto histrico e            novas atitudes liberais em relao ao corpo e s
sociocultural. Suas formas e seu contedo sig-           emoes; um aumento geral da tolerncia social
nificativo s so compreensveis ao contexto de          a diferenas e ao inconformismo individuais; o
uma cultura socionormativa como um todo,                 enfraquecimento do controle parental, escolar
incluindo a estratificao de gnero, os estere-        e do grupo de pares sobre a sexualidade adoles-
tipos de masculinidade e feminilidade, a lingua-         cente; o amadurecimento sexual mais precoce
gem das emoes, as representaes do corpo              dos adolescentes; o progresso das tcnicas anti-
e as regras de decncia verbal. A distino entre        concepcionais, especialmente a inveno da p-
motivos e aes erotossexuais e no-sexuais,             lula de controle da natalidade, libertando a mu-
em nvel tanto individual quanto social,  con-          lher do temor da gravidez indesejada; o progres-
vencional, dependendo dos valores gerais de              so da pesquisa e da educao sexuais.
uma sociedade. A oposio rgida de atraes                 Todas essas tendncias tm uma profunda
sexuais e no-sexuais ou de amor e amizade ,            influncia sobre as atitudes e o comportamento
em considervel grau, funo de uma tradicio-            sexuais. Em todos os pases industrializados, os
nal atitude anti-sexual, tentativa de isolar os          jovens esto comeando agora sua vida sexual
"ignbeis" sentimentos e experincias erticos           mais cedo do que as geraes mais velhas. As
tabus dos outros aspectos da vida. No s a              atitudes em relao  sexualidade pr-marital
sexualidade pode apresentar-se sob disfarce              passaram a ser mais tolerantes e, na maioria dos
no-sexual, como " to plausvel examinar o             casos, tais relaes so consideradas social e
686   sindicalismo


moralmente aceitveis. A satisfao sexual tor-      a qual revitalizou muitos dos antigos temores e
nou-se um dos mais importantes fatores no            ansiedades sexuais, provocando uma situao
xito e na estabilidade conjugais. As tcnicas       de pnico moral. As pessoas conservadoras
sexuais esto ficando mais sofisticadas e diver-     consideram a libertao sexual um estado de
sificadas; as pessoas mostram-se mais exigen-        desorganizao moral que leva  autodestruio
tes e tm maiores expectativas e preocupaes        da cultura e da sociedade. A alternativa para
acerca da qualidade de sua vida sexual.              esses temores  o desenvolvimento da auto-re-
    As mudanas na sexualidade das mulheres          gulamentao moral e a promoo de uma ade-
so especialmente importantes. As diferenas         quada educao sexual.
de idade no comeo da vida sexual de rapazes         Leitura sugerida: Foucault, Michel 1976: Histoire de
e moas foram consideravelmente reduzidas ou         la sexualit, vol.1: La volont de savoir  Freud, S.
desapareceram por completo. As mulheres con-         1905 (1949): Three Essays on the Theory of Sexuality
denam com veemncia o "duplo padro" de               Geer, J.H. e O'Donohue, W.T., orgs. 1987: Theories
moralidade sexual. Em resultado de atitudes          of Human Sexuality  Kon, I. 1985: Einfhrung un die
sociais mais liberais, verifica-se um contnuo       Sexologie  Money, J. e Masaph, H., orgs. 1977: Han-
declnio nas taxas de frigidez sexual e de anor-     dbook of Sexology  Reiss, I.L. 1986: Journey into Se-
                                                     xuality: an Exploratory Voyage  Weeks, J. 1985:
gasmia feminina. A sexualidade est se tornan-       Sexuality and its Discontents.
do um importante aspecto da nova identidade                                                      I.S. KON
social e pessoal feminina.
    A nova tolerncia est gradualmente mu-          sindicalismo Era caracterstico dos sindica-
dando o status social das minorias sexuais. A        listas subordinarem a teoria  ao; celebravam
homossexualidade, em vez de ser tratada como         a espontaneidade e, com freqncia, eram os-
vcio moral ou, mais recentemente, como doen-        tensivamente antiintelectuais. As origens dou-
a incurvel,  agora considerada, sobretudo,        trinrias do sindicalismo foram eclticas e sua
um estilo de vida especfico e, seja qual for a      dinmica central era tipicamente negativa: uma
causa dessa orientao sexual, no deve ser          reao s deficincias percebidas da corrente
usada como razo para discriminao social ou        principal do movimento trabalhista, um protes-
moral, nem para instaurao de processo jurdi-      to contra as novas formas de alienao e priva-
co. Na maioria dos pases europeus, as leis          o que afligiam a classe trabalhadora. Assim
contra homossexuais foram revogadas e surgi-         como as foras precipitantes diferiam de pas
ram organizaes de gays e lsbicas lutando por      para pas, tambm o prprio sindicalismo era
seus direitos humanos.                               internacionalmente varivel.
    Considerado no seu todo, esse processo sig-          Na Frana, o syndicalisme rvolutionnaire
nifica a individualizao e a personalizao da      designava comumente os princpios e objetivos
sexualidade, bem como a passagem do controle         expostos por Fernand Pelloutier (1867-1901),
social externo para o autocontrole moral inter-      secretrio da Fdration des Bourses du Travail,
no. Mas essas mudanas no so unilaterais e         e a poltica adotada pela Confdration Gn-
so muito contraditrias. Os roteiros sexuais        rale du Travail (CGT) depois da fuso das duas
tm importantes variaes genricas, tnicas,        organizaes sindicais em 1902.
culturais e de grupo, entre outras. O enfraque-          Se  possvel extrair um pensamento coe-
cimento da regulamentao social da sexuali-         rente do programa da CGT, ele envolve a insis-
dade, combinado com informaes e conhe-             tncia em que os sindicatos se mantenham dis-
cimentos inadequados, tem muitas conseqn-          tantes de qualquer envolvimento com partidos
cias sociais e psicolgicas indesejveis: o recru-   polticos, encorajem a iniciativa localizada das
descimento em alguns pases da taxa de gravi-        suas bases e desafiem o capitalismo atravs de
dez adolescente e de aborto, o abuso sexual e        uma crescente e aguerrida militncia (incluindo
epidemias de doenas sexualmente transmis-           atos de sabotagem). A espontaneidade e a vio-
sveis. A ertica comercializada ajuda a mani-       lncia (tendo como ponta-de-lana uma mi-
pular a sexualidade humana, e extensos conta-        noria combativa), somadas ao "mito" de uma
tos sem amor nem envolvimento emocional              greve geral revolucionria, foram celebradas
esto transformando a liberdade sexual em alie-      nos escritos de Georges Sorel (1847-1922) --
nao sexual. Os perigos do sexo irrestrito so      embora a sua ligao com o movimento sin-
fortemente enfatizados pela epidemia de Aids,        dicalista no fosse estreita nem duradoura. Seus
                                                                                   sindicalismo   687


escritos influenciaram especialmente a esquer-       artesanal e poucos antecedentes de negociao
da italiana, alguns de cujos membros -- com          coletiva institucionalizada. Assim como a CGT
destaque para Mussolini -- depois se voltariam       na Frana, exemplos notveis foram a Confe-
para o fascismo (ver Roberts, 1979).                 deracin Nacional de Trabajo na Espanha
    O apogeu do sindicalismo como conjunto de        (Payne, 1970) e a Unione Sindicale Italiana.
idias internacionalmente influentes foi nos         Onde os sindicalistas estavam em minoria, eles
anos que antecederam de imediato a ecloso da        lideraram freqentemente a oposio  poltica
guerra em 1914. Isso coincidiu com transfor-         e s prticas sindicais oficiais. Na Gr-Breta-
maes sociais e econmicas em muitos pases,        nha, a Industrial Syndicalist Education League
envolvendo o deslocamento das tradicionais           foi formada em 1910 por ativistas como Tom
relaes de produo de camponeses e artesos,       Mann (1856-1941); eles rejeitavam a negocia-
a imposio das novas disciplinas do trabalho        o coletiva centralizada e proclamavam os
fabril em grande escala e a ascenso de gigan-       slogans da solidariedade e da ao direta. Nos
tescos trustes e cartis capitalistas com ntimas    Estados Unidos, o termo syndicalism foi rara-
vinculaes com o estado. Ao mesmo tempo,            mente usado, mas o Industrial Workers of the
o prprio xito obtido por sindicatos e parti-       World (IWW) mostrou muitos paralelos com o
dos sociais-democratas parecia, com freqn-         sindicalismo revolucionrio da Europa (Du-
cia, significar a burocratizao e a perda de sua    bofsky, 1969).
dinmica radical (Beetham, 1987).                        Em grande parte da Europa Setentrional, o
    O sindicalismo parecia fornecer uma alter-       significado predominante do sindicalismo era a
nativa  classe trabalhadora, variando o seu         rejeio da necessidade de um partido socialis-
significado de acordo com as circunstncias          ta. A social-democracia tornara-se burocrtica,
locais. Envolveu freqentemente uma forte ori-       corrompida pelo parlamentarismo, disposta a
entao ouvririste: uma hostilidade para com        transigir com o estado burgus; a classe traba-
o que era visto como a influncia maligna de         lhadora devia retornar ao campo de batalha
intelectuais burgueses dentro do movimento           industrial. Uma posio intermediria era ex-
trabalhista -- atitude vigorosamente expressa        pressa pela faco do IWW liderada por Daniel
por Victor Griffuelhes (1874-1923), secretrio       de Leon (1852-1914), por seus seguidores bri-
da CGT de 1902 a 1908. Ligava-se a isso a            tnicos e, com destaque, pelo irlands James
rejeio do parlamentarismo -- considerado           Connolly (1870-1916). Embora insistindo em
fonte de carreirismo e acomodamento -- e dos         que a luta industrial era de primordial importn-
partidos polticos (ou, pelo menos, daqueles         cia, deram-se conta de que havia um papel para
primordialmente comprometidos com a ao             um partido revolucionrio, e tambm aceita-
parlamentar). Em vez disso, os sindicalistas         vam a necessidade de uma organizao centra-
enfatizavam a luta em defesa dos interesses da       lizada (condensada no ideal de "grande unio").
classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que               Em 1913 a tentativa de formao de uma
denunciavam a disseminao dos pacficos             Internacional Sindicalista abortou (Westergard-
convnios coletivos (ver SINDICATOS); para eles,     Thorpe, 1978); com a ecloso da guerra, muitos
a militncia industrial era essencial para a defe-   antigos sindicalistas abandonaram seu anterior
sa dos interesses econmicos dos trabalhadores,      antipatriotismo. Os que mantiveram uma posi-
enquanto estimulavam a confiana destes na           o antiguerra estiveram freqentemente na li-
preparao de um desafio planejado ao capita-        derana das lutas industriais nos tempos de
lismo atravs da greve geral revolucionria. O       guerra, em alguns casos ajudando a desenvolver
prprio SOCIALISMO era concebido mais em ter-        as teorias de uma indstria socialista baseadas
mos de controle dos trabalhadores do que de          no princpio do CONSELHO DE TRABALHADORES.
administrao por um estado centralizado. Fi-        Mas a revoluo na Rssia provocou nova crise
nalmente, a maioria dos sindicalistas opunha-se      no movimento. J em 1907 Lenin tinha atacado
radicalmente ao militarismo e ao nacionalismo.       o sindicalismo por perpetuar a poltica "eco-
    Em 1914 o sindicalismo revolucionrio tor-       nomicista" que ele denunciara anteriormente:
nara-se a posio oficial de setores significati-    O modelo bolchevique de organizao revolu-
vos do movimento sindical, principalmente em         cionria e produo socialista contradizia o sin-
pases com tradies de ANARQUISMO (Joll,            dicalismo em muitos princpios bsicos; e de-
1964; Woodcock, 1963), com substancial base          pois de 1917 muitos sindicalistas eminentes
688   sindicalismo, anarco-


mostraram sua adeso ao exemplo russo, repu-           dicalismo trade-unionista incompreensvel (e
diando a antiga orientao "infantil". Algumas         freqentemente inconveniente). A sociologia
finalidades especficas do sindicalismo de antes       teve dificuldade em conceituar a combinao
e durante a guerra -- organizao no nvel da          de organizao formal das trade unions com a
fbrica, unionismo industrial, ao direta --          coletividade mais informal e espontnea. As
foram, na verdade, transferidas para os novos          mais extensas tentativas de aplicao da anlise
partidos comunistas. Mas as teorias subjacentes        social ao sindicalismo foram desenvolvidas por
de socialismo de baixo para cima e de gesto           partidrios e, em particular, no mbito da tradi-
pelos trabalhadores (expressas na prpria Rs-         o marxista. Uma preocupao central consis-
sia pela Oposio de Trabalhadores) foram sis-         tiu em apurar em que medida, e sob que con-
tematicamente erradicadas.                             dies, os sindicatos promovem (ou, inversa-
    Os sindicalistas que se recusaram a aderir,        mente, inibem) a causa da revoluo proletria.
ou que romperam com a posio do Comintern,            As obras de Marx e Engels no fornecem uma
tenderam a rejeitar o modelo de Moscou de              teoria sistemtica ou consistente dos sindicatos,
estado dos trabalhadores, assim como a concep-         e os marxistas do sculo XX elaboraram muitas
o leninista do partido. O ANARCO-SIN-                perspectivas conflitantes.
DICALISMO passou a dominar cada vez mais os                Uma abordagem deriva do opsculo de Le-
movimentos sindicalistas sobreviventes, os             nin Que fazer? (1902). Em parte influenciado
quais se associaram em uma Internacional Sin-          pela leitura da obra de Webb, Lenin afirmou que
dicalista em 1922. Mas, com as mltiplas der-          a "luta econmica" travada pelos sindicatos
rotas da classe operria na dcada de 20, o            nunca poderia converter-se espontaneamente
sindicalismo deixou de ser um srio rival (pelo        em um movimento poltico abrangente; para
menos fora da Espanha, Portugal e Amrica              isso, a "conscincia sindicalista" requeria a di-
Latina) das ortodoxias socialista, comunista e         reo de um partido revolucionrio. A proposi-
trabalhista.  possvel apontar algumas conti-         o de que os sindicatos podem ser agncias
nuidades entre as idias sindicalistas iniciais e      efetivas de resistncia s relaes sociais ca-
as mais recentes teorias de controle dos traba-        pitalistas na esfera do emprego, mas s podem
lhadores. Mas at na esquerda o prprio "sin-          contribuir para uma transformao social mais
dicalismo" passou a ser pouco mais que um              radical sob a liderana do partido, tornou-se
termo injurioso. Ser que o colapso do comu-           central para a ortodoxia comunista.
nismo ortodoxo pode acarretar agora uma aten-              Outro argumento conhecido (e, por vezes,
o renovada  tradio sindicalista?                  complementar) sustenta que os sindicatos, co-
Leitura sugerida: Cole, G.D.H. 1956 (1967): A His-     mo instituies formais, desenvolvem carac-
tory of Socialist Thought, vol.3  Geary, Dick 1981:    tersticas inerentemente conservadoras, exibin-
European Labour Protest  Holton, R.J. 1976: British    do o que Robert Michels (1911) qualificou co-
Syndicalism 1900-1914  Ridley, F.F. 1970: Revolutio-   mo "lei de ferro da oligarquia". Em diferentes
nary Syndicalism in France  Stearns, Peter 1971: Re-   variantes desse tema, lderes e altos funcion-
volutionary Syndicalism and French Labour.             rios desenvolveram interesses pessoais em con-
                                  RICHARD HYMAN        flito com os das bases; enredaram-se em acor-
                                                       dos barganhados com os patres e, por conse-
sindicalismo, anarco- Ver ANARCO-SINDICA-              guinte, comprometeram-se na defesa da "lega-
LISMO.
                                                       lidade industrial" (Gramsci, 1910-20); ou resis-
sindicatos Organizaes coletivas de traba-            tiram  militncia sindical atravs da excessiva
lhadores existentes na Gr-Bretanha desde o            preocupao com a estabilidade organizacional
final do sculo XVIII e conhecidas como trade          do sindicato.
societies ou unions. Sidney e Beatrice Webb,               Vrias estratgias foram sugeridas para su-
em uma definio clssica (1920, p.1), declara-        perar essa tendncia. Sindicalistas intimaram
ram que "uma trade union, tal como enten-              sindicatos a rechaar acordos com emprega-
demos o termo,  uma associao contnua de            dores e a se esforar por realizar uma greve
assalariados com o fim de manter ou melhorar           geral revolucionria (ver Ridley, 1970); antes
as condies de suas vidas de trabalho".               de 1914 as possibilidades de greve em massa
    A ortodoxia econmica, com seu paradigma           tambm foram encaradas com otimismo por
de transaes individuais, considerou o sin-           marxistas mais ortodoxos, como Rosa Luxem-
                                                                                     sindicatos   689


burgo (1906). Outros tentaram reconstruir sin-      tidos polticos. Em grande parte da Europa con-
dicatos trade-unionistas como rgos indus-         tinental, o sindicalismo de massa foi o produto
triais abrangentes, aptos a assumir o controle do   da ascenso da social-democracia na virada do
funcionamento da indstria; o exemplo mais          sculo, mas os lderes sindicais no tardaram
notvel foi o Industrial Workers of the World       em insistir no desenvolvimento de suas prprias
(ou "Wobblies"), formado nos Estados Unidos         prioridades estratgicas. (Na Europa Meridio-
em 1905 sob a influncia das teorias de De Leon     nal, onde os vnculos sindicato-partido tm sido
(ver Dubofsky, 1969). Durante o perodo de          de grande importncia na era do ps-guerra,
1914-18 outro modelo alternativo foi fornecido      tendncias semelhantes mostraram-se eviden-
pela formao, na maioria dos pases belige-        tes em anos recentes.) Nos Estados Unidos, a
rantes, de organizaes do local de trabalho,       maioria dos sindicatos rechaou tradicional-
(relativamente) independentes da estrutura sin-     mente os vnculos polticos comuns na Europa,
dical formal e capazes de questionar e disputar     posio agressivamente defendida no final do
o controle da produo -- modelo esse que           sculo XIX pelo presidente da American Fede-
foi analisado com extrema sensibilidade por         ration of Labor (AFL), Samuel Gompers, com
Gramsci e desenvolvido por outros, como Pan-        sua filosofia de "sindicalismo puro e simples".
nekoek, como base para uma teoria do "comu-         Essa concepo obteve depois o apoio intelec-
nismo de conselho" (Smart, 1978). Depois da         tual do escritor Selig Perlman (1918), o qual
formao da Internacional Comunista, um im-         afirmou que os sindicatos confinariam natural-
portante elemento na estratgia esquerdista foi     mente suas atividades a matrias relacionadas
a criao de "movimentos de base" de oposio       com o trabalho, a menos que seduzidos pela
dentro dos sindicatos oficiais. Mais recente-       interveno de intelectuais. Argumentos seme-
mente essa ttica tem sido adotada por vrios       lhantes foram recentemente desenvolvidos por
grupos trotskistas.                                 escritores norte-americanos (Lester, 1958; Ross
    Desde a revoluo sovitica o papel dos         e Hartman, 1960; Kerr et al., 1960), que insis-
sindicatos na sociedade socialista tem provoca-     tiram, todos eles, em que os sindicatos "madu-
do discusses entre os marxistas. No famoso         ros" abandonam tipicamente os objetivos pol-
"debate sindical" de 1920-1, Trotsky sustentou      ticos radicais e se concentram na negociao de
que os sindicatos deviam ficar formalmente          convnios coletivos.
subordinados ao estado, enquanto que a Oposi-           Uma terceira concepo das relaes entre
o dos Trabalhadores insistia em que deveriam      sindicatos e poltica foi oferecida pelos tericos
manter-se como fora independente dentro da         do "corporativismo" (ver Goldthorpe, 1984). O
esfera econmica. Lenin levou a melhor: em-         uso moderno dessa noo alude aos sistemas
bora formalmente independentes, os sindicatos       fascistas (em especial, ao italiano e ao espanhol)
tinham que obedecer  liderana do partido,         de organizao dirigida pelo estado, envolven-
como "correias de transmisso entre o Partido       do empregadores e empregados em uma retri-
Comunista e as massas". Ironicamente, durante       ca de unidade funcional. Nas sociedades oci-
o regime de Stalin, o modelo de controle estatal    dentais modernas, afirma-se, o estado  cada
de Trotsky foi efetivamente implementado (ver       vez mais um ator central nas relaes econmi-
Deutscher, 1950), e depois de 1945 se esten-        cas e industriais; e isso forneceu o desenvolvi-
deu aos novos regimes comunistas na Europa          mento de acordos tripartites, integrando com
Oriental. Muito mais tarde surgiram presses        freqncia os sindicatos institucionalmente na
em favor de maior autonomia sindical. O colap-      maquinaria do planejamento e administrao
so do comunismo no bloco oriental foi precedi-      da economia nacional. Para alguns autores, o
do, na maioria dos pases, pela assero de         "neocorporativismo" serve para subordinar os
independncia pelos antigos sindicatos oficiais     sindicatos s exigncias de um estado capitalis-
e, em muitos casos, pela ascenso de movimen-       ta, convertendo-os em agncias voltadas para
tos de oposio -- com destaque para o Solida-      disciplinar seus membros em troca de vanta-
riedade na Polnia. Hoje em dia o modelo de         gens nominais e organizacionais. Outros, po-
"correia de transmisso" foi abandonado at         rm, identificam um sistema de "permuta pol-
nos pases em que o regime comunista subsiste.      tica" pelo qual os sindicatos obtm reais bene-
    No Ocidente industrializado, os sindicatos      fcios materiais para os seus filiados moderando
tm procurado freqentemente escapar aos par-       a sua militncia econmica em troca da influn-
690   sistema-mundo


cia no tocante a decises de poltica macroeco-        tin, Ross 1989: Trade Unionism  Mills, C.W. 1948:
nmica; a ustria e a Sucia do ps-guerra so         The New Men of Power  Munck, Ronaldo 1988: The
                                                       New International Labour Studies  Sturmthal, Adolf
freqentemente citadas como exemplos. A l-            1972: Comparative Labor Movements  Webb, Sidney
gica de ambas as interpretaes  que o simples        e Webb, Beatrice 1897: Industrial Democracy.
"sindicalismo de resultados", como o modelo                                            RICHARD HYMAN
americano  muitas vezes chamado, deixou de
ser vivel -- pelo menos em muitos contextos           sistema-mundo Trata-se de um conceito re-
nacionais.                                             lativamente novo. Sem dvida, a expresso foi
    Ainda outra concepo de sindicalismo             usada de tempos em tempos no passado em
como movimento social. Essa concepo deri-            sentidos diversos e no muito precisos. Mas o
vou, com freqncia, do pensamento social ca-          seu uso corrente, hifenizado para indicar que 
tlico, que mudou no comeo do sculo do               um "conceito", deve ser relacionado com a
anti-sindicalismo, derivado do anti-socialismo,        inveno do termo conomie-monde por Fer-
para uma viso mais positiva dos sindicatos            nand Braudel. O prprio Braudel diz que o
como meio de promover a coeso e a harmonia            tomou do uso particular feito por Fritz Rrig,
sociais. O anticomunismo forneceu subseqen-           em 1933, da palavra Weltwirtschaft, mas foi
temente um poderoso motivo para a interven-            principalmente via Braudel, sem dvida, que o
o catlica no sindicalismo, inspirando por           conceito se tornou conhecido.
vezes a formao de sindicatos "cristos" sepa-            A lngua francesa (e outras lnguas neolati-
rados. Em alguns pases do Terceiro Mundo,             nas) permite uma distino em formas lings-
contudo, a "teologia da libertao" encorajou o        ticas que  impossvel em alemo e difcil em
apoio ao sindicalismo populista radical em sua         ingls. Os economistas falam desde longa data
mobilizao contra o capital multinacional e os        de uma economia mundial, termo que eles so
regimes polticos repressivos. Isso pode ser vis-      propensos a usar como sinnimo de economia
to como reflexo de uma lgica situacional: onde        internacional. Refere-se primordialmente  es-
o estado  poderoso e a "sociedade civil" rela-        trutura dos fluxos comerciais e financeiros entre
tivamente subdesenvolvida, os sindicatos so           estados soberanos, fluxos que se refletem no
uma das poucas organizaes capazes de coor-           nvel estatal em certos indicadores padroniza-
denar uma ao social independente em escala           dos, como os termos de comrcio ou o balano
nacional. Ao mesmo tempo os sindicatos que             de pagamentos. Nesse uso, a palavra internacio-
so incapazes de concretizar relaes estveis         nal refere-se aos fluxos entre naes (ou seja,
de negociao de convnios coletivos ou de             estados soberanos) e o termo "mundial" alude
adquirir uma substancial filiao formal dese-         ao fato de os economistas estarem analisando
jam provavelmente mobilizar e representar um           fluxos no globo inteiro.
contingente de trabalhadores muito maior do                Em francs, a traduo comum de world
que essa filiao por si s.                           economy  conomie mondiale. Braudel, contu-
    Est claro que o significado social do sin-        do, inventou um termo diferente para o que
dicalismo  um foco de disputa e emulao              desejava descrever. Usou conomie-monde.
dentro e entre os prprios sindicatos, e o seu         Quis indicar com esse termo, em primeiro lugar,
papel  igualmente controverso para governos           que no estava referindo-se ao mundo, mas a
e movimentos de oposio poltica.  possvel          um mundo; e, em segundo lugar, que no se
que o fim da Guerra Fria e a internacionalizao       referia s relaes econmicas entre unidades
do capital e das prticas de emprego levem a           polticas constitudas dentro desse mundo, mas
uma maior homogeneidade das caractersticas            aos processos econmicos dentro desse mundo
dos sindicatos.                                        em sua totalidade.
    Ver tambm SINDICALISMO.                               Fui eu quem tentou estabelecer essa dis-
                                                       tino em traduo inglesa entre conomie
Leitura sugerida: Banks, J.A. 1974: Trade Unionism     mondiale e conomie-monde mediante o uso do
 Clegg, Hugh 1976: Trade Unions under Collective
                                                       hfen. Como world economy j estava em uso
Bargaining  Crouch, Colin 1982: Trade Unions
 Flanders, Allan 1952: Trade Unions  Hyman, R.
                                                       corrente como o equivalente de conomie mon-
1972: Marxism and the Sociology of Trade Unionism      diale, usei world-economy (com o hfen) como
 1989: The Political Economy of Industrial Relations   o equivalente de conomie-monde. Uma econo-
 McCarthy, W.E.J. 1985: Trade Unions, 2ed.  Mar-      mia-mundial foi definida inicialmente como a
                                                                                sistema-mundo     691


entidade dentro de cujas fronteiras havia uma        volvem" ao longo do tempo no eram conside-
nica e abrangente diviso de trabalho, mas          radas os chamados estados-naes, mas antes o
que, de fato, inclua certo nmero de estruturas     sistema-mundo como um nico sistema-mun-
estatais distintas.                                  do. Isso era um argumento contra o "desenvol-
    Pensando bem, era evidente que tinham            vimentismo", ou teoria da MODERNIZAO, o
existido historicamente outras grandes entida-       qual supunha a existncia de estados-naes
des sobre as quais se poderia afirmar que tinham     paralelos, cada qual realizando esforos parale-
tido uma nica diviso de trabalho, mas no          los de desenvolvimento linear, embora com
contiveram, dentro de suas fronteiras, estrutu-      sucesso desigual at a data. Alm disso, a teoria
ras estatais distintas. Tal parecia ser o caso dos   da modernizao tendia a ser uma teoria da
antigos imprios como, digamos, o de Roma ou         homogeneizao final; a tendncia da anlise,
o da China. Por paralelismo lingstico com          a partir de uma perspectiva de sistema-mundo,
world-economy, criou-se o termo world-empire          enfatizar a polarizao da estrutura sistmico-
a fim de caracterizar esse ltimo caso, sendo        mundial ao longo do tempo.
ambos considerados variedades de uma enti-               O terceiro elemento da polmica envolveu,
dade chamada world-system (sistema-mundo).           portanto, o modo de anlise, ou a postura ado-
    Desde o incio da dcada de 70, quando se        tada a respeito de questes epistemolgicas
completou esse exerccio conceitual preliminar,      tradicionais. As anlises que usavam o estado-
considervel soma de trabalhos empricos e           nao como unidade de anlise e teorizavam a
tericos foi empreendida a respeito de sistemas-     partir de uma perspectiva desenvolvimentista
mundo. A maior parte desse trabalho tem se           tendiam a ser nomotticas, buscando enuncia-
relacionado com o estudo de um sistema-mun-          dos apropriados, semelhantes a leis, que pudes-
do particular, o "sistema-mundo moderno",            sem explicar os processos observados. A epis-
tambm conhecido como "economia-mundial              temologia de uma "perspectiva de sistemas-
capitalista". Alm disso, porm, alguns arque-      mundo" baseava-se na noo de que os sis-
logos tentavam utilizar o conceito de sistema-
                                                     temas-mundo so "sistemas histricos". Os sis-
mundo para analisar as vrias situaes pr-mo-
                                                     temas histricos so simultaneamente sis-
dernas em que eles tm estado sobremodo inte-
                                                     tmicos, com estruturas que determinam pro-
ressados, indicando que suas reconstituies a
partir dos dados deveriam levar  observao de      cessos em curso, predominantemente cclicos,
zonas espaciais mais vastas do que era previa-       e histricos, ou seja, desenvolvem-se ao longo
mente feito, e que essas zonas mais vastas eram,     do tempo, tm incio e fim. Isso levou a anlise
de fato, "sistemas-mundo". Recentemente se           dos sistemas-mundo a duas importantes con-
registrou, ademais, o incio do interesse no es-     cluses epistemolgicas. Uma delas foi uma
tudo comparativo de diferentes espcies de sis-      postura de rejeio das metodologias nomo-
temas-mundo.                                         tticas e idiogrficas, em favor de uma an-
    Todo e qualquer conceito, especialmente          lise dos conjuntos particulares de regras ge-
quando novo,  um exerccio de polmica.            rais que governam determinados tipos de sis-
importante sublinhar contra que conceitos alter-     temas-mundo. A segunda foi uma simpatia
nativos estava dirigido o conceito de sistema-       pela teorizao nas cincias que rejeita a di-
mundo. Trs importantes elementos estavam            nmica linear newtoniana e favorece um mo-
envolvidos na polmica. O primeiro dizia res-        delo de processos no-lineares que subse-
peito  unidade de anlise. Sustentar que o          qentemente se bifurcam.
mundo moderno devia ser pensado em termos                O conceito de "sistema-mundo"  um dos
de um sistema-mundo ou de uma economia-              que se prestam  controvrsia no pensamento
mundo capitalista  sustentar que a unidade          do sculo XX. Tende a ser contrrio aos pontos
primria significativa de coero social e de        de vista da corrente dominante, definida quan-
poder decisrio social  mais esse sistema-mun-      titativa e socialmente. Evidentemente, despido
do do que as unidades de estados-naes que          de sua bagagem polmica, esse conceito pode-
tm sido tradicionalmente usadas como uni-           ria ser facilmente includo em quase toda teori-
dades de anlise.                                    zao tpica sobre comportamento social, mas,
    Dessa primeira premissa decorre natural-         assim despido, estaria viciado e dificilmente
mente a segunda. As unidades que se "desen-          acrescentaria algum insight significativo.
692   sistemas, teoria de


   Ver tambm GLOBALIZAO; DIVISO INTER-              contudo, no a inteno significativa, mas to-
NACIONAL DO TRABALHO; RELAES INTERNACIO-              somente se o comprador tem dinheiro ou no e
NAIS.                                                   se o gasta ou no. O mecanismo monetrio 
                                                        cego a intenes e a quaisquer crenas, progra-
Leitura sugerida: Braudel, Fernand 1967: Civilisation
matrielle, conomie et capitalisme (XV-XVIIIs.),
                                                        mas, idias e interesses. Tudo o que conta so
3 vols.  Wallerstein, Immanuel 1974-89: The Mo-         as conseqncias das decises de comprar. O
dern World-System, 3 vols.  1991: Unthinking Social     sistema da cincia opera de modo semelhante:
Science.                                                no so os programas concretos de pesquisa
                          IMMANUEL WALLERSTEIN          nem as multiformes implicaes das pesquisas,
                                                        como o seu valor social, que so decisivos, mas
sistemas, teoria de O termo sistemas inclui             sim se o que  produzido  verdadeiro ou falso.
mquinas, organismos e sistemas sociais e psi-          O sistema da cincia, como tal,  cego a tudo
colgicos, em contraste com aes e peas in-           mais, em especial  complexa e significativa
dividuais. Os sistemas so complexos de ele-            relao entre cincia e mundo. O mais impor-
mentos e relaes, separados por fronteiras dos         tante efeito da diferenciao funcional  que "os
seus respectivos meios ambientes, os quais so          soldados marcham, os escritores escrevem e os
sempre mais complexos que os prprios sis-              ministros governam, quer isso lhes interesse ou
temas (ver Hall e Fagen, 1968; Allport, 1968).          no em uma dada situao" (Luhmann, 1970-
Para Niklas Luhmann, "essa diferena de com-            90, vol.2). A sociologia anterior tinha uma des-
plexidade" entre o sistema e o meio ambiente            crio unilateral desse progresso como um pro-
em que ele est localizado  "o problema fun-           cesso de burocratizao, baseado no modelo de
damental para a teoria de sistemas, o ponto final       ao racional-intencional. A teoria de sistemas
de referncia de qualquer anlise funcional"             propensa a tratar o mesmo processo to uni-
(Luhmann, 1970-90, vol.2, p.210; ver tambm             lateralmente quanto um ganho de liberdade re-
FUNCIONALISMO).                                         sultante da remoo do fardo da responsabili-
    Os sistemas sociais podem ser interaes,           dade individual (cf. Luhmann, 1976, p.287ss.).
organizaes ou sociedades inteiras. Os sis-                Fazer uma abstrao das perspectivas e ori-
temas sociais,  semelhana dos sistemas psi-           entaes dos atores tem importantes conse-
colgicos, podem caracterizar-se pelo seu uso           qncias para o status metodolgico da teoria
do significado. Seus elementos, porm, no so          de sistemas. Como teoria, ela est interessada
pessoas, seres humanos ou sujeitos, mas aes           na explicao, no na compreenso. No pode,
intersubjetivas ou comunicativas (ver COMUNI-           porm, formular qualquer pretenso -- ou, na
CAO). Os sistemas sociais coordenam aes.            melhor das hipteses, s o pode de forma muito
No so, contudo, mundos vitais nem formas              limitada -- a oferecer explicaes causais. A
socioculturais de vida, caracterizados pelo fato        teoria sociolgica de sistemas pelo menos re-
de coordenarem as intenes dos atores de tal           conciliou-se com a sua virtual incapacidade de
maneira que estas se apresentam, na perspectiva         fornecer explicaes causais, a par de conceitos
dos prprios atores (a perspectiva participante),       fortemente empricos, observabilidade etc. En-
como um contexto significativo e interpretvel.         tretanto explica a impreciso e a circularidade
Os sistemas sociais no so, como tais, com-            de suas explicaes funcionais, no pela pecu-
preensveis nem incompreensveis, nem a ex-             liaridade ontolgica do seu domnio do objeto
presso de um consenso antecedente nem a                simbolicamente estruturado ou, como a socio-
implementao de um consenso consciente. Os             logia Verstehende, pela impossibilidade de es-
sistemas sociais coordenam as conseqncias             capar do crculo hermenutico, mas pela com-
de aes, as quais constituem um todo funcional         plexidade e opacidade das estruturas do sis-
a partir da perspectiva de um observador ou de          tema, as quais, em princpio, no so passveis
um sistema observante.                                  de anlise causal. Os sistemas autopoiticos
    Os atos econmicos, por exemplo, que so            (autoformantes) alteram-se quando descobrem
significativos e, portanto, interpretveis de uma       estruturas completamente novas de maneira
perspectiva participante, so combinados pelos          imprevisvel. A prpria teoria de sistemas, con-
mercados em um sistema em que eles se suce-             tudo, adere agora, cada vez mais, ao seu prprio
dem uns aos outros. O que determina o elo e a           mtodo e explica os limites de seu poder expli-
seqncia de aes no espao e no tempo ,              cativo causal por sua funo social e pelas
                                                                             sistemas, teoria de   693


condies funcionais de sua prpria auto-repro-     integrador de sistema de ao, os sistemas que
duo como teoria cientfica (Maturana, 1982;       assumem as tarefas internas do processamento
Schmidt, 1987; Luhmann, 1988).                      de informao, inovao e reproduo simb-
    A interpretao de complexos de significa-      lico-comunicativa de valores e normas distin-
do, tal como praticada por W. Dilthey ou Max        guem-se inteiramente dos que asseguram a
Weber, no  rejeitada pela teoria de sistemas;     adaptao do sistema de ao e do sistema
pelo contrrio,  pressuposta por ela. Niklas       social aos ambientes externos.
Luhmann, tal como Talcott Parsons, parte do             O processo de mudana evolutiva (ver PRO-
fato de que, por exemplo, nas culturas protes-      CESSOS EVOLUCIONRIOS NA SOCIEDADE) que le-
tantes a ao econmica foi estruturada por         vou ao desenvolvimento do sistema das socie-
diferentes significados e vises de mundo em        dades modernas pode ento ser explicado pela
relao ao catlico ortodoxo ou s regies fun-     mudana de estratificao social para diferen-
damentalistas islmicas. Somente onde a ao        ciao funcional. A ascenso de instituies
forma um mundo inteligvel  que um sistema         culturais autnomas possibilitou, por interm-
econmico moderno pode coordenar aes ex-          dio da generalizao de valores, a legitimao
clusivamente por meio dos efeitos de fluxos         de normas concretas que so obrigatrias para
monetrios sobre as conseqncias da ao.          a comunidade social. Sistema educacional ps-
Nessa medida, as sociedades so sempre "com-        tradicional, a economia auto-organizada, arte
plexos sistemicamente estabilizados de ao de      autnoma e religio individualizada (a tica
grupos socialmente integrados" (Habermas,           protestante) so os mais importantes exemplos
1981, vol.2).                                       histricos. Mediante uma influncia generali-
    Entretanto, em uma sociedade moderna,           zada, a integrao social pode ser organizada
funcionalmente diferenada, j no importa          como a formao inclusiva e aberta  participa-
mais de onde algum vem. Comunidade, reli-          o irrestrita de associaes livres em um sis-
gio e conscincia coletiva, origem histrica,      tema de comunidades sociais. A "comunidade
status social e lugar na hierarquia tradicional,    societal" de Parsons, juridicamente institucio-
laos de famlia e obrigaes de parentesco so     nalizada na CIDADANIA,  o lugar da liberdade
irrelevantes, embora se pressuponha ainda sua       associativa, tal como foi entendida por Tocque-
fora socialmente integradora. A nica coisa        ville. Poderamos tambm descrever a auto-or-
que conta em um sistema de mercado juridica-        ganizao da comunidade social como a "unio
mente institucionalizado, livre e de igual acesso   scio-reflexiva, de nvel superior, das unies
 se algum pode pagar ou no. Atravs de sua       sociais" descrita por John Rawls. Na permuta
institucionalizao jurdica, os mercados livres    intersistemas, isso fornece ao sistema poltico
desligaram-se dos laos de parentesco e das         um apoio leal, atravs de sua influncia sobre
ordens de privilgio, da famlia e da estra-        os cidados, enquanto o sistema poltico-admi-
tificao, assim como da esfera poltica. Como      nistrativo dota a comunidade social do neces-
Marx j reconheceu, a ordem dos estratos e          srio poder atravs da sano jurdica da liber-
classes sociais perdeu sua antiga autonomia e       dade de associao em uma base igualitria.
se tornou quase totalmente dependente da auto-          O desligamento do poder poltico da in-
organizao autopoitica do sistema econmi-        fluncia da ao comunicativa em associaes
co.                                                 sociais d, portanto,  esfera poltica a liberdade
    Apoiando-se principalmente na teoria de         necessria para impor a diferenciao funcional
Max Weber das esferas de valor, Talcott Parsons     e implementar, de maneira intencional-racio-
(1966, 1971) desenvolveu uma teoria de MO-          nal, as estruturas jurdica e administrativa cor-
DERNIDADE em termos de diferenciao funcio-        respondentes; estas so necessrias, por exem-
nal. Esse processo converte os componentes          plo, para separar a moderna organizao de
individuais da ao -- valores constitutivos        trabalho do okos, a residncia difusamente fun-
latentes, normas integradoras, motivos delibe-      cional da famlia camponesa, mas tambm para,
rados, recursos adaptativos --, que esto inte-     por exemplo, proteger a funo socializante da
grados na ao comunicativa, em performances        famlia da mobilizao econmica de seus
especializadas de sistemas funcionais diferen-      membros individuais. Um sistema econmico,
ados. Tanto no nvel do "sistema de ao geral"    liberto por macia interveno poltica de todos
quanto no do "sistema social" e do subsistema       os compromissos de valor, restries normati-
694   social-democracia


vas e tarefas polticas, pode concentrar-se na          social-democracia As doutrinas e aes po-
maximizao do desempenho e desenvolver as              lticas cobertas por este termo podem ser escla-
foras produtivas sem as quais faltaria ao sis-         recidas se considerarmos o que a social-demo-
tema das sociedades modernas toda a sua fora           cracia  e o que no . Alemanha, Frana, Gr-
motriz.                                                 Bretanha, ustria, Nova Zelndia, Austrlia,
    Esse modelo de diferenciao funcional so-          Blgica, Holanda, Espanha, Sucia e os outros
fre de uma dificuldade bsica. Para Parsons,            pases escandinavos, todos tm fortes tradies
toda e qualquer espcie de formao de sistema          e partidos sociais-democratas (que podem cha-
por meio de diferenciao funcional apresenta-          mar-se partidos socialistas, sociais-democratas
se como uma destinao que, de modo geral,              ou trabalhistas; ver SOCIALISMO), e alguns des-
no  problemtica do sistema nem do mundo              ses partidos tm constitudo governos em vrias
-- no  problemtica apenas porque ele s              pocas, sobretudo depois da Segunda Guerra
concebe o mundo em termos de tradicionalis-             Mundial. Diversas geraes de programas de
mo, particularismo, prolixidade e coletivismo           bem-estar e reformas sociais legisladas deixa-
afetivo. Para Parsons, diferenciao funcional          ram marcas permanentes, afetando no s a
 a emancipao dos limites da natureza e das           formao do estado, mas tambm as atitudes
formas tradicionais de sociao. Assim, por             predominantes acerca da responsabilidade so-
exemplo, ele pde descrever o desenvolvimen-            cial. A Rssia tambm teve um importante mo-
to da Unio Sovitica, mesmo no final da dca-          vimento social-democrata no comeo deste s-
da de 60, como uma progressiva modernizao             culo, depois suprimido pelos bolcheviques, e a
rumo ao sistema ocidental de sociedades mo-             social-democracia foi influente em menor me-
dernas, atrasada apenas em certos domnios.             dida em pases to diversos quanto a Argentina,
Essa interpretao unilateralmente otimista do          o Canad, a Irlanda do Norte (o Partido Social-
desenvolvimento sovitico, sem base em qual-            Democrata e Trabalhista), a ndia e o Japo
quer preconceito ideolgico a favor do comu-            (onde continua forte, apesar do virtual monop-
nismo, deveu-se a uma cegueira categorial. O            lio do poder pelo Partido Liberal, e recebe
conceito de diferenciao funcional permite             considervel apoio das mulheres, assim como
uma anlise adequada da transformao moder-            dos agricultores e da classe mdia).
na e da dissoluo de formas tradicionais de                Originalmente socialista, sindicalista e anti-
socializao, mas no se pode apresentar sequer         capitalista, a social-democracia compartilha uma
a questo de existirem processos de moderniza-          origem comum com outros movimentos da
o (como o terror stalinista) que destroem no         classe trabalhadora no sculo XIX que lutavam
s as formas tradicionais de socializao, mas          contra diferentes verses da represso estatal --
a prpria possibilidade desta. Sendo assim, a           bismarckiana, militarista, bonapartista, anti-
teoria do sistema funcionalista no pode esca-          Dreyfusard (ver adiante), clerical (catlica e
par  acusao de consubstanciar uma filosofia          protestante) ou outras (ver MARXISMO OCIDEN-
oculta da histria. Pelo menos,  como se as            TAL). Quanto mais xito obtiveram nas eleies
teorias de sistemas fossem aparentemente for-           e mais organizados se mostravam como parti-
adas por suas categorias a uma certa cegueira          dos polticos, e na medida em que algumas das
s possveis patologias da modernizao. As             mudanas sociais pelas quais se bateram foram
angstias de Habermas vo nessa direo, e as           realizadas no ESTADO DE BEM-ESTAR, mais os
polmicas anlises do discurso propostas por            sociais-democratas tenderam a se deslocar da
Michel Foucault adquirem considervel fora             esquerda para o centro-esquerda. Tal flexibili-
como um corretivo para o otimismo unilateral            dade , em parte, resultado do carter hbrido
da viso de modernidade apresentada pela teo-           da social-democracia como doutrina poltica.
ria de sistemas.                                        Faltando-lhe um nico fundador (um John Lo-
                                                        cke, um Adam Smith ou um Karl Marx), a sua
Leitura sugerida: Habermas, J. 1981 (1984, 1989): The   linhagem inclui o marxismo, o socialismo ut-
Theory of Communicative Action, vol.2  Parsons, T.      pico e a forma de revisionismo inspirada pela
1951: The Social System  1966: Societies: Evolutio-     intuio de Engels (na dcada de 1890) de que
nary and Comparative Perspectives.                      a ao poltica evolucionria, apoiando-se no
                              HAUKE BRUNKHORST          direito de voto e no parlamentarismo, era mais
                                                                             social-democracia     695


suscetvel de favorecer as lutas da classe traba-   tomadas de acordo com programas e prefern-
lhadora do que os meios revolucionrios.            cias. Como individualmente os cidados so, ao
    Os primeiros sociais-democratas participa-      mesmo tempo, consumidores e eleitores, o pon-
ram de um compromisso comum com o prole-            to importante de tal modelo  que as desigual-
tariado como a classe do futuro, diferindo de       dades observadas na primeira esfera podem ser
jacobinos e revolucionrios mais em funo de       compensadas na segunda, servindo o setor pri-
mtodo do que de princpio. Acreditavam que         vado para impedir concentraes de poder no
o proletariado como classe tomaria o poder          setor pblico e servindo este para evitar concen-
econmico e poltico por meios como o sufr-        traes de riqueza naquele.
gio universal, a democracia parlamentar e o             O que distingue os sociais-democratas dos
controle sobre o ramo executivo do governo.         proponentes do estado de bem-estar (ver BEM-
Uma vez o proletariado no poder, a nacionali-       ESTAR SOCIAL)  uma nfase maior na igualdade
zao e o planejamento eliminariam o ciclo de       e nas disposies institucionais que facilitam
alternncia de perodos de prosperidade e de-       esse objetivo. Para eles, uma deficincia do
presso econmica, a guerra seria abolida e o       estado de bem-estar  que ele resulta em com-
colonialismo acabaria. Com algumas variaes        binaes ad hoc, de natureza temporria, con-
doutrinrias, os sociais-democratas comparti-       sistindo em estratgias improvisadas e prticas
lham uma viso igualitria, secular e cientfica,   legislativas de carter to contrafeito, to relu-
uma verso socialmente responsvel da tradi-        tante, que o seu desfecho mais provvel  o
o do Iluminismo.                                  fracasso. Em suma, os sociais-democratas v-
    Os sociais-democratas ainda favorecem um        em as reformas de bem-estar social como en-
forte estado democrtico, em ntido contraste       xertos no estado liberal que objetivam melhorar
com o minimalismo poltico dos liberais. Ainda      os piores efeitos das desigualdades em vez de
rejeitam o mercado como nico rbitro da jus-       eliminar radicalmente as suas causas. Em con-
tia e continuam situando a esfera pblica aci-     trapartida, o programa social-democrata pro-
ma da particular. Mas distanciaram-se do socia-     pe-se, em um grau ou em outro, alterar ou
lismo revolucionrio, e virtualmente todos os       reduzir substancialmente as concentraes de
partidos sociais-democratas romperam decisi-        riqueza privada, indstria e capital. Com efeito,
vamente com o comunismo depois de 1919.             de acordo com os sociais-democratas, elas so
Desde a Segunda Guerra Mundial muitos deles         to poderosas e o papel dos negcios  to
acabaram aceitando, ou mesmo favorecendo, os        privilegiado que, quando programas compen-
mercados acima do planejamento, a empresa           satrios e de reforma so estabelecidos em um
privada acima da pblica e uma poltica do tipo     estado de bem-estar, eles impedem que o duplo
"cresa primeiro e redistribua depois".             mercado econmico funcione muito bem.
    Hoje em dia, como principal alternativa do          Portanto, os sociais-democratas assumem
bem-estar social, a social-democracia compar-       uma forte posio em favor do igualitarismo e
tilha com esta crena no pluralismo, cujo mo-       da necessidade de eliminar as causas das desi-
delo poderia ser denominado a poltica de um        gualdades sociais. Tambm acreditam que o
"equilbrio mvel", somada  poltica de gesto     "equilbrio" no ser obtido sem a interveno
responsvel, de controles reguladores, eleies     do estado em favor dos que so penalizados ou
e leis, e o relacionamento interativo entre o       especialmente desfavorecidos, incluindo mino-
pblico e o particular; mas enfatiza o contnuo     rias (tnicas, religiosas, raciais, lingsticas) e
reequilbrio entre o econmico e o poltico, no     classes. Em anos recentes, porm, a experincia
mbito de um duplo mercado. Na teoria social-       mostrou que a interveno pode burocratizar o
democrata, o mundo econmico  menos uma            estado, tornando-o politicamente mais insens-
questo de propriedade do que de um mecanis-        vel. Assim, os sociais-democratas passaram a
mo fornecedor de informaes com base nas           se interessar por experincias com formas ml-
quais consumidores e produtores realizam es-        tiplas e pluralistas de representao, democra-
colhas e opes acerca de necessidades e carn-     cia no local de trabalho e autogesto, esperando,
cias materiais. Por sua vez, o domnio poltico     atravs de tais mecanismos, suplantar o conflito
funciona para fornecer informaes com base         entre grupos competitivos e transform-lo em
nas quais os lderes podem ser selecionados de      cooperao. A moderna teoria pluralista e, em
acordo com prioridades de ao, com decises        especial, as teorias de democracia participativa
696   social-democracia


e poliarquia desenvolveram o lado poltico da        programas cooperativos e cooperativas de pro-
social-democracia nos ltimos 30 anos (ver, por      dutores. O liberalismo inicial logo cedeu o lugar
exemplo, Dahl, 1956, 1961; Polsby, 1963; Ba-         ao socialismo e duas importantes associaes
chrach, 1967; Pateman, 1970; Lukes, 1974;            operrias surgiram na dcada de 1860: a As-
Gould, 1988). Ao mesmo tempo, os sociais-de-         sociao Geral de Trabalhadores Alemes, ins-
mocratas reconheceram que as reivindicaes          pirada e liderada por Ferdinand Lassalle, e o
de eqidade precisam ser contrapostas s neces-      Partido dos Trabalhadores Sociais-Democra-
sidades de desenvolvimento, e os sociais-de-         tas, liderado por August Bebel e Wilhelm
mocratas holandeses, austracos, alemes, neo-       Liebknecht, que tinham estreitos vnculos com
zelandeses e escandinavos deram mostras de           Marx e Engels (Guttsman, 1981, cap.1).
considervel inventiva em suas polticas de ha-          Um perodo de radicalizao ocorreu no
bitao de baixo custo, conselhos de traba-          rescaldo da Guerra Franco-Prussiana. Os dois
lhadores e modernos programas educacionais.          partidos existentes foram unidos em 1875 como
    Os sociais-democratas tm estado prximos        o Partido Social-Democrata da Alemanha
dos partidos verdes em questes ambientais           (SPD), o qual, no prazo de dois anos, j contava
(sobretudo na Alemanha), embora divididos em         com 12 deputados no Reichstag e recebia mais
matria de energia nuclear e armamento (ver          de meio milho de votos. Tal como outros par-
MOVIMENTO ECOLGICO). Hoje em dia, quando a          tidos socialistas e sociais-democratas, na Fran-
filiao e as clientelas eleitorais passaram a ser   a e em outros pases, o SPD afirmava a priori-
mais de classe mdia, alguns partidos tambm         dade da solidariedade da classe trabalhadora
passaram a moderar seus programas de proprie-        sobre as filiaes nacionais, e em 1878 as orga-
dade pblica e a enfatizar mais a reforma do que     nizaes de trabalhadores foram proibidas pela
a circunscrio das responsabilidades do estado      Lei Anti-Socialista. Quando a lei expirou, em
no tocante ao bem-estar (Hindess, 1971).            1890, o SPD desenvolveu-se rapidamente
semelhana do estado de bem-estar, a social-de-      (Kocka, 1986, p.278-351), obteve cerca de 1,5
mocracia foi muito influenciada pelo KEYNESIA-       milho de votos nas eleies desse ano e man-
NISMO, embora favorecendo os que mostravam           dou 35 deputados para o Reichstag (Braunthal,
uma propenso maior a consumir do que a              1961, p.200-1). Seu programa inclua o corpo-
poupar. De modo geral, os sociais-democratas         rativismo lassalliano (tal como encarnado no
so favorveis  coletivizao do risco, ao pas-     Programa Gotha de 1875), para enfatizar o so-
so que os defensores do estado de bem-estar          cialismo de estado, os meios polticos legais, as
favorecem a individualizao do risco. Para          liberdades civis e a democracia; mas, como
alguns sociais-democratas, o estado atua como        conseqncia direta da legislao bismarckiana
um estabilizador econmico e poltico, esti-         repressiva contra as organizaes da classe tra-
mulando o crescimento e impedindo a recesso,        balhadora, tambm inclua agora um apelo 
como uma forma de gerenciamento de crises            ao proletria radical, uma tendncia marxista
(Offe, 1984, p.148).                                 e revolucionria anunciada em seu programa
    O modo como funcionam esses princpios           Erfurt de 1891. Entretanto, sua doutrina marxis-
talvez possa ser mais bem ilustrado por alguns       ta tinha diversos componentes, que se esten-
exemplos. Embora no exista uma teoria social-       diam desde o marxismo revolucionrio de Rosa
democrata definitiva nem um estado social-de-        Luxemburgo e Karl Liebknecht, atravs do
mocrata exemplar, Alemanha, ustria, Sucia,         "centrismo" de Karl Kautsky, at o REVISIONIS-
Holanda e alguns outros pases, como a Aus-          MO de Eduard Bernstein.
trlia, podem servir de modelos. O caso alemo           Todos os partidos sociais-democratas reuni-
ilustra particularmente bem a transformao da       dos na Internacional Socialista opuseram-se fir-
social-democracia de uma doutrina esquerdista        memente  guerra, mas, apesar dessa oposio,
em uma doutrina de centro-esquerda. No incio        regularmente reafirmada em seus congressos,
da dcada de 1860 operrios de inspirao libe-      os socialistas franceses na Cmara dos Deputa-
ral, associaes educacionais e corporaes          dos e o SPD alemo no Reichstag votaram a
profissionais comearam a angariar apoio para        favor de crditos de guerra em 1914, montando
a reforma constitucional, a unificao nacional,     o cenrio para uma diviso decisiva entre
o sufrgio universal masculino, a educao pro-      socialistas e sociais-democratas, e entre socia-
fissionalizante, as instituies de poupana,        lismo revolucionrio e bolchevismo (Braun-
                                                                           social-democracia   697


thal, 1961, cap.21). O marxismo revolucionrio     jornal de Longuet, Le Populaire, enquanto os
continuou sendo uma fora poderosa no SPD          comunistas se organizaram em torno do dirio
at 1920, quando a ala esquerda do partido se      de Jean Jaurs, L'humanit. A social-democra-
separou para formar o Partido Comunista            cia, associada ao efmero governo da Frente
(KPD). As relaes entre o SPD, predominan-        Popular do premier Lon Blum, em 1936, de-
temente revisionista, e o KPD tornaram-se cada     clinou da por diante at a dcada de 70, quando
vez mais speras com a ascenso do nacional-       comeou a reviver, em grande parte  custa do
socialismo e a transformao do KPD em par-        Partido Comunista. Mas continuou fora do po-
tido stalinista (ver COMUNISMO). Durante o pe-     der at a presidncia de Franois Mitterand, em
rodo nazista membros de ambos os partidos         1981.
foram perseguidos e muitos de seus adeptos             A Sucia,  claro, tem sido considerada des-
acabaram sendo mortos ou encarcerados. Re-         de longa data um estado social-democrata
constitudo depois da Segunda Guerra Mundial,      exemplar, representando a "terceira" via, ou a
o rejuvenescido SPD abandonou oficialmente         do meio, fundada em 1899 sob a liderana de
at mesmo uma verso diluda do marxismo em        Hjalmar Branting (um marxista razoavelmente
seu congresso de Bad Godesberg, em 1959,           ortodoxo que se tornou o primeiro premier so-
aceitando um liberalizado sistema de mercado.      cialista), o Partido Social-Democrata conso-
Hoje em dia o SPD defende essencialmente a         lidou-se rapidamente como importante fora
livre concorrncia econmica, mas em uma           poltica.  semelhana da social-democracia
economia de "mercado social", e rejeita, de        alem, a sua posio original era a extrema
modo geral, a propriedade dos meios de produ-      esquerda, mas foi o principal responsvel pelo
o pelo estado (Lipset, 1990).                    estabelecimento do neutralismo permanente da
    Um dos problemas ao se examinar a social-      Sucia. Apesar de ter sido favoravelmente in-
democracia  que a maioria dos partidos so-        fluenciado pela Revoluo Russa, sucessivos
ciais-democratas usa rtulos socialistas. Na       governos sociais-democratas (sofrendo apenas
Frana, por exemplo, os socialistas realizaram     breves interrupes a partir da dcada de 30)
esforos determinados para evitar a social-de-     preferiram o pragmatismo  ideologia e o cres-
mocracia, preferindo a ascendncia revolucio-      cimento  igualdade (uma posio muito forte
nria e a retrica de uma original herana jaco-   sobre essa questo foi adotada na famosa confe-
bina. Sua tendncia "esquerdista" derivou do       rncia de Zimmerwald, em 1915). Uma conse-
marxismo revolucionrio de Jules Guesde, o         qncia  que, embora a Sucia possua de h
qual se opunha ao programa de Paul Brousse,        muito os melhores programas de bem-estar so-
mais reformista ou "possibilista". Onde os so-     cial de qualquer estado moderno, tem o mais
ciais-democratas alemes favoreciam os meios       baixo imposto de renda de pessoa jurdica de
eleitorais para se chegar ao socialismo, alguns    todos os pases da OCDE (Organizao para
socialistas franceses eram favorveis  greve      Cooperao e Desenvolvimento Econmico),
geral, considerada uma arma de reforma pac-       mas tambm taxas muito elevadas de imposto
fica em contraste com a ao revolucionria.       de renda da pessoa fsica, seguridade social e
Proudhonistas, marxistas, blanquistas, gues-       imposto sobre valor adicionado (Lipset, 1990).
destas, sorelianos em sua origem, o caso Drey-    Continua favorecendo programas voltados para
fus de 1894 ajudou a reunir todos esses grupos     a participao de operrios na tomada de de-
socialistas sob a liderana de Jean Jaurs, de     cises industriais, embora estes tenham prova-
modo que em 1903 os socialistas receberam          do ser menos bem-sucedidos do que original-
600 mil votos, elegeram mais de 50 deputados       mente se previa (Tingsten, 1973; Meidnerm
para o Parlamento e possibilitaram a Alexandre     1978; Olsen, 1992).
Millerand tornar-se o primeiro ministro socia-         O Partido Social-Democrata austraco tal-
lista. Os guesdestas dedicaram especial aten-     vez tenha sido mais doutrinrio. Formado em
o  reforma municipal e obtiveram cadeiras       1888, tinha recebido em um perodo de 10 anos
em numerosos conselhos municipais. Depois se       1/3 dos votos depositados e estava com 87
deu a inevitvel ciso entre sociais-democratas    membros no parlamento; e o AUSTROMARXISMO
e comunistas no Congresso de Tours, em 1919.       representou uma alternativa significativa ao LE-
Lon Blum, Jean Longuet e Paul Faure res-          NINISMO. Durante a Primeira Guerra Mundial o
tabeleceram o Partido Socialista em torno do       partido dividiu-se entre Victor Adler, o lder
698   social-democracia


partidrio que favorecia mais o proletariado        cal, finanas pblicas, poltica habitacional, si-
austraco do que o apoio ao proletariado inter-     tuao dos pobres, educao, colonialismo e
nacional, e seu filho Friedrich, que assumiu        outras matrias similares (ver SOCIALISMO FABIA-
uma ativa posio antiguerra. Depois da guerra,     NO). Influenciaram de modo significativo a po-
os sociais-democratas chegaram ao poder em          ltica do Partido Trabalhista, e o programa sobre
vrias cidades importantes e Viena, em espe-        Trabalhismo e Nova Ordem Social, publicado
cial, tornou-se uma vitrine de programas extre-     logo aps o trmino da Primeira Guerra Mun-
mamente bem-sucedidos em educao, sade            dial, forneceu um quadro de referncia bsico
pblica, fornecimento de instalaes para ativi-    que se manteve fundamentalmente inalterado
dades recreativas e novos projetos habitacio-       at data relativamente recente. Grande parte
nais para a classe operria. Na dcada de 20, era   desse programa foi convertido em lei, incluindo
o maior partido de oposio e, depois da Segun-     o salrio mnimo nacional, a nacionalizao das
da Guerra Mundial, tornou-se o mais poderoso        minas, estradas de ferro, servios de utilidade
partido nacional.                                   pblica e seguros, a redistribuio de exce-
    A Unio Social-Democrata holandesa foi          dentes para o bem comum e um imposto de
formada em 1878 sob a liderana de Romela           renda acentuadamente progressivo.
Nieuwenhuis que, em 1888, foi eleita para os            Linhas menos significativas incluram a Li-
Estados Gerais. O partido registrou um cons-        ga Socialista de William Morris, semi-anar-
tante sucesso, com a filiao que galgou de 13      quista, e a Federao Social-Democrata de
mil votantes e trs representantes parlamentares    H.M. Hyndman, organizao marxista fundada
em 1897 para 144 mil votantes e 19 repre-           em 1885 cujo objetivo era a propriedade cole-
sentantes parlamentares um ano depois, mas o        tiva dos meios de produo, um estado demo-
partido se recusou a integrar um governo de         crtico e a igualdade social e econmica entre
coalizo alegando que isso significaria um          os sexos; entre os seus membros estava Eleanor,
compromisso com o capitalismo. Depois da            a filha de Karl Marx (Beer, 1948).
Segunda Guerra Mundial a social-democracia              Desde a sua primeira coalizo parlamentar
holandesa foi responsvel por to requintados       de 1906 com os liberais, a "Lib-Lab", o Partido
programas de bem-estar social e se preocupou        Trabalhista foi, comparado com os sociais-de-
a tal ponto com os menos favorecidos que hoje       mocratas europeus, eminentemente prtico e
em dia a Holanda (mais que a Sucia) poderia        pragmtico, em vez de doutrinrio e ideolgico.
ser considerada o estado social-democrata pro-      Teve um desempenho um tanto melanclico
totpico.                                           antes da Segunda Guerra Mundial, tendo che-
    O Partido Trabalhista britnico  um caso       gado pela primeira vez ao poder com Ramsay
diferente e um pouco mais complicado. Suas          MacDonald na "eleio cqui" de 1924. Mas
origens diferem substancialmente das dos par-       depois da guerra a social-democracia consoli-
tidos sociais-democratas europeus. Alguns s        dou-se com tanto xito que sucessivos governos
vem no autntico radicalismo evanglico do         conservadores foram incapazes de alterar a si-
sculo XVII (os Levellers, ou niveladores, os       tuao, at a implantao do programa de pri-
Diggers, ou cavadores), outros nos movimentos       vatizao e devoluo do governo Thatcher, na
owenista, cartista e capelista. Sua organizao     dcada de 80. De 1975 em diante, a polarizao
mais nitidamente de classe trabalhadora foi o       poltica entre esquerda e direta intensificou-se
Partido Trabalhista Independente, sob a lide-       no seio do Partido Trabalhista, culminando em
rana de Keir Hardie, que teve nos mineiros de      1981 em um dissidente Partido Social-Demo-
carvo a maior parte do seu apoio original. Em      crata que formou aliana com o Partido Liberal.
um sentido concreto, contudo, a moderna so-         Depois de alguns xitos iniciais, contudo, esse
cial-democracia britnica est mais bem con-        partido declinou sem ter estabelecido uma nti-
substanciada na Sociedade Fabiana. Fundada          da base de poder, tornando-se mais um partido
em 1883 e no filiada oficialmente a partido        da mdia do que qualquer outra coisa (Pridham,
algum, seus membros desempenharam um pa-            1988, p.229-56).
pel poltico sem paralelo. Os documentos pro-           Alguns antigos partidos comunistas na Eu-
gramticos que publicaram em considervel           ropa Oriental seguiram o exemplo dos comu-
nmero basearam-se em extensa pesquisa em-          nistas italianos e espanhis que, depois de se
prica sobre condies fabris, administrao lo-    terem tornado eurocomunistas, aderiram  so-
                                                                                           socialismo   699


cial-democracia. Em ntido contraste com os                    Na Europa continental, o MARXISMO era
Estados Unidos, onde declinou constantemente               o principal alicerce intelectual do socialismo,
depois de 1912 (Weinstein, 1967), a social-de-             combinando uma teoria da sociedade que expli-
mocracia tem sido extremamente importante na               cava o desenvolvimento do CAPITALISMO mo-
Austrlia e no Canad ocidental. Na Rssia,                derno, a diviso da sociedade em duas classes
depois de ser a principal influncia radical antes         principais e o surgimento e crescimento do
da diviso entre bolcheviques e mencheviques,              prprio movimento socialista com uma doutri-
a social-democracia foi eliminada depois de                na sociopoltica a respeito da organizao, ob-
1922. Que futuro a aguarda no atual caos da                jetivos e tticas dos partidos socialistas. Em
Europa Oriental e da ex-Unio Sovitica  algo             outros lugares, porm, e em especial na Gr-
difcil de prever.                                         Bretanha e nos Estados Unidos, o marxismo
    Embora no haja uma experincia social-de-             teve menos influncia, e concepes alternati-
mocrtica definitiva, com o seu movimento em               vas de socialismo foram formuladas, por exem-
direo ao centro do espectro poltico, a social-          plo, pela Sociedade Fabiana (1889, ver Shaw,
democracia, produto de uma longa evoluo                  org., 1931). No obstante, havia elementos co-
poltica no radicalismo europeu, universalizou-            muns em todas as verses do pensamento so-
se agora como a principal alternativa ao Estado            cialista: oposio ao individualismo capitalista,
de Bem-Estar.                                              consubstanciada na prpria palavra "socialis-
                                                           ta", a qual enfatizava a comunidade e o bem-es-
Leitura sugerida: Braunthal, J. 1961, 1963 (1966, 1967):   tar da sociedade como um todo; um compro-
History of the International 1864-1914, 2 vols.            misso com a igualdade e com a idia de uma
Gould, C.C. 1980: Rethinking Democracy: Freedom            futura "sociedade sem classes"; e uma confir-
and Social Cooperation in Politics, Economy, and So-       mao do carter do movimento socialista co-
ciety  Guttsman, W.L. 1981: The German Social De-
mocratic Party, 1875-1933  Harrington, M. 1989: The        mo continuao do movimento democrtico
New Left: the History of the Future  Judt, T. 1986:        dos sculos XVIII e XIX. Com efeito, todos os
Marxism and the French Left  Lindblom, C.E. 1977:          partidos europeus estiveram particularmente
Politics and Markets  Meidner, Rudolf 1978: Em-            ativos nas campanhas pelo sufrgio universal,
ployee Investment Funds: an Approach to Collective         para cuja conquista colaboraram de forma de-
Capital Formation  Miliband, R. 1989: Divided So-          cisiva, e alguns deles adotaram o nome "social-
cieties: Class Struggle in Contemporary Capitalism         democrata" a fim de expressar seu propsito de
 Offe, C. 1976: Industry and Inequality  Olsen, Greg
1992: The Struggle for Economic Democracy in Sweden
                                                           ir alm da democracia social para estabelecer a
 Panitch, L. 1976: Social Democracy and Industrial
                                                           democracia econmica e industrial.
Militancy  Pelinka, A. 1983: Social Democratic Par-            No comeo do sculo XX, contudo, com o
ties in Europe  Ross, G., Hoffman, S. e Malzacher,         desenvolvimento contnuo do capitalismo, ma-
S. 1987: The Mitterand Experiment  Schumpeter, J.          nifestara-se uma diversidade maior de idias
1942 (1987): Capitalism, Socialism and Democracy           socialistas em vrios pases. Nos partidos mar-
 Tingsten, Herbert 1973: The Swedish Social Demo-
                                                           xistas europeus, deflagrou-se uma viva contro-
crats  Weinstein, James 1967: The Decline of Socia-
lism in America, 1912-1925.
                                                           vrsia em torno do REVISIONISMO, em decor-
                                                           rncia da publicao do estudo de Bernstein
                                      DAVID E. APTER
                                                           (1899) em que este sustentava que o desenvol-
                                                           vimento recente do capitalismo tornava neces-
socialismo As idias socialistas, em vrias                sria uma reavaliao da teoria de Marx no
formas, expressaram-se em sculos anteriores,              tocante s crises econmicas,  polarizao de
mas o socialismo como doutrina e movimento                 classes e  intensidade do conflito de classes,
caractersticos s apareceu na dcada de 1830,             levando especialmente em conta o crescimento
quando o prprio termo entrou em uso corrente.             das classes mdias e a elevao geral do padro
Logo se propagou rapidamente pela Europa,                  de vida. A diviso de opinio sobre essas ques-
sobretudo depois das revolues de 1848, e no              tes resultou, no devido tempo, em uma dife-
final do sculo grandes partidos socialistas j            renciao de duas tendncias principais, rotula-
se tinham desenvolvido em numerosos pases,                das de "reformista" e "revolucionria" (se bem
mormente na Alemanha e na ustria, ao mesmo                que houvesse tambm alguns "centristas", re-
tempo em que o pensamento socialista era lar-              presentados sobretudo por Kautsky e os aus-
gamente difundido em todo o mundo.                         tromarxistas), as quais ficaram anda mais cla-
700   socialismo


ramente marcadas depois do surgimento do             deres bolcheviques que tinham srias dvidas
bolchevismo como tendncia distinta no Se-           sobre se essa sociedade poderia ter xito sem
gundo Congresso do Partido Social-Democrata          uma revoluo em um ou mais dos pases capi-
Trabalhista russo em 1903. Na Gr-Bretanha,          talistas desenvolvidos) ou pelos socialistas de
prevaleceu uma doutrina socialista principal-        modo geral: um pas primordialmente agrrio
mente reformista e gradualista, fortemente in-       com uma classe trabalhadora industrial muito
fluenciada por idias fabianas, quando o Partido     pequena e um vasto campesinato; devastado
Trabalhista (que no comeo se denominava Co-         pela guerra, por uma prolongada guerra civil e
mit de Representao Trabalhista) foi fundado       pela interveno estrangeira; carente de uma
em 1900, ao passo que nos Estados Unidos o           burocracia eficiente ou da experincia de ins-
movimento socialista nunca se estabeleceu co-        tituies democrticas; e cercado de estados
mo fora poltica importante (Sombart, 1906),        hostis. A necessidade mais imperiosa era de
atingindo o seu ponto culminante com a vota-         reconstruo econmica e rpida industria-
o obtida pelo Partido Socialista da Amrica        lizao, que veio a ser identificada com socia-
na eleio presidencial de 1912 e declinando         lismo. Essas condies, somadas a algumas
continuamente da por diante (Weinstein, 1967;       tradies do Partido Bolchevique, forneceram
Laslett e Lipset, 1974).                             campo frtil para o surgimento de uma ditadura
    A Primeira Guerra Mundial teve um efeito         e de um sistema totalitrio, que Stalin final-
profundo sobre o movimento socialista como           mente implementou em uma forma extrema.
um todo. O internacionalismo tinha sido uma              O desenvolvimento ulterior de uma econo-
caracterstica central da doutrina socialista, so-   mia socialista na Unio Sovitica, com planifi-
bretudo depois de fundada a Primeira Interna-        cao altamente centralizada e ampla proprie-
cional (Associao Internacional de Trabalha-        dade pblica, tambm suscitou questes, que os
dores) em 1864, e no final do sculo, diante da      socialistas haviam em grande parte negligen-
crescente ameaa de guerra entre as maiores          ciado, sobre se tal economia poderia, na reali-
potncias imperialistas, os partidos socialistas     dade, funcionar eficazmente na prtica; e essas
se haviam tornado tambm antimilitaristas.           questes foram centrais no debate sobre clculo
Quando eclodiu a guerra, contudo, a maioria          socialista (ver SOCIALISTA, CLCULO) nas dca-
dos partidos europeus foi engolfada pela onda        das de 20 e 30. Durante os anos 30, contudo, a
avassaladora de fervor nacionalista, estimulada      controvrsia acabou sendo ofuscada pela indus-
por seus respectivos governos, embora peque-         trializao da Unio Sovitica, em grande parte
nos grupos minoritrios mantivessem uma pos-         bem-sucedida, o que se refletiu em elevadas
tura antiguerra. Lenin e os bolcheviques, por        taxas de crescimento econmico em uma poca
outro lado, foram vigorosos adversrios da           em que o mundo capitalista estava sofrendo
guerra desde o comeo e, depois da Revoluo         severa depresso; e pela ascenso do fascismo,
Russa de 1917, tornaram-se a principal fora         que constituiu um novo perigo tanto para a
em um movimento socialista revolucionrio            Unio Sovitica quanto para os pases capitalis-
alternativo. A diviso entre esse movimento e        tas democrticos. A prpria Segunda Guerra
os antigos partidos sociais-democratas da Se-        Mundial criou uma atitude mais simptica para
gunda Internacional consolidou-se ento de for-      com a Unio Sovitica como um aliado e im-
ma organizacional com a fundao da Terceira         portante contribuinte,  custa de imensos sacri-
Internacional (Comunista) em 1919 e a criao        fcios, para a derrota da Alemanha nazista; e os
de partidos comunistas distintos em muitos           partidos comunistas do Ocidente beneficiaram-
pases.                                              se dessas mudanas de percepo.
    A partir desse ponto, o desenvolvimento de           No final da guerra a Unio Sovitica emer-
idias e movimentos socialistas foi dominado         giu como a segunda superpotncia industrial e
pela diviso e o antagonismo entre bolchevismo       militar, capaz de impor um sistema totalitrio
e SOCIAL-DEMOCRACIA, que passaram por vrias         nos pases da Europa Oriental e de aumentar
fases e geraram muitos problemas novos. A            substancialmente a sua influncia na poltica
tentativa de estabelecer uma sociedade socialis-     mundial. Em parte como conseqncia dessa
ta na Rssia ocorreu em circunstncias nunca         influncia sovitica, o socialismo tambm se
imaginadas por Marx, pela maioria dos marxis-        tornou uma fora importante em alguns pases
tas subseqentes (incluindo Lenin e outros l-       recm-independentes e em desenvolvimento:
                                                                                    socialismo   701


na ndia e em muitos pases africanos, em uma            O colapso dos regimes bolcheviques a partir
forma principalmente social-democrata; na            de 1990 apagou do mapa poltico e intelectual
China, em uma forma comunista, mas com suas          uma forma de pensamento e prtica socialista
prprias e distintas variaes, incluindo a intro-   que por mais de 70 anos dividiu profundamente
duo ao longo da dcada passada de um sis-          o movimento socialista e, na opinio da maioria
tema econmico mais liberal que tem evitado          dos socialistas, distorceu, de forma a deix-las
alguns dos problemas da economia sovitica,          irreconhecveis, muitas das idias funda-
embora resistindo ainda  democratizao do          mentais do socialismo. Mas esse mesmo colap-
sistema poltico.                                    so props muitas questes novas ao pensamen-
    Na Europa Ocidental, a influncia dos par-       to socialista. Como os regimes bolcheviques
tidos socialistas e, em alguns pases, dos parti-    eram identificados com a ampla propriedade do
dos comunistas tambm aumentou imensa-               estado (como forma especfica de propriedade
mente, e na Gr-Bretanha o governo trabalhista       social) e a planificao central, que a maioria
eleito em 1945 com ampla maioria iniciou a           dos regimes sucessores vem abandonando em
construo de um ESTADO DE BEM-ESTAR,                favor de alguma forma de economia capitalista
ampliando a propriedade pblica e continuan-         (embora sacrificando ao mesmo tempo alguns
do, ao mesmo tempo, com alguns elementos do          dos importantes direitos sociais que eram uma
planejamento do tempo de guerra. Em graus            realizao sumamente positiva de seus prede-
variveis, tais mudanas ocorreram por toda a        cessores), a discusso sobre os princpios bsi-
Europa Ocidental, dando origem a um novo tipo        cos de uma economia socialista vivel (Nove,
de capitalismo de bem-estar social, o qual foi       1983; Breitenbach et al., 1990) tornou-se mais
bem-sucedido durante mais de duas dcadas em         intensa. As crticas anteriores, formuladas no
realizar taxas excepcionalmente elevadas de          debate sobre o "clculo socialista", foram reno-
crescimento econmico, pleno emprego e pa-           vadas (Lavoie, 1985), enquanto que as idias do
                                                     SOCIALISMO DE MERCADO -- envolvendo alguma
dres de vida em constante ascenso.
                                                     combinao de planejamento e mercados e uma
    Essas mudanas do ps-guerra no supera-         economia mista de empresas privadas e pbli-
ram, contudo, a diviso no movimento socialis-       cas --, que despertaram tanto interesse e apoio
ta entre bolcheviques e socialistas democrti-       nas dcadas de 70 e 80 na Europa Ocidental e
cos. Pelo contrrio, embora os regimes bolche-       Oriental, tm sido submetidas a uma inves-
viques se tornassem lentamente menos duros e         tigao mais crtica (Brus e Laski, 1989).
terroristas depois da morte de Stalin, em 1953,          O pensamento socialista atual  assediado,
o monoplio do poder pelos partidos comunis-         pois, por considervel soma de incertezas. Para
tas e as caractersticas bsicas de TOTALITARISMO    alguns pensadores, as antigas idias socialistas
prosseguiram, provocando uma srie de insur-         de uma sociedade igualitria, coletivamente
reies populares nas dcadas de 50 e 60, e          planificada e autodirigida so incrivelmente
movimentos de oposio em grande escala nos          utpicas -- um belo sonho, mas ainda e apenas
anos 80. Os socialistas sociais-democratas con-      um sonho --, na medida em que ignoram as
tinuaram manifestando suas crticas a esses re-      limitaes da natureza humana e realidades
gimes, reafirmando seus pontos de vista de que       como a burocracia, a nsia de poder e a cor-
o socialismo  inseparvel da democracia e de        rupo. As reais possibilidades do socialismo
que s pode ser alcanado atravs de um demo-        esto reduzidas, portanto,  implementao de
crtico e gradual processo de mudana, no qual       um tipo mais avanado de estado de bem-estar,
a criao de um estado de bem-estar representa       dentro de uma economia basicamente capitalis-
uma nova fase na ampliao de uma vasta gama         ta. Esses pensadores tambm observam que o
de direitos sociais a todos os cidados. Essas       crescimento econmico do ps-guerra nos pa-
crticas aos regimes do Leste europeu e  sua        ses capitalistas criou mais prsperas sociedades
ideologia monoltica adotaram uma forma ca-          de consumo de massa e uma estrutura de classes
racterstica na ampla corrente de pensamento         muito diferente, na qual os anteriores conflitos
que passou a ser conhecida como MARXISMO             e antagonismos de classes diminuram subs-
OCIDENTAL, boa parte do qual foi assimilado, em      tancialmente (ver CLASSE), em um processo para
certa medida, pelos movimentos de oposio           o qual Bernstein (1899) talvez s tenha atrado
interna.                                             prematuramente a ateno. Contra esses pontos
702   socialismo de mercado


de vista, outros afirmam que os problemas e             atravs da "mo visvel" do planejamento, a
deficincias fundamentais do capitalismo -- o           qual assegura a plena utilizao de recursos,
carter cclico do desenvolvimento econmico,           especialmente recursos humanos, livres de flu-
com fases de expanso seguidas de depresso e           tuaes cclicas.
desemprego em grande escala, macias des-                   Depois da Revoluo Russa de 1917, qual-
igualdades de riqueza e renda, instabilidade e          quer aplicao do mecanismo de mercado era
incerteza gerais -- ainda persistem e continua-         apresentada nos documentos programticos co-
ro gerando concepes de uma ordem econ-              munistas como apenas uma concesso tempo-
mica e social alternativa na qual tudo isso possa       rria ao subdesenvolvimento (Programa da In-
ser superado. Resta ver se as atuais discordn-         ternacional Comunista, 1929, cap.4). Ao mes-
cias dentro do pensamento e dos movimentos              mo tempo, porm, a ala social-democrata do
socialistas sero finalmente resolvidas em algu-        marxismo comeou a reconhecer a relevn-
ma nova e coerente formulao do socialismo             cia do mercado em uma economia socialista
para o sculo XXI.                                      (Kautsky, 1922).
   Ver tambm LENINISMO.                                    Os debates tericos sobre o socialismo de
                                                        mercado adquiriram nova dimenso no perodo
Leitura sugerida: Brus, Wlodzimicrz e Laski, Kazi-
micrz 1989: From Marx to the Market: Socialism in
                                                        do entre-guerras, especialmente depois da ree-
Search of an Economic System  Cole, G.D.H. 1953-        dio por F.A. Hayek (1935) de um artigo de L.
60: A History of Social Thought, 5 vols.  Kolakowski,   von Mises publicado originalmente em 1920
L. e Hampshire, S. orgs. 1974: The Socialist Idea: a    em que este negava de forma categrica a pos-
Reappraisal  Schumpeter, S.A. 1942 (1987): Capita-      sibilidade de clculo econmico racional no
lism, Socialism and Democracy, 6ed.                    socialismo, pois as relaes de troca entre os
                                  TOM BOTTOMORE         bens de produo e, por conseguinte, os seus
                                                        preos s poderiam ser estabelecidos na base da
socialismo de mercado Em seu sentido pri-               propriedade privada. Entre as muitas tentativas
mrio, trata-se de um conceito terico (modelo)         de refutao desse ponto de vista (Taylor, 1929;
de um sistema econmico em que os meios de              Dickinson, 1933; Landauer, 1931; Heimann,
produo (capital) so de propriedade pblica           1932), provavelmente a mais conhecida  a de
ou coletiva e a alocao de recursos obedece s         Oskar Lange (1936-37). Idias semelhantes ti-
regras do mercado (produto, trabalho e merca-           nham sido desenvolvidas no mesmo perodo
dos de capital). Ao mesmo tempo o termo tem             por Abba Lerner (1934, 1936, 1937), da ser
sido aplicado, de um modo menos preciso, para           freqentemente usada a designao de "soluo
cobrir os projetos de reforma do sistema econ-         Lange-Lerner".
mico nos pases de "socialismo real" (pases                Lange no s negou a validade puramente
comunistas), afastando-se do planejamento de            terica da posio de Mises, assinalando a de-
comando (ver PLANEJAMENTO ECONMICO NA-                 monstrao de Barone (1908) da possibilidade
CIONAL) na direo da regulamentao de mer-            de tratar a questo atravs de um sistema de
cado (Iugoslvia em meados da dcada de 50,             equaes simultneas, mas tentou apresentar
Hungria depois de 1968, China, Polnia, Unio           uma soluo positiva. Esta consistia em um
Sovitica e Bulgria na dcada de 80). Por              procedimento por "tentativa e erro" no qual um
motivos ideolgicos, a designao "socialismo           rgo de planejamento central desempenha as
de mercado" foi, porm, largamente evitada em           funes do mercado onde no existe mercado,
alguns dos pases em questo, com preferncia           no sentido institucional da palavra. Nessa capa-
pela frmula de "mercado socialista", que se            cidade, o rgo de planejamento fixa preos,
pensou ser mais aceitvel para os marxistas.            assim como salrios e taxas de juros, de modo
    A economia poltica de Marx tinha sido              a equilibrar oferta e demanda (por mudanas
interpretada por muito tempo como sustentan-            apropriadas em caso de desequilbrio), e instrui
do que o socialismo era incompatvel com o              os gerentes a seguirem duas regras: (1) minimi-
mercado. O socialismo torna o mercado redun-            zar o custo mdio de produo pelo uso de uma
dante e supera suas deficincias como mecanis-          combinao de fatores que igualariam a produ-
mo de alocao ao expor a natureza social do            tividade marginal do seu valor em unidade mo-
trabalho, atribuindo-lhe diretamente ex ante um         netria; (2) determinar a escala de produo em
determinado papel no processo econmico                 um ponto de igualizao do custo marginal e do
                                                                        socialismo de mercado     703


preo fixado pelo rgo de planejamento cen-        as sistmicas foi elaborado em 1956-57; idias
tral.                                               semelhantes na Hungria foram reprimidas em
    A maioria dos relatos subseqentes do de-       conseqncia da supresso da insurreio po-
bate do entre-guerras reconheceu a validade do      pular de 1956.
argumento terico apresentado por Lange e               A partir de ento uma longa srie de tentati-
aceitou que Hayek retrocedesse  posio de         vas de reformas econmicas -- com diversos
afirmar a impossibilidade prtica de conciliar o    graus de consistncia, mas todas orientadas na
socialismo com o clculo econmico racional.        mesma direo de aumento do papel do merca-
Isso pode ser verdadeiro quando se segue --         do -- ocorreu na Europa Oriental: a Tchecoslo-
como Lange parece ter feito -- o tipo de modelo     vquia em 1958 e em 1967-68; o Novo Sistema
de equilbrio geral esttico conforme desenvol-     Econmico na Repblica Democrtica da
vido por Walras (1954). Entretanto o aspecto        Alemanha em 1963; a chamada "reforma Kos-
sublinhado de modo cada vez mais convincente        siguin" de 1965 na Unio Sovitica e sua imi-
por novos estudiosos do debate do entre-guer-       tao blgara; o Novo Mecanismo Econmico
ras (como Lavoie, 1985)  que o desafio             (NME) hngaro, introduzido em 1968; repeti-
Mises/Hayek  oriundo das posies da ESCOLA        das tentativas de reforma na Polnia. No come-
AUSTRACA DE ECONOMIA, com a nfase nas pro-        o da dcada de 80, porm, de todas essas
priedades dinmicas do processo de competi-         tentativas, somente o NME hngaro se manti-
o, cuja figura central  o empresrio. Isso       nha basicamente operante; nos demais casos, o
deixa sem resposta a questo de os atores eco-      que aconteceu foram meras modificaes se-
nmicos que no so empresrios operando por        cundrias dentro da estrutura do sistema de
sua prpria conta e risco, mas agentes empre-       comando. Por outro lado, a tendncia a mudan-
gados por um rgo pblico, serem realmente         as na direo do mercado persistiu, sob a clara
capazes de ter um comportamento empresarial.        presso de uma progressiva deteriorao do
    Assim, a "soluo competitiva" de Lange         desempenho econmico, a qual atingiu pro-
tinha o mrito de apresentar a idia de uma         pores de crise na maioria dos pases comunis-
alternativa ao planejamento de comando, bem         tas na dcada de 80. Em 1978-79, a China
como de mostrar a indispensabilidade de preos      juntou-se s fileiras reformistas e, a partir de
de escassez para a alocao racional de recursos    1985, a "reforma econmica radical" conver-
sob o socialismo. Ao mesmo tempo, contudo,          teu-se em um dos elementos fundamentais da
no pde fornecer uma base terica adequada         perestroika de Gorbachev na Unio Sovitica.
para a mudana quando reformas orientadas               As razes das dificuldades em executar re-
para o mercado foram colocadas na agenda            formas econmicas orientadas para o mercado
prtica em pases de "socialismo real".             so vistas (Brus, 1979) como: (1) resistncia
    A primeira tentativa de aplicar na prtica as   poltica da elite dominante; (2) interesses egos-
idias de socialismo de mercado aconteceu no        tas do aparelho administrativo, assim como de
comeo da dcada de 50 na Iugoslvia, depois        alguns setores dos trabalhadores, que podem
do rompimento Stalin-Tito. O Partido Comu-          sentir-se ameaados na segurana de seus em-
nista iugoslavo buscava maior eficcia econ-       pregos; (3) obstculos substantivos para enxer-
mica e, simultaneamente, legitimidade ideol-       tar um mecanismo de mercado nas estruturas
gica em face do stalinismo. Esta ltima foi         existentes de planificao e gerncia, direitos
encontrada na autogesto e, como as unidades        de propriedade e monoplio do poder do parti-
econmicas autogeridas devem ser autnomas,         do comunista. Disso resulta que pases que
isso provocou o processo de substituio do         fizeram alguns progressos no processo de refor-
sistema de comando pela coordenao do mer-         ma (Iugoslvia, Polnia, Hungria) encontram-
cado, embora esta no fosse conduzida de modo       se no s em dificuldades econmicas piores do
consistente.                                        que as daqueles (Tchecoslovquia, Alemanha
    Nos pases do bloco sovitico, o principal      Oriental) que no abandonaram o antigo sis-
motivo para o impulso de reforma foi a insatis-     tema (embora fatores no-sistmicos devem ser
fao com o desempenho da economia de co-           levados em conta em quaisquer comparaes),
mando quando esta passou a ser abertamente          mas tambm no conseguiram, em realidade,
discutida depois da morte de Stalin. Na Polnia,    transpor o limiar entre coordenao adminis-
um plano relativamente abrangente de mudan-         trativa e coordenao de mercado da economia.
704   socialismo de mercado


A esse respeito, o exame do NME hngaro                 Esse desenvolvimento conceitual e, em cer-
levou  concluso de que, apesar da abolio        ta medida, prtico apresentou com renovada
das metas obrigatrias de produo e alocao       fora a questo da ligao entre transformaes
fsica de bens de produtos, o efeito global da      econmicas e polticas. Por um lado, a merca-
reforma, em meados da dcada de 80, consistiu       dizao, ao envolver maior liberdade de inicia-
meramente na mudana da "coordenao buro-          tiva, sobretudo quando acompanhada por mu-
crtica" direta para indireta (Kornai, 1986).       danas de propriedade, aumentou as aspiraes
    A experincia parece ter comprovado a ina-      polticas das pessoas, que se sentiram menos
dequao dos anteriores modelos de reforma,         subjugadas ao onipresente e tentacular estado.
baseados na idia de combinar a planificao        Por outro lado, em vista da resistncia das elites
central com um "mercado regulamentado" que          dominantes e suas camadas de sustentao, o
limitava a regulamentao principalmente ao         pluralismo poltico tornou-se instrumento in-
mercado de produto (Brus, 1961), assim como         dispensvel para efetuar a transio do antigo
na aceitao da posio dominante da proprie-       para o novo sistema econmico, assim como
dade pelo estado dos meios de produo. No          para preservar a existncia deste ltimo. Uma
decorrer da dcada de 80 os projetos de mudan-      negao dessa ligao, baseada em exemplos
a orientada para o mercado em pases co-           de economias de mercado bem-sucedidas com
munistas sofreu acentuada radicalizao: a ne-      regimes polticos autoritrios (como alguns dos
cessidade de um mercado de capitais, na forma       "pases recm-industrializados" da sia), foi
tanto de bancos comerciais quanto de negocia-       rejeitada pelos reformadores em pases comu-
o de ttulos, foi amplamente reconhecida          nistas por no reconhecer a verdadeira natureza
(Tardos, 1986; Lipowski, 1988), assim como a        dos problemas que estavam enfrentando.
necessidade de um mercado de trabalho, embo-            A busca sistemtica do socialismo de mer-
                                                    cado -- mercados de capital e de trabalho,
ra, por vezes, no abertamente com esse nome.
                                                    reestruturao da propriedade, pluralismo pol-
Alm disso, o sucesso de uma reforma econ-
                                                    tico -- pode ser considerada uma forma de
mica orientada para o mercado tornou-se es-
                                                    encobrir as habituais distines entre capitalis-
treitamente vinculado  transformao funda-
                                                    mo e socialismo e, por conseguinte, de negar ao
mental da estrutura de propriedade (Abalkin,        socialismo o carter de um sistema obrigatoria-
1988). Um dos fatores que evidentemente con-        mente sucessor do capitalismo (Brus e Laski,
triburam para a reconsiderao da questo          1989). Isso no equivale necessariamente ao
da propriedade foi a experincia de resultados      abandono dos objetivos polticos bsicos do
muito mais favorveis de reformas sistmicas        socialismo -- pleno emprego, igualdade de
fora do setor estatal (cooperativas, empresa pri-   oportunidade, assistncia social --, como tam-
vada) na Hungria e, em especial, o espetacular      pouco da interveno do governo como mtodo
sucesso inicial da "responsabilidade de produ-      para realiz-los. O que parece subentender, po-
o familiar" na agricultura chinesa. O reco-       rm,  o abandono do conceito de socialismo
nhecimento da necessidade de uma mudana            como um grandioso projeto que requer a total
profunda na estrutura da propriedade refletiu-      substituio do quadro de referncia institucio-
se, no final da dcada de 80, em uma srie de       nal do passado. Em outras palavras: abandono
medidas jurdicas em vrios pases comunistas.      da filosofia da ruptura revolucionria em favor
Na Unio Sovitica, houve a legislao acerca       da continuidade da mudana. Desse ponto de
de arenda (arrendamento) de terras, edifcios e     vista, pode-se dizer que o socialismo de merca-
equipamentos com a inteno de manter a po-         do como objetivo de transformao consistente
sio do estado como proprietrio livre e alo-      dos pases de "socialismo real" possui certas
dial, mas abrindo o caminho para o empresaria-      caractersticas comuns com o socialismo de
do a coletividade de trabalhadores, parcerias ou    mercado tal como percebido por alguns parti-
at indivduos. Em alguns outros pases (Pol-      dos sociais-democratas ocidentais (ver tambm
nia, Hungria), foi adotado o princpio de uma       SOCIAL-DEMOCRACIA), incluindo o Partido Tra-
economia mista, com a inteno de que empre-        balhista britnico (Sociedade Fabiana, 1986, e
sas estatais, cooperativas e empresas privadas      ver SOCIALISMO FABIANO); mas qualquer analo-
(estas ltimas sem limitaes de tamanho e          gia deve ser conjectural, reconhecendo as dife-
emprego) concorressem em termos iguais.             renas na posio inicial e as condies profun-
                                                                                   socialista, clculo   705


damente diferentes de luta para se alcanar o           mocraticamente responsveis, compostas pelos
objetivo desejado, assim como as implicaes            mais capazes, enquanto que as elites do capita-
ideolgicas.                                            lismo foram compostas apenas pelos mais ricos.
                                                        Costumava haver aqui um elevado tom moral,
Leitura sugerida: Brus, W. 1961 (1972): The Market      louvando a dedicao asctica do profissional
in a Socialist Economy  1979: "East European econo-
mic reforms: what happened to them?". Soviet Studies    e desprezando com ares condescendentes o
31.2  Brus, Wlodzimierz e Laski, Kazimierz 1989:        "homem de senso mediano". A alta responsabi-
From Marx to the Market: Socialism in Search of an      lidade atribuda  inteligncia instruda na po-
Economic System  Fabian Society 1986: Market So-        ltica nacional seria exportada, no fabianismo,
cialism: Whose Choice? A Debate, panfleto 516           para se tornar uma defesa do direito e dever das
 Hayek, F.A., org. 1935: Collectivist Economic Plan-
                                                        naes industriais avanadas da Europa Oci-
ning  Kornai, J. 1986: "The Hungarian reform process:
vision, hopes and reality". Journal of Economic Lite-   dental de administrar as partes menos desenvol-
rature, dezembro  Lange, Oskar e Taylor, F.M. 1938      vidas do mundo e traz-las para as mesmas
(1964): On the Economic Theory of Socialism  Lavoie,    alturas socialistas que deveriam ser atingidas no
D. 1985: Rivalry and Central Planning: the Socialist    plano domstico.
Calculation Debate Reconsidered.                            O fabianismo encarava a democracia como
                                            W. BRUS     o exerccio da funo poltica do povo como um
                                                        todo, em sua categoria universal de consumi-
socialismo fabiano Esta expresso identifi-             dores. Dentro dessa estrutura, os indivduos
ca uma defesa no tanto da convenincia moral           participariam em seus variados papis como
do socialismo quanto de seu status como a               cidados, operrios e assim por diante, con-
seqncia lgica e histrica dos princpios j          tribuindo, atravs de seus esforos, para o bem
visveis na direo existente de governo e pol-        comum, do qual se beneficiariam. Formas de
tica. O socialismo viria a ser uma extenso da          poder popular direto, tais como plebiscitos ou
democracia, da esfera poltica para as esferas          iniciativas legislativas, eram condenadas como
social e econmica, e foi assim resumido na             promotoras da descontinuidade e da irraciona-
expresso SOCIAL-DEMOCRACIA. Essa viso do              lidade, e o que era considerado como o autogo-
socialismo foi desenvolvida pela Fabian Socie-          verno setorial e potencialmente egosta de gru-
ty (Sociedade Fabiana) e, em particular, por            pos organizados na base da produo, em varia-
seus trs membros principais, Beatrice Webb,            das formas de controle operrio, foi contestado
Sidney Webb e George Bernard Shaw, entre                como incompatvel com a democracia. A nfase
1884 e a deflagrao da Segunda Guerra Mun-             do fabianismo no coletivo e no pblico levou-o
dial.                                                   a ignorar problemas como a natureza do traba-
    A sociedade deveria ser organizada de forma         lho ou as divises de gnero.
coletiva, para o bem geral, pelo estado, em
                                                        Leitura sugerida: McBriar, A.M. 1966: Fabian Socia-
mbito nacional e local, agindo em benefcio de         lism and English Politics 1884-1914  McKenzie, N. e
um povo com plena franquia. A expectativa e o           McKenzie, J. 1977: The First Fabians  Pimlott, B.,
mtodo fabianos caractersticos eram resumi-            org. 1984: Fabian Essays in Socialist Thought  Shaw,
dos na expresso "a inevitabilidade do gradua-          G.B., org. 1889 (1931, 1962): Fabian Essays in Socia-
lismo". Crticos do fabianismo ativeram-se             lism  Webb, Sidney e Webb, Beatrice 1920: A Cons-
segunda parte da expresso, mas a primeira era          titution for the Socialist Commonwealth of Great Bri-
                                                        tain.
igualmente importante. Trabalho rduo, per-
suaso e pesquisa, em vez de guerra de classes,                                            RODNEY BARKER
iriam, lenta mas inevitavelmente, dar continui-
dade ao movimento da sociedade numa direo             socialista, clculo Expresso usada em re-
socialista. No estado fabiano ideal, a intelign-       ferncia s controvrsias das dcadas de 20 e 30
cia instruda desempenharia um papel essen-             sobre se, em uma economia caracterizada por
cial, e seu reconhecimento e uso em um servio          extensa propriedade pblica e planificao cen-
pblico meritocrtico seria uma das caracters-         tral, tal como a que estava sendo construda na
ticas que diferenciaram o socialismo do capita-         Unio Sovitica, seria possvel o clculo eco-
lismo. Longe de as hierarquias do capitalismo           nmico racional. O debate foi iniciado por Lud-
serem substitudas pela igualdade de poder, elas        wig von Mises (1920) ao afirmar que, em uma
seriam refinadas por um sistema de elites de-           economia desenvolvida e complexa, tal clculo
706   socialista, teoria econmica


requer um mercado livre que estabelea o valor       "rivalidade econmica", a qual d preponde-
de troca de todos os bens. A autoridade planifi-     rncia ao estar atento a novas oportunidades, 
cadora em um estado socialista, afirmou ele,         futuridade e  disperso do conhecimento, e
pode determinar quais bens de consumo so            concebe a funo da rivalidade como sendo
mais urgentemente necessrios, mas no pode          dispersar a informao descentralizada e depois
estabelecer uma avaliao precisa dos meios de       orden-la, atravs de preos de mercado, para
produo, pelo que as decises de investimento       realizar a coordenao global da economia.
dependem, quando muito, de "vagas estimati-              O colapso dos regimes comunistas do Leste
vas"; e conclui sucintamente que "onde no           Europeu, no final de 1989, e os problemas
existe mercado livre no existe mecanismo de         econmicos da antiga Unio Sovitica (os quais
fixao de preos; sem um mecanismo de fixa-         tambm foram fortemente afetados, porm, por
o de preos, no existe clculo econmico".        vrios fatores no-econmicos), bem como, em
O argumento foi explorado depois por F.A.            outra direo, as dificuldades econmicas da
Hayek (1935) em um volume de ensaios que             Gr-Bretanha e dos Estados Unidos, em parti-
incluiu o artigo de von Mises e outros.              cular, conferiram nova importncia s questes
    A principal resposta a essa crtica proveio de   levantadas por esse debate, especialmente a
Oskar Lange, com colaboraes de Abba Ler-           respeito do papel do PLANEJAMENTO ECON-
ner e Fred M. Taylor (Lange e Taylor, 1938).         MICO NACIONAL, do MERCADO e da COMPETIO
Dessa vez, Lange defendeu uma forma de SO-           na promoo do desenvolvimento econmico e
CIALISMO DE MERCADO em que haveria um mer-           na difuso de seus custos e benefcios.
cado propriamente dito para bens de consumo
e servios laborais, mas nenhum mercado para         Leitura sugerida: Bottomore, Tom 1990: The Socia-
                                                     list Economy. Theory and Practice  Brus, Wlodzi-
bens de capital e recursos produtivos, com ex-       mierz e Laski, Kazimiers 1989: From Marx to the
ceo da mo-de-obra, cujos preos seriam sim-       Market: Socialism in Search of an Economic System 
plesmente indicadores de alternativas existen-       Hayek, F.A., org. 1935: Collectivist Economic Plan-
tes, fixados para fins contbeis. Depois o debate    ning: Critical Studies on the Possibilities of Socialism
se esgotou no final da dcada de 30, com ambos        1940 (1948): "The competitive solution". In In-

os lados em condies de reivindicar certo grau      dividualism and Economic Order  Lange, Oskar e
                                                     Taylor, F.M. 1938 (1964): On the Economic Theory of
de sucesso. Hayek concedeu que o clculo eco-        Socialism  Lavoie, D. 1985: Rivalry and Central Plan-
nmico racional em uma economia socialista           ning: the Socialist Calculation Debate Reconsidered
planificada no era, em princpio, impossvel,        von Mises, Ludwig 1920 (1935): "Economic calcula-
pelo uso de "preos contbeis", mas manteve          tion in the socialist commonwealth". In Collectivist
que isso era uma impossibilidade prtica em          Economic Planning, org. por F.A. Hayek.
funo da grande massa (em constante mudan-                                              TOM BOTTOMORE
a) de dados envolvidos; ao que Lange respon-
deu expondo um mtodo de estabelecimento de          socialista, teoria econmica No sculo XIX
tais preos por "tentativa e erro". Entretanto       havia duas principais escolas de pensamento a
Hayek (1940) afirmaria mais tarde que o que          respeito de como funcionaria uma economia
ele chamava a "soluo competitiva" para a           socialista. Uma era a dos "socialistas utpicos",
organizao de uma economia socialista havia         como Robert Owen e William Morris, que ten-
abandonado "boa parte da pretenso original de       taram construir elementos detalhados do as-
superioridade da planificao" na medida em          pecto que poderia ter uma nova sociedade, re-
que a sociedade planificada confiaria agora em       correndo  razo e ao princpio socialista. A
grande medida na competio para a direo de        outra era a dos "comunistas", como Karl Marx
suas indstrias.                                     e Friedrich Engels, que evitaram, de modo ge-
    Esse debate, ou pelo menos um aspecto dele,      ral, tais construes e favoreceram um exame
foi reanimado vigorosamente na dcada de 80,         do capitalismo do seu tempo. Ambas as escolas
sobretudo na Gr-Bretanha e nos Estados Uni-         entendiam que uma economia socialista era a
dos, como importante elemento nas doutrinas          que se caracterizava pela propriedade e o con-
sociais e polticas da NOVA DIREITA de exaltao     trole sociais, e no privados, dos meios de pro-
das virtudes da iniciativa privada e dos merca-      duo. Dado que no sculo XIX tal economia
dos livres. O prprio debate original foi reinter-   s existia na teoria e no na prtica, a teoria
pretado (Lavoie, 1985) em termos da noo de         econmica socialista era basicamente especu-
                                                                   socialista, teoria econmica   707


lativa, e Marx chamou de "idealistas utpicos"      seus argumentos. Isso foi feito por Oskar Lange
os que tentaram construir projetos para o socia-    (1936-37), partindo do princpio de que as pes-
lismo, afirmando que este s poderia desenvol-      soas podiam exercer livre escolha no consumo
ver-se a partir de circunstncias histricas pre-   e na profisso, pelo que os mercados de bens de
cisas, as quais no podiam ser vaticinadas de       consumo e os mercados de trabalho funciona-
antemo. Os seus comentrios pessoais acerca        riam livremente. Quanto aos meios de produ-
do socialismo limitaram-se geralmente, primei-      o, Lange desenvolveu um algoritmo interati-
ro, a polmicas que visavam o que ele via como      vo de determinao de preos da seguinte ma-
falsas idias de outros programas polticos; e,     neira: os gerentes das unidades de produo
segundo, observaes feitas no decorrer de sua      seriam instrudos para escolherem a combina-
anlise do capitalismo, as quais enfatizavam        o de insumos que minimizasse o custo mdio
sua transitoriedade histrica, em conjunto com      de qualquer produto dado e para produzirem a
as potencialidades expostas para um desenvol-       quantidade de produto em que o custo marginal
vimento maior das foras produtivas caso as         (a edio aos custos de se produzir uma unidade
relaes privatizadas da produo fossem so-        a mais) igualasse o preo (a edio  receita de
cializadas.                                         se produzir uma unidade a mais). A minimiza-
    Com a revoluo bolchevique de 1917 na          o do custo  o critrio da eficincia tcnica na
Rssia, tais abordagens deixaram de ser sufi-       produo. A formao do preo de custo mar-
cientes. Mas, enquanto a organizao de uma         ginal maximiza o lucro e, na medida em que os
economia socialista passou a ser uma questo        preos medem com preciso os custos de opor-
de importncia prtica, as abordagens para teo-     tunidade (os custos do melhor uso alternativo
rizar a base de tal organizao diferiam de         dos recursos em questo), a formao do preo
acordo com o maior ou menor grau de simpatia        de custo marginal  socialmente eficiente no
pelo projeto socialista e com o maior ou menor      sentido de que nenhum outro uso dos recursos
grau de identificao deste com a organizao       poderia gerar um resultado mais desejvel. Os
da economia sovitica depois de 1917.               preos que formam a base desses clculos se-
    Isso ficou particularmente caracterizado em     riam determinados pelo mercado no caso dos
um importante debate iniciado em 1920 por           insumos de mo-de-obra (labour inputs) e dos
Ludwig von Mises. Sustentou ele que, se os          bens de consumo produzidos (consumer goods
meios de produo deixassem de ser proprie-         outputs), e por um rgo de planejamento cen-
dade privada, passando a ser detidos e contro-      tral (CPB) no caso dos meios de produo, seja
lados coletivamente em algum sentido, ento         como input ou como output. Ou seja, o CPB
no poderia haver mercados em que negoci-          anunciaria um conjunto de preos, os vrios
los, visto que, sem uma atribuio de direitos      clculos seriam executados e as quantidades de
de propriedade a indivduos, comprar e vender       insumos (inputs) e produtos (outputs) determi-
se tornaria impossvel. Por conseguinte, no        nadas e comunicadas ao CBP. Ento, o CBP
poderia haver preos para meios de produo.        elevaria (baixaria) os preos de bens em exces-
Isso, por sua vez, significaria que os custos de    so de demanda (oferta), anunciaria um novo
produo no poderiam ser calculados, e von         conjunto de preos e o procedimento continua-
Mises concluiu que, nessas circunstncias, seria    ria at serem encontrados os preos em que a
impossvel o clculo econmico racional. O          demanda igualasse a oferta para cada artigo.
projeto socialista estava, em princpio, con-       Assim, o argumento de von Mises estava er-
denado em funo da inevitvel falta de crit-      rado, confundindo a determinao do preo por
rios econmicos para uso racional dos meios de      mercados com a determinao de preo (som-
produo, e von Mises interpretou o caos da         bra) implcita nas permutas que esto embuti-
guerra civil na Rssia, nos anos que se seguiram    das em qualquer conjunto de preferncias de
imediatamente  Revoluo, como testemunho          consumo e tecnologias de produo. Como o
em favor do seu argumento.                          CPB imita o (perfeitamente competitivo) me-
    Que von Mises estava errado est implcito      canismo de mercado, a abordagem de Lange
nos primeiros escritos de Vilfredo Pareto e En-     tornou-se conhecida como a "soluo competi-
rico Barone, mas s em meados dos anos 30          tiva". Mas Lange reivindicou vantagens para a
que a teoria que serve de sustentao a esses       sua abordagem sobre a economia livremente
escritos foi explicitamente usada para refutar os   competitiva. Em primeiro lugar, a taxa de inves-
708   socialista, teoria econmica


timento e, portanto, de crescimento seria deter-    produo via taxa de juros e impostos (e subs-
minada socialmente, em lugar da busca anr-         dios, visto que o processo cumulativo tambm
quica de lucro privado, eliminando assim uma        pode funcionar em sentido inverso), seria pre-
importante causa de ciclos alternados de pros-      fervel a alocao direta de fundos de inves-
peridade e depresso no comrcio e na inds-        timento pelo CPB. Isso, porm,  frontalmente
tria. Em segundo lugar, a distribuio de renda     contrrio ao modelo de descentralizao de
no estaria vinculada  desigualdade inerente       Lange. Tal dinmica fazia parte de um argu-
na propriedade (ou excluso) dos meios de           mento mais geral exposto por Dobb (ao refletir
produo, como no capitalismo, mas estaria          sobre a experincia sovitica), segundo o qual
baseada na justia social determinada pelo tra-     uma esttica alocao tima de recursos confli-
balho executado, mais um dividendo social. Em       tar geralmente com os tpicos esforos ps-re-
terceiro lugar, os preos refletiriam verdadeira-   volucionrios para transformar a estrutura s-
mente os custos de oportunidade, permitindo         cio-econmica e realizar aumentos no cresci-
desse modo uma soluo dos problemas am-            mento. Alm disso, o fundamento lgico para
bientais que os preos de mercado, ao refletirem    se usar um mecanismo descentralizado, como
unicamente custos privados, no podiam admi-        no modelo de Lange,  reduzir o peso das
nistrar. E, em quarto lugar, seriam evitados os     responsabilidades do CPB, que de outro modo
desperdcios da competio imperfeita e do          se defrontaria com uma quantidade enorme de
monoplio inerentes ao capitalismo.                 alternativas complicadas; mas Dobb afirmou
    O modelo de Lange de SOCIALISMO DE MER-         que essa era uma descrio deturpada da situa-
CADO no tardou muito a ser criticado tanto pela    o. O CPB no enfrentaria tipicamente um
"direita" quanto pela "esquerda", se bem que        nmero insuportavelmente grande de pequenos
em alguns aspectos as crticas tivessem um          problemas; pelo contrrio, teria de escolher en-
tema comum. Pois enquanto o modelo socialis-        tre um pequeno nmero de alternativas tecno-
ta de mercado se baseava na clssica teoria         lgicas envolvendo requisitos de insumos que
microeconmica da alocao tima de recur-          no estavam sujeitos  variao marginal. Es-
sos, boa parte das crticas concentrava-se em       pecialmente em sociedades que requerem im-
apurar se qualquer descrio razovel da din-      portantes transformaes estruturais em que o
mica poderia ser incorporada nesse quadro de        crescimento econmico tem prioridade, Dobb
referncia esttico.                                concluiu que um mecanismo de planificao
    Pela esquerda, Dobb (1939) ps em dvida        centralizada era provavelmente superior a qual-
se a alocao descentralizada de recursos de        quer variante descentralizada.
investimento era compatvel com a realizao            As mais importantes crticas vindas da direi-
de qualquer taxa de crescimento desejada. Su-       ta foram feitas por F.A. Hayek (1940, 1945).
ponha-se que a oferta de fundos de investimento     Elas gravitam em torno das questes de es-
fosse determinada pela lucratividade da produ-      trutura institucional, carga de informao, din-
o de bens de consumo. Ento, quando as            mica e compatibilidade do incentivo. Em pri-
indstrias de bens de investimento se expan-        meiro lugar, Hayek questionou se as unidades
dem, a oferta de bens de consumo cai, o que         de produo poderiam manter qualquer espcie
empurra seu preo para cima (uma vez que a          de independncia em relao ao centro se hou-
demanda no caiu), o que os torna mais lucra-       vesse fortes preferncias centrais (por exemplo,
tivos, aumentando a taxa de investimento; o         pela maximizao do crescimento) para que
processo cumulativo que se segue tornaria im-       elas atuassem de um modo determinado. E
possvel igualar a demanda e a oferta de fundos     identificou outro problema institucional na falta
de investimento  taxa de juros previamente         de especificidade quanto a quem assumiria a
adotada. A nica sada seria tributar os lucros     responsabilidade pelas conseqncias que se
excessivos das indstrias de bens de consumo;       apresentassem inesperadamente. Em segundo
mas isso exigiria uma diferenciao muito pre-      lugar, se o CPB se comportasse como um mer-
cisa de impostos entre diferentes unidades de       cado perfeito, teria que solucionar milhes de
produo, o que seria, com efeito, muito com-       equaes com milhes de incgnitas, tarefa
plicado para administrar com o requerido grau       computacional to pesada e exigindo tantas
de preciso. Dobb concluiu que, em vez de           informaes precisas que o planejamento eco-
tentar a influncia indireta sobre os gerentes de   nmico racional -- embora possvel em princ-
                                                                  socialista, teoria econmica   709


pio -- seria impossvel na prtica. Com o rpido    tabelecidas as desigualdades de acesso a bens
desenvolvimento recente dos computadores, a         de consumo individual e coletivo, abolidas as
fora desse argumento a respeito da tarefa com-     tradicionais liberdades burguesas (de associa-
putacional  hoje muito menor, obviamente, do       o, expresso, publicao e organizao) e
que era em meados do sculo XX, e o foco das        instalado um vasto aparelho estatal repressivo,
crticas transferiu-se para as dificuldades em      com uma ideologia de emancipao e uma pr-
obter as informaes requeridas como base para      tica de cultivo da opresso. Com as tradicio-
os clculos. Por isso, em terceiro lugar, Hayek     nais aspiraes socialistas convertidas assim
assinalou a ausncia de incentivos para reduzir     em uma piada cruel, a oposio ao status quo
os custos de produo no nvel de fbrica e para    inspirou-se geralmente nos Estados Unidos ou
introduzir inovaes tecnolgicas. E, no que se     no czarismo pr-revolucionrio, sendo por isso
refere ao centro, ps em dvida se qualquer         fcil represent-la como contra-revolucionria.
CPB poderia reagir s mudanas de condies         Mas o sistema econmico estabelecido era ex-
com a rapidez e a preciso exigidas para que o      tremamente ineficiente. A produtividade era
mecanismo funcionasse. Esses argumentos             baixa em relao a outras economias em nveis
acerca da ineficincia econmica do socialismo      semelhantes de desenvolvimento; a formao
estavam embutidos em termos mais gerais a           de filas era uma forma largamente difundida de
respeito da incompatibilidade de qualquer es-       racionamento de bens de consumo em perptua
pcie de planejamento com liberdade indivi-         escassez, limitado sortimento e sofrvel quali-
dual. Mas houve um argumento econmico que          dade; moradia, educao e assistncia  sade
adquiriu crescente importncia com o passar do      eram de um nvel medocre quando aferidas
tempo: no modelo de Lange, nada existia para        pelos padres internacionais; as taxas de inova-
motivar os gerentes de produo a obedecerem        o eram baixas, com longos perodos de ges-
s regras do jogo interativo (preo-sombra) que     tao para os projetos de investimento, de tal
 proposto.                                         modo que os equipamentos j eram freqente-
    Enquanto a "controvrsia socialista" era de-    mente obsoletos na poca em que eram ins-
batida no Ocidente, a Unio Sovitica, depois       talados; e havia predisposies comuns e rid-
de 1929, estava desenvolvendo um sistema de         culas em quantidade e qualidade de produo,
comando hierrquico de planificao altamente       de acordo com as unidades de medio usadas
centralizado (ver PLANEJAMENTO ECONMICO NA-        no plano.
CIONAL). Isso foi interpretado pelos adeptos e          A partir de 1962 permitiu-se que propostas
tambm por alguns adversrios como uma ten-         de reforma fossem abertamente discutidas na
tativa (em condies reconhecidamente adver-        Unio Sovitica. De modo geral, elas envolve-
sas) de pr em prtica princpios marxistas cls-   ram ou mtodos mais sofisticados de coleta e
sicos. Assim, a diviso de trabalho foi regula-     processamento de dados ou a descentralizao
mentada ex ante; os coeficientes de input foram     de reas significativas da tomada de deciso
determinados diretamente; oferta e demanda          para a unidade de produo. Mas poucas refor-
foram igualadas em unidades fsicas; poupan-        mas foram realmente postas em prtica, visto
as e decises de investimento foram centrali-      que grande nmero de grupos, dentro da buro-
zadas; e a distribuio foi determinada de acor-    cracia, tinha interesse especial em defender o
do com ndices salariais centralmente determi-      status quo. Em particular, qualquer descentrali-
nados em conjunto com um dividendo social           zao parcial tendia a opor as unidades de pro-
em espcie (baixo custo de moradia, educao,       duo aos planificadores centrais, desse modo
assistncia mdica etc.). Entretanto, isso era      encorajando a adoo de medidas de recentra-
uma caricatura grosseira do marxismo clssico.      lizao por parte dos planificadores, ansiosos
O sistema implantado por Stalin e sua burocra-      por recuperar o controle que as reformas os
cia administrou um processo de industrializa-       tinham forado a ceder. No incio da dcada de
o que transformou implacavelmente a mo-          80, o desempenho da economia sovitica tinha
de-obra camponesa em operrios fabris na base       piorado acentuadamente, a tal ponto que existia
de uma rplica macia do equipamento de ca-         o reconhecimento geral de que o sistema vi-
pital norte-americano e alemo importado no         gente no poderia continuar, conjugado com o
incio da dcada de 30. Foram impostas as           escasso consenso sobre o que fazer. A intelli-
tradicionais divises de trabalho industrial, es-   gentsia estava advogando a descentralizao
710   socializao


virtualmente completa para uma economia de          negado por Mandel (1986, 1988), por exemplo,
mercado, quer de acordo com o quadro de refe-       outros socialistas encararam de maneira dife-
rncia de Lange, quer de acordo com a orienta-      rente o desafio apresentado pelas reflexes de
o da social-democracia escandinava; os bu-        Nove sobre a experincia sovitica. Apoiando-
rocratas stalinistas estavam relutantes em con-     se em elementos do modelo de Lange, Devine
siderar o desmantelamento de sua prpria razo      (1988) procurou preservar a viso socialis-
de ser; os trabalhadores opunham-se  amplia-       ta atravs de procedimentos de coordenao
o dos diferenciais salariais implcitos em uma    administrada entre diferentes nveis democrati-
dependncia maior em relao s foras do           zados da hierarquia de planejamento, sendo as
mercado; mas todos estavam de acordo sobre a        decises implementadas pelo uso do mecanis-
necessidade de melhorar os padres de vida.         mo de mercado. E Elson (1988) comeou a
Consideraes derivadas do marxismo clssico        teorizar sobre como o prprio mercado podia
praticamente desapareceram no que parecia ser       ser socializado libertando a fora de trabalho do
uma triunfante justificao de tudo o que os        status de mercadoria. As duas tentativas foram
crticos do socialismo vinham dizendo o tempo       motivadas pelo entendimento de que o socialis-
todo.                                               mo de mercado de Lange fornecia poucos dos
    A nica discordncia partiu dos que,  es-      benefcios de planejamento que os socialistas
querda, sempre se haviam oposto ao stalinismo,      tinham tradicionalmente defendido. Embora
sobretudo os de tradio trotskista. A revoluo    permanea o desafio de inserir esses benefcios
socialista em uma economia to atrasada quan-       em um quadro de democracia socialista autn-
to a Rssia de 1917 s poderia ser considerada      tica, o colapso do stalinismo no final da dcada
um projeto vivel, de acordo com os cnones         de 80 e comeos da de 90 forneceu o impulso
clssicos do materialismo histrico, se a revo-     para um pensamento mais criativo do que o que
luo fosse internacionalizada. Com o fracasso      existiu nessa rea durante o meio sculo prece-
desta ltima em 1923, no havia maneira como        dente.
uma economia isolada em um ambiente hostil              Ver tambm SOCIALISTA, CLCULO.
pudesse atingir nveis de produtividade que         Leitura sugerida: Bergson, A. 1966: "Socialist econo-
suplantassem os realizados em uma ordem ca-         mics". In Essays in Normative Economics, cap.9
pitalista internacional. O fato de a ditadura bu-    1967: "Market socialism revisited". Journal of Poli-
rocrtica ter resultado do isolamento da Unio      tical Economy 75, 655-73  Devine, P. 1988: Democra-
Sovitica fora trgico (e fatal para milhes),      cy and Economic Planning  Elson, D. 1988: "Sociali-
mas no viciara o projeto socialista. O que se      zation of the market". New Left Review 172, 3-44 
requeria para a implementao deste ltimo era      Gregory, P.R. e Stuart, R.C. 1986: Soviet Economic
                                                    Structure and Performance, 3ed.  Hayek, F.A. 1940:
a espcie de democratizao revolucionria ana-     "Socialist calculation: the competitive solution". Eco-
lisada por Marx em suas reflexes sobre a Co-       nomics, nova srie, 7, 125-49  1945: "The use of
muna de Paris de 1871 e endossada por Lenin         knowledge in society". American Economic Review
em 1917 em seu Estado e revoluo, junta-           35, 519-30  Lange, O. 1936-7 (1964): "On the econo-
mente com a sua extenso internacional. Mas         mic theory of socialism". In On the Economic Theory
isso era um antema tanto para a burocracia         of Socialism, org. por B.E. Lippincott  Mandel, E.
                                                    1986: "In defence of socialist planning". New Left Re-
sovitica quanto para o capitalismo ocidental.      view 159, 5-38  1988: "The myth of market socia-
    Antema ou no, uma influente polmica          lism". New Left Review 169, 108-21  Nove, A. 1983:
iniciada por Alec Nove (1983) tambm afirmou        The Economics of Feasible Socialism  1987: "Mar-
que essa combinao de planejamento central e       kets and socialism". New Left Review 161, 98-104 
ampla democracia no podia funcionar. As            Nove, A. e Nuti, D.M., orgs. 1972: Socialist Economics
                                                     Trotsky, L. 1937 (1972): The Revolution Betrayed 
razes aduzidas por Nove eram os problemas          Von Mises, Ludwig 1920 (1972): "Economic calcula-
comuns de informao e incentivos. Alm dis-        tion in the socialist commonwealth". In Socialist Eco-
so, ele enfatizou que as ligaes econmicas em     nomics, org. por A. Nove e D.M. Nuti.
um sistema centralmente planejado eram ne-                                                SIMON MOHUN
cessariamente verticais e hierrquicas; somente
as ligaes horizontais estabelecidas por re-       socializao Os processos pelos quais os se-
laes de mercado (qualquer que fosse a manei-      res humanos so induzidos a adotar os padres
ra como fossem regulamentadas) eram compa-          de comportamento, normas, regras e valores do
tveis com a democracia. Embora isso fosse          seu mundo social so denominados socializa-
                                                                                 socializao   711


o. Comeam na infncia e prosseguem ao           assuntos, descries de prticas de puericultura
longo da vida. A socializao  um processo de     em cerca de 300 culturas. Estudos baseados
aprendizagem que se apia, em parte, no ensino     nesse material (como Whitting e Child, 1953)
explcito e, tambm em parte, na aprendizagem      estabeleceram relaes sistemticas entre essas
latente -- ou seja, na absoro inadvertida de     prticas e os sistemas projetivos (religio, cos-
formas consideradas evidentes de relaciona-        mologia) dessas culturas; tambm assinalaram
mento com os outros. Embora estejamos todos        as semelhanas no funcionamento psicolgico
expostos a influncias socializantes, os indiv-   (por exemplo, a disposio para assumir res-
duos variam consideravelmente em sua abertu-       ponsabilidade). Em sociedades complexas,
ra deliberada ou involuntria a elas, desde a      existe considervel variedade na socializao
mudana camalenica em resposta a toda e           primria em vrias subculturas, especialmente
qualquer situao nova at a completa inflexi-     as classes sociais; isso est vinculado a va-
bilidade.                                          riaes sistemticas entre elas, por exemplo, a
    No incio do sculo, o estudo sistemtico      tolerncia especfica de uma classe  frustrao,
desses processos concentrou-se na infncia e na    ou diferenas nas perspectivas temporais.
puberdade. Psiclogos, antroplogos sociais e          Esses estudos demonstram que a socializa-
socilogos foram forados pela natureza do         o primria est inextricavelmente unida 
processo a recorrer a conceitos e abordagens       formao da personalidade, embora se trate de
uns dos outros, mas conservaram seus pontos        processos conceitualmente distintos: a primeira
de vista especficos. Os psiclogos enfatizaram    est interessada na aquisio de padres co-
os processos de interao, em particular as re-    muns, a segunda nas diferenas individuais. A
laes me-filho; os antroplogos sociais con-     combinao dos dois processos levou, a certa
centraram-se na transmisso da cultura em so-      altura,  elaborao de explicaes, hoje rejei-
ciedades pequenas e relativamente homog-          tadas, de diferenas nacionais inteiramente em
neas; e os socilogos estudaram instituies e     termos de socializao primria.
subculturas em sociedades complexas como               Em meados do sculo a influente mas con-
agentes de socializao. As diferentes tradies   trovertida abordagem da socializao de Talcott
intelectuais dessas disciplinas constituem uma     Parsons manteve essa distino em mente ao
das razes pelas quais no existe uma teoria       definir a socializao como o processo pelo
unitria da socializao, embora muitos estudos    qual as pessoas aprendem a cumprir os papis
realizados sob cada rtulo disciplinar fossem,     que lhes so prescritos pelo sistema social. Um
at meados do sculo, muito influenciados pela     componente normativo est implcito no pen-
teoria psicanaltica. Mais recentemente os es-     samento desse autor: a socializao realizada
tudos da socializao expandiram-se para in-       em um dado sistema social  sempre positiva-
cluir processos na idade adulta e so guiados      mente avaliada (Parsons et al., 1955). A esse
por teorias menos globais que utilizam grande      respeito, Robert K. Merton (1949) foi alm de
variedade de abordagens. Outra razo para a        Parsons em sua anlise da ANOMIA: a socializa-
ausncia de uma teoria unificadora  a prpria     o para os objetivos de sucesso dominantes em
amplitude do termo, o qual abrange processos       uma sociedade  disfuncional para a parcela da
to diversos quanto a puericultura, a escolari-    populao a que se negam os meios institucio-
dade (ver tambm EDUCAO E TEORIA SOCIAL),        nais adequados para a obteno desses mesmos
a aquisio de um ethos ocupacional ou profis-     objetivos.
sional, propaganda e lavagem cerebral.                 A dificuldade em distinguir entre formao
    A preponderncia inicial do pensamento         da personalidade e socializao deixa sem res-
psicanaltico levou a uma certa concordncia       posta a questo seguinte: em que medida os
sobre o grande poder da socializao primria      resultados da socializao primria podem ser
na famlia. Em culturas pequenas e isoladas e      desfeitos ou revertidos? Nos casos em que as
em sociedades grandes e complexas, os padres      primeiras influncias resultaram em comporta-
de criao dos filhos so investigados e usados    mento individual ou socialmente destrutivo, as
como explicao para semelhanas no compor-        profisses assistenciais aplicaram sua gama de
tamento social entre pessoas expostas s mes-      mtodos com resultados muito variveis, em
mas prticas. Existe na Universidade de Yale       esforos para reverter hbitos precocemente ad-
um arquivo de culturas que contm, entre outros    quiridos (ver CRIME E TRANSGRESSO). No h
712   socializao da economia


dvida, porm, de que influncias ulteriores         Leitura sugerida: Giddens, A. 1984: The Constitution
podem aumentar o repertrio de comportamen-          of Society  Graumann, G.F., org. 1972: Handbuch der
                                                     Psychologie, vol.7, p.661-1106.
to social de uma pessoa.
    Depois da famlia, as principais agncias                                               MARIE JAHODA
socializantes nas sociedades ocidentais so: a
escola e os grupos de pares, o ingresso na vida      socializao da economia Esta concepo
econmica, a exposio aos veculos de comu-         do desenvolvimento do capitalismo foi delinea-
nicao de massa, o estabelecimento de uma           da em primeiro lugar por Karl Marx nos manus-
famlia e o casamento, a participao na vida        critos dos Grundrisse (1857-58) e no terceiro
comunitria organizada e, finalmente, as con-        volume de O capital (1861-79, publicado em
dies de aposentadoria. Uma vasta quantidade        1894). Nos Grundrisse, Marx relacionou a so-
de estudos tratou da influncia de cada uma          cializao com o rpido progresso da cincia e
dessas agncias. Outros estudos partiram do          da tecnologia e com o advento da produo
produto final da socializao, por exemplo, a        automatizada, afirmando que a criao de ri-
motivao para a realizao pessoal em uma           queza real tinha passado a depender, no do
sociedade competitiva (McClelland, 1961) ou          tempo de trabalho fsico, mas da aplicao da
a identidade de gnero, e procuraram descobrir       cincia  produo, e que nessa transformao
as agncias medidoras que pudessem produzir          reside
tais resultados. Ainda outros estudos observa-          a compreenso da natureza pelo ser humano e o
ram os receptores de presses de socializao           domnio deste sobre ela em virtude de sua existncia
como agentes ativos que efetuam escolhas de-            como entidade social -- em uma palavra, o desen-
                                                        volvimento do indivduo social -- que se apresenta
liberadas. Willis (1977), por exemplo, demons-
                                                        agora como o grande alicerce da produo e da
trou que a resistncia ativa, inteligente e racio-      riqueza.
nal s metas da socializao escolar levou um
grupo de escolares subprivilegiados a contri-            Nesse processo, "o conhecimento social ge-
buir ativamente para a sua socializao em           ral tornou-se uma fora direta de produo" e
empregos no-especializados e insatisfatrios.       "as condies do processo de vida social foram
    Esse estudo e sua interpretao por Anthony      submetidas ao controle do intelecto geral"
Giddens (1984) exemplificam as tendncias            (1857-8, p.704-6). Em O capital (vol.3, caps.
correntes nos estudos de socializao: ocupam-       23 e 27), Marx enfatizou outro aspecto em sua
se predominantemente de adultos e so, com           observao de que o "capital monetrio assume
freqncia, realizados em situaes de trabalho.     um carter social com o crescimento do crdi-
A noo outrora largamente aceita de um pro-         to", enquanto o "mero gerente desempenha to-
cesso todo-poderoso resultante no "homem or-         das as funes reais do capitalista investidor
ganizao"  agora substituda por estudos de        como tal", e concluiu que isso  "a abolio do
processo de interao e conflito entre neces-        modo de produo capitalista dentro da prpria
sidades individuais e presses externas, com a       produo capitalista" (ver tambm MODO DE
finalidade de identificar possveis mudanas na      PRODUO).
agncia socializante, em vez de em indivduos            A concepo de Marx foi mais tarde desen-
(ver Balyn, 1989).                                   volvida por Rudolf Hilferding (1910, p.366), o
    O estudo da socializao e das agncias          qual afirmou que
socializantes relaciona-se com questes con-            o capital financeiro pe cada vez mais o controle da
troversas to importantes nas cincias sociais          produo social nas mos de um reduzido nmero de
quanto a natureza da natureza humana, o debate          grandes associaes capitalistas, separa a gerncia de
natureza/aprendizagem e o lugar dos valores na          produo da propriedade e socializa a produo na
                                                        medida em que isso  possvel sob o capitalismo.
pesquisa social. Nenhuma soma de provas em-
pricas pode resolver, em ltima instncia, essas       Subseqentemente (1927) ele analisou o
perenes questes; mas as provas podem eluci-         "capitalismo organizado" do perodo que se
dar -- e elucidam -- a variedade dos processos       seguiu ao final da Primeira Guerra Mundial
que induzem as pessoas a compartilhar regras e       como uma "economia planejada e intencional-
normas com algumas, mas no com outras. A            mente dirigida", a qual "favorece em muito
socializao  um conceito bsico no enten-          maior grau a possibilidade da ao consciente
dimento da vasta diversidade do mundo social.        da sociedade" atravs do estado. Entretanto no
                                                                                        sociedade      713


foram somente os pensadores marxistas que          o que se pode descrever como o "corporativis-
adotaram essa concepo. J.A. Schumpeter           mo" (Panitch, 1980), caracterizado por um mis-
(1942, p.219), indubitavelmente influenciado       to de produo privada e pblica, regulado por
por Hilferding, assim como por Marx, observou      negociao e acordo entre o estado, as grandes
que grande parte de sua tese sobre o desenvol-     empresas capitalistas e os sindicatos; uma eco-
vimento do capitalismo "pode resumir-se na         nomia de estado totalitria, como a que se im-
proposio marxista de que o processo econ-       plantou na Unio Sovitica e nos pases do
mico tende a socializar a si mesmo".               Leste Europeu; um novo gnero de capitalismo
    Depois da Segunda Guerra Mundial a idia       em que o papel do estado na gesto econmica
de uma socializao gradual da economia rece-      se limita, tanto quanto possvel,  manuteno
beu novo impulso com o acelerado crescimento       das condies favorveis  iniciativa privada,
das grandes empresas, o papel destacado das        ao mesmo tempo em que assegura um nvel
instituies financeiras, uma internacionaliza-    bsico de bem-estar social; e, em pequena es-
o mais completa da economia capitalista e        cala, tentativas (como na Iugoslvia) de combi-
uma nova onda de inovao cientfica e tecno-      nar a planificao central com a autogesto de
lgica, tudo isso acompanhado pelo mais exten-     empresas.
so envolvimento do estado na economia, in-             Assumindo diferentes formas e concebida
cluindo vrias formas de planejamento econ-       de diversos modos no pensamento social, a
mico e um nvel muito mais elevado de gastos       idia de uma progressiva socializao da eco-
sociais nos novos "estados de bem-estar". Em       nomia tambm tem sido rejeitada, ou excluda
grau inteiramente desconhecido em perodos         de considerao, pelos que enfatizam a ao
anteriores, os padres de vida e o bem-estar       individual e a evoluo no-planejada da socie-
geral passaram a depender de verbas pblicas e     dade atravs da experincia acumulada (Hayek,
a ser matria de debate e de polticas pblicos.   1973-9). O que  evidente, em todo o caso, 
Esses desenvolvimentos podiam ser vistos, co-      que nenhum processo de socializao criou at
mo o foram por Schumpeter, como tendentes a        agora, em grande escala, uma conscincia p-
uma economia socialista, e tambm eram com-        blica da economia como empreendimento so-
patveis com concepes mais amplas do que         cial, nem formas de ao que correspondam a
Touraine (1973) chamou a "autoproduo de          tal conscincia, embora talvez isso esteja mu-
sociedade" -- quer dizer, o reconhecimento         dando em conseqncia da crescente preocupa-
consciente de que as sociedades so "o produto     o com o meio ambiente humano.
de suas relaes de trabalho e sociais".
                                                   Leitura sugerida: Habermas, Jrgen 1973 (1976): Le-
    Mas a socializao da prpria economia po-     gitimation Crisis  Hilferding, Rudolf 1927 (1978):
de ter resultados muito diferentes, dependendo     "Die Aufgaben der Sozialdemokratie in der Republik".
do contexto de relaes sociais e de ao pol-    Trad. ingl. em Austro-Marxism, org. por Tom Botto-
tica em que ela tem lugar. Hilferding sustentou    more e Patrick Goode  Panitch, L. 1980: "Recent theo-
que o capitalismo organizado prepara o cami-       rizations of corporatism". British Journal Sociology 31.
nho para uma economia socialista em que as                                             TOM BOTTOMORE
principais decises econmicas seriam toma-
das pelo estado democrtico, enquanto que          sociedade Provavelmente o mais freqente
Schumpeter, ao analisar a "obsolescncia do        uso da palavra , nos dias de hoje, em referncia
empresrio" quando as funes de inovao e         totalidade dos seres humanos na terra, em
deciso esto sendo cada vez mais assumidas        conjunto com suas culturas, instituies, capa-
por uma forma racionalizada e burocrtica de       cidades, idias e valores. Mas uma considervel
gesto, vaticinou o provvel surgimento de um      diversidade de usos chegou at o sculo XX.
sistema socialista em que o controle dos meios     Por exemplo, sociedade animal, sociedade pri-
de produo e o processo de produo estariam      mitiva, sociedade civil, sociedade nacional, so-
nas mos de uma autoridade central. Durante o      ciedade poltica, Sociedade Protetora dos Ani-
sculo XX, contudo, o crescimento das grandes      mais, alta sociedade e assim por diante. H
empresas, a interveno do estado e as tentati-    tambm o uso comum cujo intuito  sublinhar
vas de criao de economias socialistas central-   a oposio entre indivduo e sociedade, o que
mente planificadas produziram tipos muito di-      se reduz, com freqncia, ao conflito entre o
versos de sistemas econmicos. Esto entre eles    gentico e o social ou cultural. O denominador
714   sociedade


comum da maioria dos usos da palavra socie-         coeses e mutualidades interpessoais da socie-
dade  o fato da associao, animal ou humana.      dade familiar, em contraste com as relaes
Existe uma sociedade de amebas, mas no uma         mais vastas, impessoais e heterogneas da ci-
sociedade de rochas.                                dade, da fbrica e de outros laos caractersticos
    No pensamento social do sculo XX dis-          da Grande Sociedade moderna. A busca de
tinguem-se dois usos da palavra. Em um deles,       comunidade que encontramos em to grande
sociedade tem um matiz negativo, at pejorati-      parte do pensamento poltico e social do sculo
vo; no outro, laudatrio. No primeiro, socie-       tem a "sociedade" como sua adversria.
dade  contrastada depreciativamente com CO-            A par do significado pejorativo de "socie-
MUNIDADE. No segundo, sociedade  contrapos-        dade", deparamo-nos com um outro no pensa-
ta ao poder soberano do estado poltico.            mento do sculo XX que focaliza a diferencia-
    O livro de Ferdinand Tnnies Gemeinschaft       o entre ESTADO e sociedade, bem como a
und Gesellschaft, de 1887, traduzido comu-          necessidade vital de manter esta ltima to livre
mente como Comunidade e sociedade, baseou-          quanto possvel das invases pelo estado, no
se no primeiro uso. Comunidade representa           interesse da liberdade tanto do indivduo quanto
relaes estreitas e coesas, enraizadas na fam-    do grupo social. Nos escritos dos pluralistas,
lia, no lugar e na tradio. Sociedade, por outro   desde Johannes Althusius at Maitland e J.N.
lado, subentende relaes de carter prepon-        Figgis, o problema da liberdade tem sido for-
derantemente econmico e contratual, indeter-       mulado, em primeiro lugar, em termos das re-
minadas, impessoais, geralmente urbanas, do-        laes entre estado e sociedade -- em que esta
tadas de mobilidade, mas tambm individualis-       ltima palavra consubstancia especialmente as
tas. A distino entre comunidade e sociedade,      associaes e os grupos menores na ordem
tal como feita por Tnnies e outros,  mais que     social -- e s secundariamente em termos do
classificatria;  tambm a base de uma tipolo-     indivduo contra o estado. Escreveu Figgis em
gia histrica e do desenvolvimento. Tnnies, sir    1911: "Est cada vez mais claro que a mera
Henry Maine, Fustel de Coulanges, Graham            liberdade do indivduo contra um Estado oni-
Wallas, John Dewey e Walter Lippman apre-           potente pode no ser muito melhor do que
sentaram todos a sociedade ocidental em ter-        escravatura;  cada vez mais evidente que a
mos da crise envolvida na ampla substituio        verdadeira questo da liberdade em nossos dias
dos antigos e tradicionais vnculos comunit-        o problema da vida de unies menores dentro
rios pelos novos, mais impessoais e segmenta-       do Estado."
dos vnculos da democracia de massa, industrial         Quando o totalitarismo irrompeu estrepito-
e urbana, e pelo individualismo secular. Em The     samente em cena no sculo XX, desafiando
Great Society (livro dedicado por seu autor,        expresses mais antigas de despotismo, monar-
Graham Wallas, ao jovem americano Walter            quia ou ditadura, autores como Ortega y Gasset,
Lippman), fez-se um contraste odioso entre a        Hermann Rauschning, Emil Lederer e, um pou-
comunidade e a "grande sociedade", indicando-       co mais tarde, e de modo definitivo, Hannah
se que a ltima continha as sementes do colapso     Arendt, enxergaram a essncia do estado total
ou eroso social por causa de sua falta de vn-     na absoro pelo estado poltico, em seu prprio
culos sociais profunda e intimamente sentidos.      poder soberano, de todas as autoridades que
    Nos Estados Unidos, John Dewey, em The          compem a sociedade, como famlia, igreja,
Public and its Problems (1927), na esteira de       comunidade local, sindicato etc. Vale destacar
Wallas, escreveu: "O nosso interesse, neste mo-     que Edmund Burke, em certa medida, e Alexis
mento,  expor o modo como a idade da mqui-        de Tocqueville, de modo mais abrangente, an-
na, ao desenvolver a Grande Sociedade, invadiu      teviram quase nesses mesmos termos as poten-
e parcialmente desintegrou as pequenas comu-        cialidades despticas da democracia popular;
nidades de pocas passadas sem gerar uma            ou seja, a progressiva absoro pelo estado da
Grande Comunidade." Esse foi o poderoso te-         sociedade em suas formas tradicionais. Talvez
ma em obras literrias e filosficas do sculo      o mais famoso captulo de A democracia na
XX, comeando com especial vigor imediata-          Amrica, de Tocqueville, seja "Que espcie de
mente depois da Primeira Guerra Mundial. O          despotismo as naes democrticas tm que
pensamento utpico do sculo XX adotou de           temer?" A sua resposta: a lenta e implacvel
forma irresistvel o caminho da celebrao das      burocratizao da existncia humana atravs da
                                                                                  sociedade aberta    715


substituio do estado e, depois, assimilao de        pblicos, em que h liberdade para viajar, em
todas as autoridades sociais.                           que as restries ao comrcio com outros pases
    No momento atual, quando o totalitarismo            so mnimas e em que a finalidade da educao
comunista deu provas de inexorvel recuo na              transmitir conhecimentos em vez de imbuir
antiga Unio Sovitica e em pases do Leste             doutrinas sectrias. Durante muito tempo a
Europeu como Polnia, Hungria, ex-Alemanha              Unio Sovitica sintetizou a anttese de uma
Oriental e Tchecoslovquia, a idia de socie-           sociedade aberta, mas, sob a poltica de
dade, ou de sociedade civil, ganhou evidncia.          glasnost, os pases que a substituram parecem
So naes em que, sob os auspcios do socia-           estar se afastando desse extremo negativo.
lismo ou do comunismo, a sociedade -- in-                   O termo "sociedade aberta" (assim como o
cluindo economia, educao, igreja, famlia e           seu antnimo, "sociedade fechada") obteve am-
outras unidades componentes -- foi calculada-           pla aceitao por causa de um famoso livro de
mente enfraquecida, ou at destruda por vezes.         Karl Popper [A sociedade aberta e seus inimi-
A pergunta do momento  esta: podem os pases           gos] (1945). Como ele prprio reconheceu, esse
da Europa Oriental e os da antiga Unio Sovi-          par de vocbulos tinha sido apresentado antes
tica despojar-se a tal ponto do poder poltico          por Henri Bergson (1932). As concepes des-
tentacular e burocratizado que se torne possvel        ses dois pensadores de uma sociedade fechada
uma volta  sociedade civil e seus mecanismos           tinham muito em comum. Ambas a viram como
e autoridades inerentes? Se o estado e o partido        uma comunidade pequena, compacta, de rela-
ficarem privados dos poderes e funes que              cionamento face a face. Segundo Bergson, 
detiveram de maneira desptica por tantas d-           uma sociedade centralizada, esttica, no-pro-
cadas, para que entidades sero estes transferi-        gressista; sua religio  autoritria, sua morali-
dos? Pelo restante do sculo, ser este o drama         dade absolutista e seus costumes rgidos. Pop-
central: os processos pelos quais se efetuar a         per sublinhou sua perspectiva anticientfica,
transferncia do estado para a sociedade, sem           mgica, tribalista. Um aspecto assinalado por
um colapso paralisante no qual nenhuma es-              Bergson, mas no por Popper, foi que a guerra
pcie de ordem poder reinar.                           com as sociedades vizinhas ser usualmente
    Ver tambm SOCIEDADE CIVIL.                         considerada pela liderana de uma sociedade
                                                        fechada como uma forma desejvel de promo-
Leitura sugerida: Hayek, F.A. 1960: The Constitution    ver a lealdade tribal e a unidade coletiva.
of Liberty  Jouvenel, Bertrand de 1948: Du pouvoir:
histoire naturelle de la croissance  Maine, Henry           Entretanto suas concepes de sociedade
1961: Ancient Society  Mertz, J.T. 1914: History of     aberta divergiram consideravelmente. Para
European Thought in the Nineteenth Century, 4 vols.     Bergson, uma sociedade aberta s surgir quan-
Vol.4: On Society  Nisbet, Robert 1953: The Quest for   do a multiplicidade de sociedades fechadas der
Community  Polanyi, K. 1944: The Great Transforma-      finalmente lugar a uma sociedade mundial em
tion  Tnnies, Ferdinand 1887 (1955): Community         que o progresso e a diversidade sejam encora-
and Association  Tocqueville, A. de 1854 (1955):
L'Ancien Rgime et la rvolution. In Oeuvres Com-       jados, e o dogma religioso e a moralidade auto-
pltes.                                                 ritria dem lugar  intuio mstica e  espon-
                                    ROBERT NISBET
                                                        taneidade.
                                                            Para Popper, em contrapartida, a caracters-
sociedade, processos evolucionrios na                  tica essencial de uma sociedade aberta no  a
Ver PROCESSOS EVOLUCIONRIOS NA SOCIEDADE.              intuio mstica, mas o uso irrestrito da razo
                                                        crtica. E essa sociedade pode ser muito peque-
sociedade aberta Esta expresso entrou no               na; deu como exemplo a sociedade ateniense ao
vocabulrio da cincia poltica, sendo corrente-        tempo de Pricles (quando os escravos no
mente empregada por escritores e polticos emi-         eram considerados parte integrante dela). E a
nentes, embora raras vezes seja ouvida na boca          realizao da sociedade aberta no  uma meta
de pessoas comuns.  usualmente usada para              situada em um futuro distante. Com efeito,
assinalar uma sociedade em que nenhuma ideo-            afirmou Popper, lances bem-sucedidos no pas-
logia ou religio goza de monoplio, em que             sado em direo a maior abertura, sobretudo no
existe um interesse crtico por novas idias, seja      Ocidente, geraram entre alguns pensadores in-
qual for a sua origem, em que os processos              fluentes, com destaque para Plato na antiga
polticos esto abertos ao exame e  crtica            Grcia, um veemente desejo de regresso a uma
716   sociedade afluente


sociedade fechada. Pois a vida em uma socie-        se impossvel quando um grande nmero de
dade aberta pode ser rdua e as pessoas no so     reformas est em curso na mesma rea. (Ver
necessariamente mais felizes do que seriam em       tambm SOCIAL-DEMOCRACIA.)
uma sociedade fechada. Elas podero sofrer do           Uma idia afim de Popper (1945)  o utili-
que Popper chamou "a tenso da civilizao".        tarismo negativo; isso quer dizer que os gover-
Algumas pessoas renunciariam com satisfao         nos devem ter como alvo, no aumentar direta-
ao peso da responsabilidade individual, trocan-     mente a felicidade global, mas reduzir o sofri-
do-o pelo calor e a segurana imaginados de         mento conhecido.
uma sociedade fechada.                                  Outra doutrina que Popper considerou hostil
    Popper, contudo, concordou com Bergson           sociedade aberta foi o HISTORICISMO e a dou-
quanto  prioridade temporal de uma sociedade       trina afim do futurismo moral (O que ser est
fechada em relao a uma sociedade aberta;          certo). Popper recomendou uma metodologia
segundo Popper, a primeira ocorreu, por assim       individualista (ver INDIVIDUALISMO).
dizer, naturalmente, ao passo que sempre se             Alguns crticos tm posto em dvida se as
teve que lutar para conseguir a segunda. Ele        mais remotas sociedades humanas seriam fe-
apresentou duas razes para isso.                   chadas. Charles Darwin (1871) enfatizou como
    (1) Para ser aberta, uma sociedade tambm       a capacidade inventiva e imitativa foi impor-
tem que ser, em considervel grau, o que ele        tante para ajudar os seres humanos primitivos a
chamou de "sociedade abstrata"; nesta, as re-       adquirir ascendncia sobre os outros primatas.
laes cara a cara com pessoas conhecidas do       Isso depe a favor de uma abertura para a
lugar ao trato impessoal com indivduos anni-      novidade que era estranha  inclinao mental
mos que desempenham papis. E a transio           caracterstica de uma sociedade fechada.
para tal sociedade ser um desenvolvimento              Ver tambm LIBERDADE.
tardio.
    (2)  natural que as pessoas encarem os         Leitura sugerida: Levinson, Ronald B. 1953: In De-
                                                    fense of Plato  Magee, Bryan 1973: Popper, caps. 6 e
tabus e costumes rgidos de uma sociedade           7  O'Hear, Anthony 1980: Karl Popper, cap.8  Pop-
fechada como naturais e inalterveis, como se       per, Karl 1976: Unended Quest, cap.24  Schilpp, Paul
fossem leis da natureza. Assim, a passagem para     Arthur, org. 1974: The Philosophy of Karl Popper, 2
uma sociedade aberta requer tambm o reco-          vols., p.820-924.
nhecimento revolucionrio do carter artificial                                         J.W.N. WATKINS
e convencional das instituies sociais, outro
desenvolvimento tardio.                             sociedade afluente Sociedade onde existe
    Em seu livro, Popper (1945) atacou vrias       suficiente riqueza para garantir a contnua sa-
doutrinas que so hostis  idia de uma socie-      tisfao das necessidades bsicas particular-
dade aberta. Uma delas era o sonho de organi-       mente atendidas da maioria da populao (co-
zao utpica, sintetizada na idia de Plato de    mo alimento e vesturio), com o resultado de
que o filsofo-rei deveria comear por limpar a     que indivduos empregam suas rendas dispo-
sua tela. Isso  um sonho impossvel, que mais      nveis para satisfazer necessidades efmeras e
no seja pelo fato de o limpador da tela e o        insaciveis, ao mesmo tempo em que verbas
instrumento para limpar serem parte do quadro       insuficientes podem ser dirigidas para a satisfa-
a ser apagado. Quanto mais uma liderana po-        o de necessidades publicamente assistidas
ltica revolucionria se aproximar desse ideal      (como sade e educao).
impossvel, mais destruio causar. (Ver tam-          A expresso ficou famosa com a publicao
bm TOTALITARISMO.) A alternativa  a organi-       por Kenneth Galbraith do seu livro The Affluent
zao gradual: esta permite reformas em larga       Society em 1958. Trata-se de uma poderosa
escala, mas requer que elas se processem passo      crtica do modelo de alocao de recursos ento
a passo, tornando assim possvel monitorar o        vigente nos Estados Unidos (e, por extenso, a
processo e verificar as hipteses sociolgicas a    algumas economias nacionais da Europa Oci-
que se recorreu. Um erro pode ter acontecido        dental), e envolve trs asseres principais. Em
nestas, da resultando que o objetivo pretendido    primeiro lugar, que os aumentos de capacidade
no seja alcanado ou ento seja acompanhado        e eficincia produtivas resultaram em uma eco-
de conseqncias que no eram as esperadas e        nomia capaz de fornecer uma grande abun-
que so indesejveis. A vigilncia crtica torna-   dncia (affluence) sem precedentes  grande
                                                                                 sociedade civil   717


maioria das pessoas. Como observa Galbraith,        dita a escolha de consumo, no distingue entre
nos Estados Unidos contemporneos grande            o condicionamento cultural geral da necessi-
nmero de mercadorias  "comparativamente           dade e da influncia especfica exercida pelos
abundante", aspecto que ele ilustra assinalando     produtores, e ignora as provas empricas refe-
o fato de mais pessoas morrerem a cada ano por      rentes aos efeitos da publicidade (Hayek, 1967;
comer demais do que por comer de menos              Riesman, 1980). O seu famoso contraste entre
(p.102).                                            abundncia privada e misria pblica tambm
    Em segundo lugar, o autor afirma que a          foi criticado, predominantemente com base em
sabedoria econmica convencional no levou          que a sua abordagem envolve uma compreen-
em conta esse desenvolvimento, continuando a        so errnea da declinante utilidade marginal
se identificar com a antiga e anacrnica suposi-    dos bens, ao mesmo tempo em que subestima a
o de que novos aumentos anuais de produo        natural prodigalidade dos governos (Rothbard,
devem ser necessariamente desejados. O que,         1970). Apesar disso, at os seus mais veementes
em especial, est superado  a prioridade conce-    crticos tendem a aceitar que  correto descrever
dida  produo sempre crescente de bens no         os modernos pases da Amrica do Norte e da
setor privado, o que leva a uma situao em que     Europa Ocidental como sociedades afluentes
a "abundncia privada"  contraposta  "mis-       (Friedman, 1977, p.13). Por conseguinte, pode-
ria pblica". O "grande e abrangente contraste      se dizer que a tese central de Galbraith encon-
entre a solicitude e o estmulo prodigalizados     trou aceitao geral e exerceu importante in-
produo de bens privados e as severas res-         fluncia sobre o moderno pensamento social e
tries que so impostas aos que devem surgir       econmico. A esse respeito, tambm  especial-
do setor pblico"  o que constitui, para Gal-      mente importante assinalar que a sua denncia da
braith, "a mais singular caracterstica da socie-   natureza pretensamente incontestvel da sabedo-
dade afluente" (p.155).                             ria da busca de nveis sempre crescentes de pro-
    Em terceiro e ltimo lugar, a estimulao de    duo e o seu ataque  noo convencional de que
necessidades artificiais atravs da publicidade,    se deve conceder supremacia aos valores de mer-
conjugada com um excessivo suprimento de            cado participaram, sem dvida, do subseqente
crdito,  indispensvel para manter um alto        surgimento das crticas ambientalistas e anticres-
nvel de demanda, agora que deixaram de exis-       cimento da sociedade moderna.
tir quaisquer necessidades urgentes a serem             Ver tambm SOCIEDADE DE CONSUMO; CRESCI-
satisfeitas.                                        MENTO ECONMICO.
    O termo introduzido por Galbraith ainda 
                                                    Leitura sugerida: Beckerman, W. 1974: In Defence of
largamente encontrado, uma vez que se conso-        Economic Growth  Hession, C.H. 1972: John Kenneth
lidou no uso popular. Entretanto a crtica do       Galbraith and his Critics  Riesmann, David 1980:
pensamento econmico convencional est ha-          Galbraith and Market Capitalism  Sharpe, Myron E.
bitualmente ausente nesse uso, bem como o           1973: John Kenneth Galbraith and the Lower Econo-
contraste implcito entre abundncia privada e      mics.
misria pblica, enquanto que o clima econ-                                         COLIN CAMPBELL
mico mais duro dos anos 80 resultou tambm
em a expresso ser usada de um modo mais            sociedade civil Trata-se de uma expresso
irnico do que o pretendido por Galbraith. O        antiga, comum no pensamento poltico europeu
cerne do significado que permanece , portanto,     at o sculo XVIII. Nesse uso tradicional, era
a idia de que os cidados de uma tal sociedade     uma traduo mais ou menos literal do romano
experimentam um estado de abundncia gene-          societas civilis e, por trs dela, do grego knoi-
ralizada e sem precedentes, com a conseqncia      nonia politik. Ou seja, era sinnimo de estado
de que os recursos econmicos so predomi-          ou "sociedade poltica". Quando Locke falava
nantemente empregados na gratificao perdu-        de "governo civil" ou Kant de brgerliche Ge-
lria de necessidades triviais, em vez da satis-    sellschaft ou Rousseau de tat civil, todos eles
fao imprescindvel de necessidades funda-         se referiam simplesmente ao estado, visto como
mentais.                                            englobando --  semelhana da plis grega --
    As teses de Galbraith foram largamente cri-     todo o domnio do poltico. A sociedade civil
ticadas. A sua terceira tese, em especial, foi      era a arena do cidado politicamente ativo.
ferozmente atacada com base em que desacre-         Tambm comportava o sentido de uma socie-
718   sociedade civil


dade "civilizada", uma sociedade que ordenava         geral -- fornecia os seus principais termos? Em
suas relaes de acordo com um sistema de leis        seus escritos ulteriores, o prprio Marx aban-
em vez dos caprichos autocrticos de um ds-          donou a expresso, preferindo, em seu lugar, a
pota.                                                 simples dicotomia "sociedade-estado". Tam-
    A ligao de CIDADANIA com sociedade civil        bm outros autores, e no s os influenciados
nunca se perdeu por completo. Forma parte da          por Marx, encontraram cada vez menos razes
associao que empresta seu atrativo s mais          para reter o conceito de sociedade civil. A "so-
recentes restauraes do conceito. Mas houve          ciedade civil" em A democracia na Amrica
uma inovao decisiva na segunda metade do            (1835-40), de Alexis de Tocqueville, reviveu o
sculo XVIII que rompeu a equao histrica           sentido anterior de sociedade civil como educa-
da sociedade civil e com o ESTADO. O pensa-           o para a cidadania, mas o exemplo de Toc-
mento social britnico foi especialmente in-          queville pouco fez para restaurar o prestgio de
fluente nesse captulo. Nos escritos de John          um termo que era cada vez mais considerado
Locke e Tom Paine, Adam Smith e Adam Fer-             obsoleto. Na segunda metade do sculo XIX
guson, estava elaborada a idia de uma esfera         "sociedade civil" caiu em desuso.
da sociedade distinta do estado e dotada de               Coube a Antonio Gramsci, nos escritos com-
formas e princpios prprios. O crescimento da        pilados como Cadernos do crcere (1929-35),
nova cincia da economia poltica -- tambm           resgatar o conceito na primeira parte deste s-
uma realizao predominantemente britnica            culo. Gramsci, embora retendo uma orientao
-- foi sobremaneira importante para o esta-           basicamente marxista, retornou a Hegel para
belecimento dessa deciso. A maioria desses           revitalizar o conceito. Na verdade, foi mais
autores continuou usando a expresso "socie-          longe do que Hegel ao desligar a sociedade civil
dade civil" em seu sentido clssico, como no          do econmico e ao enquadr-la no estado. A
Essay on the History of Civil Society (1767) de       sociedade civil  a parte do estado que se preo-
Adam Ferguson; mas o que eles estavam efeti-          cupa com a elaborao do consentimento, no
vamente fazendo era estabelecer a distino           com a coero ou o domnio formal.  a esfera
analtica que no tardaria a transformar o signi-     da "poltica cultural". As instituies da socie-
ficado do conceito.                                   dade civil so igreja, escolas, sindicatos e outras
     a Hegel que devemos o moderno signifi-          organizaes atravs das quais a classe domi-
cado do conceito de sociedade civil. Na Filoso-       nante exerce sua "hegemonia" sobre a socie-
fia do direito (1821), a sociedade civil  a esfera   dade. Tambm , pela mesma ordem de idias,
da vida tica interposta entre a famlia e o          a arena onde essa hegemonia  passvel de
estado. Na esteira dos economistas britnicos,        contestao. Nas dcadas radicais de 60 e 70,
Hegel v o contedo da sociedade civil larga-         foi o conceito de sociedade civil de Gramsci o
mente determinado pelo livre jogo de foras           favorito dos que tentaram opor-se s estruturas
econmicas e indivduos egostas. Mas a socie-        dominantes da sociedade, no pelo confronto
dade civil tambm inclui instituies sociais e       poltico direto, mas travando uma espcie de
cvicas que inibem e regulam a vida econmica,        guerra de guerrilha cultural. Cultura e educao
levando por um processo inevitvel de educa-          eram as esferas onde a hegemonia seria contes-
o  vida racional do estado. Assim, a particu-      tada e extinta.
laridade da sociedade civil transfere-se para a           Nova vida foi tambm insuflada no conceito
universalidade do estado.                             pelas cleres mudanas registradas na Europa
    Marx, embora reconhecendo sua dvida para         Central e Oriental desde finais da dcada de 70
com Hegel, estreitou o conceito de sociedade          e ao longo da de 80. Os dissidentes da regio
civil para torn-la equivalente, simplesmente,        acudiram ao conceito de sociedade civil como
do domnio autnomo da propriedade privada            uma arma contra as pretenses globalizantes do
e das relaes de mercado. "A anatomia da             estado totalitrio. O exemplo do movimento
sociedade civil", disse ele, "deve ser procurada      Solidariedade na Polnia indicou um modelo
na economia poltica." Essa restrio ameaou         de oposio e regenerao que evitou o con-
a sua utilidade. Que necessidade havia do con-        fronto suicida com o estado atravs da formao
ceito de sociedade civil quando a economia ou,        de instituies da sociedade civil como uma
simplesmente, a "sociedade" -- vista como o           "sociedade paralela". Na esteira das revolues
contedo efetivo do estado e da vida poltica em      vitoriosas de 1989 em toda a regio, o conceito
                                                                                sociedade de consumo     719


de sociedade civil ganhou imensamente em                    nveis de consumo com sucesso social e felici-
popularidade. Para muitos intelectuais, conti-              dade pessoal, e por conseguinte escolhem o
nha a promessa de um caminho privilegiado                   consumo como seu objetivo de vida prepon-
para a sociedade ps-comunista, pluralista (ver             derante. Como tal, a expresso est freqente-
PLURALISMO), embora eles no fossem muito                   mente associada a uma crtica da busca de
precisos quanto aos detalhes. Tambm os inte-               status, do materialismo e hedonismo que se
lectuais ocidentais voltaram a se entusiasmar               pressupe serem os valores predominantes em
com o conceito. Para eles, indicava uma nova                tais sociedades. O uso acadmico tem buscado
perspectiva sobre velhas questes de democra-               cada vez mais rechaar essas implicaes ava-
cia e participao em sociedades onde essas                 liatrias, embora retendo o insight de que a
prticas pareciam ter ficado moribundas.                    chave para a compreenso da modernidade re-
    A sociedade civil,  claro, renovou o seu               side no reconhecimento da centralidade das
atrativo. Tal como no sculo XVIII, parecemos               atividades de consumo e suas atitudes e valores
sentir uma vez mais a necessidade de definir e              associados. A expresso "sociedade de consu-
distinguir uma esfera da sociedade que esteja               mo"  empregada para condensar esse ponto de
separada do estado. A cidadania parece depen-               vista e subentende usualmente uma economia
der, para o seu exerccio, da participao ativa            que est orientada para satisfazer novas carn-
em instituies no-estatais com a base neces-              cias e no meramente as necessidades recor-
sria para a participao em instituies polti-           rentes dos consumidores.
cas formais. Foi essa a posio de Tocqueville                  A idia de que as mudanas sociais e cultu-
a respeito da democracia americana;  uma                   rais que ocorrem nas economias mais avana-
lio que o resto do mundo parece estar agora               das da Amrica do Norte e da Europa Ocidental
muito ansioso por levar a srio.                            devem ser entendidas como primordialmente
                                                            associadas a uma transferncia de foco da pro-
Leitura sugerida: Arato, Andrew e Cohen, Jean 1992:         duo para o consumo foi apresentada pela
Civil Society and Democratic Theory  Gellner, E.
1991: "Civil Society in historical context". Internatio-    primeira vez na dcada de 50 por David Ries-
nal Social Science Journal 43, 495-510  Gouldner, A.        man, Nathan Glazer e Reuel Denny em The
1980: "Civil society in capitalism and socialism". In       Lonely Crowd (1950), e desde ento tem sido
The Two Marxisms  Keane, J., org. 1988: Civil Society       retomada por outros e mais recentes intrpretes
and the State: New European Perspectives  Lewis,            da sociedade moderna, como Daniel Bell
Paul, org. 1992: Democracy and Civil Society in Eas-        (1976), Bernice Martin (1981) e Colin Camp-
tern Europe  Riedel, M. 1984: "`State' and `civil so-
ciety': linguistic context and historical origin". In Be-   bell (1987). Nessas obras, a transio de uma
tween Tradition and Revolution: The Hegelian Trans-         sociedade de produo para uma sociedade de
formation of Political Philosophy.                          consumo no  considerada um simples fruto
                                     KRISHAN KUMAR          do surgimento de um mercado de massa para
                                                            artigos de luxo, mas  vista como concomitante
sociedade corporativa Ver CORPORATIVISMO.                   de uma mudana fundamental em termos de
                                                            valores e crenas. Por conseguinte, a anlise da
sociedade de consumo Ao caracterizar uma                    natureza e origem da sociedade de consumo
sociedade organizada mais em torno do consu-                est ligada s tentativas de explicao do decl-
mo do que da produo de bens e servios, essa              nio da tica do trabalho protestante e seu deslo-
expresso entrou em uso geral ao longo da                   camento por um ethos "expressivo", "hedons-
ltima dcada.  comumente empregada para                   tico" ou "romntico" (ver TICA PROTESTANTE,
designar um conjunto interligado de tendncias              TESE DA). Essa preocupao com a anlise da
scio-econmicas e culturais que se considera               mudana cultural significou que o exame da
caracterstico das sociedades industriais avan-             sociedade de consumo se cruza com outros
adas da Amrica do Norte, Europa Ocidental                 debates em torno da natureza da sociedade con-
e Orla do Pacfico, e parece distingui-las das              tempornea (ver COMUNICAO DE MASSA; MO-
anteriores sociedades "producionistas" do s-               DERNISMO E PS-MODERNISMO).
culo XIX, assim como das naes em desenvol-                    Entretanto, a suposio de que existe um
vimento do Terceiro Mundo. O uso popular                    claro divisor de guas no passado recente se-
contm freqentemente a inferncia de que os                parando as sociedades modeladas pelas foras
membros de tais sociedades identificam altos                de produo das que so determinadas pelas
720   sociedade de massa


foras de consumo tem sido cada vez mais               da, pelo que as relaes sociais so relativa-
questionada por historiadores e socilogos.            mente impessoais. Em formulaes mais extre-
Fernand Braudel (1949, 1973) afirmou que o             mas, a "sociedade de massa"  retratada como
entendimento do desenvolvimento da moderni-            uma sociedade em que a populao  uma mas-
dade no Ocidente requer uma apreciao de              sa indiferenciada, sem razes na comunidade,
como as mudanas no comportamento de con-              na tradio e na moralidade consuetudinria,
sumo no perodo pr-moderno levou a um au-             incapaz de discriminao em matria de gosto
mento da demanda de bens, enquanto McKen-              cultural e de poltica, e por conseguinte sujeita
drick, Brewer e Plumb (1982) identificam a             a ondas de emoo e moda, fcil presa de ma-
"revoluo do consumo" que anunciou o ad-              nipulaes por parte de inescrupulosos lderes
vento da sociedade de consumo como tendo               carismticos.
ocorrido na Inglaterra na segunda metade do                A teoria da sociedade de massa foi particu-
sculo XVIII. Outros autores buscaram suas             larmente influente no segundo quartel do sculo
origens na Europa dos sculos XV e XVI (Mu-            XX como diagnstico dos males culturais e
kerji, 1983) e na Frana de meados do sculo           polticos que produziram o FASCISMO e o bolche-
XIX (M.B. Miller, 1981; Williams, 1982).               vismo, e nas dcadas de 50 e 60 como crtica de
   Todas essas pesquisas imprimiram novo im-           uma sociedade americana que era vista co-
pulso ao debate sobre a melhor maneira de              mo conformista e politicamente desmoraliza-
entender a atividade de consumo. Nesse con-            da. Em anos recentes tornou-se impopular por-
texto, a negligncia do consumo, dentro da             que o seu pessimismo cultural elitista parece
cincia econmica neoclssica, e o "vis pro-          injustificado  luz das provas de um continuado
ducionista" manifesto nos escritos de Karl             e possivelmente crescente pluralismo social e
Marx e Max Weber so freqentemente apon-              cultural, e tambm porque foi associada a uma
tados como uma acentuada deficincia no m-            poltica conservadora que no entendeu a mu-
bito do pensamento social ocidental. A teoria do       dana que, desde meados da dcada e 60, vinha
consumo conspcuo de Thornstein Veblen                 ocorrendo na natureza da PARTICIPAO POLTI-
(1899)  a mais comumente citada no esforo            CA.
para preencher esse vazio, embora a reelabora-             Entretanto, a perspectiva da sociedade de
o por Pierre Bourdieu (1979) dos tradicionais        massa no , em absoluto, uma novidade do
temas veblenescos de gosto e esnobismo social          sculo XX. A ameaa que as massas urbanas
esteja sendo cada vez mais mencionada como             sem cultura, decadentes ou desesperadas repre-
importante fonte de inspirao terica. Outras         sentam para as elites de talento ou virtude tem
tentativas recentes de desenvolver uma teoria          sido um tema recorrente em filosofia poltica
de consumo caracterstica que possa servir de          desde a Antigidade clssica, mas foram acon-
base a uma teoria da sociedade de consumo              tecimentos do final do sculo XVIII e comeos
incluiriam as de Appadurai (1986), Campbell            do XIX que intensificaram essas preocupaes
(1987) e Daniel Miller (1987).                         e criaram as bases para o moderno conceito de
   Ver tambm SOCIEDADE AFLUENTE.                      sociedade de massa. A Revoluo Francesa var-
                                                       reu de forma to precipitada os regimes aris-
Leitura sugerida: Campbell, Colin 1987: The Roman-     tocrticos tradicionais de um extremo a outro
tic Ethic and the Spirit of Modern Consumerism
 McCracken, Grant 1988: Culture and Consumption:
                                                       da Europa que at pensadores que nada tinham
New Approaches to the Symbolic Character of Consu-     de reacionrios, como J.S. Mill, temeram que a
mer Goods and Activities  McKendrick, N., Brewer, J.   democratizao equivalesse  incorporao po-
e Plumb, J.H. 1982: The Birth of a Consumer Society:   ltica de pessoas insuficientemente instrudas
the Commercialization of Eighteenth-Century England.   para assumir de modo responsvel as obriga-
                                 COLIN CAMPBELL        es da cidadania. Assim, a democracia poderia
                                                       significar um nivelamento por baixo, em que as
sociedade de massa Termo usado para des-               paixes da massa se sobrepusessem  razo da
crever a condio das sociedades modernas em           elite educada e levassem  intolerncia da dis-
que formas tradicionais de associao como             sidncia e do inconformismo.
comunidade, classe, etnicidade e religio decli-           O outro fator importante nesse processo foi
naram, e em que a organizao social  predo-          a transformao de sociedades predominante-
minantemente de grande escala e burocratiza-           mente agrrias pelos processos interligados de
                                                                         sociedade de massa    721


INDUSTRIALIZAO,    burocratizao e urbaniza-    mistas e sociedades totalitrias nas dcadas de
o. A teoria da sociedade de massa apia-se       20 e 30 (especialmente as apresentadas por
substancialmente nas obras dos tericos do s-     Emil Lederer, Hannah Arendt e Franz Neu-
culo XIX (sobretudo Alexis de Tocqueville,         mann). A maior ateno concentrou-se, com-
Ferdinand Tnnies, mile Durkheim e Max            preensivelmente, na Alemanha nazista. O co-
Weber) que identificaram essas mudanas e          lapso da Alemanha no nazismo foi atribudo ao
que, ao mesmo tempo, se preocuparam com as         carter recente e  rapidez da transformao da
suas implicaes para a coeso social e a ordem    Alemanha em uma sociedade democrtica de
poltica. Assim como as relaes caractersticas   massa. To rpida foi essa mudana que as
da sociedade pr-industrial foram transforma-      antigas associaes de comunidade, classe e
das pela industrializao, tambm a ordem po-      religio tinham desmoronado, deixando massas
ltica foi ameaada pelo colapso da ordem mo-      anmicas e desenraizadas  merc das manipu-
ral antecedente e pelo relaxamento das coeres    laes de polticos que dispunham de meios
mecnicas que tinham at ento ajudado a man-      caracteristicamente modernos de organizao e
ter as sociedades coesas.                          comunicao.
    Mas os socilogos clssicos, diferentemente        Embora plausvel como explicao da as-
dos tericos da sociedade de massa que depois      censo do nazismo, a teoria da sociedade de
se apoiariam em sua obra, no supuseram o          massa foi prejudicada pelas fortes provas que
carter absoluto das tendncias que identifica-    contradizem a sua proposio central. Com
ram. As vrias verses da polaridade "comuni-      efeito, a Alemanha era uma sociedade que so-
dade-sociedade" pretendiam ser projetos heu-       frera rpida e desarticuladora mudana, mas
rsticos e eram consideradas mais como di-         essa mudana fora mais poltica do que primor-
menses de processos sociais em curso do que       dialmente social e, antes da subida dos nazistas
como estados finais. Durkheim, em particu-         ao poder, no era uma sociedade em que a
lar, percebeu que, se o desenvolvimento social     organizao social intermdia fosse fraca; pelo
acarretava a destruio de formas tradicionais     contrrio, era mais forte do que em sociedades
de comunidade e moralidade, tambm havia,          como a Frana, onde a seduo do fascismo foi
no obstante, possibilidades de inovao. O        relativamente limitada.
equvoco dos tericos da sociedade de massa            A teoria da sociedade de massa atingiu o seu
estava no fato de a nostalgia os cegar a ponto     ponto mais baixo quando aplicada aos novos
de no enxergarem o desenvolvimento de novas       movimentos sociais das dcadas de 60 e 70,
formas de comunidade e moralidade, mesmo           pois no caso de tais movimentos havia abun-
em sociedades dominadas por modernas for-          dncia de provas de que no se tratava de in-
mas de associao.                                 divduos anmicos, socialmente pulverizados,
     como contribuio  sociologia poltica      os que eram mais propensos a adotar uma ao
que a perspectiva da sociedade de massa atinge     poltica radical, mas, pelo contrrio, pessoas
a sua mais clara especificao terica. Korn-      que estavam relativamente bem integradas, no
hauser (1959) sublinha o impacto desintegrador     plano social, e mais do que usualmente motiva-
da rpida mudana social, econmica e poltica,    das por seu compromisso com slidos princ-
mas atribui posio central s associaes se-     pios morais. Na verdade, so essas provas as
cundrias do pensamento de Tocqueville, to        que tm efeitos mais nocivos para a teoria da
importantes para a sade e a estabilidade da       sociedade de massa. Apesar de essa rpida mu-
democracia liberal. Na ausncia de tais associa-   dana ser perturbadora e, com freqncia, poli-
es intermdias, a massa sofrivelmente inte-      ticamente desestabilizadora, no so usualmen-
grada da populao era suscetvel de mobiliza-     te as pessoas mais perturbadas pela rpida mu-
o por elites polticas, enquanto que as pr-     dana as que se mostram mais propensas a
prias elites eram perigosamente vulnerveis s     assumir uma ao poltica radical e, para as que
presses da opinio da massa. O resultado era      a assumem, o carter do seu envolvimento po-
a vulnerabilidade  volatilidade e ao extremis-    ltico parece quase sempre ser mais um reflexo
mo polticos.                                      dos valores com que estavam previamente so-
    O livro de Kornhauser pode ser lido como       cializadas do que uma reao impulsiva s no-
uma tentativa de generalizao a partir das ex-    vas circunstncias.
plicaes da ascenso de movimentos extre-             Ver tambm COMUNICAO; AO COLETIVA.
722   sociedade industrial

Leitura sugerida: Giner, S. 1976: Mass Society  Ha-     bre a sociedade francesa, sobretudo em suas
lebsky, S. 1976: Mass Society and Political Conflict    profisses de natureza tcnica. Mas o pensa-
Kornhauser, W. 1959: The Politics of Mass Society.
                                                        mento de Comte provou ser ainda mais impor-
                                        C.A. ROOTES     tante, com destaque para a sociologia, cujo
                                                        prprio nome foi criao dele. Comte era um
sociedade industrial As caractersticas mais            pensador to antipoltico quanto Saint-Simon,
freqentemente usadas para definir a sociedade
                                                        mas adicionou duas importantes glosas  sua
industrial so:
                                                        obra de professor. Em primeiro lugar, afirmou
    1. Uma mudana na natureza da economia              que a criao de abundncia acarretaria o fim
        de tal forma que um setor primrio muito        das guerras entre naes. Em segundo lugar,
        pequeno pode alimentar uma populao            acreditava que a idade industrial, uma vez que
        envolvida nos setores secundrio e ter-         as falsas idias incutidas pela religio tivessem
        cirio;                                         sido destrudas pela cincia, possuiria as suas
    2. A preponderncia da produo mecnica            prprias crenas "positivas" -- a que ele deu o
        nas fbricas;                                   nome de "religio da humanidade". (Ver tam-
    3. A urbanizao da sociedade (ver URBA-            bm SECULARIZAO.)
        NISMO);                                             O otimismo de Comte sobre esse ltimo
    4. O crescimento da alfabetizao de mas-           assunto no foi mantido pela maioria dos teri-
        sa;                                             cos sociais dos sculos XIX e XX. Os romancis-
    5. A aplicao do conhecimento cientfico           tas investiram contra o materialismo crasso e a
         produo;                                     vacuidade moral da vida moderna, e autores
    6. O recrudescimento da regulamentao              mais acadmicos fizeram eco a essas caracteri-
        burocrtica de todos os aspectos da vida        zaes. Assim, Karl Marx atacou a alienao
        social.                                         causada pelo capitalismo industrial; em termos
    Outras caractersticas so ocasionalmente           um tanto semelhantes, mile Durkheim afir-
citadas. Isso  compreensvel: a teoria social          mou que a falta "anmica" de integrao moral
tentou entender o capitalismo e o industria-            da vida moderna era responsvel pelo aumento
lismo, e no chega a surpreender que algumas            do nmero de suicdios, o que dificilmente se
caractersticas do primeiro fossem atribudas ao        pode considerar um indcio de alguma espcie
segundo. Uma coisa, porm, est absolutamen-            de progresso universal. No deixa de ser inte-
te clara: o surgimento da sociedade industrial          ressante o fato de Marx e Durkheim pensarem,
assinala uma mudana profunda nos assuntos              embora por caminhos muito diferentes, que a
humanos. O macio, prometico aumento dos               moderna sociedade industrial podia combinar-
poderes humanos em resultado de todo esse               se com preceitos e regras morais; ou seja, ambos
processo significou que os seres humanos j no         escreveram, em ltima anlise, no esprito de
estavam mais  merc da natureza -- na ver-             Comte. Isso no ocorreu com Max Weber, o
dade, talvez a natureza esteja agora muito mais         maior de todos os tericos da sociedade indus-
 merc dos seres humanos do que deveria.               trial. O motivo no foi apenas ter ele corre-
    Os primeiros tericos da sociedade indus-           tamente previsto, contra Marx, que a verso
trial estavam conscientes de que eram testemu-          socialista de estado da sociedade industrial seria
nhas do nascimento de um novo mundo. As                 mais burocrtica do que o modelo capitalista.
razes do conceito encontram-se no pensamento           Weber insistiu, alm disso, em que haveria na
iluminista de Turgot e Condorcet. Mas a formu-          sociedade industrial custos de oportunidade a
lao mais notvel da idia veio no comeo do           que seria impossvel escapar. O conhecimento
sculo XIX pelas penas de Henri de Saint-Si-            pode acarretar abundncia, em sua opinio, mas
mon e de Auguste Comte. Saint-Simon acredi-             os princpios que inspiram o trabalho da cincia
tava que a indstria mudaria a tal ponto a vida         chocam-se inteiramente com a certeza moral;
social que a tradicional luta poltica poderia          assim, a abundncia  adquirida  custa de uma
ser inteiramente deslocada: em lugar de haver           certa medida de "desencanto", ou seja, com a
escolhas entre diferentes fins na vida, o que teria     perda de anteriores diretrizes morais estabele-
muito maior importncia seria a administrao           cidas pela crena religiosa.  importante as-
da mquina industrial. As idias de Saint-Si-           sinalar, contudo, que o seu trgico pessimismo
mon tiveram considervel impacto prtico so-            sobre esse tema no foi endossado por mui-
                                                                             sociedade industrial   723


tos outros pensadores. Heidegger, por exemplo,         muita discusso, com a mais recente explicao
procurou caminhos nos quais se podia criar             de Wrigley salientando a importncia das reser-
certa moralidade "real", de tal modo que a             vas de carvo e de um alto nvel de demanda
"mera" tecnologia fosse devidamente mantida            resultante da revoluo agrria anterior. O que
no seu lugar.                                           certo  que a industrializao ou desenvolvi-
    O conceito de sociedade industrial recebeu         mento do Terceiro Mundo no pode acontecer
uma reformulao fundamental nas duas dca-            hoje dessa mesma forma gradual. As vantagens
das subseqentes ao final da Segunda Guerra            e a necessidade geopoltica da industrializao
Mundial. O conceito sustentou o otimismo de            fizeram desta algo que as elites do estado dese-
Talcott Parsons e estava subentendido na insis-        jam realizar o mais depressa possvel; isso tende
tncia de muitos pensadores -- sendo Clark             a encorajar o autoritarismo dos regimes polti-
Kerr o mais importante deles -- em que o               cos. Tudo isso quer dizer que muita coisa ainda
desenvolvimento se tornava a questo funda-            est por se explicar para que se obtenha uma
mental desta era. Na pior das hipteses, essa          compreenso cabal da histria da ascenso da
reformulao do conceito levou  crena um             sociedade industrial. Em contrapartida, o con-
tanto simplista de que as idias e instituies do     ceito de SOCIEDADE PS-INDUSTRIAL proposto
socialismo de estado e do capitalismo liberal          por Daniel Bell (1974) e Touraine (1968) tem
acabariam simplesmente por convergir. Mas              pouco a recomend-lo, como foi convincente-
era possvel ser muito mais sofisticado do que         mente demonstrado por Kumar (1978). Embora
isso, e foi a grande proeza de Raymond Aron            seja verdade que o conhecimento  sempre mais
produzir uma sntese judiciosa da teoria da            importante na sociedade moderna, isso equi-
sociedade industrial. Essa sntese foi notvel         vale mais a intensificar do que a substituir os
por prestar ateno adequada ao poltico, ou           princpios bsicos que presidem o funciona-
seja, por se recusar a aceitar que todas as mu-        mento da sociedade moderna. No significa,
danas resultaram de variveis scio-econmicas.       porm, que no tenha acontecido nenhuma mu-
Isso foi visto com particular clareza em seus vrios   dana socialmente significativa durante a era
volumes sobre a lgica autnoma do conflito            industrial. A diminuio do tamanho da classe
geopoltico e em sua obra-prima, Democracy and         trabalhadora manual  certamente um fator im-
Totalitarianism, a qual descreveu os diferentes        portante, assim como tambm o  a crescente
sistemas polticos pelos quais os sistemas indus-      relevncia poltica da mo-de-obra recente-
triais podiam ser administrados.                       mente instruda.
    Podemos entender melhor as foras e fra-
quezas do conceito de sociedade industrial con-        Capitalismo e industrialismo
siderando quatro reas de debate que ele oca-              Uma segunda rea geral de discusso diz
sionou.                                                respeito s respectivas virtudes do conceito de
                                                       CAPITALISMO em contraste com o de industria-
Origens                                                lizao. Os marxistas tm certamente muito a
    Tem havido muita discusso, primeira-              seu favor quando insistem no maior poder co-
mente, em torno das origens da sociedade in-           gnitivo do primeiro conceito. Os tericos da
dustrial e do grau em que podemos estar agora          sociedade industrial tendem a ver a estratifica-
transitando para uma nova era. A sociedade             o social em termos funcionais, at meritocr-
capitalista chegou antes,  claro, do surgimento       ticos. Os marxistas esto certos em sublinhar
da sociedade industrial, e temos algum conhe-          que as oportunidades na vida so determinadas,
cimento do carter singular da Europa -- um            de fato, pela posio dos pais de um indivduo
padro histrico de famlias nucleares, a des-         no sistema de classes. Isso no significa, porm,
truio das extensas redes de parentesco, um           que o paradigma marxista seja em tudo superior
sistema estatal multipolar, agricultura de chuva,      ao conceito de sociedade industrial. Assim, em-
as heranas da Antigidade -- que facilitou a          bora a classe operria certamente exista, no d
sua ascenso. O industrialismo apareceu pri-           sinais de desempenhar o papel histrico que lhe
meiro na base desses antecedentes comerciais           foi atribudo pelo marxismo; mais importante
de um modo gradual. Exatamente por que esse            ainda, a caracterizao pelo marxismo da natu-
processo ocorreu na Inglaterra em vez de, diga-        reza da sociedade industrial socialista de estado
mos, na Holanda, continua sendo motivo de              est longe de ser to plausvel quanto a ofereci-
724   sociedade industrial


da pelos tericos da sociedade industrial. Vale       poderia dar origem a uma era livre de grandes
a pena assinalar, en passant, que o conceito de       ideologias. Estaria certo Max Weber ao apontar
capitalismo , porm, em um aspecto pouco             que a disseminao da cincia era incompatvel
reconhecido, nitidamente superior ao de indus-        com a reteno de sistemas de crenas, antigos
trialismo. Os tericos da sociedade industrial        ou modernos, que procuravam fornecer dire-
apontavam que, uma vez alcanada a abun-              trizes para a vida social? Na dcada de 30 a sua
dncia, tudo o que restava fazer era relaxar e        assero pareceu decididamente improvvel,
desfrutar dela; sob esse prisma, foram at dis-       dado que o ritmo da vida poltica era fixado pelo
cutidos os benefcios de uma sociedade de cres-       bolchevismo e pelo fascismo; a renovao isl-
cimento zero. De fato,  impossvel permanecer        mica no mundo atual representa igualmente
imvel dentro da economia do mundo porque             uma tentativa de inserir a tecnologia da moder-
ela est organizada de acordo com diretrizes          nidade em um sistema de crenas abrangente e
capitalistas: parar, ficar inativo, significa o de-   total. Mas esses credos so atraentes, tal como
clnio se outros insistirem em realizar maiores       a fora visceral do nacionalismo, para socie-
lucros. A sociedade capitalista internacional         dades em transio da era agrria para a indus-
mantm-se agitada, irrequieta e anrquica de          trial. A verdadeira questo  se a ideologia pode
um modo que  estranho ao esprito da teoria da       manter sua proeminncia ao longo do tempo em
sociedade industrial.                                 regimes que se fundaram em uma pretenso de
                                                      conhecimento da verdade. A evoluo da Unio
Industrialismo e guerra                               Sovitica com Gorbachev indica que a assero
    Este tema geral pode ser elucidado levando-       de Weber pode conter certa dose de verdade;
se em conta um terceiro debate. A esperana de        mas o assunto  extremamente complexo em
que a era de abundncia reduzisse a guerra            seu todo, e  prefervel dizer que a histria ainda
mostrou ser ilusria, como duas guerras mun-          no pronunciou seu veredicto sobre a matria.
diais tragicamente provaram. Grande parte des-
se conflito pode ser entendido em termos tradi-       Concluso
cionais, ou seja, como resultado de ao racio-           A ttulo de concluso, pode-se oferecer um
nal por parte de estados no mbito da "socie-         resumo das foras e fraquezas do conceito de
dade associal" de concorrncia entre estados.         sociedade industrial. No h dvida, para co-
Isso  extremamente importante. Significa que         mear por sublinhar a utilidade do conceito, de
vivemos em estados-naes que tm de sobre-           que o surgimento do industrialismo marca uma
nadar tanto dentro da sociedade mais vasta da         mudana qualitativa nos assuntos humanos: 
competio entre estados quanto na sociedade          nada menos que um momento de evoluo
capitalista internacional. A geopoltica afetou a     social. As nossas vidas so determinadas por
natureza da mudana social tanto quanto o ca-         esse modo de produo. Entretanto o motor da
pitalismo; com efeito,  a interao entre am-        mudana dentro da ordem do mundo moderno
bos, ainda no adequadamente entendida, que           no pode ser derivado simplesmente de alguma
proporciona o dinamismo para a moderna mu-            espcie de "lgica" do industrialismo. A din-
dana social. Posto em termos negativos, no          mica do mundo moderno continua sendo aquela
entendemos corretamente a nossa posio se            criada pela interao de nao e capital. O
dizemos simplesmente que vivemos dentro da            industrialismo criou barreiras dentro dessa in-
sociedade industrial. Isso no significa, porm,      terao, mas no a substituiu.
que classe e nao no tenham sido afetadas           Leitura sugerida: Aron, Raymond 1962: Paix et guer-
pela era industrial. O fato de no ter havido         re entre les nations  1965: Dmocratie et totalitarisme
guerras entre as maiores potncias mundiais            Bell, D. 1974: The Coming of Post-Industrial Society
desde 1945  a conseqncia do equilbrio de           Gellner, E. 1974: Legitimation of Belief  Kerr, C.,

terror que resultou da aplicao de princpios        Dunlop, J.T., Harbison, F.H., e Myers, C.A. 1960
industriais  conduo da guerra.                     (1973): Industrialism and Industrial Man  Kumar, K.
                                                      1978: Prophecy and Progress  Polanyi, K. 1944: The
                                                      Great Transformation  Saint-Simon, H. 1953: Selec-
Modernidade e ideologia                               ted Writings, org. por F.M.H. Markham  Wrigley,
   Se a sociedade industrial no trouxe a paz         A.M. 1988: Continuity, Chance and Change: the Cha-
em sua esteira, a quarta rea de discusso re-        racter of the Industrial Revolution in England.
fere-se  muito debatida questo sobre se ela                                                 JOHN A. HALL
                                                                      sociedade ps-industrial   725


sociedade ps-industrial O termo socieda-           verses tericas. Se a sociedade industrial fun-
de ps-industrial parece ter-se originado com       cionou na base do conhecimento material e pr-
Arthur Penty, membro da Liga Socialista brit-      tico, a sociedade ps-industrial depende muito
nica e seguidor de William Morris, no comeo        mais de conhecimentos imateriais e tericos,
do sculo. Penty preconizava a criao de um        tais como os desenvolvidos em universidades,
"estado ps-industrial" baseado na pequena ofi-     centros de pesquisa e novos tipos de locais de
cina artesanal e em unidades descentralizadas       trabalho. No s conta com o conhecimento
de governo. O conceito s viria a ser adotado       terico para muitas de suas indstrias caracte-
de forma significativa no final da dcada de 60,    rsticas, como as indstrias de computadores,
quando lhe foram atribudas caractersticas in-     qumica e aerospacial, mas tambm aplica uma
teiramente novas. Em seu significado atual, o       parte crescente dos recursos nacionais no de-
termo foi criado quase simultaneamente nos          senvolvimento desse conhecimento, financian-
escritos de Daniel Bell e Alain Touraine a fim      do a educao superior, a pesquisa e as ativi-
de descrever as novas estruturas e movimentos       dades ligadas ao desenvolvimento. Essa mu-
sociais que marcam a evoluo das sociedades        dana de nfase reflete-se no aumento da im-
industriais na parte final do sculo XX. Em anos    portncia de uma "classe caracterizada pelo
mais recentes, muitos dos usos mais comuns do       saber", composta de cientistas, profissionais de
termo ps-industrial tambm incluram, ou fo-       nvel superior e "instituies eruditas".
ram definidos lado a lado, com um conceito de            evidente que o exame da sociedade ps-
sociedade contempornea como sociedade ps-         industrial tem representado nos ltimos 20 anos
moderna, por exemplo, por Jean-Franois Lyo-        uma importante e radical renovao do pensa-
tard (ver MODERNIDADE; MODERNISMO E PS-MO-         mento social a respeito da mudana em grande
DERNISMO). Economicamente, a sociedade ps-         escala nas sociedades modernas; Kumar (1976,
industrial  marcada pela mudana de uma eco-       p.441) e outros afirmaram que, "no mnimo, a
nomia produtora de bens para uma economia de        teorizao ps-industrial marca uma bem-vin-
servios; no plano ocupacional, pela proemi-        da renovao de um dos princpios centrais do
nncia da classe de profissionais liberais e de     perodo formativo da sociologia, o de que o
tcnicos; e na tomada de decises, pela difuso     estudo do ser e o do vir-a-ser esto indissolu-
muito ampla da "tecnologia intelectual".            velmente ligados". O advento da sociedade
    Bell, especialmente em The Coming of Post-      ps-industrial deflagrou, com efeito, uma
Industrial Society (1974), definiu o "princpio     "guerra terminolgica" muito especial, a qual
axial" da sociedade ps-industrial como sendo       reflete algumas confuses ou, pelo menos, os
a centralidade do conhecimento terico como a       diferentes vislumbres a obter da abordagem do
fonte de inovao e de elaborao de polticas      assunto da sociedade ps-industrial desde o
para a sociedade. Afirmou que esse tipo de          ponto de vista das novas classes e dos novos
sociedade difere tanto da SOCIEDADE INDUSTRIAL      conflitos que surgem ou se desenvolvem para-
clssica quanto esta da sociedade pr-industrial,   lelamente. Trs definies principais podem
agrria. Est principalmente interessada na pro-    distinguir-se. Trabalhadores de colarinho
duo mais de servios do que de bens, a maio-      branco so aqueles cujo trabalho  agora exe-
ria de sua fora de trabalho est em profisses     cutado em condies e circunstncias vizinhas
de colarinho branco em vez de manuais e mui-        das condies de fbrica e que obedecem a
tos de seus trabalhadores so profissionais de      padres de trabalho altamente estruturados.
nvel superior, empregados em funes execu-        Funcionrios de escritrio so os que, com o
tivas, gerenciais ou tcnicas. A antiga CLASSE      incremento da automao e da inteligncia ar-
OPERRIA est desaparecendo e, com ela, muitas      tificial em ambientes comerciais e adminis-
das caractersticas e dos conflitos da sociedade    trativos, necessitam de maior soma de conheci-
industrial. Novos alinhamentos, baseados em         mentos para operar e interatuar com tais equi-
status e consumo, esto suplantando os que          pamentos; nesse sentido, o termo no abrange
tinham por alicerce o trabalho e a produo.        apenas, em absoluto, as pessoas que trabalham
A sociedade ps-industrial, sustentaram Bell e      em condies de escritrio. Como termo, traba-
Touraine,  tambm uma sociedade altamente          lhadores da informao/conhecimento suplan-
instruda, e a idia-chave de uma sociedade de      ta a rigidez dos censos e das classificaes
conhecimento  central para todas as vrias         estatsticas, mas, no uso prtico, est impregna-
726   sociedade ps-industrial


do de implicaes otimistas que impedem, com        dar uma mquina ou uma srie de mquinas.
freqncia, a melhor compreenso das mudan-         Por conseguinte, quanto mais atividades so
as na natureza do trabalho e na estrutura das      planejadas de antemo e contidas em processos
organizaes.                                       de informao, menos necessidade existe de um
    Touraine (1968, 1971) e Bell esto de inteiro   sistema de deciso em cada um dos nveis de
acordo sobre a importncia central das univer-      trabalho, seja em sua formalizao, seja em sua
sidades, da pesquisa e do papel da "classe co-      execuo. (Ver tambm INFORMAO, TEORIA E
nhecedora" para a engrenagem geral produtiva        TECNOLOGIA DA.) Alm disso, o uso de mqui-
e gerencial da nova sociedade. Mas diferem no       nas de informao acarreta um aumento de no-
tocante aos seus resultados previsveis. En-        vos smbolos, os quais no s so difceis de
quanto Bell v a promessa de maior integrao       aprender, mas tambm exigem um esforo es-
social e de harmonia poltica e institucional,      pecial a ser corretamente atribudo ao que eles
Touraine -- mais alarmado por seu potencial de      convencionalmente designam. O problema re-
manipulao e claramente sensibilizado pelas        side no fato de que, de momento, possumos
idias de maio de 1968 e pela generalizao dos     apenas novos smbolos, mas no uma nova
movimentos sociais na Europa -- antev o            linguagem; esta poderia acontecer somente se,
aprofundamento do conflito entre aqueles (pro-      ao criar mquinas de informao, levssemos
fessores e estudantes) que defendem os valores      em considerao novos padres de comporta-
humanistas da educao liberal e uma casta          mento e novas culturas coletivas. Portanto, o
diferente de seus pares que guarnecem a ma-         trabalho ps-industrial, apesar de suas possibi-
quinaria tecnocrtica, dedicada ao objetivo do      lidades tecnolgicas, torna-se uma atividade de
crescimento econmico. Nesse sentido, o con-        tipo binrio, com reaes a estmulos e regras
ceito de sociedade ps-industrial tem sido am-      de informao a pr em prtica, as quais j esto
plamente usado por outros pensadores sociais        contidas no programa de informao. Em todos
que enfatizam diferentes caractersticas, por       os nveis de poder, responsabilidade e integra-
exemplo, a busca pelos jovens de um mundo           o do sistema de trabalho, gerentes, tcnicos e
para alm do materialismo, ou o deslocamento        empregados vem-se ocupados com o controle
da classe operria, em conseqncia da MUDAN-       de trabalho em que a tomada de decises est
A TECNOLGICA, do papel que os marxistas lhe       cada vez menos em evidncia.
atriburam como agente histrico de mudana
na sociedade moderna.                               (2) Abstrao e solido
    Embora as sociedades industrial e ps-in-           A tecnologia de informao torna abstrata e
dustrial no estejam simplesmente ligadas pelas     "imaterial" a maioria das operaes e gestos no
mudanas fundamentais na natureza do TRABA-         trabalho. Assim, smbolos, nmeros e lingua-
LHO, da tecnologia e das classes sociais, cinco     gens de uma "natureza variada" tornam-se o
reas problemticas podem ser indicadas, as         fator mediador essencial entre trabalhadores,
quais constituem o desafio central para todos os    trabalho, conhecimento prvio e comunidade
atores sociais envolvidos; cientistas e produ-      de trabalho. Assim, alm de distines de cate-
tores, especialistas ergonmicos e usurios, to-    goria e diferenas de salrio, status da compa-
dos se defrontam com a "arquitetura da com-         nhia ou carreira, o centro de gravidade est se
plexidade" de mudanas fundamentais e novi-         transferindo para uma srie de funes que
dades sem precedentes que vo alm dos mto-        exigem intensa atividade mental, a mediao
dos e ferramentas tericas convencionais da         cognitiva do trabalho e de seu contexto social e
sociedade industrial. Eles estiveram no mago       organizacional. Alm disso, a imagem estereo-
de todos os debates tericos acerca da sociedade    tipada de uma atividade inteligente, criativa e
ps-industrial e, mais recentemente, ps-mo-        gratificante, por um lado, e de uma tarefa repe-
derna.                                              titiva e intelectualmente enfadonha, por outro,
                                                    est dando lugar agora a uma viso que  o
(1) Smbolos sem deciso                            produto hdrido da revoluo da informao:
    A tecnologia da informao e a INTELIGNCIA     apesar do status ocupacional e das diferenas
ARTIFICIAL tornam cada vez maior a possibili-       culturais, existe hoje em dia uma srie de tarefas
dade de formalizar o conhecimento e favorecer       que so marcadas pelos mesmos padres, que
a integrao de um programa que possa coman-        usam a mesma mediao simblica e que criam
                                                                     sociedade ps-industrial   727


o mesmo sentido de perda de identidade ao lidar    raes e leva a uma intensificao dos ritmos
com os processos inteligentes da mquina.          de trabalho.
(3) A recomposio involuntria e                  (5) Modificaes na vida social dos locais de
paradoxal do trabalho                              trabalho
    No se trata apenas de os procedimentos            A sociedade ps-industrial introduziu pro-
relativos  mquina e ao trabalho exigirem certa   fundas mudanas na vida social do local de
soma de empenho mental, que pode variar com        trabalho, na medida em que afeta a identidade
a complexidade das mquinas e os conheci-          de indivduos e grupos. Uma das bases fun-
mentos e experincia do operador, mas na so-       damentais da ideologia do trabalho poderia re-
ciedade ps-industrial um novo componente         duzir-se, portanto, a nada mais que um mito
adicionado: a "carga organizacional", ou seja,     vazio: a comunidade, o grupo de trabalho, que
o componente que trata dos efeitos das variveis   era central e absolutamente necessria para o
que definem a organizao das relaes sociais     funcionamento eficiente da sociedade indus-
e do trabalho no local de trabalho. No centro de   trial, est sendo separada da base tecnolgica
um nmero cada vez maior de atividades na          em que todo local de trabalho assenta. A forma
sociedade ps-industrial encontramos o proces-     de organizao coletiva herdada da sociedade
samento, a verificao e, por vezes, a anlise     industrial, baseada na necessidade de reunir
dos dados simblicos e da informao media-        gerncia, mquinas e trabalhadores no mesmo
dora produzidos por sistemas baseados na in-       espao, estava agora basicamente comprometi-
formao. A linha fronteiria entre ocupaes e    da pela possibilidade de automao. Que acon-
suas respectivas culturas fica enevoada, dando     tecer no local de trabalho, portanto, se os em-
lugar a um grupo muito mais vasto de atividades    pregados, por exemplo, no precisarem mais ou
em que o trabalho  executado em condies         no tiverem a oportunidade de se misturar no
semelhantes, com processos da mesma espcie,       lugar de trabalho, ou se no tiverem mais qual-
contedo e inteligibilidade, e sobretudo em        quer controle do significado mais profundo do
contextos organizacionais similares. Essa "re-     trabalho individual e coletivo? Em tal contexto,
composio do trabalho" acarreta, contudo, pe-     os novos problemas transferiram-se dos mitos
lo menos uma conseqncia importante: as con-      positivos ou negativos da automao e se con-
dies de trabalho e o peso da organizao --      centraram em como planejar e gerir uma orga-
uma vez que o seu lado "mecnico" e material       nizao e um trabalho que se tornaram abstratos
desaparece -- perdem-se de vista, enquanto que     para todos os trs nveis mais importantes: o
a abstrao inerente s novas condies de tra-    individual-cognitivo, o social e o gerencial.
balho muda o sentido psicolgico que o in-             Se algumas das principais caractersticas das
divduo possui do prprio trabalho. Com as no-     novas tecnologias que distinguem a sociedade
vas tecnologias da informao, o trabalho pode,    ps-industrial so a sua penetrao e adaptabili-
de fato, recompor-se, mas o significado de cada    dade, ento o trabalho de "escritrio" torna-se a
atividade torna-se mais sombrio e inacessvel      forma estrutural de trabalho predominante. A
para os indivduos e para a organizao.           rpida mudana tecnolgica do trabalho media-
                                                   do pelo homem ou pela mquina para o trabalho
(4) Presso cognitiva e ritmos acelerantes         mediado pelo computador leva a mudanas no
    Ao contrrio da crena geral, esse processo    modo como os trabalhadores se adaptam ao seu
de abstrao simblica e mediao do trabalho      ambiente especfico de trabalho. Em paralelo
no  uma "conseqncia inesperada", mas um        com essas mudanas tecnolgicas, temos as trans-
elemento intrnseco da tecnologia da informa-      formaes sociais e culturais, refletindo as mu-
o. A alterao da experincia, contedo e        danas de uma sociedade baseada na manufatura
finalidade de uma ocupao ocorre indepen-         e produo de bens materiais para uma socie-
dentemente do modo como o tipo ps-industrial      dade baseada em uma economia de servios.
de trabalho  concebido, planejado e apresenta-        Nessas novas condies, o estudo da socie-
do. Talvez o exemplo mais espetacular seja a       dade ps-industrial torna-se uma operao mais
rapidez de acesso  informao e a velocidade      complexa e multidisciplinar do que no passado
de seu processamento, o que possibilita um         recente, resultando da pesquisa interdisciplinar,
considervel incremento no nmero de ope-          com contribuies provenientes de muitas dis-
728    sociobiologia


ciplinas diferentes, incluindo engenharia, infor-          a evoluo do comportamento altrusta e, de
mtica, psicologia e sociologia industrial, ergo-          modo mais geral, a concesso de benefcios a
nomia, avaliao tecnolgica, cincia da admi-             outros parentes que no a sua prpria prole, a
nistrao, cincia econmica, cincia dos sis-             um custo pessoal para o doador. Hamilton for-
temas, histria social e econmica, cincia po-            malizou as condies em que um gene que era
ltica e ainda outras, provavelmente. A tarefa             necessrio para tal padro de comportamento
consiste em administrar a arquitetura de com-              podia propagar-se, deixando de ser incomum
plexidade que  o elemento mais importante e               para ser muito difundido. Quando as condies
vulnervel de uma sociedade dominada pelo                  so satisfeitas, qualquer carter que melhore as
trabalho mediado por computador.                           probabilidades de sobrevivncia da famlia
                                                           pode aumentar em freqncia porque os pa-
Leitura sugerida: Bell, D. 1974: The Coming of Post-
Industrial Society: a Venture in Social Forecasting
                                                           rentes so suscetveis de conter os genes neces-
 Diani, Marco 1992: The Immaterial Society: Design,
                                                           srios  expresso desse carter.
Culture and Technology in the Postmodern World  Ku-            As idias de Hamilton foram importantes
mar, K. 1976: "Industrialism and post-industrialism:       porque repararam o que parecia ser um defeito
reflections on a putative transition". Sociological Re-    na teoria evolucionista de Darwin. Este props
view 24.3, agosto, 439-78  1978: Prophecy and              um processo que envolvia alguns indivduos
Progress: the Sociology of Industrial and Post-indus-
trial Society  Lyotard, J.F. 1979: La condition post-      sobrevivendo e procriando mais facilmente do
moderne  Rose, Margaret A. 1991: The Post-modern           que outros. Se os que sobreviveram e procria-
and the Post-industrial: a Critical Analysis.  Touraine,   ram mais facilmente fossem portadores de uma
Alain 1968 (1971): The Post-Industrial Society.            certa verso do carter, este seria mais forte-
                                        MARCO DIANI        mente representado em geraes futuras. A teo-
                                                           ria da seleo familiar de Hamilton explicou
sociobiologia Uma importante mudana de                    como o desfecho do processo evolutivo compe-
nfase na biologia comportamental ocorreu em               titivo , com freqncia, a cooperao social.
meados da dcada de 70. Essa mudana foi                   Na verdade, foi uma extenso do fato intuitiva-
assinalada de modo sumamente bvio pela pu-                mente bvio de que os animais muitas vezes
blicao do livro de E.O. Wilson, Sociobiology:            correm riscos e fazem coisas que so ruins para
The New Synthesis (1975), o qual reuniu os                 a sua sade na produo e nos cuidados com a
insights derivados da ecologia e da biologia da            prole.
populao com os obtidos da ETOLOGIA e da                      Outra explicao evolucionista da coopera-
psicologia comparada. Na dcada anterior os                o, desenvolvida por sociobilogos modernos,
frutos de numerosos estudos de campo de ani-                que todos os participantes se beneficiam dire-
mais tinham comeado a apontar explicaes                 tamente. Os indivduos cooperativos no so
coerentes para as formas como o comportamen-               necessariamente aparentados, mas cada um
to social poderia estar relacionado com as con-            deles tem maiores probabilidades de sobreviver
dies ecolgicas. Com o uso cada vez mais                 e de se reproduzir se trabalhar com outros. Em
poderoso da teoria evolucionista de Charles                muitas espcies, os indivduos limpam-se uns
Darwin, um grande volume de provas aparen-                 aos outros. A ajuda mtua pode ser oferecida na
temente sem qualquer relao entre si e at                caa, de modo que todos obtenham mais para
contraditrias adquiriu um sentido e o objeto de           comer; por exemplo, os membros cooperativos
estudo pareceu excepcionalmente promissor.                 de uma alcatia dividem-se entre os que es-
    O termo "sociobiologia" vem sendo usado                pantam as renas e as obrigam a correr espa-
desde o final da dcada de 40; com efeito, a               voridas e os que se mantm de tocaia para
atual Animal Behavior Society dos Estados                  intercept-las. Os pingins imperadores amon-
Unidos resultou do desenvolvimento conside-                toam-se em tropel para conservar o calor. O
rvel registrado por uma seo da Ecological               gado comprime-se entre si para reduzir a super-
Society of America denominada "Animal Be-                  fcie exposta s mordidas de insetos. Robert
havior and Sociobiology". Entretanto a mais                Trivers (1971) apontou que, em animais alta-
importante influncia no nascimento da moder-              mente complexos, a ajuda pode ser retribuda
na sociobiologia em 1975 foi provavelmente a               em uma ocasio subseqente. Com efeito, se
publicao, uma dcada antes, de uma elegante              um babuno macho ajuda um outro a rechaar
teoria de W.D. Hamilton (1964). Esta explicava             os competidores por uma fmea em certo dia,
                                                                                  sociobiologia    729


esse favor ser retribudo em outra oportuni-       produzir mais, sendo diferente para os dois
dade. Ambos os machos se beneficiam do traba-       sexos a conduta tida como tima. Mesmo com
lho em colaborao.                                 base nesse argumento, contudo, pode-se es-
    A nfase nas necessrias condies genti-      tabelecer um equilbrio entre egosmo esclare-
cas para a expresso do comportamento social,       cido e egosmo nu e cru. Em muitas espcies de
explcita na obra de Hamilton, deu origem          pssaros, nas quais ambos os sexos cuidam
mais famosa parbola da biologia moderna, a         normalmente dos seus filhotes e um dos pais
saber, a do gene egosta. Na obra de Richard        morre ou desaparece, o pai remanescente aumenta
Dawkins (1976), a evoluo foi pensada em           o tempo e a energia que devota para dar assistncia
termos de genes com intenes de conseguir o        aos filhotes. Isso sugere que cada pssaro es-
melhor para si mesmos. Sem dvida, esse modo        tabelece um equilbrio timo que maximiza o seu
de abordar a evoluo ajudou um grande nme-        prprio sucesso reprodutivo. A cooperao obser-
ro de pessoas a entender a complexa dinmica        vada quando ambos os pais esto presentes  mais
desse processo.                                     bem explicada, em termos sociobiolgicos, como
    A nfase gentica tambm est subenten-         egosmo esclarecido.
dida em muitas das outras propostas clssicas           Os argumentos da otimizao desempenha-
que foram feitas pelos que passaram a ser co-       ram um papel central em muitos outros desen-
nhecidos como sociobilogos. Robert Trivers         volvimentos da sociobiologia. Um deles foi a
(1972) props que, em espcies que se reprodu-      introduo da teoria dos jogos para explicar, por
zem sexualmente, a composio gentica de um        exemplo, a mistura aparentemente incompat-
filhote no  idntica  de nenhum de seus pais,    vel de comportamento agressivo, de falco, e
os quais tambm so geneticamente diferentes        comportamento dcil, de pombo. Os modelos
um do outro. Nessa base, no se esperaria que       simples mostraram ser possvel formar combi-
os filhotes harmonizassem seu comportamento         naes estveis de estratgias evolutivas es-
com o de seus pais, uma vez que os filhotes s      tveis. Se um tipo de comportamento se tornou
colhem benefcios da continuada e solcita as-      mais freqente que o timo por acaso, o outro
sistncia parental, ao passo que os pais podem      tipo estaria em vantagem e, no decorrer da
estar em posio de maximizar seu xito repro-      evoluo ulterior, retornaria  sua anterior pro-
dutivo poupando esforos para atender aos fi-       poro no timo. John Maynard Smith foi a
lhos subseqentes. Por essa razo, os pais po-      mais destacada figura nesses desenvolvimentos
deriam comear a retirar sua assistncia a um       tericos. Esses modelos formularam pressupos-
filho em uma poca em que este ainda se bene-       tos simplificadores muito substanciais, tais co-
ficiaria de tais cuidados. As modernas provas       mo a reproduo assexuada e distintos repert-
empricas obtidas com mamferos indicam que         rios comportamentais ou/ou, mas ajudaram a
os conflitos comportamentais em torno do des-       esclarecer o pensamento sobre os modos como
mame so menos pronunciados do que seria de         o comportamento poderia ter evoludo.
esperar com base na teoria dos interesses confli-       A busca de solues timas para a atividade
tantes. Isso se explicaria por que  crucial para   forrageira tem sido uma das principais preocu-
o seu prprio desenvolvimento que os filhos         paes da ECOLOGIA comportamental, assunto
acompanhem cuidadosamente o estado de               que passou a estar intimamente associado 
quem zela por eles.                                 sociobiologia. Por exemplo, que deve fazer um
    Trivers (1974) desenvolveu argumentos an-      animal depois de ter comido regularmente em
logos aos usados em sua teoria do conflito          um lugar, quando o alimento nessa rea comea
pais-filhos para explicar as diferenas de sexo     a se esgotar? Em que ponto o provvel benefcio
no comportamento parental. Poder-se-ia espe-        de sair em busca de uma rea muito mais abas-
rar que o pai e a me empregassem mtodos           tecida supera o benefcio em constante declnio
diferentes para maximizar seu sucesso reprodu-      de permanecer onde se est? A natureza bem-
tivo, de modo que, enquanto um ainda estava         focalizada do problema acarretou uma abun-
dispensando intensos cuidados  sua prole, o        dncia de modelos matemticos. Os modelos
outro buscaria oportunidades de se acasalar de      tinham a grande virtude de proporcionar expec-
novo. Uma vez mais, foi apresentada a idia         tativas precisas a respeito do que os animais
explcita de uma permuta entre exigncias con-      fariam. Esses modelos podiam ento ser tes-
flitantes de cuidar dos filhos existentes e de      tados em cotejo com o que os animais fazem na
730   sociolingstica


prtica. Realizar um bom trabalho em termos        deira. As imaginaes foram empolgadas pela
de planejamento tcnico depende de o animal        revitalizao da grande teoria evolucionista de
ter acesso a informaes apropriadas acerca do     Darwin e pelo modo como os estudos do com-
seu meio ambiente, da sua capacidade de reali-     portamento tinham sido conjugados, de forma
zar os clculos e do tempo disponvel para         atraente, com a biologia da populao. Mesmo
executar os clculos necessrios. Os modelos       assim, o novo objeto de estudo nasceu em am-
tambm pressupem,  claro, que a funo bio-      biente de controvrsia, em parte porque o es-
lgica do comportamento seja conhecida.            tudo do desenvolvimento e da integrao do
     perfeitamente possvel que modelos de        comportamento, que tinha sido de interesse
carter muito diferente gerem o mesmo resulta-     central para a etologia e a psicologia compara-
do. Assim, embora os cientistas possam pensar      da, era considerado irrelevante ou destitudo de
que especificaram os requisitos para um projeto    interesse para a nova abordagem. As opinies
correto, o comportamento do animal pode mui-       estavam polarizadas, sobretudo, pela tentativa
to bem estar adaptado para uma atividade muito     de injetar uma determinada classe de biologia
diferente. O modelo menos plausvel em termos      nas cincias sociais e na filosofia moral. As
biolgicos pode ser o mais adequado em termos      laceraes resultantes do conflito acadmico e
matemticos. A longo prazo, no haver real-       poltico que se seguiu levaram muito tempo
mente nenhum substituto para uma boa intuio      para sarar e, durante anos, "Sociobiologia!" foi
biolgica e os tericos tero que trabalhar de     um grito de guerra ou um termo de desaforo. As
mos dadas com pessoas que so boas observa-       reivindicaes foram gradualmente moderadas
doras de animais.                                  e as disputas esmoreceram. Quando isso acon-
    O comportamento sexual, como sempre,           teceu, a agenda da sociobiologia fundiu-se com
continua sendo um assunto de absorvente inte-      a ecologia comportamental e pouco difere hoje
resse. Que  que os animais procuram quando        dos objetos de estudo que se presumia terem
escolhem parceiros para se acasalarem? Que        sido por ela deslocados.
que a escolha de parceiros tem a ver com a         Leitura sugerida: Dawkins, R. 1976: The Selfish Gene
dinmica da evoluo? Por que ter sexos, de         Hamilton, W.D. 1964: "The genetical evolution of
qualquer modo? Eis algumas interrogaes           social behaviour" I, II. Journal of Theoretical Biology
evolutivas que continuam excitando e provo-        7, 1-52  Trivers, B.L. 1971: "The evolution of recipro-
cando as pessoas, sendo muito provvel que         cal altruism". Quarterly Review of Biology 46, 35-57
                                                    1972: "Parental investment and sexual selection". In
assim prossigam no prximo sculo. Faltam
                                                   Sexual Selection and the Descent of Man, 1871-1971,
usualmente provas diretas para o comporta-         org. por B.G. Campbell  1974: "Parent-offspring
mento fornecidas pela histria, pelo que os        conflict". American Zoologist 14, 249-64  1985: So-
bilogos comeam tipicamente com tentativas        cial Evolution  Wilson, E.O. 1975: Sociobiology: the
de distinguir entre hipteses acerca do uso cor-   New Synthesis.
rente. Se uma resposta ser ou no um substituto                                      PATRICK BATESON
para a histria  um ponto discutvel, uma vez
que um sistema comportamental adaptado a           sociolingstica Como o seu nome d a en-
algum outro uso poderia ser cooptado para a sua    tender, refere-se s reas de estudo que ligam a
atual funo. No obstante, as dedues acerca     linguagem  sociedade. Como interface entre
do uso corrente fornecem um modo indireto de       esses dois enormes campos de investigao,
extrair concluses acerca do papel modelador       com interesses tericos e metodolgicos oriun-
dos processos evolutivos darwinianos sobre o       dos de uma vasta gama de disciplinas, incluindo
comportamento no passado. Outra abordagem          a lingstica, a sociologia e a antropologia, a
indireta foi usar o conhecimento comparativo       sociolingstica ainda no pode ser definida de
de muitas espcies diferentes e de seus habitats   qualquer modo estritamente terico. Tampouco
para analisar a forma como diferentes carac-       existe muita concordncia quanto s vrias li-
teres evoluram, a ordem em que surgiram e o       nhas de demarcao entre diferentes expoentes
significado funcional da mudana evolutiva.        das teorias e metodologias sociolingsticas. A
    No livro que deu  moderna sociobiologia o     incerteza a respeito de sua natureza precisa e a
seu nome e o seu carter, E.O. Wilson tentou       discordncia acerca do seu status terico no
incorporar um vasto campo de pesquisas em          diminuram, porm, a sua popularidade como
biologia comportamental sob uma nica ban-         objeto de estudo acadmico. Publicaes que se
                                                                                sociolingstica   731


referem diretamente ou em seus subttulos           listas de palavras em vez da fala espontnea),
"sociolingstica" tm sido abundantes nas           mais provvel  a ocorrncia da varivel de
duas ltimas dcadas, com substanciais dife-         prestgio. Labov infere disso uma interdepen-
renas de contedo, segundo o ponto de vista         dncia de "variedades funcionais" da fala e
adotado pelo autor quanto  natureza da disci-       "nveis culturais" como a percepo da norma
plina. As referncias que apresentaremos a se-       (Labov, 1970, p.190). Ele tambm admite como
guir so apenas pequenas selees da extensa         prova de uma mudana consciente em curso a
gama de compndios e monografias introdut-          existncia de variaes de estilo entre formas
rios (cf. Hymes, 1974; Trudgill, 1974; Dittmar,      mais ou menos prestigiosas e as concomitantes
1976; Hudson, 1980; Downes, 1984; Fasold,            "hipercorrees" dos locutores de classe infe-
1984 e 1990), coletneas de ensaios (cf. Giglio-     rior ao tentarem ajustar-se  forma mais pres-
li, 1972; Pride e Holmes, 1972; Gumperz e            tigiosa (Aitchison, 1981, cap.4). Esse exemplo
Hymes, 1972), estudos sociolingsticos de de-       deixa claro por que at mesmo no nvel mais
terminadas comunidades lingsticas (cf. La-         microlingstico da sociolingstica se deve
bov, 1970; Trudgill, 1978) e/ou das variaes        apagar a separao dos interesses macrolings-
dentro de uma linguagem "clssica" (para a           ticos de uma "sociologia da linguagem", dado
sociolingstica do alemo, ver, por exemplo,        que esta ltima envolve crucialmente as ati-
Barbour e Stevenson, 1990; Clyne, 1984).             tudes do locutor em relao s variedades de
    Alguns autores traam uma linha divisria        linguagem e como isso influencia a escolha
entre "duas grandes subdivises no campo"            da linguagem, sua perda ou manuteno, e seu
da sociolingstica, reservando uma para a           planejamento, embora neste ltimo caso a n-
LINGSTICA e a outra para a sociologia. Nesse
                                                     fase resida mais em um nvel social. Alm de
contexto, a primeira das subdivises "comea         classe e regio, outras importantes variveis
com a linguagem, considerando que foras so-         sociolingsticas incluem gnero, raa e ida-
ciais a influenciam e contribuem para a sua          de, com os investigadores apontando, com fre-
compreenso", enquanto que a segunda "adota
                                                     qncia, controvrsias na interpretao da cor-
a sociedade como o ponto de partida bsico e a
                                                     relao entre a categoria lingstica e a sociol-
linguagem como um problema e recurso social"
                                                     gica (para excelentes discusses disso a respeito
(Fasold, 1984, Introduo). Semelhante diviso
                                                     de gnero, ver Cameron, 1985; Coates, 1986).
reflete o que outros autores veriam como uma
separao entre a sociolingstica propriamen-           bvias preocupaes sociolingsticas em
te dita, com objetivos predominantemente             nvel macro incluem, entre outras: (1) a catego-
lingsticos, e uma "sociologia da linguagem"        rizao de sociedades ou naes como biln-
(Fishman, 1968), com objetivos amplamente            ges ou multilnges, de acordo com o nmero
sociolgicos. A primeira compreenderia cen-          de diferentes lnguas faladas dentro de suas
tralmente a obra de (e no estilo de) uma das         fronteiras, independentemente do reconheci-
figuras-chaves no desenvolvimento da socio-          mento oficial dessas lnguas como idiomas na-
lingstica, William Labov, que demonstrou co-       cionais; (2) o papel poltico e social de lnguas
mo a variao no sistema lingstico em uma          minoritrias; (3) o estudo da "diglossia", que se
determinada comunidade de fala est funcio-          refere  estrita diferenciao funcional de varie-
nalmente relacionada com a ESTRATIFICAO            dades lingsticas dentro de uma comunidade
SOCIAL desse mesmo grupo. O isolamento de            de fala de acordo com uma alta (A) ou baixa (B)
variveis "sociolingsticas" como, por exem-        variedade que usualmente corresponde a dom-
plo, a estratificao de classe do (r) final ou      nios pblicos (A) e privados (B); exemplos
pr-consonantal na fala dos adultos naturais de      famosos incluem a diglossia entre o rabe cls-
Nova York (cf. Labov, 1966 ou 1970), o que          sico e o vernculo, entre o alemo corrente e o
visto como prestigioso nessa comunidade, per-        alemo da Sua, mas tambm a mudana entre
mite predies, formuladas como regras vari-        o espanhol (A) e o guarani (B) no Paraguai (ver
veis, acerca da provvel ocorrncia dessa forma      Ferguson, 1959; Fishman, 1967; para um resu-
de acordo com a ateno que os locutores pres-       mo, Fasold, 1984, cap.2); (4) a definio e o
tam  sua fala. Existe, pois, diferenciao social   estudo de "lnguas francas" (pidgins) e "criou-
e estilstica: quanto mais ateno um locutor        las" (Fasold, 1990, cap.7; Barbour e Stevenson,
presta  fala (como, por exemplo, na leitura de      1990, cap.7).
732   sociologia


    A anlise e a descrio da situao sociolin-    Bourhis empregaram para descrever atitudes de
gstica em determinada comunidade, socie-           ingleses com sotaque de Birmingham e, num
dade ou nao, no tocante  sua fala, dependem       outro estudo, com sotaque gals, em contraste
do modo como so definidas certas categorias         com a pronncia recebida (PR), medindo como
cruciais. Por exemplo, h discordncia sobre se      os ouvintes responderam a comentrios e pedi-
a variedade comum de uma lngua conta como           dos feitos em diferentes sotaques (Giles e Bou-
um dialeto no mesmo nvel de outras variedades       rhis, 1976; Bourhis e Giles, 1976; excelente resu-
sociais e regionais igualmente sistemticas e        mo em Fasold, 1984, cap.6).
governadas por regras, e sobre se uma simples             luz das amplas reas de interesse na inter-
diviso em lngua clssica e dialeto  suficiente    relao de linguagem e sociedade, assim como
para cobrir os muitos e diferentes nveis de         da gama de mtodos empregados, alguns au-
variao regional e social em diferentes pases      tores preferem ver a sociolingstica tal como 
(ver Trudgill, 1974; Barbour e Stevenson, 1990,      definida post hoc pelos tpicos e reas de in-
cap.5). A definio de uma "lngua" como a           vestigao abordados por lingistas, antroplo-
entidade abrangente que contm dialetos mu-          gos, socilogos e psiclogos sociais nas vrias
tuamente compreensveis tambm  problem-           intersees entre linguagem e sociedade (Fa-
tica se considerarmos a compreensibilidade           sold, 1990, Introduo). Isso priva a socio-
mtua entre locutores de "diferentes lnguas"        lingstica, de momento, de uma rigorosa teoria
como o noruegus e o dinamarqus, ou os locu-        prpria, mas tem a vantagem de no restringir
tores de dialetos locais na fronteira holande-       a gama de linhas fecundas de investigao a um
sa/alem (Trudgill, 1974), em contraste com a        certo conjunto de mtodos. No impede que
ausncia de tal compreensibilidade entre os          Hymes descreva a sua concepo da socio-
locutores dos numerosos dialetos alemes. As         lingstica como "uma tentativa de repensar as
controvrsias tambm cercam as generaliza-           categorias e pressupostos percebidos em rela-
es de Labov na base da abstrao empirica-         o s bases do trabalho lingstico e ao lugar
mente inidnea de uma "comunidade de fala"           da linguagem na vida humana" (Hymes, 1974,
(Romaine, 1982).                                     p.vii), mas ela poderia ser vista, em vez disso,
    Alm dessas preocupaes com a definio         como um degrau para se chegar a essa teoria.
de seu prprio objeto de estudo, a sociolings-     Uma abordagem alternativa com vistas a uma
tica est centralmente interessada na metodolo-      teoria unificada do lugar da linguagem na vida
gia. Em contraste com o trabalho em lingstica,     social e no processo social, teoria essa que no
o qual aceita a intuio do locutor ou pesquisa-     poderia continuar sendo parte de um sub-ramo
dor, e freqentemente confia nela, sobre ques-       "hifenizado" da lingstica, com sua nfase no
tes de gramaticalidade de determinada forma         comportamento regido por leis, ou de um sub-
ou frase, a sociolingstica baseia-se firmemen-     conjunto da sociologia, pode ser encontrada
te no comportamento da fala concreta, de pre-        na obra de Halliday sobre gramtica sistmica
ferncia espontnea. Grande parte da metodo-         (Halliday, 1978, 1985, 1987), embutida em uma
logia sociolingstica interessa-se, pois, em su-    semitica social geral.
perar dificuldades na obteno de tais dados.            Ver tambm DISCURSO.
Isso no  verdadeiro apenas para o trabalho
                                                     Leitura sugerida: Barbour, S. e Stevenson, P. 1990:
relacionado com variveis sociolingsticas,         Variation in German  Fasold, R. 1984: The Sociolin-
como a famosa evocao de Labov dos (r)s nas         guistics of Society  1990: The Sociolinguistics of Lan-
lojas de departamentos de Nova York, quando          guage  Giglioli, P.P., org. 1972: Language and Social
fez os balconistas inclurem "fourth floor" (quar-   Context  Pride, J.B. e Holmes, J., orgs. 1972: Sociolin-
to andar) em suas respostas.  tambm aplic-        guistics  Trudgill, P. 1974: Sociolinguistics.
vel ao trabalho substancial sobre atitudes lin-                                          ULRIKE MEINHOF
gsticas, quando j no se considera suficiente
perguntar s pessoas se gostam ou no de deter-      sociologia Uma retardatria entre as cincias
minado dialeto, sotaque ou variante de fala, mas     sociais acadmicas, a sociologia, no obstante,
cumpre descobrir tais preferncias atravs de        teve suas origens no sculo XVIII, nas filosofias
mtodos indiretos, como as diferentes varia-         da histria, nas primeiras pesquisas sociais e nas
es de "formas combinadas". Notem-se, por           idias gerais do Iluminismo. Em suas fases
exemplo, os engenhosos mtodos que Giles e           iniciais e mormente nos escritos de Auguste
                                                                                     sociologia   733


Comte, que foi quem deu nome  nova cincia,         pases. Nos Estados Unidos, alguns dos primei-
a sociologia tinha uma orientao geralmente         ros socilogos, especialmente W.G. Sumner,
evolucionista e positivista. Essas caractersticas   foram fortemente influenciados pelas idias de
persistiram durante a maior parte do sculo XIX      Spencer sobre individualismo, laissez-faire e
nas obras de Herbert Spencer e, de modo muito        sobrevivncia dos mais aptos (Hofstadter,
diferente, nas de Karl Marx, ligando a disciplina    1955), mas um ponto de vista oposto e uma
de vrias maneiras  teoria darwiniana (ver          reorientao do pensamento social saram a
DARWINISMO SOCIAL), s teorias do progresso e        lume na virada do sculo (White, 1957): soci-
aos projetos de reforma ou revoluo social. No      logos como Lester F. Ward, E.A. Ross, Albion
final do sculo, contudo, a sociologia assumiu       Small e Thorstein Veblen, influenciados em
uma forma diferente e lentamente se estabele-        certa medida por idias marxistas, reafirmaram
ceu como disciplina acadmica, atravs das           a associao da disciplina com os movimentos
obras de dois importantes pensadores, Max We-        de reforma social e advogaram um aumento da
ber e mile Durkheim, que podem ser conside-         interveno do estado, perspectiva que era es-
rados, em conjunto com Marx, cuja obra deu           pecialmente evidente no trabalho do Departa-
origem a uma caracterstica sociologia marxista      mento de Sociologia da Universidade de Chi-
(ver MARXISMO), os fundadores da disciplina em       cago, criado por Small, o qual dominou a socio-
sua concepo moderna. Embora fossem pro-            logia norte-americana durante duas dcadas,
fundamente diferentes em suas idias e aborda-       at meados dos anos 30 (ver ESCOLA SOCIOLGI-
gens, esses pensadores tinham em comum uma           CA DE CHICAGO). Na Gr-Bretanha, a teoria evo-
nova e mais precisa concepo da "sociedade"         lucionista de Spencer foi remodelada por L.T.
como objeto de estudo a ser claramente dis-          Hobhouse em um esquema de pensamento mais
tinguido do domnio do estado e do poltico, de      coletivista e orientado para a reforma, associa-
uma vaga histria universal da humanidade e          do a uma teoria do progresso (Collini, 1979), a
das histrias particulares de "povos", "estados"     qual continuou a dominar a matria at depois
ou "civilizaes"; e dispuseram-se a definir e       da Segunda Guerra Mundial, em grande parte
demonstrar os princpios e mtodos dessa nova        atravs da obra de Morris Ginsberg. A sociolo-
"cincia da sociedade". Tambm concentraram          gia, contudo, ocupava um lugar muito secun-
primordialmente suas atenes nos problemas          drio nas universidades britnicas, embora a
especficos da estrutura e desenvolvimento do        influncia do marxismo como teoria econmica
moderno capitalismo ocidental, respondendo s        ou sociolgica tambm fosse mnima, e apenas
profundas mudanas na vida social que ele            na segunda metade do sculo  que a disciplina
provocou, ao crescimento do movimento da             ficou firmemente estabelecida, em formas que
classe operria e  propagao das idias socia-     foram muito influenciadas por idias america-
listas. A anlise de Marx da economia capitalis-     nas e europias.
ta e da estrutura de classes teve uma influncia         A situao em alguns pases do continente
profunda em Durkheim e Weber, especialmente          europeu era bem diferente. Na Alemanha e na
no ltimo, cujos conceitos e interpretaes fo-      ustria, a teoria social marxista, que no comeo
ram elaborados, em grande medida, em oposi-          se desenvolveu principalmente  margem das
o crtica ao marxismo (Lwith, 1932). De           universidades, reteve um lugar importante des-
modo mais geral, uma considervel parte do           de o comeo do sculo at os primeiros anos da
pensamento sociolgico europeu nas primeiras         dcada de 30 e exerceu grande influncia na
dcadas do sculo XX veio a se centrar em um         obra de outros socilogos. Os principais temas
confronto entre a teoria marxista e todas as         da sociologia de Weber -- as origens do capi-
outras.                                              talismo moderno, os problemas de interpreta-
    Ao mesmo tempo, porm, a sociologia tam-         o histrica, economia e sociedade, classe e
bm tinha acentuadas caractersticas nacionais       status, poder poltico -- foram todos decorrn-
e regionais. Em primeiro lugar, estava larga-        cia direta do seu encontro com o pensamento
mente confinada  Europa Ocidental e  Am-          marxista. Mas durante a sua reflexo sobre o
rica do Norte, isto , s regies onde o capita-     marxismo, e influenciado por debates mais am-
lismo industrial se desenvolvera com maior           plos sobre a natureza da anlise e explicao
rapidez; mas, dentro dessas regies, adquiriu        social, Weber tambm suscitou questes mais
caractersticas diferentes em determinados           gerais a respeito da explicao histrica, dos
734   sociologia


problemas da objetividade em relao a orien-       acuidade, entre explicao sociolgica e expli-
taes de valor e do papel da explicao causal,    cao psicolgica. As suas concepes sociol-
em contraste com o entendimento interpreta-         gicas foram amplamente difundidas na Frana
tivo, em sociologia e outras cincias sociais       no perodo entre as duas guerras mundiais atra-
(Outhwaite, 1975). No s os escritos metodo-       vs da revista por ele fundada, L'Anne Socio-
lgicos de Weber, mas tambm a sua crtica do       logique, em torno da qual se criou uma ESCOLA
marxismo e, sobretudo, a sua conceitualizao       SOCIOLGICA DE DURKHEIM; essas concepes
do desenvolvimento da sociedade moderna co-         tambm se tornaram influentes em outros pa-
mo um processo de racionalizao do mundo           ses, mormente na antropologia social britnica
(Brubaker, 1984) tiveram profunda influncia        e, de forma diferente, na sociologia norte-ame-
na sociologia subseqente. Raymond Aron e C.        ricana, como fator importante no desenvolvi-
Wright Mills adotaram, embora no contexto de        mento da escola funcionalista, a qual adotou
diferentes orientaes polticas, a distino de    como principal objetivo da sociologia a anlise
Weber entre estrutura de classe e sistema de        das formas como instituies e grupos diferencia-
poder poltico, e Aron, em particular, elaborou     dos contribuem para a integrao e a persistncia
um esquema de pensamento em que o papel das         de toda uma sociedade (ver FUNCIONALISMO).
elites (ver ELITES, TEORIA DAS) foi analisado em        Outras contribuies europias de grande
relao  estratificao social e empreendeu        influncia foram feitas por Vilfredo Pareto
comparaes entre a pluralidade de elites nas       (1916-19) e Gaetano Mosca (1896), sobretudo
sociedades ocidentais e a elite unificada na        em suas teorias das elites, desenvolvidas em
Unio Sovitica (Aron, 1950). De modo geral,        oposio  teoria marxista das classes, as quais
ele desenvolveu uma sociologia histrica que        deram origem a continuadas controvrsias so-
devia muito a Weber, em sua concepo do            bre elites e democracia e a relao entre elites e
surgimento da sociedade industrial moderna          classes (Bottomore, 1964). A obra de Pareto
como fenmeno mpar, inicialmente ocidental,        tambm teve uma influncia mais geral atravs
que marcou uma ruptura radical na evoluo          da distino por ele traada entre ao "lgica"
das sociedades humanas (Aron, 1966 [1967]).         e "no-lgica" (tratando de algumas das mes-
Mais recentemente o tema central de Weber,          mas questes abordadas por Weber em sua an-
a racionalizao, foi reexaminado em termos         lise dos tipos de ao social) e da sua tese de
crticos por Habermas (1981) em um estudo           que a maior parte da ao humana  decidida-
abrangente de diferentes abordagens tericas        mente no-lgica, resultado de impulsos e sen-
do assunto, que ele concluiu distinguindo dois      timentos a que chamou "resduos", freqente-
tipos principais de sociedade racionalizada no      mente camuflados em doutrinas e sistemas te-
mundo atual: o capitalismo organizado e o so-       ricos denominados "derivaes" (ver IDEOLO-
cialismo burocrtico.                               GIA; SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO). Tambm
    Na Frana, a sociologia de Durkheim foi         na Rssia, nos primeiros tempos, houve
tambm desenvolvida, em parte, em oposio         interesse pela sociologia e, depois da Revolu-
teoria marxista, na sua descrio da diviso do     o, Bukharin (1921) exps um "sistema de
trabalho e das relaes de classe (1893), em        sociologia" marxista, mas a subida de Stalin ao
suas aulas sobre o socialismo (1928) e na rejei-    poder ps fim a tais desenvolvimentos e a so-
o do materialismo histrico em seu estudo         ciologia foi substituda por uma doutrina oficial
das causas e funes sociais da religio (1912),    de materialismo histrico, apresentada em sua
mas recebeu igualmente grande influncia das        maior parte na forma de uma rudimentar teoria
concepes positivistas e neokantianas de cin-     evolucionista isolada de qualquer espcie de
cia e de sua viso crtica da filosofia evolucio-   reflexo crtica ou comprovao emprica.
nista de Comte. Mas Durkheim, tal como We-              Na dcada de 30 a sociologia estava conso-
ber, tambm ventilou questes mais amplas           lidada sob diversas formas em muitos dos prin-
acerca do mbito e do alcance da teoria socio-      cipais pases industriais. Nos Estados Unidos,
lgica (Lukes, 1973; Nisbet, 1974), expostas de     onde a disciplina era mais amplamente ensina-
forma sumamente sistemtica no seu livro so-        da nas universidades, ela tinha um carter pre-
bre o mtodo sociolgico (1895), em que traou      dominantemente emprico e orientado para a
um esquema de anlise causal e funcional e          reforma, exemplificado na obra da ESCOLA SO-
procedeu  importante distino, com notvel        CIOLGICA DE CHICAGO, mas recebeu uma cres-
                                                                                    sociologia   735


cente influncia das teorias europias, as quais    forme tinha sido postulada por Simmel e We-
forneceram o ponto de partida para a importante     ber; mas na obra ulterior de Parsons a nfase
obra terica de Talcott Parsons (1937), embora      passou a incidir sobre a anlise da estrutura
a teoria da ao social por ele exposta viesse a    social, ou do "sistema social" (1951), e dos
ter sua maior influncia depois da guerra. Na       processos de evoluo social (1966), e a sua
Alemanha e na ustria, a sociologia foi forte-      teoria madura foi considerada por alguns crti-
mente influenciada por Weber, mas tambm            cos como claramente pertencente  categoria
pela obra de Georg Simmel (1908), cuja con-         de uma sociologia (determinstica) de siste-
cepo da disciplina como uma nova aborda-          mas sociais, oposta a uma sociologia da ao
gem que envolvia a anlise da sociao ou           social que destacaria a construo do mundo
interao como "formas" distintas do contedo       social por seus membros como seres ativos,
histrico foi elaborada por Leopold von Wiese       decididos e criativos (Dawe, 1978).
(1933) em uma "sociologia sistemtica" geral,           Durante duas dcadas, contudo, a teoria dos
e ainda por uma sociologia marxista formulada       sistemas de Parsons (tambm conhecida como
em termos sumamente rigorosos no AUSTRO-            estrutural-funcionalismo), modificada de v-
MARXISMO. Mas esse variado e vigoroso de-           rias maneiras por R.K. Merton (1949), forneceu
senvolvimento foi sufocado depois de 1933           em certa medida, e mais particularmente na so-
pelo regime nacional-socialista. Na Frana, a       ciologia americana, um paradigma dominante
disciplina era dominada por concepes dur-         para a teoria sociolgica. Mas foi sempre con-
kheimianas, embora estas fossem desafiadas          testada a partir de outras perspectivas, no s
por crticos marxistas e alguns seguidores de       pelos que atriburam maior importncia  me-
Durkheim -- Halbwachs (1938) em seus es-            diao humana, mas tambm por socilogos de
tudos de classes sociais e Simiand (1932) em        mentalidade mais histrica, marxistas ou webe-
sua sociologia econmica -- se aproximassem         rianos, por muitos que continuaram trabalhan-
mais da sociologia marxista ao enfatizar a im-      do em um quadro de referncia positivista-
portncia primordial dos fenmenos econmi-         empirista e por pensadores radicais que critica-
cos.
                                                    vam o que entendiam como o conservadorismo
    S depois da Segunda Guerra Mundial, po-
                                                    poltico implcito nesse paradigma.
rm, e sobretudo na dcada de 60, teve lugar
uma rpida expanso da sociologia e a matria           O declnio do paradigma funcionalista co-
se estabeleceu como importante cincia social       meou na dcada de 60, quando ocorreu uma
acadmica, pela primeira vez em escala verda-       grande transformao da sociologia. Conflitos
deiramente internacional. Inicialmente, a in-       internacionais, em especial a Guerra do Vietn,
fluncia da sociologia americana, por causa da      o aparecimento de novos movimentos sociais,
escala da disciplina nos Estados Unidos, do         o crescimento da dissidncia e da oposio nos
nvel de desenvolvimento da investigao em-        pases ocidentais e na Europa Oriental, a am-
prica e da disponibilidade de verbas para pes-     pliao da distncia entre naes ricas e pobres,
quisa, foi de suprema importncia na revitaliza-    tudo isso provocou uma reorientao radical do
o da sociologia na Europa Ocidental e na sua      pensamento social. Mudana e conflito social,
propagao a outras regies do mundo, e isso        em vez de integrao e regulao da vida so-
se manifestou em duas direes diferentes: no       cial mediante normas compartilhadas ou um
rpido crescimento de pesquisas empricas           suposto "sistema de valores comuns", passaram
mais sofisticadas, e tambm comparativas e          agora a ser questes centrais para anlise. Como
transnacionais, e no impacto da teoria da ao      Weber tinha escrito em seu ensaio sobre a ob-
de Parsons sobre o pensamento sociolgico,          jetividade (1904): "Chega um tempo em que a
tanto maior na medida em que Parsons se apoia-      atmosfera muda (...) A luz dos grandes proble-
va extensamente na construo de sua prpria        mas culturais seguiu em frente. Tambm a cin-
teoria, em concepes anteriores, na obra de        cia se prepara, ento, para mudar o seu ponto de
Pareto, Durkheim e Weber. Essa teoria, em sua       vista e o seu aparelhamento conceitual." A so-
verso original, levantou, entre outras questes,   ciologia floresceu nesse novo clima intelectual,
e tentou resolver a antiga controvrsia em torno    enquanto a influncia do pensamento marxista
da relao entre a ao individual, ou mediao     ocidental (ver MARXISMO OCIDENTAL) aumenta-
humana, e a estrutura social abrangente, con-       va rapidamente, chegando a se alastrar de modo
736   sociologia


significativo na Europa Oriental  medida que       ciedade" e como "ser autnomo"; por Berger e
a ortodoxia stalinista se desintegrava.             Luckmann (1966) em seu enunciado de trs
    Essa reorientao e essa expanso da disci-     aspectos fundamentais da vida social ("A So-
plina foram acompanhadas da crescente es-           ciedade  um produto humano. A Sociedade 
pecializao e da proliferao de reas novas ou    uma realidade objetiva. O Homem  um produ-
redefinidas de pesquisa -- por exemplo, no          to social"); e por muitos socilogos recentes
contexto social do crescimento econmico, no-       que esto comprometidos com o determinismo
vas formas de imperialismo, o papel da fora na     social em verses estruturalistas ou outras, ou,
vida social, gnero, grupos tnicos e movimen-      pelo contrrio, com concepes de ao in-
tos sociais --, muitas das quais colocaram a        dividual (em especial, ao racional; ver ESCO-
sociologia em uma relao mais estreita com         LHA RACIONAL, TEORIA DA) e com a interpretao
outras cincias sociais, especialmente a cincia    da interao entre indivduos na vida cotidiana
econmica, a antropologia e a cincia poltica.     (Wolff, 1978; ver tambm FENOMENOLOGIA), ou
Ao mesmo tempo, porm, a multiplicidade de          que tentam transcender essa oposio atravs
paradigmas tambm tendia a aumentar, e a di-        de concepes como "desestruturao" e "rees-
viso da disciplina em escolas concorrentes de      truturao (Gurvitch, 1958; ver ESTRUTURA-
pensamento, que sempre existiu, tornou-se           O), ou a "autoproduo da sociedade" (Tou-
mais pronunciada. O pensamento marxista, que        raine, 1973).
se poderia ter presumido ser capaz, durante o           Uma segunda e importante questo  a que
perodo de sua maior influncia, de promover        se refere  relao entre estrutura social e mu-
certo grau de unificao terica, tornou-se ele     dana histrica. A espcie de estruturalismo
prprio mais diferenciado em conseqncia de        introduzido na antropologia social por Lvi-
mltiplas reinterpretaes e reconstrues das      Strauss (1958) e depois difundido em sociolo-
idias de Marx, sendo as posies extremas          gia, em parte em uma verso marxista, era
representadas pelo marxismo estruturalista de       geralmente no-histrico e, com freqncia, re-
Louis Althusser (ver ESTRUTURALISMO) e pela         jeitou completamente a possibilidade ou impor-
teoria crtica da ESCOLA DE FRANKFURT.              tncia da explicao histrica, entrando assim
    Existem,  claro, controvrsias que resistem    em conflito com as teorias sociolgicas da mu-
ao tempo em todas as cincias sociais acerca de     dana e desenvolvimento social, quer fossem
abordagens tericas fundamentais, mas na so-        weberianas, marxistas ou evolucionistas. No
ciologia, que pretendia e, com maior ou menor       caso da teoria marxista, o problema talvez pu-
convico, ainda pretende formular os princ-       desse ser resolvido invocando-se a idia de
pios de uma cincia social geral, elas sempre       "contradies estruturais" (Godelier, 1966),
foram excepcionalmente agudas e nitidamente         mas a tendncia geral do pensamento estru-
expressas. Esto envolvidas trs questes prin-     turalista era questionar o valor das explicaes
cipais. A primeira diz respeito  relativa impor-   histricas e consider-las construes ideolgi-
tncia na vida social da estrutura social --        cas mais ou menos arbitrrias. Goldmann
padres estabelecidos de comportamento, ins-        (1970), contudo, descreveu em linhas gerais um
tituies formais -- e das aes conscientes,       "estruturalismo gentico" e sustentou que, des-
intencionais, de indivduos ou grupos de in-        se ponto de vista, as estruturas que constituem o
divduos: se, e em que medida, a sociedade deve     comportamento humano no so "fatos univer-
ser concebida como resultante dessas aes ou       salmente dados", mas "fenmenos resultantes
se, pelo contrrio, as intenes e possibilidades   de uma gnese passada" cuja transformao
de ao de indivduos e grupos devem ser vistas     prenuncia "uma evoluo futura" (ver tambm
como produto da sociedade. O problema tem           Piaget, 1968).
sido apresentado e debatido desde as origens da         A terceira questo importante, que coincide
disciplina at o momento presente: por Marx         em parte com as outras duas, diz respeito 
(1852), em sua observao de que "os seres          natureza geral da explicao sociolgica e, em
humanos fazem a sua prpria histria, mas no       particular,  noo de CAUSALIDADE na vida
a fazem simplesmente a seu bel-prazer"; por         social. Existe, nesse caso, uma clara diviso
Simmel (1908), em sua formulao de "duas           entre os adeptos da explicao causal, em for-
caracterizaes logicamente contraditrias" do      mas positivistas ou realistas (ver POSITIVISMO;
ser humano como "produto e contedo da so-          REALISMO), os comprometidos com uma expli-
                                                                                       sociologia    737


cao em termos de estados finais (funcionalis-    domnio, a sociologia tambm teve algum im-
mo) e os que, distinguindo com nitidez entre       pacto sobre a POLTICA SOCIAL e econmica do
cincias naturais e cincias sociais, rejeitam a   ps-guerra, atravs da pesquisa sobre o desen-
idia de uma explicao causal dos processos       volvimento do estado de bem-estar em pases
sociais em favor de interpretaes do significa-   industriais (Marshall, 1970) e, subseqente-
do da ao humana (ver HERMENUTICA). Todos        mente, em pases recm-independentes em pro-
os principais socilogos tm se debruado so-      cesso de industrializao, e sobre a natureza dos
bre essa questo: Marx, em cuja obra alguns        problemas sociais e a eficcia das medidas para
discerniram um "positivismo latente" (Well-        enfrent-los (Wootton, 1959; Merton e Nisbert,
mer, 1969), outros um mtodo realista ou dia-      1961).
ltico (ver DIALTICA) ou fenomenolgico; We-          As realizaes da sociologia nessas dife-
ber, cuja viso complexa da natureza da socio-     rentes esferas so reais e substanciais, ao am-
logia justaps a explicao causal e a com-        pliarem a gama de conhecimentos sistematica-
preenso do significado, sendo ambas neces-        mente ordenados da vida social e ao proporcio-
srias para o pleno entendimento da vida social;   narem, em certa medida, uma base emprica e
e Durskheim, que defendeu a explicao causal      racional para a formulao de polticas pbli-
e a funcional, embora a ltima predominasse        cas. No obstante, h um profundo desconten-
em seus estudos.                                   tamento com as contnuas divises e fragmen-
    Apesar desses problemas e discordncias        taes no seio de uma disciplina que parece
fundamentais, a sociologia tem tido uma in-        espraiar-se  vontade em um vasto campo, des-
fluncia profunda no pensamento social moder-      de a filosofia da cincia at a detalhadssima
no; com efeito, em parte por causa dessa preo-     investigao microscpica de alguma forma
cupao com a natureza e os primeiros princ-      bizarra de atividade humana que pode elucidar
pios de uma cincia social, ela tornou-se um       ou no a condio humana geral.  questo em
ponto focal para debates que, se no resolveram    aberto se acabar por surgir finalmente uma
os problemas, elucidaram indubitavelmente, de      disciplina mais unificada e intelectualmente
muitas maneiras, as dificuldades especficas da    coerente, satisfazendo parte da esperana e pro-
generalizao e explicao no domnio dos          messa originais de uma s cincia paradigm-
eventos e processos sociais (Outhwaite, 1987).     tica da sociedade, ou se a crescente especia-
Mas o pensamento sociolgico tambm tem            lizao ser acompanhada de nova proliferao
sido influente em outros aspectos ao incutir em    de modelos e disputas intensificadas entre os
disciplinas mais especializadas uma percepo      proponentes de teorias alternativas. Para o fu-
do contexto social mais amplo. Muitos dos          turo previsvel, a segunda alternativa parece
estudos sociolgicos mais interessantes foram      mais provvel, mas as conseqncias no de-
realizados em conjunto com outras disciplinas,     vem, em absoluto, ser deploradas; a controvr-
por exemplo, na sociologia econmica, em que       sia ajudar, pelo menos, a assegurar que a so-
uma antiga tradio de economia poltica foi       ciologia continua sendo uma disciplina viva e
revivida e investigaes como as de Weber          crtica, no uma celebrao do status quo, e que
(1921) e Schumpeter (1942) foram reavaliadas       novas idias surgiro, as quais tero um impac-
como ponto de partida para novos estudos; na       to revigorante sobre o pensamento social e so-
sociologia poltica, em que as descries de       bre as formas de vida social.
instituies polticas formais foram gran-             Ver tambm EDUCAO E TEORIA SOCIAL; HIN-
demente ampliadas por estudos de partidos,         DUSMO E TEORIA SOCIAL HINDU; CRIST, TEORIA
eleies, grupos de presso e movimentos so-       SOCIAL.
ciais, assim como por anlises de conceitos
como democracia, burocracia e cidadania; na        Leitura sugerida: Abercrombie, N., Hill, S. e Turner,
                                                   B.S., orgs. 1984: The Penguin Dictionary of Sociology
considervel expanso da pesquisa em histria       Aron, Raymond 1965, 1968: Main Currents in Socio-
social, concebida em alguns acasos como uma        logical Thought, 2 vols.  Bottomore, Tom e Nisbet,
histria de estruturas sociais (Burke, 1980); e    Robert, orgs. 1978: A History of Sociological Analysis
em numerosos estudos de desenvolvimento do          Giddens, A. 1971: Capitalism and Modern Social

Terceiro Mundo, nos quais socilogos, antrop-     Theory  Nisbet, Robert 1966 (1967): The Sociological
logos, economistas e cientistas polticos parti-   Tradition.
ciparam e, por vezes, cooperaram. Em outro                                            TOM BOTTOMORE
738   sociologia comparada


sociologia comparada O adjetivo "compa-                 notveis (e freqentemente citadas) excees
rado"/"comparada" tem sido acrescentado a               -- ter sido realizada no mbito de uma nica
quase todas as cincias sociais (ou campos es-          unidade macro. Os que trabalharam nas chama-
treitamente afins): antropologia, (estudo de) ci-       das disciplinas nomotticas -- cincia econ-
vilizaes, histria, direito, lingstica, poltica,   mica, sociologia, cincia poltica (direito) --
psicologia, sociologia. Entretanto ele sempre           mostraram-se propensos a efetuar seu trabalho
desempenhou um papel secundrio dentro da               emprico dentro das fronteiras de seu prprio
organizao do conhecimento. O que no deixa            pas. Isso foi justificado, em grande parte, sob
de ser motivo de surpresa.                              a alegao do universalismo. As relaes de
    Existe uma razo simples, freqentemente            variveis se sustentariam "universalmente" e,
observada. Toda a pesquisa social envolve ne-           portanto, no seria urgente variar os locais onde
cessariamente uma comparao entre casos de             elas eram coletadas. Na prtica, esses locais
algumas variveis, explcita ou implicitamente.         resumiam-se a alguns pases da Europa Ociden-
Por conseguinte, toda pesquisa social  compa-          tal e aos Estados Unidos. De tempos em tempos,
rada, o que torna o adjetivo redundante. Entre-         cticos defendiam o estudo comparativo desses
tanto, apesar desse bvio trusmo, vrios inte-         pases.
lectuais tm repetidamente defendido o uso do               Os intelectuais que se intitulavam historia-
mtodo "comparativo" em pesquisa social. Mas            dores tendiam a realizar seu trabalho nesses
sempre que grupos de intelectuais pareciam              mesmos pases e nos seus prprios. Isso era
coligar-se para apoiar o mtodo "comparativo"           justificado, porm, com a alegao oposta de
em determinados campos de trabalho, acaba-              particularismo. Uma vez que cada situao his-
ram por abandonar, algum tempo depois, o                trica era particular e complexa, seu estudo
termo "comparado", com o argumento de que               exigia devoo total por parte do intelectual,
sua obra realmente era, em certo sentido, uma           que procedia com extrema proficincia para
contribuio para a teorizao "geral" sobre            obter os necessrios conhecimentos sobre um
este ou aquele campo.                                   pas e dificilmente se mostrava capaz de domi-
    A explicao dessa aparente anomalia  que          nar o estudo de dois pases. Evidentemente,
o conceito de pesquisa social comparada como            alguns intelectuais estudaram a histria de pa-
subcampo especial no  intrnseco  lgica das         ses que no eram os deles (como no caso de um
cincias sociais, mas constitui um recurso heu-         investigador ingls da histria alem), mas nes-
rstico para superar problemas organizacionais          ses casos a tendncia era de restringirem seu
no mbito das cincias sociais. A sociologia            trabalho unicamente a esse outro pas. As con-
comparada (assim como a antropologia compa-             vocaes a uma "histria comparada" (como as
rada etc.) tende a se referir ao estudo das dife-       feitas por Marc Bloch) caam em ouvidos ainda
renas em estruturas e processos entre unidades         mais surdos do que os apelos em prol da "so-
de macronvel, como quer que sejam definidas.           ciologia comparada".
Em outras palavras, quando certos intelectuais              Os intelectuais que eram orientalistas foram
ficam desconfiados de hipteses baseadas em             igualmente envolvidos pela crena no particu-
trabalhos empricos usando como fundamento              larismo, o que lhes tornava difcil adquirir de
que o locus desses trabalhos empricos seria            forma proficiente uma sabedoria que superasse
uma zona espao-cultural especfica, freqen-           os limites desse particularismo e os fazia resis-
temente afirmam que observar as relaes de x           tentes, portanto, ao estudo comparado de "civi-
e y nos contextos de unidades macro a e b               lizaes". Houve, sem dvida, ousadias tanto
forneceria provas sobre se a correlao perce-          por parte de "intrusos" como Max Weber quan-
bida de x e y , de fato, "universal" ou se            to dos que estavam "por dentro", como Max
especfica para a unidade macro na qual foi             Mller, sobretudo na comparao de religies
originalmente observada. Isso converte-se em            mundiais, mas a maioria dos orientalistas limi-
um apelo a "comparar" as unidades macro.                tou-se  esfera de sua competncia e no se
    O problema organizacional que a demanda             atreveu a ir alm dela.
peridica por estudos comparativos reflete con-             Os antroplogos eram os mais afetados por
siste no fato de a maioria das pesquisas sociais        essa questo. Na medida em que eram impeli-
empricas entre meados do sculo XIX e mea-             dos em uma direo etnogrfica, ou seja, ideo-
dos do sculo XX -- com, por certo, algumas             grfica, tendiam a se especializar em uma "tri-
                                                                            sociologia da arte   739


bo" pelas mesmas razes pelas quais os his-        ciologia, os dois termos eram freqentemente
toriadores se especializavam em uma nao          combinados, na dcada de 80, como "sociolo-
(ocidental): as dificuldades em adquirir um sa-    gia histrica comparada".
ber profundo em termos universais. Mas na              Assim, a sociologia comparada sempre re-
medida em que alimentavam pretenses nomo-         presentou simultaneamente um certo nmero
tticas, no podiam dar o salto lgico de um       de vetores: antietnocentrismo (ver tambm SIS-
economista que usa dados extrados do seu          TEMA-MUNDO), interesse nos nveis macro e em
prprio pas (ocidental) e os considera repre-     estruturas complexas, logo, interesse no detalhe
sentativos de uma boa amostra do universo. Os      histrico. A sociologia comparada no  um
antroplogos s podiam validar suas pretenses     campo, mas uma crtica de tudo o que parece
nomotticas atravs do que se passou a designar    estreito e reducionista em sociologia. O desapa-
como estudos "transculturais".                     recimento do termo significar ou o grande
     impressionante, porm, como esse gnero      sucesso ou o grande fracasso dessa crtica.
de comparao de unidades do nvel macro era                               IMMANUEL WALLERSTEIN
raro antes de meados do sculo XX. A era
ps-1945 veio a fornecer, contudo, um impor-       sociologia da arte Constitui a tentativa de
tante estmulo aos trabalhos comparativos, so-     entendimento da produo e consumo de arte
bretudo em sociologia e cincia poltica. A cau-   como o efeito, reflexo ou representao de um
sa foi o ingresso na conscincia pblica e na      processo social geral. Sem ser uma disciplina
percepo esclarecida dos intelectuais do que      claramente definida ou ter uma metodologia
passou a ser chamado de Terceiro Mundo. Uma        unitria, a sociologia da arte  vista, de prefe-
resposta institucional foi o crescimento de es-    rncia, como instrumento de certo nmero de
tudos de rea, o que levou no mnimo ao estudo     disciplinas e reas de investigao, entre as
comparativo de diferentes pases na mesma          quais est dispersa. Nelas se incluem a his-
rea (como a Amrica Latina, o Oriente Mdio)      toriografia e a histria da arte, a antropologia
e, no mximo, ao "estudo comparativo de novas      social e o estudo de subculturas, o estudo his-
naes". Depois do 20 Congresso do Partido        trico e sociolgico de classes e grupos sociais,
Comunista da Unio Sovitica, em 1956, o           a SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO, a lingstica e
processo subseqente de "desestalinizao" no      a crtica de arte. Embora essas ligaes possam
que fora anteriormente considerado nos pases      ser consideradas controversas (Wolff, 1981), a
ocidentais um bloco monoltico redundou no         sociologia e a histria da arte praticadas como
"estudo comparado do comunismo". A maior           forma de histria social sero aqui agrupadas.
parte desse trabalho foi realizado dentro do       Com efeito, um dos pioneiros indiscutveis de
quadro de referncia da teoria da MODERNIZA-       ambas, Pierre Francastel, reuniu-as na dcada
O, a qual pressupunha estgios paralelos         de 40. Ele tambm argumentou (Francastel,
de desenvolvimento para estados-naes e, por      1965, p.16) que o tema, em si mesmo,  carac-
conseguinte, a possibilidade de uma compara-       terstico do perodo moderno do pensamento
o sistemtica.                                   historicista autoconsciente e no teria um de-
    Na era ps-1968, a teoria da modernizao      senvolvimento muito alm do que cumpria a
entrou em eclipse como parte do abalo geral        uma "funo de valores exaustos".
sofrido pela legitimidade do que tinha sido a          A expresso "sociologia da arte" articula
corrente principal da cincia social na era ps-   dois termos com histrias completamente dis-
1945. Uma das maiores crticas desfechadas         tintas. Se a palavra "sociologia" surgiu no s-
contra a teoria da modernizao foi a de que ela   culo passado como o nome para vrios mtodos
era "a-histrica". A dcada de 70 assistiu, em     de investigao da sociedade humana, "arte",
conseqncia, a um considervel florescimento      pelo contrrio,  usada desde a Antigidade. No
da "sociologia histrica". Entretanto, como es-    transcurso de todo esse perodo, designou ou
sa obra pretendia ser "sociologia" e no mera-     qualificou vasta gama de fenmenos, desde as
mente "histrica", sua concepo nada tinha de     habilidades prticas, conceituais ou erticas at
ideogrfica. Assim, implicitamente e, com mui-     a pintura de cavalete, desde a "arte de galeria"
ta freqncia, em termos francamente explci-      at o estilo de vida. A definio moderna de
tos, a obra "histrica" era, ao mesmo tempo,       "arte", que o senso comum reconhece estar
"comparativa". Com efeito, no mbito da so-        presente na pintura, na escultura, na impresso
740   sociologia da arte


etc., aceita a arte como sendo uma forma no-         superdeterminada. Ao mesmo tempo continuou
artesanal de produo que combina a arte ma-          a estar interessada no problema (ou a reservar o
nual com o valor tico e esttico, e  realizada      problema da) especificidade da arte e das ques-
por um tipo especialmente dotado de pessoa            tes que isso apresenta para qualquer explica-
(Wittkower e Wittkower, 1963).                        o totalizadora dos significados da arte (Wolff,
    Essa categoria "arte", tal como consolidada       1981; Francastel, 1965; Duvignaud, 1967; Ra-
e reproduzida atravs das prticas dos enten-         phael, 1968).
didos (connoisseurs), curadores e historiadores           O carter fraturado do objeto  ainda mais
de arte, entre outros, funciona retrospectiva-        enfatizado se for admitido que a arte inclui
mente. Agrupa para venda, exibio ou crtica         MSICA e LITERATURA. Ora, considera-se que a
formal materiais de origens que so temporal,         base paradigmtica para a sociologia da arte 
geogrfica ou socialmente dspares e descont-        inseparvel da problemtica mais geral de co-
nuas. Importantes museus, galerias nacionais          mo teorizar o conjunto das modernas formas
ou colees do tipo configurado no sculo pas-        culturais. Os comentrios e teorias sobre a mo-
sado ou desde ento, como o Louvre em Paris,          derna formao cultural, desde o poeta Charles
incluem na rubrica de arte muitos objetos que         Baudelaire no sculo XIX at os escritos de
no eram reconhecidos como tais na poca ou           Kracauer (1937), Bloch (1985) e Adorno
lugar de sua produo. Por implicao, portan-        (1963), tm focalizado a forma musical como
to, a sociologia da arte  passvel de estar lidan-   um modelo de discurso artstico. A obra de
do com um objeto de conhecimento que neces-           Lukcs (1970) e Goldmann (1967) forneceu
sita ser constantemente problematizado  luz de       mtodos para a estruturao e a anlise contex-
uma srie complexa de especificidades hist-          tual da literatura, de que a sociologia da arte
ricas. Tal sociologia tende, em princpio, a se       derivou muitos dos seus princpios bsicos. As-
opor  aceitao de um ideal kantiano de arte         sim, um historiador da arte como T.J. Clark
como o objeto de qualquer julgamento esttico         (1973), que, em sua influente obra sobre Manet
desinteressado e categrico, assim como est          e Courbet, colocou a teoria crtica como priori-
mais comprometida em explicar do que em               dade no programa da histria da arte baseia-se
concordar com a idia de transcendncia das           em um campo terico em que as artes visuais
condies sociais por parte da criatividade e         tm sido amplamente marginais.
personalidade artsticas. Ambas devem ser vis-            A concepo de "arte"  tambm estratifica-
tas como manifestaes especficas do social,         da por noes tais como "arte popular", "arte
sendo por esse motivo que, nas palavras de            para o povo", "arte tradicional" ou "arte tnica",
Pierre Bourdieu (1980, p.207), "a sociologia e        para no mencionar a "arte poltica" ou a "arte
a arte no combinam muito bem".                       feminina". Entender todas ou quaisquer dessas
     proveitoso, portanto, pensar em termos de       "artes" e as relaes entre elas pode exigir uma
uma linha de desenvolvimento que leva das             variedade de mtodos de investigao que com-
reflexes de Marx e Engels (1845-6) sobre a           binaria a etnologia, a psicologia ou a psicanlise
economia poltica da cultura at a crtica de         com diferentes aspectos do mtodo sociolgi-
Bourdieu do julgamento kantiano,  descons-           co. A "arte" como elemento ritual no trabalho
truo feminista da criatividade como categoria       de campo, ou prticas religiosas de longue du-
historicamente engendrada ou a rejeio ps-          re, na obra de historiadores sociais  um objeto
colonial dos valores artsticos "ocidentais"          de anlise diferente da "arte" que forma o ponto
(Bourdieu, 1979; Nochlin, 1989; Pollock,              de acesso aos valores sociais ou de excluso
1988; Said, 1978; Tickner, 1988). Um impor-           deles na sociologia de grupo de Bourdieu
tante aspecto da sociologia da arte tem sido o        (1979) e Moulin (1967). Com efeito,  bastante
seu relacionamento antagnico com o que ela           difcil conceber uma forma artstica tradicional,
considera uma ESTTICA conservadora, quer se-         como o ex-voto (uma imagem oferecida como
ja articulada atravs do racionalismo filosfico      prova de gratido) do sculo XVIII na Frana
ou das exigncias do mercado de arte. Traba-          (Cousin, 1980), como pertencente  mesma
lhando a partir de um complexo e altamente            formao cultural que a arte de salon sua con-
diferenciado terreno poltico, a sociologia da        tempornea, j para no pensar nela nos mes-
arte est empenhada em mostrar que a "arte",          mos termos que a pintura moderna de vanguar-
como categoria,  sempre e de muitas maneiras         da. De modo significativo, porm, devemos
                                                                               sociologia da arte   741


supor que o estudo sociolgico de qualquer            acadmicos que recorriam a categorias extraes-
dessas formas tratar o valor esttico como           tticas, como o clima, a coeso da ordem social
parte do sistema de crenas que enquadra a obra       e a sabedoria do mecenato, para explicar e
individual.                                           definir a qualidade artstica floresceram a par
    Na obra dos historiadores sociais da arte         do relativismo e do materialismo culturais em
Antal (1948) e Klingender (1968), entender a          Montesquieu ou Diderot. No final do sculo o
arte exigiu uma radical e sutil diferenciao de      apologista teocrtico Louis de Bonald tambm
pblico, mecenato e condies de produo             pde apontar uma explicao da mudana arts-
para diferentes obras ou tipos de arte. Floren-       tica que era, por seu turno, apropriada como
tine Painting, de Antal, e Art and the Industrial     justificao de uma necessidade de continui-
Revolution, de Klingender, indicam tanto uma          dade social (Reedy, 1986).
nova forma de histria social quanto uma his-             Na dcada de 1840, quando a idia do artista
tria da arte -- uma em que a arte desempenha         individual, expressivo, estava prestes a se tornar
um papel mais de significante do que de ilus-         corrente, cada obra de arte passou a ser inter-
trao. As prticas artsticas na Florena do         pretada como socialmente sintomtica, quer co-
sculo XIV ou na Gr-Bretanha do sculo XIX           mo redeno, quer como crtica. Proudhon,
tornaram-se prova primordial de processos de          com Du principe de l'art et de sa destination
formao e representao social.                      sociale (1865), destacou-se como construtor de
    Com Baxandall (1980), em sua obra sobre a         uma histria da arte moderna em que a sua
escultura alem do sculo XV, at a funo de         interpretao da obra de artistas como Jacques-
autor passa a ser vista como um efeito das            Louis David e Gustave Courbet articulou uma
complexas e irregulares condies de produo         teoria social e poltica geral. Em meados do
e do conflito de interesses entre artista e cliente   sculo, na Frana e na Gr-Bretanha, podiam
a que elas deram origem. O escultor assina a          ser comumente lidas histrias da arte, crticas
obra para estabelecer a sua posio em uma            de arte ou ensaios sobre arte popular, assim
relao desigual com o cliente, que  quem            como discusses em torno do progresso indus-
detm os meios de produo. A assinatura sig-         trial ou das Exposies Universais, que desen-
nifica mais uma tentativa de apropriao de           volveram algum sistema de referncia social na
poder do que o locus de criatividade. A obra de       compreenso da arte como sinal do seu tempo.
Baxandall aponta, assim, as formas como as             discutvel que um conceito de arte como
proposies tericas de Foucault (1969) podem         inerentemente social estivesse, com efeito, lar-
ser repensadas atravs de um processo histrico       gamente difundido por volta da dcada de 1850:
a longo prazo. Mas tambm indica que a crtica        "No representam as prprias artes as tradies
histrica e sociolgica da idia do "artista"         histricas, a vida real dos povos?"
requer uma variedade de tcnicas de inves-                Cumpre destacar, porm, que muitos textos
tigao cuidadosamente inflectidas. Um escul-         que explicam a arte em termos sociolgicos, de
tor quatrocentista no pode ser enquadrado nos        modo geral, no tm a elaborao de uma so-
mesmos termos que um "gnio louco" do final           ciologia da arte como objetivo primordial ou
do sculo XIX, como Vincent van Gogh. Mes-            mesmo consciente. Assim, a obra de Champ-
mo que ambos venham a ser inseridos em um             fleury (1869) sobre a arte popular francesa ou a
sistema moderno de crenas acerca da arte, as         de Wagner (1849) sobre as origens do sentimen-
especificidades de suas respectivas histrias,        to e da expresso artsticos gravitam em torno
assim como as desse mesmo sistema, precisam           do problema de definio de uma CULTURA na-
ser cuidadosamente diferenadas.                      cional. A preocupao com a arte como parte da
    Tambm se pode afirmar que um interesse           formao da conscincia nacional surge uma
amplamente sociolgico pela arte precedeu o           vez mais de ambos os lados do campo poltico
aparecimento da palavra sociologia e da mo-           nas dcadas de 20 e 30 deste sculo. Na Itlia,
derna idia do artista. Essa pr-histria pode        Gramsci (1985) entendeu o consumo popular
ser exemplificada nas discusses da Academia          de novelas de mistrio e de pera como in-
Real francesa, onde era comum, no sculo              dicativo de uma fraqueza na formao da classe
XVIII, explicar a supremacia da antiga arte           proletria, enquanto que na Alemanha a idia
grega pela representao de Atenas como uma           de arte moderna foi elaborada como sintoma de
sociedade saudvel e prspera. Argumentos             decadncia. Em qualquer ponto do seu desen-
742   sociologia da arte


volvimento, a sociologia da arte  sobredeter-               sculo XX. Mas o conceito de alienao ali-
minada por uma variedade de discursos a res-                 mentar a disposio de Benjamin para aceitar
peito da sociabilidade da arte.                              o popular e a definio de Adorno de arte como
    De modo geral, entende-se que uma socio-                 necessariamente a negao das foras sociais
logia da arte potencialmente sistemtica  apre-             que a produzem.
sentada nos escritos de Marx e Engels, assim                     Recentemente, na obra de Jacques Rancire,
como nas histrias da arte e da literatura de                a negatividade de Adorno foi usada para reava-
Hyppolite Taine. Embora Taine conquistasse a                 liar a esttica kantiana. Se o transcendente e o
notoriedade com sua frmula determinstica                   negativo podem ser lidos atravs um do outro,
"ambiente, raa e momento" (Taine, 1853) e                   ento o desejo de arte deve ser entendido em
seus ecos do sculo anterior, sua influncia na              funo da negao da estrutura social (Ran-
sociologia profissional ou na histria social foi            cire, 1983). Desse ponto de vista, a elaborao
menos significativa que a do marxismo. Em A                  de Bourdieu da produo e consumo de arte
ideologia alem, Marx e Engels procuram ex-                  como a confirmao e reproduo de status
plicar o poder e a significao de um artista do             social resulta ser um enquadramento totalmente
Renascimento como Rafael em funo de um                     inadequado das complexidades da identidade
complexo processo histrico que por si mesmo                 social, a sociologia da arte um empreendimento
possibilitaria a sua pintura:                                oco. Analogamente, os discursos feminista e
   Rafael, tanto quanto qualquer outro artista, era deter-   ps-colonial estruturam o social de forma a
   minado pelos avanos tcnicos feitos na arte antes        apontar que boa parte do que foi aceito como
   dele, pela organizao da sociedade e pela diviso do     uma sociologia adequada e, por implicao,
   trabalho em sua localidade e, finalmente, pela divi-      uma sociologia da arte precisa ser radicalmente
   so do trabalho em todos os pases com os quais a         repensado. A construo da arte como forma de
   sua localidade tinha relaes mtuas.                     dominao ou como meio de acesso ao valor
   Marx e Engels estavam a argumentando                     social  polimorfa e inexaurvel, sempre cons-
contra a idia de um indivduo "nico", tal                  trangida e continuamente reelaborada em con-
como propusera Max Stirner; mas, ao faz-lo,                 dies historicamente especficas.
comearam a organizar em detalhes um quadro                      Em seu ensaio de 1923, "On the interpreta-
de referncia composto de relaes sociais e                 tion of Weltanschuung", Karl Mannheim deli-
econmicas que formam parte das estruturas                   neou prescientemente essas problemticas em
conceituais da sociologia da arte at o nosso                uma sociologia da cultura (in Mannheim,
prprio tempo.                                               1952). Rejeitando um procedimento redutivo
   Tambm tentaram definir a arte como es-                   da anlise cultural derivado do modelo da cin-
pecfica para o seu modo de produo, apontan-               cia natural, ele tentou demonstrar como um
do o surto de vendas da imprensa capitalista das             entendimento dos significados "objetivo", "ex-
dcadas de 1830 e 1840 como a condio para                  pressivo" e "documental" de um objeto cultural
o aparecimento do folhetim. Em Teorias da                    levaria a um complexo levantamento das re-
mais-valia, em que essa anlise  desenvolvida,              laes paralelas, mas no necessariamente cau-
eles expuseram mais dois parmetros duradou-                 sais, de uma totalidade sociocultural.  sus-
ros. Um deles  a preocupao com o artista                  tentvel a tese de que o fluxo e o entrelaamento
como um tipo particular de operrio que ,                   de mtodos na exposio de Mannheim de um
essencialmente, um "trabalhador improduti-                   todo cultural requer os mesmos gneros de
vo". O outro  a preocupao com a converso                 habilidade que as anlises iconolgicas da esco-
da prpria arte em mercadoria e a sua transfor-              la de Warburgo de Histria da Arte. O estudo de
mao pelo capitalismo do seu anterior status                uma pintura de Botticelli (Wind, 1958), por
histrico em nada mais que um item de valor de               exemplo, requer um conhecimento da sociabi-
troca, quer essa noo seja interpretada como                lidade de diferentes nveis e cultura, desde os
monetria ou como ideolgica (Marx e Engels,                 fenmenos banais e cotidianos at os coment-
1976). Eis aqui, uma vez mais, um ponto de                   rios humanistas sobre textos clssicos. A obra
partida para discusses como as de Gyrgy                    de arte excepcional torna-se um ponto no qual
Lukcs, Theodor Adorno, Walter Benjamin ou                   formas dspares de conhecimento e prtica cul-
Pierre Bourdieu. A sociologia da arte pode aca-              tural encontram uma articulao relativamente
bar por se encontrar no centro do marxismo do                total.
                                                                                  sociologia da cincia   743


    Mas, apesar do valor de abordagens que                  menos equivalente a "conhecimento vlido",
deduzem o significado de uma obra de arte a                 mas tambm se funde com "tecnologia", ou
partir de dados sociais ou induzem a tessitura              seja, a aplicao til do conhecimento (ver RE-
do social a partir da leitura da obra de arte, a            VOLUO CIENTFICO-TECNOLGICA). Por conse-
noo de objetos culturais como expressivos de              guinte, as pessoas conhecidas como "cientis-
uma totalidade ou como "fatos sociais totais"               tas" so geralmente consideradas fornecedoras
caiu em descrdito. A obra de arte pode perten-             de um gnero superior de saber que representa
cer a qualquer um ou a mais de um de uma srie              o mundo real com um grau de preciso e confia-
de saberes. Assim, a construo do pblico para             bilidade que possibilita o amplo controle sobre
uma pintura pode ser como uma da categoria                  os seus processos naturais. Em tal contexto, ser
psicanaltica de voyeur, implicada nos modos                considerado "no-cientfico" , no domnio das
de escopofilia, sem uma considerao primria               idias, ser tachado de intelectualmente inepto e
pela estratificao social. Ou pode ser como um             tambm de irrelevante para o mundo superior
grupo social com acesso ao mercado da arte e                dos assuntos prticos. A prpria sociologia sur-
atento  avaliao do seu prprio prestgio atra-           giu e se desenvolveu como uma pequena parte
vs da compra. Dois pintores contemporneos                 do movimento cientfico na sociedade moder-
podem repartir uma posio em uma linguagem                 na. Apesar de muitas reservas e diferenas de
histrica comumente aceita de sinais visuais e,             opinio entre seus praticantes, a sociologia ado-
no entanto, pertencer a lugares muito diferentes            tou geralmente a concepo de conhecimento
no desenvolvimento da educao artstica e nos              que passou a estar associada s cincias fsicas
sistemas de produo e distribuio. A crtica              e biolgicas "avanadas". Por conseguinte, a
de arte tanto pode ser lida em termos de sua                sociologia da cincia tem necessariamente um
relao com o discurso literrio e poltico quan-           elemento auto-referencial, isto , a prtica da
to em funo do seu objeto declarado de aten-               sociologia insere-se no seu campo de ao e as
o. A configurao e o desenvolvimento a                   suas concluses gerais a respeito do processo
futuros da histria social e da sociologia da arte          social de produo de conhecimento devem ser
dependero necessariamente do reconhecimen-                 acolhidas como aplicveis tambm  sociolo-
to dessa diversidade, bem como dos problemas                gia. A sociologia da cincia , portanto, uma
que ela apresenta. Para ser verdadeiramente                 rea crtica de anlise, no s por lidar com a
fecundo, o trabalho interdisciplinar pode perfei-           forma dominante de conhecimento em nossa
tamente ter que aceitar que a diferena  mais              sociedade, mas tambm porque as suas desco-
estruturada do que a totalidade.                            bertas podem ter importantes implicaes para
                                                            a sua prpria disciplina e para outros domnios
Leitura sugerida: Adorno, Theodor 1963: Quasi una
fantasia  Bourdieu, Pierre 1979: La distinction
                                                            de investigao social.
 Clark, T.J. 1973: The Absolute Bourgeois: Artists and          Durante as duas ltimas dcadas os socilo-
Politics in France 1848-1851  Duvignaud, J. 1967:           gos tm examinado com profundidade cada vez
Sociologie de l'art  Francastel, Pierre 1965: Oeuvres       maior a produo e aplicao social do co-
II, La Ralit figurative, lments structurels de socio-   nhecimento cientfico. Concentraram-se ini-
logie de l'art  Hauser, Arnold 1959: The Philosophy of      cialmente nas cincias fsicas mais avanadas,
Art History  Mannheim, K. 1952: Essays on the Socio-
logy of Knowledge, org. por Paul Kecskemeti  Marx,
                                                            como a fsica e a radioastronomia. Depois se
K., e Engels, F. 1845-46 (1970): The German Ideology        prestou muita ateno s cincias biolgicas.
 Moulin, Raymonde 1967: Le march de la peinture            Essas disciplinas inequivocamente cientficas
en France  Proudhon, P.J. 1865: Du principe de l'art        foram escolhidas para estudo, em parte, porque
et de sa destination sociale  Wolff, Janet 1981: The        pareciam ser as menos acessveis a uma anlise
Social Production of Art.                                   sociolgica plenamente desenvolvida. Desde
                                    ADRIAN D. ROFKIN        longa data se aceita,  claro, que muitos as-
                                                            pectos da cincia so de carter obviamente
sociologia da cincia Este ramo de estudo                   social: por exemplo, sua forma de organizao,
explora o carter social da cincia, com especial           seus padres de comunicao, sua hierarquia
referncia  produo social do conhecimento                interna e sua atribuio de recompensas simb-
cientfico (ver SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO).                licas, com sua nfase no compromisso coletivo
Na sociedade hodierna, o termo "cincia" pos-               dos cientistas em relao a determinados qua-
sui grande potncia. "Cincia" no s  mais ou             dros de referncia intelectuais. Mas a prpria
744   sociologia do conhecimento


aceitao pelos socilogos da crena de que a        ses da cincia so formulaes socialmente
cincia  uma forma privilegiada de conhe-           contingentes que foram consideradas adequa-
cimento levou-nos a excluir os produtos inte-        das por grupos especficos em determinadas
lectuais da cincia de suas investigaes. Quan-     situaes culturais e sociais.
do os socilogos aceitaram finalmente o desafio          Na dcada de 80 tornou-se claro que o fra-
de tentar fazer uma anlise sociolgica do con-      casso anterior em compreender os processos
tedo do saber cientfico, pareceu aconselhvel      sociais da cincia estava ligado ao uso flexvel
comear pelos que pareciam ser os casos mais         da linguagem dos cientistas. Em ambientes
difceis. Pois se as cincias mais avanadas         acessveis ao pblico, os cientistas tendem a
provassem admiti-la, todas as outras disciplinas     usar formas de discurso que descrevem suas
as seguiriam automaticamente.                        aes e crenas como um veculo neutro atravs
    A anlise sociolgica do conhecimento ci-        do qual as realidades do mundo so evidencia-
entfico recebeu grande parte do seu impulso         das. Em contextos mais privados, contudo, os
inicial de fora da disciplina. A tese histrica de   quais s recentemente se tornaram visveis, eles
Thomas Kuhn (1962) a respeito da ocorrncia          empregam com muita freqncia repertrios
de convulses revolucionrias na cincia (ver        que lhes permitem fornecer descries muito
Merton, 1973) foi especialmente importante           mais social e pessoalmente contingentes das
para libertar os socilogos da tradicional supo-     atividades da cincia. Nestes ltimos anos al-
sio de que o conhecimento cientfico , em         guns atores tm tentado examinar as impli-
sua maior parte, independente de influncias         caes de tais descobrimentos para a prtica
sociais. A anlise de Kuhn habilitou os socilo-     textual da sociologia. Sustentam que os textos
gos a considerarem a possibilidade de fornecer       unvocos das cincias sociais, modelados nas
uma interpretao social da mudana cognitiva        formas convencionais da literatura cientfica,
em cincia. Alm disso, do final da dcada de        so inadequados para expressar a diversidade
60 em diante, tem havido uma afluncia de            interpretativa do mundo social. Afirmam que a
investigadores cientificamente treinados que se      linguagem unitria da anlise sociolgica enco-
mostram aptos a enfrentar as grandes exign-         bre a contingncia social e a dependncia con-
cias intelectuais da cultura tcnica da cincia.     textual de suas prprias representaes do mun-
Esses migrantes intelectuais contriburam de         do, e que essa espcie de subterfgio textual
forma significativa para a srie de estudos deta-     imprpria em uma disciplina comprometida
lhados de reas especficas da cincia natural,      com uma perspectiva totalmente sociolgica.
concludos durante a dcada de 70, usando en-        Comearam a criar agora formatos novos, mul-
trevistas e fontes documentais. Esses estudos de     tivocais, que se propem dar maior voz  mul-
casos foram seguidos por uma onda de inves-          tiplicidade interpretativa do mundo social e
tigaes antropolgicas sobre as mincias das        colocar os socilogos em dilogo ativo com
prticas laboratoriais dos cientistas, baseadas      seus objetos de estudo. Essa nova forma de
em extensos perodos de observao partici-          anlise  uma tentativa de descobrir uma lin-
pante.                                               guagem alternativa com que escapar s res-
    Como resultado desse conjunto de pesqui-         tries da Weltanschauung dominante da cin-
sas, o tradicional modelo sociolgico de co-         cia em nossas abordagens do domnio social.
nhecimento cientfico e de METODOLOGIA da            Leitura sugerida: Ashmore, M. 1989: The Reflexive
cincia foi radicalmente revisto. Considerou-se      Thesis: Wrighting the Sociology of Scientific Know-
que o conhecimento cientfico no derivava da        ledge  Knorr-Cetina, K.D. 1981: The Manufacture of
aplicao imparcial de claros critrios tcnicos     Knowledge: an Essay on the Constructivist and Contex-
de adequao, mas de fatores tais como os            tual Nature of Science  Latour, Bruno 1987: Science in
                                                     Action  Mulkay, M. 1985: The Word and the World:
recursos retricos dos praticantes e suas ade-
                                                     Explorations in the Form of Sociological Analysis
ses socialmente negociadas. A observao cui-        Woolgar, S., org. 1988: Knowledge and Reflexivity:
dadosa de cientistas trabalhando parecia mos-        New Frontiers in the Sociology of Knowledge.
trar que o conhecimento cientfico no  uma                                           MICHAEL MULKAY
representao objetiva e imparcial de um mun-
do natural independente, mas, pelo contrrio,        sociologia do conhecimento A natureza do
uma criao ativa e comprometida desse mundo         conhecimento tem sido um problema central da
no transcorrer da interao social. As conclu-       filosofia desde, pelo menos, os tempos greco-
                                                                    sociologia do conhecimento    745


romanos. Plato, por exemplo, no Teeteto, adota      cesso classificatrio. Sustentou ele, especial-
uma abordagem cientfica do conhecimento e           mente em Les formes lmentaires de la vie
da cognio, e sua ontologia dualstica assenta      rligieuse (1912) e em "De quelques formes
em bases epistemolgicas. Os filsofos dos Ilu-      primitives de classification" (1903, com Marcel
minismos francs e escocs reconheceram, por         Mauss), que as categorias bsicas que ordenam
sua vez, que todas as diferenas sociais tinham      a percepo e a experincia (espao, tempo,
origens sociais e eram, pois, o resultado de         causalidade, direo) derivam da estrutura so-
fatores submetidos ao controle humano. Sa-           cial, pelo menos em sociedades mais simples.
biam que uma vasta gama de fatores sociais,          Durkheim, Mauss e tambm Lucien Lvy-
econmicos e polticos dava forma  gnese,          Bruhl examinaram as formas de classificao
estrutura e contedo da conscincia humana,          lgica de sociedades "primitivas" e concluram
antecipando assim uma das principais propo-          que as categorias bsicas da cognio tm ori-
sies da sociologia do conhecimento propria-        gens sociais. Mas no estavam preparados para
mente dita.                                          estender esse gnero de anlise a sociedades
     De modo geral, porm, os filsofos procu-       mais complexas. Seus pressupostos bsicos fo-
raram antes demonstrar que uma sociologia do         ram maciamente criticados, mas muitos traba-
conhecimento no era possvel nem desejvel.         lhos sociolgicos continuam adotando como
Assim, Kant sustentou que, embora no possa          ponto de partida a proposio durkheimiana de
existir percepo sem concepo, os compo-           que a classificao de coisas reproduz a clas-
nentes constitutivos da cognio permanecem          sificao de pessoas.
a priori. Analogamente, empiristas de vrias             A sociologia do conhecimento deve o seu
persuases afirmaram que o conhecimento              desenvolvimento decisivo  obra de Max Sche-
(cientfico)  justificado pela experincia direta   ler e Karl Mannheim na dcada de 20. Isso pode
no afetada por condies sociais. No mximo,        ser interpretado como a expresso intelectual
esses filsofos concedem que fatores extrate-       sintomtica de uma poca de crise, e o reco-
ricos influenciam a gnese das idias, mas no a     nhecimento de sua prpria radicao na es-
estrutura e o contedo do pensamento. Sob ou-        trutura social e de sua determinao por fatores
tros aspectos, filosofias do pensamento muito        sociais talvez seja o seu trao mais caracters-
diferentes compartilharam uma rejeio fre-          tico. O estado de esprito das cincias sociais e
qentemente explcita do RELATIVISMO sociol-        histricas na Alemanha durante o perodo em
gico e tentaram superar dvidas colocando o          que a sociologia do conhecimento se desenvol-
conhecimento em uma base slida, mesmo que           veu naquele pas pode ser descrito como de
se situe fora do domnio da experincia scio-       "conscincia trgica". A viso de Georg Sim-
histrica.                                           mel da "tragdia da cultura", assim como a
     A sociologia do conhecimento, em contras-       assero de Max Weber de que um inevitvel
te, investiga as interligaes entre categorias de   processo de racionalizao leva ao desencanto
pensamento, reivindicaes do conhecimento e         do mundo e a novas formas de servido, cons-
realidade social -- a Seinsverbundenheit (soli-      tituem expresses sintomticas de um perodo
dariedade existencial) do pensamento (Karl           em que historiadores, filsofos e, em especial,
Mannheim). Marx foi um significativo precur-         cientistas sociais discutiram intensamente a
sor do campo, com a sua teoria de que, pelo          respeito de questes suscitadas pelo historicis-
menos em certas condies histricas, as reali-      mo, pelo relativismo, pelo ceticismo filosfico
dades econmicas determinam, em ltima ins-          e pela profunda desconfiana do Geist.
tncia, a "superestrutura" ideolgica por meio            nesse perodo que a sociologia do co-
de vrios processos scio-econmicos. Essa           nhecimento surge como anlise das regulari-
concepo continua sendo uma questo central         dades dos processos e estruturas sociais que
na sociologia do conhecimento, e inspirou di-        pertencem  vida intelectual e aos modos de
retamente algumas anlises exemplares de pro-        conhecimento (Scheler), e como teoria da so-
blemas de produo cultural, por exemplo, nas        lidariedade existencial do pensamento (Man-
obras de Gyrgy Lukcs.                              nheim). Ambas as orientaes distanciam-se da
     mile Durkheim  tambm um importante           crtica marxista da ideologia, a qual v as ideo-
pioneiro da sociologia do conhecimento, embo-        logias como representaes mistificadoras da
ra no desenvolvesse um modelo geral do pro-         realidade social e como disfarces dos interesses
746   sociologia do conhecimento


de grupos poderosos na sociedade. A sociologia     rais concorrentes. Explorou de modo persis-
do conhecimento, em contraste, interessa-se pe-    tente a idia de que a sociologia do conhe-
las estruturas intelectuais e espirituais como     cimento , de qualquer forma, central a toda
inevitavelmente formadas de modo diferente         estratgia que pretenda criar uma aproximao
em ambientes sociais e histricos distintos        entre poltica e razo, e essa busca  o denomi-
(Mannheim).                                        nador comum que liga os seus vrios ensaios na
    Foi Max Scheler quem usou pela primeira        sociologia do conhecimento. Mannheim acre-
vez o termo Wissenssoziologie (sociologia do       ditava plenamente que tal sociologia exerce um
conhecimento) no comeo da dcada de 20 e,         importante efeito transformador sobre os seus
em Problemas de uma sociologia do conhe-           praticantes: a sociologia do conhecimento con-
cimento (1926), forneceu uma primeira apre-        voca os intelectuais a cumprirem sua vocao
sentao sistemtica. Ampliou a noo marxis-      maior, que  a realizao de sntese. Muda o
ta de infra-estrutura (ver BASE E SUPERESTRU-      relacionamento deles com as partes conflitantes
TURA) mediante a identificao de diferentes       na sociedade, na medida em que lhes propicia
"fatores reais" (Realfaktoren) que, acreditava     distanciamento e viso de conjunto. Mas a con-
ele, condicionam o pensamento em diferentes        cepo de Mannheim dos modos especficos
perodos histricos e em vrios sistemas sociais   como tal sociologia poderia afetar o estado de
e culturais de modo especfico. Esses "fatores     conhecimento poltico flutuou e mudou. Exis-
reais" foram, por vezes, vistos como foras        tem trs verses principais:
instintivas institucionalizadas e como represen-       1. A sociologia do conhecimento como um
tando um conceito a-histrico de infra-estru-              modo pedaggico, mas tambm polti-
tura. A insistncia de Scheler na existncia de            co, de enfrentar as outras foras que
um domnio de valores e idias eternos limita a            compem o mundo poltico e agir sobre
utilidade da sua noo de "fatores reais" para a           elas;
explicao da mudana social e cultural.
                                                       2. A sociologia do conhecimento, como
    Foi Karl Mannheim quem forneceu a mais                 instrumento de esclarecimento relacio-
elaborada e ambiciosa base programtica para
                                                           nado com o processo dual de RACIONA-
uma anlise sociolgica da cognio. Tal como
                                                           LIZAO e individuao identificado por
Scheler, ele ampliou o conceito de infra-es-
                                                           Max Weber, e comparvel  psicanlise,
trutura, sugerindo que fatores biolgicos, ele-
                                                           age para emancipar homens e mulheres
mentos psicolgicos e fenmenos espirituais
                                                           a fim de que realizem escolhas racionais
poderiam tomar o lugar de relaes econmicas
                                                           e responsveis, libertando-os da subser-
primrias na infra-estrutura, mas (justamente
                                                           vincia a foras ocultas que eles no
como a teoria dominante da cincia) no pensou
que o conhecimento cientfico e tcnico pudes-             podem controlar.
se estar sujeito  anlise sociolgica. Conduziu       3. A sociologia do conhecimento como ar-
pesquisas sobre as condies sociais associadas            ma contra os mitos predominantes e co-
a diferentes formas de conhecimento, e alguns              mo mtodo para eliminar inclinaes da
dos seus estudos ainda so considerados exem-              cincia social, para que ela possa domi-
plos de primeira categoria do gnero de anlise            nar os problemas pblicos fundamentais
de que  capaz a sociologia do conhecimento.               da poca e guiar uma conduta poltica
Alm de Ideologia e utopia (1929; ed. brasilei-            apropriada.
ra, 1967), cumpre incluir ainda os seus estudos        A sociologia do conhecimento passou re-
da competio como forma cultural, do pensa-       centemente por uma reorientao na direo de
mento conservador, do problema das geraes        uma anlise da vida cotidiana e do conheci-
e da ambio econmica.                            mento cientfico e tcnico natural (ambas negli-
    Mannheim acreditava que a sociologia do        genciadas pela sociologia clssica do conhe-
conhecimento estava destinada a desempenhar        cimento). A construo social da realidade
importante papel na vida intelectual e poltica,   (1966), de Peter Berger e Thomas Luckmann,
sobretudo em uma poca de crise, dissoluo e      escrito na tradio da FENOMENOLOGIA de Alfred
conflito, mediante um exame sociolgico das        Schutz e da antropologia filosfica de Arnold
condies que deram origem a idias, filosofias    Gehlen, representa um claro afastamento da
polticas, ideologias e diversos produtos cultu-   preocupao da sociologia clssica do conhe-
                                                                                sociologia do corpo   747


cimento com questes de epistemologia e me-              sencialmente o estilo de vida em um dado mo-
todologia. Tudo o que  considerado conheci-             mento da histria. Resumindo o seu argumento:
mento na sociedade  agora aceito como legti-           usado como um tipo de armadura, o vesturio
mo objeto de estudo para investigao sociol-           influencia o comportamento, logo, a morali-
gica.                                                    dade externa da civilizao (Eco, 1983). Alm
    Inspirada por desenvolvimentos na histria           disso, os exemplos que ele cita mostram que a
da cincia, a sociologia do conhecimento enca-           moralidade per se -- por outras palavras, os
minhou-se tambm na direo de anlises em-              costumes --  determinada pelo modo como o
pricas da construo social de fatos cientficos,       corpo se cobre.
freqentemente por meio de estudos etnogrfi-                Detenhamo-nos em dois aspectos impor-
cos de vida de laboratrio. Tal pesquisa sobre a         tantes da anlise de Eco: a "autoconscincia
"manufatura" do conhecimento natural-cient-             epidrmica", por um lado (ver tambm IDENTI-
fico levou a uma reavaliao de pressupostos             DADE), e o conceito do corpo como "mquina
tradicionais acerca da racionalidade mpar do            de comunicao", por outro. No  este o lugar
conhecimento cientfico. Visto atravs das len-          adequado para aprofundar o papel crucial que
tes do "programa forte" da sociologia do co-             Eco atribui ao fator de agregao, ou seja, o
nhecimento, o conhecimento cientfico e o co-            modo como diversos tipos de uniformes vieram
nhecimento cotidiano so, de fato, extraordina-          a ser adotados por pessoas que vivem em uma
riamente semelhantes em certos aspectos (ver             civilizao urbana. O que  certo  que a es-
SOCIOLOGIA DA CINCIA).                                  trutura antropolgica constituda pelo corpo 
    No h a menor dvida de que o conheci-              causa e efeito da intensificao da atividade
mento sempre desempenhou um papel signifi-               social.
cativo na vida humana. A ao humana, em                     A preocupao com a imagem do corpo que
maior ou menor grau, sempre foi orientada pelo           se expressa na moda, na modelao corporal
conhecimento. O poder, por exemplo, nunca foi            etc. no  simplesmente um exibicionismo gra-
exclusivamente baseado na fora fsica bruta,            tuito ou superficial, mas faz parte de um vasto
mas tambm, com freqncia, nas vantagens                jogo simblico e expressa os modos como po-
decorrentes do saber. Hoje, porm, o conheci-            demos tocar-nos mutuamente, formar relaes
mento est adquirindo um significado maior do            e "socializar", isto , criar sociedade.  essa a
que nunca. As sociedades industriais avanadas           lio que a sociologia do corpo extrai da moda
podem ser at consideradas "sociedades do co-            no vesturio e das vrias maneiras de dotar o
nhecimento". A completa cientifizao de todas           corpo de valor e significao. Em conjunto,
as esferas da vida e da ao humanas, a trans-           criam o "corpo social" e constituem, na mais
formao das estruturas tradicionais de domi-            simples acepo do termo, a sua economia es-
nao e da economia, assim como o crescente              pecfica. Mostram como figura, forma e ima-
impacto e influncia de especialistas, tudo isso         gem, apesar de suas conotaes estticas, tam-
 indicao do rpido incremento do papel do             bm desempenham um importante papel na
conhecimento na organizao das sociedades               evoluo social.
modernas.                                                    Assim, o "frvolo" (moda, design, estilo,
Leitura sugerida: Berger, P.L. e Luckmann, Thomas
                                                         tudo o que expressa a "corporalidade" ambi-
1966: The Social Construction of Reality  Latour, Bru-   ente) prova, em um exame mais minucioso, ter
no e Woolgar, Steve 1979: Laboratory Life  Man-          profundidades insuspeitadas, pois no ato de se
nheim, K. 1929 (1936): Ideology and Utopia  Meja,        exibir o corpo  sempre causa e efeito da socia-
Volker e Stehr, Nico, orgs. 1990: Knowledge and Poli-    bilidade dinmica. Ao mesmo tempo  uma
tics: the Sociology of Knowledge Dispute  Stehr, Nico    manifestao clara e preeminente de esttica,
e Meja, Volker, orgs. 1984: Society and Knowledge:
Contemporary Perspectives in the Sociology of Know-
                                                         no sentido etimolgico da palavra: o de partici-
ledge  Woolgar, S., org. 1988: Knowledge and Reflexi-    par das mesmas emoes, do mesmo ambiente,
vity: New Frontiers in the Sociology of Knowledge.       dos mesmos valores, para que os indivduos
                        VOLKER MEJA e NICO STEHR         possam finalmente absorver-se em uma teatra-
                                                         lidade envolvente.
sociologia do corpo Em um breve artigo so-                   No mago dessa abordagem do tpico en-
bre jeans, Umberto Eco demonstra a dialtica             contra-se um fato banal que ainda  importante
entre profundidade e superfcie que dita es-             no perder de vista, a saber: que a "unidade
748    sociologia poltica


psicofsica" que forma a nossa individualidade            mao de estados-naes, tipos de sistemas po-
 tambm um corpo.  como um invlucro que,               lticos e mudana poltica. Muitos estudos de
por sua vez, est envolvido pelo mundo exter-             partidos tm se concentrado em suas bases de
no. Muitas anlises filosficas, psicolgicas e           classe e, em particular, na oposio entre parti-
sociolgicas insistem, muito justamente, nas              dos burgueses e partidos da classe operria;
profundas conseqncias etimolgicas dessa                mas, em outra direo, a diviso dentro de todos
banalidade. Equivale a dizer que o corpo no              os tipos de partidos entre os lderes e a massa
pode ser identificado, a menos que esteja deli-           de seus membros foi enfatizada e formulada em
mitado e situado. Uma coisa  certa: essa abor-           um estudo clssico (Michels, 1911) como a "lei
dagem situacional e, para criar um termo, o               de ferro da oligarquia". A liderana poltica
"involucrismo" que lhe  correlato permitem-              tambm foi uma questo saliente na obra de
nos avaliar a profuso de prticas centradas no           Mosca (1896), Pareto (1915-19) e Max Weber
corpo observada pelos socilogos de hoje (mo-             (1918, 1929), escrevendo da perspectiva da teo-
delao do corpo, cuidados com este, diettica,           ria das elites (ver ELITES, TEORIA DAS). Relacio-
cosmtica, teatralidade...). De modo particular,          nado com tais questes est o crescimento da
o "corporalismo" permite-nos entender que to-             BUROCRACIA em sociedades modernas, que We-
dos os vrios tipos de aparncia pertencem a um           ber, no contexto das condies na Alemanha
vasto sistema simblico cujos efeitos sociais             Imperial, considerou responsvel pela produ-
esto longe de ser desprezveis. Pode-se at ser          o de uma supremacia burocrtica, assim co-
tentado a sugerir que o papel cada vez mais               mo de uma racionalizao geral da vida social.
dominante desempenhado pela COMUNICAO                   O papel da burocracia em sociedades socialistas
na sociedade contempornea nada mais  que a              tambm tem sido uma preocupao dominante,
verso atual desse sistema simblico. Esse in-            embora avaliado de maneiras muito diferentes
sight poderia projetar uma nova luz sobre todos           por Weber e Schumpeter (1942).
os perodos da histria geralmente concebidos                 As diferenas de classe social tm sido des-
como simplistas e crdulos, mas que sobrevive-            tacadas em anlises do comportamento de voto,
ram intensamente  carga simblico-comunica-              ao passo que os prprios sistemas eleitorais
cional do "involucrismo" especfico do prprio            comearam a ser estudados em maiores deta-
corpo -- ou do corpo social. Poder-se-ia acres-           lhes em trabalhos recentes, especialmente a
centar que a preocupao e o cuidado com o                respeito da representao proporcional, a qual
corpo, hoje to evidentes, as mscaras e as                considerada, com freqncia, a que expressa
modas de vesturio que formam uma constante               mais adequadamente a diversidade de opinies
antropolgica podem ser analisados como ain-              polticas em democracias modernas.
da outro modo de os seres humanos se relacio-                 Em dcadas recentes tem se registrado um
narem entre si. Considerado nesse contexto, o             interesse crescente por movimentos sociais
corpo torna-se causa e efeito de comunicao              (Scott, 1990), inspirado em parte pelo surto de
-- em outras palavras, da prpria sociedade.              movimentos radicais da dcada de 60, embo-
    Ver tambm COTIDIANO.                                 ra movimentos nacionalistas e neofascistas
                                                          tambm tenham voltado agora a se destacar.
Leitura sugerida: Berthelot, J.M. 1985: "Les sociolo-     Esses movimentos so vistos como importantes
gies et le corps". Current Sociology 33.2  Eco, U. 1983
(1986): Faith in Fakes  Guyau, M. 1911: Les pro-          formas alternativas de ao poltica, a par dos
blmes de l'esthtique contemporaine  Maffesoli, M.       movimentos de classe previamente dominan-
1982 (1985): L'ombre de Dionysos, 2ed.  Mauss, M.        tes. Os vrios movimentos podem, contudo,
1935 (1973): "Les techniques du corps". Trad. ing. em     coincidir em certa medida, e tambm podem dar
Economy and Society 2.1, p.70-88  Turner, J.H. 1986:      origem a novos partidos, o que freqentemente
The Body and Society.                                     acontece.
                                 MICHEL MAFFESOLI             O NACIONALISMO e a criao de estados-
                                                          naes tm sido intensamente estudados por
sociologia poltica Esta disciplina tem se in-            cientistas sociais de diferentes correntes de opi-
teressado primordialmente pelo estudo de par-             nio que enfatizaram a sua ligao com a ascen-
tidos, sistemas eleitorais e comportamento do             so da burguesia (Bauer, 1907) e o subseqente
eleitor ao votar, movimentos sociais, liderana           surgimento do imperialismo, com as lutas pela
poltica e elites, burocracia, nacionalismo e for-        democracia (Kohn, 1967) ou com a industriali-
                                                                                          stalinismo   749


zao e a modernizao (Gellner, 1983). As               mao da Rssia campesina em uma superpo-
questes assim ventiladas retm toda a sua im-           tncia industrial, aos horrores da fome e dos
portncia no final do sculo XX, quando volta-           expurgos na dcada de 30 e  resistncia russa
ram a se generalizar os movimentos pela in-               invaso nazista de 1941-45.  freqentemente
dependncia nacional no interior de estados              retratado como homem de intelecto medocre,
existentes.                                              mas a sua ideologia difusa, que ficou conhecida
    Os socilogos polticos tambm tm pres-             como "stalinismo", desempenhou importante
tado muita ateno s diferenas entre sistemas          papel na formao do regime sovitico e no
polticos e, na segunda metade do sculo XX,             movimento comunista mundial durante sua vi-
esse interesse se concentra predominantemente            da e ainda por algumas dcadas subseqentes.
no contraste entre regimes democrticos e tota-              J em 1924, ano da morte de Lenin, a dou-
litrios (Aron, 1965) e nos novos sistemas po-           trina poltica de Stalin comeara a revelar ca-
lticos que surgiram em pases em desenvolvi-            ractersticas distintas. Ele insistiu em que o
mento ps-colonial. Estes ltimos estudos es-            LENINISMO no era meramente uma verso do
tavam intimamente relacionados com teorias de            marxismo aplicvel a um pas campons, mas
mudana e conflito poltico, englobando tam-             tinha validade mundial na "era do imperialismo
bm questes to amplas quanto as origens e o            e da ditadura do proletariado", e salientou as
desenvolvimento do capitalismo moderno (as               caractersticas autoritrias de um partido polti-
quais podem ser concebidas em termos marxis-             co leninista. No mesmo ano declarou, contra a
tas, weberianos ou schumpeterianos) ou, ainda            ferrenha oposio de Trotsky, que era possvel
mais amplamente, do moderno sistema-mundo.               completar a construo do SOCIALISMO na Unio
O conflito poltico envolve o choque de opinies,        Sovitica sem uma revoluo socialista em ou-
doutrinas e ideologias, e muitas pesquisas tm se        tros pases (ver TROTSKISMO).
interessado pelos processos de formao das opi-             Quando a Unio Sovitica encetou  fora a
nies polticas, assim como pelo papel dos inte-         industrializao e a coletivizao da agricultu-
lectuais e da mdia nesses processos.                    ra, no final da dcada de 20, Stalin modificou a
    No perodo do ps-guerra o mbito da so-             doutrina leninista em importantes aspectos. Em
ciologia poltica foi muito ampliado, de modo            1928 sustentou que a luta de classes no se
que hoje cobre virtualmente o mesmo territrio           extinguiria, mas, pelo contrrio, iria intensifi-
que a CINCIA POLTICA. As diferenas remanes-           car-se durante a transio para o socialismo e,
centes parecem derivar principalmente de preo-           dois anos depois, declarou que, em virtude do
cupaes tradicionais, por um lado, com a "ma-           cerco capitalista  Unio Sovitica, o estado no
quinaria formal de governo" e, por outro, com            desapareceria, mas se tornaria mais forte du-
o contexto social de todo o pensamento e ao            rante essa transio.
polticos, mas essas diferenas tambm tm                   No incio da dcada de 30, a definio so-
sido muito atenuadas, especialmente na medida            vitica de "socialismo" tambm foi mudada. Os
em que a prpria cincia poltica se tornou mais         bolcheviques, seguindo Marx, tinham presumi-
sociolgica.                                             do que o socialismo seria uma economia sem
                                                         moeda, mercadorias ou comrcio; mas a partir
Leitura sugerida Avineri, Shlomo 1968: The Social
and Political Thought of Karl Marx  Barry, Brian         de meados dos anos 30, os marxistas soviticos
1970: Sociologists, Economists and Democracy  Bot-       passaram a sustentar que o lote de terra pessoal
tomore 1979: Political Sociology  Brym, Robert J.        do agricultor coletivo, o mercado livre para
1980: Intellectuals and Politics  Mommsen, Wolfgang      alguns produtos agrcolas e um sistema iguali-
J. 1974: The Age of Bureaucracy: Perspectives on the     trio de salrios na indstria faziam todos parte
Political Sociology of Max Weber  Runciman, W.G.         da economia socialista, que devia continuar
1969: Social Science and Political Theory  Scott, Alan
1990: Ideology and the New Social Movements.
                                                         sendo uma economia monetria.
                                                             Por conseguinte, Stalin enunciou em dezem-
                                   TOM BOTTOMORE
                                                         bro de 1936 que o socialismo estava estabele-
soviete Ver CONSELHO DE TRABALHADORES.                   cido "em princpio" na Unio Sovitica. Nessa
                                                         poca, tambm desenvolveu sua doutrina de
stalinismo Iosif Vissarionovich Stalin (no-              que no havia contradies antagnicas dentro
me verdadeiro Djugashvili) (1879-1953) foi               da sociedade socialista, pelo que todas as aes
um poltico implacvel, que presidiu  transfor-         e crenas contrrias (o que, na prtica, signifi-
750    subdesenvolvimento


cava toda a crtica a Stalin) eram devidas               subdesenvolvimento Ver DESENVOLVIMENTO
influnca do hostil mundo capitalista. Isso for-          E SUBDESENVOLVIMENTO.
neceu uma justificativa ideolgica para as re-
presses de 1936-38. Nos ltimos anos que                 subrbio Nesta espcie de povoao, situada
antecederam sua morte, ele admitiu, contudo,              nos arredores de uma cidade, composta princi-
que mesmo no seio da sociedade socialista po-             palmente de moradias e lojas de comrcio, e
deriam desenvolver-se certas contradies, e              separada das zonas industriais, no existe a
sublinhou o valor do "choque de opinies"; mas            concentrao e a mistura de vrios usos do
essa mudana doutrinria no levou a qualquer             territrio que  tpica das cidades na era indus-
abrandamento do seu rigoroso e desptico go-              trial. Alm disso, os subrbios so geralmente
verno.                                                    habitados por grupos sociais homogneos que
    Em 1956 Kruschev deflagrou seu ataque ao              so, principalmente, da classe operria ou da
"culto da personalidade" e rejeitou a doutrina            classe mdia.
de Stalin da intensificao da luta de classes                Esses tipos de povoaes j existiam em
durante a transio para o socialismo. Mas a              tempos pr-industriais, como indica o vocbulo
definio sovitica de socialismo continuou sa-           francs banlieue; refere-se ao espao para alm
crossanta, assim como o princpio de que o                das muralhas da cidade medieval, mas sob a
sistema devia ser controlado por um partido               jurisdio (ban) da cidade. Subseqentemente
nico.                                                    a onda de urbanizao industrial e o desenvol-
                                                          vimento das redes de transporte e comunicao
    Depois da nomeao de Gorbachev para
                                                          estimularam uma vasta expanso dos subr-
secretrio-geral do Partido em 1985, a exis-
                                                          bios, um processo de "suburbanizao" (Wal-
tncia de uma distinta ideologia do "stalinismo"
                                                          ker, 1981).
foi oficialmente admitida na Unio Sovitica
pela primeira vez, e o stalinismo foi submetido               As primeiras povoaes suburbanas siste-
a profundas crticas como uma distoro ou                maticamente construdas remontam  segunda
traio do socialismo. Caractersticas do stali-          metade do sculo XIX na Inglaterra (suburbia,
nismo vigorosamente condenadas como err-                 com a variao de "cidades-jardins") e nos Es-
                                                          tados Unidos (Mumford, 1966). Trata-se de
neas ou obsoletas incluram sua nfase no poder
                                                          povoaes destinadas s classes mdias e que
do estado e na propriedade deste como a forma
                                                          representaram um compromisso entre a neces-
suprema de propriedade social, a substituio
                                                          sidade de viver perto da cidade industrial, do
da democracia pela burocracia e o estabeleci-
                                                          local de trabalho e dos servios de alta quali-
mento do que Gorbachev designou como "um
                                                          dade, e uma cultura arcdica aspirando  repro-
sistema de comando administrativo de gesto
                                                          duo de certos aspectos da vida rural e buc-
do pas pelo partido-estado". Depois do colapso           lica: moradias unifamiliares rodeadas de jardins
do comunismo sovitico em agosto de 1991, os              particulares e parques pblicos, bem longe do
colaboradores mais ntimos de Ieltsin afirma-             caos urbano. Como assinalou Ruth Glass
ram que o stalinismo era essencialmente uma               (1955), o desenvolvimento desses subrbios
continuao do leninismo e at do marxismo, e             est ligado  influncia sobre os estilos de vida
rejeitaram todo o curso do desenvolvimento                e o planejamento urbano da cultura antiurbana
sovitico desde outubro de 1917.                          inglesa e americana.
Leitura sugerida: Carr, E.H. 1958: "Stalin". In Socia-        Neste sculo, a urbanizao (ver URBANIS-
lism in One Country, 1924-1926, vol.I  Davies, R.W.       MO) alterou substancialmente o subrbio origi-
1989: Soviet History in the Gorbachev Revolution,         nal. Bairros para operrios e grupos de mdia e
caps.3-8  Lewin, M. 1985: La formation du systme         baixa renda tm proliferado sobretudo na Euro-
sovitique: essais sur l'histoire sociale de la Russie    pa continental, onde os grupos de alta renda,
dans le entre-deux-guerres., espec. caps.11 e 12  Rig-
by, T.H. org. 1966: Stalin  Stalin, Joseph. V. 1952-55:
                                                          com suas fortes tradies urbanas, permanece-
Works, vols.1-13, 1972: The Essencial Stalin: Major       ram principalmente nos antigos centros das
Theoretical Writings, org. por B. Franklin  Tucker,       grandes cidades. Uma exceo a esse modelo
R.C. 1973: Stalin as Revolucionary, 1879-1929: Study      de suburbanizao so os bairros residenciais
in Personality and History  1991: Stalin in Power: the    para jovens famlias abastadas com filhos pe-
Revolution from Above, 1928-41.                           quenos no perodo de mxima influncia do
                                          R.W. DAVIES     estilo de vida americano entre 1945 e 1970.
                                                                                           suicdio    751


Esses desenvolvimentos mudaram radical-             demasiado controversas para permitir uma in-
mente o modo de vida suburbano, sobretudo nas       terpretao clara.
periferias ocupadas pela classe operria, as
                                                    Leitura sugerida: Ball, M. Harloe, M. e Maartens, H.
quais so "dormitrios" densamente povoados,        1988: Housing and Social Change in Europe and the
carentes de servios e de espaos verdes.           USA  Castells, Manuel 1989: The Informational City
    Em muitos pases industrializados, os subr-     Glass, Ruth 1955 (1989): "Urban sociology in Great
bios de classe operria contm principalmente       Britain". In Clichs of Urban Doom  Mingione, Enzo
os chamados bairros econmicos, cuja cons-          1991: Fragmented Societies  Mumford, Lewis 1966:
truo foi planejada pelo estado com dinheiro       The City in History  Scott, Allen J. 1988: Metropolis:
                                                    From the Division of Labor to Urban Form  Soja,
pblico, enquanto que em outros, sobretudo nos      Edward W. 1989: Postmodern Geographies: the Reas-
Estados Unidos, tem predominado a construo        sertion of Space in Critical Social Theory  Walker,
privada (ver Ball et al, 1988). Apesar dessa e de   Richard 1981: "A theory of suburbanization". In Urba-
outras diferenas, e do fato de, na Inglaterra e    nization and Urban Planning in Capitalist Society, org.
nos Estados Unidos, a cultura antiurbana tam-       por M.J. Dear e A.G. Scott.
bm ter influenciado o tipo de moradia nos                                               ENZO MINGIONE
subrbios ao desencorajar os grandes condo-
mnios multirresidenciais (com algumas exce-        suicdio A obra de mile Durkheim (1897)
es, como as famosas "torres" no Bronx em          continua sendo a mais completa, abrangente e
Nova York), os bairros suburbanos de classe         influente das teorias sociais sobre o suicdio.
operria, construdos nos arredores de grandes      Sustentou ele que a consistncia das taxas de
metrpoles industriais durante os anos do ps-      suicdio era um fato social, explicado pelo grau
guerra, so muito semelhantes no gnero e apre-     em que os indivduos eram integrados e regula-
sentam os mesmos problemas. A banlieue de           dos pelas foras morais coagentes da vida cole-
Paris, os novos bairros na periferia de Moscou,     tiva. O suicdio egosta e altrusta resultava,
Nova York e sul de Londres, exibem todos as         respectivamente, da subintegrao e da supe-
conseqncias da construo barata de alta den-     rintegrao do indivduo pela sociedade, en-
sidade, a falta e a inadequao dos servios e,     quanto que a anomia e o suicdio fatalista eram
de modo geral, uma vida social e familiar mar-      causados pela sub-regulao e pela super-regu-
cada por todas as formas de privao urbana.        lao. Durkheim usou correlaes entre o sui-
Estas vo desde o anonimato e a dificuldade de      cdio e vrias taxas de associao externa para
socializao at os elevados custos, o conges-      demonstrar a validade dos seus conceitos fun-
tionamento e a poluio, e no so compensa-        damentais. Por exemplo, as populaes catli-
das pela usual vantagem de viver muito perto        cas tinham taxas de suicdios inferiores s pro-
dos centros de servios de qualidade e do po-       testantes porque a sociedade catlica vincula o
der econmico, financeiro e poltico. Pode-se       indivduo mais rigorosamente  coletividade.
acrescentar a isso o fato de que as privaes       Segundo Durkheim, o egosmo e a ANOMIA
envolvidas na mudana para subrbios aumen-         crescentes estavam causando as taxas de suic-
taram  medida que as cidades cresceram em          dio invariavelmente ascendentes das socieda-
tamanho, uma vez que os sistemas de transporte      des ocidentais. Entretanto, o egosmo no  uma
pblico no foram modernizados e o trnsito se      conseqncia necessria da sociedade indus-
tornou seriamente congestionado. Da que a          trial. Iga (1986) mostrou como a grande maioria
palavra subrbio, originalmente positiva em         dos suicdios no Japo moderno resulta da ver-
seu significado, acabou adquirindo agora uma        gonha dos indivduos por fracassarem na reali-
conotao decididamente negativa.                   zao dos objetivos que o grupo impe a seus
    As mais recentes tendncias  descentraliza-    membros.
o de fbricas e escritrios, o acentuado decl-       Obras sociolgicas ps-durkheimianas, em-
nio do emprego na indstria manufatureira           bora aprovando os esforos pioneiros de Dur-
(Mingione, 1991), a reestruturao econmica        kheim na definio da taxa de suicdios como
e tecnolgica (Castells, 1989), assim como o        objeto de investigao e correlacionando-a com
impacto de todas essas tendncias sobre os          uma gama de variveis sociais, mostraram-se
sistemas urbanos (Scott, 1988; Soja, 1989), es-     predominantemente cticas diante da sua tenta-
to modificando, por sua vez, o significado da      tiva de explicao de ambas em termos de
suburbanizao, mas em direes que ainda so       foras morais "reais mas invisveis" que incli-
752   suicdio


nam os indivduos ao suicdio. Para esses soci-    cada como motivo inconsciente para esse ato.
logos de orientao empirista, a noo de Dur-      Freud (1917), comparando luto e melancolia,
kheim de uma cincia dos fenmenos morais           afirmou que, na segunda, a libido livre retira-se
era uma impossibilidade. Assim, a maior parte       para o ego, que estabelece uma identificao
das obras sociolgicas subseqentes, embora         com o objeto perdido. Se a animosidade para
parecendo apoiar as "descobertas" de Durk-          com a parte do ego com a qual o objeto perdido
heim, limitaram-se  relao entre taxas de         est identificado  bastante grande, o ego age
suicdios e fatores sociais externos. Dessa pers-   no sentido de destruir essa identificao e, por
pectiva, alguns dos estudos mais conhecidos         conseguinte, destri-se a si mesmo. A hiptese
ligaram positivamente o suicdio, por exemplo,      formulada mais tarde por Freud em Para alm
 urbanizao e ao isolamento (Halbwachs,           do princpio do prazer, a de que o suicdio
1933; Sainsbury, 1955; Cavari, 1965),  falta de    representa uma vitria precoce do instinto de
integrao de status (Gibbs e Martin, 1964),       morte, tem sido menos influente, mesmo entre
falta de restrio externa (Henry e Short, 1954;    psicanalistas. Entretanto, a idia foi desenvol-
Maris, 1969) e  limitao em decorrncia da        vida em um clebre livro de Menninger (1938),
cobertura da mdia (Phillips e Carstensen,          que interpretou uma srie de comportamentos
1988).                                              prejudiciais e potencialmente prejudiciais co-
    Abordagens fenomenolgicas ou subjetivas        mo suicdios parciais ou crnicos. Para o suic-
tendem a examinar o modo como indivduos            dio total, o indivduo tinha que ter no s o
chegam a construir intenes "suicidas" para si     desejo de morrer, mas tambm o desejo de
mesmos ou para outros. Esse ltimo interesse        matar e ser morto.
foi desenvolvido e convertido em uma crtica            As teorias durkheimianas e freudianas tm
de dados oficiais que vai alm do interesse tra-    muito mais em comum do que freqentemente
dicional pela "exatido" das estatsticas. Dou-
                                                    se percebe. Umas e outras usam a anlise terica
glas (1967) afirmou que as idias alimentadas
                                                    para tentar revelar as causas subjacentes da ao
por diferentes culturas e subculturas a respeito
                                                    humana; umas e outras explicam o suicdio em
de suicdios determinam o que as autoridades
finalmente classificam como "suicdio". De-         termos do desenvolvimento normal dos indiv-
senvolvendo as idias de Douglas, Atkinson          duos e sociedades; umas e outras exploram as
(1978) e Taylor (1982), mostraram que um            tenses resultantes das precrias relaes nas
veredicto de suicdio s ser pronunciado se as     pessoas entre o "animal" e o "ser social". Em
autoridades puderem encontrar provas compa-         contraste, a moderna "suicidologia" (agora uma
tveis com as idias culturais aceitas sobre os     disciplina nos Estados Unidos, com sua prpria
motivos que levam as pessoas a se matar e o         associao e revista) tende a ser informada por
modo como tratam de fazer isso. Assim, tanto        uma epistemologia empirista, com "teorias" so-
a regularidade das taxas de suicdios quanto a      bre tendncias particulares no suicdio "emer-
sua correlao sistemtica com fatores tais co-     gindo" dos dados.
mo isolamento e perda podem ser funes do              As teorias psicolgicas e biolgicas do sui-
modo como se coletam os dados.                      cdio tendem a averiguar que "fatores" caracte-
    Os subjetivistas afirmam que as tentativas      rizam o indivduo propenso ao suicdio ou so
de compreender o suicdio devem basear-se nos       mais salientes nele. A psicologia cognitiva, por
significados que os suicidas oferecem para jus-     exemplo, apontou que os suicidas so caracte-
tificar suas prprias aes (Douglas, 1967; Bae-    rizados por processos de pensamento mais po-
chler, 1979). Douglas, por exemplo, ao rejeitar     larizados, menos imaginativos e mais estreitos
os dados estatsticos em favor dos etnogrficos,    (Neuringer, 1976). Uma srie de estudos de
refere-se a estes ltimos como "concretos e         psicologia social identificou indivduos suici-
observveis". Entretanto, ao pressupor alguma       das por suas pontuaes mais altas em escalas
espcie de acesso direto ao mundo atravs da        de, por exemplo, "desesperana", "hostilidade"
observao, ele aproximou-se muito da tradi-        e baixa auto-estima. Entretanto a falta de con-
o positivista que est criticando.                sistncia e as dificuldades para estabelecer
    A teoria psicanaltica sobre o suicdio, es-    comparaes decorrem do fato de tais escalas
timulada inicialmente por Wilhelm Stekel e          no serem "medidas" em qualquer sentido ob-
Alfred Adler, concentrou-se na agresso deslo-      jetivo.
                                                                                    surrealismo    753


    Fatores biolgicos e genticos oferecem po-     impele indivduos a desejarem desligar-se da
tencialmente indicadores mais objetivos. Por        boa sociedade. No sculo XXI, com uma popu-
exemplo, numerosos estudos encontraram li-          lao envelhecendo e recursos em declnio, o
gaes entre o comportamento suicida e baixos       ressurgimento do suicdio como responsabili-
nveis de cido 5-hidrxi-indoleactico (5-         dade social, at como dever, no pode ser des-
HIAA) metablito de serotonina no lquido c-       prezado.
rebro-espinhal (Brown et al, 1982). Entretanto         Ver tambm DEPRESSO CLNICA; PSIQUIATRIA
as tentativas de explicar essas relaes, em vez    E DOENA MENTAL.
de meramente document-las, defrontam-se
                                                    Leitura sugerida: Douglas, J. 1967: The Social Mea-
com o problema de relacionar medidas biolgi-       nings of Suicide  Durkheim, E. 1897 (1969): Le sui-
cas cada vez mais refinadas com escalas psico-      cide, tude de sociologie  Freud, S. 1917 (1957):
mtricas rudimentares. Korn et al. (1990) afir-     Mourning and Melancholia  Lester, D. org. 1990:
mam que, sem se melhorar a "medio" de             Current Concepts of Suicide  Menninger, K. 1938:
funes psicolgicas, "a revoluo biolgica        Man Against Himself  Stengel, E. 1973: Suicide and
em psiquiatria pode, na verdade, parecer cati-     Attempted Suicide.
ca".                                                                                    STEVE TAYLOR
    Definir suicdio no tem sido geralmente
                                                    superestrutura Ve r       BASE E SUPERESTRU-
visto como um problema. O suicdio  um
                                                    TURA .
autocdio intencional. Mas a pesquisa sobre a
natureza de atos suicidas, fatais ou no-fatais,    surrealismo Movimento scio-artstico re-
tem desafiado a noo convencional de que           volucionrio que se props nada menos que
todas as mortes de suicidas "autnticos" tm por    efetuar uma mudana na sociedade atravs da
objetivo a morte e podem assim distinguir-se de     revelao do maravilhoso oculto sob o cotidia-
uma variedade de atos de "falsos" suicidas, tais    no e da explorao metdica dos recursos do
como os "gritos por socorro", quando a inten-       inconsciente. O poeta Guillaume Apollinaire
o  viver. Stengel foi um dos primeiros a         descreveu a sua pea Les mamelles de Tiresias
mostrar que a maioria dos atos suicidas, incluin-   (de 1917) como um "drama surrealista", e a
do a maior parte dos que terminam em morte,         palavra foi adotada por certo nmero de poetas
so manifestaes de comportamento de acei-         mais jovens associados  revista Littrature,
tao de riscos, empreendidas com um intui-         com destaque para Andr Breton, Philippe Sou-
to ambivalente e caracterizadas pela incerteza      pault, Louis Aragon e Paul Eluard, de 1922 em
quanto ao desfecho (Stengel e Cook, 1958).          diante. Breton tornou-se o indiscutvel lder e
Alguns pesquisadores tm usado o termo "pa-         terico do grupo, o qual, com o tempo, adquiriu
rassuicdio" a fim de descrever o comportamen-      o mecanismo de um partido poltico, como
to que, embora se situe aqum de uma tentativa      filiados, julgamentos, expulses e heresias, e
real de suicdio,  mais, porm, do que um mero     at com seu prprio dicionrio.
gesto manipulativo. Essas observaes tm im-           Derivando inicialmente das atitudes niilistas
plicaes para definir e teorizar acerca do sui-    e antiartsticas do movimento Dada, o surrea-
cdio. Stengel (1973) definiu o suicdio como       lismo herdou dele as manifestaes, os mani-
"qualquer ato deliberado de dano cometido por       festos, as tticas de choque e o desejo de pater
uma pessoa contra si prpria e no qual ela no      les bourgeois, e adicionou a tudo isso um pro-
pode estar certa de sobreviver". Talvez a ques-     fundo interesse pelas descobertas de Sigmund
to fundamental para a pesquisa corrente no        Freud. Os surrealistas foram buscar suas preo-
seja por que as pessoas se matam, mas por que       cupaes com o acaso -- hasard objetif -- nas
tantas mais (possivelmente 100 mil por ano na       elegantes e filosficas obras de antiarte de Mar-
Inglaterra e no Pas de Gales) arriscam suas        cel, membro do grupo Dada, e seu mtodo es-
vidas no que Stengel comparou a um ordlio          ttico em uma frase muito citada de Les chants
medieval.                                           de Maldoror (de 1869) por Isidore Ducasse,
    A tica do suicdio tende a no continuar       conde de Lautramont: "to belo quanto o ines-
dirigindo o seu foco para a culpabilidade moral     perado encontro, em uma mesa de dissecao,
de quem atenta contra a prpria vida. O pensa-      de uma mquina de costura com um guarda-
mento do sculo XX tem compaixo pelo sui-          chuva". Essa justaposio de realidades con-
cdio, mas fica intrigado com o mistrio do que     trastantes ou contraditrias para atingir um no-
754   surrealismo


vo estado, surreal, foi associada por Breton       que fossem, no tinham lugar em uma rgida
DIALTICA de Hegel e facilitada, em particular,     hierarquia partidria.
pela relativamente nova idia de collage, a co-         Embora eles se considerassem tudo menos
lagem de elementos impressos ou fotogrficos        um movimento artstico, tambm  irnico que
formando um conjunto.                               o surrealismo seja mais conhecido hoje em dia
    A natureza "faa voc mesmo" dessa tcnica      como o viveiro de uma srie de excepcionais
combinava com outra mxima de Lautramont:          pintores: Max Ernst, Andr Masson, Ren Ma-
"a poesia deve ser feita por todos". A collage, o   gritte, Salvador Dali; suas vrias nacionalida-
uso srio de jogos de papel de crianas, como o     des testemunham a difuso internacional do
de "conseqncias" (conhecido como cadavres         movimento.
exquis, por causa das duas primeiras palavras           Amor -- l'amour fou -- e Mulher fornece-
obtidas por esse mtodo), o emprego de mate-        ram a inspirao. Violentamente anticlericais, 
rial de sonhos e transes e de escrita automtica,   como se os surrealistas adotassem a metafsica
e mais tarde a descoberta de "objetos encontra-     e nela substitussem o amor divino pelo amor
dos" propiciaram um movimento teoricamente          fsico. Um considervel nmero de suas "mu-
democrtico. Novos veculos como a fotografia       sas" tornou-se artista por seu talento pessoal,
(com Man Ray) e o cinema (com Luis Buuel)          como Elsa Triolet, Lee Miller, Meret Oppen-
pareciam adaptar-se perfeitamente  produo        heim e outras que se descobriram atravs do
de realidades contrastantes. A arte primitiva e     movimento. O surrealismo alcanou o seu apo-
nave, as novelas de sensacionalismo barato e       geu nas grandes exposies de Londres (1936)
os primeiros filmes de Hollywood foram des-
                                                    e Paris (1938), embora se mantivesse at a morte
cobertos e aplaudidos.  irnico, em vista de
                                                    de Breton, em 1966, e tenha tido uma influncia
tudo isso, que os surrealistas sejam agora per-
                                                    contnua, sobretudo na Pop Art dos anos 60.
cebidos predominantemente como um grupo de
elite constitudo de poetas e pintores.                 Ver tambm SOCIOLOGIA DA ARTE.
    Durante seus anos de mxima atividade na        Leitura sugerida: Alqui, F. 1965: The Philosophy of
dcada de 30,  poca da Frente Popular e da        Surrealism  Cardinal, Roger e Short, Robert Sheart
atividade antifascista em geral, eles tentaram      1970: Surrealism: Permanent Revelation  Jean, Mar-
persistentemente aliar-se ao Partido Comunista      cel 1970: Autobiographie du surralisme  Nadeau,
francs, com resultados previsivelmente tragi-      Maurice 1968: Histoire du surralisme.
cmicos; tais espritos livres, por mais sinceros                                       ADRIAN HENRI
                                               T
teatro O teatro moderno comea exatamente                 vida de trabalhadores raramente fossem bem-
em 1889, tomando en considerao alguns im-               sucedidas, talvez porque se esquivassem de
portantes precursores. O principal impulso que            retratar concluses revolucionrias.
serviu de esteio ao novo teatro foi o estabeleci-             A segunda linha de oposio comeou pela
mento do poder da burguesia mercantil e indus-            criao de um teatro esttico que no precisava
trial, mas as direes que o teatro adotou foram          de qualquer justificao social. Os simbolis-
principalmente expresses de oposio aos va-             tas criaram mundos imaginrios, sensoriais, em
lores materialistas dessa classe. Comeando               torno de monodramas hierofnticos. Adolph
com o Naturalismo e o Thtre Libre de Antoine            Appia criou formas fluidas de encenao (para
em Paris, um movimento reformista passou a                as peras de Wagner) que complementariam as
documentar os males do capitalismo e a exigir             qualidades estimuladoras de emoo da msica
alguma forma de reparao. O terico desse                e Gordon Craig apresentou a idia de um teatro
movimento foi mile Zola; o seu precursor foi             governado por um artista e poeta supremo: o
Henrik Ibsen. Vinculado a esse desenvolvimen-             diretor.
to estava o interesse crescente em examinar o                 A partir desses experimentos e teorias, de-
mundo cientificamente, e o Naturalismo no                senvolveram-se trs importantes enfoques de
tardou a ampliar o seu campo de investigao              performance. Craig, com o seu conceito de
para alm do imediatismo do mundo material,               bermarionette, estabeleceu uma forma im-
adentrando as esferas sociolgica e psicolgica.          pessoal de atuar, na qual um ator atltico, alta-
    No decurso dessa investigao, a forma es-            mente treinado, estava apto a representar com
tabelecida dominante de teatro, a pea dramti-           grande habilidade expressiva a pedido e coman-
ca, comeou a ser vista como inadequada. O                do do diretor, cuja vontade e viso potica
teatro dramtico  baseado em cenas do tipo               determinavam a natureza da apresentao. Isa-
aqui-e-agora compostas de dilogos em que os              dora Duncan afirmou a primazia da expresso
personagens se defrontam mutuamente e se                  pessoal autntica do artista/danarino, resul-
imagina terem o poder de chegar a alguma                  tante do que chamou os "estados da alma", que
forma de soluo de seus conflitos ou dificul-            ela localizou no plexo solar. Stanislavsky co-
dades. Os novos dramaturgos enfrentaram cer-              meou por investigar os processos psicofsicos
tos problemas: para Ibsen, o presente era perce-          atravs dos quais o ator trabalha e acabou por
bido como condicionado pelo passado, o qual               apresentar o primeiro estudo cientfico do ator.
se intrometia no dilogo aqui-e-agora, ao passo               Outros avanos importantes registrados nes-
que, para Strindberg, os conflitos tinham sede            se perodo foram a fundao de teatros nacio-
na psique individual, a qual no podia ser dra-           nais como um importante instrumento de hege-
matizada de acordo com mtodos tradicionais.              monia cultural burguesa e o movimento em prol
A pea dramtica estabelecera-se durante a as-            da formao de algum gnero de teatro "po-
censo da burguesia ao representar os valores e           pular". (Ver tambm SOCIOLOGIA DA ARTE.) Na
as lutas dessa classe no palco, mas, assim que            Frana e na Alemanha, em particular, na virada
lhe asseguraram a ascendncia, a situao mu-             do sculo, houve movimentos para democrati-
dou. Tchecov dramatizou o declnio da burgue-             zar os teatros, os quais exerceram poderosa
sia rural, enquanto outros abraavam a causa da           influncia sobre futuros desenvolvimentos. Na
classe trabalhadora, embora as tentativas de              Frana, sob a tutela de Romain Rolland, regis-
dramaturgos da classe mdia de apresentar a               trou-se uma campanha em favor da instaurao

                                                    755
756   teatro


de subsdio do governo para o estabelecimento      mais avanados do proletariado. Pouco depois
de teatros nos subrbios parisienses da classe     da Primeira Guerra Mundial, Piscator estabele-
operria, os quais acabariam por se ampliar ao     ceu o Teatro Proletrio, que percorreu as salas
restante da Frana. Em vrias etapas, essa idia   de reunies de trabalhadores de Berlim at ser
converteu-se na poltica de descentralizao do    interditado pela polcia. Em uma srie de pro-
teatro que serviu de base para a poltica do       dues para o Volksbhne, para o Staatstheater
ps-guerra na Frana atravs dos Thtres Po-      e em duas revistas para o Partido Comunista,
pulaires, dos Centres Dramatiques e das Mai-       ele desenvolveu um repertrio de tcnicas vol-
sons de Culture. Merece ser assinalado que o       tadas para assegurar a significao poltica de
estatuto do Arts Council da Gr-Bretanha apon-     qualquer obra teatral. A sua arbitrariedade final
ta como seu objetivo primordial a criao do       forou o Volksbhne a repudi-lo e a declarar
mais amplo acesso possvel para todas as cama-     categoricamente que no tinha filiao ou in-
das representativas em um corte transversal        tenes polticas declaradas. Piscator prosse-
da populao. Na Alemanha, o movimento do          guiu em seu caminho para definir e ampliar suas
Volksbhne (Teatro Popular) comeou a for-         idias no Teatro Poltico, no que foi acompa-
mar, em 1891, um vasto contingente de as-          nhado de perto por Bertolt Brecht.
sociados, o que lhe possibilitou a compra de           O prprio Piscator foi cada vez mais sedu-
representaes que seriam encenadas nas po-       zido pelas inovaes tcnicas que ele prprio
cas e a preos que os scios, predominante-        havia introduzido, mas algumas delas tinham
mente da classe trabalhadora, julgassem conve-     um valor significativo. Especialmente o seu uso
nientes. A partir da, o movimento progrediu ao    do filme para trazer a realidade ao palco ou para
ponto de financiar as suas prprias produes e    estabelecer o contexto global dentro do qual
de construir e administrar os seus prprios tea-   ocorrem as aes mais domsticas. (Ver tam-
tros. Esse princpio de financiamento de um        bm CINEMA.) Ele proclamou a morte do teatro
teatro mediante a compra antecipada de lugares,    dramtico, articulada mais tarde por Brecht co-
em bloco, por organizaes representativas de      mo decorrente da pura impossibilidade de en-
trabalhadores, predominantemente sindicatos,       contrar protagonistas cuja experincia fosse re-
tornou-se poltica estatal dos antigos estados     presentativa de qualquer grande grupo ou clas-
socialistas na Europa Central e Oriental. Isso     se, e a morte do teatrlogo individual, pois
assegurou que em toda a Europa o teatro fosse      nenhum indivduo possua a necessria gama
visto como um servio social, digno de receber     de aptides para compreender todos os fatores
verbas do estado -- desde que se responsabili-     complexos que influenciaram o mundo con-
zasse por promulgar a hegemonia da classe          temporneo. Ele estabeleceu cooperativas dra-
dominante ou a ideologia do estado.                matrgicas, as quais incluram economistas e
    Dentro do movimento Volksbhne, desde o        ativistas polticos, assim como escritores.
comeo suscitaram-se questes acerca do rela-          Brecht, que era um membro da cooperativa,
cionamento entre o teatro e seu pblico. Deve      encontrou um modo de envolver colaboradores,
o pblico ser politicamente educado atravs do     embora retendo ele prprio o controle geral. Ele
teatro, ou culturalmente atravs da participao   seguiu Piscator ao rejeitar como moribundo o
no teatro, como pblico? Houve duas divises       teatro dramtico e ao estabelecer o teatro pico
cruciais. A segunda delas foi ocasionada por       como a nica forma capaz de articular o sculo
Erwin Piscator em meados da dcada de 20.          XX. Os mtodos teatrais de Brecht foram pla-
Piscator percebeu que todo o movimento no          nejados para colocar o pblico em uma dis-
sentido da democratizao do teatro se baseava     posio de esprito mais questionadora do que
no conceito de Teatro do Povo, um conjunto de      passiva, e ele tentou interpor mecanismos de
idais tomadas do pensamento em torno da           estranhamento entre a ao no palco e o pbli-
Revoluo Francesa; mas no final do sculo         co, a fim de bloquear sentimentos de empatia e
XIX a questo de quem era o "povo" ou a            despertar atitudes crticas. Brecht viu que, ao
"nao" se mostrava muito controversa. Pisca-      crescerem, os dois braos do movimento mo-
tor rejeitou aquelas tendncias  reconciliao    dernista se haviam distanciado muito e conce-
das classes antagnicas e apresentou o conceito    beu a sua prpria obra como uma unio das
de um teatro politicamente engajado, cuja fina-    funes didticas e de entretenimento do teatro.
lidade seria servir aos objetivos dos setores      Seu teatro foi sempre poltico, mas utilizou
                                                                                        teatro   757


todos os recursos formais e espetaculares que        GIA DA LIBERTAO, esse teatro  freqentemente
os teatros de arte haviam desenvolvido.              mencionado como Teatro de Libertao.
    Como base na obra de Piscator, com o Teatro          O segundo brao do movimento modernista,
Proletrio, e em um movimento paralelo na            no qual Brecht foi buscar suas idias de espet-
Unio Sovitica, os "Blusas Azuis", a forma          culo e entretenimento, nunca esteve inteira-
predominante de teatro poltico converteu-se         mente separado do brao reformista. De Strind-
em propaganda de agitao, sendo a funo do         berg em diante, atravs do Expressionismo,
teatro educar o pblico quanto s realidades         os sentimentos de ANOMIA no eram fceis de
polticas e despert-lo para a ao. Uma visita      dramatizar sem recurso a formas no-realis-
dos Blusas Azuis  Alemanha, por ocasio do          tas de encenao. Realizaram-se experimentos
10 aniversrio da Revoluo Russa, inspirou         com idias surrealistas e deles surgiu a obra
movimentos polticos no mundo inteiro a ado-         de Antonin Artaud, rejeitada pelos surrealistas
tarem agit-prop como estilo teatral. Por ironia,     mais destacados mas formulando um Teatro da
isso aconteceu precisamente na poca em que          Crueldade que eliminaria as restries do texto
Stalin desmantelou o movimento dos Blusas            literrio e os polidos refinamentos e inibies
Azuis e estabelecu a poltica da Unio Sovitica     da sociedade moderna a fim de criar um teatro
como o realismo socialista, a apresentao de        elementar trabalhando com imagens para res-
figuras tpicas em um ambiente tpico.               tabelecer o sentido de mistrio e a dimenso
                                                     metafsica que se perdera. Artaud no estava
    A desintegrao da Unio Sovitica e dos
                                                     sozinho em suas preocupaes -- Craig, Vas-
outros estados socialistas na Europa tornou lar-
                                                     sily Kandinsky e Alexandre Scriabin tinham-no
gamente redundante qualquer forma de teatro
                                                     precedido --, mas iniciou um envolvimento
poltico baseado no princpio de contribuio
                                                     com o teatro oriental que retorna uma e outra
para o fim do sistema capitalista e sua subs-
                                                     vez como fonte de nutrio para um teatro
tituio pelo socialismo. Entretanto, as tcnicas    ocidental em perigo de perder sua potncia.
do agit-prop e dos Blusas Azuis foram conside-
                                                         A aplicao de mtodos cientficos a tcni-
ravelmente refinadas e desenvolvidas em vrias
                                                     cas teatrais continuou durante todo o sculo
partes do mundo em desenvolvimento, onde as
                                                     XX, sobretudo no campo do movimento e da
condies e necessidades polticas e sociais
                                                     DANA. As idias de Frederick Winslow Taylor
gerais so diferentes. O teatro tem sido usado
                                                     foram uma importante influncia no conceito
para promover a alfabetizao, o controle po-        de Meyerhold de biomecnica, e tem havido
pulacional, a reforma agrria e a resistncia        uma corrente constante de novas abordagens e
poltica. Nessas campanhas, o teatro tem sido        mtodos para o treinamento fsico de atores. A
usado por governos para manter o status quo e        obra de Rudolf von Laban refletiu a preocupa-
por grupos de oposio para o abalar. O princi-      o de Isadora Duncan em querer distinguir
pal desenvolvimento nesse campo foi atravs          entre impulsos autnticos e inautnticos para o
da obra de Augusto Boal, apoiada nas teorias         movimento e a dana, e ele tambm estabeleceu
educacionais de Paulo Freire, e sua concepo        a primeira categorizao cientfica dos movi-
do Teatro do Oprimido. Embora o Teatro do            mentos em torno de tempo, espao e gravidade,
Oprimido no possa ser reduzido a qualquer           assim como inventou o primeiro sistema de
processo singular, existe em seu cerne a idia       notao de movimentos. Oriundos do movi-
de que os povos oprimidos se libertam aps ou        mento expressionista, Oskar Kokoschka e Kan-
durante um processo de conscientizao atravs       dinsky trabalharam para criar um teatro forma-
do qual so levados a objetivar sua opresso e       lista que complementasse as inovaes nas ar-
explorao e a elaborar modos de alterar seu         tes grficas. A Bauhaus realizou experimentos
pensamento e sua ao para criar novas reali-        com esses princpios estticos e, quando essa
dades. Esse gnero de teatro requer que mesmo        obra chegou aos Estados Unidos, na dcada de
a obra de Brecht seja rejeitada e que as barreiras   30, e foi adotada por John Cage e, mais tarde,
entre ator e pblico sejam derrubadas em uma         Merce Cunningham, comearam a ser postula-
srie de etapas que colocam o participante den-      das idias sobre formas teatrais que utilizariam
tro da ao e em posio de "ensaiar" as possibi-    o acaso e nas quais os elementos constituintes
lidades de mudana revolucionria. Com base          no seriam coerentes, mas contrastariam de
em uma afinidade de propsitos com a TEOLO-          maneira aleatria. Paradoxalmente, uma vez
758   tecnocracia


que Brecht j tinha estabelecido que a imagem      Barba interessaram-se todos pela antropologia
no precisa ilustrar o texto ou a ao, mas pode   teatral. Schechner procurou ampliar a discipli-
servir-lhes de contraste ou de comentrio, es-     na dos estudos teatrais de modo a incluir os
tava aberto o caminho para libertar a imagem       estudos da performance, dos quais o desempe-
em uma grande variedade de maneiras. Tem           nho teatral  apenas um pequeno constituinte.
havido uma corrente constante de novos desen-      Barba empreendeu um estudo de comparaes
volvimentos que no condizem com os padres        e conexes transculturais em tcnicas perfor-
tradicionais da dramaturgia, mas utilizam o pr-   mticas. A obra de Jean Duvignaud sobre socio-
prio corpo e padres de comportamento de cada      logia do teatro e depois sobre a sociologia do
artista, bem como montagens puramente for-         ator despertou interesse imediato. Tambm fo-
mais de imagens e aes. Estas converteram-se      ram iniciados estudos sobre a psicologia e, re-
na dana ps-moderna (e, recentemente, no          centemente, a biologia do ator. Os estilos e
teatro ps-moderno, na arte performtica, nos      formas mais tradicionais de performance foram
happenings e em toda uma srie de cruzamen-        investigados a partir de pontos de vista estrutu-
tos). A obra de Robert Wilson  a mais complexa    ralistas e ps-estruturalistas para estabelecer a
e, juntamente com a de Heiner Mller, a mais       SEMITICA teatral. Muito se fez nesse campo,
conhecida.                                         mas, em ltima anlise, ele ofereceu muito
    O conceito que surgiu mais recentemente foi    pouco que seja suscetvel de produzir qualquer
o de Terceiro Teatro, que se relaciona com         avano no teatro. A abordagem semitica fun-
companhias no mundo inteiro; teve sua origem       ciona melhor quando a performance se baseia
na obra do Living Theatre e de Jerry Grotowski.    em um slido texto literrio, que a prpria
Uma companhia do Terceiro Teatro no  pelo        abordagem tenta suplantar a fim de analisar as
status quo nem se ope a este, uma vez que a       estruturas performticas do teatro.
oposio define a obra da companhia to segu-          Em face de tudo isso, seria possvel afirmar
ramente quanto a aceitao. Tampouco se trata      que a longa histria do teatro como servio
de companhias experimentais de vanguarda,          social est agora agindo contra o seu desenvol-
embora seu trabalho seja experimental e inova-     vimento. O "Novo Realismo" rejeita esse con-
dor. Elas vivem e trabalham no mundo criando       ceito e o teatro tem pouco mais em que se
dentro de si mesmas o teatro como um modo de       apoiar. Em nenhuma poca existiu tanto inte-
vida. Buscam, portanto, modos de ganhar a          resse e atividade no estudo e anlise dos proces-
vida, mas no se permite que isso determine a      sos teatrais, enquanto que o prprio teatro como
natureza de seu trabalho ou lhe imponha res-       instituio parece correr o perigo de desapare-
tries. O principal terico desse movimento      cer. Contra isso, o surgimento de companhias
Eugenio Barba, do Odin Theater, que exps o        do Terceiro Teatro e do Teatro em Desenvolvi-
conceito das Ilhas Flutuantes. Se cada um des-     mento, que no igualam atividade teatral com
ses grupos est em contato com os outros, eles     subsdio,  portador das melhores esperanas
criam o seu prprio sistema de apoio e,  seme-    para o futuro. H indcios de contra-argumentos
lhana dos esbulhados incas, que vivem em          favorveis ao teatro como forma de arte e no
tapetes de junco flutuando no lago Titicaca,       como servio, e uma crescente reao do teatro
acabaro criando sua prpria identidade global     didtico ou poltico em favor de um ato de
e sua prpria realidade poltica.                  celebrao.
    Na dcada de 60, houve um surto de interes-
                                                   Leitura sugerida: Barba, Eugenio 1986: Beyond the
se pela sociologia do teatro. Erving Goffman       Floating Islands  Boal, Augusto 1967: Teatro do Opri-
comeou a usar a linguagem do teatro para          mido  Bradley, D. e McCormick, J. 1978: People's
descrever relaes em pblico e para descrever     Theatre  Brecht, Bertolt 1964 (1978): Brecht on Thea-
a interao social em termos de estratgias dra-   tre, org. por John Willett  Epsepskamp, C.P. 1988:
matrgicas. Ao mesmo tempo o prprio teatro        Theatre in Search of Social Change  Schechner, Ri-
foi submetido a minuciosa anlise como ins-        chard 1988: Performance Theory.
tituio da sociedade e seus processos foram                                            CLIVE BARKER
investigados de vrios ngulos, como os pro-
cessos de COMUNICAO, as relaes com o           tecnocracia A palavra subentende comando
ritual e outras consideraes antropolgicas.      ou governo exercido por gerentes administra-
Victor Turner, Richard Schechner e Eugenio         tivos (depois de a propriedade legal ter sido
                                                                                  tecnocracia   759


separada do controle efetivo) que superinten-          O que decorre com excessiva freqncia dos
dem e dirigem o pessoal mais jovem da carreira     pressupostos e preferncias tecnocrticos  a
burocrtica com treinamento tcnico mais re-       noo de que os problemas polticos so real-
cente. Ao mesmo tempo o trabalho desses ge-        mente de natureza administrativa e gerencial,
rentes  altamente "poltico", quer seja execu-    ou que idealmente deveriam ser reduzidos a
tado em organizaes do setor pblico ou pri-      isso a fim de manter a continuidade e resistir
vado. O termo tambm se refere ao efmero          s tendncias "desestabilizadoras" ocasiona-
movimento nos Estados Unidos entre 1931 e          das pelos partidos polticos, pelas campanhas
1933 (ver Layton, 1956) baseado na tentativa       e pelas eleies. Os tecnocratas preferem in-
de aplicar o pensamento de Thorstein Veblen,       freqentes eleies plebiscitrias caracteriza-
especialmente o seu livro de ensaios, The Engi-    das por curtas campanhas em que pelo menos
neers and the Price System (1919). A palavra       uma outra equipe esteja a postos para assumir
foi usada pela primeira vez em 1914 por W.H.       as posies simblicas associadas ao governo
Smyth, um seguidor de Veblen, depois de ter        democrtico na eventualidade de o grupo de
lido alguns ensaios que seriam publicados nesse    polticos existente ser derrotado. A ordem social
livro. Smyth definiu-a como "a organizao da       compreendida, no caso ideal, como uma m-
ordem social baseada em princpios estabeleci-     quina (ou "sistema") que pode operar de vrias
dos por especialistas tcnicos", ecoando a longa   maneiras, desde a mxima eficincia em um
tradio de pensamento positivista francs que     extremo at a crassa ineficincia no outro.
comea com Saint-Simon e inclui Franois-          Alm disso,  uma mquina (ou sistema) que,
Charles Fourier, Auguste Comte, Prosper En-        uma vez estabelecida de acordo com os cri-
fantin e a cole Polytechnique no perodo entre    trios preferidos, s vai requerendo, ao que
1815 e 1860.                                       se presume, pequenos ajustes graduais para se
    Um importante pressuposto da tecnocracia,      manter.
que a definio de Smyth apenas serve para             A idia de controlar o poder discricionrio
sublinhar,  a existncia de um fenmeno cha-      de funcionrios no-eleitos est irrecuperavel-
mado conhecimento "objetivo", o qual pode ser      mente comprometida com o predomnio cres-
apreendido e aplicado diretamente a problemas      cente da noo -- favorecida por programas de
sociais e econmicos, assim como tcnicos, e a     treinamento empresarial e administrativo na
capacidade dos tecnocratas de combinar esse        Amrica do Norte, Europa Ocidental e Comu-
conhecimento com as aptides organizacionais       nidade Britnica -- de que existe um conhe-
e gerenciais, o que faz deles as pessoas em quem   cimento objetivo, de que os especialistas po-
mais se pode confiar para realizar e manter esse   dem apreend-lo e de que  possvel aplic-lo
tipo de ordem social. (Ver tambm RACIONALI-       diretamente a problemas sociais, polticos e
DADE E RAZO.) No plano organizacional, igno-      econmicos pela combinao adequada de "ha-
ra as srias e constantes tenses entre subordi-   bilidades" tcnicas, gerenciais e polticas. Em-
nados e dirigentes, entre funcionrios com co-     bora se pensasse inicialmente que o movimento
nhecimentos gerais e especialistas, que  pos-     desenvolvido nos Estados Unidos era de teor
svel encontrar em todas as estruturas burocr-    radical, suas verdadeiras cores conservadoras
ticas estabelecidas, seja em sociedades supos-     rapidamente se manifestaram -- em linha com
tamente "capitalistas" ou "socialistas", ou em     a tradio que vem de Saint-Simon e dos que o
organizaes do setor pblico ou privado. A        ensinaram, inspirados como foram por Edmund
tecnocracia (e os que endossam seus objetivos      Burke. Assim, a tecnocracia tem srias conse-
e mtodos) tende tambm a minimizar ou igno-       qncias no s para a democracia represen-
rar as conseqncias de tal pensamento -- e a      tativa e para o domnio da lei que ela pressupe,
prtica que se presume resultar dele -- para os    mas tambm para as propenses mais "liberais"
interesses legtimos acerca da responsabilida-     das burocracias estabelecidas nesses pases. 
de de funcionrios no eleitos em face dos elei-   por isso que os tecnocratas preferem partidos
tos, e da responsabilidade de funcionrios         conservadores no poder e programas polti-
eleitos para com os seus eleitores nas democra-    cos conservadores, pois estes favorecem a esta-
cias representativas que funcionam sob o imp-     bilidade, a ordem, a eficincia, a privatizao,
rio da lei.                                        a desregulamentao e a despolitizao.
760   tecnologia


    Ver tambm BUROCRACIA; CINCIA DA ADMI-             que impregnou a filosofia e o pensamento so-
NISTRAO; REVOLUO CIENTFICO-TECNOLGI-              cial do sculo XIX e comeo do sculo atual,
CA.                                                     sobretudo na Europa Central (Adler, 1904; Lu-
                                                        kcs, 1973). Subsiste a controvrsia, porm, em
Leitura sugerida: Crozier, Michael 1963: Le phno-      torno do visvel esteio do FUNCIONALISMO em
mne bureaucratique  Giddens, A. 1973: The Class
Structure of the Advanced Societies  Gurvitch, G.       uma forma teleolgica de explicao que atri-
1949: Industrialization et technocratie  Habermas,      bui finalidades, como a estabilidade social ou o
Jrgen 1968-9: "Technology and science as ideology".    desenvolvimento das foras produtivas, a enti-
In Toward a Rational Society  Hodges, Donald 1980:      dades supra-individuais como os sistemas so-
The Bureaucratization of Socialism  Layton, Edwin       ciais ou a espcie humana, invocando s vezes
1956: "The American engineering profession and the      duvidosas analogias biolgicas.
idea of social responsability". Tese de doutorado no
publicada  Mannheim, K. 1940: Man and Society in an     Leitura sugerida: Taylor, C. 1964: The Explanation of
Age of Reconstrution  Meynaud, Jean 1965: Tecnocra-     Behaviour.
cy  Phillips, Derek 1979: The Credential Society                                      WILLIAM OUTHWAITE
 Thompson, Victor 1961: Modern Organization  Wi-
lensky, H.L. 1967: Organizational Intelligence  Wil-
son, H.T. 1977: The American Ideology: Science, Te-
                                                        teologia A expresso, incluindo a teologia
chnology and Organization as Modes of Rationality in    natural conforme praticada, digamos, por Aris-
Advanced Industrial Societies  Young, Michael 1958:     tteles, pode ser traduzida literalmente como
The Rise of the Meritocracy.                            "discurso sobre Deus". Essa  uma ampla des-
                                        H.T. WILSON     crio, como Santo Toms de Aquino sublinha
                                                        na Summa, onde escreve: "a teologia includa
tecnologia Ver   MUDANA TECNOLGICA; RE-               na doutrina sagrada difere em espcie da teolo-
VOLUO CIENTFICO-TECNOLGICA.                         gia que  parte da filosofia". Esse sentido lato
                                                        incluiria tambm, nos dias de hoje, uma re-
teleologia A palavra deriva do grego telos,             flexo sobre as descobertas da sociologia sobre
que significa finalidade. O uso especulativo            a RELIGIO comum ou popular.
desse termo, decorrente da filosofia hegeliana              Em uma acepo mais estrita, a teologia
e de outras filosofias da histria e atribuindo         pode ser definida como a reflexo metdica
uma finalidade ou objetivo a toda a histria            sobre a revelao divina, a qual pode ser pas-
humana, perdeu crdito, de modo geral, ao lon-          sada adiante, usada em discurso racional e de-
go do sculo XX e foi atacado por autores como          fendida. Nessa forma,  o estudo do contedo
Popper (1957) e Lyotard (1979) (ver HISTO-              de textos que so tratados como definitivos. Em
RICISMO). A EXPLICAO teleolgica do compor-           seu sentido mais estrito, e foi esse o estilo dos
tamento dos seres humanos e de outros animais           manuais de teologia at meados deste sculo, a
superiores em termos de metas percebidas tor-           teologia era um conjunto de correlaes meto-
nou-se, porm, mais amplamente aceita. En-              dicamente unificadas acerca da revelao divi-
quanto o POSITIVISMO e o COMPORTAMENTALISMO             na, concatenadas a partir de uma harmonizado-
confiam essencialmente em explicaes mec-             ra exegese bblica e de uma verso de histria
nicas em funo de causas antecedentes, a HER-          doutrinal baseada em Denziger. (Enchiridion
MENUTICA, a teoria da escolha racional (ver            Symbolorum, de H. Denziger, "manual das de-
ESCOLHA RACIONAL, TEORIA DA) e abordagens               cises doutrinrias da Igreja", simboliza a teo-
afins (Sartre, 1960; Taylor, 1964) ressuscitaram        logia neo-escolstica que foi a chave para a
a idia de que a explicao das aes humanas           estrutura da dogmtica da Igreja Catlica tradi-
deve incluir a referncia a intenes e finali-         cional.) Nessas definies mais estritas, a teo-
dades humanas e/ou a prticas culturais es-             logia  um exerccio de esvaziamento do con-
tabelecidas. Quanto ao REALISMO, os modelos             tedo de doutrinas sagradas, e, embora seja esse
de CAUSALIDADE que se concentram nos poderes            um significado legtimo, no  o comumente
causais de entidades tambm colocaram em                indicado pela teologia hodierna. Em geral se
relao mais estreita as explicaes de eventos         busca uma definio mais ampla.
naturais e de aes humanas (Bhaskar, 1979).
    Esses desenvolvimentos enfraqueceram o              Pluralismo
sentido de uma oposio global entre explica-              Uma definio ampla  usada hoje em dia a
o causal ou gentica e explicao teleolgica         fim de acomodar o pluralismo teolgico que
                                                                                              teologia   761


passou a ser moda nos ltimos 20 anos. A                    mudana alguma desde o sculo VIII. A teolo-
filosofia, a antropologia e a sociologia exis-              gia judaica baseia-se tambm no monotesmo,
tencialistas, por seu turno, levaram os telogos            na forma, por certo, de um monotesmo tico
a reconhecer fatores no-teolgicos em ao na              relacionado com o sentido judaico de seu des-
definio de ortodoxia. A definio de teologia             tino histrico. Pode ser descrito, em certo sen-
torna-se, pois, mais ampla, no s para incluir             tido, como uma teologia da lei, uma vez que a
uma reflexo sobre elementos proposicionais                 tradio rabnica preocupou-se com discusses
contidos em escritos sagrados, mas tambm                   sutis e freqentemente no resolvidas sobre a
interpretaes de autocompreenso apreendi-                 lei do Antigo Testamento e sua significao
das direta ou historicamente por crentes. Uma               para a vida humana. Mas esses enunciados ge-
gerao mais antiga de telogos teria reivin-               rais no fazem jus  rica tradio da teologia
dicado duas fontes de teologia: as escrituras e a           judaica, a qual, fundamentalmente influenciada
tradio. Schillebeeckx (1977), por exemplo,                pelo holocausto, comeou a desenvolver for-
retm os dois esquemas originais, mas diz que               mas significativas de teologia da libertao.
eles so
   ...por um lado(...), toda a tradio experiencial do
                                                            Estilos teolgicos
   grande movimento judaico-cristo; e, por outro(...),         O pluralismo em teologia tambm existe na
   as experincias humanas hodiernas compartilhadas         forma aceitvel de diferentes sistemas de teo-
   por cristos e no-cristos(...). A experincia inter-   logia, ou, no idioma contemporneo, em di-
   pretativa  parte essencial do conceito de revelao.    ferentes estilos de teologizao. Em Logic of
    Essa abordagem experiencial pode culminar               Theology (1986), Ritsch identificou dois tipos
no plo extremo do pluralismo, ou seja, na                  bsicos: o primeiro  o "monotemtico", no
extremidade oposta da definio mais estrita a              qual a teologia est organizada em torno de um
que j nos referimos, que  a constituda pelas             nico tema central; o segundo  o "conglome-
verses privatizadas e voluntaristas de crena.             rado", no qual uma gama de tpicos apropria-
Exemplo notvel desse gnero de literatura teo-             dos e necessrios, ao lado de temas parciais, so
lgica  a recente obra de Hans Kng, Theology              reunidos num corpus teolgico coerente. Tpi-
for the Third Millenium, na qual ele enuncia a              cos do primeiro estilo de teologia so Martinho
tese de que "a primeira constante, o primeiro               Lutero (justificao somente pela f), as teolo-
plo de uma teologia ecumnica crtica  o                  gias da libertao (liberdade da opresso como
nosso atual mundo de experincia, com toda a                assunto de importncia religiosa universal),
sua ambivalncia, contingncia e mutabilida-                Kng (o ecumenismo, que deixou de ver em
de" (1988, p.166). Se isso quer dizer que tudo              todas as outras teologias e igrejas outros tantos
 compatvel com a teologia crist, ento fica              antagonistas para as ver agora como parceiras),
difcil ver que significado inteligvel pode ser            as teologias ps-modernas (o problema poltico
atribudo  teologia.                                        central para o empreendimento teolgico),
    O pluralismo e as novas formas de ecume-                Karl Barth (a soberania de Deus), Karl Rahner
nismo abrangem tambm as teologias de outros                (uma epistemologia em que a interpretao da
credos e religies mundiais, como a religio                autocompreenso  apreendida direta e histo-
hindusta (baseada nas escrituras reveladas dos             ricamente no ato de existncia).
videntes vdicos) (ver tambm HINDUSMO E                       O estilo "conglomerado" abrange a maior
TEORIA SOCIAL HINDU), o BUDISMO (baseado na                 parte da teologia desde as Sentenas de Pedro
"roda dos ensinamentos" do buda [o darma] que               Lombardo at a Summa de Santo Toms de
se apossa da "comunidade" [a sangha]), o ISLA-              Aquino e a maioria dos escritos teolgicos,
MISMO (baseado no Coro revelado a Maom) e                 catlicos e protestantes, desde o sculo XVI at
a religio judaica (baseado na Tora) (ver JUDAS-           incios do sculo XX e, no caso da teologia
MO). A teologia islmica afirma a existncia e a            catlica, at meados deste sculo.
unicidade de Deus, a misso proftica de Mao-                   Entretanto ambos os estilos de teologia esto
m e a necessidade de obedecer aos manda-                   sujeitos  objeo de que se trata de sistemas
mentos bsicos conhecidos como "os pilares do               fechados, dificilmente capazes de acomodar
isl". As estruturas dogmticas erguidas sobre              desenvolvimentos histricos, mudanas para-
esses trs princpios no sofreram virtualmente             digmticas ou intervenes profticas.
762   teologia da libertao


Teologia como cincia                                prxis" a fim de indicar a significao parcial
    A teologia pode ser, e freqentemente ,         do ato de f e de compromisso, caso definido
definida como a "cincia da f", se entendermos      apenas em termos de ortodoxia.
por f uma reflexo metodolgica de acordo              A teologia do futuro, influenciada pelos de-
com as diretrizes adequadas ao objeto de estudo      senvolvimentos atuais na filosofia e nas cin-
de qualquer disciplina. A tarefa da teologia  a     cias sociais, ser certamente modificada pelos
explorao disciplinada do que est contido na       estudos ps-modernos e feministas (Milbank,
revelao divina. Isso inclui o exame detalhado      1990; Rose, 1992).
de seu objeto especial de estudo, o qual inclui      Leitura sugerida: Kng, Hans 1988: Theology for the
as Escrituras e a Tradio, assim como a expe-       Third Millennium  Milbank, J. 1990: Theology and
rincia crist. O compromisso total requerido       Social Theory: Beyond Secular Reason  Pallin, D.A.
compatvel com a reflexo crtica. Assim, a          1990: The Anthropological Character of Theology
teologia do final do sculo XX reivindica ser         Ritsch, A. 1986: Logic of Theory  Rose, G. 1992: The

cientfica em sua metodologia e ter sobrevivido      Broken Middle  Schillebeeckx, E. 1977: Interim Re-
                                                     port.
(a par de outras cincias humanas)  crtica
positivista de que nada mais  seno uma com-                                        FRANCIS P. MCHUGH
binao de alegaes morais e avaliatrias que
expressam apenas opinies e preferncias. Se-        teologia da libertao Primeira construo
ria difcil imaginar uma instituio acadmica       terica da f crist elaborada no Terceiro Mun-
contempornea que exclusse o discurso teol-        do, a teologia da libertao tem o objetivo de
gico, como a Royal Society, no sculo XVII,          apresentar a liberdade com relao  opresso
excluiu a teologia e a poltica sob o argumento      como assunto de importncia religiosa univer-
de no serem axiologicamente neutras.                sal. De origem latino-americana e datando da
                                                     dcada de 60, a teologia da libertao combina
A teologia e as outras cincias                      conceitos oriundos das cincias sociais com
    At o sculo XX a FILOSOFIA era a nica          idias bblicas e teolgicas. Em particular, no
mediadora entre a autocompreenso humana e           seu uso da teoria social marxista e no-marxis-
a teologia. Agora existe grande nmero de cin-      ta, pode ser superficialmente lida por telogos
cias humanas antropologicamente significati-         pouco perspicazes e socilogos condescenden-
vas que esto influenciando o empreendimento         tes como uma forma de teoria social radical que
teolgico. A prpria antropologia insiste em         incorpora uma tica secular de justia. Com
que as intuies teolgicas, supostamente di-        efeito, uma recente resposta oficial da Igreja
vorciadas das experincias humanas, esto con-       Catlica  teologia da libertao questiona o
dicionadas pela cultura e pelas estruturas de        status epistemolgico de uma teologia que in-
pensamento em que so apreendidas (Pallin,           tegra elementos de teoria marxista (Congrega-
1990). A sociologia criticou o individualismo        o para a Doutrina da F, 1984).
da teologia ocidental clssica. Para corrigir essa       A forma hbrida da teologia da libertao
fraqueza, duas influncias se destacaram: em         cria um obstculo inicial  definio. Seria pos-
primeiro lugar, a teologia poltica alem, defi-     svel ir ainda mais longe e dizer que induz em
nida por Metz como um corretivo crtico             erro o uso do substantivo no singular, "teolo-
tendncia da teologia contempornea a se con-        gia", para descrever o corpus da literatura da
centrar no indivduo privado, encorajou o de-        libertao, como se fosse de qualquer modo
senvolvimento do sentimento cristo de res-          comparvel  teologia sistemtica clssica.
ponsabilidade no tocante s questes pblicas;       Existem vrias teologias da libertao: teologia
e a TEOLOGIA DA LIBERTAO incentivou a recu-        da libertao negra (Cone, 1969); teologia ju-
perao do significado social das Escrituras         daica da libertao (Ellis, 1987); teologia da li-
pelos cristos latino-americanos que esto en-       bertao asitica (Suh Kwang-sun, 1983) e teo-
gajados na luta por justia. Essas cincias so      logia da libertao latino-americana (Haight,
agora parceiras em dilogo com a teologia, e         1985). Alm dessas, h a chamada teologia
cumpre reconhec-las como influncias fecun-         poltica, influenciada pela escola de Frankfurt
das. Elas j comearam, por exemplo, a indicar       de sociologia crtica, a qual pode ser descrita
modos em que a cincia da f  uma "cincia          como uma teologia da libertao para a socie-
prtica", e introduziram termos como "orto-          dade capitalista ocidental (Metz, 1969). Em
                                                                        teologia da libertao   763


outras palavras,  mais correto falar de "teolo-    vida subjetivo de pobreza foi substituda na
gias da libertao" do que de "teologia da liber-   teologia da libertao por uma "objetiva opo
tao".                                             pelos pobres". Como a Igreja tinha estado com-
   Mesmo que ainda no se disponha de uma           prometida com a classe opressora, detentora da
descrio unvoca, essas teologias podem ser        riqueza, tinha de se identificar agora com os
reunidas sob um s ttulo porque compartilham       pobres na luta pela libertao. Essa recomen-
pressupostos sobre a necessidade de a teologia      dao de "uma opo fundamental pelos po-
contempornea ser orientada por trs valores:       bres" reflete a idia de Marx de que, "se uma
primeiro, a anlise da opresso e sua correspon-    classe  a classe da libertao por excelncia,
dente forma de libertao; segundo, o emprego       ento uma outra deve ser a classe da opresso"
da anlise e da teoria sociais como um corretivo    (ibid.).
para o modo "privatizado" da teologia tradicio-         A concluso de Marx (com os seus prprios
nal; e terceiro, o uso do paradigma da libertao   e estranhos ecos teolgicos) de que a opresso
do Livro do xodo.                                  social desse gnero significa "a perda total de
                                                    humanidade, a qual, portanto, s pode redimir-
Opresso e libertao                               se atravs da total redeno da humanidade"
    A forma distinta de teologizao desenvol-      (ibid., p.256), apresenta em forma secular o
vida na teologia da libertao resultou da com-     tema escatolgico da luta pelo estabelecimento
binao da detalhada anlise emprica de for-       do Reino Universal de Deus (com suas conse-
mas de opresso e da anlise sociolgica e          qncias sociais e polticas) que est no mago
poltica dessas formas. Na Amrica Latina, as       da teologia da libertao.
teorias educacionais de Paulo Freire (1970) es-
timularam descries da pobreza e da impotn-       Teoria social radical: desprivatizao da
cia da massa da populao. Percebeu-se depois       mensagem crist
que a anlise socioeconmica de Marx era efi-           O desenvolvimento e a natureza da teoria da
ciente na identificao dessas formas de opres-     libertao no podem ser entendidos sem que
so como inevitveis conseqncias da aliana       ela seja vista, em parte, como uma reao,
da riqueza e do poder especfica do capitalismo.    primeiro, ao individualismo da teologia ociden-
Os telogos que estavam refletindo com o povo       tal clssica e, segundo,  abordagem terica
a respeito da experincia de pobreza comea-        consensual do pensamento social catlico tra-
ram a falar de "estruturas de opresso" e, inter-   dicional. Duas influncias atuaram para corrigir
pretando teologicamente a situao, adotaram        a primeira fraqueza: a teologia poltica alem,
o termo "estruturas de pecado".                     definida por Metz como "um corretivo crtico 
    No est claro se os telogos da libertao     tendncia da teologia contempornea a se con-
estabeleceram ligaes textuais entre o seu pr-    centrar no indivduo privado" (1968, p.3); e, o
prio estilo de teologizao e o usado por Marx      outro corretivo, a recuperao do significado
na Crtica da filosofia do direito de Hegel, mas    social dos Evangelhos pelos cristos latino-
as semelhanas so impressionantes. Marx            americanos engajados na luta por justia. A
identifica a classe opressora por sua "encarna-     teoria da libertao tentou corrigir a segunda
o de uma limitao (...) que ofende de modo       fraqueza apoiando-se em contribuies marxis-
geral (em termos de teologia da libertao, essa    tas para demonstrar que a anlise da opresso
poderia ser a estrutura pecaminosa que cria e       social acarreta uma teoria de conflito e da ao.
propaga a pobreza) ou pela deficincia de uma       Procurou ser seletiva no uso de insights marxis-
determinada esfera que se converte no "notrio      tas -- em outras palavras, tratou de evitar a
crime de toda uma sociedade" (o que poderia         aceitao do sistema marxista; mas muitos co-
descrever o lugar que o holocausto nazista ocu-     mentadores cristos tm srias dvidas sobre se
pa na teologia judaica de libertao) (ver Marx,    a anlise pode ser usada sem que se aceite
1975, p.254).                                       tambm a interpretao materialista da histria.
    A progresso de um entendimento pessoal e           O que distingue a abordagem da teoria da
psicolgico dos alicerces da teologia para uma      libertao de formas precedentes e, o que  mais
interpretao sociolgica da realidade  tpica     importante ainda, o que constitui a sua epis-
da teologia da libertao. Por exemplo, a reco-     temologia caracterstica est resumido em seu
mendao da Igreja Catlica de um estilo de         uso do termo "prxis". Os telogos ocidentais
764   teoria crtica


estavam treinados em uma tradio que deu pri-        contemporneo em virtude de experincias his-
mazia ao conhecimento terico: primeiro veio          tricas semelhantes por que passou o povo de
a verdade e depois a sua aplicao. Os telogos       Deus" (1973, p.159).
da libertao questionam essa ordem. Eles do             Ver tambm CRIST, TEORIA SOCIAL.
primazia  ao; a prxis vem antes da teoria; a
ortoprxis vem antes da ortodoxia. Sem se ne-         Leitura sugerida: Boff, L. 1983: Igreja, carisma e po-
                                                      der  Boff, L. e Boff, C. 1986: Como fazer teologia da
gar a utilidade dessa abordagem para a teologia,      libertao  Bonino, J. 1983: Towards a Christian Po-
pode-se perguntar se esse uso da prxis no ser      litical Ethics, Concilium, 1987, parte 1, p.83-106
idntico ao de Aristteles quando descreveu as         Gutierrez, G. 1983: A Theology of Liberation, Politics
matrias que se relacionam com a vida na plis,       and Salvation  Institute of Jewish Affaire 1988: Chris-
enquanto que em Marx "prxis" faz referncia          tian Jewish Relations 21.1 (monografia)  Lane, D.
especfica  ao que se liga s relaes de          1984: Foundations for a Social Theology  Segundo,
                                                      J.-L. 1973: The Community Called Church  Sobrino,
produo. Uma vez mais, as conexes ntimas           J. 1978: Spirituality of Liberation.
entre a noo de prxis no marxismo e a inter-
                                                                                       FRANCIS P. MCHUGH
pretao materialista da realidade devem criar
dificuldades para a interpretao teolgica da
histria.
                                                      teoria crtica Ver       ESCOLA DE FRANKFURT.

                                                      teoria poltica Esta pode ser sucintamente
O paradigma do xodo                                  definida como a reflexo sistemtica sobre a
    Seria um equvoco, contudo, expor a teoria        natureza e os objetivos do governo, envolvendo
da libertao como se a sua coerncia depen-          caracteristicamente uma compreenso das ins-
desse exclusivamente da correspondncia exata         tituies polticas existentes e uma perspectiva
com um marxismo definitivo, especialmente             sobre o modo como elas deveriam (se  que
em uma poca em que o marxismo se v cada             deveriam) ser mudadas. Trata-se de uma ativi-
vez mais incapaz de manter contato com a              dade intelectual com uma extensa genealogia
natureza universalista de suas proposies eco-       que remonta pelo menos  Grcia antiga e est
nmicas. Neste ponto, o marxismo pode ter             consubstanciada em uma srie de obras cls-
algo a aprender com a teologia da libertao.         sicas, desde a Repblica de Plato at as Consi-
    Em 1921 Ernst Bloch, em sua original e            deraes sobre o governo representativo de
independente interpretao do marxismo, sus-          John Stuart Mill. Pode-se dizer que, de modo
tentou, contra Engels e outros, que a linguagem       geral, ela no prosperou no sculo XX, e pode-
usada por Thomas Mnzer na Guerra Campo-              mos comear indagando por qu. Duas ten-
nesa de 1542 no disfarava objetivos polticos       dncias tm conspirado para desacreditar a teo-
seculares, mas constitua uma expresso de ex-        ria poltica, sendo uma delas o determinismo
perincias religiosas profundamente sentidas,         social e a outra o positivismo. Ambas as ten-
as quais tambm favoreciam o compromisso              dncias, contudo, enfraqueceram-se  medida
poltico. Na teologia da libertao, o Livro do       que o sculo avanava e os ltimos vinte anos
xodo ocupa um lugar central e paradigmtico          tm testemunhado uma revitalizao do assun-
na promoo do esforo cristo para quebrar os        to, sobretudo nos Estados Unidos, mas tambm,
grilhes da opresso. Na histria do xodo, f        em menor grau, nas democracias europias.
e poltica esto juntas; o fato poltico e o evento       O determinismo social, cujas razes mergu-
teolgico caminham unidos. Encarado do ponto          lham fundo no pensamento oitocentista, abalou
de vista do prprio processo de libertao, o         a teoria poltica de um modo bvio. Se a forma
Livro do xodo identifica dois momentos: li-          das instituies sociais e polticas era governa-
bertao da opresso do fara e libertao para       da por fatores  margem do controle humano,
a Terra Prometida.  esse paradigma que orienta       ento a especulao intelectual sobre a melhor
grande parte da teologia da libertao. J em         forma de sociedade ou governo era manifes-
1968 a Conferncia dos Bispos da Amrica              tamente uma atividade desprovida de propsi-
Latina, em seu famoso documento de Medelln           to. Esboaram-se vrios modelos de determi-
(o qual inaugurou oficialmente a temtica da          nismo social, cada qual apontando um fator
libertao), fez referncia  fora revolucion-      diferente como base das leis que governaram a
ria da reflexo sobre libertao no xodo; e          evoluo da sociedade humana: a mudana tec-
Gutierrez observa que ele "continua vital e           nolgica, a propriedade dos meios de produo,
                                                                                 teoria poltica   765


as foras no interior da psique humana, a evo-       dida: questes sobre a forma e a funo do
luo gentica e outras. Em cada caso, a impli-      estado so agora tratadas normalmente em
cao foi que o curso de desenvolvimento da          conjunto com questes sobre economia, di-
sociedade estava predeterminado, de modo que         vises de classes e tnicas etc. O pressuposto 
o pensamento racional s podia registrar (e, em      que no faz mais sentido especular sobre a
alguns casos, prever) esse curso, embora fosse       forma ideal de governo em isolamento do meio
impotente para intervir caso fosse necessria        ambiente social, psicolgico e cultural em que
uma mudana de sua direo.                          esse governo tem que funcionar.
    Tais teorias, porm, raramente so postu-            O POSITIVISMO foi a segunda fora que amea-
ladas hoje em dia nas vigorosas formas que           ou desviar a teoria poltica do seu rumo ao lhe
outrora prevaleceram. Isso pode ser observado        destruir as credenciais intelectuais. Por positi-
no caso da mais influente de todas as filosofias     vismo entendo a noo de que as nicas formas
deterministas, o MARXISMO. O sculo XX assis-        autnticas de conhecimento so o conhecimen-
tiu a um constante recuo dos marxistas que os        to emprico e o conhecimento formal; o co-
distanciou cada vez mais da tese segundo a qual      nhecimento consubstanciado nas cincias em-
a estrutura econmica de uma sociedade exerce        pricas, derivado essencialmente por induo a
uma influncia predominante sobre todos os           partir de dados observacionais, e o conhecimen-
outros componentes, especialmente o seu sis-         to englobado na lgica e na matemtica, deri-
tema poltico e a sua ideologia. O mais influente    vado por raciocnio dedutivo. Isso teve a impli-
pensador, nesse captulo, foi o marxista italiano    cao imediata de que todos os juzos prescriti-
Antonio Gramsci, que reconheceu que a cultura        vos e de valor, incluindo os juzos sobre dife-
e a poltica de qualquer sociedade dada desen-       rentes formas de sociedade e de governo ofere-
volviam-se de modos que no estavam dire-            cidos pela teoria poltica, eram de carter sub-
tamente governados por fatores econmicos.           jetivo; na verso mais extrema, eram conside-
Idias semelhantes foram expostas pelos mem-         rados simplesmente expresses de sentimento
bros da ESCOLA DE FRANKFURT na Alemanha              pessoal da pessoa que os formulava. O positi-
e pelos estruturalistas franceses liderados por      vismo exerceu poderosa influncia sobre a filo-
Althusser (ver ESTRUTURALISMO). Se as insti-         sofia e a cincia social em meados do sculo e
tuies polticas e outras desfrutaram de tal        levou a dois desenvolvimentos paralelos: os
medida de autonomia relativa, ento se poderia       filsofos desviaram sua ateno dos problemas
indagar de novo quais instituies eram "pro-        de tica e teoria poltica para se concentrar na
gressistas", em termos de necessidades e inte-       lgica, na epistemologia, na filosofia da cincia
resses humanos, em qualquer momento histri-         e (mais tarde) na filosofia da linguagem, en-
co. (Fazia sentido, por exemplo, organizar uma       quanto que os cientistas sociais procuraram de-
defesa da democracia liberal contra o fascis-        senvolver uma cincia puramente emprica do
mo.) Assim, os marxistas viram-se envolvidos         comportamento social, livre de todos os ele-
com questes tradicionais de teoria poltica,        mentos de avaliao. Este ltimo desenvolvi-
embora cumpra acrescentar que o prprio mar-         mento foi especialmente acentuado na cincia
xismo carece de recursos para oferecer quais-        poltica, em que os anos do ps-guerra presen-
quer respostas esclarecedoras a tais questes.       ciaram a chamada "revoluo do comporta-
    Outras verses de determinismo -- como a         mento", a aplicao de mtodos quantitativos a
teoria freudiana, que em um dado ponto amea-         fenmenos polticos tais como o comportamen-
ou reduzir todo o comportamento poltico ao         to eleitoral com a finalidade de criar uma cin-
jogo de instintos no-racionais -- declinaram        cia da poltica de acordo com uma orientao
de maneira anloga. Entretanto a tentativa de        positivista. O efeito combinado desses dois de-
descobrir leis gerais de desenvolvimento social      senvolvimentos foi colocar em dvida a viabi-
e, em particular, de explicar fenmenos polti-      lidade permanente da teoria poltica como em-
cos em termos de fatores mais rudimentares           preendimento intelectual, preocupao resumi-
imprimiu sua marca no pensamento poltico,           da no ttulo de um ensaio de Isaiah Berlin,
muito especialmente em uma forte tendncia a         "Does political theory still exist?" [A teoria
ligar questes polticas, stricto sensu, a ques-     poltica ainda existe?] (1964).
tes sociais mais amplas. A linha de demarca-            Por motivos que eram em parte intelectuais
o entre teoria social e teoria poltica foi ero-   e em parte polticos, o domnio do positivismo
766   teoria poltica


se enfraqueceu constantemente durante a dca-       escolhidos por indivduos racionais colocados
da de 60, abrindo o caminho para uma impor-         em tal posio. A questo que ambos devem
tante recuperao da teoria poltica no final da    enfrentar  se quaisquer resultados determina-
dcada. No mundo anglo-saxo, o mais impor-         dos podem ser derivados de tais experimentos
tante evento foi a publicao de A Theory of        intelectuais. Neste ponto,  significativo que
Justice (1971), de John Rawls, saudado por          Habermas e Rawls tenham recentemente recua-
alguns comentaristas como a obra de pensa-          do de suas audaciosas asseres originais. Ago-
mento poltico mais significativa desde John        ra ambos admitem que seus eleitores ideais
Stuart Mill. Mais ou menos  mesma poca,           devem ser concebidos como portadores de cer-
Jrgen Habermas (1968) desencadeou um ata-          tos traos culturalmente especficos para que
que frontal ao modelo positivista e preparou o      surjam concluses polticas substantivas da "si-
terreno (sobretudo na Alemanha) para o renas-       tuao de discurso ideal" ou da "posio origi-
cimento da teoria crtica.                          nal".
     semelhana do determinismo social, con-           Isso equivale a uma reduo da diferena
tudo, o positivismo deixou uma herana para a       entre fundacionalistas e convencionalistas. Es-
teoria poltica, na forma de uma persistente        tes ltimos afirmam que a teoria poltica s
incerteza acerca dos critrios de validade: em      pode proceder descrevendo e explicitando as
ltima instncia, como poderiam ser testadas as     crenas e ideais de determinada cultura; no
pretenses de uma teoria poltica? Os tericos      existe um ponto de observao externo a partir
subseqentes podem ser divididos, grosso mo-        do qual essas crenas e ideais possam ser ava-
do, em fundacionalistas, que mantm ser pos-        liados. Dentre os tericos recentes dessa cate-
svel encontrar bases objetivas e universais para   goria incluem-se Alasdair MacIntyre (1981,
aceitar ou rejeitar uma teoria, e convencionalis-   1988) e Michael Walzer (1983). MacIntyre ten-
tas, que argumentam que uma teoria s pode ser      tou diagnosticar a condio das modernas so-
testada em relao s crenas e atitudes predo-     ciedades liberais -- onde a discusso em torno
minantes em determinada cultura e no pode          de princpios de justia distributiva, por exem-
pretender acudir a bases mais profundas do que      plo, parece interminvel -- contrastando-as
essas. Entre os fundacionalistas h, por sua vez,   com sociedades mais antigas, dotadas de prti-
uma ampla diviso entre neo-aristotlicos, que      cas e tradies bem estabelecidas, onde a justia
procuram avanar das observaes gerais sobre       e outros valores possuam critrios estveis de
a natureza humana para asseres sobre o bem        aplicao. Walzer sustenta que as sociedades
humano e da para especificaes da estrutura       modernas encarnam, de fato, uma concepo
institucional mais adequada  promoo desse        relativamente coesa de justia mas radicalmen-
bem, e os neokantianos, que comeam com             te pluralista. Elas incluem certo nmero de
afirmaes mnimas a respeito da racionalidade      "esferas" distintas, no interior das quais dife-
e prosseguem sustentando que apenas certas          rentes espcies de bens so distribudos de acor-
instituies e prticas poderiam fazer jus ao       do com diferentes critrios (bem-estar na base
apoio de toda e qualquer pessoa racional em         de necessidade, emprego na base de igualdade
uma situao de livre escolha.                      de oportunidade etc.). O significado dos bens e
    Habermas e Rawls so neokantianos. Procu-       seus critrios distributivos so socialmente
ram derivar princpios polticos vlidos recor-     constitudos, e as crticas s prticas distributi-
rendo a um cenrio artificialmente construdo       vas de uma sociedade devem ocorrer do interior
no qual s a razo funcionaria. Habermas afir-      desse conjunto de entendimentos.
ma que normas legtimas so as que surgiriam            Para os que aspiram  grandiosa tradio da
consensualmente de uma "situao de discurso        teoria poltica, essas tentativas de erguer uma
ideal", do qual a coero e a dominao es-         estrutura de argumento poltico sobre o que 
tariam ausentes e em que os participantes teriam    reconhecido como uma base convencional po-
que se persuadir mutuamente pela fora exclu-       dem ser rejeitadas como puro e simples paro-
siva dos argumentos. Rawls recorre a uma "po-       quialismo -- sucumbindo s iluses da poca,
sio original" em que se imagina que as pes-       como Marx teria dito. No obstante, dado que
soas ignoram por completo suas caractersticas,     o sculo XX no produziu uma obra de pensa-
gostos, posies pessoais etc. na sociedade;        mento poltico que se situe de forma inequvoca
princpios vlidos de justia so os que seriam     nessa tradio, e dado o modo como os as-
                                                                                 teoria poltica   767


pirantes a fundacionalistas foram forados a        do, com base em que o conhecimento necess-
recuar de suas mais afoitas pretenses, pode-       rio para tomar decises econmicas era sempre
mos ter de concluir que alguma forma de con-        disperso e local; e Michael Oakeshott (1962),
vencionalismo  a nica opo vivel para a         que sustentou ser o conhecimento poltico um
teoria poltica no final do sculo XX.              tipo de conhecimento prtico consubstanciado
    Voltando nossa ateno das questes de m-      na tradio e incapaz de ser vazado em forma
todo para as de substncia, a principal caracte-    cientfica.
rstica do pensamento poltico do sculo XX             Finalmente, cumpre mencionar aqui as ten-
tem sido o predomnio do LIBERALISMO em seus        tativas no sentido de modelar a poltica em
vrios aspectos. Das principais ideologias do       termos econmicos como o resultado no-pre-
sculo XIX, tanto o conservadorismo quanto o        meditado de atores empenhados em concretizar
socialismo ou o anarquismo no geraram qual-        seus prprios interesses particulares, financei-
quer novo enunciado terico importante em           ros ou outros. Esse  o domnio da teoria da
nosso perodo, e a nica ideologia indiscutivel-    ESCOLHA PBLICA, cujo principal expoente foi o
mente nova -- o fascismo -- era inerentemente       economista poltico americano James Bucha-
hostil  reflexo terica. (Mais adiante, vou       nan. O resultado da abordagem da escolha p-
referir-me sucintamente ao feminismo.) Assim,       blica  que o governo no pode ser visto como
as principais linhas de debate foram desenvol-      o representante desinteressado da vontade co-
vidas no seio do liberalismo, concebido lato        letiva; por conseguinte,  intil fixar-lhe tarefas
sensu: nele, podemos distinguir, em termos ge-      como a de promover a justia social. Todas as
rais, elementos de direita, centro e esquerda.      correntes do liberalismo conservador conver-
    O liberalismo conservador, de centro-direi-     gem nas trs proposies seguintes: (1) que o
ta, recorre fundamentalmente a argumentos c-       papel econmico do governo seja estritamente
ticos que recomendam a limitao do poder dos       limitado, com a maioria das tarefas deixadas 
governos com base na incompetncia destes.          economia de mercado; (2) que no se pode
Nas dcadas de 30 e 40 isso assumiu freqen-        esperar dos procedimentos democrticos a rea-
temente a forma de um ceticismo em relao s       lizao de uma vontade popular autntica; (3) e
instituies democrticas: citavam-se as provas     que, a essa luz, os poderes do governo devem
oriundas da psicologia das massas a fim de          ser limitados por uma constituio formal que
mostrar que as pessoas comuns eram incapazes        o incapacite de assumir tarefas para cuja execu-
de chegar a decises polticas racionais, razo     o ele  inerentemente inadequado.
pela qual o mbito do poder decisrio democr-          O liberalismo centrista v a sua tarefa como
tico deveria ser severamente limitado (ver SO-      a de identificar o conjunto de instituies so-
CIEDADE DE MASSA). A obra mais influente nessa      ciais e polticas que melhor promovem a LIBER-
categoria foi a de Joseph Schumpeter (1942), o      DADE pessoal; prev um papel mais positivo
qual afirmou que o papel do povo deve confi-        para o governo do que o liberalismo de direita,
nar-se  escolha entre elites concorrentes, sendo   especialmente na forma de regulamentao do
ento a equipe vitoriosa responsvel por todas      mercado e de disposies atinentes  poltica de
as decises polticas no perodo seguinte.          bem-estar social. Uma vez mais, diferentes ca-
    Uma abordagem alternativa sustentou que         minhos podem conduzir a concluses bastante
os governos de qualquer matiz de opinio care-      semelhantes. Comea-se com uma definio de
cem de capacidade cognitiva para reformar a         liberdade que amplia a definio clssica: a
sociedade de maneiras radicalmente novas. Isso      liberdade no  meramente a ausncia de res-
adquiriu a forma de um ataque ao racionalismo,      tries externas  ao, mas a capacidade posi-
entendido como a doutrina segundo a qual os         tiva de realizar objetivos valiosos. Neste cap-
processos sociais podiam ser entendidos cienti-     tulo, existe uma linhagem que vai desde a idia
ficamente e transformados atravs de um ato de      da liberdade positiva usada por liberais do co-
vontade poltica. Destacaram-se nesse movi-         meo do sculo XX, como L.T. Hobhouse
mento, no perodo do ps-guerra, Karl Popper        (1911), at os argumentos recentes sobre as
(1945, 1957), que atacou a idia de leis his-       condies para a autonomia pessoal, como os
tricas e de "engenharia social utpica"; F.A.      expostos por Joseph Raz (1986) e Stanley Benn
Hayek (1944,1960), que argumentou contra o          (1988). O que todos esses tericos afirmam 
planejamento central e a favor do livre merca-      que, embora seja essencial para cada indivduo
768   teoria poltica


possuir uma ampla esfera de arbtrio na vida         genticas e outras dotaes naturais so
pessoal e econmica, o estado  responsvel          caractersticas pelas quais no podemos reivin-
pelas garantias que condicionam previamente a        dicar nenhum crdito nem merecemos, portan-
escolha efetiva. Isso significa, entre outras coi-   to, receber qualquer recompensa ou prmio. Os
sas, fornecer educao, oportunidades culturais      liberais igualitrios so levados, pois, a procu-
e segurana econmica.                               rar instituies que possam servir para anular
    Uma segunda linha de argumentao revive         os efeitos das vantagens naturais, embora
a idia de um contrato social. Indaga o que os       permitindo ainda que os indivduos suportem
indivduos querem que o seu governo faa,            as conseqncias de suas escolhas. De modo
antes de saberem precisamente de que modo            geral, isso aponta para algum esquema de dis-
seriam afetados por suas operaes. A aborda-        tribuio igualitria dos recursos da sociedade,
gem do contrato tem sido usada para defender         com compensao para os que foram menos
o liberalismo de direita e de esquerda, mas o seu    favorecidos na loteria gentica.
principal expoente  John Rawls (1971), cujas            Um desenvolvimento diferente (embora no
concluses so centristas. Rawls sustenta que,       incompatvel) da posio liberal de esquerda
a par dos conhecidos princpios liberais de igual    acentua a liberdade poltica e a exigncia de que
liberdade e igualdade de oportunidade para to-       ela seja igualmente acessvel a todos. Isso apon-
dos, pessoas colocadas em um ambiente contra-        ta para uma forma de democracia participativa
tual adequadamente definido (a "posio origi-       na qual as instituies existentes so reestrutu-
nal") escolheriam o princpio da diferena, o        radas de tal modo que cada membro da socie-
qual permite desigualdades sociais e econmi-        dade tem a oportunidade de contribuir para a
cas somente na medida em que atuem em bene-          tomada de decises pblicas, por exemplo, atra-
fcio dos membros menos favorecidos da socie-        vs de um sistema de assemblias primrias em
dade. Isso, portanto, permite a tributao pro-      cada localidade. Subjacente a essa concepo
gressiva, as medidas de bem-estar social, a ge-      est a afirmao anteriormente feita por Jean-
rncia econmica e medidas similares: a tarefa       Jacques Rousseau e John Stuart Mill de que a
do estado  cuidar de que os seus membros            participao poltica  uma condio prvia
menos afortunados tenham a melhor vida que           essencial da autodeterminao individual. Te-
seja possvel proporcionar-lhes. Na prtica, o       ricos recentes so notveis, principalmente, por
liberalismo centrista converge com a DEMOCRA-        seu engenho em apontar mtodos em que essa
CIA SOCIAL tal como esta passou a ser entendida      mesma afirmao pode ser aplicada s circuns-
no perodo do ps-guerra.                            tncias de uma sociedade industrial avanada.
    O liberalismo de esquerda  uma tradio             A hegemonia do liberalismo em suas vrias
mais recente e menos desenvolvida. Sua tese          facetas no deveria surpreender-nos, dado que
principal  de que a liberdade deve ser dis-         o pensamento poltico do sculo XX adquiriu
tribuda igualmente para todos e a nfase que        forma em sociedades que so mveis e pluralis-
isso atribui ao componente igualitrio do libe-      tas, e nas quais a liberdade pessoal adquiriu
ralismo leva-o, na prtica, a concluses muito       status supremo como valor.  tambm nesse
radicais. Por exemplo, os liberais de esquerda       contexto que devemos considerar a ascenso do
sustentaro, muito provavelmente, que a pro-         pensamento feminista no perodo iniciado em
priedade capitalista dos meios de produo           1970. Embora o FEMINISMO esteja convencio-
constitui uma barreira efetiva  liberdade de        nalmente dividido em verses liberal, radical e
todos os que no so proprietrios, e isso exige     socialista, sua noo central  que a excluso
um remdio mais forte do que a clssica pres-        das mulheres das liberdades, direitos e oportu-
crio liberal de proteo econmica aos em-         nidades de que gozam os homens  a ltima
pregados; por exemplo, isso pode levar  defesa      grande anomalia da sociedade liberal; as ver-
de uma forma de SOCIALISMO DE MERCADO, no            ses concorrentes devem ser interpretadas, de
qual todas as empresas so de propriedade dos        preferncia, como outras tantas ofertas de ex-
que nelas trabalham e por estes administradas.       plicaes sobre as condies em que se poderia
De modo ainda mais radical, pode-se questionar       converter em realidade e reivindicao das mu-
o pressuposto liberal de que cada pessoa tem o       lheres de igual tratamento entre os sexos. O
direito de saborear os frutos de seus talentos. A    feminismo gerou at agora certo nmero de
tese, neste caso,  de que as nossas dotaes        obras pioneiras (ver Millett, 1970, Mitchell,
                                                                                     terceiro mundo     769


1974; Pateman, 1988), algumas de natureza                capitalismo. Mas os novos estados impuseram-
acentuadamente especulativa. Estamos ingres-             se uma tarefa diferente: a formao de um
sando agora em um perodo de consolidao,               agrupamento no-alinhado -- no um bloco --
mas  prematuro afirmar se ele  propcio               de pases afro-asiticos, ao qual se juntaram os
criao de importantes obras de teoria poltica          movimentos de libertao nas restantes col-
que conquistem um lugar na tradio clssica.            nias. A Conferncia de Bandung de 1955 as-
Leitura sugerida: Barry, B. 1965: Political Argument
                                                         sinalou a chegada desse novo agrupamento ao
 Barry, Norman 1981: An Introduction to Modern Po-
                                                         palco mundial. Como ex-colnias, a sua primei-
litical Theory  Dunn, J. 1979: Western Political Theo-   ra preocupao foi com a resistncia a qualquer
ry in the Face of the Future  Gamble, A. 1981: An        tentativa de preservar ou reimpor o controle
Introduction to Modern Social and Political Thought      poltico ocidental. Entretanto, a independncia
 Goodwin, B. 1987: Using Political Ideas  Kym-
                                                         desses pases era to recente e frgil que mesmo
licka, W. 1990: Contemporary Political Philosophy
 Muller, D. e Siedentop, L. orgs. 1983: The Nature of
                                                         os novos (e numerosos) regimes que se intitu-
Political Theory  Parekh, B. 1982: Contemporary Po-      lavam "socialistas" temiam igualmente cair nas
litical Thinkers  Plant, R. 1991: Modern Political       garras da superpotncia comunista.
Thought  Runciman, W.C. 1969: Social Science and             O internacionalismo dos novos estados ma-
Political Theory  Skinner, Q., org. 1985: The Return     nifestou-se na rejeio no s do controle pol-
of Grand Theory in the Human Sciences.
                                                         tico e da hegemonia cultural da potncia colo-
                                      DAVID MILLER       nial que os tinha governado, mas tambm do
                                                         colonialismo tout court. Portanto, os novos es-
terceiro mundo A expresso tiers monde foi               tados apoiaram as lutas nas colnias remanes-
usada pela primeira vez em agosto de 1952 pelo           centes e contra os regimes racistas, mormente
demgrafo francs Alfred Sauvy em um artigo              na frica do Sul. Pan-africanistas como Nkru-
do jornal parisiense L'Observateur intitulado            mah tambm alimentavam a esperana de su-
"Trois mondes, une plante". Em um mundo do              perar a balcanizao do continente produzida
ps-guerra dividido em dois "campos", cada               por rivalidades coloniais durante o perodo im-
qual liderado por uma das duas superpotncias,
                                                         perialista (ver PAN-AFRICANISMO).
as colnias que obtiveram sua independncia
depois de 1945 pareciam assemelhar-se ao tiers               Na dcada de 70, embora o mundo capitalis-
tat da Frana pr-revolucionria, um estado             ta sofresse importantes defeces revolucion-
que no dispunha dos privilgios dos outros              rias, notadamente o Vietn, a maioria dos re-
dois, a nobreza e o clero.                               gimes no-alinhados mais radicais tinha desa-
    Na Frana, o termo agradou tanto a socialis-         parecido por via da "desestabilizao", vtimas
tas quanto a gaullistas, que estavam procuran-           de golpes internos ou tornados impotentes em
do, embora por caminhos muito diferentes, uma            funo da debilidade econmica. A preocupa-
"terceira via" entre Washington e Moscou. A              o dominante da (originalmente) denominada,
doutrina do "neutralismo positivo" -- um neu-            de forma significativa, Organizao da Uni-
tralismo que no aspirava simplesmente a se              dade Africana passou a ser, pois, a preservao
manter fora das guerras, mas estava comprome-            das fronteiras estabelecidas durante o perodo
tido com a libertao nacional e o "humanismo            colonial, uma vez que os novos estados conti-
socialista" -- tambm se manifestou em outros            nham comunidades tnicas culturalmente hete-
pases da Europa Ocidental. Em 1949, quando              rogneas com constituies pr-coloniais poli-
a Iugoslvia se retirou do bloco sovitico, o            ticamente variadas, enquanto que outros grupos
princpio de no-alinhamento propagou-se ao              tnicos estavam divididos e separados por fron-
mundo comunista.                                         teiras estatais. O perigo de disputas de fronteiras
    A noo de um Terceiro Mundo adquiriu,               e de movimentos de secesso interna, bem co-
porm, significao global quando foi adotada            mo da manipulao dessas divises por potn-
na dcada de 50 por alguns pases ex-coloniais           cias de fora, era muito real, portanto, como
importantes -- mormente a ndia de Nehru, o              mostrou a guerra de Biafra. A "construo da
Egito de Nasser e a Indonsia de Sukarno. Na             nao" -- a criao de uma nova espcie de
Europa, a esquerda os via como "naes prole-            identidade cvica para neutralizar o que era
trias" que assumiriam o papel da classe prole-          designado por "tribalismo" -- tornou-se, por-
tria no mundo avanado como os coveiros do              tanto, um projeto importante dos governantes
770   terrorismo


dos novos estados (ver tambm NACIONAL POPU-       lentamente, estavam "desenvolvendo-se" e
LAR, REGIME).                                      acabariam por realizar novos progressos ou, se
    A organizao "no-alinhada" desenvolveu-      isso no ocorresse, teriam que culpar unica-
se atravs de uma sucesso de conferncias, no     mente suas prprias deficincias internas --
Cairo, Lusaka, Argel, Sri Lanka, Havana etc.,      desde instituies sociais "tradicionais" (ver
assim como em outros fruns das Naes Uni-        TRADIO E TRADICIONALISMO) e heranas cultu-
das, como o movimento "tricontinental" patro-      rais at regimes ditatoriais. Alguns economistas
cinado por Cuba. Mas, de modo crescente, os        e tericos do SISTEMA-MUNDO tm afirmado que
problemas que eles tinham de enfrentar eram        de fato se pode estabelecer uma ordem entre os
mais econmicos do que polticos: no apenas       pases, dos mais ricos aos pauprrimos, mas que
o poderio dos estados ocidentais, ou das ca-       existe um s mundo com pases ricos e pobres,
da vez mais diversas formas de comunismo,          no um distinto e separado "mundo" pobre. E
mas seus interesses econmicos comuns como         as organizaes de caridade ocidentais refor-
pases pobres, agrrios, em um mundo domina-       am freqentemente, mesmo que no tenham
do pelas empresas multinacionais e pelas ins-      essa inteno, a popular noo de que as ondas
tituies financeiras. (Ver DESENVOLVIMENTO E      de fome que devastam pases tropicais so con-
SUBDESENVOLVIMENTO.)                               seqncia de desastres naturais e no provoca-
    Alguns xitos foram conseguidos: 77 pases     das pelo prprio homem.
subdesenvolvidos ganharam o apoio da ONU               Crticos no interior do prprio Terceiro
para a primeira Conferncia Mundial sobre Co-      Mundo preferem o qualificativo "no-alinha-
mrcio e Desenvolvimento em 1962. De 1974          do", de vez que a palavra "Terceiro" parece, aos
em diante, tambm a ao conjunta do grupo de      olhos deles, uma categoria residual, subenten-
produtores de petrleo, a OPEP, para controlar     dendo alguma espcie de inferioridade em rela-
a produo e os preos mundiais teve poderosos     o ao "Primeiro" e ao "Segundo" Mundos. O
efeitos, mesmo no Ocidente rico.                   termo, contudo, entrou em uso geral.
    Em alguns pases, alm disso -- incluindo      Leitura sugerida: Fanon, Frantz 1961 (1983): The
os "quatro pequenos tigres" da sia Oriental       Wretched of the Earth  Singham, A.W. e Hune, S.
(Coria do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapu-       1986: Non-Alignment in an Age of Alignments  Wors-
ra) --, tem havido macios investimentos es-       ley, Peter 1964: The Third World  1984: The Three
trangeiros e a conseqente industrializao. Al-   Worlds.
guns concluram que o Terceiro Mundo seguir                                        PETER WORSLEY
cada vez mais esse caminho. Em seu todo,
porm, os pases subdesenvolvidos tm sido         terrorismo Ver POLTICA E TERRORISMO.
incapazes de escapar  dependncia em relao      TI Ver INFORMAO, TEORIA E TECNOLOGIA DA.
ao Ocidente, e at mesmo pases em "processo
de industrializao recente", como o Brasil e o    tipo ideal A classificao de fenmenos em
Mxico, esto sobrecarregados com onerosas e       tipos  um aspecto comum do trabalho cientfi-
macias dvidas externas. A frica Negra so-       co, assim como da vida corrente, e muitos con-
freu um real declnio na produo. A designao    ceitos cientficos envolvem um elemento de
de Frantz Fanon do Terceiro Mundo como "os         abstrao da realidade concreta, ou a idealiza-
condenados da Terra" ainda parece, portanto,       o em um sentido no-moral: por exemplo, os
bastante vlida.                                   conceitos de movimento sem atrito ou de mer-
    O termo no tem sido isento de crticas: na    cado perfeitamente competitivo. Max Weber
poca da Guerra Fria, a Unio Sovitica denun-     adotou (do historiador poltico Georg Jellinek)
ciou-o como tentativa de evaso em face da         o termo Idealtypus (tipo ideal) para distinguir
inevitvel escolha entre capitalismo e comunis-    os conceitos analticos da histria e de outras
mo. A noo de que a culpa pela situao sub-      cincias sociais dos conceitos meramente clas-
desenvolvida e "deserdada" desses pases podia     sificatrios. O termo "troca", por exemplo, po-
ser atribuda ao Ocidente -- de que o desenvol-    de ser usado simplesmente para se referir a um
vimento deles havia sido contido -- no con-       conjunto de fenmenos semelhantes, com o que
venceu muita gente, que preferiu v-los como       Wittgenstein chamaria mais tarde de "seme-
naes "jovens" (por vezes inerentemente ima-      lhanas familiares" entre eles, ou como um
turas, irracionais ou mesmo inferiores). Embora    conceito analtico relacionado com julgamen-
                                                                                      totalitarismo      771


tos acerca da racionalidade econmica, utili-        o mais ambiciosa de DEFINIO real -- que
dade marginal etc. Neste ltimo caso, afirma         Weber, contudo, teria provavelmente acusado
Weber, o conceito  ideal tpico no sentido de       de essencialismo. O atual estado de esprito na
que "se afasta da realidade emprica, a qual s      cincia social parece um tanto ctico em rela-
pode ser comparada ou relacionada com ele"           o, ao mesmo tempo, ao ideal positivista de
(Weber, 1904, p.102, cf. p.93-4). Por conse-         preciso em mensurao e  contribuio radi-
guinte, os tipos ideais no podem ser direta-        calmente caracterstica da forma "fenomenol-
mente falsificados se a realidade emprica pa-       gica" e outras formas de teoria hermenutica, e
rece no se ajustar a eles sequer aproximada-        assim o conceito de Weber do tipo ideal perma-
mente.                                               nece atraente.
    A descrio de Weber do tipo ideal  um          Leitura sugerida: Burger, Thomas 1976: Max Weber's
aspecto de seu modelo mais amplo das relaes        Theory of Concept Formation: History, Laws, and Ideal
entre as cincias sociais e os VALORES ou, mais      Types  Outhwaite, William 1983: Concept Formation
precisamente, a referncia de valor: "No existe     in Social Science  Papineau, David 1976: "Ideal types
uma anlise cientfica absolutamente `objetiva'      and empirical theories". British Journal for the Philo-
da cultura -- ou (...) de `fenmenos sociais'        sophy of Science 27.2  Schutz, Alfred 1932 (1972):
                                                     The Phenomenology of the Social World  Weber, Max
independente de pontos de vista especiais e
                                                     1904 (1949): "`Objectivity' in social science and social
`unilaterais' de acordo com os quais -- expres-      policy". In The Methodology of the Social Sciences.
sa ou tacitamente, consciente ou inconsciente-                                       WILLIAM OUTHWAITE
mente -- eles so selecionados, analisados e
organizados para fins expositivos" (1904, p.72).     totalitarismo Como termo taxonmico den-
    As crticas  descrio de Weber integram-       tro das cincias sociais, totalitarismo tem des-
se, de modo geral, em duas categorias: a posi-       frutado de considervel voga como modo de
tivista e a hermenutica. Os positivistas tm        caracterizar um aspecto bsico dos modernos
sido propensos a assimilar os tipos ideais          regimes de partido nico sob o domnio de
classe geral dos conceitos tericos, destacando      ditadores pessoais ou oligarquias autocrticas.
a possibilidade de medir at que ponto os fen-      O aspecto que  posto em relevo consiste em
menos empricos divergem do tipo puro e de           que, em acentuado contraste com os estados
proceder ao mapeamento de um contnuo entre          ancien rgime, tais regimes buscam deliberada-
tipos opostos. A cincia, afirma-se, avana de       mente fabricar o CONSENSO em favor de uma
uma fase classificatria e tipolgica um tanto       pequena elite governante pela criao de orga-
primitiva, pela qual Weber se interessava, para      nizaes de arregimentao de massas, pela
um conjunto mais preciso de conceitos opera-         monopolizao de todos os meios de produo
cionalizados e concatenados em leis. A crtica       cultural (especialmente os veculos de comuni-
hermenutica inaugurada por Alfred Schutz            cao de massa) e pelo recurso a vrios meca-
(1932) sublinha que a construo de tipos exe-       nismos de CONTROLE SOCIAL. Estes incluem a
cutada pelo cientista social  parasitria de pro-   PROPAGANDA, uma poltica ritualista a fim de
cessos anteriores de tipificao realizados no       impor um requintado culto ao lder e  nao
mundo da vida. Weber apressou-se demais em           (ver Kertzer, 1988), e vrias tcnicas de COER-
substituir as tipificaes do significado de fen-   O que vo desde as restries legais s liber-
menos sociais pelos seus prprios tipos ideais,      dades bsicas at o terror sistemtico.
sem se interessar suficientemente pelo ajus-             O objetivo declarado de tal estado  canali-
tamento entre eles -- o que Schutz chama de          zar todas as energias sociais, polticas, econ-
"adequao".                                         micas e criativas para a realizao da utopia
    Ambas as crticas compartilham o sentimen-       identificada por dogmas oficiais, embora os
to de que os tipos ideais, tal como Weber os         meios empregados para atingir essa meta criem
apresenta, so excessivamente arbitrrios; as        inevitavelmente uma distopia. A Rssia stali-
decises para os construir ou abandonar so          nista, a Alemanha nazista, e, em menor grau, a
deixadas ao critrio, a que Weber chama o            Itlia fascista tm sido freqentemente tratadas
"tato", de cada terico. Essa suspeita de con-       como paradigmticas do totalitarismo nessa
vencionalismo implcito na filosofia da cincia      acepo mais estrita (por exemplo, Friedrich e
de Max Weber (ver NEOKANTISMO) levou racio-          Brzezinski, 1956; Arendt, 1958), e estudos de
nalistas e realistas a sustentarem uma concep-       novos casos em suas variantes, e nas barbari-
772   trabalhadora, classe


dades burocratizadas e atrocidades humanas          de maneira considervel. Em segundo lugar,
que ele tende a gerar, foram fornecidos pelo        no se deve esquecer que o sonho totalitrio de
Camboja de Pol Pot, a Romnia de Ceausescu          centralizao abrangente do poder e controle
e o Iraque de Saddam Hussein.                       sobre todos os aspectos da sociedade  uma
    Como um "tipo ideal", at mesmo esse uso        quimera, por mais impressionante que seja a sua
especializado do termo "totalitarismo" tem si-      fachada. Qualquer regime manifestamente to-
do, naturalmente, motivo de controvrsia, e         talitrio prova, a um exame mais minucioso, ser
alguns especialistas tm questionado a sua uti-     policrtico, corrupto e ineficiente. Em especial,
lidade (ver Menze, 1981), sobretudo se tiver-       seus esforos para supostamente mobilizar e
mos em vista o modo como a Guerra Fria o            insuflar energia nas massas redundam na exten-
reduziu a pouco mais que uma forma de vaiar         sa despolitizao e desmoralizao destas, ao
as sociedades consideradas "fechadas" em vez        passo que muitos dos que se instalaram no
de "abertas" (ver Popper, 1945), e s quais se      "sanctum sanctorum" do verdadeiro poder se-
negava, por conseguinte, participao no "mun-      ro oportunistas e carreiristas, em vez de autn-
do livre". Uma vez que o termo seja despojado       ticos idelogos.  por essa razo que o pluralis-
de estritas conotaes anticomunistas, o totali-    mo, o individualismo e a criatividade florescem
tarismo pode ser atribudo a qualquer sistema       rapidamente sempre que a engrenagem estatal
sociopoltico se sua poltica e suas instituies   de doutrinao e represso  finalmente des-
tiverem tido o efeito combinado de esmagar de       mantelada. Em suma, o abismo entre as pre-
modo abrangente o que a tradio do Iluminis-       tenses propagadas aos quatro ventos por um
mo considera como liberdades humanas fun-           regime totalitrio e as realidades a que ele pre-
damentais. De fato, seria possvel alegar a exis-   side  pouco menos que total.
tncia de um propsito totalitrio em muitos            Gregor (1969) demonstrou, para o caso do
regimes que, ao longo dos tempos, oprimiram         regime fascista (que se vangloriava de ser o
seus sditos (como a China Imperial) ou subju-      primeiro stato totalitario), que uma consider-
garam implacavelmente culturas indgenas (co-       vel soma de sofisticao ideolgica pode ser
mo a Espanha imperialista), assim como no           reunida no esteio doutrinrio de um pretenso
profundo conluio das modernas democracias           estado totalitrio por seus apologistas oficiais e
liberais (capitalistas) com a colonizao e a       autonomeados tericos. Entretanto a marca dis-
extensa apregoao de normas patriarcais ou         tintiva de tal estado em seu aspecto pblico ou
capitalistas que resultam na profunda ALIENA-       exotrico  a negao axiomtica do dilogo
O de seus cidados (ver, por exemplo, Mar-        autntico e, por conseguinte, de todo pensa-
cuse, 1964).                                        mento social autntico. Talvez as mais pene-
    Apesar da tendncia a se tornar sumamente       trantes exposies dos eufemismos e pensa-
impregnado de valor, o termo "totalitrio" ain-     mentos deliberadamente perversos que caracte-
da retm considervel utilidade heurstica para     rizam os regimes totalitrios, atravs dos quais
a investigao dos aspectos estruturais-funcio-     estes procuram legitimar-se ideologicamente,
nais das muitas ditaduras pessoais, militares e     assim como dos pensamentos e emoes retor-
partidrias modernas disseminadas por todo o        cidos que inspiram naqueles a quem procuram
mundo e que se esforam por criar em seus           subjugar ou doutrinar, sejam encontrados, no
povos uma iluso do dinamismo, eficincia e         nas anlises de cientistas sociais, mas em obras
popularidade de suas lideranas (ver DITADU-        de fico: romances como Admirvel mundo
RA). H, porm, muitas advertncias a ter em        novo, de Aldous Huxley, Trevas ao meio-dia,
mente sempre que o termo  usado como fer-          de Arthur Koestler, 1984, de George Orwell, A
ramenta de anlise acadmica. Em primeiro           peste, de Albert Camus, Yawning Heights, de A.
lugar, podem existir diferenas ideolgicas e       Zinoviev, e o filme Brazil, de Terry Gilliam.
estruturais entre duas sociedades descritas co-     Leitura sugerida: Popper, Karl 1945 (1966): The Open
mo totalitrias (tais como a Alemanha de Hitler     Society and its Enemies, 2 vols., 5ed.  Shapiro, L.
e a Rssia de Stalin), pelo que o semelhante        1972: Totalitarism  Talmon, J.L. 1952: The Rise of
raras vezes  comparado com o semelhante. Em        Totalitarism Democracy.
particular, o grau em que tais regimes recorrem                                         ROGER GRIFFIN
sistematicamente  coero, ao terror e ao mas-
sacre a fim de suprimir a dissidncia pode variar   trabalhadora, classe Ver CLASSE OPERRIA.
                                                                                      trabalho    773


trabalhadores, conselho de Ver CONSELHO             salrios relativamente mais elevados e as mu-
DE TRABALHADORES.                                   lheres preferindo especializar-se em tarefas do-
                                                    msticas.
trabalho O conceito  ambguo e disputado,              O espao impede uma crtica detalhada des-
indicando diferentes atividades em diferentes       sa abordagem, mas  claro que a argumenta-
sociedades e contextos histricos. Em seu sen-      o  tautolgica: em particular, supe-se uma
tido mais amplo, trabalho  o esforo humano        preexistente DIVISO DO TRABALHO por sexos, a
dotado de um propsito e envolve a transforma-      qual  usada depois para "explicar" a resultante
o da natureza atravs do dispndio de ca-         diviso do trabalho entre homens e mulheres (e
pacidades mentais e fsicas. Tal interpretao,
                                                    entre trabalho remunerado e mo-de-obra no-
contudo, conflita com o significado e a expe-
                                                    remunerada) em funo dos preos relativos
rincia mais limitados do trabalho nas atuais
                                                    correntes. No se explica por que razo dife-
sociedades capitalistas. Para milhes de pes-
                                                    rentes espcies de trabalho atraem diferentes
soas, trabalho  sinnimo de emprego remune-
                                                    tabelas de remunerao, como tampouco se
rado, e muitas atividades que se qualificariam
                                                    explicam, de modo decisivo, as origens do sis-
como trabalho na definio mais ampla so
                                                    tema de mo-de-obra assalariada.
descritas e vivenciadas como ocupaes em
horas de lazer, como algo que no significa             A abordagem da sociologia industrial  mui-
verdadeiramente trabalho.                           to diferente. Sustenta-se que as definies de
    O TRABALHO DOMSTICO particular  um ex-        trabalho so historicamente especficas e refle-
celente exemplo. Embora essencial  sobrevi-        tem os valores, pressupostos e relaes de poder
vncia, sade e perpetuao da populao hu-        dominantes na sociedade. Assim, o emprego
mana, o trabalho domstico (cozinhar, limpar,       remunerado ocupa uma posio especial dentro
cuidar dos filhos pequenos etc.) tem baixo s-       da diviso de trabalho no capitalismo em fun-
tatus social,  preponderantemente executado        o da natureza e estrutura especficas das re-
por mulheres e no  remunerado. Que as mes-        laes de produo nesse sistema. Uma carac-
mas atividades podem ser desempenhadas co-          terstica definidora do capitalismo  que o traba-
mo trabalho pago em hotis e firmas de cate-        lho  realizado, no a fim de satisfazer as neces-
ring, por exemplo, sublinha o fato de a fronteira   sidades imediatas dos produtores diretos e de
entre trabalho remunerado e no-remunerado          suas famlias, mas, antes, para produzir merca-
(ou trabalho e o chamado CIO) ser extrema-         dorias para troca no mercado.
mente vaga. Como ela  determinada?                     A anlise marxista, que tem exercido pro-
    Dentro das cincias sociais, existem nume-      funda influncia sobre o estudo do trabalho e
rosas explicaes concorrentes. A cincia eco-      das relaes no trabalho, desenvolve esse in-
nmica -- pelo menos o paradigma neoclssico        sight bsico. O trabalho, de acordo com a pers-
dominante -- sustenta que os valores relativos      pectiva marxista, est subordinado ao propsito
atribudos a diferentes atividades produtivas e     de reproduzir e expandir o domnio material e
servios, e por conseguinte as recompensas e o      poltico da classe capitalista. A massa da popu-
status que resultam para os seus fornecedores,      lao est separada dos meios de produo e
so governados pelo efeito recproco das foras     subsistncia e, por conseguinte,  compelida a
de oferta e demanda no mercado. O fato de           ingressar no trabalho assalariado a fim de so-
muitas mulheres se especializarem no trabalho       breviver. Atravs do sistema de trabalho as-
domstico particular no-remunerado  consi-        salariado, os trabalhadores esto submetidos 
derado uma resposta racional  estrutura predo-     explorao sistemtica: os salrios so adianta-
minante de recompensas relativas. O trabalho        dos para capacidades humanas e no para algu-
domstico produz um nvel relativamente ele-        ma quantidade determinada de trabalho realiza-
vado de satisfao para os seus consumidores        do. Dentro do processo de produo, eles so
(a famlia), mas faz jus a um baixo salrio se      encorajados e ardilosamente induzidos a traba-
fornecido como servio atravs do mercado.          lhar por certo perodo de tempo e com certo
Por conseguinte, mulheres e homens escolhem         nvel de intensidade, de modo a assegurar que
especializar-se em diferentes atividades, de mo-    o valor com que contribuem exceda o valor de
do a maximizar a renda familiar (satisfao),       seus salrios. A diferena, a mais-valia, forma
com os homens optando por empregos com              a base do lucro capitalista.
774   trabalho, diviso do


    Embora nem todos os socilogos aceitem o        Work: a Guide to Changing Society  Piore, M. e Sabel,
ponto de vista marxista de que o capitalismo       C. 1984: The Second Industrial Divide.
um sistema explorador que degrada a experin-                                             PETER NOLAN
cia de trabalho, assim como as vidas dos traba-
lhadores, a maioria aceitaria, por certo, a opi-    trabalho, diviso do Ver DIVISO DO TRABA-
nio de Wright Mills de que o trabalho pode "ser    LHO; DIVISO INTERNACIONAL DO TRABALHO.
mera fonte de sustento ou a parte mais signifi-
                                                    trabalho, mercado de Ver MERCADO DE TRA-
cativa da vida interior de um ser humano; pode
                                                    BALHO.
ser vivenciado como expiao ou como exube-
rante expresso da prpria personalidade; como      trabalho, processo de Como definio ge-
inelutvel dever ou como desenvolvimento da         ral, a expresso refere-se aos mtodos e proce-
natureza universal do homem" (Mills, 1951,          dimentos pelos quais o trabalho humano, utili-
p.215). De forma crucial, o que importa so as      zando ferramentas ou instrumentos de produ-
relaes sociais que regem o desempenho e a         o, transforma as matrias-primas em produ-
experincia de trabalho.                            tos teis; mas, embora qualquer tipo de ativi-
    Mais recentemente, o debate e a controvr-      dade laboral (contempornea ou histrica) seja
sia centraram-se na questo de apurar se, sob       um processo de trabalho, o termo deriva seu
novos imperativos tecnolgicos e econmicos,        interesse de sua centralidade para a anlise de
a organizao do trabalho e as relaes de traba-   Marx do capitalismo e dos modos como ela tem
lho esto sendo fundamentalmente transforma-        sido aplicada e desenvolvida na anlise do tra-
das. Alguns (ver Piore e Sabel, 1984) afirmam       balho no sculo XX, de modo primordial, mas
que novas formas de padres democrticos de         no exclusivo, na sociedade capitalista.
trabalho esto suplantando os sistemas autori-          A anlise de Marx enfatizou a subordinao
trios e hierrquicos que governaram o desen-       do trabalho ao capital em processos de produ-
volvimento do sistema de produo em massa          o (ver EXPLORAO), que estavam sujeitos a
em pases tanto capitalistas quanto socialistas.    transformaes contnuas na busca de ganhos
Os roteiros pessimistas da dcada de 70, que se     de produtividade. Em tais transformaes, a
seguiram  publicao da sumamente influente        mecanizao fragmenta a atividade laboral em
exposio marxista de Braverman das tendn-         uma tarefa simples, uniforme e repetitiva sob a
cias desumanizantes do processo de trabalho         rigorosa disciplina da fbrica, as habilidades
capitalista (Braverman, 1974), deram assim lu-      artesanais desaparecem e novas hierarquias de
gar, em alguns meios, a uma descrio mais          trabalho mental e manual so construdas com
otimista dos aspectos potencialmente eman-          base no controle do capital sobre o trabalho.
cipadores das novas e flexveis organizaes        Marx forneceu extensas ilustraes empricas
de trabalho. Os trabalhadores, afirma-se, esto     dessas teses, extradas principalmente de docu-
sendo reabilitados no local de trabalho na me-      mentos oficiais de meados do sculo XIX.
dida em que os empregadores desejam aprovei-            Esses desenvolvimentos no mbito dos pro-
tar as suas capacidades criativas, em sua busca     cessos de produo no foram notados apenas
de maior flexibilidade e eficincia de produo.    por Marx. Eles informaram a tentativa de Fre-
    As avaliaes das evidncias existentes --      derick Taylor, na virada do sculo, de construir
as quais ainda se apresentam gradualmente e         uma teoria da gerncia cientfica. O objetivo de
fragmentadas -- esto divididas. Os novos oti-      Taylor era submeter as aes fsicas dos traba-
mistas ainda tm que demonstrar suas teses,         lhadores aos mesmos princpios de otimizao
mas  indubitavelmente verdade que, ao se           que governavam os fatores inanimados do pro-
avizinhar o sculo XXI, os padres de organi-       cesso de produo. Para que a atividade dos
zao da produo e as estruturas de controle       trabalhadores se tornasse mecnica desse mo-
do local de trabalho esto se tornando mais         do, a gerncia tinha que renunciar ao conhe-
diversificados.                                     cimento e  atividade discricionria que haviam
    Ver tambm CLASSE OPERRIA; REVOLUO           caracterizado tradicionalmente as especializa-
CIENTFICO-TECNOLGICA.                             es artesanais. Assim, a nfase de Taylor nessa
                                                    extenso da diviso do trabalho recaa sobre o
Leitura sugerida: Braverman, H. 1974: Labor and     alcance do controle gerencial, tanto no nvel dos
Monopoly Capital  Handy, C.B. 1984: The Future of   movimentos individuais quanto no do processo
                                                                               trabalho domstico       775


de produo como um todo. Quando combina-            como determinantes do desenvolvimento da
do com as tecnologias de manipulao e trans-        produo fabril. (Ver tambm MUDANA TECNO-
ferncia em pleno desenvolvimento no perodo,        LGICA.) O controle hierrquico sobre o traba-
o taylorismo provou ser uma poderosa ideolo-         lho  analogamente atribudo s redues de
gia para a administrao das indstrias de bens      custos e s dificuldades incentivadoras dos pro-
durveis de consumo no tipo de mercado de            cessos de trabalho cooperativo. As questes da
massa baseado na produo em linha de mon-           "naturalidade" da tecnologia e da eficincia
tagem que teve como pioneira a Ford Motor            tcnica, e sua relao com a organizao do
Company.                                             processo de trabalho, fazem parte da contnua
    Depois de 1945 a mecanizao ampliou-se          linha divisria entre as anlises baseadas em
cada vez mais, da manipulao e transferncia        uma abordagem de classe e as baseadas em um
ao prprio processo de controle, culminando at      clculo de maximizao individual.
a data nas tecnologias de microprocessamento
e suas amplas aplicaes, especialmente em           Leitura sugerida: Braverman, H. 1974: Labor and
                                                     Monopoly Capital: the Degradation of Work in the
processos de produo em pequenos grupos             Twentieth Century  Edwards, R. 1979: Contested Ter-
(no-padronizados) e em indstrias que se es-        rain: the Transformation of the Workplace in the Twen-
pecializam no manuseio e recuperao de infor-       tieth Century  Landes, D. 1986: "What do bosses real-
mao. (Sustenta-se por vezes que isso caracte-      ly do?". Journal of Economic History 46.3, 585-623
riza a transio da era fordista para o neofordis-    Marglin, S.A. 1974-75: "What do bosses do? The

ta; ver FORDISMO E PS-FORDISMO; CICLOS DE LON-      origins and function of hierarchy in capitalist produc-
                                                     tion". Review of Radical Political Economics 6.2, 60-
GO PRAZO; REGULAO.) Dentro de um quadro
                                                     112; 7.1, 20-37  Nichols, T. org. 1980: Capital and
de referncia marxista, a anlise de Braverman       Labour: Studies in the Capitalist Labour Process 
(1974) provou ser especialmente influente ao         Stone, K. 1974: "The origins of job structures in the
enfatizar a importncia no sculo XX da teoria       steel industry". Review of Radical Political Economics
de Marx para o entendimento das origens e            6.2, 113-73  Thompson, P. 1983. The Nature of Work:
desenvolvimento da hierarquia no local de tra-       an Introduction to Debates on the Labour Process 
                                                     Williamson, O.E. 1980: "The organization of work".
balho, para a evoluo da composio das qua-
                                                     Journal of Economic Behaviour and Organization 1.1,
lificaes da fora de trabalho e da fragmenta-      5-38.
o do trabalho, e para as formas como a cincia
                                                                                           SIMON MOHUN
e a tecnologia so usadas em processos de
produo cada vez mais mecanizados. Em seu
foco sobre as contnuas reorganizaes do pro-       trabalho domstico O feminismo moderno
cesso de trabalho pelo capital e seus ataques        e o desenvolvimento dos estudos relacionados
a reas de especializao e discricionariedade       com os sexos  que tornaram visvel a atividade
operria, que impedem o detalhado controle           humana de trabalhos domsticos no mbito do
capitalista, Braverman tambm focalizou o la-        pensamento social. Ela foi inicialmente reala-
do oposto: a crescente degradao do trabalho        da por marxistas influenciados pelo feminismo
tal como vivenciada no processo laboral e a          que desejaram desvendar a base material da
alienao associada que desse modo se engen-         opresso das mulheres no capitalismo. A ante-
dra. As crticas a Braverman tendem a se con-        rior anlise marxista das divises por sexos, ou
centrar na sua falha por no levar em conta os       a Questo da Mulher, como ficou conhecida,
processos em que a resistncia do trabalhador        era propensa a localizar a opresso das mu-
na ponta da produo pode dar forma a desen-         lheres puramente em seu lugar desvantajoso no
volvimentos no processo laboral e no seu fra-        mercado de trabalho, o que poderia explicar-se
casso em explorar os diferentes mecanismos de        pelas responsabilidades primordiais das mu-
controle capitalista.                                lheres no lar. Entretanto tais relaes doms-
    Em contraste com a abordagem marxista, na        ticas tendiam a ser vistas como superestruturais,
qual a luta de classes determina o desenvolvi-       com efeitos principalmente ideolgicos, e no,
mento da tecnologia e, de fato, a prpria noo      portanto, to fundamentais quanto as relaes
de eficincia tcnica, essa  uma abordagem          de classe que derivaram do modo de produo
que v o desenvolvimento da tecnologia como          e formaram, assim, parte integrante da base
a fora propulsora e a reduo de custo atribu-     econmica (ver MODO DE PRODUO; MATERIA-
vel s economias de produo em grande escala        LISMO).
776   trabalho domstico


    Ao analisar o trabalho domstico como um        fornecida  famlia como um todo pelo seu
conjunto de relaes de produo localizadas        prprio trabalho assalariado ou de outros mem-
dentro da base econmica, esperava-se dar          bros de sua famlia. Isso tambm tem efeitos
opresso das mulheres um status comparvel,         sobre a organizao do tempo de trabalho: en-
no mbito do marxismo,  explorao de classe.      quanto o assalariado trabalha em perodos de
Boa parte do debate girou em torno de qual das      tempo claramente especificados e usualmente
categorias de Marx usadas para a anlise do         em um local distinto do seu lugar de lazer, o
trabalho assalariado era tambm aplicvel ao        trabalho da dona-de-casa, literalmente, "nunca
trabalho domstico. Assim, por exemplo, al-         est feito" e ela no tem separao fsica ou
guns protagonistas sustentaram que o trabalho       temporal entre o trabalho e o tempo de lazer.
domstico era outra forma de produo de mer-       Alm disso, diferentemente da produo capi-
cadoria, pois seu produto era a mercadoria fora    talista de mercadorias, o trabalho domstico
de trabalho. Outros, porm, afirmaram que o         tende a ser feito em isolamento, com pouca ou
trabalho domstico no produzia mercadoria          nenhuma especializao ou cooperao.
alguma; seus produtos eram valores de uso que           Outra rea de debate dizia respeito ao papel
nunca chegavam ao mercado e entravam dire-          que o trabalho domstico desempenhou na re-
tamente no consumo familiar, s indiretamente       produo das relaes de produo capitalista.
ajudando na reproduo da fora de trabalho.        Teria ele produzido a sua prpria mais-valia
    Todos concordaram em que o trabalho do-         para que esta fosse apropriada pelo marido de
mstico no estava sujeito s mesmas relaes       uma dona-de-casa ou pelo patro deste? Ou
de produo que a produo de mercadorias.          teria contribudo para a produo de mais-valia
Em particular, as formas de controle do trabalho    indiretamente ao diminuir o salrio com que os
domstico eram diferentes; em vez da lei do         membros da famlia precisavam ser remunera-
valor, que se aplica  produo capitalista de      dos a fim de manter seu padro de vida habi-
mercadorias, de acordo com a qual mercadorias       tual? Ou o seu papel na reproduo de relaes
semelhantes tm que ser produzidas em tempos        capitalistas seria ainda mais indireto, fornecen-
comparveis a fim de que permaneam lucrati-        do os confortos no lar que tornavam suportvel
vas para os firmas que as produzem, os padres      o trabalho nas condies capitalistas e absor-
e as quantidades de tempo consumidas no traba-      vendo as reas de produo de valor de uso,
lho domstico podem variar amplamente. A            como cuidar dos filhos pequenos, que por algu-
forma de controle  mais indireta -- as donas-      ma razo no podiam ser inseridas na produo
de-casa esto no controle cotidiano de seu pr-     capitalista? Teria o trabalho domstico tornado
prio processo de trabalho, mas tm que organi-      um modo de produo distinto articulado com
zar seu trabalho para se ajustar s necessidades    o modo capitalista ou a definio do modo
dos outros membros da famlia e s exigncias       capitalista de produo deveria ser ampliada
de outras instituies sociais, cujos padres       para incluir as relaes de produo doms-
esto disseminados em uma variedade de mo-          ticas? (Himmelweit e Mohun, 1977, efetuam
dos indiretos, atravs da ideologia familiar, por   um levantamento desses debates.)
exemplo. A situao contratual tambm  dife-           A par desses debates no interior do marxis-
rente; em vez de ser regulado por um contrato       mo, foram realizados numerosos estudos emp-
especificado de trabalho assalariado que  con-     ricos de donas-de-casa e trabalhos domsticos
cludo com relativa facilidade, a alocao de       (ver, por exemplo, Oakley, 1974). Fizeram-se
trabalho dentro do lar  regida pelos papis        estudos histricos do desenvolvimento do tra-
rotineiramente atribudos aos dois sexos e, em-     balho domstico e da tecnologia domstica, os
bora o contrato matrimonial j tenha deixado de     quais compararam provises de tempo para
ser visto como vinculatrio para a vida inteira,    mostrar que, embora o contedo do trabalho
ele ainda  relativamente difcil de mudar. Isso    domstico tenha mudado significativamente ao
aplica-se tambm  forma de remunerao: aos        longo do ltimo sculo, o advento de dispositi-
trabalhadores assalariados se paga um salrio       vos destinados a economizar trabalho no havia
que foi previamente estabelecido, ao passo que      reduzido em quase nada o montante de tempo
no caso do trabalho domstico nenhum salrio        nele consumido; isso indicou que as explica-
 especificado e as donas-de-casa tm que tirar     es marxistas menos economicistas sobre a
a sua prpria subsistncia da renda monetria       persistncia do trabalho domstico podiam ter
                                                                         tradio e tradicionalismo    777


mais contedo do que as que viam o seu papel             idiossincrasias e estilos que so os pilares das
puramente em termos de sua contribuio para             culturas humanas, a tradio  comumente re-
a produo de mais-valia (ver Bose, 1979).               servada aos costumes que possuem consider-
    Como parte do projeto terico marxista de            vel profundidade no passado e uma aura de
explicar a base material da opresso das mu-             sagrado. A palavra tradio vem do verbo latino
lheres, o debate sobre o trabalho domstico              tradere, que significa entregar, transmitir, legar
deve ser considerado um fracasso. As relaes             gerao seguinte. Embora o verbo pudesse
de produo especficas do trabalho domstico            referir-se  transmisso de coisas triviais, pas-
foram analisadas atravs do debate e isso, em            sou a ser gradualmente reservado para as mais
conjunto com o subseqente trabalho emprico,            importantes, para os "depsitos" do passado
tornou o trabalho domstico e outras modali-             que conservavam um valor incomum para o
dades de trabalho informal no s mais visveis          presente e, presumivelmente, para o futuro.
dentro da cincia social mas tambm mais reco-               As tradies, por longo uso, pertencem s
nhecidos no seio da sociedade; por exemplo, as           mais importantes esferas da vida humana, como
companhias de seguros quantificam agora o                o PARENTESCO, a religio, a comunidade organi-
valor do trabalho de uma dona-de-casa na ava-            zada, e aos nveis superiores da cultura, como a
liao de sua vida produtiva. Entretanto o de-           literatura e a arte. Falamos do cristianismo na
bate no conseguiu explicar por que so predo-           Europa e da monarquia, do patriarcalismo, do
minantemente as mulheres que trabalham sob               constitucionalismo e da arte dos velhos mestres
essas relaes de produo. Em outras palavras,          como tradicionais. Para coisas menores  mais
 reconhecido que a sociedade capitalista de-            provvel usarmos "costumes" ou "folclore".
pende de uma diviso do trabalho entre produ-                 um erro pensar nas tradies como ineren-
o remunerada de mercadorias e trabalho do-             temente estticas e sempre inclinadas  imobi-
mstico no-remunerado, mas no se explicou              lidade. Migraes, guerras e revolues tm
por que essa diviso coincidiu com uma diviso           freqentemente atrs delas na HISTRIA os dese-
sexual do trabalho. Isso no  surpreendente,            jos de grupos de defender, proteger ou at dis-
dado o fracasso em incorporar  anlise outros           seminar tradies tidas em grande estima. Re-
conceitos alm dos desenvolvidos por Marx                volues e importantes movimentos de reforma
para a anlise do trabalho assalariado, a qual era       nascem no s da percepo pragmtica da
inteiramente alheia ao sexo. Embora extenses            injustia reinante, mas tambm do sentimento
tenham sido ulteriormente apontadas e nelas se           histrico de que antigas tradies esto sendo
tenham incorporado noes de patriarcado, isso           violadas. Poder sustentar que prticas correntes
significa apenas adicionar outra estrutura que           representam um abandono de tradies res-
necessita ela mesma de explicao. Sem reco-             peitveis no governo e na lei  acrescentar
nhecer que o trabalho domstico  mais que               considervel profundidade  posio que a pes-
apenas outra forma de trabalho, possuindo uma            soa est assumindo. Como aponta a histria do
conexo especfica com a reproduo humana               marxismo, os partidrios da esquerda so to
em que,  claro, as diferenas entre os sexos so        desenvoltos quanto os da direita em falar do
cruciais, o estudo do trabalho domstico nunca           Marx "real", do "verdadeiro", em controvrsias
poder fornecer uma anlise completa da opres-           doutrinrias, e embora possam no usar a pa-
so sexual.                                              lavra "tradio", a substncia est freqente-
Leitura sugerida: Fox, B. org. 1980: Hidden in the       mente  vista de todos. O mesmo pode ser dito,
Household: Women's Domestic Labour under Capi-           em grande parte, da religio. A histria do cris-
talism  Himmelweit, S. e Mohun, S. 1977: "Domes-         tianismo, a partir da Reforma,  preponderan-
tic labour and capital". Cambridge Journal of Econo-     temente uma histria de seitas e cismas. De
mics 1  Molyneux, M. 1979: "Beyond the domestic          modo quase invarivel, os autores e profetas de
labour debate". New Left Review 116, 3-28  Oakley,       novas seitas insistem em que, por mais radical
A. 1974: The Sociology of Housework  Seccombe, W.
1974: "The housewife and her labour under capitalism".
                                                         que possa ser o cisma, ele est baseado no
New Left Review 83, 3-24                                 desejo de voltar "quela religio dos velhos
                              SUSAN F. HIMMELWEIT
                                                         tempos" ou, dito com mais elegncia,  "pura
                                                         tradio de Jesus Cristo".
tradio e tradicionalismo Detendo um lu-                     difcil separar a histria recente da idia
gar especial entre os costumes, convenes,              de tradio das correntes intelectuais agitadas
778   transgresso


na Europa Ocidental pelos que, durante e aps      o encontramos desde o comeo do sculo XIX
a Revoluo Francesa, intitulavam a si prprios    at o presente momento na literatura ocidental,
"tradicionalistas". Refiro-me especialmente a       apenas uma variante dos temas anlogos de
Louis Gabriel de Bonald e Joseph de Maistre.       Gemeinschaft e Gesellschaft, status e contrato,
O uso de "conservador" como termo poltico s      e dos tipos de solidariedade que mile Dur-
comea a ser corrente a partir da dcada de        kheim apresentou em De la division du travail
1820, tanto na Frana como na Inglaterra. Mas      social (1893). A distino de Max Weber entre
o tradicionalismo como filosofia poltica e co-    Tradicional e Racional tambm  pertinente.
mo rtulo aparece em cena por volta de 1790.           Finalmente, cumpre sublinhar que tradicio-
Mais que qualquer outra figura, Edmund Burke       nalismo, CONSERVADORISMO e direita poltica
foi o responsvel por isso. Curiosamente, ele      esto muito longe de ser a mesma coisa; pelo
parece no ter usado "tradio" nem "tradicio-     menos desde o comeo do sculo XIX, quando
nalismo" em suas Reflections on the Revolution     as trs palavras adquiriram suas atuais cono-
in France, mas empregou, com afoiteza, a pa-       taes. Os tradicionalistas, por definio, man-
lavra "preconceitos", e o seu argumento em         tm-se fiis ao antigo e ao consagrado. Entre-
favor do "preconceito, com a razo envolvida",     tanto isso no os faz necessariamente conserva-
 um dos mais eloqentes textos at hoje escri-    dores, dado o carter predominante do conser-
tos em prol da tradio e do tradicionalismo.      vadorismo na poltica ocidental contempor-
    O que Burke e todos os tradicionalistas do     nea, nem o tradicionalistmo pende obrigatoria-
comeo do sculo XIX estavam atacando era a        mente para a direita em poltica. Assim, a reve-
Revoluo Francesa e suas idias, geradas pelo     rncia do tradicionalista pelo parentesco, a re-
Iluminismo, de razo, individualismo, liber-       ligio, a classe social e o sagrado no se harmo-
dade e igualdade, acolhidas para que toda a        niza, necessariamente, com a preferncia do
Europa as visse na legislao que sucessivos       conservador contemporneo pelo alto grau de
governos revolucionrios promulgaram. Ao di-       individualismo, o mercado livre, o libertarismo,
vulgar essas idias, a Revoluo foi quase ne-     a propriedade privada, e o lucro irrestritos. No
cessariamente obrigada a investir contra as ins-   tocante s relaes com a direita poltica, basta
tituies do Antigo Regime: monarquia, aris-       pensar em alguns dos grupos profunda e fana-
tocracia, Igreja, corporaes, comunidades al-     ticamente tradicionalistas do mundo moderno
des etc.                                          cuja fidelidade absoluta a uma ou mais tra-
    O que a Revoluo atacou, os autodeclara-      dies os coloca, por vezes, mais prximos da
dos tradicionalistas converteram em objetos de     esquerda revolucionria do que de qualquer
venerao. Eram essencialmente valores e es-       coisa propriamente indicvel como direita ou
truturas medievais; no  por acidente que o       conservadora. O Exrcito Republicano Irlands
medievalismo e o tradicionalismo registraram       (IRA) e os bascos so talvez ilustrao sufi-
um surto simultneo no sculo XIX. Vemos isso      ciente, mas no momento presente  provvel
nas artes e nas cincias sociais. No primei-       que se pense primeiro no Oriente Mdio e em
ro campo, destacam-se figuras como Augustus        certos rebeldes islmicos eminentemente tradi-
Pugin, William Morris e John Ruskin; nas cin-     cionalistas.
cias sociais, Friedrich Karl von Savigny e Hegel       Ver tambm CULTURA.
na Alemanha, Auguste Comte e Pierre Le Play        Leitura sugerida: Kuhn, Thomas S. 1962 (1970): The
na Frana. Alguns deles, embora de modos           Structure of Scientific Revolutions, 2ed.  Lerner, Da-
diferentes, foram prdigos nos elogios  Idade     vid 1958: The Passing of Traditional Society  Lipp-
Mdia e vigorosos na adoo de instituies        man, Walter 1929: A Preface to Morals  Lowes, John
tradicionais como a famlia patriarcal, a comu-    Livingston 1922: Convention an Revolt in Poetry  Nis-
nidade alde, a guilda e um sistema de classes     bet, Robert 1986: Conservatism  Radin, Max 1936:
                                                   "Tradition". In Encyclopedia of the Social Sciences,
sociais. Foram igualmente condenatrios das        vol.15, p.62-7  Shils, Edward 1981: Tradition.
foras do mundo moderno, como o industria-
                                                                                         ROBERT NISBET
lismo e a tecnologia, e tambm, em alguns
casos, a democracia de massa e o igualitarismo,    transgresso Ver CRIME          E TRANSGRESSO.
que pareciam ser os agentes destruidores dos
alicerces do tradicional.  lcito dizer que o     troca social, teoria da Essa teoria, que se
contraste entre Tradicional e Moderno, tal como    ocupa das intenes recprocas envolvendo
                                                                          troca social, teoria da   779


grupos e pessoas que trocam itens de valor           77). Nesses estudos, o indivduo singular  in-
social e simblico dos quais se beneficiam,          significante; so os grupos, no os indivduos,
desenvolveu-se originalmente a partir das preo-      que formam as parcerias de troca.
cupaes de socilogos franceses com as fon-
tes de solidariedade social; na cincia anglo-       Reaes americanas: individualismo
americana, foi tambm elaborada como funda-          e troca social
mento para a diferenciao de poder em re-               Rejeitando a subordinao do indivduo s
laes sociais.                                      necessidades sociais na teoria de Lvi-Strauss
                                                     (Homans e Schneider, 1955), Homans (1961)
Origens na sociologia francesa                       props uma teoria da troca social individualista
    Em uma crtica da sociologia francesa no         em que as interaes esto limitadas a recipro-
sculo XIX, Durkheim (1900) atribuiu o res-          cidades diretas. Essa verso da teoria da troca
surgimento da disciplina a partir de ento  crise   social sublinha o significado do indivduo nico
que se seguiu  derrota da Frana na Guerra          mediante o emprego de conceitos-chaves em
Franco-Prussiana de 1870. Isso levou os soci-       economia e psicologia como recompensas, cus-
logos a procurar solues na ordem social, "ten-     tos, punio, lucros e investimentos, assim co-
do acabado de ruir a fachada (...) do sistema [do    mo os construtos emparelhados estmulo e res-
estado] imperial" (p.12). Durkheim e seus dis-       posta, oferta e demanda. A teoria de Homans
cpulos ampliaram o seu leque de pesquisas a         proporcionou o ponto de crescimento para a
sociedades no-industriais que estavam sendo         teoria da troca social nos Estados Unidos. En-
franqueadas ao estudo pelo imperalismo euro-         quanto Blau (1964) desenvolveu os seus as-
peu, na crena metodolgica de que os princ-        pectos econmicos, em enunciados que valori-
pios ganhos pela descoberta de como tais socie-      zaram as relaes macroestruturais emergentes
dades simples se mantinham unidas poderiam           (embora ele viesse mais tarde a duvidar da
elucidar os mais complexos problemas de va-          validade de tais generalizaes, ver Blau,
lor no Ocidente (Durkheim, 1912; Durkheim e          1987), os pontos de vista psicolgicos foram
Mauss, 1903). A perspectiva de mudana social        elaborados por comportamentalistas que os li-
surgiu como uma teoria fundamentada de soli-         garam  psicologia skinneriana (Burgess e Bus-
dariedade social em resultado dessas investi-        hell, 1969; Chadwick-Jones, 1976).
gaes. (Ver tambm ESCOLA SOCIOLGICA DE                Nos Estados Unidos a teoria da troca social
DURKHEIM.)                                           tem tido sua principal aplicao na interpreta-
    Usando dados etnogrficos provenientes de        o do PODER. Embora isso possa ser atribudo
vrias sociedades no-ocidentais, incluindo es-       preocupao de Homans com as diferenas de
pecialmente a documentao de troca dos Kula         status em interaes sociais, a extrapolao de
nas ilhas Trobriand coletada por Malinowski          Blau do poder de grupos pequenos e as ex-
(1922), Mauss (1925) efetuou um minucioso            tenses do fecundo ensaio de Emerson (1962)
levantamento de evidncias a respeito das tra-       sobre relaes de poder-dependncia  situao
dies de ddivas e trocas que o habilitassem a      de troca, tm sido dominantes em recentes dis-
"estabelecer concluses de natureza moral so-        cusses americanas sobre o assunto (ver Cook,
bre alguns dos problemas com que nos defron-         1987). Sua assero central  que poder e de-
tamos em nossa atual crise econmica" (p.2).         pendncia resultam de relaes de troca, com o
Prosseguindo na mesma linha de pesquisa, L-         maior doador sendo compensado com o poder
vi-Strauss (1949) descobriu uma conexo entre        e o menor contribuinte reprimido com a depen-
as prticas de troca e a solidariedade social em     dncia. Essa noo de poder tem sido atacada
seus estudos comparativos de regras de paren-        por socilogos polticos (como Birnbaum, 1976)
tesco e casamento: a troca direta (ou restrita),     e filsofos polticos (como Lively, 1976), os quais
na qual dois grupos do e recebem um do outro        sustentam que o poder tem uma base mais ampla
(A  B), gera a solidariedade mecnica; ao            em valores sociais e no pode ser derivado do
passo que a troca indireta (ou generalizada),        imediatismo da situao de troca social.
envolvendo uma rede de numerosos parceiros
de troca que no do queles de quem recebem         Outros usos
(por exemplo, A  B  C  D  A), promove                    A versatilidade da teoria da troca social ha-
a solidariedade orgnica (ver Ekeh, 1974, p.37-      bilitou-a a ser usada com perspectivas tericas
780   trotskismo


similares na interpretao de outras caracters-     cial deriva a sua significao de um impulso
ticas vrias do relacionamento social. Os dois       humano bsico para dar e receber em interaes
usos seguintes so particularmente dignos de         sociais, com comportamentos contrrios ten-
meno.                                              dendo a desestabilizar as relaes sociais. Esse
                                                     pressuposto  amplamente compartilhado pelas
Troca social e escolha racional. A escolha ra-       cincias sociais e comportamentais, tornando a
cional revela aes motivadas por ganhos pes-        teoria da troca social atraente para numerosas
soais no decorrer de atividades econmicas que       disciplinas (Gergen et al., 1980). Suas variantes
coagem os atores a realizar escolhas a partir de     francesa e anglo-americana tambm ajudam a
recursos escassos. Desde os seus comeos, a          elucidar as premissas de valor que separam
espcie anglo-americana de teoria da troca so-       o pensamento social coletivista, predominante
cial usou argumentos de escolha racional, ins-       na Frana, das perspectivas individualistas que
pirados na cincia econmica e na teoria dos         tm a primazia na cincia social anglo-ameri-
jogos, a fim de conceituar os comportamentos         cana.
de troca social em sociedades ocidentais e no-
ocidentais (Heath, 1976; Sahlins, 1965; ver          Leitura sugerida: Chadwick-Jones, J.K. 1976: Social
tambm ESCOLHA RACIONAL, TEORIA DA). Embo-           Exchange Theory: its Structure and Influence in So-
ra refletindo o predomnio da argumentao           cial Psychology  Cook, K.S., org. 1987: Social Ex-
                                                     change Theory  Ekeh, P.P. 1974: Social Exchange
econmica nos Estados Unidos e na Gr-Breta-         Theory: the Two Traditions  Emerson, R.M. 1962:
nha, tal reduo da vida social  motivao          "Power-dependency relations". American Sociological
econmica contrasta nitidamente com a con-           Review 27, 31-41  Gergen, J.G., Greenberg, M.S., e
cepo extraeconmica da troca social na so-         Willis, R.H., orgs. 1980: Social Exchange: Advances in
ciologia francesa.                                   Theory and Research  Gouldner, A.W. 1960: "The
                                                     norm of reciprocity: a preliminary statement". Ameri-
Troca social e justia. Os parceiros na troca        can Sociological Review 25, 161-79  Heath, A. 1976:
social formulam juzos sobre as suas contri-         Rational Choice and Social Exchange: a Critique of
buies para os grupos em que participam e           Exchange Theory.
sobre os benefcios que deles colhem. Tambm                                               PETER P. EKEH
comparam seus custos e benefcios com os de
outras pessoas com quem interatuam (ver Thi-         trotskismo Referindo-se a uma ampla cor-
baut e Kelley, 1959). Esses atributos fazem da       rente de pensamento, assim como a um pequeno
JUSTIA uma idia de unidade central da teoria       e organizado movimento dentro do socialismo
da troca social. As consideraes de justia na      internacional, o termo deriva do nome de Leon
troca social podem expressar-se de acordo com        Trotsky (1879-1940) e da influncia histrica
suas duas principais variantes, identificadas por    de suas idias. Em sua significao mais antiga
Barry (1989): a justia como imparcialidade,         -- antes de 1917 -- no representava mais que
enfatizando a distribuio de benefcios em          uma concepo heterodoxa da iminente Revo-
bases comuns e assim no levando em conta o          luo Russa. Mas a partir de meados da dcada
status privilegiado como margem de negocia-          de 20 o trotskismo, como a principal oposio
o, e a justia como vantagem mtua, subli-         marxista e crtica ao regime de Stalin na Rssia
nhando os benefcios repartidos entre os parcei-     e, internacionalmente, ao movimento comunis-
ros de troca. Entretanto, de acordo com as for-      ta stalinizado, acabou adotando um conjunto
mulaes iniciais de Homans (1961, p.71-5), os       mais amplo de teses, procurando defender os
tericos da troca social, conservadoramente,         valores do marxismo clssico contra o que ele
tm aceito o status como principal critrio de       considerava ser sua apropriao indbita. O
justia. A teoria da troca social tambm pode        rtulo cobriu certa diversidade de concepo
ajudar a explicar a justia de cidadania, definida   terica e prtica poltica.
como a troca de deveres por direitos no relacio-         Do ponto de vista intelectual, a linha primor-
namento do indivduo com o estado (Marshall,         dial baseava-se na teoria da REVOLUO PERMA-
1950).                                               NENTE. Em primeiro lugar, uma anteviso da
                                                     possibilidade de que a atrasada Rssia pudesse
Concluses                                           enveredar pelo caminho da revoluo socialista
   Como aponta o ensaio de Gouldner (1960)           antes dos pases capitalistas mais avanados. A
sobre reciprocidade, a perspectiva da troca so-      teoria tambm enfatizava -- e com insistncia
                                                                                       trotskismo     781


tanto maior, uma vez que a revoluo bolchevi-      trotskista sustentavam, pelo contrrio, que o
que no tivera nenhuma seqncia imediata em        grupo dominante sovitico era, de fato, um
qualquer outro pas -- a necessidade de revo-       novo tipo de classe -- capitalista de estado ou
lues complementares no Ocidente para que o        burocrtica -- detentora, efetivamente, dos
esforo da prpria Rssia no redundasse em         meios de produo atravs do controle do es-
fracasso. Era uma nfase oposta ao projeto de       tado. Nesse ponto de vista, a Unio Sovitica
Stalin de "socialismo em um pas" nacional-         no era, em sentido algum, intermediria entre
mente auto-suficiente, como sendo uma ambi-         capitalismo e socialismo.
o falaciosa.                                          Devido  sua perspectiva terica quase fun-
    Uma anlise do tipo de sociedade que tinha,     damentalista -- a revoluo permanente --, a
de fato, surgido na Unio Sovitica com a vit-     tradio trotskista tem sido fortemente interna-
ria poltica de Stalin formou um argumento          cionalista, constituindo um dos seus impor-
complementar. No sendo mais capitalista, uma       tantes centros a Quarta Internacional, fundada
vez que os principais meios de produo eram        em 1938. A tradio principal tambm tem
agora propriedade do estado, tampouco o pas        defendido um conceito intransigentemente re-
era ainda socialista, de acordo com Trotsky. Era    volucionrio de estratgia socialista. Para al-
uma sociedade de transio, na qual a burocra-      guns trotskistas, a idia de um "programa de
cia governante tinha usurpado o papel poltico      transio", tentando construir uma ponte entre
da classe trabalhadora, presidindo e benefician-    exigncias limitadas, imediatas, e metas revo-
                                                    lucionrias mais ambiciosas, tem sido central.
do-se de vastas e injustificveis desigualdades.
                                                    O movimento trotskista considera-se herdeiro
Embora no fosse uma classe econmica domi-
                                                    direto do LENINISMO. Nos piores casos, foi as-
nante no sentido marxista, no dispondo de
                                                    sociado a uma mentalidade impregnada de sec-
propriedade direta dos recursos produtivos, es-     tarismo bizantino, por vezes utpico. Mas, nos
sa burocracia era uma camada privilegiada e         melhores casos, alicerou-se na realidade his-
teria que ser derrubada por uma revoluo po-       trica do relacionamento singular e inconstante
ltica se a Rssia pretendesse finalmente cum-      -- ora crtico, ora convicto, nunca reverente --
prir a sua transio para o socialismo -- apoiada   de Trotsky com a pessoa e a poltica de Lenin a
por transformaes socialistas no Ocidente. Se      fim de patrocinar a sntese de uma teoria pol-
isso falhasse, a burocracia ameaava converter-     tica socialista simultaneamente revolucionria
se em veculo para a restaurao do capitalismo     e comprometida com a democracia e o pluralis-
na Rssia.                                          mo. Para alm do mundo das organizaes tro-
    O prprio Trotsky, embora fosse o seu crti-    tskistas como tais, o trotskismo tem tido uma
co veemente, no considerava que o regime da        difusa influncia criativa sobre o debate intelec-
burocracia sovitica fosse uma nova forma de        tual e o saber marxistas.
domnio de classe ou capitalista. Esta foi a
corrente principal do trotskismo nos 50 anos        Leitura sugerida: Deutscher, I. 1959: The Prophet
transcorridos desde a morte de Trotsky: que,        Unarmed. Trotsky: 1921-1929  1963: The Prophet
                                                    Outcast. Trotsky: 1929-1940  Frank, P. 1979: The
embora o regime stalinista fosse autoritrio,       Fourth International: The Long March of the Trotskysts
"degenerado" e, na verdade, freqentemente           Geras, N. 1986: Literature of Revolution  Mandel, E.
criminoso, preservou de certa forma a princi-       1979: Revolutionary Marxism Today  Trotsky, L. 1937
pal realizao da Revoluo de Outubro, a sa-       (1972): The Revolution Betrayed  1938 (1973): The
ber, a derrubada da propriedade capitalista. Ou-    Transitional Program for Socialist Revolution.
tras correntes que tiveram origem na tradio                                           NORMAN GERAS
                                              U
urbanismo Usado geralmente como sinni-                   extremamente heterognea em termos de ori-
mo de urbanizao, este termo refere-se em                gem tnica e nacional. Entretanto tambm na
particular aos efeitos socioculturais de uma par-         Alemanha, Frana e Estados Unidos a urbani-
te crescente da populao que vive em cidades,            zao e o crescimento das grandes cidades no
especialmente nas grandes metrpoles. Tam-                sculo XIX foram assombrosos. Por exemplo,
bm  usado para indicar os traos especficos            a populao de Berlim elevou-se de cerca de
da vida urbana em contraste com os que carac-             200 mil habitantes no incio do sculo para 1,5
terizam a vida rural. Nos Estados Unidos, o               milho em 1890; a de Paris, de pouco mais de
mesmo termo  freqentemente empregado co-                500 mil em 1800 para 2,5 milhes no final do
mo sinnimo de planejamento urbano (town                  sculo. No obstante, somente no sculo atual
planning, tal como a palavra francesa urba-               o urbanismo se converteu em uma experincia
nisme).                                                   de escala mundial e atraiu a ateno crescente
                                                          dos cientistas sociais. Em pases industriali-
Urbanizao em pases industrializados                    zados, 3/4 da populao vivem agora em cidades
    A urbanizao tem sido um dos mais impor-             com mais de 100 mil habitantes ou nas reas
tantes fenmenos da idade industrial, no s              suburbanas de grandes metrpoles de muitos
porque envolve o deslocamento de milhes de               milhes de pessoas, enquanto se calcula que no
indivduos, mas tambm por significar radicais            final do sculo a maioria da populao do mun-
mudanas qualitativas nos modos e problemas               do estar vivendo em reas urbanas (Hauser e
da vida social. Em linguagem tcnica, a urbani-           Schnore, 1965; Davis, 1967).
zao  o efeito de dois fenmenos distintos:                 A migrao para cidades envolveu primeiro
movimento para as cidades, ou seja, migrao              a populao rural das regies circunvizinhas e
das reas rurais para as urbanas, e taxas mais            depois, com o crescimento dos modernos sis-
elevadas de crescimento demogrfico natural               temas de transportes e comunicaes, adquiriu
entre a populao urbana do que entre a popu-             propores nacionais e internacionais. Conco-
lao rural. Enquanto nos pases industriali-             mitantemente, o aumento de tamanho das gran-
zados a urbanizao foi quase exclusivamen-               des cidades alterou radicalmente os problemas
te impulsionada pela migrao para as cida-               qualitativos da vida social (ver tambm SUBR-
des, em pases subdesenvolvidos, sobretudo na             BIO), comparados com as situaes pr-indus-
frica e na sia, a diferena nas tendncias              triais baseadas em comunidades estveis, rela-
demogrficas tambm desempenha seu papel.                 tivamente homogneas e compactas.
    Nos pases industrializados, uma primeira e
substancial onda de urbanizao e crescimento             Urbanismo e qualidade de vida social
urbano teve lugar no sculo XIX (A. Weber,                    A escola de sociologia de Chicago (ver ES-
1899; Mumford, 1966). No Reino Unido, a                   COLA SOCIOLGICA DE CHICAGO) (Park e outros,
populao urbana subiu de 24% da total em                 1925), de carter socioecolgico, formulou
1800 para 77% em 1900. Manchester era uma                 uma interpretao baseada na experincia ame-
aldeia com menos de 10 mil habitantes no co-              ricana. No s sublinhou a diferena entre o
meo do sculo XVIII; em 1801 havia um                    modo de vida urbano e o rural, mas tambm, no
pouco mais de 70 mil e em 1851, mais de 300               primeiro, salientou a distino entre, por um
mil. Londres j era uma metrpole em 1900,                lado, os bairros centrais densamente povoados,
com 5 milhes de habitantes e uma populao               caracterizados pela mobilidade populacional, a

                                                    782
                                                                                         urbanismo     783


heterogeneidade social e a relativa deteriorao          ambiente atua meramente como indispensvel
das condies de vida das camadas de baixa                pano de fundo para a mudana nas relaes
renda, e, por outro lado, os subrbios mais               sociais e estratgias de vida. O problema crucial
homogneos e estveis, privilgio das camadas             nessa transformao  o progressivo enfraque-
de renda mais elevada. A interpretao da Esco-           cimento e adaptao de contextos e recursos
la de Chicago foi ainda mais desenvolvida por             recprocos em conjunto com a expanso da eco-
Wirth, que concentrou sua ateno em fatores              nomia de mercado e a concentrao de sees
ambientais como a matriz fundamental para as              cada vez maiores da populao em reas urba-
diferenas entre a qualidade de vida urbana e             nas, ao lado do concomitante crescimento con-
rural e para as diferenas existentes entre vrias        traditrio e desigual em recursos monetrios e
espcies de cidades.                                      contextos associativos entre classes e grupos de
   Podemos esperar que as caractersticas mais sali-      interesses. Esses fatores esto originando novas
   entes da cena social urbana variem de acordo com       e importantes ecloses de conflito social, desi-
   tamanho, densidade e diferenas no tipo funcional de   gualdade e reas sociais que so penalizadas e
   cidade (...) Para fins sociolgicos, uma cidade pode   marginalizadas pelos novos mtodos de dis-
   ser definida como uma povoao relativamente gran-     tribuio de recursos sociais e de organizao
   de, densa e permanente formada por indivduos so-      da representao de interesses polticos. A per-
   cialmente heterogneos. (Wirth, 1938, p.7-8.)          sistncia da "questo habitacional" ou das reas
    As caractersticas fundamentais da vida so-           de pobreza e marginalizao, o surgimento de
cial urbana so identificadas como anonimato,             crescentes problemas ecolgicos, as dificulda-
impessoalidade e superficialidade, atribudas             des cada vez maiores em controlar, dirigir e
mais  natureza do meio ambiente urbano do                adaptar sistemas socialmente complexos de ser-
que s caractersticas sociais.                           vios e transportes cada vez mais dispendio-
    O surgimento de irrefutveis provas empri-           sos que abrangem reas territoriais progressi-
cas estimulou um vigoroso reexame da inter-               vamente mais vastas so apenas outros tantos
pretao da Escola de Chicago. A experincia              aspectos dessa transformao, mais evidentes
de cidades europias e o desenvolvimento de               do que outros aspectos nas cidades contempo-
formas de suburbanizao da classe trabalha-              rneas, mas que no podem ser principalmente,
dora tambm em cidades americanas lanam                  ou apenas atribudos a diferenas ambientais.
dvidas sobre o levantamento socioecolgico
da Escola de Chicago. Alm disso, a ateno es-           Urbanismo e desenvolvimento industrial
t concentrada em variveis sociolgicas, con-                Uma das questes bsicas mais amplamente
trapondo-se s varives ambientais identifica-            debatidas do urbanismo em pases industria-
das por Wirth. Por exemplo, Gans sustenta que,            lizados  o grau em que esse fenmeno  um
"sob condies de transitoriedade e heteroge-             efeito praticamente exclusivo, inevitvel e pro-
neidade, as pessoas s interatuam em termos               gressivo do desenvolvimento industrial. O
dos papis segmentares necessrios para a ob-             pressuposto implcito do "industrialismo"  que
teno de servios locais. Assim, suas relaes           o desenvolvimento industrial ocasiona econo-
sociais exibem anonimato, impessoalidade e                mias de escala continuamente crescentes atra-
superficialidade" (1968, p.103). Dado que a               vs da progressiva concentrao em grandes
instabilidade residencial no  exclusivamente            cidades. A razo disso  que as ltimas atraem
uma caracterstica tpica da cidade ou de algu-           recursos econmicos e mo-de-obra para pro-
mas cidades e est distribuda de forma desigual          mover o crescimento da produo industrial e,
em vrias reas urbanas, as diferenas de mo-             por seu turno, o recrudescimento da populao
dos de vida e comportamento social so inter-             e da atividade econmica da cidade atua como
pretadas utilizando-se variveis sociais cls-            base para atrair novos recursos e incentivar
sicas, tais como classes sociais, ciclos vitais,          nveis cada vez mais elevados de crescimento e
estruturas de famlia e emprego etc. A partir             concentrao. Esse pressuposto  agora o alvo
dessas recentssimas interpretaes, formula-             de toda uma srie de crticas. Observou-se que,
das pela nova sociologia urbana (Saunders,                em muitos casos, as caractersticas do urbanis-
1981; Lebas, 1982; Mingione, 1986), conside-              mo dependem de condies e fatores histri-
ra-se que o urbanismo est refletido em profun-           cos preexistentes ao desenvolvimento industri-
das mudanas sociais, nas quais, porm, o meio            al, como  o caso na maioria das cidades da
784   urbanismo


Europa continental, e de elementos amplamen-        tecnologia atualizada, mas tambm potencial-
te independentes de concentrao industrial e       mente emancipados da necessidade de se loca-
crescimento de emprego na manufatura -- o           lizarem em grandes reas urbanas, esto adqui-
caso de cidades capitais. Em seguida,  claro       rindo crescente importncia (Castells, 1989).
que existe toda uma srie de limites tcnicos,      Na realidade, o declnio na importncia e atra-
sociais e econmicos  idia de uma interliga-      o das grandes reas metropolitanas no foi
o progressiva entre a INDUSTRIALIZAO e o        alm de uma queda no emprego industrial e da
crescimento das grandes cidades. Esses limites,     descentralizao de algumas indstrias para ci-
que variam consideravelmente em diferentes          dades menores e pases em processo de indus-
contextos e pocas, so o custo e o tempo           trializao. Em contrapartida, a fisionomia das
necessrios para construir a rede de transportes,   cidades globais (Sassen, 1991), centros nervo-
a dificuldade de solucionar a congesto urbana      sos para o controle das atividades polticas e
e os problemas ambientais em cidades j super-      econmico-financeiras, est se tornando o pa-
povoadas.                                           dro predominante. Onde isso ocorre, o custo
    Por todas essas razes, o desenvolvimento       dos terrenos nos centros das cidades aumenta
industrial pode ser considerado a mais impor-       continuamente, porquanto estes constituem o
tante fonte para a difuso do urbanismo, mas        ponto focal para a competio entre os vrios
sob condies variveis e descontnuas e em         usos reivindicados pela localizao adminis-
conjunto com outros fatores. Entre estes,  im-     trativa, o setor tercirio avanado e a homoge-
portante considerar as polticas de bem-estar,      neizao residencial em termos de classe social,
sobretudo as que se relacionam com habitao        o estabelecimento de atividades econmicas e
e transporte, mas tambm a maior ou menor           de superviso avanadas e a presena de opor-
concentrao de servios em geral e a variabi-      tunidades de trabalho tanto de elevada quanto
lidade no tempo e no espao de combinaes          de baixa renda, assim como informais. Nesse
socioeconmicas especficas; depois h a per-       sentido, a desurbanizao  o efeito da expulso
sistncia de pequenas e mdias empresas em          das camadas de renda mdia ou baixa dos cen-
contraste com as grandes concentraes indus-       tros metropolitanos para a periferia e outras
triais e financeiras, a diversificao da econo-    reas menos dispendiosas, e a crescente dificul-
mia urbana em contraste com a presena de           dade com que se defrontam para sobreviver e
indstrias que, pelo alto nvel de especializa-     resistir a essas foras nas reas metropolitanas
o, se mantm nicas no mercado, o impacto         centrais. Isso  contrabalanado, contudo, pelo
de estratgias de economia de mo-de-obra e         fato de as grandes cidades estarem mantendo
descentralizao econmica em contraste com         sua importncia e ampliando sua influncia a
as economias de escala, assim como o possvel       uma rea cada vez mais vasta.
papel de condies ambientais como poluio,            Quanto aos pases de "socialismo real", fa-
trfico, congesto, o elevado custo de moradia      lava-se muito de sndrome de sub-urbanizao
e de vida em geral.                                 (Konrd e Szelnyi, 1977), desencadeada pela
    Ao adotar abordagens mais requintadas que       poltica redistributiva que favorecia o inves-
a do "industrialismo",  possvel explicar as       timento destinado  expanso industrial em de-
caractersticas que o urbanismo vem adquirindo      trimento de custosos programas de habitao e
nestas ltimas dcadas e a experincia de pases    infra-estrutura urbana. Assim, uma parcela im-
sob o "socialismo real". No primeiro caso, foi      portante da populao empregada nas novas
apresentada a idia de contra-urbanizao (Ber-     indstrias e no setor tercirio urbano foi incapaz
ry, 1976, Perry et al., 1986), uma vez que, nas     de encontrar moradia e servios nas grandes
duas ltimas dcadas, a populao das reas         cidades e se viu forada a viajar diariamente
metropolitanas centrais esteve declinando ou        entre o local de trabalho e suas residncias em
aumentando mais lentamente do que nas ci-           pequenas cidades-satlites, que podiam estar
dades de pequeno e mdio porte e no interior.       situadas a uma boa distncia, a inscrever seus
Acredita-se que esse fenmeno seja resultado        nomes em extensas listas de espera em razo da
da reestruturao industrial, do declnio no sis-   insuficiente oferta de moradia nos bairros eco-
tema de grandes indstrias manufatureiras e da      nmicos ou encontrar outras solues insatisfa-
nova fase de terceirizao, em que trabalha-        trias que refletiam cada vez mais as desigual-
dores autnomos e pequenas firmas dotados de        dades sociais (Szelnyi, 1983).
                                                                                        utilitarismo    785


Urbanizao e urbanismo em pases                      Europe and the USA  Berry, B.J.L., org. 1976: Urba-
subdesenvolvidos                                       nization and Counterurbanization  Bookchin, Murray
                                                       1987: The Rise of Urbanization and the Decline of
    No sculo XX a urbanizao e o gigantismo          Citizenship  Breese, Gerald, org. 1969: The City in
urbano assaltaram irresistivelmente quase to-          Newly Developing Countries  Castells, Manuel 1989:
dos os pases subdesenvolvidos, onde hoje se           The Informal City  Davis, K. 1967: "The urbanization
localizam vastas reas metropolitanas que ain-         of the human population". In Cities  Gans, H. 1968:
                                                       "Urbanism and suburbanism as ways of life". In Rea-
da crescem de forma incontrolvel (Breese,             dings in Urban Sociology, org. por R. Pahl  Gilbert,
1969; Abu-Lughod e Hay, 1977; Gilbert e Gu-            Alan e Gugler, Josef 1981: Cities, Poverty and Deve-
gler, 1982). Nesses pases, alm da irreprimvel       lopment  Hauser, Philip M. e Schnor, Leo F., orgs.
migrao para as cidades de gigantescas massas         1965: The Study of Urbanization  Mingione, Enzo
expelidas do campo pela agricultura extensiva          1986: "Urban sociology". In The Social Reproduction
de plantation, a concorrncia internacional e a        of Organization and Culture, org. por Ulf Himmel-
                                                       strand  1991: Fragmented Societies  Mumford, Le-
crescente presso pela racionalizao da lavou-        wis 1966: The City in History  Park, R.C., Burgess,
ra, h ainda o efeito de elevadas taxas de nata-       E.W. e McKenzie, R.T. 1925: The City  Perry, R.,
lidade urbana e das condies de higiene e             Dean, K. e Brown, B. 1986: Counterurbanization 
sade geral nas cidades, as quais, embora muito        Sassen, Saskia 1991: The Global City  Saunders, P.
inferiores aos nveis mdios dos pases desen-         1981: Social Theory and the Urban Question  Szel-
volvidos, so superiores s do campo e se refle-       nyi, Ivan 1983: Urban Inequalities under State Socia-
                                                       lism  Weber, Alfred 1899: The Growth of Cities in the
tem nos acentuados aumentos em termos de               Nineteenth Century: a Study in Statistics  Wirth, L.
probabilidades e expectativas de vida.                 1938: "Urbanism as a way of life". American Journal
    O urbanismo em pases subdesenvolvidos            of Sociology 44, 1-24.
caracterizado por dois fenmenos muito sa-                                                ENZO MINGIONE
lientes. O primeiro consiste na acentuada e
incontrolvel polarizao entre um nmero li-
mitado de camadas de mdia e alta renda, que           utilitarismo A tradio em teoria moral, po-
                                                       ltica e social que avalia a retido de atos,
desfrutam de condies de vida semelhantes s
                                                       escolhas, decises e polticas por suas conse-
das camadas mais abastadas dos pases indus-
                                                       qncias em relao ao bem-estar humano (e
trializados e de servios fornecidos por uma
                                                       possivelmente animal) tem sido especialmente
populao disponvel para trabalho muito mal
                                                       influente. Associada h muito tempo aos nomes
pago, e uma enorme e heterognea populao
                                                       de Jeremy Bentham e John Stuart Mill, ainda
com renda monetria extremamente baixa. O
                                                       tem eminentes adeptos entre filsofos, econo-
segundo fenmeno  formado pelas estratgias
                                                       mistas e cientistas sociais, e ocupa um lugar
de sobrevivncia deste segundo grupo, vivendo          central na teorizao moral, poltica e social.
em sua grande maioria em condies miser-             Mas talvez o maior testemunho do impacto do
veis, barracos e cortios, em terrenos ocupados        utilitarismo esteja no extraordinrio nmero de
ilegalmente e trabalhando no chamado setor             crticos que tentaram, e continuam tentando, e
informal: um misto de servios, artesanato e ca-       de todas as maneiras possveis, refut-lo ou, de
melotagem, mo-de-obra no-qualificada para            alguma forma, livrar-se dele.
a construo civil, trabalhos domsticos e ou-             A verso clssica de utilitarismo, tal como
tras atividades legais e ilegais (Hart, 1973; Ger-     exposta em Bentham e Mill, era uma forma de
ry, 1987; Mingione, 1991). Seu estilo de vida          utilitarismo do ato (act utilitarianism), de acor-
urbano tambm leva para as grandes cidades do          do com a qual um ato  correto se produz as
Terceiro Mundo numerosos elementos de es-              melhores conseqncias, ou seja, conseqn-
tratgias de subsistncia rural, desde a criao       cias para o bem-estar humano que sejam, pelo
de animais domsticos at a importncia do             menos, to boas quanto as de qualquer alterna-
parentesco, das redes tnicas e comunitrias, e        tiva. Embora os crticos, com freqncia, ainda
de uma solidariedade entre amigos e vizinhos           se concentrem nessa verso de utilitarismo, ou-
que  indispensvel  sobrevivncia onde a             tras verses tm sido dela distinguidas, como o
renda individual  extremamente baixa.                 utilitarismo da regra (rule utilitarianism), a ge-
Leitura sugerida: Abu-Lughod, J.L. e Hay, R., orgs.    neralizao utilitria, o utilitarismo de motivo
1977: Third World Urbanization  Ball, M., Harloe, M.   e o utilitarismo cooperativo. At que ponto
e Maartens, H. 1988: Housing and Social Change in      algumas dessas verses so realmente distintas
786   utilitarismo


do utilitarismo do ato e at que ponto todas elas   cias ser avaliado por algum padro de bondade
esto livres de dificuldades ainda  matria de     intrnseca, cuja presena no mundo tem que ser
controvrsia.                                       maximizada. Esse bem, no caso do utilitarismo
   De fato, "utilitarismo"  o nome de um           do ato, foi o bem-estar humano; em que deve
grupo de teorias que constituem variaes sobre     exatamente consistir o bem-estar humano, con-
um tema, do qual podemos distinguir trs com-       tudo, tem provado ser uma questo controversa
ponentes.                                           Por exemplo, os primeiros utilitaristas eram
                                                    hedonistas; os mais recentes, como G.E. Moore,
Componente conseqncia                             tm sustentado que outras coisas, alm do pra-
    De acordo com o componente conseqn-           zer e/ou da felicidade, so boas em si mesmas.
cia, a retido est vinculada de algum modo            Uma tendncia recente tem sido o afasta-
produo de boas conseqncias.  noo de          mento dos padres de bondade que fazem refe-
que s as conseqncias tornam os atos certos       rncia a estados mentais e a preferncia pelas
ou errados d-se o nome de conseqencialismo;       concepes de bem-estar humano que se ba-
 o componente conseqncia do utilitarismo         seiam na satisfao de desejos e predilees.
do ato e pode, neste contexto, ser tratado como     Um problema, neste caso, consiste em isolar os
a noo de que um ato  correto se acarreta         desejos em que temos de nos concentrar. A
melhores conseqncias. O conseqencialismo         reflexo sobre as dificuldades em torno do que
tem sido muito criticado pelos que favorecem        fazer com desejos atuais ou futuros forou os
diferentes explicaes do que faz com que se-       tericos na direo do seu esclarecimento, isto
jam certos os atos certos. Por exemplo, alguns      , dos desejos que teramos se estivssemos
sustentam que o conseqencialismo evoca uma         plenamente esclarecidos, despreocupados, li-
mente corrupta, na medida em que no pode           vres das presses do momento etc. O pressupos-
proscrever certos atos (por exemplo, mentir)        to parece ser que, sob condies apropriadas, os
independentemente de suas conseqncias. Se         desejos informados tornam-se reais, ao passo
as conseqncias  que fazem dos atos certos        que aqueles de nossos desejos que no so
ou errados, ento at mesmo o mais repreens-       aceitos como informados so abandonados (ou,
vel dos atos poderia, em certas circunstncias,     pelo menos, no so corretamente materializa-
resultar correto. Afirmam outros que uma preo-      dos). Mesmo sem introduzir problemas relacio-
cupao em produzir as melhores conseqn-          nados com a fraqueza da vontade, os detalhes
cias em cada ocasio pode deixar de produzir        dessa troca de desejos, em termos de psicologia
as melhores conseqncias globais e, portanto,      moral individual, permanecem um pouco obs-
ser contraproducente. Ainda outros sustentam        curos.
que uma explicao impessoal de retido, como           Os crticos da teoria de valor utilitarista so
as melhores conseqncias, pode no ser com-        inmeros, e certamente essa continua sendo
patvel com a realizao pelo indivduo de seus     uma rea de imensa controvrsia, no s quanto
projetos, compromissos e relaes, e assim, em       natureza das coisas que aceitamos como do-
certa medida, pode afast-lo de sua prpria         tadas de valor intrnseco, mas at no que se
integridade. Em termos mais gerais, as descri-      refere  possibilidade de existirem VALORES im-
es impessoais de retido so acusadas de no      pessoais ou mediadores neutros. Os valores,
considerar seriamente a distino entre pessoas,    sustenta-se cada vez mais, so subjetivos, no
ou seja, de no tratar as pessoas como indiv-      sentido de serem relativos ao agente; so os
duos autnomos, com suas individualidades,          valores dos agentes. Entretanto o utilitarismo
projetos e mritos prprios. Discute-se at que     requer que os desejos sejam agregados, ponde-
ponto essa acusao procede -- , por exemplo,      rados e equilibrados em termos de algum prin-
vigorosamente refutada por R.M. Hare --, mas        cpio mediador neutro relacionado, por exem-
ela instigou o recente desenvolvimento de es-       plo, com o bem-estar geral, ainda que reste a
quemas de direitos morais individuais para a        esclarecer por que um agente qualquer tem
proteo de pessoas.                                razes para valorizar a busca do bem-estar ge-
                                                    ral. Se uma pessoa  abastada, pode adquirir tal
Componente de valor                                 razo; mas se lhe for requerido que, no sendo
   De acordo com o componente de valor, o           abastada, realize profundos e sistemticos sa-
carter benvolo ou malvolo das conseqn-         crifcios para maximizar o bem-estar geral?
                                                                                             utopia     787


Componente de alcance                              alegaes em defesa do utilitarismo de ato, a
    De acordo com o componente de alcance, o       cujo destino so indiferentes.
que tem de ser levado em conta na determinao        Ver tambm TICA; BEM-ESTAR SOCIAL.
da retido so as conseqncias de atos que        Leitura sugerida: Bentham, J. 1793 (1948): An Intro-
afetam a todos. A menos que as conseqncias       duction to the Principles of Morals and Legislation, org.
de um ato possam ser suprimidas, a classe de       por J. Harrison  Brandt, R.B. 1979: A Theory of the
todos os afetados pelo ato, uma vez que as         Good and the Right  Hampshire, S., org. 1978: Public
conseqncias se prolongam no futuro, parece       and Private Morality  Hare, R.M. 1981: Moral Thin-
                                                   king  Mill, John Stuart 1863 (1957): Utilitarianism 
expandir-se constantemente, com possvel efei-     Moore, G.E. 1903 (1959): Principia Ethica  Regan,
to sobre a retido. Mas o principal problema que   D.H. 1980: Utilitarianism and Co-operation  Schef-
o componente de alcance apresentou aos utili-      fler, S. 1982: The Rejection of Consequentialism  Sen,
taristas foi a exigncia de, para o xito do       A. e Williams, B., orgs. 1972: Utilitarianism and
utilitarismo, sermos capazes de realizar compa-    Beyond  Smart, J.J.C. e Williams, B., orgs. 1973: Uti-
                                                   litarianism: For and Against.
raes interpessoais de prazeres e dores ou de-
sejar satisfaes. S seremos capazes de maxi-                                                   R.G. FREY
mizar a satisfao do desejo em todos os afeta-
dos pelo ato se pudermos comparar o efeito         utopia A palavra descreve uma comunidade
desse ato sobre os conjuntos de desejos de cada    ideal, livre de conflitos, que incorpora um con-
                                                   junto claro de valores e permite a completa
um dos envolvidos, avaliar a extenso e a fora
                                                   satisfao das necessidades humanas. As uto-
desse efeito e comparar os diferentes resulta-
                                                   pias envolvem normalmente um retrato sis-
dos. Os primeiros utilitaristas pensaram que
                                                   temtico da vida na sociedade imaginada ou,
poderamos somar prazeres e dores em dife-
                                                   por vezes, a sua descrio em um romance. No
rentes pessoas, mas essa idia j deixou h
                                                   sculo atual o ritmo da mudana social, poltica
muito de ser levada a srio. Quanto  satisfao   e tecnolgica e as divises polticas entre capi-
de desejo ou de preferncia, muitos economis-      talismo e socialismo levaram a novos temas no
tas e cientistas sociais escrevem como se as       pensamento utpico em que os proponentes de
comparaes interpessoais nada tivessem de         utopias se defrontaram, por vezes, com antiuto-
problemticas; os crticos, porm, insistiro em   pias projetadas para desacreditar seus esquemas
que se faa o exame detalhado de suas teorias e    de aperfeioamento social.
de seus argumentos em apoio da bitola es-              O termo utopia, do grego designando "ne-
pecfica que lhes permite comparaes de satis-    nhum lugar", foi inventado por sir Thomas
fao de desejo em diferentes pessoas.             More (1516). Entretanto muitas formas de pen-
                                                   samento possuem um elemento utpico. Des-
Utilitarismos indiretos
                                                   cries de uma "idade de ouro" remontam aos
    Finalmente, uma inovao recente foi o de-     gregos, se bem que, diferentemente das utopias,
senvolvimento de utilitarismos indiretos. Por      elas sejam localizadas no passado. A noo
exemplo, R.M. Hare desenvolveu uma explica-        crist do milnio tambm apresenta um aspecto
o em dois nveis do pensamento moral, que        utpico, enquanto que numerosos tericos po-
 utilitarista de regra no plano da prtica, mas   lticos tm delineado constituies ideais. De
utilitarista de ato do domnio da teoria (ou       fato, o pensamento contendo elementos utpi-
domnio de definies institucionais ou de nor-    cos  muito mais comum do que a descrio
mas). O pensamento utilitarista de ato no campo    coerente da prpria utopia.
da teoria selecionar os guias no plano da pr-        A anlise sistemtica da utopia como mo-
tica cuja aceitao geral nos dar a melhor        do de pensamento comeou com a publicao
oportunidade de produzir as melhores conse-        de Ideologia e utopia (Mannheim, 1929). Karl
qncias. Assim, Hare afirma que a sua expli-      Mannheim estabeleceu uma distino entre o
cao em dois nveis lhe permite evitar muitos     pensamento ideolgico, que descreve uma ver-
dos problemas que os crticos dizem assediar o     so idealizada da realidade corrente, e o pensa-
utilitarismo de ato em termos da prtica. Outros   mento utpico, que almeja uma nova espcie de
tericos dos dois nveis, cumpre assinalar,        sociedade. Entretanto o termo "utopia" vem
consideram estar desenvolvendo uma forma           sendo geralmente usado hoje em dia para abran-
plausvel de utilitarismo e no montando novas     ger esses dois significados.
788   utopia


    O pensamento utpico parece florescer em          A utopia hoje
pocas de insegurana social e colapso da auto-           Modelos gerais de funcionamento sociol-
ridade estabelecida. As utopias refletem fre-         gico, poltico e econmico contm, com fre-
qentemente as fronteiras de possibilidade es-        qncia, elementos utpicos, uma vez que re-
tabelecidas por uma sociedade existente, incluin-     tratam a implementao abrangente de princ-
do sua capacidade produtiva, sua concepo do         pios fundamentais. Os exemplos incluem o mo-
grau de maleabilidade da natureza humana e a          delo funcionalista plenamente integrado do sis-
nfase relativa atribuda  ESFERA PBLICA em         tema social, vrios modelos de democracia,
contraste com a particular. As utopias tambm         como o que foi desenvolvido pela escola plura-
refletem a localizao social do estrato cujo ideal   lista, e o modelo de mercado inteiramente auto-
est sendo representado. Assim, a utopia das auto-    regulador desenvolvido pela cincia econmica
ridades , geralmente, uma utopia da ordem en-        neoclssica (Ver FUNCIONALISMO; PLURALISMO,
quanto que a do povo , com freqncia, a de uma      MERCADO).
terra de abundncia e prazer.
                                                          O perodo do ps-guerra no Ocidente deu
    O pensamento utpico do sculo XX tem se          origem a um novo surto de pensamento utpico.
baseado na idia de progresso que o sculo XIX        O prolongado boom econmico e o ritmo do
incorporou  utopia ao lado da cincia. A mais        avano tecnolgico serviram de esteio a uma
caracterstica forma de utopia do sculo XX foi
                                                      nova verso da utopia "cientfica" na forma de
a idia de socialismo, embora o liberalismo
                                                      SOCIEDADE PS-INDUSTRIAL (Kumar, 1978). Es-
tambm tenha uma dimenso utpica. Apesar
                                                      sas utopias antevem uma transformao imi-
de seus protestos em contrrio, o pensamento
                                                      nente da sociedade em conseqncia do avano
de Marx e Engels  profundamente utpico
                                                      cientfico e, cada vez mais, do desenvolvimento
(Ollman, 1977). A tradio utpica socialista
foi desenvolvida no sculo XX, em estilo fabia-       da informtica (ver INFORMAO, TECNOLOGIA E
                                                      TEORIA DA). A disciplina da FUTUROLOGIA tam-
no, nos numerosos livros de H.G. Wells, que
tambm ajudou a estabelecer a fico cientfica       bm possui uma dimenso utpica.
como elemento importante do moderno pensa-                O desenvolvimento da crise cultural do Oci-
mento utpico (Hillegas, 1967). Outro aspecto         dente nas dcadas de 60 e 70 tambm originou
importante do pensamento utpico do sculo            um ressurgimento de elementos utpicos no
XX pode ser encontrado na rea da arquitetura         pensamento. Experincias utpicas como o mo-
e do planejamento urbano, embora isso possa           vimento de "comunas" nos anos 60 foram uma
levar-nos de volta ao ideal cristo da cidade         resposta (ver CONTRACULTURA). Outra que ainda
celestial (Fishman, 1977).                            est em desenvolvimento  a "ecotopia": uma
                                                      sociedade onde o homem e a natureza pode-
Antiutopia                                            riam, finalmente, viver em harmonia (ver ECO-
    No sculo XX antiutpicos como George             LOGIA). Esta continua a tradio da utopia ba-
Orwell tm exercido considervel influncia.          seada no conhecimento cientfico, se bem que,
Eles descrevem sociedades de modos que espe-          agora, na forma de tecnologia "alternativa" ou
lham o pensamento utpico ao refletirem uma           "utpica". Uma dimenso utpica tambm est
imagem execrvel dos efeitos de experimentos          presente no seio do FEMINISMO (Kumar, 1981),
utpicos empreendidos em um nvel dessas so-          ligada  crena em que "o pessoal  poltico" e
ciedades. Projetam um pesadelo em que grupos           preocupao com o "prefigurativo". Isso des-
governantes estabelecidos perderam o controle do      creve a idia de que elementos de uma melhor
poder e foram substitudos por agentes brbaros       sociedade podem ser estabelecidos aqui e agora
de uma nova ordem. Em parte, as antiutopias so       para formar um modelo de relacionamento e de
uma resposta  ameaa do socialismo e aos im-         instituies no futuro.
perfeitos experimentos socialistas do sculo atual.       Tem sido apontado que a utopia est agora
O antiutopismo tambm tem se apoiado em pon-          ao nosso alcance. Pode tomar a forma de uma
tos de vista que enfatizam as razes biolgicas do    soluo puramente interior para as tenses da
comportamento, tais como o freudismo, que su-         sociedade, envolvendo o uso de drogas psico-
blinha o papel dos fatores instintivos. A SOCIOBIO-   trpicas, conforme descrito por Aldous Huxley
LOGIA  a corrente mais recente de um gnero          em sua ltima obra. A questo da utopia pode
similar.                                              at ser dissolvida, como na obra de Nozick
                                                                                                utopia     789


(1974), que indica j estar realizada a utopia do      tieth Century  Hillegas, M.R. 1967: The Future as
direito libertrio. Nessa utopia, no existe uma       Nightmare: H.G. Wells and the Anti-Utopians  Kumar,
                                                       K. 1978: Prophecy and Progress  1981: "Primitivism
s comunidade ou modo de vida que seja pres-           in feminist utopias". Alternative Futures (USA) 4, 61-7.
crito: a utopia consiste simplesmente em uma            1987: Utopia and Anti-Utopia in Modern Times
sociedade onde cada um tem o direito de es-             Mannheim, K. 1929 (1960): Ideology and Utopia
tabelecer a forma de comunidade que escolheu,           More, Thomas 1516 (1965): Utopia  Nozick, R.
seja ela qual for.                                     1974: Anarchy, State and Utopia  Ollman, B. 1977:
                                                       "Marx's vision of communism: a reconstruction". Criti-
Leitura sugerida: Bauman, Z. 1976: Socialism: the      que 8,4-41.
Active Utopia  Dickson, D. 1974: Alternativa Techno-                                            TOM BURDEN
logy  Fishman, R. 1977: Urban Utopias in the Twen-
                                               V
valor No sculo XVIII e incio do XIX, a                   tavam preparados para realizar. A teoria era,
teoria econmica estabeleceu a distino entre             assim, orientada pela demanda, uma teoria
valor de troca e valor de uso, e tentou utilizar o         "subjetivista" de valor (preo). Com o adita-
primeiro para explicar as relaes de troca, ou            mento da produo, o preo  ento determina-
preos relativos, de mercadorias no MERCADO.               do pela interao de demanda para sadas (out-
O fato de todas as mercadorias terem valor de              puts) e oferta de entradas (inputs), derivadas de
troca era atribudo  substncia criadora de               decises de agentes maximizadores de utili-
valor comum a todas elas, a qual consistia no              dade, coagidos por dotaes e renda, e a oferta
trabalho diretamente envolvido em sua produ-               de sadas (outputs) e demanda de entradas (in-
o; e o fato de as mercadorias terem, tipica-             puts), derivadas das decises de agentes maxi-
mente, diferentes valores de troca era explicado           mizadores de lucro, coagidos por tecnologia e
pela facilidade ou dificuldade relativa de sua             recursos iniciais.
produo. Essa teoria do valor-trabalho enun-                  Essa metodologia foi amplamente estabele-
ciou, portanto, que todo valor de troca podia ser          cida na dcada de 1870; nas dcadas de 30 e 40
atribudo ao trabalho, quer empregado direta-              deste sculo John R. Hicks (1939) e, em es-
mente na produo ou indiretamente no forne-               pecial, P.A. Samuelson (1947) mostraram como
cimento de matrias-primas e ferramentas com               diferentes ramos da teoria tinham uma estrutura
que a mo-de-obra trabalha. Essa teoria atingiu            matemtica subjacente comum; e na dcada de
o apogeu na obra de David Ricardo nos anos                 50 o trabalho realizado por certo nmero de
posteriores a 1815 (ver Ricardo, 1817).                    economistas matemticos, culminando em um
    Mas a teoria provou ser insatisfatria como            clebre livro de Gerard Debreu (1959), logrou
teoria lgica do preo relativo por subentender            formalizar muitas das intuies de equilbrio
que, se os preos eram determinados por va-                geral da "mo invisvel" de Adam Smith. O
lores de trabalho, ento diferentes mercadorias            preo que iguala demanda e oferta  chamado
ganhariam diferentes taxas de lucro, e se as               o preo de "equilbrio". As questes ento for-
foras de competio igualassem a taxa de lu-              muladas dizem respeito  identificao das cir-
cro, ento os preos no poderiam ser explica-             cunstncias em que um preo de equilbrio
dos por valores de trabalho. Depois de Ricardo,            existe em todos e em cada um dos mercados
a teoria econmica fragmentou-se em diferen-               simultaneamente, se tal conjunto de preos de
tes teorias de valor de acordo com o modo como             equilbrio  nico e se  estvel no sentido de
essa dificuldade foi reconhecida e resolvida.              ser restabelecido caso seja perturbado. O foco
    A abordagem que acabou sendo predomi-                  incide, pois, sobre os indivduos otimizantes
nante na teoria econmica (denominada ECONO-               que tomam decises quantitativas na base de
MIA NEOCLSSICA) negava qualquer significado               preos paramtricos e sobre a interao des-
 distino entre valor e preo, e procurava a             sas decises para determinar preos de equi-
explicao dos preos relativos em termos da               lbrio. A pesquisa corrente inclui a inves-
quantidade de um bem que um indivduo estaria              tigao de modelos agregativos e desagrega-
preparado para sacrificar a fim de obter uma               tivos em que os preos no so paramtricos,
unidade de outro bem. Em vez da nfase recair              os participantes do mercado tm acesso a
em diferentes condies de produo, a teoria              diferentes somas de informao pertinente e
pressups indivduos otimizantes, coagidos por             as transaes ocorrem a preos que no so de
suas dotaes iniciais, e as transaes que es-            equilbrio.

                                                     790
                                                                                             valores   791


    Uma abordagem muito diferente foi adotada            listas entre as populaes de sociedades capita-
por Karl Marx nas dcadas de 1850 e 1860. Ele            listas avanadas. Em segundo lugar, constituem
manteve a distino entre valor e preo, mas             uma categoria central para algumas perspec-
reformulou a teoria de valor da fora de trabalho        tivas tericas em sociologia, mormente o es-
de tal modo que ela compreendia duas propo-              trutural-funcionalismo. Em terceiro lugar, a
sies: primeiro, que a fora de trabalho abs-           teoria social trata o problema filosfico da rela-
trata  a fonte de todo valor; e, segundo, que o         o entre enunciados factuais e avaliatrios em
valor adquire uma forma independente de exis-            reflexes metodolgicas que suscitam questes
tncia como uma soma de DINHEIRO. O modo                 fundamentais em torno das relaes entre teoria
como um contedo produz sua forma de apa-                social sistemtica e orientaes e compromis-
rncia , portanto, uma questo imediata. Marx           sos normativos de vrias espcies.
adotou uma abordagem dialtica, na qual o                    O estudo sistemtico de valores como obje-
desenvolvimento dos conceitos em sua anlise             tos depende de um sentido de diversidade ani-
apresenta contradies que so superadas so-             mado pela pesquisa sociolgica e especialmen-
mente para serem reapresentadas de uma forma             te antropolgica, bem como pela desconstruo
que para ele refletia as contradies de um              filosfica de sua alegada universalidade. Na
mundo dividido em classes. O preo , portanto,          Europa do final do sculo XIX, Nietzsche era,
a forma de aparncia na troca do valor criado            evidentemente, a figura central nesse desenvol-
na produo (Marx, 1898); a forma como isso              vimento, mas outros pensadores, com destaque
 realmente calculado por Marx e por autores             para R.H. Lotze (1817-81), foram tambm cen-
subseqentes na mesma tradio  matria de              trais para o surgimento de uma explicao da
considervel controvrsia.                               subjetividade de valores que se desenvolveu
    As duas teorias de valor so incompatveis           paralelamente s explicaes subjetivistas de
entre si. A teoria neoclssica de valor comea           VALOR econmico.
com a otimizao por indivduos atomsticos,                 mile Durkheim continua sendo o exemplo
no v diferena alguma entre valor e preo, e           paradigmtico do estudo cientfico de valores
se concentra em situaes de equilbrio. A teoria        como "fatos morais"; o que ele chamou a cons-
marxista de valor comea com classes, dis-               cience collective implica a conscincia e a per-
tingue o valor do preo e reflete um mundo               cepo do que se passa  nossa volta, e esse
contraditrio em que o antagonismo de classes            duplo significado indica a centralidade que ele
est sendo continuamente produzido e reprodu-            atribuiu aos valores na integrao social. Atra-
zido.                                                    vs, sobretudo, da influncia de Structure of
    Ver tambm VALORES.                                  Social Action (1937), de Talcott Parsons, assim
                                                         como da do conceito de estatuto social, a idia
Leitura sugerida: Arrow, K.J. e Hahn, F.H. 1971: Ge-
neral Competitive Analysis  Fine, B. 1989: Marx's Ca-    de que a integrao  assegurada primordial-
pital, 3 ed.  Foley, D.K. 1986: Understanding Capital   mente por um sistema de valor compartilhado
 Koopmans, T.C. 1957: Three Essays on the State of       tornou-se um lugar-comum do funcionalismo
Economic Science  Marglin, S.A. 1984: Growth, Dis-       norte-americano. Parsons passou suavemente
tribution and Prices  Rowthorn, R. 1974: "Neo-Clas-      de uma "orientao normativa de ao", no
sicism, neo-Ricardianism and Marxism". New Left Re-      sentido trivial de que os atores tm de escolher
view 86, 63-87  Rubin, I.I. 1928 (1973): Essays on
Marx's Theory of Value  Sweezy, P.M., org. 1940: Karl    entre fins alternativos, e uma concepo em
Marx and the Close of his System by Eugen von Bhm-      que, para a ordem social ser assegurada (o
Bawerk [1896] and Bhm-Bawerk's Criticism by Marx,       "problema hobbesiano"), as aes devem ser
by Rudolf Hilferding [1904].                             predominantemente orientadas para um siste-
                                      SIMON MOHUN        ma comum de valores normativos. Seria pos-
                                                         svel, conceber,  claro, a ocorrncia da integra-
valores Na acepo de princpios morais e                o social de um modo mais automtico, sem
outras matrias de interesse, os valores cons-           referncia ao consenso de valores, como de-
tituem um foco de discusso em trs nveis               monstrou o artigo clssico de David Lockwood
principais da teoria social. Em primeiro lugar,          (1964), e o que esse autor chamou de integrao
apresentam-se como objeto de investigao,               social, distinguindo-a do mero processo mec-
como nas recentes discusses de troca de valor           nico de "integrao sistmica", poderia ser en-
dos valores materialistas para os ps-materia-           tendido como envolvendo mais argumentao
792   valores


e a formao de consenso (Jrgen Habermas)           de questes mais tradicionais e prosaicas como
do que a aceitao indiscriminada de um sis-         crescimento econmico, pleno emprego e pro-
tema de valores trivial, desprovido de toda ori-     gresso material. Embora essa tese fosse muito
ginalidade.                                          discutida em seus detalhes, parece apontar para
    Na prtica, porm, o FUNCIONALISMO se man-       uma diferena de valores polticos entre os mo-
teve e caiu baseado no postulado do consenso         vimentos da velha e da nova esquerda, entre
de valor como mecanismo central de integra-          socialistas de classe mdia e de classe traba-
o. A sua queda substancial comeou com a           lhadora e entre socialistas e verdes. De modo
demostrao da variao subcultural em termos        mais ambicioso, Ulrich Beck e outros apos-
de valores na sociologia da transgresso e da        taram que os conflitos distributivos caracters-
juventude, e foi completada com a ascenso, na       ticos das sociedades industriais e sintetizados
dcada de 60, das subculturas em movimentos          no conflito sistmico entre trabalhadores e ca-
de oposio poltica radical e do cultivo de         pital tendem a ser deslocados pelo complexo e
estilos de vida alternativos. Forado a admitir a    mutvel produto do interesse individual e do
diversidade de valores, o estrutural-funciona-       perigo compartilhado (ambiental).
lismo esteve em recesso por algum tempo; seu             Quanto ao papel metodolgico dos valores
ressurgimento, primeiro na Alemanha (Ociden-         no pensamento social e na cincia social, o
tal) e agora, de forma crescente, nos Estados        sculo XX assistiu a uma continuao das po-
Unidos, d-se em termos de modelos sistmicos        sies fixadas no final do sculo XIX. De um
e cognitivistas mais sofisticados. Entrementes,      modo geral, pode-se distinguir uma tradio
a teoria social marxista-leninista oficial nas so-   comteana-positivista (ver POSITIVISMO) levada
ciedades socialistas estatais acolheu o tema de      adiante por Durkheim, na qual a cincia objeti-
um sistema de valores comum, ao mesmo tem-           va pode dizer-nos o que  normal ou patolgico
po em que rejeitava,  claro, a teoria funciona-     em nossas sociedades e como seus rgos regu-
lista e a nfase "idealista" na primazia de va-      ladores remediariam quaisquer defeitos; uma
lores.                                               tradio weberiana que sustenta em teoria e
    Esse contexto terico formou o background        ambiciona alcanar na prtica cientfica uma
para os numerosos estudos sociolgicos e so-         ntida distino entre enunciados factuais e ava-
ciopsicolgicos de sistemas de valores, cujo         liatrios (embora reconhecendo o papel dos
enfoque em dados subjetivos era perfeitamente        valores na orientao da investigao cientfi-
adequado aos instrumentos da pesquisa explo-         ca); e uma nfase marxista na unidade de an-
ratria. Mas na sociologia e na cincia poltica     lise e prescrio na crtica.
as generalidades sobre sistemas de valores, por          A posio positivista original sempre pade-
um lado, e o registro detalhado de opinies          ceu da dificuldade de tornar plausveis os seus
particulares, por outro, deixaram como que um        diagnsticos; na prtica, as intervenes tecno-
hiato em que se poderia ter esperado encontrar       crticas foram mais freqentemente justifica-
uma autntica sociologia de orientaes ticas       das por uma verso simplificada da distino
ou polticas. Parte do atrativo da obra de Michel    fato-valor que considera os juzos de valor es-
Foucault estava, talvez, no fato de que ele aca-     tranhos  cincia e trata os valores como fatos
bou preenchendo esse hiato com seus estudos          a serem documentados e explicados, em um
de punio e sexualidade; e Pierre Bourdieu,         clculo descomplicado dos benefcios de resul-
oriundo de uma tradio antropolgica que            tados polticos alternativos.
sempre fora mais sensvel a essas questes,              A posio de Max Weber era bem mais
tambm deu uma importante contribuio ao            complicada. Ele aceitou a noo de Heinrich
reviver a noo do "habitus", um modo semi-          Rickert de que o que caracteriza os fenmenos
obrigatrio de atuar ou de se comportar.             das cincias "culturais" em oposio s "natu-
    Um aspecto do estudo emprico de valores         rais"  mais a sua relao com os nossos valores
que merece meno especial  a tese desenvol-        do que com um conjunto de leis naturais. Em-
vida por R.F. Inglehart de que as modernas           bora modificasse consideravelmente a herana
sociedades avanadas, e em especial os jovens        rickertiana ao longo de sua carreira e, com o
membros dessas sociedades, esto ficando mais        passar do tempo, mudasse a sua viso da socio-
atrados para os valores ps-materialistas, como     logia, Weber reteve uma distino entre concei-
a livre expresso e a qualidade de vida,  custa     tos ou usos de conceitos meramente classifica-
                                                                                            valores    793


trios e ideal-tpicos. O tipo ideal no era ideal   mentao recebeu de Roy Edgley e Roy Bhas-
em algum sentido avaliatrio, mas representava       kar um desenvolvimento recente, apontando
uma acentuao de fenmenos na realidade em          que se pode passar da demonstrao da falsi-
relao com um ngulo especfico (e determi-         dade de um conjunto de crenas sobre a socie-
nado pelo valor) do interesse nesses fenmenos.      dade para uma crtica das circunstncias sociais
Apesar (ou por causa) disso, afirmou Weber,          que sustentam essas falsas crenas.
ainda era possvel distinguir entre enunciados           Quando o sculo se avizinha do seu trmino,
cientficos e expresses de valor que no tm        a discusso de valores parece sujeita a trs
lugar na cincia. A cincia no pode dizer-nos       influncias que se contrariam. Por um lado, a
o que devemos querer, mas apenas (talvez) o          possibilidade de se realizar uma rgida separa-
que queremos e como poderamos obt-lo, e a          o de enunciados factuais e avaliatrios, so-
que custo. Se o custo vale a pena ser pago          bretudo no pensamento social, parece menos
tambm uma questo para a nossa prpria de-          promissora do que foi nas reas do mundo
ciso. Acreditar em outra coisa  no s conta-      fortemente influenciadas pelo positivismo lgi-
minar a cincia com valores, mas, ainda mais         co e suas conseqncias. Por outro lado, o
importante, abdicar da responsabilidade moral        marxismo e outras fontes de convico e adeso
que cada indivduo tem de escolher entre deuses      poltica parecem estar em eclipse, e um relati-
e demnios alternativos, os sistemas de valor        vismo ps-moderno atualmente em voga trata
alternativos com que os seres humanos se de-         a discusso de valores como algo deselegante.
frontam no mundo moderno. E devemos reali-           Entretanto, dada a magnitude das crises com
zar essas opes: liberdade de valores no sig-      que a humanidade se defronta no final do sculo
nifica indiferena moral.                            XX, isso tem boas possibilidade de no passar
    A posio de Weber, em uma forma adequa-         de um fenmeno temporrio. Mais promissora
damente simplificada, talvez tenha sido a orto-       uma terceira tendncia para a GLOBALIZAO
doxia dominante da cincia social do sculo XX       de valores;  quase impossvel encontrar no
-- embora seja mais fcil,  claro, proclamar        mundo contemporneo qualquer governo que
que a cincia est livre de valores do que im-       se atreva a no tecer louvores, mesmo que
plantar essa liberdade na prtica, como as teo-      hipcritas,  democracia, ao domnio da lei e 
rias da IDEOLOGIA deixam claro. At os cientis-      preservao dos direitos humanos. A eroso das
tas sociais mais comprometidos, como o aus-          ditaduras socialistas estatais por valores que
tromarxista Max Adler, aceitaram a necessi-          eram, talvez, mais "modernos" do que clara-
dade de separar fatos e valores (ver AUSTRO-         mente democrticos, capitalistas ou qualquer
MARXISMO). De um modo geral, porm, os mar-          outra coisa  um sinal dessa tendncia globali-
xistas (deixando de lado os que aceitam incon-       zante. Tal , reconhecidamente, o caso do fun-
dicionalmente um princpio de partidarismo)          damentalismo antimoderno em muitas partes
tm sido atrados pela noo de uma unidade de       do mundo, mas isso talvez prove ser tambm
cincia e (propostas para) a prtica transforma-     um fenmeno relativamente efmero. O aban-
dora consubstanciada na noo de Marx de             dono das esperanas de estabelecer valores uni-
crtica. O capital, por exemplo, era ao mesmo        versais no impede a tentativa mais modesta de
tempo uma obra cientfica de economia polti-        encorajar a generalizao dos que parecem v-
ca, uma crtica da economia poltica como um         lidos.
todo, e uma crtica da economia e sociedade do           Ver tambm TICA; MORALIDADE; NORMA.
capitalismo que acarretou ceteris paribus a bus-
ca de um melhor sistema.                             Leitura sugerida: Beck, Ulrich 1992: Risk Society
                                                      Bhaskar, Roy 1986: Scientific Realism and Human
    A teoria crtica da ESCOLA DE FRANKFURT
desenvolveu essa linha de argumentao, su-          Emancipation  Inglehart, R.F. 1977: The Silent Revo-
                                                     lution: Changing Values and Political Styles among the
blinhando, tal como fez Marx, a insero da          Western Mass Publics  Oakes, Guy 1988: Weber and
atividade cientfica na esfera geral da prtica      Rickert: Concept Formation in the Cultural Sciences
humana e a impossibilidade, assim como a              Ossowska, Maria 1971: Social Determinants of Moral
indesejabilidade, de a separar artificialmente       Ideas  Rose, G. 1981: Hegel Contra Sociology, cap.1
desse contexto no que Habermas chamou um              Weber, Max 1904 (1949): The Methodology of the

"racionalismo positivamente bisseccionado". A        Social Sciences.
linha mais especificamente cognitiva de argu-                                      WILLIAM OUTHWAITE
794   vanguarda


vanguarda Derivado do francs avant-gar-               no modernista, o qual coincide em grande parte
de, o termo significa literalmente a guarda            com um outro, o dos INTELECTUAIS. Mesmo
avanada ou parte frontal de um exrcito. Seu          quando cultural e politicamente conservadoras
uso metafrico data de incios do sculo XX,           (como no caso de T.S. Eliot e muitos outros
embora a idia, a de LIDERANA poltica ou             modernistas), as vanguardas so radicais em
cultural por parte de uma elite esclarecida, auto-     suas expresses tcnicas, as quais sero delibe-
designada,  em certo sentido pelo menos um            radamente obscuras, afetadas, irnicas, erudi-
sculo mais velha e, em outro sentido, to antiga      tas, alusivas ou mesmo (como no movimento
quanto a raa humana. No uso anglo-america-            dadasta de Tristan Tzara e outros, no comeo
no, o termo "vanguarda"  geralmente reserva-          do sculo XX) intencionalmente vazias de sig-
do  liderana poltica (como o "partido de            nificado.
vanguarda", no leninismo) e o francs avant-               Tal como o modernismo, de modo geral, as
garde,  liderana cultural e artstica (que  o       vanguardas so, em parte, uma reao  demo-
aspecto que nos interessa aqui). Assim, esta           cracia burguesa, um aristocratismo dos dclas-
ltima expresso pressupe ou subentende o             ss. Por conseguinte, elas tm dependido com
seguinte:                                              freqncia da aristocracia tradicional para se
    1. Uma condio de permanente revoluo            sustentar. Entretanto sua principal clientela hoje
       cultural ou esttica, a ser iniciada, articu-   em dia (especialmente em Londres e Nova
       lada ou dirigida por uma minoria "avan-         York)  a burguesia vida de status, fato que est
       ada", usualmente de acordo com algum           provando ser fatal para a sua credibilidade.
       processo histrico pretensamente ima-           Com efeito, no momento em que escrevo estas
       nente (cf. PROGRESSO);                          linhas, as vanguardas parecem estar em declnio
    2. Relutncia por parte dos "liderados" (se-       por toda parte, ao passo que o ps-modernismo
       jam eles as "massas" proletrias ou os          e um tradicionalismo revivido florescem, so-
       "filisteus" burgueses) em se submeter a         bretudo, na mais pblica de todas as artes, a
       esses "lderes" (ver CULTURA DE MASSA);         arquitetura (ver MODERNISMO E PS-MODERNIS-
                                                       MO).
    3. Um direito no-outorgado da vanguarda
       para os "liderar" ou, pelo menos, os ins-       Leitura sugerida: Butler, Christopher 1980: After the
       tigar, insultar ou irritar ao se oferecer       Wake: the Contemporary Avant-Garde  Kermode,
       para exercer esse papel;                        Frank 1971: Modern Essays  Ortega y Gasset, Jos
                                                       1964 (1972): The Dehumanization of Art, and Other
    4. Esse direito seria justificado (se  que o      Writings on Art and Culture and Literature  Poggioli,
       seria) pelas pretenses da vanguarda a          Renato 1968: The Theory of the Avant-Garde.
       representar, de bom ou de mau grado, as                                             ROBERT GRANT
       aspiraes ntimas, no-reconhecidas,
       dos excludos dela (cf. a doutrina marxis-
                                                       variveis padro So tipos de orientao
       ta de "falsa conscincia", para o efeito de
                                                       para a ao, papis ou relaes sociais que
       que, sob arranjos sociais imperfeitos, os
                                                       apresentam algumas escolhas dicotmicas es-
       no-instrudos so mantidos na ignorn-
                                                       pecficas antes que a situao tenha uma signi-
       cia de suas "reais" necessidades e dese-
                                                       ficao determinada (Parsons e Shils, 1962,
       jos, que somente a "vanguarda" pode
                                                       p.76-77). Foram originalmente propostas por
       perceber.
                                                       Parsons (1951, p.58-67), que sistematizou, re-
    Uma vanguarda no  constituda por deter-         finou e ampliou a abordagem ideal-tpica we-
minantes convencionais de status, como rique-          beriana  sociedade, sustentando que as aes e
za, nascimento ou funo administrativa, mas           os papis sociais podem ser classificados em
unicamente por mrito pessoal ou talento es-           termos de cinco dimenses bsicas que apre-
ttico (avaliado per se). Em relao  cultura         sentam alternativas polares. Podem ser usadas
circundante, situa-se na posio ambgua de            para comparar culturas ou subsistemas e grupos
dependncia e ALIENAO simultneas.                   dentro de uma sociedade; mas uma de suas mais
    Embora tenham razes no ILUMINISMO e no            importantes e freqentes aplicaes tem sido a
Romantismo (cf. a concepo de Shelley dos             descrio da estrutura social ideal-tpica de so-
poetas como "legisladores no-reconhecidos"),          ciedades "tradicionais" e "modernas" (ver MO-
as vanguardas so essencialmente um fenme-            DERNIZAO). Particularismo versus universa-
                                                                                          verdade     795


lismo  uma dessas variveis padro. As aes       que em sociedades avanadas,  predominante
particularsticas so executadas para ocupantes     a orientao para a coletividade. Mas se pode
especficos de papis em funo de sua situao     igualmente sustentar que os ocupantes de pa-
particular, a qual no pode ser transferida (ami-   pis em sociedades subdesenvolvidas tendem a
zade, relaes de famlia). As aes universals-   se orientar mais para os interesses coletivos do
ticas podem ser definidas para uma categoria        que os ocupantes de papis em sociedades in-
mais geral de pessoas, de acordo com critrios      dustriais individualistas, que tendem a buscar a
objetivos (relao vendedor-fregus). Uma se-       realizao de seus interesses privados.
gunda varivel padro  difusividade versus
                                                    Leitura sugerida: Hoogvelt, A.M.M. 1976: The So-
especificidade. Algumas relaes so funcio-        ciology of Developing Societies  Parsons T. 1967:
nalmente difusas, na medida em que abrangem         "Pattern variables revisited: a response to Robert Du-
uma srie de dimenses no-especificadas            bin". In Sociological Theory and Modern Society.
(amizade, papis de famlia). Outras so funcio-                                         JORGE LARRAIN
nalmente especficas, na medida em que seu
contedo  claramente definvel e delimitado        verdade Este parece ser, de imediato, o mais
(papis burocrticos).                              simples e o mais difcil dos conceitos. Afirmar
    Uma terceira varivel padro ope adscrio     que uma proposio  "verdadeira"  dar-lhe o
a desempenho. Alguns papis so acessveis e        nosso assentimento -- essa  a sua funo
conferem status de acordo com o desempenho          primordial, da qual as teorias de "redundncia"
(e dele dependendo). Outros advm natural-          e "performticas" da verdade derivam seu po-
mente aos atores e lhes proporcionam status de      der. Mas fica-se assim comprometido com uma
acordo com seus atributos fsicos e sociais no-    assero sobre o mundo -- para o efeito, grosso
vinculados ao desempenho (classe, sexo, idade,      modo, de que  assim que as coisas so -- a
famlia etc.). A quarta consiste em afetividade     partir da qual, desde os tempos de Aristteles,
versus neutralidade afetiva. Alguns papis for-     as teorias de correspondncia da verdade obti-
necem satisfao imediata no prprio desempe-       veram sua aceitao. Essa assero contm a
nho de suas atividades esperadas, ao passo que      fora normativa de "acredite em mim... aja de
outros adiam a satisfao e se tornam pura-         acordo com isso", da qual as teorias pragmti-
mente instrumentais para um objetivo ulterior.      cas ganharam sua autoridade e influncia (ver
Finalmente, h a orientao no sentido de           PRAGMATISMO). Ao mesmo tempo essa assero,
interesses coletivos versus orientao no senti-    se desafiada, precisa ser fundamentada, exign-
do de interesses individuais. Alguns papis so     cia que parece apontar na direo das teorias de
exclusivamente orientados para o interesse co-      coerncia. Assim, um julgamento de verdade
letivo (servidor pblico); alguns outros acar-      tipicamente contm ou subentende uma qu-
retam a busca do interesse privado (empres-        drupla dimensionalidade, na medida em que
rios). Parsons (1951, p.176-77) afirma que, em      possui aspectos expressivamente verazes, des-
sociedades tradicionais, os papis tendem a ser     critivos, evidenciais e imperativamente fiduci-
adscritivos, difusos, particularistas e afetivos.   rios. Se o seu bsico significado de expresso
Em sociedades industriais, pelo contrrio, pre-     do mundo  simples (o seu aspecto descritivo
dominam os papis orientados para o desempe-        -- "isto  como as coisas so no mundo"), 
nho, universalistas, afetivamente neutros e es-     igualmente fcil ver que a fala verdadeira satis-
pecficos. A transio da sociedade tradicional     faz uma necessidade transcendental-axiolgi-
para a sociedade industrial subentende, de um       ca, agindo como um mecanismo de direo para
modo geral, a progressiva expanso da esfera        os usurios de uma linguagem encontrarem seu
de aplicao do segundo tipo de papis e uma        caminho no mundo.
contrao da esfera de aplicao do primeiro.           Mas "verdade"  tambm o mais difcil dos
Parsons deixa de fora a ltima varivel padro,     conceitos: dificilmente se encontra uma teoria
provavelmente por causa de algumas dificul-         que no contenha alguma cilada ardilosa, mas
dades em formular uma argumentao muito            na qual seja igualmente difcil no descortinar
clara em uma direo ou outra. Hoselitz (1965,      alguma verdade ou plausibilidade. Isso tem ra-
p.40) assinalou que, em sociedades subdesen-        mificaes para teorias de significado, refern-
volvidas, a orientao para o interesse pessoal     cia, percepo, causalidade, mediao, experi-
prevalece entre as elites dominantes, ao passo      mento e comunicao (e assim, de modo geral,
796   verdade


para a sociologia filosfica e a ONTOLOGIA).        liam James e John Dewey e do perspectivismo
Uma distino bsica  entre teorias de signifi-    nietzschiano. A primeira foi recentemente po-
cado e critrios para a verdade. Prima facie,       pularizada por Richard Rorty, para quem o ni-
seria de esperar que os critrios para afirmaes   co conceito vivel de verdade  a assertividade
de verdade fossem to variados quanto os con-       justificada (e, neste ponto, o pragmatismo har-
textos em que elas so formuladas.                  moniza-se com as teorias construtivistas e in-
    As mais importante teorias histricas de ver-   tuicionistas das matemticas). Isso,  claro, 
dade no sculo XX foram as teorias de corres-       vulnervel  objeo de que uma proposio
pondncia, coerncia, pragmticas, de redun-        pode mostrar-se justificadamente suscetvel de
dncia, performticas, de consenso e hegelia-       assero e ser, no entanto, falsa. Para a tradio
nas. As teorias marxistas foram distribudas ao     nietzcheana, que informa o ps-estruturalismo
longo desse espectro -- com o marxismo oci-         contemporneo, a verdade , em ltima anlise,
dental vendo tipicamente a verdade como a           um "exrcito mvel de metforas", uma expres-
expresso prtica de um sujeito, em vez de uma      so arbitrria da vontade de poder, que deve ser
representao teoricamente adequada de um           pensada simultaneamente como necessria e
objeto, quer isso tenha sido na forma coerentista   impossvel, "sob rasura".  difcil ver essa po-
(como em Gyrgy Lukcs), pragmatista (como          sio, quer em suas roupagens derrideanas ou
em Karl Korch) ou consensualista (como em           foucaultianas, sob qualquer outro prisma que
Antonio Gramsci) (ver Bhaskar, 1991).               no o da auto-anulao.
    As teorias de correspondncia tiveram seu           As outras teorias devem ser tratadas de mo-
apogeu durante a supremacia, em meados do           do mais breve. A teoria da redundncia, formu-
sculo, do POSITIVISMO lgico, embora fossem        lada inicialmente por F.P. Ramsey, parece intro-
tambm sustentadas por alguns crticos deste,       duzir sub-repticiamente a verdade pela porta
como J.L. Austin. As mais influentes teorias de     dos fundos ou ento negar a necessidade axio-
correspondncia foram a teoria da repre-            lgica do predicado de verdade. As teorias per-
sentao, "quadro" ou "pintura" do primeiro         formticas do tipo defendido por P.F. Strawson,
Wittgenstein, a teoria semntica de A. Tarski e     R.M. Hare e John Searle parecem mais satisfa-
a teoria de Karl Popper da cincia como reve-       trias a esse respeito, mas no do o devido
ladora da crescente verossimilhana ou pare-        relevo  extenso em que o predicado de ver-
cena da verdade. Para os crticos das teorias de   dade necessita estar fundamentado, fato recen-
correspondncia, a objeo bsica sempre foi        temente acentuado por Kripke. As teorias de
que parece no haver um ponto de observao         consenso, embora capazes de formulaes
arquimediano a partir do qual se possa fazer        ideais-tpicas, parecem vulnerveis  objeo
uma comparao dos itens correspondentes.           bvia de que 20 milhes de franceses podem
    As teorias de coerncia, em voga no comeo      estar errados.
do sculo sob o impacto residual do idealismo           Bhaskar, desenvolvendo o seu realismo cr-
absoluto, mas recentemente defendidas com           tico, esboou recentemente uma tetracomposi-
vigor por N. Rescher e alguns outros, parecem       o da verdade e uma dialtica associada da
mais plausveis como explicao de um critrio      verdade em que ela  vista como um conceito
do que como o significado de verdade. As teo-       de muitas camadas. O primeiro momento ou
rias hegelianas podem ser consideradas um ca-       componente da tetracomposio v a verdade
so especial das teorias de coerncia, em que o      como guia da ao (action guiding) e social,
que define a verdade  a conformidade de um         como normativa-fiduciria. O segundo compo-
objeto  sua noo (em ltima anlise,  totali-    nente a v como adequante (adequating) (jus-
dade ou ao todo), e no o inverso. Mas, quer nas    tificadamente sustentvel) e, na dimenso tran-
declinaes hegelianas ou nas mais tipicamente      sitiva do discurso, como relativa. O terceiro
anglo-saxnicas, as teorias de coerncia pare-      componente v a verdade como expressiva-re-
cem pressupor algo como uma explicao de           ferencial (expressive-referential), como duali-
"correo" inspirada na teoria de correspon-        dade epistmico-ntica, e as asseres de ver-
dncia.                                             dade como absolutas (dizer como as coisas so
    No essencial, as duas espcies mais influ-      no mundo). O quarto componente v a verdade
entes de pragmatismo derivam, respectivamen-        como alctica, como genuinamente ontolgica
te, da tradio americana de C.S. Peirce, Wil-      (e, portanto, objetiva), como, na dimenso in-
                                                                                          Verstehen    797


transitiva, as razes para as coisas e os fenme-        vista como sendo, de algum modo, semelhante
nos do mundo.                                            ao entendimento de um texto escrito. Usada
    Neste ponto, estamos interessados na ver-            originalmente no sculo XIX para designar a
dade (natureza, propsito, realizao) das coi-          penetrao imaginativa de textos religiosos e
sas (incluindo pessoas), no simplesmente das            outros textos histricos (ver HISTORICISMO), a
palavras. E na dialtica da cincia descrita pelo        palavra foi usada pelo filsofo da histria Jo-
realismo crtico passamos da certeza subjetiva           hann Gustav Droysen (1838-1908) em seu ata-
por parte de um grupo de cientistas a respeito           que  concepo positivista de que a histria
de alguma proposio (ou teoria)  aceitao,            deveria ter por objetivo descobrir leis como as
pela comunidade cientfica, da faticidade inter-         das cincias naturais (ver NATURALISMO). Pode-
subjetiva (intersubjective facthood) da proposi-         mos entender o esprito (Geist) de um modo
o em questo. A comunidade procura agora               diferente da natureza; possumos o que Droysen
exumar e trazer  luz a razo, tipicamente em            chamou "uma compreenso imediata e subjeti-
um nvel mais profundo da estrutura ou em uma            vamente certa das questes humanas", mas isso
totalidade mais vasta, do fenmeno descrito por          deve adquirir maior preciso e "objetividade"
essa proposio. Quando isso  feito, atingimos          graas aos mtodos da pesquisa histrica. Essas
o nvel da verdade objetiva ou alctica, em que          idias receberam um desenvolvimento ainda
a verdade representa agora a descoberta ou               maior com o filsofo Wilhelm Dilthey (1833-
revelao da razo para o fenmeno. Na vida              1911), em sua tentativa de estabelecer as fun-
social, uma forma de conhecimento mais vasta             daes filosficas das cincias humanas, ou
ou mais profunda pode freqentemente criticar,           Geisteswissenschaften. A obra de Dilthey exibe
ceteris paribus, uma forma menos desenvolvi-             uma mudana de nfase do entendimento do
da, como  amplamente demonstrado pela ex-               significado subjetivamente intencional do es-
tensa tradio da teoria crtica, desde Marx at         critor ou ator para uma abordagem mais es-
Habermas.                                                trutural em que o significado  antes o produto
    O compromisso do realismo crtico com o              de um sistema mais vasto, como uma lingua-
realismo moral abre novas possibilidades na              gem natural ou um conjunto de convenes
teoria da verdade que no podem ser aqui ex-             culturais, e essa distino entre significado sub-
ploradas, exceto para dizer que Bhaskar sus-             jetivamente intencional e "objetivo" tendeu a
tentou recentemente, em uma linha paralela ao            dominar a discusso subseqente.
argumento de Habermas, que todo e qualquer                   As figuras centrais na sociologia verstehen-
enunciado expressivamente verdico implica,              de so Georg Simmel e Max Weber. Primeiro,
em ltima instncia, um compromisso com o                Simmel tratou sistematicamente essas questes
projeto de emancipao humana universal. Is-             em Die Probleme der Geschichtsphilosophie
so, pode-se igualmente afirmar,  como a liber-          (1892) [Os problemas da filosofia da histria].
dade e o bem-estar, uma condio para qualquer           Weber (1903-6) elogiou Simmel por distinguir
verdade subjetiva ou intersubjetiva.                     claramente entre o entendimento objetivo do
Leitura sugerida: Bhaskar, Roy 1992: Dialetic  Pit-
                                                         significado de uma expresso e o entendimento
cher, G. 1964: Truth  Popper, Karl 1972: Objective       subjetivo ou interpretao dos motivos da pes-
Knowledge  Ramsey, F.P. 1931: The Foundation of          soa que a proferiu. No exemplo de Simmel, um
Mathematics  Rescher, N. 1973: The Coherence Theo-       soldado que recebe uma ordem verbalmente
ry of Truth  Rorty, R. 1980: Philosophy and the Mirror   ambgua pode formular uma hiptese sobre os
of Nature  Tarski, A. 1956: Logic, Semantics and Ma-     motivos da pessoa que emitiu a ordem. Este
thematics.
                                                         ltimo processo, insiste Weber,  uma forma de
                                      ROY BHASKAR
                                                         conhecimento causal. As explicaes nas cin-
verde Ver MOVIMENTO ECOLGICO.                           cias sociais devem ter em vista a adequao
                                                         significativa e causal. No caso da muito co-
Verstehen A palavra alem para "entendi-                 nhecida exposio de Weber da tica protes-
mento" passou a ser usada em um sentido mais             tante e do esprito do capitalismo (1904-05), a
limitado para se referir  compreenso de textos         explicao das origens religiosas da inovao
e outras realizaes humanas, tais como aes            econmica protestante nos primrdios da Euro-
e fenmenos sociais e culturais, quando a com-           pa moderna deve fazer sentido em termos do
preenso desses fenmenos  freqentemente               que sabemos acerca da motivao humana, e
798   vcio


deve existir alguma demonstrao de que essas         Leitura sugerida: Apel, K.O. 1979 (1984): Unders-
idias influenciaram, de fato, a conduta de em-       tanding and Explanation: a Transcendental-Pragmatic
                                                      Perspective  Dallmayr, F. e McCarthy, T., orgs. 1977:
presrios e trabalhadores protestantes. A socio-      Understanding and Social Inquiry  Hollis, M. 1977:
logia de Weber tende a enfatizar o significado        Models of Man  Muller-Doohm, Stefan, org. 1992:
subjetivamente pretendido, ou um TIPO IDEAL de        Verstehen und Methoden  Outhwaite, William 1975
tal inteno, sustentando que os significados         (1986): Understanding Social Life, 2ed.,  Winch, Pe-
objetivos ou corretos so do interesse de outras      ter 1958: The Idea of a Social Science and its Relation
disciplinas, como a filosofia ou o direito. A sua     to Philosophy  1964: "Understanding a primitive so-
                                                      ciety". American Philosophical Quarterly 1.4, 307-24
categoria de entendimento "direto" ou "imedia-         Wright, G.H. von 1971: Explanation and Understan-
to" (aktuelles Verstehen), contudo, est perto do     ding.
que tem sido usualmente entendido como signi-                                        WILLIAM OUTHWAITE
ficado objetivo.
    Alfred Schutz inaugurou o que veio a ser          vcio O estado de imoderada fixao ou exa-
conhecido como "sociologia fenomenolgica"            gerada inclinao refere-se usualmente a uma
com o livro traduzido para o ingls como The          droga como o lcool ou a herona, embora o
Phenomenology of the Social World (1932).             conceito tenha sido ampliado a outras condutas
Schutz sublinhou a dimenso "cotidiana" e de          viciosas, como os jogos de azar e a gula. Uma
"senso comum" do entendimento e a cons-               descrio alternativa preferiu freqentemente o
truo de tipos ideais, e a ETNOMETODOLOGIA           termo "dependncia". A Organizao Mundial
continua nessa direo, que por sua vez tem sido      de Sade (1981) props as seguintes caracters-
crescentemente assimilada  tendncia domi-           ticas do viciado em drogas:
nante da teoria social, na obra de Anthony Gid-           -- compulso subjetiva a ingerir uma droga;
dens e outros.                                            -- desejo de suspender o consumo embora
    Em uma linha de desenvolvimento muito             a ingesto continue;
distinta, os racionalistas tm sustentado que "a          -- padro estereotipado, inflexvel, de in-
                                                      gesto;
ao racional  a sua prpria explicao" (Hol-
                                                          -- adaptao dos sistemas nervosos afeta-
lis, 1977, p.21) (ver RACIONALIDADE E RAZO).
                                                      dos pela droga, levando  tolerncia dos seus
Enquanto a HERMENUTICA sublinha a recons-
                                                      efeitos e sintomas de supresso quando a droga
truo imaginativa do que Wittgenstein cha-
                                                       suspensa;
mou de "formas de vida" (ver Winch, 1958 e
                                                          -- prioridade do comportamento de busca
1964), os tericos da ao racional em econo-
                                                      da droga sobre todas as outras atividades;
mia, psicologia e mesmo em sociologia e antro-            -- rpido restabelecimento da sndrome
pologia tendem a operar com uma explicao            quando se quebra um perodo de abstinncia.
universalista da motivao humana e a prestar             Nem todas as caractersticas so mostradas
relativamente pouca ateno s "autocompre-           por todas as drogas ou todas as pessoas afetadas.
enses" dos atores -- ao seu prprio senso do             No que diz respeito s causas, a herana 
que esto fazendo e por qu.                          um bode expiatrio de escassa importncia para
    Na ltima dcada do sculo XX, as opo-            a dependncia do lcool. As mais poderosas
sies originais que Max Weber tentou superar         foras causadoras so, potencialmente, as mais
entre Verstehen e explicao (Erklren), ou en-       capazes de remdio: fatores socioeconmicos
tre EXPLICAO causal e teleolgica, passaram         que determinam a aceitabilidade e acessibi-
para segundo plano, assim como as oposies           lidade de compostos psicoativos. Tais influn-
afins entre teorias estruturalistas e individualis-   cias, incluindo o custo do lcool, explicam as
tas, ou materialistas e idealistas. A Teoria Cr-     diferenas na preponderncia de vcios entre
tica (ver ESCOLA DE FRANKFURT)  apenas uma           pases, raas, religies, sexos e pocas. As in-
das maneiras como os tericos sociais tentaram        teraes geradoras de dependncia entre as dro-
realizar uma sntese dessas oposies. A mais         gas e o crebro so mais bem entendidas no caso
saliente oposio  entre a teoria da ao racio-     dos opiceos, os quais exercem efeitos seme-
nal individualista, em cincia econmica e ou-        lhantes aos das endorfinas, substncias en-
tras cincias sociais, e as abordagens que com-       dgenas que atuam como neurotransmissores.
binam princpios estruturalistas e culturalistas      A dependncia  ainda mais promovida por
em uma continuao da tradio da Verstehen.          reaes assimiladas de resposta a estmulos ex-
                                                                                 Viena, crculo de     799


ternos e internos pelo desejo incontrolvel e a      lhamento breve pode ajudar pessoas no comeo
ingesto da droga.                                   da dependncia alcolica e auxilia bastante
    O mais comum -- e o mais letal -- dos            gente com o vcio do fumo a extrair o maior
vcios  o fumo. A dependncia, que  mantida        benefcio da interveno de seus mdicos. Ou-
pelo contedo de nicotina, est diminuindo nas       tras pessoas necessitam de ajuda mais prolon-
naes mais ricas e mais bem informadas, mas         gada. Organizaes voluntrias ganham cada
aumentando nos pases mais pobres. A depen-          vez maior destaque. Alcolicos Annimos, fun-
dncia do lcool (alcoolismo) entrou em um           dada em 1936,  o paradigma para grupos de
ciclo decrescente nos pases mais prsperos,         auto-ajuda nos comportamentos viciosos, as-
mas com o recrudescimento no marketing in-           sim como em outras reas de sofrimento e
ternacional de bebidas alcolicas vem regis-         angstia.
trando expanso em regies menos ricas. O uso            Os meios preventivos esto divididos entre
ilcito de drogas, sobretudo de herona, cocana     reduo da oferta e reduo da demanda de
e anfetaminas, gera preocupaes crescentes          drogas. A reduo da oferta envolve o controle
por suas implicaes sociais, criminosas e para      legal sobre a produo e distribuio de subs-
a sade. O uso do fumo  mais freqente nas          tncias psicoativas lcitas e ilcitas. Os advers-
camadas de baixa renda e o uso de drogas             rios do cumprimento da lei a todo custo apon-
ilegais, em reas urbanas desfavorecidas.            tam o seu fracasso em impedir o narcotrfico.
    As conseqncias sociais do vcio resultam       Os adeptos assinalam que as restries nacio-
em parte da intoxicao e da embriaguez --           nais e internacionais limitam o mau uso e a
com relaes interpessoais perturbadas, aciden-      dependncia de drogas, e podem citar xitos
tes, declnio no desempenho profissional -- e,       resultantes de medidas legais.
por vezes, de atividades ilcitas para financiar o       A reduo da demanda inclui o reconheci-
consumo de drogas (ver tambm CRIME E TRANS-         mento precoce e o tratamento de viciados, a rea
GRESSO). Os danos fsicos so mais salientes        menos tangvel das melhorias nas condies
em conseqncia do fumo (cncer de pulmo,           sociais e a educao. Embora os mtodos de
enfisema pulmonar, distrbios cardiovascula-         educao e at o seu valor sejam discutidos, a
res) e do lcool (incluindo danos cerebrais e        reduo do vcio e dos danos do lcool e do
hepticos). Injees de drogas contaminadas          fumo em numerosos pases acompanhou o au-
produzem infeces, mormente com os orga-            mento da conscincia pblica.
nismos da hepatite virtica e da Aids. As com-
plicaes psicolgicas do vcio incluem depres-      Leitura sugerida: Ghodse, H. e Maxwell, G. orgs. 1990:
                                                     Substance Abuse and Dependence: an Introduction for
so, com risco de suicdio, ansiedade e psicoses     the Caring Professions  Jellinek, E.M. 1960: The Di-
transitrias.                                        sease Concept of Alcoholism  Marlatt, A. e Gordon J.
    O ponto de vista de que o vcio representa       1985: Relapse Prevention  Oxford, J. 1985: Excessive
uma deficincia moral tem cruzado lanas ao          Appetites: a Psychological View of Addiction  Royal
longo dos sculos com o conceito de doena           College of Psychiatrists 1986: Alcohol. Our Favourite
(ver tambm MEDICINA). O modelo mdico im-           Drug  1987: Drug Scenes.
ps-se a partir da dcada de 30 e passou a ser                                   JOHN SPENCER MADDEN
desafiado, por sua vez, pela tese de que o vcio
 um estado condicionado, suscetvel de des-         Viena, crculo de Grupo de filsofos e cien-
condicionamento atravs de tcnicas psicolgi-       tistas que, nas dcadas de 20 e 30, desempenhou
cas. Os argumentos so em parte semnticos (o        papel crucial na formao do movimento filo-
que  uma doena?), em parte determinados por        sfico conhecido como positivismo lgico ou
lutas de poder entre profisses. Biologia, medi-     empirismo lgico. Deu continuidade a uma tra-
cina, psicologia, sociologia, antropologia, eco-     dio de pensamento empirista em Viena cujo
nomia e religio, todas contribuem para um           principal representante era o filsofo-cientista
entendimento da conduta viciosa e, com fre-          Ernst Mach, nomeado em 1895 para a recm-
qncia, do seu tratamento e preveno.              fundada ctedra de filosofia das cincias in-
    Os vcios possuem uma proporo espon-           dutivas na Universidade de Viena e que de-
tnea de remisses, de modo que as dificul-          fendeu vigorosamente um positivismo radical-
dades de avaliao conduzem ao debate sobre          mente antimetafsico. Em 1922, Moritz
os mritos desta ou daquela terapia. O aconse-       Schlick, tambm filsofo-cientista, foi nomea-
800   Viena, crculo de


do para essa ctedra, e foi de um seminrio         dedicavam a propsitos afins. Assim, foi prin-
liderado por Schlick que, em 1923, surgiu o         cipalmente em virtude das atividades do crculo
crculo de Viena.                                   de Viena que, na dcada de 30, nasceu uma
    Alm de Schlick, os mais importantes mem-       comunidade internacional de filosofia cientfi-
bros do crculo, em termos de seu desenvolvi-       ca. Em 1930 comeou a ser publicada a revista
mento filosfico, foram Rudolf Carnap e o eco-      Erkenntnis, principal rgo do movimento. O
nomista Otto Neurath. Carnap, tal como              crculo tambm publicou vrias sries de mo-
Schlick, tinha formao em filosofia e em fsi-     nografias, tais como Schriften zur wissenschaft-
ca, mas tambm estava profundamente familia-        lichen Weltauffassung (Estudos sobre a concep-
rizado com os modernos desenvolvimentos em          o cientfica do mundo) e Einheitswissen-
lgica. Mudou-se para Viena em 1926 e se            schaft (Unidade da cincia).
tornou Dozent (instrutor) de filosofia na univer-       O ataque dos positivistas vienenses  meta-
sidade; virou rapidamente uma figura proemi-        fsica, pelo qual ganharam notoriedade, baseou-
nente nas discusses do crculo e se firmou         se na moderna lgica matemtica, tal como
como o mais notvel expositor das idias do         desenvolvida, em especial, na obra de Bertrand
positivismo lgico. Ludwig Wittgenstein, em-        Russel e Alfred North Whitehead, Principia
bora no fosse membro do crculo de Viena,          Mathematica (1910-11), e no princpio de veri-
influenciou-o profundamente atravs do seu          ficabilidade, o qual estabelece que o significado
Tractatus Logico-philosophicus (1921), que foi      de uma proposio factual reside no mtodo de
intensamente discutido no crculo; com efeito,      sua verificao experiencial, que eles deriva-
Wittgenstein era considerado pelos positivistas     ram de Wittgenstein. A lgica moderna havia
vienenses um dos trs mais notveis pioneiros       mostrado, para satisfao deles, que a matem-
da "concepo cientfica do mundo" que eles         tica  parte da lgica, e eles interpretaram as
prprios sustentavam, sendo os outros dois Al-      proposies da lgica, uma vez mais na esteira
bert Einstein e Bertrand Russell.                   de Wittgenstein, como tautologias vazias per-
    No final da dcada de 20, o crculo de Viena    feitamente compatveis com o princpio
apresentou-se ao pblico como um novo movi-         empirista central de que todo conhecimento
mento com uma finalidade cientfica e educa-        genuno (isto , factual) deriva da experincia:
cional abrangente. Foi especialmente Neurath,       assim, todas as proposies slidas so tautolo-
socialista ativo e hbil organizador, quem insis-   gias ou ento enunciados empricos. Por outro
tiu em que o grupo deveria atuar  maneira de       lado, asseres metafsicas como "Deus existe"
um partido a fim de promover o esclarecimento       ou "Existem valores absolutos", uma vez que
oferecido pela concepo cientfica do mundo        no so tautolgicas nem empricas, mas
e, por conseguinte, servir ao desenvolvimento       pretendem veicular informao factual in-
da sociedade. Com esse objetivo foi fundada a       dependentemente da experincia, constituem
Sociedade Ernst Mach. No ano seguinte, em           na realidade pseudoproposies desprovidas de
1929, divulgou-se em Viena o manifesto Wis-         significado (embora possam ter significao
senchaftliche Weltauffassung: Der Wiener            emotiva); com efeito, as declaraes metafsi-
Kreis [A concecpo cientfica do mundo: o          cas podem ser ainda mais radicalmente infun-
Crculo de Viena] (Carnap et al., 1929) no qual     dadas, porquanto so capazes de violar at as
a rigorosa eliminao da metafsica do domnio      regras da gramtica lgica, aspecto enfatizado
do pensamento racional e o estabelecimento da       em especial por Carnap desde A Estrutura lgi-
cincia unificada (Einheitswissenschaft) por        ca do mundo e Pseudoproblemas em filosofia
meio da reduo lgica da cincia aos termos        (ambos in Carnap, 1928).
da experincia imediata foram anunciados co-            Essa crtica, contudo, no se limitou  meta-
mo os objetivos bsicos do novo movimento.          fsica tradicional (incluindo, na opinio do cr-
No mesmo ano o crculo organizou, em conjun-        culo, o apriorismo kantiano), mas se aplicou
to com a Sociedade para a Filosofia Emprica        tambm  teoria tradicional do conhecimento,
(grupo de Berlim com pontos de vista seme-          que discutiu tpicos como a realidade do mun-
lhantes, unido em torno de Hans Reichenbach),       do externo, isto , a questo de saber se o
um congresso realizado em Praga. Seguiram-se        verdadeiro  idealismo subjetivo ou o realismo.
outros congressos e foi estabelecida a coopera-     Em sua Allgemeine Erkenntnislehre [Teoria ge-
o com outros grupos e indivduos que se           ral do conhecimento] (1918), Schlick rejeitou a
                                                                               Viena, crculo de   801


metafsica tradicional, mas, ao defender refi-       sublinhou Carnap (1932 (1934)), os enunciados
nadamente o realismo, ainda se movimentava           singulares da cincia so to inverificveis por
dentro dos limites da teoria do conhecimento         meio de experincias quanto as leis gerais. As-
tradicional. Nas obras de Carnap de 1928, po-        sim, a verificabilidade como critrio para o
rm, a questo idealismo-realismo  exposta          contedo emprico de um enunciado foi subse-
como mais um pseudoproblema em filosofia,            qentemente substituda pela noo mais tnue
ponto de vista que foi ento adotado tambm          de confirmabilidade; de fato, j em 1932 Car-
pelo prprio Schlick (1932).                         nap falava de verificao apenas no sentido de
    A rejeio da metafsica, que veio a ser         uma tnue verificao, isto , de confirmao
formulada com mincia extrema por Carnap             (Carnap, 1932 (1987)).
(1932 (1950)), seria complementada e refora-            Outra dificuldade dizia respeito  nature-
da pela exposio da unidade da cincia. Neu-        za das proposies da filosofia cientfica.
rath, em particular, que tinha fortes inclinaes    Wittgenstein, no Tractatus, admitira que os seus
marxistas, opunha-se radicalmente  diviso          prprios enunciados acerca da estrutura do
das cincias, comum no mundo acadmico ale-          mundo e de como a linguagem se relaciona com
mo, em cincias naturais e cincias culturais       este, embora sejam "elucidaes" que ajudam
(Geistes ou Kulturwissenschaften) como um            nosso entendimento, no so proposies real-
foco gerador de metafsica. A Estrutura lgica       mente significativas, pois no afirmam coisa
do mundo, de Carnap, foi o primeiro esforo          alguma. Enquanto Schlick (1930) aceitava a
sistemtico, dentro do crculo de Viena, para dar    concluso de Wittgenstein de que a filosofia
contedo  tese da unidade da cincia, ao tentar     no produz verdade alguma, sendo apenas a
mostrar como todos os conceitos cientficos          atividade de esclarecimento de proposies,
podem ser reduzidos  corrente de experincia        Neurath (1932a) protestava, afirmando que a
prpria de cada indivduo, ou construdos a          cincia unificada no tem a menor necessidade
partir desta. Esse era, portanto, o quadro que o     de uma metafsica de elucidaes. Carnap en-
crculo de Viena, no final da dcada de 20,          frentou o problema estabelecendo a distino
apresentava ao mundo  sua volta: todos os           entre o modo material e o formal (sinttico) de
enunciados empricos, como os nicos enuncia-        discurso (Carnap, 1932 (1934)). A filosofia,
dos factuais significativos, tinham que ser re-      explicou ele em The Logical Syntax of Lan-
construdos como enunciados cujos termos se          guage (1934),  investigao lgica da estrutura
referiam  experincia imediata sem implicar,        sinttica da linguagem (das linguagens). Assim,
assim, a pretenso metafsica de que somente         apresentar a tese ontolgica de que os nmeros
tais experincias so reais e, de modo corres-       so uma categoria fundamental de entidades, ou
pondente, se presumia que eles eram verific-        de que eles constituem certas classes,  expres-
veis (ou falsificveis) de forma conclusiva por      sar no enganador modo material impregnado de
enunciados primitivos expressando experin-          contrasenso metafsico o que equivale, no cor-
cias imediatas, enunciados esses que, nesse ter-     reto modo formal, a formular a assero sint-
reno, se considerava fornecerem uma incor-           tica de que, em uma linguagem, as palavras-n-
rigvel e slida base de conhecimento.               meros so primitivas e, em outra, so cons-
    Logo, porm, ocorreram considerveis mu-         trudas como certas palavras-classes. As discus-
danas e desenvolvimentos doutrinrios, quan-        ses filosficas do gnero indicado (discusses
do o quadro descrito em linhas gerais deu ori-       de categoria) reduzem-se, portanto, a propor
gem a certo nmero de problemas srios. Em           diferentes liguagens e, como no h uma ques-
primeiro lugar, o princpio de verificabilidade      to terica envolvida em tais propostas, elas
ameaava colocar a cincia no mesmo nvel da         devem ser tratadas, apontou Carnap, no esprito
metafsica, uma vez que as leis naturais no         convencionalista do que ele chamou o princpio
podem ser verificadas de forma conclusiva.           de tolerncia.
Schlick (1931) props, portanto, que estas no           Alm disso, Neurath foi desde o incio crti-
fossem consideradas como enunciados, mas             co da concepo da cincia como sendo algo,
to-somente como regras que nos permitem             em ltima anlise, que se ocupa essencialmente
inferir enunciados singulares verificveis. Mas      de experincias privadas. Sustentou persisten-
essa iniciativa para salvar o princpio de verifi-   temente que a nica forma de linguagem que se
cabilidade no foi bem-sucedida, pois, como          ajusta  intersubjetividade da cincia  a lingua-
802   Viena, crculo de


gem fisicalista intersubjetiva: portanto, o fisica-   trmino, na medida em que completam os nos-
lismo tinha que ser a moldura apropriada para         sos atos de confirmao e, por conseguinte,
a cincia unificada, a qual abrangeria as cin-       impedem que a nossa estrutura de conhecimen-
cias sociais na forma de um "comportamenta-           tos desmorone e se reduza a mero "coerencis-
lismo social". Neurath acrescentou que os veri-       mo" (Schlick, 1934).
ficadores (ou confirmadores) da cincia, a que            Assim, dentro do crculo de Viena (que na
ele deu o nome de declaraes protocolares,           realidade nunca foi to monoltico quanto in-
tambm devem ser parte da linguagem fisicalis-        dicou, por exemplo, o manifesto de 1920), ti-
ta, caso pretendam ter alguma significao para       nham amadurecido diferenas profundas: o ab-
a cincia intersubjetiva. De compatvel com           solutismo "conservador" defendido por Schlick
isso, negou que as declaraes protocolares           chocava-se frontalmente com a linha "radical"
fossem incorrigveis e, em conjunto com a idia       de pensamento de Carnap-Neurath. A reao de
de um fundamento absoluto do conhecimento,            Schlick a esta ltima provocou uma srie de
rejeitou como destituda de sentido a noo de        artigos em Erkenntnis e na recm-fundada re-
comparar uma declarao com a realidade; se-          vista britnica Analysis. Mas, enquanto pros-
gundo ele, as declaraes s so comparveis          seguia esse debate sobre os fundamentos do
com outras declaraes e, nesse ponto, conver-        conhecimento, o crculo de Viena j estava se
giu para a abordagem sinttica elaborada por          desintegrando como grupo. Em 1931 Herbert
Carnap. Esse fisicalismo radical (conforme ex-        Feigl, discpulo de Schlick e membro do crculo
posto in Neurath, 1932a e 1932b) impressionou         desde o comeo, tinha ido para os Estados
profundamente Carnap, que aceitou, com mo-            Unidos, onde se tornaria um eminente repre-
dificaes, suas teses principais e abandonou a       sentante do empirismo lgico. Em 1934 faleceu
idia de que as declaraes protocolares so          o matemtico Hans Hahn, tambm um dos
declaraes incorrigveis calcadas na experin-       membros fundadores. Carnap, que em 1931 se
cia imediata.  claro que a aceitao do fisica-      mudara para Praga, foi em 1935 para os Estados
lismo era, para ele, uma questo no de as-           Unidos. Alm disso, o clima poltico era cada
sero, mas apenas de preferncia por certa           vez mais hostil s aspiraes do crculo. Em
forma de linguagem e, na mesma ordem de               1934 o chamado regime clrico-fascista na
idias, ele afirmou que a questo da forma            ustria, no decurso da supresso do Partido
apropriada das declaraes protocolares ser          Social-Democrata, dissolveu a Sociedade Ernst
resolvida por conveno (Carnap, 1932 (1987)).        Mach como clube de livre-pensadores, e Neu-
    A explicao do conhecimento de Neurath-          rath emigrou para a Holanda. Em 1936 Schlick
Carnap alarmou Schlick, que viu nela uma              foi assassinado por um estudante tresloucado,
ameaa  prpria essncia do EMPIRISMO; com           acontecimento que a imprensa governamental
efeito, a afirmao de que declaraes s po-         apresentou como um destino no inteiramente
dem ser comparadas com declaraes parecia            imerecido para um positivista. Finalmente, a
reativar a teoria de coerncia da verdade, o que,     ocupao nazista da ustria em 1938 forou a
acreditava ele, nos foraria a considerar verda-      maioria dos membros remanescentes a optar
deira qualquer fbula arquitetada de modo coe-        pelo exlio; Neurath fugiu em 1940 para a In-
rente. Por conseguinte, Schlick insistiu em           glaterra.
manter um vnculo entre linguagem e realidade,            O crculo de Viena havia deixado de existir,
que ele considerou ser fornecido por relatos          mas a sua herana filosfica e os seus antigos
simultneos de experincias imediatas que tm         membros, que prosseguiram com sua obra no
a forma de "Aqui agora azul":  nesses enun-          mundo anglo-saxo, continuaram a exercer
ciados de observao ou "afirmaes" (Kons-           profunda influncia sobre o desenvolvimento
tatierungen) que linguagem e realidade se tan-        subseqente do Empirismo Lgico e da filoso-
genciam. Por causa de seu imediatismo, as afir-       fia cientfica em geral.
maes no podem ser motivo de dvida, mas,               Ver tambm POSITIVISMO; FILOSOFIA DA CIN-
pela mesma razo, tampouco servem de base,            CIA; CONHECIMENTO, TEORIA DO.
como as declaraes protocolares, para a cons-        Leitura sugerida: Ayer, A.J., org. 1959: Logical Posi-
truo de hipteses cientficas. Assim, elas no      tivism  Carnap, R. 1934 (1937): The Logical Syntax of
se apresentam no incio do conhecimento, co-          Language  1963: "Intelectual autobiography". In The
mo Schlick se expressou, mas antes no seu             Philosophy of Rudolf Carnap, org. por P.A. Schilpp 
                                                                                           violncia   803

1928 (1967): The Logical Structure of the World and       usualmente alvos militares de alguma espcie.
Pseudo-Problems in Philosophy  Carnap, R. Hahn, H.        Mas, como  freqentemente inevitvel que
e Neurath, O. 1929 (1973): "Wissenschaftliche Wel-
tauffassung: Der Wiener Kreis". In O. Neurath, Empi-
                                                          pessoas tambm sejam mortas e feridas por
ricism and Sociology, org. por M. Neurath e R.S. Cohen    esses ataques, seria implausvel sugerir que es-
 Haller, R. 1988: Questions on Wittgenstein  Han-         ses no constituem atos de violncia contra
fling, O. 1981: Logical Positivism  org. 1981: Es-        seres humanos, simplesmente porque seu pro-
sencial Readings in Logical Positivism  Joergensen, J.    psito ou intuito declarado  atacar coisas. Se o
1951 (1970): "The development of logical empiricism".     sofrimento humano  uma inevitvel concomi-
In Foundations of the Unity of Science, vol.2, org. por   tante e conseqncia desses ataques, ento os
O. Neurath, R. Carnap e C. Morris, nova edio. 
Schlick, M. 1918 (1974): General Theory of Know-          seus responsveis so conscientemente respon-
ledge, introd. de A.E. Blumberg e H. Feigl  1925-36       sveis por atos de violncia.
(1979): Philosophical Papers, vol.2: 1925-1936, org.          Em segundo lugar, alguns comentadores
por H.L. Mulder e B.F.B. van der Velde-Schlick  Ue-       sustentariam que a definio ou descrio aci-
bel, T.E., org. 1991: Rediscovering the Forgotten Vien-   ma oferecida  decididamente inadequada, uma
na Circle.                                                vez que s as agresses ilegais ou no autoriza-
                                     WERNER SAUER         das contra pessoas  que devem ser descritas
                                                          como atos de violncia. Tais agresses, quando
violncia No existe uma definio consen-                executadas por, digamos, policiais no decorrer
sual ou incontroversa de violncia. O termo              e em cumprimento de seus normais e neces-
potente demais para que isso seja possvel. No           srios deveres, ou durante uma guerra reco-
obstante, um entendimento do termo ditado                 nhecida, so apropriadamente descritas como
pelo senso comum , grosso modo, que a vio-               atos de fora, no de violncia. Assim, o Oxford
lncia classifica qualquer agresso fsica contra         English Dictionary define violncia como o
seres humanos, cometida com a inteno de                 "uso ilegtimo da fora".
lhes causar dano, dor ou sofrimento. Agresses                Mas a questo da legitimidade, moral ou
similares contra outros seres vivos so tambm            legal, de uma ao  algo diferente da natureza
consideradas, com freqncia, atos de violn-             do prprio ato. A violncia justificada -- e
cia. E  comum falar-se tambm de violncia               todos, exceto os pacifistas totais, aceitam que a
contra certa categoria de coisas, sobretudo a             violncia pode, por vezes, ser o menor de dois
propriedade privada.                                      males -- ainda  violncia. Em todo caso, no
    A concepo ditada pelo senso comum no               existe concordncia no tocante a que estados ou
est, em absoluto, isenta de problemas. Consi-            outras organizaes gozem da legitimidade que
dere-se, em primeiro lugar, a questo da inten-           se presume converter a violncia em uma fora
o. A nfase na inteno  importante, uma vez           de ressonncias menos speras.
que a cirurgia e a odontologia podem causar dor               Somente, talvez, no caso da propriedade 
e h a probabilidade de envolverem a perda de             que a legitimidade ou legalidade  um elemento
partes do corpo -- mas o nico propsito dessas           necessrio na definio de violncia. Se decido
inflies  o bem-estar do paciente. A tortura,           destruir minha prpria estufa para cultivo de
por outro lado,  uma forma de violncia, uma             plantas, isso no seria qualificado como um ato
vez que o sofrimento  deliberadamente infligi-           de violncia. Mas se outros a destrurem, contra
do, na melhor das hipteses, para benefcio de            a minha vontade e sem a minha permisso, isso
algum ou alguma coisa em detrimento da vti-             poder ser perfeitamente descrito como um ato
ma. Mas seria errneo fazer da inteno o fator           de violncia contra a propriedade. Por outro
crucial para a definio; embora os condutores            lado, se em um acesso de fria, eu retalhar em
de veculos raramente pretendam matar ou mu-              pedaos uma valiosa pintura de que sou o pro-
tilar algum, um acidente de trnsito poderia             prietrio, as pessoas podero descrever isso co-
muito bem ser descrito como um ato ou, pelo               mo um ato de violncia, apesar do meu direito
menos, um incidente de violncia, sobretudo se            legal a destruir minha prpria propriedade.
causado por negligncia ou irresponsabilidade                 Um terceiro problema  suscitado pela no-
culposa. De modo mais fundamental, os res-                o de "agresso fsica".  sobejamente sabido
ponsveis pela colocao e o lanamento de                que algumas das mais requintadas formas de
bombas so capazes de afirmar que sua inteno            tortura moderna, as quais produzem uma com-
ou propsito  apenas destruir propriedades,              pleta desorientao dos sentidos e podem cau-
804   viso de mundo


sar danos duradouros na mente e no crebro,          gumas pessoas com outras, ento a distino
no envolvem qualquer agresso fsica direta s      entre violncia e outras formas coercivas de
vtimas. De modo um tanto semelhante, o bom-         infligir danos, dor e morte fica enevoada. Uma
bardeio areo no envolve a agresso direta por      poltica que deliberada ou conscientemente
indivduos a outros. No deixa de ser um tanto       conduza  morte de pessoas pela fome ou doen-
estranho descrever o ato de apertar um boto         as pode ser qualificada de violenta. Essa  uma
que solta uma bomba ou um mssil como um             razo por que slogans como "pobreza  violn-
ato de violncia.                                    cia" ou "explorao  violncia" no cons-
    Mas o que essas dificuldades assinalam ,        tituem meras hiprboles. Eles levantam a ques-
simplesmente, a extenso em que a moderna            to de saber se podemos plausivelmente dis-
violncia est mecanizada e industrializada, en-     tinguir entre os modos de infligir sofrimento e
quanto que nossa maneira tpica de imaginar a        danos que so convencionalmente chamados
violncia ou de pensar a seu respeito  traduzida    violentos e aqueles que no so.
em termos de confrontos diretos entre indiv-            Tambm suscitam a questo da avaliao da
duos ou pequenos grupos. Tais confrontos ainda       violncia. Em termos convencionais, a violn-
ocorrem,  claro, mas respondem apenas por           cia  considerada um dos piores males, seno o
uma proporo minscula das mortes e preju-         pior de todos. Uma vez que, por definio,
zos causados por ataques deliberados a seres         envolve a inflio de dano ou sofrimento, deve
humanos -- cuja maioria  levada a efeito mais       ser sempre um mal. Mas se igual ou pior dano
por estados do que por organizaes indepen-         ou sofrimento pode ser deliberada ou conscien-
dentes ou ilegais e por indivduos agressivos.       temente infligido por outros meios, usualmente
    Por conseguinte, a busca das razes da vio-      considerados no-violentos, por que razo deve
lncia na psicologia individual  largamente         a violncia ser vista como muito pior do que
equivocada, exceto, talvez, no caso do assas-        esses outros males?
sino que age por conta prpria. A distncia fsica       Ver tambm COERO.
entre os que infligem a morte, a dor, e o sofri-
mento e os que so as suas vtimas significa que     Leitura sugerida: Ackroyd, C., Margolis, K., Rose-
o que o morticnio e a crueldade organizados         nhead, J. e Shallice, T. 1977: The Technology of Politi-
em grande escala requerem geralmente no so         cal Control  Arblaster, Anthony 1975: "What Is Vio-
                                                     lence?". In The Socialist Register 1975, org. por Ralph
quadros de sdicos e bandidos, mas, pelo con-        Miliband e John Saville  Arendt, Hannah 1970: On
trrio, pessoas treinadas em hbitos de obedin-     Violence  1977: Eichmann in Jerusalem  Honderich,
cia  autoridade estabelecida, que no se sentem     Ted 1980: Violence for Equality  Milgram, Stanley
pessoalmente responsveis pelas prprias             1974: Obedience to Authority  Moore Jr., Barrington
aes. Esse conformismo isento de culpa  uma        1972: Reflections on the Causes of Human Misery
                                                      Sorel, Georges 1906: Rflexions sur la Violence
mentalidade que pode estender-se at bem perto
                                                      Trotsky, L., Dewey, J. e Novack, G. 1973: Their
do topo das organizaes responsveis, como          Morals and Ours.
foi revelado, entre outros casos, pelo julgamen-
to de Eichmann.                                                                     ANTHONY ARBLASTER
    Se a violncia no envolve necessariamente
uma agresso fsica no confronto direto de al-       viso de mundo Ver WELTANSCHAUUNG.
                                             W
Weltanschauung Em alemo, a palavra re-                   sociologia atravs de Max Weber e a psiquiatria
fere-se literalmente a uma "viso" (Anschauung)           pela obra de Karl Jaspers), a teoria hermenuti-
intuitiva do "mundo" (Welt), por conseguinte, a           ca (ver HERMENUTICA) de totalidades culturais
"vises do mundo" ou aos valores ou princpios            de Dilthey sublinhou as origens no-racionais
culturais subjacentes que definem a filosofia da          das vises do mundo em impulsos estticos e
vida ou a concepo do universo de uma socie-             religiosos mais profundos na "vida" e se ops
dade ou grupo. Popularmente, o conceito tem               assim a qualquer explicao redutora e
sido usado para fazer referncia a qualquer               materialista de sua gnese social. Ele tambm
sistema geral de crena (cristo, liberal, pago          tentou, sem xito, superar as implicaes
etc.). Embora as vises do mundo assim identi-            relativistas (ver RELATIVISMO) da pluralidade de
ficadas sejam, de modo sumamente caracters-              vises do mundo concorrentes.
tico, no-racionais em sua origem e ligadas s                Desde a virada do sculo a ascenso da
experincias comuns de um grupo, o termo                  sociologia na Alemanha desafiou a abordagem
tambm tem sido empregado em referncia a                 das cincias humanas de Dilthey, ao apontar
perspectivas cientficas generalizadas (por               que as vises do mundo no podiam ser inter-
exemplo, darwinianas ou marxistas). Em con-               pretadas independentemente de suas origens
textos cientficos, o uso do conceito tem sido            sociais. Na dcada de 20 Karl Mannheim
influenciado desde a dcada de 20 pela SOCIO-             (1952) redefiniu o debate em termos metodol-
LOGIA DO CONHECIMENTO, que procura explicar               gicos ao propor uma sociologia hermenutica
as origens das vises do mundo em relao s              do conhecimento que criticava a teoria das vi-
localizaes e interesses sociais dos atores. Mas         ses do mundo a partir da perspectiva de uma
em seu contexto alemo original, do final do              concepo geral de IDEOLOGIA, que evitava o
sculo XIX, a noo de uma "teoria das vises             dogmatismo do marxismo ortodoxo, embora
do mundo" (Weltanschauungslehre) foi identi-              permanecesse relativista em suas implica-
ficada com uma teoria das "cincias humanas",             es. Na Frana, na dcada de 50, Lucien
a qual rejeitava a reduo dos fenmenos cul-             Goldmann (1956) desenvolveu uma sociolo-
turais s suas causas sociais. Hoje em dia, o             gia da literatura em que vises do mundo (vi-
termo Weltanschauung mantm-se til como                  sions du monde) foram analisadas a partir da
designao mais ou menos vaga para concep-                perspectiva de sua relao homloga com as
es gerais do mundo, mas j no desempenha               estruturas de classe.
um papel significativo em discusses tcnicas                 Mais recentemente Jrgen Habermas (1968)
nas esferas da filosofia ou da sociologia da              atribuiu o fracasso da abordagem de Dilthey a
cultura; no obstante, a problemtica a que ele           uma hermenutica objetivista com razes em
se refere envolve muitas das questes-chaves              um vitalismo insustentvel e irracional. A ver-
da teoria cultural contempornea.                         so da teoria crtica do prprio Habermas (ver
    A teoria da Weltanschauung est associada             ESCOLA DE FRANKFURT) representa a mais ambi-
 tradio do HISTORICISMO do final do sculo             ciosa tentativa de resolver o problema histrico
XIX, especialmente  teoria das cincias huma-            do relativismo. Sua argumentao, influencia-
nas de Wilhelm Dilthey (Geisteswissenschaf-               da pela psicologia do desenvolvimento e pelo
ten) (ver Dilthey, 1931, p.133-54). Baseada em            estruturalismo, baseia-se em parte em uma an-
uma concepo essencialmente emptica da in-              lise da evoluo do que foi traduzido como
terpretao ou VERSTEHEN (a qual influenciou a            "vises do mundo" (1976, p.95-129), embora

                                                    805
806   Weltanschauung


no original alemo se faa referncia s "ima-        Philosopher of the Human Studies  Mannheim, K.
gens do mundo" (Weltbilder), evidentemente            1929 (1960): Ideology and Utopia  Outhwaite, Wil-
para evitar qualquer associao com a aborda-         liam 1975 (1986): Understanding Social Life: The Me-
                                                      thod Called Verstehen, 2ed.  Rickman, H.P. 1988:
gem de Dilthey.                                       Dilthey Today: a Critical Appraisal of the Contempo-
                                                      rary Relevance of His Work  Simonds, A.P. 1978: Karl
Leitura sugerida: Hekman, S.J. 1986: Hermeneutics
                                                      Mannheim's Sociology of Knowledge.
and the Sociology of Knowledge  Jay, Martin 1984:
Marxism and Totality  Makkreel, R.A. 1975: Dilthey:                               RAYMOND A. MORROW
                                Apndice Biogrfico



Adorno, Theodor Wiesengrund (n.1903,                         46). Em 1963 tornou-se professora da Comisso
Frankfurt; m.1969, Visp, Sua). Filsofo e musi-            sobre Pensamento Social e de 1967 at sua morte
clogo alemo, estudou em Frankfurt e Viena. Foi             foi professora da New School of Social Research.
membro do Instituto de Pesquisa Social de Frank-             Suas principais publicaes incluem The Origins
furt (a origem da ESCOLA DE FRANKFURT de teoria              of Totalitarianism (1958), The Human Condition
crtica), no qual ingressou em 1931. Estudou com-            (1958), On Revolution (1965) e On Violence
posio e piano em Viena com Alban Berg e foi                (1970).
vigoroso defensor de Schnberg. Deixou a Alema-
nha em 1934, indo residir primeiro na Inglaterra e           Bakhtin, Mikhail Mikailovitch             (n. 1895,
depois se juntando ao Instituto em exlio nos Es-            Orel, ao sul de Moscou; m.1975, Moscou). Fil-
tados Unidos. De regresso a Frankfurt em 1950,               sofo e terico literrio russo. Estudou nas Univer-
tornou-se diretor do Instituto em 1958. Suas obras           sidades de Odessa (Faculdade de Filologia) e So
incluem Dialektik der Aufklrung (1947, com Max              Petersburgo. Trabalhou durante 30 anos no Caza-
Horkheimer), Philosophie der neuen Musik (1949),             quisto, em Saransk e em Moscou em relativa
The Authoritarian Personality (1950), Negative               obscuridade. Em 1957 foi nomeado diretor do
Dialectics (1966) e colaborao em Der Positivis-            Departamento de Literatura Russa e Estrangeira
musstreit in der deutschen Soziologie: Einleitung            da Universidade de Moscou, cargo que ocupou at
(1969).                                                      sua aposentadoria em 1961. Publicou numerosos
                                                             livros sob nomes de amigos seus: O mtodo formal
Althusser, Louis (n.1918, Birmandreis, Arg-                 na erudio literria foi atribudo a P.N. Medve-
lia; m.1990, Yvelines, perto de Paris). Comunista            dev (1928) e Marxismo e filosofia da linguagem a
e filsofo francs, estudou na cole Normale Su-             V.N. Volosinov (1929). Isso tem sido motivo de
prieure em Paris. Influenciado pelo racionalismo            controvrsia, mas em geral se acredita que Bakhtin
e o estruturalismo franceses, identificou um corte
                                                             foi o autor dessas obras. Em 1929 publicou Pro-
radical entre os escritos de Marx quando jovem e
                                                             blemas da potica de Dostoyevsky e em 1966,
os de sua maturidade e, a favor do ltimo, sus-
                                                             Rabelais e seu mundo. Sua obra influenciou Julia
tentou o marxismo como cincia, enfatizando o
seu anti-humanismo. Suas obras Pour Marx                     Kristeva e o Grupo Tel Quel.
(1965) e, com tienne Balibar, Lire le Capital
                                                             Barthes, Roland Grard (n.1915, Cherbourg;
(1966) granjearam-lhe um pblico vasto, embora
                                                             m.1980, Paris). Escritor e crtico francs. Estudou
freqentemente crtico.
                                                             na Sorbonne e ocupou numerosos cargos na Hun-
                                                             gria antes de iniciar sua carreira na Frana, onde
Arendt, Hannah (n.1906, Hanover; m.1975,
Nova York). Filsofa germano-americana, estu-                foi diretor de Estudos e professor de sociologia dos
dou nas Universidades de Knigsberg, Marburgo,               signos, smbolos e representaes coletivas (1962-
Freiburg e Heidelberg, tendo completado seu dou-             76) na cole Pratique des Hautes tudes, de Paris,
torado sob a orientao de Karl Jaspers. Em 1933             e professor de semiologia literria no Collge de
fugiu para Paris e da, em 1941, foi para os Estados         France. Em 1953 ajudou a fundar a revista Thtre
Unidos, onde trabalhou na rea editorial at 1963            Populaire e no mesmo ano publicou Le degr zro
e foi figura de destaque em organizaes judaicas,           de l'criture que, ao lado de Mythologies (1957),
por exemplo como diretora de pesquisa da Confe-              o estabeleceu como um terico ps-saussureano.
rncia sobre Relaes Judaicas, Nova York (1944-             Suas outras obras incluem Le plaisir du texte

                                                       807
808   Beauvoir, Simone de


(1973) e o autobiogrfico Roland Barthes par          nistas, e Les deux sources de la morale et de la
Roland Barthes (1975). Ver SEMITICA.                 religion (1932).

Beauvoir, Simone de (n.1908, Paris; m.1986,           Bernstein, Eduard (n.1850, Berlim; m.1932,
Paris). Filsofa e romancista francesa. Educada na    Berlim). Poltico e cientista poltico alemo. Ade-
cole Normale Suprieure, lecionou filosofia em       riu ao Partido Social-Democrata dos Trabalha-
liceus de Marselha, Rouen e Paris. Figura de proa     dores (Eisenachers) em 1871 -- vindo a editar o
do EXISTENCIALISMO e do FEMINISMO, Simone de          rgo do partido, Der Sozialdemokrat (1881-90)
Beauvoir foi companheira de toda a vida de Sartre,    -- tornou-se marxista; mas durante seu exlio em
a quem conheceu em 1929 e com quem fundou e           Londres (1880-1901) foi tambm influenciado pe-
editou Les Temps Modernes (1944). Criticou a          los fabianos, ao mesmo tempo que se tornava
excessiva nfase atribuda por Sartre  liberdade     amigo ntimo de Engels. Baseada em artigos pu-
do indivduo em face das normas sociais. Em Le        blicados em Die Neue Zeit (1896-98), sua princi-
deuxime sexe (1949), desenvolveu essas idias        pal obra revisionista, Die Voraussetzungen des
com referncia  subordinao das mulheres.           Sozialismus, foi publicada em 1899 (ver REVISIO-
Alm de suas obras filosficas, escreveu numero-      NISMO). Essencialmente, favoreceu um enfoque
sos romances, trs volumes de autobiografia e uma     gradualista para assegurar os direitos econmicos
memria de Sartre.                                    e sociais e, finalmente, o poder poltico para a
                                                      classe trabalhadora, em vez de "esperar pela revo-
Benjamin, Walter (n.1892, Berlim; m.1940,             luo".
Port Bou, Frana). Terico e crtico literrio. Es-
tudou em Freiburg, Berlim, Munique e Berna.           Bloch, Ernst (n.1885, Ludwigshaven; m.1977,
Teve negado um cargo acadmico quando sua tese        Tbingen). Filsofo alemo. Estudou em Muni-
foi rejeitada em Frankfurt no ano de 1925, embora     que e Wrzburg. Foi influenciado pelo marxis-
fosse publicada em 1928 como Ursprung des             mo, o idealismo alemo e a teologia crist e judai-
deutschen Trauerspiels. Amigo de Lukcs, Ador-        ca. Enquanto esteve na Sua, escreveu seu pri-
no, Brecht e Bloch, Benjamin voltou-se para o         meiro livro, Geist der Utopie (1918), em que
marxismo (ver ESCOLA DE FRANKFURT). Em                considerava a arte, a poesia e a msica como
1933 emigrou para Paris, onde estudou Baude-          materializaes do potencial de realizao huma-
laire. Quando a Frana foi derrotada e parcial-       no. Como escritor free-lancer em Berlim na dca-
mente ocupada em 1940, Benjamin fugiu para            da de 20, fez amizade com Brecht, Weill, Benja-
o Sul, mas foi detido na fronteira franco-espa-       min e Lukcs, e se filiou ao Partido Comunista.
nhola onde, ante a perspectiva de ser entregue        Em 1933 deixou a Alemanha, instalando-se nos
aos nazistas, preferiu pr fim  prpria vida.        Estados Unidos em 1938. De regresso  Alema-
Alguns de seus ltimos escritos foram reunidos        nha Oriental em 1949, exerceu a ctedra de filo-
em Illuminationen (1961).                             sofia na Universidade de Leipzig, mas caiu no
                                                      desagrado das autoridades e se mudou para a
Bergson, Henri Louis (n.1859, Paris; m.1941,          Alemanha Ocidental como professor de Filosofia
Paris). Filsofo francs. Estudou na cole Nor-       em Tbingen.
male Suprieure (1877-81). De 1881 a 1897, le-
cionou em liceus e escreveu Essai sur les donnses    Brecht, Bertolt (n.1898, Augsburgo; m.1956,
                                                      Berlim Oriental). Dramaturgo e poeta alemo, es-
immdiates de la conscience (1889), obra que
                                                      tudou medicina na Universidade de Munique e
consubstanciou a sua distino crucial entre o
                                                      trabalhou por algum tempo em um hospital de
tempo como durao contnua na vida cotidiana e       Augsburgo. Veemente adversrio da Primeira
o tempo tal como  representado pela cincia --       Guerra Mundial, Brecht recebeu a influncia do
mecnico e descontnuo. Em 1897 lecionou na           marxismo e do TEATRO poltico de Piscator. Suas
cole Normale Suprieure e, subseqentemente,         peas refletiram essa influncia e foram mais tarde
no Collge de France (1900-14). Entre 1912 e          colocadas na lista negra dos nazistas. Em 1933
1918 Bergson realizou misses diplomticas na         fugiu para a Sua e finalmente viajou para os
Amrica e na Espanha, e em 1927 foi agraciado         Estados Unidos, onde foi citado pela Comisso de
com o Prmio Nobel de Literatura. Suas principais     Investigao de Atos Antiamericanos durante a
obras incluem L'volution cratrice (1907), na        caa s bruxas liderada por McCarthy. Em 1949
qual rejeitou as explicaes mecnicas, determi-      voltou a Berlim Oriental, onde fundou o Berliner
                                                                                       Dewey, John     809


Ensemble. As obras de Brecht incluem Baal               o da estrutura gramatical como inata em vez de
(1918), Mann ist Mann (1926), Die Dreigrosche-          aprendida, e sobre teoria social, rea em que tem
noper (1928) e Mutter Courage und ihre Kinder           sido um crtico contundente da poltica externa
(1939).                                                 norte-americana (por exemplo, American Power
                                                        and the New Mandarins, 1969). Deixou claro que
Bukharin, Nikolai Ivanovich (n.1888, Mos-               esses dois domnios de sua obra dever ser tratados
cou; m.1938, Moscou). Revolucionrio e terico          separadamente.
marxista russo, aderiu ao Partido Social-Democrata
russo em 1906 e liderou os bolcheviques em Moscou       Croce, Benedetto (n.1866 , Percasseroli;
no ano de 1908. Detido e enviado ao exlio interno,     m.1952, Npoles). Filsofo idealista italiano,
escapou em 1911 para Viena, onde assistiu s confe-     Croce foi um scholar independente que nunca
rncias de Bhm-Bawerk, familiarizando-se com os        exerceu um cargo acadmico, mas foi ministro da
austromarxistas; escreveu uma crtica do marginalis-    Educao do governo italiano em 1920-1 e de
mo austraco (Teoria econmica da classe ociosa,        novo depois da Segunda Guerra Mundial. Forte-
1914) e um estudo do imperialismo (Imperialismo e       mente influenciado por Hegel, desenvolveu uma
economia mundial, 1917-18). Regressou a Moscou          filosofia do esprito que contm quatro tipos de
em 1917 e foi eleito para o Comit Central dos          experincia: experincia cognitiva do particular e
Bolcheviques, tornando-se tambm editor do Pravda.      do universal (o domnio da esttica e da lgica,
Depois de 1922, Bukharin, em contraste com Preo-        respectivamente); e experincia prtica do particu-
brajensky, passou a defender concesses aos campo-      lar e do universal (o domnio da economia e da
neses e o equilbrio de crescimento econmico entre     tica). A histria  a descrio da atividade do
os setores agrcola e industrial. Em 1928 ops-se a     esprito nesses domnios; a filosofia  uma expli-
Stalin a respeito da coletivizao e foi exonerado de   cao da metodologia da histria, da qual  inse-
seus cargos no Pravda e no Politburo. Editou o Izves-   parvel. Croce tambm escreveu sobre a obra de
tia (1934-37), mas foi expulso do Partido Comunista     outros pensadores, incluindo Hegel, Marx e Vico.
em 1937, julgado por traio e executado em 1938.
                                                        Derrida, Jacques (n.1930, El Biar, Arglia).
Carnap, Rudolf (n.1891, Rennia-Westflia;              Filsofo e terico literrio francs. Estudou na
m.1970, Califrnia). Filsofo germano-america-          cole Normale Suprieure, Paris, e Harvard. Le-
no. Estudou em Freiburg e Jena, obtendo formao        cionou na Sorbonne (1960-64) e est na cole
em fsica e matemtica. Convidado a Viena por           Normale Suprieure desde 1965. Em 1962 con-
Schlick em 1926, tornou-se figura destacada no          quistou o Prmio Cavaills por sua traduo de A
CRCULO DE VIENA de positivismo lgico. Em Der          origem da geometria, de Husserl, para a qual
logische Aufbau der Welt (1928), sustentou que os       escreveu uma extensa introduo. Seu estudo de
conceitos cientficos podiam ser construdos a par-     Husserl faz parte de sua crtica de metafsica oci-
tir de um pequeno nmero de conceitos bsicos,          dental, que desenvolveu em La voix et le phno-
os quais esto todos diretamente relacionados com       mne (1967), L'criture et la diffrence (1967) e
a experincia dos sentidos. Em 1930 fundou com          De la gramatologie (1967). A crtica de Derrida 
Reichenbach a revista Erkenntnis, rgo oficial do      dirigida contra a filosofia da presena, dominante
positivismo lgico. Como professor de filosofia         na filosofia ocidental desde Plato,  qual ope
natural na Universidade Alem de Praga, a partir        uma estratgia estrutural conhecida como
de 1931, publicou Der Logische Syntax der               DESCONSTRUO.
Sprache (1934). Em 1935 emigrou para os Estados
Unidos, onde lecionou na Universidade de Chiga-         Dewey, John (n.1859, Vermont; m.1952, No-
go a partir de 1936 e, posteriormente, no Institute     va York). Filsofo pragmatista norte-americano.
for Advanced Study, Princeton (1952-54) e na            Estudou na Universidade de Vermont e na Johns
UCLA (1954-61).                                         Hopkins. Lecionou em Michigan (1884-94), Chi-
                                                        cago (1894-1904) e na Universidade de Columbia
Chomsky, Avram Noam (n.1928, Filadlfia).               (1904-29). Conheceu George Herbert Mead e aju-
Lingista, filsofo e ativista poltico norte-ameri-    dou a criar a "Escola de Chicago" (ver ESCOLA
cano. Estudou na Universidade da Pensilvnia.           SOCIOLGICA DE CHICAGO. O aspecto central no
Leciona no Massachusetts Institute of Technology        PRAGMATISMO de Dewey era que a filosofia devia
(MIT) desde 1955. Tem escrito extensamente so-          interessar-se pelos problemas e raciocnios as-
bre LINGSTICA, formulando uma nova concep-            sociados ao cotidiano, e tambm exercer uma
810    Dilthey, Wilhelm


crtica do mundo cotidiano, no se limitando a uma       da relatividade (1916). Sua obra veio a desafiar a
atividade meramente contemplativa. Mais tarde            crena no empirismo que dominava a filosofia da
aplicou sua filosofia aos problemas morais, os           fsica na primeira parte deste sculo. Em seus
quais, sustentou ele, podiam ser julgados de modo        ltimos anos esteve ativo nos movimentos para
prtico, segundo a maior ou menor eficcia que as        limitar o desenvolvimento e a propagao de ar-
mximas morais tivessem para resolver problemas          mas nucleares.
humanos.
                                                         Elias, Norbert (n.1897, Breslau; m.1990,
Dilthey, Wilhelm (n.1833, Hesse; m.1911, Ti-             Amsterd). Socilogo alemo. Formou-se em me-
rol do Sul, ustria). Filsofo hermeneuta alemo.        dicina, filosofia e psicologia nas universidades de
Estudou em Heidelberg e Berlim. Lecionou em              Breslau e Heidelberg, aps o que trabalhou com
Basilia (1866), Kiel (1868) e Breslau (1871), e         Karl Mannheim em Frankfurt. Elias fugiu da Ale-
foi professor de histria e filosofia em Berlim          manha nazista em 1933, indo primeiro para a
(1882). Dilthey  mais conhecido por sua radical         Frana e depois para a Gr-Bretanha, onde foi
distino entre anlise cientfica natural e social, a   professor de sociologia na Universidade de Lei-
primeira tratando de eventos que podem ser inclu-       cester (1945-62); exerceu funes docentes na
dos em leis, ao passo que a segunda se ocupa de          Universidade de Gana (1962-4) e depois trabalhou
fenmenos que s so compreensveis em funo            no Zentrum fr Interdisziplinre Forschung em
das intenes dos agentes (Einleitung in die Geist-      Bielefeld (Alemanha). Desenvolveu uma aborda-
eswissenschaften) (1883). Essa posio antinatu-         gem a que deu o nome de "sociologia figuracio-
ralista manifestou-se originalmente como psicolo-        nal", a qual examina o surgimento de configu-
gismo cientfico social, posio da qual Dilthey         raes sociais como conseqncias no-premedi-
divergiu mais tarde.                                     tadas da interao social e foi descrita em seu livro
                                                         O que  sociologia? (1970). Sua obra mais co-
Durkheim, mile (n.1858, Epinal; m.1917,                 nhecida  o O processo civilizador (2 vols., 1939),
Paris). Socilogo francs. Estudou na cole Nor-         que analisa os efeitos da formao dos estados na
male Suprieure. Lecionou na Universidade de             Europa sobre os estilos de vida individuais, a
Bordus at 1902, quando foi nomeado para uma            personalidade e as moralidades.
ctedra na Sorbonne. Suas principais publicaes
abordaram os mtodos sociolgicos, as formas de          Engels, Friedrich (n.1820, Barmen; m.1895,
solidariedade social e as funes sociais da reli-       Londres). Filsofo social e homem de negcios
gio. Depois da fundao da influente revista            alemo, Engels foi, com Marx, um dos fundadores
L'Anne Sociologique (1898), Durkheim tornou-            do comunismo moderno. Convencido de que a
se particularmente interessado no estudo de socie-       classe trabalhadora emergente da Revoluo In-
dades arcaicas, bem como da religio e da organi-        dustrial seria o instrumento da transformao re-
zao social primitivas. O tema dominante em             volucionria, seu livro A situao da classe ope-
toda a sua obra foi que a sociedade possui uma           rria na Inglaterra (1845) atraiu as atenes ge-
realidade acima da dos indivduos que a com-             rais. Publicou numerosas obras em colaborao
pem, sendo estes compelidos por "fatos sociais"         com Marx, incluindo o Manifesto do Partido Co-
transcendentes na forma de crenas e sentimentos         munista (1848), e, depois da morte deste, traba-
comuns. Durkheim foi um dos fundadores da so-            lhou na organizao, a partir dos manuscritos dei-
ciologia moderna e, em particular, da teoria             xados por Marx, e publicao do segundo e tercei-
funcionalista. Suas principais obras incluem De la       ro volumes de O capital em 1885 e 1894. Embora
division du travail social (1893), Les rgles de la      minimizasse seu prprio papel, sua obra em eco-
mthode sociologique (1895), Le suicide (1897) e         nomia poltica e no desenvolvimento da conscin-
Les formes lmentaires de la vie religieuse             cia de classe foram contribuies significativas
(1912).                                                  para o marxismo e, antes de 1914, era ele, mais do
                                                         que Marx, o principal responsvel pela difuso das
Einstein, Albert (n.1879, Ulm; m.1955, Prin-             idias marxistas.
ceton). Filsofo natural e fsico terico alemo.
Estudou matemtica e fsica na Psicotcnica Fede-        Fanon, Frantz (n.1925, Martinica; m.1962,
ral Sua, em Zurique. Influenciado por Hume e           Washington). Psiquiatra e filsofo social francs.
Mach, Einstein deu contribuies fundamentais            Formado em medicina e psiquiatria na Universi-
para a fsica terica, especialmente em sua teoria       dade de Lyon, na dcada de 50, Fanon foi para a
                                                                                Gramsci, Antonio      811


Arglia, onde dirigiu o departamento psiquitrico     tica Alem. Lecionou psicanlise no Instituto de
do Hospital Blida-Joinville (1953-56) e se tornou     Pesquisa Social (Frankfurt, 1929-32), onde trabal-
simpatizante dos rebeldes argelinos, dando seu        hou com outros membros da ESCOLA DE FRANK-
apoio  luta armada. Pele negra, mscaras bran-       FURT e se dedicou a estabelecer uma relao entre
cas (1952)  uma descrio da degradao psico-       psicanlise e marxismo. Continuou sua associao
lgica dos argelinos e dos colonos franceses em       com o Instituto, no exlio, na Universidade Colum-
conseqncia do domnio colonial. Em 1960 foi         bia (1934-38). Subseqentemente, foi professor
nomeado embaixador em Gana pelo Governo Pro-          de psicanlise na Universidade Nacional Autno-
visrio da Arglia, mas teve de viajar para a Unio   ma do Mxico, a partir de 1951, e em seus ltimos
Sovitica e depois Washington a fim de se tratar      anos dedicou grande parte do seu tempo ao estudo
de leucemia. Fanon defendeu a revoluo em todo       da agresso (The Anatomy of Human Destructive-
o Terceiro Mundo em Os condenados da terra            ness, 1973), assim como ao apoio ao movimento
(1961).                                               pacifista e aos socialistas democrticos dissidentes
                                                      da Europa Oriental.
Foucault, Michel (n.1926, Poitiers; m.1984,
Paris). Filsofo e historiador das idias francs.    Gadamer, Hans-Georg (n.1900, Marburgo).
Estudou na cole Normale Suprieure a partir de       Filsofo hermeneuta alemo. Estudou em Muni-
1946 e mais tarde desempenhou funes acadmi-        que e Marburgo, e foi amigo e discpulo de Hei-
cas em vrias instituies europias, culminando      degger. Foi professor de filosofia em Marburg
com sua eleio para o Collge de France em 1969.     (1937-9), Leipzig (1939-47), Frankfurt (1947-9) e
Ofereceu novas perspectivas para a anlise de uma     Heidelberg (1949-68), aps o que se aposentou.
srie de disciplinas, como psicologia, psiquiatria,   Sua principal obra  Wahrheit und Methode
medicina e filosofia, e suas numerosas publicaes    (1961), em que descreve a sua abordagem da
refletem a ampla gama de suas investigaes. Es-      hermenutica como um processo ativo, criativo,
tava particularmente interessado no modo como         no meramente passivo, mediado pela tradio
os vrios discursos do "poder-saber" -- tais como     cultural do intrprete. Ver HERMENUTICA.
medicina, psiquiatria, penalogia e sexualidade --
operam sobre o indivduo. Suas obras incluem          Gandhi, Mahatma [Mohandas Karamchand]
Histoire de la folie  l'ge classique (1961, nova    (n.1869, Porbandar; m.1948, Dlhi). Lder
ed. 1972), Les mots et les choses (1966) e L'ar-      nacionalista e espiritual indiano. Estudou na ndia
chologie du savoir (1969).                           e na Gr-Bretanha, diplomando-se como advoga-
                                                      do em Londres. A partir de 1920 dominou o Con-
Freud, Sigmund (n.1856, Freiberg; m.1939,             gresso Nacional Indiano, convertendo-o em um
Londres). Psiclogo austraco, fundador da psica-     movimento de massa. Famoso por sua defesa da
nlise. Formado em medicina em Viena, especia-        "resistncia no-violenta", Gandhi liderou os na-
lizou-se em neurologia (1874-79) e em 1885-6          cionalistas indianos em uma srie de confron-
estudou com Jean Charcot em Paris. Trabalhou no       taes com o domnio colonial britnico, optando
Hospital Geral de Viena (1882-85) e se tornou         pela fora da verdade e da no-violncia na luta
professor na universidade em 1885, estabelecendo      contra o mal. Ver HINDUSMO E TEORIA SOCIAL
no ano seguinte a sua clnica privada. Em 1902        HINDU.
fundou a Sociedade Psicanaltica de Viena e, em
1910, a Associao Internacional de Psicanlise.      Gramsci, Antonio (n.1891, Ales, Sardenha;
Tambm fundou duas revistas: Zeitschrift fr Psy-     m.1937, Roma). Ativista e terico poltico marxis-
chanalyse und Imago e Jahrbuch der Psychoana-         ta. Em 1911, ganhou um bolsa de estudos para a
lyse. Em 1938 foi para a Gr-Bretanha como refu-      Universidade de Turim e aderiu ao Partido Socia-
giado do nazismo. Seus escritos esto coligidos na    lista Italiano (PSI), mas abandonou os estudos sem
Standard Edition of the Complete Works of             se diplomar e se dedicou a ajudar na publicao
Sigmund Freud (org. por J. Strachey, 24 vols.,        dos jornais socialistas Avanti! e Il Grido del Popo-
1953-74).                                             lo. Em maio de 1919 ajudou no lanamento de um
                                                      semanrio, L'Ordine Nuovo, sendo seu editor em
Fromm, Erich (n.1900, Frankfurt; m.1980, Lo-          1919-20 e tambm o principal organizador dos
carno). Psiclogo germano-americano. Estudou          conselhos de fbrica em Turim. Um dos membros
na dcada de 20 nas Universidades de Heidelberg       fundadores do Partido Comunista Italiano (PCI),
e Munique e no Instituto da Sociedade Psicanal-      tornou-se seu lder em 1924. Detido em 1926, dois
812   Habermas, Jrgen


anos depois foi condenado  priso, onde passou         Dasein -- em seu carter temporal. Embora seu nome
os nove anos seguintes; l comeou a escrever os        esteja associado ao EXISTENCIALISMO, que recebeu
Cadernos do crcere, sobre temas que vo da arte        sua influncia, Heidegger no se via nesses termos.
e da cultura  estratgia poltica e que influencia-
ram profundamente o pensamento marxista sub-            Hilferding, Rudolf (n.1877, Viena; m.1941,
seqente. Ver HEGEMONIA.                                Paris). Economista marxista. Estudou medicina
                                                        em Viena e exerceu clnica mdica at 1906, mas
Habermas, Jrgen (n.1929, Dsseldorf). Fi-              dedicou a maior parte do seu tempo ao estudo da
lsofo social e socilogo alemo. Estudou em            economia poltica. Ficou conhecido por suas fre-
Gttingen e Frankfurt, lecionou em Heidelberg e         qentes colaboraes sobre assuntos econmicos
Frankfurt, e foi diretor do Instituto Max Planck,       para Die Neue Zeit e por sua rplica (publicada em
em Starnberg (1971-82). Desenvolveu uma crtica         1904)  crtica de Bhm-Bawerk da teoria econ-
da conscincia tecnocrtica que invade o "mundo"        mica de Marx. Em 1920, depois de se tornar
nas sociedades capitalistas tardias. Sua teoria cr-    cidado prussiano, foi nomeado para o Conselho
tica visa gerar uma conscincia da dupla nature-        Econmico do Reich, foi membro do Reichstag de
za da racionalidade, como instrumental e comu-          1924 a 1933 e ministro das Finanas em dois
nicativa (The Theory of Communicative Action,           governos (1923 e 1928-29). Depois da tomada do
1981). Mais recentemente tem sido um crtico            poder pelos nazistas, foi para o exlio, mas, em
contundente do ps-modernismo (The Philoso-             1941 cometeu suicdio ao cair em poder da Ges-
phical Discourse of Modernity, 1985). Ver ESCOLA        tapo. Celebrizou-se com seu livro O capital finan-
DE FRANKFURT.                                           ceiro (1910), no qual analisou os mais recentes
                                                        desenvolvimentos do capitalismo, sobretudo o pa-
Hayek, Friedrich August von (n.1899, Vie-               pel dos bancos, o imperialismo e o perigo de
na; m.1992). Economista austraco. Estudou na           guerra. Ver AUSTROMARXISMO.
Universidade de Viena. Foi o primeiro diretor do
Instituto de Pesquisa Econmica da ustria (1927-       Husserl, Edmund Gustav Albrecht (n. 1859,
31). De 1931 a 1950, foi professor de cincia           Prossnitz, Morvia austraca; m.1938, Freiburg).
econmica da London School of Economics. Du-            Filsofo alemo, fundador da FENOMENOLOGIA.
rante esse perodo desenvolveu em numerosos             Formado em matemtica em Leipzig, Viena e
livros (por exemplo, Prices and Production, 1931)       Berlim, procurou estabelecer os fundamentos da
a chamada ESCOLA AUSTRACA DE ECONOMIA. As              matemtica e da lgica, e depois das cincias,
obras de Hayek no ps-guerra tenderam  diversifi-      tentando identificar as estruturas fundamentais da
cao em filosofia poltica, direito e epistemologia.   conscincia. A fenomenologia (uma cincia das
Sua anlise da natureza do conhecimento na socie-       aparncias) mantm em suspenso questes sobre
dade (em Individualism and Economic Order, 1949)        o status existencial dos objetos de conscincia a
constitui um elemento crucial em sua crtica do pla-    fim de intuir as essncias tal como so cons-
nejamento central. Tambm desenvolveu uma crtica       titudas pelo ego transcendental (Logische Unter-
do POSITIVISMO (The Counter-Revolution of Science,      suchungen, 1900-01). Husserl lecionou em Halle,
1952) e deu importantes contribuies para a filoso-    Gttingen e Freiburg (onde Heidegger foi seu
fia poltica liberal (Law Legislation and Liberty,      aluno e o sucedeu). A herana judaica de Husserl
1973-79). Dividiu com Gunnar Myrdal o Prmio            (que ele tinha rejeitado em favor do protestantis-
Nobel de Economia em 1974.                              mo) resultou em sua perseguio pelos nazistas.
Heidegger, Martin          (n.1889, Messkirch;          James, William (n.1842, Nova York; m.1910,
m.1976, Messkirch). Filsofo alemo. Estudou em         New Hampshire). Psiclogo e filsofo norte-ame-
Freiburg (aluno de Husserl) e lecionou em Marburgo      ricano. Estudou em Harvard (medicina), onde veio
(1923-28) antes de ser nomeado reitor da Universi-      a ser depois professor de filosofia e psicologia. Era
dade de Freiburg, quando declarou sua adeso a          irmo do romancista Henry James. Comeou pu-
Hitler. Foi afastado do ensino, depois da Segunda       blicando obras na rea da psicologia, mas tambm
Guerra Mundial, pelas foras de ocupao, mas           escreveu sobre religio (The Varieties of Religious
continuou exercendo grande influncia sobre a filo-     Experience, 1902).  um dos fundadores do PRAG-
sofia. Sua obra magna  Sein und Zeit (1927), a qual    MATISMO, sob o argumento de que as idias so
fixou um programa para toda a obra subseqente a        instrumentos que devem ter "valor monetrio" em
que dedicou sua vida: o exame do ser humano --          termos de suas conseqncias para que possam ser
                                                                               Lenin, Vladimir Ilyich     813


consideradas de algum mrito. Sua obra influen-          ciada pelo FORMALISMO russo (especialmente pela
ciou George Herbert Mead.                                obra de Bakhtin), mas tambm pelo marxismo e
                                                         pela psicanlise, Kristeva emigrou para a Frana
Jaspers, Karl Theodor (n.1883, Oldenburg;                em 1966 e agora leciona na Universidade de Paris
m.1969, Basilia). Filsofo suo-alemo. Forma-         VII. Em A revoluo da linguagem potica
do em direito em Heidelberg e Munique, e em              (1974), desenvolveu uma teoria da "semitica" --
medicina em Berlim (onde recebeu o doutorado).           domnio da criana pr-lingstica --, que fica
Sua primeira obra foi de psicologia (Psychologie         envolvida e reprimida pela linguagem e a raciona-
der Weltanschauungen, 1919). Foi filsofo exis-          lidade impostas na vida subseqente. Est engaja-
tencialista e professor de filosofia em Heidelberg,      da desde ento em um feminismo de inspirao
depois proibido de lecionar e de fazer conferncias      psicanaltica.
por Hitler, bem como privado do seu ttulo de
professor em 1937. Crucial em sua filosofia  a          Kropotkin, Piotr Alexeievitch (n.1842, Mos-
distino entre Dasein e Existenz.                       cou; m.1921, Moscou). Terico anarquista. Es-
                                                         tudou em uma instituio de elite, o Corpo de
Jung, Carl Gustav (n.1865, Kesswil; m.1961,              Pajens, em So Petersburgo. Abandonou uma car-
Lucerna). Psiquiatra suo. Estudou em Basilia          reira cientfica em 1871 para se dedicar  atividade
(1895-1900), trabalhou na Clnica Psiquitrica           revolucionria. Preso em 1874, evadiu-se em 1875
Burghlzli, em Zurique (1905-13), e iniciou sua          para o Ocidente, permanecendo no exlio at 1917,
clnica privada em 1909. Professor de psicologia         quando voltou  Rssia. Kropotkin construiu uma
na Universidade Politcnica Federal de Zurique           teoria "cientfica" da sociedade: a ajuda mtua,
(1933-41) e de psicologia mdica a partir de 1944,       no a competio darwiniana, era a lei funda-
trabalhou com Freud, cuja obra A interpretao           mental da evoluo na natureza e na sociedade.
dos sonhos (1900) tinha muito em comum com seu           Em vrios livros, criticou o estado centralizado
trabalho; mas depois de 1913 Jung se tornou cada         pela produo em grande escala, a diviso do
vez mais crtico de Freud, acreditando que este          trabalho e os poderes coercitivos, acreditando que
ltimo atribua uma nfase excessiva  represso         ele seria varrido por uma revoluo. Defendia uma
e aos traumas sexuais em seu esquema explicativo.        sociedade de pequenas comunidades baseadas na
Os escritos de Jung foram publicados como The            cooperao voluntria, o que permitiria o desen-
Collected Works of C.G. Jung (org. por H. Read,          volvimento das capacidades do indivduo. Ver
19 vols., 1953-79). Ver PSICANLISE.                     ANARQUISMO.

Keynes, John Maynard Lord (n. 1883, Cam-                 Kuhn, Thomas Samuel (n.1922, Cincinatti).
bridge; m.1946, Tilton, Sussex). Economista in-          Filsofo e historiador da cincia norte-americano.
gls. Tendo estudado em Eton e no King's College,        Formado em fsica, Kuhn voltou suas atenes
em Cambridge, Keynes permaneceu nessa cidade             para a histria da cincia a fim de escrever um livro
depois de formado a fim de estudar cincia econ-        amplamente citado e controverso, The Structure of
mica com Alfred Marshall. Depois de breve pero-         Scientific Revolutions (1962), no qual contrastou
do no servio pblico, voltou a Cambridge para           o desenvolvimento histrico da cincia com a
lecionar cincia econmica e se tornou editor do         noo trivial de cincia como empreendimento
Economic Journal em 1911. Durante a Primeira             puramente racional. A prtica cientfica, sustentou
Guerra Mundial trabalhou no Tesouro e foi o seu          ele,  usualmente governada por um paradigma,
principal representante em Versalhes. Na Segunda         uma viso do mundo sancionada pela comunidade
Guerra Mundial, Keynes foi responsvel pela ne-          cientfica, mas quando as anomalias se acumulam
gociao com os Estados Unidos do acordo de              essa "cincia normal" pode ser derrubada por uma
Emprstimo e Arrendamento e participou do acor-          "revoluo" em que o paradigma reinante  subs-
do de Bretton Woods que estabeleceu o Fundo              titudo por um novo. Essa tese suscitou muito
Monetrio Internacional.  especialmente conhe-          debate depois de sua publicao, e desenvolvi-
cido por seus escritos sobre economia, com des-          mentos posteriores da obra de Kuhn tm se
taque para The General Theory of Employment,             encaminhado freqentemente em direes
Interest and Money (1936). Ver KEYNESIANISMO.            relativistas. Ver SOCIOLOGIA DA CINCIA.
Kristeva, Julia (n.1941, Bulgria). Terica li-          Lenin, Vladimir Ilyich [Vladimir Ilyich Ulya-
terria e cultural, lingista e psicanalista. Influen-   nov] (n.1870, Simbirsk; m.1924, Gorki). Estadista
814   Lvi-Strauss, Claude


revolucionrio e terico poltico russo. Estudou       saios, sua obra terica mais conhecida (e tambm
por pouco tempo na Universidade de Kazan e             uma de suas primeiras) foi Geshichte und Klas-
depois se dedicou inteiramente s atividades revo-     senbewusstsein (1923), na qual desenvolveu a sua
lucionrias. Regressou do exlio com o deflagrar       teoria da conscincia de classe e reavaliou a signi-
da Revoluo Russa e liderou a segunda fase desta      ficao de Hegel para o marxismo; elaborou uma
(bolchevique), tornando-se presidente do Conse-        teoria da alienao e da reificao muito antes de
lho de Comissrios do Povo. Em obras como Que          terem sido publicados os primeiros manuscritos de
fazer? (1902) e Estado e revoluo (1917), des-        Marx sobre o assunto. Lder do movimento comu-
creveu a natureza do estado socialista e imprimiu      nista hngaro, esteve politicamente ativo na Co-
uma nfase diferente  teoria da revoluo de Marx     muna hngara de 1919 e de novo no femero
ao sublinhar a centralidade da luta de classes lide-   governo instalado depois da revolta de 1956.
rada por um partido rigorosamente organizado, e,                                                 ..
em O imperialismo, fase superior do capitalismo        Luxemburgo, Rosa (n.1871, Zamosc, Pol-
(1916), elaborou uma teoria do imperialismo co-        nia; m.1919, Berlim). Socialista revolucionria
mo etapa final do capitalismo. Atravs da Interna-     polonesa. Estudou matemtica, cincias naturais e
cional Comunista, que ele inspirou, suas idias        economia poltica na Universidade de Zurique,
foram divulgadas no mundo inteiro. Foi o mais          ajudou a criar o Partido Social-Democrata da Po-
influente lder poltico e terico do marxismo no      lnia e em seguida se mudou para a Alemanha.
incio do sculo XX, mas a atrao do LENINISMO        Luxemburgo defendeu a causa da revoluo e
declinou no transcorrer do sculo.                     exps sua oposio ao REFORMISMO em Reforma
                                                       social ou revoluo (1899). Em Greve de massas,
Lvi-Strauss, Claude (n.1908, Bruxelas). An-           partido poltico e sindicatos (1906), props a gre-
troplogo francs. Estudou na Faculdade de Direi-      ve de massas, no a vanguarda organizada defen-
to, em Paris, e na Sorbonne. Influenciado pelas        dida por Lenin, como o mais importante instru-
abordagens de Saussure, Trubetzkoy, Jakobson e         mento da revoluo proletria. E em sua principal
Mauss, desenvolveu o que se tornou conhecido           obra terica, A acumulao de capital (1913),
como "antropologia estrutural"; suas principais        identificou o IMPERIALISMO como uma luta com-
publicaes incluem As estruturas elementares do       petitiva entre naes capitalistas que culminar no
parentesco (1949), Tristes trpicos (1955), O pen-     colapso do sistema capitalista. Fundou com Karl
samento selvagem (1962) e Mytologiques (1964-          Liebknecht a Liga dos Espartaquistas, e ambos
72). Sua obra tambm teve considervel impacto         foram brutalmente assassinados na priso por ofi-
sobre outras cincias sociais e sobre algumas for-     ciais da extrema direita em 1919, depois da supres-
mas de pensamento marxista. Ver ANTROPOLOGIA;          so de um malogrado levante em Berlim.
ESTRUTURALISMO.
                                                       Malinowski, Bronislaw            (n.1884, Cracvia;
Lorenz, Konrad Zacharius (n.1903, Viena).              m.1942, New Haven, Connecticut). Antroplogo
Etologista austraco. Fundador da etologia moder-      social. Estudou na Inglaterra, onde iniciou sua
na, formou-se na Universidade Columbia e em            carreira. Contribuiu para a transformao da AN-
Viena (onde estudou medicina). Lecionou em Vie-        TROPOLOGIA do sculo XIX em uma cincia mo-
na (1937-40) e Knigsberg (1940-42), criou um          derna, baseada no trabalho de campo, e para o
departamento de etologia comparada no Instituto        estabelecimento de uma escola britnica de antro-
Max Planck, em Bulden, e dirigiu o Departamento        pologia social. Autor de numerosas obras, como
de Sociologia Animal do Instituto de Etologia          Magic, Science and Religion (1925), empreendeu
Comparada da Academia de Cincias Austraca            extensos estudos de pequenas sociedades no-le-
(1973). Entre suas principais obras esto Zur Na-      tradas e foi um dos originadores da abordagem
turgeschichte der Aggression (1963) e Begrn-          funcionalista para o estudo da cultura. Ver FUNCIO-
dungen der Ethologie (1978).                           NALISMO.

Lukcs, Gyrgy [Georg] (n.1885, Buda-                  Mannheim, Karl (n.1893, Budapeste; m.1947,
peste; m.1971, Budapeste). Filsofo e crtico lite-    Londres). Socilogo hngaro. Estudou nas Uni-
rrio. Estudou na Universidade de Budapeste, on-       versidades de Berlim, Budapeste, Paris e Freiburg.
de obteve o doutorado em 1906. Tambm tomou            Foi companheiro de Lukcs na Comuna hngara
aulas particulares com Heinrich Rickert em Hei-        de 1919, quando se viu obrigado a fugir para a
delberg (1912-15). Autor de muitos livros e en-        Alemanha em 1919 e de novo, agora da Alemanha
                                                                            Mead, George Herbert        815


para a Inglaterra, em 1933. Lecionou em Heidel-         o de Marshall foi fundamental para o es-
berg, em Frankfurt, na London School of Econo-          tabelecimento, em 1903, de um novo exame de
mics e no Instituto de Educao (Universidade de        economia e poltica na Universidade de Cam-
Londres). Foi o fundador da chamada SOCIOLOGIA          bridge, para a obteno do ttulo com distino,
DO CONHECIMENTO, que se props mostrar as               tendo ele prprio que o financiar em parte. Ver
razes sociais do conhecimento (Ideologie und           CINCIA ECONMICA; ESCOLA ECONMICA MARGI-
Utopie, 1929, e Essays on the Sociology of Know-        NALISTA.
ledge, 1952), e estava interessado primordial-
mente na possibilidade de transcender os pontos         Marx, Karl Heinrich (n.1818, Trier; m.1883,
de vista parciais de vrias faces sociais e polti-   Londres). Filsofo social e revolucionrio alemo.
cas a fim de se produzir um certo grau de consenso      Formado nas Universidades de Bonn e Berlim,
atravs da obra de intelectuais "socialmente no-       Marx desenvolveu uma concepo materialista da
comprometidos".                                         histria (A ideologia alem, escrita com Engels,
                                                        1845-6) e anteviu uma revoluo global como a
Mao Tse-tung [Mao Zedong] (n.1893, Xao-                 culminao do conflito entre os capitalistas e o
chan; m.1976, Pequim). Revolucionrio e estadis-        proletariado, a ser seguida pela construo de uma
ta chins, foi o lder da Revoluo Chinesa de 1949     sociedade sem classes, comunista. O Manifesto
e o arquiteto da nova China comunista. Depositava       comunista (escrito com Engels, 1848) foi um dos
grande f no potencial revolucionrio e na capaci-      mais influentes panfletos polticos de todos os
dade criativa do campesinato e das massas em            tempos, e os trs volumes de O capital (1867, 1885
geral, mas  grande o debate quanto  natureza e       e 1894) apresentaram uma profunda anlise do
originalidade de sua contribuio terica para o        processo capitalista de produo. Politicamente
marxismo. Sua oposio  burocracia inspirou a          ativo, Marx foi uma figura decisiva no estabeleci-
"Revoluo Cultural" de 1966-76, que causou             mento da Associao Internacional dos Traba-
uma dcada de caos e convulso poltica na China.       lhadores em 1864, tornando-se finalmente o seu
Ver MAOSMO.                                            lder.  a mais importante figura na histria do
                                                        pensamento socialista e suas idias mudaram pro-
Marcuse, Herbert (n.1898, Berlim; m.1979,               fundamente a vida social e as cincias sociais no
Munique). Terico social e poltico. Estudou filo-      sculo XX. Ver MARXISMO.
sofia em Berlim e Freiburg, e ingressou no Ins-
tituto de Pesquisa Social de Frankfurt em 1933,         Mauss, Marcel (n.1872, Epinal-en-Lorraine;
tornando-se posteriormente uma figura-chave na          m.1950, Paris). Socilogo e antroplogo francs.
ESCOLA DE FRANKFURT. Foi um proeminente por-            Estudou filosofia em Bordus e histria da religio
ta-voz da NOVA ESQUERDA na dcada de 60 e incio        na cole Pratique des Hautes tudes. Durante toda
dos anos 70, e crtico da natureza da sociedade         a sua carreira, esteve profundamente envolvido
contempornea (Ideologia da sociedade indus-            em trabalho de colaborao com Durkheim -- a
trial, 1964). Sua teoria social recorreu a numerosas    noo de "fatos sociais totais"  atribuda a Mauss
fontes, em especial ao Jovem Marx, a Hegel,             -- e outros, e desempenhou importante papel na
Heidegger e Freud, e sua natureza ecltica est         edio da revista L'Anne Sociologique. Suas con-
refletida em obras como Razo e revoluo               tribuies tericas provm principalmente de ter
(1941), sobre Hegel, e Eros e civilizao (1955),       aplicado e refinado a sociologia durkheimiana (ver
sobre Freud.                                            ANTROPOLOGIA; ESCOLA SOCIOLGICA DE DUR-
                                                        KHEIM); e seus estudos, como Le don (1925),
Marshall, Alfred (n.1842, Londres; m.1924,              muito influenciaram os antropolgos franceses
Cambridge). Economista ingls. Estudou na Mer-          subseqentes, entre eles Lvi-Strauss.
chant Taylor's School e no St. John's College, de
Cambridge, diplomando-se em matemtica. Em              Mead, George Herbert (n.1863, Massachu-
1868 lecionou cincia moral em Cambridge, pe-           setts; m.1931, Chicago). Filsofo e socilogo
rodo durante o qual iniciou seu estudo de cincia      norte-americano. Estudou no Oberlin College, em
econmica. Voltou a Cambridge (depois de ensi-          Harvard (onde foi aluno de William James), Leip-
nar em Bristol) como professor de economia pol-        zig e Berlim. Passou a maior parte de sua vida ativa
tica em 1885 e se estabeleceu como a fora domi-        na Universidade de Chicago (a partir de 1894), onde
nante na cincia econmica britnica com a publi-       desempenhou um papel decisivo na formao da
cao de Principles of Economics (1890). Ainterven-     "Escola de Chicago" do PRAGMATISMO, a qual teve
816   Mead, Margaret


grande impacto no desenvolvimento do INTER-            os homens, "em geral, agem de um modo no-l-
ACIONISMO SIMBLICO. Mead sustentava que o des-        gico", pelo que o mundo ideal do Homo oecono-
envolvimento do Eu era um processo que s ocorria      micus no era esclarecedor ao descrever o mundo
em interao social (Mind, Self and Society, 1934).    real. No Trattado di sociologia generale (1916-
                                                       19), elaborou a categoria da ao no-lgica e
Mead, Margaret (n.1901, Filadlfia; m.1978,            tambm uma influente teoria das elites.
Nova York). Antroploga e crtica cultural norte-
americana. Estudou no Barnard College, Nova            Parsons, Talcott (n.1902, Colorado Springs;
York, e na Universidade Columbia. Ao longo de          m.1979, Munique). Socilogo norte-americano.
toda a sua carreira, seus estudos antropolgicos       Estudou no Amherst College, na London School
foram preponderantemente orientados para des-          of Economics e na Universidade de Heidelberg. O
afiar convenes aceitas, sobretudo em termos de       tema comum de suas principais obras (The Struc-
papis de GNERO; e, no debate natureza-cultura,       ture of Social Action, 1937, The Social System,
ela favorecia claramente a segunda (Male and           1951)  a sua crena em uma teoria funcionalista,
Female, 1949). Alm de sua obra antropolgica,         de acordo com a qual a vida social  regulada por
tambm comentou sobre desarmamento, feminis-           normas e valores comuns. Foi essa uma pers-
mo e cultura da juventude. Ver ANTROPOLOGIA.           pectiva terica dominante na sociologia americana
                                                       durante as dcadas de 40 e 50, e Parsons foi o
Merleau-Ponty, Maurice             (n.1908, Roche-     socilogo dominante desse perodo.
fort-sur-Mer; m.1961, Paris). Filsofo existen-
cialista francs. Formado na cole Normale Sup-       Piaget, Jean (n.1896, Neuchtel; m.1980, Ge-
rieure, lecionou em numerosos liceus e subse-          nebra). Psiclogo, bilogo e filsofo suo. Trei-
qentemente na Universidade de Lyon (1945-48),         nado como bilogo, interessou-se durante toda a
na Sorbonne (1949-52) e no Collge de France           sua carreira pelas origens e condies do conheci-
(1952-61). Fundou e co-editou com Sartre e Si-         mento. Estudou psicologia em Zurique (1918) e
mone de Beauvoir a revista Les Temps Modernes          na Sorbonne (1919). Sua obra mais conhecida  sobre
(1944). Influenciado por Husserl, Merleau-Ponty        a psicologia do desenvolvimento da inteligncia em
tentou, no obstante, afirmar a existncia de um       crianas. Exposta em livros como A gnese das
mundo que transcende a conscincia, mas s            estruturas lgicas elementares (1950, com Brbel
acessvel atravs da percepo (La phnomnolo-        Inhelder) e A psicologia da criana (1966), tem
gie de la perception, 1945). Tinha simpatia pelo       exercido uma influncia macia na psicologia do
marxismo, mas era crtico dele, e em Les aventures     desenvolvimento cognitivo desde o comeo dos anos
de la dialectique (1955) criticou o marxismo "vul-     60. Mas tambm escreveu, de modo mais geral, sobre
gar" que impregnava o movimento comunista e            epistemologia e ESTRUTURALISMO.
refutou as idias de determinismo histrico. Tam-
bm foi crtico das teses de Sartre sobre a autono-    Popper, sir Karl Raimund (n.1902, Viena;
mia suprema do indivduo. Ver EXISTENCIALISMO;         m.1994, Inglaterra). Filsofo da cincia. Formado
FENOMENOLOGIA.                                         em matemtica, fsica e filosofia em Viena, tinha
                                                       contato com o CRCULO DE VIENA, mas no foi um
Pareto, Vilfredo Federico Damaso (n.1848,              de seus membros. Em seu primeiro livro, Logik
Paris; m.1923, Genebra). Economista e socilogo        der Forschung (1934), Popper pretendeu resolver
italiano. Formado no Instituto Politcnico de Tu-      o problema de induo de Hume substituindo o
rim e na Universidade de Turim, onde estudou           critrio do Crculo de Viena para a cientificidade
cincias matemticas. Trabalhou na indstria de        (o princpio de verificao) pelo seu famoso prin-
engenharia mecnica durante 20 anos e s abraou       cpio de falsificao. Depois da guerra Popper
a carreira de economista na dcada de 1890. Em         mudou-se para a Inglaterra e lecionou na London
1893 foi nomeado professor de economia poltica        School of Economics. Voltou suas atenes para o
na Universidade de Lausanne. Seu Cours d'eco-          estudo da filosofia social e poltica, desenvolven-
nomie politique (1897) e o Manuale di economia         do uma crtica aos inimigos da SOCIEDADE ABERTA
politica (1906) so abundantes em metforas me-        (em particular, Plato, Hegel e Marx) e ao HIS-
canicistas de cincia natural, e nesses textos muito   TORICISMO, que ele definiu como a crena em que
abstratos faz sua primeira apario o Homo oeco-       existem leis da histria suscetveis de serem des-
nomicus. Pareto voltou ento as suas atenes,         cobertas (A sociedade aberta e seus inimigos,
cada vez mais, para a sociologia, afirmando que        1945, A pobreza do historicismo, 1957).
                                                                                        Scheler, Max     817


Poulantzas, Nicos (n.1936, Atenas; m.1979,              No-Conscription Fellowship (organizao contr-
Paris). Terico poltico e social grego. Formado        ria ao servio militar obrigatrio) em 1915 e foi
em uma escola experimental ligada  Universi-           multado e preso. Foi para os Estados Unidos de-
dade de Atenas e depois em um Institut Franais,        pois da guerra, mas se viu impedido de ensinar em
Poulantzas ingressou ento na Universidade de           Nova York por suas idias extremamente liberais
Atenas para estudar direito, quando aderiu ao Par-      sobre sexo, educao e guerra. Atuou no movi-
tido Comunista Grego. Depois de cumprir o servi-        mento pacifista depois da Segunda Guerra Mun-
o militar obrigatrio, foi estudar na Alemanha,        dial; foi presidente da Campanha pelo Desarma-
mas logo se mudou para a Frana, onde lecionou          mento Nuclear (1958-60), criou a Bertrand Rus-
subseqentemente na Sorbonne e na Universidade          sell Peace Foundation (1963) e foi um dos organi-
de Vincennes. O seu primeiro livro, Pouvoir poli-       zadores do Tribunal Internacional para Crimes de
tique et classes sociales (1968), revelou tendn-       Guerra (1966), do qual participou tambm Sartre,
cias althusserianas, ao sustentar que o estado es-      entre outros. Sua principal obra filosfica tratou de
tava estruturado de tal modo que, independente-         lgica e epistemologia (Principia Mathematica, com
mente de seu quadro de pessoal, agiria no interesse     Alfred North Whitehead, 1910-13; Human Know-
da burguesia. Sua obras posteriores incluem Les         ledge, 1948), mas tambm escreveu muito sobre
classes sociales dans le capitalisme d'aujourd'hui      questes sociais e polticas. Ver FILOSOFIA.
(1974) e L'tat, le pouvoir, le socialisme (1978).
                                                        Sartre, Jean-Paul (n.1905, Paris; m.1980, Pa-
Radcliffe-Brown, Alfred Reginald (n.1881,               ris). Filsofo, romancista e teatrlogo. Estudou na
Birmingham; m.1955, Londres). Antroplogo bri-          cole Normale Suprieure e em Freiburg. Evitou
tnico, formado no Trinity College, Cambridge,          a vida acadmica convencional, embora lecionas-
onde foi o primeiro aluno do antroplogo W.H.R.         se por muitos anos em vrios liceus. Influenciado
Rivers, Radcliffe-Brown recebeu a influncia de         por Husserl e Heidegger, Sartre exps o seu EXIS-
Durkheim e desenvolveu uma abordagem funcio-            TENCIALISMO em L'tre et le nant (1943). Serviu
nalista da antropologia (ver FUNCIONALISMO). Foi        no exrcito francs durante a guerra, foi capturado
Fellow do Trinity College (1908-14) e depois            em Padoux em 1940, mas fugiu em 1941, e depois
lecionou nas Universidades de Londres (1909-            da guerra se dedicou a escrever. Fundou (com
10), Cidade do Cabo (1921-25), Sydney (1925-            Simone de Beauvoir e Merleau-Ponty) a revista
31), Chicago (1931-37), Oxford (1937-41 e 1945-         Les Temps Modernes e aderiu ao marxismo, que
46) e So Paulo (1942-44). Suas principais obras        considerava compatvel com sua filosofia exis-
incluem The Andaman Islanders (1922, 1948),             tencialista (Critique de la raison dialectique,
Structure and Function in Primitive Society             1960). Mas criticou vigorosamente o Partido Co-
(1952) e A Natural Science of Society (1957).           munista Francs, com o qual rompeu depois de
                                                        1968. Sua filosofia existencialista de esquerda
Rawls, John Boardley (n.1921, Baltimore).               modelou profundamente a cultura francesa por
Filsofo moral norte-americano. Formado em Prin-        mais de uma dcada depois da guerra.
ceton, exerceu funes docentes nessa Universidade
(1950-52), bem como em Cornell (1953-62) e Har-         Saussure, Ferdinand de (n.1857, Genebra;
vard (desde 1962).  o autor de A Theory of Justice     m.1913, perto de Genebra). Fundador da lings-
(1971), plano geral de inspirao kantiana (e, por      tica moderna. Estudou lnguas indo-europias nas
conseguinte, antiutilitarista) de uma filosofia moral   Universidades de Leipzig e Berlim. O seu Cours
contempornea na tradio contratariana, e provavel-    de linguistique gneral (1916)  em geral conside-
mente a mais conhecida obra de filosofia moral desde    rado a mais significativa obra de lingstica escrita
a Segunda Guerra Mundial.                               neste sculo. A influncia de Saussure  tambm
                                                        evidente no ESTRUTURALISMO da dcada de 60,
Russell, Bertrand Arthur William (n.1872,               essencialmente uma tentativa de aplicao da teo-
Gwent; m.1970, Gwynedd). Filsofo britnico.            ria lingstica saussureana a outros temas e ativi-
Estudou no Trinity College, Cambridge, onde se          dades alm da prpria linguagem. Ver LINGS-
formou com distino em matemtica e filosofia          TICA; SEMITICA.
moral. Lecionou no Trinity (1895-1916), onde
Wittgenstein foi seu aluno, tendo sido exonerado        Scheler, Max (n.1874, Munique; m.1928, Fran-
de suas funes por se opor  entrada dos britni-      kfurt). Filsofo e socilogo alemo. Estudou me-
cos na Primeira Guerra Mundial. Ingressou na            dicina e filosofia nas Universidades de Berlim,
818   Schumacher, Ernst Fritz


Munique e Iena. Embora no fosse um fenomeno-          Schutz, Alfred (n.1899, Viena; m.1959, Nova
logista "ortodoxo", grande parte de sua filosofia      York). Socilogo austraco. Formado em direito e
estava em concordncia com a obra de Franz             cincias sociais na Universidade de Viena, onde
Brentano e Edmund Husserl (ver FENOMENOLOGIA)          foi aluno de von Mises. Mudou-se em 1939 para
e, na realidade, foi alm de Husserl, que o criticou   Nova York, onde se juntou  New School of Social
por isso. Seu perodo fenomenolgico durou at         Research, mas tambm assumiu um emprego co-
1920; em 1920-24, depois de sua converso ao           mo bancrio para aliviar provaes financeiras.
catolicismo, esteve interessado em filosofia reli-     Schutz usou conceitos husserlianos para ampliar a
giosa seguindo-se um "perodo metafsico" (1924-       anlise de Weber da ao social e investigou a
28) caracterizado pelo vitalismo e pelo pantesmo.     constituio do "mundo" e a intersubjetividade em
Suas principais contribuies para o pensamento        uma obra que influenciou consideravelmente a
social situam-se no domnio da psicologia social e     etnometodologia. Seu principal quadro de refern-
da SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO.                         cia analtica est apresentado em A fenomenologia
                                                       do mundo social (1932).
Schumacher, Ernst Fritz (n.1911, Bonn;
m.1977, Sua). Economista alemo. Formado em          Simmel, Georg (n.1858, Berlim; m.1918, Es-
Oxford, foi um dos primeiros Rhodes Scholars           trasburgo). Filsofo e socilogo alemo. Estudou
alemes depois da Primeira Guerra Mundial. Pas-        histria, psicologia, antropologia e filosofia na
sou a maior parte da dcada de 30 na Inglaterra e      Universidade de Berlim. Empregou a metodologia
nos Estados Unidos. Em 1943 defendeu um sis-           de uma variedade de disciplinas para estudar fen-
tema de pagamentos internacionais semelhante ao        menos culturais como a religio, a economia mo-
de Keynes que se tornou uma parte central do           netria, a ascenso da moralidade e a autopreser-
sistema instaurado em Bretton Woods. Foi conse-        vao de grupos. Provavelmente, sua mais co-
lheiro da Comisso Britnica de Controle na            nhecida aplicao dessa abordagem est no livro
Alemanha (1946-50) e da Comisso do Carvo             Philosophie des Geldes (1900), onde estudou o
britnica (1950-70), considerando o uso da ener-       impacto da economia monetria sobre as relaes
gia nuclear extremamente hostil ao meio ambi-          sociais humanas.
ente. Em 1955 visitou a Birmnia, onde se conver-
teu ao budismo e escreveu Small is Beautiful
                                                       Sorel, Georges Eugne (n.1847, Cherburg;
(1973), escarnecendo dos padres de vida ociden-       m.1922, Boulogne-sur-Seine, Paris). Filsofo so-
                                                       cial francs. Estudou na cole Polytechnique de
tais por terem sido alcanados  custa de uma
cultura aviltada. Ver AMBIENTALISMO.                   Paris, onde se distinguiu na matemtica e se diplo-
                                                       mou como engenheiro. Exerceu a profisso at
Schumpeter, Joseph Alois (n.1883, Triesch,             1892, quando a abandonou para se concentrar no
                                                       estudo de questes sociais e polticas. Embora seu
Morvia; m.1950, Connecticut). Economista aus-
                                                       nome fosse freqentemente associado aos de Mos-
traco. Formado na Universidade de Viena, come-
                                                       ca e Pareto, Sorel  muito mais conhecido como
ou a lecionar na Universidade de Graz em 1911.        inovador em teoria marxista e metodologia das
Foi ministro das Finanas do governo austraco em      cincias sociais; rejeitando as pretenses univer-
1919-20, antes de recomear o ensino em Bonn           salistas das concepes positivistas de cincia,
(1925-32) e Harvard (1932-50). Manifestou sim-         favoreceu o pluralismo intelectual e metodol-
patia pelo marxismo, pelo qual se interessou ainda     gico. A partir de 1896 iniciou uma reinterpreta-
quando estudante em Viena ao assistir aos debates      o do marxismo, identificando os seus princpios
entre economistas austracos (Bhn-Bawerke e           centrais como "mitos" -- mormente o da greve
von Mises) e os austromarxistas (Hilferding e          geral -- capazes de inspirar a classe trabalhadora
Bauer). Adquiriu renome internacional pela sua         para ao fora da estrutura da democracia parla-
Teoria do desenvolvimento econmico (1911), por        mentar (Rflexions sur la violence, 1906).
seus estudos dos ciclos econmicos, utilizando a       Spencer, Herbert (n.1820, Derby; m.1903,
concepo de Kondratiev de "ciclos de longo pra-       Brighton). Filsofo e socilogo britnico, nunca
zo", por seu livro Ciclos econmicos (1939) e por      freqentou a escola secundria nem a universi-
sua anlise do provvel declnio do capitalismo em     dade. Iniciou sua carreira como maquinista de
Capitalismo, socialismo e democracia (1942). Ver       trens, antes de se dedicar a escrever e a estudar
AUSTROMARXISMO.                                        filosofia, publicando o seu primeiro livro, Social
                                                                                 Veblen, Thorstein      819


Statistics, em 1851. Era um evolucionista antes de     laes impessoais, interesses particulares, direito
Darwin e foi ele quem criou a expresso "sobrevi-      e opinio pblica.
vncia dos mais aptos". Procurou traar os princ-
pios da evoluo em todos os ramos do conhe-           Toynbee, Arnold Joseph (n.1889, Londres;
cimento em sua obra de vrios volumes A System         m.1975, Londres). Historiador ingls. Estudou no
of Synthetic Philosophy, cujo volume III, Princi-      Balliol College, Oxford (1907-11), e na Escola
ples of Sociology (1896), foi o mais influente. Em     Arqueolgica Britnica de Atenas (1911-12). Foi
seu livro The Man Versus the State (1873), defen-      professor de lngua, literatura e histria bizantinas
deu uma posio de laissez-faire, atacando todas       e gregas na Universidade de Londres desde 1919,
as formas de interferncia do estado que violam a      e tambm diretor de estudos do Royal Institute of
liberdade individual. O que o tornou mais clebre      International Affairs, Londres (1925-55). Con-
talvez tenha sido a sua crena otimista no progres-    quistou renome com a publicao de A Study of
so humano atravs da evoluo. Ver PROCESSOS           History (vols.I-III, 1934; IV-VI, 1939; VII-X,
EVOLUCIONRIOS NA SOCIEDADE.                           1954 e XI-XII, 1961), o qual examinou 21 civili-
                                                       zaes que, segundo ele, manifestam padres se-
Teilhard de Chardin, Pierre (n.1881, Sarce-            melhantes de crescimento e decadncia.
nat, Frana; m.1955, Nova York). Telogo e pa-
                                                       Trotsky, Leon [Lev Bronstein] (n.1879, Ya-
leontlogo francs. Educado como jesuta na            novka, Ucrnia; m.1940, Coyoacn, Mxico). L-
Frana e na Inglaterra (1893-1911), foi ordenado       der militar e revolucionrio comunista russo. Em
padre da Companhia de Jesus. Em 1912-22 es-            1917 Trotsky aderiu aos bolcheviques, tornando-
tudou geologia no Institut Catholique (onde sub-       se um dos principais organizadores da vitoriosa
seqentemente lecionou, 1920-3) e paleontologia        Revoluo de Outubro. No primeiro governo so-
no Museu de Histria Natural. De 1923 a 1946 foi       vitico, foi Comissrio do Povo para as Relaes
designado para um Colgio Jesuta de Altos Es-         Exteriores e negociou a Paz de Brest-Litovsk
tudos na China. Seus interesses eram tanto a teo-      (1918), pela qual a Rssia se retirou da Primeira
logia quanto a cincia, mas seus escritos cientfi-    Guerra Mundial. Como Comissrio do Povo para
cos tiveram sua publicao proibida por seus su-       a Guerra (1918-24), formou o Exrcito Vermelho,
periores jesutas enquanto ele viveu. Em Le ph-       e sua direo durante a guerra civil russa salvou a
                                                       revoluo bolchevique. Foi expulso do partido em
nomene humain (1955) sustentou que, tendo pas-
                                                       1927 e se exilou. Pouco depois de fundar a Quarta
sado por uma fase divergente em que surgiram
                                                       Internacional (1937) para se opor ao stalinismo,
culturas de grande variedade, a evoluo humana        foi assassinado no Mxico. Era um internaciona-
ingressar em uma fase convergente em que cul-         lista, dedicado  revoluo mundial, e adversrio
turas dspares se reuniro em unanimidade.             do "socialismo em um pas" de Stalin. Sua princi-
                                                       pal contribuio para o pensamento marxista foi a
Tnnies, Ferdinand Julius (n.1855, Eider-              teoria do "desenvolvimento desigual e combina-
stedt, Schleswig-Holstein; m.1936, Kiel, Schles-       do", e a doutrina derivada da "revoluo perma-
wig-Holstein). Terico social e filsofo alemo.       nente". Ver TROTSKYSMO.
Estudou numerosas disciplinas em vrias univer-
sidades, at obter o doutorado em filologia clssica   Veblen, Thorstein (n.1857, Manitowas Coun-
em Tbingen no ano de 1877. Lecionou na Uni-           ty, Wisconsin; m.1929, Menlo Park, Califrnia).
versidade de Kiel de 1881 a 1933, quando foi           Economista institucional e pensador social radical
demitido pelos nazistas. Sua principal obra, Ge-       norte-americano. Estudou nas universidades
meinschaft und Gesellschaft (1887),  um dos           Johns Hopkins e Yale, e se tornou uma figura
clssicos da sociologia, e Tnnies adquiriu re-        iconoclasta em cincia econmica, criticando a
nome, de fato, ao introduzir os termos Gemein-         ortodoxia neoclssica por negligenciar questes
schaft (COMUNIDADE) -- uma forma social carac-         sociais e culturais mais amplas pertinentes  eco-
terizada por relaes pessoais, intenso esprito       nomia. Em livros como The Theory of the Leisure
emocional, constituda por cooperao, costume e       Class (1899) e The Theory of Business Enterprise
religio, e encontrada na famlia, na aldeia e em      (1904), parcialmente influenciado por suas leitu-
pequenas comunidades urbanas; e Gesellschaft           ras de autores socialistas e marxistas, introduziu
(sociedade) -- uma organizao de grande escala,       conceitos como os de "consumo conspcuo" e
como cidade, estado ou nao, baseada em re-           "desperdcio ostensivo", que se tornaram fami-
820   von Mises, Ludwig Edler


liares. Lecionou em vrias universidades, mas seu     Charles Booth. Publicou The Co-operative Move-
excntrico estilo de vida, sua originalidade e sua    ment in Great-Britain (1891).
descrio das universidades americanas em The
Higher Learning in America (1918) alienaram-no        Webb, Sidney James, baro de Passfield
da corrente acadmica predominante.                   (n.1859, Londres; m., Passfield Corner, Hamp-
                                                      shire). Reformador social e historiador. Estudou
von Mises, Ludwig Edler (n.1881, Lemberg,             na Sua e em Mecklenburg-Schwerin, no Birk-
ustria-Hungria; m.1973, Nova York). Economis-        beck Institute e no City of London College. Ingres-
ta austraco. Estudou na Universidade de Viena,       sou na Sociedade Fabiana em 1885 e escreveu
onde participou dos seminrios do grupo de            numerosos folhetos de propaganda fabiana --
Bhm-Bawerk. Foi economista da Cmara de Co-          Facts for Socialists (1887), Facts for Londoners
mrcio de Viena (1909-34), professor universit-      (1889) --, e deu uma contribuio significativa
rio e conselheiro do governo austraco. Deu contri-   para Fabian Essays in Socialism (1889). Eleito
buies tericas para a teoria monetria (A teoria    membro do Conselho do Condado de Londres
da moeda e do crdito, 1912) e iniciou o debate       para Deptford (1892-1910). Fundador da London
sobre o CLCULO SOCIALISTA ao sustentar que           School of Economics. Autor de muitos livros com
nenhum governo podia calcular suficientemente         Beatrice Webb, "a firma dos Webb", como esta a
bem para planejar uma economia (Planejamento          chamava, e foi a seu lado uma figura eminente do
econmico coletivista, org. por Hayek, 1935). Em      movimento socialista. Suas obras conjuntas in-
Ao humana (1949), forneceu um resumo                cluem The History of Trade Unionism (1894,
clssico do subjetivismo austraco em econo-          1920), Industrial Democracy (1927) e Soviet Co-
mia. Ver ESCOLA AUSTRACA DE ECONOMIA.                munism: A New Civilization? (1935).

Weber, Max (n.1864, Erfurt; m.1929, Muni-             Wittgenstein, Ludwig Josef Johann
que). Socilogo e economista alemo. Formado          (n.1889, Viena; m.1951, Cambridge). Estudou em
em Heidelberg, Estrasburgo, Gttingen e Berlim,       Berlim-Charlottenburg, Manchester e Trinity Col-
onde estudou direito, cincia econmica, histria     lege, Cambridge (onde foi aluno de Bertrand Rus-
e filosofia. Exerceu as ctedras de economia pol-    sell). Feito prisioneiro na Itlia durante a Primeira
tica em Freiburg e Heidelberg, mas se retirou do      Guerra Mundial, enviou a Russell um rascunho do
ensino em 1898 depois de sofrer um colapso ner-       Tractatus Logico-Philosophicus (1921). Depois
voso. Foi o maior responsvel pelo estabelecimen-     da guerra, abandonou a filosofia acadmica e se
to da sociologia como disciplina acadmica na         tornou mestre-escola na ustria, mas permaneceu
Alemanha e, a partir de 1904, editou uma impor-       em contato com os desenvolvimentos em filosofia
tante revista de cincia social, Archiv fr Sozial-   atravs do CRCULO DE VIENA. Em 1929 voltou a
wissenschaft und Sozialpolitik. Escreveu sobre        Cambridge e em 1939 sucedeu a G.E. Moore
uma vasta gama de questes, tomando como temas        como professor de filosofia. Durante a Segunda
centrais o desenvolvimento do capitalismo e a         Guerra Mundial trabalhou no Guy's Hospital co-
RACIONALIZAO, mormente em obras como A
                                                      mo porteiro e foi ajudante no Laboratrio de Pes-
tica protestante e o esprito do capitalismo         quisa Clnica em Newcastle. Suas cambiantes con-
(1904-5), Histria econmica geral (1923) e Eco-      cepes filosficas durante as dcadas de 30 e 40
nomia e sociedade (1921). Tambm contribuiu           foram predominantemente veiculadas em semin-
substancialmente para discusses metodolgicas        rios e discusses, e os manuscritos e notas desse
a respeito da "interpretao" (Verstehen) e da ex-    perodo foram publicados depois de sua morte (por
plicao causal, valores e objetividade (A metodo-    exemplo, Philosophical Investigations, 1953).
logia das cincias sociais, (1904).                   Wittgenstein foi a principal fonte da FILOSOFIA DA
                                                      LINGUAGEM que floresceu na Gr-Bretanha nas
Webb, Beatrice [ne Potter] (n.1858, Glou-            primeiras dcadas do ps-guerra.
cester; m.1943, Passfield Corner, Hampshire). Re-                     Este apndice foi elaborado por:
formadora social e historiadora. Educada no lar                                         PAUL HOPPER,
por governantas, investigou pessoalmente as con-                              Universidade de Sussex
dies sociais e industriais; contribuiu para Life                                     MARK PEACOCK
and Labour of the People of London (1892-97), de      Wolfson College, Universidade de Cambridge
                                  BIBLIOGRAFIA



 Nota: A conveno 1910 (1987) indica um trabalho, originalmente publicado em 1910, porm
               mais facilmente acessvel em uma traduo em edio de 1987,
                          qual se referem os detalhes de publicao.


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                   NDICE DE NOMES E ASSUNTOS



  Nota: Os nmeros em negrito indicam as pginas em que o respectivo nome ou assunto so tratados mais
  extensamente. Sempre que nomes de colaboradores do Dicionrio figuram no ndice, as referncias so a
                         citaes em verbetes que no os de sua prpria autoria.


Abdel-Malik, Anuar, 541                                     sobre msica, 506
aburguesamento, 1                                           sobre racionalizao, 642
ao coletiva, 2, 253-4, 282, 494                           sobre reificao, 653
   ver tambm paz, movimento pela;                          e marxismo ocidental, 450
       movimento de mulheres                            afluente, sociedade ver sociedade afluente
ao direta, 13-4, 236                                  Agostinho, santo:
ao e mediao, 3-5, 448, 516, 580, 734, 735               e individualismo, 160, 162
   e conseqncias, 3                                       e modernidade, 473
   e determinismo, 203-4                                agresso, 5-7, 287
   e pragmatismo, 599                                       teorias do instinto de, 5, 7
   e racionalidade, 3, 4, 5, 239-40, 293,                   como comportamento aprendido, 7
       439-40, 640                                          valor da, 7
   e estrutura social, 393-4, 734                           e guerra, 345-9
   e sistema e sujeito, 5                               Al-Husri, Sati', 549, 550
   tipos de ao, 4, 5                                  Alchian, A.A., 609
   e formao da vontade, 3                             alienao, 7, 9, 166, 448, 742, 772, 794
   ver tambm comunicao; conversacional,                  e anomia, 7, 20, 383, 722
       anlise; inteno                                    e desalienao, 8
Adams, John, 304                                            e existencialismo, 7, 8, 292
Adler, Alfred, 566, 621, 752                                e processo de trabalho, 7, 8, 40, 41, 117,
Adler, Max, 1, 31, 32, 129, 793                                 218, 383, 461-2, 722, 774
administrao:                                              e prxis, 601
   participativa, 183-4                                 Allais, paradoxo de, 177
   cientfica ver fordismo e ps-fordismo;              Allport, Gordon, 566, 567, 602
       relaes industriais                             Almond, Gabriel, 170, 171
administrao, cincia da, 111, 183-4, 538,             Althusser, Louis, 807
   653-4, 670, 774-5                                        sobre alienao, 7, 9
   ver tambm comportamento organizacional;                 sobre cultura e sociedade, 115, 164
       organizao, teoria da                               e dialtica, 206, 319, 453
administrao pblica, 82-5                                 e marxismo, 88, 275, 276, 316, 368, 449, 451
Adorno, Theodor, 807                                        sobre modo de produo, 7, 481
   sobre arte, 267-9, 740-2                                 e teoria poltica, 765
   sobre civilizao, 88-9                                  sobre problemtica, 609
   e teoria crtica, 447, 448, 530                          como racionalista, 129
   sobre definio, 178-9                                   como estruturalista, 275-6, 316, 451,
   e dialtica, 207, 450                                        447-8, 530, 736, 765
   sobre histria, 243, 244, 316                        altrusmo, 44, 518, 519, 254
   sobre literatura, 434                                Ambedkar, Babasaheb, 65
   sobre cultura de massa, 169, 170, 243                ambientalismo, 10-2, 280, 281, 496

                                                  933
934   ndice de nomes e assuntos


    ver tambm ecologia                                   transmisso hereditria, 27
ameaa, coero como, 100-2                               papel poltico da, 27
amostra social, 12-3, 264-5, 635                          riqueza, 27, 672
    pesquisa com vtimas (de violncias), 155-6           ver tambm diferenciao social; elites,
    ver tambm estatstica social                             teoria das
analtica, filosofia ver filosofia da linguagem;      Aristteles, 455
       filosofia                                          sobre autoridade, 37-9
anarco-capitalismo, 14, 16, 17, 412, 425, 449, 527        e civilizao, 89
    ver tambm anarquismo; sindicalismo                   sobre comunicao, 113
anarco-sindicalismo, 13-4, 129, 687                       sobre lazer, 533
anarquismo, 14-7                                          e lgica, 437
    individualista, 14, 15, 38, 39, 93, 428, 526          sobre dinheiro, 209
    e libertarianismo, 425                                sobre necessidades, 518
    pacifista, 15, 16                                     e orientalismo, 511
    socialista, 15, 16, 687                               sobre poltica, 81
    ver tambm anarco-sindicalismo;                       sobre prxis, 160, 600
         libertarianismo; sindicalismo                    sobre racionalidade de ao, 3
Anderson, Perry, 146, 449                             Armstrong, D., 452
Annales, 17-20, 252, 363, 364, 367, 275               Aron, Raymond, 236, 270, 316, 723, 734
anomia, 20-1, 302, 369, 711, 757                      arqueologia e pr-histria, 27-31
    e alienao, 7, 20, 384, 722                          "nova"/processual, 29-30
    e cultura, 20, 21                                 Arrow, Kenneth, 42-3, 77, 79, 253, 255
    e decadncia, 174, 524                            arte ver esttica; dana
    econmico/conjugal, 20                            arte, sociologia da ver sociologia da arte
Anscombe, G.E.M., 203, 484                            artes dramticas ver cinema; dana; msica; teatro
Antal, Frederic, 741                                  Ashton, T.S., 365
anti-semitismo, 21-2, 300, 335, 405, 450, 512, 639,   associao e comunidade, 16, 115-7, 422, 577, 664,
    643                                                   714
    e anti-sionismo, 21                               associacionismo, 622
    ver tambm judasmo                               atomismo, 237, 239, 313, 381-2, 422
antropologia, 22-7, 187                               atribuio, teoria da, 627
    e arqueologia, 27-8                               Austin, J.L., 127, 204, 238, 315, 321, 323, 433, 647
    biolgica/fsica, 22, 24-6                        austro-marxismo, 31-3
    estudos comparados de, 22-4, 738                      e capitalismo, 57
    relativismo cultural, 24, 440                         e classe, 31-3
    e cultura, 10, 24-6                                   e epistemologia, 128
    e evoluo, 22-6, 555                                 e revisionismo, 31, 246, 446, 699-700
    e diversidade humana, 22-6                            e sociologia, 734, 790
    social, 22, 24, 25, 377, 747                      autenticidade (no existencialismo), 292
    e estruturalismo, 275, 276, 735                   autogesto, 33-6, 236, 448, 497
    e unidade da espcie humana, 24-6                     e democracia industrial, 34-6
    ver tambm parentesco                                 nacionalizao e socializao, 35, 36
Apel, Karl-Otto, 34, 353, 599                             e democracia participativa, 35, 36
"aproveitadores", problema dos, 2, 253                    trabalhador, 34-5, 184
Aquino, santo Toms de:                                   Iugoslvia, 9, 35, 52, 184, 448, 486,
    sobre comunicao, 113                                    530, 703, 713
    sobre inteligncia, 387                           automao, 36-7
    sobre teologia, 760, 761, 762                         ver tambm mudana tecnolgica; informao,
Arendt, Hannah, 89, 807                                       tecnologia e teoria da; trabalho
    sobre autoridade, 37-9                            autonomia individual, 39
    sobre inveno, 399                               autoridade, 37-9, 413-4, 427, 581
    sobre poder, 581                                      no anarquismo, 14, 38
    sobre estado e sociedade, 714, 721                    carismtica, 38, 60-2, 413, 426
Aris, Philippe, 299, 590                                 de jure/de facto, 38
aristocracia, 27                                          legal, 38, 416-7
                                                                      ndice de nomes e assuntos     935


   no liberalismo, 421                                Benjamin, Walter, 808
   tradicional, 38, 123, 124, 481                        sobre dialtica, 207, 243, 244
avant-garde ver vanguarda                                sobre sociologia da arte, 742
Axelos, Kostas, 9                                        e marxismo ocidental, 450-1
Ayer, A.J., 314, 317, 483                             Bentham, Jeremy, 42, 182, 303, 564, 596, 785
                                                      Bentley, A.F., 395
Bachelard, G., 315, 318, 319, 473, 595, 606, 648      Berger, Peter, 144, 370, 736, 746
   sobre materialismo dialtico, 456                  Bergson, Abram, 42, 43
   sobre a problemtica, 609                          Bergson, Henri Louis, 318, 715-6, 808
Bacon, Francis, 86, 593, 614                          Berlin, Isaiah, 424, 765
Bagehot, Walter, 482                                  Bernal, J.D., 583, 584
Bahro, Rudolf, 449                                    Bernoulli, Daniel, 177
Bakhtin, Mikhail M., 215, 239, 430, 807               Bernstein, Eduard, 701, 808
Bakhunin, Michael A., 16                                 e reformismo, 649
Bales, R.F., 392, 427                                    e revisionismo, 446, 450, 649, 662, 696, 699
Balibar, Ren, 436, 480                               Berr, Henri, 17, 19
Bandura, A., 6                                        Besnard, P., 21
Baran, Paul, 60, 188, 231                             Betti, Emilio, 351, 353
Barraclough, Geoffrey, 474                            Beveridge, William, 195, 196, 324, 579, 260
Barth, Karl, 162, 761                                 Bhaskar, R., 128, 793
Barthes, Roland Grard, 239, 434, 435, 470, 683,         sobre determinismo, 203
   807                                                   sobre empirismo, 238
base e superestrutura, 40-2, 443                         sobre materialismo, 452, 456
   e luta de classes, 479-80                             sobre naturalismo, 238, 515
   compatibilidade, 40                                   sobre ontologia, 126, 535, 536
   feedback, 40, 41, 94                                  sobre realismo transcendental, 127, 318, 472,
   em Marx, 40-2, 92, 93, 366, 601                            515, 595, 648, 649, 796
   e no-reducionismo, 40                                modelo transformacional, 320-1
   em sociologia do conhecimento, 745                 Bhave, Vinoba, 17, 355
Batteux, Charles, 266                                 Biderman, A.D., 468
Baudelaire, Charles, 474, 475, 740                    Binet, Alfred, 387
Bauer, Otto, 31, 33, 187                              Blache, Videl de la, 337
Baumgarten, Alexander Gottlieb, 265, 266              Blackstone, William, 149
Bawerk, Eugen Bhm, 241                               Blauner, Robert, 8, 9
Baxandall, Michael, 741                               Bloch, Ernst, 449, 450, 740, 764, 808
Beard, Charles, 365                                   Bloch, Marc, 18, 363, 738
Bearle, A.A. e Means. G.C., 669, 670                     e dialtica, 207
Beauvouir, Simone de, 316, 494, 808                      e escola de Durkheim, 252
   como existencialista, 291, 293                        e histria social, 367
   como feminista, 305, 306                           Bloomfield, L., 431
Becker, Howard, 139, 342, 532, 674                    Bloomsbury, grupo de, 44-5
   sobre transgresso, 152, 153, 675                  Bloor, David, 237, 319
behaviorismo ver comportamentalismo                   Blumer, Herbert, 393, 501
Bell, Clive, 44                                       Blumer, Martin, 248
Bell, Daniel:                                         Boas, Franz, 10, 277
   e sociedade de consumo, 719                           corpo, sociologia do ver sociologia do corpo
   sobre a crise do capitalismo, 157, 669, 723, 762      sociologia do corpo, 747-8
   sobre cultura, 166                                    ver tambm cotidiano
   sobre transgresso, 152                            bode expiatrio, 123-4, 467
   e o futuro, 330, 386                               Bhmer, J.F., 67
   sobre sociedade ps-industrial, 725-6              bolchevismo ver leninismo
   sobre profisses liberais, 612                     Bonald, Louis de, 741, 778
Bell, Vanessa, 44                                     bonapartismo, 45-7, 67
bem-estar, estado de ver estado de bem-estar             ver tambm cesarismo; ditadura; fascismo
bem-estar social, 43-4, 373, 694                      Booth, Charles, 12, 264
936   ndice de nomes e assuntos


Bosanquet, Bernard, 212, 312                      no despotismo oriental, 202-3
Bottomore, T.B., 93, 471                          socialista, 51-3, 780
Bougl, Clestin, 249, 251                        ver tambm diviso do trabalho; oligarquia;
Bourdieu, Pierre, 338                                 organizao
   como promotor do "realismo aplicado", 595   Burt, Cyril, 387, 388
   sobre arte e esttica, 265, 269, 740, 742      ciclo econmico, 67, 68-72, 72-3, 190, 459
   sobre classe, 94, 434                          e keynesianismo, 58, 69, 70
   sobre linguagem, 215, 429                      e hiptese das expectativas racionais, 70, 293-4
   e naturalismo, 515                             ver tambm depresso econmica; ciclos de
   sobre gosto e valores, 140                         longo prazo
Bourgin, Georges, 251, 252                        organizao industrial, 538-40
Bourgin, Hubert, 251                              cesarismo, 67-8, 217
Bowles, Samuel e Gintis, Herbert, 235                 ver tambm bonapartismo
Bowley, A.L., 12, 579                             socialista, clculo, 241, 511, 700, 707-10
Boyd, W., 648                                     clculo socialista ver socialista, clculo
Bradley, F.H., 205, 312
Braudel, Fernand, 92                           Campbell, N.R., 238, 318, 472, 648
   e a Escola dos Annales, 17-20, 29           campesinato, 54-7, 310, 419
   sobre sociedade de consumo, 720                e revoluo, 441-2, 443, 444, 671
   e teoria econmica, 363, 365, 367              ver tambm tradio e tradicionalismo
   sobre economia mundial, 188, 690            Camus, Albert, 316, 772
Braverman, H., 219, 232, 774, 775              Canguilhem, G., 318, 595
Brecht, Bertolt, 434, 756, 757, 758, 808       capital:
Brentano, Franz, 308                              cultural, 93, 94, 429, 433
Bridgman, P.W., 594, 647                          simblico, 94-5
Buchanan, James M., 39, 412, 767               capitalismo, 57-9
budismo, 47-9, 164, 354, 659, 760                 e austro-marxismo, 35, 58
   diversidade, 47                                e burguesia, 49, 93, 166
   e interdependncia, 49                         e teoria do colapso, 662
   e ativismo social, 48-9                        e colonialismo, 102-5, 198, 221
   e mudana social, 48                           e comunismo, 117-9, 358-61, 703
   e virtudes sociais, 48                         e conservadorismo, 132-4
Bukharin, Nikolai Ivanovich, 147, 446, 449,       consumidor, 485
   450, 736, 809                                  crises do, 38, 146, 157, 408, 413
Bull, Hedley, 655, 656                            e democracia, 181
Bullough, Edward, 267                             e teoria da dependncia, 187
Burckhardt, Jacob, 381, 474                       desenvolvimento do, 57-8, 202, 258-60
Burgess, Ernest, 48, 226, 467                     e teorias do desenvolvimento, 198-9
burguesia, 49-50                                  crtica ecolgica do, 226
   no bonapartismo, 46                            e crescimento econmico, 145-8
   e teoria da dependncia, 187-9                 e feminismo, 332-3
   em Lenin, 4, 419                               e sociedade industrial, 722-4
   no marxismo, 49-50, 92, 479, 670-2             como irracional, 211
   em Weber, 92, 93, 94                           em Lenin, 59-60, 187, 358, 359, 418, 419
   ver tambm aburguesamento; classe mdia        e liberalismo, 420
Burke, Edmund:                                    e libertarianismo, 425-6
   e conservadorismo, 132-4, 421, 778             monopolista, 59-60, 146, 377-8
   sobre democracia, 714, 759                     organizado, 32, 58, 60, 711-2, 733
   sobre revoluo, 215, 376                      popular, 183
Burnham, James, 669                               e protestantismo, 47, 165, 280-2, 465, 797
burocracia, 50-3, 93, 218, 667, 677, 722          de estado, 59-60, 146, 243
   antiga, 89, 90                                 sobrevivncia do, 377-80, 412, 518-9
   e sociedade civil, 52-3, 111, 112, 326,        em Trotsky, 671
       713-5, 748                                 e desemprego, 194
   e militares, 468                               e guerra, 346
                                                                      ndice de nomes e assuntos       937


    bem-estar, 58, 60, 700                                histrica, 361-4, 463, 464
    e trabalho, 773-4                                     industrial, 538-9
    ver tambm mercadoria, fetichismo da;                 e mo invisvel, 78, 239, 376
        keynesianismo; imperialismo; diviso do           e revoluo keynesiana, 77-8
        trabalho; trabalho, processo de;                  marginalista, 75-7, 79, 227-8, 241, 246-8
        laissez-faire; ciclos de longo prazo; Marx,       neoclssica, 293, 528-30
        Karl; marxismo; regulao; estado                 abordagem dos direitos de propriedade, 108
Cardoso, Fernando H., 188                                 socialista, 79, 706-10
carisma, 60-2, 235, 302, 463, 512                             ver tambm socialista, teoria econmica;
    e autoridade, 38, 60, 426-8                               socialista, clculo
    ver tambm messianismo                                anlise estratgica, 76, 79-80
Carnap, R., 432, 809                                      temas em, 78-80
    e unidade da cincia, 800-1                           bem-estar, 42-3, 78, 278, 571-2
    e crculo de Viena, 126, 238, 437-9, 314-5,           ver tambm Escola Austraca de Economia;
        317, 592, 799-802                                     escola econmica de Chicago; histria
Carr, E.H., 348, 398, 655                                     econmica; keynesianismo
Cartwright, N., 239, 319                              cincia poltica, 80-5
casamento, 62-3, 483, 556                                 e governo, 82
    ver tambm divrcio; famlia                          histria, 80-1
Cassirer, Ernst, 315, 517                                 e relaes internacionais, 83-4
casta, 63-6, 122, 207, 270-1, 355                         e liderana, 81-3
    ver tambm estratificao social                      metodologia, 81
causalidade, 4, 66-7, 197, 319, 465, 736                  e comportamento poltico, 83-4
    no austro-marxismo, 31-2                              e administrao pblica, 84-5
    em Hume, 66, 67, 126, 536                             e anlise da poltica pblica, 83-4
    e realismo, 67, 760                               cincia social, filosofia da, 127-8, 295, 319-21
    estrutural, 275                                   cincias cognitivas, 85-6
    ver tambm explicao; teleologia                     ver tambm inteligncia artificial; lingstica
centralismo democrtico, 129, 418, 441-3              cientificismo, 86-7, 128-9, 514, 595
Chambliss, W. e Mankoff, M., 149                      cinema, 87-8, 755
Chazel, F., 341                                           ver tambm cultura de massa;
Cherlin, Andrew, 223                                      comunicao de massa
Childe, V. Gordon, 28, 29, 30                         Cixous, Hlne, 436
Chodorow, Nancy, 306                                  civilizao, 88-92, 168
Chomsky, Avram Noam, 127, 239, 429, 431,                  e colonialismo, 102-6
    432, 809                                          Clapham, J.H., 365
ciclos de longo prazo, 57-9, 72-3, 146, 190           Clark, T.J., 740
    ver tambm ciclo econmico                        classe, 92-7, 270-3, 701
cidadania, 73-4, 157, 261, 424, 650, 661-2, 693           no austro-marxismo, 31-3
cidade (e civilizao), 88-92, 518, 542-3                 e casta, 63-5
cincia:                                              classe mdia, 93, 97-9
    filosofia da, 126-7, 314, 316-9, 437-9,               ampliao da, 97
        472, 593, 647-9                                   pontos de vista marxistas, 97-9
    e poltica cientfica, 583-5                          nova, 49-50, 98, 218, 220, 236, 272-3
        ver tambm planejamento social;                   proletarizao da, 1, 97-8
        revoluo cientfico-tecnolgica                  pontos de vista weberianos, 98
    sociologia da, 158, 286, 372, 743-4                   e estado de bem-estar, 260-1
    unidade da, 800-2                                     ver tambm burguesia; classe; profisses liberais
    ver tambm cincia poltica                       classe operria, 99-100
cincia econmica, 75-80, 231                             no austromarxismo, 31-3
    antecedentes, 76                                      no comunismo, 118-9, 446
    em Cambridge, 79, 147-8                               e conflito, 123
    desenvolvimentos atuais em, 79-80                     e movimento cooperativo, 485
    desenvolvimento da, 148                               e desindustrializao, 197, 201, 218
    primeiros interesses da, 76-7                         e desenvolvimento, 199-200
938   ndice de nomes e assuntos


    e educao, 233                                    e personalidade, 566-8
    e fordismo, 323-4                                  e psicologia, 110-1, 238, 622-5
    e literatura, 433, 435, 437                        social, 801
    e novos movimentos sociais, 448, 530               estmulo-e-resposta, 109-11
    e participao poltica, 99, 559, 686-7         comportamento,
    e populismo, 592                                compreenso ver hermenutica; Verstehen
    e sociedade ps-industrial, 725                 computao ver inteligncia artificial
    reduo na, 97, 723                             Comte, Auguste:
    e revoluo, 92, 260, 359, 418-9, 447, 649-50      sobre consenso, 131
    ver tambm classe; aburguesamento;                 sobre diviso do trabalho, 218, 219, 220
         explorao; proletariado; autogesto;         e evolucionismo, 291
         trabalhador; sindicalismo                     sobre sociedade industrial, 722
Claude, Inis, 347, 562                                 influncia de, 363, 317
Clausewitz, Carl von, 269, 345                         e origens da sociologia, 589, 722, 733, 734, 778
Clemente, F.E., 225, 226                               como positivista, 592, 593, 679
coero, 100-2, 131, 277, 544, 635, 771-72             sobre estrutura social, 277
    ver tambm poder; violncia; guerra             comunas, 486, 788
coerentismo, 484                                    comunicao, 112-4, 214
Cohen, Anthony, 116                                    e ao, 3, 4, 113-4, 243-4, 278, 693
Cohen, G.A., 41                                        e o corpo, 747
Cohen, Hermann, 520, 521                               e processos evolucionrios, 610
Cohen, S., 139, 151                                    global, 340
Cole, G.D.H., 35, 184, 577                             e hermenutica, 353-4
Coles, Robert, 369                                     no-verbal, 391-3
coletiva ao, ver ao coletiva                       poltica/social, 113
coletivismo, 16, 381, 516                              ver tambm discurso; interao; interacionismo
coletivo, 253, 502                                          simblico; comunicao de massa
    ver tambm ao coletiva; movimento social      comunicao de massa, 114-5, 252
    cooperativo, 119                                   e cultura, 167-8, 169
    e cultura, 24-5                                    ver tambm cinema
    e instinto, 287, 682                            comunidade, 115-7, 300, 369
    organizacional, 111-2                              estudos empricos sobre, 115, 116
    poltico, 83, 84, 93                               estudos tericos, sobre, 115-7
    ver tambm etologia; gestalt, psicologia da        ver tambm associao; grupo; sociedade
Colletti, Lucio, 205, 207, 453                      comunismo, 117-9, 358
Collingwood, R.G., 126                                 e anarquia, 13, 14, 17
Collins, Randall, 553                                  e capitalismo, 57, 117, 118, 649-50
colonialismo, 102-6, 400, 769                          colapso do, 359-61
    efeitos do, 104, 545, 643                          e colonialismo, 102, 103
    motivos do, 102-3                                  "conselho", 129, 419, 649, 688
    neocolonialismo, 104-6, 187, 199, 546              e igualdade, 373
    estilos de governo, 102-5                          e prxis, 600-2
    ver tambm imperialismo; orientalismo              primitivo, 117
competio, 106-8, 239, 702, 704                       e revoluo, 118, 443, 671-2
    monopolstica, 107                                 e socialismo, 117-8, 443
    em seleo natural, 682                         comunitarismo, 39, 162, 278, 406
    perfeita/imperfeita, 106, 107                   Condorcet, M.J.A.N.C., 362, 722
    escassez e racionamento, 106                    confiana e cooperao, 14, 15, 119-20
    ver tambm Escola Austraca de Economia;           ver tambm consenso
         clculo socialista; escola econmica de    conflito, 120-3
         Chicago; conflito; sociedade de consumo;      canalizao de, 123
         funo empresarial                            e competio, 121
comportamentalismo, 10, 108-11, 452, 476, 514          e interesses, 395
    e natureza humana, 517                             entre geraes, 487
    e lingstica, 430                                 fatores objetivos/subjetivos e, 122
                                                                      ndice de nomes e assuntos    939


   e mrito pessoal, 123                               conveno social, 525
   realista/no-realista, 122                          convencionalismo, 125, 126, 201, 238,
   e estrutura social, 121, 122, 277, 571, 722             314, 317, 765-6, 770, 801
   teoria do, 122, 123                                 convergncia, teoria da, 653
   ver tambm agresso; violncia                      conversacional, anlise, 139-40
conflito de, 92, 95-7, 243, 383, 442-4, 445, 479-80,       ver tambm interao; socializao
   578, 774                                            cooperao, 14-6, 119-20, 483
confucionismo, 47, 123-5, 444                              ver tambm consenso
conhecimento:                                          Cornforth, M., 118, 455
   e senso comum, 285, 286, 289-90, 644                corporativismo, 140-3, 591, 713
   na sociedade ps-industrial, 725-6                      e capitalismo, 58, 324, 408-9, 688-90
conhecimento, sociologia do, 128, 601, 607,                e pluralismo, 140, 143
   640, 739, 744-7, 805                                    no estado/sociedade, 140-2
conhecimento, teoria do, 125-9, 238, 322, 455, 456     cotidiano, 144, 533, 567, 604, 626, 745
   analtico/emprico, 125-7, 745, 765                     e decadncia, 174-6
   e induo, 125-8, 439, 648                              ver tambm sociologia do corpo
   e lgica, 438                                       Cournot, A.A., 247
   e positivismo lgico, 800-2                         crdito, unies de, 485-7
   marxista, 128-9, 448, 601                           crena:
   e ontologia, 535, 316                                   e ao, 3
   e pragmatismo, 598                                      e cultura, 164-6
   realista/idealista, 126-7                               e conhecimento, 126
   reflexionista, 453                                      e racionalismo, 465, 657
   cientfico, 126-8, 743-4                            crescimento econmico, 144-9, 365, 473
Connolly, W.E., 396                                        capitalista, 58-9, 144-7
conselho de trabalhadores, 129-31, 183-4, 218, 687         custos do, 11, 149, 497
   e conselho democrtico de, 130                          como expanso da produo, 188
conselhos democrticos ver conselho de                     e poltica nacional, 227
   trabalhadores                                           socialista, 146-8, 700
consenso, 131-2, 277                                       e desenvolvimento do Terceiro Mundo, 147-9,
   e mudana, 131, 132                                         197, 198, 477, 770
   e conflito, 120, 121, 131                           criatividade, 27, 265-6, 398, 533, 598
   no confucionismo, 125                               crime e transgresso, 149-53
   e democracia, 47, 170                                   e vcio, 799
   e hermenutica, 353-4                                   e anomia, 20
   e totalitarismo, 771-2                                  definio de crime, 149-50
   ver tambm dissenso                                     definio de transgresso, 151-2, 215, 675
conseqencialismo, 278-9, 785-6                            significados, 150
conservadorismo, 132-4                                     e poder, 150
   ver tambm capitalismo; historicismo                    papel do estado, 149, 150
consumo, sociedade de ver sociedade de consumo             ver tambm controle social; rotulao; lei;
contextualismo, 367, 517                                       polcia; punio
   ver tambm historicismo                             criminologia, 153-6
contra-revoluo ver revoluo                             e explicao, 154
contracultura, 134-7, 164, 167, 168, 370, 526, 788         e histria natural, 153-4
   e cristianismo, 134, 135                                e reforma penal, 156, 631
   e Nova Esquerda estudantil, 135, 137, 499               e penalstica, 154, 517
   ver tambm movimento estudantil; cultura da             positivista, 149, 154
        juventude                                          e preveno, 155, 632
contradio ver dialtica                                  radical, 150, 151
contrato social, 137-8                                     e reparao, 156
   e autoridade do direito, 38, 39                         pesquisa sobre vtimas, 156
   no liberalismo, 382, 421, 422, 640, 768                 vitimologia, 155
   concepes modernas de, 137-8                       crise, 156-60
controle social, 138-9, 582, 771, 799                      no cristianismo, 156
940    ndice de nomes e assuntos


     como julgamento, 157-8                        abordagens integrativas/analticas, 94
     em Marx, 157, 158, 159, 459                   e interesses, 395-7
     conceito de filosofia da histria, 157-8      como detentora do conhecimento, 94, 725-6
     como produtiva/destrutiva, 146, 158-9         em Marx, 49, 57, 92, 272-3, 364, 365, 371, 372,
     conceito de cincia social, 157-8                 445, 479
     e terrorismo, 585-6                           e nacionalismo, 509
crist, teoria social, 160-3                       paradigma de, 94-6
     e tradies catlicas, 141, 160-2             poltica de, 93-5
     desenvolvimento inicial, 160-1                e comportamento poltico, 95-7, 371
     tradies modernas, 161-3                     e doena psiquitrica, 629-30
     tradies reformadas, 161-2                   e revoluo, 66
cristianismo, 659                                  de servio, 37, 38, 98-9
     como contracultura, 134-5                     subclasse, 218, 639
     e cultura, 165-6                              ver tambm aburguesamento; elites; burguesia;
     e ecumenismo, 760-2                               intelectuais; revoluo gerencial; classe
     e messianismo, 462-3                              mdia; mobilidade social; nomenklatura;
     e modernidade, 473                                estratificao social; classe operria
     ver tambm fundamentalismo; religio       Cunningham, W.J., 361, 364
crtica, teoria ver Escola de Frankfurt
Croce, Benedetto, 205, 446, 450                 Dahl, R.A.:
cultura, 163-6                                      sobre democracia, 180, 182, 395, 575, 576
     alternativa, 300                               sobre poder, 581
     e anomia, 20, 21                           Dahrendorf, R., 93, 272, 277
     abordagens da, 163-5                       dana, 172-3
     e arte, 165-6                                  ver tambm sociologia da arte; teatro
     e civilizao, 89                          Darwin, Charles, 10, 23, 25, 174, 225,
     e classe, 93-4, 168, 233, 282-3                291, 473, 519, 716
     e geografia cultural, 337                  darwinismo ver evoluo; seleo natural;
     e gnero, 334                                  neodarwinismo; darwinismo social
     e globalizao, 340-1                      darwinismo social, 23, 174, 226, 290, 291, 412, 542
     e idias, 165                                  e conflito, 121
     massa ver cultura de massa                     e fascismo, 513
     e msica, 505                                  e seleo natural, 174, 682
     e pluralismo, 341                          Davidson, D., 3, 4, 314
     poltica, 80, 81, 170-1, 413               Davis, K. e Moore, W.E., 271
     relativismo da, 25, 164, 440, 657          Davy, Georges, 249, 251
     e religio, 659                            De Man, Henri, 323
     e ao social, 163-4                       Debreu, Gerard, 77, 540, 790
     e significado social, 163                  decadncia, 741, 174-6, 300, 450
     sociologia da, 342, 742                    deciso, teoria da, 176-8, 262, 293, 440
     subcultura, 167, 302-3                         ver tambm jogos, teoria dos; utilidade, teoria da
     variaes de, 24, 25, 26                   dedutivismo, 317-8, 319
     da juventude ver cultura da juventude      definio, 178-9, 433, 770
     ver tambm contracultura; tradio e       Della Volpe, G., 129, 207, 316, 319, 453
         tradicionalismo                        Demeny, P., 186
cultura de massa, 168-70, 325, 341, 370,        democracia, 179-82, 313
     451, 475-6, 606                                conselho de, 129-30
     e vanguarda, 474, 794                          e ditadura, 217
     e Nova Esquerda, 530                           direta, 179-80, 183, 498, 559, 683
     e ps-modernismo, 476-7                        econmica, 38, 179, 182
     ver tambm cinema                              e elites, 182
cultural, 93-5                                      e igualdade, 179
     e desenvolvimento, 199-200                     liberal, 179-82
     econmica, 92-5                                e governo da maioria, 179, 575
     e explorao, 92, 117, 295-6, 373              partido nico/do povo, 143-4
                                                                      ndice de nomes e assuntos       941


   participativa, 33, 35, 136, 182, 236, 419,            nao, classe e sociedade civil em, 187, 199, 200
       530-1, 573, 767, 720                              fatores sociais e globais, do, 197, 199, 340
   pluralista, 181-2, 575, 787                           estados, planos e mercados em, 147-9, 199-200
   teoria radical, 181                               desigualdade ver igualdade e desigualdade
   representativa, 136, 179-80, 235, 577             desindustrializao, 196, 201, 383
   ver tambm consenso; participao poltica;       despotismo oriental, 68, 90, 201-3, 258-9, 541
       social-democracia; conselho de                Dessoir, Max, 266, 269
       trabalhadores                                 Destutt de Tracy, A.-L.-C., 371
democracia industrial, 34, 35, 182-5, 532, 697       determinismo, 203-4, 398
   codeterminao, 183-5                                 biolgico, 10, 226, 233-4, 283, 290, 308, 638
   convnio coletivo, 183, 323, 688-90                        ver tambm darwinismo social
   corporativo socialismo, 34, 184, 577, 560             e causalidade, 66-7, 204
   gerenciamento participativo na, 183                   econmico, 95, 442, 446, 449, 451, 479, 649
   delegados sindicais na, 183                           geogrfico/ambiental, 337, 364, 520
   participao acionria do trabalhador na, 183         e regularidade, 203
   controle dos trabalhadores, 184                       social, 31, 32, 233, 653, 764, 735
   ver tambm autogesto; conselho de                    tecnolgico, 219, 220, 386, 480, 504
       trabalhadores                                     e ubiqidade, 204
demografia,185-7, 366                                Deutsch, Karl, 101, 347, 656, 657, 562
   e arqueologia, 29                                 Dewey, John, 248, 809
   anlise de grupos na, 185                             sobre educao, 235
   formal, 185                                           e interacionismo, 674
   matemtica, 186                                       sobre pragmatismo, 10, 129, 248, 313, 316,
   social, 185-6                                              599, 600, 682, 796
   teoria da transio, 186-7                            e sociedade, 714
   ver tambm populao                              dialtica, 193, 204-7
dependncia, teoria da, 104-5, 187-9, 198, 503           em Engels, 205-6
depresso clnica, 189-90, 630                           em Hegel, 204-5, 206, 316, 754
   ver tambm psiquiatria e doena mental                em Marx, 205, 206, 207
dependncia ver vcio                                dialtico, materialismo ver materialismo dialtico
depresso econmica, 190-1, 412, 459                 Dickinson, G. Lowes, 44
   ver tambm ciclo econmico: ciclos de             Diderot, Denis, 89, 741
   longo prazo                                       diferenciao social, 207-9, 219, 235, 693
depresso psicolgica ver depresso clnica              ver tambm elites, teoria das; etnicidade; raa;
Derrida, Jacques, 809                                         estratificao social
   sobre desconstruo, 191-4, 316, 335, 353, 416    Dilthey, Wilhelm, 144, 797, 805-6, 810
   como ps-estruturalista, 129, 316, 435, 452           e hermenutica, 351, 515, 692
desconstruo, 191-4, 434, 435, 306, 335                 e Methodenstreit, 464
   e o direito, 415                                      e Verstehen, 797
desemprego, 410-1, 194-7                             dinheiro, 209-11
   efeitos do, 194-5                                     e irracionalidade, 210-1
   oculto, 194, 196                                      como meio de troca, 209-10
   e mercado de trabalho interno, 461                    como medida e reserva de valor, 209-10,
   e lazer, 522, 533, 534                                     211, 790-1
   taxa natural de, 196, 293, 410-1                      como pagamento, 210
   permanente, 196-7                                     teoria da quantidade, 210, 245, 482-3
   voluntrio/involuntrio, 409-10, 528, 529         Direita, Nova ver Nova Direita
   ver tambm trabalho                               direito consuetudinrio, tradio do, 414-7
desenvolvimento:                                         razo comum, efeito da, 177
   e subdesenvolvimento, 54, 78-9, 197-201,          direitos, 211-4
       379, 542                                          e autoridade do estado, 39
   e civilizao, 88-90                                  e cidadania, 73
   e teorias nucleares e perifricas, 30, 187, 198       e relativismo cultural, 24
   e internacionalismo, 397                              econmicos, 607
   e teoria da modernizao, 30, 198, 186-7, 477-8       e crescimento econmico, 148
942   ndice de nomes e assuntos


    e tica, 278                                   Dumas, Georges, 252
    naturais, 15, 137, 211-4                       Dunlop, John T., 653
    e propriedade, 618                             Dupuit, L., 247
    sociais, 261, 588, 701                         Durkheim, mile, 139, 144, 428, 810
    ver tambm liberdade; justia                     sobre anomia, 20-1, 302, 524, 525, 722
direitos humanos ver direitos                         sobre conflito, 120-1
discurso, 214-5, 434, 536                             sobre consenso, 277
    e cultura, 165, 334                               sobre definio, 178-9
dissenso, 85, 106, 215-6, 650                         sobre diviso do trabalho, 8, 20, 208,
    ver tambm consenso                                   209, 219, 540, 778
dissonncia, teoria da, 6-7                           e funcionalismo, 326, 612
    trabalho, diviso do ver diviso do trabalho      sobre individualismo, 208, 382
ditadura, 216-8                                       influncia de, 249-52, 363
    constitucional, 217-8                             e Kant, 520, 521-2
    e democracia, 217-8                               e conhecimento, 745
    eletiva, 217-8                                    sobre marxismo, 446
    no nacional-socialismo, 36-7, 512                 sobre sociedade de massa, 721
    populista, 68, 217, 511                           sobre metodologia, 465
    romana, 216-7                                     sobre modernidade, 473
    tipo sovitico, 217-8, 709                        sobre moralidade, 483
    e guerra, 346                                     sobre naturalismo, 319, 516
    ver tambm bonapartismo; cesarismo;               sobre normas, 166, 524-5
        proletariado                                  como positivista, 593, 790
diviso do trabalho, 218-21, 230, 774                 sobre profisses, 612
    e alienao, 9, 218-9                             sobre punio, 633
    e anomia, 20                                      sobre religio, 166, 250, 553
    e civilizao, 90-1                               e troca social, 779
    em Durkheim, 219, 220                             e sociologia, 733, 734, 735, 737
    na sociologia funcionalista, 220                  sobre suicdio, 250-1, 524, 593, 629,
    intelectual, 38-9, 249                                722, 751, 752
    e diviso internacional do, 146, 195, 198,        sobre valores, 791-2
        219, 221-3                                 Dworkin, Ronald, 323, 563
    no marxismo, 9, 218-9, 708
    e profisses liberais, 612-4                   Eco, Umberto, 266, 683, 747
    sexual, 62, 218-9, 220, 221, 297, 332-3,       ecologia, 11, 29, 148, 225-7, 304, 526, 678, 788
        476, 773                                      e sociobiologia, 728-30
    social, 182-3, 204, 207, 219, 247, 541, 702       ver tambm ambientalismo
divrcio, 223-4, 333                               econometria, 78, 227-8, 529, 538, 293
    ver tambm casamento                           economia:
Djilas, Milovan, 523, 670                             alternativa, 58, 59
Dobb, Maurice, 79, 231, 708                           processos evolucionrios na, 609-10, 682, 702
doena mental ver psiquiatria e doena mental         internacional, 197, 198-200, 221-2, 325, 340,
doena, 456-58, 677, 678                                  378-9, 712
Dohm, Christian Wilhelm, 22                           socializao da, 31-2, 57-8, 445, 618, 712-3
Domar, Evsey, 147, 148, 410                           ver tambm ciclo econmico, depresso
dominao ver autoridade                                  econmica; planejamento econmico
Douglas, J., 752                                          nacional; sistema-mundo
Douglas, Mary, 677                                 economia neoclssica, 106, 199-200, 204,
Doyle, M.W., 347                                      228-30, 240, 278
Drever, J., 393                                       proposies bsicas, 229
Droysen, Johann Gustav, 797                           e consumo, 719-20
dualismo (e teoria da modernizao), 187-8,           crtica, 77
    197, 198, 238                                     e explorao, 295
Dubos, Ren, 290                                      e crescimento, 187
Duhem, Pierre, 314, 315, 317, 472                     e keynesianismo, 77, 209, 408-11, 459
                                                                        ndice de nomes e assuntos       943


    e sistema de mercado, 228, 459                         sobre dialtica, 205, 206, 207
    e preferncias, 342                                    e marxismo, 312, 445
    e papel do dinheiro, 209-11                            e materialismo, 319, 453, 454, 479
    e teoria do valor, 75-7, 228                           e autogesto, 35
    e estado de bem-estar, 42, 43, 635                     sobre estrutura social, 174, 202
    ver tambm Escola Austraca de Economia;               e economia socialista, 706
         escola econmica marginalista; expectativas       e sociologia da arte, 742
         racionais, hiptese das                           como utopista, 788
economia poltica, 75, 230-32, 338,                        sobre classe operria, 1
    364, 463-4, 718, 737                               epistemologia ver conhecimento, teoria do
    radical, 230-2                                     Erikson, Erik, 152, 369, 427, 566
educao e teoria social, 233-5                        Escola Austraca de Economia, 58, 59, 241-2, 278,
    no confucionismo, 105-6                                459-60, 702
    e cultura, 168-70, 507, 710                            e libertarianismo, 425
    teorias desmistificadoras, 233-4                       e o papel do dinheiro, 209
    teorias deterministas, 233                             teoria do valor, 241
    teorias voluntaristas, 234                         Escola de Frankfurt, 89, 179, 242-5, 318, 536, 765
Eichenbaum, Boris, 325                                     e arte, 740
Einstein, Albert, 465, 667, 810                            sobre capitalismo, 228, 498
Eliade, Mircea, 470                                        e emancipao, 237
Elias, Norbert, 92, 117, 310, 343, 810                     e epistemologia, 128
Eliot, T.S., 169, 794                                      e histria, 242, 243, 316
elites:                                                    influncia da, 447, 530
    e classe, 93, 235, 443-4                               e legitimidade, 413
    e colonialismo, 105, 489                               e literatura, 434
    e fascismo, 300-1                                      e cultura de massa, 169, 170, 530
    e cultura de massa e sociedade, 169, 475-7, 720        e teoria poltica, 765
    socialista, 190-1, 418, 705                            e ps-positivismo, 767
elites, teoria das, 121, 182, 235-7, 344-5,                e prxis, 602
    559, 734, 748, 778-9                                   sobre racionalidade, 642
    ver tambm aristocracia; vanguarda;                    e revoluo, 232-3
         diferenciao social; oligarquia                  sobre cientificismo, 668
Elton, W., 267                                             e psicologia social, 628
emancipao, 237, 242, 305, 353, 448                       e valores, 778
    em Habermas, 237, 321, 353                             e sociologia verstehende, 797
    das mulheres, 237, 493                                 e marxismo ocidental, 31, 242, 447,
    ver tambm liberdade                                        449-52, 530, 736
emigrao ver migrao                                     sobre classe operria, 448
emotivismo, 505                                        escola econmica de Chicago, 245-6, 425
empirismo, 237-9, 249, 313-4, 316, 337                 escola sociolgica de Chicago, 226, 248-9, 467,
    e causalidade, 66-7                                    500, 532, 733, 734
    e conhecimento, 125-7, 237, 743, 800-2                 e urbanizao, 782
    e linguagem, 321-3                                     ver tambm interacionismo simblico
    e direito, 415                                     escola sociolgica de Durkheim, 249-52,
    lgico ver Viena, crculo de,                          515, 734-5
    e cincia, 237, 317, 318, 640                      escolha:
    e estudos de suicdio, 711, 751-3                      econmica, 229
enfermidade, 677-8                                         pblica, 252-3, 254, 767
    mental ver psiquiatria e doena mental                 social, 42, 43, 79, 252, 253-5, 255-6
Engels, Friedrich, 810                                 escolha racional, teoria da, 15, 82, 178, 252, 253-4,
    sobre base e superestrutura, 40-2                      256, 422, 640, 641, 760, 780
    sobre bonapartismo, 45-6                               ver tambm jogos, teoria dos; racionalidade e
    sobre burguesia, 49                                         razo
    sobre burocracia, 51                               escrita e fala, 192-3
    sobre comunismo, 117-8                             esfera pblica, 257, 494, 678, 788
944   ndice de nomes e assuntos


estado, 257-60                                    estratgicos, estudos, 269-70
    e capitalismo, 258, 259-60                    estratificao social, 63, 375, 270-3
    e igreja, 678                                     e civilizao, 89
    e sociedade civil, 259, 260, 425, 481,            e classe, 92, 95, 723, 731
         576-7, 714-5, 718                            formas de, 270-1
    corporativismo, 140-4                             no marxismo, 272
    e definio de crime, 149, 150                    fontes de, 271-2
    dual, 142                                         em Weber, 273
    e economia, 32, 58, 59, 78, 219, 245-6,           ver tambm diferenciao social;
         408-11, 412-3, 459-60, 522, 652, 702-4            etnicidade; gnero; raa
    em teoria do gnero, 335                      estrutura social, 276-8, 538, 736
    hegemonia, 350                                    e mudana, 277
    concepo liberal de, 15, 257-8, 420-3            e interesses, 396
    e libertarianismo, 527                            como linguagem, 428
    e mercados, 259-60, 461                           no naturalismo, 127-9
    no marxismo, 46, 51-2                             e problema social, 607-8
    mnimo, 412, 425                                  e psicologia social, 626
    natureza do, 257-8                            estruturao, 92, 95, 128-9, 273-5, 320
    e pluralismo, 576-7                               e conflito, 121-2, 277-8, 502
    e poltica, 260                                   ver tambm prxis
    poder do, 257, 259                            estruturalismo, 239, 275-6, 317, 335, 353
    rejeio do ver anarquismo                        e diferena, 193
    papel no desenvolvimento, 199-200                 e parentesco, 556
    e cincia, 666-7                                  e linguagem, 389, 430-2
    sobrevivncia do, 656, 749-50                     e literatura, 434, 435
    ver tambm nao; polcia; poltica social;       e marxismo, 275-6, 447-8, 451,
         sociedade; estado de bem-estar                    480, 530, 735-6
estado de bem-estar, 100, 260-2, 409, 410, 447,       e mito, 469-70
    519, 650, 652, 701                                e naturalismo, 515
    e cidadania, 73                                   e fenomenologia, 309
    e emprego, 193-6                                  e teoria poltica, 764-5
    histria do, 261, 323, 587                        ver tambm lingstica; ps-estruturalismo;
    e senectude, 59, 684                                   sociologia
    oposio ao, 262, 483                         estudantil, movimento ver movimento estudantil
    e planejamento, 573                           tica, 278-80
    EUA, 522-3                                        e bem comum, 73
estatstica, 262-4                                    deontolgica, 278-9
    social, 262, 264-5, 584, 635                      discursiva, 279, 353, 599
    tcnicas de, 12-3, 262-4, 265                     ambiental, 280
esteretipo ver rotulao                             feminina, 279, 280
esttica, 265-9, 325                                  individualista, 382
    e antropologia, 22-3                              marxista, 280, 600-2
    e grupo de Bloomsbury, 44-5                       e metatica, 314
    e o corpo, 265-8                                  e naturalismo, 313, 514, 516
    crtica, 267-9                                    particularista, 279-80
    feminista, 442                                    e prxis, 508-9
    metodologia, 266-8                                e realismo, 239
    como filosofia da arte, 265, 269                  e relativismo, 483, 657
    e realismo, 434, 474                              baseada nos direitos, 279
    e cincia da arte, 266-7                          e utilitarismo, 278, 279, 280, 484
    e gosto, 265, 342-4                               virtudes ticas, 280
    transcendental, 475                               ver tambm moralidade; valores
    tipos de, 260                                 etnicidade, 282-4, 603
    ver tambm sociologia da arte; modernismo;        e cultura, 24, 25, 283, 467, 509
        ps-modernismo; valores                       e grupos de status, 283
                                                                     ndice de nomes e assuntos       945


    teorias primordiais, 284                             e pesquisa demogrfica, 187
    teorias situacionais, 284                            e divrcio, 224
    ver tambm etnocentrismo; raa; racismo              e estruturas de gnero, 333, 334, 495
etnocentrismo, 198, 305, 602-4, 643                      e socializao, 710-1
etnografia ver antropologia social                       ver tambm divrcio; grupo; parentesco
etnometodologia, 239, 284-6, 308, 429, 458, 797      Fanon, Franz, 305, 444, 770, 810-1
    e anlise conversacional, 140, 214               fascismo, 32, 300-2, 242-3, 469, 643, 503, 772
    ver tambm observao participante                   e ditadura, 217
etologia, 5, 24, 286-9, 517, 682                         e sociedade de massa, 720
eugenia, cincia da, 10, 26, 185, 262, 289-91, 623       e regimes populares nacionais, 511
    e inteligncia, 387-8                                e neofascismo, 301-2
    ver tambm genocdio; darwinismo social              e radicalismo, 646
Euler, Leonard, 186                                      ver tambm bonapartismo
Evans-Pritchard, E.E., 24                            Fauconnet, Paul, 249, 251
evoluo, 10, 290-1                                  favelas, 302-3
    e antropologia, 22, 26, 469                          ver tambm urbanismo
    e comportamento, 286-8                           Fayol, Henri, 111
    e desenvolvimento, 290, 291                      Febvre, Lucien, 17, 18, 252, 363
    e economia ver economia, processos               Fechner, Gustav Theodor, 266
        evolucionrios na economia                   federalismo, 16, 303-4
    e pr-histria, 27, 28, 29                           ver tambm regionalismo
    e progresso, 23, 24, 25, 250, 251, 290,          Fein, H., 335, 336
        291, 611, 614, 694                           feminismo, 304-7
    social, ver processos evolucionrios na              e antropologia, 22, 23
        sociedade                                        e conflito, 123
    ver tambm seleo natural; neodarwinismo;           e desenvolvimento, 200
        sociobiologia                                    e diviso do trabalho, 220
existencialismo, 128, 291-3, 315, 382, 518, 527          e ecologia, 226, 304
    e alienao, 7, 8, 9, 292                            igualdade e diferena, 305, 306
    e hermenutica, 351, 354                             e famlia, 298, 299
    e individualismo, 382                                e teoria do gnero, 332
    e fenomenologia, 128, 291, 352, 307-10               histria do, 493-4
    radical, 316                                         e lesbianismo, 304-6
    e teologia, 761                                      e literatura, 436, 437
expectativas racionais, hiptese das, 70, 227,           e casamento, 62, 63
    293-4, 410, 522                                      e Nova Esquerda, 530
explicao, 294-5, 319, 465-6, 472                       e teoria poltica, 768
    e causalidade, 66, 126, 295, 319, 736                e positivismo, 595
    e marxismo, 41, 157                                  e ps-feminismo, 307
    individualismo metodolgico, 277                     e esfera pblica, 257
    e teoria de sistemas, 692                            e racismo, 305-7
    e teleologia, 760                                    radical, 332-4
    e Verstehen, 797-8                                   e separatismo, 305-7
explorao, 210, 295-6                                   e socialismo, 306, 333
    e classe, 92, 117, 295, 296, 358, 374,               e utopismo, 788
        383, 479, 774, 773                               ver tambm movimento de mulheres
    e raa, 639, 644                                 fenomenalismo:
    de mulheres, 296, 775-6                              crtico, 647-8
Eysenck, Hans, 388, 566, 567, 568                        ontolgico, 592-3, 595
                                                     fenomenologia, 128, 144, 307-10, 458,
fabianismo ver socialismo fabiano                        652, 674, 752
fala (e escrita), 192-3                                  crtica, 316
famlia, 297-300                                         e transgresso, 151-2
    mudanas em, 297-9, 590                              abordagem eidtica, 308
    no confucionismo, 124, 125                           e existencialismo, 128, 291, 307, 309
946    ndice de nomes e assuntos


    e hermenutica, 351                                      sobre civilizao, 89, 163
    como individualista, 309                                 e feminismo, 334
    e lgica, 126, 315                                       sobre a natureza humana, 5, 372, 427, 518
    e categorias transcendentais, 308-9                      sobre moralidade, 483
Ferguson, Adam, 89, 219, 718                                 sobre personalidade, 566-7
feudalismo, 202, 271, 310-2, 460, 461, 479                   sobre suicdio, 752
    ver tambm campesinato; estado                           e teoria da identificao, 369
Feuerbach, Ludwig, 8                                         sobre o inconsciente, 4, 5, 380-1
Feyerabend, P., 127, 238, 315, 318, 452, 595, 648        Friedman, David, 425
Figgis, John Neville, 577, 714                           Friedman, Milton:
filosofia, 312-7                                             e ciclo econmico, 70, 191
    da histria ver historicismo; histria; teleologia       e escola econmica de Chicago, 196, 246,
    da cincia, 126-7, 314, 317-9, 438, 472,                     411, 412, 482
        592-3, 647-9, 801                                    como neoliberal, 526, 613
    cincia como, 205, 295                               Frisch, Ragner, 227
    da cincia social, 126-7, 295, 319, 518              Fromm, Erich, 242, 243, 519, 811
filosofia da linguagem, 321-3, 647                       Fry, Roger, 44
    e empirismo, 126, 237, 238, 317, 438                 funo empresarial, 50, 51, 59, 239-41,
    e falcia lingstica, 536                               539, 702-3, 712
    e anlise da linguagem comum, 315                        e industrializao, 383, 477
    argumentos baseados em                                   em economia neoclssica, 57, 58, 59,
        casos paradigmticos, 446                                72, 240, 673
Firestone, Shulamit, 305, 562                                ver tambm Escola Austraca de Economia;
Fischer, Karl, 281                                               clculo socialista; competio
Fisher, Ronald, 263                                      funcionalismo, 292, 326-8, 473, 474, 682
fisicalismo, 647, 801                                        e antropologia, 24, 28, 308-9, 401
Flaubert, Gustave, 475, 476, 542                             e conservadorismo, 326
Flechtheim, Ossip, 330                                       e marxismo, 210
Ford, Henry, 323                                             e naturalismo, 514
fordismo e ps-fordismo, 146, 183, 219,                      e paz, 562
    323-4, 477, 651-52, 774                                  requisitos prvios do, 327-8
formalismo, 44, 324-6, 432-3, 474, 506                       e movimentos sociais, 498, 500-1
    lgico, 318, 437                                         e sociologia, 220, 734
Forster, E.M., 44, 45                                        estrutural, 734-6, 791-2
Foucault, Michel, 338, 741, 811                              e teoria de sistemas, 692-4, 788
    e desconstruo, 191, 335                                e valores, 791
    e discurso, 215, 334, 694                                ver tambm estruturalismo; teleologia
    e doena, 677                                        fundamentalismo, 328-30, 797
    sobre a natureza humana, 518                             cristo, 328-9
    e materialismo, 456                                      islmico, 305, 329, 399-402, 511
    e normalizao, 416                                      ver tambm revivalismo
    como ps-estruturalista, 86, 129, 316, 435, 452      Furnivall, John Sydenham, 574, 639
    sobre poder, 580                                     Furtado, Celso, 187
    sobre punio, 633, 792                              futurologia, 330-1, 604, 788
Fourier, Charles, 34, 117, 486                               ver tambm prognstico
Fox, R., 6
Francastel, Pierre, 266, 739, 740                        Gadamer, Hans-Georg, 811
    e hermenutica, 353                                     sobre desconstruo, 191, 353
Frank, Andr Gunder, 30, 188, 198, 199                      sobre hermenutica, 113, 238, 316, 320, 351-3
Freeman, C., 73                                             sobre positivismo, 515, 595
Frege, Gottlob, 314, 391, 432                            Gallbraith, J.K., 52, 232, 670, 716, 717
    e lgica, 438-9                                      Gallie, Duncan, 179
Freidson. E., 152, 613                                   Galton, Francis, 10, 263, 289, 387, 623
Freire, Paulo, 757, 763                                  Gandhi, Mohandas Karamchand
Freud, Sigmund, 619-21, 811                                 (Mahatma), 811
                                                               ndice de nomes e assuntos     947


    sobre casta, 64, 65, 355                    Godwin, William, 14, 15
    e nacionalismo, 489, 490, 491, 492          Goffman, Erving, 239, 274, 321, 370, 676
    e pacifismo, 17, 544, 564                      sobre molduras, 552
Gans, H.J., 571, 573, 783                          e interao, 140, 370, 532, 552, 676
Garfinkel, Harold, 274, 285, 321                   sobre teatro, 758
    e etnometodologia, 239, 284-6               Goldmann, Lucien, 165, 736, 740, 805
    e rotulao, 676                            Goldstone, Jack, 665, 471
Gates, Henry, 437                               Goldthorpe, J., 1, 93, 96, 98, 471, 472
Geertz, Clifford, 164, 284, 517, 683            golpe de estado, 45, 67, 341-2
Geiger, Theodor, 1                                 ver tambm revoluo
Gemeinschaft/Gesellschaft:                      Goodman, N., 128, 315
    distino entre, 116, 344-5, 537, 680,      Gorbachev, Mikhail, 217, 487, 703, 724, 750
        714, 778, 819                           Gorz, A., 196, 197, 226
gnero, 332-5                                   gosto, 342-4, 372-3, 719
    e divrcio, 223-4                              ver tambm sociologia da arte
    e educao, 233-4                           Gouldner, Alvin, 94, 780
    e feminismo, 305, 306, 332-4, 496           governo:
    e marxismo, 775, 776                           e cincia poltica, 484
    e diferenciao social, 207-9                  ver tambm estado
    estruturas e, 207, 333-4                    Gramsci, Antonio, 811-2
    teorias de, 332-3                              sobre arte, 741
    ver tambm diviso do trabalho;                sobre sociedade civil, 447, 718
        patriarcado; sexo                          sobre cultura, 164, 171
gentica, 289                                      dialtica de, 206, 368
genocdio, 10, 335-7                               sobre educao, 235
    ver tambm eugenia                             e fordismo, 323, 324
geografia humana, 337-9                            sobre hegemonia, 350, 428, 718
    cultural, 337                                  sobre conhecimento, 129, 453
    industrial, 338                                e marxismo, 447, 449, 450, 451, 530
    "nova geografia", 30, 338                      sobre orientalismo, 542
George, V. e Wilding, P., 587, 588                 sobre teoria poltica, 765
Gergen , Kenneth, 627                              sobre republicanismo, 661
Gerschenkron, A., 199, 365                         sobre prxis revolucionria, 601
gestalt, psicologia da, 339-40, 266, 623, 624      sobre histria social, 367
    ver tambm comportamentalismo                  sobre sindicatos, 688, 689
gesto ver papel social                             sobre verdade, 796
Gewirth, A., 213                                   sobre conselhos de trabalhadores, 130
Ghose, Sri Aurobindo, 355                       Grant, Duncan, 44
Gibb, Cecil, 426, 427                           Green, T.H., 212, 312
Gibbon, Edward, 542                             Greer, Germaine, 305
Gibson, J.J., 647                               Grice, Paul, 433
Giddens, A., 96, 338, 604, 798                  grupo, 344-5, 525, 625
    sobre classe, 93, 98, 471                      e identidade, 370
    e dupla hermenutica, 308                      liderana de, 427, 626
    sobre globalizao, 340-1                      primrio/secundrio, 433
    e socializao, 515, 712                       quase-grupo, 434
    e estruturao, 128, 273-4, 320                grupos de status, 94, 95, 283, 284
Gierke, Otto, 382, 577                             ver tambm associao; comunidade; interesse,
Gilligan, C., 279, 280                                  grupo de; liderana; psicologia social
Gitlin, Todd, 137                               Gubrum, Jaber F. e Holstein, James A., 299
Glass, D.V., 470, 471                           guerra, 120, 269, 345-9
globalizao, 115, 222, 340-1, 473, 793            de guerrilha ver guerrilha
Glyptis, S., 534                                   e industrialismo, 724
Gdel, Kurt, 391, 438                              e relaes internacionais, 654-5
Godelier, Maurice, 207, 275, 276                   "justa", 546
948   ndice de nomes e assuntos


   e liderana, 346                             sobre propriedade privada, 50
   e democracia liberal, 346                    e darwinismo social, 174
   ver tambm coero; pacifismo;               sobre clculo socialista, 702, 706, 708
        estratgicos, estudos                   sobre estado, 15, 426
guerrilha, 55, 275, 348, 349, 441, 491-2    Heckel, Ernst, 225
   ver tambm guerra                        hedonismo, 278
Gurvitch, Georges, 274, 345                 Hegel, G.W.F.:
Gutierrez, G., 764                              sobre ao, 3, 4
Guyau, Jean-Marie, 20, 266                      sobre esttica, 260
                                                sobre alienao, 8
Haberler, Gottfried, 69, 70                     sobre autoridade, 39
Habermas, Jrgen, 812                           sobre sociedade civil, 49, 519, 718
   sobre comunicao, 113, 114, 244, 279,       sobre dialtica, 204-5, 206, 207, 316,
       353, 452, 599                                 450, 455, 754
   sobre consenso, 792                          sobre direito e crise, 158, 159
   sobre crise, 158, 159, 413                   sobre modernidade, 473, 478
   sobre desconstruo, 191, 193                sobre necessidades, 518-9
   hermenutica profunda, 353                   sobre verdade, 795, 796
   sobre emancipao, 237, 321, 353             ver tambm idealismo
   sobre tica, 279, 599                    hegemonia, 350, 575
   sobre interesses, 396                        como dominao, 350, 379
   sobre legitimao, 39, 413                   em Gramsci, 350, 428, 718
   e Nova Esquerda, 316, 530                    e imperialismo, 350
   sobre ontologia, 536                     Heidegger, Martin, 812
   sobre positivismo, 238, 515, 595, 766        como existencialista, 291, 292, 293, 316
   e ps-modernismo, 129                        e hermenutica, 351, 352
   sobre vida pblica, 257                      influncia de, 191, 450, 567
   sobre racionalidade, 642, 734, 793           ontologia em, 129, 312, 352, 536
   sobre teoria de sistemas, 694                sobre mudana tecnolgica, 505, 723
   e marxismo ocidental, 449, 452           Heider, Fritz, 626
   e vises do mundo, 805                   Hempel, C.G., 128, 294, 315, 317, 318, 594
Hagopian, M.N., 341                             sobre causalidade, 4, 127
Halbwachs, Maurice, 249, 251, 735           hermenutica, 237, 238, 244, 350-4, 760, 805
Halliday, M.A.K., 683, 732                      como crtica, 353, 354, 640
Halsey, A.H, 234, 471                           como desconstruo, 193
Hamilton, W.D., 728, 729                        e crculo hermenutico, 351-3, 692
Hampshire, S., 127, 204, 267                    e tipos ideais, 770-1
Hanson, N.R., 127, 238, 315, 318                e literatura, 433
Harbinson, Frederick, 653                       e metodologia, 351-2, 320
Harding, Sandra, 595                            e naturalismo, 127, 319-20, 514-6, 594
Hare, R.M., 391, 484, 786, 787, 796             filosofia, 351-2
Harr, Rom, 127, 238, 315, 318, 321             e Verstehen, 797
   sobre realismo, 238                      Hermeren, Gran, 268
Harrington, James, 542                      Herdoto, 541
Harrod, Roy, 147, 148, 410                  Herz, J.H., 656
Hart, Basil Liddell, 269                    Herzlich, Claudine, 678
Hart, H. L.A., 212, 213, 415, 526, 597      Hesse, M.B., 238, 318, 472, 648
Hartmann, Heinz, 562, 566                   Hewins, W.A.S., 364
Harvey, David, 338                          Hicks, John, 42, 77, 78, 410, 539, 790
Hayek, Friedrich August von, 812            hierarquia:
   sobre autoridade, 39                         e feudalismo, 310-2
   sobre economia, 70, 241, 412, 422,           e militares, 468
       447, 460, 682                            no local de trabalho, 775
   sobre liberdade, 382, 424                Hilbert, David, 438
   como neoliberal, 526, 767                Hilferding, Rudolf, 812
                                                                        ndice de nomes e assuntos     949


    e austro-marxismo, 31, 32                              e naturalismo, 514
    sobre ciclo econmico, 58, 459                         ontologia, 535
    sobre imperialismo, 102, 377, 378, 379              Hunnicutt, B.J., 533
    sobre capitalismo monopolista, 60                   Husserl, Edmund, 158, 812, 817
    e socializao da economia, 712, 713                   e lgica, 126, 316
Hill, Christopher, 134                                     e fenomenologia, 126, 129, 292, 316, 352
hindusmo e teoria social hindu, 354-6, 544,            Hutcheon, Linda, 476
    659, 761                                            Huxley, Julian, 26, 584
    e budismo, 47, 354                                  Hyner e Roosevelt, 231
    e casta, 63-5, 207, 355                             Hyppolite, Jean, 205, 316
    e darma, 354
histria, 356-61                                        IA ver inteligncia artificial
    impacto sobre o comunismo marxista, 358-9           Ibn Khaldun, 91, 276, 277
    teoria marxista da, 32, 57, 242-3, 244, 338, 366,   idade ver senectude
        368, 371, 445, 448, 479, 480                    idealismo, 312-3, 315, 647-8
    e modernismo, 474-6                                     crtica do, 44, 45
    social, 356-7, 366-7, 506, 736                          e cultura, 163, 164, 165-6
    fontes, 356, 357, 358                                   em Hegel, 204, 205, 206, 312, 453-4
    ver tambm Annales; arqueologia e pr-histria;         e conhecimento, 125, 453
        idiogrfico, mtodo; progresso                      superidealismo, 127, 238, 318
histria econmica, 361-6, 367                          identidade, 369-71, 606, 674-5
    tradio britnica, 364                                 e o corpo, 747-8
    tradio francesa, 363                                  e comunidade, 116, 369-70
    tradio alem, 362                                     crise de, 157, 158, 159, 369
    evoluo da, 365-6                                      e nao, 507-8, 650-1
    tradio marxista, 364                                  poltica, 370, 437
    origens da, 361-2                                       e religio, 661
historicismo, 69, 128, 133, 317, 363, 367-8,                sexual, 306, 334, 438, 685, 712
    372, 514, 716, 805                                      teoria da identidade social, 392
    crtica, 319-20, 275-6                                  e valores, 164
Hitler, Adolf (e nacional-socialismo), 512, 513, 514        ver tambm rotulao
Hobbes, Thomas:                                         ideologia, 371-2, 805
    sobre a natureza humana, 5, 15                          e cinema, 88
    sobre lei, 596                                          e cultura, 115, 164, 165, 435
    e liberalismo, 422                                      em Marx, 92, 455, 462
    sobre progresso, 614                                    e mito, 469
    teoria social, 162, 137, 542                            ver tambm marxismo
    sobre estado, 15, 303, 304, 481                     idiogrfico, mtodo, 17, 19, 367, 372, 515,
Hobhouse, L.T., 503, 618, 733, 767                          567, 691, 738-9
Hobson, J.A., 70, 102, 377, 379, 503                    Ignatieff, Michael, 519
Holyoake, G.J., 678, 679                                igualdade e desigualdade, 372-5
Homans, G.C., 779                                           e classe, 93, 94, 95, 96
Horkheimer, Max:                                            complexa, 375
    sobre civilizao, 89                                   e democracia, 179
    e Escola de Frankfurt, 242, 243, 244, 316, 448          e feminismo, 305
    sobre cultura de massa,, 114, 115, 170, 530             e gnero, 332-4
    sobre racionalizao, 642                               global, 221-2
    e marxismo ocidental, 448, 451                          em sade, 678
Hubert, Henri, 251                                          de oportunidade, 233, 234-5, 372-3, 471, 768
Hull, Clark L., 109, 110, 111                               de resultado, 372-4
Hume, David:                                                papel do estado na, 245, 372
    sobre crena, 163                                       e estratificao social, 270-3
    sobre causalidade, 66, 126, 203, 535                    de bem-estar, 373-4
    sobre identidade, 369                                   ver tambm privao relativa; liberdade;
    sobre oferta de dinheiro, 482                               pobreza
950   ndice de nomes e assuntos


Illich, Ivan, 234                                          ver tambm automao; informao, teoria e
Iluminismo, 10, 353, 375-7, 477                                tecnologia da; urbanismo
     e vanguarda, 794                                  informao, teoria e tecnologia da, 71, 385-6, 561
     e conservadorismo, 132, 133                           e mudana, 58, 72-3, 324, 477, 725-7, 788
     e historiografia, 361, 362                            ver tambm inteligncia artificial
     e progresso, 516                                  Inglehart, R.F., 792
imigrao e trabalhadores imigrantes ver migrao      Innis, Harold, 115
imperialismo, 377-80, 400, 656                         instituio penal ver punio
     e capitalismo, 58, 145, 187, 188, 199,            integrao, teorias de, 122
         222, 340, 377-9                               intelectuais, 386-7
     e socialismo, 377                                     e vanguarda, 794
     ver tambm colonialismo; diviso do trabalho;         e classe, 93, 94
         diviso internacional do trabalho                 e colonialismo, 489, 491
incerteza e teoria da deciso, 176, 178,                   e cultura, 168
     255-6, 262-4, 294                                     papel na revoluo, 418, 442, 443, 444
inconsciente, 4-5, 334, 380-1, 518, 566, 619-20, 623       ver tambm Bloomsbury, grupo de; Iluminismo
individualismo, 45, 324, 381-3                         inteligncia, teste de, 387-8, 528
     e anarquia, 14, 15, 16, 382                           ver tambm cincias cognitivas
     no antigo Egito, 90, 91                           inteligncia artificial, 286, 388-91, 625, 726
     e atomismo, 381-3                                     e lgica, 390-1, 437, 439
     no pensamento social cristo, 160-1                   redes nervosas, 389
     e ao coletiva, 2                                    estudos de reconhecimento de padro, 389
     e conservadorismo, 133-4                              busca da heurstica, 390
     e cooperao, 485                                     ver tambm cincias cognitivas
     e diviso do trabalho, 207-8                      inteno:
     epistemolgico, 126, 382                              e ao, 2, 3, 4, 275
     tico, 382                                            e comportamento, 110, 149, 291
     no feudalismo, 310-2                                  e discurso, 214
     e identidade, 369-70                                  em fenomenologia, 308
     e industrializao, 383-5                             e planejamento, 572
     instrumental/expressivo, 159                          e violncia, 803-4
     e laissez-faire, 412                              interao, 286, 391-3
     e liberalismo, 381, 421, 423, 579                     anlise, 140, 392
     e teologia da libertao, 763                         e discurso, 214
     metodolgico, 229, 241, 254, 382, 516, 715            interacionismo, 393, 674-6
     poltico, 241, 382, 453                               e liderana, 427
     e propriedade, 618                                    social, 391-2, 429, 445
     e troca social, 779                                   estatstica, 393
     ver tambm libertarianismo                            tecnolgica, 504-5
indivduo, socializao do ver socializao                ver tambm conversacional, anlise
     e sociedade ver sociedade                         interacionismo simblico, 152, 392, 393-4,
industriais, relaes ver relaes industriais             500-1, 600, 674
industrial, democracia ver democracia industrial           e transgresso, 152
industrial, organizao ver organizao industrial         e teoria da identidade, 369
industrializao, 383-5                                interesse, grupo de, 395
     e colonialismo, 102-3                                 e elites, 236
     desindustrializao, 201, 383                         e hegemonia, 350
     e diviso do trabalho, 20, 220, 384                   e pluralismo, 141, 143, 181, 396
     e relaes industriais, 653-4                         e partidos polticos, 395
     e sociedade de massa, 720                             ver tambm corporativismo;
     e modernizao, 478                                   movimento social
     e nacionalismo, 510                               interesses, 252-3, 395-7, 656, 795
     e progresso, 187-8                                internacionais, relaes ver relaes internacionais
     e poltica social, 604                            internacionalismo, 340, 397-8, 654, 699, 709, 780
     sovitica, 147-8, 447, 700, 708, 749                  institucional, 398
                                                                 ndice de nomes e assuntos     951


    e oposio ao nacionalismo, 397-8                sobre conhecimento, 520, 521, 745
    no Terceiro Mundo, 769-70                        ontologia, 535
    e transnacionalismo, 377, 378, 379, 397          sobre paz, 564
interpretao ver hermenutica                       sobre razo, 126-7
intuicionismo, 484                                   sobre contrato social, 137
inveno, 398-9, 715                              Kautsky, Karl, 31, 419, 696
"involucrismo", 748                                  sobre imperialismo, 378-9
islamismo, 223, 399-402, 548, 659-60, 663, 724,      e revisionismo, 649, 662, 699
    760                                              e marxismo ocidental, 446, 447, 449
    e fundamentalismo, 306, 328-9, 400-1, 511     Kedourie, Elie, 509
    e messianismo, 463                            Kelsen, Hans, 32, 596
    xiismo, 400, 401-2, 463                       Kennick, W.E., 267
    sufismo, 399-400                              Kerr, Clark, 653-4, 723
    sunismo, 399                                  Keynes, John Maynard, 72, 199-200, 408-9,
                                                     410, 411, 813
Jakobson, Roman, 325, 428, 430, 476
                                                     e grupo de Bloomsbury, 44-5
James, William, 109, 566, 647, 674, 812-3
                                                     e ciclo econmico, 69, 70, 71
    como pragmatista, 312, 369, 598, 599, 600
                                                     sobre econometria, 79
Janowitz, M., 385
                                                     sobre cincia econmica, 75-80, 231, 482, 528
Jaspers, Karl, 291, 292, 805, 813
                                                     sobre dinheiro, 209-10
Jaurs, Jean, 250, 564, 697
                                                     e capitalismo do bem-estar, 58
Jefferson, Thomas, 182
                                                  keynesianismo, 71, 146, 200, 232, 241, 408-11
Jellinek, Georg, 770
                                                     em sentido amplo, 408
Jensen, Arthur, 388, 624
                                                     e administrao de demanda, 45, 58, 70, 71,
Jevons, Stanley, 76, 228, 247
                                                         77-9, 194-5, 398
jogos, teoria dos, 82-3, 403-4, 422
                                                     discusses sobre o, 410-1
    e teoria cooperativa, 120, 403, 609
                                                     impacto do, 522
    e teoria da deciso, 176, 177, 293
                                                     e sistema de mercado, 408-10, 459
    e cincia econmica, 80
                                                     em sentido restrito, 409-10
    e organizao industrial, 281-2
                                                     e democracia social, 696
    e teoria no-cooperativa, 176, 177, 403
                                                     e incerteza, 598
    e normas, 525-6
                                                     teoria do desemprego, 410, 528-9, 194-5
    e sociobiologia, 728
                                                     ver tambm ps-keynesianismo; estado de
    e guerra e coero, 100, 101, 705
                                                         bem-estar
    ver tambm deciso, teoria da; escolha
                                                  Khomeini, aiatol Ruhol Musavi, 346, 401, 402
        racional, teoria da
                                                  Kierkegaard, Soren, 292, 316
Jones, Gareth Stedman, 139
                                                  King, Gregory, 361
Jouvenel, Bertrand de, 38
                                                  Kirchheimer, Otto, 243
judasmo, 404-6, 659, 760
                                                  Klaus, Georg, 40
    e messianismo, 462-3
                                                  Klineberg, O., 602
    ver tambm anti-semitismo
                                                  Klingender, Francis D., 741
Jung, Carl Gustav, 380, 566, 621, 813
                                                  Knapp, G.F., 210
justia, 137, 406-7, 413, 597
                                                  Knies, Karl, 362, 464
    e igualdade, 374
                                                  Knight, Frank H., 245, 540
    e tica, 278-80
                                                  Koffka, Kurt, 339
    na teologia da libertao, 762, 764
                                                  Kohlberg, Lawrence, 280
    e teoria da troca social, 778-80
                                                  Khler, Wolfgang, 339
Kalecki, M., 409, 598                             Kohn, M.L., 95
Kant, Immanuel:                                   Kojve. A., 205, 316
   sobre esttica, 266, 342, 343, 740-3           Kolakowski, Leszek, 453, 527, 593
   sobre sociedade civil, 717                     Kolping, Adolf, 183
   Crtica da razo pura, 351                     Kondratiev, N.D., 72, 146, 190
   sobre tica, 279-80, 484                       Kornhauser, W., 721
   sobre histria, 157                            Korsch, Karl, 129, 130, 447, 449, 450, 601, 796
   sobre inteno, 3                              Koselleck, R., 157, 158
952   ndice de nomes e assuntos


Koyr, A., 318, 595, 648                                ver tambm crime e transgresso; normas;
Kramer, S.N., 90                                            positivismo
Kripke, Saul, 128, 648, 796                         Lemert, E., 139, 152, 153, 674
Kristeva, Julia, 436, 813                           Lemkin, Raphael, 335
Kroeber, A.L., 10, 337, 557                         Lenin, V.I., 418-20, 814
Kropotkin, Piotr Alekseevitch, 16, 813                  sobre base e superestrutura, 40, 41
Kuhn, Thomas, 238, 813                                  e capitalismo, 59-60, 187, 188, 359, 418, 419
   sobre crise, 158, 159                                sobre colonialismo e imperialismo, 102, 103,
   e positivismo, 595                                       187, 378
   sobre conhecimento cientfico, 127, 315, 318,        sobre democracia, 181
       554, 640, 648, 744                               e teoria da dependncia, 187, 188
Kumar, K., 723, 725                                     e dialtica, 207
Kng, Hans, 761                                         sobre materialismo dialtico, 312, 453, 454-5
Kuper, Leo, 336, 574                                    sobre explorao, 117, 118
                                                        e marxismo, 446
Labov, William, 429, 731, 732                           sobre revoluo, 418, 419, 662, 671-2, 709-10
Lacan, Jacques:                                         e socialismo, 700
     sobre desconstruo, 191                           sobre estado, 304, 420
     como ps-estruturalista, 129, 316, 436             sobre sindicalismo, 129-30, 418, 687, 688-9
     e psicanlise, 88                                  sobre tecnologia, 504-5
Laing, Ronald, 567, 630                                 sobre classe operria, 118, 119, 418, 446-7
laissez-faire, 15, 146, 257, 348, 412-3, 460, 529   leninismo, 418-20
     crtica, 364-5                                     e comunismo, 117, 118
     ver tambm competio; economia neoclssica;       e partido, 418, 420, 645-6
         mercado                                        e proletariado, 181, 418-20
Lakatos, I., 127, 238, 318, 595, 648                    e revoluo, 419, 749, 780-1
Landis, Paul, 138                                       e stalinismo, 418-20
Lange, Oskar, 447, 702, 706, 707, 708, 709, 710     Lenski, G., 94
Lapie, Paul, 249, 251                               Lerner, Abba, 702, 706
Laski, Harold, 304, 577                             Lvi-Strauss, Claude, 175, 252, 814
Lasswell, Harold, 427, 468                              e teoria da troca, 779
Lazarsfeld, P., 13, 465, 594                            e parentesco, 556, 557, 558
                                                        sobre moralidade, 483
Leavis, F.R., 169, 435
                                                        sobre mito, 470
Lefbvre, Franois, 316
                                                        e semitica, 683
Lefbvre, Henri:
                                                        e estruturalismo, 239, 316, 275-6, 736
     e dialtica, 207
                                                    Levine, Lawrence W., 343
     sobre urbanismo, 92
                                                    Lvy-Bruhl, Lucien, 252, 440, 466, 745
legitimidade, 413-4, 582, 587                       Lewin, Kurt, 112, 626
lei, 414-8                                          Lewis, D., 525
     autoridade da, 39                              Lewis, G.C., 424
     e cidadania, 157                               Lewis, O., 302
     e civilizao, 90                              Lewis, W. Arthur, 79, 148
     e colonialismo, 104, 489                       liberalismo, 420-1
     e crime, 149                                       e capitalismo, 421
     movimento de estudos crticos da, 415-7            centrista, 766-8
     e dissenso, 215                                    e conservadorismo, 132, 133, 420-1
     informal, 416                                      crtica ao, 422, 423
     natural, 134, 160-1, 317, 382, 414,                e democracia, 180, 181, 559-60
         415, 421-2, 596                                econmico, 376-7
     positivo, 414, 416-7, 596                          e gnero, 333, 334
     como profisso, 613                                histria do, 421
     pblica, 416-7                                     e individualismo, 381, 382, 421, 422, 578
     teoria pura do, 414, 596                           e esquerda, 768
     sociologia da, 32, 415-6                           e libertarianismo, 425, 426
                                                                       ndice de nomes e assuntos   953


     e vida poltica, 422                                  teorias marxistas na, 434-5
     e teoria poltica, 766                                ps-moderna, 476-7
     desenvolvimento recente do, 423-4                     como prtica social, 434
     estado e sociedade no, 15, 16, 257, 420, 421          e sociologia da arte, 740
liberdade, 424-5, 693, 766-8                           livre-arbtrio ver determinismo
     concepo anarquista de, 16                       Locke, John:
     no existencialismo, 291-3                             sobre sociedade civil, 717, 718
     histria do conceito, 90                              sobre democracia, 181
     individual/coletiva, 424-5                            sobre empirismo, 237
     negativa/positiva, 424                                sobre identidade, 369
     como direito, 212                                     e liberalismo, 383, 421-2, 425, 527
     ver tambm liberalismo; teologia da libertao;       sobre casamenoto, 62-3
         sociedade aberta                                  sobre direitos naturais, 15, 211
libertao, teologia da, 162, 690, 760-1, 762-4            e semitica, 683
     e paradigma do xodo, 764                             sobre teoria social, 137, 138
     opresso e libertao, 763                            sobre sociedade, 15, 542
     e teoria social radical, 763, 764                 Lockwood, David, 93, 98, 791
libertarianismo, 15, 16, 412, 425-6, 527, 788          lgica, 437-40
Lichtenstein, H., 369                                      absolutista, 439
liderana, 81-2, 112, 426-8, 748, 794                      e inteligncia artificial, 349, 390-1
     e autoridade, 38, 533                                 e logicismo, 314, 438
     e carisma, 60-2, 302, 426-7, 512, 535, 681            como normativa, 439-40
     e psicologia social, 607                              e fenomenologia, 126, 316
     e guerra, 704                                         relativista, 439
     ver tambm elites, teoria das                     lgico, positivismo ver Viena, crculo de
Liebknecht, Karl, 564, 696                             Lorenz, Konrad, 5, 286, 288, 517, 814
Lincoln, Abraham, 179                                  Lotka, Alfred, 186
linguagem, 428-30                                      Lowie, R.H., 10, 618
     e comportamentalismo, 111                         Lwith, Karl, 282
     e ao comunicativa, 244                          Lucas, Robert E., 70, 227, 246, 529
     e desconstruo, 192                              Luckmann, Thomas, 144, 309, 736, 746
     e empirismo, 239, 802                             Ludlow, J.M., 485
     em Gadamer, 352                                   Luhmann, Niklas, 580, 692
     e identidade, 429                                 Lukcs, Gyrgy, 368, 814
     langue (lngua) e parole (fala), 430                  sobre arte, 740, 742
     e positivismo lgico, 801-2                           sobre crise, 159
     sociologia da, 429, 731                               e dialtica, 205, 206, 319, 455
     ver tambm discurso; formalismo; lingstica;         e conhecimento, 129, 453, 745
         sociolingstica                                  sobre literatura, 434, 435
lingstica, 430-3                                         sobre marxismo, 447, 530
     diacrnica, 430-1                                     sobre ontologia, 536
     e discurso, 214-5                                     sobre prxis, 450, 601
     e etnometodologia, 286                                sobre reificao, 7, 451, 652-3
     e gramtica gerativa, 431                             sobre socialidade, 607
     e aquisio de linguagem, 432-3                       sobre verdade, 796
     estruturalista, 238-9, 275, 430-1                     e marxismo ocidental, 205, 453, 449-52
     ver tambm linguagem; sociolingstica;           Luttwak, E., 341
         estruturalismo                                Luxemburgo, Rosa, 420, 814
Linklater, A., 397                                         sobre imperialismo, 199, 377, 378, 564
Lipset, Seymour Martin, 646                                sobre revoluo, 649, 662, 672
List, Friedrich, 199, 362                                  e social-democracia, 696
literatura, 433-7                                          sobre sindicatos, 688-9
     engajada, 435                                         sobre conselhos de trabalhadores, 130
     e formalismo, 325-6                               Lyotard, Jean-Franois, 452, 760
     marginal, 436                                         sobre narrativa, 353, 368
954   ndice de nomes e assuntos


   sobre sociedade ps-industrial, 725                 sobre capitalismo, 57, 59-60, 145-6, 188,
                                                           358-9, 445, 712-3
Mabbott, J.D., 212, 213                                sobre sociedade civil, 718
Mach, Ernst, 109, 317                                  sobre civilizao, 88, 91
   e crculo de Viena, 237, 314, 515, 594, 799         sobre classe, 93, 94, 208, 272-3, 364,
Machajski, Jan Waclaw, 93, 94                              371-2, 445, 479
MacIntyre, Alasdair, 159, 279, 484, 766                sobre ao coletiva, 2
Mackie, J.L., 484                                      sobre colonialismo e imperialismo, 104, 377
MacLuhan, Marshall, 115, 340, 505                      sobre, fetichismo da mercadoria, 461-2
Madison, James, 182                                    sobre comunicao, 113
Maiakovski, Vladimir, 325, 475                         sobre comunismo, 117-8, 359, 445, 649
Maine, H.S., 364, 714                                  sobre crise, 146-7, 157, 158, 159
Maitland, F.W., 577, 714                               sobre dialtica, 205, 206
Malinowski, Bronislaw, 24, 63, 791, 814                sobre histria econmica, 364
   sobre crime e transgresso, 150                     sobre tica, 280
   e teoria da troca, 779                              sobre natureza humana, 9
   como funcionalista, 326, 469                        sobre interesses, 396, 397
Malthus, Thomas Robert, 226, 262, 464,                 sobre conhecimento, 745
   473, 589-90                                         sobre teoria do valor do trabalho, 790-1
Mann, Michael, 166, 258                                sobre materialismo, 239, 453, 454, 455, 601
Mannheim, Karl, 285, 745-6, 805, 814-5                 sobre modernidade, 473
   e elites, 169, 236                                  sobre moeda, 210-1
   e relacionismo, 367                                 sobre necessidades, 519
   e sociologia da arte, 742                           sobre naturalismo, 514
   sobre utopia, 691                                   sobre despotismo oriental, 202, 542-3
maosmo e Mao tse-tung, 305, 441-5, 448, 815           sobre populao, 589
   Revoluo Cultural, 444, 530                        sobre prxis, 600-1
   sobre dialtica, 207                                problemtica, 609
   Grande Salto para a Frente, 443-4                   sobre modos de produo, 41, 49, 230, 232,
   e revoluo, 349, 441-2                                 445, 479-81, 518
   e guerra revolucionria, 270, 442-3, 670-2          sobre proletariado, 33, 50, 56, 57, 118-9, 358-9
                                                       sobre esferas pblica/privada, 584
   e papel do partido, 441-3
                                                       sobre religio, 659
   e papel do campesinato, 56, 441, 443, 444
                                                       sobre revoluo, 118-9, 663-4, 670-1, 709
Maquiavel, Nicolau, 176, 542, 661
                                                       como realista cientfico, 28-9, 320-1
Marcuse, Herbert, 815
                                                       sobre autogesto, 33-4
   sobre civilizao, 89
                                                       e economia socialista, 706-7
   sobre cultura, 170, 451                             sobre sociedade, 31, 174, 277, 610, 694, 735-6
   sobre dialtica, 206                                e sociologia, 732-3, 736, 742
   sobre emancipao, 237                              sobre mudana tecnolgica, 504-5
   e Escola de Frankfurt, 170, 242, 316, 448, 519      sobre desemprego, 195
   influncia de, 530                                  como utopista, 9, 788
   sobre necessidades, 519                             e valores, 321, 793
marginalista, escola econmica ver                     ver tambm base e superestrutura;
   escola econmica marginalista                           burguesia; histria
Marr, David, 339                                    marxismo, 445-9
Marsh, C., 615-6                                       analtico, 296
Marsh, Peter, 6, 7                                     e autoridade, 39, 111-2
Marshall, Alfred, 77, 228, 248, 364, 815               e bonapartismo, 46, 67, 68
Marshall, T.H., 73, 261, 586                           e capitalismo, 198-9, 358-60, 397, 445,
Marx, Karl, 815                                            448-9, 657, 699
   sobre alienao, 7, 8, 9, 40-41, 117-8,             e classe, 1, 97-8, 723
       461-2, 722                                      crticas ao, 360-1, 446-7
   sobre bonapartismo, 46                              e cultura, 114-5, 165-6
   sobre burocracia, 51                                determinismo/voluntarismo, 204, 446, 764
                                                                  ndice de nomes e assuntos     955


   e trabalho domstico, 775-7                     McLenan, John, 555
   e histria econmica, 364-5                     McTaggart, J.E., 205, 312
   e teoria das elites, 235-6                      Mead, George Herbert, 633, 815-6
   e explorao 295-6                                 sobre comunicao, 113
   e ideologia, 115, 371-2                            sobre identidade, 369, 370
   e imperialismo, 377-9, 657                         como pragmatista, 10, 248, 599, 600
   e internacionalismo, 377, 378, 397-8               sobre papel social, 552-3
   e direito, 32                                      sobre interacionismo simblico, 392, 394, 674
   e teologia da libertao, 762-4                 Mead, Margaret, 816
   e mercado, 459, 460                             mediao ver ao e mediao
   e casamento, 62-3                               medicina, 456-8
   e partido, 446-7                                   e modelo mdico de vcio, 799
   e pluralismo, 576                                  e medicalizao da sociedade, 457-8, 678
   e prxis, 601                                      como profisso, 613-4
   teoria social do, 445-6, 447-8, 503-4              social, 456-8
   e socialismo, 699                               Medvedev Roy, 216
   e sociologia, 446-7, 732-3, 735-6, 741-2        Meinecke, Friedrich, 367, 368
   sovitico, 358-60, 446-8, 449                   Mendel, Gregor, 519
   e interveno do estado, 412-3                  Menger, Carl, 76, 228, 241, 247, 463, 464
   e sistema de valores, 791-3                     mensurao, 458-9, 465
   e guerra, 347                                      ver tambm estatstica social
   e riqueza, 672-3                                mente, concepo computacional da, 85-6,
   e trabalho, 773-4                                  535-6, 689
   ver tambm austro-marxismo; base e              mercado, 459-60, 788
       superestrutura; Escola de Frankfurt;           na escola econmica de Chicago, 245-6
       gnero; histria; diviso do trabalho;         no pensamento cristo, 161-2
       materialismo dialtico                          fetichismo da, mercadoria, 461-2
marxismo ocidental, 312, 316, 449-52, 701             e inevitabilidade de crises, 459
   e dialtica, 205, 206, 454-5                       diferenciao de, 609-10
   e diviso do trabalho, 219-20                      como estado final, 459
   influncia do, 735                                 equilbrio do, 58, 75-8, 91, 106-7, 229,
   e materialismo, 453-4                                   230, 240, 459, 609, 790
   e ontologia, 536                                   globalizao do, 340-1
   e prxis, 450, 600                                 como mo invisvel, 78
   sobre sociedade e estado, 257-8                    de trabalho ver trabalho, mercado de
   e marxismo sovitico, 446-9                        e marxismo, 459-60
Maslow, Abraham, 112, 567                             e Nova Direita, 526-7
materialismo, 452-4                                   como processo, 460
   estado central, 452                                ver tambm competio; laissez-faire;
   e cultura, 163, 165                                     socialismo de mercado
   dialtico, 205, 238-9, 312, 317, 319,           mercado de trabalho, 194, 460-1, 472
       453, 454-6, 479-80                             participao feminina no, 194-5, 332-3,
   teoria do duplo aspecto, 452-4                          561, 775-6
   eliminatrio, 452                                  interno, 460-1
   epistemolgico, 453                                no keynesianismo, 409
   histrico, 28, 162, 202, 242-3, 361-2,          mercadoria, fetichismo da, 8, 461-2
       453, 454, 455, 479-80, 734                     ver tambm reificao
   ontolgico, 453                                 Merleau-Ponty, Maurice, 291, 307, 309, 816
   filosfico, 453, 454, 455                       Merton, Robert, 282
   prtico, 453                                       sobre anomia, 20, 21, 711
   poderes emergentes sincrnicos, 452-3, 454         sobre transgresso, 152, 215
Mauss, Marcel, 249, 250, 251, 252, 745, 779, 815      sobre funcionalismo, 326
Mayhew, Henry, 153                                    sobre estrutura social, 277, 735
Mayo, Elton, 112, 653, 654                         messianismo, 447, 462-3
McClelland, D., 478                                   ver tambm carisma
956   ndice de nomes e assuntos


Methodenstreit, 18, 241, 363, 364, 367, 463-5, 593   modernismo, 473, 474-7
mtodo idiogrfico/nomottico ver idiogrfico,          e arte, 166, 474-6
   mtodo                                               e vanguarda, 475, 476, 794
metodologia, 465-6, 744                                 e feminismo, 306
   ver tambm explicao                                e teatro, 755-7
Metz, J.B., 762, 763                                    ver tambm funcionalismo; ps-modernismo
Michels, Roberto:                                    modernizao, teoria da, 340-1, 477-9
   sobre oligarquia, 33, 236, 536, 559, 688             e estudos comparativos, 738-9
   sobre partidos polticos, 52, 236, 748               e teoria da dependncia, 187
mdia ver comunicao de massa                          econmica, 478
migrao, 185, 186, 466-8, 473, 589-90, 639             psicolgica, 478
Milbank, John, 162, 163                                 rejeio, da, 400-1, 681
Miliband, R., 471, 576                                  sociolgica, 197, 198, 478
militares, 341, 468-9                                   e subdesenvolvimento, 197-9, 477
   e ditadura, 216, 217                                 ver tambm desenvolvimento e
   como ocupao, 469                                       subdesenvolvimento
   como profisso, 468                               modo de produo, 41, 49-50, 88-9, 445, 479-81
   como organizao, 468-9, 538                         e alienao, 7-8
   e sociedade, 469                                     asitico, 91, 542
   ver tambm guerrilha                                 e classe, 295, 479, 775
Mill, James, 182, 542                                   e desenvolvimento, 198
Mill, John Stuart:                                      e trabalho domstico, 775-7
   sobre democracia, 182, 542, 720, 764, 766            no materialismo histrico, 453, 479-80
   sobre determinismo, 203                              ver tambm capitalismo
   e historia econmica, 364, 464                    monadologia, 309
   sobre empirismo, 237, 317                         monarquia, 481-2, 540, 541, 661
   e feminismo, 304                                  Mondragon, complexo de, 486
   sobre liberdade, 424, 425                         monetarismo, 410, 482-3
   e naturalismo, 515                                   e ciclos econmicos, 68, 69, 412
   sobre ontologia, 536                                 e escola econmica de Chicago, 245
   como utilitarista, 785                            monoplio, teoria do, 613
Millar, John, 362                                    monoplio e competio, 106-7
Miller, James, 136                                   monopolista, capitalismo ver capitalismo
Millett, Kate, 305                                      monopolista
Mills, C. Wright, 169, 236, 576, 600, 734            Montesquieu, Charles de Secondat, 170, 201,
Milne, A.J.M., 212, 213                                 226, 376, 543, 741
Milton, John, 165, 421                               Moore, G.E.:
Mints, Lloyd, 245                                       e grupo de Bloomsbury, 44, 45
Mitchell, Juliet, 305, 306                              e conhecimento do senso comum, 126, 144, 466
Mitchell, Wesley, 71                                    sobre moralidade, 484
mito, 469-70                                            como realista, 126, 312, 313, 647
Mitrany, David, 563                                     como utilitarista, 484, 786
mobilidade social, 236, 270-1, 470-2, 669            Moore, H.L., 227
   e classe, 96                                      moralidade, 483-4, 657
   e educao, 233, 234-5                               e corpo, 747
modelo, 472-3                                           no confucionismo, 124
   econmico, 70, 227-8, 245, 610                       descritiva, 483
   cientfico, 317-8                                    e tica, 278, 483-4
modernidade, 450, 473-4, 640                            prescritiva, 483-4
   e comunicao, 113                                   e religio, 328, 329
   e fordismo, 324                                      ver tambm tica; justia; norma;
   e industrialismo, 724                                    direitos; valores
   e teoria de sistemas, 693-4                       Morawski, Stefan, 267, 268
   e tradio, 124-5                                 Morgan, Lewis Henry, 23, 555, 557
   ver tambm sociedade de consumo                   Morgan, Robin, 306, 495
                                                                    ndice de nomes e assuntos        957


Morgenthau, Hans, 655                                Murdock, George, 223, 297
Morris, Charles, 266, 683                            Murdock, G.P., 557
Morris, William, 698, 706, 725, 778                  Murray, Henry, 567
mortalidade, tabela de, 186                          msica, 505-6, 740
Mortimer, Raymond, 44                                Muthm, J.F., 227, 293
Mosca, Gaetano, 39, 734                              Myers, Charles A., 653
   sobre classe, 93, 94                              Myrdal, Gunnar, 89
   sobre teoria das elites, 121, 235-6,
       536, 734, 748                                 nao, 474, 507-8, 508-9, 549
Moskos, C.C., 469                                       ver tambm regionalismo; estado
movimento cooperativo, 68-72, 182, 485-7             nacional, regime popular, 510-2, 591, 769, 770
movimento de libertao colonial, 104, 378, 441,        ver tambm nacionalismo; populismo
   489-93, 500, 510                                  nacional-socialismo, 300, 512-4
   nas colnias britnicas, 489-91                      e sociedade de massa, 720-1
   nas colnias francesas, 491-3                        e raa, 22, 26, 39, 637
movimento ecolgico, 498-8, 530, 696                    ver tambm fascismo; totalitarismo
movimento estudantil, 471, 498-500, 530              nacionalismo, 508-10, 565, 748
   como crtica cultural, 499                           rabe, 548-50
   anlise funcionalista do, 498                        e arqueologia, 28
   e Nova Esquerda, 134-6                               e austro-marxismo, 32
   significao social do, 487, 498-9                   e colonialismo, 377, 489-2, 545, 769
movimento social, 68, 338, 498, 500-3                   e comunidade, 116, 508
   e interacionismo, 500                                e fascismo, 300, 301, 302
   e neomarxismo, 500                                   e islamismo, 400
   novo, 448, 496, 501-2, 530, 721, 748                 e socialismo, 700
   e mobilizao de recursos, 501                       e guerra, 348
   e ao social, 502                                nacionalizao ver socializao
   e funcionalismo estrutural, 501                   Nash, equilbrio de, 404
   ver tambm interesse, grupo de; estudantil,       Natorp, Paul, 520
       movimento; mulheres, movimento de             naturalismo, 313, 316, 321, 495-6, 514-7
movimento verde ver ecologia; ambientalismo             crtico, 127-9, 319, 514, 516-7, 537
mudana social, 503-4, 735-6                            e dialtica, 206
   e conflito, 120-3, 783                               e empirismo, 238, 453
   e dissenso, 215-6                                    tico, 313, 514, 516
   e evoluo, 277, 290, 303                            e moralidade, 483-4
   e previso, 331                                      e positivismo, 128, 514-6, 592
   e tecnologia da informao, 58                       rejeio, 44, 514-6
   e sociedade de massa, 720-1                          no teatro, 755
   e normas, 524                                     natureza humana, 517-8
   e urbanismo, 782                                     no pensamento conservador, 133-4
mudana tecnolgica, 385, 398, 445, 504-5, 774-5        em Durkheim, 20
   e ciclo econmico, 146, 147, 190                     e Iluminismo, 375-6
   e participao, 561                                  em Hobbes, 5, 15
   e classe operria, 197, 597, 725                     interpretaes humanistas, 517-8
   ver tambm desindustrializao; informao,          e linguagem, 428
       teoria e tecnologia da; inveno; revoluo      em Marx, 8, 9, 600-1
       cientfico-tecnolgica                           interpretaes cientficas da, 517
mulheres, movimento de, 334, 493-6                      e guerra, 347
   e emancipao, 237, 493                           nazismo ver nacional-socialismo
   e histria, 492, 493-4                            necessidades, 501, 518-9, 578-80
   e movimento pela paz, 564-5                          ver tambm sociedade afluente
   e racismo, 305-6                                  Nehru, Jawarharlal, 355, 489, 491, 769
   ver tambm feminismo                              neoclssica, economia ver economia neoclssica
mulheres, no emprego, 334, 97-8                      neocolonialismo ver colonialismo
Mller, Max, 738                                     neoconservadorismo, 527, 541
958   ndice de nomes e assuntos


neodarwinismo, 5, 26, 517, 519-20, 682                  sobre estado, 15, 39, 256, 412, 426, 527
neokantismo, 126-7, 129, 520-2                          sobre utopia, 788
   e ao, 3                                         Nyerere, Julius, 486, 547
   e austro marxismo, 31
   e filosofia da cincia, 314, 771                  Oakeshort, Michael, 39, 422, 767
   e teoria poltica, 593, 765                       observao participante, 24, 393, 532
neoliberalismo, 141, 143, 199-200, 526, 573, 587         ver tambm etnometodologia
neomarxismo:                                         cio, 27, 114, 170, 533-4
                                                         e desemprego, 522, 533, 534
   e teoria de classe, 96, 272
   e necessidades, 519                                   ver tambm trabalho
                                                     Ogburn, William, F., 330, 594
   e movimentos sociais, 498, 499, 500
                                                     oligarquia, 236, 534-5, 575, 688, 748
   e marxismo ocidental, 449, 451
                                                     Olson, M., 2, 253
   ver tambm Escola de Frankfurt;
                                                     Olsson, Gunnar, 338
        dependncia, teoria da
                                                     ontologia, 127, 128, 129, 312, 535-6
Neumann, Franz, 243, 721
                                                         e desconstruo, 191-3
Neurath, Otto, 126, 238, 317, 594, 647, 800, 802
                                                         dualista, 601
New Deal, 323-4, 408, 669, 522-3
                                                         empirista, 319-20
Nietzsche, F., 144, 179, 316, 372
                                                         existencialista, 129, 312, 351-2, 536
   influncia, 129, 619-0
                                                         materialista, 453
   sobre modernidade, 474
                                                         e fenomenologia, 307-8, 309
   sobre verdade, 796
                                                         positivista, 317-9, 515-6
   sobre o inconsciente, 380
                                                         realista, 237-8, 317, 453, 536, 554
   e valores, 791
                                                         cientfica, 535
Nkrumah, Kwame, 187, 546, 548, 769
                                                         estruturalista, 274-5
nomenklatura, 27, 523-4
                                                     operaes, pesquisa de, 72, 73
nomottica, abordagem, 372
                                                     operacionalismo, 594-5, 647-8
norma, 164, 165-6, 524-6
                                                     opinio, 536-7
   e expectativa, 3-4, 524, 553
                                                         ver tambm ideologia; propaganda
   aceitao conjunta, 526
                                                     Oppenheim, A.L., 294
   e lgica, 439
                                                     ordem social:
   e medicina, 457
                                                         e carisma, 61-2
   e prescrio, 525
                                                         e comunicao, 5, 113
   e socializao, 138, 233, 524, 710-1
                                                         e compromisso, 244
        ver tambm valores
                                                         e cultura, 163-4, 165
Nova Direita (New Right), 59, 526-8, 706
                                                         e diviso do trabalho, 219-20
   e anarco-capitalismo/libertarianismo, 16-7, 527
                                                         e estado, 14-5
   anticomunismo, 527-8
                                                     organizao, 537-8
   e burguesia, 50
                                                         industrial, 539-40
   e educao, 235
                                                         teoria da, 540-1
   e laissez-faire, 412
                                                         tipos de, 538
   e neoconservadorismo, 527, 541
                                                         ver tambm comportamento organizacional;
   e neoliberalismo, 526, 573, 587
                                                             grupo; partido poltico
   e racismo, 644
                                                     organizacional, comportamento
   e mobilidade social, 471
                                                         ver comportamento organizacional
   e desemprego, 195-6
                                                     orientalismo, 541-3, 738
Nova Esquerda (New Left), 231, 530-1, 646, 650
                                                     Ortega y Gasset, Jos, 292
   e anarquia, 16-7                                  otimizao, 78
   e contracultura, 134-6, 499                       Owen, Robert, 34, 182, 485, 706
   e educao, 234-5, 498
   e prxis, 600                                     pacifismo, 17, 347, 544-5
Nove, Alec, 118, 710                                    nuclear, 544, 545, 564
Novikov, L.D., 290                                      ver tambm paz, movimento pela
Nozick, Robert:                                      padro de vida, 50, 100, 471, 677, 700, 705
   sobre direitos, 43, 279, 406                      Paine, Thomas,
   sobre contrato social, 138                           sobre crise, 157
                                                                        ndice de nomes e assuntos      959


    sobre democracia, 182, 421                          particularismo, (em pesquisa social), 24, 738, 794-5
    sobre estado, 15, 718                               partido poltico, 560-1, 748
pan-africanismo, 545-8, 769                                 quadro, 560
    histria, do, 545-8                                     controle central, 418, 441-3, 523
    como ideologia, 545                                     e classe, 96, 236, 441
    movimentos, 545                                         e democracia, 181, 686-7
pan-arabismo, 400, 545, 546, 548-51                         ambiental, 11, 497
Pannekoek, Anton, 130, 689                                  "o aproveitador", 2
papel social, 551-3, 674, 794                               e grupos de interesse, 395
    ver tambm interao simblica                          em Lenin, 418, 420, 446
paradigma, 554                                              de massa, 560-1
parentesco, 24, 297-9, 555-8, 603, 690                      como organizao, 538
    teoria da aliana, 556, 557, 558                        nico, 181-2, 561
    teoria da descendncia, 555-6                           e classe trabalhadora, 99-100
    terminologias de relacionamento, 557-8              Paskins, B., 397
    e evoluo social, 555                              Passmore, John, 312
    ver tambm famlia                                  patriarcado, 54, 226, 304, 332, 561-2, 776
Pareto, Vilfredo, 77, 483, 816                              estruturas do, 333-5, 493
    sobre classe, 93, 470                               Pavlov, Ivan Petrovich, 110, 623
    e decadncia, 175                                   paz, 257-8, 562-3, 656
    e teoria das elites, 39, 93, 121, 235-6, 734, 748       ver tambm pacifismo; relaes internacionais
    sobre estrutura social, 277                         paz, movimento pela, 500, 526, 563-6
    sobre economia do bem-estar, 42, 78, 255,           Pearson, Karl, 10, 263, 314, 317, 387
        278, 707                                        Peirce, C.S.:
Park, Robert, 116, 248, 249, 394, 467, 590                  sobre comunicao, 113
Parkin, Frank, 93, 471                                      e interacionismo, 674
parlamentarismo democrtico, 51                             sobre conhecimento, 125
Parsons, Talcott, 816                                       como pragmatista, 312, 313, 599
    sobre teoria da ao, 113, 735                          sobre semitica, 599-600, 683
    sobre comunidade e cultura, 116, 164                Pelloutier, Fernand, 144, 686
    sobre conflito, 121                                 Penty, Arthur, 725
    sobre consenso, 277                                 personalidade, 566-8, 711
    sobre transgresso, 152                                 jurdica, 577
    como funcionalista, 326, 393, 682                       e interacionismo, 393, 394
    sobre sociedade industrial, 723                     personalismo, 160, 313
    sobre casamento e famlia, 63, 297                  Phillipes, Anne, 304
    e teoria da modernizao, 197, 199, 478, 693        Piaget, Jean, 624, 625, 816
    sobre dinheiro, 210                                 Pigou, A.C., 410, 482
    sobre normas e valores, 525, 791                    Pine, Frances, 298
    sobre variveis padro, 478, 794, 795               Pirenne, Henri, 50, 92
    e pluralismo, 575                                   Piscator, Erwin, 756-7
    sobre positivismo, 319                              planejamento econmico nacional, 146-7,
    sobre poder, 580                                        250, 568-71
    sobre mudana social, 504                               em economias de mercado, 58, 59, 510-1
    sobre controle social, 139                              reformas, 113, 570-1
    sobre estrutura social, 277, 693, 735                   socialista, 146-7, 199, 442, 443, 447, 459,
    sobre socializao, 711                                     569-71, 572-3, 700-1, 707-10
    sobre sociologia, 735                                   ver tambm clculo socialista; teoria
participao, 558-9, 720                                        econmica; economia; socializao
    e sociedade civil, 131, 718-9                       planejamento social, 571-4
    e movimento cooperativo, 484                            nveis e participantes, 572
    e democracia, 136, 180, 181, 559, 575                   tcnicas de, 572-3
    e democracia industrial, 34-5, 182-5, 697               tipos de, 572
    poltica, 494, 558, 559-60, 720, 767                    ver tambm estado de bem-estar
participante, observao ver etnometodologia            Plato:
960   ndice de nomes e assuntos


    sobre esttica, 265                              enfoques pragmticos, 586
    sobre conhecimento, 126, 128, 745                enfoques estruturais, 588
    sobre necessidades, 518                          ver tambm planejamento social
    e orientalismo, 541                           Pollard, Sidney, 365
    sobre poltica, 81                            Pope, Alexander, 376
Plekhanov, G.V.:                                  Poponoe, D., 63
    sobre base e superestrutura, 40               Popper, Karl, 238, 465, 648, 816
    sobre materialismo dialtico, 454, 455           sobre explicao, 318, 319, 382
pluralismo, 574-8, 718                               sobre falsificabilidade, 125, 127, 238, 315, 317
    norte-americano, 575-6                           sobre historicismo, 319, 367, 760
    e comunismo, 704                                 sobre individualismo, 382
    e corporativismo, 141, 143                       sobre conhecimento, 125, 126, 682
    cultural, 341, 477, 720                          como neoliberal, 526, 767
    e democracia, 180, 182, 788                      sobre sociedade aberta, 715-6
    poltico ingls, 577-8                           sobre positivismo, 317, 595
    e grupos de interesse, 141, 143, 180, 395        e darwinismo social, 174
    social, 15, 278, 290, 574                        sobre verdade, 796
    ver tambm interesse, grupo de                populao, 589-91
pobreza, 578-80, 587                                 influncia demogrfica, 590
    feminizao da, 223                              influncias sociais, 589-90
    e teoria da libertao, 762-4                    como ameaa/patrimnio, 26, 590
    e necessidades, 578-9, 580                       ver tambm demografia
    como subcultura, 302-3                        populao estvel, teoria da, 186
    como subsistncia, 579, 580                   populismo, 561, 591-2
    no Terceiro Mundo, 148, 578, 580                 e bonapartismo, 46
    ver tambm privao relativa; necessidades;      e cesarismo, 67-8
        estado de bem-estar                          e fascismo, 300
poder, 580-2                                         e maosmo, 442
    e autoridade, 38                                 e ps-modernismo, 476
    e classe, 93, 95, 244                         ps-estruturalismo, 129, 306, 307, 316, 317, 477
    e comunidade, 576                                e hermenutica, 351-3
    e crime, 151, 633                                e idealismo, 239
    e hegemonia, 350                                 e direito, 416
    e grupos de interesse, 395                       e literatura, 434-7
    em revoluo gerencial, 669, 670                 e cincia, 86
    e economia poltica, 231-2                    ps-industrial, sociedade ver sociedade
    e sexualidade, 685                               ps-industrial
    e troca social, 779                           ps-keynesianismo, 410, 597-8
    do estado, 17, 257, 258-9                     ps-modernidade, 474
    ver tambm coero; patriarcado; polcia      ps-modernismo, 129, 238, 306-7, 317, 341, 476-7
Poincar, Henri, 314, 318                            e vanguarda, 476, 794
Polnyi, Karl, 324, 587                              e hermenutica, 353-4
polcia, 582                                         e poltica de identidade, 370
    ver tambm crime e transgresso                  ver tambm modernismo
poltica:                                         positivismo, 31, 128, 314-5, 364, 514, 592-6
    e decadncia, 175                                crtico, 179, 318-9, 594-5
    teoria econmica, 252-3                          e histria econmica, 362-3
    ver tambm ritual poltico; terrorismo           e tipos ideais, 770-1
poltica, cincia ver cincia poltica               instrumental, 593-4
poltica, sociologia ver sociologia poltica         legal, 415, 416, 596-7
poltica, teoria ver teoria poltica                 em lingstica, 429
    enfoque funcionalista, 586-7                     lgico ver Viena, crculo de
    histria, 587                                    em filosofia da cincia, 317, 319, 472, 647
    construtos ideolgicos e tericos, 588           e teoria poltica, 764-6
poltica social, 586-9, 736                          e ps-positivismo, 595-6
                                                                    ndice de nomes e assuntos    961


    e cincia social, 319-20, 337-8, 640                na social-democracia, 694
    ver tambm criminologia, empirismo;                 no marxismo ocidental, 242, 449-52
        explicao; naturalismo                     Pronovost, Giles, 534
Poulantzas, Nicos, 92-3, 98, 272, 817               propaganda, 272, 616-8, 771
pragmatismo, 238, 243, 598-600, 794                     agitadora, 757
    norte-americano, 10, 248-9, 312, 598-600, 682       e guerra revolucionria, 349
    e conhecimento, 129                                 ver tambm opinio
    e direito, 415                                  propriedade, 618-9
prxis, 600-2, 274, 450                                 abolio da, 8, 358
    e dialtica, 243, 454, 601                          no pensamento social cristo, 160-1
    revolucionria, 601-2                               e elites, 235-6
    e teologia, 163-4, 763                              no libertarianismo, 15, 425
pr-histria, 27-30                                     e revoluo gerencial, 669-70
Prebisch, Raul, 79, 187                                 privada, 107-8, 202, 247, 461-2, 672
preconceito, 339, 467, 602-4, 626, 778                  ver tambm propriedade comum
    e etnocentrismo, 602-3, 643                     propriedade comum:
    fontes do, 604                                      no capitalismo, 58, 59, 447, 558, 618
    ver tambm etnicidade; etnocentrismo; racismo       no movimento cooperativo, 117, 484
Preobrajensky, E., 147                                  no socialismo, 35, 117-8, 569-71, 618,
presso, grupo de ver interesse, grupo de                   703, 705-6
previso, 204, 254, 319, 604-5                          ver tambm propriedade privada
    ver tambm causalidade; mensurao;             protestante, tese da tica, 47, 280-2, 465,
        estatstica social                              680, 719, 797
prisioneiro, dilema do, 2, 253, 422, 483, 524       Proudhon, Pierre Joseph, 14, 16, 34, 486
privao relativa, 197, 233, 579, 605-6             pseudocarisma, 61, 62
    e revoluo, 66                                 psicanlise, 619-22, 623-4, 628
    e movimentos sociais, 502                           e gnero, 334
    ver tambm pobreza                                  e natureza humana, 436, 518
privacidade, 257, 381, 606-7                            como modelo, 353
    ver tambm sociedade civil; esfera pblica          e mito, 469-70
problema social, 607-8                                  e socializao, 710-1
problemtica, 609                                       e suicdio, 752
profisses liberais, 612-4                              e o inconsciente, 380-1
    e classe, 93-4, 97, 218                         psicologia, 622-5
    abordagem funcionalista, 612                        e associacionismo, 622
    e intelectuais, 386                                 e behaviorismo, 110-1, 239, 622-4
    militares como, 468                                 cognitiva, 388-9, 623-4, 752-3
    abordagem monopolista, 612, 614                     de profundidade, 265-6
    e organizaes, 538                                 e eugenia/psicoletria, 623, 624
    e cincia, 583                                      funcionalista, 600
progresso, 614-6, 787                                   humanista, 566-7
    e vanguarda, 794                                    metodologia, 624-5
    e conservadorismo, 132-4                            e psicanlise, 623-5
    e industrializao, 187                             ver tambm comportamentalismo;
    no marxismo, 242-4                                      gestalt, psicologia da
    e seleo natural, 25, 174, 514                 psicologia social, 248-50, 238, 286, 339,
    rejeio da idia de, 23, 24, 25, 89-91,            488, 625-8
        277, 291, 358                                   e teoria da atribuio, 627
    ver tambm evoluo; historicismo;                  e comunicao, 391
        teleologia; utopia                              e teoria da dissonncia, 627
proletariado:                                           e problema social, 607-8
    ditadura do, 16-7, 117-9, 129, 217, 235-6,      psiquiatria e doena mental, 457, 628-31
        419, 451, 649                               punio, 631-4
    em Lenin, 418-20                                    filosofia da, 632
    em Marx, 33, 49, 117-8, 198, 358, 459, 670-1        prtica da, 632
962   ndice de nomes e assuntos


   sociologia da, 633                                      e causalidade, 66, 760
Putnam, Hilary, 126, 432, 453, 648                         crtico/transcendental, 127-9, 312, 318, 319-1,
                                                                454, 472, 536, 554, 595, 647-9, 796
quacres, 135-6, 564                                        e definio, 179
qualidade de vida, 635-6                                   e empirismo, 237-9, 453, 472
Quesnay, Franois, 361-2                                   e explicao, 294-5
Quine, W.V.O.:                                             em geografia humana, 338
   sobre behaviorismo, 111, 452                            e relaes internacionais, 655-7
   sobre conhecimento, 126, 647                            e conhecimento, 125, 648, 800
   sobre lgica, 439, 440                                  jurdico, 415
   sobre positivismo, 314, 315, 595, 640
                                                           e literatura, 434
   sobre linguagem cientfica, 238, 439, 658
                                                           no marxismo, 453, 454, 461
raa, 282-3, 547, 623, 637-9, 643                          e modernismo, 474
    e variao humana, 25                                  e naturalismo, 514, 516
    ver tambm etnicidade; eugenia;                        e ontologia, 237, 316, 453, 535-6, 554, 648
        nacional-socialismo                                perceptivo, 647-8
Rachfahl, Felix, 281                                       poltico, 39
racionalidade e razo, 640-1                               predicativo, 647
    coletiva ver escolha racional, teoria da               representativo, 648
    comunicao, 113, 501-2, 642                           cientfico, 128, 275, 320, 647-9
    e diferena, 193                                       socialista, 756
    econmica, 229, 588, 666-8                         Reckless, W., 150
    e planejamento, 571-2                              Redfield, Robert, 116, 345
    ver tambm ao e mediao; Iluminismo             reducionismo, 514
racionalismo:                                              no marxismo, 434, 454
    e esttica, 740                                    reformismo, 14, 99, 446, 649-50, 662, 699
    e relaes internacionais, 655                     regionalismo, 650-1
    e conhecimento, 125-6, 129, 554                        ver tambm federalismo
    e liberalismo, 422, 767                            regulao, 232, 651-2
    e modernismo, 473, 492                                 e ciclos econmicos, 146, 191
racionalizao, 641-2, 733, 744-6                      Reichenbach, Hans, 317, 438, 800
    industrial, 323, 641                               reificao, 308, 450, 516, 652-3
    e msica, 505-6                                        e alienao, 7
racionamento (e competio), 106                           em teoria crtica, 170, 243
racismo, 208, 289-90, 301, 467, 638, 643-5                 e eu (self), 675
    biolgico, 638, 643                                    ver tambm mercadoria, fetichismo da
    e classe, 218                                      relaes industriais, 799, 653-4
    explicaes, 644                                       e escola de relaes humanas, 112, 653
    e feminismo, 305-6                                     ver tambm comportamento organizacional
    e Nova Direita, 644                                relaes internacionais, 83, 257, 346, 654-7
    ver tambm etnicidade; etnocentrismo;                  e marxismo, 656-7
        orientalismo                                       e interesse nacional, 656
Radcliffe-Brown, A.R., 24, 277, 326, 817                   e racionalismo, 655
Radhakrishnan, Sarvapelli, 355                             e realismo, 655-7
radicalismo, 576, 645-7                                    ver tambm paz
Ramsey, F.P., 178, 796                                 relativismo, 367, 654, 657-9, 805
Rancire, Jacques, 742                                     conceitual, 657
Rapoport, Anatol, 345, 348                                 resposta conservadora ao, 133
Rapp, Rayna, 298                                           cultural, 24, 164, 440, 640
Rawls, John, 43, 439, 693, 817                             e decadncia, 175
    sobre justia, 279, 314, 407                           e desconstruo, 435
    e teoria poltica, 766, 768                            epistmico, 125, 657-9, 745
    e contrato social, 39, 137-8, 256, 423, 640, 768       e linguagem, 322, 440
razo ver racionalidade e razo                            e lgica, 439
realismo, 647-9                                            e moralidade, 483, 657
                                                                      ndice de nomes e assuntos      963


    perceptivo, 657                                       e poder poltico, 94
    e realismo, 201                                   ritual poltico, 673-4, 771
religio, 659-61                                      Robinson, Joan, 79, 232
    e comunidade, 538                                 robtica, 37
    e dissenso, 215                                   Rochdale Society of Equitable Pioneers, 485
    e escola sociolgica de Durkheim, 249-51          Roemer, J., 93, 296, 449
    e Iluminismo, 375                                 romantismo:
    e funcionalismo, 327, 659                             e arqueologia, 28
    e racismo, 643                                        e vanguarda, 794
    e ordem social, 163-4                                 e individualismo, 381
    e estruturalismo, 659-60                          Romieu, A., 67
    e tradio, 777                                   Rorty, Richard, 127, 129, 239, 452, 796
    ver tambm cristianismo; fundamentalismo;         Roscher, Wilhelm, 362, 464
        hindusmo; islamismo; judasmo; libertao,   Rosen, S., 348
        teologia da; messianismo; revivalismo;        Rostow, W.W., 365, 478
        seita; secularismo; secularizao; teologia   Roszak, Theodore, 135, 385
Renner, Karl, 31, 32, 33, 98                          Rothbard, Murray, 16, 412, 425, 527
republicanismo, 46, 646, 661-2                        rotulao, 153, 532, 674-6
    e orientalismo, 541                                   ver tambm transgresso; identidade
revisionismo, 99, 228, 446, 450, 650, 662, 696        Rousseau, Jean-Jacques, 212
    e austro-marxismo, 31, 446, 662, 699                  sobre autoridade, 39
    chins, 443                                           sobre sociedade civil, 303, 376, 542, 717
revivalismo, 663                                          sobre civilizao, 89
revoluo, 663-6                                          sobre democracia, 181, 575, 768
    causas da, 66, 92, 480, 664-5                         sobre vontade geral, 181, 559
    e comunismo, 117-8, 378                               sobre natureza humana, 5, 8
    perspectivas futuras, 664-5                           sobre necessidades, 518
    no leninismo, 418, 419                                sobre contrato social, 137
    gerencial ver revoluo gerencial                 Rowbotham, Sheila, 305, 494
    maosta, 441-2                                    Rowntree, B.S., 579
    avaliaes morais, 664                            Roy, Ram Mohan, 355
    resultados, 665                                   Royce, Josiah, 205, 312
    permanente, 419-20, 670, 780                      Rudyard, Sir B., 157
        ver tambm Trotsky, Leon; trotskismo          Runciman, W.G., 93, 605
    e radicalismo, 645                                Russell, Bertrand, 342, 697, 817
    papel do proletariado, 92, 359, 397, 459,             e grupo de Bloomsbury, 44, 45
        649, 670-2                                        sobre empirismo, 237, 313
    cientfico-tecnolgica ver revoluo                  e logicismo, 313, 314, 316, 317, 438, 439, 800
        cientfico-tecnolgica                            sobre materialismo, 454
    teoria estrutural, 665                                sobre poder, 581
    ver tambm ao coletiva; golpe de estado;        Ryle, Gilbert, 127, 204, 238
        marxismo                                          e behaviorismo, 110
revoluo cientfico-tecnolgica, 375, 666-9              e filosofia da linguagem, 315, 321, 323, 647
    ver tambm mudana tecnolgica; tecnocracia
revoluo gerencial, 669-70                           Sacks, Harvey, 140, 429
Rex, John, 638                                        Said, Edward, 541
Ricardo, David, 230, 231, 232, 362, 464, 482          Saint-Simon, C.H. de R., 117, 505, 759
    teoria do valor do trabalho, 230, 790                e histria econmica, 362
Richardson, Lewis Fry, 346, 348, 655                     e sociedade industrial, 722
Rickert, Heinrich, 372, 515, 521, 792                    como positivista, 593, 679
Riesman, David, 369, 534                              Samuelson, Paul, 42, 43, 77, 790
riqueza, 672-3                                        Santos, Theotonio dos, 188, 189
    herdada, 27, 672                                  Saraswati, Swami Dayananda, 65, 355
    e parentesco, 555-6                               Sargent, Thomas, 70, 529
    origens da, 230                                   Sartre, Jean-Paul, 425, 453, 518, 817
964   ndice de nomes e assuntos


   e engajamento, 435                                seita, 215, 679-80, 681-2
   e dialtica, 205, 206                                 ver tambm religio; revivalismo
   e existencialismo, 291, 292, 307, 316, 317, 567   seleo natural, 63, 225, 473, 520, 682
   e materialismo, 319                                   e progresso, 25, 174, 514
   e estruturalismo, 275                             self ver identidade
   e marxismo ocidental, 129, 449, 451               Sellars, W., 127, 238, 318
sade, 677-8                                         Sellin, T., 149
   definio de, 677                                 semitica, 238, 353, 599, 683-4
   e doena, 677-8                                       e discurso, 214
   promoo da, 456, 457, 458, 678                       e semiologia, 684
   ver tambm psiquiatria e doena mental                social, 684
Sauer, Carl, 337                                         e teatro, 88, 758
Saunders, P., 471                                        ver tambm comunicao; lingstica
Saussure, Ferdinand de, 210, 239, 428,               Sen, Amartya, 42
   430, 683, 817                                     senectude, 590, 684
Savage, L.J., 178, 263                               sexo, 685-6
Schegloff, Emanuel, 140                                  e comportamento, 6, 163
Scheler, Max, 745, 746, 818                              e relaes de gnero, 334, 561, 627, 685
Schelling, F.W.J. von, 266                               e casamento, 62
Schelling, T.C., 100-1, 525, 545                         identidade sexual, 306, 334, 438, 685, 712
Schillebeekx, E., 761                                    revoluo sexual, 685-6
Schlater, Richard, 618                                   ver tambm gnero
Schlick, Moritz, 126, 238, 317, 438, 594, 799-802    Sharp, G., 544
Schmitter, Philippe, 141                             Shaw, George Bernard, 705
Schmoller, Gustav von, 18, 363, 464                  Sheldon, William, 567
Schopenhauer, Arthur, 380, 451, 619-20               Shils, Edward, 61
Schumacher, Ernst Fritz, 818                         Shklovsky, Viktor, 325
Schumpeter, Joseph, 818                              significado:
   sobre burocracia, 748                                 e desconstruo, 192-3
   sobre ciclos econmicos, 57, 70, 72-3, 190            e interao social, 391-2
   sobre teoria das elites, 236, 767                     subjetivo/objetivo, 797
   sobre funo empresarial, 57, 72, 240, 672            e verificao, 313-4
   sobre capitalismo moderno, 50, 57-8, 59,              ver tambm hermenutica; semitica
        146, 377, 379                                simblico, interacionismo ver interacionismo
   sobre socializao da economia, 713, 737              simblico
   sobre riqueza, 672                                simbolismo, 517, 726,
Schur, Edwin, 151                                        ver tambm ritual poltico; semolica
Schutz, Alfred, 144, 285, 552, 771, 818              Simiand, Franois, 251, 735
   e fenomenologia, 307, 308-9, 746, 798             Simmel, Georg, 249, 450, 745, 818
Schwendinger, H. e Schwendinger, J., 149                 sobre crime, 151
Scriven, Michael, 238, 318                               sobre grupos, 345
Searle, John, 191, 433, 796                              e hermenutica, 515
secularismo, 355, 678-9                                  sobre interao, 500, 734
   ver tambm secularizao                              e Kant, 520, 521
secularizao, 679-81                                    sobre modernidade, 282, 473
   e cristianismo, 161-3                                 sobre dinheiro, 210-1
   e industrializao, 722                               sobre diferenciao social, 208, 737
   e islamismo, 400                                      e sociologia verstehende, 797
   e direito, 414                                    Simons, Henry, 245
   e seleo natural, 682                            sindicalismo, 16-7, 560, 686-8, 688-9
   ver tambm racionalizao;                            ver tambm anarco-sindicalismo; sindicatos
        processos evolucionrios na                  sindicatos, 688-90
        sociedade;                                       e burocracia, 51-2
   secularismo                                           e movimento cooperativo, 485
                                                                      ndice de nomes e assuntos      965


    e corporativismo, 141-3, 183-4, 522,              social, mudana ver mudana social
        529, 689-90                                   social, teoria ver teoria social
    e free rider ("aproveitador"), 2                  socialismo, 699-702
    e relaes industriais, 558, 653                     e anarquia, 14-6
    e cio, 533-4                                        e burguesia, 50
    no leninismo, 418, 687, 688                          e capitalismo, 57, 704
    como organizaes, 538                               e comunismo, 118-9, 443, 671, 749
    e autogesto, 34                                     e crescimento econmico, 147-8
    como movimento social, 690                           e teoria das elites, 235-6, 705
    e estado, 461                                        e igualdade, 374
    sob o socialismo, 689
                                                         e feminismo, 305-6, 332-3, 334
    ver tambm sindicalismo
                                                         e guilda, 34, 184, 559-60, 578
sistema-mundo, 187, 198-9, 340, 378-9,
                                                         e islamismo, 400
    690-2, 770
    ver tambm globalizao; trabalho, diviso do;       e justia, 406
        diviso internacional do trabalho; relaes      de mercado, 702-5, 706, 707, 708-10, 768
        internacionais                                      e mercado socialista, 462, 702
sistemas, teoria de, 29, 692-4                           "real", 63, 100, 447, 448, 530, 784
Skinner, B.F.:                                           cientfico, 312
    e behaviorismo, 109-10, 239, 315,                    de estado, 14, 35, 145, 199, 305, 474,
        517, 568, 623, 682                                    572-3, 696, 722-3, 793
    e cultura, 165                                       transio para o, 448, 526, 649, 749, 781
    e tecnologia, 504-5                                  utpico, 706-7, 788
Skinner, Quentin, 368                                    classe operria, 13-4, 397, 686-7
Small, Albion W., 248, 733                               ver tambm austromarxismo; clculo,
Smith, Adam, 219, 422                                         socialista; comunismo; socialista, teoria
    sobre civilizao, 89                                     econmica; socialismo fabiano; leninismo;
    sobre despotismo, 202                                     marxismo; social-democracia
    e histria econmica, 30, 362                     socialismo cristo, 485
    e laissez-faire, 412                              socialismo fabiano, 188, 698-9, 705
    sobre o mercado, 78, 790                          socialista, teoria econmica, 706-10
    sobre profissionais, 613                          socializao, 710-2
    sobre diferenciao social, 208                      e converso, 140
    sobre estado, 718                                    e educao, 435, 710-1
    sobre riqueza, 230                                   e gnero, 335
Smith, Michael Garfield, 574, 639                        e normas, 138, 524, 711
Smyth, W.H., 759                                         e preconceito, 604
soberania, 303                                           e religio, 660-1
    do indivduo, 16
                                                         como controle social, 138-9
    do monarca, 481
                                                         ver tambm educao e teoria social
    do povo, 46, 217, 376
                                                      socializao da economia, 712-3
    do estado, 15, 303, 656, 576-8
social, bem-estar ver bem-estar social                sociedade, 713-5
social, contrato ver contrato social                     e comunidade, 714
social, controle ver controle social                     jurdica ver corporativismo
social-democracia, 179, 694-9, 705, 768                  processos evolucionrios na, 202, 267, 446,
    e burocracia, 52, 687                                     478, 503-4, 555, 557, 610-2, 682, 693, 724
    e comunismo, 118, 702-3, 697                         e indivduo, 15, 16, 24, 31, 309, 344-5, 713
    histria, 694, 696-7                                 e informao, 385
    e keynesianismo, 696                                 aberta, 411, 422, 430-1
    e participao, 695-6                                     ver tambm liberdade
    e bem-estar social, 694                              plural, 16, 144, 375, 574-5
    e socialismo, 696-8, 699-702                         primitiva, 23
    e estado, 696                                        e estado, 14-7, 32, 257, 714, 718
social, escolha ver escolha social                       variao, 24
966   ndice de nomes e assuntos


   ver tambm sociedade afluente; sociedade civil;       poltica, 81, 141, 451, 748-9, 736
       sociedade de consumo; grupo; sociedade            e histria social, 366-7
       industrial; sociedade de massa                    estruturalista, 275-6, 735-6
sociedade afluente, 143, 324, 712-7                      ver tambm sociologia da arte; corpo,
   ver tambm sociedade de consumo;                          sociologia do; escola sociolgica de
       crescimento econmico; necessidades                   Chicago; conhecimento, sociologia do;
sociedade civil, 661, 717-9                                  sociologia da cincia
   no bonapartismo, 45-6                             sociologia comparada, 738-9
   e burocracia, 50-3, 714-5                         sociologia da arte, 266, 739-43
   e cidadania, 73-4                                     e esttica, 265, 474
   e corporativismo, 140-3                               e cinema, 87-8
   na Europa oriental, 523                               e criatividade, 740-1
   e grupos, 345, 538, 560                               metodologia, 740
   em Hegel, 49, 718                                     e teatro, 755-8
   e paz, 563-5                                      solipsismo, 126, 309, 316
   politizao, 216                                  Solow, R., 147
   e o estado, 257-60, 326, 424, 576-7, 714-5, 718   Sombart, Werner, 281, 363, 604
   como sistema de necessidades, 518-9               Sorel, Georges, 398, 413, 450, 470, 686, 818
   ver tambm pluralismo; esfera pblica             Sorokin, Pitirim:
sociedade de consumo, 719-20                             sobre classe, 95, 277, 470
   ver tambm sociedade afluente; comunicao            sobre decadncia, 176
       de massa; modernismo e ps modernismo         soviete ver conselho de trabalhadores
sociedade de massa, 168, 500-2, 720-2, 766           Spearman, Charles, 387, 623
   e alienao, 7, 369                               Spencer, Henry R., 341
   e comunidade, 116, 345, 720-1
                                                     Spencer, Herbert, 196, 818-9
   e liderana, 426-7
                                                         e evoluo, 23, 30, 610
sociedade industrial, 668, 722-4, 725
                                                         e funcionalismo, 326
   e alienao, 8, 722-4
                                                         e laissez-faire, 412
   e capitalismo, 723
                                                         sobre diferenciao social, 207-8
   modernidade e ideologia na, 473, 724
                                                         sobre estrutura social, 276-7
   origens da, 723
                                                         e sociologia, 732-3
   e guerra, 724
                                                     Spengler, Oswald, 89, 158, 277, 504
sociedade ps-industrial, 201, 340, 383,
   384-5, 669, 725-7, 788                            Sraffa, Piero, 79, 232
   abstrao e solido na, 726                       Srinivas, M.N., 64
   e presses cognitivas, 727                        Stack, Carol, 298
   e futurologia, 330                                Stalin, J.:
   e novos smbolos, 726                                 sobre base e superestrutura, 40, 480
   e recomposio do trabalho, 130, 727                  e dialtica, 207
   e vida social nos locais de trabalho, 727             sobre igualdade, 374
sociobiologia, 291, 682, 728-30, 788                     e nomenklatura, 523
   e comportamento, 111, 288, 370, 520, 730              e "socialismo num s pas", 672, 749-50, 781
   e demografia, 185                                 stalinismo, 147, 446-7, 538, 749-50
   e evoluo, 728-30                                    e leninismo, 418-20
   e natureza humana, 174, 517                           e despotismo oriental, 203
sociolingstica, 113, 428, 429, 730-2               Steedman, Carolyn, 436
   ver tambm discurso; linguagem; lingstica       Stengel, E., 753
sociologia:                                          Stephen, Sir Leslie, 44
   comparada, 250, 738-9                             Stigler, George, 246, 342
   desenvolvimento da, 246, 732-5, 747               Stirner, Max, 15, 742
   econmica, 737                                    Stolnitz, Jerome, 268
   funcionalista, 219-20, 734, 735                   Stone, Lawrence, 223, 673
   histrica, 733, 735, 739                          Stoopol, Theda, 665
   questes de, 735-7                                Stracheym, Lytton, 44, 45
   marxista, 446, 732-3, 734                         Strawson, P., 127, 204, 453, 796
                                                                     ndice de nomes e assuntos       967


subdesenvolvimento ver desenvolvimento e                 da troca ver troca social, teoria da
    subdesenvolvimento                                    do conhecimento ver conhecimento,
subrbio, 750-1                                               teoria do
suicdio, 751-3                                           ver tambm modelo; filosofia da cincia;
    e anomia, 20, 751                                         teoria poltica
    em Durkheim, 250, 251, 524, 593, 629, 722, 751   teoria poltica, 80, 82, 764-9
    ver tambm depresso clnica; psiquiatria e           e feminismo, 768-9
        doena mental                                     e liberalismo, 767-8
Sumner, W.G., 483, 524, 733                               metodologia, 764-6
superestrutura ver base e superestrutura             teoria social:
superinvestimento, teorias de, 70                         crist ver crist, teoria social
surrealismo, 473, 753-4, 757                              hindu ver hindusmo e teoria social hindu
    ver tambm sociologia da arte                    Terceiro Mundo, 769-70
Swan, T., 147, 148                                        e estudos comparativos, 738-9
Sweezy, Paul, 60, 188, 231                                e democracia, 171, 181
                                                          estudos demogrficos, 185-6
Taine, Hyppolite, 742                                     e teoria da dependncia, 187-8
Tannenbaum, F., 676                                       e crescimento econmico, 78-9, 145, 147-9
Tappan, Paul, 149                                         influncia do maosmo no, 353, 441, 442-3
Tarski, Alfred, 432, 438, 796                             e populismo, 591
Tawney, Frederick, 281, 373, 672                          e pobreza, 578, 580
Taylor, Charles, 159, 205, 382                            e mudana social, 504
Taylor, Frederick, 111, 185, 323, 324, 505,               ver tambm desenvolvimento e
    651, 653, 706, 757, 754                                   subdesenvolvimento; libertao,
teatro, 755-8                                                 teologia da; orientalismo
    da crueldade, 757                                Terman, Lewis, 387
    democratizao do, 755-6                         terrorismo, 15, 585-6, 656
    dramtico, 755, 756-7                                 ver tambm violncia
    pico, 757                                       texto:
    e naturalismo, 755                                    e leitor, 353, 434
    e neo-realismo, 758                                   e fala, 192-3, 214
    do oprimido, 757                                 Thomas W.I., 248, 467
    poltico, 756-7, 808                             Thompson, F.M.I., 139, 366
    ps-moderno, 758                                 Thoreau, Henry David, 383
    e simbolismo, 755-6                              ti ver informao, teoria e tecnologia da
    Terceiro, 759                                    Tilak, Bal Gangadhar, 355
tecnocracia, 52, 613, 758-60                         Tinbergen, Niko, 286-7
    e planejamento, 571-2                            Tinbergen, J., 227
    e movimentos sociais, 498-9                      tipo ideal, 270, 300, 320, 372, 770-1
    ver tambm burocracia; administrao, cincia         e ao, 4
        da; revoluo cientfico-tecnolgica              e autoridade, 38
tecnolgica, mudana ver mudana tecnolgica              e etnicidade, 284
Teilhard de Chardin, Pierre, 615, 819                     e teoria do parentesco, 555
teleologia, 7, 31, 274, 616, 760                          em Weber, 4, 38, 426, 521, 770, 771, 792, 798
tempo e espao:                                      Titmuss, R.M., 262, 587
    na Escola dos Annales, 18-9                      Tocqueville, Alexis de:
    no pragmatismo, 600                                   sobre liberdade, 424
teologia, 760-2                                           sobre individualismo, 381
    pluralismo, 760                                       sobre sociedade de massa, 721
    poltica, 161-3, 761, 762                             sobre modernidade, 473
    como cincia, 762                                     e pluralismo, 575
    como sociologia, 162                                  sobre estado e sociedade, 693, 714, 718
    estilos de, 761-2                                Tolman, E.C., 109, 110
    ver tambm religio; libertao, teologia da     Tolsti, Leon, 17, 564
teoria:                                              Tnnies, Ferdinand, 483, 721, 819
968   ndice de nomes e assuntos


    sobre definio, 179                                    sobre seitas, 680, 681
    distino entre Gemeinschaft e Gesellschaft,        trotskismo, 418, 710, 780-1
        116, 344-5, 538, 714                            Trotsky, Leon, 78-81, 207, 419, 819
totalitarismo, 32, 242, 300, 602, 771-2                     e revoluo permanente, 670-2, 749, 781
    e sociedade civil, 17, 718                              e sindicatos, 130, 689
    e crime, 149-50                                     Trudgill, Peter, 429
    e ditadura, 216-7                                   Turgot, A.R.J., 247, 361, 412, 722
    e genocdio, 335-7                                  Turner, Frederick Jackson, 303, 365
    e perda de autoridade, 38                           Turner, Ralph, 552
    e marxismo, 447                                     Tylor, E.B., 23
    e nacional-socialismo, 513-4
                                                        urbanismo, 226, 324, 782-5
    e classe dominante, 93, 669-70
                                                            e alienao, 7, 20
    e socialismo, 700
                                                            e civilizao, 88, 90-2
Toulmin, S.E., 127, 238, 318
                                                            e ambientalismo, 10-2
Touraine, Alain, 723, 725-6, 500, 713
                                                            e desenvolvimento industrial, 782-4
Townsend, P., 587
                                                            e industrializao, 722, 782
Toynbee, Arnold, 89, 364, 819
                                                            e migrao, 466-7
trabalhadores, conselho de ver conselho de
                                                            e qualidade de vida social, 782-3
    trabalhadores
                                                            e pases subdesenvolvidos, 785
trabalhista, movimento ver sindicatos
                                                            ver tambm favelas; subrbio
trabalho, 773-4
                                                        utilidade, princpio de
    fragmentao do, 774
                                                            ver escola econmica marginalista
    e lazer, 533, 534, 773
                                                        utilidade, teoria da, 177-8
    na sociedade ps-industrial, 36, 725-8
                                                        utilidade esperada, hiptese de, 177
    ver tambm trabalho domstico;
                                                        utilitarismo, 44, 213, 255, 375-6, 785-7
        trabalho, mercado de; revoluo
                                                            como atomstico, 381-2
        cientfico-tecnolgica
                                                            e conseqncias, 278-9, 786
trabalho, processo de, 232, 460, 774-5
                                                            e democracia, 181
    e alienao, 7-8, 41, 117-8, 218, 461-2, 722, 774
                                                            e tica, 278-9, 280, 484
    em Marx, 7-8, 9
                                                            indireto, 787
trabalho domstico, 220, 298, 333, 561, 773, 775-7
                                                            e modernidade, 473
tradio e tradicionalismo, 771, 777-8, 794
                                                            negativo, 716
    e autoridade, 38
                                                            preferncia, 253, 278-9
    no confucionismo, 124
                                                            e alcance, 787
    e dana, 172-3
                                                            e valor, 786
    no islamismo, 399
                                                            ver tambm tica; bem-estar social
    no judasmo, 404
                                                        Utitz, Emil, 266, 269
    e teoria da modernizao, 197-8
                                                        utopia, 450, 486, 615-6, 655, 657, 787-9
    e Nova Direita, 526, 527
                                                            e antiutopia, 788-9
    ver tambm cultura; campesinato
                                                            e revoluo, 302
trangresso, 138, 150-3, 215, 524-25
    definio, 151-3, 675                               valor, 790-1
    ver tambm controle social; rotulao; punio         teoria austraca, 241
Trevor-Roper, H.R., 465, 673                               troca/uso, 76, 228, 742, 790
Trivers, Robert, 728                                       teoria de, trabalho, 16, 229, 230, 790-1
troca social, teoria da, 392, 778-80                       em Marx, 31, 92, 205, 790-1
    e individualismo, 779                                  no neokantismo, 521
    e justia, 780                                         teoria subjetivista, 790
    e origens, 779                                      valores, 201, 791-3
    e uso, 779-80                                          estticos, 7, 44, 266, 740
troca, teoria da ver teoria da troca social                e comunidade, 116
Troelsch, Ernst:                                           e cultura, 164
    sobre teoria social crist, 162                        eroso de, 176
    sobre historicismo, 367                                liberdade de valores, 237, 278, 321,
    sobre tica protestante, 281-2                              597, 771, 792-3
                                                                   ndice de nomes e assuntos       969


    e funcionalismo, 792                                masculina, 332, 334
    globalizao, 793                                   e os militares, 468
    teoria marxista, 791-3                              ver tambm coero; terrorismo
    e positivismo, 792                              viso do mundo ver Weltanschauung
    como relativos, 133, 793                        vitalismo, 144, 301
    universais, 521                                 Vivekananda, Swami, 355
    teoria utilitarista, 786                        Volosinov, V.N., 215, 239, 430, 684
    ver tambm tica; moralidade; norma             voluntarismo, 137, 160, 301, 453, 516
vanguarda, 88, 268, 474-5, 758, 794                     no maosmo, 441, 442, 443, 444
van Duijn, J. J., 73                                von Neumann, John e Morgenstern, Oskar, 177,
van Fraassen, B., 239, 319                              178, 403
van Gelderen, J., 72                                vontade:
van Mises, Ludwig, 820                                  formao da, 3, 5
    e Escola Austraca de Economia, 241, 460            liberdade da, 203-4
    e funo empresarial, 240                           geral, 181, 559, 578
    e libertarianismo, 527
    e clculo socialista, 447, 571, 702, 705, 707   Waismann, Friedrich, 126, 204, 317, 320, 647
variveis padro, 478, 794-5                        Waldron, J., 213
Veblen, Thorstein, 232, 733, 819-20                 Wallas, Graham, 714
    sobre consumo conspcuo, 342, 533, 672, 720     Wallerstein, Immanuel:
    sobre tecnologia, 759                              e histria econmica, 365
    sobre riqueza, 672                                 teoria do sistema-mundo, 30, 188, 199, 340
Venturi, Robert, 476                                Walras, Leon, 76, 77, 247, 703
verdade, 795-7                                      Waltz, K.N., 346, 347
    teorias de, coerncia, 795-6, 801-2             Walzer, Michael, 159, 375, 766
    teorias de consenso, 796                        Warming, E., 225, 226
    teorias de correspondncia, 795                 Warren, Bill, 199
    e linguagem, 432                                Watson, John B., 10, 108, 109, 110, 623
    lgica, 438-9                                   Webb, C., 485
    no marxismo, 371, 418, 795                      Webb, Sidney e Beatrice, 52, 183, 304,
    teorias performticas, 796                         688, 705, 820
    e fenomenologia, 307                            Weber, Max, 820
    e positivismo, 595                                teoria da ao, 3, 4, 5, 113, 734
    e pragmatismo, 313, 599, 795, 796                 sobre autoridade, 38, 413, 541
    teoria da redundncia, 796                        sobre burguesia, 50, 94-5
    e relativismo, 338, 658-9                         sobre burocracia, 51-2, 111-2, 425,
Verstehen (compreenso), 465-6, 515, 797-8                 681, 721, 748
    e realismo crtico, 320                           sobre capitalismo, 57, 165, 280-2, 465
    e hermenutica, 351-2                             sobre carisma, 60-1, 426, 535
    e positivismo, 179, 594                           sobre civilizao, 88-9, 91
    em Weber, 4, 51, 317, 464, 797-8, 805             sobre classe, 92-4, 272-3, 664
vcio, 342, 798-9                                     sobre ao coletiva, 2
Viena, crculo de, 237, 314-5, 640, 799-802           sobre comunidade, 116
    crtica, 647                                      e sociologia comparada, 738
    influncia, 483-4, 312                            sobre cultura, 93-4, 163, 165
    e conhecimento, 125, 126                          sobre definio, 179
    e lgica, 437-9                                   sobre ditadura, 218
    e naturalismo, 514                                e histria econmica, 363, 464
    e positivismo, 592, 594                           sobre teoria das elites, 236, 748
    e verificabilidade, 126, 800-1                    sobre tipo ideal, 4, 38, 426, 521,
Viner, Jacob, 245                                          770-1, 792, 793, 798
violncia, 803-4                                      sobre sociedade industrial, 722-3, 724
    e agresso, 5-6                                   influncia de, 450
    pelo estado, 496                                  sobre interesses, 396
    e coero, 101, 257-8, 581                        sobre judasmo, 404
970   ndice de nomes e assuntos


   e Kant, 4, 520, 521                                Wilson, E.O., 517, 728, 730
   sobre marxismo, 446, 733                           Winch, Peter:
   sobre significado, 692-3                              sobre autoridade, 38
   sobre metodologia, 466                                sobre cultura, 165, 164
   sobre modernidade, 159, 474, 641                      e hermenutica, 320, 238
   sobre modernizao, 478                               e historicismo, 367
   sobre dinheiro, 210                                   e filosofia da linguagem, 323
   sobre msica, 506                                     e positivismo, 179, 515, 516
   e naturalismo, 319, 514, 516                       Windelband, Wilhelm, 249, 372, 521
   sobre normas, 524-5                                Wirth, Louis, 116, 783
   sobre poder, 581                                   Wittfogel, Karl, 201, 203
   sobre profisses, 612                              Wittgenstein, Ludwig, 820
   sobre racionalidade, 5, 113, 158, 640, 653, 778       e behaviorismo, 110-1
   sobre racionalizao, 425, 670-1, 733, 746            sobre determinismo, 204
   sobre seitas, 681, 680                                sobre empirismo, 127, 128, 237, 317
   sobre secularismo, 679                                e "semelhana de famlia", 770
   e histria social, 366                                e conhecimento, 127, 128, 801
   sobre estrutura social, 277                           e linguagem, 128, 244, 267, 320
   e sociologia, 732-3, 735, 737                         e filosofia da linguagem, 314, 315, 321,
   sobre estado, 258                                          322, 438, 554
   sobre grupos de status, 94-5, 273, 283                sobre positivismo, 179
   sobre estilizao da vida, 342                        sobre gosto, 343
   sobre valores, 521, 693, 771, 793                     sobre verdade, 796
   e sociologia verstehende, 4, 51, 464, 797-8, 805      e crculo de Viena, 800
Weitz, M., 267                                        Wolfe, Tom, 476
Wellmer, A., 3                                        Wolff, Christian, 265
Wells, H.G., 330, 788                                 Wolff, Robert Paul, 15, 39
Weltanschauung, 308, 314, 398, 646, 805-6             Wolff, S., 72
Wertheimer, Max, 339                                  Wolfgang, Marvin, 155
Westermarck, E., 63, 483                              Wollstonecraft, Mary, 237, 304
Whewell, William, 317, 318, 648                       Woolf, Leonard, 44
Whistehead, A.N., 315, 800                            Woolf, Virginia, 44, 45, 304, 305, 495
White, H.C., 610                                      Working, Elmer, 227
Whyte, F.W., 532                                      Worsley, 61, 663
Wieser, Friedrich von, 241, 248                       Wright, Q, 93, 98
Wilensky, H.L. e Lebeaux, C.N., 588
Williams, B.A.O., 119                                 Yinger, J. Milton, 134
Williams, Raymond, 116, 434                              cultura da juventude, 167-8
Willis, Paul, 234, 712                                   movimento da juventude, 167, 487-8
